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SEGUEM-SE 81 ARTIGOS (VEJA TAMBÉM OS ARTIGOS PUBLICADOS NA SECÇÃO “COMENTÁRIOS DO DIA”). Actualização a 19.10.2016.

 

LXXXI. DYLAN E O NOBEL. O POETA DEU-NOS MÚSICA (Jornal on Line "Tornado". 17.10.2016)
O Nobel da Literatura também pode ir parar a um pintor, a um bailarino, a um coreógrafo, a um realizador! Como o foi a um músico, embora “cantautor”. Porque não?

É assim – como músico – que as pessoas o vêem, ou melhor, o ouvem! Por exemplo, os que não sabem inglês e só percebem o que quer dizer “Hey! Mister Tambourine Man”, o título dessa belíssima canção que nos ficou no ouvido! Sim, poderíamos afirmar que se trata de “poesia para o ouvido”, como alguém disse!

Eu, jovem, até já sabia alguma coisa de inglês (aprendera no Liceu), mas para mim, naquele tempo, o Dylan era só sons, música. Da melhor, mas só música. Revolucionária, mas só música. Do tempo desses extraordinários “cantautores” que agitavam as massas, sobretudo estudantis. Todos à esquerda. Revolucionários. É verdade que, nesse tempo, as letras contavam muito e eram “da pesada”, muito politizadas, de intervenção, ou com uma intensa expressividade existencial.

Mas não era preciso conhecer a letra. Nem havia Internet com as traduções. Bastava o título e o cantautor! Ouvi muito Dylan, gostava, mas nunca li nem fui induzido a descodificar a letra das suas canções. Só agora é que as fui ler. Graças ao Nobel. Muito belas, confesso. Em particular, as de “Mister Tambourine Man”, “Blowin’ in the Wind” ou “Like a Rolling Stone”.

Quem nunca se sentiu perdido nas mil veredas da existência e precisou de uma canção para sonhar, de um “Tambourine Man”? Quem não se sente, tantas vezes, a caminhar sem rumo por uma “velha rua deserta demasiado morta para sonhar” e a precisar de ouvir um Bob Dylan? Sim, o Dylan ajudava e ajuda. Em particular, com estas que falam do sentido profundo da existência…

Um Nobel para a Música?

A verdade é que o prémio foi para Bob Dylan, alguém que soube fundir poesia e música de forma poderosa, como cantor e autor, como poeta e músico, dando forma expressiva e intensa à sua inspiração e conseguindo atravessar o tempo e as suas vastas fronteiras, inspirando multidões um pouco por todo o mundo. Mas também é verdade que se o género é claro e linear na sua expressividade, já o prémio é oblíquo – meio-música/meio-poesia, mas invertendo a dominante da equação. Ou seja, trata-se de uma forma expressiva onde a música é dominante, sobredeterminando de forma decisiva o significante poético.

A poesia surge, pois, como suporte auxiliar e, mesmo enquanto tal, coopera sobretudo com a sonoridade, a rima ou a rítmica. Não tanto com a sua componente semântica. Às vezes há mesmo dificuldade em conciliar a intensidade rítmica com a suavidade e a delicadeza poética de certas letras. Seguindo esta linha selectiva, amanhã o Nobel da Literatura também pode ir parar a um pintor, a um bailarino, a um coreógrafo, a um realizador! Como o foi a um músico, embora “cantautor”. Porque não?

O Nobel e a esquerda

Bob Dylan sempre se colocou à esquerda e tem projecção mundial. Há muito. Mas as escolhas à esquerda não são de hoje, arriscando-se a Academia a que o Nobel um dia  venha a ser publicamente recusado, como aconteceu, em 1964, com Jean-Paul Sartre, que não queria ser “institucionalizado” (a Oeste como a Leste), mantendo-se livre, embora com simpatias pelo socialismo e pelos sistemas políticos de Leste.

Mas isso não viria a acontecer quando a Academia teve a ideia de o atribuir, em 1997, a Dario Fo – um “giullare” (“jogral”) de esquerda, ou mesmo da esquerda radical – “porque, seguindo a tradição dos jograis medievais, faz troça do poder, restituindo a dignidade aos oprimidos”.

Palavras que ecoaram forte na Academia Sueca, aquando da atribuição do prémio a este extraordinário Mimo.

Ou a José Saramago, bem conhecido pelo seu posicionamento também à esquerda! O caso de Dario Fo não foi menos “escandaloso” do que este. Foi ele próprio que o disse no seu discurso de investidura: “Mas sim, o Vosso” – dar o prémio a um jogral – “foi deveras um acto de coragem que soa a provocação”. E evocou Ruzante Beolco e os seus cânticos ao quotidiano e às pessoas comuns, as gargalhadas sobre um poder que não tolera o riso.

Com efeito, o Nobel de Fo provocou, como ele diz, uma “balbúrdia” entre os eleitos do Parnaso  e da literatura convencional que se viram preteridos e trocados por um jogral que usa  “palavras para mastigar, com sons esquisitos, rítmicas e modulações diferentes, até às loucas tagarelas sem sentido do ‘grammelot’ (sequência arbitrária de sons)”.

Por outro lado, como nome mundial, projectado precisamente pelas suas canções, Bob Dylan, ao contrário de muitos e relevantes poetas ou romancistas, mas pouco conhecidos, não precisaria de ser “reconhecido”, não depende dos 830.000 euros para sobreviver como artista nem do Nobel para ver divulgada a sua obra. Já tem que chegue.

Pode até parecer que, às vezes, a Academia faz escolhas fracturantes ou disruptivas para subir ao topo da agenda pública, ao gerar polémicas planetárias. E não têm sido poucas. Não creio que seja porque os tempos estejam a mudar, como disse a Secretária da Academia, uma vez que faz isto há muito e, por isso, não creio que, como alguém disse, de passo em passo a Academia termine na irrelevância!

O Testamento de Alfred Nobel e a polémica

O Nobel, por vontade testamentária de Alfred, é concedido no âmbito de cinco áreas: a Física, a Química, a Medicina/Fisiologia, a Literatura, a Paz. É o que lá está, embora também se atribua o Nobel da Economia (não previsto no Testamento). Compreende-se, pois, que a atribuição deste prémio esteja limitada a estas esferas e que a Bob Dylan não pudesse ser atribuído o prémio para a música. Simplesmente porque não está previsto.

Por isso, há polémica. E da grossa. Até o Nobel da Literatura Wole Soyinka já disse que, assim, no próximo ano, deverão atribuir dois Nobel da Literatura. Outros dizem que a música não precisa deste tipo de megafone, porque já tem uma enorme força reprodutora e de expansão, em si. Ou dizem mesmo que este prémio equivale a dar um Grammy Award a um qualquer escritor pela musicalidade da sua narrativa.

Até o Nobel a Dario Fo foi considerado por muitos deslocado por não haver um Nobel para o Teatro (tão-só para a dramaturgia, enquanto género literário). E ele era sobretudo um “giullare”, não um importante dramaturgo. E o Sartre recusou, como disse, porque não aceitava ser institucionalizado. Mesmo os Nobel da Literatura a Henri Bergson (1927) ou Churchill (1953) foram também algo surpreendentes, pelo desvio da norma.

E o mais curioso é que este Nobel tenha sido atribuído a Bob Dylan no mesmo dia em que morre o grande Dario Fo, encenador, actor, dramaturgo, esse outro italiano que se seguiu, em matéria de teatro e de Nobel, a Luigi Pirandello (Nobel em 1934), o fantástico dramaturgo/filósofo cuja genialidade foi descoberta e reflectida em inúmeros textos pelo jovem António Gramsci, outro italiano que teria merecido o Nobel (entre os vinte italianos que já o receberam).

Disse a Secretária da Academia que Bob Dylan “criou uma nova expressão poética no âmbito da tradição da grande canção americana”. Poderia ter dito, como alguém disse: criou “poesia para o ouvido”, que é mais do que dizer que criou “novas expressões poéticas”! Ainda que o registo estético deste órgão, o ouvido, seja, no caso da música, mais o da sonoridade, da fonética ou da rítmica do que o da semântica, sendo certo que a poesia tem ela própria uma musicalidade interior que até pode prescindir da sonoridade (expressa).

Finalmente

Em suma, a Academia sueca voltou a pôr a música e a poesia na agenda, pôs meio mundo a discutir o valor e o estatuto literário das letras das canções, valorizou a música de intervenção e o papel dos “cantautores”, repropôs o riquíssimo ambiente libertário e de protesto dos anos e da geração de sessenta.

E a valorização deste tipo de música é, de facto, muito importante porque traz à boca de cena o empenho político e social com dimensão de massas, sem dúvida, mas também a sofisticação estética. Ou seja, traz de facto uma revalorização da cidadania no plano estético.

Hans-Georg Gadamer, inspirando-se nas “Cartas sobre a Educação Estética do Homem” (1795), de Friedrich Schiller, propôs, em “Verdade e Método” (1960), uma espécie de imperativo categórico estético para a cidadania: “comporta-te esteticamente”! Ou seja: age como se a máxima da tua sensibilidade pudesse valer ao mesmo tempo, e sempre, como princípio de uma estética universal!

No momento em que escrevo, a Academia ainda não conseguiu contactar Bob Dylan e já há quem admita que poderemos vir a ter um novo caso Sartre, com Dylan a recusar o Nobel para não ser integrado ou institucionalizado. Ou a nem sequer agradecer. Teríamos novo debate à escala planetária.

E também é verdade que este prémio, por exclusão, acaba por deixar na sombra aqueles que só dispõem da escrita para firmarem publicamente a sua obra. Tinha razão Rainer Maria Rilke naquele Soneto de “Die Sonette an Orpheus” onde diz: “cantar é existir” (“Gesang ist Dasein”).

Mas também a escrita simples pode funcionar neste registo, ou seja, como solução da própria vida, embora sem o mesmo poder expressivo e capacidade de expansão universal. Mas quando estas duas dimensões se conjugam, então, a existência intensifica-se, aprofunda-se e expande-se, podendo acabar… num Nobel.

Foi o que aconteceu a Dylan. Parabéns, mesmo que ele o recuse. Até porque, como diz o poeta, é na renúncia que melhor se vislumbram os sinais de grandeza!

 

LXXX. AFINAL, PARA QUE SERVE A ONU?

TEXTO: JOÃO DE ALMEIDA SANTOS · 11 OUTUBRO, 2016. Jornal on line “TORNADO”

Guterres desenhou e cumpriu um percurso que nenhum outro português conseguiu até ao momento.

 Esta semana António Guterres será eleito, pela Assembleia Geral, Secretário-Geral da ONU, depois de uma série de debates públicos que envolveu vários candidatos ao cargo. Foi consensual a preferência por ele, depois de se ter mostrado como o mais bem preparado e o mais adequado para o cargo.

Guterres está de parabéns, os portugueses (à excepção de Mário David) também e o PS pode legitimamente exibir orgulho por um dos seus ter chegado onde chegou. Também a Internacional Socialista, de que ele foi Presidente, teve ocasião de o felicitar publicamente, colhendo, assim, a oportunidade para reaparecer depois de tão longo afastamento da cena pública. Mas esse é outro assunto, a que voltarei.

Tratou-se de um processo inovador na escolha do Secretário-Geral pela transparência dos procedimentos adoptados. Por um lado, não foi uma escolha de bastidores e, por outro, pôs à prova as capacidades e competências dos candidatos, para além dos cargos que antes desempenharam. Veremos, mas a eleição pela Assembleia Geral (onde deverá obter pelo menos dois terços dos votos) seguirá certamente a recomendação, prevista estatutariamente, do Conselho de Segurança (integrado por 15 membros e onde não obteve sequer um voto contra ou de desencorajamento).

O facto de ter sido ACNUR durante dez anos ajudou-o certamente a preparar-se para este desafio crucial. Alguém que o conhece bem disse-me, quando foi escolhido como ACNUR, que a primeira coisa que ele faria logo que assumisse funções seria a de fixar o objectivo de se tornar Secretário-Geral. Na mouche! Conseguiu, demonstrando que é, não só, um homem de estratégia, mas também determinado e bom executor.

O que é a ONU e para que serve?

É a organização de autogoverno do mundo, composta por 193 países e que integra, no chamado “Sistema ONU”, as mais importantes organizações temáticas e sectoriais que operam à escala planetária (Organização Mundial do Comércio, Organização Internacional do Trabalho, UNESCO, FMI, Banco Mundial e as chamadas Uniões Administrativas e Técnicas: UPU, UTT, OMPI, OACI, OMSaúde, OMM, AIEnergia Atómica).

A estrutura interna da ONU é formada pela Assembleia Geral, pelo Conselho de Segurança, pelo Secretariado e pelo Secretário-Geral, tendo como órgãos de apoio o Conselho Económico-Social e o Conselho de Tutela e como órgão jurisdicional o Tribunal Internacional de Justiça.

Nasce em 1945 e começa a funcionar em 1946. Sucedeu à Sociedade das Nações, organização internacional nascida em Versalhes, em 1919, sob o impulso da agenda de Woodrow Wilson e dos seus famosos “fourteen points”, visando, no pós-Grande Guerra, preservar os princípios da paz e da autodeterminação dos povos. Tendo tido uma vida complicada (os EUA, grandes impulsionadores, acabariam por não vir a integrá-la) no período de ouro dos totalitarismos europeus, acabaria, no final da Guerra, por dar lugar à ONU, na Conferência de São Francisco.

Esta organização está marcada, na sua matriz, pela ideia de paz, como já estivera a SdN. E esta ideia representa a sua fonte principal de inspiração e o fio condutor da sua acção, sendo certo que ela se desenvolve também nas múltiplas frentes representadas pelo chamado “Sistema ONU”.

E o Secretário-Geral?

O Secretário-Geral é o mais alto funcionário da ONU, com funções administrativas, diplomáticas e políticas, tendo não só a faculdade de suscitar ao Conselho de Segurança questões relativas a situações de crise e de inscrever temas na agenda da Assembleia Geral, como a de desempenhar missões diplomáticas em nome de ambos. De resto, o Secretário-Geral, sendo o rosto da ONU, acaba por assumir um protagonismo que de algum modo transcende as suas próprias competências formais.

Guterres sucede, pois, a Trygve Lie (o primeiro, 1946), Dag Hammarskold, U Thant, Kurt Waldheim, Perez de Cuellar, Boutros Boutros-Ghali, Kofi Annan e Ban Ki-Moon. Desempenhará as suas funções durante cinco anos, podendo ser reconduzido uma vez.

É neste quadro que se moverá o português António Guterres. Ninguém em boa fé poderá deixar de reconhecer que é a ele, à sua determinação, que se deve inteiramente esta caminhada, quando o ambiente de fundo prévio à eleição parecia estar desenhado para uma mulher do leste europeu. Situação que, de resto, se manteve até ao fim, com a desastrada operação Georgieva.

Guterres desenhou e cumpriu um percurso que nenhum outro português conseguiu até ao momento. Até para Presidente da Comissão Europeia parece ter sido sondado, recusando, devido aos compromissos com o País. O lugar acabaria por vir a ser ocupado por Romano Prodi. Guterres foi Secretário-Geral do PS, Primeiro-Ministro, Presidente da Internacional Socialista, a maior organização política mundial, ACNUR e, agora, Secretário-Geral da ONU.

Outros Tempos

Lembro-me bem do tratamento que o nosso establishment mediático lhe deu quando ganhou as eleições legislativas, em 1999, tendo conseguido 115 deputados em 230. Caíram-lhe em cima, literalmente, construindo, de forma falaz e injusta, estereótipos demolidores: o derrotado, o indeciso, o ausente. Sem mais. Relativamente à ausência, tratou-se verdadeiramente de um ataque inacreditável. Portugal ia ter a Presidência da União Europeia e, naturalmente, teria de se deslocar às capitais da União para preparar o semestre. Mas fazia-o em curtas visitas, mantendo o ritmo da agenda em Portugal.

Sei-o de ciência certa, pois, na altura, eu tinha o meu Gabinete de trabalho na residência Oficial do PM e recebia todas as manhãs a agenda de Guterres. A injustiça desta crítica generalizada irritou-me a tal ponto que eu próprio acabaria por desenvolver uma investigação sobre estes media, concluindo pelo extremo e sistémico facciosismo dessas críticas. Está publicada no meu livro “Media e Poder” (Lisboa, Vega, 2012). Este ambiente – mais do que a relativa derrota nas autárquicas –, construído e alimentado, quase obsessivamente, a partir do dia seguinte às eleições, talvez tenha constituído a principal razão para a sua saída, em 2002.

A missão e o homem

O Secretário-Geral dispõe de uma boa margem de manobra para lidar com a situação política internacional naquilo que são as grandes questões da paz e da autodeterminação. O New York Times dedicou um Editorial a Guterres (“A New Voice for a Complicated World”, 05.10.16) e à sua missão e pôs em evidência, além da suas qualidades e experiência (“experience, energy and diplomatic finesse”), as principais questões que se lhe porão de imediato: guerras regionais, tensões entre a Rússia e o mundo ocidental, a posição da China na Ásia, a crise dos refugiados no Médio-Oriente e na Europa, a questão nuclear no Irão e na Coreia do Norte, o problema da fome com milhões de pessoas, o posicionamento da ONU num mundo onde terrorismo e guerra estão misturados e promovidos por múltiplas forças. Tudo isto, quando a própria ONU tem a sua credibilidade para as soluções de paz de algum modo afectada!

Ninguém tem dúvidas da natural vocação de Guterres para a mediação e para lidar com estes gravíssimos problemas, das suas capacidades diplomáticas e, sobretudo, da sua assumida mundividência de inspiração social e solidária. O caso de Guterres deveria fazer pensar as nossas elites: o seu desprendimento aliado a uma forte determinação, os seus valores conjugados com um pragmatismo de inspiração humanista, a sua inteligência posta ao serviço de uma grande sensibilidade ao universo do sofrimento e da dor.

Sabe-se que a ONU precisa de uma forte reestruturação e redefinição. E creio que, se para esta viragem for necessário um consistente esforço de mediação política e diplomática, ele será o homem certo.

Desejo-lhe os maiores sucessos neste gigantesco desafio a que irá ter de responder.

LXXIX. 8/10 às 0:19 · PERDIDO NA INCERTEZA

(Poesia inspirada em Gianni della Rovere e Paola Valenzi,
Personagens de um meu Romance de próxima publicação.
Ilustração de Filipa Antunes: pintura em acrílico e verniz – técnica mista sobre tela; dimensão: 1.5m x 0.9m – 2016)

Há nuvens negras no céu
Chovem palavras escuras
Este rosto não é meu
E sei que não o procuras!

Passam, hoje, já dois anos
Com sofrimento sem fim
Pudesse eu regressar
O que seria de mim?

Daria os mesmos passos?
Ficava perto de ti?
Abriria os meus braços?
– Verias que não te fugi!

São seis palavras cinzentas
Que não querem dizer nada
Mas anunciam tormentas
Na minha porta d’entrada
Se desenharem um rosto
Com letras de tinta dourada!

Vi-te hoje da janela
Ali em frente, parada
Disse p’ra mim: “não é Ela?
Já não é a minha Fada?”

Há muito que não te via
Incerto, não te quis ver
De ti já pouco sabia
Nada iria acontecer…

Virei-me, então, para mim
Murmurei uma palavra…
Quase entrei em frenesim
Eras tu quem lá estava!

Não te mostrei o meu rosto
E no teu perfil de mulher
Vi sinais de um sol-posto
Visíveis de um lado qualquer!

Senti-te, então, como estranha
Já longe do meu olhar
Fiquei sentado pensando
Vi o teu rosto mudar…
Lentamente, esfumando
Perdendo-se ao Luar
Do que restava da noite
Onde te iria sonhar…
Incapaz de reagir
Em silêncio quis ficar!

O teu rosto escurecera
Fora-se Sol ficara Lua
De ti já nem silhueta
Nem uma sombra na rua!

Até que voltei a encontrar-te
Um, dois, todos os dias
Já não sabia quem eras
Era estranho o que fazias
O modo de caminhar
As formas do teu perfil
Talvez nem o teu olhar
Distinguisse doutros mil!

E encontro-te de novo
Sempre distante e fria
Já nem sei como sofrer…
– Caiu em mim apatia?

Passo por ti, perco a razão
Já quase não te conheço
Queria tocar-te com a mão
Mas é alto esse preço!
Depois… julgo que não
Novo encontro, fico a saber
Recordar-te é perdição
Em cada segundo perder
Do teu rosto a visão
Sem saber o que fazer!

Cegueira insuportável
Só sombras por horizonte
Escuridão infindável
Subo, subo até ao monte
Para ver se lá do alto
Tudo se torna claro…
A cegueira vem de dentro
Mas eu, triste, nem reparo!

Fico mal, nem quero crer
Caio logo em prostração
Desejo cair e sofrer
Mas é um gesto em vão!

Então eu fujo de ti
Fico melhor, não te vejo
Nunca me vou libertar
É mais forte que o desejo
De não te querer como fim
Incapaz de te deixar
Desisto sempre de mim!

Ficas longe, estás mais perto
Já nem vejo além da sombra
Em horizonte aberto
Voarias com pomba…

Para mim é um mistério
Incapaz de reagir
Frente a ti fico mais sério
Já nem consigo sorrir!

A não ser que tu me olhes
Que pares por um instante
Lá em cima na janela
Não verás rosto distante
Talvez vejas aguarela
Pintada por um poeta
Com a cor e a palavra
Numa moldura discreta
Com rimas da minha lavra…
E a tua silhueta!

LXXVIII. SPINNING. Bill, Let’s Go!

TEXTO: JOÃO DE ALMEIDA SANTOS · 4 OUTUBRO, 2016. Jornal on line “TORNADO”

E se a cena que corre mundo, com Obama impaciente a chamar Clinton para o Air Force One, fosse uma operação de spinning preparada na Casa Branca para ajudar Hillary a ganhar as eleições?

Não seria a primeira nem a última vez. Ficou célebre a chegada de George W. Bush, em Maio de 2003, num Viking militar, fardado rigorosamente como um autêntico top gun, ao porta-aviões Lincoln. Bush iria disputar as eleições de 2004 contra o supermedalhado John Kerry (actual Secretário de Estado) e Karl Rove, o seu Spin Doctor, quis dar-lhe o que ele não tinha, ou seja, uma aura militar muito útil para efeitos eleitorais no pós-Torres Gémeas.

Ficou famosa esta operação! Tão famosa que até passou a ser estudada nas escolas de comunicação dos Estados Unidos. Mas esta, a ser verdade, seria muito mais sofisticada e funcionaria – mais do que o apoio directo recorrentemente manifestado por Obama – num registo subliminar, como se Obama, no Air Force One, estivesse já a antecipar ou mesmo a selar oficialmente o que está para acontecer em Novembro, nas eleições presidenciais americanas.

Bill, let’s go!

À partida, o episódio não parece muito verosímil. Obama impaciente, à porta do avião, por uns minutos de espera por Bill Clinton? Exibindo algum nervosismo (ou mesmo irritação) perante televisões de todo o mundo? E numa cena de tipo familiar, entre dois amigos comuns? Em mangas de camisa e gravata desapertada a gritar, no cimo das escadas do Air Force One, “Bill, let’s go, I gotta get home!”?

Imaginemos, pois, que se trata de spinning e façamos um rápido exercício.

Bill Clinton, que foi um dos oradores no funeral de Shimon Peres, foi Presidente dos Estados Unidos nos anos ’90, em dois mandatos. Mas é marido de Hillary, que se encontra em campanha eleitoral para a Presidência dos Estados Unidos, e já a poucos dias das eleições. Obama está de saída (em Novembro/Janeiro), sendo natural que já comece a dizer frequentemente (para Michelle): “I gotta get home!”; “estou farto disto!”; “quero ir descansar de oito anos que me deixaram os cabelos completamente brancos!”. Bill regressava aos USA no Air Force One, com o Presidente.

Capitalizar a imagem de Obama

A cena é insólita, porque exibe como normais dois homens que, pelas suas posições e funções, não são normais. Mesmo que – como se diz – seja admissível que o Presidente dos USA possa esperar por alguém que também já foi Presidente (como diz o “The Telegraph”, de 02.10: “keeping an American president waiting isn’t usually the done thing – unless, of course, you’re a former US president”), não seria normal que a isso fosse dada uma publicidade mundial, a não ser com manifesta intencionalidade. E muito menos nos termos em que isso viria a acontecer.

Barack Obama, com este gesto, aproxima-se subtilmente ainda mais da candidata democrata e reforça o nome Clinton na agenda mundial e, claro, nos Estados Unidos – a cena tornou-se viral. Bill Clinton continua a ser alguém com um estatuto muito especial. Foi um excelente Presidente durante oito anos e é marido da candidata democrata apoiada por Barack Obama. Aqui surge também como próximo do Presidente.

A ligação à candidata democrata é aqui selada num registo muito humano, quase familiar ou íntimo, capitalizando-se assim, para efeitos eleitorais, a excelente imagem política e humana de Barack Obama: humanidade, frontalidade, simplicidade, simpatia e cumplicidade com quem o vê e ouve. Tudo isto, sim, além dos excelentes resultados obtidos em matéria económica e financeira (resposta eficaz à crise de 2008) e em políticas sociais (Obamacare) e de emprego (cerca de 15 milhões empregos recuperados).

Uma antecipação do cenário pós-eleitoral

O Air Force One é uma segunda Casa Branca. Clinton entra nele como segunda figura. Obama tem pressa de regressar a casa (home) e por isso diz a Clinton que se apresse – “Bill, let’s go!”.

Alude-se aqui, na fórmula linguística utilizada, subtilmente, a um regresso de Obama à vida privada (regressar a casa) e à sua substituição por Hillary Clinton, acompanhada do passageiro Bill. Com efeito, se Hillary Clinton ganhar as presidenciais, como se prevê, o seu marido entrará na Casa Branca em segundo plano (desta vez certamente sem se atrasar), como acontece aqui. A figura de Bill aparece assim a antecipar e até a selar esse futuro próximo (que se deseja).

Mas não se vê um Presidente ligeiramente irritado? É minha convicção que o (aparente, creio eu) nervosismo de Obama serve para evitar qualquer tentativa de interpretação da cena em sentido instrumental (com efeito, todos os media relatam o episódio dando conta de uma ligeira irritação, ou pelo menos impaciência, do Presidente, mas também todos acentuam a ideia de dois homens comuns, próximos e simples).

Um forte simbolismo

Perguntar-se-á: que impressão provocou a cena no espectador? Eu achei-a espontaneamente divertida e agradável aos olhos do cidadão comum, dando conta de duas personalidades a quem o poder não fez perder as características mais humanas da simplicidade e da normalidade comportamental, em qualquer circunstância. Isto, reforçando a imagem de ambos, reforça também, de forma indirecta, simbolicamente a de Hillary. O episódio tem, de facto, um forte simbolismo e densifica a narrativa global de Hillary Clinton, reforçando-lhe a retaguarda, a solidez do contexto humano, político e institucional em que ela se move. Está bem acompanhada, a candidata!

Muitos americanos hão-de rever-se neste gesto e nesta proximidade de dois grandes Presidentes, tendo um deles o nome Clinton. Como se esta viagem de avião prefigurasse o momento da próxima “viagem” presidencial, com Obama a regressar a casa e Hillary já ao comando da White House/Air Force One, permanecendo como segundo “passageiro” esse mesmo Clinton que partiu, com Obama, de Israel em direcção aos Estados Unidos.

Não sei se houve, de facto, spinning. Mas, como disse Giordano Bruno, em “De gli heroici furori” (Paris, 1582), “se non è vero, è molto ben trovato”!

LXXVII. O CASO DO NEW YORK TIMES. O susto e a legítima defesa

TEXTO: JOÃO DE ALMEIDA SANTOS · 27 SETEMBRO, 2016. Jornal on line “TORNADO”.

O New York Times, num Editorial de 24.09.2016, toma posição sobre a competição presidencial americana: “Hillary Clinton for President”

O que diz o Editorial?  Diz que este não é “um ano de eleições normal” e que, por isso, toma posição para “persuadir aqueles de vós que estão a hesitar em votar na Senhora Clinton”.

Hillary for President

Em condições normais, o jornal cotejaria as posições de ambos os candidatos, mas, nas condições actuais, isso seria um exercício “vazio”. E faz uma longa exposição sobre as suas qualidades pessoais, competências, posições políticas, desempenho nos cargos que ocupou, como Senadora e como Secretária de Estado de Barack Obama, mas também como Primeira Dama. Uma clara defesa da sua candidatura: “challenges this country faces, and Mrs. Clinton’s capacity to rise to them”. Considera, além do mais, o candidato Donald Trump como o pior candidato proposto por um partido na moderna história americana.

Sejamos claros. Que a Fox News tenha uma posição radical em defesa de um candidato republicano, não admira. Este canal é conhecido por fazer um jornalismo “advocacy”, militante, ao serviço permanente do partido republicano. E que o seu antigo patrão, Roger Ailes, era, e é, um famoso e agressivo Spin Doctor dos republicanos, conselheiro de sucesso de vários Presidentes, também se sabe. Mas que o NyTimes o faça desta forma perentória e deste modo, levanta uma velha questão de fundo, ou seja, a questão da função de cidadania dos media.

E porquê? Porque no seu código ético encontramos palavras como “fairness”, “integrity”, “truth”, “accuracy”, “impartiality”, ou seja, as mesmas que encontramos em outros códigos éticos e que procuram preservar precisamente essa função, através da imparcialidade, da objectividade e da neutralidade no exercício da informação. Diz, com efeito o NyTimes: “The goal of The New York Times is to cover the news as impartially as possible”.

Os códigos éticos do jornalismo

O que são os códigos éticos e para que servem? São conjuntos de princípios que integram um quadro normativo de referência que deve guiar, tanto quanto possível, os meios de comunicação no processo informativo. Estes princípios enquadram a função de cidadania dos media porque garantem o fim último da informação: dotar os cidadãos de informação objectiva acerca da realidade para que eles possam fazer racionalmente as suas opções, seja na política, na cultura, na economia ou na vida quotidiana. Na verdade, os meios de informação existem para servir a cidadania, fornecendo-lhe boa e relevante informação, de forma neutra, imparcial, independente e objectiva. Destes códigos éticos já se fala desde 1690, data do famoso e primeiro código Harris. E, portanto, transgredi-los corresponde a desviar-se da sua função essencial.

Dir-se-á, então, que o jornalismo “advocacy”, ou militante, é ilegítimo? No essencial, sim, porque não cumpre a sua função originária: dar toda a informação ao cidadão para que ele, sim, possa fazer, autónoma e responsavelmente, as suas opções, com as suas próprias razões ou fundamentos. Uma prática diferente corresponde simplesmente a engano e a manipulação – a spinning: informação com efeito.

Uma questão de legítima defesa

E é aqui que bate o ponto. Por que razão o NyTimes toma posição, contrariando os seus próprios princípios e, em geral, os princípios dos códigos éticos?

A minha resposta é a seguinte: em condições normais, como é dito no Editorial, não o faria como fez, apesar de, como sabemos, ter um longo historial de apoio a Presidentes: de Lincoln a Kennedy ou a Obama. E agora fá-lo de um modo perentório e quase imperativo porque, no seu entendimento, se trata de uma situação não normal, vistos, por um lado, os enormes problemas com que os Estados Unidos têm de se confrontar (problemas no Médio Oriente, relações da Rússia com a Europa oriental, guerra, terrorismo, pressões da globalização, graves problemas internos) e, por outro, a excepcionalidade negativa deste candidato republicano. Sabemos que esta é uma prática comum, e não só nos Estados Unidos. Mas isto não invalida que a prática contrarie os princípios dos próprios códigos éticos livremente adoptados. Não esqueçamos que o primeiro código ético surge precisamente nos Estados Unidos (conhecido como código Harris) e que aquele que é considerado como o primeiro código formal é de 1910, no Kansas, também nos Estados Unidos.

O NyTimes sabe muito bem que está a infringir regras muito importantes do seu próprio código ético e do jornalismo em geral, em particular as do próprio modelo liberal que tende, afinal, para a progressiva afirmação da neutralidade política, para usar o conceito de Hallin e Mancini, em “Comparing Media Systems”, de 2004 (veja-se o capítulo 7). E di-lo de forma clara, argumentada e frontal. Mas fá-lo nestes termos, julgo eu, numa lógica de legítima defesa, pelas razões apontadas e pelo perigo que Trump representa para os Estados Unidos e para a política internacional. Não ouso dizer, como no Domingo fez o conservador liberal Andrew Roberts, nas páginas do DN (25.09, p. 29), que dos líderes históricos o mais próximo “de Trump é Mussolini”. Mas parece ser consensual que ele tem vindo a exibir posições que acrescentariam conflito e tensão aos conflitos e tensões já existentes. E, por isso, a posição de legítima defesa assumida pelo NyTimes até é compreensível e mesmo partilhável, sobretudo quando as sondagens estão a dar resultados que põem os dois candidatos em pé de igualdade e quando as campanhas sujas voltam a entrar em cena de forma violenta. Veremos o que acontece no debate desta noite de 27 de Setembro.

Bem sei que o modelo de jornalismo e de informação que respeita a sua função de cidadania está constantemente a ser atropelado, lá como cá, e sujeito a um spinning cada vez mais intenso e sofisticado, dando lugar a uma política que alguns já designam por política pós-factual! Mas também é verdade que a rede está irromper com tal força no espaço público que pode vir a servir de forte antídoto a este desvio, obrigando a uma efectiva correcção de rota no percurso informativo em suporte tradicional. O que, todavia, no meu entendimento, não nos deverá impedir de continuar a desenvolver, na frente mediática, um forte combate pela aplicação séria desses mesmo códigos éticos de que os próprios meios de comunicação livremente se dotaram. Para que a excepção não se venha a tornar regra e os media transformem a sua função de cidadania em puro exercício de poder sobre a consciência dos cidadãos!

LXXVI. 25/9 às 1:00 ·O JARDINEIRO!

(Ilustração: Rosa em fundo de Loureiro,
no meu “Jardim de Cristal”. Foto de JAS)

Tornei-me bom Jardineiro!
Troquei letras por flores
Uma Rosa vale um verso
A Camélia mil amores!

Quanto vale Amor-Perfeito?
Versos são como cores
As palavras coloridas
Exalam suaves sabores
Acariciam a alma
Se ela ficar em ferida
Inspiram serena calma
Tornam mais doce a vida!

Por isso, vou ao Jardim
Cobrir-me com mil flores
Saem versos só p’ra mim
Com palavras que são cores!

Olho-as com atenção
Fixo-as com o olhar
Toco nelas com a mão
Fico ali a meditar…
………………………
No que está a acontecer
Com elas a germinar…
…………………………..
De nada quero saber
Só de cores p’ra me curar
Do que mais me faz sofrer!

Mas essas flores não duram
É mortal a natureza
Elas perdem-se no tempo
Fica a paixão, a tristeza!

Também elas vão morrer
Não me curam da paixão
No meu triste entardecer
Pego nelas com a mão…

Nas flores verei Beleza
Nas palavras seu matiz
É bela a natureza
Com suas cores subtis
Cada sépala é pureza
Em todos os seus perfis
Com ela, mesmo a tristeza
É bela se tu sorris!
Um sorriso natural
Como pétala de flor
Uma palavra, sinal
Como se fosses autor
Da pérola de um coral
Que representa o amor…
No meu Jardim de Cristal!

Regular é o seu tempo
Ritmo que é mais que certo
Tudo nasce e tudo morre
Sob o céu, a descoberto!

Mas renasce sempre um dia
Dizendo-nos: aqui estou!
Natureza é alquimia
Que me diz p’ra onde vou!

Por isso sou Jardineiro
Com flores aprendo sempre
Nunca fiz isso primeiro
E a natureza não mente…

Troco letras por flores
E às palavras dou rima
Nos jardins nascem amores
E as cores puxam p’ra cima!

LXXV. UMA QUESTÃO DE FRONTEIRA. O PS e a “Ética da Convicção”

TEXTO: JOÃO DE ALMEIDA SANTOS · 20 SETEMBRO, 2016. Jornal on line “TORNADO”.

Não há dúvida de que o terreno da política tem vindo a tornar-se pantanoso, e, em particular, na área do centro-esquerda

Sejamos claros: está tudo a mudar com grande rapidez. Mas, por isso mesmo, é cada vez mais necessária uma “cartografia cognitiva” que desenhe fronteiras com rigor.

Entretanto, o que permanece bem definido é o terreno do radicalismo, à esquerda ou à direita. Por exemplo, o nacionalismo ou o integralismo religioso. E já nem falo da confiscação da política pelos chamados mercados e pelos seus gurus – as agências de rating. Ou seja, da emergência daquilo a que Wolfgang Streeck (no livro Tempo comprado. A crise adiada do capitalismo democrático, Lisboa, Actual, 2013) chamou a segunda “constituency” – a dos credores internacionais.

Para mim, é evidente que o centro-esquerda precisa de repensar com rigor analítico o seu próprio quadro global de referência. Mais até do que os conservadores de inspiração liberal ou de inspiração democrata-cristã.

Lógica casuística

Vem isto a propósito da recente iniciativa de tributar complementarmente (ao IMI) o património imobiliário. Uma espécie de penalização fiscal ou castigo dos que têm um pouco mais, aumentando duplamente a sua tributação: deixando de ser por imóvel para passar a ser pelo conjunto do património e passando de um milhão de euros por imóvel para 500 mil (limiar mínimo) pelo conjunto.

E sobretudo por isto estar a ser feito, mais uma vez, com uma lógica casuística. Lógica que já aflorou também nos 50 mil euros a comunicar ao fisco pelos bancos e na taxa sobre a exposição ambiental dos imóveis.

Qualquer dia, apetecerá dizer, como os italianos, “chi più ne ha più ne metta”. Na verdade, o país já está grávido de impostos. E o coito fiscal já quase não faz efeito. Se assim é, venham daí os “aprendizes de feiticeiro” e ponham taxas em tudo. Até já está disponível uma filosofia de algibeira que tudo justifica, a do “utilizador-pagador”.

Mas também a do não-utilizador-pagador: a dos que tendo uma segunda casa sem lá terem televisão pagam na mesma a taxa do maravilhoso audiovisual português das telenovelas, do crime e castigo em prime time e da publicidade em doses cavalares.

Bem sei que o PS já mandou dizer que o limiar não é aquele, mas outro muito superior. Sim, e deve dizer porquê. E é precisamente por isso que ponho a questão da fronteira (e me fixo na proposta do Bloco): o que diferencia a “ética da convicção” do PS da “ética da convicção” do Bloco de Esquerda e do PCP, sabendo nós que – para além das chamadas questões fracturantes – existe uma filosofia de fundo que inspira estas duas forças políticas e que se pode resumir na fórmula “os ricos que paguem a crise”?

Se dúvidas houvesse, as recentes declarações de Mariana Mortágua tornariam tudo claro (“perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro”). Como é que isto se está a traduzir em “ética da responsabilidade” na práxis governativa é a outra questão que se segue.

Uma questão da fronteira

Ora, com o valor proposto, surge evidente a questão da fronteira. Para mim, com uma clareza que não deixa dúvidas. Quem alimenta as finanças públicas e quem são os seus principais beneficiários? Já se sabe que é a “middle class”, esse enorme centro que não pode fugir aos impostos e que constitui a principal fonte de receita fiscal, sendo também certo que, de um lado, estão aqueles – e são muitos, cerca de metade das famílias – que não pagam impostos (directos) por falta de rendimentos e, do outro, aqueles que não pagam o que deviam porque deslocalizam as sedes administrativas das suas empresas ou grupos, usam os buracos legais para fugir aos impostos ou obtêm legislação favorável devido ao seu poder. E é entre estas duas faixas que se situa a “classe média” pagadora.

Como sabemos, esta classe está sobrecarregada de impostos, directos e indirectos, de taxas e sobretaxas e de complementos solidários (veja-se a evolução das receitas em impostos e contribuições sociais entre 1995 e 2015: de 28.048 milhões de euros, em 1995, para 66.406 milhões de euros, em 2015, ou seja, quase o dobro – fonte “Público”, 18.09.16, p. 3, com base no INE e na DGO).

Sabemos também que nesta zona social se verifica uma grande amplitude de rendimentos, mas no interior de fronteiras razoáveis e bem determinadas. Este centro é, em boa verdade, o grande motor que movimenta a sociedade em todas as suas frentes fundamentais, do direito à medicina, da engenharia à investigação científica e ao ensino, da tecnologia à cultura e à criação artística, da pequena indústria ao pequeno comércio.

Zona social

Esta é, portanto, uma zona social a que a política deve prestar muita atenção, preocupando-se em identificar as suas identidades, as suas motivações, as suas capacidades e, já agora, os seus direitos. E a questão que se põe, ao confrontarmo-nos com o simbolismo desta medida em estudo, nos termos que são do conhecimento público, é esta: qual é a fronteira que a esquerda moderada estabelece para definir níveis de penalização fiscal, de “castigo”, em função dos rendimentos ou de “manifestação de fortuna”?

Ter uma casa de habitação do valor de 300 mil euros (por exemplo em Lisboa, onde trabalha) e outra casa (de família, por exemplo, no Porto, onde passa os fins-de-semana e as férias) à disposição no valor de 250 mil euros já deve ser motivo de castigo fiscal sobre 50 mil euros? Ponho intencionalmente de parte a questão de saber se o cálculo se refere ao valor comercial ou à imputação fiscal, porque se trata de uma reflexão sobre a determinação de uma fronteira simbólica entre modos diferentes de ver a vida e a sociedade.

De facto, trata-se de um problema de fronteira. A carga fiscal é pesada e a lógica do utilizador-pagador está disseminada. Um pesadelo. A isto viria juntar-se um castigo fiscal num limiar absolutamente inaceitável (no meu entendimento) que vai ter como consequência a desmotivação da classe média mais empreendedora, que arrisca, que investe, que inova, que trabalha para ter um pequeno conforto compensatório, numa palavra, da classe que se constitui como o verdadeiro motor da sociedade. E o peso simbólico da medida é, em muito, superior ao seu real significado financeiro.

O que subjaz a esta medida é uma visão do mundo que deve ser claramente percepcionada pelo cidadão no seu verdadeiro significado e alcance. Uns acolhê-la-ão. Outros, entre os quais me incluo, não. Mas o que deve ficar explícito é o seu real significado.
Se for por aqui o PS, sem se aperceber, corre o risco de deslizar para a ladainha e os cânticos de exaltação da santa irmandade solidária, abandonando uma matriz onde o valor da liberdade ocupa um lugar central! E, assim, passo a passo, o PS pode mesmo vir a esbater a sua identidade, deslizando, em certas matérias (por exemplo, de carácter financeiro), à direita e, noutras (por exemplo, em matéria fiscal), à esquerda, como consequência da assunção de uma lógica casuística na definição das suas posições.

Quadro de referência

Isto leva-me à conclusão de que o socialismo democrático precisa cada vez mais de definir um claro quadro de referência, a tal “cartografia cognitiva”, para que não perca a sua própria identidade e, no tempo, não acabe por perder a sua própria militância e o seu eleitorado.

Para ser ainda mais claro. Também o PS precisa – pelo menos no plano partidário e agora mais que nunca – de afirmar com vigor uma estruturada “ética da convicção”, uma “cartografia cognitiva” que constitua um claro quadro de referência que balize as suas posições para além de um “casuísmo” aleatório politicamente desgarrado e perigoso, sendo certo que, enquanto governo, estará sempre obrigado a uma “ética pública da responsabilidade” que deverá partilhar com os seus parceiros no Parlamento.

Parceiros que, de resto, não perdem oportunidades para exibir a sua própria “ética da convicção”. Defendi com argumentos esta solução política, mas, por isso mesmo, sinto-me à vontade para apontar as insuficiências e os perigos do caminho que o PS pode estar a percorrer, esquecendo-se de uma “ética da convicção” que seja âncora segura das suas posições políticas e dos seus compromissos.

LXXIV. Super Juiz. “O SALOIO DE MAÇÃO” E O PODER

TEXTO: JOÃO DE ALMEIDA SANTOS · 11 SETEMBRO, 2016. Jornal on line TORNADO.

Colheu-me de surpresa, confesso, a entrevista do Juiz Carlos Alexandre. Decidiu mostrar-se, finalmente. Na SIC. Em “prime time”

E, pelos vistos, dá nova entrevista ao “Expresso”, na próxima semana. Pergunta: o que mudou, para decidir mostrar-se de forma tão intensa e expressiva?

Juiz Carlos Alexandre

Na verdade, esta foi uma entrevista sobre o Juiz, mas também sobre o cidadão que desempenha essa função. E ficou-nos a ideia de alguém simples, comum, igual a qualquer outro. Juiz de primeira instância que nunca escreveu um livro; que não tem pós-graduações; que trabalha aos fins de semana para poder pagar os encargos;  que não faz férias há dez ou doze anos; que chega cansado a casa e ainda vai ouvir “escutas” depois de jantar; que não pode ir comer a restaurantes; que tomou “óleo de fígado de bacalhau em bicha de pirilau” quando era pequeno; que é um “bicho-do-mato” ou “o saloio de Mação”; que  aceita com tranquilidade o que o destino lhe reservar; que é alguém que tem poucos amigos e a quem a figura de Jesus Cristo fascina; que vai regularmente às festas da sua terra e às procissões; que só procura a verdade; que não é um super-juiz, um justicialista ou uma vedeta, mas simplesmente um homem que “faz apenas o seu trabalho” de forma séria e honrada – em suma, que é um homem normalíssimo, com algumas limitações e com algumas virtudes. Como todos.

A entrevista, de um modo geral, respeitou o guião, se era disso que se tratava. Diria que, se este era o objectivo, lhe correu relativamente bem. A generalidade das pessoas certamente apreciou o personagem. Poder-se-ia dizer: “Afinal, o homem é como um de nós!”. A identificação com o homem comum foi, na minha opinião e salvo alguns pozinhos de sacristia e de contida vaidade, conseguida!

Alguns deslizes

Teve, todavia, alguns deslizes (intencionais ou não). Referiu que não tem amigos pródigos e que não tem dinheiro ou contas bancárias em nome de amigos. Aqui, foi excessivamente explícito e crítico no juízo público que formulou,  ainda que por contraste com a exibição da sua própria probidade! Fez, com palavras, e sem legenda, o retrato de uma pessoa concreta que, no caso, está sob investigação à sua responsabilidade, enquanto Juiz de Instrução. E referiu, ainda por cima, que os cortes salariais à classe começaram precisamente no tempo dessa mesma pessoa, agora acusada! Imagino que não seja “vendetta”, até porque desconheço razões para tal. Mas alguém a pode interpretar desse modo! E fica claro que a imparcialidade a que está imperativamente vinculado pode ter ficado seriamente comprometida. E de forma ainda mais grave se tomarmos em consideração a recente Directiva/UE 2016/343, de 9.3.2016, do PE e do Conselho,  que recomenda, no número 4. 1., aos Estados Membros que tomem “medidas necessárias para assegurar que, enquanto a culpa do suspeito ou do arguido não for provada nos termos da lei, declarações públicas de autoridades públicas ou decisões judiciais (…) não apresentem o suspeito ou o arguido como culpado”, e sendo certo que no Preâmbulo (Consid. 17) fica claro que “pela expressão ‘declarações públicas emitidas pelas autoridades públicas’ deverá entender-se quaisquer declarações referentes a um ilícito penal, provenientes de uma autoridade interveniente no processo penal (…) como, por exemplo, uma autoridade judicial”! Precisamente: uma autoridade judicial. Que é, neste caso, o Juiz Carlos Alexandre. Este deslize (intencional ou não) poderá, então, vir a custar-lhe a titularidade do processo se “os órgãos competentes”, que irão ser accionados por José Sócrates (ver o seu artigo no DN, 10.09.16, p. 3), concluírem que o dever de imparcialidade do Juiz ficou gravemente afectado com as suas declarações acerca de contas próprias em nome de outros (precisamente aquilo de que acusa José Sócrates). Porque, no meu modesto entendimento, as alusões ao ex-Primeiro-Ministro – a foto, sem legenda, mas desenhada com palavras, está lá de forma evidente –  formulam uma imputação que está por provar e sabem a condenação sem julgamento!

O homem sem medo

Disse também que não é homem de quem se deva ter medo, porque cultiva a lei moral de Kant, ou seja: “age de uma forma tal que queiras que os outros ajam em relação a ti da mesma maneira”. O que é, também este, um deslize, desta vez filosófico: a lei moral de Kant (veja-se o Corolário do §7, Cap. I, Livro I da “Crítica da Razão Prática”, de 1788), ou seja, o “imperativo categórico” (“a lei fundamental da razão pura prática”), diz, sim, na “Fundamentação da Metafísica dos Costumes” (1785): “Age só segundo aquela máxima que tu podes querer que, ao mesmo tempo, se torne numa lei universal” (“handle nur nach derjenigen Maxime, durch die du zugleich wollen kannst, dass sie ein allgemeines Gesetz werde”). O que não é a mesma coisa. Neste, a acção vale por si e por isso pode ser elevada a norma universal. Ou seja, o imperativo categórico não resulta de um mero desejo de reciprocidade na acção moral, do tipo “não faças aos outros o que não queres que façam a ti”! E não resulta porque o móbil aqui é o interesse. Que é diferente da universalidade e da racionalidade da lei moral! Mas adiante!

O homem comum

Chegados aqui, o que eu julgo ser necessário evidenciar é que este discurso do “homem comum”, normal, banal, “saloio”, tem como pano de fundo uma outra narrativa genericamente silenciada ao longo da entrevista: a do poder. Mas que irrompeu, com força impressiva,  como discurso explícito e apodítico quando se falou do medo: dever-se-ia ter medo dele se virasse Kant do avesso e agisse movido por interesse e por maldade. Aqui, sim. Quando pôs esta hipótese acabou por reconhecer com grande exuberância o seu imenso poder! E ele sabia que quem o via e ouvia conhecia bem esse poder (designadamente, o de determinar a prisão preventiva de alguém que seja declarado suspeito, seja ele quem for). Poder que não é, de facto, o de um homem comum, mas o de um titular de soberania, de um “Meritíssimo Juiz” do TCIC que tem nas suas mãos todos os processos importantes do País! Ora, procurando dar de si a imagem de um homem comum, mesmo sabendo que a audiência o não considerava de facto como tal, ele teve como objectivo, deste modo, reforçar a legitimidade funcional – de que já dispõe – através de um processo de identificação simbólica com esse cidadão comum, a cidadania, dizendo mais ou menos isto: “sou um de vós e faço o meu trabalho de forma honrada e séria em vosso nome!”.

Onde está a falácia?

Este entrevista foi, pois, uma operação de marketing que visou reforçar “politicamente” a sua legitimidade funcional. Por que razão agora e com que objectivo?

Onde está, entretanto, a falácia? Em fazer passar por banal, comum e normal aquilo que o não é: esse poder imenso de que dispõe, resida ele no poder performativo da sua palavra ou no conhecimento analítico dos dossiers vitais dos vários poderes presentes na nossa sociedade.

Mas nada de novo. Há muito que o poder judicial tem uma férrea aliança com o poder mediático. E este foi mais um passo nessa mesma direcção. Mas este caminho tem um problema: a legitimidade do poder judicial é de natureza funcional e, por isso, não se deve pretender alterá-la, mudando-lhe a natureza, porque assim corre-se o risco de desvirtuar gravemente a função e de corromper os princípios e critérios a que ela está imperativamente vinculada. Esta entrada na cena mediática do famoso Juiz vem, pois, dar maior visibilidade àquilo que já se sabia estar a acontecer, ou seja, uma aliança táctica e espúria entre media e justiça ao serviço da legitimação dos próprios poderes. E isto é bom para a justiça?

No meu entendimento, não! Sobretudo quando o Juiz que julga um ex-Primeiro-Ministro exibe publicamente estados de alma, declarando-o culpado antes de o julgar e fazendo-o em prime time, numa televisão generalista de sinal aberto! Dirá: não pus lá o nome! Direi: mas desenhou-lhe, com exactidão, o rosto com palavras, sem pôr lá a legenda!

LXXIII. 3/9 · O “CHARLIE HEBDO”, 

A LIBERDADE… E A DECÊNCIA!

(Ilustração: Amatrice, antes do terramoto. Regione Lazio)

(1). Quando o “Charlie Hebdo” foi objecto de um brutal ataque, com vítimas mortais, pelos radicais islâmicos, levantou-se uma onda de indignação à escala planetária. A liberdade de expressão fora atacada à metralhadora na cidade que redigiu a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, em 1789! A França, depois disso, foi de novo alvo de vários ataques brutais (Bataclan, Nice), tendo morrido mais de duas centenas de inocentes. De novo, a intransigência radical numa brutal estratégia de “choque civilizacional”. A solidariedade foi, de novo, imediata e incondicional.
(2). Recentemente, na Região do Lazio, em Itália, um terramoto matou quase trezentas pessoas, a maior parte em Amatrice, cidade famosa pela beleza e pelos “bucatini all’amatriciana”. Comoção e solidariedade partilhadas em todo o mundo. Aquela zona de Itália, belíssima (como todas as outras), era de novo fustigada por uma violenta catástrofe natural. Ainda não nos tinha saído da memória a tragédia do terramoto de L’Aquila e… de novo centenas de mortos!
(3). Até que chegam os intelectuais do “Charlie”, já esquecidos do drama que também eles sofreram: a culpa do colapso dos edifícios não é deles e (presume-se) do terramoto, mas da Mafia e dos italianos que a toleram. Há muitos mortos e feridos. Neles vêem pratos de “pasta al sugo di pomodoro” (“penne” e “lasagna”)! Ou seja, olham para a imensa tragédia com a barriga e com o preconceito!
(4). Tenho a certeza de que todos os que, em nome da liberdade, mostraram solidariedade com o “Charlie Hebdo” a manterão com firmeza. Mas tenho também a certeza de que, com recíproca liberdade, a maioria esmagadora achará estes cartoons simplesmente execráveis e produto da mais infeliz indigência mental e moral.
(5). É certo que esta publicação de humor negro, com esta inacreditável “leitura” do terramoto, está a subir, de novo, e com força, ao topo da agenda pública, depois de ter estado numa triste penumbra noticiosa. Mas não vale tudo, como naquele filme (“The Network”, 1976, de Sidney Lumet, com Peter Finch e Faye Dunaway) em que para manter um alto nível de audiência o produtor televisivo acaba por levar, no programa, a representação até ao extremo do assassínio em directo, no estúdio, do apresentador: «Esta foi a história de Howard Beale (…), o primeiro caso conhecido de um homem que foi morto porque tinha um baixo índice de audiência”.
(6). A Itália é um país maravilhoso e todos os que o vivem ficam apaixonados por ele. Lembro-lhes o seu compatriota Stendhal. E, recordando a conversão apaixonada do famoso escritor por Roma, deixo aqui uma generosa sugestão ao infeliz cartoonista: vá passar (incógnito) uns tempos a Itália e verá como a sua inspiração melhorará, em qualidade estética e em elevação moral!

LXXII. IMPEACHMENT. Quanto conta o voto popular?

TEXTO: JOÃO DE ALMEIDA SANTOS · 1 SETEMBRO, 2016. Jornal on line “TORNADO”.

A história conta-se em poucas palavras. A Lei brasileira do “Impeachment” (1079/50, de 10.04) prevê, no art. 14 (Parte II, Título Único, Cap. 1), que qualquer cidadão brasileiro o possa solicitar

Três juristas, Miguel Real Jr., Janaina Paschoal e Hélio Bicudo solicitaram-no, em 2015. A pedido de quem? Não se sabe, mas…

  • Eduardo Cunha, Presidente da Câmara dos Deputados, que arriscava um processo na Câmara, acusado de ter 5 milhões de dólares na Suíça por subornos (Petrobras/Lava-Jato), pede a Dilma e ao PT que impeça, com o voto, a investigação. Dilma e o PT recusam. Cunha admite o pedido de “Impeachment” e despacha-o em grande velocidade. Final: Dilma perde o mandato presidencial. Michel Temer, o seu vice e ex-aliado, também ele suspeito de corrupção, torna-se Presidente efectivo até às eleições de 2018.
  • A acusação (por “crime de responsabilidade”) baseia-se em três decretos presidenciais que envolveram cerca de 717 milhões de dólares em créditos de bancos públicos para financiar as áreas da educação, do trabalho, da cultura e da justiça. Segundo os acusadores foram feridos o n.º 2 do Art. 11 e o n.º 4 do Art. 10 da “Lei do Impeachment”, que implicam “crime de responsabilidade” (Cap. VI – crimes contra a “Lei Orçamentária”). A defesa (e Dilma) argumentou que eram despesas já autorizadas pelo Senado, tendo-se verificado somente alternativas à alocação de recursos, não afectando a meta fiscal. Mas Dilma também foi acusada de ter atrasado o reembolso, ao Banco do Brasil, de cerca de mil milhões de dólares (relativos ao Plano SAFRA), considerando que este atraso era de facto uma operação de crédito (!), proibido por lei, incorrendo, por isso, noutro “crime de responsabilidade” (art.s 10 e 11). Na verdade, nem o próprio Ministério Público Federal o considerou crédito. Pedaladas fiscais! Mas, neste caso, a Presidente nem sequer praticou qualquer acto (a responsabilidade é do Ministério da Fazenda). Maquilhagem de contas, disseram os acusadores.
  • Fui ler a Lei. No caso do Presidente, para oito “crimes de responsabilidade” estão previstos 65 casos em que estes podem ocorrer. Cabe lá tudo. Até um que diz “proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decôro do cargo”! Ou, então, “infringir no provimento dos cargos públicos, as normas legais” ou, ainda, “não tornar efetiva a responsabilidade dos seus subordinados, quando manifesta em delitos funcionais ou na prática de atos contrários à Constituição”. Este último também foi invocado na acusação. E outros que são claramente instrumentalizáveis para efeitos de destituição arbitrária do Presidente. Basta interesse, um pouco de imaginação e bonecos de serviço.
  • Trata-se de “justiça política” e não já propriamente de responsabilidade penal. Muito bem. Mas com esta lei qualquer Presidente – e o regime brasileiro é presidencialista – está altamente fragilizado porque permanentemente sujeito a fáceis “conjuras” jurídico-políticas, como esta. E muito em particular pelos poderes fortes que circulam nos corredores do poder brasileiro… e fora dele. Por exemplo, pelos famigerados mercados (que até estimularam o processo)!
  • O “Impeachment” é um instrumento antigo. Vem de Inglaterra, do século XIV. Era um modo de submeter os Ministros (nomeados livremente pelo rei) ao crivo do Parlamento em caso de crimes graves (responsabilidade penal). A Constituição dos USA (1787) prevê-o explicitamente (art. 1, secção 3; art. II, secção 4). Mais tarde ganharia, de facto, uma dimensão também ético-política (veja-se o caso Clinton).
  • Este instrumento tem-se revelado bastante problemático e irregular. O Presidente é eleito por sufrágio universal directo (neste caso, foi por cerca de 54,5 milhões de eleitores, em 110 milhões). Também o seu é um mandato não imperativo e, portanto, só em caso de grave responsabilidade penal, e em extrema “ratio”, deveria ser aplicado (Constituição USA, 1787, art. II, secção 4: “traição, corrupção/extorsão ou outros crimes graves”). Mas, no caso brasileiro, com o que a lei prevê, há para todos os gostos. No fim de contas, do que se trata é de um instrumento para revogar mandatos presidenciais e confiscar a soberania popular (sobretudo num regime deste tipo).
  • Disse o ex-ministro da Economía, Nelson Barboza: “vocês decidiram que há um crime e, portanto, procuraram o delito”. Nem mais. O cardápio é extenso e para todos os gostos. Até para a nossa Paula Bobone, como vimos!
  • Os voluntários foram três mais um: os juristas e Eduardo Cunha que, afastado da Presidência da Câmara, ainda continua deputado (à espera do processo). A condenada, que nem sequer era suspeita, já perdeu o mandato presidencial. Bonita “justiça política”, esta!
  • A situação económica ajudou à festa, com o PIB a cair e o desemprego e a inflação a subirem! Mas, por isso mesmo, a democracia brasileira não precisava disto! Na verdade, as conjuras quase já não precisam de armas! Nem sequer das armas brancas do tempo de Maquiavel. Basta esgrimir, de forma conjugada e com alguma maestria, o direito e os media. Intelectuais orgânicos da conjura é o que não falta. E por isso não entendo esses democratas dos quatro costados que viram no afastamento de Dilma uma fulgurante vitória da sua formidável razão política.“Beati loro!”, costumam dizer os italianos.

LXXI. 29/8 ·NOS 75 ANOS DO MANIFESTO DE VENTOTENE

(Ilustração: Semanário “SOL”, 28.08.16, p. 56)

Transcrevo aqui o meu artigo de ontem, no “SOL”.

“OS 75 ANOS DO MANIFESTO DE VENTOTENE.

Foi no Verão de 1941 que Altiero Spinelli e Ernesto Rossi redigiram o “Manifesto de Ventotene”, proclamando a necessidade de superar os Estados nacionais e de criar um “Estado internacional” na Europa. E esta semana (a 22.08) reuniram-se, no navio Garibaldi, Merkel, Hollande e Renzi ao largo desta Ilha, para discutirem o futuro da União Europeia e, em terra, homenagear Spinelli, ali sepultado.

Já é alguma coisa! Pensar o futuro no signo de um Manifesto que, em plena guerra, e escrito no desterro, olhava para bem mais longe do que para a urgente libertação! Do mesmo modo se espera que estes personagens olhem para um horizonte bem mais vasto do que para o quotidiano incumbente. E que é bem pesado: Brexit, crise migratória profunda, problemas graves de crescimento e de emprego, crise financeira sistémica, tendências populistas que procuram repor as soberanias e as moedas nacionais, confrontos civilizacionais sob forma de violência difusa.

Pelos vistos, ainda faz sentido repor a distinção que Spinelli e Rossi faziam no “Manifesto”: a que põe no centro da agenda, não a questão de ter mais ou menos democracia ou socialismo, mas a que distingue entre reposição de um poder político de matriz nacional e construção de um poder político pós-nacional. E esta parece ser, cada vez mais, a linha que distingue entre progressismo e conservadorismo.

É básica, a distinção, sobretudo em tempo de globalização. Mas é o que parece já estar a ocupar o topo da agenda. E a verdade é que os nacionalistas e os que defendem a reposição das moedas nacionais estão a crescer em número e em força política. E alguns até são bem perigosos, porque procuram não só repor a soberania e a moeda nacionais, mas incluem no pacote o fim do próprio sistema representativo. Em geral, todos os populismos tendem a marginalizar a representação e a presença de corpos intermédios na gestão do poder. Mas o nacionalismo também traz consigo a intransigência para com a diferença, evoluindo para formas de racismo, de intolerância e de xenofobia. Agudiza-se, deste modo, as tensões e os conflitos. E a paz é ameaçada.

Espera-se, assim, que o Manifesto e a acção política do velho patriarca – que conseguiu fazer aprovar em 1984, pelo PE, uma Constituição para a Europa, abortada, depois, pelos mesmos que, mais tarde, afinal, viriam a sair da União – possam inspirar os três protagonistas que olharam para o futuro, em Ventotene. Todos ganharíamos com isso.”

LXX. 27/8 ·ROSAS BRANCAS, BOA RIMA?

(Ilustração: Rosa Branca em Loureiro,
no meu Jardim)

ROSAS… Loureiro acima
São fonte d’inspiração?
Brancas, dão boa rima?
Talvez sim e talvez não!

O ritmo vem cá de dentro
Da memória e dos afectos
Rosas brancas dão alento
Mas não desenham trajectos,
Dão ao Loureiro mais Luz
Iluminam a folhagem
Que assim mais me seduz
Provocando a mensagem
Na esperança que o vento
Seja mais do que aragem
Leve palavras cifradas
Me pinte como paisagem!

Olho, pois, para o Loureiro.
Ele diz: “faz poesias!”
É, pois, um bom conselheiro
Encanta-me todos os dias!

Ajuda-me no caminho
Motiva inspiração
E fixa o meu olhar
Na exacta direcção!

É suave a dizer-me
Que componha uma canção
Aninhando as palavras
Na palma da minha mão
Com que as faço voar
À procura de um chão
Onde possam ir buscar
Um sorriso de perdão!

Retira-me, pois, da rotina
Tira de mim o melhor
Faz-me olhar para o futuro
Dando à vida muita cor!

Não resisto a compô-la
É mais forte do que eu
Essa canção que m’embala
Quando o poema nasceu!

Se a não fizer, fico mal
Poesia faz-me bem
Preenche-me esse vazio
Onde me sinto refém!

As rosas dão-me alento
Ajudam-me a compor
Lá no meio do Jardim
P’ra libertar essa dor
Que é tormento sem fim!

A natureza dá paz
Quando cresce a meu lado
Põe-me sereno, eleva,
É terreno imaculado!

Supero as dores que eu sinto
Triste que é o meu fado
Por isso gosto de rosas
Ali mesmo a meu lado;
Flores, arbustos, videiras
Camélias e o Jasmim
Gosto de tudo o que cresce
Na terra do meu Jardim!

E gosto do meu Loureiro
Dá-me tudo e até rosas
Sem ele, sou pobr’arqueiro
Não atiro rimas nem prosas!

LXIX. 24/8 ·AMATRICE!

(Ilustração: Amatrice, antes do terramoto)

O TERRAMOTO EM AMATRICE deixou-me devastado. Muitos dos meus amigos de Roma eram de Amatrice ou de aldeias que integram “Il Comune”. Grande parte dos cozinheiros dos restaurantes do Centro de Roma era dali. Convivi muito com eles, quando jogavam cartas na Hostaria “Da Mario”, “alle Coppelle” – ali pertinho da Piazza Navona -, à noite, já sem clientes. Traziam frequentemente, embrulhados em folhas de jornal, pedaços de “tartufo” que cozinhavam, com “fettuccine e parmiggiano”, por volta da uma da manhã. “Bucatini all’amatriciana” é um prato que me acompanha há dezenas de anos. Sei cozinhar bem os “bucatini”, porque aprendi com o Mário, “L’Oste”, que era de Nommisci. O meu amigo Lucio, o dono do “Bar della Rotonda” (al Pantheon), também era dali. Sinto este drama dentro de mim. É como se tivesse acontecido na minha aldeia…

LXVIII. 21/8 ·DIZ O POETA P’RÀ LUA…

(Ilustração: “Arákhnê II”, de Ana de Sousa. Técn. mista s/ tela, 100×50. 2016. Em exposição no “Museu da Seda e do Território” até 25.09, Freixo de Espada à Cinta).

“Fala o Poeta p’rà lua:
‘Vê como é belo o loureiro!’
‘Cego és!’ – Responde o astro.
‘A figueira é mais fagueira!’
‘Mas o loureiro, o loureiro…’,
– Repete triste o Arqueiro
Das palavras sem resposta
Quer ele queira ou não queira…”
(AdS.).

FIGUEIRA OU OLIVEIRA?
Já vi as duas nascer
Na minha Quinta da Serra
P’ra onde foram crescer…

E por isso eu gosto delas
Gosto mesmo de as ver
Dão figos e azeitonas
Sua sombra dá prazer!

Aconchegam corpo e alma
Respiram eternidade
Na montanha onde nasci
Correm rios de saudade!

Com as duas aprendi
Da natureza a Verdade
Foi assim que as senti
Antes de ir p’rà cidade!

Nelas mergulho a memória
Com elas regresso a mim
A um tempo sem história
Mas com Saudade sem fim!

Também tu gostas delas
Afagam-te com carinho
Lembram-te tempos d’outrora
Marcaram o teu Caminho!

E agora tu regressas
Ao Rio dessa Saudade
Pintas Letras com Quadros
Enches de Seda a Cidade!

Foste buscar à Montanha
Roupagem de Divindade
Mas ela sente-se estranha…
…………………………………..
Falta, à seda, a Majestade
A que encontra lá no Alto
Onde o Céu toca na Terra…
……………………………………
É p’ra lá que sempre olhas
Fascinada pela Serra!

E lá regressas a Casa
Louvando-te nessa Memória
Palavras, Tinta e Seda
Reconstróis a tua história
Em impulsos de magia
Com esse pincel às voltas
P’ra criar a Utopia
Procurando a Beleza
Dias e dias sem fim
Mesmo sem ter a certeza
Que esculpirás Querubim!

Como Aracne queres tecer
Com fios de seda Beleza
Procurando reviver
Das origens a Sageza
Com cores, fios e telas
Um passado que é futuro
Cromáticas aguarelas
Ouro fino do mais puro…

Também é belo o Loureiro…
…………………………………
Sou cego, é a desgraça?
Mas se sou eu o Arqueiro
Voam setas quando passa!

Atiro a desatino
Quando está à minha frente
Nunca acerto, triste destino
Fica o Loureiro carente!

Está sempre em Silêncio
E é robusta a folhagem
Quando as setas o procuram
Passam por ele como aragem!

Não tem razão essa Lua!
Também Loureiro m’encanta
E se essa figueira é tua
Então nem a Lua m’espanta!

Loureiro cresceu depressa
Plantei-o no Jardim
Arbusto de bela folha
Foi crescendo para mim.

Mas não sofre com as setas
Que em palavras lhe atiro
É forte como rochedo
Sou eu próprio que me firo!

Olha-me sempre de pé
E disso nem faz segredo
É parte do meu viver
De perdê-lo, tenho medo!

Se ele se fosse embora
Partiria p’ra degredo
Sozinho, como castigo
P’ra uma ilha deserta
Com mil folhas de papel
E a alma sempr’ incerta…
…………………………..
Construía uma casa,
Mas com porta sempre aberta.

Já tive uma Figueira
No lugar do meu Loureiro
É verdade, era fagueira
Fiquei dela prisioneiro!

Na aurora da minha vida
Dava figos que eu comia
Enquanto crescia a seu lado
Era intenso o que sentia.

Mas um dia ela morreu
Deixou-me triste e calado
Sem saber o que fazer
Criei vida a seu lado
Plantei então Loureiro
Fiz tudo p’ra ser amado
Tornei-me bom jardineiro
No afecto imaculado
Para ver se conseguia
Ficar de novo encantado!

E não é que consegui!?
Partindo à aventura
Foi tão forte o que senti
Que ainda hoje perdura!

Perder uma, ganhar outra

São estas as leis da vida

Quis compensar a figueira

Pus minha alma em ferida!

LXVII. 18/8 ·AS ÚLTIMAS…

(Ilustração: Rocha Pinto. “Fuga”. 1992.
Acríl. s/tela 180×220. De: Rocha Pinto – Pintura. 1998. Lisboa: Tiragem. Catálogo, p. 17).

(1).
O NOBEL DA ECONOMIA JOSEPH STIGLITZ está a propor, no “Financial Times”, uma divisão do Euro em dois, um forte (do Norte) e outro fraco (do Sul). Ao Euro fraco ficaria imputada a dívida europeia. E a União manter-se-ia, na sua opinião. O Euro nasceu com defeito congénito, diz. Devia ser um meio para atingir um fim, mas tornou-se ele próprio no fim a atingir. Nisto até tem razão, vista a “algebrose crónica” de que sofrem os burocratas de Bruxelas. O dólar agradece. Assim, com o monopólio de moeda de referência no comércio internacional, pode voltar a ditar a Lei na economia mundial. No meu entendimento, esta regressão seria a certidão de óbito da União Europeia! Começava com o Euro e terminaria com as instituições europeias. O Euro está aí! O que lhe falta é um robusto respaldo político e económico!

(2).
PREOCUPANTE A SITUAÇÃO NA TURQUIA. Erdogan prende, detém e demite muitas dezenas milhar de pessoas e agora já manda destruir publicações (carta do Ministério da Educação turco, de 09.08): todas as que de algum modo possam estar ligadas ao universo de Fethullah Gulen (“requisitar e destruir as publicações que pertençam a estas fontes”). Está encontrado o inimigo total (e pedido de 1900 anos de prisão para Gulen). Nos anos trinta aconteceu na Europa uma situação com os mesmos ingredientes que esta tem vindo a exibir. A purga é radical. E numericamente gigantesca. Já são demasiadas coincidências para não nos preocuparmos. Uma democracia, mesmo em estado de emergência, pode comportar-se assim?

(3).
NA FRANÇA, VALLS atira-se contra o chamado Burkini. Multas para quem o usar, em nome da laicidade rigorosa do espaço público. Lá que a Burka levante problemas de identidade e, por isso, possa não ser admitida no espaço público, é compreensível. Mas ir para a praia vestido(a) parece ser não tanto um problema de laicidade do espaço público quanto um problema pessoal de quem vai assim tomar banho no mar! Os socialistas franceses andam de cabeça perdida e sem bússola ideal que lhes enquadre as opções políticas. Mas não são só eles…

(4).
AUMENTA O NÚMERO DOS REPUBLICANOS (a carta já tem mais de 100 assinaturas de influentes membros) que pedem ao partido que desvie os fundos da campanha de Trump para as candidaturas ao Congresso. Temem que a derrota do candidato se transforme também em derrota do Partido Republicano. Entretanto, a questão dos e-mails de Hillary está já no Congresso, nas mãos de um republicano… O Michael Moore não concorda com a tese que aqui defendi e diz que, afinal, é o próprio Trump que não quer e que, por isso, está a fazer tudo para não ser Presidente! Também é uma hipótese…

LXVI. 13/8 ·TRUMP OU O EFEITO BOOMERANG! 

(Ilustração: Rocha Pinto. “Jukebox”. New York, 1990.
De: Rocha Pinto – Pintura. 1998. Lisboa: Tiragem. Catálogo, p. 35. Acrílico e óleo s/ tela, 198×152,5 cm)

(1). Estamos a assistir, nos Estados Unidos, a umas eleições presidenciais algo estranhas. Primeiro foi o sucesso improvável do “socialista” Bernie Sanders, mantendo-se até ao fim no encalço de Hillary Clinton e, depois da rendição, a impor à candidatura vencedora pontos essenciais do seu programa. Não é pouco!

Depois, foi a vitória esmagadora do “outsider” Donald Trump no seio dos republicanos, aplaudido por Putin, Kim Jong Un, Geert Wilders, Matteo Salvini, Marine Le Pen, Viktor Orban, Nigel Farage. Tudo democratas de primeira água! E agora é a estranheza do próprio partido republicano perante o seu candidato em plena campanha eleitoral. Trump fez um discurso “politicamente incorrecto” e anti-sistema durante as primárias, entrando profundamente no campo ideológico da extrema direita. E esse discurso terá sido a sua principal arma. Mas agora, em plena campanha, e a três meses das eleições, o seu discurso continua fortemente disruptivo. Ao ponto de estar a pôr o partido em convulsão, sendo certo que muitos pesos-pesados republicanos (Negroponte, Susan Collins, John McCain, Mitt Romney, Jeb Bush, Meg Whitman, Richard Hanna, Paul Ryan e tantos outros) não apoiam Trump e que Hillary está a descolar significativamente nas sondagens!

(2). É teimosia de Trump? Não abdica de um estilo próprio? Ou são os seus “spin doctors” que insistem nesta linha de discurso? Trump, entre tantas outras afirmações polémicas, convidou os russos a revelarem os famosos e-mails de Hillary; apelou ao povo da “segunda emenda” (“direito dos cidadãos possuírem e usarem armas”) para travar a candidata democrata; disse que foi Obama que fundou o Daesh, sendo Clinton co-fundadora! Não é coisa pouca!

Este discurso está a deixar o partido republicano à beira de um ataque de nervos e já se fala em corte do financiamento republicano à campanha, concentrando exclusivamente a atenção nas eleições para o Congresso.

(3). Então, por que razão insiste no discurso?

Em tempos tinha-se assistido em Itália a algo semelhante, com Berlusconi a dizer recorrentemente “cazzate”, disparates, e a fazer figuras impróprias de um homem de Estado. A coisa é mais séria do que parece. Trata-se da aplicação de uma famosa teoria sobre os “efeitos dos media”: a do “agenda-setting”. E o que diz esta teoria? Que não importam os conteúdos, não se verificando efeitos a este nível. O comum das pessoas não chega à descodificação analítica dos temas em agenda. O que importa é o poder de agendamento, de polarização da atenção do público sobre determinados temas ou assuntos. E o assunto central era, naquele caso, ele próprio, Berlusconi. Um discurso fora da norma e contra o sistema (o dos “politiqueiros” sem profissão) punha-o no topo da agenda, reforçando a sua notoriedade. Berlusconi ocupou o centro da agenda política durante 19 anos.

(4). Ora eu creio que também no caso de Trump se verifica a mesma estratégia: pô-lo permanentemente no topo da agenda. Vejamos a questão da “segunda emenda” (promulgada em 1791, com a primeira, sobre a liberdade de expressão e de imprensa): a fórmula usada é equívoca, mas de efeito seguro, porque alude ao uso da violência contra a candidata. Ora, o outro (mais provável) sentido do que disse Trump corresponde à clarificação que a sua campanha viria a fazer mais tarde: os da “segunda emenda” são muitos e com o voto (não com a violência) podem travá-la. É um exemplo muito interessante de como Trump faz falar de si, pondo-se no topo da agenda. E o mesmo vale para o discurso sobre o Daesh (só que este foi menos eficaz): tratou-se de sarcasmo, viria a ter de clarificar mais tarde Trump.

(5). Puro spinning? Em parte sim, ressalvando a efectiva orientação ideológica de direita intensa do candidato. Só que o spinning também tem os seus efeitos secundários e, agora, com doses tão fortes, está a virar-se contra os promotores. Spinning, tacada discursiva “com efeito”, mas que acabou por se tornar mais do que isso: BOOMERANG!

Último texto, de 09.08.2016.

LXV. ABRIU-SE BRECHA NO CÉU!
(Carta, em registo poético,
de Gianni della Rovere a Paola Valenzi.
Ambiente: Piazza Navona, de Filipa Antunes)

FOI UM RAIO FULMINANTE
Havia sombras no Céu
Atingiu-me nesse instante
Fiquei preso a um Véu
Invisível ao olhar
Feito de seda fina…
………………………………..
Não o podia rasgar!

Abriu-se brecha no Céu!
Temi que fosse um castigo
A terra tremeu a meus pés
Mas era de seda o Abrigo!

Nesse instante t’inventei
Sem saber o que fazia
Esculpi-me a teu lado
Nesse Véu onde eu vivia
Envolvendo-me o corpo
Era prisão que não via
Feita de fios de seda
Em êxtase eu me sentia!

Intenso foi o momento
Em que inventei o caminho
Fui levado pelo vento
Não me sentia sozinho…
…………………………………………..
E o ritmo era lento…
A brisa soprava baixinho!

Era macio esse Véu
Cobria-me os movimentos
E quando olhava o Céu
Voava por uns momentos
E essa brecha subia
Para ver se te alcançava…
…………………………………………..
Mas de tanto eu te amar
Já nem o Céu me chegava!

Dessa brecha já saíra
O amor da minha vida
Que resiste às tempestades
Como paixão proibida!

E assim lá fui tecendo
A malha do meu viver
Vivendo exaltação
Simplesmente por te querer!

Por isso eu não t’esqueço!
Se quisesse não podia
Um raio me fulminou
Capturou-me nesse dia!

Tudo mudou nesse instante
Recriei a minha vida
Descobri o que não tinha
Pus-me em linha de partida
Para ver se conseguia
Inventar nesse teu rosto
A minha própria alquimia!

Nunca te esquecerei
Foste pousar na memória
Mesmo que eu fosse rei
Seria triste glória
Pois sei que não te terei
Que o meu destino é fatal
Viverei, assim, sozinho
Sofrendo este meu mal
Soletrando com carinho
Teu nome como sinal
Letra a letra, devagarinho
Em toada musical
Procurando encantar-te
Com ecos de catedral
Que cheguem lá muito longe
Te atinjam lá no fundo
São ecos do meu amor
Que ressoam pelo mundo
Como cânticos sagrados
Dum coração vagabundo!

Abriu-se brecha no Céu
É um eco repetido
Que ouço a cada instante
Revivo-te, comovido!

Esse raio penetrou-me
Tu vives dentro de mim!
Ess’ outro que desconheces
Vive em torre de marfim
Com palavras construída
Do que já tinha em si
Onde te quis celebrar
Em rituais só para ti!

Ess’outro que esqueceste
Que dizia sempre “sim!”
Depois da tua partida
Recriou-te no Jardim
A partir de um arbusto
Que não sendo de marfim
Deixa pousar seu olhar
Em mil folhas de cetim!

Nunca te esquecerei
Ainda que viva cem anos
Porque nunca mostrarei
A outra face de Janus
A que foi sempre tua
Sem que o pudesse dizer
Porque minha alma nua
Eu tinha de proteger!

LXIV. IMPRESSÕES!

(Ilustração: O Maracanã, no dia da abertura dos Jogos Olímpicos e da monumental vaia a Michel Temer)

1. NO MARACANÃ!
Michel Temer vaiado! Tem algum significado político a vaia no Maracanã! Foi perante todo o mundo! A impressão que ficou do processo que está a findar, com o provável desfecho da destituição definitiva de Dilma Rousseff, é a de que se tratou de uma lamentável golpaça palaciana (há pareceres oficiais que ilibam Dilma do dito crime de desorçamentação), desencadeada por indivíduos sob suspeita, incluído o próprio Temer e Eduardo Cunha. Perdeu a democracia no Brasil. O mínimo a exigir seria a convocação imediata de novas eleições presidenciais.

2. O PESADELO ERDOGAN!
Inúmeras personalidades (deputados europeus, 40, e inúmeros professores de reputadas universidades europeias e americanas – cerca de 420) subscreveram um apelo ao Presidente Obama, ao Secretário de Estado Kerry, ao Secretário da Defesa Carter, a Federica Mogherini, Alta Representante da UE e Vicepresidente da Comissão, e a Jagland, Secretário-Geral do Conselho da Europa, para que acompanhem a situação na Turquia e tudo façam para repor a normalidade democrática neste País. Os números das detenções e das destituições (até 20 de julho cerca de 61.000 no sector público e 21.000 professores de escolas privadas impedidos de ensinar) em todos os sectores da vida turca são alarmantes e a impressão é que se esteja a caminho de uma ditadura de inspiração islâmica, num País com o segundo maior exército da NATO, que tem em custódia, na base aérea turca de Incirlik, dezenas de bombas atómicas, com dois milhões e meio de refugiados sírios, situado num ponto de confluência entre o ocidente laico e liberal e a mais importante zona de implantação do islamismo. O universo que gira em torno de Fethullah Gulen parece ser o pretexto e o alvo imediato. Mas já vimos situações parecidas, com o desfecho que todos conhecemos. Juntando-lhe a mobilização permanente da população e as recorrentes manifestações no País – a última de um milhão de pessoas – e no estrangeiro (Alemanha) a aclamar Erdogan, é caso para temer o pior. Mais: a sensação que dá é que um país com vocação de tampão/ponte entre dois mundos pode passar a guarda avançada do islamismo. Esta situação mereceria uma atenção muito especial por parte das principais potências presentes na cena internacional. Agir enquanto é tempo.

3. HILLARY À FRENTE!
Hillary parece ter descolado nas sondagens: dez pontos à frente de Trump. A Convention democrática, com a mobilização dos principais protagonistas da política democrática americana, teve nisso um papel decisivo. Lugar de destaque para Barack e Michelle Obama. Entretanto, os republicanos viram o homem forte da Fox e seu poderoso “spin doctor”, Roger Ailes, demitir-se, acusado de antiga e permanente troca de favores sexuais com as suas colaboradoras, a começar pela ex-jornalista da Fox Gretchen Carlson e a acabar na “anchorwoman” mais célebre dos Estados Unidos, Megyn Kelly, que teve também a “ousadia” de pôr em dificuldades o próprio Trump durante um debate nas primárias. A seu tempo caíra Karl Rove. Agora é a vez de Ailes. Dois gurus mundiais do spinning. E isto não ajuda os republicanos!
Mas, num mundo tão instável como o que temos neste momento, não é necessário um novo e poderoso gerador de instabilidade e conflito como seria um Donald Trump Presidente.

4. ESPANHA – MUDAR A LEI ELEITORAL!
Continua o impasse em Espanha. Rajoy está de novo em dificuldades. E a situação de Pedro Sánchez não é melhor. Acossado à esquerda por PODEMOS e à direita por um PP reforçado pelas últimas eleições, Sánchez ver-se-á fragilizado se permitir um governo do PP (ou participar nele), oferecendo a oposição ao PODEMOS, mas ver-se-á também fragilizado se impedir a formação de um governo, acabando acusado de irresponsabilidade e de ter levado os espanhóis três vezes às urnas num só ano. Este é seguramente um caso que exige uma alteração da actual lei eleitoral proporcional. E uma atenta reflexão sobre o que está a mudar na política actual.

5. DA LIGEIREZA AO EXAGERO
Entre nós, continua a saga das viagens-Galp. Sendo certo que houve ligeireza dos três Secretários de Estado, também parece ser verdade que não lhes está associado qualquer indício de favorecimento. Até acho, por isso, exagerada a intervenção do Ministério Público para recolher elementos, sobretudo porque terá certamente coisas mais importantes para fazer. O nacional-puritanismo de fachada neoliberal parece ressurgir de cada vez que o PS está no governo. Já agora: não seria mais importante pôr na agenda a delicada questão das relações dos grandes grupos económicos com o fisco? E dos bancos com o Regulador?

6. CAÇA AO HOMEM?

Fiquei estupefacto com a investigação do Ministério Público ao Advogado Pedro Dellile (ao que parece por motivos ridículos – veja-se a notícia do SOL, de 06.08.16, pp. 18-19), defensor de José Sócrates. Ainda não ouvi uma palavra da Bastonária dos Advogados sobre o assunto. A situação é grave, porque a defesa do ex-Primeiro Ministro fica, assim, diminuída nas suas capacidades (sob suspeita) e, por essa via, o seu constituinte também, nos seus direitos. Só falta mesmo pôr também o Advogado João Araújo sob investigação!

LXIII. HILLARY! (08.08.16)

(1). Hillary Rodham Clinton é a candidata oficial do Partido Democrático à Presidência dos USA. À parte o incidente dos e-mails, que levaria à demissão da Presidente do Partido, a Convenção de Philadelphia correu bem. A presença eficaz de Barack Obama, Michelle Obama, Elizabeth Warren, Bernie Sanders, Bill Clinton representou um notável reforço da sua candidatura. O discurso de Hillary também foi significativo, não só porque evidenciou a profunda diferença política e de valores que a separa de Donald Trump, como incorporou o discurso político de Sanders, dando um claro sinal de distanciação relativamente ao excesso de centrismo e de compromisso com o poder financeiro de que estava a ser acusada: aumento do salário mínimo; não aos tratados de livre comércio ‘iníquos’; universidade gratuita para os estudantes mais pobres; maior carga fiscal para os ricos; punição fiscal das multinacionais que deslocalizem; contenção e controlo de Wall Street; fim da “Citizen United” (que alargou excessivamente a possibilidade de financiar as campanhas eleitorais); separação entre bancos comerciais e bancos de investimento; desmembramento dos colossos financeiros de risco sistémico; plano gigantesco de relançamento do emprego (F. Rampini, “La Repubblica”, 29.07). No plano programático, valeu a pena a candidatura de Bernie Sanders.

(2). E, de qualquer modo, sempre se trata da primeira mulher candidata ao altíssimo cargo de Presidente dos USA. A seguir ao primeiro Presidente negro poderá vir a primeira mulher Presidente. Mas não é fácil suceder a Barack Obama, à leveza de uma Presidência que, todavia, conseguiu recuperar cerca de 15 milhões de empregos, enfrentando a pior crise económica de que há memória depois da crise de ’29. Hillary não tem seguramente o fascínio e a leveza de Obama. E, sejamos francos, não apresenta aquela feminilidade que poderia fazer a diferença. Ela é segura, tenaz, de poucas palavras, dura, persistente, pouco retórica. As suas mais evidentes qualidades enquadram-se mais no tipo masculino do que no feminino. Neste sentido, pese embora o seu discurso aparentemente “viril”, Trump é mais feminino do que Hillary (sem ofensa para as mulheres). Vittorio Zucconi di-lo de forma curiosa: recuperando o mais antigo dos estereótipos, é evidente qual dos dois usa calças e quem é mais volúvel, mais vaidoso e mais histérico. Ele, não ela, é a “mulher” na linguagem dos lugares comuns machistas. E ela talvez apareça até demasiado “homem” (La Repubblica, 29.07). Portanto, Hillary, uma mulher, sim, mas de poder, talvez naquilo que o poder tem de mais masculino, a começar pela palavra. Estranha situação: uma mulher que, pela primeira vez, chegará ao poder presidencial, mas exibindo mais características masculinas do que o seu rival do género oposto. Mas é esta situação que poderá revelar-se perigosa nestes tempos conturbados de triunfo das imagens intensamente impressivas!

(3). Habituei-me a admirar Hillary quando teve de passar pela humilhação do caso Lewinsky. Aguentou-se como uma grande Senhora e saiu por cima. Esta sua atitude dá-me até mais garantias do que os altos cargos políticos que ocupou, incluindo o de Senadora ou de Secretária de Estado.

(4). Há, no entanto, na sua candidatura algo que poderá não a ajudar. Uma consistente franja de eleitorado (em particular a que votou Sanders, mas que, depois dos Discursos de ambos, se espera que mude de atitude) parece posicionar-se pela sua candidatura simplesmente por oposição ao perigo que parece constituir Donald Trump. Ora, esta atitude não favorece a mobilização e o entusiasmo na disputa. E este discurso ganhou alguma quota de mercado pelo menos até à Convenção, podendo não só esbater as qualidades pessoais de Hillary como o seu próprio programa, agora mais de centro-esquerda, depois do acordo com Bernie Sanders.

(5). Uma coisa é certa. Além de Trump constituir uma ameaça, os candidatos à presidência são sempre, nos Estados Unidos, submetidos a duríssimas provas ao longo de cerca de um ano ou mais. E o que é impressionante é verificar que um personagem como Trump conseguiu vencer as primárias do Partido Republicano de forma tão folgada, chegando mesmo às mais recentes sondagens em posição muito confortável.

(6). Também neste aspecto, a que se junta o caso do “socialista” Sanders, é de notar que algo está a mudar na política mundial. Trump é um candidato anti-sistema, enquanto Outsider, apesar de ser filho dele, mas sobretudo por uma narrativa que de algum modo subverte a própria matriz do “americanismo” e os fundamentos do seu sucesso. Também Berlusconi o era e esteve 19 anos no centro do poder em Itália. Só que este funcionava como uma espécie de “autobiografia da nação” (Bobbio)!

(7). Mas esta imagem anti-sistema pode representar uma vantagem de Trump relativamente a uma Hillary cuja imagem é demasiadamente institucional e do sistema, mesmo depois de ter incorporado, com Bernie Sanders, orientações programáticas fortemente reformadoras.

(8). Os USA são decisivos para o andamento da política mundial. Há demasiados pontos críticos na política internacional para virem a ser abordados com a narrativa de Trump. E os perigos são dois: regressão civilizacional e caos internacional. Hillary merece ser defendida com todas as forças, sobretudo agora que incorporou no seu programa corajosas reformas que só farão bem à economia e à política internacional!

………………………………………..

I. NOTAS SOLTAS

Vou ali apanhar gambozinos digitais…

(Domingo, 24.07.2016. Ilustração:
“Keep Calm and Go Fishing Gambuzinos”.
Escrita correcta, pré-acordo ortográfico: Gambozinos.
Pós-acordo ortográfico: Pokémon)

(1). Sobre a notícia da suspensão dos fundos estruturais da União Europeia a Portugal: pelos vistos, a notícia (da SIC, creio) não era exacta. Seria bom que os media apurassem com rigor a veracidade do que noticiam. E todos os que têm altas responsabilidades institucionais, designadamente Ministros, também têm o dever de confirmar a sua veracidade antes de tomarem posição pública sobre o assunto. Caso contrário, acentua-se o descrédito da informação e da política.
(2). Aníbal Cavaco Silva – que não tem nada a ver com a crise que estamos a viver, depois de 20 anos no poder – avisa que conhece muitos segredos… e que esteve no poder no momento certo! Claro, saiu há pouco e deixou um país a viver em abundância… Se não fosse o seu saber e a sua experiência há muito que Portugal tinha deixado de ser País! Obrigado!
(3). Já vai em 13.165 o número de detidos na Turquia (palavras do próprio Presidente Erdogan). Se não é, até parece: está em curso a construção de uma ditadura de inspiração islâmica? A purga é gigantesca e estende-se à sociedade civil, não só às forças militares e de segurança. E é isso que é preocupante! Mas preocupante é também o perigo de afastamento da Turquia da esfera de influência ocidental e da sua matriz política e geoestratégica!
(4). O sociólogo e criminologista francês Gabriel Tarde (1843-1904) teorizou o fenómeno da imitação como sendo o “acto social elementar”, em “As leis da Imitação”, de 1890. A sua teoria ficou um pouco na sombra (os astros de Durkheim e de Weber ocuparam todo o palco), mas merece ser levada a sério (e foi o que fez Elihu Katz). Os media deveriam estar atentos, no exercício permanente e exigente do agendamento, a esta tendência estrutural para a imitação, fortemente induzida por eles na sociedade de massas. O caso de Munique parece enquadrar-se, em parte, também neste processo.
(5). E, já agora, esta febre dos Gambozinos digitais (pokemones) não estará a subir exponencialmente devido também à cobertura que os media lhe estão a dar? As tecnologias da informação e da comunicação parece estarem a capturar cada vez mais os indivíduos, provocando uma espécie de desvitalização progressiva das relações orgânicas, sociais e humanas. Aqui as relações já não com seres humanos, mas com entes digitais ou virtuais. De resto, é o que está a acontecer cada vez mais na Rede. Mas, dir-me-ão, sempre são mais reais do que os Gambozinos! Mas é esse precisamente o problema!
(6). (Significado de “Gambozinos” (só existe no plural): “pássaros ou peixes imaginários com que se engana os pacóvios, mandando caçá-los; andar aos gambozinos: ‘andar desnorteado'” – Dicionário da Língua Portuguesa, Porto, Porto Editora, 2012)

II. TROPECEI DE NOVO EM TI…

(Um encontro na Piazza Navona, Roma.
Ilustração: Piazza Navona,
de Filipa Antunes)

Tropecei de novo em Ti!
Duas vezes, afinal!
Na segunda já não foi
Um encontro casual!

Sabias qu’estava lá
Irrompeste com sorriso
Foi p’ra mim uma surpresa
Vi portas do Paraíso!

Vi-te serena, sorrindo
Gostei de te ver assim
Quis beijar-te com os olhos
Não foi fácil para mim!

Foi suave o nosso Encontro
Sabias da minha presença
Mas julguei que lá não ias
Que mostravas indiferença
Vontade de não me ver
Como um dia me disseste…
………………………………………..
Mas voltaste a reabrir
Essa ferida que fizeste
Enfrentando-me ali
Rosto sereno, frontal…
……………………………………
Hesitei perante ti…
Não foi momento banal!

Quase te disse “Bom Dia!”
Mas temi a reacção
Conhecendo esse feitio
Tive medo do teu “Não!”

Mas fiquei talvez feliz
Deste encontro inconclusivo
Quem iria imaginar
Poder falar, hoje, contigo?
Com os olhos, pelo menos
Com palavras, não podia
Mas formas são de somenos
O olhar tudo diria!

Ficou vaga sensação
E também melancolia
Foi tímida a reacção
A melhor que eu podia!

A ideal, talvez não,
A surpresa pôs-me tenso,
Olhei-te com atenção
Senti-me um pouco suspenso
Sem saber o que fazer
Com passado tão intenso…
Corpo e alma a doer
Com a mesma intensidade,
Senti-me adoecer…
Tão grande era a saudade!

Se não mais te encontrar
Invento encontros sem fim
Procuro em versos teu rosto
Desenho-te só para mim!

Não me fixo no teu corpo
É dor atroz, que faz mal
Projecto a tua imagem
Num ecrã que é mental!

Com a força do meu ânimo
Sobreponho-me ao real
Evito, assim, o vazio
Recrio-te num ideal!

Bem sei que não me perdoas
Que traçaste uma fronteira
Onde não poder passar
Tão espessa era a barreira…

Mas vias sempre nas outras
Rivais que me roubavam
Fustigavas, pois, meus dias
Com sinais que me matavam
Me feriam bem por dentro
Sem poder de reacção
Atingiam-me no centro
Com a força dum arpão
Na minha alma d’amante
Que nunca terá perdão
Por amar quem não devia
Como se fosse traição!

No futuro eu não sei
Se te poderei encontrar
Foi relação tão difícil
Não há meio de a salvar?

Não quero nada de ti
Quero ver-te como és
Encontrar-te por aí
Trazida pelas marés…
Desse mar que é a vida
Em que estou fundeado
Pronto para a partida
Pela vida condenado
A perder o que não tenho
Se não me sentir amado!

III. DO BREXIT A ISTAMBUL… 

(Ilustração: Altan, em “L’Espresso”, 28.02.16)

A política regressa em força, embora isto não queira dizer – bem pelo contrário – que o casino financeiro não continue na agenda, a aproveitar-se das ondas de choque e a ditar morte e vida de quem recorre aos mercados financeiros…

A.
1. O massacre de Nice, já reivindicado pelo Daesh, aprofunda o medo e as tendências nacionalistas e securitárias na Europa.
2. O falhado golpe de Estado na Turquia, com forças armadas integradas na NATO, reforça as preocupações sobre o avanço político do islamismo (incluído o radical), num país tampão para a Europa. Erdogan, pelos vistos, já tinha a imensa lista de suspeitos preparada, porque em poucas horas já agiu sobre seis mil…
3. O Brexit está a alimentar tendências centrífugas relativamente à União Europeia, mas também os graves problemas internos…
4. A progressiva afirmação dos chamados movimentos “insurgentes” na Europa põe cada vez mais em causa a velha geometria política, assente na alternância e nos partidos de massas tradicionais, reforçando também as correntes eurocéptica, referendária, anti-imigração, proteccionista e populista.
5. O caso polaco, por exemplo, é ilustrativo, sabendo-se que o partido “Lei e Justiça”, do Senhor Kaczynski, que governa (com 236 mandatos em 460), é eurocéptico e adepto de uma profunda reforma em sentido minimalista da UE, numa perspectiva anti-federal. Posição também defensiva é a do Fidesz, na Hungria, do Senhor Orbán, que governa (com 114 mandatos em 199) e que promoveu um referendo (para Outubro) sobre a política migratória da União. O mesmo, mas em relação ao Euro, para o Movimento5Stelle, de Beppe Grillo, que já ultrapassou o Partido democrático (que governa) na média das últimas sondagens (a média de cinco sondagens de Junho – Demos, Lorien, Euromedia, EMG e SWG – corresponde a 30,86% para o M5S e a 30,40% para o PD). Não se sabe o que acontecerá nas próximas presidenciais (de Outubro) na Áustria, podendo a extrema-direita aceder ao poder presidencial.
6. Os partidos europeus ditos “insurgentes” somam, em 25 países, 1.329 mandatos nos parlamentos nacionais, fazendo parte de soluções governativas em vários países (em oito Estados Membros, se não erro) e estando a tornar-se partidos fortemente representativos, noutros. Veja-se o “Podemos”, em Espanha.
7. Tudo isto mereceria uma análise integrada por parte dos partidos da alternância, que deveria centrar-se, todavia, mais na análise das tendências em curso, em todas as esferas da política, do que na gestão casuística das relações de poder.

B.
Gordon Brown publicou, a propósito do Brexit, um interessante artigo no “Project Syndicate” (publicado pelo DN de 15.07, p. 27), onde aponta oito incertezas que afectam o futuro do Reino Unido: 1. Quando começam as negociações para a saída?; 2. As negociações incluirão em simultâneo os termos da saída e o futuro da cooperação? 3. Nas relações com a UE será assumida a opção norueguesa (pleno acesso ao mercado único – EEE) ou a opção suíça? 4. Que política negocial para a gestão da migração? 5. Quem vai negociar a saída e o futuro: a Comissão ou o Conselho de Ministros e que papel terão as eleições francesas e alemãs do próximo ano? 6. Em que condições estará a economia inglesa durante as negociações, vista a suspensão do investimento interno e a crescente pressão empresarial? 7. A questão da sobrevivência do Reino Unido, em face do problema da Escócia e da Irlanda do Norte. 8. Como irá reagir o RU à globalização na sua nova posição?

São questões complexas que condicionarão o futuro do RU, mas que porão à prova também a estratégia da UE. Entretanto, como conterá a UE as tendências centrifugas? Estarão as actuais lideranças à altura dos desafios?

É preciso mais política e reflexão sobre o novo que ainda não se exprime com toda a sua evidência e o velho que tarda a morrer. Os políticos clarividentes devem colocar-se nesta intersecção se quiserem responder com eficácia aos desafios do futuro que já está aí diante de nós. E que não sorri!

IV. O BEIJO!

Os Beijos escritos não chegam ao destino?
São bebidos pelos fantasmas durante a viagem?

(Ilustração: Rosas em Loureiro
com Luz, no meu Jardim)

No DIA INTERNACIONAL DO BEIJO ou do ” Stolen Kiss Day “ (comemorado a 6 de Julho, o dia que eu prefiro, ou a 13 de Abril) não resisto a repropor uma poesia, inspirada no Thomas Mann de “Lotte em Weimar” (1939), a obra que continuou o “Werther” (1774), de Wolfgang Goethe (1749-1832): “Ist die Liebe das Beste im Leben, so in der Lieb das Beste der Kuss, – Poesie der Liebe…”. “Kuss ist Glueck, Zeugung Wollust” (O amor é o melhor na vida, assim no amor o melhor é o beijo – Poesia do amor…”. “Beijo é alegria, procriação é luxúria”).

O BEIJO, sublime, é a Poética do Amor! Transcende o sexo, o acto da procriação ou o puro prazer. Eleva-se à ternura, ao afecto espiritual e evolui subtilmente para a identidade sensual. Aflora o corpo sem o possuir. Toca a sensualidade sem a capturar…

Republico, pois, a poesia que publiquei em Abril, com profundas alterações adaptadas a este dia seis de Julho, mas agora inspirada também em algumas frases célebres:

(1). “Geschriebene Küsse kommen nicht an ihren Ort, sondern werden von den Gespenstern auf dem Wege ausgetrunken”.
(“Os beijos escritos não chegam ao destino, mas são bebidos pelos fantasmas ao longo do trajecto” – F. Kafka).

(2). “If I were to kiss you then go to hell, I would. So then I can brag with the devils that I saw heaven without even entering it”.
(“Se para te beijar devesse, depois, ir para o inferno, fá-lo-ia. Assim, poderia vangloriar-me, com os diabos, de ter visto o paraíso sem nunca lá ter entrado” – W. Shakespeare).

(3). “O primero beijo não é dado com a boca, mas com os olhos” (O. K. Bernhardt).

O BEIJO

Foi o que nunca te dei
A não ser com o olhar
O primeiro, esse Beijo,
Dei-to, pois, sem te tocar!
E dei-te mais, com palavras,
Quando olhar já não podia
Foste embora, não estavas
E eu, triste, não te via!

Foram Beijos que sonhei
Na rotina dos meus dias
E desejo que enfrentei
Quando tu mais me fugias!

Mas dou-te beijos escritos
Que se perdem no caminho…
E quando o verso escasseia
Fico ainda mais sozinho!

É alegria d’amor,
É suave respirar,
É encontrar-te no céu,
É vontade de te amar!

O Beijo é despedida
É sentir qu’estamos perto
E é a justa medida
De coração descoberto
À mercê da tempestade
Navegando em mar aberto
Sob olhar de divindade…
Mas contigo ali por perto!

É desejo, é procura
É sinal e é mensagem
É razão suficiente
P’ra te ter como Paisagem!

O Beijo é emoção,
É razão descontrolada,
Se não for dado a tempo
Pouco mais será que nada!

Sem Beijo não há amor
Sem amor perde-se o beijo
Nada tem qualquer sentido
Quando falta o Desejo!

Aqui o lanço ao vento!
Que atinja como brisa
E suave melodia
Banhe rosto que precisa
De afecto em poesia!

Esse Beijo que me falta
De que nunca fui capaz
Voa p’ra ti em palavras
Põe-me sereno, em paz!

Desejo que no trajecto
Voe, voe em grande altura
Que fantasmas não lhe cheguem
E minha dor tenha cura!

Mas sei dos escolhos da via
Dos perigos que ele corre
Capturado por fantasmas
É mensagem que me morre!

Por que to digo agora?
Há sempre um dia p’ra isso
No dia do Beijo é hora
De propor um compromisso!
De cantar em voz alta
A poética do amor
P’ra que não me faça falta
Se for grande a minha dor!

E se esse dia for teu
Ganha força, intensidade
Mesmo que fantasmas o bebam
É um Beijo de verdade!

Esse Beijo que não dei
Foi pecado original
Hei-de sofrê-lo p’ra sempre
Como chaga corporal!

Não há palavras que bastem
P’ra repor o que não dei
Elas voam, mas não chegam
E mesmo assim eu tentei!

É certo que sempre o quis
Só que nunca to roubei
A culpa foi desse tempo
Dos dias em que te amei!
Um tempo em diferido
Sem presente nem futuro
Talvez Beijo sem sentido
Porque queria do mais puro,
Tangendo eternidade
Às portas do Paraíso,
Um Beijo de divindade…
Mas simples com’um sorriso!

Esse Beijo impossível

Que não é do foro humano

Fui tentando construí-lo

Cada dia, cada ano

Perdendo-me pelo caminho

Como sagrado em profano!

V. SINTO ACRE QUE FENECE… (06.06.2016)

(Ilustração: Rosas trepam no Loureiro)
Fui visitar o Jardim
Perdido, já sem memória
Vi Loureiro, vi Jasmim
Encontrei milhões de Rosas
Acre aroma já no fim
Perfumes, cores fabulosas
E tudo ali para mim
Em explosão d’alegria
Já no fim da Primavera
Natureza em euforia
Mas em compasso d’espera
Tão longa foi a ausência
E tão intensa a Quimera!

Sinto acre que fenece
À sombra do meu Loureiro
O insólito acontece
Rosas trepam, dão-lhe cheiro
Já nem Loureiro parece!
Imitam a Cardinal
E provocam-me a rima
Que me foge a cada passo
Subindo lá para cima
Para o alto do Arbusto
Onde Rosas lá não chegam
A não ser com muito custo!

O estro já é escasso
Foge a Musa e a Palavra
Procuro, mas troco o passo
Difícil se torna a lavra!
A não ser no meu Jardim
Flores, cheiros, inspiração
Memória neles inscrita
Alento sempre me dão
P’ra manter viva a Musa
Como se fosse meu Pão!
Sem ela, não há viver
Mesmo que diga que não!

VI. Sim, certo, Flávio (06.06.16). O M5S venceu, em Roma, na primeira volta, com 35.2%, contra o centro-esquerda,com 24.9%m, e a direita, com 20.6%. Em Turim, o M5S vai à segunda volta, tendo obtido 30.9% contra 41.8% do centro-esquerda. Em Nápoles, o centro-esquerda nem sequer conseguiu ir à segunda volta. Veremos o que vai acontecer na segunda volta (ballottaggio).
Há mudanças profundas que estão a ocorrer. No artigo de Sábado, no “Expresso”, eu e o António Gameiro chamámos a atenção para as mudanças. E no documento “Um novo Paradigma para o Socialismo” está lá tudo. E também é verdade que a Itália sempre foi um laboratório político! Mas não ouvem…
Em Espanha, “Unidos Podemos” já está à frente do PSOE nas sondagens. O PP continua à frente, mas com maioria relativa, pouco superior à que obteve em Dezembro. São mais de 36 milhões de eleitores.
É necessário compreender as razões do aparecimento e da força eleitoral destes movimentos. E são razões de fundo que não convém desconhecer.
Em Portugal, agora que o PS teve a sua missa cantada e que o governo liderado por António Costa tem o apoio inquestionável de todo o PS, não seria conveniente reflectir a fundo sobre o futuro, para além das exigências imediatas da governação, da comunicação e do combate?
A força eleitoral revelada por Bernie Sanders nas primárias e, antes, pelo líder dos trabalhistas ingleses Jeremy Corbyn também nos deve levar a pensar sobre a eficácia e a actualidade das soluções clássicas, afinadas pelo diapasão do realismo, da governabilidade e do pragmatismo (e dos mercados) – vulgo, gestão corrente – sempre invocado pelos que governam no momento. Mas a verdade é que algo está mesmo a mudar…

VII. Publico aqui o ARTIGO que saiu hoje (04.06.2016) no “EXPRESSO” (Opinião, p. 34) da autoria de JOÃO DE ALMEIDA SANTOS E ANTÓNIO GAMEIRO. Procurámos assim dar o nosso contributo para o Debate sobre “SOCIALISMO DEMOCRÁTICO: QUE FUTURO?”, num dos dias do Congresso do PS.
Lembro que uma análise de fundo da questão está em joaodealmeidasantos.com (“UM NOVO PARADIGMA PARA O SOCIALISMO”).

“SOCIALISMO DEMOCRÁTICO: QUE FUTURO?”
João de Almeida Santos e António Gameiro

“Em 2015, na Universidade de Verão do PS de Santarém, propusemo-nos desenvolver uma reflexão aprofundada sobre este importante tema. Coube, então, a um de nós apresentar uma proposta que ficaria disponível na rede com o título “Um novo paradigma para o socialismo. Ou o documento em falta no PS de António Costa?”. Era uma simpática oferta ao novo líder e ponto de partida para um futuro livro. Voltamos ao assunto.

1. Estamos a viver uma profunda mudança na forma como a política está a ser assumida pelos cidadãos. Hoje, o protagonismo da cidadania relativamente às grandes organizações políticas ou mediáticas é muito superior ao que acontecia há poucos anos. Às vezes revela-se mesmo disruptivo. Espanha e Itália são bons exemplos. A “comunicação de massas” deu lugar àquilo que Castells chama “comunicação individual de massas”. E o cidadão deixou, por isso, de ser mero consumidor de política ou de comunicação para ser ele próprio protagonista no espaço público deliberativo. O que se está a verificar é uma desintermediação progressiva da política e da comunicação. E o novo protagonista já tem um nome: “Prosumer” – produtor e consumidor de política e de comunicação.
2. Neste aspecto, a moção de António Costa é omissa – nada diz sobre esta mudança. E, todavia, o futuro do socialismo democrático é por aqui que passa: pela emergência política de um cidadão cada vez mais protagonista, responsável, portador de múltiplas pertenças, informado e capaz de influenciar o espaço público deliberativo. Ou seja, passa por uma resposta inteligente e estruturada ao processo de desintermediação progressiva da política e da comunicação, ou seja, a este novo referente social.
3. A “crise da representação” está a revelar-se, por isso, mais intensa do que antes. E, como se sabe, uma das suas causas estruturais reside na lógica autocentrada e endogâmica dos partidos. Pois bem, esperava-se que, neste aspecto, a questão das primárias abertas, ou seja, a delicada questão da selecção da “classe política” fosse objecto de cuidada atenção. Até porque sabemos que o ataque dos chamados movimentos alternativos é por aqui que começa: a devolução do poder confiscado pelos partidos à cidadania. Mas não! Disto não se fala!
4. No mesmo sentido, outras relevantes questões poderiam ter merecido mais intensa atenção da moção: o complexo político-institucional da União Europeia, a reconfiguração do sistema financeiro português, um diagnóstico frontal sobre o estado de saúde dos partidos socialistas, a reorganização político- administrativa do País (reforma eleitoral e sistema de governo local, à parte a apressada reforma das CCDRs e das áreas metropolitanas).
5. O documento, no nosso entendimento, não conseguiu oferecer um eficaz quadro global de referência capaz de responder aos complexos desafios que hoje se colocam ao PS e ao socialismo democrático, ficando-se por um politiquês asséptico e por propostas avulsas. Aguardamos, por isso, e com enorme expectativa, os discursos de Ana Drago e Pacheco Pereira sobre o assunto! Pela nossa parte, temos, há um ano, uma proposta estruturada em joaodealmeidasantos.com – “Um novo paradigma para o socialismo”.

VIII. COMENTÁRIO SUPLEMENTAR.
A ESTE DOCUMENTO SOBRE A BANCA (17.05.16)

Vi que na comentadíssima (pelos media, sobretudo televisões) Conferência de hoje, 17.05.2016, promovida pela Associação Portuguesa de Bancos e pela TVI, “O PRESENTE E O FUTURO DO SECTOR BANCÁRIO”, com a presença do PM, do PR, do Ministro das Finanças, do Governador do BP, do Presidente da APB e de importantes convidados institucionais estrangeiros, ninguém se referiu ao caso BANIF, o elefante invisível presente, nem, claro, a este famoso documento que aqui comentei.
Hipocrisia política dos principais protagonistas da nossa vida política ou irrelevância política do inacreditável documento (e dos seus subscritores)?
Os 51 subscritores que respondam! Aguardamos com enorme expectativa!

IX. A BANCA! (09.05.16)
(Ilustração: Robert Longo, “Men in the Cities”. 1981. The Berardo Collection. Sintra, 1996)
Li um documento publicado num Semanário (a 30.04.2016) intitulado “Reconfiguração da Banca em Portugal. Desafios e Linhas Vermelhas” e assinado por 51 personalidades da nossa vida pública, algumas com pesadas responsabilidades na actual situação do sistema financeiro português!
(1). O documento, motivado essencialmente pelo caso BANIF, defende a criação de bancos fortes e de capital diversificado no espaço financeiro português. E, no essencial, contrasta uma forte presença da banca espanhola em Portugal. Mas quanto a outras fortes presenças financeiras internacionais é estranhamente omisso!
(2). Sublinha-se, nele, a importância estratégica da diversidade das instituições financeiras e a sua importância para a economia, designadamente para o investimento produtivo e para o fomento da poupança nacional, sublinhando, ao mesmo tempo, a necessidade de diversificar a origem do capital destas instituições. Olhando para alguns dos subscritores vem vontade de perguntar o que – vistos os cargos que ocuparam – fizeram para estimular a poupança. Na minha modesta opinião, nada!
(3). Não há no documento um diagnóstico das causas profundas desta crise. Quase todo o documento está orientado para a questão do BANIF e para o valor simbólico do caso, que não desvalorizo. Os desastrados casos do BPN, do BPP e do BES não são sequer referidos e ficamos a saber que o Novo Banco e o BCP poderão também ficar em fase de perigoso “desenlace”. Não são referidos os casos do BPI e do Montepio!
(4). Refere-se, e bem, a necessidade de garantir a capitalização do Banco público CGD, mas nada se propõe para evitar buracos financeiros de centenas de milhões.
(5). O papão Espanha está lá bem explícito como alvo central do documento (sempre a propósito do caso BANIF). Politicamente é um erro, no meu entendimento.
(6). A crítica ao intervencionismo do BCE é oportuna, como oportuna seria também a crítica à desastrada condução política da União pela Comissão Europeia do Senhor Juncker.
(7). Sublinha-se a necessidade de fazer emergir um banco de capitais portugueses com efectiva expressão no mercado. Mas deveriam dizer o que falhou com os que ruíram, prevenindo o que aí possa vir!
(8). Apela-se, e bem, a uma clara definição de linhas vermelhas por parte do governo português relativamente às intempestivas injunções do BCE e da Comissão, mas nada se diz acerca da estrutura decisional da União, enquanto tal.
(9). É assinado por personagens que têm vivido dentro de um sistema, o financeiro, que, infelizmente, parece estar quase em fase de estertor. Muita gente, alguma tóxica e com graves responsabilidades no sector financeiro, para poucas ideias. A sensação que fica é a de que os subscritores estão a olhar obsessivamente para uma árvore, sem ver que a floresta que a rodeia já quase ardeu por completo!
(10). Este documento está excessivamente concentrado no caso BANIF. Bem sei que se trata de um caso exemplar, pelo excessivo intervencionismo do BCE. E que aqui entra o caso de Espanha. E que é preciso travar este intervencionismo sob pena de se estar a dar argumentos aos adversários da União Europeia (e há-os entre os subscritores). Mas o assunto em referência no título é demasiado vasto e importante para motivar este afunilamento da questão. Ficamos à espera de desenvolvimentos, porque o documento é relativamente pífio. Já não falo, por pudor, de alguns dos subscritores que considero verdadeiramente tóxicos. Ou seja, chegados ao ponto a que chegámos, seria melhor que se calassem.

X. CONFERÊNCIA: “SISTEMA POLÍTICO-ELEITORAL – QUE MUDANÇA(S)?”
(ULHT.21.04.2016).

Publico aqui (23.04.2016) as Notas de Abertura da Conferência que tive o gosto de moderar e que contou com a presença dos Prof.s Manuel de Almeida Damásio (Presidente COFAC), Jorge Miranda (ULHT), Adelino Maltez (ISCSP), Carlos Poiares (Vice-Reitor ULHT), Fernando Pereira Marques (ULHT) e Rui Oliveira Costa (ULHT e Eurosondagem). Auditório Armando Guebuza cheio.
(Ilustração: Foto da Mesa da Conferência).
(1). Os sistemas eleitorais servem para converter o voto dos eleitores em mandatos politicos com vista ao governo das sociedades, através das instituições políticas previstas constitucionalmente. No plano nacional e em regime de democracia representativa o mandato é “não imperativo” (não revogável), o deputado representa a Nação (não o círculo eleitoral por onde é eleito) e não é portador de um, digamos assim, “caderno de encargos”. A sua acção político-institucional é ditada livremente pela sua consciência. Numa palavra: o deputado representa a Nação.
(2). Os modelos de sistemas eleitorais são vários, mas podem, no essencial, ser reduzidos a dois, proporcionais e maioritários, sendo que os primeiros garantem maior inclusão politico-institucional das tendências da sociedade civil e os segundos maior estabilidade política e governabilidade. Todavia, os primeiros podem, do ponto de vista da estabilidade política, ser corrigidos através de prémios de maioria (É o caso, por exemplo, da Itália, 340 mandatos, e da Grécia, 50). Hans Kelsen, num interessante escrito de 1929, “Essência e valor da democracia”, defende a superioridade do sistema proporcional.
(3). Há quem tenda a ver nos sistemas eleitorais, por um lado, a resolução dos problemas inerentes à chamada “crise da representação” e, por outro, a chave para a gestação e conservação dos sistemas de partidos.
(4). A chamada “crise da representação” tem vindo a ser atribuída aos seguintes factores: a) partidocracia, poder institucional confiscado ilegitimamente pelos directórios partidários; b) captura do discurso politico pelo sistema operativo do establishment mediático; c) globalização, ou seja, deslocalização dos centros de poder para fora do espaço da cidadania ou da “constituency” nacional; d) crise de legitimação, por via do descrédito ético das elites políticas.
(5). Aproximando-nos um pouco mais do problema da “crise da representação” verificamos que ele reside em boa parte a montante dos sistemas eleitorais. Ou seja, o sistema eleitoral pode garantir representatividade e estabilidade, mas não resolver o problema da “crise da representação”. Por exemplo, se (como acontece em Portugal) o direito de propositura das candidaturas se mantiver reduzido aos partidos, apresentando-se em listas bloqueadas e limitando-se o cidadão a votar somente no partido – quando na realidade se elege representantes singulares (sendo o mandato formalmente deles) – e ao mesmo tempo o sistema de partidos tender a reproduzir-se simplesmente por inércia, numa espécie de mecânica autogenerativa fechada e sem efectiva interacção com a sociedade civil, então a cidadania fica muito limitada nas opções e tenderá cada vez mais para a indiferença. Compreende-se esta configuração do nosso sistema com o arranque do processo democrático, no pós-25.04, porque ela é fortemente integradora e muito simplificada para uso do eleitor. Mas, com as mudanças que se têm vindo a verificar, hoje algo terá de ser feito para renovar e revitalizar todo o sistema de modo a que ele possa metabolizar com eficácia as dinâmicas da sociedade civil, devolvendo-lhe, depois, instrumentos para crescer e se desenvolver. A introdução de um sistema misto de tipo alemão (é o caso da proposta de Rui Oliveira Costa) poderá ajudar. Mas também será necessário introduzir primárias abertas no sistema de partidos e reforçar as componentes da chamada “política deliberativa”.
(6). Quando os partidos, em sistemas fechados e autogenerativos, na sua pior expressão, não conseguem responder às expectativas dos cidadãos verificam-se três consequências:
(a) aumento da abstenção;
(b) voto, digamos, “desencantado”, movido não por uma “ética da convicção”, mas por uma “ética da responsabilidade”, por dever;
(c) predisposição para novas soluções, que até poderão não ser as melhores.
(7). De qualquer modo, um bom sistema eleitoral não resolve por si só o problema da “crise representação”, porque o problema reside em grande parte a montante, ou seja, na qualidade da oferta: por um lado, no processo de gestação e de selecção da chamada classe dirigente e, por outro lado e concomitantemente, na capacidade de mobilização política do cidadão por parte do sistema através da promoção de uma maior permeabilidade do sistema politico com a sociedade. É por isso que, no actual quadro do sistema de partidos, a questão das primárias abertas se revela tão importante. Olhemos para a dinâmica política das primárias americanas!
(8). Acontece, entretanto, que, hoje, as fronteiras do sistema clássico podem cada vez mais ser atravessadas, pela emergência de instrumentos que tornaram mais fácil e rápida a auto-organização e a automobilização da cidadania, para além das margens do clássico sistema de partidos. Falo da Rede e das TICs.
(9). Com efeito, os movimentos alternativos emergentes (por exemplo, o PODEMOS, espanhol, ou o MoVimento5Stelle, italiano) o que agitam nos seus programas é a crítica ética da classe política tradicional (“Podemos”, “Ciudadanos” e “M5S”!) mas também do próprio establishment mediático (M5S), propondo-se devolver ao povo soberano o poder que lhe foi confiscado pela “casta” (ou pelas castas), para usar a célebre fórmula de um livro italiano que vendeu milhões. Ao tempo (1993-1994), o sucesso de Berlusconi foi devido a esta mesma crítica.
(10). Como todos sabem, a crise da legitimidade ganhou recentemente novos contornos, com a crise das dívidas soberanas e com fuga de capitais para os chamados paraísos fiscais, envolvendo também a classe política. Também a recente crise brasileira é muito elucidativa a este respeito. É necessário, pois, recentrar a política e em particular a questão da legitimidade do poder, por muito que isso custe aos sistémicos.
A verdade é que os novos movimentos tendem cada vez mais a exprimir um novo tipo de poder que, com a Rede e as TICS, está a emergir, o “poder diluído”, mais amigo do cidadão singular do que das grandes organizações, incluídos os partidos e o establishment mediático. Castells fala, a este propósito, de uma nova “democracia de cidadãos”!
O debate ganharia muito se se desenvolvesse em torno destas questões.

XI. CONGRESSO LUSÓFONO sobre ESOTERISMO OCIDENTAL
(ULHT. FCSEA. DeCPoSRI.
Área de CIÊNCIA DAS RELIGIÕES)

Publico aqui algumas Notas da minha intervenção de hoje, 07.05.2016, às 10:00, na Sessão de Abertura DO CONGRESSO, no Auditório Agostinho da Silva, na ULHT.

UMA REFLEXÃO EM TORNO DO ESOTERISMO

(1). Lê-se, sobre “esoterismo”, em qualquer dicionário: “doutrina ou complexo de doutrinas de carácter secreto”. Ou com uma componente secreta, diria eu, que não sou especialista nestas matérias.
Por isso, porque se fala do oculto, esta é temática interessante em sociedades que se estão a revelar cada vez mais transparentes ao limite do exibicionismo universal da própria intimidade. Pois bem, um encontro sobre o esoterismo terá, neste sentido, um significado muito especial. Pelo menos, permitirá pôr na agenda a questão do oculto e da sua dimensão ontológica. E, de algum modo, servir de contraponto crítico a esta preocupante tendência para a chamada sociedade transparente.
(2). Pôr hoje na agenda pública – interrogando-os – fenómenos, movimentos, organizações, mundividências organizadas e ritualizadas que têm a sua identidade mais profunda protegida, reservada, codificada, sendo, no essencial, só acessível aos iniciados, num tempo em que assistimos a uma fúria imparável de transparência pública de tudo não deixa de ter o seu simbolismo.
(3). A palavra grega – “alêtheia” – que significa verdade, no sentido de desvelamento, de desocultação daquilo que está “esquecido” ou não é visível (vem de “lanthánô” – estar oculto, esquecer-se de -, de onde deriva “lêthê -ês” – esquecimento; “a-” é o prefixo negativo grego) parece indiciar que a verdade está em flagrante contradição com as práticas, os rituais, os poderes e as significações profundas do oculto, do invisível. A palavra esoterismo, por sua vez, vem do grego “esôterikós, que significa interior (do verbo “esô”: de dentro, em direcção ao interior).
Combinando estas duas palavras, “alêtheia” e “esôterikós”, dir-se-ia que estamos perante uma interessante dialéctica entre o que está protegido, é interior ou oculto e o seu desvelamento, a verdade. Um movimento para dentro (esoterismo) e um movimento para fora (verdade). Movimentos, pois, em tensão. Aparentemente antitéticos. E porque as práticas esotéricas, os rituais, os códigos aludem sempre a um fundamento com dimensão ontológica ou a uma verdade primordial (o ser) que não poderá ser revelada, sendo somente acessível (e, por vezes, não na sua totalidade) aos iniciados, parecem ir em sentido inverso ao da verdade como desvelamento.
(4). Mas não. Do que se trata aqui é de uma verdade protegida, talvez por exigência da sua própria fundamentalidade. A revelação ou desvelamento, ou seja, a verdade, dá-se, sim, mas só para quem tem legitimidade, capacidade e direito de a ela aceder. Os iniciados. É a verdade profunda que não é acessível aos profanos. Que escapa, por assim dizer, à banalidade, ao mundo “banáusico”, para usar a expressão usada pela Hannah Arendt.
(5). E, assim, é possível conjugar o oculto com a verdade. Digamos, em palavras simples, que a verdade, nestas mundividências, não é democraticamente revelável! A teoria dos “arcana imperii” também se move neste sentido, no terreno do invisível, onde reside o verdadeiro poder. Esta teoria, de resto, fundamenta um claro paralelismo entre o poder absoluto do príncipe – tanto maior quanto menos visível for – com a invisibilidade divina. Há uma frase em grego, “tó esôteron tou katapetásmatos”, que significa o santo dos santos, o santíssimo. “Pétasma, -atos” significa cortina, coberta. Ou seja, trata-se do “interior da coberta”, do que está coberto, do oculto, do invisível, onde reside a fonte da revelação… e do poder absoluto.
(6). Mas a pergunta pode ser esta: o poder absoluto não encontrará (hoje) na “utopia da transparência” (e as utopias, todas elas, tendem sempre a evoluir para uma espécie de transparência, de sentido único) um instrumento mais sofisticado e eficaz para se afirmar do que no reconhecimento do poder e da densidade ontológica do oculto, do invisível ou do não visível? Não pode o exercício utópico da transparência capturar a nossa atenção com muito mais eficácia do que a ritualização social do invisível e, assim, tornar-se no mais poderoso e totalitário dos poderes?
É só uma pergunta!
(7). Sendo estes os caminhos que podem ser trilhados como reflexão num Congresso como este, como poderíamos não considerar interessante uma reflexão sobre o oculto numa sociedade democrática totalmente hegemonizada pela “utopia da transparência” e que julga, ingenuamente, ser capaz de anular o poder do oculto ou mesmo o próprio oculto, sem se aperceber de que quanto maior for o culto desta utopia tanto maior será a tendência à proliferação de práticas ocultas ainda mais poderosas e blindadas?
(8). O problema consiste em considerar, erradamente, que estas dimensões não têm densidade ontológica e que só a superfície lisa de um real plano poderá ser ontológica e eticamente reconhecida! Pós-modernismo ensina!
(9). Mas, afinal, o fundamento, o upokeímenon, como diziam os gregos, a raiz, o número dos pitagóricos, a matriz informacional de que falou Edward Fredkin não representam, de algum modo, aquilo que se mantém invisível, oculto enquanto “archê”, força motriz e propulsora nuclear de vida? Quando a raíz é totalmente desocultada não perde alimento e não morre? No oculto reside uma enorme fonte de vida. Não é necessariamente mau ou falso (ou antidemocrático) como pretendem os acérrimos cultores da utopia da transparência. Nem é anulável, porque tem dimensão ontológica!
(10). O invisível é simplesmente a face mais densa do visível! O desafio de cada um é conseguir desvelá-la para si (e para os outros), sendo certo que ela é inesgotável! No fundo, do que se trata é mais da utopia do conhecimento do que da utopia da transparência!
É por aqui que anda, no meu entendimento, a razão mais profunda do mais autêntico esoterismo.

XII. O BEIJO!
(Ilustração: Flores do meu Terraço. 13.04.2016)

No dia Internacional do BEIJO (comemorado a 13 de Abril ou a 6 de Julho, o dia que eu prefiro) o que mais me apetece é mesmo propor uma poesia. E sob o signo de Thomas Mann, em “Lotte em Weimar” (1939), a obra que continuou o “Werther” (1774), de Wolfgang Goethe (1749-1832):
“Ist die Liebe das Beste im Leben, so in der Lieb das Beste der Kuss, – Poesie der Liebe…”. “Kuss ist Glueck, Zeugung Wollust”
(O amor é o melhor na vida, assim no amor o melhor é o beijo – Poesia do amor…”. “Beijo é alegria, procriação é luxúria”).
Ora aqui está. O BEIJO é a Poética do Amor. Está para além do sexo, do acto da procriação ou do puro prazer. Ele eleva-se à ternura, elege afecto espiritual e evolui para a identidade sensual. Aflora o corpo sem o possuir. Toca a sensualidade sem a capturar. Eleva o corpo e corporiza o sentimento…
Vamos ver se consigo dizer algo que faça sentido.

O BEIJO

Foi o que nunca te dei
Mas que sempre procurei
Na rotina dos meus dias!
Foi aquilo que sonhei
Quando eras tu que fugias!
É alegria do amor,
É suave respirar,
É encontrar-te no céu,
É vontade de te amar!
O Beijo é despedida
É sentir qu’estamos perto
E é a justa medida
Dum coração descoberto!
É desejo, é procura
É sinal e é mensagem
É razão suficiente
Para que haja coragem!
Porque beijo é emoção,
E razão descontrolada,
Se não for dado a tempo
Arrisca-se a não ser nada!
Sem beijo não há amor
Sem amor não há um beijo
Nada tem qualquer sentido
Quando falta o desejo!
Aqui to deixo por falta
Do que nunca fui capaz
Porque beijo em maré alta
Não é um gesto audaz!
Por que to digo agora?
Há sempre um dia p’ra isso
No dia do beijo é hora
De propor um compromisso!
De gritar em voz alta
A poética do amor
Para que não nos faça falta
Quando for grande a dor!
Esse beijo que não dei
Foi pecado original
Hei-de sofrê-lo p’ra sempre
Como ferida corporal!
Mas é certo que o quis
Só que nunca te beijei
A culpa foi do contexto
Em que sempre te amei!

XIII. ESQUERDA E DIREITA (02.04.16).

(Um livro de Luís Reto e Jorge de Sá)
(Ilustração: Capa do Livro “ESQUERDA E DIREITA em Portugal. Consensos, divergências e antagonismos”, Lisboa, Livros Horizonte, 2016, 133 pp.. Apresentado no dia 29.03.16, no ISCTE)

(1). É UM TEMA SEMPRE FASCINANTE, este, o da ESQUERDA VS DIREITA. E quando muitos dizem que a distinção já não tem sentido, os autores, neste interessante livrinho, defendem e demonstram a sua actualíssima pregnância. E bem!
(2). Mas esta é simplesmente uma distinção prática, uma âncora identitária, uma bússola simplificadora para um posicionamento ético-político elementar da cidadania. Ou seja, estas noções representam somente uma “topologia política”, não uma “ontologia política” (Bobbio, 1994: 66). São, portanto, noções relativas.
(3). A distinção executada pelos autores é feita através das seguintes discriminantes: igualdade, liberdade, religião, autoridade, optimismo-pessimismo, natureza do regime politico, família, conservadorismo-modernidade (moral), ocidente-leste, ambiente, democracia-ditadura. E independentemente das variações verificadas (entre 1999 e 2013), da intensidade ou, nalguns casos, da convergência de posições, fruto da conjuntura ou dos progressos civilizacionais, confirma-se facilmente que, aqui, a esquerda está mais dum lado (e a direita mais do outro): mais igualitária, mais laica, menos autoritária, mais optimista, menos presidencialista, mais moderna, mais ecológica, mais democrática.
(4). O livrinho de Norberto Bobbio (“Destra e Sinistra”, Roma, Donzelli, 1994), a que se referem os autores, continua a ser muito interessante para efeito de separação das águas. Nele, Bobbio defende que o centro da distinção reside na igualdade e que o objectivo da esquerda (moderada) é remover os obstáculos que tornam homens e mulheres menos iguais.
(5). Importa, todavia, fazer outras distinções. Por exemplo, entre esquerda moderada e esquerda radical. Os valores até podem ser os mesmos, mas com intensidade diferente. E é nesta intensidade que as diferenças se agudizam para níveis que podem já não ser componíveis, se apontarem para meios extremos de resolução, incompatíveis com a lógica de composição de interesses e valores própria da democracia. Uma coisa é falar de igualdade, outra de igualitarismo.
(6). Os autores constatam, todavia, que a díada não conheceu em Portugal uma radicalização, mas uma evolução no sentido “do reforço das posições de centro”, não se tendo passado “para uma grande radicalização ideológica em 2013” (pp. 122-123), apesar dos efeitos da crise. Ainda bem. E sobretudo se isso representar um reconhecimento, por parte da esquerda mais intensa, que é nesta zona que se podem resolver os problemas e afirmar uma verdadeira alternativa.
(7). A metáfora é espacial. Já o era na Câmara dos Comuns, nas primeiras décadas do séc. XVIII (o partido governamental sentava-se à direita do Speaker). E foi também assim na Constituinte de Versailles, em 1789. E na religião: o bem está sempre à direita (veja-se o meu “Paradoxos da Democracia”, Lisboa, Fenda, 1998, pp. 69-80). Portanto, se formos ao ADN das noções a esquerda deverá fazer um reajustamento genético? Em parte não, porque não só se fez intérprete do futuro como já revelou que é capaz de governar! Mas isto significará que tem de se sentar forçosamente à direita, quando governa? Este é o dilema e o desafio: governar, mas à esquerda!
(8) Mas, para isso, o que hoje está a fazer cada vez mais falta (digo, à esquerda), e mantendo-se a distinção, é uma clara definição – mas não suportada somente em descrições estatísticas e sociográficas – de conteúdos ideais, conceptuais, ideológicos e programáticos capazes de integrar uma nova cartografia cognitiva em condições de guiar a cidadania neste novo e complexo mundo emergente (veja-se, a este propósito, o meu “Un Nuevo Paradigma para el Socialismo”, in http://www.tendencias21.net ou em joaodealmeidasantos.com)!

XIV. NOTAS CRÍTICAS SOBRE A ACTUALIDADE (28.03.16)

(Ilustração: Carmo Pólvora. Ed. Tiragem. Lisboa, 1998)

SUMÁRIO.

1. Hannah Arendt. Continua o impasse político em Espanha. Instabilidade política no Brasil. Os ataques terroristas atingem o coração da União Europeia. Nos Estados Unidos continua a caminhada de um conservador reaccionário que dá voz aos receios da América profunda. Em Portugal continua a difícil experiência de um governo PS com apoio da esquerda parlamentar. Os episódios de promiscuidade entre o poder judicial e o tabloidismo mais escabroso são preocupantes para a saúde da democracia.

2. DESENVOLVIMENTO.

(a).A PROPÓSITO DE “EICHMANN IN JERUSALEM”, de Hannah Arendt, lê-se na Introdução de Amos Elon à edição da Penguin Books, de 2006, dests obra (NY, 2006, p. xxii): “As Tony Judt wrote afew years ago in the “New Yorker Review of Books”, Arendt made many small errors for which her critics will never forgive her. But she got many of the big things right and for this she desserves to be remembered. She would have been wryly amused by the reawakened interest in her work. She once said that the saddest form of fame was posthumous fame. At the height of the scandal over “Eichman in Jerusalem”, (Karl) Jaspers wrote to console her: a time will come, he wrote, which she will not live to see, when Jews will erect a monument to her in Israel as they were just then doing for Spinoza. This has not yet happened. But we could be getting there”.

(b). FRAGMENTOU-SE O SISTEMA DE PARTIDOS ESPANHOL. As consequências estão à vista. Ainda não há governo. Isto acontece quando o sistema deixa de responder razoavelmente às expectativas dos cidadãos. Os velhos partidos políticos estão fechados em si, reproduzindo internamente, por métodos pouco eficientes, as elites que depois irão ocupar as lideranças no aparelho de Estado. Ao contrário do que muitos defendem, não são os sistemas eleitorais que resolvem o problema, porque se forem eficazes e garantirem estabilidade sem antes terem corrigido, a montante, o sistema interno de selecção das elites, a emenda será pior do que o soneto. O sistema político garantirá a essas fracas elites longa vida até surgirem novos partidos – não necessariamente melhores – que os substituam. Mas hoje, com a rede, isso já pode acontecer de forma muito rápida, uma vez que podem prescindir de uma estrutura orgânica e territorial. Em Espanha, pelos vistos, caminha-se a passos largos para novas eleições. O PODEMOS já está internamente dividido! E se o panorama se mantiver? O sistema propõe alternativas (os partidos), os espanhóis escolhem, mas, no fim, esse mesmo sistema não consegue responder institucionalmente à escolha dos cidadãos. Muda-se o sistema eleitoral? Repito: essa será sempre uma resposta artificial do sistema! “É a política, estúpido!” – é o que apetece dizer!

(c). O “IMPEACHMENT” DE DILMA. Ainda não percebi bem a justificação deste processo contra Dilma. Mas vi que foi Eduardo Cunha, super-investigado, que o acolheu institucionalmente. Como também não percebi por que razão o senhor Sérgio Moro pôde escutar a Presidente e, sem mais, publicar a escuta. E constato que a decisão do STF chegou tarde. (Sabe-se agora que o juiz pediu desculpa pela divulgação e que o STF está a analisar caso, ou seja, se lhe retira ou não a investigação!). Diz-se que a useira e vezeira Globo está a fazer política em grande, em aliança com o poder judicial. Isto justifica que se ponha em sério risco a democracia brasileira? Gostei da fórmula de Miguel Sousa Tavares, no “Expresso”: prenda-se Lula nem que, para isso, seja necessário prender a própria democracia! Não há, neste processo, uma gigantesca desproporção entre meios e fins?

(d).OS ATAQUES TERRORISTAS no coração da União Europeia tornam bem patente a fragilidade dos nossos sistemas perante gente sem escrúpulos. Vivemos cada vez mais em sociedades de risco. Sobretudo financeiro e de segurança. Não estão seguros o nosso dinheiro nem a nossa vida! O Daesh perde no terreno militar e ganha no terreno do terror. A lógica é a da cruzada? Vejamos a seguinte cadeia lógica: Bush-pai derrotou Saddam, mas deixou-o no poder. Paradoxal? Não. Ele continuava a garantir uma função-tampão relativamente aos integralistas. Bush-filho derrotou Saddam e enforcou-o. Paradoxal? Sim, se tivermos em conta que hoje uma parte consistente do Iraque e da Síria está sob controlo do Daesh e que este até já conseguiu fazer esquecer a Al-Qaeda das Twin Towers: Turquia, França, Bélgica. O que se seguirá? Choque de civilizações? Não. Radicais sempre os houve. Esta é mais uma batalha a travar em defesa dos valores universais, incluídos os religiosos. E é sempre necessário não esquecer que mesmo entre nós, no coração da Europa, houve duas guerras, entre 1914 e 1945, que fizeram dezenas de milhões de mortos. A besta pode sempre regressar!

(e). O CONFRONTO POLÍTICO FINAL será provavelmente entre Hilary Clinton e Donald Trump (as sondagens davam, a 07.03., Hillary com 51% e Sanders com 39,6% e Trump com 37,5% contra 19,3% de Cruz e 18,3% de Rubio). Se Sanders lá chegasse, a probabilidade de uma vitória do reaccionário Trump seria muito maior. Teremos provavelmente, e pela primera vez, uma mulher na Presidência. Mas ficaremos a saber que há nos Estados Unidos um forte conservadorismo muito difuso que está a ser interpretado com eficácia por Trump. Obama fez uma boa Presidência. É uma personalidade muito consistente, equilibrada e que soube demonstrar aos mais conservadores ou reaccionários que, afinal, o que conta são os valores, as ideias, a inteligência, o equilíbrio e a racionalidade. Se vivesse nos USA votaria naturalmente Hillary, depois de ter votado Obama.

(f) ENTRE NÓS, continua a experiência de um governo PS com o apoio de toda a esquerda parlamentar. Não deixo de experimentar uma agradável surpresa ao ver o PCP e o Bloco defenderem com tanta garra (às vezes mais do que muitos do PS) o governo. António Costa confirma as suas qualidades de negociador. O Presidente ajuda, por enquanto. Mas o processo não será fácil. Li que o Bloco vai agitar politicamente a questão da “reestruturação da dívida”. Por que razão não se preocupa mais com a renegociação (prazos e juros)? A palavra “reestruturação” queima! É mesmo necessário? Que se mantenha nesse jogo inteligente do equilíbrio entre a “ética da convicção” e a “ética da responsabilidade”! Os abutres financeiros estão sempre à espreita. Quando as convicções são fortes há mais margem para negociar. Já se esqueceram de Tsipras? Não estariam, se assim fosse, a seguir o desastroso caminho de Pablo Iglesias, aqui na vizinha Espanha? No dia 30.03 (O PSOE reúne com PODEMOS) teremos alguma novidade? Não creio, com as posições desastradas de Iglesias sobre a questão das nacionalidades! Toda a esquerda ganhará muito se conseguir credibilizar esta solução em marcha. E António Costa estará lá para facilitar isso. Mas a sua ética da convicção também tem de ser respeitada. Descredibilizá-lo é mau também para a esquerda parlamentar!

(g) FINALMENTE, essa gigantesca promiscuidade entre o poder judicial e o establishment mediático, em particular o tablóide. Não é coisa de agora. Há livros e livros sobre o assunto. Mas agora a coisa está a passar todos os limites! É simplesmente execrável a cruzada que alguns tablóides estão a fazer contra José Sócrates. Isso não é liberdade de imprensa. Isso é frio, lento e cruel assassinato simbólico, quase físico, de uma pessoa. Depois, a questão das escutas. Se não forem reguladas, só os doidos é que aceitarão ocupar cargos públicos. Mais tarde ou mais cedo já sabem que as suas conversas irão parar ao jornal do justiceiro Eduardo Dâmaso. Estamos a entrar, por esta via, numa República dos Juízes, apoiada na Mediocracia? Olhem para o que se passou com o Di Pietro, em Itália! E no Brasil a coisa está-se a revelar perigosíssima, pondo mesmo em causa o próprio regime, ameaçado por botas cardadas! Um triplex vale isso

XV. BRANCURA DE CAMÉLIA, FLORAÇÃO DE LOUREIRO E HANNAH ARENDT…

(1). (21.03.16) Surpreendente, a Natureza! Camélia branca suspensa! A elegância sensual de uma fadada Cameleira! Encontrei-a no Jardim. Estava à minha espera. E logo a capturei, sem lhe tocar. Só para partilhar essa luminosa, fresca e solitária brancura! Estava ali como brilhante proposta estética da natureza: “diz o que pensas desta estranha forma de surgir no teu Jardim. É provocação florida, não é? Sou tão branca e tão perfeita que e(n)levo a Cameleira. Olho-a de baixo p’ra cima e ponho-a numa sensual fronteira! ”. Ali perto o Loureiro, vizinho em intensa e exuberante manifestação cromática! Depois das uvas, surpreendente floração! Terá sido da poda? Um sofrimento que, afinal, fez transbordar vida e tanta cor? Surpresas do meu Jardim! Encontrei-o assim, depois de uma manhã de intensos registos sensitivos que não me convocaram, todavia – vá-se lá saber porquê! -, p’ra poética melodia… Essa deu-ma o meu Jardim! Mas evocando sempre encontros e desencontros… para me aquecer a alma, nesta terra de frio!

(2). Continuo a ler a Hannah Arendt. Nem sei bem porquê esta minha fixação. Ou talvez saiba! Antes, há muito, foi com Heidegger, ao ponto de um maroto amigo ter dito que eu, na minha Montanha, o ensinava aos camponeses. Holzwege? Aqui não temos as veredas sem destino da Schwarzwald! Mas o Heidegger dizia-lhe, a ela, à Hannah: – por que razão o amor é de uma riqueza sem medida comparável a outras possibilidades concedidas ao ser humano e um suave fardo para os que ele atinge a não ser porque nos metamorfoseamos no que amamos, permanecendo nós mesmos?
A metamorfose. Não a do Kafka, mas a do amor. Tornar-se outro sem sair de si mesmo! Quase um oxímoro! Será nisso que reside a sua força?

(3). Eu creio que as flores ajudam a entender isto! Esta Cameleira é isso: o exemplo de uma quase metamorfose… perfeita! Está ali em pose de desejo, em registo quase humano! Ou o Loureiro que responde à poda e ao sofrimento, não com secura negativa, mas vibrando com intensa e bela floração! Sem metamorfoses não há vida! Com elas, a vida eleva-se para além da banalidade e do trivial. E(n)leva-se! É por isso que a natureza ensina. Sobretudo as flores…

XVI. TROPECEI NO TEU OLHAR II

(Poesia inspirada num encontro
de Gianni della Rovere com Paola Valenzi
na Piazza Navona, em Roma.
De um Romance no Prelo.
Ilustração de Filipa Antunes. 15.03.16))

FOI DIFÍCIL ENCONTRAR-TE
Fujo de ti quando posso
Quero ver-te, não consigo
Fico mal, caio num fosso!
Ter-te longe é castigo
Ter-te ali é dor que aperta
Já nem sei bem o que quero
É ferida sempre aberta
É passado sem futuro
É futuro sem presente
Já nem sei bem o que é
Só sei que o corpo não mente
A não ser que estremeça
Por algo que não pressente
O que é muito duvidoso
Porque treme quando sente!

TROPEÇASTE EM MEU OLHAR
Fui mais forte do que tu?
Olhei-te sem hesitar…
Por dentro senti-me nu
Despido e sem sentido
Apesar da aparência
E desse meu ar atrevido!

GOSTARIA DE FICAR
Eternamente parado
Olhando-te com a ternura
De quem sentiu um passado!

IMPLACÁVEL ESTA VIDA
Silêncio que gera muros
Difíceis de superar
Se os tempos foram duros
Os que tiveram lugar
Entre nós, pobres mortais
Sofrendo o dia-a-dia
Onde pecados veniais
Dão lugar à entropia
Estilhaçam o afecto
E apagam o olhar
O silêncio cobre a ternura
E tudo vai acabar!

SE UM DIA DERES DOIS PASSOS
Nessa minha direcção
Podes ter toda a certeza
Que não serão passos em vão!
Olha de frente o futuro
Talvez vejas o que eu vejo
Não verás coisas pequenas
Mas a força do desejo!
Essa que tu conheces
Que em silêncio se movia
Sem nada pedir em troca
Dava tudo o que sabia!

OLHA P’RA TI, SÊ SERENA
Vê se em mim houve pecado
Bem sabes como doeu
Esse gesto castigado
Fruto duma tensão
Que tanto nos fez sofrer
E que em mim continua
Ao ponto de me doer
Até ao fundo da alma
Num ritmo inquietante
Que tenho de acalmar
Sem de ti ficar distante!

XVII. TROPECEI NO TEU OLHAR…

(Ilustração: Cameleira do meu Jardim.
Poesia inspirada em
Gianni della Rovere e Paola Valenzi.
Romance no prelo. 09.03.16)

TROPECEI NO TEU OLHAR
Caí das nuvens, do céu,
Queda abrupta, sem parar
Caindo, caindo… em mim
Sem força p’ra respirar
Num movimento sem fim!

ENCONTREI-TE SEM QUERER
O acaso aconteceu
Nesse dia tão Solar
Que foi mais teu do que meu!

TROPECEI NO TEU OLHAR
Foi incerto o que senti
Quase não reconhecia
O que sempre vi em ti
Força, frescura, beleza
O que sempre dominou
Mas surge agora surpresa
Estranheza que pressinto
Nesse rosto que domina
Mas que quase já não sinto
Por forte que seja a Sina!

CRESCEU, ENTÃO, SOLIDÃO
Senti-me perdido, ali,
Foi-se paz, exaltação
Foi dor mais forte que eu
Em lugar desconhecido
Não era terra nem céu!

TROPECEI NO TEU OLHAR
Era dia de mulher
Podia-te encontrar
Iria gostar de te ver
Mas sem ter de estranhar!
Não era um dia qualquer
Sobretudo a meu olhar
Apesar de conhecer
O que já não tinha lugar!

MAS VI-TE ASSIM, DE ROMPANTE
Nem sei o que aconteceu
E foi logo nesse instante
Que a estranheza cresceu
Sob forma de vazio
Que se apoderou de mim
Perdendo-me nesse horizonte
Do que nunca vai ter fim!

* NOTA SOBRE HANNAH ARENDT NO DIA DA MULHER. Depois de uma nota que aqui escrevi sobre ela fui ver o filme da Margarethe von Trotta, com Barbara Sukova. E verifiquei uma interessante sintonia entre o pouco que escrevi e a ampla linha interpretativa do filme. Concordo com a posição de Arendt sobre a questão do mal. Extremo, mas não radical, porque não tem dimensão ontológica. Só o pensamento a tem. A insistência com que a palavra é, no filme, pronunciada por Heidegger (Denken, Denken, Denken) explica a posição de Arendt. Também concordo com a posição sobre o amor. Pertence-se a um povo, a uma comunidade, a um grupo, mas ama-se alguém em concreto, uma pessoa. O ser-amado é irredutível ao amante, porque quando for redutível acaba, anula-se. Só em tensão se pode amar, mas para isso não pode haver conversão de um no outro. Parto daqui para futuras observações sobre o amor, a propósito de “O conceito de amor em Santo Agostinho”, de H. Arendt.

XVIII. PUBLICO aqui (06.03.16) o meu ARTIGO de ontem (05.03.16) NO “SOL”:

“O MILAGRE DE ANTÓNIO COSTA!

Bom, não é propriamente um milagre. Situações equivalentes a esta já se verificaram na História: a seguir à II Grande Guerra, em 1981, com Mitterrand, em Portugal, com o 25 de Abril, recentemente em Itália. E sobretudo agora que já não temos bipolarismo estratégico-militar e político internacional. Mas a verdade é que durante 40 anos vivemos sob o dogma do “arco da governação” e do TINA (“There is no alternative”).
O milagre deu-se numa Terça-Feira, com a aprovação do Orçamento por PCP, Bloco e Verdes! Nem interessa saber se é ou não um bom Orçamento. Afinal, há para todos os gostos: para a Comissão Europeia, para a Esquerda e para a Moody’s. Ou seja, é um orçamento gerador de estabilidade. E, assim, o tira aqui e põe ali, de que se fala, até parece ser de somenos se nos colocarmos na óptica de um observador do sistema financeiro português: milhões perdidos a fio (BPN, BPP, BES, BANIF e… BPI?) na cara dos que agora acham que repor salários e pensões é dramático e que os credores internacionais são mais credores do que os pensionistas e os assalariados!
Milagre? Talvez não! Mas foi um acto político corajoso de Costa, Catarina e Jerónimo. Razões singelas: puseram a Política na agenda pública, elevaram o Parlamento e simplificaram o debate. A esquerda (toda) não escondeu a identidade política (ética da convicção), mas também não se furtou ao compromisso (ética da responsabilidade). Tirou, é certo, picante à hermenêutica da narrativa política porque introduziu clareza no discurso: “a minha solução seria diferente, mas esta é a possível e, além disso, é melhor do que a dos outros!” Aqui está. Não assumindo directas responsabilidades governativas, a esquerda mais intensa soube conjugar a ética da convicção com a ética da responsabilidade!
Com efeito, estas forças tinham, até aqui, exibido exclusivamente a força das convicções sem as terem conjugado com as exigências da ética pública, aquela que, sob forma de ética da responsabilidade, está inscrita no exercício do poder formal. E é neste registo que a democracia é valorizada como nunca o foi antes. E será também neste registo que, como se espera, os “aprendizes de feiticeiro” (os do TINA) sejam finalmente impedidos de continuar essa missão de destruir os pilares do nosso sistema societário, o financeiro ou o da justiça, onde eles também abundam.
É neste sentido que a decisão estratégica de António Costa, não sendo milagrosa, se revela histórica. Assim seja ele capaz de lhe dar consistência e estabilidade! Com isso até a nossa direita aprenderá”.

XIX. PUBLICO aqui (05.03.2016) um vídeo da Universidade Lusófona (ULHT) sobre o Lançamento do meu livro “MEDIA E PODER. O Poder Mediático e a Erosão da Democracia Representativa” (Lisboa, Nova Vega, 2012, pp. 372), no Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa, em 12 de Março de 2013. A obra foi apresentada por ANTÓNIO COSTA.

 

XX. ACABA DE SER PUBLICADO (04.03.16) NO SITE ESPANHOL www.tendencias21.net o meu ensaio: UN NUEVO PARADIGMA PARA EL SOCIALISMO

“You might not see things yet on the surface, but underground, it’s already on fire”.Mangunwijaya.

Leitmotiv de “No Logo””, de Naomi Klein.

JOÃO DE ALMEIDA SANTOS

“LA POLÍTICA está conociendo cambios muy profundos. Todo está cambiando. Pero las formaciones políticas tradicionales no han todavía comprendido lo que está sucediendo! Siguen haciendo política como la hacen desde hace demasiado tiempo. Su componente orgánica sigue siendo decisiva en su organización. Los métodos de selección de los dirigentes no han cambiado ante los profundos cambios producidos por la revolución de la Red y de…”

Veja a continuação aqui:

http://www.tendencias21.net/…/Un-Nuevo-Paradigma-para-el-So…

XXI. IMPRESSÕES.

(Ilustração: Hannah Arendt, na capa de MicroMega 8/2006, de Ileana Pace. Inicio aqui a publicação semanal de “Impressões” – comentários sobre a actualidade, antecedidos de uma pequena “Impressão” sobre grandes autores. Hoje começo com Hannah Arendt. 28.02.16)

(1). COMPLETAM-SE, em 2016, cinquenta anos sobre a edição francesa da obra de Hannah Arendt: “Eichmann in Jerusalem: Report on the Banality of Evil”, publicada por Viking Press, NY, 1963 (Eichmann à Jérusalem. rapport sur la banalité du mal, trad. de A. Guérin, Paris, Gallimard, 1966). E ontem, dia 27 de Fevereiro, dia do incêndio do Reichtag, em 1933, 83 anos da sua entrada na política. 
Foi um livro muito polémico, escrito a partir de cinco reportagens para o “New Yorker” sobre o julgamento de Eichmann, em Jerusalém, a que assistiu. Em palavras simples: o mal pertence à categoria daqueles que não pensam. Logo, é banal. Ele desafia o pensamento e é nisso que reside a sua banalidade. Pode ser extremo. Mas não é profundo. Só o exercício do bem o é. Eichmann seria simplesmente um “clown”. E aqui está um nó problemático, interessante para discutir! O facto é que foi acusada de não amar o povo judeu, respondendo que o amor é outra coisa. Sendo judia, as questões eram tão simplesmente a da pertença e a da identidade, que eram plenas. Mas não seria esse o plano do amor!
É claro que a ligação da densidade existencial ao exercício do pensamento veio-lhe em parte da proximidade com aquele homem, Martin Heidegger, a quem, em 1946, numa carta a Karl Jaspers, terá chamado “assassino potencial” e “mentiroso”, por aquela sua ligação ao movimento nazi. Um homem que, todavia, amara e para o qual ela foi a paixão da sua vida. O que ele, um dia, lhe disse foi que, não tendo o direito de a querer para si, ela já não sairia da sua vida. Mas também ele, afinal, não saiu da vida de Arendt, apesar das profundas diferenças, se é verdade que em 1960, enviando-lhe a versão alemã de “A Condição Humana” (Lisboa, Relógio d’Água, 2001), lhe dizia que o livro lhe devia, em todos os aspectos, quase tudo. Viriam a encontrar-se mais tarde, em 1967, em Freiburg-im-Breisgau. Voltarei ao assunto.

(2). CADA VEZ QUE INICIO um texto em português vem-me de imediato vontade de dizer: “Por que razão não acabam com o Acordo Ortográfico e repõem a normalidade?”. Bem sei que a decisão iria provocar algumas complicações, mas ainda estamos a tempo de o fazer sem danos de maior. E, de qualquer modo, seria sempre para evitar um mal maior, o de parecer que a língua portuguesa sabe cada vez mais a “fast food”… Acabaram com o grego e o latim e iniciaram o processo de plastificação da língua!

(3). O REFERENDO INGLÊS sobre a União será a 23 de Junho. Depois de ter conseguido umas migalhas em Bruxelas, Cameron bater-se-á pela União, embora veja uma parte do seu partido posicionar-se pela saída. Duvido da autenticidade da sua convicção. E Corbyn? Bater-se-á, também ele, pela permanência. Mas com que convicção, vistas as suas posições anteriores? De qualquer modo, não se baterá por esta União, que é também o discurso dos que a não querem! A UE de Corbyn não é esta, mas uma que ainda não existe! Então, o problema é que, se uns não a querem, os outros não a sabem defender nem projectar! Que é do que mais precisa!

(4). NÃO HÁ DÚVIDA DE QUE A QUESTÃO DOS REFUGIADOS TAMBÉM é gravíssima e perigosa para a sobrevivência da UE. E tem de ter solução no quadro dos princípios constantes da Carta dos Direitos Fundamentais, sendo, todavia, certo que incomoda ver certos sujeitos colectivos ou individuais porem a responsabilidade (ou mesmo a culpa) desta gigantesca onda migratória e dos seus dramas humanos na União. É claro que tem havido erros clamorosos na política internacional, a começar pela segunda guerra do Iraque ou mesmo pela ingenuidade que acompanhou a chamada “primavera árabe”. Sem dúvida. Mas o que não é aceitável é este apontar do dedo à mesma União que procura fazer o melhor para resolver esta gravíssima onda migratória que a procura. Há, todavia, uma observação que tem de ser feita a este propósito: é verdade que a questão da política de imigração há muito que saíra da agenda europeia (Europa fortaleza/ Europa aberta), tornando difícil definir sem pressões e com tempo uma política estratégica inteligente e em linha com os seus princípios civilizacionais! De resto, não tem sido esta a única falha. Também desapareceu da agenda a velha e importantíssima questão do “Aprofundamento/Alargamento”, tal a fúria de alargar a União para aumentar os mercados. E, neste sentido, também agora estamos a colher os “frutos” desta opção!

(5). O QUE TAMBÉM NÃO TEM AJUDADO a uma reconstrução serena da União com vista ao seu aprofundamento político tem sido a política agressiva da Comissão Juncker relativamente aos países em dificuldade. Já irrita esta política de permanente injunção pública sobre os orçamentos nacionais. Esta agressividade saloia de Bruxelas só favorece os nacionalistas, dando-lhes razão, e os especuladores, criando-lhes clima para aumentarem os juros das dívidas públicas. O senhor Jean-Claude Juncker foi, quanto a mim, uma péssima escolha para líder de uma Comissão que tem o dever de olhar mais para o futuro do que para as minudências orçamentais de um pequeno país. Mas é precisamente nisto que se vê a falta de visão destes personagens!

(6). HILLARY VERSUS TRUMP? Provavelmente sim. E creio que será ela a próxima Presidente dos USA. Entretanto, Bernie Sanders, “o socialista” continua a dar luta. Acaba de perder estrondosamente na Carolina do Sul (73% para Clinton). Hillary alinha com a tradição dos “New Democrats” (equivalente à Terceira Via) de clintoniana memória ou já está a cobrir um terreno mais à esquerda próximo das velhas batalhas da social-democracia e de Obama? E Sanders é um socialista nórdico, como se lê por aí? O que é isso, hoje? A dificuldade atravessa hoje também o PS: uns são por Hillary outros por Sanders. Claro, é um partido livre e aberto, com muitas sensibilidades. Mas, já agora, não se torna cada vez mais evidente, até pelas clivagens profundas a que temos vindo a assistir, o problema de uma identidade alinhada com as novas exigências e expectativas, sem ser por oposição a outros, os conservadores e os neoliberais, ou então por identificação com outros (mais sociais-democratas ou mais socialistas)? Não se sente necessidade de repensar a identidade perante as mudanças profundas que se estão a verificar, ainda por cima com a amálgama social-democrática que existe em Portugal, ao ponto de a ala esquerda do PSD se confundir com a ala direita do PS, e vice-versa? Veja o meu contributo em joaodealmeidasantos.com (actualizado ao dia de hoje).

(7). EUTANÁSIA. Não é uma questão simples. Trata-se da mais difícil e complexa fronteira humana: a da morte. Na perspectiva religiosa, se a vida for entendida como dádiva divina (e, de qualquer modo, mesmo no plano humano, não é cada um que se dá vida a si próprio, pela simples razão de que, antes de nascer, é nada e, logo, não se pode autoconceber), a morte como acto voluntário é condenável (mesmo que a doutrina postule que o nascimento traz consigo a liberdade livre, embora diferida no tempo). Mas esta fronteira é tão delicada e extrema que só pode ser pensada com categorias ao seu nível, nunca podendo ser tratada com lógicas burocráticas, administrativas ou de pura mecânica social. E é por isso que faz sentido o referendo. Proibição da morte assistida e desejada por comprovadas razões de fronteira? Não, na minha opinião. A força da pulsão vital é tão grande – é ela o motor da vida – que nenhum ser humano, a não ser em condições de fronteira, tenderá a desejar a morte. Para tomar posição nesta matéria é necessário pensar num plano transcendental e a partir de valores civilizacionais historicamente consolidados. Não valem argumentos de oportunidade, como já vi escrito algures, mas poderia existir uma validação formal da decisão pelo sistema de justiça em forma simplificada. Sou portanto a favor da eutanásia, sendo naturalmente pelo direito incondicionado à vida e pelo direito incondicionado à saúde (por via pública ou privada).

(8). A APROVAÇÃO DO ORÇAMENTO pelo Bloco, PCP e Verdes foi um momento histórico. Confesso que gostei (estou a gostar) de ver estes partidos incorporarem no seu exercício a ética da responsabilidade, sem abandonar a ética da convicção, que sempre foi a sua marca distintiva. Em boa verdade, faltam cada vez mais convicções!

XXII. L’UOMO CHE SAPEVA TUTTO!


“Chi non legge, con 70 anni avrà vissuto una sola vita! Chi legge avrà vissuto 5000 anni. La lettura è un’immortalità all’indietro!”.

UMBERTO ECO

QUANDO HO SAPUTO (20.02.16) que ci aveva lasciato, la prima cosa che ho fatto é stata quella di andare in biblioteca e raccogliere tutti i libri e riviste che ho di Umberto Eco, da “Apocalittici e Integrati” (1964) a “Il Nome della Rosa” (1980) , “Il Pendolo di Foucault” (1988), “Baudolino” (2001), “Numero Zero” (2015) e diverse riviste “L’Espresso”, con quell’ultima pagina di Eco, “La bustina di Minerva” (il nuovo libro, con le Bustine, dal 2000 in poi, che uscirá a fine febbraio, presso “La Nave di Teseo”, nuova casa editrice fondata proprio da lui, si chiama “Pape Satán Aleppe”), sempre attuale e divertente (l’ultima bustina è stata pubblicata a 27 gennaio, ed è dedicata ad una mostra sul Bacio, di Francesco Hayez).

RACCOGLIENDO i suoi libri sarebbe, per me, un modo di non lasciar partire quest’ uomo straordinario, enciclopedico, labirintico, cosmopolitico, critico e coraggioso. Massimo Cacciari lo definì appunto labirintico. Sì, solo i “Maîtres à penser” riescono ad essere labirintici, perché parlano dei soggetti, anche dei più semplici, attraverso mille riferimenti e guardandoli attraverso gli specchi concettuali più svariati. Ma Eco era un “Maître à penser” speciale: parlava anche delle cose più complesse in un modo così leggero e divertente che ci stupiva permanentemente a tutti (sulla poetica: “il mio collega Aristotele”). E poi aveva anche un’altra sua caratteristica: era un uomo del nostro tempo, curioso, attento, interventivo, però aveva anche una sua molto speciale matrice ispirata permanentemente nella cultura medioevale. È partito da lì, da San Tommaso che lo ha, secondo lui stesso, aiutato a diventare non credente!! Dal medioevo, sì, dove spesso ritornava. Vedasi “Il Nome della Rosa”, per esempio. Ma era anche un straordinario professore ed un efficace pubblicista. Interveniva su “La Repubblica” e su “L’Espresso” come regolare collaboratore su soggetti sempre attuali. Famose le sue “Bustine di Minerva”. Le ho lette, con molto piacere, per anni.

ECO PARLAVA E SCRIVEVA, con autorevolezza, di semiotica, letteratura, filosofia, logica, cultura medioevale, comunicazione, politica. Bravissimo anche como scrittore. “Il Nome della Rosa” ha venduto 14 milioni di copie ed è stato tradotto in più di 100 lingue. Celebre anche il suo saggio “Apocalittici e Integrati. Comunicazioni di massa e teorie della cultura di massa”. Mas ha scritto anche un libricino famoso su come fare una tesi de laurea (1977)!

E SUI SOCIAL NETWORK HA DETTO recentemente qualcosa molto polemica, però su cui tutti (quelli che siamo sulla rete) dobbiamo riflettere: i “social network” “danno diritto di parola a legioni di imbecilli”! Io direi che danno anche diritto di parola a chi prima non ce l’aveva. Ma questo è un discorso molto complesso! Da fare in un altro momento. Eco ci ringrazierà!

TANTE COSE HA FATTO, quest’uomo così speciale! Siamo rimasti più poveri! Era così Umberto Eco!

……………………………………

(O HOMEM QUE SABIA TUDO!
“Quem não lê, com 70 anos terá vivido uma só vida! 
Quem lê terá vivido 5000 anos. 
A leitura é uma imortalidade ao contrário!”.

Umberto Eco.

QUANDO SOUBE que nos tinha deixado, a primeira coisa que fiz foi ir à biblioteca e juntar todos os livros e revistas que tenho de Umberto Eco na minha biblioteca, de “Apocalípticos e Integrados” (1964) a “O nome da rosa” (1980), “ O pêndulo de Foucault” (1988), “Baudolino” (2001), “Número Zero” (2015) e diversas revistas “L’Espresso”, com aquela última página de Eco “La Bustina di Minerva” (o novo livro, com “La Bustina”, desde 2000, que sairá no fim de Fevereiro em “La Nave de Teseo”, nova Editorial fundada precisamente por ele, chama-se “Pape Satán Aleppe”), sempre actual e divertida (a última “Bustina” foi publicada a 27.01.16 e foi dedicada a uma exposição sobre o Beijo, de Francesco Hayez).

Juntando os seus livros seria, para mim, uma maneira de não deixar partir este homem extraordinário, enciclopédico, labiríntico, cosmopolítico, crítico e corajoso. Massimo Cacciari definiu-o, precisamente, labiríntico. Sim, só os “Maîtres à Penser” conseguem ser labirínticos porque falam dos assuntos, mesmo dos mais simples, através de mil referências e olhando-os através dos espelhos conceptuais mais diversos. Mas Eco era um “Maître à penser” especial: falava também das coisas mais complicadas de um modo tão leve e divertido que nos espantava permanentemente a todos (Sobre a poética: “O meu colega Aristóteles!”). Além disso, tinha também uma outra sua característica: era um homem do nosso tempo, curioso, atento, interventor, mas tinha também uma sua muito especial matriz inspirada permanentemente na cultura medieval. Partiu dela, de S. Tomás, que o ajudou, segundo o próprio Eco, a tornar-se não crente. Partiu da Idade Média, sim, onde regressava frequentemente. Veja-se, por exemplo, “O nome da rosa”. Mas era também um extraordinário professor e um eficaz publicista. Intervinha em “La Repubblica” e em “L’Espresso” como regular colaborador sobre matérias sempre actuais. Famosas as suas “Bustine di Minerva”. Li-as com muito prazer durante anos a fio. Eco falava e escrevia, com autoridade, de semiótica, literatura, filosofia, lógica, cultura medieval comunicação, política. Muito bom também como escritor. “O nome da Rosa” vendeu 14 milhões de exemplares e foi traduzido em mais de 100 línguas. Célebre também o seu ensaio “Apocalípticos e Integrados. Comunicações de massas e teorias da cultura de massas”. Mas escreveu também um livrinho famoso sobre como escrever uma tese de licenciatura (1977)!

E sobre os “social network” disse recentemente algo muito polémico. Mas sobre isso todos (os que estão na rede) devemos reflectir: os social network “dão direito de palavra a legiões de imbecis!”. Mas eu diria que eles também dão direito de palavra a quem antes não o tinha. Mas isto é um discurso muito complexo! Para outra ocasião. Eco agradecerá!

Fez tantas coisas este homem tão especial! Ficámos mais pobres! Era assim, Umberto Eco!)

XXIII. POESIA I (14.02.16)

ESTAVAS À MINHA FRENTE…

(Poema inspirado em Gianni della Rovere 
e Paola Valenzi. Romance no Prelo. 
Ilustração: Magnólia do meu Jardim)

PASSARAM DOIS OU TRÊS ANOS
 / Já nem consigo contar / 
Estava feliz de te ver / 
Olhavas p’ra mim no Solar
 / A dizer-te o que sentia
 / A sentir o teu olhar!
 / Com palavras te dizia / 
Que o mundo ia parar
 / Se chegássemos um dia
 / Nem sei bem a que lugar!

ESTAVAS À MINHA FRENTE / 
E pousavas o olhar / 
Sobre mim, homem intenso / 
Naquela tarde solar / 
Com esse brilho imenso/ 
Que cobria o Lugar!

Foi um Dia diferente
 / Luminoso para mim / 
Vi-te com outra roupagem / 
Como se fosses cetim, / 
Perfume e suave aragem
 / Em doce embalo sem fim!

E lancei o meu olhar
 / Nessa Torre de Marfim
 / Onde te fui colocar
 / Tão bela eras assim
 / Nesse dia qu’escolheste
 / P’ra dizer o que sentias / 
Dando voltas às palavras / 
Que timidamente dizias / 
Medindo bem os efeitos
 / Que só mesmo tu conhecias!

ESTAVAS À MINHA FRENTE
 / Falávamos nesse Solar / 
E eu estava feliz
 / Bastava-me o teu olhar!

Mas olho de frente o passado / 
E não vejo esse lugar
 / Onde possa estar contigo / 
Onde te possa falar, / 
P’ra terminar o castigo
 / De não te poder encontrar!

A não ser com as palavras / 
Em que ponho sentimento /
 Como se vê pelo Dia / 
Em que as deito ao vento / 
Fortes de seu soprar
 / Para ver se as palavras
 / Te vão poder alcançar.

ESTAVAS À MINHA FRENTE
 / Lembro-me do teu olhar / 
No bulício desse Dia / Com suave respirar!

Agora foges mim, / 
Tens medo de soçobrar?
 / Tu és mais forte que eu
 / Resistes ao meu olhar!

Falei de ti há uns dias
 / Não esqueci o momento! / 
Disseram-me que não perdoas / 
As tensões daquele tempo!

Perdoa, sim, quem, ausente,
 / Ouve a tua melodia
 / E em cada minuto pressente / 
O poder dess’alquimia / 
Que funde tudo o que sente
 / No sentir de cada dia!

Sei muito bem o que dizes / 
Liberta-te do negativo
 / O tempo há-de mostrar-te / 
O que se passa contigo!

O que tem de ser unido / 
Ninguém pode separar / 
E até as feridas profundas /  
Podemos sempre curar!
 / E assim até regressem
 / A uma Torre de Marfim
 / Que vou construindo em palavras
 / Do que persiste em Mim!

ESTAVAS À MINHA FRENTE…

XXIV. POESIA II (09.02.16)

MANDEI PODAR O LOUREIRO…

Mandei podar o Loureiro / 
No dia de Carnaval
 / Cada ramo que caía
 / Doía, punha-me mal! / 
Espalhava-se o aroma
 / Intenso pelo Jardim
 / E eu a ver cortá-lo / 
E ele a olhar para mim!

Que fiz eu para sofrer, / 
Estou sempre à tua frente / 
Porque mandaste cortar-me
 / Assim, tão de repente? / 
Foi mesmo p’ra reforçar,
 / Ganhar um novo alento? / 
Porque não páras d’olhar,
 / E acalmas o sofrimento?

Já não aponto p‘ro céu / 
Tornei-me mais redondinho
 / E tu quando me olhas / Ficas sempre mais sozinho,
 / Mais longe do meu perfume
 / Que deitaste a perder / 
Com aparente azedume
 / Porque não podaste a tempo / 
O que havia de crescer!

Perdi muitas das minhas bagas
 / Estavam em mim às centenas / 
Agora, ficaram chagas
 / E não são muito pequenas!
 / Levou-mas o podador
 / As bagas que tu perdeste / 
Sinto menos o teu calor / 
Por tudo o que não fizeste / 
Mas que podias fazer
 / Se tivesses mais coragem / 
E não te fosses embora
 / Só porque era selvagem!

Não são louros de glória!
 / Porque me abandonaste? / 
Não foi vã essa vitória, / 
A que tristemente chegaste?

Agarra-te a mim agora
 / Sou teu Loureiro em Jardim / 
Se não quiseres, vai-te embora / 
Que eu fico-me assim / 
Mais pequeno, mas robusto / 
Mais redondo e mais belo
 / Serei sempre mais que arbusto / 
Nem é preciso dizê-lo.

O Loureiro do Jardim / 
É planta especial
 / E se olhares para ele / 
Eleva-se o teu astral! / 
Por isso quer-se sadio / 
Belo, forte e robusto / 
No inverno há muito frio / 
E Loureiro é mais qu’arbusto!

É árvore de Poesia / 
É fonte d’inspiração / 
Ajuda a respirar
 / Se vacila o coração!
 / É um posto de vigia
 / Cresce, cresce para o alto / 
E é com ele que eu resisto / 
E vivo sem sobressalto!

Por isso mandei podá-lo
 / Para se fortalecer / 
Se o não tivesse feito
 / Ia mesmo esmorecer!
 / E com ele também eu / 
Caía em prostração,
 / Não são fáceis estes tempos / 
Mas Loureiro é Canção!

XXV. RAZÃO E RELIGIÃO (07.02.16)

A propósito do Jantar-Debate na Mesquita Central de Lisboa promovido pelo “Clube de Filosofia Al-Mu’tamid”, em que participei, com a presença de altos representantes de várias Comunidades Religiosas, do Alto Comissariado para as Migrações, do Pró-Reitor da Universidade Aberta, de Joaquim Franco e Paulo Mendes Pinto, proponho aqui uma reflexão sobre “Razão e Religião”, tomando como pretexto posições de Bento XVI e do filósofo alemão Juergen Habermas.

DEPOIS DE TANTAS POLÉMICAS polémicas levantadas pela conferência de Bento XVI na Universidade de Ratisbona, onde referiu a posição de Manuel II Paleólogo sobre Maomé e fundamentou a exigência de um uso religioso da razão («logos»), reproponho algumas reflexões sobre um diálogo do então Cardeal Ratzinger com Juergen Habermas, na Katholische Akademie Bayern, em Janeiro de 2004, acerca da relação entre Razão e Religião em contexto democrático.

(1). O que achei interessante foi a confluência de ambos na necessidade de um encontro produtivo entre razão e religião. Refutando as tentativas de desintegração da razão ou da religião, ambos reivindicaram as virtudes de uma autolimitação destas esferas e da recíproca capacidade de aprendizagem. Habermas defende a autonomia da razão e a capacidade que as sociedades democráticas possuem de fazer derivar a legitimidade constitucional de procedimentos e formas resultantes da livre e racional interacção comunicativa. Ratzinger, assumindo que se verificam também patologias na religião, assume como necessário «considerar a luz divina da razão como um órgão de controlo, pelo qual a religião deve deixar-se clarificar e regulamentar». Mas não menos necessário se torna, no seu entendimento, declarar os limites da razão, reconhecidas também as suas patologias (a bomba atómica ou o homem considerado como simples produto de laboratório, com o absoluto poder de criar e de destruir), assumindo, ao mesmo tempo, o dever de escutar a lição das grandes tradições religiosas da humanidade. Até porque a razão, designadamente na sua forma científica, não só não gera por si uma ética como tem vindo a desempenhar um papel essencial na destruição de antigas certezas morais. Lembremo-nos da questão do geocentrismo (versus heliocentrismo), das posições de Copérnico e de Galileu e da posição que o Cardeal Ratzinger – no mesmo momento em que o processo a Galileu acabava de ser positivamente reavaliado pela Santa Sé e pelo próprio Papa João Paulo II – assumiu na revalorização da posição da Igreja em face do legado científico de Galileu. Também então a razão científica dera um passo decisivo na destruição de uma antiga certeza moral. O que Ratzinger sublinhava, e continuou a sublinhar, era a valência metacientífica das visões do mundo, a sua igual facticidade e dignidade, o seu igual valor histórico, recusando à ciência a pretensão de se constituir como a «medida de todas as coisas». Do que se tratava, segundo Ratzinger, era de uma espécie de geocentrismo moral. A razão, seja ela científica ou processual-democrática, nunca esgota, no seu entendimento, as fundações éticas do edifício humano. Por exemplo, os direitos humanos transcendem a dimensão de qualquer maioria política, ainda que formada democraticamente. É por isso que a razão se deve autolimitar.

(2). Por sua vez, o esforço de Habermas tem consistido na procura de sólidas bases teóricas que justifiquem a laicidade da democracia, encontrando na razão – e não em bases religiosas, metafísicas ou, de qualquer modo, pré-políticas – os fundamentos da legitimidade originária do contrato social. E foi no chamado «patriotismo constitucional» que ele encontrou o referente motivacional para um cidadão laico, emancipado e participativo. Mas foi no «agir comunicativo» intersubjectivo que ele fundou a dinâmica daquela sociedade civil que processa politicamente o contrato social. E o interessante é ver que Habermas, para lutar contra as tentativas de desintegração da razão (designadamente pós-modernas) e para dar um suplemento de motivação substancial à interacção comunicativa e argumentativa que anima o debate e a participação democrática, se socorre do complemento religioso, afirmando que a neutralidade do poder estatal é inconciliável com a generalização política de uma visão do mundo secularística: os cidadãos secularizados não podem, enquanto desempenharem o seu papel de cidadãos do Estado, desconhecer um potencial de verdade, em linha de princípio, nas concepções do mundo religiosas, nem recusar aos próprios cidadãos crentes o direito de contribuírem para as discussões públicas em língua religiosa. Bem pelo contrário, uma cultura política liberal pode mesmo «pedir aos cidadãos secularizados para participarem no esforço de tradução de materiais significativos da língua religiosa para uma língua acessível a todos».

(3). Ambas as visões sublinham uma exigência comum, não valorizada pelas tradições mais formalistas, minimalistas ou fragmentárias: a necessidade de reavaliar o peso da «substantia» na vida individual e colectiva. Ou seja, a necessidade de revalorizar a boa síntese entre forma e substância: a convergência produtiva entre a força das convicções e a harmonia da razão. As diferentes tradições teóricas em que se moviam Ratzinger e Habermas permitiram-lhes, neste diálogo, unir esforços contra um inimigo comum: os arautos da pura razão instrumental.

 

XXVI. POESIA III – LOUREIRO COM LUZ
 (29.12)

(Ilustração: Loureiro com Luz no meu Jardim. 
Foto: Jas. Dezembro, 2015. Nova versão a 01.02.16)

Como cresceu o Loureiro!
 / Cresce, cresce, é assim! / 
Cresce por dentro e por fora
 / Mesmo ao lado do Jasmim!

Agora tem Luz no centro,
 / Vem do alto das Montanhas
 / E entra por ele adentro / 
Chegando-lhe às entranhas!

E atinge-me a Mim / 
Que o tenho sempre à frente / 
E se deixar de o ver /  
Fico mal, fico doente!

Pois agora esta Luz
 / Incendeia-me a vida  / 
É intensa e seduz
 / Põe-me a alma em ferida! 

Como cresceu o Loureiro! / 
Foram uvas Cardinal? / 
Nem sei bem por que razão / 
Só vi isto no Natal!
 / Um gigante à minha frente / 
Apontando para o céu
 / Elevando-se, imponente,
 / Num Jardim que já é seu!

Ao lado, o Azevinho / 
Com textura que protege / 
Desse alvor d’ intensa Luz / 
Outros caminhos elege / 
Desviando-me da cruz / 
Do calvário de um caminho / 
Aonde, sem querer, eu me pus!

Espicaça-me a Vida / 
Provoca dor, reacção / 
Ajuda à despedida / 
Da doença da paixão!

Olhar assim o Jardim / 
De certo modo liberta
 / Mas também dá que pensar / 
Quando essa dor mais aperta!

Como cresceu o Loureiro! / 
Uma marca no Jardim / 
Ao olhar surge primeiro / 
Com perfume de Jasmim!

Tudo envolve, tudo domina
 / O Loureiro do Jardim
 / Espalhando seu aroma / 
Inebria-me, a mim / 
Ao virar de cada esquina / 
Lugar de onde espreito / 
Os mistérios desta vida
 / Aqueles que nos escapam / 
Em ritmo de despedida
 / Fugidios ou sem sentido
 / Difíceis de decifrar / 
Onde me sinto perdido / 
Incapaz d’interpretar / 
Porque é viver proibido!

E regresso sempre ao lugar
 / Onde me sinto assim / 
Liberto, aprisionado? / 
Só depende do Jardim
 / Que nem sempre está ao lado / 
Na esquina do olhar
 / Porque a vida é p’ra mim
 / Difícil de declinar!

Flores, arbustos ou uvas
 / Muda tudo com o tempo / 
E também sou eu que mudo / 
Com sopro forte do vento.

XXVII. 2016: GANHOU MARCELO! E AGORA, ANTÓNIO?


(1). Como previsto nas sondagens, Marcelo Rebelo de Sousa será o próximo Presidente da República, com cerca de 52% dos votos à primeira volta. Foi muito alta, demasiada, a abstenção: 51,4%! Mais de metade dos eleitores não votaram, mas a verdade é que só contam os que votam. Quem não vota exclui-se do jogo democrático. A legitimidade institucional do Presidente fica intacta, mas politicamente enfraquecida, sobretudo porque mais de metade dos eleitores não votou.

(2). Marcelo Rebelo de Sousa preparou-se durante décadas, trabalhou e, agora, aqui tem a recompensa. Mas já me ficou um sabor estranho na percepção do novo fenómeno presidencial: o discurso de hoje já denotava alguma estranheza na colocação institucional do sujeito do discurso (foi assim nos debates, foi assim no arranque institucional). Esperemos que o sujeito se adapte ao novo lugar do discurso!

(3). Os resultados foram surpreendentes, não por MRS ter ganho, mas pelos outros resultados. Maria de Belém não atingiu sequer metade dos votos de Marisa Matias. Ficou, assim, clarificada a situação interna do PS. Francisco Assis que leia com atenção estes resultados. Mas António Costa também.

(4). Edgar Silva e o PCP foram trucidados, ficando quase ao nível de Tino de Rans (3,9% contra 3,3%). Uma poderosa organização contra um calceteiro algo “tiririca”! Continuam os avisos da cidadania aos partidos clássicos. O voto em Tino é isso mesmo: “ainda não entenderam que não estamos a gostar do que fazem? Aí vai um desenho: Tino de Rans (3,3% de sátira)”! Cresce o Bloco, cai o PCP. Drasticamente e de forma sustentada! Inversão de lógicas e de planos! Incluído o de género! E a situação não parece derivar do apoio ao governo! Que o PCP não caia na tentação de passar culpas!

(4). O monotema “corrupção” tem um novo score eleitoral de 2,2%, bem interpretado por Paulo Morais! Quantos aos outros três, não vale a pena perder tempo.

(5). Em dois artigos sucessivos, defendi que a eleição do Presidente da República deveria ser feita através de um Colégio eleitoral alargado, para resolver o persistente conflito de legitimidades e a ideia de que a eleição pouco mais é do que um concurso televisivo entre personalidades com maior ou menor notoriedade e sem grandes coisas para dizer, vistas as competências (importantes, mas) limitadas do Presidente. A estas competências o figurino mais ajustado parece-me ser o de um Presidente em registo parlamentar. O Executivo em Portugal é o órgão que, com suporte parlamentar robusto, detém a chave da decisão política. A estes argumentos acrescento agora o da abstenção e o da degradação e empobrecimento do debate político em campanha presidencial. O jogo já estava feito e poderíamos muito bem ter prescindido deste “concurso” televisivo!

(6). Marcelo Rebelo de Sousa esteve “no ar” décadas. Com talento, nessa especialidade. O mesmo não se pode dizer da política pura e dura, onde nunca teve grande sucesso. Mas o facto de estar no espaço público durante tanto tempo foi decisivo para este resultado. Esteve sempre no topo da agenda pública, tendo mesmo conquistado um respeito algo reverencial por parte do establishment mediático (tem-se visto pelo ar embevecido dos jornalistas que lhe têm servido de pé-de-microfone, e ainda hoje o confirmámos – bastaria olhar para o rosto de Judite de Sousa). E, neste sentido, a distância relativamente aos seus directos competidores era verdadeiramente gigantesca. Por outro lado, era o único candidato capaz de interpretar e representar, de um modo original, o centro direita (a esquerda da direita), ao lado de oito candidaturas adversárias que se espraiavam à deriva pelo território do centro-esquerda. E, por isso mesmo, na própria campanha eleitoral ele esteve sempre (mesmo ausente fisicamente) no topo da agenda… dos seus adversários! O que lhe deu novo alento, a confiarmos na teoria da “agenda setting” sobre os efeitos de agenda dos media.

(7). Além disso, um certo centro-esquerda não esteve muito motivado nesta campanha, porque nem Maria de Belém nem Sampaio da Nóvoa tinham condições para o mobilizar (como aconteceria, por exemplo, se o candidato fosse António Guterres). Com efeito, creio que António Costa não foi feliz na escolha do seu candidato. Se a escolha tivesse sido mais ponderada talvez nem sequer tivesse surgido uma Maria Belém candidata. Pelo menos, a escolha serviu para uma clarificação.

(8). Depois, ainda, a presença de alguns candidatos sem qualquer peso político também contribuiu para aligeirar a campanha e para lhe retirar a densidade que ela exigiria. Alguém disse que a intensidade recente do debate político (legislativas e formação do governo) diminuiu a força polarizadora das eleições presidenciais. Não creio. Julgo, sim, que foi a falta de densidade dos candidatos que retirou interesse à campanha.

(9). Estas eleições ficam sem história, porque já estavam escritas nas estrelas.

(10). A lição que delas devemos retirar é a seguinte: não basta ter uma robusta identidade político-ideal para uma afirmação político-eleitoral uma vez que a componente orgânica da política cedeu lugar à sua componente comunicacional, sendo também certo que a interpretação das expectativas dos eleitores, ou seja, da procura, se tornou absolutamente decisiva para o sucesso eleitoral. Numa palavra, as formações políticas tradicionais ou mudam ou morrem às mãos dos que melhor souberem interpretar a mudança.

XXVIII. LEMBRAR-ME-EI SEMPRE DE SI, LÁ NO ALTO DA MONTANHA…


(Ilustração: “Elogio da Política, da República e da Globalização”, de António de Almeida Santos – Lisboa, Campo da Comunicação, 2011. Ilustração da Capa: Margarida Almeida Santos)

ENCONTRÁMO-NOS pela última vez num domingo, em finais de Novembro do ano passado, num almoço de homenagem a um amigo comum. Perguntou-me: “Como está a nossa Guarda?”. “É sempre a mais alta e a mais fria… e a mais bonita!” – respondi. “Pois é!”. E sorriu com aquele ar terno que sempre nos encantava. Disse-lhe: “Na próxima sexta-feira, dia 27, vou lá para completar a Galeria dos Presidentes que está no Salão Nobre da Câmara. Terei a honra de ficar ao seu lado como antigo Presidente da Assembleia Municipal!”. “Que bom!” – respondeu. E sorriu, mais uma vez. Despedimo-nos. E agora, inesperadamente, partiu. Já tenho saudades dele!

A lindíssima capa deste livro, que me ofereceu (tenho-os quase todos com dedicatória), parece ter sido ilustrada pela Guida, sua filha e minha amiga. Por isso o escolhi para ilustrar estas minhas palavras de despedida. É um abraço que lhes deixo. A ele e a ela, neste dia tão triste. O Joel, se ainda cá estivesse, também não ia gostar nada, mesmo nada desta partida inesperada. Mas talvez os dois amigos se encontrem nesse ponto do infinito para onde se vai projectar o nosso olhar cada vez que os recordarmos.

A mim perguntavam-me sempre se era seu familiar. Um dia até ele mo perguntou, já lá vão cerca de 25 anos. E eu respondia sempre que não, que não era, mas que éramos amigos. E o acaso da vida até me trouxe agradáveis surpresas, como aquela de a Sala António de Almeida Santos, a da AMG, ter sido inaugurada, com a presença do Primeiro-Ministro, no dia dos meus anos, sem que eu, afinal, tivesse intervindo na decisão. Também discursei na qualidade de Presidente da AMG e, assim, tive ocasião de lhe declarar publicamente afecto e carinho. Pessoal e institucional.

António de Almeida Santos é uma figura relevante da nossa História e eu orgulho-me de ter estado próximo dele em tantas opções de vida. E de me honrar com a sua amizade e o seu carinho. Obrigado! Lembrar-me-ei sempre de si, lá no alto da montanha…

XIX. NOTAS SOBRE AS PRESIDENCIAIS

(Ilustração: Artigo publicado no SOL de ontem, 16.01.2016. Este artigo, aqui transcrito, é uma versão reduzida do que já tinha publicado aqui).

FAZENDO um balanço sobre a Presidência, penso que chegou a hora de alterar a forma de eleição do PR: ser eleito, não por sufrágio universal, mas por um Colégio Eleitoral. Resolver-se-ia assim dois problemas: o do recorrente conflito de legitimidades e o do concurso televisivo para a Presidência.

(1). Nenhum dos candidatos me seduz políticamente. Votarei, mas por dever de cidadania.
(2). Marcelo Rebelo de Sousa não se sente bem em ambiente de debate, o que já se antevia quando fazia comentário: os jornalistas eram meros pé-de-microfone. A sua praia é o solilóquio. Mas a candidatura é compreensível: trata-se de um cargo unipessoal onde não é necessário argumentar com outrem. Há, assim, uma certa continuidade entre o Comentário e a Presidência. Mas é esse o risco: a Presidência tornar-se continuação do Comentário por outros meios!

(3). Quanto a Maria de Belém, ficou no ar a ideia de que reduz a ética pública ao mero cumprimento da lei, demonstrando, de forma expressiva, o seu conceito de política! Considera-se amiga da economia social, mas temo que a economia social que defende seja daquelas que se alimentam sobretudo das Finanças Públicas. A perigosa dança de interesses (com o BES Saúde) viu-se quando presidia à Comissão Parlamentar de Saúde. Ou seja, parece-me que MdB surge cercada de interesses privados quando ocupa cargos públicos. Candidata a Presidente, faz parte do Conselho Consultivo da Universidade Europeia (onde ainda consta como Presidente do PS), do Grupo Laureate. Bill Clinton foi cinco anos “Honorary Chancellor” deste Grupo, mas quando Hillary se candidatou à “nomination” abandonou o Grupo, para não “contaminar” a campanha. MdB ainda não reflectiu sobre o assunto? Finalmente, pareceu-me angulosa a sua candidatura, na forma e no tempo, quando estava já no terreno uma candidatura aparentemente apoiada pelo PS. Com tantos interesses em torno de si, não será o seu ar seráfico a aconselhar-me a votar nela! Bem pelo contrário, este ar de sacristia deixa-me antever pouca transparência no exercício do cargo!

(4). Resta Sampaio da Nóvoa, que os outros estão lá para cumprir calendário! Distanciei-me criticamente dele em artigo neste jornal. Continuo distante, pela exuberância discursiva e sobretudo pelo patamar idílico em que se situa, mas, depois dos debates, reconheço que talvez seja o que exibe maior densidade para o cargo. Parece ter um sonho, ao lado da aparência seráfica de MdB e do frenesim catódico de Marcelo! Votarei, pois, nele!

XXX. ALGUMAS NOTAS SOBRE AS PRESIDENCIAIS
 

(No dia em que começa a campanha)

OLHANDO para os últimos tempos do mandato de Cavaco Silva e para a campanha eleitoral que está a decorrer, convenci-me definitivamente de que a melhor solução será alterar a forma de eleição do Presidente da República: passar a ser eleito, não por sufrágio universal, mas por um Colégio Eleitoral alargado, que inclua, naturalmente, os deputados à AR. Resolvem-se assim dois problemas: o do conflito de legitimidades, excessivamente recorrente (as cenas do último capítulo são conhecidas de todos), e o do concurso televisivo (às vezes mesmo ridículo – veja-se, por exemplo, os tempos de antena) para a Presidência, com candidatos improváveis e para todos os gostos.

(1). Nenhum dos candidatos em presença me seduz política e eleitoralmente. Falo, naturalmente, dos que representam eleitoralmente alguma coisa. Votarei, claro, mas por dever de cidadania e para que outros não decidam por mim.

(2). Verifiquei que Marcelo Rebelo de Sousa não se sente bem em ambiente de debate. Isto já se via quando fazia comentário – não ouvia sequer as perguntas dos jornalistas de serviço, que se limitavam, reverencialmente, a fazer de pé-de-microfone. A sua praia é, pois, o solilóquio. Aí é imbatível, até pelo treino que pode exibir e pela diversidade de temáticas, onde exuberante e superficialmente se espraiava. Nesta óptica, de certo modo a sua candidatura é compreensível, já que se trata de um cargo unipessoal onde poderá decidir sem ter de argumentar as suas razões com outrem. Há, pois, uma certa continuidade entre o Comentário e a Presidência. Mas é esse exactamente o risco: a Presidência ser a continuação do Comentário por outros meios!

(3). Quanto à candidatura de Maria de Belém, ficou no ar a ideia de que reduz a ética pública ao mero cumprimento da lei, demonstrando, de forma bem expressiva, o conceito que tem da política! Considera-se, e bem, amiga da economia social, mas o que temo é que, visto o cargo que ocupa nas Misericórdias (Presidente da Assembleia Geral), a economia social que defende seja daquelas que se alimentam sobretudo das Finanças Públicas. A perigosa dança de interesses (com o BES Saúde) viu-se quando presidia à Comissão Parlamentar de Saúde. Ou seja, parece-me que Maria de Belém surge excessivamente cercada de interesses privados quando ocupa cargos públicos. Maria de Belém, candidata a Presidente, faz parte do Conselho Consultivo da Universidade Europeia (onde, erradamente, ainda consta como Presidente do PS), do Grupo americano Laureate. Bill Clinton foi cinco anos, desde 2010, “Honorary Chancellor” deste Grupo, mas quando Hillary se candidatou à “nomination” presidencial, abandonou o Grupo, para não “contaminar” a campanha da mulher. Maria de Belém, candidata à Presidência, ainda não teve tempo de se interrogar sobre este assunto? Finalmente, pareceu-me muito angulosa a sua candidatura presidencial, quer na forma quer no tempo, quando estava já no terreno uma candidatura aparentemente apoiada pelo PS. Não era uma pessoa qualquer – era uma ex-Presidente do PS! Com tantos interesses em torno de si, não será certamente o seu ar seráfico a aconselhar-me a votar nela! Bem pelo contrário, este ar de sacristia deixa-me antever pouca transparência no exercício do cargo!

(4). Quanto a Marisa Matias e Edgar Silva, todos sabemos que estão a fazer o seu jogo de parte, mais que legítimo. Colocam os seus partidos na agenda política e, portanto, valorizam-nos. Para eles, a campanha presidencial é simplesmente instrumental! Relativamente a outros três candidatos, Henrique Neto, Paulo Morais (excessivamente monotemático!) e Cândido Ferreira (excessivamente autocentrado, em si e nos gastos da Presidência!), o que se pode dizer é que, sabendo que não seriam eleitos, decidiram, em nome da cidadania, ir a jogo, depois de terem tido outras experiências políticas, designadamente no PS e no PSD. O divertido Tino de Rans ajuda a dar um ar de “opera buffa” à disputa (veja-se o primeiro e inacreditável tempo de antena). Do outro nem me lembro do nome.

(5). Resta Sampaio da Nóvoa. Tive ocasião de me distanciar criticamente desta candidatura, em artigo que publiquei no mês de Agosto no semanário SOL. Continuo distante pelo excesso de exuberância discursiva do candidato e sobretudo pelo patamar idílico em que o situa, mas, depois dos debates com Marcelo Rebelo de Sousa e Maria de Belém, reconheço que talvez seja o que exibe maior densidade para o cargo. Parece ter um sonho, ao lado da aparência seráfica e dúplice de Maria de Belém e do frenesim catódico de Marcelo! Votarei, pois, nele.

(6). Por tudo o que disse, parece-me, de facto, que a solução que, no início, proponho seja mesmo de ponderar, ou seja, que o Presidente seja eleito por um Colégio Eleitoral alargado e não por sufrágio universal!

XXXI. MARIA OLIVEIRA: “OBJECTOS VAGOS”.

*Texto: João de Almeida Santos (Introdução ao Catálogo da Mostra no Palácio Nacional de Mafra, em 2014. Ilustração: “Quadrado em Cobre”, um dos artefactos em exposição).

(
1). “OBJECTOS VAGOS” é o título de uma mostra de artefactos em cobre, o material de eleição usado nos últimos trabalhos de Maria Oliveira. Segue-se a “Chama-me de preposição”, a sua última mostra no Centro Cultural de Cascais, em 2013. 
”Preposição”: artefactos que nos reconduzem a um momento orgânico anterior ao concretismo das formas reais, tridimensionais e imediatamente disponíveis ao olhar humano. 
”Objetos vagos”: mesmo quando a reconstrução estética do tridimensional parece estar concluída o que fica é ainda algo indeterminado ou vago perante a recorrente exigência humana de formas acabadas e imediatamente disponíveis. Objectos vagos são, pelo contrário, fragmentos que escapam a uma apreensão sensorial imediata. Como os cinco artefactos (em exposição) que se replicam em progressão aparentemente linear, mas que, afinal, não repropõem integral e sequencialmente a identidade replicada e se desdobram lateralmente em duplos (em acrílico) ao serviço da afirmação dessa mesma identidade em aparente processo de repetição e progressão linear (em cobre).
Coerente com estes artefactos, mas mais complexo ainda o processo inscrito nos dois quadrados de cobre. Porquê? Porque eles não se propõem directamente, no essencial, à sensibilidade estética.

(2). Aqui, parece que a autora se inspirou no mito de Medusa e de Perseu e na implícita ideia de leveza que o envolve. O escudo-espelho de Perseu, que impedia a petrificação de quem ousasse olhar directamente a cabeça da Medusa, é aqui representado pelo chão espelhado que nos dá acesso indirecto ao centro oculto da proposta estética, a um trabalho em filigrana totalmente recoberto por esse manto de cobre que se oferece directamente ao nosso olhar, sinalizando a essencialidade do seu reverso. Um espelho que nos solicita a múltiplas e diversificadas incursões observativas por ângulos de acesso múltiplos e que nos levam ao centro da proposta: um quadrado em cobre em perfeita levitação, suspenso no ar, em posição de “ballon”, num efeito de subtracção de peso a um hipertexto (uma textura “endobrada” atravessada por sulcos) a que só temos acesso por via indirecta. Através de um espelho. E aqui deparamo-nos, de facto, com uma categoria bem transversal no universo das várias formas de arte, da literatura (Calvino) à arquitectura (Renzo Piano), ao bailado (dança clássica). Mas aquilo que no bailado é uma luta contra o efeito da gravidade, na escultura ou na literatura é uma luta contra a captura do olhar pelo imediato, a aparência. A proposta é muito clara: não há acesso imediato e linear ao centro do discurso estético para evitar a petrificação da leitura, tornando-a literal. E quando parece que os quadrados se afundam no solo, o que na verdade acontece é a sua elevação/levitação, convocando-nos a projectá-los no ar para podermos ler o que neles está inscrito como seu código de acesso. O que nenhuma leitura directa tornaria possível. É assim que o trabalho de Maria de Oliveira volta a revisitar esse processo de reconstrução da máquina do mundo através de um esforço de descodificação da sua proposta.

(3). Estes dois artefactos estão construídos com base num dispositivo que “sobredetermina” a leitura da proposta estética em cada uma das suas componentes. O verso e o reverso dos quadrados funcionam no interior deste dispositivo, sendo certo que o verso funciona como sinalizador do conjunto da proposta, constituindo-se o reverso como o seu centro, já que é aí que nos conduz a centralidade do espelho no interior de todo o dispositivo. O espelho, por um lado, permite-nos o acesso ao reverso de forma indirecta, como o escudo-espelho de Perseu à cabeça da Medusa; por outro lado, este acesso não é linear, na medida em que só por sucessivas aproximações é possível aceder à totalidade da proposta. O espelho é também condição da própria levitação do quadrado, sendo, pois, compreensível que ele ocupe a centralidade no dispositivo estético: levitação, modulação e chave de acesso, mediação da leitura e “empobrecimento” do valor facial dos quadrados de cobre. E é o espelho que nos conduz a essa valorização estética do mito de Medusa e Perseu, ou a exigência de uma aproximação reflexiva e não puramente sensitiva à arte. E, já agora, a essa dialéctica entre levitação desejada e privação sofrida de que falava Calvino, ou seja, a recusa consciente da captura do olhar e da mente pelo imediato como condição de acesso pleno à universalidade da arte.

*Maria Oliveira licenciou-se na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, em Artes Plásticas – Pintura. Trabalha e vive na Guarda.

XXXII. !CUÁNTO ME GUSTA ESPAÑA!


He visto el Mensaje de Navidad de Felipe VI. Este año la Corona ha decidido hacerlo desde el Palacio Real, símbolo de la unidad de España.

Lo conozco muy bien, este Palacio. Cuando, durante años, hice, como Profesor, mis lecciones de doctorado en la Universidad Complutense de Madrid, me quedaba siempre muy cerca del Palacio, en Leganitos, haciendo mis paseos en su calle y reflexionando muchas veces sobre el papel de estos símbolos materiales del Poder en la democracia. Mi conclusión ha sido siempre que las democracias tienen necesidad de estos símbolos materiales, paradojal que sea, más que cualquiera otro régimen, pues que ellas son las que más libertad permiten a los ciudadanos y así estos símbolos del poder, más que amenazas, deben ser vistos como fuertes garantías ciudadanas. Si el símbolo del poder ciudadano es fuerte, fuerte será, entonces, la ciudadanía. El Palacio representa España (lo ha dicho el Rey), el Rey también y lo escenario en que ha ocurrido el discurso real muy bello y muy significativo desde el punto de vista de la riqueza simbólica de la nación.

Todo el discurso del Rey ha sido centrado en la idea de unidad en la diversidad de España, significando voluntad de mantener unido este País ante las peligrosas tentativas de escisión de los movimientos independentistas, catalanes o vascos, y así por delante. Es una lógica sin sentido en una Unión Europea con una moneda, sin fronteras, con instituciones comunitarias, con programas de cohesión, con un Parlamento europeo.

Falta sin duda un Senado europeo donde puedan estar representadas las regiones en su más alto nivel. Es urgente crearlo como forma de integración política regional que pueda retirar argumentos a los independentistas. El federalismo y los Senados han sido creados para responder a estas tendencias centrífugas en muchos casos peligrosas y sin sentido. Yo creo que el independentismo de este tipo es igual al nacionalismo más retrogrado y su filosofía es radicalmente antieuropea. No tiene ningún sentido, en esta fase de la globalización en la que vivimos, volver a lógicas nacionalistas, por su incapacidad de responder a los retos globales y a los poderes globales que están presentes con mucha fuerza en el tejido económico y financiero de los Estados-nación. No comprendo pues este nacionalismo de los catalanes que amenaza la unidad de España, el proyecto europeo y a ellos mismos.

Hay muchas fuerzas que no quieren una Europa Unida y un Euro fuerte y, por eso, intentan minarlos desde dentro de sus territorios. No tengo ninguna duda de que estos nacionalismos e independentismos son enemigos de la democracia, de la independencia de los Estados que forman parte de la UE y del proyecto europeo. Por eso me ha gustado el mensaje de Felipe VI: justo, sereno y de esperanza.

Me ha gustado porque me gusta muchísimo España, desde Galicia hasta Andalucía o Cataluña! Lo dice uno que es republicano, laico y socialista.

XXXIII. POESIA IV –  SOB OS AUSPÍCIOS DE GRANADA…


“Sob a Lua, sobre as serras
 / Caminha errante / 
O buscador de sonhos.
 / Mouras encantadas, perdidas / 
Moradas de mágicas terras.
 / Vai o poeta fora, 
/ Vai por esse mundo /  
Sem nada de seu
 / Sem manto ou punhal
 / Tudo o que transporta / 
São seus olhos negros / 
Suas mãos morenas / 
Seus pés de andarilho. / 
Canta em silêncio
 / Canta em voz calada
 / O amor perdido 
 / A paixão esmagada. / 
Vai estudar as estrelas
 / As línguas estranhas / 
Por rios e mares 
campos e Montanhas. / 
Antonio Machado, Pessoa, Camões, /  Homero, 
Virgílio, Hölderlin… 
/ Donos de palavras / 
De mundovisões…
 / Louros procurava…
 / Só se achou enfim / 
Quando tudo ou nada / 
Se espelhou em …” (A.d.S.).

Em mim? Não e talvez sim…
  / Apesar de no Jardim
 / Ter deixado o Loureiro, 
/ Perfumado com Jasmim,
 / Que, em poesia, primeiro / 
Lhe deixou inspiração!
 / Errante em busca de sonhos / 
Amante de algo em vão / 
A sentir-se como nada / 
Ao olhar para Granada / 
O peso do horizonte / 
Da bela Sierra Nevada
 / Onde se perde o olhar / 
À procura de uma fada /  
Que o possa proteger / 
Do feitiço da amada.

Sente dor que é muito sua
 / Mais intensa sob a Lua
 / Com a paz ameaçada
 / Esmagado pela cor / 
De uma beleza coada / 
Pelo véu dessa paixão
 / Perdida de uma forma
 / E d’outra forma encontrada
 / Como se fosse magia / 
D’ alegria recriada / 
Dando o que já perdeu / 
A alguém que encontrou / 
De forma não inventada!

Esse alguém que já amou / 
Perdendo-se na caminhada
 / Porque queria o presente / 
E o futuro era nada!

Emoção inesperada
 / Em escuro Luminoso / 
Moura bela encantada / 
Foi o que então encontrou / 
Olhando para Granada / 
Que Sevilha despertou / 
Ou talvez fosse Lisboa / 
Esse lugar de desterro / 
Onde a dor é sempre certa / 
Não parando de sofrer
 / Com ferida sempre aberta! 

Mas p’ra combater a tristeza / 
Olha a Lua, olha a Neve / 
Canta amor, canta beleza / 
Desde que olhos escuros / 
O foquem intensamente / 
Mesmo que o esmaguem / 
Seja o corpo seja a mente
 / Que a memória ficou dormente /  
Por força do desvario / 
De uma ausência impossível /  
Que o mantém sempre frio
 / Mesmo que a ternura alimente / 
O combate ao calafrio.

E assim caminha ele / 
Com fardo pesado às costas / 
Sentindo o peso da culpa / 
Procurando as respostas / 
Que não consegue encontrar
 / Tal a força do destino
 / Nesse lento caminhar / 
Tão simples e genuíno! (JAS)

XXXIV. POESIA V – SEM REMÉDIO… POEMA TRISTE! 

“Vou tomar os meus remédios” / Palavras d’antigamente / Que ela gostava d’ usar / Quando se via doente! / Com maleitas que não tinha / Em que não acreditava / Mas que a ele muito doíam / Sempre que delas falava! /

Não eram dela, mas suas / As maleitas qu’ exibia / Fingindo ser alma gémea / De quem com elas sofria! / Entre uma coisa e a outra / Era assim que ele a via / Habituara-se a sofrê-la / Lentamente, em cada dia! / Como se as dores fossem dele / Num jogo de aparência / E assim era feliz, / Regressava à inocência! / Inocência que perdera / Um dia na sua vida, / Vira a ternura morrer / Num olhar de despedida! / Preconceito e submissão / Mataram o que nascia / Transformando em solidão / A beleza de um dia! / Solidão triste, quase eterna / Que nunca mais o largou /Sem remédio para ela / A alma lhe sufocou! /

Caminha agora em tristeza / Com passo lento e pesado / Transportando o mundo às costas / Como fardo de pecado! / E tenta sempre vencê-la / Com as palavras que tem / Versos, rimas, sons e letras / Sem aludir a ninguém / Não pode nem quer dizê-lo / Esse ardor que o devora / Prefere pois combatê-lo / Com as palavras d’ outrora /

“Vou tomar os meus remédios…” / Para poder regressar /A felizes tempos passados / Quando a podia encontrar! / Esses remédios que curam / Quando a alma fica vazia / Mas se as dores perdurarem / Não as sofre mais que um dia! / Ainda que em solidão, / Como se fosse castigo / Recriando-a em vão / Pois dela ficou cativo!

Esperança de a encontrar / E de não mais a perder / Olhar seus olhos escuros / Ficar feliz de a ver! / Mas sem querer nada dela / Só a sua companhia / Fixando-a em aguarela / Desenhada por um dia! / Boca, olhos e cabelos / Um rosto que não esquece / Imagem de uma mulher / Que o coração lhe aquece! / Era assim que ele a via / Por ela muito lutou / Em combate desigual / Com alguém que o não amou! / Esse alguém que lhe fugia / Embora fingisse que não / Mas foi ele que lhe mentiu / Quando lho disse em vão! / Que já não queria vê-la, / Não a ter ali por perto, / Que queria esquecê-la, / Coração a descoberto! / Fugindo dela p’ra longe / E não ficar amarrado / Inventando outra mulher / Com quem ir a todo o lado! / Mas era só fogo de vista! / Vontade de a esquecer / Divagando em palavras / P’ra deixar de a sofrer! / A outra não a sentia / Não movia sentimento / E quando a procurava / Era coisa de momento! / Algo muito passageiro /Sem grande profundidade / Nem ela conseguiria / Era só cumplicidade! / Fazia-lhe muito bem, / Evadia-se da prisão / Do cerco do sentimento / Iludindo a paixão!

Mas era fugaz momento / Depressa ela o cercava / Capturando-lhe o alento / Que perdia se a encontrava / Porque ficava submisso / Aceitando o que dizia /Ainda que não gostasse / Quando ela lhe mentia!

“Vou tomar os meus remédios…” / Era sempre a melodia / E ele ficava dorido / Com maleitas que não via! / Mas disso até gostava / Era prazer negativo / Sentia-se perto dela / Porque era forte o motivo!

“Vou tomar os meus remédios…” / Era “un dolce far niente” / Mas ele não s’importava / Porque a não queria doente / Mesmo quando não estava / Era tudo um pretexto / Uma fuga, uma evasão / Dessa vida misteriosa / Que ela fazia em vão / Sem norte nem direcção / A caminho do vazio / Que ela julgava cheio / Num juízo doentio.

E assim ia vivendo / Sofrendo em cada dia / Sem saber o que fazer / Só sabia o que sentia!

XXXV. POESIA VI – DIA TRÊS É UMA FESTA…

Dia Três é uma Festa
 / Faz anos a nossa Amiga!
 / Há flores, há alegria,
 / E a vida é uma Cantiga
 / Que gostamos de cantar
 / Sempre com intensidade
 / Qualquer momento é bom / 
Seja qual for a Idade!

E quando vamos cantar
 / O hino ao Nascimento
 / Estamos a celebrar / 
A força desse Momento!

Faz anos a nossa Amiga / 
É muito belo este dia!
 / Temos, pois, de o celebrar,
 / Porque ela merece, a Tia!

Sobre Ela desceu Beleza / 
Gosta muito de ajudar / 
Quando ausente, só há tristeza
 / Sem ela há pouco mar!

É dia d’aniversário!
 / Há sol, é em Dezembro!
 / Faz anos a nossa Amiga
 / E dos meus já nem me lembro!

Parabéns à Alexandra / 
Neste feliz dia d’anos!
 / Hoje, é ela quem manda / Amanhã, a ver vamos!

Aqui lhe deixo uns Versos / 
Para o Dia celebrar / 
Esperando que goste deles
 / Que alegre é meu cantar!

Dia tão especial
 / Que junta sempre os Amigos
 / Mas que em tempo de Natal
 / Também relembra os Antigos / 
Quando os brinda com cristal!

Faz anos a nossa Amiga
 / Não importa quantos faz
 / A vida canta-se assim
 / Não olhando para trás!

Mas cantando o Nascimento / 
Porque ele é o futuro / 
Força de cada momento / 
Pilar forte, porto seguro.

Quem nasce neste momento / 
Fica perto da Divindade / 
O Natal é o momento / 
De se dizer a Verdade!

De olhar para o futuro / 
Com os olhos no presente / 
Celebrando a tradição / 
Caminhando sempre em frente!

Já chega de Poesia
 / Vou agora terminar, /
Tenha, Alexandra, um Dia / 
Com Futuro a germinar!

*** João de Almeida Santos

Poeta pobre e popular
 / Que faz sempre poesia
 / Em vez de se calar!
 / É vício de Facebook
 / Que já não pode parar
 / Quando um amigo faz anos
 / É vê-lo a declamar!

XXXVI. 27 DE NOVEMBRO, DIA DA CIDADE DA GUARDA!

2015: 816 ANOS! BONITA IDADE!

ONTEM, 27.11.2015, dia da Cidade da Guarda, houve, a seguir ao içar das Bandeiras, uma pequena cerimónia, presidida pelo Presidente da Câmara, Álvaro Amaro, no Salão Nobre, de descerramento das Fotografias dos anteriores Presidente da Câmara, Joaquim Valente (2005-2013) e Presidente da Assembleia Municipal, João de Almeida Santos (2005-2013). Deixo aqui uma imagem da Galeria com as Fotos dos Presidentes da Assembleia Municipal da Guarda, desde o 25 de Abril. O primeiro é António de Almeida Santos e o último eu próprio. Foi uma enorme honra ter desempenhado estas funções na minha Terra, durante dois mandatos, escolhido pelos meus Conterrâneos.

XXXVII. A INSUSTENTÁVEL LIGEIREZA DOS PENSAMENTOS DE UM EX-MINISTRO!

Trata-se de Miguel Poiares Maduro (MPM). De um texto que publicou no DN (20.11.15, na pág. 13, numa sexta-feira, dia de todos os azares, incluído o deste texto que publicou). Fui ver o curriculum. Além de ex-Ministro, é doutorado em Direito, com altas responsabilidades académicas no Instituto Europeu de Florença. É um excelente curriculum. Mas nem parece!
Vejamos o artigo e o sentido de quanto diz.
(1). Governa quem ganhou as eleições porque é esta a tradição em Portugal, há quarenta anos. A democracia é questão de substância e não apenas de forma.
– É verdade, tem governado quem tem maioria, mesmo que não seja absoluta. Quem sempre assim decidiu foram os partidos do arco da governação. E, mais uma vez, seguindo a tradição, o mandato foi confiado a Passos Coelho. E bem. Só que, desta vez, não conseguiu aprovar o programa de governo porque se verificou uma alteração de fundo no novo Parlamento: TODOS OS PARTIDOS QUE O INTEGRAM PASSARAM A FAZER PARTE DO ARCO DA GOVERNAÇÃO, O QUE NUNCA ACONTECERA ANTES. A pergunta que faço a MPM é a seguinte: a qualidade da democracia diminui se todos os partidos representados na AR passarem, a partir de agora, a fazer parte das soluções governativas? A minha opinião é a de que só agora temos uma democracia plenamente legítima. Sem “conventiones ad excludendum”. Quanto à substância e à forma: certamente, mas a substância não pode contrariar a forma! Leia Norberto Bobbio, por favor!
(2). “Na conceção moderna da democracia, as eleições não servem apenas para eleger deputados. São também um momento de deliberação coletiva sobre diferentes programas para o país e quem os lidera”.
– Lamento, mas as eleições legislativas (chamam-se assim não por acaso!) ainda só servem para eleger deputados, em regime de mandato não imperativo (designar representantes e confiar-lhes um mandato legítimo por quatro anos, irrevogável). Muita coisa mudou, mas esta não, porque quando mudar é a própria natureza do sistema representativo que muda. O programa continua a ser um auxiliar – ao lado da ideologia e do rosto, ou rostos, da liderança – que ajuda o eleitor a escolher o representante. E é só mero auxiliar: o programa não vincula o deputado, não se convertendo em “caderno de encargos” (isso só acontece em regime de mandato imperativo, nos sistemas orgânicos). E não foi por acaso que a opção presidencialista não foi escolhida pelos nossos constituintes, sendo certo que o hibridismo do nosso sistema pende mais para o lado parlamentar do que para o lado presidencial.
(3). Prova: já foi mais ou menos assim (proximidade entre eleições e programa+liderança) nas eleições para o PE, apresentando cada grupo político europeu o seu candidato a Presidente da Comissão Europeia.
– Invocar as eleições para o Parlamento Europeu para fazer deslizar o raciocínio para a sua lógica é simplesmente inacreditável para alguém com o seu curriculum. Uma simples observação: a) o PRESIDENTE DA COMISSÃO É ELEITO PELOS DEPUTADOS DO PE (por maioria), sob proposta do Conselho Europeu, votada por maioria qualificada (n.º 7 do art. 17 do Tratado de Lisboa). Mesmo não tendo a importância e a centralidade política que a AR tem, o Presidente da Comissão não passa se não tiver maioria absoluta dos deputados do PE. De resto, nem me lembro, nas últimas eleições, de ter visto em campanha candidatos dos grupos europeus a Presidente da Comissão (Durão Barroso também não se apresentara). Mas deve ser distracção minha!
(4). Não se vendo uma maioria de governo não faz sentido “impedir a formação de um governo de maioria relativa para promover, em alternativa, um governo de minoria”.
– É muito curioso o jogo de palavras de MPM: a PaF deveria governar com um “governo de maioria relativa”, embora com apoio minoritário na AR; o PS não deveria governar com um “governo de minoria”, embora com apoio maioritário na AR! Isto tem algum sentido?
(5). Um governo de minoria permite um tráfico de coligações e de favores politicos que diminui a qualidade da democracia.
– Mas o “governo de maioria relativa” da PaF não tinha também de fazer coligações e trocar “favores”, pelo menos com o PS? E por que razão o PS teria de se coligar e de trocar favores com a PaF e não com o PCP e o Bloco, no novo quadro político? O PS é mais de direita do que de esquerda? Na verdade, isto até terá de ser esclarecido no interior do próprio PS. Mas essa é outra questão.
(6). Se António Costa “forçar uma maioria de governo, deve ser claro que a sobrevivência desse governo está estritamente vinculada a essa maioria”.
– Mas é claro que quando António Costa deixar de ter o apoio do PCP e do Bloco o governo deixará de ser viável! Mas isso não acontecia também com Passos Coelho (tinha 108 deputados) em relação ao CDS/PP? Por que razão aconteceu a reversão da irrevogabilidade de Paulo Portas? Porque, de outro modo, o governo de Passos Coelho caía! Não terminou então, termina agora, por decisão irrevogável da maioria!
Uma última observação. Creio que o Doutor MPM está equivocado sobre o que é a política deliberativa, que invoca. A chamada política deliberativa não está contida necessariamente no processo eleitoral. É diferente deste e ocorre no chamado espaço público deliberativo, não existindo um mecanismo formal de conversão decisional da deliberação pública, mas tão-só a possibilidade de os agentes formais do sistema representativo a incorporarem – quando for pregnante – nas suas decisões institucionais. Um conselho: agora que regressou – penso eu – a Fiesole não lhe ficaria mal reflectir com maior neutralidade e rigor científico sobre estes processos, deixando de se preocupar com “justificacionismos” políticos sem sentido!

XXXVIII. A OUVIDORIA DA PRESIDÊNCIA!
(Ilustração: Man Ray)

(1). O que me mais me espanta é esta súbita e irreprimível vontade do Presidente Cavaco Silva de ouvir tudo e todos, e ao “ralenti”! Não lhe bastaram as eleições, onde os portugueses foram ouvidos através do boletim de voto! Nem os partidos, que já ouviu! Nem a Assembleia da República, onde tudo ficou muito claro durante dois dias!
(2). Não, agora quer ouvir muito mais. Quer ouvir os parceiros sociais e personalidades. Está bem. Que ouça! Ouvir não faz mal. Até estimula o órgão. Só que a relação custo-benefício é, aqui, desproporcionada! Para indigitar não é preciso tanto!
(3). Poderia ter feito o mesmo com o minoritário Passos Coelho, que indigitou duas vezes (uma, informalmente, sem ouvir ninguém, e outra, formalmente, ouvidos tão-só, e muito bem, os partidos)! Mas não fez!
(4). Então para quê tanto ouvir, agora? A Presidência tornou-se subitamente uma Ouvidoria? Quer ser ela a fazer o Programa de Governo, ouvindo, para tal, todos os que estão com a mão na massa (e nas massas)? Parece, mas não pode. O Programa de Governo já existe. É o do PS, negociado com o Bloco e com o PCP. E quem tem de o apreciar é a AR. Por isso, um Programa da Presidência não poderá ser tomado em conta nem apreciado. Logo, nem sequer faz sentido fazê-lo! Mas, se assim for, para quê ouvir tanta gente? Para, no fim, acabar por ter de indigitar António Costa? Ou para poder dizer que, sendo a maioria contra, não o irá indigitar? Mas, então, para que servem as eleições? Não seria melhor instalar já um regime corporativo? Mesmo assim, para indigitar não é preciso tanto!
(5). Vai ouvir também personalidades? Mas elas não foram já ouvidas através do boletim de voto, como todos nós, cidadãos? É por mero acaso que na Constituição se fala tão-só em ouvir os partidos? O sistema representativo é um sistema corporativo? E uma personalidade vale duas vezes um boletim de voto? E por que razão esta personalidade e não aquela? Qual é o critério?
(6). Se o Presidente se tornou Grande Ouvidor então que ouça os 308 Presidentes de Câmara e os 308 Presidentes de Assembleias Municipais (para não dizer os Presidentes das Juntas de Freguesia)! Ao menos esses foram eleitos!
(7). Se não for assim, também quero ser ouvido! Eu até me considero uma personalidade e não abdico de fazer valer o meu voto pelo menos duas vezes. Uma, na urna, outra, de viva voz. Fico a aguardar!
(8). Tudo isto parece ridículo, mas não é. O Presidente foi à Madeira para ouvir os Madeirenses e o seu Presidente Miguel Albuquerque? Mas então que vá também aos Açores ouvir os açoreanos e o seu Presidente Vasco Cordeiro! E, depois, ao Minho, a Trás-os-Montes, às Beiras e por aí adiante até ao Algarve. Poderá mesmo ouvir todos os portugueses, um a um, de viva voz! Seria uma festa!
(9). Sim, tudo isto parece apenas ridículo, mas não é! Porque é mais do que isso. O Senhor Presidente está a apoucar a política, a democracia e o País. O que não é tolerável. Que me perdoe, mas não consigo calar a minha indignação perante o espectáculo lamentável a que estamos a assistir!
(10). Aguardei pelas notícias de hoje. Ouvi de viva voz o Presidente e decidi não me calar!

XXXIX. POESIA VII – ESTALA O VERNIZ…
(Foto de ilustração: “Main Ray”, 1935-1971 – de Man Ray)

Já estalou o Verniz,
Lá na Sala de S. Bento
Paula,Telmo e Luís
Dói-lhes tudo, que Tormento!
Estão todos muitoTristes
Com o Drama do momento
Viram Poder por canudo
Caindo em Sofrimento!
Triste $ina de quem ganhou
E chora palavras ao Vento
Que fogem de quem as diz
Perdendo-se lá em S. Bento!
Estigma d’ Oposição
Que cedo cantou Vitória
Vendo passar-lhe de mão
O Poder, fugaz Glória!
Tão cedo não voltará!
Pedro&Paulo são história
Beberam Presente demais
Tornou-se o futuro, Memória!
Por lá ficam a Comentar
O que outros vão Fazer
Faz-lhes bem esse Olhar
Sobre o novo Acontecer!
O Assis fica lá longe
A tratar da União
Mas não nos irá deixar
Sem a sua Opinião!
Cá estamos p’ra receber
A “Corrente Alternativa”
Esperamos muito Dela
Muita coisa Positiva!
E assim vai o País
Com Esperança no Futuro
Pedro, Paulo e Assis
E o Costa a dar-lhes Duro!
Que fará o Presidente?
Estamos todos ansiosos
Seja ele tão Previdente
Que castigue os Preguiçosos!
Os que cantaram Vitória
Sem as contas terem feito
E que agora tanto Choram
Grossas lágrimas de Despeito!

XL. Transcrevo aqui o meu ARTIGO PUBLICADO ontem em “SOL” (06.11.2015, Pg. 55). E acrescento a notícia do resultado da votação na Comissão Nacional do PS sobre o acordo à esquerda: dos 172 votos, sete foram contra e dois foram de abstenção. A famosa reunião da Bairrada parece ter sido demasiado empolada tendo em conta o fraco resultado na CN das vozes dissonantes. Assis parece ter abrandado a sua marcha impetuosa para uma putativa liderança. E faz bem. Discordar é uma coisa, legítima. Passar-se para o lado dos adversários – o que aconteceria se insistisse neste combate – é outra! Desafio-o a fazer uma reflexão serena sobre o que aí vem, a partir de um ângulo de visão diferente daquele de que tem partido. Inteligência e saber não lhe faltarão, para isso.

“O REGRESSO DA POLÍTICA?

1. Com as intervenções do Presidente, sobretudo a da indigitação, o debate político tornou-se mais intenso. Indigitado, o líder da força política com mais mandatos formou governo, tomou posse e apresentará o programa na Assembleia da República (AR) no dia 9.11. Ou passa ou é rejeitado. Ambas as decisões são legítimas. A AR pode apresentar moções de rejeição do Programa ou de censura de um Governo. E os Governos moções de confiança. Em todos os casos, estes podem cair. A AR ocupa, assim, neste processo um lugar político central. Quem ganha as eleições deve governar? Sim. Se a maioria absoluta do Parlamento não se opuser ou não gerar outra solução. O XVIII Governo Constitucional tinha ganho, em 2009, as eleições e a coligação negativa PSD/CDS/PCP/BE derrubou-o em 2011, dois anos antes do fim da legislatura, chumbando o PEC IV e optando pelo resgate! O Parlamento exerceu o seu legítimo poder.
2. Agiu bem o PR ao indigitar Passos Coelho, mas esteve mal quando usurpou performativamente as funções da AR, descendo, indevidamente, ao patamar do combate político e sobrepondo-se ao órgão de soberania onde são gerados, avaliados e legitimados os governos. O seu discurso sabe, por isso, a cruzada contra os apóstatas do dogma político convencional. Trinta e seis deputados – um milhão de eleitores – não podem ser guetizados politicamente no Parlamento a que pertencem! As três famosas agências de rating (Fitch, S&P e Moody’s) gostaram dos discursos? Talvez. Mas nem mesmo assim nos tiram do lixo, para onde nos enviaram, apesar de o PCP e o BE estarem na oposição! Pergunta: qual das duas “constituencies”, a dos “cidadãos-eleitores” e a dos “credores internacionais” (dos Buffets e Rockefellers), vale mais para o Presidente?
3. António Costa terá combates difíceis pela frente (a começar pelo anunciado combate de Francisco Assis): o da rejeição, numa só moção, do Programa de Governo (fundamento: “já avaliámos negativamente, durante quatro anos, as vossas políticas!”); o da construção de um sólido e realista programa comum para a legislatura; o da formação de um governo credível que preferivelmente integre as forças políticas que assinaram o Programa; o da governação com equilíbrio entre rigor orçamental e Estado Social, crescimento e emprego; e o da legitimidade de exercício ou flutuante (política deliberativa).
4. As grandes dificuldades podem criar grandes oportunidades. E a coragem é um valor relevante em política!”

XLI. QUAL É A PRESSA, QUAL É A PRESSA?

(Glosando Seixas de Costa, no twitter, que glosou Seguro!
Ilustração: Uma capa da Revista Italiana MicroMega).
JOÃO PROENÇA pôs tudo em pratos limpos, hoje, na RTP3.
(1). O grupo de António José Seguro, agora liderado por Francisco Assis, prepara uma candidatura a Secretário-Geral, criando uma “corrente de opinião”!
Comentário: – Mas esta corrente não existia já?
(2). A derrota de António Costa e a opção por uma aliança à esquerda são o pretexto e a ocasião para uma recomposição deste grupo.
Comentário: – Não falta ainda a candidatura de Maria de Belém?
(3). O juízo sobre a liderança de Costa é claro: Seguro era melhor do que Costa.
Comentário: – Mas os militantes e os simpatizantes foram esmagadoramente de opinião contrária, nas primárias de há um ano!
(4). O almoço da Mealhada serve para mobilizar o partido e desafiar, desde já, a liderança!
Comentário: – Louvável a clareza, mas será oportuno o momento? Oportuno até pode ser, mas não será somente para o assunto subir ao topo da agenda pública?
(5). A coligação de esquerda não foi presente aos eleitores.
Comentário: – Nem tinha de ser, visto que tão legítimas são as coligações pré-eleitorais como as pós-eleitorais. O voto é nos representantes e não leva consigo um caderno de encargos.
(6). O acordo à esquerda é contranatura!
Comentário: – E o acordo à direita não o é ainda mais? Ou o PS já não é um partido de esquerda?
(7). A direita ganhou, deveria governar! E o PS deveria ter-se abstido.
Comentário: – A direita formou governo, como devia, e agora a palavra é da Assembleia, como acontece nas democracias representativas!
(8). Nenhum governo saído destas eleições chegará ao fim da legislatura!
Comentário: – Esperemos que isso não aconteça, para bem do País! Com apoio maioritário, previamente negociado, qualquer Goverrno tem, à partida, maior estabilidade!
(9). O processo em curso não está suficientemente ancorado nas instâncias do partido (por exemplo, na Comissão Nacional)!
Comentário: – Mas vai estar quando as negociações chegarem ao fim e nelas forem debatidas e votadas!
(10). Desilusão com Costa, porque perdeu e dividiu o partido.
Comentário: – É legítimo o desabafo, mas a desilusão também era grande com Seguro, como se viu nas primárias.
(11). Tudo isto é um enorme risco para o PS.
Comentário: – Os grandes riscos também podem constituir grandes oportunidades.
João Proença foi claro. Mérito seu. Coragem sua! Parabéns! Já não há rabo escondido com gato de fora. Mas, das suas palavras, ficou-me a sensação de que se continua no plano da táctica e dos rostos para uma liderança, quando, na verdade, do que se trata é de algo mais profundo. Eu diria que, mesmo que a causa imediata deste processo seja menor (ambição pessoal ou instinto de sobrevivência política, por exemplo), este já se tornou incomensuravelmente maior do que aquela. Ou seja, já estamos perante um processo novo, denso, complexo, difícil e de grande alcance político, que rompe com a geometria política tradicional e abre uma nova espiral política. Por isso, até parece nem ser negativo que irrompa esta fractura no interior do próprio PS, porque ela vem testar com maior profundidade a consistência do complexo processo político em curso e a robustez dos protagonistas que se jogam politicamente nele. Neste sentido, a iniciativa até poderá vir a desempenhar uma função relevante!
Reduzir, pois, este processo a meras ambições pessoais (de Costa, de Assis ou até de Proença) ou a simples diferenciações tácticas é muito redutor. O que aqui se joga é muito mais:
(a) a possibilidade de superar a geometria política convencional;
(b) a viabilidade de conjugar rigor orçamental com prestações sociais, crescimento e emprego;
(c) a afirmação da identidade política e ideal do PS perante parceiros socialmente mais sedutores porque mais garantistas e igualitários;
(d) a capacidade de promover uma forte mobilização estratégica do país em torno de um projecto político sedutor e em linha com os complexos e difíceis desafios do futuro;
(e) a demonstração de uma eficaz e sustentável resistência aos diktats do poder financeiro internacional, deixando claro que a “constituency” do cidadão-eleitor é mais importante do que a do capital financeiro;
(f) a compatibilização de uma robusta e necessária cidadania europeia com a preservação e a afirmação das diversas identidades nacionais e regionais;
g) a redefinição de uma nova política para a lusofonia;
h) a capacidade de responder com criatividade e realismo aos novos desafios da globalização.
Estes (e outros) itens não poderão deixar de estar inscritos com clareza analítica na identidade política de um PS que negoceia à esquerda e que urge repensar com categorias que vão para além das receitas da velha social-democracia e da sua condição de tradicional partido de charneira num bipolarismo político e ideológico que desapareceu com a queda do Muro de Berlim (veja “Um novo paradigma para o socialismo”, in joaodealmeidasantos.com).
E, todavia, o que, infelizmente, me parece que está a emergir é uma disputa meramente táctica entre grupos dirigentes alternativos com vista à conquista do poder interno, com algum sabor amargo a revanche e a ambições pessoais. A posição de Assis já tinha sido claramente expressa numa entrevista a um canal televisivo. Nada a objectar. A partir daí o grupo que lidera deveria esperar pelo fim das negociações e pelas Comissões Política e/ou Nacional para tomar posição. Ao fazê-lo agora, nos moldes em que o faz e no exacto momento em que as negociações parece estarem a conhecer algumas dificuldades, está a contrariar efectivamente o processo em curso com vista a favorecer a sua reversão. E é claro que, se Costa não atingir o seu objectivo, será, então, mais fácil derrubá-lo, a seguir às presidenciais! Mas promover, deste modo, um combate que extravasa as fronteiras do partido e atinge em pleno, e contra o PS, o centro da política nacional, contando, para isso, com fortes aliados interessados no fracasso desta estratégia, parece-me, de qualquer modo, pouco ético e politicamente desastrado. Porque não entendeu ainda que o facto já é, de facto, maior do que a sua causa, seja ela qual for (e mesmo que seja menor). E, por isso mesmo, digo eu, talvez o seu gesto acabe por densificar ainda mais este difícil processo, contribuindo para o pôr agora à prova de todo o tipo de intempéries. Se, mesmo assim, resistir, demonstrar-se-á que também os seus protagonistas são, eles próprios, afinal, maiores do que as suas causas (sejam elas quais forem)! Se não resistir, então isso demonstrará que não tinha fundamentos suficientemente maduros. E, aí, o grupo de Assis terá, então, também desempenhado um seu papel! A interpretar, no futuro!

XLII. PERPLEXIDADES!
(Ilustração: Nicotine Cat, de Paula Rego, 2003)

(1). Francisco Assis foi manchete no “Expresso”. E entrou na agenda dos jornais e dos vários canais de televisão. Razão: não concorda com a solução parlamentar e governativa que o PS está a negociar. Vai, pois, promover uma “corrente alternativa”, assente na recusa de uma aliança parlamentar e de governo (programática, pelo menos) do PS com os partidos à sua esquerda.
(2). Nisto, Assis estará certamente acompanhado por todo o grupo que se reconhece na liderança de Seguro.
(3). Não me parece, todavia, possível construir uma “corrente alternativa”, fundando-a tão-só numa discordância táctica!
(4). Do que o PS precisa, isso sim, é de uma profunda reflexão política e doutrinária que o possa conduzir a uma redefinição da sua identidade política em face das profundas mudanças que se estão a verificar nas sociedades contemporâneas.
(5). Os partidos socialistas beneficiaram sempre de uma posição de charneira entre a direita conservadora e a esquerda radical, sobretudo a que se reconhecia nas democracias orgânicas ou no socialismo de Estado. Com a queda do Muro de Berlim e a ruptura deste sistema esta posição relativizou-se, perdendo densidade política. E, por isso, mas não só, torna-se necessário reequacionar uma nova geometria política para os partidos socialistas, a que estarão associadas uma nova identidade e uma nova estruturação política. A possibilidade de alianças à esquerda poderá ser agora equacionada à luz desta nova situação. Neste sentido, a posição de Assis parece-me excessivamente datada!
(6). Tem-se falado pouco da vitória de Jeremy Corbyn no Labour, em primárias (veja-se aqui, “infra”, o meu comentário a propósito da sua candidatura). Significa isso que a base social de apoio do Labour se radicalizou? Não duvido. E qual é a natureza da base social de apoio que deu uma vitória esmagadora a Costa no PS, contra Seguro, nas primárias abertas? Ou seja, é absolutamente necessário reflectir sobre a relação orgânica do PS com a sociedade em função das mudanças profundas que já aconteceram e estão a acontecer em todas as frentes. Veja-se, por exemplo, o efeito disruptivo da rede sobre as relações sociais, pessoais, comunicacionais e políticas!
(7). Uma abertura política à esquerda do PS exige sem dúvida que a sua identidade e o seu espaço geométrico estejam muito bem definidos para que não se verifiquem perigosas diluições de fronteiras na sua acção política, sobretudo quando age em coligação ou com acordo programático.
(8). O compromisso, ainda que tácito, com as políticas desta direita ultraliberal não faria crescer ainda mais o Bloco e o PCP, sobretudo depois de estes partidos terem dito que viabilizariam um governo do PS?
(9). Gostaria que, neste momento, Assis se fizesse mais promotor de uma profunda reflexão sobre estas questões e sobre a identidade do PS em face das mudanças em curso do que da afirmação de uma alternativa meramente táctica à política que neste momento o PS está a desenvolver com tanta dificuldade, incompreensão e risco!
(10). Mas olhando para a natureza táctica da sua posição crítica e para o tempo e o modo como a formula, fica a sensação de que o faz para lançar com força e eficácia na agenda pública um processo de disputa pela liderança do PS, diminuindo, deste modo, a genuinidade, a oportunidade e o alcance estratégico do seu posicionamento político e fragilizando, com isso, incompreensivelmente, o seu próprio partido! Não lhe dão que pensar os rasgados elogios do sibilino LMM, hoje na SIC?
* Para uma reflexão mais a fundo veja: Santos, J. A. (2015). “Um novo paradigma para o socialismo”. In joaodealmeidasantos.com

XLIII. O REGRESSO DA POLÍTICA?
(Ilustração: Paula Rego, O Quarto dos Castigos, 1969)

(1). O Presidente indigitou o líder da força política que obteve mais votos e mais mandatos parlamentares. Seguiu a tradição, satisfez a legítima ambição da Coligação PàF e adoptou um saudável princípio de transparência procedimental. Cabe agora a Passos Coelho formar Governo e apresentar o respectivo Programa na Assembleia da República. Esta foi uma boa decisão porque dá corpo a um processo transparente de gestação política e institucional de um governo, remetendo-o da Presidência para a Assembleia, lugar para onde convergiu o processo eleitoral (elegendo os representantes) e a partir do qual se formam e se legitimam os governos (de acordo com o princípio da maioria: metade + um). Caberá agora à Assembleia avaliar, perante os portugueses, o Programa de Governo, dando-lhe, ou não, o seu aval. Ficaremos a aguardar a pronúncia dos Deputados.
(2). Se esteve bem na adopção do procedimento, o Presidente exorbitou das suas funções ao pronunciar-se politicamente sobre a eventualidade de se vir a constituir uma maioria de governo constituída por PS, Bloco e PCP. Antecipou-se e sobrepôs-se ilegitimamente ao juízo soberano da Assembleia, fazendo deslizar a sua função para um plano que não é o seu. Eu diria mesmo que se tratou de uma usurpação (performativa) de poderes. E introduziu no sistema uma variável discriminatória que a Constituição não prevê (nem admite). Diria, pois, que o Presidente desceu da sua função institucional para um patamar de combate político! As razões invocadas sabem um pouco a cruzada contra apóstatas, a integralismo laico!
(3). Na refrega, ouvi o inefável Telmo Correia (TC) dizer que com maioria ou sem maioria quem ganhou as eleições deve governar. Esta norma não existe na Constituição e colide com a natureza do sistema representativo. E a existir reduziria a Assembleia da República a uma nulidade. As moções de censura ou de rejeição do programa de governo, aprovadas por ela, implicam a queda do governo. Uma moção de confiança reprovada, também (ver art.s 186, 192, 194 e 195 da Constituição). Um governo só é possível e só se mantém em funções desde que a AR lhe dê o seu consenso (activo ou passivo). Tudo isto, juntamente com o complexo das suas vastíssimas competências, prova a centralidade do Parlamento neste processo. TC já se esqueceu do seu voto (do CDS) quando, em 2011, juntamente com o PSD, o PCP e o Bloco, derrubou o XVIII Governo Constitucional, chumbando o PEC IV? Era um Governo de maioria relativa! Não devia governar até ao fim do mandato?! Não, dir-me-á, porque a sua prática já se tinha mostrado inadequada! Certamente! Mas então também a esquerda poderá agora dizer o mesmo dos quatro anos de governo da Coligação PàF!
(4). Também se diz que não é razoável que a maioria de esquerda diga antecipadamente que irá propor e votar uma moção de rejeição do Programa do Governo sem o conhecer. Só aparentemente faz sentido esta observação, já que esta maioria seguiu e debateu criticamente, ao longo de quatro anos, a prática governativa austeritária da Coligação, tendo razões mais do que suficientes para não querer um Governo liderado por Passos Coelho e Paulo Portas. E não é possível argumentar dizendo que os eleitores quiseram um governo da Coligação: por um lado, porque não lhe deram maioria absoluta de mandatos e, por outro e sobretudo, porque a vontade dos eleitores, terminado o processo eleitoral, é transferida para a vontade soberana e livre dos representantes, únicos depositários do mandato não imperativo (irrevogável) por eles confiado. É, por isso, um erro grosseiro dizer que os “eleitores quiseram”, já que no sistema representativo a sua vontade migra (e não leva conteúdos programáticos) para a dos representantes escolhidos pelo voto. A não ser que a Coligação queira introduzir no sistema o “mandato imperativo” (revogável), como no antigo sistema soviético (art. 107 da Constituição Soviética de 1977)! Na verdade, no nosso sistema há representantes e não comissários!
(5). Claro que é legítimo discutir politicamente a solução “governo de esquerda”, pondo em questão compatibilidades, princípios, doutrinas, identidades, programas… tudo! O que já não é legítimo, nem sequer sensato (ou constitucional) é: 1) excluí-la, ex-ante e por princípio, como fez o Presidente; 2) recusar o direito de duas formações políticas presentes no Parlamento, com 36 deputados, correspondentes a cerca de um milhão de eleitores, darem o seu contributo para uma solução governativa; 3) não admitir que o compromisso destas forças, sendo legítimo e até desejável, pode contribuir para a moderação, o equilíbrio e uma maior integração do debate político em Portugal; 4) condenar o programa comum quando este ainda não é conhecido; 5) querer conhecê-lo quando ainda decorrem as (difíceis) negociações; 6) não reconhecer que as soluções tradicionais não têm dado as melhores provas: como responsáveis pelo ruir do pilar financeiro do sistema, por uma dívida pública de 130% do PIB, por um nível de desemprego elevadíssimo, por um sistema judicial que mete água por todos os lados…
(6). O desafio de António Costa não é fácil. Deverá ser capaz de conjugar rigor orçamental com defesa do Estado Social, crescimento e emprego e de moderar politicamente as tendências centrífugas dos parceiros em matérias tão delicadas como a UE, o Euro, a Dívida, a NATO. Mas também é verdade que, sendo mais que legítimas as diferenças sobre estas matérias, talvez seja mais responsável assumi-las institucionalmente do que fazê-lo em manifestações de rua, sendo certo que a tendência maioritária em relação a elas não deixará, por isso, de se manter. De resto, não têm estas forças políticas estado representadas na Assembleia da República e no Parlamento Europeu? A sua presença nestas instituições tem-se revelado perigosamente disruptiva, perturbadora?
(7). Creio que, por tudo isto, António Costa deveria lutar por um compromisso para a legislatura e pela integração no Executivo dos seus parceiros. Será melhor para todos, porque, no Governo, ver-se-ão necessariamente confrontados com as exigências e os limites que a responsabilidade institucional e o compromisso nacional porão a uma imposição intensiva e exclusiva da forte ética da convicção que os tem legitimamente animado, confrontados que ficarão com as implacáveis exigências moderadoras da ética da responsabilidade. Não tenho dúvidas de que estas forças continuarão a clamar pelos direitos, liberdades e garantias, o que é mais do que legítimo e desejável, mas também não tenho dúvidas de que o seu discurso e as suas acções passarão a integrar de forma mais consistente e duradoura a linguagem dos deveres e da responsabilidade.

XLIV. DESFAZENDO EQUÍVOCOS…
(Ilustração: João Vieira: “Composição”, 2005. Homenagem ao pintor, ao amigo e às suas ideias)

I. CONSIDERAÇÕES SOBRE O SISTEMA REPRESENTATIVO E A POLÍTICA.

O processo de formação de um Governo está a revelar-se muito esclarecedor acerca do conceito de democracia de inúmeros protagonistas políticos e mediáticos que ocupam os interfaces da comunicação social. Cruza-se alguma ignorância com militância interesseira nos discursos, o que se revela pouco esclarecedor para a cidadania. Vejamos.
1. Vota-se em programas de governo e/ou para primeiros-ministros?
– (a) Gostaria de saber quantos portugueses leram os programas de governo propostos pelos partidos! Haverá algum? E, de qualquer modo, não se vota programas, mas sim candidatos a representantes. Ou seja, decidimos somente sobre quem vai decidir por nós. Ponto. É assim há séculos e é essa a lógica do sistema representativo. Mas acrescentando algo sobre isto devo dizer o seguinte: em tese, o eleitor vota no representante baseando-se em três factores: o Rosto do candidato, o Programa e a Ideologia (princípios, valores, visão do mundo). Destes três elementos, o que menos conta é o Programa. Por uma simples razão: ninguém o lê.
– (b) Não se vota para decidir quem será o Primeiro-Ministro (e muito menos os ministros), mas sim para quem nos vai representar no Parlamento. Será, depois, a composição do Parlamento a determinar quem deve ser chamado (pelo PR) a formar governo. Sendo chamado quem tiver maioria relativa no Parlamento, a decisão final deste órgão de soberania (neste caso, sobre o Programa de Governo) será sempre tomada por maioria absoluta (metade + um). Portanto, o governo só entra em funções se obtiver o consenso da maioria absoluta (nem que seja através da abstenção de uma parte).
2. Não é conveniente, pragmático e realista incluir na maioria de governo os partidos à esquerda do PS por serem demasiado radicais!
– Antes da queda do Muro de Berlim, em Itália vigorava uma norma política informal que era designada por “conventio ad excludendum” (ou “Fattore K”) que excluía das soluções governativas o PCI. Verifica-se agora que a maioria dos “intelectuais orgânicos” do establishment mediático e político português também adoptam esta norma, apesar de o Muro de Berlim e o Pacto de Varsóvia já não existirem e de isso significar uma intolerável desqualificação de trinta e seis deputados da Nação, eleitos por cerca de um milhão de portugueses. Um milhão de cidadãos fica, deste modo, também politicamente desqualificado! Acham isto tolerável?
3. O PS deve ir sempre sozinho a votos e deve governar sempre sozinho (ou então com a direita, como já aconteceu pelo menos duas vezes, com o CDS e com o Bloco Central)!
– Esta posição, que compreendo e que tem adeptos ilustres no interior do PS, é redutora e parte de um pressuposto errado. Quem tem, como o PS, uma identidade robusta não deve temer diluição em identidades alheias quando coligado. Do que precisa, isso sim, é de renovar e de reforçar idealmente esta identidade (eu próprio já dei o meu contributo, apresentando, na Distrital de Santarém, e publicando “Um novo paradigma para o socialismo”, em joaodealmeidasantos.com.
4. Não foi para isto que eu votei neles!
– Os eleitores quando votam em quem os vai representar não podem impor um caderno de encargos aos representantes, porque se assim fosse seriam incalculáveis, em número e diversidade, os encargos porque incalculáveis são os interesses e as ideias de milhões de eleitores. Os representantes ficariam amarrados aos interesses sectoriais dos círculos eleitorais e não poderiam representar toda a Nação (“la Nation entière”). Uma coisa é a génese (o voto), outra é o mandato (a representação política). O sistema representativo tem vindo a ser testado há séculos e não me parece que a sua lógica possa ser alterada por conveniência política conjuntural. A argumentação é esta: se o deputado levasse um caderno de encargos – para cumprir -, então o mandato deveria ser revogável – não cumprindo (veja-se Joseph Schumpeter, em “Capitalismo, socialismo e democracia”). Ora o mandato não é revogável (não é “imperativo”). E não é revogável porque o que ele representa é a Nação e não o círculo eleitoral que o elegeu!
5. “Quem ganhou, governa, mesmo que tenha maioria relativa”?
– Sim, desde que a maioria (absoluta) parlamentar dê o seu consenso ao Programa (ainda que abstendo-se).
6. É assim tão difícil compreender isto?

II. O PS E A RECOMPOSIÇÃO DE FORÇAS NO PÓS-ELEIÇÕES.
1. Como era previsível, a ala que se reconhecia na liderança de Seguro acaba de proceder a uma recomposição em torno do tema “maioria de esquerda”. (Quase) Todos os ex-dirigentes desta ala já se pronunciaram contra a solução de um Governo suportado numa maioria de esquerda. Este processo de recomposição pública vai intensificar-se com a candidatura de Maria de Belém à Presidência. Prevejo, sobretudo depois da entrevista de Francisco Assis, que a seguir às presidenciais pretendam disputar a liderança, substituindo o actual grupo dirigente.
2. Não conseguindo um governo de esquerda e perdendo a eleição presidencial, António Costa (AC) terá, pois, o destino traçado.
3. Isto não acontecerá se for Primeiro-Ministro.

III. O PROCESSO DE FORMAÇÃO DO GOVERNO.
1. O debate tornou-se intenso e no processo entra de forma decisiva a luta pela conquista da opinião pública em relação às duas soluções de governo que estão em cima da mesa. Chama-se a isto, tecnicamente, “política deliberativa” (referência: Juergen Habermas).
2. Considerando absolutamente legítimas as posições negativas de Francisco Assis, Carlos Zorrinho, João Proença, Eurico Brilhante Dias, Álvaro Beleza, António Galamba ou Carlos Silva (só falta mesmo Antóno José Seguro) sobre a formação de um governo de esquerda, a verdade é que o PS está a ficar muito enfraquecido não só no combate decisivo pela conquista da opinião pública para esta orientação estratégica, mas também nas próprias negociações com o BE e com o PCP, sobretudo porque elas fragilizam muito o próprio líder do PS. Ou seja, o Grupo de Seguro já entrou negativamente nas negociações e de forma pública. A um ponto tal que a Coligação parece já ter introduzido na sua estratégia esta variável, admitindo, em tese, que os Deputados deste Grupo possam vir a abster-se na votação do Programa de Governo.
3. A fragilidade de AC pode resultar numa tentativa de forte condicionamento do PS pelos seus partners, até porque sabem que a sua sobrevivência política depende deste acordo (embora também possa servir de argumento para evitar algumas cedências).
4. O que eu noto é que (à excepção de Porfírio Silva) o grupo dirigente que rodeia AC não está a dar a cara por esta solução, o que acentua uma sensação de isolamento que já se verificara na campanha eleitoral (e até mesmo antes).

IV. ALTERNATIVA.
AC não tem, de facto, alternativa. Ou consegue um acordo para a legislatura com participação activa dos parceiros no Governo e um programa politicamente blindado ou deverá começar a preparar a sua sucessão.

XLV. O NOVO PANORAMA POLÍTICO
(Ilustração: “On the Shore”, by Henry Paul)

OS DADOS.
1. Um primeiro dado a reter: 43,1% de abstenção. Nada muda, mas é preocupante e indica que o sistema político não está a responder às expectativas dos cidadãos.
2. A Coligação perdeu cerca de 730 mil votos e 25 deputados.
3. O PS aumentou o número de votos – cerca de 180 mil – e o número de deputados, + 12.
4. O Bloco de Esquerda subiu 11 deputados e quase duplicou o número de votos.
5. A CDU ganhou mais um deputado.
6. Dos pequenos partidos, surpreendentemente, o PAN elegeu um deputado, tendo os outros ficado sem representação parlamentar.

OBSERVAÇÕES.
1. A coligação perdeu a maioria absoluta.
2. O PS perdeu as eleições.
3. A esquerda ficou com maioria absoluta, com 122 deputados.
4. A abstenção subiu para um nível indesejável.
5. O sistema de partidos manteve-se estável, rejeitando novas propostas.
6. O BE é agora a terceira força política e o CDS a quinta.

ARGUMENTAÇÃO POLÍTICA.
1. As democracias representativas regem-se pelo princípio da maioria. Esta resulta do número de mandatos no Parlamento (metade + um). Cada deputado representa a Nação (não o círculo eleitoral que o elege nem o respectivo partido). É portador de um “mandato não imperativo”: não leva consigo nenhum “caderno de encargos” (ou um programa), nem do eleitor nem do partido (“il ne pourra leur être donné aucun mandat”, lê-se na Constituição Francesa de 1791, Cap. I, Secção III, Art. 7). Consigo leva somente a sua consciência. É, pois, deste quadro institucional que resultam os governos.
2. Os deputados estão num plano superior ao que tinham quando eram candidatos uma vez que passaram a integrar um órgão de soberania. A sua condição civil (privada) fica, assim, superada pela sua condição política (pública).
3. A formação de uma maioria parte, pois, das decisões destes deputados, politicamente emancipados, livres e independentes de qualquer condição (seja do partido seja do eleitor). É esta a natureza do sistema representativo.
4. A audição dos partidos pelo PR (obrigatória) visa conhecer, a este respeito, a orientação dos grupos parlamentares com vista à formação do governo, tendo em conta a conversão dos votos em mandatos parlamentares.
5. Assim sendo, se lhe for apresentada uma maioria parlamentar o PR tem o dever de indigitar a personalidade que lhe for indicada por essa maioria.
6. Qualquer outra decisão é pura perda de tempo, a não ser que o PR queira (e pode) que a rejeição do programa de governo fique consignada nas actas parlamentares, por razões de transparência política.
7. Se, neste caso, a maioria absoluta se formar no Parlamento é porque houve acordo também nos conteúdos políticos: (a) num programa de governo; (b) na definição de um quadro de princípios a assumir, designadamente sobre a dívida (a questão da reestruturação), sobre a União e o Euro e sobre a NATO; (c) nos princípios de natureza constitucional, como é óbvio.
8. Mas a estabilidade de um acordo como este só poderá ser garantida se todas as forças políticas integrarem o Executivo. Um acordo só de incidência parlamentar não faz sentido, porque dele resultaria um governo minoritário (e, então, seria mais compreensível um governo da Coligação), que, além disso, ficaria mais exposto às ondulações políticas de ambas as forças que o viabilizaram.
9. Uma experiência com esta dimensão histórica terá de ficar blindada contra as insídias de um caminho que não se apresenta fácil e que, por isso, requerer toda uma legislatura para permitir a execução de políticas de fundo.

A POSIÇÃO DE ANTÓNIO COSTA.
1. António Costa ficou fragilizado ética e politicamente. Destituiu Seguro, perdeu as eleições e continuou na liderança. Se perder as presidenciais não poderá manter-se. Com Congresso ou sem Congresso.
2. A situação agravar-se-á se viabilizar uma coligação que tanto criticou. Se negociar com a Coligação um Programa, ficará refém dele, ainda que na oposição. O que representaria uma tragédia política para o PS. Se não negociar, mas viabilizar, será acusado de caucionar as mesmas políticas que tanto criticou.
3. A única forma de sobreviver será inovar politicamente (fuga para a frente, dir-se-ia), quebrando o enguiço da divisão da esquerda e submetendo-a finalmente a uma difícil prova de governo. O acordo deveria, todavia, ficar blindado integrando no governo os mais altos representantes destas duas forças políticas.
4. Ainda hoje Marques Mendes afirmou que um governo de esquerda equivaleria a ganhar na secretaria o que foi perdido nas urnas. Para ele, os deputados da CDU e do BE são pessoal de secretaria! Outro argumento: a aliança pós-eleitoral não foi formulada ao eleitor. No sistema representativo, tão legítima é uma coligação pré-eleitoral como uma pós-eleitoral. Outro, ainda: o programa sufragado foi o da Coligação. Mas o que, com o voto, o cidadão decide é exclusivamente quem passa a decidir em seu nome (veja-se Schumpeter, “Capitalismo, socialismo e democracia”, de 1942). Finalmente, outro argumento e o mais comum: “foi sempre assim”! Tudo o resto será um salto no escuro!
5. A todos os que assim argumentam alguém poderia contrapor que foi este mesmo sistema que permitiu a ruptura do sistema financeiro português e a evolução da dívida pública e privada para níveis absolutamente insustentáveis!
6. Estas questões têm de ser muito bem esclarecidas. Explicar, por exemplo, cá dentro e lá fora, que na Assembleia da República os deputados têm todos o mesmo valor, seja para legiferar seja para gerar governos. Que o Muro de Berlim já caiu. Que já não há Pacto de Varsóvia! Que é possível melhorar o sistema institucional da União Europeia e promover medidas que defendam os cidadãos europeus e os países dos ataques especulativos dos grandes grupos financeiros. Que, já em 1981, Mitterrand integrou o PCF no governo. E que Rifondazione Comunista, há alguns anos, integrou um governo em Itália. Sinceramente, não vejo nenhuma razão para considerar que Diogo Feio valha parlamentarmente mais do que Mariana Mortágua!
7. António Costa não tem grandes alternativas! A melhor, quanto a mim, é a de um governo de maioria parlamentar com a férrea vontade de se aguentar durante uma legislatura! O PS acompanhá-lo-á certamente nesta decisão se ele conseguir blindar a maioria.

XLVI. VOTEMOS, ENTÃO!
(Ilustração: Quadro de Man Ray: “Céleste est à l’Est de l’Ouest”, de 1949)

(1). AMANHÃ VOU VOTAR. É um dever cívico! E já critiquei uma cara amiga por ir para Paris hoje, não votando! Disse-lhe: “Votas uma vez em cada quatro anos e vais-te embora no dia do voto? E se todos nós fizéssemos o mesmo? Criticas a abstenção e tu própria escolhes este dia para te absteres, ausentando-te? Assim, entregas o teu voto a outros! É entregar o próprio destino a mãos alheias! Depois, não te queixes! E, se te queixares à minha frente, lembrar-te-ei sempre que entregaste a decisão a outros! Perdes direito de palavra!”. Foi isso que lhe disse.
Importa, sim, em quem se vota, mas, antes, importa votar.
(2). POR MIM, VOTAREI NO PS. Não gostei desta governação de maus contabilistas! Foram-me à carteira e ainda por cima usaram mal o dinheiro que me tiraram! Aumentaram a dívida! Em boa verdade, se de bancarrota querem falar, então digo que, com eles, a “banca” ficou mais “rota” do que estava! E se têm dinheiro é porque o tiveram emprestado e a juros baixos (o dinheiro do resgate e o que obtiveram no mercado). Por mérito do Banco Central Europeu. Não deles. E se o estão a pagar é com pensões, impostos e venda de património! Que grande governação! Que fantástico modelo de desenvolvimento!
(3). Apesar da emigração e do enorme emprego subsidiado, AUMENTARAM O DESEMPREGO! E isso foi por mérito próprio!
(4). Quanto ao Grupo Espírito Santo, LAVARAM AS MÃOS COMO PILATOS. Amanhou-se o Governador do Banco de Portugal. Entretanto, VAMOS VER O QUE ACONTECE COM OS CINCO MIL MILHÕES DO FUNDO DE RESOLUÇÃO!
(5). E NÃO TÊM PROGRAMA NEM FIZERAM PROPOSTAS. Disseram: “sabem o que fizemos, votem em função disso”! Lá nisso até foram coerentes. Em relação a eles, a decisão não é sobre o futuro, mas sobre o passado. Ou, então, é sobre um futuro igual a este passado. Ou seja: NO FUTURO QUEREM RESGATAR O PAÍS DAS CONSEQUÊNCIAS DA SUA PRÓPRIA ACÇÃO PASSADA!
(6). Os portugueses gostam de se torturar? Se sim, então TOMEM! PaaaFFF!!!

XLVII. NOTAS DE POLÍTICA
(A seis dias das eleições)
Foto: Man Ray – “The Point”.

(1). Coloco-me, nestas observações, na posição do eleitor médio e olho para as sondagens. Que vejo? A Coligação PaF à frente em todas (UCatólica: +10%; Aximage: + 5.9 %; Intercampus: + 4.7%). Mesmo na da Eurosondagem, onde tem mais deputados (de um a três), apesar de ter menos 0.5% do que o PS!
(2). Coisa estranha! Depois de um massacre fiscal brutal, os portugueses parece que vão dar a sua confiança a quem fez o contrário do que prometeu e, ainda por cima, com resultados absolutamente medíocres. Alguns exemplos. Desemprego: em 2010 – 10,8%; em 2014 – 13.9% (dados Pordata); dívida pública: em 2010 – 93% do PIB; em 2014 – 130% do PIB. Emprego e dívida pública, duas áreas vitais. E o primeiro número deve ser completado com os números elevadíssimos da emigração, designadamente jovem, mas também com o emprego subsidiado pelo Estado.
Este governo piorou a situação.
(3). O PS, dizem, deixou o País em bancarrota, com dívida pública de 93% do PIB! Mas a verdade é que com défice e com dívida nenhum país pode pagar os salários se não recorrer ao mercado financeiro… mas a juros sustentáveis e não agiotas, como foi o caso! Mas estes senhores PaF aumentaram, durante o mandato, a dívida pública em 37 pontos percentuais! PaF!! E beneficiaram da baixa das taxas de juro (devido à política financeira e monetária do BCE) e do silêncio interessado e “amigo” das famosas agências de rating. Veja-se, por exemplo, as recentes e “desinteressadas” intervenções da S&P e da Fitch, uma a subir o rating da República (mantendo-o, todavia, no lixo) e a outra a falar de “perspectiva positiva” para Portugal. Que amigas da Coligação são estas duas agências! Só falta mesmo a Moody’s! E como são tempestivas as suas intervenções! Logo em tempo de eleições! Que bela coincidência! Depois o défice: volta aos 7.2%. Dizem que é por causa do Fundo de Resolução. Sim. E o défice de 2010 não sofreu a influência do colapso do BPN e do BPP? E quais eram as referências políticas destes bancos? Ninguém se lembra? Tudo isto a demonstrar uma enorme performance da PaF!
(4). Entretanto, a carga fiscal é o que é, pesadíssima, a sobretaxa mantém-se e o corte nas pensões continua a animar os pensionistas! Mas nem tudo está perdido porque, afinal, no próximo ano, Passos e Portas vão devolver-nos 35% da sobretaxa. Eu já nem penso noutra coisa de tão feliz que ando desde que recebi a notícia!
(5). Procuro, por outro lado, o programa da PaF e uma ideia orientadora. Não encontro. E creio mesmo que, se lhes perguntasse, me diriam que os julgasse pelo que fizeram ao longo destes quatro anos. E vou mesmo julgá-los, convidando quem me lê a fazer o mesmo: votar em quem os pode pôr fora do governo!
(6). Com estas sondagens a pergunta de um milhão de euros é a seguinte: somos todos masoquistas e parvos?
(7). Ajudando-nos a responder negativamente à pergunta, o PS tem seis dias para dizer e repetir até à exaustão que:
(a). Esta PaF piorou as contas públicas! Massacrou a classe média para a pôr pior do que estava! Endividou o País: a dívida pública passou de 93% (2010) para 130% do PIB (2014).
(b). Esta PaF aumentou o desemprego, estimulou a emigração e subsidiou falso emprego!
(c). Esta PaF não tem uma orientação estratégica (e nem sequer um programa) a não ser continuar o massacre fiscal, o corte nas pensões e as privatizações apressadas e a bom preço!
(8). António Costa deve dar um sinal muito forte ao País se quiser inverter a tendência que se está a insinuar! E mostrar que o único voto que nos pode livrar deste pesadelo é o voto no PS!

XLVIII. POESIA VIII –  É TEMPO DE POESIA / QUANDO A POLÍTICA INVADE / TEMOS TEMPO PARA TUDO / ATÉ MESMO P’RA VERDADE!

AS BOTAS DE UMA CRIANÇA, / Búzios de mar da Costa / Temos tempos de bonança? / Digo não, faç’ uma aposta! / Só das olhar fico feliz / Lembram-me tempos d’outrora / E tem razão quem o diz / Não são os mesmos, agora! / Não é isto nostalgia, / Mas simples constatação / Dizer diferente, mentia! / Sufocava o coração! / A natureza é diferente / Tem um ritmo regular / E não muda de repente / A não ser p’ra protestar! / Por exemplo, a oliveira / Que sempre nos dá azeite / E não há outra maneira / De na mesa haver deleite!

GOSTO MUITO D’ OLIVEIRAS / Até tenho um olival / Mas não tenho no jardim / Sem razão especial! / Gosto d’azeite da Beira / Acho que faz muito bem / O fruto da Oliveira / Que toda a gente cá tem! / P’ra lenha tenho castanho / Num soito da minha Quinta / Inda agora a cortaram / Até foi no dia trinta! / P’ra preparar o inverno / Porque cá faz muito frio / Se não nos precavemos / Fica o inverno sombrio! / Mas azeite tenho que chegue / E é produto muito fino / Quem mo traz todos os anos / É o amigo Celestino! / Está tranquila, Amiga! / Que gosto da oliveira / Se isto não for verdade / Que eu caia já da cadeira! / Mas para as uvas do Loureiro / Ao lado do azevinho / Até chamei um bombeiro / De seu nome “O Caldinho”! (Na Foto)

QUE HEI-D’ EU FAZER / SE O LOUREIRO M’ ENCANTA? / Não responder ao apelo? / Mas se é mais que uma planta! / Só pretendo evasão / De clausura que oprime / De uma longa solidão / Sem fuga que me anime! / Bem preciso de calor / Pois a montanha e o frio / Não chegam para curar / A tristeza do vazio! / Saudades são, afinal, / Do que não tenho comigo / Não há remédio p’ro mal / A não ser como castigo! / Estas palavras ao vento / Livres como passarinho / Voando em liberdade / P’ra não ficar tão sozinho / Aqui deixo p’ra quem quiser / Publicadas no Facebook / Para quem as vier ler / As não veja como truque! / Como mensagem cifrada / De uma imensa saudade / Mesmo que possa parecer / Ou até seja verdade!

AS BOTAS DO GIOVA
Não são botas do Van Gogh
Nem de um pintor erudito
São as botas do meu Giova
Quando era pequenito!

E A CONCHA DE VISHNU
Ao lado das botas, Vishnu
Concha do Som Primordial
Na Índia, terra Hindú
Simbolismo essencial!
Terra, água, fogo e ar
Na origem da nossa vida
Sem eles a germinar
Estaríamos de partida!
Concha e botas, afinal,
São o nosso amanhecer
Dão-nos um mesmo sinal
O das origens, do Ser!
E a minha é concha rara
Como raras são as botas
A vitória será clara
E afasta as derrotas!
Vou oferecê-la ao Costa
Para ver se ele ganha
Da concha eu sei que gosta,
Nem que ela venha d’Espanha!
Mas não vem desse país
Porque vem cá de Cascais
Com ela tem de ganhar
Por quarenta e muito mais!

XLIX. UMA CAMPANHA DIFÍCIL!

No momento em que está a começar a campanha eleitoral, confesso A MINHA PREOCUPAÇÃO perante a sondagem da Universidade Católica (7 pontos a favor da coligação “PaF”), tal como já me acontecera com a sondagem da Aximage (quase 6 pontos também a favor da Coligação).
São sondagens, claro, mas são instrumentos credíveis de medição do estado da opinião pública relativamente às próximas legislativas. E, portanto, neste caso, preocupantes!

(1). A QUESTÃO.
A COLIGAÇÃO “PaF” NÃO TEM UM PROGRAMA ESTRATÉGICO – E UMA IDEIA MOBILIZADORA – A NÃO SER O EQUILÍBRIO DAS CONTAS PÚBLICAS ATRAVÉS DOS IMPOSTOS, DOS CORTES NAS PENSÕES E NOS SALÁRIOS E DAS PRIVATIZAÇÕES (rápidas e a qualquer preço). Se for eleita terá quase a obrigação de prosseguir com esta estratégia, já que os portugueses a terão acarinhado nas urnas. MAS SEREMOS MESMO MASOQUISTAS? AINDA ACREDITO QUE NÃO!

(2). O PROBLEMA.
Pelos vistos, se as sondagens estiverem certas, PS não tem sido capaz de mobilizar os cidadãos para a alternativa, apesar de a factura deste governo ser pesadíssima, com resultados paupérrimos. Mas isso deve-se a quê? À ausência de uma ideia mobilizadora e às dificuldades de um líder que está demasiado sozinho neste combate?
Os resultados da “Aximage” e da “Eurosondagem” que hoje (19.09) conhecemos (veja-se, infra, a nota do ponto 9) não alteram o problema!

(3). UMA RESPOSTA POSSÍVEL.
Não sei, mas no meu modesto entendimento, O PS DEVERIA FAZER UM GRANDE ESFORÇO DE MOBILIZAÇÃO DOS SEUS MELHORES QUADROS (incluídos os famosos e tão hossanados independentes) PARA PROTAGONIZAREM INTENSAS OFENSIVAS POLÍTICAS DIFERENCIADAS NAS VÁRIAS PLATAFORMAS, acabando com a solidão de António Costa. O que se espera é que o esforço para garantir um bom lugar nas listas não os tenha cansado excessivamente para agora lutarem com vigor na campanha que começa!

(4). OBSTÁCULOS.
Bem sei que o espaço mediático está sob apertada vigilância governativa e, portanto, a intervenção política neste espaço muito controlada. MAS HÁ TAMBÉM A REDE, cada vez mais importante, e AS RELAÇÕES INTERPESSOAIS!

(5). CONTEÚDOS.
O problema consiste também nos conteúdos, na necessidade de UMA FORTE IDEIA MOBILIZADORA (basta uma!), na afirmação clara de VALORES ALTERNATIVOS aos desta direita, mas também de ROSTOS MOBILIZADORES, credíveis e eficazes.

(6). O PARTIDO.
Não tenho dúvidas de que é necessário REFORÇAR E INTENSIFICAR A INTERVENÇÃO DO COLECTIVO (PS), desde as relações interpessoais, aos media, à rede.

(7). O FUTURO.
Quer o PS ganhe quer perca, no dia seguinte será necessário abrir a frente do debate de ideias sobre (a) o que é a política hoje; (b) a identidade política e ideal dos partidos socialistas, mas também (c) as novas formas de auto-organização; (d) os grandes combates políticos e ideais e uma vasta e profunda argumentação acerca dos seus fundamentos; (e) uma ideia sobre a sociedade contemporânea; e (f) as profundas mudanças em curso e como responder-lhes com eficácia e visão de futuro.
Ou seja, é necessário desenvolver uma clara cartografia cognitiva para uma orientação segura no incerto tempo que marca o actual ritmo do planeta e de concretas sociedades como a nossa.

(8). CONCLUSÃO.
O processo político está a revelar-se muito complexo e difícil e parece-me que não está a ser devidamente interpretado!
(Foto de ilustração: A. Costa, “SOL”).

(9). NOTA EM RESPOSTA A OBSERVAÇÕES DE PAULO MENDES PINTO.
9.1. O Correio da Manhã publicou hoje outra sondagem da Aximage, onde a diferença é de + 0,6 para a “PaF”. O PS melhorou muito relativamente à última. Também o “Expresso” publica uma sondagem da “Eurosondagem” que o dá 1,5 acima da Coligação (35,5% contra 34.0%), mas em desvantagem relativamente ao número de deputados eleitos ( menos 1 ou menos 4 do que a Coligação). O problema persiste, portanto. Curiosamente, a S&P, uma das três famosas agências de rating (os abrutres das finanças), veio subir o rating da República! Em plena disputa eleitoral. E com recados! Esta é uma das três agências (Fitch, Moody’s e Standard&Poor’s) que dominam 96% do mercado mundial facturando anualmente dezenas de milhar de milhões de dólares. Nem se dão ao trabalho de esconder a ingerência! E, claro, os governantes (Passos e Maria Luísa) já acusaram a recepção da mensagem, como não podia deixar de ser: “sinal dos tempos em que o esforço dos portugueses está a ser reconhecido”. Ainda que continuemos a estar classificados como lixo! Menos lixo, mas, mesmo assim, lixo! O que o PM devia dizer é que lixo são estas três agências-abutre! Mas não, ficou muito contente! Há que continuar a austeridade para que as três agências-abutre um dia nos tirem do lixo? Para onde? Por mim dispenso-as! E declaro que não me sinto mesmo representado por estes senhores que nos governam!
9.2. “Para quando uma agência europeia à qual não seja preciso submissão?!” – pergunta o Paulo.
9.3. Na minha opinião, isso tem de ser enquadrado por um reforço do quadro institucional da União Europeia. Já viste, Paulo, a dimensão financeira destas agências? E as suas entradas tempestivas na política nacional? Isto está tudo ligado: fundos de pensões, capital financeiro, agências, especuladores, Bancos (leia-se sobretudo Goldman Sachs). Só uma potente ofensiva integrada ao nível da União poderá iniciar o processo que referes. Mas também é verdade que a própria União está, ao seu mais alto nível, pejada de homens do Goldman Sachs! Consultando os nomes dos envolvidos, verifica-se que se trata de algo verdadeiramente inacreditável!

L. NOTAS DE FIM DE SEMANA.

  1. No rescaldo do debate entre Passos e Costa a dinâmica do PS parece ter conhecido novo folgo. Pelo contrário, a coligação teve de alinhar uma estratégia que já está a passar por um maior envolvimento de Paulo Portas. No PS a campanha parece estar centrada exclusivamente no rosto do líder, António Costa. Personalização extrema da campanha! Mas esta lógica parece-me que começa a estar ultrapassada pelos tempos! Nem diluição do discurso político no corpo orgânico dos partidos nem centralização excessiva no líder. A rede começa a suscitar uma maior protagonização política individual dos militantes e dos cidadãos activos em linha com o partido. Mas penso que isto só já se aplicará no futuro, não nesta campanha.
  2. Na Inglaterra, tivemos um mix: personalização extrema em Jeremy Corbyn e activismo dos sindicatos afectos ao Labour. Old Labour, Old Britain? Um Labour de causas? Como se irá relacionar Corbyn com a geração da rede? O velho organicismo de matriz corporativa como se vai conciliar com as comunidades digitais? E a aliança com os EUA? E que posição relativamente à União Europeia? Vai Corbyn repristinar a famosa cláusula 4? E o voto colectivo dos sindicatos? Ganhou em primárias – mas as primárias não têm uma lógica contrária ao organicismo sindical?
  3. Algumas razões para não votar na Coligação: (a). Há, claro, razões de carácter ideológico: este PSD é claramente neoliberal quando já se viu que há mesmo mãos invisíveis, e pouco recomendáveis, a governar os mercados; (b). Não identifiquei nela uma estratégia para o país a não ser a de endireitar as finanças públicas através do massacre fiscal e, mesmo assim, com resultados mais do que duvidosos. E, portanto, não tendo estratégia, os próximos quatro anos seriam de repetição e aprofundamento do massacre (que, pelos vistos, teria rendido eleitoralmente) (c). O sistema entra em ruptura (por exemplo, o subsistema financeiro) e a coligação é exímia a fugir às responsabilidades (por exemplo, neste caso, passa a responsabilidade para o Banco de Portugal); (d). Nesta mesma lógica de reduzir o Estado ao mínimo, privatiza tudo o que pode, à pressa e por qualquer preço. (e). Iniciou com grandes resultados a demolição do sistema científico nacional (sobretudo com a FCT do Prof. Miguel Seabra e de Nuno Crato); (f) É uma coligação com espírito de contabilista feroz que quer reduzir o país a uma mera lógica da sobreviência aplicando a estratégia do “a pão e água”. Isto, claro, não me agrada!
  4. As presidenciais desapareceram de cena. Ainda bem. Vamos tê-las de volta e em grande a partir do dia 5 de Outubro. Mas nessa altura os líderes já sabem como hão-de dispor do poder que conquistaram ou que perderam.
  5. A política está idealmente pouco motivadora, não há visões estruturadas sobre um mundo que está em profunda mudança, que está perigoso e instável. A face política do fundamentalismo religioso assoma cada vez mais à cena internacional. A União Europeia, que já tinha problemas que bastassem, encontra-se agora a braços com a crise dos refugiados. Este debate tinha sido banido da agenda europeia há muito tempo. Mas não é problema que se possa enfrentar com uma perspetiva moralista. Com valores, sim, mas também com realismo político e visão de futuro. Estamos a pagar os erros cometidos por Bush e Blair, mas também pelos responsáveis da famosa primavera árabe. Ou seja, estamos a pagar pelo desconhecimento das lições da história revelado por muitos dirigentes políticos mundiais.

 

LI. POESIA IX – LOUREIRO… UVAS E AZEVINHO! (Um regresso melancólico ao meu Jardim).

Que saudades do Loureiro! / E também do Azevinho / Qual deles vem primeiro? / Por qual tenho mais carinho? / O das bagas que não deu? / Ou o das uvas que abraçou? / Interessa o que apareceu, / O louro me conquistou! / Uvas, Bagas e Loureiro / Ou o que falta no Jardim? / Louro e uvas estão primeiro / E as bagas lá para o fim. / Quanto aos Louros da Vitória / Com frutos duma videira / São coroas de glória / Mas são pura brincadeira. / Não há uvas de enxerto / Estão ali em companhia! / Mas até parece concerto / Que eu ouço em cada dia! / Quando planto Loureiro / Lá em terras de Jardim / É como se fosse viveiro / Do que já falta em mim! / Errância, vida perigosa / À procura de caminho / É mais espinho que rosa / Quando se fica sozinho! / As uvas dão-nos o vinho / E o jasmim até dá cheiro / Não há rosa sem espinho / Há Dionísio prazenteiro / A fazer-nos companhia / Quando a solidão persiste / É tão grande a alegria / Que nem a saudade resiste! / As saudades do Loureiro / Combati-as com enlace / Que com uvas consegui / Lembrando-me o grand’ impasse / Que a vida me criou / Ao perder a companhia / Daquilo que eu mais sou!

LII. ESTOU A PENSAR NO DEBATE ENTRE PASSOS COELHO E ANTÓNIO COSTA…

Não me parece interessante o modelo adoptado. Tem muita audiência, com redes unificadas, mas é pouco esclarecedor. Jornalistas a mais e discurso a menos!
1. Os jornalistas pareciam mais preocupados com os tempos do que com os discursos e os conteúdos. A forma a matar o conteúdo! E um certo tom sobranceiro, como vem sendo habitual!
2. Tratando-se de dois candidatos ao cargo de Primeiro-Ministro, deveria ser-lhes dada maior liberdade de discurso para um confronto mais intenso! O tempo que lhes foi concedido é adequado somente para fórmulas retóricas ou soundbites. Que só servem para esconder o verdadeiro discurso, não esclarecendo o que interessa.
3. Interessantes os seis minutos de publicidade que interromperam um debate desta dimensão… Ficou a impressão de que a preocupação com os tempos tinha mais a ver com a publicidade do que com o rigor na distribuição do tempo! Bem sei que as televisões têm de ganhar a vida, mas em casos destes até parece oportunismo comercial disfarçado de serviço público!
4. Os tempos, afinal, não estavam só distribuídos pelo candidatos, mas também pelos jornalistas! As televisões e os jornalistas também estavam em exibição! Também neles os tempos se sobrepuseram aos discursos!
5. Um bom e preparado jornalista teria valido mais do que três televisões e três jornalistas!
6. O espectador ficou pouco esclarecido.
7. Houve duas dimensões no debate: a visual e a discursiva. Na visual, Passos, conseguiu deixar passar a imagem do bom rapaz, bem comportado, sereno, humilde. Na discursiva, Costa foi mais incisivo. Um jogou mais à defensiva; o outro atacou mais e com alguma eficácia.
8. Interessante a fórmula de Costa: prometo pouco para não errar e para poder fazer mais do que prometo!
9. Não creio que o debate tenha alterado grande coisa.
10. Mais uma vez, irritou-me a publicidade e as habituais intervenções intempestivas dos jornalistas!
11. Teria sido interessante se os dois tivessem discutido a fundo o Estado Social (em particular a questão da reforma), o modelo de desenvolvimento, a filosofia fiscal, o sistema político, ideias sobre as profundas mudanças estruturais em curso, o papel da ciência e da tecnologia no desenvolvimento, uma ideia estratégica para Portugal. Nada. Não houve tempo nem espaço para tal.
12. O debate político está muito débil e reduzido a cardápios com medidas avulsas, sem o enquadramento de uma filosofia de fundo sobre a sociedade, o ser humano e a vida, donde deverão decorrer os programas.
13. Sei bem em quem vou votar, mas se não soubesse não me teria bastado este debate.
14. Do ponto de vista discursivo António Costa pareceu-me, de facto, mais eficaz do que Passos Coelho, que esteve muito apagado. Não terão os estrategas deste último decidido que o que conta em televisão é a imagem e que a figura do bom e humilde rapaz é televisivamente muito mais eficaz do que discursos mais ou menos agressivos?
15. Não era o conservador Karl Rove (spin doctor de Bush) que falava da “televisão para surdos” como a televisão mais eficaz, dado o domínio da imagem sobre a palavra?
16. Suspeito que o ar apagado de Passos tenha sido ditado por uma estratégia deste tipo! Até a roupa parece confirmar isso. Não me esqueço que o Berlusconi usava, em televisão, filtros especiais para tornar a sua imagem mais suave!
17. Português suave!

LIII. POESIA X – POESIA DE FACEBOOK DE POETA DESGARRADO…

POETA, eu gostaria… / Mas se o génio escasseia / Não chegará nem um dia / P’ra compor uma canção / Que seja a melodia / e o ritmo da emoção! / De poeta eu não tenho / Nem jeito nem profissão, / Conservo o pouco que resta / De uma vida d’ilusão, / De tudo o que eu perdi / À procura de caminho / Que nem as uvas colhi / Para fazer o meu vinho! / E as castas estavam lá, / Prontinhas par’a colheita / Que eu não pude fazer / Porque seria imperfeita. / Não quis Loureiro subir / P’ra não desfazer o enlace / Bastou-me olhar lá p’ra cima / Para entrar num impasse. / Que bonitas que elas são / As folhas do meu Loureiro, / Abraçadas à videira, / A ver quem beija primeiro! / Louro, uvas e ramagem / Tudo em perfeit’harmonia / Lá no alto do Loureiro / Vamos colher alegria! / Assim tentei o poema / Para ver o que seria! / Como se fosse o primeiro / A ver luz neste meu dia! / E com ele vou de partida / Terminada esta missão / Louro, uvas e azevim / Vou deixá-los onde estão!

LIV. POESIA XI – LOUREIRO COM BOAS UVAS

Cinco rosas no Jardim!
Um Azevinho sem bagas,
Cameleira, essa sim!
Gosto muito do Loureiro
Porque está no meu Jardim!
Ninguém mo pode roubar
Tem fundas Raízes em Mim!
Vê-se Deusa Desnudada,
Por entre Verde Folhagem
Uvas frescas de Latada
E a Deusa como imagem!
São Maroco e Moscatel
Um, antigo, outro, d’Hamburgo,
Dignas de um bom Pincel
de Artista Demiurgo!
Não tem bagas, Azevinho,
Vermelhas, cor do meu Sangue!
Se eu fosse um Adivinho
Não seria ele Exangue!
Fica triste o meu Loureiro,
Perdeu Linda Companhia,
Hei-de fazer-lhe enxerto,
Dar-lhe cor e alegria!
Estou triste também eu,
Por não ter Bagas à vista,
O melhor é contratar
Um bom Pincel de Artista!
Que as pinte, se não há!
O Jardineiro agradece.
Se não tem das Verdadeiras,
Pois terá o que merece!
Não fosse tão distraído
Ao escolher Azevinho
Sem primeiro garantir
Bagas p’ro Seu Cantinho!

LV. POESIA XII – LOUREIRO COM UVAS NO MEU JARDIM?!!!

A Videira Cardinal,
Da exuberante Latada,
Trepou por Loureiro acima
Como Amante apaixonada!
Loureiro com Uvas, Jardim?
Que bonita, a natureza!
Maroco, Rufete e Jasmim,
Não previa esta surpresa!
Está calor por estes dias!
Mas no verão é natural,
As uvas estão sadias
Vem um vinho excepcional?
Talvez venha,
Não duvido,
E se a colheita for boa,
Ficarei agradecido.
Esqueci-me doutra Casta,
Moscatel, criação de demiurgo,
Por tão boa ela ser
Apesar de vir d’Hamburgo!
Loureiro com uvas?
Tinha de ser no Jardim,
Neste lugar delicado,
Com frutos só para mim!
Poema de Latada,
por um Bom Verão de S. Martinho!
Dedicado ao Manuel Santos Silva e ao Zé Assunção, Companheiros da
CPI da CVRBI.

LVI. AS LEGISLATIVAS – POLÍTICA E CIDADANIA

(Artigo meu, publicado hoje, 28.08, no “SOL”
Ilustração: Jaime)
Confrontamo-nos hoje com uma opção política exigente e muito relevante: escolher o próximo Parlamento e, decorrendo daí (princípio da maioria), o próximo governo. Sabemos que a oferta política é apresentada aos eleitores em pacote fechado. Os partidos propõem os candidatos e os cidadãos escolhem dentre o que é oferecido. O poder de propositura é exclusivo dos partidos. Que são muitos, embora só três contem para a solução governativa. Até que se verifique uma profunda mudança no sistema de partidos que corresponda aos novos meios de que a cidadania dispõe, não só para comunicar, mas agora também para se protagonizar politicamente, sem a velha mediação de tipo orgânico. Entretanto, os principais partidos têm-se mantido inflexíveis, resistindo à mudança. Mas o sistema já não responde aos desafios. Ou seja, a cidadania fica diminuída quando a oferta política é decidida em circuito fechado e com critérios e instrumentos de selecção inadequados. Imperam bolsas de quotas, relações familiares, lógicas territoriais e de grupo, e em circuito blindado. Por exemplo, a fractura exposta que se verifica no PS entre o anterior grupo dirigente e o actual é claro sinal disso. Ao fechamento de um corresponde, agora, o fechamento de outro. E esta lógica – e os critérios que referi – já transbordou para as listas de candidatos a deputados e para as presidenciais. O mecanismo que levou o actual Secretário-Geral ao poder não foi o mesmo que gerou as candidaturas a deputados ou as candidaturas à Presidência (vide USA). Mas este mecanismo, parte da necessária mudança, tornou-se incontornável: primárias abertas. Mecanismo de selecção mais amigo da cidadania, permite dois ganhos: superação da lógica corporativo-nepotista e abertura a um maior protagonismo político da sociedade civil. Isto sem menorizar os partidos. Pelo contrário, até ajuda a metabolizar, com vantagem, a mudança evitando perigosas disrupções! Até a prudente Inglaterra já está a seguir este caminho, pela mão dos trabalhistas! Ora, em Outubro ainda seremos chamados a votar em candidatos gerados por uma lógica que se está a revelar inadequada e sem futuro. E as dificuldades do País (emprego, banca, dívida pública, ensino, etc.) não são alheias a esta grave insuficiência do sistema político. A cidadania activa deveria, pois, nestas eleições, confrontar as formações políticas com um futuro que já tarda, ou seja, com um profundo repensamento e uma drástica conversão da política.

LVII. COMO MUDAM OS TEMPOS…!!!

Escrevo ao computador, um MacBook Air, no meu Blog (joaodealmeidasantos.com) e aqui, no Facebook, rodeado de objectos de outros tempos (e que estão no sitio certo, na estante da minha bilbioteca, na Casa da Serra). Por exemplo, um velho telefone e um velho rádio (nas fotos). Só me falta a velha máquina de escrever Messa, com a qual escrevi alguns livros e muitos artigos de jornal (sobretudo no DN). E até tenho aqui um dos meus primeiros ensaios (“A Questao da Ideologia”) composto na Gráfica “Imprensa de Coimbra”, à mão, pelos tipógrafos, letra a letra, em chumbo. Nem parece verdade! Passou uma eternidade! Mas este não é tempo subjectivo ou psicológico. E não é lamentação. Ou saudade. É tempo tecnológico! E espanto! Não só pelo avanço instrumental, mas sobretudo pela transformação civilizacional que este tempo tecnológico está a provocar. A um ponto tal que já se pode falar de autêntica revolução nos paradigmas das relações interpessoais, dos sistemas produtivos, da política, da comunicação e da ciência. As tecnologias da informação e da comunicação não são “new media”, já que elas já accionam directamente processos materiais, superando a dimensão comunicacional. Elas são os motores do novo “espaço intermédio” em que cada vez mais nos movemos. Olhando, com filosófico espanto, para estes objectos, enquanto escrevo directamente no Facebook, com o meu MacBook, apercebo-me melhor da profundidade da mudança e das consequências que está a provocar em todas aquelas frentes (veja, entre outros, os meus ensaios “Cosmopolis”, “A política e a Rede: os casos italiano e chinês”, “Las TIC en los cambios laborales” e “Política, sociedade e tecnologias da informação”, em joaodealmeidasantos.com – secção Ensaios). O Facebook é exemplo extraordinário disso. Escrevendo aqui (ou no Blog) sinto-me mais livre e independente dos velhos “gatekeepers” e do poder mediático! Posso aceder ao espaço público sem pedir autorização aos mediadores. Com uma única exigência (ética): é necessário tentar produzir, também aqui, conteúdos úteis e interessantes que sirvam aos nossos “Amigos” e a quem nos lê, evitando o tentador “tabloidismo” reticular! A foto das uvas (do meu jardim, porque é tempo delas, que o vinho não vai tardar!) está cá para fazer a ponte entre o passado e o futuro e para nos lembrar que, por epocais que sejam as mudanças, a natureza continua a exprimir-se sempre da mesma forma e com a mesma regularidade, simplicidade e beleza! Amém!

LVIII. NOTAS SOLTAS DE FIM DE SEMANA

1. PRESIDENCIAIS.
Marcelo já mandou dizer que se vai candidatar. Maria de Belém está a fazer escola? Não tarda, vamos tê-lo a dizer que depois das eleições anuncia formalmente a candidatura? Rio que avance em Setembro e Marcelo que, a seguir, se contradiga, juntando-se a Rio como candidato! Afinal não é assim tão mau para a direita ter vários candidatos! Só falta mesmo Santana, para baralhar. Mas não tinha uma auditoria lá na Santa Casa? E o incontornável Alberto João também se apresentará? Que dirão os “cubanos do Continente” à sua candidatura? Ou a ambição suprema: o colonizado que aspira a tornar-se colonizador!
O “Expresso” dá-nos a lista de candidatos à Presidência. Teremos mesmo 18 (dezoito) candidatos? Não são candidatos a mais para uma só Presidência? Ou já pegou a moda de se candidatar para ter tempo de antena gratuito? Julgava eu que a patente era do escritório de advogados do Dr. Garcia Pereira!
2. LEGISLATIVAS.
O mesmo jornal também nos dá uma lista dos Partidos que vão às eleições: 20. Ainda dizem que Portugal é um País pequeno! Quando há em excesso peca-se por defeito! Juntem-se todos e façam um “Podemos”, para o bem e para o mal! Talvez assim se possa começar a dizer dos partidos do sistema “eppur si muovono”.
3. ANTÓNIO COSTA.
Gostei da entrevista de António Costa ao “SOL” (21.08). Mais solto e claro. Mas há algumas coisas que poderia ter dito e não disse e outras que disse e que não devia ter dito. Exemplos das que não disse (e de uma que disse, e bem; as outras não interessam):
a) SOBRE A ESQUERDA E A FELICIDADE.
A ideia de felicidade não é igual para a esquerda e para a direita. A direita tende a remetê-la exclusivamente para a esfera privada. A esquerda remete-a para a esfera social. Que foi o plano em que a Declaração de Independência dos USA, de 1776, a pôs: «We hold these Truths to be self-evident, that all Men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty, and the Pursuit of Happiness». Assim: «that whenever any Form of Government becomes destructive of these ends, it is the Right of the People to alter or to abolish it, and to institute new Government, laying its foundation on such principles and organizing its powers in such form, as to them shall seem most likely to effect their Safety and Happiness». Ou o governo como garante da segurança e da felicidade. A felicidade exprime-se na esfera individual, mas gera-se em contexto comunitário. É claro que há pessoas pobres felizes e pessoas ricas infelizes, mas num País com condições de generalizada desigualdade e de pobreza o número de pessoas felizes é tendencialmente inferior. Bem sei que a felicidade é um estado de espírito (“eu sou feliz assim!”), mas esse mesmo estado de espírito não é independente das condições materiais de existência. Uma mãe pode ser feliz se não puder dar instrução ao seu filho ou se não puder cuidar da sua saúde? A felicidade tem uma expressão comunitária! O ambiente social pode provocar um imenso ruído na predisposição para a felicidade e no desejo dela. Pode impedi-la. Disso não há dúvidas, apesar de a dimensão subjectiva e interior ser o seu mais poderoso motor. Mas remetê-la exclusivamente para o plano subjectivo e privado é desvitalizá-la, reconduzindo-a a uma dimensão quase exclusivamente onírica!
b) SOBRE O OPTIMISMO.
Bem poderia ter citado o que é atribuído ao Gramsci – optimismo da vontade, mas pessimismo da razão.
c) SOBRE O SER HUMANO.
Se não erro foi o Joseph de Maîstre (“Considérations sur la France”, 1797), que disse que o homem não existe. Que o que há são franceses, italianos, russos ; e que quanto ao homem declarou que nunca o encontrou na sua vida. Agora é o AC que diz que não há ser humano. Depende. No plano social existe, se não nem seria possível desenvolver uma narrativa política. Os filósofos também o distinguem da “animalitas”. Há constantes e universais na natureza humana! Basta ler os grandes escritores de sempre para encontrar os registos em que esta natureza humana se exprime: o amor, o ódio, a vontade de poder, o sonho, a vaidade, a ambição, o desejo, a felicidade. São registos intemporais e estão lá no ser humano, embora em equilíbrios variados. Sempre vi a resistência da esquerda à ideia de natureza humana como afirmação do princípio da vontade e como optimismo antropológico, avessos ao império da necessidade e à força do destino.
d) A PRIORIDADE DA LIBERDADE SOBRE A IGUALDADE.
Também poderia dizer o contrário: sem igualdade (por exemplo perante a lei, ou de condição, ou de oportunidades) não é possível haver liberdade. Basta pensar na ideia de liberdade natural. De resto, a igualdade perante a lei foi criada exactamente para superar a liberdade natural e a lei do mais forte. Ou seja, a liberdade dos modernos tem um pressuposto incontornável: a igualdade. Eu diria, pois, o contrário: sem igualdade não há liberdade. Até o liberal Tocqueville o reconheceu. De resto, a igualdade perante a lei, incluída a igualdade política, onde todos e cada um se equivalem, não é um dos princípios fundamentais da democracia e do estado de direito?
e) SOBRE MARIA DE BELÉM
“Disse hoje de manhã que ia fazer uma declaração à tarde”. Eu não diria melhor.
4. MARIANA MORTÁGUA AO “EXPRESSO”.
Saí como entrei. Bloco. O mesmo de sempre, com uma linguagem relativamente moderada e cautelosa. Mas fixei um pormenor de que gostei. Já ninguém fala de “hegemonia”. Mariana falou. Resta saber em que sentido. No de Gramsci?

LIX. POLÍTICA E MATERNIDADE

(Ou a transparência obstétrica de JAD).
Joana Amaral Dias (JAD) anunciou que está grávida. E com gravidez de risco. O que, disse, terá consequências quer na sua participação na campanha quer no exercício do eventual mandato. Tudo em nome da transparência. Acho bem. E só temos de nos congratular com a gravidez, num país com tão graves problemas demográficos. Mas o anúncio é insólito. Pergunta: mais do que anunciar, em conferência, não seria preferível resguardar-se e proteger a criança? Até porque o anúncio urbi et orbi da gravidez corre o risco de ser considerado pura publicidade eleitoral! Para se colocar na agenda, preferivelmente dos tablóides! E assim lá se vai o sentido ético do anúncio! Gravidez e cuidados maternos vão ocupar-lhe no mínimo um ano! Ficará assim amputado o mandato. Pergunta: sendo ainda jovem não poderia aguardar pela próxima legislatura para se candidatar, dedicando-se, entretanto, a cuidar da criança? Não é mais gratificante cuidar de uma criança concreta do que de um abstracto país? E em 230 deputados que diferença pode fazer um, ainda que se chame JAD? É certo que às vezes é mesmo esse um que faz a diferença (e creio que é nesse patamar que ela se coloca)! E Joana tem tudo programado. Ainda não foi eleita e já negociou o processo de substituição. Importante, sim, é oferecer-se, já!, aos eleitores, credibilizando, com a sua proposta, a política, emprestando os seus ideais à cidadania e conjugando tudo isso com o belíssimo papel de Mãe. Mãe-coragem? Como a admiro! Como mãe, como intelectual e como política! Mesmo grávida de risco, pondo em causa a criança e a si própria, não hesita em teimar num intenso exercício de cidadania, em nome dos seus ideais políticos. Registei, por isso, o seu temerário gesto, tendo ela responsabilidade absoluta pela vida do feto! Um gesto com significado, como se quisesse interrogar a política a partir do embrião! Conjugar, na sua pessoa, política e maternidade é interessante e talvez funcione mesmo como um apelo à humanização da política, subordinando-a finalmente aos imperativos existenciais! “Femme de quarante ans”, diria um Balzac de hoje! E um dia poderá dizer ao filho: “anunciei-te aos eleitores, num gesto de suprema transparência! E os eleitores elegeram-me. Tu próprio, ainda em gestação, me elegeste, filho”! Ou então: “e os eleitores não me elegeram! Não compreenderam o que queríamos com o anúncio da tua chegada: humanizar a política! Pô-la ao serviço das gerações futuras! Espero que tu, um dia, continues esta minha saga humanista”! De qualquer modo, vindo de quem vem, não me parece possível interpretar este anúncio como pura publicidade. Vindo de uma psicóloga (não sei se é da escola do Lacan) seria incompreensível porque estaria a reduzir o filho a mero meio (de propaganda), quando ele é um fim em si, como pessoa (ainda que em gestação embrionária). Resta-me, então, ver este gesto como um acto de humanização da política para não ver nele a politização da vida em gestação. E o curioso é que, a crer na ilustração fotográfica da notícia, fez-se acompanhar de dois homens, não sendo nenhum deles o pai, quando anunciou a gravidez. Que significado tem isso? Politização máxima do acto? Porque não o fez sozinha, acompanhada de duas mulheres, de uma mulher e um homem, de uma só mulher ou de um só homem? Certamente para dar peso político ao anúncio, apondo um selo masculino num acto (político) eminentemente feminino (um homem não poderia ter este gesto, ou seja, gravidez de risco, acho eu!)? Não sei se este gesto de JAD vai ficar nos anais das campanhas eleitorais ou nos da obstetrícia! Provavelmente nem num nem noutro. O que sei é que é um gesto insólito que nos deve pôr a pensar! E por isso (já) valeu a pena? Sinceramente não sei!

LX. O LABOUR E O FENÓMENO CORBYN: DESFORRA DAS TRADE UNIONS?

O Facebook pergunta-me: em que estás a pensar? E eu respondo: em mais um fenómeno político muito revelador – Jeremy CORBYN.
Corbyn tem 66 anos e é candidato à liderança do Labour. É deputado há cerca de trinta anos. Pertence à ala ortodoxa e é anti-Blair. Usa sempre o plural majestático (onde é que eu já vi isto?) e é republicano. O que interessa são as ideias, não as pessoas concretas (isto também é interessante, para uma discussão sobre o estruturalismo). Tem bicicleta, mas não tem carro (provavelmente nunca tirou a carta – matéria também politicamente muito interessante). Está à frente nas sondagens, no processo que se inicia formalmente amanhã, 14.08.2015, para a eleição do líder que substituirá Ed Miliband – primárias abertas (basta pagar três libras para votar). Blair acaba de fazer um apelo muito forte (num longo texto, publicado em ”The Guardian”) a não votar em Corbyn, dizendo que poderá ser o fim de um partido com mais de cem anos: “If Jeremy Corbyn becomes leader it won’t be a defeat like 1983 or 2015 at the next election. It will mean rout, possibly annihilation”. É claro que também em Inglaterra já há quem diga que os conservadores vão votar em massa em Corbyn, o que é um disparate, apesar de haver organizações que, pela sua dimensão, possam vir a fazer a diferença. O próprio Blair alude a isso (e se o diz é porque, com a sua história, algo saberá). Quem consultar o Site de Corbyn verifica que há dois temas em que se empenha com particular intensidade: ambiente e juventude. Mas diz coisas mais impressivas para a opinião pública: 1. Blair deveria responder pela sua participação na guerra do Iraque (e já agora denunciar a velha aliança anglo-americana!); 2. a famosa Cláusula IV, inscrita no cartão dos militantes trabalhistas, retirada por Blair (com alguma dificuldade, como se lê nas suas Memórias), e que postulava a socialização dos meios de produção e de distribuição (!), deve ser reposta (embora talvez em termos mais moderados); 3. fim da austeridade (pois claro); 4. devolução do poder às massas, subtraindo-o ao abraço claustrofóbico das elites (pois claro, também); 5. voto aos dezasseis anos; 6. (não) permanecer na UE, ou talvez (correcção posterior), mas numa UE diferente.
Já temos que chegue. Tudo o que acabo de descrever daria para fazer um ensaio sobre Corbyn. Ele representa a desforra dos sindicatos? Ou a desforra dos radicais? Ou o regresso, em força, da velha social-democracia? Mas, então por que razão está a ter tanto sucesso? Porque diz coisas muito de esquerda a partir de um lugar que é cada vez mais de centro (exigido pela dimensão da middle class)? O exemplo eleitoral do Syriza é para seguir, sem pensar nas consequências? Ou a desagregação do tradicional sistema de partidos já está a acontecer no interior dos próprios partidos pilares do sistema? A forte presença do target jovem no eleitorado de Corbyn não será sinal de força política da rede? Por que razão põe no seu programa o voto aos dezasseis anos? A novidade e a força do fenómeno reside, no meu entendimento, no facto de este radicalismo algo ortodoxo ser afirmado a partir de um lugar político (aquele onde hoje reside o Labour) que aparentemente (já) não lhe pertence. É neste desvio entre identidade e discurso que parece residir o fascínio da proposta. E parece ser algo parecido com isto que Blair significa quando afirma que “there is something fascinating about watching a party wrestle with its soul”. Um discurso, o de Corbyn, que colhe frutos no descrédito de uma classe política que, por um lado, não tem sabido lidar com a crise e que, por outro, tem colocado a sua identidade de esquerda mais em temas civilizacionais fracturantes, envolvidos por uma linguagem politicamente correcta, do que em matérias estruturais que, essas sim, tocando de perto a vida quotidiana de milhões de pessoas, não têm encontrado soluções à altura dos desafios. E parece ser também nesta lógica do “back to the basics” que se inscreve o desafio de Jeremy Corbyn.

LVI. DE NOVO AS PRESIDENCIAIS (que me perdoe António Costa!)

Agora já é oficial. Saiu em todos os telejornais que Maria de Belém será Candidata. Não houve desmentido. Apenas foi dito que o anúncio formal será depois das eleições! Nem mais. Puro formalismo, mas com muito conteúdo, como se verá à frente. Mais um problema para António Costa. Passámos à frente da direita em problemas presidenciais. A estratégia de António Costa, com a candidatura de Belém a Belém, está posta em causa. Em política, o formalismo conta pouco. Mas pode dizer muito. O PS poderá apoiar quem rompeu com a estratégia do partido, sendo, ainda por cima, portador(a) da responsabilidade de ter sido Presidente do Partido? Um independente, ainda vá que não vá! Mas uma ex-Presidente? Está aberta uma frente de combate interno! Maria de Belém talvez tenha sido prematuramente Presidente do PS, visto que acabou por descer ao patamar do combate político interno, frontalmente e em período de eleições! Fez exactamente o contrário daquilo que era expectável de alguém que teve no PS as altas responsabilidades que teve… E pela mão de António José Seguro. A candidatar-se deveria fazê-lo depois das eleiçoes! Então, a António Costa provavelmente nada mais restará do que assumir frontalmente as coisas tal como estão e retirar daí todas as consequências. Agora. É que se o PS perder as eleições (cruzes, canhoto!) Maria de Belém e os seus inspiradores ficam na pole position para a liderança. Se ganhar, António Costa deve afirmar sem tibiezas (e já vimos que é capaz disso) que não aceita imposições, que é ele quem lidera e que apoiará o candidato melhor posicionado para vencer as presidenciais, para fazer pontes e que melhor exprima aquela que é a mundividência consensual dos socialistas. Sem fracturas internas. E jogos de poder, sobretudo em períodos como este. E até pode ser um independente que seja bem aceite no universo do PS. O que não acontece com Nóvoa. Eu creio mesmo que Nóvoa e Belém se anulam reciprocamente. Que dividem mais do que unem. E, no caso de Maria de Belém, alguém poderia lembrar- se de perguntar a Costa, se a apoiasse: “mas se não serviu para Presidente do PS agora já serve para Presidente da República?”. Pergunta retórica, claro, mas certeira! De qualquer modo, já estamos a assistir a um ruído político enorme na área PS que prejudica não só a estratégia de Costa, mas também a sua própria imagem. Por exemplo, alguém poderá legitimamente dizer que a candidatura de Belém é a prova provada de que, através das presidenciais, se demonstra que a oposição interna não só já não teme Costa, como iniciou o processo de regresso ao poder interno. Neste sentido, a candidatura de Nóvoa parece ter visto claro, ao considerar esta candidatura como a segunda volta das primárias. Isto tem um defeito e uma virtude: fragiliza Costa, mas põe o PS no topo da agenda. Perde-se, por um lado (a política está muito personalizada), ganha-se, pelo outro (agenda-setting ensina). Uma pergunta: sempre é verdade que Duarte Cordeiro fazia parte do grupo de operacionais do PS que apoiava a candidatura de Sampaio da Nóvoa, como foi noticiado? Isto não está nada fácil! Mas a política é mesmo assim.

LXII. (DE) NÓVOA A BELÉM? TERTIUM NON DATUR?
Dois Reitores (mais noventa e oito pessoas), Luís Reto (ISCTE) e António Rendas (UNL), apoiam uma eventual candidatura de Maria de Belém, a Belém. É de ciência certa que nenhum deles gosta de Nóvoa, seu antigo companheiro de CRUP. E outros haverá. Conheço pelo menos mais um antigo Reitor. A candidatura de Nóvoa, pela voz do antigo Chefe da Casa Civil de Jorge Sampaio, João Serra, reage violentamente contra esta candidatura (divide o PS, é contra Costa, é partidária e representa uma espécie de segunda volta das primárias do PS). Está tudo dito. Belém foi, com Seguro, Presidente do PS. Saiu com Costa. A sua candidatura já se inscreve “seguramente” na lógica do “gato escondido com rabo de fora”. Tertium non datur? Não definir um apoio antes das legislativas está a gerar um grave problema político para António Costa, sobretudo porque está a instalar-se a ideia de que ele se deixa submergir pelos acontecimentos, não mostrando capacidade de antecipação. Um amigo, sempre muito bem informado, dizia-me que Costa é um tacticista. E eu respondi que a táctica sem estratégia é simplesmente conservadora. E não augura nada de bom. Sobretudo à esquerda. Mas creio que o meu amigo exagerava. Ambos temos apreço político por António Costa. De qualquer modo, em sinal de boa vontade, e para ultrapassar um eventual excesso de tacticismo, ofereci (no meu Site, apresentado na Universidade de Verão da Distrital de Santarém), recentemente, um documento estratégico a António Costa, na esperança de que os (seus) intelectuais orgânicos do momento o tomassem em consideração. Até porque dois deles estiveram em Santarém. Mas nada, até ao momento. O que até se compreende, já que o que interessa é ganhar as eleições. Claro. Mas como alguns iriam tirar umas pequenas férias antes do combate final pensei que sempre haveria tempo de pensar (afinal, já existe uma proposta) num documento estratégico do ponto de vista de uma visão aggiornata do socialismo democrático. Mas não. Outros tempos virão. Com mais estes problemas das presidenciais, dos cartazes, do desemprego e das demissões no partido por parte da ala segurista, há que cerrar fileiras. Difícil, com tantos problemas! Nóvoa ou Belém? À esquerda ou à direita? Homens ou mulheres? Independentes ou partidários? Tertium non datur? Isto é na lógica, no princípio da não-contradição. Em política, não é assim. A ver vamos.

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