Poesia

CANTA, POETA, CANTA!

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: Auto-Retrato. Original de
João de Almeida Santos. Março de 2018.
Volto a repropor:
Marzo - Milva. Arietta di Salvatore di Giacomo
Para a letra e a tradução do napolitano, ver: Março.
* Comentários ao Poema infra: 6 THOUGHTS ON “POESIA”
JAS18032018
“Ora al nuovo sole si affidano i nuovi germogli”
Virgílio.
CANTA, POETA, CANTA
Até que Ela 
Te ouça,
Nem que a palavra
Te doa,
Nem que a alma 
T’estremeça!

CANTA, POETA, CANTA
Que o teu poema 
Tem dor
Que te baste,
No amor, 
E tem cor
Que alumia
E tem sabor
A cerejas,
Que as dá
A Primavera.

SE NO CANTAR
Tu quiseres
Atingir o infinito,
Salta p’ra cima 
Dum risco,
Agarra asas 
De azul
E voa
Nesse teu céu
Até que Ela 
Te veja, 
Te pinte
Numa cereja
E murmure
O teu nome
Em silêncio
De igreja...

CANTA, POETA, CANTA
Que o teu cantar 
É um choro.
E é água 
Cristalina
Que corre
Lesta 
Em teu rio
Seminal,
Dentro de ti,
Turbilhão
Arterial
À procura de beleza
No infinito
Fatal 
De um adeus
Beijado
Pela tristeza!

CANTA, POETA, CANTA
Que contigo 
Cantarei 
A alvorada do dia.
Chora, que eu
Chorarei
Se não houver 
Alegria.
Ri, que 
Eu cantarei
Animado por teu
Riso.
E para ti 
Dançarei
Uma valsa 
De Strauss
Às portas
Do Paraíso!

CANTA, POETA, CANTA
Até que Ela 
Te ouça.
Não pares
De chorar alto,
Lá em cima, 
Planalto
Ou montanha,
Poema 
Ou um desenho,
Uma cor
Em aguarela,
Afagado
Pela dor
Mesmo que olhes
P'ra ela
Com um intenso
Ardor 
Lá de cima
Da janela...

CANTA, POETA, CANTA,
Para ti 
E para o mundo
Que o teu cantar
Enobrece
Quem ouvir 
A tua prece,
Quem sentir
O teu lamento,
Que de ser
Já tão profundo
Não o leva
Nem o vento
Pois em ti
Ele entardece.

E SE O VENTO 
O LEVAR
Vai procurá-la
A Ela,
Dobra lento 
A esquina
P’ra que o veja
Da janela. 

MAS O DIA É DE
FESTA!
Há cortinas
No poema
E o lamento 
Lá regressa
Ao poeta 
Que o cantou.
O dia já 
Não é dele
Mas de quem 
O castigou.

CANTA, POETA, CANTA,
Que um dia vai-te 
Ouvir.
Deixa, pois, que o 
Tempo passe
E a razão se esclareça.
E confia no porvir.

CHORA, POETA, CHORA 
Neste teu 
Entardecer
Aqui tão perto
Da arte
Com saudades 
De morrer...

CHORA, POETA, CHORA... 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

.

 

 

 

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6 thoughts on “Poesia

  1. 1. João de Almeida Santos, nesta poesia, deixa-se sugestionar pela gramática do cantar e do chorar (antiteticamente e expressivamente colocados na primeira e última estrofes), desta belo poema com ressonâncias poéticas pessoanas (“Ela canta, pobre ceifeira,/Julgando-se feliz talvez;/Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia/De alegre e anónima viuvez”). Porém, enquanto que a ceifeira de Pessoa canta, de forma inconsciente, a sua alegria, João de Almeida Santos baliza, conscientemente, espaçando, no corpo do poema, os motivos isotópicos do cantar e do chorar, condensados, por exemplo, nestes versos: “CANTA, POETA, CANTA/Que o teu cantar /É um choro”.
    2. É essa gramática do cantar e do chorar que perpassa semanticamente, pelo poema, arrastando consigo um jogo metafórico e antitético de felicidade/fulgor da vida vs dor/ tristeza.
    3. A centralidade do canto e do choro está, expressivamente, bem presente neste poema em que o sujeito poético intelectualiza as suas emoções e racionaliza o seu estado de espírito. A exaltação sentimental é sublimada no “fazer fazendo poesia” (“SE NO CANTAR/Tu quiseres/Atingir o infinito”; “MAS O DIA É DE/FESTA!/Há cortinas/No poema/E o lamento/Lá regressa/Ao poeta! Que o cantou”).
    4. Os elementos telúricos – com ressonâncias de Miguel Torga – pontuam graciosamente e alegremente o poema: “sabor/A cerejas, água/Cristalina). E os elementos dicotómicos entre o etéreo e o sensual – com ressonâncias de Eugénio de Andrade – “E murmure/O teu nome/Em silêncio/De igreja…vs “Em teu rio/Seminal,/Dentro de ti,/Turbilhão/Arterial) sublinham a inevitável condição humana do Poeta…
    5. Neste poema, o discurso é marcado pela emotividade e pelo lirismo, pela orquestração morfossintáctica, traduzida nas reticências, nas frases curtas de tipo exclamativo (“Beijado/Pela tristeza!”), e no uso de verbos reiteradamente no conjuntivo conotando e expressando um desejo (“Te ouça; estremeça”…) e no imperativo. É, alias, o modo imperativo que dá a circularidade ao cantar e chorar do poeta, circularidade essa sublinhada pela função apelativa da linguagem e pelo refrão a apostrofar a entidade criadora do POETA: “CANTA, POETA, CANTA; CHORA, POETA, CHORA…”
    Maria Neves Gonçalves

    • Obrigado, Prof.ra Maria Neves. Respondi no meu Facebook o seguinte:
      João De Almeida Santos. Cara Prof.ra Maria Neves, Lembrei-me hoje que estas suas preciosas análises devem ser preservadas, para não acontecer como aconteceu com as magníficas análises que Olga Santos fazia quando andava por aqui. Decidiu sair e infelizmente perdemos tudo (mas não a perdemos a ela). Digo isto porque tenho de partir para a publicação em livro dos poemas. E nem os poemas valem tanto sem as suas (de ambas) análises. E esta segue o mesmo andamento, pela riqueza e por evocar, comigo, os nossos maiores. Por evidenciar esse esforço em moldar a minha linguagem poética ao fluxo irregular e tempestuoso dos sentimentos e dos sentidos. E por evidenciar a lógica e a gramática do meu discurso poético. Certamente com a sua generosidade, mas colhendo bem o meu tormentoso processo criativo e até pessoal. Sim, de mim para mim de forma imperativa, como que a dizer “faz, canta, chora, não te deixes ir abaixo. Até tens palavras que te bastem!”. Sim, do cantar em tristeza, como choro, também se desprende, quase incompreensivelmente, felicidade, triste, mas felicidade. “A exortação ao canto como vazamento do amor”, diria uma nossa amiga que um dia há-de voltar. Que lhe direi mais? Obrigado, obrigado pela generosa atenção que sempre dispensa aos meus poemas, ainda por cima com a competência com que sempre o faz. Um abraço amigo.

  2. A poesia é canto e o canto é poesia.
    Perdoe-se a tautologia. Foi intencional.
    Belíssimo poema de JAS que se desenha em torno da (auto-) exortação ao «canto» como fórmula de vazamento do amor.
    A repetição em início de estrofe (sete vezes! E recordemos a sua simbologia: “sete” é o número mágico, o número misterioso, cabalístico, mas, também, o da perfeição! E, a letras capitulares, não deixa dúvidas ao leitor da intenção, do desejo, do poeta. Não nos escapou, também, esse jogo antitético operado na última estrofe quando o poeta converte o desejo (ou vontade) de cantar (CANTA, POETA, CANTA»), num apelo ao choro («CHORA, POETA, CHORA», imperativo duplamente repetido e que interpreto como «ação»complementar do acto de «cantar»). Não há, portanto, oposição! Muito pelo contrário. Entendo, antes, que não é despicienda esta evolução semântica (ou mudança do estado de espírito do sujeito poético), como veremos adiante.
    Na primeira estrofe, o leitor é de imediato confrontado com a razão desse seu incitamento ao «canto»: eis a via para alcançar o objeto do seu amor – uma «Ela», pronome pessoal maiusculado, a sugerir o “endeusamento” da mulher amada, e, curiosamente, sete vezes disseminado ao longo do poema (seja na forma pronominal sujeito, seja discretamente na forma verbal pronominalizada – «vai procurá- LA» , 8, v.3, – forma pronominal, essa, reiterada, no verso subsequente, para que não fiquem dúvidas – «A Ela» -, e, ainda, sob a forma de sujeito nulo subentendido no verso: «um dia [Ela] vai-te/ Ouvir.», 10, vv.10-11).
    Relevante, também, o facto de o “objecto” amado ser designado pelo sujeito lírico desta forma tão indefinida, tão vaga. Ocorre-nos (numa, perspectiva diacrónica,) o «cantar de amor» trovadoresco, no qual, o «troubadour», obedecendo a um código de conduta social e amoroso (o código da «fin’amors»), era levado a respeitar, a preservar, a identidade da sua «senhor», e apenas podia, qual vassalo, prestar-lhe a sua «vassalagem», «suspirar de amor, expressar a sua «coyta amorosa.». Sim, porque é de amor e de sofrimento amoroso que o poema trata (lexemas como «dor» – duas vezes repetido no poema -, «choro», «estremeça» -, são disso mesmo paradigmáticos).
    A questão que se coloca, entretanto é a de saber para que «canta», então, o «eu» lírico?
    Canta para que «Ela» o «[te] oiça» (1; v.2 e 6; v.2); o «[te] veja», o «[te] pinte» e lhe «murmure…».
    É um canto intenso, de quem persiste e não desiste, porquanto o poeta recorre à construção anafórica: «Até que…». Mulher distante, portanto, como a senhora palaciana a quem o trovador tecia as suas «loas de amor».
    Interessante o pormenor (ou pormaior!) que o verbo privilegiado a estabelecer a ligação entre o «eu» e o «tu/ Ela», seja o verbo «ouvir» (estrofes 1 e 10), sugerindo, em nosso entender, essa «mulher distante», a quem o trovador, num primeiro momento, apenas podia, muito discretamente, dirigir a palavra, quase sempre, sob a forma de “suspiros de amor”, e, por conseguinte, era obrigado a um certo distanciamento (fases do «fenhedor» e «precador»).
    O poeta “suplica» que o ouça; mas, não é apenas esse sentido que o «eu» pretende ativar no objeto amado. Notamos, pois, uma interessante gradação crescente na aproximação à mulher amada e que registamos: ele canta para «ser ouvido» («Ela te ouça»), para ser visto («te veja»), para ser plasmado em arte («te pinte») e, finalmente, para que possa «murmur[ar] o teu nome», paroxismo do estádio maior de aproximação, e do qual se evola, até, uma nota de erotismo.
    O verbo «murmurar», pela sua formação onomatopaica, sugere o contacto do som expelido pelos lábios com o órgão de audição do nosso destinatário: o ouvido. Mais: não é um «murmúrio» qualquer! É o acto de nomeação, a partir do qual passamos a ter “existência” para o outro. Mais, ainda, projecta-se num plano do divino, pela alusão ao «Em silêncio/ De igreja».
    A nota de erotismo prossegue e intensifica-se na alusão ao «sabor» da «cereja» (duas vezes) – fruto que, pela sua cor, formato e textura, simboliza doçura, inocência, pureza, amor, mas também sensualidade -, bem como, na referência à «água/ Cristalina/ Que corre/Lesta/ Em teu rio/ Seminal,/ Dentro de ti,»…
    No ponto de vista da Sra. Professora Maria Neves, na referência às «cerejas», ecoaria o telurismo torguiano. Certamente. Também não fui indiferente ao conto «Destinos», onde a «cereja» atua como elemento desencadeador da paixão entre dois jovens. É um amor infeliz, esse, por via da timidez do «Ele» que nunca consegue declarar-se à Natália.
    Não me parece o caso aqui. Neste poema, e apesar do sofrimento do«eu» lírico», há arrojo, há esperança, há o desejo de correr risco, de se libertar… Receciono-o nas metáforas «Salta p’ra cima/ Dum risco,/ Agarra asas/ De azul/ E voa/ Nesse teu céu». Porque é a plenitude, «o infinito» que o poeta pretende alcançar («atingir»), e no «infinito» leio a vivência plena, máxima, do amor.
    O poeta é dominado por uma certa ambivalência: alegria e tristeza; esperança, na metáfora da « alvorada do dia.», mas também quando declara: «Que um dia vai-te/ Ouvir.») e desespero, canto, riso e choro…
    O paroxismo da felicidade: o desejo de dançar uma «Uma valsa/ De Strauss /Às portas/ Do Paraíso! »
    Apesar de tudo, o sujeito poético acredita no efeito «tempo» – « ce grand sculpteur», no dizer de Marguerite Yourcenar-, na «razão», no «porvir»…
    Talvez por este turbilhão de sentimentos contraditórios que o «eu» experimenta, o seu «canto» se transmute em «choro».
    É enternecedor o apelo à [sim]empatia do leitor, na sétima estrofe, quando direciona o seu «canto» «Para ti/ E para o mundo» e reconhece o carácter nobilitante do mesmo: «Que o teu cantar/ Enobrece/ Quem ouvir/ A tua prece,/ Quem sentir/ O teu lamento,»

    Em suma, muito mais haveria a dizer. A obra poética é plurissignificativa, aberta, admite tantas leituras quantos os leitores. E é também irrepetível.
    Todavia, e sem prejuízo do que foi afirmado, parece-nos não ser descabido salientar neste poema a presença de alguns «leitmotiv» da poesia de JAS, a saber: um certo gosto pelo classicismo (patente na personificação da natureza, designadamente, no «vento», como coadjuvante do «eu» poético), o amor que anda sempre de mão dada com uma explosão de cor, de brilho, de luminosidade, tão características da expressão plástica, da pintura, arte tão ao gosto do autor.
    E ainda a temática da «janela», metáfora de abertura, de comunicação, para/ com o mundo. O mundo do amor.
    Poema que, mais uma vez, me [en]canto[u].
    «CANTA, POETA, CANTA!»

    • Cara OLGA,
      Não é fácil, nem para o autor, comentar esta sua sofisticadíssima análise. Porque corro o risco de baixar o nível altíssimo a que, com as suas palavras, levou o meu poema. Não cabe ao autor interpretar o que escreveu. Muito menos em poesia. Se quer elevar-se à universalidade não deve fixar o poema numa leitura autoral. Mas devo confessar que me surpreende esta sua capacidade de desvelar o oculto num poema. Como se da sua (do poema) verdade se tratasse. Com um rigor técnico e uma referencialidade cultural magnífica. O poema cresceu com a sua análise. E, é claro, cantarei! Mesmo que chore, cantando ou que cante, chorando. Há sempre um bom motivo para chorar com alegria. Mesmo que não seja a cantar. Obrigado, minha querida Amiga. Que saudades das suas reflexões em torno dos meus poemas. Um abraço.

      • Bem haja pelas suas palavras.
        Tem razão: não devo «colar» a minha leitura ao autor! É errado.
        «O poeta é um fingidor»: assim no-lo ensinou Pessoa.
        Todavia, é sempre difícil para o leitor esse exercício de distanciamento. Há «un je ne sais quoi» de afectividade que me leva a projetar o autor empírico no «eu» ficcional, criado pelo autor empírico.
        Mil perdões por isso.
        Procurarei acautelar-me e acautelá-lo da próxima vez.
        A minha postura é a de uma «aprendente» permanente (passo a cacofonia).
        É sempre muito gratificante receber feedback do autor que tanto admiramos e estimamos.
        Reitero o meu bem haja beirão.
        Abraço muito amigo.

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