Poesia-Pintura

REGRESSO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Primavera”.
Original de minha autoria
para este poema.
Abril de 2020.
RegressoFinal05LUZ

“Primavera”. Jas. 04-2020

POEMA: “REGRESSO”

ESTÁS TÃO LONGE
E tão perto
Eu te sinto...
.............
Neste tempo
De fronteiras
Eu sofro
O teu silêncio 
Como espinho
Cravado
Da mais brava
 Das roseiras.

MESMO ASSIM,
Mesmo em dor,
Regresso sempre
Ao lugar
Onde eu
Te conheci,
Ao mistério
Do teu rosto,
Quando por ele
Me perdi...

PERDI-ME,SIM,
Mas encontrei
O que julgava
Não ter,
Porque foste
O espelho
Onde me vi
Renascer,
Embora já
Pressentisse
Que por culpa
Do destino
Eu te iria
Perder.

AH, SE SOUBESSE
Onde estás
O vento
Levar-me-ia
Ao parapeito
Da tua incerta
Janela,
Ver a tua
Silhueta,
Partilhar
A solidão,
Sonhar,
Sentir-me
Um passarinho
Aninhado
Docemente
Na palma
Da tua mão,
Sem vontade
De voar...

MAS EU NÃO SEI
Onde estás,
O que fazes,
Com quem andas,
Se trabalhas,
Se viajas,
Se sonhas
E fantasias,
Se não ouves
Ou não lês
Os sinais que
Eu te dou...
..............
Poéticas
Sinfonias
Em pautas
Onde transcrevo
O que de ti
Me ficou.

OH, QUE DESTINO
Me calhou,
Ter-te 
Encontrado
Um dia
Para logo
Te perder
Nos caminhos
Desta vida
Que me levam
A cantar
Esta triste
Melodia
De eterna
Despedida...
RegressoFinal05LUZRec

“Primavera”. Detalhe.

4 thoughts on “Poesia-Pintura

  1. 1. Nesta Primavera sombria e sem luz, ler Poesia ilumina a alma e abrilhanta a fruição estética. Acabei de ler o lindo poema de João de Almeida Santos (JAS) intitulado “Regresso”, acompanhado de uma belíssima ilustração Primavera, que, por antonomásia, evoca os tempos de agora…Mas regressemos por ora ao poema “Regresso” de JAS cuja tessitura poética é uma revisitação de micro lugares (físicos e simbólicos ) num alinhamento com a semiótica de Umberto Eco (“Regresso sempre/Ao lugar/Onde eu/Te conheci,” Ao parapeito/Da tua incerta/Janela”). Esses lugares estão marcados, no poema em análise, pela isotopia do Destino (do fatum da Antiguidade Clássica) e da “fortuna” camoniana (“OH, QUE DESTINO/me calhou”; Embora já/Pressentisse/Que por culpa/Do destino/Eu te iria/Perder”). É, assim, ao Destino, enquanto força mágica, que o sujeito poético atribui o seu infortúnio…
    2. A poesia de JAS é sempre um exercício intelectual estimulante pelo diálogo intertextual que convoca – seja pela intelectualidade do autor seja porque o estro poético advém – grosso modo – da matéria universal do Amor, conjugado, naturalmente, com sensibilidades plurais… O Amor (real ou reinventado) provoca no sujeito poético uma dualidade: por um lado, cria um dispositivo do sofrer e da ausência e da solidão (a “coita” de amor dos troubadours provençais e dos trovadores e jograis peninsulares) e, por outro, um dispositivo que anima e alimenta a verve poética e pictórica do autor. Ouçamos JAS: “Poéticas/Sinfonias/Em pautas/Onde transcrevo/O que de ti/Me ficou”; nestes segmentos textuais, emerge (e permanece) o rasto da mulher amada metamorfoseada em Arte. É tocante, na sua (i)materialidade, a arqueologia do amor nesta genealogia incessante da procura do objeto amado: “MAS EU NÃO SEI/Onde estás,/O que fazes/Com quem andas,/Se trabalhas,/Se viajas,/Se sonhas/E fantasias,/Se não ouves/Ou não lês/Os sinais que/Eu te dou…”. A aliteração destes versos, a apóstrofe à mulher amada, a anáfora da condicional no início do verso e o uso iterativo do presente incutem ao poema uma riqueza estilística ímpar e evidenciam, subtilmente, o grito do Poeta que procura o Regresso (título do poema), aqui, em sentido plurívoco, numa espera constante por um reencontro e por um regresso…

  2. João De Almeida Santos.
    Já tinha saudades suas, Professora Maria Neves. Obrigado pelo seu comentário. Sim, é da arqueologia de um amor que se trata. O regresso é isso mesmo: o começo que tantas vezes o sujeito poético procura capturar esteticamente como arqueologia da sua própria poética, para usar uma palavra que a Professora muitas vezes usa para, generosamente, se referir à minha poesia. Neste poema é de um regresso linear que se trata. E estive para intitular a ilustração do poema com a palavra “Paraíso”, não só pela evidente semântica do quadro, mas também para uma alusão, bem visível, ao pecado original. Mas fui traído pela força impressiva que o quadro do Sandro Botticelli deixou em mim quando repetidamente visitava a Galleria degli Uffizi para o ver, quando vivi em Firenze. E já estou arrependido. Sim, Paraíso. O pecado original de se amar em autenticidade e sem pedir nada em troca. Coisa quase incompreensível para o comum dos mortais. Entendida quase com suave mentira, engano, simulacro, disfarce para se obter o trivial. O recomeço (em mim) de um mundo que eu desconhecia e que mudou a minha vida, reencontrando-me como escritor, como poeta e, depois, como pintor, e sei lá que mais… Arqueologia do amor, sim, eu que não sou arqueólogo, a não ser para redescobrir uma das mais poderosas pulsões que melhor definem a nossa humanidade. Muito obrigado, mais uma vez, Professora. Um abraço e o desejo de que haja saúde.☺️

  3. Maria Neves Leal Gonçalves. Afastada do facebook ( ou por ausência de Net em Sesimbra ou por falta de tempo) mas não da sua poesia…O seu estro poético continua com brilho e com alma…Poesia luminosa nestes tempos sombrios de Covid19. Sobre a Arqueologia..Com as leituras de Foucault, arqueologia ganhou uma nova semântica, que, no meu ver, se adequa a muitas das suas poesias…

  4. João De Almeida Santos Maria Neves Leal Gonçalves Sim, eu sei, Professora, eu sei. Ainda hoje (ontem) nos vimos no Zoom do Colibri, em reunião. E também sei que não se afasta da minha poesia e que compreende muito bem a “archê”, o começo, o início. Nesta minha delicada caminhada a Professora tem-me dado ânimo e autoconfiança. Muitas vezes dando-me o mote para reflexões sobre o meu próprio exercício poético. Por exemplo, a procura constante de sinestesia tornou-se norma depois de alguns comentários que a Professora fez. Ilumino a poesia com a pintura e procuro dar sentido à pintura através da poesia. Quis o destino que fosse assim. Ter de me reconstruir a própria cor à custa de trabalho, de estudo e de… melancolia. Também se cresce assim, olhando para nós, através dos outros, da autenticidade dos outros ou até do silêncio gelado dos outros. Agora, sim, entendo os que amarraram a sua vida ao exercício estético como forma de salvação ou de redenção, de se libertarem da sereia do convencionalismo, do pragmatismo de vistas curtas (ter os pés demasiado assentes na terra) e do simulacro como forma de existência. Eu gosto da palavra grega “bánausos” e do uso filosófico que, depois, a Hannah Arendt dela fez para definir o chamado espírito banáusico, por exemplo em “Between Past and Futur”, de 1961, e que significava a incapacidade de pensar para além da pura funcionalidade ou da utilidade imediata de algo. O que podia acontecer até aos artistas, aos criadores, aos quais contrapunha o “philokalein”, o amor pelo belo, para além da sua circunstância (banáusica). E tenho a certeza de que este belo não pode estar revestido de exterioridade. Tem, isso sim, de nos perturbar, de nos abalar, na génese, na criação, mas também na fruição. Quando isto nos acontece talvez estejamos a atingir uma outra dimensão que não conhecíamos. Depois é percorrê-la com sabedoria… E obrigado, muito obrigado por tudo, caríssima Professora.

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