Poesia-Pintura

RENÚNCIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Poesia”.
Original de minha autoria.
Setembro de 2022.
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“Poesia”. JAS. 09-2022

POEMA – “RENÚNCIA”

RENUNCIEI
Para nunca
Te perder,
Mas nesta
Distância sofrida
Vai lentamente
Declinando
O que pra sempre
Eu quis ter.

VÊS, BERNARDO,
Que destino?
Que desassossego
O meu?
Quis seguir
O teu caminho...
.........
Perdi-me,
Já não sou
Eu.

TU AMAS
A poesia
(Bem sei),
Mas não te ajeitas
Com ela,
Senti-la é
Doce sofrer,
Entras na porta
Da vida,
Não a vives
À janela
Como quem
Só sabe ver.

ELA DIZ TUDO
Com nada,
O seu canto
É prazer,
É melodia
De fada,
Se a sofres
Docemente
Já não a sentes
Doer,
Sua dor
É quase nada,
Nela podes
Reviver.

NO POEMA
Eu até finjo,
É poeta
Quem o diz,
Mas se sentir
O que digo
Talvez até seja
Feliz,
Pois poema
É como a vida,
Posso ouvir
A minha alma,
Seus desejos,
Com palavras,
É um modo
De me ter,
É remédio
Que me salva
De em solidão
Me perder.

ESTE CANTO
É, pois, meu,
Nem tu
Mo podes
Roubar,
Se disserem
Que é pra ti
É verdade...
............
De enganar.

O VERSO
É o meu beijo
Nesse rosto
Que perdi,
É quente
Como o desejo
E resiste
A quem te diz
Que o poeta
Já não ama
Porque as palavras
Desenha
Com um pedaço
De giz.

AH, O AMOR
Em poesia
Vai mais longe,
Mergulha
Na utopia,
Vai mais fundo,
É doce
Melancolia,
Com palavras
Aquece a alma
E faz delas
O seu mundo
Aquele que
Sempre o salva
Porque só nelas
Confia.

EU NÃO GOSTO
Da renúncia,
Mas que posso
Eu fazer?
Se não cantar
O que sinto
Depois de tudo
Perder
É certo que desatino
Perco o norte
E a noção
Fica quase tudo
Igual,
É da vida
Deserção.

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SONHO

Poema Triste
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Um Sonho no Jardim”.
Original de minha autoria.
Setembro de 2022.
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“Um Sonho no Jardim”. JAS. 09-2022

POEMA – “SONHO”

SONHEI
Que as palavras
Se gastaram,
Desfiaram,
Desataram,
Sobrando fios
Para tecer
O silêncio.

SONHEI
Que a tinta
Perdeu cor,
Que já não havia
Poemas
E que não era
Pintor.

SONHEI
Que não eras tu,
Que foi tudo
Ilusão,
Os encontros,
O teu nome
E as marcas
De paixão. SONHEI Que te procurei No mundo Da fantasia Onde as flores Caminhavam, Sabiam a maresia, Tinham rostos De mulher... ............ Mas surdos Ao que dizia. SONHEI Que não sabia Onde estás, O que fazes E o que sonhas Nas noites Do teu luar, O que vês Nesses momentos Fugazes Em que olhas Para ti. SONHEI Que já não me lês, Que não ouves A melodia Num lugar
Que não alcanço
Com a minha
Fantasia. NO SONHO, Fui à memória, Que também Perdeu a cor. Ficou tudo A preto e branco E nela já não Te via... ............. Foste embora, Meu amor! SONHANDO, Procurei cor Num outro Lugar qualquer, Mas só encontrei O cinzento E por falta De vermelho Meus versos Tão desbotados Já nem iam Com o vento... “FOSTE EMBORA Para onde Que eu não sei Onde estás?”, Perguntei, Quando do sonho Acordei. SAÍSTE De onde estavas E agora resta O desejo De te cantar Sem palavras Pra que ouças O silêncio Com que antes Me chamavas... MAS NÃO ME CHEGAM Sinais, Vivo num poço Profundo E nele Eu vou caindo (Cada vez mais) Como um triste Vagabundo. O SOL TAMBÉM Já se foi As sombras Tomaram conta De mim, Meus dias São sempre Iguais, Sinto um vazio Sem fim... AH, MAS PINTO, Agora pinto, É hora de Redenção, Tenho cores, Tenho aromas E regressa A emoção, Há flores Por todo o lado, Volto outra vez
A sonhar,
Tenho luz, Tenho um destino E já navego Em alto mar... OH, SIM, Eu tenho tudo, Quase tudo, E retomo O meu caminho... .......... Mas perdi A minha Musa, A fonte D’inspiração. Foi-se embora Com o vento E em meu triste Pensamento Nem me sobrou Ilusão. TENHO TUDO, Talvez tenha, Mas gastaram-se As palavras, Gastou-se tudo, Afinal...
.............. Só ficou o teu Cinzento, A tinta com que Me lavras O peito E me afundas Nesta dor, A que canto Em surdina Para ouvires O silêncio Com que te pinto Sem cor.
JardimEspectralRec

“Jardim Espectral”. Detalhe

A CARTA

Por João de Almeida Santos.
Ilustração: “Melancolia”,
JAS2022.
Setembro de 2022.
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“Melancolia”. JAS. 09-2022

POEMA – “A CARTA”

DIZEM-ME
Que vagueias
Por aí,
Incerta,
À procura de ti,
Sem saber
Que te vais
Perdendo
Nas rotinas
Inventadas
Dos teus dias.

SENSÍVEL
À incerteza
Do teu caminhar,
Inundei-te
Com rios
De palavras
Quentes e
Sedutoras,
Setas falhadas
Ao coração
Do silêncio
Que te cobre
O rosto
Como véu
Translúcido...
................
Para te resgatar.

SEI QUE VIAJAS
Cada vez mais
Para dentro de ti,
Aninhando-te
Nessa melancolia
Sem fundo
Que sempre
Me cativou.

E DIZEM-ME
Que quanto mais
Te resguardas
Na sombra
De ti mesma
Mais procuras
Ver tudo
Sem ser vista,
Seguindo,
Invisível,
O meu rasto
Desenhado
Com palavras
Ao longe
Na neblina
Que se esfuma
E dilui
Lentamente
No frio
Horizonte
Da Montanha
Sagrada.

E ATÉ O VENTO
Amigo
Que sopra
Lá do alto
Me segreda:
“Curiosa de ti,
Abre
De par em par
As janelas
Das tuas estrofes,
Ar puro
Que respira,
Esse canto
De sereia
Que finge
Não ouvir,
E procura
Decifrar
As tuas ondulações
De alma
No muro
Das lamentações
Poéticas”.

EU SEI BEM
Que te cobres
Com o véu
Escuro
Do silêncio
Para te resguardares
Do olhar
Indiscreto da vida
Sobre ti.

MAS A VIDA,
Meu amor,
É fugaz,
O tempo passa
E deixa marcas
Indeléveis,
Sulcos profundos
Que só o futuro
Desvelará
Porque o passado
Fica inscrito
Num destino
Que só conhecerás
Ao virar
Da esquina da
Tua vida,
Onde só o passado
Brilhará
(Ou não)
Como futuro.

AH, SIM,
O reencontro
Acontecerá
Nesse momento,
Quando eu
Já só for
Um sinal
Impresso,
A branco e negro,
Uma vaga memória
Escrita
Perante teus olhos
Húmidos
De me terem
Perdido
Sem saber
Porquê...
................
Ou simplesmente
Como inútil
Expiação
De um pecado
Que nunca
Aconteceu.

ESTAREI LÁ,
Sim,
Nesse destino
À tua espera
Para te dar
Conforto,
Aninhado
Nas palavras
Que ainda
Não sabes
Declinar,
As mesmas
Em que vou
Viajando,
Invisível,
Por dentro
De ti
À procura
Da eternidade
Possível,
Tua e minha
Salvação
Da voragem
Do tempo.

Jas27Melancolia2022Rec

 

A OFERTA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Fantasia".
Original de minha autoria.
Setembro de 2022.
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“Fantasia”. JAS. 09-2022

POEMA – “A OFERTA”

DESSE ENCONTRO
Fatal
Em tão cinzento 
Dia
Quis libertar
O meu corpo
Sem saber se
Conseguia...
...........
Fui correr
Junto à praia
À hora da maresia...

CORRI, SALTEI
Dancei,
Respirei
Com essa brisa
Do mar,
Libertei-me
Desse aperto
Que me ia
Sufocar.

FIQUEI LIVRE,
Mas sozinho,
À deriva,
Nesse dia,
Mas no regresso
Da praia
Encontrei-te
No caminho...
.........
Milagres
Da fantasia.

LOGO TE FIZ
Um poema
Pois correr
Já não chegava,
Pus palavras
A sorrir
Quando a alma
Regressava
Pra te poder
Seduzir.

PARTI COM ELA
Prà Montanha,
Quis trazer-ta
Num cabaz...
............
Colhi frutos
Lá no alto
Guardei-os
Todos no peito
Pra esse encontro
Fugaz
Que eu queria
O mais perfeito
Se disso fosse
Capaz.

LEMBRAS-TE
Dessa cesta

E dos frutos que
Trazia?

Vinham todos
Da Montanha,

Eram frutos
De alegria,
Poemas
Que derramavam
Aromas 

Em palavras de
Embalar
E contavam
Mil histórias

Que te fariam
Sorrir...
...........

Era oferta
Singela 

De quem te
Queria sentir.

NA CESTA HAVIA
Estrelas
Às centenas,
Vermelhinhas...
..............
Não viste nelas
Cintilas

Que voavam
Tão juntinhas?

ERAM MIL CORES
E aromas
Que desses frutos
Brotavam,

Colavam-se
À minha pele,

Mas era por ti
Que passavam.

MAS PARTISTE
Com essa cesta
Ao colo,

Rápida,
Sem me olhar...
.............

Não esperava
Protocolo

(Como sabes),
Mas foi grande
O meu espanto
Desse teu
Estranho ar.

SÓ À NOITE
Me disseste
“Obrigada,
Meu amigo,

Estes frutos
Que me deste
São belos
E tão gostosos,
Mas não são
O teu abrigo”.

PRA ME CURAR
Da desfeita
E resistir 
À tristeza
Fui correr Em poesia, Pois soa sempre Em meus versos, Contraponto
Da frieza,
Uma quente Melodia. LIBERTEI O CORPO Outra vez, Mas a alma (Como vês) Ficou sempre Presa a ti, Ninguém pode Devolver-ma, Mas, assim...
............. Não te perdi.
Oferta2022_1Rec

“Fantasia”. Detalhe

O PAVÃO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Azul no Parque”.
Quadro n.º 1 (2021, 92x123; 
não exposto) do 
Catálogo da Exposição
“Luz na Montanha”,
aberta ao público até 25.09,
no Centro Cultural de Cascais.
Agosto de 2022.
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“Azul no Parque”. Quadro n.º 1 (2021, 92×123; não exposto) do Catálogo da Exposição “Luz na Montanha”, aberta ao público até 25.09, no Centro Cultural de Cascais.

POEMA – “O PAVÃO”

FUI AO PARQUE
Do Marechal
Logo ao amanhecer
(Melancolia
De outono)
À procura do pavão,
Eram muitas
As saudades...
Já passara mais
De um verão.

ENCONTREI-O
Por ali,
Sozinho,
Talvez triste
Como eu,
E vi nele,
Ao caminhar,
As cores
Que sempre
Invoco
Neste incerto
Vaguear.

PORQUE É
Tão belo
O pavão?
Soberbo
Em sua pose,
Captura-me
Os sentidos
Com a vertigem
Da cor
E logo sinto
O poder Desse grande
Sedutor. ALTANEIRO, O pavão Fascina-me O olhar Com a beleza Cativante Do solene Caminhar. O SEU PORTE Austero É grave E até quase Marcial, Celebra-se Como filho De arte Viva Sempre em pose Triunfal.  SEGUI-O, Nesse dia, Parque fora, No silêncio Luminoso Da manhã...
............. Folhas caídas No chão Acolhiam O nostálgico Passeio Do poeta E do pavão... NESSE JARDIM De remota   Evocação A beleza Despontava Em seu ritmo Natural, Passos lentos
E medidos, Desenhados Em perfil, Pose austera, Altivez.... ............. Momentos De um ritual. CAMINHEI COM ELE Horas a fio, Lado a lado, Sem destino, Revendo As cores que Um dia Me emprestou Pra levar À tua arte (Em jogo De sedução) Fragmentos De arco-íris Que derramei No teu chão. JÁ NO ALTO De um muro, Oráculo, Arte pura, Aparição, Perguntei-lhe Qual a cor Da tua alma E ele mostrou-me Esse azul Tão luminoso Onde sempre Se esfumam Os traços Da tua mão... ........ E logo, E por encanto, Eu vi Espelhado O teu rosto Nas cores vivas Do pavão.

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A AGUARELA

Poema de João de Almeida Santos
inspirado no poema de
Manuel Bandeira
“Tema e Variações”.
Ilustração: “O Retrato”
(n.º 24; 68x80).
Pintura que integra
a Exposição “Luz na Montanha”,
aberta ao público até 25.09,
no Centro Cultural de Cascais.
Agosto de 2022.
O Retrato2022Corte

“O Retrato”. JAS. 2022. (n. 24. 68×80). Pintura que integra a Exposição “Luz na Montanha”, aberta ao público até 25 de Setembro, no Centro Cultural de Cascais.

POEMA – “A AGUARELA”

SONHASTE, MANEL,
Que havias sonhado
Estar à janela,
Sonhando a cores
Que estavas com ela.

TAMBÉM EU SONHEI
Que tinha sonhado
E que no sonho
A tinha encontrado,
Passando por ela,
Ali, lado a lado.

MAS LOGO ACORDEI
Do primeiro sonho.
Sonhando, eu vira
O seu belo rosto
Numa aguarela
Pintada a cores
Que tinha guardado
Para uma tela.

SONHEI, OUTRA VEZ,
Que era pintor,
Mas que sempre
Pintava
Esse seu rosto
A uma só cor.

DIZIA, SONHANDO,
Que não podia ser.
De tão expressivo,
Era um arco-íris
Ao amanhecer,
Um belo sorriso
Para o mundo ver.

MAS EU SÓ O VIA
Com a minha cor.
De seda tecido,
Ele me seduzia
No sonho sonhado
Onde sempre a via
Ali, a meu lado.

NÃO QUERIA ACORDAR
Do sonho feliz
E nele fiquei
De olhos fechados
Porque nessa cor
Fiquei enleado
Com todo o meu ser...
................
Talvez por amor.

NO SONHO OLHEI
Para o meu espelho
E logo eu vi
Que essa minha cor
Era o vermelho.

NO ÚLTIMO SONHO
Voltei a sonhar
Que tinha sonhado
Que o encontrei,
Esse rosto amado,
E logo lhe disse,
Neste novo sonho,
Que a tinha sonhado.

DISSE-ME QUE NÃO,
Que nunca me vira
Sequer acordado...
E logo acordei
Desse pesadelo.
Foi assim que vi
Que tinha sonhado
E que ela
Já lá não estava
Ali, a meu lado.

QUIS ADORMECER
Para a encontrar,
Mas não consegui
Sonhar que a via,
Pôr os olhos nela,
Viver o meu sonho
Como alquimia,
Porque, acordado,
Logo descobri
Na minha parede
Aquela aguarela
Que do sonho
Passado
Eu já conhecia...
................
Era o rosto dela.

O Retrato2022CorteR

ESTRANHA ENCRUZILHADA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Rua” (2022; 104x118).
Pintura que integra
a minha Exposição “Luz na Montanha”,
aberta ao público até 25.09, no
Centro Cultural de Cascais.
Agosto de 2022.
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“A Rua”. JAS. 2022. 104×118

POEMA – “ESTRANHA ENCRUZILHADA”

CRUZEI-ME CONTIGO
Numa esquina
Da vida,
Nesta rua
Onde inventei
Uma estranha
Despedida.

NÃO TE VI
Como te via
Da janela
Sobranceira
Quando passavas
Na rua
Abraçada
À beleza,
Teu perfeito
Avatar,
Quadro vivo
De ti
Que o tempo
Quis desenhar.

SE TE REVI
(Mas não sei),
Foi numa janela
Vidrada
Que me devolveu
A imagem
Reflectida
Como num espelho
De fada.

E, ASSIM, ESTREMECI.
Pressenti-te
Fugidia,
Nesse acaso
Do destino,
A meu oblíquo
Olhar
Em nova
Encruzilhada
Deste incerto
Caminhar.

DEPOIS SEGUI
Com a alma
Em alvoroço
Essa tua silhueta
Embaciada,
No meio
Da multidão...
...........
Não via bem
O perfil
Por falta
De nitidez
Do meu campo
De visão.

ANÓNIMO
Me assumi
Como essa gente
Comum
Que se cruza
No caminho
Sem jogar
O seu destino
Num encontro
Casual.

QUE ESTRANHA
Sensação,
Caminhar
Lado a lado
Com uma vaga
Silhueta,
Fixado
Num horizonte
Que se esfuma
E desfaz
Como espuma
Em areia
A marcar uma
Fronteira
Traçada
Pelas marés.

ATÉ QUE CHEGUEI
Às palavras
Escritas na água
Da praia
Remexida
Pelo vento,
Derramando
Na areia
Um murmúrio,
Um lamento,
Um poema
Simulado
Para dar voz
Ao poeta
Que sofre
Do seu pecado.

MAS GOSTEI
Do olhar
Oblíquo
Com que te vi
Na janela
De vidros baços,
Fumados,
Apenas imaginando
Que aquela silhueta
Era tua,
Regressada
Dos confins
Dessa remota
Memória
Dos felizes
Desencontros
Que tinha
Na outra rua.

E GOSTEI
Que me visses
Sem olhar,
Pressentindo-me
Apenas,
Anónimo
A seguir o teu
Caminho
Para logo
Se perder
Nas veredas
Do destino.

TUDO TÃO ONDULANTE
E tão normal,
Estranhamente
Banal,
Que até o poema
Espanta
Por cantar
O que nunca
Aconteceu
A não ser
Na fantasia
De quem com ele
Renasceu.

CRUZEI-ME CONTIGO
Ao lusco-fusco
De um estranho
Entardecer,
Numa encruzilhada
Da rua
Que um dia
Inventei
Pra desenhar
O caminho
Onde te ia
Perder.

É A VIDA
De um poeta
Que se alimenta
Da dor.
Se não a sente,
Procura,
Nem que seja
No amor.
JAS_A RUARec

“A Rua”. Detalhe

SONHEI-TE, NAQUELA NOITE

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Teus Olhos”.
Pintura em Exposição
no Centro Cultural de Cascais,
nº. 14, 66x89, 2022.
Original de minha autoria.
Agosto de 2022
Jas14TeusOlhos2022

“Teus Olhos”. JAS – 2022 – 66×89. N.º 14 em exposição no CCC.

POEMA – “SONHEI-TE, NAQUELA NOITE”

SONHEI-TE,
Naquela noite.
Atravessava o deserto,
Há muito,
Sem nada no horizonte,
Areia, só areia
No meio
Do meu caminho
E uma neblina quente,
Lá ao fundo,
Na fronteira
De quem o percorre
Sozinho.

NEM SABIA
Se na longa
Caminhada
Encontraria
Um oásis
E uma fonte
De água pura
Onde molhar
Os lábios e a alma
Já gretados
De tanta aridez
E secura.

MAS HOJE VOLTEI
A sonhar-te.
Passara essa fronteira
E encontrara
O oásis...
...............
Nas pupilas
Dos teus olhos.

SACIEI-ME EM TI,
Sereno
Como nunca
Estivera
Desde que te conheci.
Ofereci-te
A história
De papel
Onde te conto
E me conto
À exaustão,
No limiar
Do impossível
E dessa insólita
Paixão,
Com réstia
De esperança
De não ter de
Regressar
À torreira
Do deserto,
A essa cáustica
Erosão.

FALÁMOS DE ARTE
(Imagina),
Do seu poder
Curativo,
De como a vida
Se lê
E resolve
Quando é forte
O motivo.

ABANDONEI-ME
Nos teus braços
Irreais,
Perdi-me
Em misteriosos
Sinais
E em quentes
Memórias
De ternura
E caminhámos
Sobre nuvens
De cintilante
Alvura.

SONHEI-TE
Esta noite.
E, sabes?
Acordei de ti
Embriagado
De felicidade,
Uma doce
Tontura
Com sabor
A liberdade.

HABITUEI-ME
A estar contigo
Em sonho,
A dizer-te
Em poemas,
A interpelar-te
De longe,
A ouvir o teu eco
Ressoar-me
Na alma,
Melodia
Do amanhecer.

APRENDI
A ouvir
O teu silêncio,
Essa fronteira
Inultrapassável
A não ser
Pelo vento
Que passa
E te cicia os
Meus poéticos
Murmúrios.

TENHO-TE
Em mim
E já nem sei
O que seria
Encontrar-te
Fora do meu
Íntimo,
Olhar de perto
Esses teus olhos
Profundos
E cintilantes,
Embriagar-me
(Já de partida)
Com teu perfume
E naufragar
Nesse mar
Insondável
Da tua vida.

TALVEZ TE PERDESSE,
Nesse instante,
Por excesso de ti.
Mas não quero
Perder-te,
Sentir de novo
O que nesse dia
Tão cinzento
Eu já senti.  
Jas14TeusOlhos2022Rec

“Teus Olhos”. Detalhe.

TEMPO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Perfil de Mulher”, 
2022, 94X114.
Pintura em exposição no
Centro Cultural de Cascais
até 25 de Setembro.
Original de minha autoria.
Julho de 2022.
17Perfil de Mulher2022

“Perfil de Mulher”. JAS. 2022. 94×114. Pintura em exposição no Centro Cultural de Cascais.

POEMA – “TEMPO”

É TEMPO DE RECOMEÇO
Ao olhar
O teu perfil?
O que ontem
Eu já era
É o que hoje eu sou,
O afecto
Pediu tempo,
Mas o tempo resistiu
Ao que a vontade
Tentou.
É tempo
De recomeço
Quando o tempo
Não passou?

EM CADA MOMENTO
Procuro
O tempo
Que, no passado,
Eu, poeta,
Não cumpri
Porque sempre
Reinvento
Tudo aquilo
Que perdi,
Num poema
Ou em pintura
Para saber
Quem eu sou
Antes de lá
Me perder,
Nos lugares
Pra onde vou.

ENTRE O HOJE
E o ontem
Há algo
Que já mudou?
Fui ao baú
Das memórias
E vi logo
O que sobrou:
A imagem 
Bem precisa
Desse tempo
Que passou.

TUDO MUDA
Amanhã,
Quando, tenso,
Eu passar
Na curva
Do teu caminho?
Encontro o que antes
Nunca vi?
Mulher com futuro
No olhar
E que sempre
Me sorri,
A repetir com carinho
Um terno
E tão antigo “Olá!”,
Cabelos negros
Ao vento,
Corpo esguio
Em movimento,
Resolvendo um passado
Que nunca mais
Voltará?

NÃO, TEUS OLHOS
São uma janela
Fechada,
O tempo
Passa por ti
Sem destino,
É ritmo
Sem melodia,
Caminho
Sem fim
À vista
Que percorro
Dia-a-dia
Na vertigem
De um passado
Que cedo
Cristalizou,
Mais tristeza
Que alegria
Como peso
Do meu fado
Só liberto em
Poesia
Do tempo que
Não passou.

E TEM TEMPO,
A poesia?
Talvez tenha
(Eu não sei),
Com ela voo
No céu,
Sem limites
Nem fronteiras,
Num tempo que é
Só meu.

AH, SIM,
A poesia tem tempo, 
É tempo de salvação,
Perdi-te,
Mas eu não queria
Passado
De negação.

É TEMPO
De recomeço?
Sopra vento 
De feição?
Sou feliz em poesia
Pois escrevo
O meu poema
Na pauta
De uma canção.

NÃO É O TEMPO
Que salva,
Mas as palavras
Que digo
Enquanto fores
Alimento
Desta minha 
Inspiração
Porque é assim
Que te canto:
Da dor
Sai alegria
Que cura
Da solidão.

17Perfil de Mulher2022Rec

EXPOSIÇÃO DE JOÃO DE ALMEIDA SANTOS

Inauguração a 23.07

CENTRO CULTURAL DE CASCAIS

De 23.07 a 25.09.2022
L&ClaraZanini

“O TERRAÇO” em observação

FOI ONTEM, 23 de Julho, entre as 18:00 e as 20:00, a inauguração da minha Exposição individual “Luz na Montanha”, no Centro Cultural de Cascais. Presentes cerca de 70 amigos que quiseram partilhar este momento comigo. O meu obrigado a todos. Tive oportunidade de dirigir algumas palavras aos presentes e de ler o poema “A Janela” junto do quadro com o mesmo nome, dando assim testemunho directo da íntima conexão entre a poesia e a pintura.

QUERO AGRADECER publicamente ao Senhor Presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreiras, ao Senhor Presidente do Conselho Directivo da Fundação D. Luís, Prof. Salvato Teles de Menezes, e à Senhora Coordenadora do CCC, Arquitecta Isabel de Alvarenga, a oportunidade de realizar, no prestigiado Centro Cultural de Cascais, esta minha Exposição. Estando o meu trabalho plástico intimamente ligado à poesia, entendeu-se fazer também a apresentação do meu livro de poesia (João de Almeida Santos, Poesia, Lisboa, Buy The Book, 2021) durante a Exposição, precisamente um dia antes do encerramento, ou seja, no dia 24 de Setembro. A apresentação será feita pela Professora Annabela Rita, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

ESTA EXPOSIÇÃO representa o ponto de chegada de um longo processo de trabalho diário dedicado à poesia e à pintura, que foi sendo divulgado através do meu site todos os Domingos e durante anos, sem interrupção.

A MINHA PROPOSTA consolidou-se como exercício de convergência entre a poesia e a pintura, onde o ponto de partida da pintura é a própria poesia. Adoptei a sinestesia, ou seja, a convergência de duas artes em torno de um tema ou de uma história, de forma sistemática, e assim fui caminhando até chegar aqui, a esta primeira Exposição, e à publicação de um livro de poesia, que exibe algumas (14) ilustrações demonstrativas da profunda relação entre a poesia e a pintura. O livro também está em exposição na segunda sala, 3 exemplares, numa vitrine, e também é consultável num volume disponibilizado para tal. Na verdade, a cada quadro (32, visto que os programados 37 seriam excessivos para o espaço disponível) corresponde um poema.

TODOS OS QUADROS expostos podem ser adquiridos, à excepção dos números 20 (“Março”), 30 (“Ketrof”, exposto só no catalogo), 35 (“Romã”) e 37 (“Magia”). A Exposição tem um Catálogo – que contém um texto do Prof. Salvato Teles de Menezes, dois textos meus sobre a minha pintura e a reprodução de 37 quadros – que pode ser adquirido no Centro Cultural de Cascais (valor: 7 euros).

PUBLICO AQUI várias fotografias do evento. Outras se seguirão durante o dia de hoje. Fotos de Ronald van Middendorp.

Intervenção2

Durante a minha intervenção na abertura da Exposição.


IntervençãoCorte

Outro momento da minha intervenção, dirigindo-me à Senhora Arquitecta Isabel de Alvarenga, Coordenadora do CCC

 

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Chegada à Exposição


Olga&João1

Comentando “Teus Olhos” com uma Amiga


Sala1

Quadros na Sala 1: “Pasárgada”, “Luz na Montanha”, “Rua do meu Jardim”, “Pasárgada II”, “A Montanha Encantada” e “Deusa das Camélias”


Texto

Texto “Sinestesia”, entre as Salas 1 e 2, e quadro “Pasárgada”


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“Perfil de Mulher”


20220723_BlameDutchie_JdAS_00056

“Teu Olhar”.


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O Autor


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“Paraíso”


O Desejo

“O Desejo”


FachadaSite

Fachada do CCC com o Cartaz da Exposição “Luz na Montanha”

#Jas@07-2022

EXPOSIÇÃO DE JOÃO DE ALMEIDA SANTOS

Centro Cultural de Cascais
23 de Julho - 25 de Setembro
Inauguração: 23.07, 18:00
CapaCatalogo

CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO – CAPA

SINESTESIA

“LUZ NA MONTANHA” é o título desta minha Exposição. É o título de um quadro que a integra, mas é também uma alusão ao ambiente natural que me inspira na pintura e na poesia.

Em exposição estarão as 37 obras aqui reproduzidas e que foram criadas em diálogo com a poesia. Elas são, pois, parte do processo sinestésico que adoptei na experiência estética.

Com riscos e cores, procuro dar forma plástica ao discurso poético e à matéria de que se alimenta: esse fluxo torrencial de pulsões existenciais que interpelam, estimulam e desafiam o poeta. A pintura continua o discurso poético por outros meios que, depois, seguem a sua própria gramática. Trata-se de paisagens interiores, pintadas, num primeiro andamento, com palavras em registo melódico, mas, depois, recriadas e figuradas em expressão cromática quente e intensa.

Uma dialéctica que torna a experiência estética mais rica e complexa, mas ao mesmo tempo mais leve e sedutora. Fragmentos cromáticos de um originário discurso poético que o projectam para fora de si e o oferecem ao olhar no interior de uma nova gramática. Como um magnetismo que atrai a palavra e a converte em cor, propondo-a, já transfigurada, ao olhar de quem frui.

O processo sinestésico permite, depois, um novo regresso ao poema, já com a alma cheia de cor, banhando e iluminando os versos e as estrofes com o brilho cromático das pinturas. E assim se sobe a um novo patamar a partir do qual se inunda de sentido a pintura.

Na verdade, nem a pintura ilustra o poema nem o poema descreve a pintura, mas ambos dão origem a um diálogo virtuoso que se eleva dialecticamente, através da sinestesia, em planos superiores mais complexos e exigentes. A densidade do poema é convertida em leveza na pintura e a leveza da pintura é densificada pela semântica poética.

É isto que eu pretendo, independentemente da interpelação e do chamamento a que ambas as artes estão necessariamente votadas. Se ambas respondem, na sua génese, a um originário impulso dionisíaco, para o dizer com Nietzsche, elas também têm como vocação a interpelação, procurando seduzir e chamar à experiência estética os que se cruzam com elas.

No essencial, foram estas as razões que me moveram nas 37 propostas que exponho.

João de Almeida Santos

Catalogo_JAS

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ENCANTAMENTO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “La Diseuse”
Original de minha autoria
Julho de 2022
LaDiseuse_07_2022Cor

“La Diseuse”. JAS. 07-2022

POEMA – “ENCANTAMENTO”

SÃO ECOS
Da tua alma
Estas cores
Intensas
Com que te
Pintas
E te revelas
Nestes dias
De tão incerto
Encantamento.

CONVIDAS-ME
A ler-te
Nas cores
Quentes
Com que
Teus olhos
E tua boca
Me convocam
E aguardas, Expectante, Que pinte A tua alma Com a devoção De poeta De alma Errante E com palavras Ambiguamente Certeiras Que saiam Do fundo Desta timidez Em sobressalto Que eu, Inseguro, Sinto Cada vez que Te vejo Lá no alto. SÃO CASTANHOS Os teus cabelos, Mas a tua alma, A que eu leio Em teu rosto, Está impressa Como coroa De cor Efémera, A das giestas Floridas Na primavera Dos nossos Fugazes Reencontros. A TUA BOCA Sensual, Lábios Ao rubro, Carnal, Oferece-se Ao beijo Das minhas Palavras Nestes poemas Lançados Ao vento... ÉS BELA Como eles, Estes dias Do eterno retorno Em que me Deixas Abraçar-te Com palavras De ousado Desafio No meu regresso A ti, Ó deusa Tão ausente Do meu viver. MAS EU VEJO No reencontro Feliz Uma leve Tristeza Que em teu Rosto Aflora Em contido Espanto, Nessa hora Em que te sinto Quase como Choro De não te ter. É OLHAR Que roga, Boca suspensa Da pergunta Que não ousa Sair sequer Como murmúrio De teus lábios... AH, ENTÃO, Pergunta, Sim, pergunta, Pra que eu Te diga, Cá de longe, Sem hesitar, As minhas Certezas Sobre ti Sob o fascínio Desse teu Cintilante Olhar. E DIR-TE-EI Que os astros (Sim, os astros) Estão alinhados Sobre nós, Suspensos De teus riscos e Das minhas palavras, Das nossas cores, Dos sinais que, Como sóis, Iluminam, Ardentes, A nossa vereda Tão estreita Sobre o precipício Fatal Da arte. POR ISSO, Com o poema Te seguirei Mesmo que Um dia (Que nunca virá) Se esfumem No horizonte As tuas cores E te perca ali, Na rua Do desencontro, Onde eu Te conheci, E meu rosto Escureça Sob as negras Nuvens Dos destinos Não cumpridos. MESMO ASSIM, Continuarei Em busca Dos mil rostos Da tua Metamorfose, Essa que sinto E pressinto Como beleza Oferecida No teu olhar Cintilante, Na tua boca Suspensa De tanta Incerteza Nesse imenso mar Onde se ouve O canto Das sereias. PROCURAREI Então, Mais rostos, Mais cor, Mais riscos, Com dor, Usarei palavras, Sinais, Desenhar-te-ei Cada vez mais, Com meus poemas Irei ao cais Ao pé do rio Saber se vais À outra margem Da nossa vida... ............. Talvez cantar, Nem sei Que mais... TANTO BRILHO No teu olhar, Ó deusa Do meu destino, Sempre a navegar...

LaDiseuse_16052022CorRec

A PINTORA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Olhar”
Original de minha autoria
Julho de 2022
A Pintora2022_0907

“Olhar”. JAS. 07-2022

POEMA – “A PINTORA”

QUANDO TE VEJO,
Vejo-te a cores,
Sinto aromas,
Provo sabores
Na fantasia
E vejo traços
E tantas fugas
Pró infinito
Nos sete céus
Dessa magia...
..............
E eu respondo
Sobre o que sinto
Se me perguntas:
- Epifania!

AO LONGE,
O horizonte
Do teu olhar
Aqui ao perto
Uma ponte
Desenhada
Que me leva
Ao pé de ti
Quando o rio
Me transborda
E eu sinto
Que me perdi.

QUANDO TE VEJO,
Eu vejo ruas,
Eu vejo praças
E catedrais,
Vejo figuras
A levitar,
Vejo vitrais
E vejo sóis
Em refracção
Que aquecem
A minha alma
Quando me olhas
E estremeço
De emoção.

VEJO TEU ROSTO,
Vejo-te a ti
Nesses poemas
Que escrevi,
Sentir-te perto
É o desejo,
Ver o teu céu
No horizonte,
A utopia...
.........
E eu ando
É por aqui
Sempre à procura
Da tua doce
Companhia.

VEJO MONTANHAS
E vejo cores
A brilhar
No horizonte,
Eu vejo casas
Nesses vales
E esses rios
Por onde corre
A água pura
Com que eu rego
O meu jardim
Pra que germinem
Os meus poemas
E te desenhe
Só para mim.

SINTO NO AR
O teu perfume
Cabelos soltos
A esvoaçar
E sinto o vento
Nesse teu rosto
E altas vagas
No nosso mar
Mesmo que chegues
Já no sol-posto
Com o teu barco
A navegar
Nesse horizonte
Onde se perde
O meu olhar.

EU VEJO TELAS
E teus pincéis
Eu vejo tinta
Na tua mão,
Vejo-te a ti,
Doce pintora,
Tão concentrada
Em mil desenhos
Em construção.

VEJO QUADROS
E vejo letras,
Nessa pintura
Vejo sinais
E sou feliz
De assim te ver
Porque te vejo
Neste pontão
Do nosso cais...
............
E tudo isso
É o que vejo
E o que basta
Pois não preciso
De muito mais.

EU VEJO TUDO
(A deusa ajuda),
Mas não te vendo
É grande a dor...
Vem ter comigo
A este rio
Passar a ponte
Pro outro lado
Dar-me a mão
E um sorriso,
Fazer de mim
Um desejado
Mesmo sem teres
A tua ponte
Bela e leve
Já desenhado.

EU VEJO TUDO,
É uma certeza,
Mas faz-me falta
O teu sorriso...
...............
Mesmo que minta
Nada mais quero
Pois é só disso
Que eu preciso.

A Pintora2022_0907Rec

O BEIJO

Poema de João De Almeida Santos. 
Ilustração: "O Beijo". Original 
de minha autoria para este poema.
Dia Internacional do Beijo - 
- Seis de Julho, dia que celebro, 
com um poema, todos os anos.  
Inspirado em "Lotte in Weimar"  
(1939), de "Thomas Mann, a obra
que continuou "Werther" (1774),
de Goethe, e no meu  romance
"Via dei Portoghesi".
O_Beijo060722

“O Beijo”. JAS. 07-2022

LEITMOTIV

“O amor é o melhor na vida, assim,
no amor, o melhor é o beijo –
Poesia do amor...”. “Beijo
é alegria, procriação é luxúria”


Thomas Mann
 Inspirado também em:
 “Os beijos escritos 
não chegam ao destino,

mas são bebidos pelos
fantasmas ao longo
do trajecto”


Kafka 
“Se para te beijar devesse, 
depois, ir para o inferno,
fá-lo-ia.
Assim, poderia
vangloriar-me, com os diabos,
de ter visto o paraíso

sem nunca lá ter entrado”

Shakespeare
 “O primeiro beijo não é dado 
com a boca, mas com os olhos”

Bernhardt

POEMA – O BEIJO

BEIJO FOI
O que nunca
Te dei
A não ser
Com o olhar,
O primeiro,
Esse beijo,
Dei-to, pois,
Sem te tocar.

E DEI-TE MAIS,
Com palavras,
Quando olhar
Já não podia...
............
Foste embora
Para longe
E eu, triste,
Não te via.

FORAM BEIJOS
Que sonhei
Na rotina
Dos meus dias
E desejos
Que enfrentei
Quando tu mais
Me fugias.

MAS DOU-TE BEIJOS
Escritos
Que se perdem
No caminho
E se o poema
Me falta
Fico ainda mais
Sozinho.

O BEIJO
É emoção,
É razão
Descontrolada,
Se não for dado
A tempo
Pouco mais
Será que nada.

SEM BEIJO
Não há amor,
Sem amor
Perde-se o beijo,
A vida perde
Sentido
Se me faltar
O desejo
De na alma
Te beijar
Por assim te ter
Perdido.

AQUI O LANÇO
Ao vento
Pra que atinja
Como brisa
E suave melodia
Esse rosto
Que precisa
De afecto
Em poesia.

ESSE BEIJO
Que me falta,
De que nunca
Fui capaz,
Voa pra ti
Em palavras
Na sua forma
Mais pura
Para que
Em seu trajecto
Voe, voe
A grande altura...
.............
Que fantasmas
Não o bebam
Enquanto
Seu voo dura.

MAS SEI
Dos escolhos
Da via,
Dos perigos
Que ele corre,
Capturado
Por fantasmas
É mensagem
Que me morre.

NO DIA DO BEIJO
É hora
De te cantar
Em voz alta
A poética do amor
Pra me redimir
Dessa falta
Com palavras
De poeta
Desenhadas
Para ti
Com mestria
De pintor.

E PORQUE O DIA
É teu
Ganha força,
Intensidade,
Mesmo que fantasmas
O bebam
É um beijo
De verdade.

O BEIJO
Que não te dei
Foi pecado
Original,
Hei-de sofrê-lo
Pra sempre
Como chaga
Corporal.

NÃO HÁ PALAVRAS
Que bastem
Pra repor
O que não dei,
Elas voam,
Mas não chegam,
E mesmo assim
Eu tentei.

É CERTO QUE SEMPRE
O quis,
Só que nunca
To roubei,
A culpa foi
Desse tempo,
Dos dias em que
Te amei,
Um tempo
Em diferido
Sem presente
Nem futuro,
Talvez beijo
Sem sentido
Porque queria
Do mais puro,
Tangendo eternidade
Às portas
Do Paraíso,
Um beijo
De divindade,
Mas simples
Como um sorriso.

ESSE BEIJO
Impossível
Que não é do
Foro humano
Vou tentando
Construí-lo
Cada dia,
Cada ano,
Perdendo-me
Pelo caminho
Como sagrado
Em profano.

O_Beijo060722Rec

SEM REMÉDIO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Afrodite”.
Original de minha autoria.
Julho de 2022.
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“Afrodite”. Jas. 07-2022

POEMA – “SEM REMÉDIO”

“VOU TOMAR
OS MEUS REMÉDIOS...”
..............
Palavras
De antigamente
Que ela gostava
De usar
Quando se via
Doente
Com maleitas
Que não tinha,
Em que não acreditava,
Mas que a ele
Muito doíam
Sempre que delas
Falava.

NÃO ERAM SUAS
As maleitas
Que exibia,
Fingindo ser
Alma gémea
De quem com elas
Sofria.

ENTRE UMA COISA
E OUTRA
Era assim 
Que ele a via,
Aprendera
A sofrê-la,
Lentamente,
Cada dia,
Como se as dores
Fossem dele
Num jogo
De aparência
Com sabor
A fantasia,
Porque assim era
Feliz,
Regressava
À inocência
Quando nela
Se perdia.

INOCÊNCIA
Que perdera
Um dia na sua vida,
Vira a ternura
Morrer
Num olhar
De despedida.

PRECONCEITO
E submissão
Mataram
O que nascia,
Transformando
Em solidão
A beleza
De um dia.

SOLIDÃO TRISTE,
Quase eterna,
Que nunca mais
O largou,
Sem remédios
Para ela
Quase, quase
Sufocou...

CAMINHA AGORA
EM TRISTEZA
Com passo lento
E pesado,
Transportando
O mundo às costas
Como fardo
De pecado,
Mas tenta sempre
Vencê-la
Com as palavras
Que tem,
Versos, rimas,
Sons e letras
Que o vento leva
Consigo...
.............
Para a terra
De ninguém.

NÃO PODE
Nem quer dizê-la
Essa dor
Que o devora,
Prefere, pois,
Combatê-la
Com as palavras
De outrora...

"VOU TOMAR
OS MEUS REMÉDIOS..."
Saudades de a
Ouvir,
Vontade
De a encontrar Pra nunca mais A perder, Contemplar Seus olhos Negros, Ser feliz Só de a ver, De a ter Por companhia Nem que seja Em aguarela Que pinte Em cada dia. BOCA, OLHOS, CABELOS, Esse rosto que Não esquece, Imagem De uma mulher Que, ausente, O entristece Até ao fundo Da alma... ....... Solidão, Melancolia, Dessa dor Ninguém o salva, Vai sofrê-la Noite e dia. ERA ASSIM QUE A SENTIA, Esse alguém que O não amou E que sempre Lhe fugia Embora fingisse Que não Por saber Que lhe doía. MAS FOI ELE Que lhe mentiu Quando lhe disse Em vão Que já não queria Vê-la, Não a ter ali Por perto, Estar sempre longe Dela, Coração A descoberto, Não lhe ficar Amarrado, Inventando Outra mulher Com quem ir A todo o lado. MAS ERA FOGO De vista, Vontade De a esquecer, Divagava Em palavras Pra deixar De a sofrer. A OUTRA NÃO A sentia, Era coisa De momento, Sem grande Profundidade...
.............. O que mais ele Queria dela Era só Cumplicidade. MAS ERA FUGAZ Momento, Depressa ela O cercava, Capturando-lhe O alento Sempre que a Encontrava.
E FICAVA SUBMISSO, Vergado Ao que dizia, Nela só via Verdade Mesmo quando  Lhe mentia. "VOU TOMAR OS MEUS REMÉDIOS”, Era a sua Melodia E ele ficava Dorido Com maleitas Que não via, Mas até disso Gostava, Era prazer Negativo Sentir-se Tão perto dela Mesmo sem haver Motivo. “VOU TOMAR OS MEUS REMÉDIOS...” E ele não se Importava Porque a sentia Doente Mesmo quando Não estava. E ASSIM Ia vivendo, Sofrendo Em cada dia. Não sabia O que fazer... .............. Só sabia O que sentia.

JAS_2022_2Rec

“LUZ NA MONTANHA”

Exposição individual de
JOÃO DE ALMEIDA SANTOS
FUNDAÇÃO D. LUÍS
CENTRO CULTURAL DE CASCAIS
Aven. Rei Humberto II de Itália 2550-642 Cascais

Inauguração a 23 de Julho, às 18:30.
A Exposição estará aberta ao público
até ao dia 25 de Setembro de 2022 e
mostra 37 obras do Autor.
EvocaçãodeumaMagnólia

JAS, “Evocação de uma Magnólia”, 2021. Imagem da capa do Catálogo, disponível em breve.

“LUZ NA MONTANHA” é o título de uma minha Exposição individual que a Fundação D. Luís/Centro Cultural de Cascais acolhe e promove entre 23 de Julho e 25 de Setembro de 2022. O título é o de um quadro que integra a Exposição, mas é também uma alusão ao ambiente natural que me inspira na pintura e na poesia.

Em exposição estarão 37 obras de média dimensão que foram criadas em diálogo permanente com a poesia. Elas são, pois, parte do processo sinestésico que adoptei na experiência estética. Com riscos e cores, procuro dar forma plástica ao discurso poético e à matéria de que se alimenta: esse fluxo torrencial de pulsões existenciais que interpelam, estimulam e desafiam o poeta. Como se a pintura continuasse o discurso poético por outros meios, que, depois, seguem a sua própria gramática. Trata-se de paisagens interiores, pintadas, num primeiro andamento, com palavras em registo melódico, mas, depois, recriadas e figuradas fisicamente em vibração cromática quente e intensa. Uma dialéctica que torna a experiência estética mais rica e complexa, mas ao mesmo tempo mais leve e sedutora. Fragmentos cromáticos de um originário discurso poético, poder-se-ia dizer, mas que não ficam confinados no seu interior porque o projectam para fora de si e o oferecem fisicamente ao olhar no interior de uma nova gramática. Como um magnetismo que atrai a palavra e a converte alegremente em cor e em riscos, oferecendo-a, já transfigurada, ao olhar de quem frui. O processo sinestésico permite, depois, um novo regresso ao poema, já com a alma cheia de cor, banhando e iluminando os versos e as estrofes com o brilho cromático das pinturas. E assim se sobe a um novo patamar a partir do qual também se inunda de sentido a pintura. Na verdade, nem a pintura ilustra o poema nem o poema descreve a pintura, mas ambos dão origem a um diálogo virtuoso que se eleva dialecticamente, através da sinestesia, em planos mais complexos e exigentes. A densidade do poema é convertida em leveza na pintura e a leveza da pintura é densificada pela semântica poética. É isto que eu pretendo, independentemente da interpelação e do chamamento a que ambas as artes estão necessariamente votadas. Se ambas respondem, na sua génese, a um originário impulso dionisíaco, para o dizer com Nietzsche, elas também têm como vocação a interpelação, procurando seduzir e chamar à experiência estética os que se cruzam com elas. No essencial, é isto que me move nas minhas propostas.

João de Almeida Santos

NA BRUMA DA MEMÓRIA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Magia”
Original de minha autoria
Junho de 2021
MagiaPublicado1706_2022

“Magia”. Jas. 06-2022

POEMA – “NA BRUMA DA MEMÓRIA”

QUERIA LEVAR-TE
Uma rosa
Branca
Aos sete céus
Do meu afecto,
Desci fundo
Na memória
Onde ainda te
Guardava
Como se fosse
Teu tecto.

PROCUREI-TE
Na bruma
Espessa
Que caía
Sobre mim
E quase não te
Encontrei,
O tempo gastara
O passado,
Ficou uma saudade
Sem fim.

PERDERA-TE
O rasto
E o perfil,
Até teu nome
Perdeu cor,
Teu olhar
Só luzia
Intermitente
Numa neblina
De dor.

NO MEIO DA NEBLINA
Esfumava-se
O teu rosto
De tanto eu
Te perder,
Era incerto
O cintilar
De teus olhos
Na vontade
De te ver.

ERAS BRUMA
Indefinida
Nos sete céus
Onde te quis
Encontrar,
Mas sobraste
Como imagem...
..............
A que eu soube
Desenhar.

PERDI-TE A VOZ
E a tua
Melodia,
Quase tudo,
Meu amor...
...............
Ah, mas, no fim,
Não te perdia...
Ficou-me de ti
O sabor.

PORQUE JÁ ERAS
Imagem
Que me sobrou
Desse afecto
Que por ti
Sempre senti,
Construção
De arquitecto
Para nunca
Te perder
Desde o dia
Em que te vi.

E VOLTEI
(Eu volto sempre),
É desejo
De te ver,
Dar-te corpo
Nas palavras
Com que te quero
Dizer
Ainda que
Do poema
E dos céus
Do meu afecto
Acabe por
Te perder.

AGORA, DESENHO-TE
Com palavras e
Com cores,
Com paisagens
Que tenho dentro
De mim,
Com rostos,
Com aromas
E flores
Deste bendito
Jardim,
Um passeio
Com pavões,
Uma delicada
Utopia,
Gritos de alma,
Emoções..
...............
Pra te recriar
Com magia
E contigo
Caminhar
No alto
Da fantasia
Onde vive
Essa imagem
Que desejo
Encontrar.

VOO, POIS,
Com uma rosa,
Vestido como
Arcanjo,
Pra te ver
Ali ao perto,
Olhos negros,
Cintilantes,
Mas um pouco fugidios
Ao jogo da sedução
Numa noite
De luar...
............
Ou talvez
De perdição.

É UMA ROSA
De brancura
Transparente
Pra que sintas
Lá bem alto
O aroma
Desta minha fantasia.
Talvez assim
Te encontre
Envolta na neblina
Que nunca
Se dissipou
(Mas agora
Cristalina)
Desde aquele
Incerto dia
Em que o nosso
Olhar se cruzou.
MagiaPublicado1706_2022Rec

“Magia”. Detalhe

MEMÓRIA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração - "Magia"
Original de minha autoria
Junho de 2022
MagiaPublicado1706_2022

“Magia”. Jas. 06-2022

POEMA  – “MEMÓRIA”

FUI AO BAÚ
Das memórias
De mais intenso
Afecto,
Voando em
Fantasia
Pra te escrever
Um poema
Com arte
De vate inspirado
Por poética
Magia.

ENCONTREI
Teu rosto
Triste
(Mas cativante)
E quis enganar
A saudade
Num jogo
De sedução
Como se fosses
A deusa
Das cidades
Que invento
Em cada minha
Canção.

NESSE DIA
Em que te vi
Na fita
Da minha memória
Quis trazer-te
Ao luminoso
Mundo da arte,
Caminho
De liberdade,
Utopia de quem
Parte
Em busca
Do tempo perdido.

ERA TRISTE,
Mas era belo
Esse teu rosto.
Desenhei-o
Em tensão,
Cravei palavras
E cores
No meu peito,
Lentamente,
Com a mão,
Centrei-as
No lado esquerdo,
Onde bate
A emoção,
Mas quando
Me olhei
Ao espelho...
............
O que vi foi
Solidão.

PEDI AJUDA
Ao vento
Que levasse
O meu poema
Até à tua janela
Pra te lembrar
O que sinto...
................
Que ele pousasse
Nela
Como se fosse
O destino
A bater
À tua porta...

E OUVISTE
A melodia
Que soava
Para ti
Pois logo vieste
À janela
A recolher
As palavras
Que o vento
Te levou
E eu senti
Que renascia
Na fita
Da tua memória...
..............
Quando o vento
Regressou.

MagiaPublicado1706_2022Rec

 

EM CERTOS DIAS…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Beija-Flor em Magnólia Branca”. 
Original de minha autoria para este poema. 
Junho de 2022.
Colibri2022-cópia

“Beija-Flor em Magnólia Branca”. JAS. 06-2022

POEMA – “EM CERTOS DIAS…”

EM CERTOS DIAS,
Teu macio rosto 
De veludo
Alterna
Entre suave doçura e
Vincos marcados
Como sulcos,
Aspereza de
Sensualidade
Sustida 
À flor da pele
Para que não
Transbordes
Em excesso
De ti.

COMO SE FOSSES DUAS
MULHERES,
As faces de Janus,
Decidida
E evasiva,
Passado e futuro,
Espartilho
Que quase anula
O teu fértil
Húmus anímico
Que remotamente 
Te inspira,
Desde a raiz.

MAS TU ÉS UMA SÓ,
Aquela que
Ficou
Sentada
Na soleira da tua
Alma
Quando, em solidão,
Saíste, decidida,
 Para a rua
Da tua vida
À conquista
Do mundo...

ACORDA, MULHER,
Vai à procura
De ti
Na fronteira
Do teu destino,
Olha o mundo
Da janela,
Mas sai
Pela porta da tua
Alma
De braço dado
Com o sol que 
Tantas vezes 
Te ilumina
O olhar
Com as cores
Do arco-íris.

HÁ TANTAS MAGNÓLIAS
(Como tu)
No meio do caminho
Da tua vida
Que basta olhá-las
Pra que ela
Te sorria.

AH, NÃO SABES
Quanta metafísica
Há numa magnólia
Branca!
Fala-lhe com os teus
Olhos,
Acende-a com
Teu sopro quente,
Acaricia-a com
Mãos macias
E verás que ela
Te apontará o caminho
Do reencontro
Contigo
Na brancura
De suas pétalas.

E VERÁS TAMBÉM
Que tu vives
(Como eu)
Num intervalo entre ti
E o mundo
De onde te podes
Reconhecer 
No regresso
À tua soleira vital,
Para repartires
Aconchegada,
Contigo no regaço.

NA FRONTEIRA
- Sabias? -
Vemos melhor
Para dentro
e para fora
De nós,
Vemos 
Os demónios 
E os anjos...

VÁ, CANTA A VIDA
Com teus olhos,
Demora-te um pouco
Na janela sobranceira
Do teu íntimo
A ver passar
Aquela que já
Não queres ser
Porque apaga
O rasto do teu
Acontecer...
....................
E sai com o vento
Pela porta do
Teu destino.

E VAI AO JARDIM
Falar com as magnólias
E come chocolates
E canta
E dança
E grita se for preciso
Até que o eco
Te devolva
Identidade
E teus olhos
Se cubram
Daquele verde
Que nasce nas
Encostas,
Nos verões
Das nossas vidas,
Quando o sol
Já brilha no horizonte...

MAS BRILHA?
- Perguntarás.
E eu digo-te 
Que sim
Se o brilho 
Se acender também
No teu inquieto
Olhar!
MagnoliaRec

“Beija-Flor em Magnólia Branca”. Detalhe.

O BENFEITOR
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Um Homem das Arábias”.
Original de minha autoria 
para este poema. Junho de 2022.
JAS_HomemDasArabias12062022

“Um Homem das Arábias”. JAS. 06-2022

POEMA – “O BENFEITOR”

COMO TE VEJO,
Ó benfeitor,
Filho dilecto
 Da tua Ilha,
Nosso Jardim.
Há mil quadros,
Rara beleza,
Espelhos do teu
Amor,
Todos pra mim,
Aqui tão perto,
À minha beira.
Sinto-me rico
De tanta cor
No ouro luzente 
Das molduras  
De Madeira.

COMO TE SINTO,
Meu benfeitor,
Sempre de negro,
Artista grande
Que nem Dali,
Noites d’Inverno
Onde o preto
É a beleza
E o dinheiro
(Que foi pra ti)
O meu Inferno.

VERMELHO E NEGRO,
Como Stendhal
Ou Julião
(Tens o Sarmento...)
A palpitar
Do coração (Sem um lamento). A TUA VIDA É um Natal, Com tantas prendas Dos teus banqueiros, Mas a minha É tempestade Com aguaceiros, Sempre a pagar... .......... É natural. DA ARTE TU ÉS O Mago, A colecção Vai aumentar, Banqueiro dá, Finge Qu'empresta, É aos milhões, Mas logo chega O meu castigo... .............. É sempre assim, Sempre a cobrar (Põe-me mendigo) O que pra ti São só tostões. EU GOSTO D’ARTE Da que eu faço, Sem a vender Nem a comprar, Mas vou ao banco (Vou muitas vezes), Acerto o passo, Eu tenho contas Para pagar. O MEU PAÍS É muito culto, Jeff Koons, Lucio Fontana, Henri Michaux, Mas no balcão (Não sei porquê) O meu banqueiro É um sacana... ................ Foi sempre assim, Vem do avô. ANSELM KIEFER, Gerhard Richter. Frank Stella... É muito bom! Pois tem de ser. Se o banqueiro Olha pra ela (Prà colecção), Fica pasmado Com tanta arte E dá-lhe tudo Por gratidão. E DUBUFFET, Não gostas dele,
Ó fruidor? Piero Manzoni, George Segal, Chamberlain,
Morris Louis... É a beleza Da colecção Feita pra ti. Não percebeste? Chegas e vês Gostas e pagas, És devedor. Não rogues, pois, Crente da arte, As tuas pragas Ao benfeitor. GOSTO DE TI, Da tua arte, Ficou humana A nossa banca, Mas sem milhões. Que nos importa? Temos beleza, Temos amor Temos as contas Aos trambolhões, Temos-te a ti, Tão generoso...
................. São os banqueiros Os aldabrões. MAS QUE M’IMPORTA, Ó benfeitor, Fizeste bem Mais uma vez, Pois ajudaste Os teus banqueiros... .............. Tinham excesso De liquidez. GERALD LAING, Alain Jacquet Pauline Boty... ............... Bem acertaste, Ó benfeitor, A liquidez Ficou pra ti.

JAS_HomemdasArabias_062022Rec

ENLACE

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração - “Pasárgada”
Original de minha autoria
Junho de 2022
PasárgadaFinal040421

“Pasárgada”. Jas. 06-2022

POEMA – “ENLACE”

ERA UMA VEZ
Uma videira
De seu nome Cardinal
Que vivia na Latada
Que me cobre
O Jardim
E me protege do sol
Nas quentes tardes
De Verão.

SEM APARENTE
Razão,
Enrolou-se
Nos seus ramos,
Numa certa
Madrugada,
E trepou
Loureiro acima
Como amante
Apaixonada.

QUANDO CHEGUEI
E a vi tão lá
No alto,
Na ramagem
Enrolada,
Subindo
Por ele acima,
Trepando
Pela pernada,
À procura
De carinho
Ou até mesmo
De nada...
...............
Foi tão grande
O meu espanto
Que parti
Para o poema
Pra cantar
Essa videira
Que ficou
Apaixonada.

LOUREIRO COM UVAS...
Aconteceu
No Jardim,
Neste lugar delicado
Repleto de carmim,
De poeta,
O recanto,
Lugar d'inspiração
Com aroma
De jasmim,
De surpresa
E de espanto.

ERAM UVAS
Ou palavras?
Arbusto
Ou poesia?
Eu fiquei
Muito confuso
Da estranha
Alquimia
Nessa tarde
Inesperada
E perguntei
Ao loureiro:
Aqui anda
Mão de fada?

OH, LOUREIRO
Com tantas uvas...
Tinha de ser
Mesmo assim
No recanto e
Nesse dia?
Uma videira-em-verso
Num só passe
De magia?

MAS ERAM UVAS
E palavras,
Era arbusto
E poesia
E poeta me
Tornei
Pra dar asas
Ao encanto
Pois nascera
Um novo dia,
Aquele que
Um dia
Sonhei.
PasárgadaFinal040421Rec

“Pasárgada”. Detalhe

A PORTA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Porta”. Original de
minha autoria. Maio de 2022.
JAS_Porta2022

“A Porta”. Jas. 05-2022

POEMA – “A PORTA”

¡Qué trabajo nos cuesta / traspasar 
los umbrales / de todas las puertas! / 
Vemos dentro una lámpara /
ciega / o una niña que teme / 
las tormentas. 
La puerta es siempre la clave / 
de la leyenda. / 
Rosa de dos pétalos
/ que el viento abre / y cierra.

Federico García Lorca, 
Puerta Abierta, 1921
ILUMINADA
Em generosa
Cascata
De cores,
Nesta porta
Fria e nua
Há mistério
Que oculta
O outro lado
Da rua...
..........
O lado
Dos sonhadores.
MAS NÃO SEI
Se é porta
De rua,
Se me leva
A tua casa
Ou se abre
Para o mundo,
Se é porta
De sacrário
Que guarda
Corpo
De deusa,
Acesso
A templo
Sagrado,
Lugar de ecos
De um poema
Sufocado.
BATO LEVE,
Levemente,
Como quem
Chama
Por ti
Com as cores
Do meu jasmim...
Silêncio
É o que ouço
Do princípio
Até ao fim.
AH, A VERTIGEM
Do mistério
Que barra
O passo
Do lado de cá
Do desejo...
................
Por isso o pinto
De cores
Do generoso
Jasmim,
Uma profusa
Cascata
Que brota sempre
Das fontes
Do meu amado
Jardim.
FOSSE ELA,
Transparente,
Como a minha
Janela,
Raios de sol,
Feixes de luz
A entrarem
Dentro dela
Como seiva
Na raiz...
..............
Ah como seria
Tão belo,
Como seria
Feliz!
HÁ UM SILÊNCIO
Frio
Do lado de lá
Dessa porta
E tropeço
No vazio
Que não me deixa
Passar.
MAS A PORTA
É ombreira
De mistério
E fascina
O olhar,
É fonte
D’inspiração
Que me leva
A cantar
A vida
Imaginada
De uma tão doce
Ilusão.
POR ISSO
Eu a componho
Sob forma
De poema
Que logo lanço
Ao ar,
Fingindo que
Sofro o que
Sinto
Em palavras
Que não tenho
Para mais tarde
Te dar.
NO POEMA,
Eu pinto
Dessa porta
A soleira
Porque não posso
Passar
Esse lado
Da fronteira
Que encerra
O mistério
Do outro lado
De ti...
.............
O lado escuro
Da vida,
Que sempre
Desconheci.
AH, ESSA PORTA,
Lugar
De invocação,
Na memória
Permanece
Porque é nela
Que mais sinto
O fascínio
Do oculto
Que inspira
E entretece
O poema
Na canção.
JAS_Porta2022Rec

“A Porta”. Detalhe

A OUTRA JANELA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Outra Janela”.
Original de minha autoria
para este poema. Maio de 2022.
JAS_Janelal052022PoePub

“A Outra Janela”. Jas. 05-2022

POEMA – “A OUTRA JANELA”

DAQUELA JANELA
Já não te vejo,
Mas se visse
O que diria?
Um destino,
Um caminho
Que não sei
Onde me leva
Nesta incerta
Travessia...
SÓ SEI QUE
Parto
Com o olhar
E uma discreta
Dor
Para destino
Ignoto...
...........
Mas por isso
Sedutor.
HÁ SEMPRE
Outra janela
Dentro de nós,
Vê-se
O mundo
Através dela
Para não ficarmos
Sós.
VIAJAR
Ao sabor do vento,
Sentir-se
Um pouco
Vagabundo,
Amigo da evasão,
Perder-se, sim,
Neste mundo
Como alguém
Que não tem chão.
OUTRA JANELA
Sobre a rua,
Sobre um rio,
Sobre o mar
Ou traçado virtuoso
Para meu vale
Abraçar;
Marcas
De passos remotos
Escritos
Na água fria
Ou recanto
Sem passado
Num futuro
Desejado
Como pura utopia;
Um trilho
A desbravar:
Encontrar-te
Lá no fim
Do meu longo
Caminhar...
SIM, OUTRA JANELA,
A que a musa
Desenhou
Pra que eu
Te visse
Nela,
Na montanha
Ou no mar,
Numa praça
Da aldeia,
Numa rua
Em qualquer
Outro lugar...
OUTRA, SIM,
De onde veja
O teu rosto
Assomar
Quando o sol
Me acende
A alma
De tanto no alto
Brilhar.
O MUNDO
Quando acorda,
A nascente,
E entardece,
A poente,
Muda de cor
E de luz
E vê-se
De uma janela
Como algo
Que reluz.
E EU, A TI,
Com esta luz
Interior,
Com outra janela
Na alma,
Vejo-te sempre
A sul,
Antes do
Entardecer,
No infinito
Azul,
Nesse céu
Onde gosto
De te ver.
EU CANTO-TE
Aqui,
Do alto
Desta janela,
Deste meu lado
Da rua
Com alma
Cheia,
Mas nua,
Pra que me vista
De ti...
HÁ SEMPRE
Outra janela
Por onde te possa
Olhar,
A que é feita
De palavras
Lá no alto
Da montanha
Ou no embalo
Do mar...
.............
Onde o poeta
Quiser,
Onde sentir
Que é nela
Que mais te pode
Encontrar.
JAS_Janelal052022PoePubRec

“A Outra Janela”. Detalhe

O ESPELHO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Perfil de Mulher”.
Original de minha autoria.
Maio de 2022.
Silhueta2022_1505H

“Perfil de Mulher”. Jas. 05-2022

POEMA – O ESPELHO

“Tu prima m’inviasti verso Parnaso
a ber ne le sue grotte, e prima
appresso Dio m’alluminasti”.

Dante Alighieri. Purgatorio. Canto XXII.

ENCONTREI-TE
No Parnaso,
Lá em cima,
Intangível,
Sem te poder
Tocar
A não ser com
As palavras
De um poema
Sensível às cores
Da tua alma.
E VESTI-ME
Com elas,
As palavras,
E senti-me
Quente,
Afagado
No meu canto
Porque tu as
Escutavas.
SIM, ENCONTREI-TE
Lá em cima
No Monte.
Em ti
Eu via a costa
E via o mar
No horizonte
Com nitidez
E via
O meu mundo
Interior
Em sonhos
De azul,
A tua cor,
Em toda a sua
Nudez.
A NEBLINA
Cobria-te
O corpo,
Como Graça de
Botticelli,
Pra te refrescar
A alma,
Morrinha
Lenta e fina
De palavras
Húmidas
Caídas
Lá do alto
Do meu céu
De nuvens brancas...
.........
Sobre ti.
EU ERA
Espelho
Que te devolvia
Fantasia
Contra a
Petrificação
Fatal
Que espreitava
Nos olhares
Indiscretos
Do teu círculo
Vital.
MAS TU
Não sabias.
SUBITAMENTE,
Decidiste declinar
O espelho
Porque,
Dizias,
Começava
A embaciar-te
A alma.
E NÃO ERA DA
NEBLINA
Que te envolvia,
Mas dos desenhos
Que tuas mãos
Esboçavam
Timidamente
Nesse espelho
Já tão húmido
De ti.
E DEIXASTE
O Monte.
Desceste
Apressadamente,
Sob os olhares
Das mil górgones
Que sempre
Ameaçam
Petrificar
Os que vivem
No vale.
E sucumbiste.
Ou talvez não...
NO MONTE,
Disse
De mim
Para mim:
De tanto te reveres
No espelho,
Ficou-me, de ti,
O cintilante 
Reflexo.
E sabes o que se
Vê
Na minha superfície
Plana?
Beleza.
Toda a que me sobrou
Quando,
Em tristeza,
Desceste o Monte.
MAS ESTA NÃO
PETRIFICARÁ
Porque ficou
Guardada
No meu corpo
Vítreo
Onde todos
Se revêem
Sem saber
Que no reflexo
Levam, gravada
Em transparência,
A tua imagem...
...................
Embaciada.
E POR CÁ FIQUEI,
Espelho do mundo,
A olhar para
O escuro espaço
Sideral
À espera que um
Cometa
Me alumie
O caminho
Para te devolver
O teu reflexo
Original
E prosseguir
A caminhada
Solitária
A que me votaste.

Silhueta2022_1505HRec

VEJO-TE NO POEMA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Ponto Cardeal”.
Original de minha autoria.
Maio de 2022.
Cesto2022

“Ponto Cardeal”. Jas. 05-2022

POEMA – “VEJO-TE NO POEMA”

VEJO UMA ESFERA
Tingida
De cores
Que me faz
Vibrar
Os sentidos,
Mas há um
Silêncio
Frio
Que me chega
Lá de longe...
...........
Então parto
Para o poema,
Refúgio
Dos meus pecados,
Onde vivo
Como monge.
MAS TREME O CHÃO
No poema
Quando passas
Na estrofe,
Rápida como o vento
Que tudo o resto
Varreu
E em silêncio
Esvoaças
Num círculo
Que é só meu.
MEU SILÊNCIO
É composto
De palavras,
Diz muito mais
Do que quer
E se o poema
Te abriga
Nascem desenhos
Perfeitos
Do teu perfil
De mulher.
MESMO QUE TE ESCONDAS
Ou finjas
Que não és tu,
Te diluas na estrofe
Onde sempre
Fico nu,
Sinto sempre
Esse teu rasto,
Invisível
Como tu.
E TREME A TERRA
Quando passas
No desenho
Que te ofereço,
Mas não te vejo
Tremida.
O traço
Não é banal
(Como sabes),
É nele que eu
Te dou vida.
É FORTE
O meu desejo
De um encontro
Virtual,
Invocar-te
Num poema
Como musa
Ideal
E mesmo que
Os versos
Tremam
Serás sempre,
De certeza,
O meu ponto
Cardeal.

Cesto2022Rec

ÍCARO DO TEU SOL

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Paraíso”.
Original de minha autoria.
Maio de 2022.
Jas_Azul22Final

“Paraíso”. Jas. 05-2022

POEMA – “ÍCARO DO TEU SOL”

TANTA LUZ,
Meu Deus!
Vejo o brilho
Intenso
De um azul
Que incendeia.
É o teu céu,
Esse imenso mar,
O espelho
Refrangente
Dos meus sonhos
Que dá asas
Ao olhar.
O MEU É BRANCO
E cintilante
Para te iluminar
E lá brilham
Os teus olhos,
Estrelas
De navegar.
E QUANDO
Nos sonhos
Te vejo
Iluminada,
Divinal,
Entro sempre
Na porta
Branca
Que me leva
Ao paraíso
Levado por uma
Fada
Em quadriga
Sideral.
E VOAMOS,
Voamos,
Deixando
Para trás
O meu Jardim
Encantado,
Os bailéus
Da Casa-Mãe
Desenhados
A rigor,
A quelha da minha
Infância,
Manhãs brancas,
Cintilantes,
De imenso
E fascinante
Alvor.
NOS SONHOS,
(Em todos eles)
Caio das nuvens
Brancas
Como Ícaro
Do teu sol,
Quase cego
Dessa luz,
Sobre as flores
Do Jardim,
O meu eterno
Farol.
 MAS A LUZ
Reacende-me
E ilumina
O que me sobra
De ti,
Em sonhos
Escritos
Ou pintados
A pastel,
E, assim, 
Resisto
À voragem
Do tempo
Com palavras
Desenhadas,
Fazendo da alma
Pincel.

Jas_Azul22Luz

LIBERDADE

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Liberdade”.
Original de minha autoria.
24 de Abril de 2022.
Liberdade25042022

“Liberdade”. Jas. 04-2022

POEMA – “LIBERDADE”

PERGUNTEI-TE,
Num dia
De sol:
“Voas comigo
Prà linha
Do horizonte?".
Deste-me a mão
E sorriste:
“Voo, sim,
Pois preciso
De ar puro
Lá bem no alto
Do Monte”.
E PARTIMOS.
Tu levaste
O arco-íris
Que tinhas
Dentro de ti
E eu as letras
Que tinha
Comigo,
Guardadas
Nesta alma
Solitária
Feita seu porto
De abrigo.
ENREDÁMOS
Todas as cores
Com linhas
De palavras
Deslaçadas,
Construímos
Asas em forma
De verso
E voámos
No céu
De um poema
Pintado todo
De azul...
ANDEI CONTIGO
Por lá
Anos a fio,
Vagueando
Ao sabor da
Inspiração,
Levados
Pela brisa
Que sopra fria
No Monte,
Mas afaga
O coração.
E COMO GOSTEI
De voar contigo,
Livres como
Pássaros
Sobre o vale
Onde te encontrei
Um dia,
Construindo
Castelos
Na areia
Com a força
Da fantasia.
É ASSIM QUE EU
Te vejo,
Tecendo a vida
Com sopro
De alma
E as cores
Do arco-íris
Pintadas
Por tua mão
Como pauta
Colorida
Dessa doce
Melodia
Da nossa bela
Canção.
FOI ASSIM
Que nos dissemos
Nesse tempo,
Livres de amarras
Que não nos deixam
Voar,
Traçando
Em arte
Um destino
Marcado
Pela vontade
De fazer
Da nossa vida
Caminho
De liberdade.
Liberdade25042022Rec

“Liberdade”. Detalhe

ESMORECER

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Teus Olhos".
Original de minha autoria.
Leitmotiv de K. Kavafis
(Poemas: "Cinzentos"
e "Dias de 1903").
Abril de 2022.
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“Teus Olhos”. JAS. 04-2022

LEITMOTIV

“Ter-se-ão desfeado (...) 
os olhos cinzentos;/
Ter-se-á estragado o belo rosto.
Memória minha, guarda-os
tu como eram./
E, memória, o que podes
deste meu amor,/
o que podes traz-me
de volta esta noite."
.............................
"Não voltei a encontrá-los –
esses tão depressa perdidos.../
Esses olhos poéticos,
Esse pálido/
rosto... no anoitecer da rua...
(...)
e que depois com ansiedade queria."

(Kavafis, K., Poemas e Prosas.
Lisboa: Relógio d’Água, 69-71)

POEMA – “ESMORECER”

JÁ GASTEI
Todos os poemas
Cantando
O que nunca
Te ouvi,
Já me fogem
As palavras
E fico mais
Pobre de ti.

JÁ NEM SEI
Se é silêncio
Ou são notas
Dissonantes
Com que desenhas
A pauta
Dos melómanos
Amantes.

NEM PALAVRAS,
Nem cores,
Talvez notas
Invisíveis
Nessa pauta
Desenhada
Do silêncio
Com que falas...
.............
Talvez nada.

AH, NEM EU
Já saberei
Nomear-te
Na hora
Da despedida,
No encontro
Que nunca
Marcaremos
Nessa baça
Encruzilhada
Onde sempre
Te perdi
Numa incerta
Caminhada.

PRA QUE SERVE
A poesia
Se não a
Sentes
Por dentro?
Pra que serve
A pintura
Se não a contemplas
Com alma?
Pra que serve
Gritar
Se não ouves
Com o peito?
Pra que sirvo eu,
Poeta-pintor,
Se não te vejo
Por fora,
Mesmo que te pinte
E te cante
Por dentro?

PARA NADA,
A não ser
Para celebrar
O futuro
De um passado
Que logo esmoreceu
Para nunca
Lá chegar,
Perder-se
Na rotina
Dos ecos
Silenciosos
Da alma,
Enganar-se
Com desencontros
Inventados,
Ir por aí
Sem saber
Pra onde vou,
Desaparecendo
Na montra
Dos meus inúteis
Passeios
Pela arte
Que desenterrei
Das vísceras
E de teus sofridos
Enleios,
Fazendo a minha 
Parte.

AO MENOS DANÇO
Em pas de deux
Com poemas
Desenhados,
Enredado
Nos mil fios
Da fértil
Fantasia
De um poeta
Que levita
Sobre escombros
 De um palco
Que nunca construiu
Sobre as pedras
Da sua poesia.

É A DANÇA
Da solidão,
Contigo
Suspensa
Nos fios
Da teia
Em que vou
Enredando
A minha vida,
Até tombar exausto,
Ao cair do pano
(E do poema)...
...........
Que tarda,
Sim, que tarda,
Para iludir
O derradeiro
Momento
De uma longa
E interminável
Despedida.
Jas_TeusOlhosPub042022_1.jpgRec

“Teus Olhos”. Detalhe

NEVE

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Neve e a Primavera”.
Original de minha autoria.
Abril de 2022. E uma bela canção de Milva, "Catarì", sobre Poema de Salvatore di Giacomo (Letra em napolitano e português,
no fim do Poema). Link: https://www.youtube.com/watch?v=8LOYOOPmBzI
Neve1

“A Neve e a Primavera”: Jas. 04-2022

POEMA – “NEVE”

SE ME PERGUNTASSES
PELA NEVE,
Que te
Responderia?
“Tenho-a pura
Na alma,
Sinto-a quente
Por dentro,
É vida,
É energia”.

ENTRA A NEVE
NA PRIMAVERA,
Cai suave 
Lá do alto
E alimenta-me
O jardim,
Rega-me fundo
A alma
(Sem sobressalto)
E entra, suave,
Em mim.

DELA CONSERVO
A brancura
Fria
Do manto
Que me ilumina
Por dentro,
Magia do seu
Encanto,
Beleza
Que me fascina
E celebro
No meu canto.

E QUANDO O INVERNO
Me deixa
Nascem cores e
Voam riscos,
Expandem-se
Mil perfumes
No sagrado do
Do meu chão,
Tudo brota 
Para mim
E em grande
Profusão
Na frescura 
Do jardim.

MAS EU PERMANEÇO
NA NEVE
E a neve fala-me
Assim:
"Corpo frio,
Alma quente,
Banho-te
Como rio
Que nasce
Dentro de mim
Pra que a arte
Germine
Como uma bela  
Semente
Que desponta
No jardim".

EXPLODEM OS MEUS
RISCOS
Em girândolas
De cor,
É festa
Na minha aldeia,
É intenso
O clamor,
Crepitam foguetes
No ar
E nós, felizes,
Gritamos: 
“Girândolas
Na nossa festa
Nunca nos hão-de
Faltar...”

SE ME PERGUNTARES
PELA NEVE
Eu ouço-te
A voz
Cá em cima,
Respiro ar
Da montanha
E respondo-te
Em rima,
Devolvo
Inspiração
Que da arte
É a vida,
Um poema
Ou canção
Que não é
De despedida,
Mas de feliz
Liberdade
Da palavra
Proibida.
Neve1Rec

“A Neve a a Primavera”. Detalhe

A LETRA DO POEMA DE SALVATORE DI GIACOMO:

"Marzo: nu poco chiove  
e n’ato ppoco stracqua:  
torna a chiovere, schiove,  
ride ’o sole cu ll’acqua. 
Mo nu cielo celeste,  
mo n’aria cupa e nera:  
mo d’ ’o vierno ’e tempeste,  
mo n’aria ’e primmavera.  
N’auciello freddigliuso  
aspetta ch’esce ’o sole:  
ncopp’ ’o tturreno nfuso  
suspireno ’e vviole...  
Catarì!… Che buo’cchiù?  
Ntienneme, core mio!  
Marzo, tu ’o ssaie, si’ tu, 
e st’auciello songo io".

"Março: um pouco chove
e logo deixa de chover: 
volta a chover, pára,  
ri o sol com a água.  
Ora um céu celeste,  
ora um ar escuro e negro:  
ora tempestades d’inverno,  
ora um ar de primavera.  
Um pássaro com frio  
Espera que espreite o sol:  
na terra ensopada suspiram as violetas...  
Catarina! Que queres mais?  
Entende-me, meu amor!  
Março, sabes, és tu,  
e aquele pássaro sou eu".

NOTA - "Marzo" (ou "Catarì").
“Arietta” (1898) do poeta napolitano Salvatore di Giacomo, 1860-1934, em dialecto napolitano. Ouça MILVA em: https://www.youtube.com/watch?v=lMKDSnJEadc).

POEMA PARA UM ROSTO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “O Retrato”.
Original de minha autoria
Abril de 2022
ORetrato2022Pub5

“O Retrato”. Jas. 04-2022

POEMA – “POEMA PARA UM ROSTO”

ENCONTREI-TE,
Por acaso,
Na rua
Da galeria.
Foi Athena,
Foi destino?
.............
Há muito que
Não te via.

E VI-TE
Em contraluz,
O sol batia
De frente
Como tudo
O que seduz
E que me turba
A mente.

EU JÁ NEM SEI
O teu nome
Nem se a deusa
Te mandou,
Mas as cores
Desse teu rosto
Brilham,
Brilham
Como a luz
Que um dia
Me beijou
Num incerto
Mês de Agosto.

RETOQUEI-TE
Com as cores
Com que me
Pinto,
Dei-te mais vida,
Foste musa
Do meu cantar,
Levei-te comigo
À montanha,
Fiz do teu
Corpo
Encanto do meu
Olhar.

E CANTO-TE
Nos meus poemas,
Teu olhar
É como o meu,
Tu falas-me com
O teu rosto,
Eu respondo-te
Com arte,
A que o destino
Me deu.

ÉS GIESTA
Da montanha,
Arbusto
Do meu jardim,
Olho-te
Neste lugar
Onde cresceste
Pra mim.

ÉS ÂNCORA
Da minha arte,
Nunca te hei-de
Perder,
Se eu parto
Para o monte
Volto ao
Anoitecer,
Depois durmo
Ao relento
Sob teu olhar
Demorado,
Porta aberta
Prà montanha,
Sonhar-te, ali,
A meu lado...
..........
E logo que
Amanhece
É sonho que
Me acompanha,
É sentir-me
Iluminado,
Rio de luz
Que me banha.

A MINHA MUSA
É retrato
Que encontrei
Na galeria,
Olho para ele
Como poeta
Que sou,
Cantá-lo
Dá-me alegria,
É poética
Magia,
É vida o que
Lhe dou.
ORetrato2022Pub2Rec

“O Retrato”. Detalhe

CANTA, POETA, CANTA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: "Perfil de um Poeta"
Originais de minha autoria
Março de 2022
Jas_AutoR2022_Fim

“Perfil de um Poeta”. Jas. 03-2022

POEMA – “CANTA, POETA, CANTA”

“Ora al nuovo sole
si affidano i nuovi germogli”
Virgílio.
CANTA, POETA, CANTA
Até que a musa
Te ouça,
Nem que a palavra
Te doa
E a alma
Estremeça.

CANTA, POETA, CANTA
Que o teu poema
Tem dor
Que te baste,
Mas tem cor
Que alumia
E tem sabor
A cerejas,
Que as dá
A Primavera.

SE NO CANTAR
Tu quiseres
Atingir o infinito,
Agarra
No teu pincel,
Salta pra cima
Dum risco,
Dá-te asas
De azul
E voa
Nesse teu céu
Até que a musa
Te veja,
Te pinte
Numa cereja
E murmure
O teu nome
Quando se tinge
De cor.

CANTA, POETA, CANTA
Que o teu cantar
Te embala
Como água
Cristalina
Que corre
Lesta
No rio
Que nasce
Dentro de ti.

CANTA, POETA, CANTA
Que contigo
Cantarei
A alvorada
Do dia,
Se chorares,
Eu chorarei,
Por não sentir
Alegria,
Se sorrires
Eu pintarei
As cores
Do teu sorriso
E para ti
Dançarei
Uma valsa
De Strauss
Às portas
Do Paraíso.

CANTA, POETA, CANTA,
Para ti
E para o mundo
Que o teu cantar
Enobrece
Quem ouvir
A tua prece,
Quem sentir
O teu lamento
Que, de ser
Já tão profundo,
Não o leva
Nem o vento
Pois ele em ti
Entardece.

E SE O VENTO
O levar
Vai procurá-la
A ela,
Voa lento
Sobre a rua
E pousa
No parapeito
Da sua bela
Janela.

CANTA, POETA, CANTA,
Que um dia
Há-de ouvir,
Deixa que o
Tempo passe
E a razão
Se esclareça,
Confia, pois, 
No porvir
Sem que teu estro
Esmoreça.

NÃO CHORES, POETA,
Não,
Neste teu
Entardecer,
Tens arte
Na tua alma,
Inspiração a crescer
E mesmo que ela
Não ouça
É um modo
De a ter.

Jas_AutoR2022R

A FESTA DA MÚSICA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Doce Ciúme”.
Original de minha autoria.
Março de 2022.
VoarFinal_1

“Doce Ciúme”. Jas. 03.2022

POEMA  – A FESTA DA MÚSICA

CERTOS DIAS,
Quando a música
Me atrai
(Irresistível
Pulsão),
Entro em alvoroço
E até sinto
Alguma dor,
Doce ciúme
De amor,
Quase rebelião
Pelo silêncio
Que faz eco
A meus versos
Diletantes,
A solitária
Paixão.

DOCE CIÚME
Do turbilhão
Interior
Que seu ritmo
Produz,
Dos arrepios
Que faz
E do veludo
De alma
Que a música
Me traz.

CANTA-SE
Do lado de lá,
Sinto
Calor intenso,
Ovações,
Danças
Extenuantes
E expressivos
Sinais,
Corpos
Em êxtase
De tão intenso
Prazer
Em festivos
Rituais.

É FESTA, SIM,
E é baile,
É um tremor
Corporal
Que me liberta
A alma
Deste mundo
Tão banal.

É LIBERDADE
Em forma de
Emoção,
É rito,
É vibração,
Ondas
Que me projectam
 No ar
E transportam
O meu corpo
Para, feliz,
Levitar.

É LIBAÇÃO,
Bebida
Contagiante,
Bebedeira
Sensual,
É, como apelo
De amante,
 Um poema
Corporal.

MAS EU SÓ SINTO
Silêncio
Do lado de cá
Dos meus versos,
É ausência
Permanente
E sem recurso,
Melodia
Do silêncio
Em poético
Discurso.

INTERPELO
Não sei quem
No poético 
Instante,
Sabendo que
Há alguém
Que não ouve
E que não sente
Este canto
Diletante.

DOU COR
Às minhas palavras
E ponho-me
Sempre a pintar
Pra que as ouçam
Com alma,
Mas também
Com o olhar.

QUAL QUÊ?
(Penso eu)
É só fantasia
A fervilhar
De emoção
No silêncio
De um recanto
Como se fosse
Oração
Que redime
De uma vida
Devorada
Com paixão.

SINTO CIÚME,
Quase inveja,
De uma festa
Onde o corpo
Vibra,
Onde a palavra
É som
Que me convida
A dançar
E segreda
Ao ouvido
O que ele
Traga consigo
Para me arrebatar.

MAS SOFRO
De melancolia
Do lado de cá
Dos meus versos,
Vejo danças,
Vejo corpos 
Aquecidos
Ao som
De uma guitarra,
Ouço o timbre
De uma voz
Que me prende
Os sentidos,
Ouço ecos lá
Ao longe,
Na memória
Já perdidos...
..............
E recolho-me
Em solidão
Para compor
Com palavras
Meu silêncio
Pontuado
Nos versos
De uma canção.
VoarFinal_1Rec

“Doce Ciúme”. Detalhe

O JARDIM

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Chakra”.
Original de minha autoria.
Março de 2022.
Chakra2022

“Chakra”. Jas. 03-2022

POEMA – “O JARDIM”

NAQUELE DIA
EU vi um estranho
Enlace 
No jardim
Onde nasci
Para a arte
Com que a deusa
Me prendou,
Uma dádiva
Dos céus
Ou o brilho
De uma estrela
Que sempre
Me ilumina
Nesse mágico
Lugar 
Onde a vocação
Despertou.

NESSE JARDIM
De mil azáleas
E do meu vasto
Jasmim,
De perfumes
E matizes
Que tomam conta
De mim
Há cores
Que brilham
Em fundo
De seda pura,
Luxuriante
Pintura e
Exótica magia,
Desafio
Permanente
A poética
Ousadia.

VERDE,
Azul,
Vermelho,
Amarelo
Ou lilás
São cores vivas
Que me vestem
O olhar,
Nelas vejo
O arco-íris
Que nasce
Dentro de mim
Quando me
Ponho a sonhar.

É ARCO-ÍRIS,
É sim,
O que teço
Com a alma
No Encantado
Jardim,
É quadro
Que pinto
Com cores
E com palavras,
É luz intensa,
Embriaguez,
Alquimia,
Acre perfume
De jasmim,
Minha secreta
Magia.

PERCO-ME
Nas sete cores,
Vou atrás delas,
Imparável
Correria,
Vertigem
De voo livre
No céu,
Redentora
Catarsia
De quem sempre
Se perdeu.

SÃO CORES,
São riscos,
São traços,
Palavras
Que me procuram,
É tudo
E é mais 
Do que a luz
Do meu olhar
Nesta arte
Que me leva
Como alta
Vaga do mar.

REGRESSO SEMPRE
Ao Jardim
Onde cresci,
Levo flores
Impressas
No corpo,
São cores
São quentes,
São vivas,
Até ardentes
Em demasia,
E nelas  
Eu me diluo
Levado pelo poder
Desta minha
Fantasia.
Chakra2022Rec

“Chakra”. Detalhe

O REGRESSO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Talismã”.
Original de minha autoria.
Março de 2022.
JAS_Talisma2022Pub

“Talismã”. Jas. 03-2022

POEMA – “O REGRESSO”

DISSESTE-ME
Que partias,
Que o coração
Em tormento
Já te pulava
No peito...
.............
E que ficar
Não podias...

“TENHO DE PARTIR,
Não me sinto
Muito bem,
É distante daqui
(Bem sei),
Como as memórias
D’infância
E o olhar
De minha Mãe."

“MAS OUÇO-AS 
Lá longe,
Ouço bem As amigas De outrora Que fogem Das bombas Na hora, Mas lembram Hordas antigas Nas ruas do Meu país.” DISSESTE-ME,SIM, Que andavam Por lá Perdidas Na tragédia Consumada, Na procura Impotente Dessa paz Que foi Roubada. “EU GOSTO Das praias De areia branca, Gosto das praças E das ruas Do teu país, Mas é mais forte A raiz, O apelo Que o vento Me traz Do sagrado Chão natal, Poderoso Chamamento, Alvorada Marcial.” “GOSTO DA PRAIA, Oh, se gosto (Acredita), Mas já não a posso Sentir Porque me pula De dor O meu pobre Coração E me leva De regresso Às origens, Ao sagrado Do meu chão.” “JÁ NEM ADORMEÇO Ao som Das meigas ondas Do mar, O cheiro a maresia É vaga Recordação E a paz Em que vivia Eu já não
A posso ter Porque é forte O sobressalto Logo ao Amanhecer.” “ENEVOA-SE A memória, Há muito ruído No ar, Crepitam armas No solo Da minha infância, No abrigo Do meu lar.” “VOU-ME EMBORA, Vou lutar Para o meu solo Materno E se um dia, Caída No chão Sagrado E eterno, Eu não voltar Só te peço Que me cantes Em voz alta, Com alegria (A que agora
Me falta), Num poema Desenhado À beira Do nosso mar.” VAI SIM, Minha Amiga, A paz Há-de voltar E, numa tarde De verão Em tempo de Preia-mar, Sentar-me-ei Contigo n’areia Pra esse poema Cantar.
JAS_Talisma2022PubRec

“Talismã”. Detalhe

VEM COMIGO…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Exaltação”.
Original de minha autoria
sobre foto (de autor 
anónimo) em contraluz. (Quadro da minha colecção privada). Fevereiro de 2022.
Corpo2022_11

“Exaltação”. Jas. 02-2022

POEMA – “VEM COMIGO…”

EU CANTO
E pinto
O meu destino,
Sonhos velados,
Minha vida,
Meu desatino... 

PERDI A CHAVE
Do meu futuro
E só me resta
A despedida, 
Por isso canto
Com as aves,
Voo mais longe
E com mais cor
Porque no céu
Há mais azul
E em meus sonhos
Tens mais sabor.

HÁ UM SEGREDO
Não revelado,
Dizê-lo
Eu não podia
Porque cantá-lo
Era pecado
E certamente
Mentiria.

E NÃO O DISSE,
Mas eu pequei
Com murmúrio
Apaixonado
Em poemas
Inocentes
Que levaram
O meu canto
A ouvidos
Impudentes
Que estão
Por todo o lado.

POR ISSO VOO
Sempre mais longe
Trepo nas cores
Pra lá chegar,
O céu azul
Dá-me alento
Para mais alto
Voar
E meus segredos
Pôr a reparo
Dos vigilantes
Do meu cantar.

LEVO PALAVRAS
Comigo,
Procuro inspiração.
Levo cor,
O meu abrigo,
Levo musas
E tudo o mais
E quando parto
Lá pra cima
É sempre festa
Neste meu cais.

EU CANTO
E PINTO
Por tudo isto,
Pra resgatar
O meu pecado
De exaltar
Esse teu corpo,
Pra projectar
Em aguarela
Esse enleio
Do meu olhar
E por te ver
Na nossa rua
Debruçado
Na janela
Com vontade
De te pintar.

POR ISSO EU
CANTO,
Por isso voo,
Por isso subo
Lá para o alto,
Já não os vejo,
Já não os ouço,
E já não vivo
Em sobressalto.

MAS VEM COMIGO
(Eu dou-te asas),
No infinito
Do céu azul
Voamos
Ao mesmo tempo
E o nosso rumo
Será o Sul.

VÁ, VEM COMIGO,
Se tu vieres
Voaremos
No nosso céu,
Seremos livres
Lá bem no alto
E nossa arte
Será perfeita
Com tudo aquilo
Que Deus nos deu.

Corpo2022_4R

FUGAZ ENCONTRO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Travessia”
Original de minha autoria
Fevereiro de 2022
Jas_Atravessia2002Pub1

“Travessia”. Jas. 02-2022

POEMA – “FUGAZ ENCONTRO”

ÀS VEZES
Passas
Por mim
Como vento
Intangível,
Sonho
Espectral,
Impossível,
E voas
Por entre os dedos
Dessas mãos
Com que te pintas...

VOAS, SIM.
Mas eu não sei
Se vais
Para o pontão
Deste cais
Donde sempre
Nós partimos
Para viagens
Fatais
À procura
D’infinito.


SOPRA-TE
O vento
Na alma?
Desenhas
Com ele
O teu rosto?
Ah, pareces
Triste demais
E é disso
Que eu não gosto.

NA RUA
Do desencontro
Encontrei-te
Apressada...
Fiquei feliz
De te ver,
Embora por um
Instante,
Um pouco mais
Do que nada.

FIZESTE-ME
Renascer
De vaga
Melancolia...
.......
Imagina
O que seria
Se te visse
Duas horas
Ou te tivesse
Um dia.

AH, QUE DOCE
Sensação
Sentir saudades
De ti...
..........
Prevendo
Que não virias
Mesmo assim
Eu não parti
Tão grande
Era o desejo
De te encontrar
Por ali...

E FALEI-TE
Da minha janela,
Olhei, fascinado,
Pra ti:
“Minh’amiga
Como és bela...”
...........
Nem sabes
O que senti...

MAS, NUM SÚBITO
Ímpeto,
Disse pra mim:
“Eu não canto
Esta cantiga
De te ver
Tão pouco assim.
Vou-me embora,
Pois se te
Encontro
Logo me foges,
Se te quero,
Não te procuro...
.........
Eu vivo
Num intervalo
Que mais me parece
Um muro”.

AH, SIM,
Entre ti
E os teus riscos
Eu estou
Entrincheirado,
Caminho só,
Em poemas,
Nunca passo
Deste lado.

Jas_Atravessia172002PubREC

O TERRAÇO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Terraço”
Original de minha autoria
Fevereiro de 2022
Terraço2022Pub1302FimLUZ

“Terraço”. Jas. 02-2022

POEMA – “O TERRAÇO”

É DAQUI,
Deste terraço,
Ó deusa,
Que te alcanço
E te vejo
Com a forma
Intangível
Do desejo.

SILÊNCIO,
Nuvens,
Um lago,
Uma luz
Que rompe
O escuro
Da partida
E acende
O dourado,
Elementos
Que compõem
O teu muro,
Meu pecado.

É DAQUI
Que eu te sonho,
Uma fresta
No teu céu,
Um olhar
Que não tem fim...
........
É daqui
Que eu te quero
Sem limites
No poema,
Quando
Com palavras
Te olho
E te vejo
Como se fosses
O fruto
Daquilo que eu
Mais desejo.

É DAQUI
Que eu não saio
Quando parto
Para longe,
Pois é aqui
Que te tenho
Nas raízes
Do que sou.

ERA AQUI
Que eu te queria
Se aqui não te
Tivesse,
Ver-te
Ao perto
Sem te tocar,
Beijar-te
Com os olhos
Numa noite
De luar.

VÊS,
Meu amor,
Como é simples
Gostar de ti?
A mim basta,
Neste encanto,
Ficar-me
Docemente
Aninhado
Num recanto...
..............
Reinventar-te
Por aqui.
Terraço2022Pub1302FimLUZ

“Terraço”. Detalhe

TEU ROSTO ARCO-ÍRIS

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Rubor”
Original de minha autoria
Fevereiro de 2022
RUBOR3

“Rubor”. Jas. 02-2022

POEMA – “TEU ROSTO ARCO-ÍRIS”

O TEU ROSTO
É arco-íris,
Dança, dança
Nos meus olhos,
Fascinados
Pelos teus,
É luz intensa
Que brilha
E domina
Como um deus.

É FULGOR,
É raio
Que me fulmina,
Com essas cores
Tão intensas
O meu rosto
Se acende
E de ti
Se ilumina.

HÁ CHEIRO
A maresia,
Sinto sal
Na tua boca
Que me sabe
A poesia
E, quando a digo
Em voz rouca
De tão frio
Ser o mar,
É tão quente
O meu desejo
Que eu quero
É navegar
Para ver
Se lá te vejo.

TUA BOCA
É mar profundo,
Tão azul
Como o infinito
Do céu
Onde gosto
De voar,
Se te beijo
Vou ao fundo,
Mas respiro
Lá bem dentro
Nas profundezas
Do mar.

COM TEU ROSTO
Arco-íris
Brilhas ao sol
Logo ao
Amanhecer,
Mas sempre
Caio em tristeza
Por tão pouco
Te rever.

A TRISTEZA
É saudade
Desse encontro
Tão fugaz,
Meus olhos
Perdem-se
Em ti,
Mas em ti
Encontram paz.

O TEU ROSTO
É arco-íris,
Se te vejo
É alegria sem fim,
Não vás, por isso,
Embora,
Que eu fico triste,
Na hora...
................
Espera um pouco
Por mim.
RUBOR3Rec

“Rubor”. Detalhe

DESPEDIDA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração - “Rosas”
Original de minha autoria
Janeiro de 2022
JAS_Rosas2022_4psd

“Rosas”. Jas. 01-2022

POEMA – “DESPEDIDA”

NUM CERTO DIA
(Banal)
Acordei
De um sonho
E lembrei-me
Logo de ti.
Só então eu
Pude ver
(Como no sonho)
Que o teu rosto
Perdeu brilho
E que já
Nem me sorri.

ESSE TEMPO
É passado
Que o tempo
Resolveu.
Aquele que agora
Te evoca
É outro,
Já não sou eu.

NÃO QUERO
Ver-te
Nem ouvir
A tua voz,
Entre mim
E o teu rosto
Já não encontro
Um nós.

AGORA
(E mesmo em sonho),
Teu perfil
Não me fascina
E o olhar
Já não me brilha,
Tudo em ti
Sabe a passado
E nada me diz
Do futuro,
Vejo tempo
Sem raízes
(É destino,
O meu fado?)
No qual já não
Me depuro.

VÊS COMO A VIDA
Vai direita
Por linhas tortas
Seguindo?
Vês
Como o canto
Fortalece?
Saio de ti
Lentamente
Para que o tempo
Resolva
O que num sonho
Acontece.

FICAM TÃO-SÓ
Alguns versos
A marcar
O meu passado,
Registos
Da caminhada
Que num sonho
Fui fazendo
Sem nunca te ter
A meu lado.

MAS O TEMPO
É escultor,
Lapida
As nossas vidas
Deixando apenas
Sinais
Pra que não fiquem
Perdidas.

AH, ESQUEÇO-TE,
Mas não te perco,
Perdi-te,
Mas não t’esqueço,
Lembro-te,
Mas não te quero,
Revejo-te,
Não reconheço,
É mundo
Que já partiu,
Não se pode lá voltar
A não ser com
Um poema
Para com arte
O fechar.
JAS_Rosas2022_4psdR

“Rosas”. Detalhe

DUAS HORAS

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Jardim”
Original de minha autoria
Janeiro de 2022
Jardim2022

“Jardim”. Jas. 01-2022

POEMA – “DUAS HORAS”

OLHEI-TE NOS OLHOS,
Eram negros,
Intensos
E tão profundos...
Toquei teus cabelos
Com o olhar,
Caminhei a teu lado
Nesse jardim,
Senti o teu corpo
Bem perto de mim
A respirar
O acre perfume
Dessa ramagem
Do vasto jasmim.

INEBRIOU-ME
Esse intenso
Aroma
Do belo jasmim
E eu enredei-te
Num tão doce enleio
Que me parecia
Nunca mais ter fim.

BRILHARAM
Pra mim
Tão docemente
Duas horas inteiras
Esses teus olhos.
E neles me perdi.

ESTIVE NO CÉU
Ao lado de deus
E lá vi dois sóis
Que não eram dele
(Uma luz intensa)
Porque eram teus.

MAS O TEMPO
Correu
Depressa
Demais.
E é sempre assim.
Todos os dias
Se tornam iguais
Quando tu partes
E, em nostalgia,
Eu fico no cais.

VOLTEI A OLHAR-TE
Três horas seguidas,
Parecia verdade
Mas era ilusão
Porque tu partiste
Deixando-me só...
...............
E o que sobrou
Foi a solidão.

SUBIU A TRISTEZA
A saudade irrompeu
Colou-se-me
Ao rosto...
.............
E como doeu!

SE EU NÃO TE VEJO
Sinto
Falta de ti,
Mas se te encontro
Logo te perco
Porque o tempo
Voa
E logo te leva
Pra longe dali.

TER-TE DEMAIS
Aumenta a saudade
E quando te vais
São negras
As nuvens
Da nossa cidade.

AINDA QUE TRISTE
Sinto-me feliz
E com estas mãos
Te vou escrevendo
O que quero dizer,
Mas este meu tempo
Volta a correr
E cresce a vontade
De logo te ver
Mesmo que saiba
Que é nesse instante
Que te vou perder.

EU TENHO SAUDADES,
Saudades de ti,
Desse virar
Da nossa esquina
Na rua de sempre
Onde eu te vi,
Da nossa janela
Donde espreitámos
O que do mundo
Sobrará para nós.

EU JÁ NEM SEI
Que hei-de fazer,
Ter-te demais
É puro prazer,
Mas quando te vais
Eu fico tão triste
Que o brilho do sol
Mais me parece
Um anoitecer.

Olhei-te nos olhos,
Era já saudade
Da tua partida,
Gravei-te na alma
Pra melhor te ter
Porque já sabia
Que não regressavas
A esse lugar
Onde eu te vi
E me encantou
O brilho intenso
Desse teu olhar
Onde me perdi.

Jardim2022Rec

A JANELA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Janela”.
Original de minha autoria.
Janeiro de 2022.
OndeTeVejo2022_1

“A Janela”. Jas. 01-2022

POEMA – “A JANELA”

NOS VIDROS
Desta janela
Se espelha
Todo o meu ser,
É neles que
Eu te revejo
Quando deixo
De te ver.

DA JANELA
Vejo o mundo
E o mundo
Vê a janela,
Debruçada
No parapeito
Olho o céu
E olho a rua
Para ver
Se passas nela.

NOS VIDROS
Desta janela
Há reflexos
Da vida,
Olho pra eles
Pensativa
Mas não me sinto
Perdida
Se puder
Falar contigo
Quando estás
De partida.

NESTES VIDROS
Da janela
Se espelha
Todo o teu ser
Quando passas
Nesta rua
E me sinto
Estremecer
Da falta que tu
Me fazes
Por ainda
Não te ter.

SE TE AFASTAS
Da janela
E vislumbro
Silhueta
Lá ao fundo,
Longe dela,
Eu sofro
Por te perder...
........
Na rua
E também nela.

VOA PRA LONGE
Essa tua
Silhueta
Que s’esgueira
Na esquina
Como se fosse
Cometa
A passar
Na minha rua,
Mas também eu
Me diluo
E me sinto
Um pouco nua
Na imagem
Transparente
Dos vidros
Desta janela
Como se fosse
Já tua.

FOSTE EMBORA
Do meu mundo
Onde eu
Te queria ter
Ao alcance
De um olhar
Para nunca
Te perder.

MAS NÃO DEIXEI
A janela,
Esperei sempre
Por ti,
Hora-a-hora,
Dia-a-dia,
Até que, por fim,
Eu te vi.

VI-TE
Da minha janela,
Desenhei-te
Com alma
E olhar
De devoção,
Pintei-te todo
A vermelho
Da cor da minha
Paixão...
...............
Mas mesmo assim
Tu partiste
Sem me dar
A tua mão.

DA JANELA
Sempre te vejo
Mesmo ausente
Da nossa rua,
Nos vidros
Fica imagem,
Perfeita
Como a tua,
Mas é sempre
Transparente
E não lhe posso
Tocar,
Guardo-a, então,
Com ternura
Em meu inocente
Olhar.

E GOSTO
Da Primavera,
Confundir-te
Com aromas
Que me chegam
À janela,
Anunciando
A chegada
Do melhor
Que sinto nela.

A JANELA
Não tem cortinas
Pra te ver
Na nossa rua,
Ver-te chegar
E partir,
Ficando um pouco
Mais nua,
Querer que
Me vejas
Assim
Tão brilhante
Como a Lua.

AH, QUANTAS VEZES
Eu desci
Da janela
Para a rua,
Olhava de baixo
Pra cima,
Mas eu nela
Não me via,
E, assim,
Não era tua.

O MEU MUNDO
É a janela,
O da rua
É o teu,
É dela que
Eu te vejo,
Na rua
Já não sou eu.

DA JANELA
Do meu mundo
Olho pra ti
Com calor,
Sem ela
Eu não te sinto,
Fica um muro,
Meu amor.

OndeTeVejo2022_1Rec

VESTIDA DE CORES

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Campainhas do Paraíso”.
Original de minha autoria
para este poema.
Janeiro de 2022.
Campainhas01_2022_4jpg

“Campainhas do Paraíso”. Jas. 01-2022

POEMA – “VESTIDA DE CORES”

VESTES CORES
Garridas
No palco
Desse teu mundo
Em danças
De luz
Como quem grita
A beleza
Que leva
Dentro de si...
.........
E seduz.

COBRES-TE DE TI,
Agasalhas-te
A alma,
Repetes,
Feliz, Em mil poses O teu rosto Em perfil... .......... E sorris. MAS QUANDO Regressas A ti É como o fim De um sonho Que levou Ao paraíso, A queda De um anjo Na rotina Do viver Convertida... ............. Em sorriso. MAS EU SIGO-TE, Vou E voo Atrás de ti Com poemas Sempre feridos Em cor viva, Por aí, Com versos Em voz Rouca De tanto Eu te dizer, Murmúrios De quem te sente, Palavras De não te ter. NÃO IMPORTA Que a fuga Para a boca De cena À procura De autor Que te cante e Que te conte Ao mundo Seja fuga De ti própria Para a luz Da ribalta, Rituais De celebração Onde a cor Nunca te falta.
EU GOSTO De te ver assim, Luminosa, Oficiante Desse rito Pagão Que celebra A arte E a liberdade Como pregão Nas ruas De uma cidade. MAS EU CONTINUO Por aqui, Na solidão Sideral da Montanha A olhar O horizonte Sem fim, Ao crepúsculo, Pagando Com poemas E rapsódias de cor O meu tributo Aos rituais Da redenção Pela arte
E por amor. AH, COMO GOSTARIA De te rever Na praia Da meia-lua, O nosso cais, No baile Da meia-noite, O brilho Da lua-cheia A acender-te A alma... .................. Mas já é tarde Demais!

Campainhas01_2022_4Rec

PERFIL

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Silhueta”
Original de minha autoria.
Janeiro de 2022.
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“Silhueta”. Jas. 01-2022

POEMA – “PERFIL”

AS LINHAS
Do teu perfil
Tão singelas
Ao olhar
Lembram-me
A tua voz
Quando te ouvia
Falar.

POETA,
Logo pintava
Essa tua silhueta
Com um secreto
Pincel,
Os traços eram
Palavras
Desenhadas
A caneta
Na brancura
Do papel.

PALAVRAS
Leva-as
O vento
(Era o que eu
Te dizia),
Mas se ditas
Sobre ti
Por um poeta
Gentil
(E eu nunca te
Mentia)
Ficam gravadas
Na alma
Quando pinta
O teu perfil.

CRESCESTE
Como camélia,
Flor branca
Nas folhagens
Do Jardim,
E sempre que
Tu me olhas 
Iluminas
De alvura,
Brilho intenso,
Cintilante
Dessa imagem
Que perdura
Mesmo quando
Estás distante. PORQUE VIVES No Jardim Em ciclo De natureza Regressas Em cada ano Para afastar A tristeza. DEPOIS PARTES, Mas fica-me O teu perfil Que me fala Ao olhar, A ausência Já não pesa E as saudades Esmorecem Porque tenho A certeza Que um dia Vais voltar.

Jas_Camelia2022_6Rec

PARTIR
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Melancolia”.
Original de minha autoria.
Dezembro de 2021.
Melancolia2021_Pub

“Melancolia”. Jas. 12-2021

POEMA – “PARTIR”

ESTOU SEMPRE
A partir

Do mesmo lugar
Onde nunca estou,
Por isso não sei
O que te dizer
Ou então segrede
Para onde vou...

JÁ NÃO SEI
Onde estou
Nem quero
Partir,
Não tenho
Lugar
De onde sair
Porque nem
Cheguei

A ver-te
Entrar
Onde já
Não vou.

TU FOSTE
Pra onde,
Que eu já 
Não te vejo?
Tenho os olhos
Baços de tanto
Chorar,
Gastou-se

O meu rosto
De tanto

Te olhar,
Mas tu não
Me vês.
Sempre desencontro
Na rua perdida...
............
E não somos
Três!

NÃO HÁ TEMPO
E não há lugar
Para onde

Eu possa ir
Porque já nem sei
Como cá ficar
Ou como partir.

TU FOSTE
Pra onde?
Não sei

Onde estás.
Só de te sonhar
Eu serei capaz,
Mas perdi

Teu rosto,

Só há neblina
Neste sonho meu,
É fumo espesso
Pra cá da cortina
Deste teatro
Que a vida me deu...
................
E esta tristeza

A que me destina.

NEM ASSIM POSSO
Sonhar-te
Porque já perdi
A intensa cor
Desse teu olhar
Por onde
Entravam
As minhas
Palavras

Para te cantar.

NÃO SEI
Onde estás

Nem posso
Chamar,

Dizer o teu nome
Com delicadeza
Pra te soletrar.

PARTISTE DE VEZ
Pra outro lugar
Que não sei
Dizer
Nem sei
Desenhar,
Fogem-me

As palavras,
Tenteia-me a rima,
Procuro cantar
Mas já não consigo,
Perdi o teu rasto
E o teu abrigo.

NEM SEI
Se me ouves

Lá onde

Te encontras

Em busca

Dos sonhos

Que te desenhaste
Em tinta-da-china...
..................
Onde te encontrei
Para te cantar
Com a melhor rima.

MAS TU FOSTE EMBORA
E a minha alma
Logo entristeceu
E por isso chora,
Mas esse que tu 
Já perdeste
Serei sempre eu.

TU FOSTE PRA ONDE,
Mulher dos meus
Sonhos?

Fugiste de mim
,
Disseste que sim,
Foste na maré
Revolta nas ondas
Que dão vida
Ao mar
Onde te espraias
Cada amanhecer
Sem nunca parar
Em todos os dias
Desse teu viver.

TU FOSTE PRA ONDE
Na hora sombria
Desse entardecer?

Melancolia2021_PubRec

OLHAR

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Teu Olhar”.
Original de minha autoria
para este poema.
Dezembro de 2021.
OlharPublicado_12_21luz

“Teu Olhar”. Jas. 12-2021

POEMA: “OLHAR”

QUE ME DIZES,
Quando olhas
De través
E procuras
Ver em mim
O que tu lês
Nas marés?

NO SILÊNCIO
Do meu canto,
Sinto poder
No teu olhar,
Fascinam-me
Esses teus olhos
Porque me sabem
A mar.

NÃO É AZUL
Sua cor,
Mas de sol
Que ilumina,
Olhas pra mim,
Meu amor,
Quando navego
À bolina.

ÉS SEREIA
No meu mar,
Vou-te ouvindo
Em sinfonia
De cor
Com música
Da minha
Pauta
Mas que tem
O teu sabor.

QUE PROCURAM
Os teus olhos?
Ler nos meus
Desejo
De navegar?
Mas eu vivo
Neste cais
De partidas
E chegadas
Para contigo
Embarcar...

TEUS OLHOS
Verdes
Fascinam,
A tua boca
Seduz...
..........
E eu,
Pobre
Poeta de Outono,
Na mais pura
Contraluz
Que me acende
O olhar
E a teu barco
Me conduz.

OLHAS-ME,
Então,
Inquieta,
Ergo-me
À tua frente,
É fascínio
O que sinto
E por isso
Eu te digo
Que o olhar
Nunca me mente
Seja de bênção
Ou castigo.

QUE ME DIZEM
Os teus olhos?
OlharPublicado_12_21luzRec

“Teu Olhar”. Detalhe

VER

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Colibri”.
Original de minha autoria.
Dezembro de 2021.
Colibri2021

“O Colibri”. Jas. 12-2021

POEMA – “VER”

QUANDO TE VEJO,
Vejo-te a cores,
Sinto aromas,
Provo sabores
Na fantasia
E vejo traços
E vejo riscos
E tantas fugas
Prò infinito
Nos sete céus
Dessa magia
E eu respondo
Sobre o que
Sinto
Se me perguntas...
...........
- Epifania!

AO LONGE,
O horizonte
Desses teus riscos,
Aqui ao perto
Uma ponte
Desenhada
Que me leva
Ao pé de ti
E se o rio
Transbordar
Sei que te alcanço
Voando
Num colibri.

QUANDO TE VEJO,
Eu vejo ruas
E vejo praças
E catedrais,
Vejo desenhos
Na tua mão,
Vejo vitrais
E vejo sóis
Em refracção.

VEJO O TEU ROSTO,
Vejo-te a ti,
Sentir-te perto
Era o desejo
Nesses poemas
Que escrevi,
Ver o teu céu
Azul profundo
Pra onde voa
O colibri.

VEJO MONTANHAS
E vejo cores,
Eu vejo casas
E vejo amores
Por esses vales
E esses rios
Por onde corre
O fio d’água
Com que regas
O teu jardim
Pra nele nascerem
Os meus poemas
E ter-te sempre
Perto de mim.

SINTO NO AR
O teu perfume,
Cabelos negros
A esvoaçar
E sinto o vento
Nesse teu rosto
E altas ondas
No nosso mar
Mesmo que venhas
Só ao sol-posto
Com os teus barcos
A navegar
Nessas águas
Cristalinas
Onde se perde
O meu olhar.

EU VEJO TELAS,
Os teus pincéis,
Doce pintora,
Vejo a tinta
Na tua mão,
Vejo-te a ti
Tão concentrada
Nesses desenhos
Em construção
A pintar
Um colibri.

VEJO QUADROS
E vejo letras,
Nessa pintura
Vejo sinais
Para eu ler,
Vejo-te a ti
Neste pontão
Do nosso cais
E sou feliz
De assim te ver.
Isso me basta.
Não quero mais.

EU VEJO TUDO,
Eu vejo,
Mas faz-me falta
O teu sorriso.
Nada mais quero
Como desejo
Pois é só disso
Que eu preciso.

Colibri2021Rec

LUZ

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Arbusto”.
Original de minha autoria.
Dezembro de 2021.
Licht5

“O Arbusto”. Jas. 12-2021

POEMA – “LUZ”

LUZ DO CÉU,
Tanta luz
Descia por uma
Fresta
No coração
Do arbusto,
Raio
Na escuridão
Que caíra
No poeta
Como noite
No jardim.

LUZ, MAIS LUZ,
Era o que sempre
Pedia,
Era luz que lhe
Faltava
Quando ela
Esmorecia
No seu olhar
Já cansado.

MAS ELA CHEGOU
Sob forma de poema
E  desenho
Esboçado,
Cores quentes e
Traços
Ao infinito,
Palavras
Murmurejadas,
Num movimento
Sem fim
Até a luz 
Se apagar No arbusto Do jardim. LUZ, MAIS LUZ, Insistia o poeta Ao entardecer De um dia Quando a luz Esmoreceu E, com ela, Também ele já Se perdia. ERA VIDA Que findava, Tempo De despedida Que cedo demais Lhe chegava E obrigava À partida... E A LUZ Reavivou Nas cores E nas palavras Que lhe saíam Do peito E do fundo Da memória Pra recriar A preceito Tudo aquilo Que sobrou De uma paixão Sem glória. SÃO POEMAS Que lhe canta, São cores, São riscos Com que desenha A alma, São sons Dessas palavras Com que Escuta o seu Silêncio, É pauta de melodia Que da tristeza O resgata Como secreta Alquimia. É ASSIM QUE A luz Regressa, O arbusto Ilumina E sua alma Tempera Como harpa Em surdina. VOLTA, POIS, Ao dia em que Tudo começou, Tropeça na Luz intensa, Alumia a sua Alma E põe um fim À tristeza Dessa perda Capital, Descobrindo Nos poemas Remédio Para o seu mal.

Licht5R

O SILÊNCIO E A MEMÓRIA

Poema de João de Almeida Santos.
 Ilustração: “O Voo da Rosa”. 
Original de minha autoria. 
Novembro de 2021.
Rosa2021Pub28_11

“O Voo da Rosa”. Jas. 11-2021

"Para que tú me oigas / 
mis palabras
/ se adelgazan a veces 
/como las
huellas de las gaviotas 
en las playas"

Pablo Neruda

POEMA – “O SILÊNCIO E A MEMÓRIA”

NO TEU SILÊNCIO
Profundo
Entrevejo-te
Com palavras
Sufocadas,
A preto
E branco,
Com a linguagem
Do tempo
Que passa
Inexorável
E erode
A suave geometria
Dos traços Com que nos fomos Desenhando Nos dias De festa. E, AGORA, SOBREVIVO, Oblíquo, Neste intervalo Sofrido De onde Vislumbro A tua silhueta Esculpida Pelo crepúsculo De um fugaz Encontro De despedida. “VOU-ME EMBORA Pra Pasárgada”, Diria o saudoso Poeta, “Porque aqui Anoiteceu”. MAS, NÃO, Desta vez Eu não parto, Porque na memória Dos teus Mil rostos Posso ver-te a cores, Aquelas com que Te evadias Em cúmplice Caminhada À procura Do belo... .......... E em troca De nada. NESTA MEMÓRIA Acaricio-te, Em epifania, Com as mãos Invisíveis Da alma E o azul Do céu Que ainda Me sobra Como manto Transparente Da minha Fantasia. PRESSINTO-TE, Adivinho-te Em riscos que Deslizam Dos teus dedos, Dádivas Que me chegam Como brisa Do amanhecer Na praia Da meia-lua. E ESTREMEÇO Quando Te reencontro Nestas veredas Estreitas Da fantasia Com que Te vou reinventando... .............. Com insuspeita Teimosia. VISTO-ME, ENTÃO, De vermelho, Por dentro, A rigor, Solene. E pinto-me A alma Ao sabor do vento, Cubro de rosas Vermelhas O chão etéreo Por onde caminho Suavemente Com o olhar, Dou mais sabor À liberdade, Voando com Uma rosa Pra te poder Alcançar. AH, SIM, Duplico-me Neste intervalo Onde te sonho E te canto Com palavras Que te chegam Desfiguradas Pelo siroco que, No trajecto, Sopra forte Nas ásperas areias Deste deserto Que habitamos. SIM, MAS SE A BRISA Do mar Ainda me acaricia O rosto No amanhecer De cada poema Que me importam A areia
E o deserto?

Rosa2021Pub28_Rec

RENÚNCIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Rua”.
Original de minha autoria.
Novembro de 2021.
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“A Rua”. Jas. 11-2021

POEMA – “RENÚNCIA”

RENUNCIEI
Para nunca
A perder,
Mas nesta
Longa privação
Vai declinando
No tempo
O que pra sempre
Eu quis ter...

VÊS, BERNARDO,
Que destino,
Que desassossego,
O meu?
Este que agora
Te fala
É outro,
Já não sou eu.

QUE DESENCONTRO
Foi esse 
Na rua
Da minha vida Desde o dia Em que a vi? Dei-lhe errados Sinais Nos momentos Cintilantes Que com ela Eu vivi? TALVEZ NEM AME Esta minha poesia Porque senti-la É como um
Doce sofrer, É um canto
De pesar
E é canto
De prazer,
É tudo Em quase nada, É melodia De fada Mesmo quando Faz doer. NO POEMA Eu até finjo, É poeta Quem o diz, E mesmo Que sinta O que digo Nunca hei-de Ser feliz. O POEMA É como a vida, Posso ouvir A sua alma Em desejos Com palavras, É um modo De a ter, É remédio Que me salva De em solidão A perder. ESTE CANTO É, pois, meu, Nem ela Mo pode Roubar E se disserem Que é seu, É verdade... ............ De enganar. O VERSO É o meu beijo Nesse rosto Que perdi, É quente Como uma chama E resiste A quem lhe diz Que o poeta Não a ama Porque desenha As palavras Com um pedaço De giz. O AMOR Em poesia É parte nobre
Do mundo, Sofrê-lo Como utopia É ir mais longe, É ir a fundo, Porque poeta Que ama Não é pobre Vagabundo,
Mas luz
Que brilha
Na chama. NÃO GOSTO Desta renúncia, Não gosto, Mas que posso Eu fazer?
Se não cantar O que sinto É certo que A vou perder.

VdP.2021_18PubJPGRecort2

SILÊNCIO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Som do Silêncio”.
Original de minha autoria.
Novembro de 2021.
Jas. OSomDoSilêncio2021

“O Som do Silêncio”. Jas. 11-2021

POEMA – “SILÊNCIO”

OUÇO O SILÊNCIO
Que me cerca,
Adentro-me
Na multidão
E ele cresce
Por dentro,
Na alma
Me cresce
E, quase, quase,
Como grito
Sufocado...
..............
Me ensurdece.

AH, É DEMAIS,
Este silêncio,
Caustica-me
A pele
Macia da
Memória,
Uma moinha
Na alma,
Silvo
De vento
Cortante
Nas janelas
Destroçadas
Da emoção.

E EU FUJO
Para o ermo,
Lá em cima,
Na montanha,
Solidão de
Eremita
Que procura
A melodia
Do nome
Silenciado,
Aquele que nunca
Ousaste
Pronunciar,
Palavra em degredo
Que só o poema
Pode resgatar.

MAS, LÁ NO ALTO
(É sempre assim),
Ouço uma harpa
Dedilhada
Por ti,
Notas musicais,
E vejo riscos
Esvoaçando
No teu azul
De Lisboa
Em direcção
Ao infinito...

VEJO-TE SAIR
Da neblina
Cintilante
Do rio
Que te veste
E sacio-me de
Palavras
Até que a inspiração
Chegue
E as componha
Em poema
Que te cante
E que te conte
Às nuvens
E ao vento
Que passa...

NOMEIO-TE
E sussurro
Uma pequena
Palavra
Que nunca ousei
Pronunciar,
Mas que ouviste
Ressoar-te
Na alma
Mil vezes,
Em mil poemas
Sufocados...

O SILÊNCIO
É a tua fala
(Bem sei),
Mas eu não sairei
Deste poema
E do ermo reparador
Até que me ouças
E soletres
Finalmente
Esse nome
Com as cores
Da tua fantasia...

FICO PRISIONEIRO
De um poema
Em construção,
Resgate
Desse nome
Perdido
Na ilha remota
Da tua memória,
Como âncora firme
Da minha própria
Salvação.

Jas. OSomDoSilêncio2021Reco

ENCONTRO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Silhueta”.
Original de minha autoria.
Novembro de 2021.
Silhueta2021_3

“Silhueta”. Jas. 11-2021

POEMA – “ENCONTRO”

OS ASTROS
Alinharam-se
Uma só vez,
Passados anos
E anos
De sofrida aridez
Que roubou
Tempo
À fantasia,
Luz
À vida,
Cada instante,
Lentamente,
Cada dia...

ENCONTREI-TE
Sem querer,
Astros
Ou destino,
Quero lá saber,
Se é tão bela
Esta forma
Tão singela
De te ver.

ABANDONEI-ME
Ao destino
E o acaso
Chegou.
Vi-te estranha
Em tardio
Reencontro,
Com a fita
Da memória
A rodar
Em moviola...

ERA INCERTA
A tua imagem,
O olhar
Levemente
Embaciado...
..............
Um arco-íris
Descera
Com o sol
Dessa manhã,
Dourado,
Gotículas
Brilhantes
Como lágrimas
De nostalgia
Cobriram-me
O olhar
Pra te ver
Como se fosse
Magia.

FICOU-ME
A alma cheia,
Cintilante,
A transbordar...
............
Mas o vazio
Também logo
Regressou,
Um sorriso,
Um instante,
Duas palavras
Pra enganar
O silêncio...
.........
E o ânimo
Quebrou.

VISLUMBREI-TE
A caminho do
Destino,
Raptou-me
O acaso
A incerta
Silhueta
Que não pude
Desenhar
No meu campo
De visão,
Como se fosse
Castigo
Sem ponta de
Compaixão.

E AQUI ESTOU EU
Devolvido
À solidão,
Novas saudades
De ti,
Um poema
Em gestação...

SÓ ASSIM TE SEI
Falar,
Fico incerto
Se te vejo,
Troco o passo
A cada instante,
Hesito nesse
Momento,
Finjo aquilo
Que não sinto
E, por fim,
Fico tão-só
Amante da poesia
Que me dá o que
Não tenho...
............
Uma réstia
De alegria.

OS ASTROS
ALINHARAM-SE
Pra te voltar
A perder...
...........
Dois minutos,
Um sorriso,
Pouco mais.
Este novo
Entardecer
Chegou cedo
Ao meu cais.

Silhueta2021_3Rec

DESTINO 

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Voar no Jardim Encantado”.
Original de minha autoria.
Outubro de 2021.
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“Voar no Jardim Encantado”. Jas. 2021

POEMA – “DESTINO”

PINTO E CANTO
O meu destino,
Sonhos velados,
A minha vida,
Perdi a chave
Da tua porta
E só me resta
A despedida.

POR ISSO CANTO
Com as aves,
Voo mais longe
E com mais cor
Porque no céu
Há mais azul
E nos meus sonhos
Há menos dor.

HÁ UM SEGREDO
Não revelado,
Dizê-lo
Não deveria
Porque seria
Grave pecado
E certamente
Mentiria.

E NÃO O DISSE,
Mas eu pequei
Com murmúrio
Apaixonado
Em poemas
Tão inocentes
Como estar só
A teu lado.

POR ISSO VOO
Sempre mais alto,
Trepo nas cores
Pra lá chegar,
O céu azul
Dá-me alento
Pra meus segredos
Eu dissipar.

LEVO PALAVRAS
Comigo,
Procuro inspiração,
Levo cor,
O meu abrigo,
Levo musas
E tudo o mais
E quando parto
Lá para cima
É sempre festa
Nesse meu cais.

LEVO-TE A TI
E deste jeito
Voo sempre
Sobre o teu mar
Para que sinta
Lá bem no alto
Ar rarefeito
E assim te possa
Abraçar.

EU CANTO
E pinto
Por tudo isto,
Pra resgatar
O meu pecado
De exaltar
Esse teu rosto,
Iluminar
Em aguarela
O enleio
Do meu olhar,
Por te ver
Na nossa rua
Debruçado
Na janela
Com vontade
De te pintar.

POR ISSO CANTO,
Por isso pinto,
Por isso voo
Lá para o alto
Em liberdade,
Eu lá não vivo
Em sobressalto
Porque te sinto
Como verdade.

MAS VEM COMIGO,
Eu dou-te asas,
Prò infinito
Do céu azul,
Voamos juntos
Ao mesmo tempo
E o nosso rumo
Será o Sul.

VÁ, VEM COMIGO,
Voa mais alto,
Ah, meu amor,
Se tu vieres
Eu já não sofro
E ganho vida,
Vai-se embora
A minha dor
E já não sabe
A despedida.

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VOU CONTIGO PRA PASÁRGADA

A Manuel Bandeira

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Pasárgada”.
Original de minha autoria.
Outubro de 2021.
(Primeiras versões
do poema e da pintura:
Novembro de 2018).
Jas_pasargada2021_4

“Pasárgada”. Jas. 10-2021

POEMA – “VOU CONTIGO PRA PASÁRGADA”

VOU CONTIGO
Pra Pasárgada,
É outro mundo,
Irmão,
Eu não fico
Por aqui,
Falha-me
Inspiração
Porque a brisa
Do Nordeste
Ficou lá,
No Maranhão.

TENHO SAUDADES,
Manel,
Nostalgia do futuro,
Não quero
De volta
O passado,
Foi um tempo
Muito duro,
Foi um tempo
Confiscado.

VOU CONTIGO
Pra Pasárgada, 
Há tempestade
No ar,
Não quero
Ficar aqui
Porque a brisa
Do teu berço
Não passou
Do Piauí.

PRA PASÁRGADA
Quero ir,
Lá todos
Falam verdade,
Por aqui
Não ficarei,
Já me falta
Liberdade,
Lá sou amigo
Do rei,
É muito bela
A cidade.

GOSTO DE TI,
Ó poeta
Do reino
Da utopia
Em busca
Da liberdade
No país da
Poesia
Onde se canta
E se dança
Porque o ar
É do mais puro
E cheira
A maresia,
Perfume
De divindade. 

VOU CONTIGO
Pra Pasárgada, 
Não gosto
D’estar aqui,
Há ruído
Que é demais,
Esta terra
Não me serve,
Eu espero-te
No cais...
..........
Navegamos
No teu barco
À procura
De mar calmo,
Céu sereno
E tudo o mais,
Viajando
No azul,
Peixes voando
No mar,
No horizonte
Uma ilha,
Mulheres lindas
A acenar...

EM PASÁRGADA 
Sou feliz,
Canto e
Danço
Na madrugada
Até que o corpo
Se canse
Com alma
Apaixonada
E adormeça
No regaço
Da mulher
Que for
Amada.

POR AQUI OUÇO
Ruído,
Há armas 
A crepitar,
Matam poemas
Com gritos,
Já não podemos
Cantar...

VOU CONTIGO
P’ra Pasárgada 
Meu mestre
De poesia,
Cantarei os teus
Poemas
Seja noite
Ou seja dia,
Alegram-se
As nossas almas
No reino da utopia.

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O POETA-PINTOR

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Musa”.
Original de minha autoria.
Outubro de 2021.
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“Musa”. Jas. 10-2021

POEMA – “O POETA-PINTOR”

O POETA BRINCAVA
Com suas palavras,
Cantava-te sempre
Quando não estavas.

ERA UM POETA,
Era fingidor,
Não te desenhava,
Cantava-te
A cor.

SUAS CORES
Eram as palavras,
Fazia pincel
Da sua caneta,
O pintor riscava,
Mas a sua tinta
Já não era preta.

POR ISSO COMPROU
Um belo pincel...
.................
Pintava, pintava,
Era a granel,
E a sua tela
Deixou de ser
O velho papel.

DESCOBRIU A COR,
Que o fascinou.
Azul, vermelho
E tanto amarelo...
...............
Tudo ele pintou,
Procurando sempre
O que era belo.

ATÉ QUE O ENCONTROU
Na cor dos
Teus olhos.
Era luz da pura
Que iluminava
O novo papel
Onde desenhou
O teu fino rosto
Com o seu pincel.

DEU CORPO À COR
Com que te dizia,
As suas palavras
Tornaram-se riscos,
Mais que poesia.

PINTAVA-TE ASSIM,
Os poemas
Já não lhe chegavam,
Pintor de palavras
De cor as compunha
E versos voavam
No azul do céu...
..................
“E o que tu fazias
Faço agora eu”
(Dissera-lhe um dia)
“Porque sou poeta
Mas também pintor.
Deixaste-me só
Entregue à palavra
E eu,
Tão pobre de ti,
Pintei-me de dor.”

“MAS EU FAÇO DELA
O meu arco-íris
Pra subir ao céu
A ver se t’encontro
Atrás duma cor,
Pintando o teu rosto
Para um poema
Que vou escrever
Com este pincel
Que trago comigo
Enquanto viver."

O POETA BRINCAVA
Mas era séria
Essa brincadeira,
Perdido em palavras
Encontrou a cor
E nos seus poemas
Dela fez bandeira...
.................
Tornou-se pintor.

Musa16_1CORRec

TARDO A ENCONTRAR-TE

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Mulher, 
a Janela e o Espelho”. Original de minha autoria. Outubro de 2021.

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POEMA – “TARDO A ENCONTRAR-TE”

TARDO A ENCONTRAR-TE
Porque não sei
Como procurar-te
Levado
Por um poema
Com as asas
Do desejo...

NÃO É A VONTADE, NÃO,
Mas o destino a marcar
Os passos que
Eu darei
Ou que nunca
Ousarei
Nesta estreita
Vereda
Da minha vida.

E TU SABES
Que não sei,
Mas sabes por onde
Andei
E me perdi,
À procura do que
Não podia ter
Pra preservar
O que apenas
Me sobrava...
...............
Dentro de mim.

ÀS VEZES
Encontrava-te...
Encontros fugazes
Onde o teu brilho
Cegava
Por fora
E me iluminava
Por dentro...
...............
E cantava-te
E pintava-te a alma
Com palavras roubadas
Ao arco-íris.

MAS NÃO SEI
Se te hei-de querer
Para nunca
Te ter,
Sentir saudades,
Logo ao amanhecer,
Do perfume 
Da aurora, Quando te reencontrava Na memória fresca E matinal Dos afectos
Indefinidos De outrora, Os mais perfeitos E contidos. SIM, DEIXO-ME IR Nas mãos do destino, Bem sabes, Mas há sempre Um súbito Sobressalto Quando o real Me atropela Por dentro E tudo se torna Inóspito... MAS SE NÃO Me deixo ir Por aí, Viajo para outros Lugares, Tenho sempre De viajar À procura de mim, De um espelho onde Me veja por dentro A olhar-te Por fora, À espera do próximo Sobressalto... ................ Que nunca demora. AH, COMO ME FALTA Esse véu que te cobre Quando te quero Pintar com palavras E te vejo Nua, Com a alma a tiritar, À mercê dos sobressaltos Que te marcam Como sulcos, Cicatrizes ásperas Da vida. MAS EU PROCURO-TE Com disfarçado E tímido Olhar, Perscrutando A alma Que se aninha Em ti Para te proteger Do risco da beleza Exposta Como fractura, Aquela que os poetas Sofrem, sim,
Mas cantam Quando sentem a Liberdade Ali por perto. TALVEZ A NOITE Te sirva de véu E te cubra
As cicatrizes Da vida, Luz coada pela Penumbra Que te amacia A pele Encrespada E te devolva como Sonho Acetinado Onde reinventar-te Como mulher Desejada, Para além do bem E do mal, Para além do pecado. MAS EU NÃO SEI, Tenho medo Dos sobressaltos, De ser atropelado Na esquina de um Inocente Jogo sedutor Que te cative a Alma Já em fuga Para o infinito Que, ao longe, Se cruza Nos nossos olhares... .............. Intermitentes. TARDO A ENCONTRAR-TE No bulício dos nossos Dias, Até que no amanhecer De um poema Te volte a visitar E te diga, Com olhar Submisso: "Ah, que saudades Eu tinha de ti..." Mas talvez já seja Tarde demais.

JAS_MulherNaJanPub2021_4Reco

CATEDRAL

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: "A Fonte".
Original de minha autoria.
Outubro de 2021. 
Obelisco19_02_1 - cópia copiar

“A Fonte”. Jas. 10-2021.

POEMA – “CATEDRAL”

VIAJEI NO TEMPO
Até à cidade,
Encontrei-te
Por ali,
Rosto sereno,
Inocente,
Como quem
Sempre sorri.

FOMOS AO TEMPLO
Da rua
Da minha vida,
À cúpula
Da catedral...
..............
Não te abracei
Nessa noite,
Era sagrado
O lugar,
Seria abraço
Fatal.

MAS FICOU-ME
O prazer
De te ter ali
A meu lado,
A sonhar-te
Nos meus braços,
Nos beijos
Que não trocámos
Numa noite
De luar,
Quando o amor
É mais intenso
E o corpo
Se desnuda
De tanto a lua
Brilhar.

FOMOS À PRAÇA
NAVONA,
Escutámos
As águas
Da "Fonte
Dos Quatro Rios"
(Essa dádiva
Do Bernini),
Íntimos,
Em sintonia,
Antevendo um futuro
Que nunca mais
Chegaria...

ATÉ QUE ME PROCURASTE
Nessa fita
Da memória,
A noite perdida
De afectos
No alto da catedral,
Corpos tensos,
Sem palavras,
Na fronteira
Do amor...

TORNOU-SE MAIS VIVO
Que nunca
O que não aconteceu
Como se fosse
Futuro
Que, afinal,
No teu passado
Ainda não se
Perdeu.

E CÁ ESTAMOS DE NOVO
À procura
Dessa noite,
Dos beijos
Que não te dei,
O passado já é
Futuro
E desse tempo
No limiar
Do sagrado
Já não sei
O que farei.

TALVEZ FAÇA UM POEMA
Para te reencontrar,
Cantar esse
Sorriso terno
De que sempre
Eu gostei,
Voar no tempo,
No espaço sideral,
Pousar de novo
Contigo,
Numa noite de luar,
Na cúpula
Da catedral...
Obelisco19_02_1 Rec

“A Fonte”. Detalhe.

TEMPO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Oráculo".
Original de minha autoria.
Setembro de 2021.
OráculoVersãoPub2

“Oráculo”. Jas. 09-2021.

POEMA – “TEMPO”

É TEMPO DE RECOMEÇO?
Talvez seja,
Talvez não.
O que ontem
Eu já era
É o que hoje
Eu sou,
Não é tempo
De mudança
Nem tempo
De negação
Porque gosto
De cantar
Neste lugar
Onde estou.

O DESEJO
(Sempre instável)
Pediu tempo,
Rituais,
Celebração,
Mas o tempo
(Insondável)
Resistiu
Ao que a vontade
Tentou...
..............
É tempo
De recomeço
Quando o tempo
Não passou?

EM CADA MOMENTO
Da vida
Procuro
O tempo
Que antes
Eu não vivi,
Procuro
Reinventar
Tudo aquilo
Que perdi,
Num poema
Ou em pintura
Para repor
O que sou
Antes que volte
A perder-me
Nos lugares
Pra onde vou.
OráculoVersãoPub2Rec

“Oráculo”. Detalhe.

INFORMAÇÃO AOS LEITORES

Microsoft Word - JOÃO DE ALMEIDA SANTOS.docx

A TODOS OS AMIGOS E LEITORES QUE AQUI ACOMPANHAM A MINHA POESIA, A MINHA PINTURA, OS MEUS ARTIGOS E ENSAIOS, INFORMO:

1. Durante o mês de Agosto suspenderei a regularidade das minhas publicações. Foram vários anos sem interrupções e chegou a altura de fazer uma curta pausa de reflexão.

2. Entretanto, antecipo a capa de um Livro de Poesia de minha autoria, João de Almeida Santos, Poesia (Lisboa, Buy The Book, 2021), prestes a entrar em tipografia. O livro inclui 67 poemas, um capítulo “Sobre a Obra de Arte” e, outro, com “Diálogos com os  Leitores Digitais” sobre vinte dos poemas aqui publicados, tendo alguns destes poemas ilustração no livro. Tem 438 páginas (contando com as ilustrações), capa rija, cosido, com 12 ilustrações de minha autoria reproduzidas em papel couché mate. A capa reproduz uma obra minha: “O Aurífice”, criada para o poema “Esculpir-te”.

3. Prevejo que o livro esteja disponível ainda este mês ou no início de Setembro.

4. Será uma edição limitada (150 exemplares) e só pode ser adquirido por encomenda, via WhatsApp, Messenger ou E-mail, feita ao autor.

5. É editado pelas Edições Buy The Book.

6. Aqui fica uma antevisão da Capa e do Índice.

7. Índice do livro:  João De Almeida Santos, Poesia, Lisboa, Buy The Book, 2021

NOTA INTRODUTÓRIA

I - SOBRE A OBRA DE ARTE

II - POESIA

1 - CANTAR

Sou o que sou
Palavras
O poema
Canta, poeta, canta
O poeta que se fez pintor
Pintei-te
Não sei se te chegam, as palavras
A carta
Segredo I
Solidão
Esculpir-te
Invocação
Lua
O poeta e a máscara
O poeta e o vendaval
Elas fogem, as palavras
A palavra proibida
Confissões de um confinado
Geometria
O benfeitor

2 - TEMPO

Tempo
A porta do tempo
A reinvenção do tempo
Espelho do tempo
A fronteira
Na bruma da memória
Março
Mudam os ventos e mudam as palavras
Catedral
Rituais
Para Leonard

3 - RAÍZES

Jasmim
Romã
Tentação
Teu corpo de cristal
Casta diva
Mandei podar o loureiro
O pavão
O jardineiro

4 - VIAGEM

Viagem
Liberdade

5 - MUSA

Musa
Cor, dá-me cor
A flor de papel
O meu nome
Marmelada
O brinco
O beijo
Não sei
A janela
À janela
Certos dias
Encontrei-te lá em cima, no monte
Origem
Segredo II
Caminhos paralelos
Valsa
Pas de Deux
Nostalgia

6 - SONHO E UTOPIA

Sonhar
A aguarela
Quase
Alma
Um sonho na aldeia
Vou contigo pra Pasárgada
Vã utopia

III - REFLEXÕES EM TORNO DOS POEMAS
Diálogo com os Leitores Digitais

IV - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAs

#JAS@08-2021

FLOR DE PAPEL

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Fleur de Papier
en Vol à la recherche du Poème 
perdu dans un Jour d'Hiver"”.
Original de minha autoria.
25 de Julho de 2021.
JASFleurdePapier2021

“Fleur de Papier en Vol à la recherche du Poème perdu dans un Jour d’Hiver”. Jas. 07-2021.

POEMA – “FLOR DE PAPEL”

NUM DIA DE INVERNO
Uma flor de papel
Voou
Para longe,
Levada pelo vento,
Rajadas fortes
Quebraram
Os subtis
Filamentos
Que a ligavam
À raiz de onde
Nascera...
...........
Seu alento.

CONTINUA A VOAR,
A flor de papel,
Ao sabor do vento,
Pousando
Aqui e ali
E logo voando
Para outros
Destinos,
Num perpétuo
Movimento.

PERDEU AS CORES
Luminosas
Que exibia
E a fonte
D’inspiração
(Sua seiva
De cada dia),
Borboleta
Já sem pólen
Para nova
Gestação
No jardim
Da fantasia.

MAS NUM DIA
Quente
De Verão
(Eu bem sabia)
Encontrei-a,
Por acaso,
Aninhada
Num arbusto,
À espera que 
O vento
A levasse
Prà ilha 
Da utopia.

PEGUEI-A
Na minha mão
E levei-a
Ao Jardim
Do meu poeta
Pintor,
Nosso chão
E recanto
Inspirador.

DEU-LHE COR,
O meu poeta,
Alisou suas
Rugas
De papel,
Mostrou-lhe
O horizonte
Lá em cima
Na Montanha
Nesse dia de
Verão
E logo a lançou
Ao vento,
Ao encontro
De raiz
Que nutrisse
Com a seiva
Uma nova
Floração...

JASFleurdePapier2021Rec

A MONTANHA

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Mulher”. Elaboração
de minha autoria, apud Gustav Klimt
(“Estudo de uma Jovem”, 1885).
Julho de 2021.
JAS1807Klimt2021_Pub

“Mulher”. Jas. 07-2021.

“I live not in myself, 
but I become / 
Portion of that around me; 
and to me, / 
High mountains 
are a feeling....”

LORD BYRON

Childe Harold’s Pilgrimage 
(1812-18). Canto III, 72 (1816).

POEMA – “A MONTANHA”

ESTOU A PERDER-TE,
Meu amor,
O estro
Esmorece,
Vai perdendo
Lentamente
O seu fulgor,
O poema
Empalidece
E eu,
Em poética anemia,
Já sinto
Um suave
E sonolento
Torpor.

SUBI A MONTANHA
Contigo
E, feliz
De lá chegar,
Com palavras
Que me deste
Eu aprendi
A cantar.

CANTEI A TUA PARTIDA
Quando desceste
O vale
E eu,
Triste,
caminhei
Por veredas
Sem destino
A que nunca
Mais voltei.

PERDIDO
De ti,
Vagueei
À procura
De eco
Do meu canto
Derramado,
Som puro
E cristalino
Que pra ti
Foi desenhado.

MAS O ECO
Era silêncio
Profundo
Vindo do azul
Quase irreal
Da abóbada
Celeste
Na montanha
Seminal.

NEM SEQUER O CLARÃO
De um cometa
Fugaz
Me visitava,
Pinhal abaixo,
Rumo ao horizonte
Do meu inquieto
Olhar.

O AR RAREFEITO
Da montanha
Tomara conta
De mim,
Desfalecia
A emoção
De te rever,
Reinventar
E cantar
Em surdina
Perante o
Silêncio
Cortante
Que me negava,
Impenitente,
O eco da
Minha canção.

ERA POÉTICA
Anemia,
Nos sentidos
Desmaiados
Calava
A melodia,
O som
Era murmúrio
Inaudível,
Sem ponta
De comoção,
Alma ferida
Que já nem
A dor sentia
De tão gasta
Nesse tempo
Por excesso
De paixão.

AGORA DESÇO
Também eu
Ao vale
Da minha vida
E regresso
À triste monotonia,
Sem ti,
Sem corpo
Imaginado,
Semente
De poesia.

O VALE ESPERA-ME,
Já tem sabor
A rotina
Porque sei
Que não te vejo
E estremeço,
Que já não
Sobram sinais
Da rua do
Desencontro,
Fugas
Irreais
Para os teus
Infinitos
Nem janelas
De onde te veja
Passar
Ou sequer imaginar
Na esquina
Esquecida
Do nosso
Contentamento.

ESTOU A PERDER-TE,
Não há janela
Nem infinito
Ou cor,
Não há tempo
Nem lugar,
Não há poema
Nem mar
Que suspenda
O vazio
De não te poder
Encontrar...
.............
Eu perdi-te,
Meu amor.

JAS18Klimt2021_Final1Rec

ARTE AO VIVO – 8

NO MEU JARDIM ENCANTADO

“O VOO DA MAGNÓLIA”, 2021

Partilho a imagem de mais um quadro já pronto para a Exposição em preparação, 90,5×115,5, em papel de algodão Hahnemuehle e com vidro de museu (70%). Este quadro pode ser adquirido, mediante comunicação de eventual interesse via E-mail, WhatsApp ou Messenger.

JAS – “O VOO DA MAGNÓLIA”, 2021

OVoodaMagnolia1

OVoodaMagnolia

PAS DE DEUX

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Penché”.
Original de minha autoria.
Julho de 2021.

1107Pencher2021

“Penché”. Jas. 07-2021.

POEMA – “PAS DE DEUX”

SOU COREÓGRAFO
Da minha alma,
Desenho-me
No espaço,
Embalado
Pela suave
Melodia do teu
Silêncio.

IMAGINO-ME,
Às vezes,
Num "Pas de Deux”
Contigo
Num palco
Em noite
De luar
Ali, na praia
Da meia-lua,
A dançar
O murmúrio
Desse mar
Com que te
Pintas
E ouves
Dentro de ti.

DANÇAMOS
Com palavras,
Enleados
Pelos fios
Dos poemas
Com que
Teimosamente
Ilumino
Os caminhos
Por onde nunca
Ousarás passar.

O SILÊNCIO
É a tua
Sinfonia,
O teu canto
De sereia,
A melodia
Que ressoa
Nesse mar
Murmurejante
De linóleo
Onde nos desenhamos
Em suave
Bailado,
Numa despedida
Que nunca
Terá fim.

GOSTO DESTA DANÇA,
Contraponto
Dos sinais
Invisíveis
Com que pontuas
A tua assinalada
Ausência,
E imagino-te
Num bailado
A solo
Com o som
Da minha poesia
Na praia
Da meia-lua,
Numa noite
De luar
E perfume
A maresia.

CANTO-TE, SIM,
Mas neste meu
Canto
Eu conto-me
Como espelho
Onde podes
Rever
O passado
Desse futuro
Que nunca
Existirá.

AGORA, SOZINHO
No linóleo,
Acendo um sol
Com as minhas mãos
E procuro
O que nunca
Encontrarei...
..........
A não ser
Sombras
De mim próprio
Gravadas
Na areia branca
Da baixa-mar.

ESTE,
O que te celebra
Em arte,
Já não sou eu,
Mas o coreógrafo
Da minha
Melancolia

1107Pencher2021Rec

O BEIJO


Poema de João De Almeida Santos.
Ilustração: "O Beijo". Original
de minha autoria para este poema.

Dia Internacional do Beijo -
- Seis de Julho, dia que celebro,
com um poema, cada ano.  

Inspirado em "Lotte in Weimar"
(1939), de "Thomas Mann,
a obra que continuou "Werther"
(1774), de Goethe, e no meu
romance "Via dei Portoghesi".
BeijoPub2021NvaVFinal

“O Beijo”. Jas. 07-2021.

LEITMOTIV

“O amor é o melhor na vida, assim, 
no amor, o melhor é o beijo –
Poesia do amor...”. “Beijo
é alegria,
procriação é luxúria”

Thomas Mann

 Inspirado também em:

 “Os beijos escritos 
não chegam ao destino,

mas são bebidos pelos
fantasmas ao longo
do trajecto”


Kafka 
“Se para te beijar devesse, 
depois,
ir para o inferno,
fá-lo-ia.
Assim, poderia
vangloriar-me,
com os diabos,
de ter visto o paraíso

sem nunca lá ter entrado”

Shakespeare
 “O primeiro beijo não é dado 
com a boca, mas com os olhos”

Bernhardt

POEMA – “O BEIJO”

FOI O QUE NUNCA
Te dei
A não ser
Com o olhar,
O primeiro,
Esse beijo,
Dei-to, pois,
Sem te tocar.

E DEI-TE MAIS,
Com palavras,
Quando olhar
Já não podia,
Foste embora
Para longe
E eu, triste,
Não te via.

FORAM BEIJOS
Que sonhei
Na rotina
Dos meus dias
E desejos
Que enfrentei
Quando tu mais
Me fugias.

MAS DOU-TE BEIJOS
Escritos
Que se perdem
No caminho
 E se me falta
O poema
Fico ainda mais
Sozinho.

O BEIJO
É emoção,
É razão
Descontrolada,
Se não for dado
A tempo
Pouco mais será que
Nada.

SEM BEIJO
Não há amor,
Sem amor
Perde-se o beijo,
A vida perde
Sentido
Se me faltar
O desejo
De na alma
Te beijar
Por assim te ter
Perdido.

AQUI O LANÇO
Ao vento
Pra que atinja
Como brisa
E suave melodia
Esse rosto
Que precisa
De afecto
Em poesia.

ESSE BEIJO
Que me falta,
De que nunca
Fui capaz,
Voa pra ti
Em palavras
Na sua forma
Mais pura
E desejo que,
No trajecto,
Voe, voe
A grande altura,
Que fantasmas
Não o bebam
E minha dor
Tenha cura.

MAS SEI
Dos escolhos
Da via,
Dos perigos
Que ele corre,
Capturado
Por fantasmas
É mensagem
Que me morre.

NO DIA DO BEIJO
É hora
De te cantar
Em voz alta
A poética do amor
Pra me redimir
Dessa falta
Com palavras
De poeta
Desenhadas para ti
Com mestria
De pintor.

E PORQUE O DIA
É teu
Ganha força,
Intensidade,
Mesmo que fantasmas
O bebam
É um beijo
De verdade.

ESSE BEIJO
Que não dei
Foi pecado
Original,
Hei-de sofrê-lo
Pra sempre
Como chaga
Corporal.

NÃO HÁ PALAVRAS
Que bastem
Pra repor
O que não dei,
Elas voam,
Mas não chegam
E mesmo assim
Eu tentei.

É CERTO QUE SEMPRE
O quis,
Só que nunca
To roubei,
A culpa foi desse tempo,
Dos dias em que
Te amei,
Um tempo em diferido
Sem presente
Nem futuro,
Talvez beijo
Sem sentido
Porque queria
Do mais puro,
Tangendo eternidade
Às portas
Do Paraíso,
Um beijo
De divindade,
Mas simples
Como um sorriso.

ESSE BEIJO
Impossível
Que não é do
Foro humano
Vou tentando
Construí-lo
Cada dia, cada ano,
Perdendo-me
Pelo caminho
Como sagrado
Em profano.
Jas_06Metamorfose04062021Metamjpg

“A Ponte”. Jas. 07-2021. Detalhe.

METAMORFOSE

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Ponte”.
Original de minha autoria
para este poema.
Julho de 2021.
Jas_04Metamorfose04062021

“A Ponte”. Jas. 07-2021.

POEMA – “METAMORFOSE”

CAMINHAS
Suavemente,
Tão irreal,
Sobre todas 
As cores
Que te dei.
És planta
De Jardim
Com perfume
Que eu sempre
Procurei...

TENS FLORES
Brancas
No corpo,
Aquelas de que
 Cuidei,
Alimento
De meus olhos
E aroma
Dos poemas
Que para ti
Cantarei.

CAMELLIA
É o teu nome.
Encontrei-te,
Desta vez,
Em profunda
Solidão,
Alvura
Tão luminosa
Que quase
Te desejei
Na palma
Da minha mão.

QUIS TRAZER-TE
Para dentro
Do poema,
Disseste
Logo que sim,
O encanto 
De um abrigo
Que é cuidado
Por mim. 
 
FALEI CONTIGO,
Dei-te palavras,
Apontei-te
O caminho
Pra vencer 
A solidão
Pois, tu,
Divina brancura,
Não sofrerias
A dor
Se viesses ao
Abrigo
E me desses
A tua mão...

CAMINHÁMOS
Juntos
Numa ponte
Prà outra margem
Da vida
Com passos
De liberdade
Que nunca
Pra nós seriam
Passos de
Despedida,
De tristeza
E de saudade.

VEJO EM TI
Uma mulher
Deslumbrante,
Recrio-te
Com afeição,
Pinto-te
Em movimento,
Quero-te livre
A voar
Ao sabor
Da inspiração,
É azul o teu
Caminho,
Levo-te eu
Pela mão.

ESSA PONTE
De papel
Que parece um
Arco-íris
Vai levar-te
Ao Jardim
Onde a cor
É alimento,
É como favo
De mel,
De meus olhos
O sustento
Quando pinto
O teu rosto
Com palavras...
..........
A pincel.

COMO VÊS,
A solidão
De uma flor
Pode ser libertação
Se a pintarmos
Com palavras
E lhe dermos
Muita cor
Com a força da
Paixão.

ARTE AO VIVO – 5

No meu Jardim Encantado
“Pasárgada”, 2021

Partilho a imagem de mais um quadro já pronto para a Exposição em preparação, 108×138, em papel de algodão Hahnemuehle e com vidro de museu (70%). Este quadro pode ser adquirido, mediante comunicação de eventual interesse via E-mail, WhatsApp ou Messenger.

JAS – “PASÁRGADA”, 2021

PasargadaPub

JAS – “PASÁRGADA”, 2021

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AUSÊNCIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Silêncio”.
Original de minha autoria.
Junho de 2021.
JAS_3Deusa2021PubLUZ

“Silêncio”. Jas. 06-2021.

POEMA – “AUSÊNCIA”

SINTO A TUA FALTA,
Ah, eu sinto,
Por isso canto e danço
Até cair exausto
No palco
De um poema.

SINTO O TEU SILÊNCIO,
Que já nem
Murmúrio é,
Um vazio cá
No fundo
De que o canto
É o eco
E sofrido
Contraponto.

RECORDO,
Mas já não sinto,
O veludo
Da tua pele
E, por isso,
Eu a pinto
Numa folha
De papel.

EU NÃO OUÇO
A tua melodia.
Caio, pois,
Sempre em silêncio
Para melhor
Te sentir
Cá dentro
Da fantasia.

FAZ-ME FALTA
A tua voz,
Faz-me falta
O teu sorriso
E como já nem
Me pintas
O nome
Eu canto-te
No meu poema
Pra que te possa
Inventar.

DA TUA FALTA
Nasceu em mim
Uma orquestra
Para uma
Sinfonia,
Contraponto
Do silêncio
Que teimas
Em desenhar
Como tua melodia.

NA TUA AUSÊNCIA
Eu vejo corpos
Que dançam
Abraçados
Ao sabor da
Fantasia
Em andamentos
Sem fim,
Vejo luzes,
Vejo cores,
Sinto aromas
De mil flores
Que me fazem
 Companhia
Neste palco
De um poema
Inacabado
Porque lhe falta
Alegria.

TU FALTAS-ME
E eu revivo-te
No canto e
Na cor,
Na dança
E no amor...
............
Em poesia.
São palavras
Que lanço
Ao vento,
Construindo
As pontes
Invisíveis
Desta minha
Utopia.

TUDO RECRIO
Pra te reencontrar
À distância
De um poema,
Cantar-te,
Dançar
Com as palavras,
Dizer-te
Em surdina
Para melhor
Ouvir
O que nunca
Me dirás.

VISITO-TE, ASSIM,
Das mil maneiras
Com que te
Procuro
E te digo,
Encerrado
Nesta torre
De marfim,
Numa teia
Enredado
Pra melhor
Te reviver
Com a leveza
Da arte
Cá bem mais
Dentro de mim.

JAS_4Deusa2021PubLUZRec

NA BRUMA DA MEMÓRIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Magia”.
Original de minha autoria.
Junho de 2021.
MagiaFinal2021Ret

“Magia”. Jas. 06-2021.

POEMA – “NA BRUMA DA MEMÓRIA”

QUERIA LEVAR-TE
Uma rosa
Branca
Aos sete céus
Do meu afecto,
Desci fundo
Na memória
Onde ainda te
Guardava
Como se fosse
Teu tecto.

PROCUREI-TE
Na bruma
Espessa
Que caía
Sobre mim
E quase não te
Encontrei,
O tempo gastara
O passado,
Ficou uma saudade
Sem fim.

PERDERA-TE
O rasto
E o perfil,
Até teu nome
Perdeu cor,
Teu olhar
Luzia
Intermitente
Numa neblina
De dor.

NO MEIO DA NEBLINA
Esfumava-se
O teu rosto
De tanto eu
Te perder,
Era incerto
O cintilar
De teus olhos
Na vontade
De te ver.

ERAS BRUMA
Indefinida
Nos céus onde
Te quis encontrar,
Mas sobraste
Como imagem...
..............
A que eu soube
Desenhar.

PERDI-TE A VOZ
E a tua
Melodia,
Quase tudo,
Meu amor...
...............
Ah, mas, no fim,
Não te perdia...
Ficou-me de ti
O sabor.

PORQUE JÁ ERAS
Imagem
Que me sobrou
Desse afecto
Que por ti
Sempre senti,
Construção
De arquitecto
Para nunca
Te perder
Desde o dia
Em que te vi.

E VOLTEI.
(Eu volto sempre).
É desejo
De te ver,
Dar-te corpo
Nas palavras
Com que te quero
Dizer
Ainda que
Do poema
E dos céus
Do meu afecto
Acabe por
Te perder.

AGORA, DESENHO-TE
Com palavras e
Com cores,
Com paisagens
Que tenho dentro
De mim,
Com rostos,
Com aromas
E flores
Deste bendito
Jardim,
Um passeio
Com pavões,
Uma delicada
Utopia,
Gritos de alma,
Emoções...
................
Pra te recriar
Com magia
E contigo
Caminhar
No alto
Da fantasia,
Onde vive
Essa imagem
Que desejo
Encontrar.

VOO, POIS,
Com uma rosa,
Vestido como
Arcanjo,
Pra te ver
Ali ao perto,
Olhos negros,
Cintilantes,
Mas um pouco fugidios
Ao jogo da sedução
Numa noite
De luar...
............
Ou talvez
De perdição.

É UMA ROSA
De brancura
Transparente
Pra que sintas
Lá bem alto
O aroma
Desta minha fantasia.
Talvez assim
Te encontre
Envolta na neblina
Que nunca se dissipou
(Mas agora cristalina)
Desde aquele
Incerto dia
Em que o nosso
Olhar se cruzou.
MagiaFinal2021Ret_REC

“Magia”. Detalhe.

ARTE AO VIVO – 4

NO MEU JARDIM ENCANTADO

Partilho a imagem de mais um  Quadro, dimensão 66×83, já pronto para a Exposição em preparação, em papel de algodão Hahnemuehle e vidro de museu (70%). Este quadro pode ser adquirido, mediante manifestação de interesse via E-mail, WhatsApp ou Messenger.

Título da Obra - “MARÇO” (2021)

Março2021

Março1 copiar

ELAS FOGEM, AS PALAVRAS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Letras”.
Original de minha autoria.
Junho de 2021.
Jas_Novo_Palavras0308

“Letras”. Jas. 06-2021.

POEMA – “ELAS FOGEM, AS PALAVRAS”

QUERIA FAZER-TE
Um poema,
Ser feliz,
Sentir nele
A liberdade
E as palavras
Endoidaram
Quando te queria
Cantar
Invocando
A saudade.

FUGIRAM
Numa revolta
Sentida
Sem conhecer
A verdade,
Deixando-me
Só
Nesta vida,
À deriva,
Sem dó
Nem piedade.

EU ESTAVA
A MENTIR
Sem pensar
Na crueldade
De as usar
Como queria
Só porque
Tinha saudade...

ESGUEIRARAM
Rua fora,
Cada uma
Por seu lado,
Espavoridas,
Em fuga
Deste poema
Tentado.

UMAS ESVOAÇAVAM
No fio
Do horizonte,
Outras
Aninhadas
No passeio
Desta rua
E eu a tentar
O versejo
Enredado
Num enleio
Para dar vida
Ao desejo.

PALAVRAS
em correria,
Letras
Perdendo forma
Como fios
De novelo
Já desfeito
De sentido
Como a água
Do gelo.

SÃO FIOS
Emaranhados,
Letras
Que se deslaçam
E procuram
Outras formas
Para lá da minha
Rima,
Como riscos
Numa tela
A subir
Por ela acima.

QUERIA FAZER-TE
UM POEMA
Com palavras
Desenhadas,
Mas as palavras
Fugiam
E corriam
Assustadas,
Não se viam
Alinhadas
Nesse recanto
Feliz
Onde resisto
À saudade.

ELAS GOSTAM
De cantar
Quando me sentem
Em dor,
Elas gostam
De vibrar
Se me assalta
A emoção,
Mas se me vêem
Feliz
Fogem de mim,
Dizem “Não”.

O POEMA
PASSARINHO
Procura-te
Pra cantar
Mas quando
A dor esvaece
É ele que foge
A voar.

E HOJE
É mesmo assim,
Fogem todas
As palavras
Sem procurar
Um destino,
Já não consigo
Agarrá-las
Num poema
Genuíno.

NÃO SABEM
Da minha dor
E por isso
Vão embora.
Estou sem palavras,
Amor,
Estou muito triste,
Agora.
Jas_Novo_Palavras0308Recort

“Letras”. Detalhe.

O POEMA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Auto-Retrato
de um Poeta”.
Original de minha autoria.
Junho de 2021.
Jas_AutoR210719_21

“Auto-Retrato de um Poeta”. Jas. 06-2021.

POEMA – “O POEMA”

PARA QUE SERVE
O poema
Se ela,
Do outro lado
Da rua,
Não o vê e
Não o ouve,
Não lhe sente
O perfume?

AH, MAS EU SINTO-A
A ela
Do lado de cá
Do poema
E pinto-a
Em aguarela
Pra que veja
A minha cor,
 Olho-a, pois,
Com palavras
E falo-lhe
Como pintor.

PARA QUE SERVE
O poema?
Aquece
A minha alma,
Digo tudo
O que sinto
Mesmo quando
Nos meus versos
Até parece
Que minto.

MAS NÃO ESCREVO
Pra ela
Que não a vejo
À janela
A ver passar
O poema
Na rua do
Desencontro.

O POEMA
É de quem
O possa ler,
Fruir-lhe
A melodia,
É a festa
Dos sentidos,
Da alma
A sinfonia,
É prazer
E emoção,
Só o ouve
Quem o sente,
O poema
É fremente,
Não é coisa de
Razão.

É CANTO
Em harmonia,
É pulsão
Que o sentimento
Desperta,
É sopro que me
Liberta
Das amarras
Da paixão
Porque voo
Em palavras
Ao sabor
Da emoção.

E SE A CHAMO
Ao poema
É pra ter
De volta
O meu eco,
Ouvir o som
De uma dor,
Decantá-la
Em palavras,
Convertendo-a
Em canto
Libertador
Dessa prisão
Que enleia
A que chamamos
Amor.

POR ISSO
EU SOU POETA,
Canto pra quem
Me ouve,
Não aguardo
Reacção,
Porque quando
Alguém nos deixa
Dá vida
À poesia
E asas
À solidão.

EU CANTO-ME
Nestes poemas
Pra resgatar
Minha dor
E se a poesia
Não chega,
As palavras
Não me bastam,
Pois que seja,
Sou pintor.
Jas_AutoR210719_21Rec

“Auto-Retrato de um Poeta”. Detalhe.

O POETA E A MÁSCARA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Transfiguração”.
Original de minha autoria
para este poema.
Maio de 2021.
RossoPub3

“Transfiguração”. Jas. 05-2021.

POEMA – “O POETA E A MÁSCARA”

COMPREI UMA MÁSCARA,
Pu-la no rosto do
Meu amado poeta
E ele não a
Enjeitou.
Ainda por cima
Me disse:
“Sou eu, sou,
Como nas palavras
Que digo
Também meu corpo
Mudou”.

“NÃO ESPERAVAS
Ver-me assim,
É grande o teu
Espanto,
Vá, confessa,
Ganhei um corpo 
De rosa,
Tanta cor
(A que apeteça),
Um rosto
Dissimulado
Pra me curar
Desta dor
Sempre que ela
Apareça
A pedir o meu
Cuidado”.

“ADOPTEI ESTA FIGURA,
Apresento-me assim,
As outras
Nada te dizem,
Com esta
Olhas pra mim”.

“PALHAÇO
É O QUE SOU,
Falo a
Surdos e mudos
Que não ouvem
O que digo
Nem me dizem
O que quero
Como se fosse
Mendigo
Do que, afinal,
Nem espero”.

“VALHA-ME POIS
ESTA MÁSCARA.
Assim,rio
Desta vida,
Rio de ti
E de mim,
Da chegada
E da partida,
Dos abraços,
Das palavras
E, enfim,
Da despedida”.

“SOU PALHAÇO,
É o que sou,
Entretenho-me
A cantar
E se ouvires
Este meu canto
Um poeta
É seu autor,
Por isso tu
Tu não t’importes,
O que diz
É de certeza
Para espantar
Sua dor”.

A MÁSCARA
É o seu rosto,
Colou-se-lhe
Logo à pele
Com a cola
Do desgosto
E por isso
Já nem sabe
Se seu rosto
É o dele.

COMPREI UMA
MÁSCARA
Vermelha
No mercado
Da minha vida,
Ponho-lha sempre
Que posso,
À chegada
E à partida,
E se puder
Não lha tiro
Pra não lhe rasgar
A alma
Pois se o canto
O liberta
É a máscara
Que o salva.
RossoPub3Rec

“Transfiguração”. Detalhe.

LA PORTA DEL TEMPO

Poesia di João de Almeida Santos.
Pittura: "Trasparenza". 
Originale mio.
Maggio 2021.
JAS_Transparência230521_Publicado

“Trasparenza”. Jas. 05-2021.

POESIA – “LA PORTA DEL TEMPO”

UN GIORNO DI PIOGGIA
O di sole
(Non saprei dirlo)
Bussano
Alla porta della mia
Memoria,
Bussano piano,
Leggermente,
Come chi ti chiama,
Come chi ti dice
Cosa sente.

È TRASPARENTE
La porta.
Da li
Si vede il mondo...
E ti ho visto,
Così,
Ho visto il tuo viso
Disegnato
Como se fosse
Un ritratto.

HO VISTO LE TUE LABBRA
Sensuali
Tinte di porpora,
Carnali,
Ho visto il verde
Brillante
Dei tuoi occhi 
Quando il sole,
Innamorato,
Li accende
E mi dà fuoco
All’anima
Perché sto
Accanto a te,
Anche io
Ammaliato.

NON SO SE
Mi hai percepito
Nel mondo magico
Della mia
Fantasia,
Luogo di sogno
E desiderio,
Il mio riparo
Dell’utopia.

SEI ENTRATA
Vibrante,
Brillando
Come l’arcobaleno,
Scintilla
Trasbordante
Di colore
Che arde
E mi brucia...
..........
D'amore.

MA ANCHE TU
Eri trasparente.
Ti guardo
E vedo in te
Il cielo plumbeo
E quieto
Invocando
Malinconia,
Pace,
Nell’inquietudine 
Del giorno,
All’anima mia.

ALL’IMPROVVISO
Nella trasparenza
Del tuo viso
Irrompe il sole
Dorato
Tra il candore
Sfumato
Delle nuvole
Sfuggevoli,
In alto, 
Sulla Montagna
Che sempre 
I miei giorni
Accoglie.

IL DORATO
Diventa ambra
E ti copre 
Il corpo
Nudo
Nell’intangibile
Memoria
Dove sempre
Ti rivedo
Quando si apre
La porta
Del tempo
Con la chiave
Del desiderio.

TI GUARDO COSÌ,
Un pò perso,
In estasi,
E provo a sfiorare
Leggermente
La tua pelle
Di velluto
Satinato...
............
Ma il sole
Ti scolpiva
Il viso
Di luce
E io rimasi
Appena un riflesso
Dei tuoi raggi
Filtrati
Che segnavano
Il destino
Dei miei desideri
Sognati...

MI SVEGLIAI
Sentendo
Delle dita
Che bussavano
Pian, piano
Più in là,
Alla porta
Della mia camera
Immaginata.
Corsi ad aprirla...
.........
Nessuno.
Solo pura 
Nebbiolina
Io vidi.

SONO TORNATO, VELOCE,
Ai colori
Della mia memoria
Per ritrovarti
Nella magia
Del mio mondo,
Ma non c’eri più
Neanche come riflesso
Del tuo lato
Più profondo...

AVEVO LASCIATA APERTA
La porta del tempo...
Tiransparência230521_PublicadoEsteR

“Trasparenza”. Dettaglio.

A PORTA DO TEMPO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Transparência”.
Original de minha autoria.
Maio de 2021.
Tiransparência230521_PublicadoEste

“Transparência”. Jas. 05-2021.

POEMA – “A PORTA DO TEMPO”

NUM DIA DE CHUVA
Ou de sol
(Eu já nem sei),
Batem
À porta da minha
Memória,
Batem leve,
Levemente,
Como quem chama
Por mim,
Como quem diz 
O que sente.

É TRANSPARENTE,
Essa porta.
Vê-se o mundo
Através dela...
E eu vi-te,
Assim,
Vi teu rosto
Desenhado
Como se fosse
Uma tela.

VI TEUS LÁBIOS
Sensuais
 De rubro
Tingidos,
Carnais,
Vi o verde
Brilhante
De teus olhos
Quando o sol
Os acende,
Apaixonado,
E a minha alma
Incendeia,
Por estar ali
A teu lado.

NÃO SEI SE
Me pressentiste
No mundo
Mágico
Desta minha
Fantasia,
Lugar de sonho
E desejo,
 Recanto
De utopia.

ENTRASTE NELE
Vibrante,
Com brilho de 
Arco-íris,
A transbordar
De tanta cor,
Esse brilho
Que me arde
E que queima,
Meu amor.

MAS ERAS
Transparente
Também tu.
Olho-te
E vejo
Através de ti
Um céu plúmbeo
E quieto
A rogar
Melancolia
Que me pacifique
A alma
Na inquietação
Deste dia.

SUBITAMENTE,
Na transparência
Do teu rosto
Irrompe 
O sol,
Coado em dourado,
Por entre a leveza
Esfumada
De nuvens brancas, 
Fugidias,
A nascente,
Lá no alto
Da Montanha
Que inspira
Os meus dias...

 O DOURADO
Ganha tons de
Âmbar
E veste-te o corpo
Nu,
Na intangível
Memória
Onde sempre
Te revejo
Quando se abre
A porta 
Do tempo
Com a chave do
Desejo.

CONTEMPLO-TE,
Assim,
Já um pouco
Perdido,
Extasiado,
E quero tocar,
Ao de leve,
A tua pele 
De veludo
Acetinado...
...........
Mas o sol
Esculpiu-te
O rosto de
Luz
E eu já só era
 Um reflexo 
Dos teus
Raios filtrados
Que marcavam
O destino
De meus desejos
Sonhados...

DESPERTEI
Ao som
De dedos que batiam
Levemente,
Mais além,
À porta
Do meu quarto
Imaginado.
Corri a abri-la...
.......
Ninguém.
Era pura neblina 
O outro lado.

REGRESSEI, RÁPIDO,
Às cores
Da minha memória
Para te reencontrar
Na magia
Do meu mundo,
Mas tu já não
Estavas,
Sequer como reflexo
Do teu lado
 Mais profundo...

DEIXARA ABERTA
A porta do tempo...
Tiransparência230521_PublicadoEsteRec

“Transparência”. Detalhe.

A FRONTEIRA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Horizonte”.
Original de minha autoria.
Maio de 2021.
JAS_Horizonte2021_12

“Horizonte”. Jas. 05-2021.

POEMA – “A FRONTEIRA”

OLHO A MONTANHA
Da porta
De granito
Amarelo,
Com cristais,
Sobre o ocre
De um telhado
Como se fosse
Janela
De um palácio
Encantado
Que do sonho
Fosse cais.

CONTEMPLO
A linha do horizonte,
Mas é diferente
A visão.
Antes, eu via futuro,
Agora, vejo passado,
Essa tão bela
Ilusão
De a ter sempre
A meu lado.

ENTRE PASSADO
E FUTURO,
É a minha
Identidade,
Ficou quieta
À minha espera
Quando dela
Eu parti
Ao encontro
Da cidade.

ELA É PORTO
De abrigo
E é lugar de
Partida,
É, pois, mais
Que uma porta,
É fronteira
Que passamos
No desafio
Da vida.

MAS É ETERNO
Retorno,
Um regresso
Renovado
Onde posso
Renascer
Quando visito
A memória
Do que não
Quero perder,
Ficando sempre
A seu lado.

ESTA PORTA
É magia,
Viajo sempre
Por ela
Porque é uma
Janela
De onde voa
A fantasia.

DELA ALCANCEI
O mundo
E o mundo veio
Até mim,
Ao passar por
Esta porta
Sinto o meu
Horizonte
Como fronteira
Sem fim...

POR ISSO REGRESSO
A ela,
Esse pilar
Do meu ser.
Quando chego,
Logo amanhece,
E quando estou
De partida
Sinto que
 O mundo
Acontece
Como a montanha
Na vida.
JAS_Horizonte2021_12Rec

“Horizonte”. Detalhe.

UM BRILHO NOS TEUS OLHOS…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Teus Olhos”.
Original de minha autoria.
Maio de 2021.
Jas_TeusOlhosPublicadoFinal2_0905

“Teus Olhos”. Jas. 05-2021.

POEMA – “UM BRILHO NOS TEUS OLHOS…”

OLHEI-TE NOS OLHOS,
Eram negros,
Intensos
E tão profundos,
Toquei teus cabelos
Com o olhar,
Caminhei a teu lado
Nesse jardim,
Senti o teu corpo
Tão perto de mim
A respirar
O acre perfume
Dessa ramagem
Do belo jasmim...

INEBRIOU-ME
Esse intenso
Aroma
E eu enredei-te
Num tão doce
Enleio
Que não tinha fim...

BRILHARAM
Pra mim,
Tão docemente,
Duas horas inteiras,
Esses teus olhos...
..................
E neles me perdi.

ESTIVE NO CÉU
Ao lado de deus
E lá vi dois sóis...
..................
Que não eram dele
(Uma luz intensa)
Porque eram teus.

MAS O TEMPO
Correu
Depressa demais...
...................
E é sempre assim.

TODOS OS DIAS
Se tornam iguais
Quando tu partes
E, em nostalgia,
Eu fico no cais.

VOLTEI A OLHAR-TE
Três horas seguidas.
Parecia verdade,
Mas era ilusão
Porque partiste
Deixando-me só
E o que sobrou
Foi solidão.

SUBIU A TRISTEZA,
A saudade irrompeu
Colou-se-me
Ao rosto...
..............
E como doeu!

SE EU NÃO TE VEJO
Sinto
Falta de ti,
Mas se te encontro
Logo te perco
Porque o tempo
Voa
E logo te leva
Pra longe dali.

TER-TE DEMAIS
Aumenta a saudade
E quando te vais
São tristes
As ruas
Da nossa cidade.

AINDA QUE TRISTE
Eu sou feliz
E com estas mãos
Te vou escrevendo
O que quero dizer,
Mas este meu tempo
Volta a correr
E cresce a vontade
De logo te ver
Mesmo que saiba
Que é nesse instante
Que te vou perder.

TENHO SAUDADES,
Saudades de ti
Desse virar
Da nossa esquina,
Na mesma rua
Onde te vi,
Dessa janela
Donde espreitávamos
O que do mundo
Sobrava pra nós.

EU JÁ NEM SEI
Que hei-de fazer,
Ter-te demais
É puro prazer,
Mas quando te vais
Fico sombrio,
Quase a morrer.

NEM SEI QUE TE DIGA.
Quando me deixas
Já nem sinto a dor
Tão grande a tristeza
De já não te ter
Pois tu partiste
Mesmo sem querer,
Ah, meu amor.
Jas_TeusOlhosPublicadoFinal0905R

“Teus Olhos”. Detalhe.

NÃO SEI

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Folhas Caídas"
Original de minha autoria
para este poema.
Maio de 2021
Magnolândia020521Pub

“Folhas Caídas”. Jas. 05.2021.

POEMA – “NÃO SEI”

SE ME PERGUNTARES
Por que razão
Eu te amo,
Respondo-te
Com timidez:
Eu não sei,
Mas sinto-te
Como dor
Que persiste
E que derramo
Nos poemas
Que te faço
E que sempre
Te farei.

SE ME PERGUNTARES
Pelo que dói
Neste tão estranho
Amor,
Respondo-te
O pouco
Que ainda sei:
Que sinto
Pungente dor
Esparsa
Sobre meu corpo
Como sentido
Penhor
De um rapto
Imprevisto
Que nunca há-de
Ter fim.

SE ME PERGUNTARES,
Depois,
Se sinto
A tua falta,
Respondo-te
Logo que sim,
Que tenho sempre
Saudades
Mesmo quando
Eu te tenho
Aqui bem junto
De mim.

“ - PORQUE SOU EU
A mulher
Que te merece
Atenção?”.

AH, ISSO EU SEI.
Foi o destino,
A salvação,
Um encanto
Repentino...
..............
E tudo o mais
Eu não sei
Quando te beijo
Na alma.

“- O QUE SABES
TU DE MIM,
Neste teu
Desejo ardente?”

POUCO OU NADA
Sei de ti
E sabendo
O que não sei
Não te amaria
Às cegas,
Assim tão
Intensamente...

AMAR-TE
É como beber
Tempestades,
É dor que
Não se sabe
Onde está,
É a alma
Sempre quente,
É mistério
Revelado,
É encanto
Permanente,
O reverso
Do saber,
Luz intensa
Que me cega
E também
Fascinação,
Tremor
Que nunca acaba,
Lado oculto
Da razão.

“- PRA QUE ME QUERES,
Então, meu amor?”

EU QUERO-TE
Para te querer,
Simples vontade
De ti
Como fim
Do meu viver,
Sentir saudades
Do que estou
Sempre a perder,
Olhar-te nos olhos
E ver neles
O teu mundo
E o mundo
Dentro deles,
O brilho
Embaciado
De um olhar
Onde um dia
Me revi...
...........
E se acaso
Eu souber
Por que razão
Te amei
Chorarei
Até ao fim
Porque então
Descobrirei
Que por isso
Te perdi.
Magnolândia020521Pub-cópia

“Folhas Caídas”. Detalhe.

LIBERDADE

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Liberdade".
Original de minha
autoria para este poema.
 Abril de 2021.
Liberdade250419_21

“Liberdade”. Jas. 04-2021.

POEMA – “LIBERDADE”

PERGUNTEI-TE,
Num dia
De sol:
“Voas comigo
Prà linha
Do horizonte?".
Deste-me a mão
E sorriste:
“Voo, sim,
Pois preciso
De ar puro
Lá bem no alto
Do Monte”.

E PARTIMOS.
Tu levaste
O arco-íris
Que tinhas
Dentro de ti
E eu as letras
Que tinha
Comigo,
Alinhadas
Nesta alma
Solitária,
Feita seu porto
 De abrigo.

ENREDÁMOS
Todas as cores
Com linhas
De palavras
Deslaçadas,
Construímos
Asas em forma
De verso
E voámos
No céu
De um poema
Pintado todo
De azul...

ANDEI CONTIGO
Por lá
Anos a fio,
Vagueando
Ao sabor da
Inspiração,
Levados
Pela brisa
Que sopra fria
No Monte,
Mas afaga
O coração.

E COMO GOSTEI
De voar contigo,
Livres como
Pássaros
Sobre o vale
Onde te encontrei
Um dia,
Construindo
Castelos
Na areia
Com a força
Da fantasia.

É ASSIM QUE EU
Te vejo,
Tecendo a vida
Com sopro
Na alma
E as cores
Do arco-íris
Pintadas
Por tua mão
Como pautas
Coloridas
Dessa bela
Melodia
Que era a nossa
Canção.

FOI ASSIM 
Que nos dissemos
Nesse tempo,
Livres de amarras
Que não nos deixam
Voar,
Cantando 
Em arte
Um destino
Marcado
Pela vontade
De fazer
Da nossa vida
Caminho
De liberdade.
Liberdade250419_21Rec

“Liberdade”. Detalhe.

NOVO

PINTURA 3

DUAS OBRAS de minha autoria
já expostas em espaços privados
(1 - 48X60, papel de algodão
Hahnemuehle, gram. 300 e
2 - 33X48, Cartol., 315).
Abril de 2021.

1. FANTASIA DO POETA. 2019

O Poeta

2. O DESEJO. 2020

O Baile

NOVO
CINCO OBRAS de minha autoria
já expostas em espaços privados
(33X48, Cartol. gram. 315).
Títulos por ordem numérica de 
apresentação das obras infra.
  1. Dame mit Ohrring. 2018.
  2. Bianco&Nero. 2020
  3. Montanha Encantada. 2020.
  4. Horizonte. 2018.
  5. Letras. 2019.

Dame mit

AnaBianco&Nero

Montanha Encantada2018

JAS_Horizonte2018

Letras_JFP

ORIGEM

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Voar 
no Céu de um Poema”.
Original de minha autoria
para este poema.
Abril de 2021.
VoarFinal

“Voar no Céu de um Poema”. Jas. 04-2021.

POEMA  – “ORIGEM”

A SUA ARTE
Nasceu contigo,
Do mistério e do
Silêncio
Que te enchia a alma,
A transbordar,
Um inesperado
Encanto
Que o cativou,
Para nunca
Mais parar.

FASCINADO
Pelo teu olhar
Profundo,
O teu ímpeto
Imparável,
Fúrias
Quentes,
Cabelos negros
Desgrenhados,
À solta
Sobre teu corpo
Incerto,
A arder...
.................
Ele sentia-te,
Mas não sabia
Que fazer...

NASCEU, ASSIM,
No teu regaço,
Em tormento,
Aninhado
Na bruma
Densa
E misteriosa
Do encantamento.

DEPOIS CRESCEU
E quis a perfeição,
Seduzir-te
Através do vento
Que te soprava
Na alma,
Palavras cálidas,
Ritmadas
À medida que te
Ia perdendo
No implacável
Tempo
Da renúncia.

E TU COLHESTE
A tormenta
No dia-a-dia
(Eu sei),
Obsessão
Martelante,
Castigada
Com palavras
Repetidas
E gastas
À exaustão
Até à fuga
Para o nada,
Cheia de tudo
O que não tiveste,
De tão sofrida
E tão amada...

MAS LEVASTE
Contigo o poeta
E muito mais,
Grávida de palavras
Não ditas,
Olhares falhados,
Imperceptíveis
Sinais,
Silêncios gritados,
Quieta turbação,
Lava oprimida
No centro de um
Vulcão
Que te alimenta
E consome
Nessa tua inefável
Solidão.

E O POETA
Capturou-te
Dentro de si
Para te libertar
Com metódica
Persistência
Em poemas,
Nuvens
Cintilantes
Que espalha
No teu céu,
Sobre ti,
Para te refrescar
A alma
Incandescente.

E EU,  
Seu confidente,
Vejo-te
Da minha
Janela, ali,
Só,
A olhar
O céu,
As nuvens
Brilhantes
Do poeta,
À espera
Da chuva
E dos trovões
A troar 
Com raios de luz
Sobre o teu
 Sempre inquieto 
Olhar...

MAS UM DIA VIRÁ
O tempo
Do reencontro
Sem clamor
Nestes sofridos
Poemas
Onde o poeta
Te reiventou
Para o amor.
VoarFinalR

“Voar no Céu de um Poema”. Detalhe.

CINCO OBRAS 
de minha autoria
 expostas em espaços privados. 
(50X70, em papel Hahnemuehle, 300)
Título das obras por ordem. 
No fim, 1 e 2 
em sala de jantar.
  1. "CRISTAIS". Jas2020
  2. “S/TÍTULO”. Jas2020
  3. “RUBOR”. Jas2020
  4. “HÁ VIDA NO JARDIM”. Jas2020
  5. “TERRAÇO”. Jas2020

PHOTO-2021-03-04-21-48-34

AG2_Quadro

PHOTO-2021-03-04-21-48-37

AG_Quadro

Marinha2020

AG_Sala

MUSA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Desejo”.
Original de minha autoria
para este poema.
Abril de 2021.
Desejo11_04.21psd

“Desejo”. Jas. 04-2021.

POEMA – “MUSA”

EU TENHO UMA MUSA
Guardada
No fundo
Da minha memória,
Perdi-lhe o rasto
Ao corpo,
Ficou-me dela
O mistério
Que me alimenta
O estro
Quando a saudade
Me assola.

SOBROU-ME
Recordação,
Marcas cá
Dentro de mim,
Desço ao fundo
Da alma
Mas nunca
Lhe vejo
O fim.

E ASSIM NÃO A
VISLUMBRO,
Há uma certa
Escuridão,
Olhar de nada
Me serve,
Restam-me
As cicatrizes
E uma funda
Solidão.

ÀS VEZES DESENHO-LHE
O corpo,
Ponho-lhe cores
Muito vivas,
Pinto a alma
Com palavras,
Dou-lhe nome
Que não é seu,
Levo-a nos meus
Poemas,
Devolvo tudo
O que resta
Do que ela
Não me deu.

VALE-ME A POESIA
Pra onde fujo
Com ela,
É como as ondas
Do mar
Que vejo
Da minha janela.

TENHO UMA MUSA
Nesse mar
Que não tem fim,
Revolvo-me
Nas suas ondas,
Regresso depois
Ao poema
Onde sorri
Para mim.

NÃO IMPORTA
Onde está,
Musa é fonte
De inspiração
Desde que a tenha
Na alma
Esse lugar
De paixão.
Desejo11_04.21psdRec

“Desejo”. Detalhe.

VOU CONTIGO PRA PASÁRGADA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Pasárgada".
Original de minha autoria
para este poema.
Abril de 2021.
Pasárgada2

“Pasárgada”. Jas. 04-2021.

POEMA – “VOU CONTIGO PRA PASÁRGADA”

A Manuel Bandeira
VOU CONTIGO
Pra Pasárgada,
É outro mundo,
Irmão,
Quero ir-me
Embora,
Já me falta
Inspiração
Porque a brisa
Do nordeste
Ficou lá,
No Maranhão.

NÃO TENHAS,
Manel,
Saudades,
Nostalgia do futuro,
Temos passado
Que baste
E às vezes
Até foi duro.

VOU CONTIGO
Pra Pasárgada
Não quero
Ficar aqui,
Há tempestade
No ar,
A brisa
Da liberdade
Não passou
Do Piauí.

PRA PASÁRGADA
Quero ir,
Lá todos
Falam verdade,
Por aqui,
Ah,
Eu já nem sei,
Falta-me
Liberdade,
Aquela que
Conquistei.

GOSTO DE TI,
Poeta
Do reino
Da utopia,
Onde se pinta,
Canta
E dança
Ao sabor
Da poesia,
Porque o ar
É do mais puro...
..........
E cheira
A maresia.

NÃO GOSTO
D’estar aqui,
Há ruído
Que é demais,
Esta terra
Já não me serve,
Eu espero-te
No cais,
Vou contigo
No teu barco
À procura
De mar calmo,
Céu sereno
E tudo o mais,
Navegando
No azul,
Peixes voando
No mar,
No horizonte
Uma ilha,
Mulheres lindas
A acenar...

EM PASÁRGADA
Sou feliz,
Danço poemas
Ao raiar da
Madrugada
Até que o corpo
Se canse
Com alma
Apaixonada
E adormeça
No regaço
Da mulher
Que for amada.

POR AQUI OUÇO
Ruído,
Há armas
A crepitar,
Matam poemas
Com gritos,
Já nem podemos
Cantar.

VOU CONTIGO
Pra Pasárgada
No barco
Da poesia,
Lá cantarei teus
Poemas
Seja noite
Ou seja dia
E pedirei
A Athena
Que me dê
Inspiração
E me ajude
A compor
Um hino
À liberdade
Que seja
A nossa canção.
PasargadaRec

“Pasárgada”. Detalhe.

SEGREDO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Deusa das Camélias”
Original de minha autoria
para este poema.
Março de 2021.
210321_6psdFim

“Deusa das Camélias”. Jas. 03-2021.

POEMA – “SEGREDO”

VOU CONTAR-TE
Um segredo:
Amei-te
Em poesia,
Oh, se amei!
As palavras eram
Graves
(Bem sei)
Mas sempre cheias
De cor,
As rimas
Eram suaves
Em melodia
Com dor,
Tudo o que
De ti
Me sobrou...
..........
Meu amor.

CONTEI-TE HISTÓRIAS
De desencontros
E dancei
Com palavras
Luminosas
Que inventei
Para por dentro
Te ver
Nesse jardim
De camélias
Que cultivas
No teu peito
E que eu pinto
Com desvelo
Pra deste modo
Te ter.

CANTEI
Pra te aquecer
Na fria dança
Do silêncio
E contigo levitar,
Voando,
Invisíveis,
Sobre ruas
E sobre praças,
Ao luar,
Para, depois,
Pela manhã,
Acordar
E um arco-íris
Erguer
Como ponte
Desse vale
Exuberante
Onde te sonho,
Neste meu
Entardecer.

SONHO, SIM,
Alheio ao bulício,
Ao indiscreto
Cochichar
Dos que vivem
Na rotina,
Dos que
Não sabem
Voar.

AH, QUE SONHO!
Não sei se
Pousaram
No parapeito da
Tua janela
As palavras
Que sonhei...
.................
E se alguém te
Contou
Que andavam
Borboletas
No ar,
Esvoaçando,
Perdidas,
À procura de pólen
Nos jardins
Verdejantes das
Nossas vidas...

MAS TU PERGUNTAS,
Agora,
Se ainda vivem
As borboletas
De vida breve,
Se regressam
Ou já pousaram
Noutro jardim,
Se há pólen,
Se há vento
Ou pensamento
Que as traga
De volta
Desse incerto
E imprudente
Confim...

E EU RESPONDO
Que a sua vida
E destino
São o brilho
Deste céu
Que vive
Dentro de mim.
210321_6psdFimRec

“Deusa das Camélias”. Detalhe.

CAMINHOS PARALELOS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Voo da Magnólia”.
Original de minha autoria
para este poema.
Março de 2021.
JasMag210321_Pub

“O Voo da Magnólia”. Jas. 03-2021.

POEMA –  “CAMINHOS PARALELOS”

POR CAMINHOS
Paralelos
Nos seguimos
Ao infinito,
Pintei o meu
De vermelho,
Mas o teu
É mais bonito.

GASTEI
As minhas palavras,
Gastei cores,
Eu já nem sei,
Mas porque o silêncio
É de ouro
Só das palavras
Cuidei.

TIREI-LHES
Logo o som
Por saber
Que te doía,
O silêncio
Ficou rei...
.................
Até que falemos,
Um dia.

A ESTES SENDEIROS
Cheguei
Quando eu te
Conheci
Ao romper
Da primavera.
Foram-se anos,
Bem sei,
Desde que o
Destino  
Me pôs
Nessa rua
À tua espera.

AGORA SÃO
Caminhos
Paralelos,
Nisto, naquilo,
Talvez em tudo,
Sei lá,
Tu estás
Do outro lado
E eu não te vejo
Por cá,
Na rua
Da poesia
Que logo ficou
Deserta
Quando te
Foste embora
Dessa forma
Inesperada...
..................
Mas que o oráculo
Previa,
Pois a porta
Estava aberta
Sem fechadura,
Sem nada.

NO HORIZONTE
Que alcanço
Fica o ponto
Destas linhas
Paralelas,
Convergimos
No olhar,
Mas não caminhamos
Por elas
Porque a vida
Nos tirou
Da rua
Da poesia...
..............
E das tuas
Aguarelas.
JasMag210321_PubRec

“O Voo da Magnólia”. Detalhe.

OLÁ

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Evocação 
de uma Magnólia”.
Original de minha autoria
para este poema.
Março de 2021.
Magnólia1103

“Evocação de uma Magnólia”. Jas. 03-2021.

POEMA – “OLÁ”

PEDI-TE UM DIA
Num poema
Que te fiz
Que me dissesses
 Olá.
Eu ficaria feliz
De ouvir a tua
Voz
Sussurrando
O meu nome
Como as águas
Do rio
Beijam as águas
Da foz.

E OLÁ TU ME
Disseste,
Mas rápido
Como o vento
Que sopra
Na minha alma
Quando cruzo
O teu olhar
E me sinto
Estremecer,
Não por fora,
Mas por dentro,
Onde sou livre
De amar.

BALBUCIEI
O teu nome
Já distante
Do olá
Sem saber
O que fazer,
Se chamar-te
Até mim
Ou para longe
Partir,
Por não saber
Que fazer,
Por não saber-te
Sorrir.

MAS QUANDO VIREI
O meu rosto
Vi-te de novo
Austera,
Muito fria
E distante...
............
Ignoravas
O passado
Que passara
Nesse instante.

E, DEPOIS,
Tantos olás
Te pedi,
Tantas vezes
Te chamei,
Os poemas
Que escrevi,
Palavras
Que derramei
Sabendo nada
De ti,
Mas sofrendo
Intensamente
Por tudo
O que já sei,
Por tudo
O que perdi.

TALVEZ O VENTO
Te chame,
Talvez esta flor
Te seduza,
As raízes te
Comovam
Ou o poema
Te diga
Que nunca
É tarde
Demais
E que em seu
Eco
Te encontre
E abrace
Por sinais.
Magnólia1003TRArec

“Evocação de uma Magnólia”. Detalhe de outra versão.

VIAGEM

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Espanto”.
Original de minha autoria
para este poema.
Março de 2021.
Jas_Camelia4 cópia

“Espanto”. Jas. 03-2021.

POEMA – “VIAGEM”

ERA UMA VEZ
Uma camélia que,
Num sonho,
Me encantava,
Uma fada
Em busca
Do que eu perdera
No jardim
Onde morava.

FLOR DE ALVURA
Deslumbrante
Iluminou-me
A vida,
Nesse instante,
Na procura das raízes
Que sobraram
De uma estranha
Despedida
De dias que não
Voltaram.

MOSTRAVA
Um inocente
Espanto
De me ver
Assim, sozinho,
De repente
E por encanto,
Perdido
Do meu caminho.

E PARTIU.
Levou
A luz
Que o seu corpo
Acendia
Nesse estreito
Sendeiro
Onde a solidão
Não cabia.

DEIXOU O JARDIM,
Vida adentro
Por caminho
Original,
Era um feixe
De luz
À procura
Do que ficara
Perdido
Lá no fundo,
Num recife
De coral.

MAS ENCONTROU-TE
À tona,
Vagueando
No mar plano
Da vida
Sem saber
Onde ficara
A tua praia
Perdida.

E REGRESSOU
Ao jardim,
Triste
De não te poder
Resgatar
Dessa vida,
À deriva
Em ondas
De alto mar.

FOI À PROCURA
De cores,
Queria muitas
E vibrantes,
E encontrou
No jardim
Umas luzinhas
Brilhantes,
Dessa luz
Que não tem fim
Como a que
Guia os amantes.

E LÁ FOI
E anda ela,
Umas vezes
É pura luz
E outras
É aguarela,
Sempre
À procura de ti,
Levada
Pela corrente,
Com timidez
E espanto,
Por aí,
Até que um dia
Te encontre,
Talvez triste
E conformada,
Aninhada
Num recanto
De vida
Desperdiçada.

DAR-TE-Á
As suas cores,
Regressando
Ao jardim
Pra de novo
Iluminar
A minha melancolia
E ser regada
Por mim
Nas tardes
De cada dia.

CAMÉLIA
Encantada
No poema
E na pintura...
.............
Assim te vou
Recriando como
Fada
Que me cura!
Jas_Camelia4 cópiaR

“Espanto”. Detalhe.

 
 
 
MARÇO
 
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “S/Título”.
Original de minha autoria
para este poema.
Último dia de 
Fevereiro de 2021.
Magnol280221Publcdo

“S/Título”. Jas. 02-2021.

POEMA  – “MARÇO”

GOSTO DE MARÇO,
Entre a neve
E a primavera,
O branco e
E as flores,
Na fronteira
Uma quimera.

GOSTO DO BOTTICELLI,
Dos rostos
E dos corpos
Feminis,
Volúpia de
Transparências
Sensuais,
Primaveris.

GOSTO
Da pele macia,
De seda e
Suave cor,
Gosto
Dos traços
Que desenham
Alvura nas
"Três Graças"...
.............
E no Amor.

GOSTO DO BRANCO
Da magnólia
E do branco
Da Montanha,
Gosto
Dessa cor que
Que brilha
Nos meus olhos
E me acompanha.

GOSTO DE MARÇO.
Entrei nele
Contigo,
No signo do
Desencontro
Que se repete
Num longo
Silêncio fatal,
Marcado
Contraponto
Desse tempo
Imprevisto
De um “triste
Destino”...
........... 
Quase irreal.

PARA TI COLHIA
Flores luminosas
E a inspiração
Crescia
Em estrofes
Desenhadas
Com magia,
 Fingindo
Sentir
O que dizer
Não podia,
Fosse só 
Em duas horas
Ou fosse
Por todo um dia.

NO SIGNO
Do desencontro
Marcado como selo
Lá vou eu
Por aí,
Nem sei porquê
(Ou por falta de ti),
De braço dado
Com Botticelli,
Lá em cima,
na Galleria,
Oráculo
De arte
E fantasia.

SINTO-TE PERTO,
Ah, sinto!
Depuro
A tua imagem
Em bissetriz
De mil rostos
Até se tornar
Ideia
De corpo ausente:
Dialéctica
Animada
De opostos.

DEPOIS REINVENTO-A
A cada instante,
Abraço-a
Com alma
De amante,
Pinto com
Palavras
O seu perfil
Ideal
E fixo-a 
De novo
Neste meu mundo
Mental.

AO ACORDAR,
No amanhecer
De cada poema,
Verei que continuas
Em mim,
De olhos fechados,
Como se fosses
Sonho do que
Nunca aconteceu
Naqueles dias
Passados.

ANDAREI
Por aí
(Os astros o dirão),
Vagando
E pousando 
O olhar
No pólen
Da beleza 
Sensível
À procura
De seiva fresca
Para desenhar
Poemas
E dar vida 
Ao impossível.

LÁ NO ALTO
Te encontrarei,
Imitação
Dos dias
Da criação,
A construir infinito,
Onde, num adeus
Sem fronteiras
Nem cais de partida,
Hás-de desenhar
Com a alma
As mil silhuetas
Ainda inacabadas...
...............
Ou talvez não!

MEU DEUS,
Como gosto de ti,
Em Março,
O mês da floração
Quando a magia
Renasce
Para renovar
A vida
Com a força da 
Paixão.
Magnol280221PublcdoRec

“S/Título”. Detalhe.

COR, DÁ-ME COR

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Policromia”.
Original de minha autoria
para este poema.
Fevereiro de 2021.
Campainhas02_2021

“Policromia”. Jas. 02-2021.

POEMA – “COR, DÁ-ME COR”

COR, DÁ-ME COR,
Fico mais perto
De ti
Se vieres
Com o vento.
Cor, dá-me cor,
Que as palavras
Coloridas
Já me sabem
A cinzento.

PALAVRAS
Nunca me faltam,
Nem vivo
Na escuridão,
Ainda consigo
Cantar-te,
Com palavras
Dar-te a mão.

TENHO-AS
Que me cheguem
Para gritar
Em vermelho
O concreto
Do teu nome,
Ver-te, assim,
Tão colorida
No vidro do meu
Espelho
Sem que a tristeza
Assome.

AH, MAS A COR
Se for intensa
E crescer
Em explosão,
Se tiver
Um contraponto
Em palavras
De paixão
Que dão ritmo
Ao azul
Dos teus sonhos
De papel...
............
É tudo
O que eu preciso
Pra t’esculpir
A cinzel.

DÁ-ME COR
Que eu sou
Sensível
Ao brilho
Do teu olhar,
Sinto-o nas
Flores que
Pinto
Quando vestes
O vermelho
Com azul
Como espelho
Ou te cobres
Com as cores
Do arco-íris
Que és.

TU ÉS COR,
Gota d’água
Suspensa
No fio
Do horizonte
Beijada por
Raios de sol
Que despontam
Lá em cima
No meu Monte.

DANÇAS COM ELA,
A cor,
E com ela
Adormeces,
Por amor.
É sopro
De liberdade
Quando a vida
É um sonho
E o poema
A verdade.

 EU GOSTO DE
Te pintar
Com palavras,
Onde o azul é
Mais íntimo
E o verde
Te cobre
Como manto
De primavera,
Onde o vermelho
É pranto
Sem lágrimas
De enxugar
Nem sequer
Em amarelo
Porque me tolda
O olhar.

NA COR DAS MINHAS
Palavras
Te vejo e
Te revejo
As vezes
Que eu quiser
Pois és mais
Do que um desejo
Nos poemas
Que componho
Sobre um rosto
De mulher.

EU GOSTO
Da tua cor,
De me confundir
Com ela,
Dançá-la
Como vida
Em explosão,
Fogo de artifício
Que embriaga
Os sentidos
Como se fosse
Vulcão...

EVOCO
O poeta
Que pedia
“Mais luz!”
Já em seu leito
Fatal...
Tinha luz
Dentro de si,
Mas a cor
Já não entrava
No portal.

ERA CINZENTA
A cor
Que lhe restava
Até ao escurecer
Quando a janela
Se fechava
Ao seu desejo
De ver.

LUZ É COR,
Desperta da
Letargia,
Ressuscita
Do torpor,
É cântico,
É utopia,
Chilreio de
Passarinho
Que anuncia
Os meus voos
Aos azuis
Com que te
Pinto
E afago
Com carinho.

MAS A PALAVRA
Fascina,
É com ela
Que te canto
E leio
Na tua alma.
Na cor, tua
Roupagem,
Danço, sim,
E voo
Em liberdade,
 Mas na palavra
Suspendo
O frémito
Dos meus sentidos
Para melhor
Te sonhar
Por todos os dias
Perdidos...
..............
À deriva
No teu mar.
Flowers210221R

“Policromia”. Detalhe.

CHÃO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Luz na Montanha”.
Original de minha autoria
para este poema.
Fevereiro de 2021.
JAS_A MontanhaFinal0902

“Luz na Montanha”. Jas. 02-2021.

POEMA  – “CHÃO”

DESCESTE,
Não sei bem
De onde.
Cravaste raízes
Profundas
Neste meu
Sagrado chão.

AO LONGE,
Lá na montanha,
Surge, do nada,
Incandescente,
Um clarão.
São os meus olhos
Que te iluminam...
..............
Ou talvez não.

NUNCA VI
Chover do céu
Tanta luz...
.............
E no chão
Que sempre piso
Tão delicada raiz
Que cresce
Dentro de mim
E, suave,
Me conduz
Como quando
Me sorris.

ESTA LUZ
Que lá do alto
Ilumina
É magia,
É milagre,
É fogo
Que me fascina
Neste meu
Entardecer...
.............
Faz-me voar
Para ti
Apenas para
Te ver.

MAS NAS RAÍZES
Que crescem
Por dentro
E por fora
Como rendilhado
Neste meu chão
Seminal
Fica presa
A minha alma
Como se fosse
Prisão...
....................
Por pecado capital.

ELEVA-SE NELAS
A geometria
Perfeita de um
Monólito
Sideral
Para te invocar
Em ritual
De montanha
Onde possas
Renascer
Como a divindade
Da chama.

A MAGIA
Deste chão,
Despertada pela luz
Que vem lá
De cima,
Do alto,
Devolve-me
A liberdade,
Acende-me a fantasia,
Põe-me a alma
Em sobressalto
E o corpo
Em euforia...

ENTÃO, CANTO
Então, danço
Neste chão
Que é só meu,
Dou asas
À fantasia
E a fronteira é o céu.
JAS_A MontanhaFinal0902Rec

“Luz na Montanha”. Detalhe.

 “UM SONHO NA MINHA ALDEIA”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Rua do meu Jardim”.
Original de minha autoria.
Fevereiro de 2021.
RuaDaAldeia2021Pub

“A Rua do meu Jardim”. Jas. 02-2021.

POEMA – “UM SONHO NA MINHA ALDEIA”

SONHEI-TE ESTA NOITE
Numa rua
Da minha aldeia.
Não sei porquê
(Os sonhos são
Sempre assim),
Caminhámos
Lado a lado
Sem dizer
Uma palavra,
Sem um olhar
De través,
Apenas
Pressentimento,
Cá bem no fundo
De mim,
Sentindo-te
No que tu és.

DUAS VEZES
Lá estive
A sentir-te
Nesse tempo
Diferido
Dos encontros
Intangíveis
Que se desfazem
Nas nuvens
Quando o céu
É proibido
E os afectos 
Impossíveis.

MAS VI-TE
Com nitidez
(Um pouco baça,
É certo)
No silêncio do meu
Sonho,
Em encantada
Alvura
A recordar
Tempo antigo
Quando a neve
Regressava,
Branca e leve
Fria e pura.

FOI NA RUA DO JARDIM
(É assim que eu 
A chamo)
Em frente
Da minha casa,
Onde me via
Passar,
Sendeiro da minha
Vida,
A caminho do futuro
Sem medo
Da despedida.

CRUZÁMO-NOS
Por pouco tempo,
Como na vida real,
Nem um olhar
Nos trocámos,
Tão fugaz foi
Este sonho,
Mas intenso
E vital.

E SE A VIDA
É sonho
Também os sonhos
São vida,
Pois senti que,
Na verdade,
Sonâmbula
Me encontraste
Na rua
De uma aldeia
Nunca antes
Percorrida.

E AQUI ESTOU
A sonhar-te
Outra vez
Nos versos
Com que te chamo,
Recordando que
Te vi
Neste lugar
Que eu amo.

É SEMPRE ASSIM,
Meu amor,
Quanto mais tu
Te esfumas
Mais me cresce
Esta dor...

É POR ISSO
Que te sonho,
Pra desenhar
O teu rosto
Com palavras
De poeta
Que afunda
No desgosto.

MAS DE TANTO TE DIZER
Acabei por
Te encontrar
Na terra
Onde nasci,
Onde a neve
Derretia
Quando o sol
Já despontava
E o manto
Da saudade
Logo de dor
Me cobria.

AGORA A NEVE
És tu,
Fugaz que foi
A passagem
No chão incerto
Da vida,
Como a brancura
De outrora
De saudades
Me doía
Em cada fatal
Despedida.

E SE EU TE
Encontrar
Talvez de novo
Te sinta
Qual cintilante
Magia...
..............
Terei então
A certeza,
Branca e leve 
Pura e fria,
Que recriei
Essa ausência
Para nunca
Te perder,
Como a neve
Da minha rua
Que não há sol
Que a derreta
Na penumbra
Da memória...
.................
Que, no sonho,
É como a tua.
RuaDaAldeia2021FinalRec

“A Rua do meu Jardim”. Detalhe.

VÃ UTOPIA

Poema de João de Almeida Santos.
À “desgarrada” com Manuel Bandeira
(1886 -1968), inspirado em
três poemas seus:
 “Desencanto”, 1912;
“Versos escritos na água”, s.d.;
“Renúncia”, 1906.
(Obras Poéticas. 1956. Lisboa:
Minerva, pp. 33, 40 e 101).
Ilustração: “Cascata”.
Original de minha autoria.
Janeiro de 2021.
Jas_Cascata31_2021_3

“Cascata”. Jas. 01-2021.

POEMA – “VÃ UTOPIA”

“OS POUCOS VERSOS 
QUE AÍ VÃO,
Em lugar de outros 
É que os ponho.
Tu que me lês, 
Deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.” 
E OS MUITOS
Que eu te dei
Deixam claro
O que sou.
Se tu me leres
Saberás que
Não errei
Mas que foi pouco
Do muito
Que agora
Eu te dou. 
“NELES PORÁS 
TUA TRISTEZA
Ou bem teu júbilo, 
E, talvez,
Lhes acharás, 
Tu que me lês,
Alguma sombra 
De beleza...”
BELEZA, SIM,
E algum sentido,
Tristeza e dor
Como castigo,
Por isso eu canto
O que perdi
Pra que o verso
Vá ter contigo
Lá onde estejas,
Queira o vento
Ser meu amigo.
“QUEM OS OUVIU 
NÃO OS AMOU.
Meus pobres versos
 Comovidos!
Por isso fiquem 
Esquecidos
Onde o mau vento 
Os atirou.”
 NÃO OS AMOU,
Mas eu bem sei
Que é verdade
Este amor
Que aqui nasceu
E que cantei
Em liberdade
Em versos
Que o vento
Leu
E te levou
Para matar
A saudade...
...........
Pudesse eu
Salvar-me, assim,
Do que não sou,
Libertar-me
Do silêncio
Que me invade.

OUTROS FARIA
Se pudesse
Para os pôr
Na tua mão,
Não pediria que
Os sonhasses,
Olhos cerrados,
Mente desperta,
Mas que os lesses
Com afeição.

AH, MANEL,
Que bem me sabe
Pôr minha dor
Em poesia,
Em palavras
A emoção,
No cantar
Triste alegria
Por ser intensa
Esta paixão
Mesmo que seja
Vã utopia.

DIZES TU
Em poesia
Que só a dor
Te enobrece.
E dizes bem,
Meu bom poeta,
Alma dorida
Logo me aquece
E com meus versos
Entretece
O que a paixão
Já tanto afecta.
“A VIDA É VÃ 
COMO A SOMBRA QUE PASSA...
Sofre sereno e de alma 
 Sobranceira,
Sem um grito 
Sequer tua desgraça.

Encerra em ti 
Tua tristeza inteira.
E pede humildemente
 A Deus que a faça
Tua doce e constante
 companheira...”
POIS TENHO MEDO
(Eu te confesso)
Que a dor
Me passe,
Perca o poema
Sua raiz,
Essa, sim,
A verdadeira
(Sua matriz),
E fique só
Já sem palavras
E caiam secas
Todas as rosas
Que me povoam
Esta roseira.

SOBRAM ESPINHOS,
Ferem-me a alma,
Saem meus versos
E cai o sangue
“Gota a gota,
Do coração”,
“Volúpia ardente”
Já sem remédio
“Eu faço versos
Como quem chora”
E chamo a dor
A toda a hora
E ela vem
Por compaixão.

AH, POETA,
Ah, meu irmão,
Tu fazes versos
“Como quem morre”
E eu procuro
Neste meu canto
A sua mão.

TU, MANEL,
És a bandeira
E ela 
O meu refrão,
Pra mim és verso
No meu poema
E ela é,
Neste meu peito,
Uma paixão.
Jas_Cascata31_2021Rec

“Cascata”. Detalhe.

 A AGUARELA

Poema de João de Almeida Santos,
inspirado no poema de 
Manuel Bandeira
“Tema e Variações”.
Ilustração: “O Retrato”. 
Original de minha
autoria para este poema. 
Janeiro de 2021.
ORetratoFinal01_21_25

“O Retrato”. Jas. 01-2021.

POEMA – “A AGUARELA”

SONHASTE, MANEL,
Que havias sonhado
Estar à janela,
Sonhando, a cores,
Que estavas com ela.

TAMBÉM EU SONHEI
Que tinha sonhado
E que no sonho
A tinha encontrado,
Passando por ela,
Ali, lado a lado.

MAS, QUANDO ACORDEI
Do primeiro sonho,
Sonhando, eu vi
O seu rosto belo
Numa aguarela
Pintada a cores
Que tinha guardado
Para uma tela.

SONHEI, OUTRA VEZ,
No segundo sonho,
Que era pintor,
Mas que pintava
Sempre o seu rosto
A uma só cor.

DIZIA, SONHANDO,
Que não podia ser,
Seu rosto expressivo
Era arco-íris
Ao amanhecer
E era sorriso
Para o mundo ver.

MAS EU SÓ O VIA
Com a minha cor,
Esse rosto belo
De seda tecido
Que me seduzia
No sonho sonhado
Onde sempre a via,
Ali, a meu lado.

NÃO QUERIA ACORDAR
Do sonho feliz
E nele fiquei
De olhos fechados.

JÁ NÃO ACORDEI
Do sonho sonhado
Porque nessa cor
Fiquei encerrado
Com todo o meu ser...
...................
Talvez por amor.

NO SONHO OLHEI
Para o meu espelho
E logo eu vi
Que essa minha cor
Era o vermelho.

E QUANDO ACORDEI
Do primeiro sonho
Voltei a sonhar
Que desvanecia
Nesse rosto amado
E logo lhe disse,
No segundo sonho,
Que a tinha sonhado.

DISSE-ME QUE NÃO,
Que nunca me vira
Sequer acordado...
.................
E logo acordei
Desse pesadelo
Que me deixara
O peito
Esmagado.

FOI ASSIM QUE VI
Que tinha sonhado
E que ela
Já lá não estava,
Ali, a meu lado.

QUIS ADORMECER
Para a encontrar
Mas não consegui
Sonhar que a via,
Pôr os olhos nela,
Chorar de alegria
Porque descobri
Na minha parede
Aquela aguarela
Que do sonho
Passado
Eu já conhecia:
Era o rosto dela.
ORetratoFinal01_21_25Rec

“O Retrato”. Detalhe.

ENCONTRAR-TE NUM POEMA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “La Diseuse”. Original
de minha autoria para este poema.
Janeiro de 2021.
LaDiseuseFinal_012021

“La Diseuse”. Jas. 01-2021.

POEMA – “ENCONTRAR-TE NUM POEMA”

ÀS VEZES
Perco-me
Em ti
Quando te sonho
No poema,
Ondulas
Entre tristeza
E doçura
Nos teus dias
Mais incertos,
Em momentos
De ventura,
Na fronteira
Do dilema.

SE ÉS TERNA,
Eu estremeço
Porque enleia,
O teu olhar,
Olhos castanhos
Despontam
No suave
Amanhecer
Quando em surdina,
Vibrando,
Partilhas
Esse teu
Acontecer.

CONTEMPLO
A tua imagem,
Beleza
Intermitente,
Por instantes
Muito breves,
Mas logo regresso
Ao murmúrio
Sedutor,
Encanto
Tão inocente,
E a tão meiga
Ternura
Que me afaga
Com pudor.

O TEMPO
Corre sempre
Contra nós
E eu corro
Contra ele
Pra que a saudade
Não chegue
Antes de a partida
Soar
E em meu rio
Desague
Para logo
Transbordar.

VIVO 
No intervalo
Do desejo
De onde te ouço
Dizer
Que não há
Excesso de tempo
Neste efémero
Viver,
Destino
Que te domina
E me impede
De te ter.

MAS PERCO-ME
No brilho 
Desses teus olhos,
Bem cedo
Pela matina,
À procura
Dessa cor
Que logo assoma
Bem viva
Quando o sol
 Te ilumina.

SINTO CALOR
No meu peito
E procuro o teu
Regaço
Pra que me vejas
Por dentro
No poema
Que te canto
E que ouves com
Ternura
Como se fosse
Abraço.

EU GOSTO
Da doçura que te
Invade
Quando recusas
O mundo
Que te atropela
Nas curvas
Da tua vida
Para sentires
Com a alma
O poema
Que te deixo
Quando chega
A partida.

AH, COMO GOSTO
De te sonhar
Dizer-te
Em poesia...
...........
É encanto,
É prazer
E é mistério...
.........
É a vida
Em sinfonia!
LaDiseuse2_012021Rec

“La Diseuse”. Detalhe.

A CARTA

    Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Melancolia”.
Original de minha autoria.
Janeiro de 2021.
Rosto100121PubTrans1

“Melancolia”. Jas. 01-2021.

POEMA – “A CARTA”

DIZEM-ME
Que vagueias
Por aí,
Incerta,
À procura de ti,
Sem saber
Que te vais
Perdendo
Nas rotinas
Inventadas
Dos teus dias.

SENSÍVEL
À incerteza
Do teu caminhar,
Inundei-te
Com rios
De palavras
Sedutoras,
Setas falhadas
Ao coração
Do silêncio
Que te cobre
O rosto...
.................
Para te resgatar.

SEI QUE VIAJAS
Cada vez mais
Para dentro de ti,
Aninhando-te
Nessa melancolia
Sem fundo
Que sempre
Me cativou.

E DIZEM-ME
Que quanto mais
Te resguardas
Na sombra
De ti mesma
Mais procuras
Ver tudo
Sem ser vista,
Seguindo,
Invisível,
O meu rasto
Desenhado
Ao longe
Na neblina
Que se esfuma
E dilui
Lentamente
No frio
Horizonte
Da Montanha
Sagrada.

E ATÉ O VENTO
Que sopra
Lá do alto
Me segreda:
“Curiosa de si,
Abre
De par em par
As janelas
Das tuas estrofes,
Ar puro
Que respira,
Esse canto
De sereia
Que finge
Não ouvir,
Procurando
Decifrar
As tuas ondulações
De alma
No muro
Das lamentações
Poéticas”.

EU SEI BEM
Que te cobres
Com o véu
Escuro
Do silêncio
Para te resguardares
Do olhar
Indiscreto da vida
Sobre ti.

MAS A VIDA,
Meu amor,
É fugaz,
O tempo passa
E deixa marcas
Indeléveis,
Sulcos profundos
Que só o futuro
Desvelará
Porque o passado
Fica inscrito
Num destino
Que só conhecerás
Ao virar
Da esquina da
Tua vida,
Onde só o passado
Brilhará
Como futuro.

AH, SIM,
O reencontro
Acontecerá
Nesse momento,
Quando eu
Já só for
Um sinal
Impresso,
A branco e negro,
Uma vaga memória
Escrita
Perante teus olhos
Húmidos
De me terem
Perdido
Sem saber
Porquê
...............
Ou simplesmente
Como inútil
Expiação
De um pecado
Que nunca
Aconteceu.

ESTAREI LÁ,
Sim,
Nesse destino
À tua espera
Para te dar
Conforto,
Aninhado
Nas palavras
Que ainda
Não sabes
Declinar,
As mesmas
Em que vou
Viajando,
Invisível,
Por dentro
De ti
À procura
Da eternidade
Possível,
Tua e minha
Salvação
Da voragem
Do tempo.
Rosto100121PubTrans1Rec

“Melancolia”. Detalhe.

“O PAVÃO”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Azul no Parque”. Original
de minha autoria para este poema.
 Janeiro de 2021.
Pavao012021_2

“Azul no Parque”. Jas. 01-2021.

POEMA – “O PAVÃO”

FUI AO PARQUE
Do Marechal
Logo ao amanhecer
Num triste dia
De outono
Na esperança de
Te ver
À procura do pavão,
Eram muitas
As saudades,
Já passara
Mais de um Verão.

NÃO TE ENCONTREI
Por ali,
Mas logo vi
O pavão,
Sozinho,
Também triste
Como eu
(Ou talvez não),
Pois nele
Reconheci
As cores vivas
Desta minha
Solidão.

PORQUE É
Tão belo
O pavão?
Exibe-se
Altaneiro
E é assim
Que seduz,
Enche-me
A alma
De cor
E inunda-me
De luz.

AH, O PAVÃO,
Esse seu
Porte austero
Estremece-me
Na alma
E gela-me
De emoção
Porque te chama
À memória
E me afunda
Sem perdão.

MAS SEGUI-O,
Nesse dia,
Parque fora
No silêncio
Luminoso
Dum despertar
De aurora.

FOLHAS CAÍDAS
No chão,
Tapete da
Natureza,
Acolhiam
O nostálgico
Passeio
Do poeta
E do pavão,
Num vaguear
D’incerteza.

NESSE JARDIM
Do simbólico
Encontro
A beleza
Despontava
Em seu ritmo
Natural,
Passos lentos
E cuidados,
Pose austera,
Altivez,
Um singelo
Ritual
Que vivi
Com timidez
Junto ao pavão
Matinal.

CAMINHEI COM ELE
Horas a fio,
Lado a lado,
Sem destino,
Procurando
O teu rosto
Num eterno
Desatino
Que sempre
Acaba
Em desgosto.

JÁ NO ALTO
De um muro,
Oráculo,
Arte pura,
Aparição...
............
Com o olhar
Lhe perguntei
Qual a cor
Da tua alma
Nos jogos
De sedução.

COM POSE ALTIVA,
Rigor
E perfeição
Logo exibiu
Esse azul
Tão luminoso
Onde sempre
Se esfumam
Os traços
Da tua mão...
.................
E logo o encanto
Surgiu
Com teu rosto
Espelhado
Nas cores vivas
Do pavão.
Pavao012021_2R

“Azul no Parque”. Detalhe.

SEGREDO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Porta”
Original de minha autoria.
Dezembro de 2020.
JAS_A PORTA27

“A Porta”. Jas. 12-2020.

POEMA – “SEGREDO”

EU PINTO
E CANTO
O meu destino,
Sonhos velados,
A minha vida,
Procuro a chave
Do meu futuro
E não a porta
Da despedida.

POR ISSO CANTO
Como os pássaros,
Voo mais longe
E com mais cor
Porque no céu
Há mais azul
E nos meus sonhos
Há menos dor.

ERA SEGREDO
Não revelado,
Se o dissesse
Não deveria
Porque dizê-lo
Era pecado
E certamente
Até mentia.

E NÃO O DISSE,
Mas eu pequei
Com um murmúrio
Apaixonado
Em poemas
Tão inocentes
Que foram alvo
De um julgado.

POR ISSO VOO
Sempre mais alto,
Trepo nas cores
Pra lá chegar,
O céu azul
Dá-me alento
Para assim
Poder voar
E meus segredos
Nas nuvens
Brancas
Em liberdade
 Ir dissipar.

LEVO PALAVRAS
Comigo,
Procuro inspiração,
Levo cores
Para o abrigo,
Alimento
Da minha arte
E seiva pura
Desta paixão.

EU CHAMO MUSAS
E tudo o mais
E quando parto
Lá para cima
É sempre festa
No nosso cais.

LEVO-TE A TI
Em fantasia
E deste jeito,
Levo-te sim,
Para que sinta
Lá bem no alto
Ar rarefeito
E menos peso
Nesta dor
Que cai em mim.

EU CANTO
E PINTO
Por tudo isto,
Pra resgatar
O meu pecado
De exaltar
Esse teu rosto,
Iluminar
Em aguarela
Esse enleio
Do meu olhar
Por te ver
Na nossa rua
Debruçado
Na tal janela
E com vontade
De te pintar.

POR ISSO EU
CANTO,
Por isso voo
Por isso subo
Lá para o alto,
Já não os vejo,
Já não os ouço
E já não vivo
Em sobressalto.

MAS VEM COMIGO,
Eu dou-te asas
No infinito,
No céu azul
Voamos juntos
A um só tempo
E o nosso rumo
Será o sul.

VÁ, VEM COMIGO,
Voa mais alto,
Ah, meu amor,
Se tu vieres
Eu já não sofro
E vai-se embora
A minha dor.
JAS_A PORTA27Rec

“A Porta”. Detalhe.

O POETA E O VENDAVAL

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “História de 
uma Janela". Original de minha 
autoria (inspirado em 
fotografia da autoria
de Dulce Guerreiro).
Dezembro de 2020.
HistoriadeumajanelaTrab1

“História de uma Janela”. Jas. 12-2020.

POEMA – “O POETA E O VENDAVAL”

VÊS OS DESTROÇOS
Desta janela,
Meu amor?
Foi o vendaval,
O vento zangado
Que passou
Numa tarde
Aziaga
De um frio dia
De inverno...
...............
Uma infeliz e
Rogada praga
Que o levou
Ao inferno.

ERA A JANELA
Da sua vida,
 Olhava-te dela
Quando passavas
Na rua dos seus
Encantos,
Dali voava
Para a terra
De ninguém,
Tendo-te por
Companhia,
Indo sempre
Mais além
Em busca de
Utopia...

NELA DESENHAVA
A cores
De incontida paixão
A tua silhueta
Delicada,
Teu perfil
Em contraluz,
Como sombra
Encantada
Desse rosto
Que ainda
O seduz.

JANELA,
A sua casa,
Banhada
Por luz intensa
E flores
De aromas
Inebriantes,
Uma eterna
Primavera,
Jardim
Onde crescia
O desejo,
De ti sempre
À espera,
Lugar de sonhos,
Berço de poesia,
Porta aberta
Para o mundo,
Templo
De alquimia.

FICARAM
Apenas ruínas,
Um rasto
De memórias quentes,
Cores desbotadas,
Mãos que pedem
Ajuda,
Silhuetas 
Inacabadas,
Uma criança
A nascer,
Mulher que
Espreita o futuro
Em incerto
Amanhecer,
Estranhos pássaros
Que sopram vida,
Figuras
Que renascem
Das cortinas,
Um estranho mundo
Que desponta
Desta janela
Em ruínas.

MAS O POETA
Resiste,
Armado de fantasia,
De palavras sedutoras,
Versos, estrofes,
Riscos e cor,
Respirando melodia...
......................
Ajudado pelo vento
Redentor,
Lança mãos,
Num certo dia,
À história
Interrompida
Nas ruínas
Desse amor
Em vendaval
Para recriar
O templo
Que perdeu
Com a arte
De jogral.

E VOA
E continua a voar,
Passa pela janela
E sobe ao Monte
Para cantar
O que em si
Lhe sobrou dela
E assim a recordar.
HistoriadeumajanelaPubR

“História de uma Janela”. Detalhe.

“SOLIDÃO”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Fantasia”.
Original de minha autoria.
Dezembro de 2020.
ORecantodoPoeta131220psd

“Fantasia”. Jas. 12-2020.

“Os poetas são impudentes em relação
às suas vivências: exploram-nas”
(Die Dichter sind gegen ihre Erlebnisse
schamlos: sie beuten sie aus)

"O que se faz por amor acontece
sempre para além do bem e do mal"
(Was aus Liebe gethan wird, geschieht
immer jenseits von Gut und Böse).

Nietzsche, Jenseits von Gut und Böse 
(Para além do bem e do mal), 1886.
Sprüche und Zwischenspiele: 161. 153.

POEMA – “SOLIDÃO”

PERGUNTEI AO POETA
Sobre a minha
Solidão...
........
E sabes
O que me disse?
Que ela tem
Sete véus
Pra que ninguém
Atravesse
O sagrado
Do seu halo...
....................
Um oásis no deserto,
Confessou.

PERGUNTEI-LHE
Pela dor
Que me resta
(E eu afago)
Deste amor
Que me veio
Ao encontro
Como amarga
Dádiva do céu,
Um sabor
Muito intenso
A algo que não
É meu...

E SABES
O que me disse?
Se já não tens
Alegria
Para encantar
Quem tu amas
Resta-te a dor,
Sobra-te solidão
Em humana
Eternidade...
..............
E uma longa
Evasão
Para cantar
A saudade.

MAS DISSE MAIS.
Não a procures,
Não lhe fales
Nem a vejas
A não ser como
Poeta
Nesse intervalo
Da vida
Que te torna
Intangível
Como pura
Silhueta.

FINGE
Que não é ela
(A que vês lá
Da janela)
O destino do teu 
Canto,
Sobe às nuvens
Pelas linhas
Do seu rosto e
Põe asas
No seu nome,
Mas finge
(Como poeta)
Para que não
Reconheça
A paixão
Que te consome.

E SE UM DIA
Teus olhos
Pousarem nela
Finge outra vez,
Finge que
Não a vês,
Que estás ali
Por acaso,
Como se fosse
À janela,
Que o destino
Te levou
Para fora
Do seu mundo
A satisfazer
Um desejo
Que resgate
A solidão.

PERGUNTEI,
De novo,
Ao poeta
Sobre esta solidão
Que cresce dentro
De mim...

E SABES
O que me disse?
Que também ele
Ia nu,
Viajando nas estrelas,
Com asas
De sete véus,
Transparentes
Como ar,
Mergulhando no azul
Para ver se
A cantava,
Sentado no horizonte,
Tocando o infinito,
Lá onde mais
A amava.

QUERO SER
Como falou
Zarathustra,
(Sussurrou)
Que da paixão
Saia virtude,
Dos demónios
Nasçam anjos,
Da solidão
Liberdade,
Que na dor
Cresça alegria
Cada ano
E cada dia,
Enquanto o poeta
Viver,
Enquanto a possa
Cantar
Com o céu
Por companhia.

ENCONTREI,
Um dia,
O poeta
A caminho
Das estrelas.
Perguntei-lhe
Sobre a minha solidão.
Bateu as asas
E disse:
Voa da tua janela,
Voa
Pra junto de mim
Como se fosses
Pra ela
Com asas
De sete véus
Que o azul deste
Meu céu
Te dará
Libertação.
ORecantodoPoeta131220psdR3e

“Atelier”. Detalhe.

À JANELA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Outono”.
Original de minha autoria
para este poema.
Dezembro de 2020.
JAS3_ AJanelaNovaFinal01122020

“Outono”. Jas. 12-2020.

POEMA – “À JANELA”

COMO GOSTO
De te ver,
Tão singela,
Daqui,
Desta janela.

DIZES,
Com o olhar,
“Olha, voltei!”.
E eu pergunto:
“É mesmo ela?”

O MILAGRE
Desta janela
Repõe
Em mim
O que há muito
Sobrou dela.

SE A PERCO,
Ela renasce
E cresce,
Mas logo
Desaparece.
É um sem fim,
Lembra-se,
Mas logo esquece.

AH, FOI ARAGEM.
Soprou tão forte
Sobre o seu rosto
Que lhe levou
A doce voz
Para o sol-posto.
Perdeu o norte,
Caiu silêncio,
Foi sobre nós.

MAS PORQUE ME DURA
Este sofrer
Se a encontro?
É dor intensa
Só de a ver,
Mas não magoa
E dá prazer.

DA JANELA,
Nesse seu jeito,
Vejo-a singela,
Com a ternura
De quem ama
E nem se cura
Da chama
Só de olhar
E vê-la...
.......
A ela.

PORQUE NÃO FALAS
E não me dás
O teu “olá!”
Mais uma vez?
Vem por aqui,
Passa por cá,
Sem altivez,
Pra te dizer
O que já sabes
Quando me vês...
..............
E faz sofrer.

“MAS EU NÃO POSSO”,
Tu dizes sempre
Com teu olhar:
“Digo-te não.
Mesmo que vá
Não há perdão”.

PORQUE T’ESCONDES
Cada teu dia?
Eu não te encontro,
Perco alegria...
.................
Depois regressas
Pra eu te ver,
Para que saiba
(Tenho a certeza)
Que não há modo
De t’esquecer.

VI-TE MIL VEZES,
Sempre te disse
Com o olhar:
“Quero-te, sim,
Mesmo que fujas
Quando apareces
Não é de mim,
Mas de um outro
Que desconheces”.

PORQUE TE PERDES
No meu olhar,
Sempre me foges,
Olhas em frente
Pra não me ver
E assim recordas
O que tu sentes
Por te querer.

AH, COMO GOSTO
Desta janela...
Se me debruço,
De vez em quando,
Olho pra ela,
Fico feliz
Por logo a ver
Mesmo que saiba
Que nesse instante
A vou perder.
JAS2_ AJanelaNovaFinal01122020Rec

“Outono”. Detalhe.

AZUL

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Paraíso”. Original 
de minha autoria para este Poema. 
Novembro de 2020.
Jas_Paraíso

“Paraíso”. Jas. 11-2020.

POEMA – “AZUL”

TANTO AZUL,
Meu deus,
O teu céu,
Esse imenso mar,
É espelho
Dos teus sonhos,
Medida
Do teu olhar.

O MEU É BRANCO
E cintilante
Para te alumiar,
Gotículas
De cristal
Que te acendam
A alma
   Para melhor  
Te guiar.

HÁ UM LEVE 
murmúrio
De nuvens
Que cobre,
Como véu,
O silêncio
Que há muito
Ouço,
Insistente,
Bater-me
À porta
Levemente,
Como quem chama
Por mim.

E QUANDO NOS
SONHOS
Te vejo
Vestida de azul
Turquesa
Entro numa porta
Branca
E voo, voo,
A perder de vista,
Até ao paraíso,
Deixando para trás
O jardim
Inacabado,
Portão aberto,
Escancarado,
Bailéus desenhados
A rigor,
A preto e branco,
Onde um dia
Eu te vi,
Meu amor,
Num estranho
Enlace
Que nunca mais
Terá fim.

NOS SONHOS,
(Em todos eles)
Caio das nuvens
Brancas
Como Ícaro
Ou meteorito
Incandescente
E mergulho
No azul
Para te encontrar
Num arco-íris
Luminoso
Onde vives
Vestida de todas
As cores
Que povoam
As cidades
Invisíveis
Dos poetas...

É NESSE TEU AZUL
Profundo e
Denso
Que respiro
O que me sobra
De ti,
Nos sonhos escritos
E pintados
Com que te vou
 Soletrando,
Insistente,
Até cair exausto
Para adormecer
E me sonhar
De novo
No regaço
Da tua alma...
..............
Pintada
A aguarela.

“Paraíso”. Detalhe.

O JARDINEIRO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Alquimia”.
Original de minha autoria
para este poema. Novembro de 2020.
RosaVermLuz

“Alquimia”. Jas. 11-2020.

POEMA – “O JARDINEIRO”

TORNEI-ME BOM 
Jardineiro,
Troquei letras
Por flores,
Uma Rosa vale um
Verso,
A Camélia
Mil amores,
Um poema
O universo.

QUANTO VALE
Amor-Perfeito?
Fixo-me nele,
Encantado,
Meus versos
Tornam-se cores
E aquecem-me
O peito...
................
Ponho a tristeza
De lado.

PALAVRAS 
Coloridas
Amaciam-me 
A alma
Quando ela fica
Em ferida,
São bálsamo
Que me refresca
E exalta
A minha vida.

POR ISSO VOU 
Ao jardim
Cobrir-me de 
Mil flores,
Nascem versos
Para mim
Com palavras
Que são cores.

OLHO-AS
Com atenção,
Fixo-as 
Com o olhar,
Toco-as 
Com a mão,
Fico ali 
A pensar
No que acontece
Com elas
Em seu lento
Germinar.

NADA MAIS
Quero saber,
Só das cores
Do meu jardim
Que curam
Da alma
A dor,
O que mais
Me faz sofrer,
Ver-te
Tão longe, assim,
Saber 
Que te estou
A perder...

MAS ESSAS FLORES
Não duram,
É mortal a natureza,
Elas perdem-se
No tempo
E só me resta
A saudade...
...............
Vem ter comigo
A tristeza.

NÃO APAGAM
Este triste
Entardecer,
Mas pego-as
Com esta mão
Pra suas cores
Eu beber
À procura de
Evasão.

NAS FLORES
Há doce seiva,
Alimento 
Da beleza,
Nas palavras
Mil perfis,
Quieta, a natureza,
Em cada folha
Um matiz
E até é bela
A tristeza
Quando olhas
E sorris.

UM SORRISO NATURAL
Como pétala 
De flor,
Uma palavra,
Sinal,
Pérola
Que sempre brilhe
No meu jardim
 De cristal.

REGULAR
 É o seu tempo,
Um ritmo
Mais do que certo,
Tudo nasce
E tudo morre
Sob o céu
A descoberto.

MAS RENASCE
Sempre um dia
Pra dizer
“Aqui estou”,
Natureza é alquimia
Que me diz
Pra onde vou.

POR ISSO SOU 
Jardineiro,
Com flores
Aprendo sempre,
Leio-te a alma
No jardim,
Pois natureza
Não mente.

TROCO LETRAS
Por flores
Mas às palavras
Dou rima,
No jardim
Nascem amores
Porque a beleza
Aproxima.
RosaVermLuzR

“Alquimia”. Detalhe.

COR, DÁ-ME COR

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Cor”.
Original de minha autoria
para este poema.
Novembro de 2020.
Jas_TCor151120Pub

“Cor”. Jas. 11-2020.

"Donde termina el arco iris, 
en tu alma o en el horizonte?"

Pablo Neruda

POEMA – “COR, DÁ-ME COR”

COR, DÁ-ME COR,
Fico mais perto
De ti
Se vieres
Docemente
Com o vento.
Cor, dá-me cor
Que as palavras
Coloridas
Já me sabem
A cinzento.

OU TALVEZ NÃO.
Palavras
Nunca me faltam
Nem vivo
Na escuridão,
Ainda consigo
Dizer-te
E com elas
Dar-te a mão.

TENHO-AS
Que me cheguem
Para cantar
Ao vivo
O concreto
Do teu nome,
Ouvir assim
O teu eco
Quando a tristeza
Irrompe
E esta dor
Me consome...

AH, MAS A COR
Se for intensa
E nascer
Por explosão,
Se tiver
Em contraponto
Palavras
De emoção
Que dão ritmo
Ao azul
Dos teus sonhos
De papel...
.................
Ah, sim, é tudo
O que eu preciso
Pra te esculpir
A cinzel.

DÁ-ME COR
Que eu sou
Sensível
À luz fulgente
Do teu olhar,
Vagueio nas
Flores que colho
Quando vestes
O vermelho,
A cor viva
Com que brilhas
No cristal
Do meu espelho...
...............
Ou te cobres
Com o manto
Do arco-íris
Que és.

AH, TU ÉS COR,
Gota d’água
Suspensa
No fio
Do horizonte,
Iluminada
De ouro
Pelo sol
Que já desponta
Lá em cima,
No meu Monte.

DANÇAS COM ELA,
A cor,
E com ela 
Adormeces...
..........
Por amor.
É sopro
Da tua alma
Quando a vida
Se faz sonho
E lá no alto
Do céu
Logo te cobres
De azul...

MAS EU GOSTO
De te pintar
Com palavras,
Onde o azul é
Mais quente,
O verde
Esse teu manto
E o vermelho
Emoção
Nos poemas que
Te canto
Com paixão...
...............
Vibra o verso
Em amarelo
Dói-me o peito
De amor
E já treme
A minha mão.

É NA COR
Destas palavras
Que te revejo
As vezes
Que eu quiser
Pois dou corpo
Ao desejo
Nos poemas
Que fizer.

CADA VEZ MAIS
Gosto de cor,
De me confundir
Com ela,
Dançá-la
Como vida
Em efusão,
Fogo de artifício
Que embriaga
Os sentidos
Como lava de
Vulcão...

EVOCO
O Poeta-Mestre
Quando pedia
“Mais luz”
Já no seu leito
Fatal.
Tinha luz
Dentro de si
Mas a cor
Já não entrava
No portal.
Era cinzenta
E ténue
A cor
Que lhe restava
E logo escurecia
Quando a porta
Se fechava...

LUZ É COR,
Desperta da
Letargia,
Ressuscita
Do torpor,
Celebra vida
Com magia,
É canto,
É alquimia,
Chilreio de
Passarinho
Que anuncia
O meu voo
Aos azuis
Que por lá pintas
Como se fossem
Meu ninho.

AH, SIM!
Mas eu gosto
É de palavras,
Foi com elas
Que te vi
Nas letras
Que desenhei,
Os rostos
Que descrevi,
Emoção
Que não calei.

E TU CABES
Em quatro letras
Quando teu
Nome
Tem sete
E me sabe
A Primavera
No meu Jardim
Encantado
Onde tudo
Me fascina
Porque a beleza
Impera
E eu fico
Apaixonado...
Jas_TCor151120PubRec

“Cor”. Detalhe.

“ENCONTREI-TE LÁ EM CIMA, NO MONTE”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração:”Palácio das Artes 
no Monte Parnaso”.
Original de minha autoria
para este poema. Novembro de 2020.
PalácioArtesPubjpg

“Palácio das Artes no Monte Parnaso”. Jas. 11-2020.

POEMA – “ENCONTREI-TE LÁ EM CIMA, NO MONTE”

“Tu prima m’inviasti / 
verso Parnaso a ber ne
le sue grotte, / 
e prima appresso 
Dio m’alluminasti”.

Dante Alighieri. Divina Commedia.
Purgatorio. 
Canto XXII, 64-66.
PERDI-TE
Porque, afinal,
Nunca
Te abracei,
Numa praça,
Numa rua,
Num jardim,
Em lado algum,
Eu já nem sei...

MAS ABRACEI-TE
No Parnaso,
Lá em cima,
Com palavras
Em forma de poema,
Enredado nas
Mil cores
Do jardim encantado
Da tua alma.

VESTIDO DE COR
Senti-me
Afagado
No meu canto,
Umas vezes
Um pouco triste,
Outras
Em sufocado
Pranto
Por não ter
O teu corpo
Junto a mim,
Por não te ter
A meu lado.

SIM, ENCONTREI-TE
No Parnaso,
No Monte
Da luz divina,
No Monte
Da branca neve,
Cristalina,
E, abraçado a ti,
Eu vi lá do alto
A costa
E o mar,
Vi com nitidez
O meu mundo
Interior
E como te devo
Amar,
Aprender
A sonhar-te
Em azul,
A tua cor
E, lá no alto,
Voar...

A NEBLINA
Cobria-te
Para te vestir
E refrescar
A alma
Como chuva
De palavras
Húmidas
Caídas do meu
Céu
Enublado
E triste.

EU NÃO ERA MAIS
Que um espelho
Que te devolvia
Fantasia
Contra a
Petrificação
Que espreitava
Nos olhares
Indiscretos
E volúveis
Que te espreitavam
Em cada dia.

MAS TU NÃO ME VIAS.
Em mim,
Especulavas
(Dizias),
E eu, espelho
Da tua alma,
Gastava assim
Os meus dias...

E DE TANTO
Em mim
Te reveres
Declinaste
O espelho que
Começava
A embaciar-te
A alma...

E NÃO ERA
Da neblina
Que te envolvia,
Mas dos desenhos
Que tuas mãos
Esboçavam
Nesse espelho
Já húmido
De ti...
............
E da minha
Fantasia.

DESPEDISTE-TE
Do Monte,
Desceste
Em desconforto
Sob os olhares
Das mil górgones
Que ameaçavam
Petrificar-te
No caminho
Para o vale...
..............
E sucumbiste.
Ou talvez não...

JÁ SÓ, NO MONTE,
Disse:
"De tanto te reveres
Em mim
Ficou-me, de ti,
O repetido reflexo.
E sabes o que
Brotava
Quando te olhavas
Na minha superfície
Luminosa?
Beleza,
Toda a que me sobrou
Quando, triste,
Desceste o Monte
E a tua melodia
Me faltou.”

MAS TEU ROSTO
Não petrificará
Porque ficou
Guardado
No meu corpo
Vítreo
Onde todos
Se revêem
Sem saber
Que no reflexo
Levam, gravada
Em transparência,
A tua imagem...
................
Embaciada.

E POR CÁ FIQUEI,
Espelho do mundo,
 A olhar para
O espaço
Sideral
À espera 
Que um cometa
Me alumie o caminho
Para ta devolver como
Teu reflexo
Original...
PalácioArtesPubjpgR

“Palácio das Artes no Monte Parnaso”. Detalhe.

O POETA QUE SE FEZ PINTOR

 Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Evocação
de um Arbusto em Flor”.
Original de minha autoria.
Novembro de 2020.
Microsoft Word - JAS_O Pintor.docx

“Evocação de um arbusto em Flor”. Jas. 11-2020.

POEMA – “O POETA QUE SE FEZ PINTOR”

O POETA BRINCAVA 
Com suas palavras,
Cantava o amor
Porque a desejava...

ERA UM POETA,
Era fingidor,
Não a desenhava,
Cantava-lhe
A cor.

SUAS CORES
Eram palavras,
Fazia pincel
Da sua caneta,
O poeta riscava,
Mas a sua tinta
Já não era preta.

POR ISSO COMPROU
Um belo pincel 
E pintava,
Pintava...
.............
Era a granel...
..............
E a sua tela
Deixou de ser
O velho papel.

DESCOBRIU A COR,
Que o fascinou:
Azul, vermelho
E tanto amarelo...
.................
Tudo ele pintou,
Procurando sempre
O que era belo.

ATÉ QUE O ENCONTROU
Na cor dos seus
Olhos,
Era luz da pura
Que iluminava
O novo papel
Onde desenhou
O seu fino rosto
Com o seu pincel.

DESCOBRIU AS CORES
Com que a dizia,
As suas palavras
Tornaram-se riscos...
....................
Mais que poesia.

PINTAVA ASSIM
E os seus poemas
Já não lhe chegavam,
Pintor de palavras,
De cor as compunha
E versos voavam
No azul do céu...
...................
“E o que tu fazias
Faço agora eu
(Dissera-lhe um dia),
Porque sou poeta
Mas também pintor".

"DEIXASTE-ME SÓ,
Entregue à palavra,
E eu,
Tão pobre de ti,
Pintei-me de dor".

"MAS EU FAÇO DELA
O meu arco-íris
Pra subir ao céu
A ver se t’encontro
Atrás duma cor
Pintando o teu rosto
Para um poema
Que vou escrever
Com todas as cores
Que trago comigo
Enquanto viver”.

O POETA BRINCAVA
Mas era séria
Essa brincadeira,
Perdido em palavras
Encontrou a cor
E nos seus poemas
Dela fez bandeira...
Microsoft Word - JAS_O Pintor.docx

“Evocação de um Arbusto em Flor”. Detalhe.

TEU CORPO DE CRISTAL

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Reflexos”
Original de minha autoria
para este poema. Outubro de 2020.
ReflexosFim2510Exp

“Reflexos”. Jas. 10-2020.

POEMA – “TEU CORPO DE CRISTAL”

AGORA VEJO-TE
Ao perto,
Despida,
Cada bago
Me seduz
Como cristal,
Refracção
Da luz
Que desce
Sobre ti
E me atinge
O olhar
Como raio
Fatal.

CEGO
De tanta luz,
Entrevejo-te
Num clarão,
Multidão
De cristais
Que brilham
E desafiam,
Vermelho rubi
De todas as paixões,
Espelho de
Alma
Deslumbrada
Que vive de
Ilusões.

MAS ÉS ROMÃ
E faço o caminho
Ao invés
Pra te encontrar
Ao alcance
Da minha mão,
Poder colher-te,
Fazer caminho
Contigo,
Do inferno
À primavera,
Do fogo ardente
Ao vicejar
Dos campos,
Aos frutos
Da nossa terra
Onde o teu
Poder impera.

ÉS DEUSA, SIM,
Imortal,
Teu corpo
É cristal
Que brilha
No templo de
Salomão
E me convida
A entrar
Nessa bela
Catedral
Guiado por
Tua mão?

SAÍSTE DE TI
E agora és
Semente
Múltipla
Do futuro
Que há-de vir,
Deusa
Da fecundidade,
Do amor
E da paixão
A celebrar
No fogo
Ardente
Desse teu lar
Onde os bagos
Do teu ventre
São como
Lava
De vulcão.
ReflexosPublicadoRec

“Reflexos”. Detalhe.

TENTAÇÃO

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Cristais”. 
Original de minha autoria 
para este poema. Outubro de 2020.
Romã181020

“Cristais”. Jas. 10-2020.

“¡Quién fuera como tú, 
fruta, / todo pasión 
sobre el campo!”

Final do poema de
Federico García Lorca
“Canción Oriental” (1920),
 dedicado à Romã.

POEMA – “TENTAÇÃO”

INQUIETO,
Como sempre,
Vi-te por dentro
Depois de te ter
Cantado
Por fora,
Feliz,
Mas triste,
Assim...
...................
Como quem chora...

CONTEMPLEI
Teus cristais,
Vi cintilar
A tua alma
E logo te pintei
Por dentro,
Sem mais,
Numa tarde
Leda e calma.

E CEDI À TENTAÇÃO
De te oferecer
Aos lábios
Da minha amada,
Ao compromisso
Fatal,
Para que ficasse
Enleada
E se tornasse
Imortal.

MAS ELA É
Concha fechada,
Seus cristais
São ouro negro,
É mistério
Bem guardado,
Silêncio
É o seu lema
Porque dizem
Que é dourado.

MAS PARA MIM
É ROMÃ.
Quando a chamo
Ao meu canto
E a pinto
De alma cheia
Floresce
No meu Jardim
Como em ilha
Encantada
Nasce o canto
Da sereia.

NUNCA TOCOU
Teus bagos
Nem os comeu
Como eu queria
Para a ter
Eternamente
Cada noite
E cada dia.

POR ISSO TE PROCUREI,
Meu fruto
De tentação...
És alimento
Dos deuses
E de Kore
A perdição.

TALVEZ ME ACENDAS
O estro
E a vontade de rimar
Pois silêncio
Não é d’ouro
Quando o sorriso
Me falta
E não a posso
Cantar.
Romã181020Rec

“Cristais”. Detalhe.

ROMÃ

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “S/Título”.
Original de minha autoria
para este poema.
Outubro de 2020.
Romã2

“S/Título”. Jas. 10-2020-

POEMA – “ROMÔ

ROMÃ DOS CRISTAIS
Vermelhos
E cristalinos
Que se aninham
No seu ventre,
Sabor acre
Como acidulados
Citrinos,
Meu alimento de
Sempre,
Que nos une...
............
Os destinos.

ROMÃ DE NOME
Insinuante
Que alude a cidades
Ausentes
E ao amor
Que exala
Do incerto sabor
Dos bagos
Da perdição,
O alimento 
De Kore,
De Hades
A irresistível 
Paixão.

ROMÃ,
De onde vens?
Do inferno,
Da Pérsia
Ou de Granada?
És uma maçã
Com grãos,
“Melograno",
Em Roma
Reinventada,
Cor vermelha
E amarela
Dos jardins 
Da minha amada?

ÉS BELA, ROMÃ.
Vou levar-te
Para o meu Jardim 
Encantado,
Para junto do arbusto,
Ter mil cristais
Em cada fruto,
Como os beijos
Que te dou
Nestas palavras
De amor 
Por deuses
Iluminado.

PERDI-TE QUANDO
Nascias
Naquele outono
De longínquo
Passado, 
Mas ficou-me 
Aquele arbusto
Que já tinha
A meu lado...

VOU LEVAR-TE
Para ter
Junto de mim
O rubor
Desse teu rosto,
Provar de teus
Bagos
O doce 
 E acidulado 
Gosto...

COMO GOSTO DE TI,
Romã de Deméter
E de Hades,
Da tua cor,
Das faces lapidadas
De teus bagos,
Da fecundidade
E do amor
Que em ti desperta
Quando afago
Com as mãos
A tua pele...
E a emoção 
Mais aperta:
Um intenso
E envolvente calor.

VEJO-TE COMO TÍMIDA
Romã,
Doce, 
Mas acidulada
E, qual Kore,
Dividida,
Como se cada parte
De ti
Não quisesse 
A outra
Pra nada.

MAS ÉS ROMÃ,
A minha cidade,
Meu Jardim Encantado,
Presente
Perfumado,
Fruto da
Mitologia
E do amor,
Filha de Deméter
E da poesia,
Que quero sempre
A meu lado.
Romã2R

“S/Título”. Detalhe.

“ESCULPIR-TE…”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Aurífice”.
Originais (novas versões) 
de minha autoria.
Outubro de 2020.
Oaurífice04102020

“O Aurífice”. Jas. 10-2020.

POEMA – “ESCULPIR-TE”

ENTRE O BRANCO
E O NEGRO
Quis esculpir-te
A alma
Na flor que,
Num acaso,
Encontrei
Perdida
No jardim
Da minha vida...

ATRÁS DE TI,
Ou em fuga
(Já nem sei),
Gastara
Todas as cores do
Arco-íris
Que tinha
Guardado
Dentro de mim.

SOBRARA
Uma marmórea
Pedra negra,
Espelho oracular
Onde me via
Escuro na alma
Por falta
De cores
Exuberantes
Que me protegessem
Do frio glacial
Da tua ausência
Suportada
Nas longas
Intermitências
E contrapontos
De uma melodia
Inacabada.

SOPREI FORTE
Com a alma
Desnuda
E a flor
Pousou suavemente
Na pedra lisa
E brilhante
Da catedral
Onde te queria
Celebrar
Como amante,
Do oráculo 
Vestal.

ESCULPI-TE
Como filigrana
De ouro preto
Sobre branco-pérola,
Aurífice da tua
Alma sedutora
No coração
Alvoraçado
Dessa flor
Onde guardei
O teu nome
Gravado em letras
Invisíveis.

DESENHEI
Alvas incrustações
Em filigrana
Como marcas
Indeléveis
Da arte
Que um dia
Me visitou
Para te cantar.

E, AGORA,
A olhar para
O branco e o negro
Desse cântico
Desenhado
E esculpido,
Ofereço-te
Este poema
Sobre pintura
Imaculada
Onde te celebro
Com arte
Minimal,
Na forma
E na cor,
Sem fronteiras,
E onde
Te reinvento
Em fuga:
Um elegante
Fio branco
Que esvoaça,
Livre,
No marmóreo céu
Do teu altar.

A ÂNCORA,
A sul,
Desliza
Suavemente
Sobre ti
E dilui-se,
Como eu,
Na negra 
Vastidão...

EVOCO-TE, ASSIM,
A branco e negro
Sobre a flor
Que um dia
Encontrei
Perdida
No meu Jardim
Encantado
Quando visitava
O impossível...
...............
À tua procura.
Oaurífice04102020Rec

“O Aurífice”. Detalhe.

A MONTANHA ENCANTADA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Montanha Encantada”.
Original de minha autoria
para este poema.
Setembro de 2020.
AMontanhaEncantada2Final092020

“A Montanha Encantada”. Jas. 09-2020.

POEMA: “A MONTANHA ENCANTADA”

VÊS AQUELE ANIMAL
Sagrado
Lá no alto 
Da Montanha,
Meu amor?
Seus olhos
Fulminantes
São águias
Que perscrutam
O horizonte
E te procuram
Na vastidão 
Destes montes 
Transbordantes 
De cor.

EU SOBREVIVO ALI,
Diluindo-me nas
Cores exuberantes
E quentes
Das encostas,
Sob o azul profundo
Da abóbada
Sideral
Que me inebria
Nas vertigens
De cada ritual.

ASSIM TE ESPERO
Em cada dia...
................
E ao primeiro
Voo das águias
Correrei nu por
Esses campos
Fora
Para te ver passar
Ao longe
(E sem demora),
Subindo o maciço
Até tocares o céu
Com as mãos,
Numa bebedeira
De azul
Que te fará
Levitar
Sobre o meu vale
Mais profundo.

É A MINHA MONTANHA
ENCANTADA,
Refúgio de eremita
Que te canta
E recria
Com a alma
Para te levar
Em poética
Levitação
Por veredas
Verdejantes
E luminosas
Sem destino
Ou direcção...

NESTA PROFUSÃO
De cores intensas
Que te ofereço
Uma vez mais
Penso-te como
Imanência,
Esparsa
Pelas encostas
Abissais
Que o semideus
(Que vês
Lá bem no alto)
Protege
Com as águias
Do sagrado
Planalto.

VÊS PARA ONDE
Te levo,
Meu amor?
Para o Monte
De Athena,
O Parnaso
Que habito
Por tanto eu 
Te amar
E no poema 
Pintar
Como sufocado
Grito de dor.
AMontanhaEncantada2Final092020REC

“A Montanha Encantada”. Detalhe.

 

FANTASIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Rubor".
Original de minha autoria para
este poema. Setembro de 2020.
Luz6

“Rubor”. Jas. 09-2020.

POEMA – “FANTASIA”

O TEU ROSTO
Assomou
Quando a luz 
Branca
Irrompia
No meu jardim,
Num insólito 
Entardecer,
Por entre a espessa
Folhagem
Do vasto e belo
Jasmim...
...................
E logo eu me perdi
Nesse doce
Acontecer
Que descia
Sobre mim.

ASSOMAVAS
Como flor
Em súbito espanto,
Despertada
Pelo mundo,
Com o rosto
Em rubor
Quando ouviste
Este meu canto
Profundo...
.........
Invocar
O teu amor.

A LUZ ERA NEVE
Derramada
Sobre ti
No coração
da Primavera
E o inverno
Que te cobria
Essa alma
Atormentada
Desceu
Ao meu Jardim
Encantado
(Minha mágica
Quimera),
Nessa tarde
Luminosa
De um branco
Imaculado.

E EU FIXEI-O,
Esse inverno
Tão tardio,
Que caía
Sobre ti
Lá do alto
Do arbusto
(Tão macio)
Que me protege
As cores
Com que te pinto
E as palavras
Que te canto
(Como ousado
desafio).

AH, ERAS MESMO TU
Disfarçada
De Flor
Que germinou
No húmus
Desse Jardim
E assomou ao
Meu olhar
Para logo
Sussurrar:
“- Oh, este amor
Não terá fim...”
Luz6Rec

“Rubor”. Detalhe.

MUDAM OS VENTOS E MUDAM AS PALAVRAS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Encruzilhada”.
Original de minha autoria para
este poema. Setembro, 2020.
Folhagem

“Encruzilhada”. Jas. 09-2020.

POEMA  – “MUDAM OS VENTOS E MUDAM AS PALAVRAS”

“MUDAM OS VENTOS
E mudam as palavras”,
Assim falava o poeta.
De sinais
Tudo sabia,
Mas de ventos,
Isso não,
Sobre Éolo
Nada podia.

MUDAM AS VONTADES
E também mudam
As cores,
Fortalece
O desejo
À procura
De alimento,
Tudo muda,
Tudo gira
E também muda
O vento.

O QUE CONTA
São os ciclos
Desta vida,
Os que o tempo
Desenhar
Pra cada nova
Partida
Num eterno
Movimento
Como as ondas
Do mar.

HÁ ENCRUZILHADAS
E é preciso
Escolher
Para logo decidir
Ainda que seja
Do mesmo
Se não pudermos
Fugir.

E EU ÀS VEZES DECIDO
E volto a decidir,
Mas encontro
Sempre o mesmo
E logo volto
A cair...

TAMBÉM NÃO HÁ
Muito a fazer
Porque o vento
Sopra sempre
Numa certa direcção
Para levar
As palavras...
..............
Quando sopra
De feição.

MUDAM OS TEMPOS
Muda a vontade,
Muda o vento
De direcção
(É verdade),
Mas as cores
Do arco-íris
Viajam sempre 
Comigo
Mesmo que digas
Que não.
FolhagemREC

“Encruzilhada”. Detalhe.

 

 

ESTÃO CANSADAS, AS PALAVRAS…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Chorar”.
Original de minha autoria
para este poema. Setembro de 2020.
Jas_Chorar0609Pub

“Chorar”. Jas. 09-2020.

POEMA – “ESTÃO CANSADAS, AS PALAVRAS…”

LUTO CONTRA O CANSAÇO
De te recriar,
Aqui, 
Neste Jardim,
Numa busca
De palavras
E de cores
Que parece
Não ter fim...

AS PALAVRAS AMEAÇAM
Nada dizer,
Braços caídos,
E as cores
Já desbotam
Nos cenários
Coloridos.

POR TANTO ME ESCONDER
Atrás delas,
Fingindo 
Nada saber,
Arrisco
Perder-me
Neste Parnaso
Onde te venho
Cantando,
Por certo,
Não por acaso.

DE NADA VALE
Pedir-te
Um simples sinal,
A ti, 
Que os manejas
Com mestria
E sageza,
Ao sabor dos teus
Caprichos
E de uma triste
Dureza.

TALVEZ ANDES
Distraída
Com futilidades
Da vida,
Mas já não sei bem
Quem tu és
De tão antiga
Ser 
Esta nossa
Despedida.

AS PALAVRAS ESTÃO
Cansadas
De te procurar
Com o vento
Sem saber
Onde pousar
Nesse teu mar
Tão cinzento.

NÃO FOSSEM AS CORES
Do arco-íris
A pintar o rio
Da tua vida
E talvez já tivesse
Procurado
Outra foz
Onde banhar
O meu estro e
Dar palco
A outra voz.

MAS SEI
Que procuraria
Sempre a tua
Réplica
(Que nunca
Encontraria)
E então regresso
À memória
Colorida
Desta minha fantasia,
Povoo-me
De imagens,
Construo catedrais,
Afundo-me na arte...
...............
E, olha,
Pensa bem no que
Eu te digo,
Pois já não sei
Em que mais,
Para além deste
Sofrido castigo.
Jas_Chorar0609PubREC

“Chorar”. Detalhe.

 

POR UM SORRISO…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Há Vida no Jardim”. 
Original de minha autoria 
para este poema. Agosto de 2020.
JardimAnimado27082020

“Há Vida no Jardim”. Jas. 08.2020.

POEMA – “POR UM SORRISO…”

OFERECIA-TE
O mundo
Por um sorriso
E um terno
Olhar
Desses olhos
Negros
Onde gosto
De navegar.

MAS É CERTO QUE
Não terei,
Foi promessa
Para a vida,
Eu bem sei.

NÃO IMPORTA,
Também o mundo
Não é meu
Para o oferecer...
..................
Ah, mas dou-te
As mágicas
Paisagens
Do meu olhar,
A incandescer,
Os frutos
Da minha arte,
Recrio-te
Em ausência,
Como diz a Yourcenar,
E então ficas
Mais bela
Que tu mesma...
...............
De tanto assim
Te amar.

DEI-TE HÁ DIAS
Um talismã
Pra que te guie
Na vida.
Fi-la eu,
A alquimia,
Com essas vibrantes
Cores,
Luz que brilha
Cada dia...
.............
Como em todos
Os amores.

SIM, EU TENHO
O mundo espelhado
No meu coração,
Lugar de onde
Te vejo
À distância
E à medida
De uma insólita
Paixão
E de um intenso
Desejo...
.........
Profundo
Como vulcão.

MAS ESSE SORRISO
E teu olhar
Não os terei
Para melhor
Te amar...
................
Como eu sei.
Então canto-te
Para espairecer
E comigo te
Levar
Como sempre
Desejei.

TENHO-TE ASSIM,
Em fantasia,
Este modo
De te ter
Cada noite em
Cada dia...
JardimAnimado27082020R

“Há Vida no Jardim”. Detalhe.

“KETROF”

Pintura
(Tela, 135x100, p.a.)

By João de Almeida Santos

PARTILHO hoje este quadro, 
de minha autoria, inspirado 
na “Quinta do Quetrofe”. 

A “Quinta do Quetrofe” 
encontra-se na vertente leste da 
Serra de Famalicão (Guarda), 
a mil metros de altitude, 
com uma belíssima 
vista para o Maciço Central.
QdQuetrofe

“Ketrof”. Jas. 08-2020.

OFEREÇO-TE UM TALISMÃ…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Talismã”. Original
de minha autoria para este poema.
Agosto de 2020.
JAS_TalismaFinalPub

“Talismã”. Jas. 08-2020.

POEMA – “OFEREÇO-TE UM TALISMÃ…”

OFEREÇO-TE UM TALISMÃ,
Meu símbolo
Do teu encanto,
Como se fosses
Irmã,
Aqui, neste Jardim,
Aqui, neste recanto.

VOA ALTO
O talismã,
Procura-te,
(Mas não sei onde),
Tem poderes
E tem magia,
(Que esconde),
Protege o teu
Caminho
Em cada nova
Partida,
A tua cartografia,
O mapa da tua 
Vida.

VOA, SIM, O TALISMÃ,
Desenhei-o
Para isso,
Um sopro
Forte
Na alma,
Lado belo do
Feitiço.

TEM AS CORES DO
Arco-íris,
Ilumina o
Teu rosto,
As margens
Da tua vida,
Tudo aquilo
De que gosto...
................
Ver-te sempre
Protegida.

BRILHA
Pela matina
Com teus cabelos
Ao vento,
Um sorriso
Em teus lábios
Que acende
O meu olhar
Quando desperto
Ao relento
Do sonho
De te amar.

É GRANDE
O seu poder
E forte como o
Amor,
Bons auspícios
Para ti,
Remédio
De alquimista
Pra curar a
Minha dor.

OFEREÇO-TE
O talismã,
Aceita-o
Com alegria,
Protege
O teu destino,
Da vida
A travessia,
Um caminho
Genuíno,
Da alma
A alquimia.
JAS_TalismaFinalPubRec

“Talismã”. Detalhe.

 

VALSA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Timidez”. Original
de minha autoria para este poema. 
Agosto de 2020.
JAS_Timidez1608FinalPub

“Timidez”. Jas. 08-2020.

POEMA – “VALSA”

DANÇAREI SEMPRE
Contigo,
Dançarei,
Uma valsa
(Só eu sei)
Que não tem fim...
............
Mas que não
Seja castigo
Esta magia
D'encanto
Que tomou conta
De mim!

NÃO ME CANSO,
Nesta valsa,
Não me canso...
.............
O corpo nada
Me diz,
Eu danço 
A vida contigo
Porque és
A minha fada,
Da minha alma
Matriz.

VÊS?
É uma dança
Interior,
Produto da fantasia,
Procuro-te
Onde quiser
Para contigo
Dançar
Esta nossa 
Melodia...

MAS ENCONTRO-TE
Sempre,
Austera e
Imponente,
Neste Jardim
Encantado,
Fada
Em forma de
Arbusto
(Bem copado)
Ou rutilante
Flor...
............
E por isso
Te dedico
Uma longa
E sofrida,
Mas doce
E desmedida,
Sinfonia
Ao amor.
JAS_Timidez1608FinalPubReco

“Timidez”. Detalhe.

ESTRANHO, NÃO É?

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Terraço”.
Original de minha autoria
para este poema.
Agosto de 2020.
Terraço0908_2Mono

“Terraço”. Jas. 08-2020.

POEMA – “ESTRANHO, NÃO É?”

É VULGAR SONHAR-TE
Em ambiente idílico,
Dirás.
Sim, bem sei,
Tu que nada terias
De romântico
Mesmo que eu fosse
Um rei.

MAS, FOI ASSIM 
Que te sonhei,
Aqui, onde o céu
Parece um lago
E as grades são,
À vista
Do casario
Que me veste
O olhar,
A minha libertação,
O meu tão cantado
Lar.

É AQUI QUE 
Eu te tenho,
É aqui que eu
Te sonho,
Que te canto
E te choro,
É aqui que
Sobrevivo
Porque é aqui
Que te adoro.

PINTO-TE,
  Sabes?
Pinto o lugar
Onde te vejo
E te quero,
Onde mais
Eu já te sinto...
..............
E desespero...

ESTRANHO, NÃO É?
É um sítio
Onde só vives
Sob forma
De arbusto
E te respiro
O perfume,
Adormeço
Ao relento,
Te sonho
Com as estrelas
E viajo
Com o vento...
............
Como lume.

SINTO-TE PERTO
Quando te canto
(Liberto)
E me aprisiono
Na ideia que
De ti eu tenho
E onde mais
Me abandono.

PERCO-ME, SIM,
Nestas cores,
Nestas palavras,
Na minha fantasia,
Enquanto tu
Te perdes
Num silêncio
Programado,
Tal como eu,
Nesta minha
Teimosia,
Meu destino
E triste fado,
Tão sofrida
Nostalgia.

MAS EU ESCREVO
E pinto
Para ti,
Meu amor,
Alimento
(Com dor)
Do teu futuro
Quando olhares
Para trás
E só vires
Este meu canto
(Já tão maduro)
Na tua vida
Porque não foste
Capaz
De manter
A ilusão
Por ti sempre
Prometida...
Terraço0908_2Rec

“Terraço”. Detalhe.

 
 

UM SONHO NO MEU JARDIM

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Jardim Espectral”.
Original de minha autoria para
este poema. Agosto de 2020.
UmSonhonoJardim

“Jardim Espectral”. Jas. 08-2020.

POEMA – “UM SONHO NO MEU JARDIM”

NUMA TARDE QUENTE
De Verão
Adormeci
No meu Jardim
Encantado
À sombra de um
Loureiro
E sonhei,
Pensando em ti,
Que era
Um jardineiro...
...........
Apaixonado.

MAS ERA ESPECTRAL
A luz
Desse jardim,
Era branca,
Irreal,
Algo estranho
Para mim
Neste lugar
Seminal.

SONHEI-TE.
Nesta estranha
Visão
Tudo perdera
Cor,
Tudo era
Ilusão e
 Voltou 
O que então
Eu senti
Naquela tarde
De outono
Quando 
Para sempre
Te perdi...
...........
Uma imensa
Comoção.

NO SONHO,
Já não te vi,
A memória
Perdeu cor,
Mas logo
Te pressenti
Nesse cíclico
Retorno
Da minha
Remota dor.

NÃO ERA
Deste mundo
Esse Jardim,
Perdera
O seu encanto,
O perfume
Já não era
Do inebriante
Jasmim
Nem de outra
Qualquer flor
Que sorrisse
Para mim.

MAS LOGO ACORDEI
Com a brisa fresca
Da noite
No meu Jardim
Encantado
E o sonho branco
E pesado
Logo teve
O seu fim,
Despertando
Uma doce
Nostalgia
Quando o brilho
Das estrelas
Do mais profundo
Do céu
Cobriu
Este meu rosto
De um cintilante
Véu
Como se fosse magia.
UmSonhonoJardimRec

“Jardim Espectral”. Detalhe.

A FLOR DE PAPEL

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Fleur de Papier en Vol
à la Recherche du Poème Perdu
dans un Jour d’Hiver”.
Original de minha autoria.
Julho de 2020.
JASFleurdePapierFinal2607_Pubpsd

“Une Fleur de Papier en Vol à la Recherche du Poème Perdu dans un Jour d’Hiver”. Jas. 07-2020.

POEMA – “A FLOR DE PAPEL”

NUM DIA DE INVERNO
Uma flor de papel
Voou
Para longe,
Levada pelo vento.
Rajadas fortes
Quebraram
Os subtis
Filamentos
Que a ligavam
À raiz de onde
Nascera...
.............
Seu alento.

CONTINUA A VOAR,
Essa flor de papel,
Ao sabor do vento,
Pousando
Aqui e ali
E logo voando
Para outros
Destinos,
Em perpétuo
Movimento.

PERDEU AS CORES
Luminosas
Que exibia
E a fonte
D’inspiração,
A seiva
De cada dia,
Borboleta
Sem pólen
Para nova
Gestação
No jardim
Da fantasia.

MAS NUM DIA
Quente
De Verão
(Eu bem sabia)
Encontrei-a
Por acaso
Aninhada
Num arbusto,
Recolhida sobre si
Em profunda
Solidão.

PEGUEI-A
Com a mão
E levei-a
Ao Jardim
Do meu poeta
Pintor...
.............
Nosso chão.

DEU-LHE COR,
O meu poeta,
Alisou as suas rugas,
Mostrou-lhe
O horizonte
Nesse dia de
Verão
E logo a deitou
Ao vento,
Ao encontro
De raiz
Que nutrisse
Com sua seiva
Uma nova floração....
JASFleurdePapierFinal26R

“Dans un Jour d’Hiver…”. Jas. 07.2020.

RITUAIS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Templo Inacabado”.
Original de minha autoria
para este poema. Julho de 2020.
JanelaFimPublicado1psd

” Templo Inacabado”, Jas. 07-2020

POEMA – “RITUAIS”

IMAGINEI UM TEMPLO
Revestido de vitrais,
Celebrar-te
Com palavras
Em singelos rituais.

EVOCO
O tempo
Em que sempre
Me perdia
Nesse teu olhar
Esquivo...
...............
E os silêncios
Que sobravam
Como se fossem
Castigo.

É O QUE RESTA
Como alimento
Da alma,
O fervilhar
De memórias,
Inscrições
Sensoriais,
Silêncio
Profundo
A poético
Chamamento...
...............
E tudo o mais...

UM FUTURO IMAGINADO
De voluntário
Amante,
Construído
Nas ruínas
De um passado
Que não é
Muito distante.

SIM, O QUE RESTA
É este brilho
Coado,
Melancólico,
Cinzento,
O negro 
De teus olhos 
Inquietos
E teus cabelos
Fartos,
Ao vento...

TUDO FERVILHA
Na minha sofrida
Memória,
Delicada criação
Em palavras
Com história.

DOU-TE, ASSIM,
 Nova vida
E renovo-me
Também eu,
Falo ao mundo
Comovido
De um templo
Que é só meu.

IMAGINEI-O,
O templo,
Para quando
Regressar
Do meu Jardim
Encantado,
Vibrante de cores
E por fora
Perfumado,
Mas por dentro
Melancólico e
Sofrido
Por te ter,
Nesse tempo
Já passado,
Dolorosamente
Perdido...
.........
De tanto
Te ter amado.
JanelaFimPublicado1psdR

“Templo Inacabado”. Detalhe.

DEUSA NO MEU JARDIM ENCANTADO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Sonhei-te assim, 
no Poema”.
Original de minha autoria
para este poema. Julho de 2020.
Deusa290620Final0607

“Sonhei-te assim, no Poema”. Jas. 07-2020.

POEMA – “DEUSA NO MEU JARDIM ENCANTADO

”SONHEI-TE ASSIM,
Meu amor:
Uma deusa no Jardim.
Não te vendo,
Recrio-te
Com fantasia,
Olhar
Deslumbrado,
Alma
Devotada
Que persiste
Fascinada
Como quando
No passado
Eu te via.

QUE SAUDADES!
Não nos gastámos
Porque partiste
Cedo demais.
Sobrou-me
De ti o melhor,
Quando, ao ver-te,
Estremecia,
Olhos negros,
Inquietos,
Mistério
Que seduzia.

FICOU-ME A VONTADE
De te desvelar
Lentamente
À medida
Do desejo,
De um forte
Encantamento,
Renovada  
Inspiração,
Oráculo e
Devoção
E silente
Chamamento.

ESTA NOITE
Sonhei-te assim,
Amanhã
Eu já não sei,
Os sonhos vão
Lá pra longe
Ou vêm pra muito
Perto,
Noites longas e
Profundas,
Quando o amanhecer
 É incerto.

POR ISSO SONHEI-TE
Hoje,
Pra te contar
O meu sonho
Amanhã,
No dia em que
Mais sinto
Esta minha solidão,
A ausência
E o silêncio
A que respondo
Com poética
Evasão.

PROCURO-TE
Na fantasia,
Nos poemas,
Na pintura,
Nos sonhos
Ou no Jardim
Onde te vejo
Altiva
Aqui bem perto
De mim.

E QUANDO TE OLHO
Vejo o mundo
A partir desse teu
Rosto,
Mais belo
E misterioso,
Mais quente, 
Silencioso...

CRESCE A VONTADE,
O estro,
A poesia,
Vejo o futuro
Risonho,
Há uma certa acalmia
Neste mundo
Tão rugoso.

SONHEI-TE
Um dia antes
Do beijo
Que celebro
Com a minha poesia,
Ano após ano,
Ao encontro da raiz
Onde o poeta
Nasceu
Para o canto
Que a dor
Lhe prometeu
Como pura catarsia.
Deusa290620Final0607R

“Sonhei-te assim, no Poema”. Detalhe.

 

ENCONTRO NO JARDIM

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – “Cai a Noite no Jardim”.
Original de minha autoria
para este poema. Junho de 2020.
Anoiteceu2806FinalBrilho

“Cai a Noite no Jardim”. Jas. 06-2020.

POEMA – “ENCONTRO NO JARDIM…”

CAI A NOITE
No jardim
E já nem sei
Se amanheces
Dentro de mim.
Sobras-me
Em incerteza
Nos sonhos
Breves
Em que te encontro
Como se fosse
Eterna
Esta nossa despedida,
A versão já repetida
De um desencontro
Sem fim.

MAS À NOITE
O teu perfume
É mais intenso
No meu Jardim
Encantado,
O silêncio
Mais profundo,
Ouço mais
A tua voz
Cristalina
Ecoar
Na minha alma,
 Vejo o brilho
De teus olhos
Ausentes
Acender magnólias
Brancas
E sinto o vermelho
Das rosas
Incendiar-me
O corpo.

MAS ANOITECE,
Meu amor,
Ah, como anoitece,
Vai-se o sol
E a vibração dos sentidos,
Recomeça a viagem
Para dentro de mim,
Invoco-te
Com a alma
E trago-te
Como pétala às minhas
Palavras,
Olho-te por dentro
Quando a melancolia
Toma conta de mim
Neste cíclico
Anoitecer.

VOU AGORA A CAMINHO
Da noite,
Do sonho,
Do imaginário
Que entra sem pedir
Licença
E me arrasta
Na corrente
Onírica para um
Incerto destino
Onde não sei
Se habitas.

E O AMANHECER
É sempre imprevisível,
As ondas de luz que
Chegam com o sol
Ameaçam
As cores suaves
E quentes
Com que te
Sonho e te pinto
Na minha alma
Nas noites
De luar.

CAI A NOITE NO JARDIM
E anoitece-me
Na alma,
Meu amor!
Anoiteceu2806FinalRec

“Cai a Noite no Jardim”. Detalhe.

 

 

CASTA DIVA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “S/Título”.
Original de minha autoria
para este poema. Junho de 2020
RufetewomanCOR

“S/Título”. Jas. 06-2020.

POEMA – “CASTA DIVA”

SONHEI-TE
Nesta noite de Verão.
Eras casta.
Podias ser
Casta Diva.
Ou não.
Casta, sim,
De onde nasce
O meu vinho,
Milagre
Da natureza,
Sob forma de
Mulher,
Mas serás
Diva também
Se ao poema
Te trouxer.

SONHO-TE
Muitas vezes,
Voo contigo
À procura
Do passado,
Mas nunca eu
Te sonhei
Como casta
Em pecado,
Trepando,
Pela latada,
No meu
Jardim
Encantado.

AH, A LATADA
Essa sim,
Que um dia
Trepou por ti
Pernada acima
Nesse enlace
Fatal
Onde me nasceu
A rima,
O canto
Que te invoca
Quando me torno
Jogral.

AGORA SONHO-TE
ASSIM,
Mulher-Rufete,
Crescendo
Bem alto
Nas terras
Do meu Jardim...
.................
As voltas que
O mundo dá,
Neste recanto
Encantado
Com aroma
Perfumado
Da ramagem do
Jasmim.

CRESCES-ME
Na alma
Sob a forma de
Enlace,
Mas se agora
És videira
E ontem eras
Jasmim,
Amanhã
Serás arbusto
Mesmo que eu
O não queira
Por seres diva
Para mim.
RufetewomanCORRec

“S/Título”. Detalhe.

A EROSÃO DO TEMPO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Entardece no Jardim”.
Original de minha autoria
para este poema. Junho de 2020.
JardimJAS1406_2

“Entardece no Jardim”. Jas. 2020.

ENTARDECE NO JARDIM,
Entrevejo-te
Por entre folhas
De um arbusto,
Ao longe,
Uma imagem
Desfocada...
...............
O sol cai
No horizonte,
Vejo, apenas,
Um perfil
Esfumado,
Nuvem cinzenta
Arrastada
Pelo vento
Para lá desta
Montanha,
Meu alento,
Minha fada.

VIRO-ME 
Para dentro 
De mim
E o meu olhar
Interior
Confunde-se
Com o teu
E já nem sei
Se és tu
Ou se essa imagem
Um pouco baça
Serei eu.

O TEMPO
Esculpe o rosto
Na memória
Dos afectos
E só vejo
O que de ti
Me sobrou,
Retrato
De pouca cor
Composto
Ao ritmo
De suspiros...
............
E tanta dor.

NÃO FOSSE A POESIA
E restarias
Nuvem no céu
Entre o azul
E o branco
Desta minha
Fantasia,
Ponte espectral
Entre mim
E a deusa que
M’ilumina
Por dentro e
Por fora,
Um clarão irreal
Que cega
E me comove...
...............
Como quem chora.

AH, MAS O POEMA
Dá-te vida,
Dá-te luz
E dá-te cor,
Enche-te a alma
De emoção,
Interpela
Todo o teu ser
E rompe
Este minha
Tão sofrida
Solidão.

MAS EU TEMO
Encontrar-te
E já não saber
Quem tu és
Por há muito
Navegar
Outras ondas
E marés
Tão longe
Desse teu mar...
JardimJAS1406_2 - cópia

“Entardece no Jardim”. Detalhe.

A REINVENÇÃO DO TEMPO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A lua desceu sobre mim”.
Original de minha autoria
para este poema. Junho de 2020.
JAS2AluaDesceuSobreMim

“A lua desceu sobre mim”. Jas. 06-2020.

POEMA – “A REINVENÇÃO DO TEMPO”

FOI INESPERADA
A descida
Ao vale
Profundo
Da tua vida,
Reencontro
Com o destino
Que os deuses
Te traçaram,
Numa longa
Despedida.

TRILHOS NOVOS,
Fim do ciclo
Que corroía
E já tardava...
..............
Porque doía.

UM RÁPIDO
Bater de asas
Aos ventos que
Sopravam e
Incendiavam
O teu desejo
De liberdade...
...............
E o tempo
Da reinvenção
Aconteceu
Na outra metade
De ti.

OS CICLOS
Que a vida tem...
..................
De repente,
Assomam
Personagens
Que nos habitam
E aguardam
Em silêncio
O dobrar de uma
Esquina
Para tomarem
Conta de nós...

É A VIDA
Em sobressalto,
Renascida,
Ventos que sopram
Forte na alma,
Perfume de liberdade
Que docemente
Embriaga,
O sorriso inocente
Da criança que
Desperta
Para dar vida
Às coisas inanimadas
Que nos prendem
O olhar...
.............
Num luminoso 
Amanhecer.

PRESSENTI
Essa viagem,
A partida
Do túnel
Ensombrado
Do tempo,
Sem bagagens,
Apenas o teu corpo
E a vontade
De trepar pelo
Mundo acima
Como quem
Já o respira
Lá no alto
Da montanha.

E LOGO TE DISSE:
“Nasce outro
Personagem
Em ti
Que já se manifesta
À procura de autor
Que lhe reescreva
O destino
E o ponha em cena
No teatro 
Da tua vida...”

“VEM DAÍ, VEM,
Que a vida acontece
No grande teatro
Do mundo
Onde se viaja ao sabor
Do vento
E da fantasia
Em levitação
Sobre o vale
De onde se vê
A vida
Do lado certo
Do sonho.”

“E TU, QUE PAGASTE
O teu tributo,
Abraça a autoria
E procura esse palco
Onde encenar
A reinvenção do
Tempo
Com fantasia,
A que nasce  
Da liberdade
Que ilumina
O caminho,
A bússola 
Que já te guia.”

VÁ, VEM DAÍ,
Há muito 
Caminho para andar,
Há azul 
No horizonte
E brilho 
No teu luar,
Há sol 
Na madrugada,
Suave brisa 
No ar,
Há flores 
No teu jardim,
Água fresca 
Pra regar,
Há mais mundo
Que te espera
E uma vida
Para amar...
...............
Vem daí, vem, 
Meu amor,
Já nem sei
Como esperar!
JAS2AluaDesceuSobreMimRec

“A lua desceu sobre mim”. Detalhe.

 

ETERNO RETORNO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Encontrei-te no Jardim”.
Original de minha autoria
para este poema. Maio de 2020.
JASFin0606PnJ_psd

“Encontrei-te no Jardim”. Jas. 05-2020.

POEMA – “ETERNO RETORNO”

SE TE VEJO
Estremeço,
Se não te vejo
Caio em
Melancolia,
Assalta-me
O desejo
De voar
Contigo...
...........
Nesse dia.

EU NÃO SEI
Como se muda
O mundo
Para te ter,
Então voo
Sobre ele
Ao sabor do vento
Pra que tu
Me possas ver.

É ESTRANHO, NÃO É?
Esta moinha
Que me consome
Porque não te vejo,
Não te ouço
E nem sequer
Te procuro
Porque sei
Que a via
Da minha arte
Me levará
A esse teu lado
Mais puro. 

É POR ISSO QUE
Só te espero
Na rua
Do desencontro,
No jardim
Da despedida
Que nunca parei
De regar
Com arte
E nostalgia,
Essa forma
De te amar
Cada noite
E cada dia.

É ACASO
Ou destino
Esperar-te numa
Esquina
Das tantas
Que a vida tem?
Foi dela
Que t'esgueiraste
Na densa
 Neblina
Desse teu
Quotidiano
De que ficaste
Refém.

SIM, É VERDADE,
Mas se te encontro
Nessa esquina
Que me leva
Ao jardim
Eu de novo
Estremeço,
Caio em mim,
Sinto um profundo
Torpor
E adormeço,
Pondo fim
A essa dor...

AH, MAS DEPOIS
É o céu,
Sim, o céu,
A sonhar-te
Em azul profundo
E o desejo
A cumprir-se
Nas ondas
Do nosso mar
Até que a aurora
Desponte
Para ser acometido
Por nova melancolia
E desejo
De voar...

JASFinPnJ_psdR

“Encontrei-te no Jardim”. Detalhe.

 

QUASE

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Desejo”.
Original de minha autoria
para este poema. Maio de 2020.
JAS1_O Desejo052020

“O Desejo”. Jas. 05-2010 .

POEMA – “QUASE”

DISSE-TE UMA VEZ
Que o desejo
É quase tudo
E o que sobra
Quase nada.

RESPONDESTE
Que, assim,
Eu nunca 
Sairia de mim
Pra conhecer
O sabor
Do quase
Que sempre
Sobra
Do desejo
Consumado.

SORRI
E com ternura
Te disse
Que é na posse
Que se mata
O desejo
Encantado...

ENCOLHESTE
Os ombros,
Olhaste-me
De revés
E foste embora
Dali.

FIQUEI SÓ,
Com o desejo
Nos braços,
Nostálgico
E pensativo,
Quando dobraste
A esquina
Deste nosso
Desencontro,
Tão curto,
Mas impressivo... 

RECORRI
À memória
Daquele instante
Fugaz,
Revi-te a beleza
Do rosto,
Expressivo
E tão vivaz,
Alma
Estampada
No corpo,
Essa boca
Sensual...
............
E o desejo
Transbordou
Das margens
Deste meu
Mundo
Tecido
De fantasia
Numa bola
De cristal.

FIXEI-ME
Na tua beleza
E dei asas
Ao desejo,
Desenhei-te
Numa tela
E cantei-te
Num poema
(As armas
Do meu poder),
Cobri-te
Toda de cores
Para nunca
Te perder.

E FIQUEI-ME
Por ali,
A sonhar-te...
..............
A matutar
No destino
Que cedo
Me cativou
Por achar que
O desejo
É quase tudo,
Mesmo quando
O mundo
Te abraça
E devolve
Tudo o que dele
Te sobrou.
JAS1_O Desejo052020Rec

“O Desejo”. Detalhe.

 

CONFISSÕES DE UM CONFINADO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “S/Título”.
Original de minha autoria 
para este poema. Maio de 2020.
JAS2020_1705_15

“S/Título”. Jas. 05-2020.

POEMA – “CONFISSÕES DE UM CONFINADO”

ANDO PERDIDO,
Por aí,
Nas tardes
De Primavera,
À procura de mim,
Neste estranho
Tempo
Que aviva
O que perdemos
Nas esquinas
Da nossa vida.

NÃO ME VENDO
No espelho
Dos outros,
Já não sei
Quem sou e
Onde estou.
Apenas suspeito.
Uma vaga ideia.

FALTA-ME O MUNDO
Para dar conta
De mim,
Mas, coisa estranha,
Ele entra-me 
Casa adentro
E devolve-me
O que perdi,
Mais selectivo
E profundo,
Apenas o que é
Remoto
Da cidade
Onde vivi.

ESTRANHO MUNDO,
Este,
Que escolhe
Por mim
O que me sobrou
Da voragem
Do tempo...

É POR ISSO
Que me procuro
Para saber
Se o que me
Bate
À porta
É meu
Ou se a falta
De mundo
Me provoca
Alucinações,
Sonhos ou
Sombras
Do que nunca
Aconteceu...

ENTÃO PROCURO-ME
No espelho
Que trago comigo,
Dádiva
De Athena,
Olho,
Volto a olhar
E descubro que
Afinal sou eu,
O esquecido
Sem abrigo,
Aquele que andou
Por aí
No bulício
Da vida,
Ao sabor do vento...
.............
Mas contigo.

E TAMBÉM SEI
Que, por isso,
Nesta errância,
Eu não petrifiquei.

AH, COMO É BOM
Saber
Que, afinal,
 O vento
Me levou
Para destinos
Encantados
Onde contigo
Renasci,
Quando o tempo
Trazido pelo vento
Que passou
Na rua da
Minha vida
Me bateu 
À porta...
............
E eu abri.
JAS2020_1705_15R

“S/Título”. Detalhe.

 

É ASSIM QUE EU TE VEJO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Uma Mulher”.
Original de minha autoria
para este poema. Maio de 2020
MãeFinal1005_1808_4pgVERSSITE

“Uma Mulher”. Jas. 05-2020

POEMA – “É ASSIM QUE EU TE VEJO”

DESDE SEMPRE
Que te guardo
No meu peito.
Fixei-te melhor
Naquele dia
E guardei-te
Na memória
Profunda
Quando te vi
Perdida,
Por encanto,
A ouvir
Essa nossa
Melodia.

UM BRILHO QUIETO
Em teus olhos,
Suspensa
Nas nuvens,
A suave paixão
Maternal,
Inefável,
Quando as palavras
Já não chegam
Para te nomear
Com a alma,
De tão cheia
De ti,
A transbordar...

A MINHA AUSÊNCIA
Constante
E tão cortante,
O preço
Para ser
O que mais querias
Que fosse,
Fazia crescer
Em ti
O encantamento
Que tinhas
Contigo
Desde aquele dia,
Quando te nasci
E tu renasceste
Comigo.

AQUI SEMPRE
A meu lado,
Este rosto
Sedutor
Nunca me 
Despertara
O desejo
De o cantar
Para além da 
Memória
Remota 
Do afecto...

PALAVRAS
E melodia,
O olhar
Penetrante
Da alma,
Um canto
Devotado
Que tocasse
Em cada dia
As fronteiras
Intangíveis
Do sagrado.

FOI PRECISO
Aprender 
Os ofícios
Da arte
Pra te poder 
Celebrar
E dizer 
De todas as formas
Que sei
O que não quero
Calar.

E AQUI ESTOU.
Esse dia
Haveria de
Chegar.
E chegou.
JasFioriperte-cópia

“Flores do meu Jardim Encantado”.

 

MARMELADA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Dança da Combustão”.
Original de minha autoria
para este poema. Maio de 2020.
Combustão030520_Fim

“A Dança da Combustão”. Jas. 05-2020.

POEMA – “MARMELADA”

COMO GOSTO
Da tua marmelada,
Meu amor...
...........
E gosto de
Chocolates,
Dos que me
Sabem a ti,
A esse tão doce
Sabor.

GOSTO DA METAFÍSICA
De confeitaria
Porque me adoça
A alma,
É nela que eu te
Encontro,
Nesta minha 
Fantasia,
Quando a noite
Se faz calma.

SOU GULOSO,
Como sabes,
E como é doce
E macia
Esta tua marmelada,
Sinto-a
Como alquimia,
Como arte
De uma fada.

COMO, COMO,
Sem parar,
Sabe-me
Sempre a ti,
Ao brilho
Do teu olhar,
Ao perfume 
Do teu corpo,
Onde hei-de
Naufragar.

NESTA TUA
MARMELADA,
Eu vejo-te
Artesanal,
Com os marmelos
Nas mãos,
Sabores
Em harmonia,
Uma receita fatal,
Polpa moldada
Por ti
Na dança
Da combustão,
Cor intensa
E profunda,
Iguaria
De convento
Com teus frutos
Em fusão.

TALVEZ A TENHAS
Criado
Em tempo
De quietude
Ou mesmo de
Solidão,
Quando esvaece
Esse lado
Tão agreste
E tão crispado
Que te esconde
A beleza
Dos momentos
De paixão...

AH, A MARMELADA,
A metafísica,
Chocolates,
Confeitaria...
..............
A doçura
Do teu jeito
Vai ficar-me
Sempre viva
Como suave
Suspiro
Que se solta
Do meu peito...
...............
Por essa tua
Magia...
Combustão030520_FimRec

“A Dança da Combustão”. Detalhe.

TRÊS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Geometria”.
Original de minha autoria.
Abril de 2020.
GeometriaFinal26

“Geometria”. Jas. 04-2020

POEMA – “TRÊS

SINTO TRÊS VEZES
A tua falta
Na sofrida
Solidão
Onde encerro
O que não tenho
No Monte,
Oráculo
Desta minha
Invocação.

TRÊS VEZES
Eu sinto
O teu silêncio,
Na ausência
Do teu rosto
E do som
Da tua voz,
Do aroma
Do teu corpo...
................
Minha foz.

ATÉ A ALMA
Escasseia...
...............
Não lhe sinto
Pulsação,
Desmaiada
Sobre mim,
Inerte
Nestes meus braços,
Uma carícia
Sem fim...

TEU SILÊNCIO
Cai pesado
Sobre a minha
Solidão,
Meteorito
Na alma,
Inaudível
Colisão.

SOBRA-ME,
De ti,
O nome,
Rasto da tua
Passagem
Na rua
Que já foi minha,
É nela que eu
Te sonho
E te pressinto
Como deusa
Nas noites
Do meu luar
E te canto
Em poemas
Onde os nomes
São metáforas
E sem limite
O poder
De nomear.

EU SINTO
A tua falta
Três vezes
De cada vez.
É falta a mais,
Eu bem sei,
Mas o número
Perfeito
É o três.

ABRAÇO
O número
Da perfeição,
Desenho
Triângulos
Em liberdade
Até que os sinta
Vibrar,
Instrumentos
Musicais
Que dão voz
À minha dor
Na exacta
Geometria
De teus breves
 Rituais.

 NELES OUÇO
A tua melodia
Como eco
Desse nome
Que no sonho
Invoquei,
Dou início
Ao poema
Para te sussurrar
Baixinho
A história
Que sonhei.
Geometria29R

“Geometria”. Detalhe.

 

ALMA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – “S/Título”.
Original de minha
autoria para este poema.  
Abril de 2020.
S:TituloFinal2_19

“S/Título”. Jas. 04-2020

POEMA – “ALMA”

SE QUISESSE
A tua alma
Como anjo
Do pecado,
Que farias
Do teu corpo
Que eu sonho
Imaculado?

SE O TEU CORPO
Pedisse
O poeta
Apaixonado
Não lhe darias
A alma,
Tributo do teu
Secreto
Pecado?

MAS EU QUERO
A tua alma
Mais do que quero
O teu corpo,
Do que de ti
Eu mais gosto,
Porque é ela
Que me fala
No brilho
Desses teus
Olhos,
No veludo
Do teu rosto.

ÀS VEZES
(Eu pressinto)
Abandonas-te
Ao ritmo
Encantatório
Das palavras
Que te lanço,
Da melodia que
Embala,
Da beleza
Do meu pranto
No poema
Que te fala.

É DIFERENTE
O meu encontro
Com teu rosto
Tão macio,
O brilho do teu
Olhar...
.................
Ou com sulcos
Tão crispados,
Espelho
Da tua alma,
Quando roubam
O encanto
Desse sorriso
Esboçado
De quem constrói
O futuro
Nas ruínas
Do passado.

O QUE EU
Procuro em ti,
É o lado
Desta minha
Perdição,
A beleza
Dos teus olhos
Onde te fala
A alma,
Onde cresce
Cada dia
Uma incontida
Paixão.

TALVEZ O TEU
SILÊNCIO,
Linguagem
Em forma pura,
Me seduza
E me cative
Na fronteira
De uma dor...
...............
Que com poesia
Se cura.
Jas_S:TituloFim1904R

“S/Título”. Detalhe

 

VOAR

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Pássaro de Fogo”.
Original de minha autoria
sobre desenho de Vera Sousa.
Abril de 2020.
Uccello12

“Pássaro de Fogo”. Jas. 04-2020.

POEMA – “VOAR”

APETECE-ME VOAR
Sobre o teu silêncio,
Confinado que estou
Entre paredes
De um subtil
E incerto afecto
Que me vai capturando
Pela sedução
De uma ausência
Insinuada...

AH, MAS EU SEI
Que estas paredes
São do tamanho
Da minha fantasia
E que o voo,
Livre como é,
Não terminará
Até que te sinta
Pulsar finalmente
Dentro de mim...

E SEI TAMBÉM
Que as minhas asas
Terão sempre
As cores
Do arco-íris
Para com elas
Voar
Sobre o vale da
Tua vida,
Montado num
Pássaro de Fogo.

VER-TE-EI 
Lá de cima
Caminhar distraída,
Perdida
Nas encruzilhadas
Que vais criando
No sendeiro inóspito
Da tua vida
E lançar-te-ei
Âncoras coloridas
Que dêem mais luz
À incerteza
Que te vai na alma.

E AGORA,
Que o pintei,
Já tenho um
Mensageiro
Que te levará,
Com o vento
(Ou num
Inesperado
E feliz reencontro
De palavras),
As cores
Com que, docemente,
Te vou pintando
E as deixará
No parapeito
Da tua janela.

MAS NÃO PRECISARÁS
De abri-la
De par em par
Porque ele não
Entrará...
.............
Poderia
Incendiar-te
A fantasia e
Engravidar-te
A alma
Com o fogo
Que levará
Consigo...
Uccello12Rec

“Pássaro de Fogo”. Detalhe.

 

REGRESSO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Primavera”.
Original de minha autoria
para este poema.
Abril de 2020.
RegressoFinal05LUZ

“Primavera”. Jas. 04-2020

POEMA: “REGRESSO”

ESTÁS TÃO LONGE
E tão perto
Eu te sinto...
.............
Neste tempo
De fronteiras
Eu sofro
O teu silêncio 
Como espinho
Cravado
Da mais brava
 Das roseiras.

MESMO ASSIM,
Mesmo em dor,
Regresso sempre
Ao lugar
Onde eu
Te conheci,
Ao mistério
Do teu rosto,
Quando por ele
Me perdi...

PERDI-ME,SIM,
Mas encontrei
O que julgava
Não ter,
Porque foste
O espelho
Onde me vi
Renascer,
Embora já
Pressentisse
Que por culpa
Do destino
Eu te iria
Perder.

AH, SE SOUBESSE
Onde estás
O vento
Levar-me-ia
Ao parapeito
Da tua incerta
Janela,
Ver a tua
Silhueta,
Partilhar
A solidão,
Sonhar,
Sentir-me
Um passarinho
Aninhado
Docemente
Na palma
Da tua mão,
Sem vontade
De voar...

MAS EU NÃO SEI
Onde estás,
O que fazes,
Com quem andas,
Se trabalhas,
Se viajas,
Se sonhas
E fantasias,
Se não ouves
Ou não lês
Os sinais que
Eu te dou...
..............
Poéticas
Sinfonias
Em pautas
Onde transcrevo
O que de ti
Me ficou.

OH, QUE DESTINO
Me calhou,
Ter-te 
Encontrado
Um dia
Para logo
Te perder
Nos caminhos
Desta vida
Que me levam
A cantar
Esta triste
Melodia
De eterna
Despedida...
RegressoFinal05LUZRec

“Primavera”. Detalhe.

 

INVOCAÇÃO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Casas no meu Jardim 
Encantado”. Original de minha 
autoria para este poema. 
Março de 2020. Veja a nota
no final do poema.
Casasnojardim2903Final

“Casas no meu Jardim Encantado”. Jas. 03-2020

POEMA – “INVOCAÇÃO”

QUE SINTAS
 O pulsar
Do poema
No teu peito
Para te ter
No silêncio
De uma casa
Iluminada 
Pelo brilho
Das magnólias
E da luz
Da primavera
Ao lusco-fusco
De um entardecer
...................
É o que mais
Eu desejo de ti.

SE CAÍRES EM SILÊNCIO
Profundo
Para melhor
Ouvir
O meu canto
E sentir o aroma
Das cores
Com que pinto
Para te encher
A alma
De Primavera...
...................
Ah, que feliz
Eu me sinto.

SE SENTIRES
Dentro de ti
O chamamento
Ao poema
E o ritmo do meu
Pulsar
Continuarei
A visitar
O oráculo
E a subir
À montanha
Onde a deusa
Espera
Notícias de ti.

SE O TEU SILÊNCIO
For o eco da
Minha voz,
A dança da melodia
Cantada 
Em surdina
Saberei que
Abraçaste o tempo
À medida de um
Sonho
Revelado
Onde constróis
O futuro...
...............
Reinventando o
Passado.

E SE EU SENTIR
Uma suave
Tristeza
De tanta ausência
Sofrida
E uma doce 
Nostalgia
Da luz 
Desses teus olhos 
Que m'incendeia 
O olhar
Então isso
Quer dizer
Que te amo...
...........
Com a alma
A transbordar...

MAS NÃO SEI...
................
Não sei se
Tudo será
Uma cálida
Fabulação
Pr’alimentar
A sede
Insaciável
De teu corpo
Imaginado
Num poema
Em que sonhei
Ter-te, assim, 
Tão intensamente
Amado...
Casasnojardim2903FinalRec

“Casas no meu Jardim Encantado”. Detalhe.

TALVEZ MOVIDO POR ESTE POEMA, 
tenho, nestes dias, 
frequentado, mais do que o 
habitual, as obras de Nietzsche. 
Transcrevo, pois, aqui dois 
aforismos (161 e 175) 
tirados de “Para além 
do bem e do mal", de 1886:  
1. “os poetas não têm pudor 
das suas aventuras; exploram-nas” 
– os poetas vivem as suas 
experiências íntimas como 
alimento da sua fantasia; 
2. “cada um ama o seu desejo 
e não o objecto desse desejo” – 
o que subsiste é o desejo, 
tudo reside nele e é ele 
que move montanhas.

Este poema remeteu-me para a 
necessidade de ter 
estes aforismos sempre presentes, 
tal como o aforismo 153: 
“o que se faz por amor está 
sempre para além do bem e do mal”. 

E não fosse a conversão interior 
e o desenho estético das suas 
pulsões naturais, 
para além do bem e do mal, 
a dor do poeta 
seria irremediável 
e talvez insuportável.
 
Assim, escreve, pinta 
e segue em frente, 
alheio ao (silencioso) ruído
exterior que ameaça 
perturbá-lo. 

O Nietzsche está mais perto 
da arte do que 
da filosofia. Sinto isso 
na minha própria pele. 
Eu, que não sou Zarathustra: 
“Die Liebe ist die 
Gefahr des Einsamsten” – 
“O amor é o perigo 
do mais solitário” 
(“Assim falou Zarathustra”, 
1883-85, III, Der Wanderer).
JAS#03-2020

 

BRILHAM OS TEUS OLHOS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Oráculo”. 
Original de minha autoria para
este poema. Março de 2020.
Outono7psd

“Oráculo”. Jas. 03-2020.

POEMA – “BRILHAM OS TEUS OLHOS”

NO ORÁCULO
Há uma árvore
Iluminada
Nos dias de ritual...
...................
Essa árvore 
És tu
E eu a luz
Que alumia
Com o ceptro
De cristal
Do templo sagrado
De Athena,
Da arte
A catedral.

ÀS VEZES BRILHAS,
Incendeias-me
A alma e
O estro
No poema
Em construção,
Outras convocas
A sombra
E o silêncio,
A árvore
Entristece
E também eu
Me apago
Em infausta
Comoção.

É BELA A ÁRVORE
(Sem frutos),
Beleza luminosa
E um pouco fugidia
Quando em dias
De ritual
Quero cantá-la
Com vigor
E fantasia
Porque o brilho
Dos teus olhos
Me acende
Esta paixão
Como pura energia.

SE NELA EU 
NÃO TE VEJO,
Apago-me
Em submissa
Tristeza,
Falta-me o teu
Olhar,
De cada poema,
A luz 
E, do afecto,
Delicada
Incerteza...

FLUI O TEMPO,
Meu amor,
Gasta-se a vida,
Fogem de nós
As palavras,
O olhar
Empalidece
E esvai-se
A alegria,
O oráculo
Não acolhe
Este canto
E, depois,
Volta a rotina
De cada dia
E eu perco
O teu encanto...

MAS A DEUSA
Aguarda-nos
Impaciente
E eu hesito
A chamar-te
Ao ritual,
Tenho medo
Que não ouças
E perca,
Do oráculo,
A magia
Do seu ceptro
De cristal...

AH, MAS EU OUÇO-TE
Sempre
Dentro de mim
(És a minha
Salvação)
E convoco-te
Ao poema
Pr’acender
Com a tua melodia
A árvore
Inspiradora
Da minha deusa
Athena
Enquanto 
Meu canto
Durar
Nos dias 
Do ritual.

NÃO TE ABANDONES TU
Na perdição 
Da rotina,
Não apagues
Essa luz
Que começa a
Renascer
Com brilho que
M'ilumina,
Deixa que eu
Te cante
E te celebre
Em cada amanhecer,
Te acenda
A fantasia
Nem que seja
Num instante
Duma noite
Ou no acaso 
De um dia.
Outono6psdRec

“Oráculo”. Detalhe.

 

RAÍZES

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Jardim Encantado”.
Original de minha autoria 
para este poema. Março de 2020.
Jas_JardiimEncantado1503Transp

“Jardim Encantado”. Jas. 03-2020

POEMA – “RAÍZES”

FUI PROCURAR-TE
Ao Jardim
 (Vou sempre,
Quando te quero),
És planta
Seminal,
Magnólia,
O teu nome,
Erecta
Em mil raízes,
Encantado
Pedestal.

ÉS CÁLICE
D'AFECTO,
Cativas
O meu olhar,
Pedes palavras
Sem fim,
Cânticos,
Poesia
A brotar...

REVEJO-TE
Nela, mulher,
O seu porte
(Como o teu)
É altivo,
Desafia-me
O canto
Pra que o possa
Partilhar
E assim estar
Contigo,
Seduzido,
Por encanto,
Para logo
Te amar.

UMA GRAÇA,
É o que és,
Dessas três
Que sempre
Canto,
Com poemas
E alguma
Timidez
Que dissimula
O meu pranto...

UMA GRAÇA?
Ah, sim,
A que o poema
Resgata
Do futuro
Que perdeu,
Feita
De muitas raízes,
Desenhada
Com palavras
Onde o seu mito
Cresceu
Pra que o tempo
A conserve
E lhe marque
A ventura
Que a Moira
Concedeu.

NESTE JARDIM
Renasceste,
Acendeu-se
O verde
Desses teus olhos
De luz
(Ou castanho,
Já nem sei)
No brilho
Da primavera
Que vestirá
O teu corpo
Em tempo
De sagração...

APETECE-ME
Beber-te
Na seiva
Destas raízes,
Embriagar-me
De ti,
Deste cálice 
D'afecto,
Enlaçar-me
Com elas
Pra te amar
Nas origens,
No lugar onde
Nasceste,
Onde sofro de
Vertigens
Por aquilo
Que me deste...
.................
Só aí eu sei
Quem és...
Jas_JardiimEncantado1503TranspR

“Jardim Encantado”. Detalhe.

 

 

MARÇO

POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Fauno em Março" - Original
de minha autoria.
Oito de Março de 2020.
Fauno06_2020

“Fauno em Março”. Jas. 03-2020

POEMA – “MARÇO”

GOSTO DE MARÇO,
Entre o branco e
As flores
Que despontam
Na fronteira
Do tempo,
Entre a neve
E a primavera.

GOSTO DO BOTTICELLI,
Rostos e corpos
Feminis,
Volúpia de
Transparências
Sensuais.

GOSTO DA PELE
Acetinada
Dos corpos,
Dos traços
E da cor
Que desenham
Alvura nas
Três Graças...
..............
E no Amor!

GOSTO DO BRANCO,
No alto da Montanha
E das cores intensas
Que interpelam,
Insinuantes,
O meu olhar
Deslumbrado,
Cá em baixo,
Neste vale
Por elas sempre 
Iluminado.

GOSTO DE MARÇO,
Ah, como gosto!
Entrei nele
Contigo,
Ombro a ombro,
Em contraponto
Que se consumou
Como silêncio
Fatal,
Marca de tempo
Quase irreal,
Face obscura
Do meu rosto
Entristecido.

QUE O DIGAM
Os astros
Desalinhados...
...............
Para ti colhia
Flores luminosas,
Crescia
A inspiração
Em estrofes
Arrebatadas
Com que sentir
Fingia
O que dizer
Não podia.
Contraponto.
O outro lado
Da tua melodia...

MARCADO
Como selo
De inspiração
Às avessas,
Lá vou eu
Por aí,
Nem sei porquê
(Ou por falta de ti),
De braço dado
Com Botticelli,
Lá em cima,
na Galleria,
Onde quase morei,
Transeunte
Irreverente
No incerto desafio
De um dia.

PROCURO-TE, SIM,
Na laica oração
À deusa Athena,
A que trazes
(Eu bem sei)
No centro 
Do teu coração.

SINTO-TE PERTO
(É estranho, não é?),
Depuro
A tua imagem,
Bissetriz de mil
Rostos perdidos,
Até se tornar
Ideia precisa
De corpo ausente...

DEPOIS, AH, DEPOIS
REINVENTO-A
A cada instante,
Abraço-a
Com alma
De amante,
Pinto-a com
Palavras
De poeta
Encantado
E sonho-te
Numa plácida noite
Da primavera
Que assoma...

AO ACORDAR,
No amanhecer
De cada poema
Verei que continuas
Em mim
De olhos fechados
Como se fosses
Memória profunda
Do que nunca
Aconteceu.

ANDAREI
Por aí
(Os astros o dirão),
Vagando
Sobre o pólen
Da beleza sensível
Onde pousarei
O meu inquieto
Olhar
À procura
De alimento
Para pintar
O poema...
........................
E talvez o impossível!

LÁ NO ALTO
Te encontrarei,
No fio do horizonte,
Um risco,
Projecção do teu
Olhar
A construir infinito,
Onde, num adeus
Sem fronteiras
Nem cais de partida,
Hás-de desenhar
Com a alma
As mil silhuetas
Inacabadas...
................
Ou talvez não!

MEU DEUS,
Como gosto de ti...
...............
Em Março!
Fauno06_2020Rec

“Fauno em Março”. Detalhe.

 

MANDEI PODAR O LOUREIRO…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Loureiro em Flor
 no meu Jardim Encantado”.
Original de minha autoria
para este poema. Março de 2020.
Exp.Lou

“Loureiro em Flor no meu Jardim Encantado”. Jas.  03-2020

POEMA – “MANDEI PODAR O LOUREIRO…”

MANDEI PODAR O LOUREIRO
Num dia de Carnaval,
Cada ramo que caía
Doía, 
Fazia mal.

ESPALHAVA-SE O AROMA
Intenso pelo Jardim,
O podador a cortar
E, ele, triste  
E tão dorido, 
Sempre a olhar 
Para mim...

“QUE FIZ EU PARA SOFRER,
Estou sempre
À tua frente,
Porque mandaste
Podar-me,
Assim,
Tão de repente?”

“FOI PARA ME RENOVAR,
Pra ganhar
Um novo alento?
Porque não paras 
De olhar,
Acalmas o sofrimento?”

“JÁ NÃO APONTO PRÒ CÉU,
Fiquei mesmo redondinho
E, tu, quando me olhas,
Ficas sempre mais sozinho,
Mais longe do meu perfume
Que deitaste a perder
Com aparente azedume
Porque não podaste
A tempo
O que havia de crescer.”

“PERDI MUITAS
Das minhas bagas,
Estavam em mim 
Às centenas,
Agora ficaram chagas
E não são muito pequenas.”

“LEVOU-MAS O PODADOR
As bagas que tu perdeste,
Já não sinto o teu calor
Por tudo o que não fizeste
Mas que podias fazer
Se tivesses mais coragem...
......................
Deitaste tudo a perder
Só porque era selvagem!”

“NÃO SÃO LOUROS 
De glória,
Não são...
................
Por que razão 
Me deixaste,
Ferido de 
Tanta paixão?
Para teres 
Uma vitória
Que não merece
Perdão?”

“AGARRA-TE A MIM 
Agora,
Sou teu loureiro 
Em Jardim,
Se não quiseres,
Vai-te embora,
Que eu fico-me assim,
Mais pequeno, 
Mas robusto,
Mais redondo 
E mais belo...
...................
Serei sempre 
Mais que arbusto,
Não é preciso 
Dizê-lo.”

O LOUREIRO DO JARDIM
É planta seminal,
Viajo com ele
No tempo 
Como se fosse imortal.

É ÁRVORE DE POESIA,
É fonte d’inspiração,
Ajuda-me a renascer
Se vacila o coração. 

É UM POSTO DE VIGIA,
Cresce, cresce
Para cima,
É com ele que 
Eu resisto,
Declinando-me
Em rima...

POR ISSO MANDEI
Podá-lo
Para se fortalecer.
Se o não tivesse feito
Ia mesmo esmorecer
E com ele também eu
Caía em negação...
................
Não são fáceis
Estes tempos,
Mas loureiro é canção!
Exp.LouRec

“Loureiro em Flor no meu Jardim Encantado”. Detalhe

 

SONHEI-TE, NAQUELA NOITE

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Um Sonho”.
Original de minha autoria.
Fevereiro de 2020
JAS_Meteorito030918PublicadajpgTrab

“Um Sonho”. Jas. 02.2020

POEMA – “SONHEI-TE, NAQUELA NOITE”

SONHEI-TE, MEU AMOR.
Atravessava o deserto,
Há muito.
Nada via no horizonte.
Areia, só areia
No meu caminho
E uma neblina quente
Lá ao fundo...
Nem sabia se
Na longa caminhada
Encontraria
Um oásis
Onde molhar
Os lábios
Já gretados
De tanta aridez...

MAS HOJE SONHEI-TE.
Saí do deserto
E reencontrei o oásis
Nas pupilas dos teus
Olhos.

ANINHEI-ME EM TI,
Sereno como nunca
Estivera
Desde que te conheci.
Ofereci-te uma história
Em papel
Onde te conto,
Nos conto
À exaustão,
Até ao limiar 
Do impossível,
Mas com uma réstia
De esperança
De não ter de 
Regressar
À torreira 
Do deserto.

FALÁMOS DE ARTE,
Imagina,
Do seu poder
Curativo
E de como a vida
Se lê
E se resolve
Nela.

ABANDONEI-ME
Nos teus braços,
Perdido em quentes
Memórias,
E caminhámos
Nem sei bem por onde
Ou para onde.

SONHEI-TE
Esta noite,
Meu amor.
E, sabes?
Acordei de ti
Embriagado
De felicidade, 
Uma doce tontura...

AH, HABITUEI-ME
A estar contigo
Em sonho,
A dizer-te 
Em poemas,
A interpelar-te
De longe...

HABITUEI-ME
Ao teu silêncio,
A uma fronteira
Inultrapassável
A não ser
Pelo vento
Que te cicia os
Meus murmúrios...

TENHO-TE
Dentro de mim
E já nem sei
O que seria
Encontrar-te,
Olhar de perto
Esses teus olhos
Negros e profundos,
Sentir o teu perfume
E naufragar
No mistério
Insondável
Da tua vida.

TALVEZ TE PERDESSE,
Nesse instante,
Por excesso de ti.
Mas eu não quero
Perder-te,
Meu amor.
JAS_Meteorito030918PublicadajpgTrabRec

“Um Sonho”. Detalhe.

 

 

A PALAVRA PROIBIDA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Beija-Flor em Magnólia”.
Original de minha autoria.
Fevereiro de 2020.
Jas_Beija_Flor150220

“Beija-Flor em Magnólia”. Jas. 02-2020.

POEMA – “A PALAVRA PROIBIDA”

OS GUARDIÕES
Do sagrado templo
Da palavra
E da cor
Emitiram edital:
“O amor em poesia
Fica assim proibido
Porque pode ser 
Fatal.
Os versos 
E as estrofes
Banhados 
A luz e cor
Ficam pra sempre 
Banidos
Da arte 
E do amor.” 

DIZ O GRANDE
HONORÉ,
Balzac, de apelido,
Certeiro,
Como poeta,
Na palavra destemido,
Que o Amor
É poesia, 
É a arte 
Dos sentidos,
É perfume
Que inebria
E nos faz sentir
Perdidos
Se não houver
Guardião
Que decrete,
Impenitente: 
“Também eles 
São proibidos!” 

PROIBIDOS?
Ah, esses, 
Não,
Poesia
É emoção, 
É enlevo
Dos sentidos
Que resiste
Ao edital
Mesmo que seja
Cantado
Pelo mais belo
 Jogral. 

O POEMA LEVA
Aos píncaros
Da mais alta
Fantasia,
Sobem ao monte
Os sentidos
Com as asas
E a leveza
Da arte
Em poesia. 

MAS É DIFÍCIL
Ouvir 
E sentir
Em verso
Com alegria
Pois há sempre
Alguém
Que me rouba
A brisa
Dessa tua 
Maresia,
A que respiras
Bem cedo,
Logo ao 
Amanhecer
Quando ouves
O meu canto
Para nunca 
Te perder. 

OLHAS O MAR,
Ouves
As ondas
Dentro de ti
A cantar
Com versos
Que o vento 
Sopra
Pra te poder
Ciciar
O que por ti
Eu já sinto
Nesta canção
Que compus
Numa noite
De luar.

POESIA
Dos sentidos...
......................
O amor é mesmo isso,
Porque, queiras 
Ou não queiras,
Tem a força 
De feitiço.

ENCONTRO-A
Sempre em ti
E mesmo que 
Proibidos
Escrevo sempre
Poemas
Desde o dia
Em que te vi.

EXALTARAM-SE
Os sentidos
(Não sentiste?)
E para o poema
Parti
Com as asas
E as cores
De um belo colibri...

DECRETARAM
Edital.
Ah, que o façam, 
Pois, cumprir.
Mas poesia
É como vento
Que te leva
Cada dia,
Sopra
Tão forte
Na alma
Que o silêncio
É alento 
De poeta
Que com palavras
Se salva.

À PALAVRA PROIBIDA
Sempre o poeta
Resiste,
É livre no seu dizer
Das razões
Da sua vida
Quando a dor
Atormenta
E o sofrimento persiste...
Jas_Beija_Flor150220Rec

“Beija-Flor em Magnólia”. Detalhe.

 

ESTAVAS À MINHA FRENTE…

Poema de João de Almeida Santos.
Reproponho, com ligeiras alterações,
o poema – de Gianni para Paola, personagens
do meu romance “Via dei Portoghesi” 
(Lisboa, Parsifal, 2019) –
que publiquei há quatro anos.
Ilustração: “Licht, mehr Licht...” -
Original de minha autoria.
14 de Fevereiro de 2020.
Licht4

“Licht, mehr Licht…”. Jas. 14.02.2020

POEMA –  “ESTAVAS À MINHA FRENTE…”

PASSARAM ANOS E ANOS
Que nem consigo contar,
Estava feliz de te ver,
Ouvias-me nesse Solar
A dizer o que sentia
A sentir o teu olhar.

COM MEUS OLHOS TE DIZIA 
Que o mundo ia parar
Se chegássemos um dia
Nem sei bem a que lugar.

ESTAVAS À MINHA FRENTE
E pousavas o olhar
Em mim, tão docemente...
.....................
Nem podia acreditar,
Havia um brilho diferente
A iluminar o Solar...

FOI ESSE UM DIA FELIZ
Luminoso para mim
Vi-te com outra roupagem
Como se fosses cetim,
Perfume e suave aragem,
Um doce embalo sem fim...

LANCEI ENTÃO O OLHAR
Para a torre de marfim
Onde te fui projectar,
Tão bela eras assim,
Nesse dia, 
Nesse lugar,
A dizer o que sentias,
Dando voltas às palavras
Que timidamente dizias,
Medindo bem os efeitos
Que tu já bem 
Pressentias...

ESTAVAS À MINHA FRENTE,
Falávamos nesse Solar
E eu estava feliz,
Bastava-me o teu olhar.

NA MEMÓRIA DO PASSADO
Já não vejo esse lugar
Onde possa estar contigo,
Onde te possa falar,
Cumprido esse castigo
De não te poder encontrar
A não ser com as palavras
Em que me ponho a nu,
Como se vê pelo dia
Em que as lanço ao vento
Tão fortes de meu soprar
Para ver se é com elas
Que te consigo alcançar...

ESTAVAS À MINHA FRENTE,
Lembro-me do teu olhar
No bulício desse dia,
Do teu leve respirar.

AGORA FOGES DE MIM.
Tens medo de soçobrar?
Tu és mais forte que eu
Resistes ao meu olhar,
Às vezes com timidez,
Outras sem me enfrentar...

NOS DIAS EM QUE TE VEJO
Ganha alento a minha vida,
Fortaleço-me a alma
Suspendo a despedida,
Fico sereno, em calma,
Cicatriza-me a ferida.

SE OLHAR PARA O FUTURO
E não te vir no caminho
Fica a vida sem sentido
E vazio o meu destino...

NÃO ESQUEÇAS QUEM, 
Ausente,
Ouve a tua melodia
E em cada instante pressente
O poder dess’alquimia
Que funde tudo o que sente
No sentir de cada dia.

E ASSIM VOU REGRESSANDO
A essa torre de marfim
Que vou construindo
Em palavras
Do que persiste em mim...

ESTAVAS À MINHA FRENTE…
Licht4Rec

“Licht, mehr Licht…”. Detalhe

 

O MEU NOME

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Teu Corpo” - Original de
minha autoria. Fevereiro de 2020.
JAS_Deusa09022020

“O Teu Corpo”. Jas. 02-2020

POEMA – “O MEU NOME”

PORQUE NÃO
ME NOMEIAS,
Meu amor?
Nome-ar.
Tão simples.
Quatro letras.
Devolver-me
Identidade,
Aquecida
Nos teus lábios
Pelo ar quente
Que respiras...

ASSIM, PERCO-ME,
Não sei de mim,
Fico sem espelho
Onde me ver
A cores
E em perfil
De traço fino
Nos teus doces
Murmúrios...
................
Que sufocas...
..............
E não desvelo
O destino traçado
Pelos deuses
No chão arenoso
Do caminho 
Da minha vida.

TORNO-ME SOMBRA
De mim
Quando me interpelas
Sem nome-ar,
Não me reconheço,
Sou outro,
Pronome
Indefinido ou
 Interjeição,
Ideia vaga,
Incerto perfil
Que se dilui
Como aguarela
Em folha branca
Manejada
Por ti à procura
De uma forma
Que, afinal,
Não tem nome.

PORQUE CATIVAS
O som
De quatro letras
E não cantas
A minha melodia
Com uma palavra
Só?
Ah, a tua boca
Logo hesita
Quando a palavra
Assoma
À flor dos teus
Lábios,
Como daquela vez
Em que soou
Timidamente
Como sussurro,
Murmúrio
Imperceptível,
Em surdina,
Na fronteira 
Do silêncio.

O MEU NOME
Desata
A tua alma
E ameaça
Levá-la consigo
A voar sobre
O mundo
De mãos dadas
No fio do horizonte?
São vertigens,
Meu amor?

AH, SE ASSIM FOSSE
Diria
O teu nome
Mais do que digo
Até adormecer
De cansaço....
.............
Só para te
Sonhar.

MAS TU NÃO
ME DIZES
Porque me desejas
Como parte de ti,
Sem partilha
Nem confissão?
Guardas
O meu nome
No silêncio
Do teu peito,
Como se fosse
Pecado dizê-lo?
Sentes perigo?
Que o meu nome
Se torne lava
Ardente,
Beijo verbal
Proibido
Pela gramática
Do amor
Logo ao primeiro
Sinal?
E foges
Para dentro
De ti
Com o coração
Aos pulos?

OH, TAMBÉM EU
NÃO TE DIGO,
Como chamamento,
No meu poema,
Onde os nomes
Se dizem
De outro modo,
Têm som
E ritmo
Diferentes,
São notas
De uma melodia
Sofrida
E cifrada...

MAS AS TUAS LETRAS
Estão lá,
Todas,
Uma a uma,
E a cor
Dos teus cabelos
Em aguarela
E o cetim
Da tua pele
Macia
Por onde deslizam
Os meus olhos
À procura dos teus,
Negros e profundos,
E essas mãos
Perfumadas
Filhas da arte
Que te desenham
A alma
Com riscos
E cores
Que atiras
Ao vento
Para que eu
Os agarre
E lhes dê
Som,
Ritmo
E sentido
Num poema...
..................
Ao entardecer...

E, ASSIM,
EU CANTO
O teu ser,
Tudo
O que foste,
O que és e
O que serás,
O que sabes e
 O que sentes,
O que vives e
 O que sonhas.
O que dizes
No que calas...
...........
Tudo,
Meu amor.

MAS TU DIZES,
Com a ironia
Do silêncio
Triste
Que te cativou,
Que também eu
Não te digo
Aqui,
Em arte,
Mesmo quando
Te canto mais
Do que ouves,
Te nomeio
Mais do que
Posso,
Te pressinto
Mais do que
Sentes...

E TU
Apenas te expões
Às minhas palavras,
À minha música,
Silencias-me
Porque balbucias
O meu nome
Só dentro
De ti,
Foges ao som
Encantatório
Que corre
Atrás de ti
Para se ouvir
Nos teus lábios.

BEM SEI
Que o teu mundo
Não é o dos nomes
Ou das palavras,
Sequer murmurejadas,
Mas o das cidades
Invisíveis
Na tua fuga
Permanente para
O infinito...

E SEI QUE AÍ
Me vais
Silenciosamente
Interpelando,
Como rosto
Mutante,
Essa tua forma
De docemente
Me soletrar.

NOMEIAS-ME, SIM,
Meu amor,
Mas à tua maneira!
JAS_Deusa09022020_1

“O Teu Corpo…”. Detalhe.

 

ESCULPIR-TE…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Bianco&Nero”.
Original de minha autoria 
para este poema. Fevereiro de 2020.
Travertino com veios

Bianco&Nero. Jas. 02-2020

POEMA – “ESCULPIR-TE…”

ENTRE O BRANCO
E O NEGRO
Quis esculpir-te
A alma
Na flor que,
Num acaso,
Encontrei
Perdida
No jardim
Da minha vida...

ATRÁS DE TI,
Ou em fuga
(Já nem sei...),
Gastara
Todas as cores do
Arco-íris
Que tinha
Guardadas
Dentro de mim.

SOBRARA
Uma marmórea
Pedra negra,
Espelho oracular
Onde me via
Escuro na alma
Por falta
De cores
Exuberantes
Que me protegessem
Do frio glacial
Da tua ausência
Nas longas
Intermitências
E contrapontos
Da nossa melodia.

SOPREI FORTE
Com a alma
Desnuda
E a flor
Pousou suavemente
Na pedra
Lisa e brilhante
Da catedral
Onde te ia
Celebrar...

ESCULPI-TE
Como filigrana
De ouro preto
Sobre branco-pérola,
Aurífice da tua
Alma sedutora
No coração
Alvoraçado
Dessa flor
Onde guardei
O teu nome
Gravado em letras 
Invisíveis.

CRIEI PARA TI
Alvas incrustações
Em filigrana
Como marcas
Indeléveis
Da arte
Que um dia
Me visitou
Para celebrar
A beleza
Do teu rosto.

E, AGORA,
A olhar para
O branco e o negro
Desse cântico
Desenhado
E esculpido
Ofereço-te
Este poema
Sobre pintura
Imaculada
Onde te celebro
Com beleza
Minimal,
Na cor
E na forma,
Sem fronteiras,
E onde
Te reinvento
Em fuga...
---------------
Um elegante
Fio branco
Que esvoaça,
Livre,
No marmóreo céu
Do teu altar.

A ÂNCORA,
A sul,
Desliza
Suavemente
Sobre ti
E dilui-se,
Como eu,
Na negra vastidão...

EVOCO-TE, ASSIM,
A branco e negro
Sobre a flor
Que um dia
Encontrei
Perdida
No meu jardim
Encantado
Quando visitava
O impossível...
.................
À tua procura...
Travertino com veiosRecorte

Bianco&Nero. Detalhe.

 

ESTOU A PERDER-TE…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Jardim das Memórias”.
Original de minha autoria,
com citações de Gustav Klimt (1912).
Janeiro de 2020.
UmaCasaNoJardim_3_1006PublicadaCOR3Cop

“Jardim das Memórias”. Jas. 01-2020

POEMA – “ESTOU A PERDER-TE…”

ESTOU A PERDER-TE
Meu amor,
O estro
Com que te canto
Esmorece,
Vai perdendo
Lentamente
O seu fulgor,
O poema
Empalidece
E eu,
Em poética anemia,
Sinto um doce
E sonolento
Torpor.

SUBI CONTIGO
AO MONTE,
 Ao meu jardim
Encantado,
Com as cores
Que tu me deste
Eu aprendi a cantar
Contigo sempre
A meu lado.

CANTEI
A TUA PARTIDA
Quando desceste
O vale,
Mas, triste e
Sem destino,
Por veredas
Caminhei
Com saudades
Do jardim
Que contigo
Cultivei.

PERDIDO
DE TI,
Vagueei
No monte
À procura
De eco
Do meu canto
Derramado,
Mas o eco
Era silêncio
Profundo
Sob o azul
Irreal
Da abóbada
Celeste
Desse monte
Seminal.

UMA TRISTEZA
PROFUNDA
Tomou conta
De mim,
Desmaiou
A emoção
De te ver
Ou inventar
Com as cores
Do meu jardim
Porque um silêncio
Cortante
Sufocava,
Impenitente,
O eco
Dessa canção...

TAMBÉM EU DESCI
O VALE
Da minha vida
E regressei
À triste
Monotonia
Sem teu rosto
Desenhado,
Semente
Em gestação
De cada palavra
Que verso
No poema
Em construção
Nesse jardim 
Encantado...

ESTOU A PERDER-TE,
É poética
Anemia,
Sinto vazio
No peito,
O estro já escasseia
E vacila
A melodia...

O CÂNTICO
É murmúrio
Inaudível
De alma ferida,
Sem comoção,
Que nem dor
Ela já sente
De tão gasta
Nesta vida
Por excesso
De paixão.

O VALE
ESPERA-ME,
Sinto-me vazio
De ti
Porque
Não chegam sinais
Da rua do
Desencontro
Nem das fugas
Irreais
Para o teu
Infinito,
Janelas
De onde te veja
Dobrar
As esquinas
Esquecidas
Do nosso
Contentamento.

ESTOU A PERDER-TE,
AMOR,
Não há janela,
Nem cor,
Não há tempo
Nem lugar,
Não há poema
Nem mar
Que suspenda
O vazio
De não poder
Navegar
Nas águas
Desse teu rio...
....................
Eu perdi-te,
Meu amor?
UmaCasaNoJardim_3_1006PublicadaCOR3CopR

“Jardim das Memórias”. Detalhe.

 

“EU VI UM ANJO…”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Melancolia”
Original de minha autoria 
para este poema.
Janeiro de 2020
Melancolia1901Finaljpg

“Melancolia”. Jas. 01-2020

POEMA – “EU VI UM ANJO…”

EU VI UM ANJO
Cair
Docemente
Sobre mim
Com seu rosto
Imaculado
Num momento
D’incerteza
Que parecia
Não ter fim...

VINHA ELE
Lá de bem alto
Onde eu
O pressentia,
Estremeci,
Um sobressalto,
Porque esse anjo
Imaculado
Em mim
Não caberia.

SUA LUZ
Era intensa,
Ofuscava-me
O olhar,
O seu brilho
Deslumbrava
E eu senti-me
Cegar...

MAS NÃO SEI
Se era anjo...
................
Talvez fosse
Uma mulher,
E se não fosse
Arcanjo,
Ah,
Não era um
Rosto qualquer...

POR ISSO
ME FASCINOU,
Porque ao vê-lo
Descer
Desse trono
Onde reinava,
Quase, quase
Me cegou
A luz
Que o transportava...
..............
E levou-me
Ao Olimpo
Onde a arte
Lhe sobrava...

FIXEI-O, ENTÃO,
Num quadro
De memória,
Traços leves,
Cores intensas
Que cativam
O olhar.
Pintei-o
Da cor da
Minha paixão
Para nele
Desvelar
Essa mulher
Sensual
Que me veio
Cativar
Nesta tão bela
Prisão.

DESENHEI-A
Como belo
Avatar
Que entrou
Dentro de mim
Para sempre
Me lembrar
Que era
Uma mulher...
............
E não era
Querubim.

MAS VI UM ANJO,
Ah, eu vi,
Entrar bem
Dentro de mim
Sob forma
De mulher,
Porque anjo
Imaculado,
Uma grandeza
Infinita,
Não caberia
No meu pequeno
Jardim.

EU VI UM ANJO
DESCER
Neste vale
Da minha vida
E ele fez-me
Crescer,
Recomeçar
A partida...
.............
Para logo me
Perder...

E COM POEMAS
Parti
Em viagem
Ao Olimpo
Para com ele
Voar
Em cada palavra
Que digo,
Em cada verso
Que sinto...
.............
Mas bem sei
Que me perdi...

jas_melancolia3Final1901

“Melancolia”. Detalhe.

 

“A COR DA MEMÓRIA”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Transparência”.
Original de minha autoria
para este poema. Janeiro de 2020.
Transparência1

“Transparência”. Jas. 01-2020

POEMA – “A COR DA MEMÓRIA”

NUM DIA DE CHUVA,
Bateram levemente
À porta da minha
Memória... 

ERA TRANSPARENTE,
A porta.
Vi que eras tu.
Reconheci a tua boca,
O bâton púrpura
Dos teus lábios. 

NÃO SEI SE
ME PRESSENTISTE,
Não sei.
A porta
Era um espelho,
Através dela
Só se via
Do lado de cá. 

ENTRASTE,
Cheia de cor,
Que a chuva
Humedecera,
Mas deixara
Intacta.
Apenas com mais
Brilho...
........
O teu! 

TAMBÉM TU
ERAS TRANSPARENTE.
Olhei-te
E vi, através de ti,
Um céu plúmbeo... 

E, NA TRANSPARÊNCIA,
DESPONTOU O SOL,
Coado em amarelo.
Havia umas nuvens
Escuras
A nascente,
Lá no Monte... 

ÀS VEZES, O AMARELO
Ganhava tons de
Âmbar
E vestia-te o corpo,
Nu,
Na minha intangível
Memória
Fotográfica. 

VIA COM NITIDEZ,
Sereno,
Esse teu belo
Sorriso
Cristalino,
Mas, quando te quis
Tocar,
Ao de leve,
Um vidro desceu,
Vertical,
Sobre nós.
Era frio
E húmido,
Esse vidro.
Separou-nos.
E eu chorei! 

AS LÁGRIMAS
Escorreram
Pelo vidro.
Tentaste
Agarrá-las
Do lado de lá
E fixá-las com
Todas as cores
Que tinhas contigo.
Ficaram apenas 
Algumas gotas
Amarelas
Nesse vidro frio,
Húmido
E cortante...

DE REPENTE,
Tornaste-te sol
E eu já não era
Mais do que um
Reflexo dos teus
Raios filtrados
Por algumas
Nuvens...
.........
Escuras! 

DESPERTEI
Ao som
De dedos que batiam
Suavemente
À porta
Do meu quarto.
Corri a abri-la...
...............
Ninguém! 

REGRESSEI, RÁPIDO,
À minha memória
Para te reencontrar,
Mas tu já não
Estavas,
Sequer como reflexo...
...................
Deixara aberta
A porta do tempo...


Transparência1R

“Transparência”. Detalhe.

 

TEMPO

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Amanhã...”. 
Original de minha autoria 
para este poema. Janeiro de 2020.
FuturoFinal2

“Amanhã…”. Jas. 01-2020

É TEMPO DE RECOMEÇO?
O que ontem
Eu já era
É o que hoje eu sou,
As festas
Quiseram tempo
Intenso,
Mas o tempo resistiu
Ao que a vontade
Tentou...
.................
É tempo
De recomeço
Quando o tempo
Não passou?

EM CADA MOMENTO
Procuro
O tempo
Que, no passado,
Eu, poeta, 
Não vivi
Porque sempre
Reinvento
Tudo aquilo 
Que perdi,
Num poema
Ou em pintura
Para saber
Quem eu sou
Antes de lá
Me perder...
............
Nos lugares
Pra onde vou...

ENTRE HOJE E ONTEM
Há algo
Que já mudou?
Acaso me libertei?
A esperança regressou?
Fui ao baú
Das memórias
E vi logo 
O que tu és:
A imagem bem certeira
Desse tempo
Que passou...

TUDO MUDA
Amanhã,
Quando, tenso,
Eu passar
Na curva
Do teu caminho?
Encontro o que antes
Nunca vi?
Mulher com futuro
No olhar,
Sempre a sorrir
Para ti,
A repetir com carinho
Um terno
E tão antigo “Olá!”,
Cabelos negros
Ao vento,
Corpo esguio
Em movimento,
Removendo um passado
Que nunca mais
Voltará?

NÃO, O SEU TEMPO
É o silêncio,
Já não o tenho
Nas mãos,
Ele corre
Sem destino,
É ritmo sem melodia,
Caminho
Da minha vida
Que percorro dia-a-dia
Na vertigem
Do passado,
Mais tristeza
Que alegria
Como este peso
Do fado
Só liberto em
Poesia.

TEM TEMPO, A POESIA?
Talvez tenha,
Eu não sei,
Com ela voo
No céu
Sem limites
Nem fronteiras,
Um tempo que é
Só meu.

AH, SIM,
O tempo da poesia
É a minha salvação,
Perdi-te, mas eu não queria
Passado de negação.

É TEMPO DE RECOMEÇO,
Sopra vento de feição?
Sou feliz em poesia.
Não é o tempo
 Que salva,
Mas as palavras
Que digo
Enquanto fores
Alimento
Desta minha inspiração
Porque é assim
Que te canto:
Da dor sai alegria
Que me cura 
Da paixão.

FuturoFinal2R

NÃO SEI SE TE CHEGAM

AS PALAVRAS…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Jardim das Palavras”.
Original de minha autoria para este
Poema. Dezembro de 2019.
JardimDasPalavrasFinal2812

“O Jardim das Palavras”. Jas. 12-2019

POEMA – “NÃO SEI SE TE CHEGAM AS PALAVRAS…”

NÃO SEI SE TE CHEGAM
As palavras
E, se chegam,
Se te tocam.
Não sei se
As arrumas
Nas gavetas
Da rotina
Ou as deitas
Nos desperdícios
Da vida...

TALVEZ NEM CHEGUEM.
Não sei.
É esta a beleza
Da minha invocação.
Canto-te
Sem saber se te
Chegam as letras 
Com que vou desatando
A sufocada
Afeição
Ou se o vento
As leva
Pra lugares
De poética
Virtude,
Resgate
Desta minha 
Solidão...

TALVEZ NÃO INTERESSE
Saber se chegam
Ao destino.
O que m’importa
É dar forma
À melancolia 
Do meu desejo de ti
Como se fosse
O primeiro dia 
Em que, fora do poema,
Eu logo te pressenti.

É POR ISSO QUE SÃO
Palavras pintadas
Com as cores
Do meu jardim,
Porque na beleza
Das palavras
E da cor
Se cristaliza,
Da vida,
O amor
E, da falta de ti,
Se decanta
A minha dor.

SIM, ÉS TU
Que me moves,
Me inspiras
E induzes perfeição.
Sem ti
Seria arte estranha,
Simples adorno,
Jogo de formas,
Um canto
De diversão.

O POEMA É 
Uma forma de socorro,
É magia
Que invoca o teu
Rosto
Perdido nas 
Nas brumas 
Da memória e
Coberto pelo
Silêncio
Do que nunca
Me dirás.

NADA A FAZER.
Com arte
Te quero seduzir
E eleger.
Não te chegam,
As palavras?
Só importa
A ideia
Que tenho de ti
E a poesia
Que decanta 
A minha vida
Pra te ter
Por companhia
Nesta longa
Despedida.

MAS À ARTE
Respondes
Com o silêncio 
E o mistério
Pra não quebrares
O encanto
Que faz de ti
Galeria 
Do que em arte
Eu senti
Em forma de poesia.

ESTRANHAS SAUDADES
Virão
Quando o estro
Me faltar
E à Torre
De Montaigne
Subir como refém...
............
Dela nunca
Sairei
Para novo
Desencontro
Lá para os lados
De Belém...
JardimDasPalavrasFinal2812Recor

“O Jardim das Palavras”. Detalhe.

“PRESSENTIMENTO”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Travessia”.
Original de minha autoria
para este poema.
Dezembro, 2019.
Jas_Silhueta3

“Travessia”. Jas. 12-2019.

POEMA – “PRESSENTIMENTO”

MAIS UMA VEZ,
Ao entardecer,
Te pressenti,
Numa rua de Lisboa.
E não te vi.

AH, ESTA LISBOA 
Que amas!
Uma fria silhueta,
A travessia.
Um homem
Perdido em memórias
Que esfumam
No tempo
E deixam
A alma vazia.

DEUS EX MACHINA
Que desce sobre mim
No caos
Em que a vida
Se tornou,
Nos afectos
E na dor...
............
A invocar
As origens 
Do amor.

CAÍSTE-ME
NUMA ENCRUZILHADA
Improvável
Quando vinha
Da imensa planície
Onde os deuses
Se anunciam
No horizonte...

UM SÚBITO CLARÃO,
Um sobressalto...
 Estremeci.
Irrompeste,
Intempestiva,
Das brumas
Da memória...
...........
Mas apenas 
Te pressenti!

APROXIMEI-ME
Do teu mundo,
Sem saber?
Foi o destino,
Adormecido
Que estava
De nunca, 
Mas nunca 
Te ver.

ESTRANHOS
DESENCONTROS
Que desabam
Sobre nós
Com o destino
A comandar
No labirinto
Insondável
Das nossas vidas...

SILHUETA FUGIDIA,
É o que és,
Afinal,
Porque tudo é plano,
Demasiadamente
Plano, em ti.

VI UM NÚMERO,
A única certeza
Que tenho,
A janela
De onde te vislumbrei,
Mas incerto
Como todos
Os números
Deste mundo.
Incerto, sim,
Porque tu
Não és número
Que me dê
Certezas,
Para além da dor.
És mais quatro
Do que sete,
Meu amor!

OU TALVEZ TENHA SIDO
A minha fértil
Imaginação
Já um pouco doentia
A cruzar-se contigo
Num lance de
Pura magia.

MAS NEM SEI
Se é por ali
Que tu andas,
Porque de ti 
Nada sei,
Só o que me sobrou
Daquele tempo
E do tempo que criei
Para nunca te perder
Naquela história
Onde te conto
Longamente
Para em ti renascer.

QUE ESTRANHOS
Lugares de
Desencontro,
No meio da multidão!
Um instante,
Ambiente ruidoso
E improvável,
O regresso a ti,
Cada vez mais
Imaterial
Na película subtil
E transparente
Da memória...
Simulacro irreal.

AH, COMO NO FIM
Deste poema
Sofro a falta
De uns olhos verdes
A iluminarem-me a alma
De ternura,
Mas nem o sol
Se descobre
Para os acender
E me inundarem
De beleza
Da mais pura!
Jas_Silhueta3Recort

“Travessia”. Detalhe.

 

“O POETA-PINTOR”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Amanhecer”.
Original de minha autoria
para este poema.
Dezembro de 2019.
MulherNaJanela151219Final

“Amanhecer”. Jas. 12-2019.

POEMA – “O POETA-PINTOR”

O POETA BRINCAVA
Com suas palavras,
Cantava-te sempre
Quando não estavas...

ERA UM POETA,
Era fingidor,
Não te desenhava,
Cantava-te
A cor.

E AS SUAS CORES
Eram só poemas,
Fazia pincel
Da sua caneta,
Enquanto poeta
As letras riscava,
Mas a sua tinta
Já não era preta...
................
Escolheu a cor,
Pintou a palavra.

POR ISSO COMPROU
Um belo pincel
E como pintor
Pintava, pintava,
Era a granel
E a sua tela
Que ele adorava
Já não era só
O velho papel.

DESCOBRIU A COR,
Que o fascinou:
Dourado, vermelho
E tanto amarelo.
Tudo ele pintou,
Procurando sempre
O que era belo.

ATÉ QUE O ENCONTROU
Na cor dos
Teus olhos,
Era luz da pura
Que iluminava
O novo papel
Onde desenhou
O teu fino rosto
Com o seu pincel.

DEU CORPO À COR
Com que te dizia,
As suas palavras
Tornaram-se riscos...
......................
Mais que poesia.

PINTAVA-TE ASSIM.
Os poemas
Já não lhe chegavam,
Pintor de palavras
De cor as compunha
E versos voavam
No azul do céu...
.....................
“E o que tu fazias
Faço agora eu”,
Dissera-te um dia,
“Porque sou poeta
Mas também pintor.
Deixaste-me só,
Entregue à palavra
E, eu,
Tão pobre de ti,
Pintei-me de dor".

"MAS EU FAÇO DELA
O meu arco-íris
Pra subir ao céu
A ver se t’encontro
Atrás duma cor
Pintando o teu rosto
Para um poema
Que vou escrever
Com todas as cores
Que trago comigo
Enquanto viver”.

O POETA BRINCAVA
Mas era tão séria
Essa brincadeira!
Perdido em palavras,
Encontrou a cor
E nos seus poemas
Dela fez bandeira.
MulherNaJanela151219FinalR

“Amanhecer”. Detalhe.

 

NÃO DOBRES A ESQUINA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Variações”. 
Original de minha autoria.
Dezembro de 2019.
Jas_Nãodobresaesquina

“Variações”. Jas. 12-2019

POEMA – “NÃO DOBRES A ESQUINA…”

AH, ACREDITA,
Já nem sei
Quantos fazes...
................
A ti conto-te
E canto-te
Ao minuto
De tão rápido ser
O dobrar da
Esquina,
O regresso
Fatal
Ao lugar
De onde nunca
Sais,
Desde menina...

UM DIA DISSE
(Lembras-te?):
“ - Esquece a infância,
Pára e ouve
O silêncio
Que espreita
Para te desvendar
O mistério da
Vida!
Dir-te-á:
Nunca regresses
Ao sítio onde já
Não estás.”

MAS TU NUNCA
PÁRAS,
Na louca correria
Para fora de ti
(Os lugares do costume)
Em busca do
Esquecimento
Reparador...

E EU A OLHAR
Para o tempo
Quando o tempo
Já é pouco
E a saber que
Te hei-de sempre
Reinventar
Com os fios 
Soltos 
Da memória...

MAS O DIA
Em que renovas
O contrato
Contigo mesma
Representa
(Acredita)
Um recomeço
Para o reencontro
Com o silêncio...
..................
E, uma vez mais,
Ele acaba
Esquecido
Nos aplausos
Vibrantes
E calorosos
Com que todos
Te celebram...
.............
Por fora!

ACORDA,
Meu amor,
Porque o silêncio
Quer falar-te
De celebração
Da alma,
Da tua relação
Íntima com o
Mundo,
Antes da queda
Na rotina
Dos enganos!

DESPERTA,
Que o passado
Se escreve a partir
Do futuro
Que antecipas
Cada ano
Quando renasces
A caminho da
Última fronteira...

PORQUE HÁ, SIM, 
Um derradeiro
Espelho vital
Onde revemos
O passado
Que construímos
Sobre as ruínas
Do presente...
............
Sabias?

AH, SIM,
Mesmo que não saibas,
No dia da celebração
O silêncio
Espera-te sempre
À esquina
Das tuas ruínas
Na mais profunda
Solidão...

NÃO DOBRES,
Em fuga,
Essa esquina.
Escuta-o, nesse dia.
Talvez seja
A tua salvação...
Jas_NãodobresaesquinaR

Variações. Detalhe.

 

AS PALAVRAS SÃO OÁSIS…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Oásis”. Original
de minha autoria para este
poema. Dezembro de 2019.
OasisFinal30

“Oásis”. Jas. 12-2019

POEMA – “AS PALAVRAS SÃO OÁSIS…”

PORQUE NÃO TE DÁS
Um pouco,
Meu amor?
A minha
Sede de ti
É tão grande
Como a dor
Do dia
Em que, no fim,
Te perdi.

PENSA NO DESERTO
E no oásis
Que o suspende
De tão longo
E árido ser
O caminhar
Sobre areia
Escaldante
Na procura
Infindável
De te alcançar
Como amante...

OS MEUS LÁBIOS,
Áridos de ti,
Não se saciam
Com uma gota
De água
Ou com o aflorar
Da seiva
Exausta
Do meu caule,
Gasto de tanto
Te esperar...
.................
Mas quando falam
(O pouco que te 
Falam)
Humedecem,
Porque as palavras
Pousam neles,
São oásis
Verdejantes
No imenso deserto
De um amor
Em longa
Despedida...

E QUANDO CHEGO
Ao fim,
À última estrofe
Do teu poema,
Já sei
Que tenho de retomar
O arenoso caminho
Do canto 
Em solidão...

OS OÁSIS
São parte do deserto
Que atravessamos
Na nossa vida,
São bátegas
Que banham
A alma ressequida
De tanto
Clamar por uma
Saída
Nesse mar de areia
Em que o viver
Se tornou.

MAS TU
Nem gotículas
Me dás
Quando clamo
Por ti
Na miragem
Do deserto...

O QUE TALVEZ
Não Saibas
(Ou sabes
Em demasia?)
É que a vida
É mais
Deserto do que
Oásis,
Mais areia do que
Gotículas
Que brilham
Ao sol ardente...
.................
E que os lagos
E as fontes
Onde refrescamos
A alma
São pura
Alucinação
Que nos deixa
Mais entregues
Ao silêncio...
...................
E à fria solidão.

AH, QUE FALTA SINTO
Da tua fonte
A jorrar
Cores vivas
Sobre mim,
Das bebedeiras
De palavras
Sobre ti,
Da densa neblina
No deserto
A coar o sol que
Me bate no peito
Onde mais te sinto.

IMAGINO-TE, ENTÃO,
Como meu oásis,
Chuva no deserto
Sobre esta minha pele
Seca e encrespada...
.....................
Mas bem sei
Que não passa de
Alucinação!

PORQUE HÃO-DE SER ASSIM
As nossas vidas,
Sem gotículas
Que banhem
O nosso corpo
Por falta de alma
Que as acolha?

O QUE ME SALVA,
Meu amor,
É este oásis
Verdejante
Que construí
Como palco
Para te cantar
Ao entardecer
Da nossa melancolia...
OasisFinal30R

“Oásis”. Detalhe.

PAIXÃO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Cascata”. Original de minha
autoria para este poema. Reproposição 
(com alterações) de um poema
publicado há três anos, em resposta
a um soneto de Ana de Sousa (09.2016).
Novembro de 2019.
Jas_Cascata241119-Exp.

“Cascata”. Jas. 11-2019

MOTE – SONETO

“Vinde cá meu tão certo Secretário”,
Confirmai meu gosto de espelhar
À Musa que recusa Amor notório
Gritando ao Mundo o que não quero calar!
 
De rosas, de loureiro, de jasmim
De astral, de amargor, de doce fel
As bagas, a folhagem, no jardim
Onde abelhas obreiras fazem mel! 

Dizei o que tanto quero ouvir
Que o que pensais, não quero, não!
Escrevei que meu engenho repetir  

Só quero na rima, mil dores de coração.
Enlace, ponto final, sem remédio é ir
Do próprio veneno provar... em edição.”

POEMA – “PAIXÃO”

ESPELHO MEU,
Espelho meu,
Vês dor mais forte
Do que a minha?
Não sabes que
Sem palavras
Nem tu me salvas,
Rainha?

PROVAR FEL
Em edição?
Tomei-o,
Nestes meus dias.
Castigo
Por afeição,
Derramado
Em poesias,
Palavras ditas
Em vão,
Estreitas sendas
Vazias...

INCAPAZ 
De as trilhar
Fui procurar
Novas vias,
Mas gastas
As encontrei,
Incertas
Em seu destino...
....................
Senti-me um pouco
Estranho
E perdi-me
Do caminho...

DEPOIS VIERAM
Flores...
...................
Tantas vezes disse
"Não!"...
Sempre falhei
Nos amores
E, agora, esta
Paixão!

NEM SEI O QUE
Aconteceu...
Um enigma,
Esse seu rosto!
Vi nele o que
Em mim faltava,
Tropecei,
Fiquei exposto,
Como ferida
Sempre aberta
Ao rubro o seu
Sangrar,
Uma dor que
Quando aperta
Põe palavras
A voar...

PALAVRAS
De vivas cores
Mais fortes que
Oração
Fortalecem-me a alma
Resisto mais
À tensão...

PROVAR FEL
Em edição,
Em poema
Amargurado?
Pois seja esse
O destino
E se foi o meu
Pecado
Será sempre
Desatino
Sofrer assim
Este fado!

TEM SABOR 
De um remédio?
Talvez tenha,
Não duvido,
Só alivia,
Não cura,
É afecto proibido,
Inclinação
Da mais pura
Em que me sinto
Perdido...

JÁ NÃO A VEJO
Nem ouço,
É luz que nasce
De mim,
Se passar
Eu fujo dela,
Procuro-a no meu
Jardim
Como arbusto florido
Sempre ali
À minha frente...
................ 
De ser planta
Robusta
Não tem defeitos
De gente,
É esguia,
Não é gorda,
Tem mil folhas
De cetim,
Espera-me sempre
De pé
Mesmo ao lado do
Jasmim!

É AMOR
Em provação?
Se tem de ser,
Pois que seja,
Lanço versos por
Paixão
Onde quer que
Ela esteja,
Sai de mim esta tensão
Como em cântico
D’igreja
Ou incenso que respiro
E quando m’inunda
Por dentro
É pro céu
Que eu me viro.

PROVAR FEL
Em edição?
É enlace
Do mais puro,
Resulta duma paixão,
Intensa neste poema
E bela como 
Canção,
Mas abraço 
Sem futuro!
Jas_Cascata22-Exp.Rec

“Cascata”. Detalhe.

PARA LEONARD

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração, “Mil Beijos”. Original 
de minha autoria para este Poema,
dedicado a Leonard Cohen (1934-2016). 
Novembro de 2019.
MilBeij2Pub1711.7Experiencia

“Mil Beijos”. Jas. 11-2019

POEMA – “PARA LEONARD”

OUÇO-TE
Como respiro
Com a alma...
E como a sinto!
Vejo-a dançar
Na tua voz rouca
E grave
E, então, aninho-me
No regaço da tua
Melodia
A observar
O seu silêncio...
................
Mas estremeço
Como o rio quando
Entra na foz,
Mar adentro...

É SUAVE O REENCONTRO
Com ela,
Em fluxo submerso,
Como as dobras
Das palavras
Quando se ajeitam
Nas estrofes
Dos meus poemas
Ou os sons
Quentes
Na tua melodia,
Vindos lá do alto
Como ecos
Da montanha
Sagrada.

OUVIR-TE, ÀS VEZES,
Arrepia-me
Porque na tua voz
Acolhedora
Sinto-a
Dentro de mim
A segredar-me
O seu impossível
E sufocado
Silêncio.

E, ENTÃO, DANÇO,
DANÇO
Com a alma
Até ao fim...
.....................
Que nunca mais chega!
E não paro até 
(Já exausto)
Cair em mim...

OS MIL BEIJOS
Que não lhe dei
São, na tua melodia,
Mais profundos
Que as profundezas
Do mar,
Mais intensos
Que mil abraços
À superfície
Do seu corpo...

E ATÉ OS TEUS SORRISOS
Maliciosos
E os gracejos
Inocentes
Me levam
A inventar
Palavras quentes
Como balões coloridos
Que lanço
Ao vento
Que sopra
Na sua alma...

NÃO SOU COMO TU,
Leonard,
Eu esboço sozinho
Tristes canções
Em surdina
Até às lágrimas secas
Que nunca enxugam
Porque não tenho
Voz que chegue
Para a chamar 
Ao poema...
...................
Nem ela me ensinou
A cantar,
Por falta de jeito
E de tempo
Para amar...

MAS CANTAS TU
Por mim e por ela
E, então, ouço-te
Extasiado
Como se fosses
 Oráculo
Onde o silêncio
Partilhado
Se disfarça
De oração
Nos teus sons
E na tua voz
Para me enternecer
Até à emoção.

NÃO ME DESPEÇO,
De ti,
Com um abraço,
Leonard!
Vou continuar
A ouvir-te
Enquanto o silêncio
Me interpelar
No oráculo
Da tua melodia
E por ela sofrer
Dessa melancolia
Que nunca nos abandona,
Seja noite
Ou seja dia...
MilBeij2Pub1711.6Rec

“Mil Beijos”. Detalhe.

NÃO ME OUVES…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Voar”.
Original de minha autoria
para este poema.
Novembro de 2019.
Voar1011

“Voar”. Jas. 11-2019

O POEMA – “NÃO ME OUVES…”

NÃO ME OUVES,
Perdida
Que andas
Nas tuas rotinas,
Na vertigem
De cada teu
Amanhecer
Como se a arte
 Pudesse, assim,
Acontecer...

NÃO HÁ CRIAÇÃO
SEM LIBERDADE,
Aquela que
Construímos
Sobre as ruínas
Do nosso próprio
Viver...

A PROCURA
DE ETERNIDADE,
A chegada à galeria
Dos imortais
Só acontece
Quando das ruínas
Se eleva
Um silêncio
Que te fala
Em surdina...
.............
E nada mais!

MAS GOSTAS
De te pôr
Fora do mundo
(Eu bem sei)
Observá-lo,
Tomá-lo
Nas tuas mãos
Como brinquedo
Em construção,
Estética virtuosa,
Minúcia de
De artesão...

MAS É FRÁGIL
A utopia,
Que o mundo só
Se deixa possuir
Pela dor,
Pela liberdade
Em ferida aberta,
Por intensa
Melancolia
Ou vida sofrida
E incerta...

CAIR NO MUNDO,
Tropeçar nele,
Molhar as asas
Da alma,
Caminhando
Pelas ruas da
Cidade
Como silhueta
Em dias de
Densa
Neblina ou
De chuva
Tropical,
Sem saber
Pra onde ir,
Perdida
Em intenso
Vendaval...
............
Oh, então,
Gela-te
A alma
E sentes-te
Profundamente
Mortal...

INUNDA-TE
De chuva
Por dentro
E elevar-te-ás,
Um dia,
Para além da tua
Janela
De persianas
Coloridas,
Possuirás o mundo
Com essas mãos
Que afagam
As cores do
Arco-íris
No vale
Em que habitas,
Depois da tempestade...

A ARTE
É liberdade,
É subir pelas
Sete cores acima
E voar
Para a montanha
À procura
Do infinito
Sideral,
Do tempo
À medida do
Desejo...

AH, COMO GOSTARIA
De te emprestar
As minhas asas
Com cicatrizes
Da vida
Para voares
Mais alto
Que o azul
Do céu
Onde pudesses
Levitar
Sobre um poema
Sem risco
De te perderes...
..................
Mas tu não me ouves,
Meu amor!
Voar1011Rec

“Voar”. Detalhe.

 

“SOU O QUE SOU”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Fantasia de Poeta”. 
Original de minha
autoria para este poema.
Novembro de 2019.
OPoeta0311

Fantasia de Poeta. Jas. 11-2019

O POEMA – “SOU O QUE SOU”

EU SOU
O que sou,
Poeta
Pra te cantar
Mesmo que tu
Já não ouças
O pranto da minha
Voz
De tantas vezes
Chorar...

EU SOU
O que sou
Porque tu és
Em mim
Sempre mais
Do que pensas
Poder ser,
Uma deusa,
Uma musa
No jardim
Que m’inspira
Para de ti
Renascer...

BEM SEI
Que hoje
Me pintei
De poeta
Para duas vezes
Te ver
E duas
Te encontrar
Nos versos
Que já clamam
Por de novo
Te cantar.

SIM, TU ÉS
Musa
Dos versos
Perdidos,
Dos versos 
Cantados
Neste deserto
Interior
Da eterna
Despedida...

NÃO IMPORTA
O que pensem,
Como te vejo
Ou te canto
Porque serei
Sempre movido
Pela força
Do encanto.

ENCONTREI-TE
Sem procurar
O destino
Que te trouxe,
O mesmo
Que te levou...
.................
Cruzámo-nos
Nesse caminho
E, agora,
É por ele
Que sempre vou.

O VENTO SOPROU
Forte
Em nós
E voámos,
Voámos
No céu azul
Com as asas
Do desejo
Até cairmos
Do céu
Quando veio
A tempestade
E o vento
Nos deixou...

ACORDEI
Numa árvore
Frondosa,
Olhei em redor...
...Não te vi!

DESDE ENTÃO SOU
O que sou,
Aquele que
caiu das nuvens
E, sozinho,
Acordou
Na copa
De uma árvore
Onde pra sempre
Ficou.

POR LÁ FIQUEI,
Sim,
A olhar o azul
Do céu
Perscrutando
O horizonte
Para ver
Se lá te via,
Fosse tarde,
Fosse manhã,
Fosse noite
Ou fosse dia.

É A ÁRVORE
Onde vivo,
A minha casa
Discreta
De onde
Só te vislumbro
Como simples
Silhueta...

TORNOU-SE
Meu cativeiro,
Onde vivo
E te procuro
(Fantasia
De poeta)
Lá no fundo
Da memória
Pra me tornar
Teu profeta....

CERTOS DIAS,
Na memória
Ganho asas
E logo voo pra ti
Sem sair
De onde estou...
................
Perdi-te,
Já não te alcanço,
Já nem sei
Por onde vou...

TRAÇA-ME TU
O caminho,
Pra chegar
Ao pé de ti,
Tenho palavras
Que cheguem,
Foi com elas
Que cresci
E com elas
Eu voei
Na linha do
Horizonte
Quando um dia
Te encontrei
No sagrado
Do meu Monte.
OPoeta0311Rec

Fantasia de Poeta. Detalhe.

 

O TEU CORPO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração - “S/Título”- de minha autoria
sobre quadro anónimo (fotografia de mulher
em contraluz) da minha colecção privada.
Outubro de 2019
Mulher2110_2

S/Título. Jas. 10-2019

POEMA – “O TEU CORPO”

HÁ POESIA
No teu corpo,
Geometria
Sensual
Que te desenha
No espaço,
Como te contas
Sem palavras,
Contraponto
Luminoso
Da minha melodia...

HÁ MÚSICA
Em ti,
Pauta
De beleza 
Que ondula,
Instável,
Entre riscos
E cores,
Desenhando
Enigmas
Que só o poema
Pode decifrar...

TENS A ALMA
Inscrita
Nas formas
Do teu corpo,
Como eu a tenho
Nas palavras
Que lanço
Ao vento
À procura
Da tua utopia...

E VEJO-TE
Como letra
Da canção
Que vou cantando
Na minha subida
Ao monte,
Quando o vale
Já não me chega
E nem tu chegas,
Afinal,
Pois partiste
Em busca
Dos palcos
Da tua vida...

MAS EU RESPIRO-TE
Ao ritmo
De uma dança
Com o poema
Que canto,
Palco de beleza
Onde te enredo
A alma
Em teia
Que prende
E te liberta...

PROCURO-TE
Na pintura,
Fixo-te
Para te cantar
Quando a noite
Cai sobre mim
E mergulho
Na solidão
Do silêncio
Com que,
De longe,
Me falas.

E SONHO-TE
Num bailado
A solo,
Dançando,
Dançando,
Ao luar,
Na praia
Da meia-lua
Para que eu
Te volte a cantar
Em poemas
Ao ritmo
Com que te
Vais desenhando
Nas telas
Coloridas
Do teu acontecer.

E, NO FIM,
ROGO-TE
Que não pares
O teu silencioso
E longínquo
Bailado
Solitário
Até que eu te
Desenhe
Em palavras
Luminosas
Para que nelas
Te revejas
Como se fossem
O espelho
Encantado
Da tua alma...

QUE FAZES
Da tua vida,
Meu amor?
Mulher2110_2R

S/Título. Detalhe.

 

COMO TE QUERO...




POEMA de João de Almeida Santos.                    Gustav Klimt - Two studies to a young woman sitting on a tablenDeutsch Zwe - (MeisterDrucke-351787)

Ilustração: “SEDUÇÃO”. 

Composição de minha autoria a partir 
de um estudo de Gustav Klimt. 

- "Dois estudos de uma jovem mulher", 1885. 
JASKlimtFinal1410Fim3

“Sedução”. Jas. 10-2019

POEMA – “COMO TE QUERO…”

PEDI EMPRESTADO
Ao pintor
Este rosto
De onde vejo
A cor
Velada
Da tua alma...

ENIGMÁTICO
OLHAR
Que me perscruta
E fascina,
Beleza etérea,
Divina!

OS TRAÇOS
DELICADOS 
Que o desenham
E a leveza
Das vestes
Que velam 
E desvelam
O corpo
De pele macia
Que me cativa
O desejo...
..............
Seduzem-me!

E FICA-ME 
ESTE ROSTO
Solitário
Na galeria poética
Onde te versejo
Mil vezes
À procura
De um amanhecer
Que nunca chega...

PARA TI DIRIGI
O meu olhar
Através de um espelho,
A obra de arte,
Vi leveza,
Beleza intangível
E ouvi silêncio
Profundo
Envolto
Por uma densa
Neblina
Que nunca se dissipa!

E ENTÃO RECRIEI-TE,
Com a ajuda
Do pintor,
Tal como
Te desejo,
Na fronteira,
Sempre no limiar
Do impossível,
Na distância
Que o destino
Nos traçou
E nos compassos
Do silêncio
A que a deusa
Nos votou.

SE TE ENCONTRAR
De novo
Só saberei ver-te
A partir
Deste fino rosto,
Memória de ti,
Numa tela
Cantada por mim.

E ENTÃO REGRESSO
Às tuas cores
Para com elas
Te desenhar
De novo
Com o pincel mágico
Do pintor
Que eu amo
Em ti.
JASKlimtFinal1410Fim3Rec

“Sedução”. Detalhe.

 

JASMIM

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Rapsódia”.
Original de minha autoria.
Outubro de 2019.
JAS_RapsódiaFinal

“Rapsódia”. Jas. 06-2018

POEMA – “JASMIM”

FLORESCEU O JASMIM,
Dele jorra Poesia,
Embriaga,
O aroma,
Liberta-se
A fantasia!

DOU ÀS PALAVRAS
A COR,
O seu perfume
Ilumina,
Bate o sol
Nas suas pétalas,
É luz intensa
Que brilha
No poema que
Germina...

JÁ NÃO É SÓ
O LOUREIRO,
Agora canto
O jasmim,
É tão vivo
O seu perfume
Que se renova
Em mim.

INUNDO-ME
DE PALAVRAS,
Canto
Este mundo
Da cor,
Subo ao céu
E penso em ti,
Levo comigo
Essa dor...

SOU ÍCARO
Lá no alto
E quando o sol
Me bate forte
Caio em mim
Do meu poema
E no chão
Fico sem norte...

PEÇO AJUDA
À MONTANHA,
Volto a subir
Com alegria,
Lá no alto
Vou renascer,
Regressar à
À poesia...

E ENCONTRO
O MEU JASMIM
Mesmo ao lado do
Loureiro,
Respiro fundo
O aroma
E torno-me
Jardineiro!

E ASSIM EU VOU
VIVENDO
No jardim da
Minha vida
Em poemas
E pintura...
.............
E se a dor
Não tem remédio
Que seja esta
A cura!
JAS_RapsódiaFinalR

“Rapsódia”. Detalhe.

 

ENCONTRO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Silhueta”.
Original de minha autoria
para este poema. Outubro, 2019.
Silhueta06

“Silhueta”. Jas. 10-2019

POEMA  – “ENCONTRO”

OS ASTROS
ALINHARAM-SE
Uma só vez,
Passados anos
De aridez
Que roubou
Tempo
De fantasia,
Luz
À vida,
Lentamente,
Cada dia...

ENCONTREI-TE
Sem querer...
..................
Astros ou destino,
Quero lá saber...
Que bela
Esta forma
Tão singela
De te ver!

ABANDONEI-ME
Ao destino,
Chegou o acaso,
Vi-te estranha
Ao olhar
De tão tardio
Encontro
 Com a fita
Da memória
A rolar
Em moviola.

ERA INCERTA
A TUA IMAGEM,
O olhar
Embaciado,
Um arco-íris
Descera
Com o sol
Dessa manhã,
Gotículas
Brilhantes
Como lágrimas
De alegria...

FICOU-ME
A alma cheia,
A transbordar
(Ficou),
Mas o vazio
Também logo
Regressou.
Mais do mesmo,
Como antes,
Um desencontro
Sem fim...
...............
E o ânimo
Quebrou.

VISLUMBREI-TE
Perto do meu
Destino,
Raptou-me
O acaso
A incerta silhueta
Que não pude
Desenhar
No meu campo
De visão
Como se fosse
Castigo
Por insólita
Paixão.

AQUI ESTOU EU
Devolvido
À solidão,
Novas saudades
De ti,
Um poema
Em gestação...

SÓ ASSIM EU SEI
Falar,
Fico incerto
Se te vejo,
Troco o passo
A cada instante,
Hesito nesse
Momento,
Finjo aquilo
Que não sinto
E, por fim,
Fico tão-só
Amante da poesia
Que me dá o que
Não tenho...
...............
Uma réstia
De alegria.

OS ASTROS
ALINHARAM-SE
Pra te voltar
A perder,
Dois minutos,
Um sorriso...
................
Chegou cedo
Este novo
Entardecer!
Silhueta0610R

“Silhueta”. Detalhe.

 

ESSES OLHOS NEGROS…

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Olhar”. 
Original de minha autoria 
para este poema. Setembro 2019.