PS – Que futuro?

Há uma evidente crise dos partidos. As eleições europeias são exemplo disso. Marinho e Pinto também. A abstenção também. Os partidos já não conseguem polarizar as expectativas dos cidadãos. Perante o massacre da classe média, o PS revelou-se incapaz de mobilizar os cidadãos, reduzindo a abstenção e evitando a dispersão de votos por partidos inúteis para soluções governativas. Comparando com 2009, ao fim de 4 anos no governo, o PS obteve somente mais 86.340 votos. Foi incapaz de mobilizar o eleitorado. E o mais grave é que não se trata somente de uma questão conjuntural. Trata-se de uma crise de sistema que gera fugas para a abstenção ou para periferias políticas radicais. O caso francês é exemplar. Em Itália, Beppe Grillo e o seu partido digital continuam fortes (22% do eleitorado). Na Grécia, os radicais tomaram conta da cena política. Em Portugal, depois do aviso dos independentes nas autárquicas, o PCP reforça-se e emerge abruptamente uma espécie de partido pessoal (Marinho e Pinto). O PS não descola e corre o risco de perder as legislativas, incapaz de atrair o eleitorado e ameaçado pela fragmentação política.

A candidatura de António Costa procura responder a esta situação, levando a liderança a avançar com primárias abertas para o candidato a PM. O PS abre-se à sociedade na escolha da liderança. Processo bem diferente das estranhas “primárias” que ocorreram nas autárquicas. Que, por isso, deveria ser aplicado às principais lideranças (SG, distritais e concelhias). Por uma simples razão: autênticas primárias ajudam a superar o tráfico de votos (quotas) e a manipulação dos cadernos eleitorais. Só por isso a candidatura de Costa já valeu a pena. Mas também será útil se permitir um bom confronto de ideias acerca do País, da democracia e da orientação ideal e programática do PS. Que poderá, assim, ocupar o topo da agenda política. Por boas razões. A verdade é que o PS não tem sido capaz de polarizar o descontentamento, que se exprime cada vez mais em movimentos inorgânicos, em personagens mediáticas ou em partidos ortodoxos inúteis para soluções de governo. Creio que chegou a hora de discutir com frontalidade a sua ancoragem na tradicional matriz social-democrática perante as profundas mutações que se estão a desenhar. E não serão as causas fracturantes que farão dele um partido em linha com os tempos. São questões como a do Estado Social, a da emergência do indivíduo como protagonista de segunda geração (“prosumer” político, através das TICs) e a das novas “constituencies” (a dos credores internacionais, por exemplo, referida por W. Streeck) que se somam à velha cidadania, a da dívida pública por autofinanciamento, entre outras, que podem projectar o PS no caminho do futuro. Com todo o respeito pelo LIPP, não se tem visto, nesta liderança, a pujança reflexiva que um partido como o PS deve ter se quiser vir a ser hegemónico na sociedade portuguesa. Creio que António Costa tem condições para a promover.

 

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