Poesia

NOSTALGIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Nostalgia”. Original
do Autor. Junho de 2018.

JAS_Nostalgia24R

"Nostalgia". Jas. 2018
RÁPIDA COMO O VENTO
Passou por mim
Essa palavra saudade
Numa rua do meu bairro
Sob o céu desta cidade.

 GRAVEI-A NA
Minha mente,
Evoquei-a
Ao crepúsculo,
Com incerta
Nostalgia...
..................
Não queima tanto,
A palavra,
Porque a sinto
Mais fria!

 COM CESÁRIO,
Dei-lhe cor
E canto-a
Como pintura,
Dei-lhe vida
Num romance,
Tento tudo
O que não posso
Porque esta dor
Me perdura...

DA SUA COR
Vejo o mundo,
Com palavras
A recrio,
Procuro sempre
O teu rosto...
..................
E por mais longe
Qu’estejas
Eu não me sinto
Vazio.

 A DOR DESTA
SAUDADE
Alimenta-me
A alma
E aquece a minha
Vida...
E assim eu vou
Vivendo
Em eterna
Despedida,
Neste cais
Que não tem fim,
Em partida
Que não há,
Um adeus que não
Me dizes,
Porque tu
Nunca saíste
Deste meu
Lado de cá.

 MAS HÁ SEMPRE
Esta saudade
A que chamo
Nostalgia!
Vivo em tristeza
Feliz
Porque te sinto
Em cada dia.

 NÃO TE TENHO,
Mas não te perco,
Estás longe,
Perto daqui,
Não te encontro
Nem te vejo,
Mas sei que não
Te perdi...

INSPIRA-ME, A
NOSTALGIA...
Recrio-te em cada
Instante!
Sou poeta,
Sou pintor
E também sou
Arlequim...
...............
Por isso vejo
O teu mundo
A partir de um
Camarim!

 ESCULPO
TEU ROSTO
Com palavras
Do meu peito,
Pinto-me a alma
D’azul,
Voo contigo
Em sonho
E o destino
É sempre o sul...

 LEVO COMIGO
PINCÉIS
E as asas
Do poeta.
Danço.
Sou arlequim.
Pinto-me nesta
Ribalta
Com as cores
Que vês
Em mim!

 SEM TI
NESTA RUA
Da saudade
Sou palhaço
Em camarim
Que maquilha
O seu rosto
Para um palco
Sem fim...

 REPRESENTA
PARA TI
Sem saber
Se lá estás...
...........
A verdade
Já não lh'importa,
É feliz com
O que faz!

 ASSIM VIVE
O ARLEQUIM.
No palco,
É só arte
O seu fazer,
É dádiva que ele
Te entrega
Como modo
De viver!

JAS_Nostalgia24Rrecorte

 

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4 thoughts on “Poesia

  1. Transcrevo aqui o comentário que a Prof.ra Maria Neves fez ao meu poema de hoje:

    “Maria Neves Leal Gonçalves. Estamos perante um belo poema! A imagética do amor em simbiose com a dualidade transfiguradora e transfigurada do POETA/PINTOR tem marcado, discursivamente, as últimas poesias de João de Almeida Santos (JAS).
    É nesta dualidade que o poeta se tem posicionado, contaminando semântica e lexicalmente todo o arranjo estrófico com representações pictóricas da (ir)realidade: Atentemos nos seguintes versos: “DA SUA COR/Vejo o mundo,/Com palavras/A recrio,/Procuro sempre/O teu rosto…”.
    Ler a poesia de JAS é um exercício estético desafiante pela riqueza intertextual que as suas poesias encerram. Neste caso concreto, JAS evoca Cesário (o poeta–pintor impressionista da cidade de Lisboa), mas há outros intertextos implícitos neste poema, significativamente intitulado, “Nostalgia”. Vislumbram-se nele ecos da poesia trovadoresca nomeadamente de um cantar de amor de D. Dinis “Que soydade hei de mia señor” e das isotopias da “saudade” e do “Adeus” de alguns poemas românticos de Garrett.
    A maturidade poética de JAS transfigura-se neste poema num sujeito poético tríplice: “Sou poeta,/Sou pintor/ E também sou/Arlequim…” E é nesta tríade que é proposta ao leitor a percepção pictórica de um (ir)real bem como de estados de alma em busca de uma determinada realização estética e vivencial:

    “ASSIM VIVE
    O ARLEQUIM.
    No palco,
    É só arte
    O seu fazer,
    É dádiva que ele
    Te entrega
    Como modo
    De viver!””.

  2. Mais uma vez, a Prof.ra Maria Neves dedicou um belo comentário a um poema meu. E eu renovo-lhe o meu obrigado pela atenção, o cuidado e a bondade com que aprecia o que faço. É bom ler o que a Professora escreve também porque representa um grande estímulo. Sim, neste caso é de um poeta, um pintor e um comediante que se trata. De um (tríplice) sujeito que foi sugado pela irresistível força da arte, preço de se atrever a andar por ali com desenvolta frequência. Bom, se andou por ali foi porque a força do real lhe deu asas e propulsão. O certo é que, ao que diz, a verdade já não importa, obrigado que está a viver em camarim, com fato de arlequim, pintando o rosto com as cores de quem (julga que) o vê e exibindo-se num palco que é a sua vida… Os holofotes cegam-lhe o olhar e, por isso, é como se representasse para todo o mundo… A imagem do arlequim ajudou-me a afinar a estratégia discursiva do poema e do quadro. Introduziu maior realismo nas ideias de palco e de representação. Sim, evoco o grande Cesário Verde: “Pinto quadros por lettras, por signaes…” e dou-lhe corpo não só na poesia, mas também na pintura, cada vez mais num estimulante processo simbiótico que me fascina. Revisito sempre esse belíssimo livro na edição pintada pelo saudoso João Vieira que, da obra, fez duas belas e diferentes edições (uma delas, riquíssima, obra de Galeria) para a editora “Tiragem”, do Carlos Serra e Moura. A Professora Maria Neves tem-me levado com maior frequência para o Garrett de “Folhas Caídas” (“Este Inferno de Amar”… tão belo!). Até o título é belo… outono, a melancolia, o sonho… Aqui, nestes dias, também encontrei a nostalgia, à medida (mas não só) que ia compondo o quadro, inspirando-me em Klimt, em fragmentos, mas a propósito de uma flor que acabou por desaparecer. Ficou lá, claro (com lugar vazio, mas marcado), tinha de ser, mas em ausência. Afinal todo ele foi executado para ela e eu, implacável, por exigências puramente estéticas – algum minimalismo – acabei por sacrificá-la, somente em valor facial. Mas um dia voltará. Não será no próximo Domingo (uma rosa branca, firme, tomou-lhe o lugar), mas voltará. Obrigado Professora. Um abraço. JAS

  3. Ilustre e Estimado Professor!

    Estou de volta. Após muitos longos dias de trabalho, que me têm deixado sem os merecidos tempo e concentração que tão magníficos Poemas e Ilustrações merecem.

    Falando deste último, “Nostalgia”, só posso dizer: LINDO! Um Poema fantástico, envolto num jogo de palavras e sonoridades que transportam o leitor para um “palco” exclusivo… Em cujo jogo se articulam também cores e formas deveras contrastantes, mas em harmonia plena… Relembrando G. Klimt!

    Com (muita) admiração, Fernanda

    • Gosto de a ver por cá. Obrigado pelas suas generosas palavras. Sim, Klimt! Gosto muito e inspira-me. Também gosto das cores do arlequim. E o palco é um elemento decisivo no processo compositivo. É através dele que comunicamos…
      Um abraço do JAS

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