SEGREDO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Deusa das Camélias” Original de minha autoria para este poema. Março de 2021.

“Deusa das Camélias”. Jas. 03-2021.
POEMA – “SEGREDO”
VOU CONTAR-TE Um segredo: Amei-te Em poesia, Oh, se amei! As palavras eram Graves (Bem sei) Mas sempre cheias De cor, As rimas Eram suaves Em melodia Com dor, Tudo o que De ti Me sobrou... .......... Meu amor. CONTEI-TE HISTÓRIAS De desencontros E dancei Com palavras Luminosas Que inventei Para por dentro Te ver Nesse jardim De camélias Que cultivas No teu peito E que eu pinto Com desvelo Pra deste modo Te ter. CANTEI Pra te aquecer Na fria dança Do silêncio E contigo levitar, Voando, Invisíveis, Sobre ruas E sobre praças, Ao luar, Para, depois, Pela manhã, Acordar E um arco-íris Erguer Como ponte Desse vale Exuberante Onde te sonho, Neste meu Entardecer. SONHO, SIM, Alheio ao bulício, Ao indiscreto Cochichar Dos que vivem Na rotina, Dos que Não sabem Voar. AH, QUE SONHO! Não sei se Pousaram No parapeito da Tua janela As palavras Que sonhei... ................. E se alguém te Contou Que andavam Borboletas No ar, Esvoaçando, Perdidas, À procura de pólen Nos jardins Verdejantes das Nossas vidas... MAS TU PERGUNTAS, Agora, Se ainda vivem As borboletas De vida breve, Se regressam Ou já pousaram Noutro jardim, Se há pólen, Se há vento Ou pensamento Que as traga De volta Desse incerto E imprudente Confim... E EU RESPONDO Que a sua vida E destino São o brilho Deste céu Que vive Dentro de mim.

“Deusa das Camélias”. Detalhe.
CAMINHOS PARALELOS
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “O Voo da Magnólia”. Original de minha autoria para este poema. Março de 2021.

“O Voo da Magnólia”. Jas. 03-2021.
POEMA – “CAMINHOS PARALELOS”
POR CAMINHOS Paralelos Nos seguimos Ao infinito, Pintei o meu De vermelho, Mas o teu É mais bonito. GASTEI As minhas palavras, Gastei cores, Eu já nem sei, Mas porque o silêncio É de ouro Só das palavras Cuidei. TIREI-LHES Logo o som Por saber Que te doía, O silêncio Ficou rei... ................. Até que falemos, Um dia. A ESTES SENDEIROS Cheguei Quando eu te Conheci Ao romper Da primavera. Foram-se anos, Bem sei, Desde que o Destino Me pôs Nessa rua À tua espera. AGORA SÃO Caminhos Paralelos, Nisto, naquilo, Talvez em tudo, Sei lá, Tu estás Do outro lado E eu não te vejo Por cá, Na rua Da poesia Que logo ficou Deserta Quando te Foste embora Dessa forma Inesperada... .................. Mas que o oráculo Previa, Pois a porta Estava aberta Sem fechadura, Sem nada. NO HORIZONTE Que alcanço Fica o ponto Destas linhas Paralelas, Convergimos No olhar, Mas não caminhamos Por elas Porque a vida Nos tirou Da rua Da poesia... .............. E das tuas Aguarelas.

“O Voo da Magnólia”. Detalhe.
OLÁ
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Evocação de uma Magnólia”. Original de minha autoria para este poema. Março de 2021.

“Evocação de uma Magnólia”. Jas. 03-2021.
POEMA – “OLÁ”
PEDI-TE UM DIA Num poema Que te fiz Que me dissesses Olá. Eu ficaria feliz De ouvir a tua Voz Sussurrando O meu nome Como as águas Do rio Beijam as águas Da foz. E OLÁ TU ME Disseste, Mas rápido Como o vento Que sopra Na minha alma Quando cruzo O teu olhar E me sinto Estremecer, Não por fora, Mas por dentro, Onde sou livre De amar. BALBUCIEI O teu nome Já distante Do olá Sem saber O que fazer, Se chamar-te Até mim Ou para longe Partir, Por não saber Que fazer, Por não saber-te Sorrir. MAS QUANDO VIREI O meu rosto Vi-te de novo Austera, Muito fria E distante... ............ Ignoravas O passado Que passara Nesse instante. E, DEPOIS, Tantos olás Te pedi, Tantas vezes Te chamei, Os poemas Que escrevi, Palavras Que derramei Sabendo nada De ti, Mas sofrendo Intensamente Por tudo O que já sei, Por tudo O que perdi. TALVEZ O VENTO Te chame, Talvez esta flor Te seduza, As raízes te Comovam Ou o poema Te diga Que nunca É tarde Demais E que em seu Eco Te encontre E abrace Por sinais.

“Evocação de uma Magnólia”. Detalhe de outra versão.
VIAGEM
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Espanto”. Original de minha autoria para este poema. Março de 2021.

“Espanto”. Jas. 03-2021.
POEMA – “VIAGEM”
ERA UMA VEZ Uma camélia que, Num sonho, Me encantava, Uma fada Em busca Do que eu perdera No jardim Onde morava. FLOR DE ALVURA Deslumbrante Iluminou-me A vida, Nesse instante, Na procura das raízes Que sobraram De uma estranha Despedida De dias que não Voltaram. MOSTRAVA Um inocente Espanto De me ver Assim, sozinho, De repente E por encanto, Perdido Do meu caminho. E PARTIU. Levou A luz Que o seu corpo Acendia Nesse estreito Sendeiro Onde a solidão Não cabia. DEIXOU O JARDIM, Vida adentro Por caminho Original, Era um feixe De luz À procura Do que ficara Perdido Lá no fundo, Num recife De coral. MAS ENCONTROU-TE À tona, Vagueando No mar plano Da vida Sem saber Onde ficara A tua praia Perdida. E REGRESSOU Ao jardim, Triste De não te poder Resgatar Dessa vida, À deriva Em ondas De alto mar. FOI À PROCURA De cores, Queria muitas E vibrantes, E encontrou No jardim Umas luzinhas Brilhantes, Dessa luz Que não tem fim Como a que Guia os amantes. E LÁ FOI E anda ela, Umas vezes É pura luz E outras É aguarela, Sempre À procura de ti, Levada Pela corrente, Com timidez E espanto, Por aí, Até que um dia Te encontre, Talvez triste E conformada, Aninhada Num recanto De vida Desperdiçada. DAR-TE-Á As suas cores, Regressando Ao jardim Pra de novo Iluminar A minha melancolia E ser regada Por mim Nas tardes De cada dia. CAMÉLIA Encantada No poema E na pintura... ............. Assim te vou Recriando como Fada Que me cura!

“Espanto”. Detalhe.
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “S/Título”. Original de minha autoria para este poema. Último dia de Fevereiro de 2021.

“S/Título”. Jas. 02-2021.
POEMA – “MARÇO”
GOSTO DE MARÇO, Entre a neve E a primavera, O branco e E as flores, Na fronteira Uma quimera. GOSTO DO BOTTICELLI, Dos rostos E dos corpos Feminis, Volúpia de Transparências Sensuais, Primaveris. GOSTO Da pele macia, De seda e Suave cor, Gosto Dos traços Que desenham Alvura nas "Três Graças"... ............. E no Amor. GOSTO DO BRANCO Da magnólia E do branco Da Montanha, Gosto Dessa cor que Que brilha Nos meus olhos E me acompanha. GOSTO DE MARÇO. Entrei nele Contigo, No signo do Desencontro Que se repete Num longo Silêncio fatal, Marcado Contraponto Desse tempo Imprevisto De um “triste Destino”... ........... Quase irreal. PARA TI COLHIA Flores luminosas E a inspiração Crescia Em estrofes Desenhadas Com magia, Fingindo Sentir O que dizer Não podia, Fosse só Em duas horas Ou fosse Por todo um dia. NO SIGNO Do desencontro Marcado como selo Lá vou eu Por aí, Nem sei porquê (Ou por falta de ti), De braço dado Com Botticelli, Lá em cima, na Galleria, Oráculo De arte E fantasia. SINTO-TE PERTO, Ah, sinto! Depuro A tua imagem Em bissetriz De mil rostos Até se tornar Ideia De corpo ausente: Dialéctica Animada De opostos. DEPOIS REINVENTO-A A cada instante, Abraço-a Com alma De amante, Pinto com Palavras O seu perfil Ideal E fixo-a De novo Neste meu mundo Mental. AO ACORDAR, No amanhecer De cada poema, Verei que continuas Em mim, De olhos fechados, Como se fosses Sonho do que Nunca aconteceu Naqueles dias Passados. ANDAREI Por aí (Os astros o dirão), Vagando E pousando O olhar No pólen Da beleza Sensível À procura De seiva fresca Para desenhar Poemas E dar vida Ao impossível. LÁ NO ALTO Te encontrarei, Imitação Dos dias Da criação, A construir infinito, Onde, num adeus Sem fronteiras Nem cais de partida, Hás-de desenhar Com a alma As mil silhuetas Ainda inacabadas... ............... Ou talvez não! MEU DEUS, Como gosto de ti, Em Março, O mês da floração Quando a magia Renasce Para renovar A vida Com a força da Paixão.

“S/Título”. Detalhe.
COR, DÁ-ME COR
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Policromia”.
Original de minha autoria
para este poema.
Fevereiro de 2021.

“Policromia”. Jas. 02-2021.
POEMA – “COR, DÁ-ME COR”
COR, DÁ-ME COR,
Fico mais perto
De ti
Se vieres
Com o vento.
Cor, dá-me cor,
Que as palavras
Coloridas
Já me sabem
A cinzento.
PALAVRAS
Nunca me faltam,
Nem vivo
Na escuridão,
Ainda consigo
Cantar-te,
Com palavras
Dar-te a mão.
TENHO-AS
Que me cheguem
Para gritar
Em vermelho
O concreto
Do teu nome,
Ver-te, assim,
Tão colorida
No vidro do meu
Espelho
Sem que a tristeza
Assome.
AH, MAS A COR
Se for intensa
E crescer
Em explosão,
Se tiver
Um contraponto
Em palavras
De paixão
Que dão ritmo
Ao azul
Dos teus sonhos
De papel...
............
É tudo
O que eu preciso
Pra t’esculpir
A cinzel.
DÁ-ME COR
Que eu sou
Sensível
Ao brilho
Do teu olhar,
Sinto-o nas
Flores que
Pinto
Quando vestes
O vermelho
Com azul
Como espelho
Ou te cobres
Com as cores
Do arco-íris
Que és.
TU ÉS COR,
Gota d’água
Suspensa
No fio
Do horizonte
Beijada por
Raios de sol
Que despontam
Lá em cima
No meu Monte.
DANÇAS COM ELA,
A cor,
E com ela
Adormeces,
Por amor.
É sopro
De liberdade
Quando a vida
É um sonho
E o poema
A verdade.
EU GOSTO DE
Te pintar
Com palavras,
Onde o azul é
Mais íntimo
E o verde
Te cobre
Como manto
De primavera,
Onde o vermelho
É pranto
Sem lágrimas
De enxugar
Nem sequer
Em amarelo
Porque me tolda
O olhar.
NA COR DAS MINHAS
Palavras
Te vejo e
Te revejo
As vezes
Que eu quiser
Pois és mais
Do que um desejo
Nos poemas
Que componho
Sobre um rosto
De mulher.
EU GOSTO
Da tua cor,
De me confundir
Com ela,
Dançá-la
Como vida
Em explosão,
Fogo de artifício
Que embriaga
Os sentidos
Como se fosse
Vulcão...
EVOCO
O poeta
Que pedia
“Mais luz!”
Já em seu leito
Fatal...
Tinha luz
Dentro de si,
Mas a cor
Já não entrava
No portal.
ERA CINZENTA
A cor
Que lhe restava
Até ao escurecer
Quando a janela
Se fechava
Ao seu desejo
De ver.
LUZ É COR,
Desperta da
Letargia,
Ressuscita
Do torpor,
É cântico,
É utopia,
Chilreio de
Passarinho
Que anuncia
Os meus voos
Aos azuis
Com que te
Pinto
E afago
Com carinho.
MAS A PALAVRA
Fascina,
É com ela
Que te canto
E leio
Na tua alma.
Na cor, tua
Roupagem,
Danço, sim,
E voo
Em liberdade,
Mas na palavra
Suspendo
O frémito
Dos meus sentidos
Para melhor
Te sonhar
Por todos os dias
Perdidos...
..............
À deriva
No teu mar.

“Policromia”. Detalhe.
CHÃO
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Luz na Montanha”.
Original de minha autoria
para este poema.
Fevereiro de 2021.

“Luz na Montanha”. Jas. 02-2021.
POEMA – “CHÃO”
DESCESTE,
Não sei bem
De onde.
Cravaste raízes
Profundas
Neste meu
Sagrado chão.
AO LONGE,
Lá na montanha,
Surge, do nada,
Incandescente,
Um clarão.
São os meus olhos
Que te iluminam...
..............
Ou talvez não.
NUNCA VI
Chover do céu
Tanta luz...
.............
E no chão
Que sempre piso
Tão delicada raiz
Que cresce
Dentro de mim
E, suave,
Me conduz
Como quando
Me sorris.
ESTA LUZ
Que lá do alto
Ilumina
É magia,
É milagre,
É fogo
Que me fascina
Neste meu
Entardecer...
.............
Faz-me voar
Para ti
Apenas para
Te ver.
MAS NAS RAÍZES
Que crescem
Por dentro
E por fora
Como rendilhado
Neste meu chão
Seminal
Fica presa
A minha alma
Como se fosse
Prisão...
....................
Por pecado capital.
ELEVA-SE NELAS
A geometria
Perfeita de um
Monólito
Sideral
Para te invocar
Em ritual
De montanha
Onde possas
Renascer
Como a divindade
Da chama.
A MAGIA
Deste chão,
Despertada pela luz
Que vem lá
De cima,
Do alto,
Devolve-me
A liberdade,
Acende-me a fantasia,
Põe-me a alma
Em sobressalto
E o corpo
Em euforia...
ENTÃO, CANTO
Então, danço
Neste chão
Que é só meu,
Dou asas
À fantasia
E a fronteira é o céu.

“Luz na Montanha”. Detalhe.
“UM SONHO NA MINHA ALDEIA”
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “A Rua do meu Jardim”. Original de minha autoria. Fevereiro de 2021.

“A Rua do meu Jardim”. Jas. 02-2021.
POEMA – “UM SONHO NA MINHA ALDEIA”
SONHEI-TE ESTA NOITE Numa rua Da minha aldeia. Não sei porquê (Os sonhos são Sempre assim), Caminhámos Lado a lado Sem dizer Uma palavra, Sem um olhar De través, Apenas Pressentimento, Cá bem no fundo De mim, Sentindo-te No que tu és. DUAS VEZES Lá estive A sentir-te Nesse tempo Diferido Dos encontros Intangíveis Que se desfazem Nas nuvens Quando o céu É proibido E os afectos Impossíveis. MAS VI-TE Com nitidez (Um pouco baça, É certo) No silêncio do meu Sonho, Em encantada Alvura A recordar Tempo antigo Quando a neve Regressava, Branca e leve Fria e pura. FOI NA RUA DO JARDIM (É assim que eu A chamo) Em frente Da minha casa, Onde me via Passar, Sendeiro da minha Vida, A caminho do futuro Sem medo Da despedida. CRUZÁMO-NOS Por pouco tempo, Como na vida real, Nem um olhar Nos trocámos, Tão fugaz foi Este sonho, Mas intenso E vital. E SE A VIDA É sonho Também os sonhos São vida, Pois senti que, Na verdade, Sonâmbula Me encontraste Na rua De uma aldeia Nunca antes Percorrida. E AQUI ESTOU A sonhar-te Outra vez Nos versos Com que te chamo, Recordando que Te vi Neste lugar Que eu amo. É SEMPRE ASSIM, Meu amor, Quanto mais tu Te esfumas Mais me cresce Esta dor... É POR ISSO Que te sonho, Pra desenhar O teu rosto Com palavras De poeta Que afunda No desgosto. MAS DE TANTO TE DIZER Acabei por Te encontrar Na terra Onde nasci, Onde a neve Derretia Quando o sol Já despontava E o manto Da saudade Logo de dor Me cobria. AGORA A NEVE És tu, Fugaz que foi A passagem No chão incerto Da vida, Como a brancura De outrora De saudades Me doía Em cada fatal Despedida. E SE EU TE Encontrar Talvez de novo Te sinta Qual cintilante Magia... .............. Terei então A certeza, Branca e leve Pura e fria, Que recriei Essa ausência Para nunca Te perder, Como a neve Da minha rua Que não há sol Que a derreta Na penumbra Da memória... ................. Que, no sonho, É como a tua.

“A Rua do meu Jardim”. Detalhe.
VÃ UTOPIA
Poema de João de Almeida Santos. À “desgarrada” com Manuel Bandeira (1886 -1968), inspirado em três poemas seus: “Desencanto”, 1912; “Versos escritos na água”, s.d.; “Renúncia”, 1906. (Obras Poéticas. 1956. Lisboa: Minerva, pp. 33, 40 e 101). Ilustração: “Cascata”. Original de minha autoria. Janeiro de 2021.

“Cascata”. Jas. 01-2021.
POEMA – “VÃ UTOPIA”
“OS POUCOS VERSOS QUE AÍ VÃO, Em lugar de outros É que os ponho. Tu que me lês, Deixo ao teu sonho Imaginar como serão.”
E OS MUITOS Que eu te dei Deixam claro O que sou. Se tu me leres Saberás que Não errei Mas que foi pouco Do muito Que agora Eu te dou.
“NELES PORÁS TUA TRISTEZA Ou bem teu júbilo, E, talvez, Lhes acharás, Tu que me lês, Alguma sombra De beleza...”
BELEZA, SIM, E algum sentido, Tristeza e dor Como castigo, Por isso eu canto O que perdi Pra que o verso Vá ter contigo Lá onde estejas, Queira o vento Ser meu amigo.
“QUEM OS OUVIU NÃO OS AMOU. Meus pobres versos Comovidos! Por isso fiquem Esquecidos Onde o mau vento Os atirou.”
NÃO OS AMOU, Mas eu bem sei Que é verdade Este amor Que aqui nasceu E que cantei Em liberdade Em versos Que o vento Leu E te levou Para matar A saudade... ........... Pudesse eu Salvar-me, assim, Do que não sou, Libertar-me Do silêncio Que me invade. OUTROS FARIA Se pudesse Para os pôr Na tua mão, Não pediria que Os sonhasses, Olhos cerrados, Mente desperta, Mas que os lesses Com afeição. AH, MANEL, Que bem me sabe Pôr minha dor Em poesia, Em palavras A emoção, No cantar Triste alegria Por ser intensa Esta paixão Mesmo que seja Vã utopia. DIZES TU Em poesia Que só a dor Te enobrece. E dizes bem, Meu bom poeta, Alma dorida Logo me aquece E com meus versos Entretece O que a paixão Já tanto afecta.
“A VIDA É VÃ COMO A SOMBRA QUE PASSA... Sofre sereno e de alma Sobranceira, Sem um grito Sequer tua desgraça. Encerra em ti Tua tristeza inteira. E pede humildemente A Deus que a faça Tua doce e constante companheira...”
POIS TENHO MEDO (Eu te confesso) Que a dor Me passe, Perca o poema Sua raiz, Essa, sim, A verdadeira (Sua matriz), E fique só Já sem palavras E caiam secas Todas as rosas Que me povoam Esta roseira. SOBRAM ESPINHOS, Ferem-me a alma, Saem meus versos E cai o sangue “Gota a gota, Do coração”, “Volúpia ardente” Já sem remédio “Eu faço versos Como quem chora” E chamo a dor A toda a hora E ela vem Por compaixão. AH, POETA, Ah, meu irmão, Tu fazes versos “Como quem morre” E eu procuro Neste meu canto A sua mão. TU, MANEL, És a bandeira E ela O meu refrão, Pra mim és verso No meu poema E ela é, Neste meu peito, Uma paixão.

“Cascata”. Detalhe.
A AGUARELA
Poema de João de Almeida Santos, inspirado no poema de Manuel Bandeira “Tema e Variações”. Ilustração: “O Retrato”. Original de minha autoria para este poema. Janeiro de 2021.

“O Retrato”. Jas. 01-2021.
POEMA – “A AGUARELA”
SONHASTE, MANEL, Que havias sonhado Estar à janela, Sonhando, a cores, Que estavas com ela. TAMBÉM EU SONHEI Que tinha sonhado E que no sonho A tinha encontrado, Passando por ela, Ali, lado a lado. MAS, QUANDO ACORDEI Do primeiro sonho, Sonhando, eu vi O seu rosto belo Numa aguarela Pintada a cores Que tinha guardado Para uma tela. SONHEI, OUTRA VEZ, No segundo sonho, Que era pintor, Mas que pintava Sempre o seu rosto A uma só cor. DIZIA, SONHANDO, Que não podia ser, Seu rosto expressivo Era arco-íris Ao amanhecer E era sorriso Para o mundo ver. MAS EU SÓ O VIA Com a minha cor, Esse rosto belo De seda tecido Que me seduzia No sonho sonhado Onde sempre a via, Ali, a meu lado. NÃO QUERIA ACORDAR Do sonho feliz E nele fiquei De olhos fechados. JÁ NÃO ACORDEI Do sonho sonhado Porque nessa cor Fiquei encerrado Com todo o meu ser... ................... Talvez por amor. NO SONHO OLHEI Para o meu espelho E logo eu vi Que essa minha cor Era o vermelho. E QUANDO ACORDEI Do primeiro sonho Voltei a sonhar Que desvanecia Nesse rosto amado E logo lhe disse, No segundo sonho, Que a tinha sonhado. DISSE-ME QUE NÃO, Que nunca me vira Sequer acordado... ................. E logo acordei Desse pesadelo Que me deixara O peito Esmagado. FOI ASSIM QUE VI Que tinha sonhado E que ela Já lá não estava, Ali, a meu lado. QUIS ADORMECER Para a encontrar Mas não consegui Sonhar que a via, Pôr os olhos nela, Chorar de alegria Porque descobri Na minha parede Aquela aguarela Que do sonho Passado Eu já conhecia: Era o rosto dela.

“O Retrato”. Detalhe.
ENCONTRAR-TE NUM POEMA
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “La Diseuse”. Original de minha autoria para este poema. Janeiro de 2021.

“La Diseuse”. Jas. 01-2021.
POEMA – “ENCONTRAR-TE NUM POEMA”
ÀS VEZES Perco-me Em ti Quando te sonho No poema, Ondulas Entre tristeza E doçura Nos teus dias Mais incertos, Em momentos De ventura, Na fronteira Do dilema. SE ÉS TERNA, Eu estremeço Porque enleia, O teu olhar, Olhos castanhos Despontam No suave Amanhecer Quando em surdina, Vibrando, Partilhas Esse teu Acontecer. CONTEMPLO A tua imagem, Beleza Intermitente, Por instantes Muito breves, Mas logo regresso Ao murmúrio Sedutor, Encanto Tão inocente, E a tão meiga Ternura Que me afaga Com pudor. O TEMPO Corre sempre Contra nós E eu corro Contra ele Pra que a saudade Não chegue Antes de a partida Soar E em meu rio Desague Para logo Transbordar. VIVO No intervalo Do desejo De onde te ouço Dizer Que não há Excesso de tempo Neste efémero Viver, Destino Que te domina E me impede De te ter. MAS PERCO-ME No brilho Desses teus olhos, Bem cedo Pela matina, À procura Dessa cor Que logo assoma Bem viva Quando o sol Te ilumina. SINTO CALOR No meu peito E procuro o teu Regaço Pra que me vejas Por dentro No poema Que te canto E que ouves com Ternura Como se fosse Abraço. EU GOSTO Da doçura que te Invade Quando recusas O mundo Que te atropela Nas curvas Da tua vida Para sentires Com a alma O poema Que te deixo Quando chega A partida. AH, COMO GOSTO De te sonhar Dizer-te Em poesia... ........... É encanto, É prazer E é mistério... ......... É a vida Em sinfonia!

“La Diseuse”. Detalhe.
A CARTA
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Melancolia”. Original de minha autoria. Janeiro de 2021.

“Melancolia”. Jas. 01-2021.
POEMA – “A CARTA”
DIZEM-ME Que vagueias Por aí, Incerta, À procura de ti, Sem saber Que te vais Perdendo Nas rotinas Inventadas Dos teus dias. SENSÍVEL À incerteza Do teu caminhar, Inundei-te Com rios De palavras Sedutoras, Setas falhadas Ao coração Do silêncio Que te cobre O rosto... ................. Para te resgatar. SEI QUE VIAJAS Cada vez mais Para dentro de ti, Aninhando-te Nessa melancolia Sem fundo Que sempre Me cativou. E DIZEM-ME Que quanto mais Te resguardas Na sombra De ti mesma Mais procuras Ver tudo Sem ser vista, Seguindo, Invisível, O meu rasto Desenhado Ao longe Na neblina Que se esfuma E dilui Lentamente No frio Horizonte Da Montanha Sagrada. E ATÉ O VENTO Que sopra Lá do alto Me segreda: “Curiosa de si, Abre De par em par As janelas Das tuas estrofes, Ar puro Que respira, Esse canto De sereia Que finge Não ouvir, Procurando Decifrar As tuas ondulações De alma No muro Das lamentações Poéticas”. EU SEI BEM Que te cobres Com o véu Escuro Do silêncio Para te resguardares Do olhar Indiscreto da vida Sobre ti. MAS A VIDA, Meu amor, É fugaz, O tempo passa E deixa marcas Indeléveis, Sulcos profundos Que só o futuro Desvelará Porque o passado Fica inscrito Num destino Que só conhecerás Ao virar Da esquina da Tua vida, Onde só o passado Brilhará Como futuro. AH, SIM, O reencontro Acontecerá Nesse momento, Quando eu Já só for Um sinal Impresso, A branco e negro, Uma vaga memória Escrita Perante teus olhos Húmidos De me terem Perdido Sem saber Porquê ............... Ou simplesmente Como inútil Expiação De um pecado Que nunca Aconteceu. ESTAREI LÁ, Sim, Nesse destino À tua espera Para te dar Conforto, Aninhado Nas palavras Que ainda Não sabes Declinar, As mesmas Em que vou Viajando, Invisível, Por dentro De ti À procura Da eternidade Possível, Tua e minha Salvação Da voragem Do tempo.

“Melancolia”. Detalhe.
“O PAVÃO”
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Azul no Parque”. Original de minha autoria para este poema. Janeiro de 2021.

“Azul no Parque”. Jas. 01-2021.
POEMA – “O PAVÃO”
FUI AO PARQUE Do Marechal Logo ao amanhecer Num triste dia De outono Na esperança de Te ver À procura do pavão, Eram muitas As saudades, Já passara Mais de um Verão. NÃO TE ENCONTREI Por ali, Mas logo vi O pavão, Sozinho, Também triste Como eu (Ou talvez não), Pois nele Reconheci As cores vivas Desta minha Solidão. PORQUE É Tão belo O pavão? Exibe-se Altaneiro E é assim Que seduz, Enche-me A alma De cor E inunda-me De luz. AH, O PAVÃO, Esse seu Porte austero Estremece-me Na alma E gela-me De emoção Porque te chama À memória E me afunda Sem perdão. MAS SEGUI-O, Nesse dia, Parque fora No silêncio Luminoso Dum despertar De aurora. FOLHAS CAÍDAS No chão, Tapete da Natureza, Acolhiam O nostálgico Passeio Do poeta E do pavão, Num vaguear D’incerteza. NESSE JARDIM Do simbólico Encontro A beleza Despontava Em seu ritmo Natural, Passos lentos E cuidados, Pose austera, Altivez, Um singelo Ritual Que vivi Com timidez Junto ao pavão Matinal. CAMINHEI COM ELE Horas a fio, Lado a lado, Sem destino, Procurando O teu rosto Num eterno Desatino Que sempre Acaba Em desgosto. JÁ NO ALTO De um muro, Oráculo, Arte pura, Aparição... ............ Com o olhar Lhe perguntei Qual a cor Da tua alma Nos jogos De sedução. COM POSE ALTIVA, Rigor E perfeição Logo exibiu Esse azul Tão luminoso Onde sempre Se esfumam Os traços Da tua mão... ................. E logo o encanto Surgiu Com teu rosto Espelhado Nas cores vivas Do pavão.

“Azul no Parque”. Detalhe.
SEGREDO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “A Porta” Original de minha autoria. Dezembro de 2020.

“A Porta”. Jas. 12-2020.
POEMA – “SEGREDO”
EU PINTO E CANTO O meu destino, Sonhos velados, A minha vida, Procuro a chave Do meu futuro E não a porta Da despedida. POR ISSO CANTO Como os pássaros, Voo mais longe E com mais cor Porque no céu Há mais azul E nos meus sonhos Há menos dor. ERA SEGREDO Não revelado, Se o dissesse Não deveria Porque dizê-lo Era pecado E certamente Até mentia. E NÃO O DISSE, Mas eu pequei Com um murmúrio Apaixonado Em poemas Tão inocentes Que foram alvo De um julgado. POR ISSO VOO Sempre mais alto, Trepo nas cores Pra lá chegar, O céu azul Dá-me alento Para assim Poder voar E meus segredos Nas nuvens Brancas Em liberdade Ir dissipar. LEVO PALAVRAS Comigo, Procuro inspiração, Levo cores Para o abrigo, Alimento Da minha arte E seiva pura Desta paixão. EU CHAMO MUSAS E tudo o mais E quando parto Lá para cima É sempre festa No nosso cais. LEVO-TE A TI Em fantasia E deste jeito, Levo-te sim, Para que sinta Lá bem no alto Ar rarefeito E menos peso Nesta dor Que cai em mim. EU CANTO E PINTO Por tudo isto, Pra resgatar O meu pecado De exaltar Esse teu rosto, Iluminar Em aguarela Esse enleio Do meu olhar Por te ver Na nossa rua Debruçado Na tal janela E com vontade De te pintar. POR ISSO EU CANTO, Por isso voo Por isso subo Lá para o alto, Já não os vejo, Já não os ouço E já não vivo Em sobressalto. MAS VEM COMIGO, Eu dou-te asas No infinito, No céu azul Voamos juntos A um só tempo E o nosso rumo Será o sul. VÁ, VEM COMIGO, Voa mais alto, Ah, meu amor, Se tu vieres Eu já não sofro E vai-se embora A minha dor.

“A Porta”. Detalhe.
O POETA E O VENDAVAL
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “História de uma Janela". Original de minha autoria (inspirado em fotografia da autoria de Dulce Guerreiro). Dezembro de 2020.

“História de uma Janela”. Jas. 12-2020.
POEMA – “O POETA E O VENDAVAL”
VÊS OS DESTROÇOS Desta janela, Meu amor? Foi o vendaval, O vento zangado Que passou Numa tarde Aziaga De um frio dia De inverno... ............... Uma infeliz e Rogada praga Que o levou Ao inferno. ERA A JANELA Da sua vida, Olhava-te dela Quando passavas Na rua dos seus Encantos, Dali voava Para a terra De ninguém, Tendo-te por Companhia, Indo sempre Mais além Em busca de Utopia... NELA DESENHAVA A cores De incontida paixão A tua silhueta Delicada, Teu perfil Em contraluz, Como sombra Encantada Desse rosto Que ainda O seduz. JANELA, A sua casa, Banhada Por luz intensa E flores De aromas Inebriantes, Uma eterna Primavera, Jardim Onde crescia O desejo, De ti sempre À espera, Lugar de sonhos, Berço de poesia, Porta aberta Para o mundo, Templo De alquimia. FICARAM Apenas ruínas, Um rasto De memórias quentes, Cores desbotadas, Mãos que pedem Ajuda, Silhuetas Inacabadas, Uma criança A nascer, Mulher que Espreita o futuro Em incerto Amanhecer, Estranhos pássaros Que sopram vida, Figuras Que renascem Das cortinas, Um estranho mundo Que desponta Desta janela Em ruínas. MAS O POETA Resiste, Armado de fantasia, De palavras sedutoras, Versos, estrofes, Riscos e cor, Respirando melodia... ...................... Ajudado pelo vento Redentor, Lança mãos, Num certo dia, À história Interrompida Nas ruínas Desse amor Em vendaval Para recriar O templo Que perdeu Com a arte De jogral. E VOA E continua a voar, Passa pela janela E sobe ao Monte Para cantar O que em si Lhe sobrou dela E assim a recordar.

“História de uma Janela”. Detalhe.
“SOLIDÃO”
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Fantasia”. Original de minha autoria. Dezembro de 2020.

“Fantasia”. Jas. 12-2020.
“Os poetas são impudentes em relação às suas vivências: exploram-nas” (Die Dichter sind gegen ihre Erlebnisse schamlos: sie beuten sie aus) "O que se faz por amor acontece sempre para além do bem e do mal" (Was aus Liebe gethan wird, geschieht immer jenseits von Gut und Böse). Nietzsche, Jenseits von Gut und Böse (Para além do bem e do mal), 1886. Sprüche und Zwischenspiele: 161. 153.
POEMA – “SOLIDÃO”
PERGUNTEI AO POETA Sobre a minha Solidão... ........ E sabes O que me disse? Que ela tem Sete véus Pra que ninguém Atravesse O sagrado Do seu halo... .................... Um oásis no deserto, Confessou. PERGUNTEI-LHE Pela dor Que me resta (E eu afago) Deste amor Que me veio Ao encontro Como amarga Dádiva do céu, Um sabor Muito intenso A algo que não É meu... E SABES O que me disse? Se já não tens Alegria Para encantar Quem tu amas Resta-te a dor, Sobra-te solidão Em humana Eternidade... .............. E uma longa Evasão Para cantar A saudade. MAS DISSE MAIS. Não a procures, Não lhe fales Nem a vejas A não ser como Poeta Nesse intervalo Da vida Que te torna Intangível Como pura Silhueta. FINGE Que não é ela (A que vês lá Da janela) O destino do teu Canto, Sobe às nuvens Pelas linhas Do seu rosto e Põe asas No seu nome, Mas finge (Como poeta) Para que não Reconheça A paixão Que te consome. E SE UM DIA Teus olhos Pousarem nela Finge outra vez, Finge que Não a vês, Que estás ali Por acaso, Como se fosse À janela, Que o destino Te levou Para fora Do seu mundo A satisfazer Um desejo Que resgate A solidão. PERGUNTEI, De novo, Ao poeta Sobre esta solidão Que cresce dentro De mim... E SABES O que me disse? Que também ele Ia nu, Viajando nas estrelas, Com asas De sete véus, Transparentes Como ar, Mergulhando no azul Para ver se A cantava, Sentado no horizonte, Tocando o infinito, Lá onde mais A amava. QUERO SER Como falou Zarathustra, (Sussurrou) Que da paixão Saia virtude, Dos demónios Nasçam anjos, Da solidão Liberdade, Que na dor Cresça alegria Cada ano E cada dia, Enquanto o poeta Viver, Enquanto a possa Cantar Com o céu Por companhia. ENCONTREI, Um dia, O poeta A caminho Das estrelas. Perguntei-lhe Sobre a minha solidão. Bateu as asas E disse: Voa da tua janela, Voa Pra junto de mim Como se fosses Pra ela Com asas De sete véus Que o azul deste Meu céu Te dará Libertação.

“Atelier”. Detalhe.
À JANELA
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Outono”. Original de minha autoria para este poema. Dezembro de 2020.

“Outono”. Jas. 12-2020.
POEMA – “À JANELA”
COMO GOSTO De te ver, Tão singela, Daqui, Desta janela. DIZES, Com o olhar, “Olha, voltei!”. E eu pergunto: “É mesmo ela?” O MILAGRE Desta janela Repõe Em mim O que há muito Sobrou dela. SE A PERCO, Ela renasce E cresce, Mas logo Desaparece. É um sem fim, Lembra-se, Mas logo esquece. AH, FOI ARAGEM. Soprou tão forte Sobre o seu rosto Que lhe levou A doce voz Para o sol-posto. Perdeu o norte, Caiu silêncio, Foi sobre nós. MAS PORQUE ME DURA Este sofrer Se a encontro? É dor intensa Só de a ver, Mas não magoa E dá prazer. DA JANELA, Nesse seu jeito, Vejo-a singela, Com a ternura De quem ama E nem se cura Da chama Só de olhar E vê-la... ....... A ela. PORQUE NÃO FALAS E não me dás O teu “olá!” Mais uma vez? Vem por aqui, Passa por cá, Sem altivez, Pra te dizer O que já sabes Quando me vês... .............. E faz sofrer. “MAS EU NÃO POSSO”, Tu dizes sempre Com teu olhar: “Digo-te não. Mesmo que vá Não há perdão”. PORQUE T’ESCONDES Cada teu dia? Eu não te encontro, Perco alegria... ................. Depois regressas Pra eu te ver, Para que saiba (Tenho a certeza) Que não há modo De t’esquecer. VI-TE MIL VEZES, Sempre te disse Com o olhar: “Quero-te, sim, Mesmo que fujas Quando apareces Não é de mim, Mas de um outro Que desconheces”. PORQUE TE PERDES No meu olhar, Sempre me foges, Olhas em frente Pra não me ver E assim recordas O que tu sentes Por te querer. AH, COMO GOSTO Desta janela... Se me debruço, De vez em quando, Olho pra ela, Fico feliz Por logo a ver Mesmo que saiba Que nesse instante A vou perder.

“Outono”. Detalhe.
AZUL
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Paraíso”. Original de minha autoria para este Poema. Novembro de 2020.

“Paraíso”. Jas. 11-2020.
POEMA – “AZUL”
TANTO AZUL, Meu deus, O teu céu, Esse imenso mar, É espelho Dos teus sonhos, Medida Do teu olhar. O MEU É BRANCO E cintilante Para te alumiar, Gotículas De cristal Que te acendam A alma Para melhor Te guiar. HÁ UM LEVE murmúrio De nuvens Que cobre, Como véu, O silêncio Que há muito Ouço, Insistente, Bater-me À porta Levemente, Como quem chama Por mim. E QUANDO NOS SONHOS Te vejo Vestida de azul Turquesa Entro numa porta Branca E voo, voo, A perder de vista, Até ao paraíso, Deixando para trás O jardim Inacabado, Portão aberto, Escancarado, Bailéus desenhados A rigor, A preto e branco, Onde um dia Eu te vi, Meu amor, Num estranho Enlace Que nunca mais Terá fim. NOS SONHOS, (Em todos eles) Caio das nuvens Brancas Como Ícaro Ou meteorito Incandescente E mergulho No azul Para te encontrar Num arco-íris Luminoso Onde vives Vestida de todas As cores Que povoam As cidades Invisíveis Dos poetas... É NESSE TEU AZUL Profundo e Denso Que respiro O que me sobra De ti, Nos sonhos escritos E pintados Com que te vou Soletrando, Insistente, Até cair exausto Para adormecer E me sonhar De novo No regaço Da tua alma... .............. Pintada A aguarela.
O JARDINEIRO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Alquimia”. Original de minha autoria para este poema. Novembro de 2020.

“Alquimia”. Jas. 11-2020.
POEMA – “O JARDINEIRO”
TORNEI-ME BOM Jardineiro, Troquei letras Por flores, Uma Rosa vale um Verso, A Camélia Mil amores, Um poema O universo. QUANTO VALE Amor-Perfeito? Fixo-me nele, Encantado, Meus versos Tornam-se cores E aquecem-me O peito... ................ Ponho a tristeza De lado. PALAVRAS Coloridas Amaciam-me A alma Quando ela fica Em ferida, São bálsamo Que me refresca E exalta A minha vida. POR ISSO VOU Ao jardim Cobrir-me de Mil flores, Nascem versos Para mim Com palavras Que são cores. OLHO-AS Com atenção, Fixo-as Com o olhar, Toco-as Com a mão, Fico ali A pensar No que acontece Com elas Em seu lento Germinar. NADA MAIS Quero saber, Só das cores Do meu jardim Que curam Da alma A dor, O que mais Me faz sofrer, Ver-te Tão longe, assim, Saber Que te estou A perder... MAS ESSAS FLORES Não duram, É mortal a natureza, Elas perdem-se No tempo E só me resta A saudade... ............... Vem ter comigo A tristeza. NÃO APAGAM Este triste Entardecer, Mas pego-as Com esta mão Pra suas cores Eu beber À procura de Evasão. NAS FLORES Há doce seiva, Alimento Da beleza, Nas palavras Mil perfis, Quieta, a natureza, Em cada folha Um matiz E até é bela A tristeza Quando olhas E sorris. UM SORRISO NATURAL Como pétala De flor, Uma palavra, Sinal, Pérola Que sempre brilhe No meu jardim De cristal. REGULAR É o seu tempo, Um ritmo Mais do que certo, Tudo nasce E tudo morre Sob o céu A descoberto. MAS RENASCE Sempre um dia Pra dizer “Aqui estou”, Natureza é alquimia Que me diz Pra onde vou. POR ISSO SOU Jardineiro, Com flores Aprendo sempre, Leio-te a alma No jardim, Pois natureza Não mente. TROCO LETRAS Por flores Mas às palavras Dou rima, No jardim Nascem amores Porque a beleza Aproxima.

“Alquimia”. Detalhe.
COR, DÁ-ME COR
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Cor”. Original de minha autoria para este poema. Novembro de 2020.

“Cor”. Jas. 11-2020.
"Donde termina el arco iris, en tu alma o en el horizonte?" Pablo Neruda
POEMA – “COR, DÁ-ME COR”
COR, DÁ-ME COR, Fico mais perto De ti Se vieres Docemente Com o vento. Cor, dá-me cor Que as palavras Coloridas Já me sabem A cinzento. OU TALVEZ NÃO. Palavras Nunca me faltam Nem vivo Na escuridão, Ainda consigo Dizer-te E com elas Dar-te a mão. TENHO-AS Que me cheguem Para cantar Ao vivo O concreto Do teu nome, Ouvir assim O teu eco Quando a tristeza Irrompe E esta dor Me consome... AH, MAS A COR Se for intensa E nascer Por explosão, Se tiver Em contraponto Palavras De emoção Que dão ritmo Ao azul Dos teus sonhos De papel... ................. Ah, sim, é tudo O que eu preciso Pra te esculpir A cinzel. DÁ-ME COR Que eu sou Sensível À luz fulgente Do teu olhar, Vagueio nas Flores que colho Quando vestes O vermelho, A cor viva Com que brilhas No cristal Do meu espelho... ............... Ou te cobres Com o manto Do arco-íris Que és. AH, TU ÉS COR, Gota d’água Suspensa No fio Do horizonte, Iluminada De ouro Pelo sol Que já desponta Lá em cima, No meu Monte. DANÇAS COM ELA, A cor, E com ela Adormeces... .......... Por amor. É sopro Da tua alma Quando a vida Se faz sonho E lá no alto Do céu Logo te cobres De azul... MAS EU GOSTO De te pintar Com palavras, Onde o azul é Mais quente, O verde Esse teu manto E o vermelho Emoção Nos poemas que Te canto Com paixão... ............... Vibra o verso Em amarelo Dói-me o peito De amor E já treme A minha mão. É NA COR Destas palavras Que te revejo As vezes Que eu quiser Pois dou corpo Ao desejo Nos poemas Que fizer. CADA VEZ MAIS Gosto de cor, De me confundir Com ela, Dançá-la Como vida Em efusão, Fogo de artifício Que embriaga Os sentidos Como lava de Vulcão... EVOCO O Poeta-Mestre Quando pedia “Mais luz” Já no seu leito Fatal. Tinha luz Dentro de si Mas a cor Já não entrava No portal. Era cinzenta E ténue A cor Que lhe restava E logo escurecia Quando a porta Se fechava... LUZ É COR, Desperta da Letargia, Ressuscita Do torpor, Celebra vida Com magia, É canto, É alquimia, Chilreio de Passarinho Que anuncia O meu voo Aos azuis Que por lá pintas Como se fossem Meu ninho. AH, SIM! Mas eu gosto É de palavras, Foi com elas Que te vi Nas letras Que desenhei, Os rostos Que descrevi, Emoção Que não calei. E TU CABES Em quatro letras Quando teu Nome Tem sete E me sabe A Primavera No meu Jardim Encantado Onde tudo Me fascina Porque a beleza Impera E eu fico Apaixonado...

“Cor”. Detalhe.
“ENCONTREI-TE LÁ EM CIMA, NO MONTE”
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração:”Palácio das Artes no Monte Parnaso”. Original de minha autoria para este poema. Novembro de 2020.

“Palácio das Artes no Monte Parnaso”. Jas. 11-2020.
POEMA – “ENCONTREI-TE LÁ EM CIMA, NO MONTE”
“Tu prima m’inviasti / verso Parnaso a ber ne le sue grotte, / e prima appresso Dio m’alluminasti”. Dante Alighieri. Divina Commedia. Purgatorio. Canto XXII, 64-66.
PERDI-TE Porque, afinal, Nunca Te abracei, Numa praça, Numa rua, Num jardim, Em lado algum, Eu já nem sei... MAS ABRACEI-TE No Parnaso, Lá em cima, Com palavras Em forma de poema, Enredado nas Mil cores Do jardim encantado Da tua alma. VESTIDO DE COR Senti-me Afagado No meu canto, Umas vezes Um pouco triste, Outras Em sufocado Pranto Por não ter O teu corpo Junto a mim, Por não te ter A meu lado. SIM, ENCONTREI-TE No Parnaso, No Monte Da luz divina, No Monte Da branca neve, Cristalina, E, abraçado a ti, Eu vi lá do alto A costa E o mar, Vi com nitidez O meu mundo Interior E como te devo Amar, Aprender A sonhar-te Em azul, A tua cor E, lá no alto, Voar... A NEBLINA Cobria-te Para te vestir E refrescar A alma Como chuva De palavras Húmidas Caídas do meu Céu Enublado E triste. EU NÃO ERA MAIS Que um espelho Que te devolvia Fantasia Contra a Petrificação Que espreitava Nos olhares Indiscretos E volúveis Que te espreitavam Em cada dia. MAS TU NÃO ME VIAS. Em mim, Especulavas (Dizias), E eu, espelho Da tua alma, Gastava assim Os meus dias... E DE TANTO Em mim Te reveres Declinaste O espelho que Começava A embaciar-te A alma... E NÃO ERA Da neblina Que te envolvia, Mas dos desenhos Que tuas mãos Esboçavam Nesse espelho Já húmido De ti... ............ E da minha Fantasia. DESPEDISTE-TE Do Monte, Desceste Em desconforto Sob os olhares Das mil górgones Que ameaçavam Petrificar-te No caminho Para o vale... .............. E sucumbiste. Ou talvez não... JÁ SÓ, NO MONTE, Disse: "De tanto te reveres Em mim Ficou-me, de ti, O repetido reflexo. E sabes o que Brotava Quando te olhavas Na minha superfície Luminosa? Beleza, Toda a que me sobrou Quando, triste, Desceste o Monte E a tua melodia Me faltou.” MAS TEU ROSTO Não petrificará Porque ficou Guardado No meu corpo Vítreo Onde todos Se revêem Sem saber Que no reflexo Levam, gravada Em transparência, A tua imagem... ................ Embaciada. E POR CÁ FIQUEI, Espelho do mundo, A olhar para O espaço Sideral À espera Que um cometa Me alumie o caminho Para ta devolver como Teu reflexo Original...

“Palácio das Artes no Monte Parnaso”. Detalhe.
O POETA QUE SE FEZ PINTOR
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Evocação de um Arbusto em Flor”. Original de minha autoria. Novembro de 2020.

“Evocação de um arbusto em Flor”. Jas. 11-2020.
POEMA – “O POETA QUE SE FEZ PINTOR”
O POETA BRINCAVA Com suas palavras, Cantava o amor Porque a desejava... ERA UM POETA, Era fingidor, Não a desenhava, Cantava-lhe A cor. SUAS CORES Eram palavras, Fazia pincel Da sua caneta, O poeta riscava, Mas a sua tinta Já não era preta. POR ISSO COMPROU Um belo pincel E pintava, Pintava... ............. Era a granel... .............. E a sua tela Deixou de ser O velho papel. DESCOBRIU A COR, Que o fascinou: Azul, vermelho E tanto amarelo... ................. Tudo ele pintou, Procurando sempre O que era belo. ATÉ QUE O ENCONTROU Na cor dos seus Olhos, Era luz da pura Que iluminava O novo papel Onde desenhou O seu fino rosto Com o seu pincel. DESCOBRIU AS CORES Com que a dizia, As suas palavras Tornaram-se riscos... .................... Mais que poesia. PINTAVA ASSIM E os seus poemas Já não lhe chegavam, Pintor de palavras, De cor as compunha E versos voavam No azul do céu... ................... “E o que tu fazias Faço agora eu (Dissera-lhe um dia), Porque sou poeta Mas também pintor". "DEIXASTE-ME SÓ, Entregue à palavra, E eu, Tão pobre de ti, Pintei-me de dor". "MAS EU FAÇO DELA O meu arco-íris Pra subir ao céu A ver se t’encontro Atrás duma cor Pintando o teu rosto Para um poema Que vou escrever Com todas as cores Que trago comigo Enquanto viver”. O POETA BRINCAVA Mas era séria Essa brincadeira, Perdido em palavras Encontrou a cor E nos seus poemas Dela fez bandeira...

“Evocação de um Arbusto em Flor”. Detalhe.
TEU CORPO DE CRISTAL
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Reflexos” Original de minha autoria para este poema. Outubro de 2020.

“Reflexos”. Jas. 10-2020.
POEMA – “TEU CORPO DE CRISTAL”
AGORA VEJO-TE Ao perto, Despida, Cada bago Me seduz Como cristal, Refracção Da luz Que desce Sobre ti E me atinge O olhar Como raio Fatal. CEGO De tanta luz, Entrevejo-te Num clarão, Multidão De cristais Que brilham E desafiam, Vermelho rubi De todas as paixões, Espelho de Alma Deslumbrada Que vive de Ilusões. MAS ÉS ROMÃ E faço o caminho Ao invés Pra te encontrar Ao alcance Da minha mão, Poder colher-te, Fazer caminho Contigo, Do inferno À primavera, Do fogo ardente Ao vicejar Dos campos, Aos frutos Da nossa terra Onde o teu Poder impera. ÉS DEUSA, SIM, Imortal, Teu corpo É cristal Que brilha No templo de Salomão E me convida A entrar Nessa bela Catedral Guiado por Tua mão? SAÍSTE DE TI E agora és Semente Múltipla Do futuro Que há-de vir, Deusa Da fecundidade, Do amor E da paixão A celebrar No fogo Ardente Desse teu lar Onde os bagos Do teu ventre São como Lava De vulcão.

“Reflexos”. Detalhe.
TENTAÇÃO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Cristais”. Original de minha autoria para este poema. Outubro de 2020.

“Cristais”. Jas. 10-2020.
“¡Quién fuera como tú,
fruta, / todo pasión
sobre el campo!”
Final do poema de
Federico García Lorca
“Canción Oriental” (1920),
dedicado à Romã.
POEMA – “TENTAÇÃO”
INQUIETO, Como sempre, Vi-te por dentro Depois de te ter Cantado Por fora, Feliz, Mas triste, Assim... ................... Como quem chora... CONTEMPLEI Teus cristais, Vi cintilar A tua alma E logo te pintei Por dentro, Sem mais, Numa tarde Leda e calma. E CEDI À TENTAÇÃO De te oferecer Aos lábios Da minha amada, Ao compromisso Fatal, Para que ficasse Enleada E se tornasse Imortal. MAS ELA É Concha fechada, Seus cristais São ouro negro, É mistério Bem guardado, Silêncio É o seu lema Porque dizem Que é dourado. MAS PARA MIM É ROMÃ. Quando a chamo Ao meu canto E a pinto De alma cheia Floresce No meu Jardim Como em ilha Encantada Nasce o canto Da sereia. NUNCA TOCOU Teus bagos Nem os comeu Como eu queria Para a ter Eternamente Cada noite E cada dia. POR ISSO TE PROCUREI, Meu fruto De tentação... És alimento Dos deuses E de Kore A perdição. TALVEZ ME ACENDAS O estro E a vontade de rimar Pois silêncio Não é d’ouro Quando o sorriso Me falta E não a posso Cantar.

“Cristais”. Detalhe.
ROMÃ
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “S/Título”. Original de minha autoria para este poema. Outubro de 2020.

“S/Título”. Jas. 10-2020-
POEMA – “ROMÔ
ROMÃ DOS CRISTAIS Vermelhos E cristalinos Que se aninham No seu ventre, Sabor acre Como acidulados Citrinos, Meu alimento de Sempre, Que nos une... ............ Os destinos. ROMÃ DE NOME Insinuante Que alude a cidades Ausentes E ao amor Que exala Do incerto sabor Dos bagos Da perdição, O alimento De Kore, De Hades A irresistível Paixão. ROMÃ, De onde vens? Do inferno, Da Pérsia Ou de Granada? És uma maçã Com grãos, “Melograno", Em Roma Reinventada, Cor vermelha E amarela Dos jardins Da minha amada? ÉS BELA, ROMÃ. Vou levar-te Para o meu Jardim Encantado, Para junto do arbusto, Ter mil cristais Em cada fruto, Como os beijos Que te dou Nestas palavras De amor Por deuses Iluminado. PERDI-TE QUANDO Nascias Naquele outono De longínquo Passado, Mas ficou-me Aquele arbusto Que já tinha A meu lado... VOU LEVAR-TE Para ter Junto de mim O rubor Desse teu rosto, Provar de teus Bagos O doce E acidulado Gosto... COMO GOSTO DE TI, Romã de Deméter E de Hades, Da tua cor, Das faces lapidadas De teus bagos, Da fecundidade E do amor Que em ti desperta Quando afago Com as mãos A tua pele... E a emoção Mais aperta: Um intenso E envolvente calor. VEJO-TE COMO TÍMIDA Romã, Doce, Mas acidulada E, qual Kore, Dividida, Como se cada parte De ti Não quisesse A outra Pra nada. MAS ÉS ROMÃ, A minha cidade, Meu Jardim Encantado, Presente Perfumado, Fruto da Mitologia E do amor, Filha de Deméter E da poesia, Que quero sempre A meu lado.

“S/Título”. Detalhe.
“ESCULPIR-TE…”
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “O Aurífice”. Originais (novas versões) de minha autoria. Outubro de 2020.

“O Aurífice”. Jas. 10-2020.
POEMA – “ESCULPIR-TE”
ENTRE O BRANCO E O NEGRO Quis esculpir-te A alma Na flor que, Num acaso, Encontrei Perdida No jardim Da minha vida... ATRÁS DE TI, Ou em fuga (Já nem sei), Gastara Todas as cores do Arco-íris Que tinha Guardado Dentro de mim. SOBRARA Uma marmórea Pedra negra, Espelho oracular Onde me via Escuro na alma Por falta De cores Exuberantes Que me protegessem Do frio glacial Da tua ausência Suportada Nas longas Intermitências E contrapontos De uma melodia Inacabada. SOPREI FORTE Com a alma Desnuda E a flor Pousou suavemente Na pedra lisa E brilhante Da catedral Onde te queria Celebrar Como amante, Do oráculo Vestal. ESCULPI-TE Como filigrana De ouro preto Sobre branco-pérola, Aurífice da tua Alma sedutora No coração Alvoraçado Dessa flor Onde guardei O teu nome Gravado em letras Invisíveis. DESENHEI Alvas incrustações Em filigrana Como marcas Indeléveis Da arte Que um dia Me visitou Para te cantar. E, AGORA, A olhar para O branco e o negro Desse cântico Desenhado E esculpido, Ofereço-te Este poema Sobre pintura Imaculada Onde te celebro Com arte Minimal, Na forma E na cor, Sem fronteiras, E onde Te reinvento Em fuga: Um elegante Fio branco Que esvoaça, Livre, No marmóreo céu Do teu altar. A ÂNCORA, A sul, Desliza Suavemente Sobre ti E dilui-se, Como eu, Na negra Vastidão... EVOCO-TE, ASSIM, A branco e negro Sobre a flor Que um dia Encontrei Perdida No meu Jardim Encantado Quando visitava O impossível... ............... À tua procura.

“O Aurífice”. Detalhe.
A MONTANHA ENCANTADA
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “A Montanha Encantada”. Original de minha autoria para este poema. Setembro de 2020.

“A Montanha Encantada”. Jas. 09-2020.
POEMA: “A MONTANHA ENCANTADA”
VÊS AQUELE ANIMAL Sagrado Lá no alto Da Montanha, Meu amor? Seus olhos Fulminantes São águias Que perscrutam O horizonte E te procuram Na vastidão Destes montes Transbordantes De cor. EU SOBREVIVO ALI, Diluindo-me nas Cores exuberantes E quentes Das encostas, Sob o azul profundo Da abóbada Sideral Que me inebria Nas vertigens De cada ritual. ASSIM TE ESPERO Em cada dia... ................ E ao primeiro Voo das águias Correrei nu por Esses campos Fora Para te ver passar Ao longe (E sem demora), Subindo o maciço Até tocares o céu Com as mãos, Numa bebedeira De azul Que te fará Levitar Sobre o meu vale Mais profundo. É A MINHA MONTANHA ENCANTADA, Refúgio de eremita Que te canta E recria Com a alma Para te levar Em poética Levitação Por veredas Verdejantes E luminosas Sem destino Ou direcção... NESTA PROFUSÃO De cores intensas Que te ofereço Uma vez mais Penso-te como Imanência, Esparsa Pelas encostas Abissais Que o semideus (Que vês Lá bem no alto) Protege Com as águias Do sagrado Planalto. VÊS PARA ONDE Te levo, Meu amor? Para o Monte De Athena, O Parnaso Que habito Por tanto eu Te amar E no poema Pintar Como sufocado Grito de dor.

“A Montanha Encantada”. Detalhe.
FANTASIA
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Rubor". Original de minha autoria para este poema. Setembro de 2020.

“Rubor”. Jas. 09-2020.
POEMA – “FANTASIA”
O TEU ROSTO Assomou Quando a luz Branca Irrompia No meu jardim, Num insólito Entardecer, Por entre a espessa Folhagem Do vasto e belo Jasmim... ................... E logo eu me perdi Nesse doce Acontecer Que descia Sobre mim. ASSOMAVAS Como flor Em súbito espanto, Despertada Pelo mundo, Com o rosto Em rubor Quando ouviste Este meu canto Profundo... ......... Invocar O teu amor. A LUZ ERA NEVE Derramada Sobre ti No coração da Primavera E o inverno Que te cobria Essa alma Atormentada Desceu Ao meu Jardim Encantado (Minha mágica Quimera), Nessa tarde Luminosa De um branco Imaculado. E EU FIXEI-O, Esse inverno Tão tardio, Que caía Sobre ti Lá do alto Do arbusto (Tão macio) Que me protege As cores Com que te pinto E as palavras Que te canto (Como ousado desafio). AH, ERAS MESMO TU Disfarçada De Flor Que germinou No húmus Desse Jardim E assomou ao Meu olhar Para logo Sussurrar: “- Oh, este amor Não terá fim...”

“Rubor”. Detalhe.
MUDAM OS VENTOS E MUDAM AS PALAVRAS
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Encruzilhada”. Original de minha autoria para este poema. Setembro, 2020.

“Encruzilhada”. Jas. 09-2020.
POEMA – “MUDAM OS VENTOS E MUDAM AS PALAVRAS”
“MUDAM OS VENTOS E mudam as palavras”, Assim falava o poeta. De sinais Tudo sabia, Mas de ventos, Isso não, Sobre Éolo Nada podia. MUDAM AS VONTADES E também mudam As cores, Fortalece O desejo À procura De alimento, Tudo muda, Tudo gira E também muda O vento. O QUE CONTA São os ciclos Desta vida, Os que o tempo Desenhar Pra cada nova Partida Num eterno Movimento Como as ondas Do mar. HÁ ENCRUZILHADAS E é preciso Escolher Para logo decidir Ainda que seja Do mesmo Se não pudermos Fugir. E EU ÀS VEZES DECIDO E volto a decidir, Mas encontro Sempre o mesmo E logo volto A cair... TAMBÉM NÃO HÁ Muito a fazer Porque o vento Sopra sempre Numa certa direcção Para levar As palavras... .............. Quando sopra De feição. MUDAM OS TEMPOS Muda a vontade, Muda o vento De direcção (É verdade), Mas as cores Do arco-íris Viajam sempre Comigo Mesmo que digas Que não.

“Encruzilhada”. Detalhe.
ESTÃO CANSADAS, AS PALAVRAS…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Chorar”. Original de minha autoria para este poema. Setembro de 2020.

“Chorar”. Jas. 09-2020.
POEMA – “ESTÃO CANSADAS, AS PALAVRAS…”
LUTO CONTRA O CANSAÇO De te recriar, Aqui, Neste Jardim, Numa busca De palavras E de cores Que parece Não ter fim... AS PALAVRAS AMEAÇAM Nada dizer, Braços caídos, E as cores Já desbotam Nos cenários Coloridos. POR TANTO ME ESCONDER Atrás delas, Fingindo Nada saber, Arrisco Perder-me Neste Parnaso Onde te venho Cantando, Por certo, Não por acaso. DE NADA VALE Pedir-te Um simples sinal, A ti, Que os manejas Com mestria E sageza, Ao sabor dos teus Caprichos E de uma triste Dureza. TALVEZ ANDES Distraída Com futilidades Da vida, Mas já não sei bem Quem tu és De tão antiga Ser Esta nossa Despedida. AS PALAVRAS ESTÃO Cansadas De te procurar Com o vento Sem saber Onde pousar Nesse teu mar Tão cinzento. NÃO FOSSEM AS CORES Do arco-íris A pintar o rio Da tua vida E talvez já tivesse Procurado Outra foz Onde banhar O meu estro e Dar palco A outra voz. MAS SEI Que procuraria Sempre a tua Réplica (Que nunca Encontraria) E então regresso À memória Colorida Desta minha fantasia, Povoo-me De imagens, Construo catedrais, Afundo-me na arte... ............... E, olha, Pensa bem no que Eu te digo, Pois já não sei Em que mais, Para além deste Sofrido castigo.

“Chorar”. Detalhe.
POR UM SORRISO…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Há Vida no Jardim”. Original de minha autoria para este poema. Agosto de 2020.

“Há Vida no Jardim”. Jas. 08.2020.
POEMA – “POR UM SORRISO…”
OFERECIA-TE O mundo Por um sorriso E um terno Olhar Desses olhos Negros Onde gosto De navegar. MAS É CERTO QUE Não terei, Foi promessa Para a vida, Eu bem sei. NÃO IMPORTA, Também o mundo Não é meu Para o oferecer... .................. Ah, mas dou-te As mágicas Paisagens Do meu olhar, A incandescer, Os frutos Da minha arte, Recrio-te Em ausência, Como diz a Yourcenar, E então ficas Mais bela Que tu mesma... ............... De tanto assim Te amar. DEI-TE HÁ DIAS Um talismã Pra que te guie Na vida. Fi-la eu, A alquimia, Com essas vibrantes Cores, Luz que brilha Cada dia... ............. Como em todos Os amores. SIM, EU TENHO O mundo espelhado No meu coração, Lugar de onde Te vejo À distância E à medida De uma insólita Paixão E de um intenso Desejo... ......... Profundo Como vulcão. MAS ESSE SORRISO E teu olhar Não os terei Para melhor Te amar... ................ Como eu sei. Então canto-te Para espairecer E comigo te Levar Como sempre Desejei. TENHO-TE ASSIM, Em fantasia, Este modo De te ter Cada noite em Cada dia...

“Há Vida no Jardim”. Detalhe.
“KETROF”
Pintura (Tela, 135x100) By João de Almeida Santos PARTILHO hoje este quadro, de minha autoria, inspirado na “Quinta do Quetrofe”. Agradeço ao António Fontes ter-me autorizado a divulgar, aqui, esta obra, de sua propriedade. A “Quinta do Quetrofe” encontra-se na vertente leste da Serra de Famalicão (Guarda), a mil metros de altitude, com uma belíssima vista para o Maciço Central.

“Ketrof”. Jas. 08-2020.
OFEREÇO-TE UM TALISMÃ…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Talismã”. Original de minha autoria para este poema. Agosto de 2020.

“Talismã”. Jas. 08-2020.
POEMA – “OFEREÇO-TE UM TALISMÃ…”
OFEREÇO-TE UM TALISMÃ, Meu símbolo Do teu encanto, Como se fosses Irmã, Aqui, neste Jardim, Aqui, neste recanto. VOA ALTO O talismã, Procura-te, (Mas não sei onde), Tem poderes E tem magia, (Que esconde), Protege o teu Caminho Em cada nova Partida, A tua cartografia, O mapa da tua Vida. VOA, SIM, O TALISMÃ, Desenhei-o Para isso, Um sopro Forte Na alma, Lado belo do Feitiço. TEM AS CORES DO Arco-íris, Ilumina o Teu rosto, As margens Da tua vida, Tudo aquilo De que gosto... ................ Ver-te sempre Protegida. BRILHA Pela matina Com teus cabelos Ao vento, Um sorriso Em teus lábios Que acende O meu olhar Quando desperto Ao relento Do sonho De te amar. É GRANDE O seu poder E forte como o Amor, Bons auspícios Para ti, Remédio De alquimista Pra curar a Minha dor. OFEREÇO-TE O talismã, Aceita-o Com alegria, Protege O teu destino, Da vida A travessia, Um caminho Genuíno, Da alma A alquimia.

“Talismã”. Detalhe.
VALSA
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Timidez”. Original de minha autoria para este poema. Agosto de 2020.

“Timidez”. Jas. 08-2020.
POEMA – “VALSA”
DANÇAREI SEMPRE Contigo, Dançarei, Uma valsa (Só eu sei) Que não tem fim... ............ Mas que não Seja castigo Esta magia D'encanto Que tomou conta De mim! NÃO ME CANSO, Nesta valsa, Não me canso... ............. O corpo nada Me diz, Eu danço A vida contigo Porque és A minha fada, Da minha alma Matriz. VÊS? É uma dança Interior, Produto da fantasia, Procuro-te Onde quiser Para contigo Dançar Esta nossa Melodia... MAS ENCONTRO-TE Sempre, Austera e Imponente, Neste Jardim Encantado, Fada Em forma de Arbusto (Bem copado) Ou rutilante Flor... ............ E por isso Te dedico Uma longa E sofrida, Mas doce E desmedida, Sinfonia Ao amor.

“Timidez”. Detalhe.
ESTRANHO, NÃO É?
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Terraço”. Original de minha autoria para este poema. Agosto de 2020.

“Terraço”. Jas. 08-2020.
POEMA – “ESTRANHO, NÃO É?”
É VULGAR SONHAR-TE Em ambiente idílico, Dirás. Sim, bem sei, Tu que nada terias De romântico Mesmo que eu fosse Um rei. MAS, FOI ASSIM Que te sonhei, Aqui, onde o céu Parece um lago E as grades são, À vista Do casario Que me veste O olhar, A minha libertação, O meu tão cantado Lar. É AQUI QUE Eu te tenho, É aqui que eu Te sonho, Que te canto E te choro, É aqui que Sobrevivo Porque é aqui Que te adoro. PINTO-TE, Sabes? Pinto o lugar Onde te vejo E te quero, Onde mais Eu já te sinto... .............. E desespero... ESTRANHO, NÃO É? É um sítio Onde só vives Sob forma De arbusto E te respiro O perfume, Adormeço Ao relento, Te sonho Com as estrelas E viajo Com o vento... ............ Como lume. SINTO-TE PERTO Quando te canto (Liberto) E me aprisiono Na ideia que De ti eu tenho E onde mais Me abandono. PERCO-ME, SIM, Nestas cores, Nestas palavras, Na minha fantasia, Enquanto tu Te perdes Num silêncio Programado, Tal como eu, Nesta minha Teimosia, Meu destino E triste fado, Tão sofrida Nostalgia. MAS EU ESCREVO E pinto Para ti, Meu amor, Alimento (Com dor) Do teu futuro Quando olhares Para trás E só vires Este meu canto (Já tão maduro) Na tua vida Porque não foste Capaz De manter A ilusão Por ti sempre Prometida...

“Terraço”. Detalhe.
UM SONHO NO MEU JARDIM
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Jardim Espectral”. Original de minha autoria para este poema. Agosto de 2020.

“Jardim Espectral”. Jas. 08-2020.
POEMA – “UM SONHO NO MEU JARDIM”
NUMA TARDE QUENTE De Verão Adormeci No meu Jardim Encantado À sombra de um Loureiro E sonhei, Pensando em ti, Que era Um jardineiro... ........... Apaixonado. MAS ERA ESPECTRAL A luz Desse jardim, Era branca, Irreal, Algo estranho Para mim Neste lugar Seminal. SONHEI-TE. Nesta estranha Visão Tudo perdera Cor, Tudo era Ilusão e Voltou O que então Eu senti Naquela tarde De outono Quando Para sempre Te perdi... ........... Uma imensa Comoção. NO SONHO, Já não te vi, A memória Perdeu cor, Mas logo Te pressenti Nesse cíclico Retorno Da minha Remota dor. NÃO ERA Deste mundo Esse Jardim, Perdera O seu encanto, O perfume Já não era Do inebriante Jasmim Nem de outra Qualquer flor Que sorrisse Para mim. MAS LOGO ACORDEI Com a brisa fresca Da noite No meu Jardim Encantado E o sonho branco E pesado Logo teve O seu fim, Despertando Uma doce Nostalgia Quando o brilho Das estrelas Do mais profundo Do céu Cobriu Este meu rosto De um cintilante Véu Como se fosse magia.

“Jardim Espectral”. Detalhe.
A FLOR DE PAPEL
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Fleur de Papier en Vol à la Recherche du Poème Perdu dans un Jour d’Hiver”. Original de minha autoria. Julho de 2020.

“Une Fleur de Papier en Vol à la Recherche du Poème Perdu dans un Jour d’Hiver”. Jas. 07-2020.
POEMA – “A FLOR DE PAPEL”
NUM DIA DE INVERNO Uma flor de papel Voou Para longe, Levada pelo vento. Rajadas fortes Quebraram Os subtis Filamentos Que a ligavam À raiz de onde Nascera... ............. Seu alento. CONTINUA A VOAR, Essa flor de papel, Ao sabor do vento, Pousando Aqui e ali E logo voando Para outros Destinos, Em perpétuo Movimento. PERDEU AS CORES Luminosas Que exibia E a fonte D’inspiração, A seiva De cada dia, Borboleta Sem pólen Para nova Gestação No jardim Da fantasia. MAS NUM DIA Quente De Verão (Eu bem sabia) Encontrei-a Por acaso Aninhada Num arbusto, Recolhida sobre si Em profunda Solidão. PEGUEI-A Com a mão E levei-a Ao Jardim Do meu poeta Pintor... ............. Nosso chão. DEU-LHE COR, O meu poeta, Alisou as suas rugas, Mostrou-lhe O horizonte Nesse dia de Verão E logo a deitou Ao vento, Ao encontro De raiz Que nutrisse Com sua seiva Uma nova floração....

“Dans un Jour d’Hiver…”. Jas. 07.2020.
RITUAIS
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Templo Inacabado”. Original de minha autoria para este poema. Julho de 2020.

” Templo Inacabado”, Jas. 07-2020
POEMA – “RITUAIS”
IMAGINEI UM TEMPLO Revestido de vitrais, Celebrar-te Com palavras Em singelos rituais. EVOCO O tempo Em que sempre Me perdia Nesse teu olhar Esquivo... ............... E os silêncios Que sobravam Como se fossem Castigo. É O QUE RESTA Como alimento Da alma, O fervilhar De memórias, Inscrições Sensoriais, Silêncio Profundo A poético Chamamento... ............... E tudo o mais... UM FUTURO IMAGINADO De voluntário Amante, Construído Nas ruínas De um passado Que não é Muito distante. SIM, O QUE RESTA É este brilho Coado, Melancólico, Cinzento, O negro De teus olhos Inquietos E teus cabelos Fartos, Ao vento... TUDO FERVILHA Na minha sofrida Memória, Delicada criação Em palavras Com história. DOU-TE, ASSIM, Nova vida E renovo-me Também eu, Falo ao mundo Comovido De um templo Que é só meu. IMAGINEI-O, O templo, Para quando Regressar Do meu Jardim Encantado, Vibrante de cores E por fora Perfumado, Mas por dentro Melancólico e Sofrido Por te ter, Nesse tempo Já passado, Dolorosamente Perdido... ......... De tanto Te ter amado.

“Templo Inacabado”. Detalhe.
DEUSA NO MEU JARDIM ENCANTADO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Sonhei-te assim, no Poema”. Original de minha autoria para este poema. Julho de 2020.
“Sonhei-te assim, no Poema”. Jas. 07-2020.
POEMA – “DEUSA NO MEU JARDIM ENCANTADO
”SONHEI-TE ASSIM, Meu amor: Uma deusa no Jardim. Não te vendo, Recrio-te Com fantasia, Olhar Deslumbrado, Alma Devotada Que persiste Fascinada Como quando No passado Eu te via. QUE SAUDADES! Não nos gastámos Porque partiste Cedo demais. Sobrou-me De ti o melhor, Quando, ao ver-te, Estremecia, Olhos negros, Inquietos, Mistério Que seduzia. FICOU-ME A VONTADE De te desvelar Lentamente À medida Do desejo, De um forte Encantamento, Renovada Inspiração, Oráculo e Devoção E silente Chamamento. ESTA NOITE Sonhei-te assim, Amanhã Eu já não sei, Os sonhos vão Lá pra longe Ou vêm pra muito Perto, Noites longas e Profundas, Quando o amanhecer É incerto. POR ISSO SONHEI-TE Hoje, Pra te contar O meu sonho Amanhã, No dia em que Mais sinto Esta minha solidão, A ausência E o silêncio A que respondo Com poética Evasão. PROCURO-TE Na fantasia, Nos poemas, Na pintura, Nos sonhos Ou no Jardim Onde te vejo Altiva Aqui bem perto De mim. E QUANDO TE OLHO Vejo o mundo A partir desse teu Rosto, Mais belo E misterioso, Mais quente, Silencioso... CRESCE A VONTADE, O estro, A poesia, Vejo o futuro Risonho, Há uma certa acalmia Neste mundo Tão rugoso. SONHEI-TE Um dia antes Do beijo Que celebro Com a minha poesia, Ano após ano, Ao encontro da raiz Onde o poeta Nasceu Para o canto Que a dor Lhe prometeu Como pura catarsia.
“Sonhei-te assim, no Poema”. Detalhe.
ENCONTRO NO JARDIM
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração – “Cai a Noite no Jardim”. Original de minha autoria para este poema. Junho de 2020.

“Cai a Noite no Jardim”. Jas. 06-2020.
POEMA – “ENCONTRO NO JARDIM…”
CAI A NOITE No jardim E já nem sei Se amanheces Dentro de mim. Sobras-me Em incerteza Nos sonhos Breves Em que te encontro Como se fosse Eterna Esta nossa despedida, A versão já repetida De um desencontro Sem fim. MAS À NOITE O teu perfume É mais intenso No meu Jardim Encantado, O silêncio Mais profundo, Ouço mais A tua voz Cristalina Ecoar Na minha alma, Vejo o brilho De teus olhos Ausentes Acender magnólias Brancas E sinto o vermelho Das rosas Incendiar-me O corpo. MAS ANOITECE, Meu amor, Ah, como anoitece, Vai-se o sol E a vibração dos sentidos, Recomeça a viagem Para dentro de mim, Invoco-te Com a alma E trago-te Como pétala às minhas Palavras, Olho-te por dentro Quando a melancolia Toma conta de mim Neste cíclico Anoitecer. VOU AGORA A CAMINHO Da noite, Do sonho, Do imaginário Que entra sem pedir Licença E me arrasta Na corrente Onírica para um Incerto destino Onde não sei Se habitas. E O AMANHECER É sempre imprevisível, As ondas de luz que Chegam com o sol Ameaçam As cores suaves E quentes Com que te Sonho e te pinto Na minha alma Nas noites De luar. CAI A NOITE NO JARDIM E anoitece-me Na alma, Meu amor!

“Cai a Noite no Jardim”. Detalhe.
CASTA DIVA
Poema de João de Almeida Santos Ilustração: “S/Título”. Original de minha autoria para este poema. Junho de 2020

“S/Título”. Jas. 06-2020.
POEMA – “CASTA DIVA”
SONHEI-TE Nesta noite de Verão. Eras casta. Podias ser Casta Diva. Ou não. Casta, sim, De onde nasce O meu vinho, Milagre Da natureza, Sob forma de Mulher, Mas serás Diva também Se ao poema Te trouxer. SONHO-TE Muitas vezes, Voo contigo À procura Do passado, Mas nunca eu Te sonhei Como casta Em pecado, Trepando, Pela latada, No meu Jardim Encantado. AH, A LATADA Essa sim, Que um dia Trepou por ti Pernada acima Nesse enlace Fatal Onde me nasceu A rima, O canto Que te invoca Quando me torno Jogral. AGORA SONHO-TE ASSIM, Mulher-Rufete, Crescendo Bem alto Nas terras Do meu Jardim... ................. As voltas que O mundo dá, Neste recanto Encantado Com aroma Perfumado Da ramagem do Jasmim. CRESCES-ME Na alma Sob a forma de Enlace, Mas se agora És videira E ontem eras Jasmim, Amanhã Serás arbusto Mesmo que eu O não queira Por seres diva Para mim.

“S/Título”. Detalhe.
A EROSÃO DO TEMPO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Entardece no Jardim”. Original de minha autoria para este poema. Junho de 2020.

“Entardece no Jardim”. Jas. 2020.
ENTARDECE NO JARDIM, Entrevejo-te Por entre folhas De um arbusto, Ao longe, Uma imagem Desfocada... ............... O sol cai No horizonte, Vejo, apenas, Um perfil Esfumado, Nuvem cinzenta Arrastada Pelo vento Para lá desta Montanha, Meu alento, Minha fada. VIRO-ME Para dentro De mim E o meu olhar Interior Confunde-se Com o teu E já nem sei Se és tu Ou se essa imagem Um pouco baça Serei eu. O TEMPO Esculpe o rosto Na memória Dos afectos E só vejo O que de ti Me sobrou, Retrato De pouca cor Composto Ao ritmo De suspiros... ............ E tanta dor. NÃO FOSSE A POESIA E restarias Nuvem no céu Entre o azul E o branco Desta minha Fantasia, Ponte espectral Entre mim E a deusa que M’ilumina Por dentro e Por fora, Um clarão irreal Que cega E me comove... ............... Como quem chora. AH, MAS O POEMA Dá-te vida, Dá-te luz E dá-te cor, Enche-te a alma De emoção, Interpela Todo o teu ser E rompe Este minha Tão sofrida Solidão. MAS EU TEMO Encontrar-te E já não saber Quem tu és Por há muito Navegar Outras ondas E marés Tão longe Desse teu mar...
“Entardece no Jardim”. Detalhe.
A REINVENÇÃO DO TEMPO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “A lua desceu sobre mim”. Original de minha autoria para este poema. Junho de 2020.

“A lua desceu sobre mim”. Jas. 06-2020.
POEMA – “A REINVENÇÃO DO TEMPO”
FOI INESPERADA A descida Ao vale Profundo Da tua vida, Reencontro Com o destino Que os deuses Te traçaram, Numa longa Despedida. TRILHOS NOVOS, Fim do ciclo Que corroía E já tardava... .............. Porque doía. UM RÁPIDO Bater de asas Aos ventos que Sopravam e Incendiavam O teu desejo De liberdade... ............... E o tempo Da reinvenção Aconteceu Na outra metade De ti. OS CICLOS Que a vida tem... .................. De repente, Assomam Personagens Que nos habitam E aguardam Em silêncio O dobrar de uma Esquina Para tomarem Conta de nós... É A VIDA Em sobressalto, Renascida, Ventos que sopram Forte na alma, Perfume de liberdade Que docemente Embriaga, O sorriso inocente Da criança que Desperta Para dar vida Às coisas inanimadas Que nos prendem O olhar... ............. Num luminoso Amanhecer. PRESSENTI Essa viagem, A partida Do túnel Ensombrado Do tempo, Sem bagagens, Apenas o teu corpo E a vontade De trepar pelo Mundo acima Como quem Já o respira Lá no alto Da montanha. E LOGO TE DISSE: “Nasce outro Personagem Em ti Que já se manifesta À procura de autor Que lhe reescreva O destino E o ponha em cena No teatro Da tua vida...” “VEM DAÍ, VEM, Que a vida acontece No grande teatro Do mundo Onde se viaja ao sabor Do vento E da fantasia Em levitação Sobre o vale De onde se vê A vida Do lado certo Do sonho.” “E TU, QUE PAGASTE O teu tributo, Abraça a autoria E procura esse palco Onde encenar A reinvenção do Tempo Com fantasia, A que nasce Da liberdade Que ilumina O caminho, A bússola Que já te guia.” VÁ, VEM DAÍ, Há muito Caminho para andar, Há azul No horizonte E brilho No teu luar, Há sol Na madrugada, Suave brisa No ar, Há flores No teu jardim, Água fresca Pra regar, Há mais mundo Que te espera E uma vida Para amar... ............... Vem daí, vem, Meu amor, Já nem sei Como esperar!

“A lua desceu sobre mim”. Detalhe.
ETERNO RETORNO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Encontrei-te no Jardim”. Original de minha autoria para este poema. Maio de 2020.

“Encontrei-te no Jardim”. Jas. 05-2020.
POEMA – “ETERNO RETORNO”
SE TE VEJO
Estremeço,
Se não te vejo
Caio em
Melancolia,
Assalta-me
O desejo
De voar
Contigo...
...........
Nesse dia.
EU NÃO SEI
Como se muda
O mundo
Para te ter,
Então voo
Sobre ele
Ao sabor do vento
Pra que tu
Me possas ver.
É ESTRANHO, NÃO É?
Esta moinha
Que me consome
Porque não te vejo,
Não te ouço
E nem sequer
Te procuro
Porque sei
Que a via
Da minha arte
Me levará
A esse teu lado
Mais puro.
É POR ISSO QUE
Só te espero
Na rua
Do desencontro,
No jardim
Da despedida
Que nunca parei
De regar
Com arte
E nostalgia,
Essa forma
De te amar
Cada noite
E cada dia.
É ACASO
Ou destino
Esperar-te numa
Esquina
Das tantas
Que a vida tem?
Foi dela
Que t'esgueiraste
Na densa
Neblina
Desse teu
Quotidiano
De que ficaste
Refém.
SIM, É VERDADE,
Mas se te encontro
Nessa esquina
Que me leva
Ao jardim
Eu de novo
Estremeço,
Caio em mim,
Sinto um profundo
Torpor
E adormeço,
Pondo fim
A essa dor...
AH, MAS DEPOIS
É o céu,
Sim, o céu,
A sonhar-te
Em azul profundo
E o desejo
A cumprir-se
Nas ondas
Do nosso mar
Até que a aurora
Desponte
Para ser acometido
Por nova melancolia
E desejo
De voar...

“Encontrei-te no Jardim”. Detalhe.
QUASE
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “O Desejo”. Original de minha autoria para este poema. Maio de 2020.

“O Desejo”. Jas. 05-2010 .
POEMA – “QUASE”
DISSE-TE UMA VEZ Que o desejo É quase tudo E o que sobra Quase nada. RESPONDESTE Que, assim, Eu nunca Sairia de mim Pra conhecer O sabor Do quase Que sempre Sobra Do desejo Consumado. SORRI E com ternura Te disse Que é na posse Que se mata O desejo Encantado... ENCOLHESTE Os ombros, Olhaste-me De revés E foste embora Dali. FIQUEI SÓ, Com o desejo Nos braços, Nostálgico E pensativo, Quando dobraste A esquina Deste nosso Desencontro, Tão curto, Mas impressivo... RECORRI À memória Daquele instante Fugaz, Revi-te a beleza Do rosto, Expressivo E tão vivaz, Alma Estampada No corpo, Essa boca Sensual... ............ E o desejo Transbordou Das margens Deste meu Mundo Tecido De fantasia Numa bola De cristal. FIXEI-ME Na tua beleza E dei asas Ao desejo, Desenhei-te Numa tela E cantei-te Num poema (As armas Do meu poder), Cobri-te Toda de cores Para nunca Te perder. E FIQUEI-ME Por ali, A sonhar-te... .............. A matutar No destino Que cedo Me cativou Por achar que O desejo É quase tudo, Mesmo quando O mundo Te abraça E devolve Tudo o que dele Te sobrou.

“O Desejo”. Detalhe.
CONFISSÕES DE UM CONFINADO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “S/Título”. Original de minha autoria para este poema. Maio de 2020.

“S/Título”. Jas. 05-2020.
POEMA – “CONFISSÕES DE UM CONFINADO”
ANDO PERDIDO, Por aí, Nas tardes De Primavera, À procura de mim, Neste estranho Tempo Que aviva O que perdemos Nas esquinas Da nossa vida. NÃO ME VENDO No espelho Dos outros, Já não sei Quem sou e Onde estou. Apenas suspeito. Uma vaga ideia. FALTA-ME O MUNDO Para dar conta De mim, Mas, coisa estranha, Ele entra-me Casa adentro E devolve-me O que perdi, Mais selectivo E profundo, Apenas o que é Remoto Da cidade Onde vivi. ESTRANHO MUNDO, Este, Que escolhe Por mim O que me sobrou Da voragem Do tempo... É POR ISSO Que me procuro Para saber Se o que me Bate À porta É meu Ou se a falta De mundo Me provoca Alucinações, Sonhos ou Sombras Do que nunca Aconteceu... ENTÃO PROCURO-ME No espelho Que trago comigo, Dádiva De Athena, Olho, Volto a olhar E descubro que Afinal sou eu, O esquecido Sem abrigo, Aquele que andou Por aí No bulício Da vida, Ao sabor do vento... ............. Mas contigo. E TAMBÉM SEI Que, por isso, Nesta errância, Eu não petrifiquei. AH, COMO É BOM Saber Que, afinal, O vento Me levou Para destinos Encantados Onde contigo Renasci, Quando o tempo Trazido pelo vento Que passou Na rua da Minha vida Me bateu À porta... ............ E eu abri.

“S/Título”. Detalhe.
É ASSIM QUE EU TE VEJO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Uma Mulher”. Original de minha autoria para este poema. Maio de 2020

“Uma Mulher”. Jas. 05-2020
POEMA – “É ASSIM QUE EU TE VEJO”
DESDE SEMPRE Que te guardo No meu peito. Fixei-te melhor Naquele dia E guardei-te Na memória Profunda Quando te vi Perdida, Por encanto, A ouvir Essa nossa Melodia. UM BRILHO QUIETO Em teus olhos, Suspensa Nas nuvens, A suave paixão Maternal, Inefável, Quando as palavras Já não chegam Para te nomear Com a alma, De tão cheia De ti, A transbordar... A MINHA AUSÊNCIA Constante E tão cortante, O preço Para ser O que mais querias Que fosse, Fazia crescer Em ti O encantamento Que tinhas Contigo Desde aquele dia, Quando te nasci E tu renasceste Comigo. AQUI SEMPRE A meu lado, Este rosto Sedutor Nunca me Despertara O desejo De o cantar Para além da Memória Remota Do afecto... PALAVRAS E melodia, O olhar Penetrante Da alma, Um canto Devotado Que tocasse Em cada dia As fronteiras Intangíveis Do sagrado. FOI PRECISO Aprender Os ofícios Da arte Pra te poder Celebrar E dizer De todas as formas Que sei O que não quero Calar. E AQUI ESTOU. Esse dia Haveria de Chegar. E chegou.

“Flores do meu Jardim Encantado”.
MARMELADA
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “A Dança da Combustão”. Original de minha autoria para este poema. Maio de 2020.

“A Dança da Combustão”. Jas. 05-2020.
POEMA – “MARMELADA”
COMO GOSTO Da tua marmelada, Meu amor... ........... E gosto de Chocolates, Dos que me Sabem a ti, A esse tão doce Sabor. GOSTO DA METAFÍSICA De confeitaria Porque me adoça A alma, É nela que eu te Encontro, Nesta minha Fantasia, Quando a noite Se faz calma. SOU GULOSO, Como sabes, E como é doce E macia Esta tua marmelada, Sinto-a Como alquimia, Como arte De uma fada. COMO, COMO, Sem parar, Sabe-me Sempre a ti, Ao brilho Do teu olhar, Ao perfume Do teu corpo, Onde hei-de Naufragar. NESTA TUA MARMELADA, Eu vejo-te Artesanal, Com os marmelos Nas mãos, Sabores Em harmonia, Uma receita fatal, Polpa moldada Por ti Na dança Da combustão, Cor intensa E profunda, Iguaria De convento Com teus frutos Em fusão. TALVEZ A TENHAS Criado Em tempo De quietude Ou mesmo de Solidão, Quando esvaece Esse lado Tão agreste E tão crispado Que te esconde A beleza Dos momentos De paixão... AH, A MARMELADA, A metafísica, Chocolates, Confeitaria... .............. A doçura Do teu jeito Vai ficar-me Sempre viva Como suave Suspiro Que se solta Do meu peito... ............... Por essa tua Magia...

“A Dança da Combustão”. Detalhe.
TRÊS
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: "Geometria”. Original de minha autoria. Abril de 2020.

“Geometria”. Jas. 04-2020
POEMA – “TRÊS
SINTO TRÊS VEZES A tua falta Na sofrida Solidão Onde encerro O que não tenho No Monte, Oráculo Desta minha Invocação. TRÊS VEZES Eu sinto O teu silêncio, Na ausência Do teu rosto E do som Da tua voz, Do aroma Do teu corpo... ................ Minha foz. ATÉ A ALMA Escasseia... ............... Não lhe sinto Pulsação, Desmaiada Sobre mim, Inerte Nestes meus braços, Uma carícia Sem fim... TEU SILÊNCIO Cai pesado Sobre a minha Solidão, Meteorito Na alma, Inaudível Colisão. SOBRA-ME, De ti, O nome, Rasto da tua Passagem Na rua Que já foi minha, É nela que eu Te sonho E te pressinto Como deusa Nas noites Do meu luar E te canto Em poemas Onde os nomes São metáforas E sem limite O poder De nomear. EU SINTO A tua falta Três vezes De cada vez. É falta a mais, Eu bem sei, Mas o número Perfeito É o três. ABRAÇO O número Da perfeição, Desenho Triângulos Em liberdade Até que os sinta Vibrar, Instrumentos Musicais Que dão voz À minha dor Na exacta Geometria De teus breves Rituais. NELES OUÇO A tua melodia Como eco Desse nome Que no sonho Invoquei, Dou início Ao poema Para te sussurrar Baixinho A história Que sonhei.

“Geometria”. Detalhe.
ALMA
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração – “S/Título”. Original de minha autoria para este poema. Abril de 2020.

“S/Título”. Jas. 04-2020
POEMA – “ALMA”
SE QUISESSE A tua alma Como anjo Do pecado, Que farias Do teu corpo Que eu sonho Imaculado? SE O TEU CORPO Pedisse O poeta Apaixonado Não lhe darias A alma, Tributo do teu Secreto Pecado? MAS EU QUERO A tua alma Mais do que quero O teu corpo, Do que de ti Eu mais gosto, Porque é ela Que me fala No brilho Desses teus Olhos, No veludo Do teu rosto. ÀS VEZES (Eu pressinto) Abandonas-te Ao ritmo Encantatório Das palavras Que te lanço, Da melodia que Embala, Da beleza Do meu pranto No poema Que te fala. É DIFERENTE O meu encontro Com teu rosto Tão macio, O brilho do teu Olhar... ................. Ou com sulcos Tão crispados, Espelho Da tua alma, Quando roubam O encanto Desse sorriso Esboçado De quem constrói O futuro Nas ruínas Do passado. O QUE EU Procuro em ti, É o lado Desta minha Perdição, A beleza Dos teus olhos Onde te fala A alma, Onde cresce Cada dia Uma incontida Paixão. TALVEZ O TEU SILÊNCIO, Linguagem Em forma pura, Me seduza E me cative Na fronteira De uma dor... ............... Que com poesia Se cura.

“S/Título”. Detalhe
VOAR
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Pássaro de Fogo”. Original de minha autoria sobre desenho de Vera Sousa. Abril de 2020.

“Pássaro de Fogo”. Jas. 04-2020.
POEMA – “VOAR”
APETECE-ME VOAR Sobre o teu silêncio, Confinado que estou Entre paredes De um subtil E incerto afecto Que me vai capturando Pela sedução De uma ausência Insinuada... AH, MAS EU SEI Que estas paredes São do tamanho Da minha fantasia E que o voo, Livre como é, Não terminará Até que te sinta Pulsar finalmente Dentro de mim... E SEI TAMBÉM Que as minhas asas Terão sempre As cores Do arco-íris Para com elas Voar Sobre o vale da Tua vida, Montado num Pássaro de Fogo. VER-TE-EI Lá de cima Caminhar distraída, Perdida Nas encruzilhadas Que vais criando No sendeiro inóspito Da tua vida E lançar-te-ei Âncoras coloridas Que dêem mais luz À incerteza Que te vai na alma. E AGORA, Que o pintei, Já tenho um Mensageiro Que te levará, Com o vento (Ou num Inesperado E feliz reencontro De palavras), As cores Com que, docemente, Te vou pintando E as deixará No parapeito Da tua janela. MAS NÃO PRECISARÁS De abri-la De par em par Porque ele não Entrará... ............. Poderia Incendiar-te A fantasia e Engravidar-te A alma Com o fogo Que levará Consigo...

“Pássaro de Fogo”. Detalhe.
REGRESSO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Primavera”. Original de minha autoria para este poema. Abril de 2020.

“Primavera”. Jas. 04-2020
POEMA: “REGRESSO”
ESTÁS TÃO LONGE E tão perto Eu te sinto... ............. Neste tempo De fronteiras Eu sofro O teu silêncio Como espinho Cravado Da mais brava Das roseiras. MESMO ASSIM, Mesmo em dor, Regresso sempre Ao lugar Onde eu Te conheci, Ao mistério Do teu rosto, Quando por ele Me perdi... PERDI-ME,SIM, Mas encontrei O que julgava Não ter, Porque foste O espelho Onde me vi Renascer, Embora já Pressentisse Que por culpa Do destino Eu te iria Perder. AH, SE SOUBESSE Onde estás O vento Levar-me-ia Ao parapeito Da tua incerta Janela, Ver a tua Silhueta, Partilhar A solidão, Sonhar, Sentir-me Um passarinho Aninhado Docemente Na palma Da tua mão, Sem vontade De voar... MAS EU NÃO SEI Onde estás, O que fazes, Com quem andas, Se trabalhas, Se viajas, Se sonhas E fantasias, Se não ouves Ou não lês Os sinais que Eu te dou... .............. Poéticas Sinfonias Em pautas Onde transcrevo O que de ti Me ficou. OH, QUE DESTINO Me calhou, Ter-te Encontrado Um dia Para logo Te perder Nos caminhos Desta vida Que me levam A cantar Esta triste Melodia De eterna Despedida...

“Primavera”. Detalhe.
INVOCAÇÃO
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Casas no meu Jardim
Encantado”. Original de minha
autoria para este poema.
Março de 2020. Veja a nota
no final do poema.

“Casas no meu Jardim Encantado”. Jas. 03-2020
POEMA – “INVOCAÇÃO”
QUE SINTAS
O pulsar
Do poema
No teu peito
Para te ter
No silêncio
De uma casa
Iluminada
Pelo brilho
Das magnólias
E da luz
Da primavera
Ao lusco-fusco
De um entardecer
...................
É o que mais
Eu desejo de ti.
SE CAÍRES EM SILÊNCIO
Profundo
Para melhor
Ouvir
O meu canto
E sentir o aroma
Das cores
Com que pinto
Para te encher
A alma
De Primavera...
...................
Ah, que feliz
Eu me sinto.
SE SENTIRES
Dentro de ti
O chamamento
Ao poema
E o ritmo do meu
Pulsar
Continuarei
A visitar
O oráculo
E a subir
À montanha
Onde a deusa
Espera
Notícias de ti.
SE O TEU SILÊNCIO
For o eco da
Minha voz,
A dança da melodia
Cantada
Em surdina
Saberei que
Abraçaste o tempo
À medida de um
Sonho
Revelado
Onde constróis
O futuro...
...............
Reinventando o
Passado.
E SE EU SENTIR
Uma suave
Tristeza
De tanta ausência
Sofrida
E uma doce
Nostalgia
Da luz
Desses teus olhos
Que m'incendeia
O olhar
Então isso
Quer dizer
Que te amo...
...........
Com a alma
A transbordar...
MAS NÃO SEI...
................
Não sei se
Tudo será
Uma cálida
Fabulação
Pr’alimentar
A sede
Insaciável
De teu corpo
Imaginado
Num poema
Em que sonhei
Ter-te, assim,
Tão intensamente
Amado...

“Casas no meu Jardim Encantado”. Detalhe.
TALVEZ MOVIDO POR ESTE POEMA,
tenho, nestes dias,
frequentado, mais do que o
habitual, as obras de Nietzsche.
Transcrevo, pois, aqui dois
aforismos (161 e 175)
tirados de “Para além
do bem e do mal", de 1886:
1. “os poetas não têm pudor
das suas aventuras; exploram-nas”
– os poetas vivem as suas
experiências íntimas como
alimento da sua fantasia;
2. “cada um ama o seu desejo
e não o objecto desse desejo” –
o que subsiste é o desejo,
tudo reside nele e é ele
que move montanhas.
Este poema remeteu-me para a
necessidade de ter
estes aforismos sempre presentes,
tal como o aforismo 153:
“o que se faz por amor está
sempre para além do bem e do mal”.
E não fosse a conversão interior
e o desenho estético das suas
pulsões naturais,
para além do bem e do mal,
a dor do poeta
seria irremediável
e talvez insuportável.
Assim, escreve, pinta
e segue em frente,
alheio ao (silencioso) ruído
exterior que ameaça
perturbá-lo.
O Nietzsche está mais perto
da arte do que
da filosofia. Sinto isso
na minha própria pele.
Eu, que não sou Zarathustra:
“Die Liebe ist die
Gefahr des Einsamsten” –
“O amor é o perigo
do mais solitário”
(“Assim falou Zarathustra”,
1883-85, III, Der Wanderer).
JAS#03-2020
BRILHAM OS TEUS OLHOS
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Oráculo”. Original de minha autoria para este poema. Março de 2020.

“Oráculo”. Jas. 03-2020.
POEMA – “BRILHAM OS TEUS OLHOS”
NO ORÁCULO Há uma árvore Iluminada Nos dias de ritual... ................... Essa árvore És tu E eu a luz Que alumia Com o ceptro De cristal Do templo sagrado De Athena, Da arte A catedral. ÀS VEZES BRILHAS, Incendeias-me A alma e O estro No poema Em construção, Outras convocas A sombra E o silêncio, A árvore Entristece E também eu Me apago Em infausta Comoção. É BELA A ÁRVORE (Sem frutos), Beleza luminosa E um pouco fugidia Quando em dias De ritual Quero cantá-la Com vigor E fantasia Porque o brilho Dos teus olhos Me acende Esta paixão Como pura energia. SE NELA EU NÃO TE VEJO, Apago-me Em submissa Tristeza, Falta-me o teu Olhar, De cada poema, A luz E, do afecto, Delicada Incerteza... FLUI O TEMPO, Meu amor, Gasta-se a vida, Fogem de nós As palavras, O olhar Empalidece E esvai-se A alegria, O oráculo Não acolhe Este canto E, depois, Volta a rotina De cada dia E eu perco O teu encanto... MAS A DEUSA Aguarda-nos Impaciente E eu hesito A chamar-te Ao ritual, Tenho medo Que não ouças E perca, Do oráculo, A magia Do seu ceptro De cristal... AH, MAS EU OUÇO-TE Sempre Dentro de mim (És a minha Salvação) E convoco-te Ao poema Pr’acender Com a tua melodia A árvore Inspiradora Da minha deusa Athena Enquanto Meu canto Durar Nos dias Do ritual. NÃO TE ABANDONES TU Na perdição Da rotina, Não apagues Essa luz Que começa a Renascer Com brilho que M'ilumina, Deixa que eu Te cante E te celebre Em cada amanhecer, Te acenda A fantasia Nem que seja Num instante Duma noite Ou no acaso De um dia.

“Oráculo”. Detalhe.
RAÍZES
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Jardim Encantado”. Original de minha autoria para este poema. Março de 2020.

“Jardim Encantado”. Jas. 03-2020
POEMA – “RAÍZES”
FUI PROCURAR-TE
Ao Jardim
(Vou sempre,
Quando te quero),
És planta
Seminal,
Magnólia,
O teu nome,
Erecta
Em mil raízes,
Encantado
Pedestal.
ÉS CÁLICE
D'AFECTO,
Cativas
O meu olhar,
Pedes palavras
Sem fim,
Cânticos,
Poesia
A brotar...
REVEJO-TE
Nela, mulher,
O seu porte
(Como o teu)
É altivo,
Desafia-me
O canto
Pra que o possa
Partilhar
E assim estar
Contigo,
Seduzido,
Por encanto,
Para logo
Te amar.
UMA GRAÇA,
É o que és,
Dessas três
Que sempre
Canto,
Com poemas
E alguma
Timidez
Que dissimula
O meu pranto...
UMA GRAÇA?
Ah, sim,
A que o poema
Resgata
Do futuro
Que perdeu,
Feita
De muitas raízes,
Desenhada
Com palavras
Onde o seu mito
Cresceu
Pra que o tempo
A conserve
E lhe marque
A ventura
Que a Moira
Concedeu.
NESTE JARDIM
Renasceste,
Acendeu-se
O verde
Desses teus olhos
De luz
(Ou castanho,
Já nem sei)
No brilho
Da primavera
Que vestirá
O teu corpo
Em tempo
De sagração...
APETECE-ME
Beber-te
Na seiva
Destas raízes,
Embriagar-me
De ti,
Deste cálice
D'afecto,
Enlaçar-me
Com elas
Pra te amar
Nas origens,
No lugar onde
Nasceste,
Onde sofro de
Vertigens
Por aquilo
Que me deste...
.................
Só aí eu sei
Quem és...

“Jardim Encantado”. Detalhe.
MARÇO
POEMA de João de Almeida Santos. Ilustração: "Fauno em Março" - Original de minha autoria. Oito de Março de 2020.

“Fauno em Março”. Jas. 03-2020
POEMA – “MARÇO”
GOSTO DE MARÇO, Entre o branco e As flores Que despontam Na fronteira Do tempo, Entre a neve E a primavera. GOSTO DO BOTTICELLI, Rostos e corpos Feminis, Volúpia de Transparências Sensuais. GOSTO DA PELE Acetinada Dos corpos, Dos traços E da cor Que desenham Alvura nas Três Graças... .............. E no Amor! GOSTO DO BRANCO, No alto da Montanha E das cores intensas Que interpelam, Insinuantes, O meu olhar Deslumbrado, Cá em baixo, Neste vale Por elas sempre Iluminado. GOSTO DE MARÇO, Ah, como gosto! Entrei nele Contigo, Ombro a ombro, Em contraponto Que se consumou Como silêncio Fatal, Marca de tempo Quase irreal, Face obscura Do meu rosto Entristecido. QUE O DIGAM Os astros Desalinhados... ............... Para ti colhia Flores luminosas, Crescia A inspiração Em estrofes Arrebatadas Com que sentir Fingia O que dizer Não podia. Contraponto. O outro lado Da tua melodia... MARCADO Como selo De inspiração Às avessas, Lá vou eu Por aí, Nem sei porquê (Ou por falta de ti), De braço dado Com Botticelli, Lá em cima, na Galleria, Onde quase morei, Transeunte Irreverente No incerto desafio De um dia. PROCURO-TE, SIM, Na laica oração À deusa Athena, A que trazes (Eu bem sei) No centro Do teu coração. SINTO-TE PERTO (É estranho, não é?), Depuro A tua imagem, Bissetriz de mil Rostos perdidos, Até se tornar Ideia precisa De corpo ausente... DEPOIS, AH, DEPOIS REINVENTO-A A cada instante, Abraço-a Com alma De amante, Pinto-a com Palavras De poeta Encantado E sonho-te Numa plácida noite Da primavera Que assoma... AO ACORDAR, No amanhecer De cada poema Verei que continuas Em mim De olhos fechados Como se fosses Memória profunda Do que nunca Aconteceu. ANDAREI Por aí (Os astros o dirão), Vagando Sobre o pólen Da beleza sensível Onde pousarei O meu inquieto Olhar À procura De alimento Para pintar O poema... ........................ E talvez o impossível! LÁ NO ALTO Te encontrarei, No fio do horizonte, Um risco, Projecção do teu Olhar A construir infinito, Onde, num adeus Sem fronteiras Nem cais de partida, Hás-de desenhar Com a alma As mil silhuetas Inacabadas... ................ Ou talvez não! MEU DEUS, Como gosto de ti... ............... Em Março!

“Fauno em Março”. Detalhe.
MANDEI PODAR O LOUREIRO…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Loureiro em Flor no meu Jardim Encantado”. Original de minha autoria para este poema. Março de 2020.

“Loureiro em Flor no meu Jardim Encantado”. Jas. 03-2020
POEMA – “MANDEI PODAR O LOUREIRO…”
MANDEI PODAR O LOUREIRO
Num dia de Carnaval,
Cada ramo que caía
Doía,
Fazia mal.
ESPALHAVA-SE O AROMA
Intenso pelo Jardim,
O podador a cortar
E, ele, triste
E tão dorido,
Sempre a olhar
Para mim...
“QUE FIZ EU PARA SOFRER,
Estou sempre
À tua frente,
Porque mandaste
Podar-me,
Assim,
Tão de repente?”
“FOI PARA ME RENOVAR,
Pra ganhar
Um novo alento?
Porque não paras
De olhar,
Acalmas o sofrimento?”
“JÁ NÃO APONTO PRÒ CÉU,
Fiquei mesmo redondinho
E, tu, quando me olhas,
Ficas sempre mais sozinho,
Mais longe do meu perfume
Que deitaste a perder
Com aparente azedume
Porque não podaste
A tempo
O que havia de crescer.”
“PERDI MUITAS
Das minhas bagas,
Estavam em mim
Às centenas,
Agora ficaram chagas
E não são muito pequenas.”
“LEVOU-MAS O PODADOR
As bagas que tu perdeste,
Já não sinto o teu calor
Por tudo o que não fizeste
Mas que podias fazer
Se tivesses mais coragem...
......................
Deitaste tudo a perder
Só porque era selvagem!”
“NÃO SÃO LOUROS
De glória,
Não são...
................
Por que razão
Me deixaste,
Ferido de
Tanta paixão?
Para teres
Uma vitória
Que não merece
Perdão?”
“AGARRA-TE A MIM
Agora,
Sou teu loureiro
Em Jardim,
Se não quiseres,
Vai-te embora,
Que eu fico-me assim,
Mais pequeno,
Mas robusto,
Mais redondo
E mais belo...
...................
Serei sempre
Mais que arbusto,
Não é preciso
Dizê-lo.”
O LOUREIRO DO JARDIM
É planta seminal,
Viajo com ele
No tempo
Como se fosse imortal.
É ÁRVORE DE POESIA,
É fonte d’inspiração,
Ajuda-me a renascer
Se vacila o coração.
É UM POSTO DE VIGIA,
Cresce, cresce
Para cima,
É com ele que
Eu resisto,
Declinando-me
Em rima...
POR ISSO MANDEI
Podá-lo
Para se fortalecer.
Se o não tivesse feito
Ia mesmo esmorecer
E com ele também eu
Caía em negação...
................
Não são fáceis
Estes tempos,
Mas loureiro é canção!

“Loureiro em Flor no meu Jardim Encantado”. Detalhe
SONHEI-TE, NAQUELA NOITE
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Um Sonho”. Original de minha autoria. Fevereiro de 2020

“Um Sonho”. Jas. 02.2020
POEMA – “SONHEI-TE, NAQUELA NOITE”
SONHEI-TE, MEU AMOR. Atravessava o deserto, Há muito. Nada via no horizonte. Areia, só areia No meu caminho E uma neblina quente Lá ao fundo... Nem sabia se Na longa caminhada Encontraria Um oásis Onde molhar Os lábios Já gretados De tanta aridez... MAS HOJE SONHEI-TE. Saí do deserto E reencontrei o oásis Nas pupilas dos teus Olhos. ANINHEI-ME EM TI, Sereno como nunca Estivera Desde que te conheci. Ofereci-te uma história Em papel Onde te conto, Nos conto À exaustão, Até ao limiar Do impossível, Mas com uma réstia De esperança De não ter de Regressar À torreira Do deserto. FALÁMOS DE ARTE, Imagina, Do seu poder Curativo E de como a vida Se lê E se resolve Nela. ABANDONEI-ME Nos teus braços, Perdido em quentes Memórias, E caminhámos Nem sei bem por onde Ou para onde. SONHEI-TE Esta noite, Meu amor. E, sabes? Acordei de ti Embriagado De felicidade, Uma doce tontura... AH, HABITUEI-ME A estar contigo Em sonho, A dizer-te Em poemas, A interpelar-te De longe... HABITUEI-ME Ao teu silêncio, A uma fronteira Inultrapassável A não ser Pelo vento Que te cicia os Meus murmúrios... TENHO-TE Dentro de mim E já nem sei O que seria Encontrar-te, Olhar de perto Esses teus olhos Negros e profundos, Sentir o teu perfume E naufragar No mistério Insondável Da tua vida. TALVEZ TE PERDESSE, Nesse instante, Por excesso de ti. Mas eu não quero Perder-te, Meu amor.

“Um Sonho”. Detalhe.
A PALAVRA PROIBIDA
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Beija-Flor em Magnólia”. Original de minha autoria. Fevereiro de 2020.

“Beija-Flor em Magnólia”. Jas. 02-2020.
POEMA – “A PALAVRA PROIBIDA”
OS GUARDIÕES Do sagrado templo Da palavra E da cor Emitiram edital: “O amor em poesia Fica assim proibido Porque pode ser Fatal. Os versos E as estrofes Banhados A luz e cor Ficam pra sempre Banidos Da arte E do amor.” DIZ O GRANDE HONORÉ, Balzac, de apelido, Certeiro, Como poeta, Na palavra destemido, Que o Amor É poesia, É a arte Dos sentidos, É perfume Que inebria E nos faz sentir Perdidos Se não houver Guardião Que decrete, Impenitente: “Também eles São proibidos!” PROIBIDOS? Ah, esses, Não, Poesia É emoção, É enlevo Dos sentidos Que resiste Ao edital Mesmo que seja Cantado Pelo mais belo Jogral. O POEMA LEVA Aos píncaros Da mais alta Fantasia, Sobem ao monte Os sentidos Com as asas E a leveza Da arte Em poesia. MAS É DIFÍCIL Ouvir E sentir Em verso Com alegria Pois há sempre Alguém Que me rouba A brisa Dessa tua Maresia, A que respiras Bem cedo, Logo ao Amanhecer Quando ouves O meu canto Para nunca Te perder. OLHAS O MAR, Ouves As ondas Dentro de ti A cantar Com versos Que o vento Sopra Pra te poder Ciciar O que por ti Eu já sinto Nesta canção Que compus Numa noite De luar. POESIA Dos sentidos... ...................... O amor é mesmo isso, Porque, queiras Ou não queiras, Tem a força De feitiço. ENCONTRO-A Sempre em ti E mesmo que Proibidos Escrevo sempre Poemas Desde o dia Em que te vi. EXALTARAM-SE Os sentidos (Não sentiste?) E para o poema Parti Com as asas E as cores De um belo colibri... DECRETARAM Edital. Ah, que o façam, Pois, cumprir. Mas poesia É como vento Que te leva Cada dia, Sopra Tão forte Na alma Que o silêncio É alento De poeta Que com palavras Se salva. À PALAVRA PROIBIDA Sempre o poeta Resiste, É livre no seu dizer Das razões Da sua vida Quando a dor Atormenta E o sofrimento persiste...

“Beija-Flor em Magnólia”. Detalhe.
ESTAVAS À MINHA FRENTE…
Poema de João de Almeida Santos. Reproponho, com ligeiras alterações, o poema – de Gianni para Paola, personagens do meu romance “Via dei Portoghesi” (Lisboa, Parsifal, 2019) – que publiquei há quatro anos. Ilustração: “Licht, mehr Licht...” - Original de minha autoria. 14 de Fevereiro de 2020.

“Licht, mehr Licht…”. Jas. 14.02.2020
POEMA – “ESTAVAS À MINHA FRENTE…”
PASSARAM ANOS E ANOS Que nem consigo contar, Estava feliz de te ver, Ouvias-me nesse Solar A dizer o que sentia A sentir o teu olhar. COM MEUS OLHOS TE DIZIA Que o mundo ia parar Se chegássemos um dia Nem sei bem a que lugar. ESTAVAS À MINHA FRENTE E pousavas o olhar Em mim, tão docemente... ..................... Nem podia acreditar, Havia um brilho diferente A iluminar o Solar... FOI ESSE UM DIA FELIZ Luminoso para mim Vi-te com outra roupagem Como se fosses cetim, Perfume e suave aragem, Um doce embalo sem fim... LANCEI ENTÃO O OLHAR Para a torre de marfim Onde te fui projectar, Tão bela eras assim, Nesse dia, Nesse lugar, A dizer o que sentias, Dando voltas às palavras Que timidamente dizias, Medindo bem os efeitos Que tu já bem Pressentias... ESTAVAS À MINHA FRENTE, Falávamos nesse Solar E eu estava feliz, Bastava-me o teu olhar. NA MEMÓRIA DO PASSADO Já não vejo esse lugar Onde possa estar contigo, Onde te possa falar, Cumprido esse castigo De não te poder encontrar A não ser com as palavras Em que me ponho a nu, Como se vê pelo dia Em que as lanço ao vento Tão fortes de meu soprar Para ver se é com elas Que te consigo alcançar... ESTAVAS À MINHA FRENTE, Lembro-me do teu olhar No bulício desse dia, Do teu leve respirar. AGORA FOGES DE MIM. Tens medo de soçobrar? Tu és mais forte que eu Resistes ao meu olhar, Às vezes com timidez, Outras sem me enfrentar... NOS DIAS EM QUE TE VEJO Ganha alento a minha vida, Fortaleço-me a alma Suspendo a despedida, Fico sereno, em calma, Cicatriza-me a ferida. SE OLHAR PARA O FUTURO E não te vir no caminho Fica a vida sem sentido E vazio o meu destino... NÃO ESQUEÇAS QUEM, Ausente, Ouve a tua melodia E em cada instante pressente O poder dess’alquimia Que funde tudo o que sente No sentir de cada dia. E ASSIM VOU REGRESSANDO A essa torre de marfim Que vou construindo Em palavras Do que persiste em mim... ESTAVAS À MINHA FRENTE…

“Licht, mehr Licht…”. Detalhe
O MEU NOME
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “O Teu Corpo” - Original de minha autoria. Fevereiro de 2020.

“O Teu Corpo”. Jas. 02-2020
POEMA – “O MEU NOME”
PORQUE NÃO ME NOMEIAS, Meu amor? Nome-ar. Tão simples. Quatro letras. Devolver-me Identidade, Aquecida Nos teus lábios Pelo ar quente Que respiras... ASSIM, PERCO-ME, Não sei de mim, Fico sem espelho Onde me ver A cores E em perfil De traço fino Nos teus doces Murmúrios... ................ Que sufocas... .............. E não desvelo O destino traçado Pelos deuses No chão arenoso Do caminho Da minha vida. TORNO-ME SOMBRA De mim Quando me interpelas Sem nome-ar, Não me reconheço, Sou outro, Pronome Indefinido ou Interjeição, Ideia vaga, Incerto perfil Que se dilui Como aguarela Em folha branca Manejada Por ti à procura De uma forma Que, afinal, Não tem nome. PORQUE CATIVAS O som De quatro letras E não cantas A minha melodia Com uma palavra Só? Ah, a tua boca Logo hesita Quando a palavra Assoma À flor dos teus Lábios, Como daquela vez Em que soou Timidamente Como sussurro, Murmúrio Imperceptível, Em surdina, Na fronteira Do silêncio. O MEU NOME Desata A tua alma E ameaça Levá-la consigo A voar sobre O mundo De mãos dadas No fio do horizonte? São vertigens, Meu amor? AH, SE ASSIM FOSSE Diria O teu nome Mais do que digo Até adormecer De cansaço.... ............. Só para te Sonhar. MAS TU NÃO ME DIZES Porque me desejas Como parte de ti, Sem partilha Nem confissão? Guardas O meu nome No silêncio Do teu peito, Como se fosse Pecado dizê-lo? Sentes perigo? Que o meu nome Se torne lava Ardente, Beijo verbal Proibido Pela gramática Do amor Logo ao primeiro Sinal? E foges Para dentro De ti Com o coração Aos pulos? OH, TAMBÉM EU NÃO TE DIGO, Como chamamento, No meu poema, Onde os nomes Se dizem De outro modo, Têm som E ritmo Diferentes, São notas De uma melodia Sofrida E cifrada... MAS AS TUAS LETRAS Estão lá, Todas, Uma a uma, E a cor Dos teus cabelos Em aguarela E o cetim Da tua pele Macia Por onde deslizam Os meus olhos À procura dos teus, Negros e profundos, E essas mãos Perfumadas Filhas da arte Que te desenham A alma Com riscos E cores Que atiras Ao vento Para que eu Os agarre E lhes dê Som, Ritmo E sentido Num poema... .................. Ao entardecer... E, ASSIM, EU CANTO O teu ser, Tudo O que foste, O que és e O que serás, O que sabes e O que sentes, O que vives e O que sonhas. O que dizes No que calas... ........... Tudo, Meu amor. MAS TU DIZES, Com a ironia Do silêncio Triste Que te cativou, Que também eu Não te digo Aqui, Em arte, Mesmo quando Te canto mais Do que ouves, Te nomeio Mais do que Posso, Te pressinto Mais do que Sentes... E TU Apenas te expões Às minhas palavras, À minha música, Silencias-me Porque balbucias O meu nome Só dentro De ti, Foges ao som Encantatório Que corre Atrás de ti Para se ouvir Nos teus lábios. BEM SEI Que o teu mundo Não é o dos nomes Ou das palavras, Sequer murmurejadas, Mas o das cidades Invisíveis Na tua fuga Permanente para O infinito... E SEI QUE AÍ Me vais Silenciosamente Interpelando, Como rosto Mutante, Essa tua forma De docemente Me soletrar. NOMEIAS-ME, SIM, Meu amor, Mas à tua maneira!

“O Teu Corpo…”. Detalhe.
ESCULPIR-TE…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Bianco&Nero”. Original de minha autoria para este poema. Fevereiro de 2020.

Bianco&Nero. Jas. 02-2020
POEMA – “ESCULPIR-TE…”
ENTRE O BRANCO
E O NEGRO
Quis esculpir-te
A alma
Na flor que,
Num acaso,
Encontrei
Perdida
No jardim
Da minha vida...
ATRÁS DE TI,
Ou em fuga
(Já nem sei...),
Gastara
Todas as cores do
Arco-íris
Que tinha
Guardadas
Dentro de mim.
SOBRARA
Uma marmórea
Pedra negra,
Espelho oracular
Onde me via
Escuro na alma
Por falta
De cores
Exuberantes
Que me protegessem
Do frio glacial
Da tua ausência
Nas longas
Intermitências
E contrapontos
Da nossa melodia.
SOPREI FORTE
Com a alma
Desnuda
E a flor
Pousou suavemente
Na pedra
Lisa e brilhante
Da catedral
Onde te ia
Celebrar...
ESCULPI-TE
Como filigrana
De ouro preto
Sobre branco-pérola,
Aurífice da tua
Alma sedutora
No coração
Alvoraçado
Dessa flor
Onde guardei
O teu nome
Gravado em letras
Invisíveis.
CRIEI PARA TI
Alvas incrustações
Em filigrana
Como marcas
Indeléveis
Da arte
Que um dia
Me visitou
Para celebrar
A beleza
Do teu rosto.
E, AGORA,
A olhar para
O branco e o negro
Desse cântico
Desenhado
E esculpido
Ofereço-te
Este poema
Sobre pintura
Imaculada
Onde te celebro
Com beleza
Minimal,
Na cor
E na forma,
Sem fronteiras,
E onde
Te reinvento
Em fuga...
---------------
Um elegante
Fio branco
Que esvoaça,
Livre,
No marmóreo céu
Do teu altar.
A ÂNCORA,
A sul,
Desliza
Suavemente
Sobre ti
E dilui-se,
Como eu,
Na negra vastidão...
EVOCO-TE, ASSIM,
A branco e negro
Sobre a flor
Que um dia
Encontrei
Perdida
No meu jardim
Encantado
Quando visitava
O impossível...
.................
À tua procura...

Bianco&Nero. Detalhe.
ESTOU A PERDER-TE…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Jardim das Memórias”. Original de minha autoria, com citações de Gustav Klimt (1912). Janeiro de 2020.

“Jardim das Memórias”. Jas. 01-2020
POEMA – “ESTOU A PERDER-TE…”
ESTOU A PERDER-TE Meu amor, O estro Com que te canto Esmorece, Vai perdendo Lentamente O seu fulgor, O poema Empalidece E eu, Em poética anemia, Sinto um doce E sonolento Torpor. SUBI CONTIGO AO MONTE, Ao meu jardim Encantado, Com as cores Que tu me deste Eu aprendi a cantar Contigo sempre A meu lado. CANTEI A TUA PARTIDA Quando desceste O vale, Mas, triste e Sem destino, Por veredas Caminhei Com saudades Do jardim Que contigo Cultivei. PERDIDO DE TI, Vagueei No monte À procura De eco Do meu canto Derramado, Mas o eco Era silêncio Profundo Sob o azul Irreal Da abóbada Celeste Desse monte Seminal. UMA TRISTEZA PROFUNDA Tomou conta De mim, Desmaiou A emoção De te ver Ou inventar Com as cores Do meu jardim Porque um silêncio Cortante Sufocava, Impenitente, O eco Dessa canção... TAMBÉM EU DESCI O VALE Da minha vida E regressei À triste Monotonia Sem teu rosto Desenhado, Semente Em gestação De cada palavra Que verso No poema Em construção Nesse jardim Encantado... ESTOU A PERDER-TE, É poética Anemia, Sinto vazio No peito, O estro já escasseia E vacila A melodia... O CÂNTICO É murmúrio Inaudível De alma ferida, Sem comoção, Que nem dor Ela já sente De tão gasta Nesta vida Por excesso De paixão. O VALE ESPERA-ME, Sinto-me vazio De ti Porque Não chegam sinais Da rua do Desencontro Nem das fugas Irreais Para o teu Infinito, Janelas De onde te veja Dobrar As esquinas Esquecidas Do nosso Contentamento. ESTOU A PERDER-TE, AMOR, Não há janela, Nem cor, Não há tempo Nem lugar, Não há poema Nem mar Que suspenda O vazio De não poder Navegar Nas águas Desse teu rio... .................... Eu perdi-te, Meu amor?

“Jardim das Memórias”. Detalhe.
“EU VI UM ANJO…”
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Melancolia” Original de minha autoria para este poema. Janeiro de 2020

“Melancolia”. Jas. 01-2020
POEMA – “EU VI UM ANJO…”
EU VI UM ANJO Cair Docemente Sobre mim Com seu rosto Imaculado Num momento D’incerteza Que parecia Não ter fim... VINHA ELE Lá de bem alto Onde eu O pressentia, Estremeci, Um sobressalto, Porque esse anjo Imaculado Em mim Não caberia. SUA LUZ Era intensa, Ofuscava-me O olhar, O seu brilho Deslumbrava E eu senti-me Cegar... MAS NÃO SEI Se era anjo... ................ Talvez fosse Uma mulher, E se não fosse Arcanjo, Ah, Não era um Rosto qualquer... POR ISSO ME FASCINOU, Porque ao vê-lo Descer Desse trono Onde reinava, Quase, quase Me cegou A luz Que o transportava... .............. E levou-me Ao Olimpo Onde a arte Lhe sobrava... FIXEI-O, ENTÃO, Num quadro De memória, Traços leves, Cores intensas Que cativam O olhar. Pintei-o Da cor da Minha paixão Para nele Desvelar Essa mulher Sensual Que me veio Cativar Nesta tão bela Prisão. DESENHEI-A Como belo Avatar Que entrou Dentro de mim Para sempre Me lembrar Que era Uma mulher... ............ E não era Querubim. MAS VI UM ANJO, Ah, eu vi, Entrar bem Dentro de mim Sob forma De mulher, Porque anjo Imaculado, Uma grandeza Infinita, Não caberia No meu pequeno Jardim. EU VI UM ANJO DESCER Neste vale Da minha vida E ele fez-me Crescer, Recomeçar A partida... ............. Para logo me Perder... E COM POEMAS Parti Em viagem Ao Olimpo Para com ele Voar Em cada palavra Que digo, Em cada verso Que sinto... ............. Mas bem sei Que me perdi...

“Melancolia”. Detalhe.
“A COR DA MEMÓRIA”
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Transparência”. Original de minha autoria para este poema. Janeiro de 2020.

“Transparência”. Jas. 01-2020
POEMA – “A COR DA MEMÓRIA”
NUM DIA DE CHUVA, Bateram levemente À porta da minha Memória... ERA TRANSPARENTE, A porta. Vi que eras tu. Reconheci a tua boca, O bâton púrpura Dos teus lábios. NÃO SEI SE ME PRESSENTISTE, Não sei. A porta Era um espelho, Através dela Só se via Do lado de cá. ENTRASTE, Cheia de cor, Que a chuva Humedecera, Mas deixara Intacta. Apenas com mais Brilho... ........ O teu! TAMBÉM TU ERAS TRANSPARENTE. Olhei-te E vi, através de ti, Um céu plúmbeo... E, NA TRANSPARÊNCIA, DESPONTOU O SOL, Coado em amarelo. Havia umas nuvens Escuras A nascente, Lá no Monte... ÀS VEZES, O AMARELO Ganhava tons de Âmbar E vestia-te o corpo, Nu, Na minha intangível Memória Fotográfica. VIA COM NITIDEZ, Sereno, Esse teu belo Sorriso Cristalino, Mas, quando te quis Tocar, Ao de leve, Um vidro desceu, Vertical, Sobre nós. Era frio E húmido, Esse vidro. Separou-nos. E eu chorei! AS LÁGRIMAS Escorreram Pelo vidro. Tentaste Agarrá-las Do lado de lá E fixá-las com Todas as cores Que tinhas contigo. Ficaram apenas Algumas gotas Amarelas Nesse vidro frio, Húmido E cortante... DE REPENTE, Tornaste-te sol E eu já não era Mais do que um Reflexo dos teus Raios filtrados Por algumas Nuvens... ......... Escuras! DESPERTEI Ao som De dedos que batiam Suavemente À porta Do meu quarto. Corri a abri-la... ............... Ninguém! REGRESSEI, RÁPIDO, À minha memória Para te reencontrar, Mas tu já não Estavas, Sequer como reflexo... ................... Deixara aberta A porta do tempo...

“Transparência”. Detalhe.
TEMPO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Amanhã...”. Original de minha autoria para este poema. Janeiro de 2020.

“Amanhã…”. Jas. 01-2020
É TEMPO DE RECOMEÇO? O que ontem Eu já era É o que hoje eu sou, As festas Quiseram tempo Intenso, Mas o tempo resistiu Ao que a vontade Tentou... ................. É tempo De recomeço Quando o tempo Não passou? EM CADA MOMENTO Procuro O tempo Que, no passado, Eu, poeta, Não vivi Porque sempre Reinvento Tudo aquilo Que perdi, Num poema Ou em pintura Para saber Quem eu sou Antes de lá Me perder... ............ Nos lugares Pra onde vou... ENTRE HOJE E ONTEM Há algo Que já mudou? Acaso me libertei? A esperança regressou? Fui ao baú Das memórias E vi logo O que tu és: A imagem bem certeira Desse tempo Que passou... TUDO MUDA Amanhã, Quando, tenso, Eu passar Na curva Do teu caminho? Encontro o que antes Nunca vi? Mulher com futuro No olhar, Sempre a sorrir Para ti, A repetir com carinho Um terno E tão antigo “Olá!”, Cabelos negros Ao vento, Corpo esguio Em movimento, Removendo um passado Que nunca mais Voltará? NÃO, O SEU TEMPO É o silêncio, Já não o tenho Nas mãos, Ele corre Sem destino, É ritmo sem melodia, Caminho Da minha vida Que percorro dia-a-dia Na vertigem Do passado, Mais tristeza Que alegria Como este peso Do fado Só liberto em Poesia. TEM TEMPO, A POESIA? Talvez tenha, Eu não sei, Com ela voo No céu Sem limites Nem fronteiras, Um tempo que é Só meu. AH, SIM, O tempo da poesia É a minha salvação, Perdi-te, mas eu não queria Passado de negação. É TEMPO DE RECOMEÇO, Sopra vento de feição? Sou feliz em poesia. Não é o tempo Que salva, Mas as palavras Que digo Enquanto fores Alimento Desta minha inspiração Porque é assim Que te canto: Da dor sai alegria Que me cura Da paixão.

NÃO SEI SE TE CHEGAM
AS PALAVRAS…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “O Jardim das Palavras”. Original de minha autoria para este Poema. Dezembro de 2019.

“O Jardim das Palavras”. Jas. 12-2019
POEMA – “NÃO SEI SE TE CHEGAM AS PALAVRAS…”
NÃO SEI SE TE CHEGAM As palavras E, se chegam, Se te tocam. Não sei se As arrumas Nas gavetas Da rotina Ou as deitas Nos desperdícios Da vida... TALVEZ NEM CHEGUEM. Não sei. É esta a beleza Da minha invocação. Canto-te Sem saber se te Chegam as letras Com que vou desatando A sufocada Afeição Ou se o vento As leva Pra lugares De poética Virtude, Resgate Desta minha Solidão... TALVEZ NÃO INTERESSE Saber se chegam Ao destino. O que m’importa É dar forma À melancolia Do meu desejo de ti Como se fosse O primeiro dia Em que, fora do poema, Eu logo te pressenti. É POR ISSO QUE SÃO Palavras pintadas Com as cores Do meu jardim, Porque na beleza Das palavras E da cor Se cristaliza, Da vida, O amor E, da falta de ti, Se decanta A minha dor. SIM, ÉS TU Que me moves, Me inspiras E induzes perfeição. Sem ti Seria arte estranha, Simples adorno, Jogo de formas, Um canto De diversão. O POEMA É Uma forma de socorro, É magia Que invoca o teu Rosto Perdido nas Nas brumas Da memória e Coberto pelo Silêncio Do que nunca Me dirás. NADA A FAZER. Com arte Te quero seduzir E eleger. Não te chegam, As palavras? Só importa A ideia Que tenho de ti E a poesia Que decanta A minha vida Pra te ter Por companhia Nesta longa Despedida. MAS À ARTE Respondes Com o silêncio E o mistério Pra não quebrares O encanto Que faz de ti Galeria Do que em arte Eu senti Em forma de poesia. ESTRANHAS SAUDADES Virão Quando o estro Me faltar E à Torre De Montaigne Subir como refém... ............ Dela nunca Sairei Para novo Desencontro Lá para os lados De Belém...

“O Jardim das Palavras”. Detalhe.
“PRESSENTIMENTO”
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Travessia”. Original de minha autoria para este poema. Dezembro, 2019.

“Travessia”. Jas. 12-2019.
POEMA – “PRESSENTIMENTO”
MAIS UMA VEZ,
Ao entardecer,
Te pressenti,
Numa rua de Lisboa.
E não te vi.
AH, ESTA LISBOA
Que amas!
Uma fria silhueta,
A travessia.
Um homem
Perdido em memórias
Que esfumam
No tempo
E deixam
A alma vazia.
DEUS EX MACHINA
Que desce sobre mim
No caos
Em que a vida
Se tornou,
Nos afectos
E na dor...
............
A invocar
As origens
Do amor.
CAÍSTE-ME
NUMA ENCRUZILHADA
Improvável
Quando vinha
Da imensa planície
Onde os deuses
Se anunciam
No horizonte...
UM SÚBITO CLARÃO,
Um sobressalto...
Estremeci.
Irrompeste,
Intempestiva,
Das brumas
Da memória...
...........
Mas apenas
Te pressenti!
APROXIMEI-ME
Do teu mundo,
Sem saber?
Foi o destino,
Adormecido
Que estava
De nunca,
Mas nunca
Te ver.
ESTRANHOS
DESENCONTROS
Que desabam
Sobre nós
Com o destino
A comandar
No labirinto
Insondável
Das nossas vidas...
SILHUETA FUGIDIA,
É o que és,
Afinal,
Porque tudo é plano,
Demasiadamente
Plano, em ti.
VI UM NÚMERO,
A única certeza
Que tenho,
A janela
De onde te vislumbrei,
Mas incerto
Como todos
Os números
Deste mundo.
Incerto, sim,
Porque tu
Não és número
Que me dê
Certezas,
Para além da dor.
És mais quatro
Do que sete,
Meu amor!
OU TALVEZ TENHA SIDO
A minha fértil
Imaginação
Já um pouco doentia
A cruzar-se contigo
Num lance de
Pura magia.
MAS NEM SEI
Se é por ali
Que tu andas,
Porque de ti
Nada sei,
Só o que me sobrou
Daquele tempo
E do tempo que criei
Para nunca te perder
Naquela história
Onde te conto
Longamente
Para em ti renascer.
QUE ESTRANHOS
Lugares de
Desencontro,
No meio da multidão!
Um instante,
Ambiente ruidoso
E improvável,
O regresso a ti,
Cada vez mais
Imaterial
Na película subtil
E transparente
Da memória...
Simulacro irreal.
AH, COMO NO FIM
Deste poema
Sofro a falta
De uns olhos verdes
A iluminarem-me a alma
De ternura,
Mas nem o sol
Se descobre
Para os acender
E me inundarem
De beleza
Da mais pura!

“Travessia”. Detalhe.
“O POETA-PINTOR”
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Amanhecer”. Original de minha autoria para este poema. Dezembro de 2019.

“Amanhecer”. Jas. 12-2019.
POEMA – “O POETA-PINTOR”
O POETA BRINCAVA Com suas palavras, Cantava-te sempre Quando não estavas... ERA UM POETA, Era fingidor, Não te desenhava, Cantava-te A cor. E AS SUAS CORES Eram só poemas, Fazia pincel Da sua caneta, Enquanto poeta As letras riscava, Mas a sua tinta Já não era preta... ................ Escolheu a cor, Pintou a palavra. POR ISSO COMPROU Um belo pincel E como pintor Pintava, pintava, Era a granel E a sua tela Que ele adorava Já não era só O velho papel. DESCOBRIU A COR, Que o fascinou: Dourado, vermelho E tanto amarelo. Tudo ele pintou, Procurando sempre O que era belo. ATÉ QUE O ENCONTROU Na cor dos Teus olhos, Era luz da pura Que iluminava O novo papel Onde desenhou O teu fino rosto Com o seu pincel. DEU CORPO À COR Com que te dizia, As suas palavras Tornaram-se riscos... ...................... Mais que poesia. PINTAVA-TE ASSIM. Os poemas Já não lhe chegavam, Pintor de palavras De cor as compunha E versos voavam No azul do céu... ..................... “E o que tu fazias Faço agora eu”, Dissera-te um dia, “Porque sou poeta Mas também pintor. Deixaste-me só, Entregue à palavra E, eu, Tão pobre de ti, Pintei-me de dor". "MAS EU FAÇO DELA O meu arco-íris Pra subir ao céu A ver se t’encontro Atrás duma cor Pintando o teu rosto Para um poema Que vou escrever Com todas as cores Que trago comigo Enquanto viver”. O POETA BRINCAVA Mas era tão séria Essa brincadeira! Perdido em palavras, Encontrou a cor E nos seus poemas Dela fez bandeira.

“Amanhecer”. Detalhe.
NÃO DOBRES A ESQUINA…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Variações”. Original de minha autoria. Dezembro de 2019.

“Variações”. Jas. 12-2019
POEMA – “NÃO DOBRES A ESQUINA…”
AH, ACREDITA, Já nem sei Quantos fazes... ................ A ti conto-te E canto-te Ao minuto De tão rápido ser O dobrar da Esquina, O regresso Fatal Ao lugar De onde nunca Sais, Desde menina... UM DIA DISSE (Lembras-te?): “ - Esquece a infância, Pára e ouve O silêncio Que espreita Para te desvendar O mistério da Vida! Dir-te-á: Nunca regresses Ao sítio onde já Não estás.” MAS TU NUNCA PÁRAS, Na louca correria Para fora de ti (Os lugares do costume) Em busca do Esquecimento Reparador... E EU A OLHAR Para o tempo Quando o tempo Já é pouco E a saber que Te hei-de sempre Reinventar Com os fios Soltos Da memória... MAS O DIA Em que renovas O contrato Contigo mesma Representa (Acredita) Um recomeço Para o reencontro Com o silêncio... .................. E, uma vez mais, Ele acaba Esquecido Nos aplausos Vibrantes E calorosos Com que todos Te celebram... ............. Por fora! ACORDA, Meu amor, Porque o silêncio Quer falar-te De celebração Da alma, Da tua relação Íntima com o Mundo, Antes da queda Na rotina Dos enganos! DESPERTA, Que o passado Se escreve a partir Do futuro Que antecipas Cada ano Quando renasces A caminho da Última fronteira... PORQUE HÁ, SIM, Um derradeiro Espelho vital Onde revemos O passado Que construímos Sobre as ruínas Do presente... ............ Sabias? AH, SIM, Mesmo que não saibas, No dia da celebração O silêncio Espera-te sempre À esquina Das tuas ruínas Na mais profunda Solidão... NÃO DOBRES, Em fuga, Essa esquina. Escuta-o, nesse dia. Talvez seja A tua salvação...

Variações. Detalhe.
AS PALAVRAS SÃO OÁSIS…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Oásis”. Original de minha autoria para este poema. Dezembro de 2019.

“Oásis”. Jas. 12-2019
POEMA – “AS PALAVRAS SÃO OÁSIS…”
PORQUE NÃO TE DÁS Um pouco, Meu amor? A minha Sede de ti É tão grande Como a dor Do dia Em que, no fim, Te perdi. PENSA NO DESERTO E no oásis Que o suspende De tão longo E árido ser O caminhar Sobre areia Escaldante Na procura Infindável De te alcançar Como amante... OS MEUS LÁBIOS, Áridos de ti, Não se saciam Com uma gota De água Ou com o aflorar Da seiva Exausta Do meu caule, Gasto de tanto Te esperar... ................. Mas quando falam (O pouco que te Falam) Humedecem, Porque as palavras Pousam neles, São oásis Verdejantes No imenso deserto De um amor Em longa Despedida... E QUANDO CHEGO Ao fim, À última estrofe Do teu poema, Já sei Que tenho de retomar O arenoso caminho Do canto Em solidão... OS OÁSIS São parte do deserto Que atravessamos Na nossa vida, São bátegas Que banham A alma ressequida De tanto Clamar por uma Saída Nesse mar de areia Em que o viver Se tornou. MAS TU Nem gotículas Me dás Quando clamo Por ti Na miragem Do deserto... O QUE TALVEZ Não Saibas (Ou sabes Em demasia?) É que a vida É mais Deserto do que Oásis, Mais areia do que Gotículas Que brilham Ao sol ardente... ................. E que os lagos E as fontes Onde refrescamos A alma São pura Alucinação Que nos deixa Mais entregues Ao silêncio... ................... E à fria solidão. AH, QUE FALTA SINTO Da tua fonte A jorrar Cores vivas Sobre mim, Das bebedeiras De palavras Sobre ti, Da densa neblina No deserto A coar o sol que Me bate no peito Onde mais te sinto. IMAGINO-TE, ENTÃO, Como meu oásis, Chuva no deserto Sobre esta minha pele Seca e encrespada... ..................... Mas bem sei Que não passa de Alucinação! PORQUE HÃO-DE SER ASSIM As nossas vidas, Sem gotículas Que banhem O nosso corpo Por falta de alma Que as acolha? O QUE ME SALVA, Meu amor, É este oásis Verdejante Que construí Como palco Para te cantar Ao entardecer Da nossa melancolia...

“Oásis”. Detalhe.
PAIXÃO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Cascata”. Original de minha autoria para este poema. Reproposição (com alterações) de um poema publicado há três anos, em resposta a um soneto de Ana de Sousa (09.2016). Novembro de 2019.

“Cascata”. Jas. 11-2019
MOTE – SONETO
“Vinde cá meu tão certo Secretário”, Confirmai meu gosto de espelhar À Musa que recusa Amor notório Gritando ao Mundo o que não quero calar! De rosas, de loureiro, de jasmim De astral, de amargor, de doce fel As bagas, a folhagem, no jardim Onde abelhas obreiras fazem mel! Dizei o que tanto quero ouvir Que o que pensais, não quero, não! Escrevei que meu engenho repetir Só quero na rima, mil dores de coração. Enlace, ponto final, sem remédio é ir Do próprio veneno provar... em edição.”
POEMA – “PAIXÃO”
ESPELHO MEU, Espelho meu, Vês dor mais forte Do que a minha? Não sabes que Sem palavras Nem tu me salvas, Rainha? PROVAR FEL Em edição? Tomei-o, Nestes meus dias. Castigo Por afeição, Derramado Em poesias, Palavras ditas Em vão, Estreitas sendas Vazias... INCAPAZ De as trilhar Fui procurar Novas vias, Mas gastas As encontrei, Incertas Em seu destino... .................... Senti-me um pouco Estranho E perdi-me Do caminho... DEPOIS VIERAM Flores... ................... Tantas vezes disse "Não!"... Sempre falhei Nos amores E, agora, esta Paixão! NEM SEI O QUE Aconteceu... Um enigma, Esse seu rosto! Vi nele o que Em mim faltava, Tropecei, Fiquei exposto, Como ferida Sempre aberta Ao rubro o seu Sangrar, Uma dor que Quando aperta Põe palavras A voar... PALAVRAS De vivas cores Mais fortes que Oração Fortalecem-me a alma Resisto mais À tensão... PROVAR FEL Em edição, Em poema Amargurado? Pois seja esse O destino E se foi o meu Pecado Será sempre Desatino Sofrer assim Este fado! TEM SABOR De um remédio? Talvez tenha, Não duvido, Só alivia, Não cura, É afecto proibido, Inclinação Da mais pura Em que me sinto Perdido... JÁ NÃO A VEJO Nem ouço, É luz que nasce De mim, Se passar Eu fujo dela, Procuro-a no meu Jardim Como arbusto florido Sempre ali À minha frente... ................ De ser planta Robusta Não tem defeitos De gente, É esguia, Não é gorda, Tem mil folhas De cetim, Espera-me sempre De pé Mesmo ao lado do Jasmim! É AMOR Em provação? Se tem de ser, Pois que seja, Lanço versos por Paixão Onde quer que Ela esteja, Sai de mim esta tensão Como em cântico D’igreja Ou incenso que respiro E quando m’inunda Por dentro É pro céu Que eu me viro. PROVAR FEL Em edição? É enlace Do mais puro, Resulta duma paixão, Intensa neste poema E bela como Canção, Mas abraço Sem futuro!

“Cascata”. Detalhe.
PARA LEONARD
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração, “Mil Beijos”. Original de minha autoria para este Poema, dedicado a Leonard Cohen (1934-2016). Novembro de 2019.

“Mil Beijos”. Jas. 11-2019
POEMA – “PARA LEONARD”
OUÇO-TE Como respiro Com a alma... E como a sinto! Vejo-a dançar Na tua voz rouca E grave E, então, aninho-me No regaço da tua Melodia A observar O seu silêncio... ................ Mas estremeço Como o rio quando Entra na foz, Mar adentro... É SUAVE O REENCONTRO Com ela, Em fluxo submerso, Como as dobras Das palavras Quando se ajeitam Nas estrofes Dos meus poemas Ou os sons Quentes Na tua melodia, Vindos lá do alto Como ecos Da montanha Sagrada. OUVIR-TE, ÀS VEZES, Arrepia-me Porque na tua voz Acolhedora Sinto-a Dentro de mim A segredar-me O seu impossível E sufocado Silêncio. E, ENTÃO, DANÇO, DANÇO Com a alma Até ao fim... ..................... Que nunca mais chega! E não paro até (Já exausto) Cair em mim... OS MIL BEIJOS Que não lhe dei São, na tua melodia, Mais profundos Que as profundezas Do mar, Mais intensos Que mil abraços À superfície Do seu corpo... E ATÉ OS TEUS SORRISOS Maliciosos E os gracejos Inocentes Me levam A inventar Palavras quentes Como balões coloridos Que lanço Ao vento Que sopra Na sua alma... NÃO SOU COMO TU, Leonard, Eu esboço sozinho Tristes canções Em surdina Até às lágrimas secas Que nunca enxugam Porque não tenho Voz que chegue Para a chamar Ao poema... ................... Nem ela me ensinou A cantar, Por falta de jeito E de tempo Para amar... MAS CANTAS TU Por mim e por ela E, então, ouço-te Extasiado Como se fosses Oráculo Onde o silêncio Partilhado Se disfarça De oração Nos teus sons E na tua voz Para me enternecer Até à emoção. NÃO ME DESPEÇO, De ti, Com um abraço, Leonard! Vou continuar A ouvir-te Enquanto o silêncio Me interpelar No oráculo Da tua melodia E por ela sofrer Dessa melancolia Que nunca nos abandona, Seja noite Ou seja dia...

“Mil Beijos”. Detalhe.
NÃO ME OUVES…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Voar”. Original de minha autoria para este poema. Novembro de 2019.

“Voar”. Jas. 11-2019
O POEMA – “NÃO ME OUVES…”
NÃO ME OUVES, Perdida Que andas Nas tuas rotinas, Na vertigem De cada teu Amanhecer Como se a arte Pudesse, assim, Acontecer... NÃO HÁ CRIAÇÃO SEM LIBERDADE, Aquela que Construímos Sobre as ruínas Do nosso próprio Viver... A PROCURA DE ETERNIDADE, A chegada à galeria Dos imortais Só acontece Quando das ruínas Se eleva Um silêncio Que te fala Em surdina... ............. E nada mais! MAS GOSTAS De te pôr Fora do mundo (Eu bem sei) Observá-lo, Tomá-lo Nas tuas mãos Como brinquedo Em construção, Estética virtuosa, Minúcia de De artesão... MAS É FRÁGIL A utopia, Que o mundo só Se deixa possuir Pela dor, Pela liberdade Em ferida aberta, Por intensa Melancolia Ou vida sofrida E incerta... CAIR NO MUNDO, Tropeçar nele, Molhar as asas Da alma, Caminhando Pelas ruas da Cidade Como silhueta Em dias de Densa Neblina ou De chuva Tropical, Sem saber Pra onde ir, Perdida Em intenso Vendaval... ............ Oh, então, Gela-te A alma E sentes-te Profundamente Mortal... INUNDA-TE De chuva Por dentro E elevar-te-ás, Um dia, Para além da tua Janela De persianas Coloridas, Possuirás o mundo Com essas mãos Que afagam As cores do Arco-íris No vale Em que habitas, Depois da tempestade... A ARTE É liberdade, É subir pelas Sete cores acima E voar Para a montanha À procura Do infinito Sideral, Do tempo À medida do Desejo... AH, COMO GOSTARIA De te emprestar As minhas asas Com cicatrizes Da vida Para voares Mais alto Que o azul Do céu Onde pudesses Levitar Sobre um poema Sem risco De te perderes... .................. Mas tu não me ouves, Meu amor!

“Voar”. Detalhe.
“SOU O QUE SOU”
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Fantasia de Poeta”. Original de minha autoria para este poema. Novembro de 2019.

Fantasia de Poeta. Jas. 11-2019
O POEMA – “SOU O QUE SOU”
EU SOU O que sou, Poeta Pra te cantar Mesmo que tu Já não ouças O pranto da minha Voz De tantas vezes Chorar... EU SOU O que sou Porque tu és Em mim Sempre mais Do que pensas Poder ser, Uma deusa, Uma musa No jardim Que m’inspira Para de ti Renascer... BEM SEI Que hoje Me pintei De poeta Para duas vezes Te ver E duas Te encontrar Nos versos Que já clamam Por de novo Te cantar. SIM, TU ÉS Musa Dos versos Perdidos, Dos versos Cantados Neste deserto Interior Da eterna Despedida... NÃO IMPORTA O que pensem, Como te vejo Ou te canto Porque serei Sempre movido Pela força Do encanto. ENCONTREI-TE Sem procurar O destino Que te trouxe, O mesmo Que te levou... ................. Cruzámo-nos Nesse caminho E, agora, É por ele Que sempre vou. O VENTO SOPROU Forte Em nós E voámos, Voámos No céu azul Com as asas Do desejo Até cairmos Do céu Quando veio A tempestade E o vento Nos deixou... ACORDEI Numa árvore Frondosa, Olhei em redor... ...Não te vi! DESDE ENTÃO SOU O que sou, Aquele que caiu das nuvens E, sozinho, Acordou Na copa De uma árvore Onde pra sempre Ficou. POR LÁ FIQUEI, Sim, A olhar o azul Do céu Perscrutando O horizonte Para ver Se lá te via, Fosse tarde, Fosse manhã, Fosse noite Ou fosse dia. É A ÁRVORE Onde vivo, A minha casa Discreta De onde Só te vislumbro Como simples Silhueta... TORNOU-SE Meu cativeiro, Onde vivo E te procuro (Fantasia De poeta) Lá no fundo Da memória Pra me tornar Teu profeta.... CERTOS DIAS, Na memória Ganho asas E logo voo pra ti Sem sair De onde estou... ................ Perdi-te, Já não te alcanço, Já nem sei Por onde vou... TRAÇA-ME TU O caminho, Pra chegar Ao pé de ti, Tenho palavras Que cheguem, Foi com elas Que cresci E com elas Eu voei Na linha do Horizonte Quando um dia Te encontrei No sagrado Do meu Monte.

Fantasia de Poeta. Detalhe.
O TEU CORPO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração - “S/Título”- de minha autoria sobre quadro anónimo (fotografia de mulher em contraluz) da minha colecção privada. Outubro de 2019

S/Título. Jas. 10-2019
POEMA – “O TEU CORPO”
HÁ POESIA No teu corpo, Geometria Sensual Que te desenha No espaço, Como te contas Sem palavras, Contraponto Luminoso Da minha melodia... HÁ MÚSICA Em ti, Pauta De beleza Que ondula, Instável, Entre riscos E cores, Desenhando Enigmas Que só o poema Pode decifrar... TENS A ALMA Inscrita Nas formas Do teu corpo, Como eu a tenho Nas palavras Que lanço Ao vento À procura Da tua utopia... E VEJO-TE Como letra Da canção Que vou cantando Na minha subida Ao monte, Quando o vale Já não me chega E nem tu chegas, Afinal, Pois partiste Em busca Dos palcos Da tua vida... MAS EU RESPIRO-TE Ao ritmo De uma dança Com o poema Que canto, Palco de beleza Onde te enredo A alma Em teia Que prende E te liberta... PROCURO-TE Na pintura, Fixo-te Para te cantar Quando a noite Cai sobre mim E mergulho Na solidão Do silêncio Com que, De longe, Me falas. E SONHO-TE Num bailado A solo, Dançando, Dançando, Ao luar, Na praia Da meia-lua Para que eu Te volte a cantar Em poemas Ao ritmo Com que te Vais desenhando Nas telas Coloridas Do teu acontecer. E, NO FIM, ROGO-TE Que não pares O teu silencioso E longínquo Bailado Solitário Até que eu te Desenhe Em palavras Luminosas Para que nelas Te revejas Como se fossem O espelho Encantado Da tua alma... QUE FAZES Da tua vida, Meu amor?

S/Título. Detalhe.
COMO TE QUERO...
POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração: “SEDUÇÃO”.
Composição de minha autoria a partir
de um estudo de Gustav Klimt.
- "Dois estudos de uma jovem mulher", 1885.

“Sedução”. Jas. 10-2019
POEMA – “COMO TE QUERO…”
PEDI EMPRESTADO Ao pintor Este rosto De onde vejo A cor Velada Da tua alma... ENIGMÁTICO OLHAR Que me perscruta E fascina, Beleza etérea, Divina! OS TRAÇOS DELICADOS Que o desenham E a leveza Das vestes Que velam E desvelam O corpo De pele macia Que me cativa O desejo... .............. Seduzem-me! E FICA-ME ESTE ROSTO Solitário Na galeria poética Onde te versejo Mil vezes À procura De um amanhecer Que nunca chega... PARA TI DIRIGI O meu olhar Através de um espelho, A obra de arte, Vi leveza, Beleza intangível E ouvi silêncio Profundo Envolto Por uma densa Neblina Que nunca se dissipa! E ENTÃO RECRIEI-TE, Com a ajuda Do pintor, Tal como Te desejo, Na fronteira, Sempre no limiar Do impossível, Na distância Que o destino Nos traçou E nos compassos Do silêncio A que a deusa Nos votou. SE TE ENCONTRAR De novo Só saberei ver-te A partir Deste fino rosto, Memória de ti, Numa tela Cantada por mim. E ENTÃO REGRESSO Às tuas cores Para com elas Te desenhar De novo Com o pincel mágico Do pintor Que eu amo Em ti.

“Sedução”. Detalhe.
JASMIM
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Rapsódia”. Original de minha autoria. Outubro de 2019.

“Rapsódia”. Jas. 06-2018
POEMA – “JASMIM”
FLORESCEU O JASMIM, Dele jorra Poesia, Embriaga, O aroma, Liberta-se A fantasia! DOU ÀS PALAVRAS A COR, O seu perfume Ilumina, Bate o sol Nas suas pétalas, É luz intensa Que brilha No poema que Germina... JÁ NÃO É SÓ O LOUREIRO, Agora canto O jasmim, É tão vivo O seu perfume Que se renova Em mim. INUNDO-ME DE PALAVRAS, Canto Este mundo Da cor, Subo ao céu E penso em ti, Levo comigo Essa dor... SOU ÍCARO Lá no alto E quando o sol Me bate forte Caio em mim Do meu poema E no chão Fico sem norte... PEÇO AJUDA À MONTANHA, Volto a subir Com alegria, Lá no alto Vou renascer, Regressar à À poesia... E ENCONTRO O MEU JASMIM Mesmo ao lado do Loureiro, Respiro fundo O aroma E torno-me Jardineiro! E ASSIM EU VOU VIVENDO No jardim da Minha vida Em poemas E pintura... ............. E se a dor Não tem remédio Que seja esta A cura!

“Rapsódia”. Detalhe.
ENCONTRO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Silhueta”. Original de minha autoria para este poema. Outubro, 2019.

“Silhueta”. Jas. 10-2019
POEMA – “ENCONTRO”
OS ASTROS ALINHARAM-SE Uma só vez, Passados anos De aridez Que roubou Tempo De fantasia, Luz À vida, Lentamente, Cada dia... ENCONTREI-TE Sem querer... .................. Astros ou destino, Quero lá saber... Que bela Esta forma Tão singela De te ver! ABANDONEI-ME Ao destino, Chegou o acaso, Vi-te estranha Ao olhar De tão tardio Encontro Com a fita Da memória A rolar Em moviola. ERA INCERTA A TUA IMAGEM, O olhar Embaciado, Um arco-íris Descera Com o sol Dessa manhã, Gotículas Brilhantes Como lágrimas De alegria... FICOU-ME A alma cheia, A transbordar (Ficou), Mas o vazio Também logo Regressou. Mais do mesmo, Como antes, Um desencontro Sem fim... ............... E o ânimo Quebrou. VISLUMBREI-TE Perto do meu Destino, Raptou-me O acaso A incerta silhueta Que não pude Desenhar No meu campo De visão Como se fosse Castigo Por insólita Paixão. AQUI ESTOU EU Devolvido À solidão, Novas saudades De ti, Um poema Em gestação... SÓ ASSIM EU SEI Falar, Fico incerto Se te vejo, Troco o passo A cada instante, Hesito nesse Momento, Finjo aquilo Que não sinto E, por fim, Fico tão-só Amante da poesia Que me dá o que Não tenho... ............... Uma réstia De alegria. OS ASTROS ALINHARAM-SE Pra te voltar A perder, Dois minutos, Um sorriso... ................ Chegou cedo Este novo Entardecer!

“Silhueta”. Detalhe.
ESSES OLHOS NEGROS…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Olhar”. Original de minha autoria para este poema. Setembro 2019.

“Olhar”. Jas. 09-2019
POEMA – “ESSES OLHOS NEGROS…”
DESSES OLHOS NEGROS Eu tenho Saudades, Viajo com eles Na minha memória Pra te alcançar Neste oceano Onde eu navego Entre altas vagas Sem nunca parar... E TENHO SAUDADES Por nunca te ver... .......... Quiseste Partir E logo negar O tempo exacto Para te sorrir. EU TENHO SAUDADES Saudades de ti, Quando te invoco Com estas palavras, Te digo O que sinto... .................. Que esta saudade Já não vai parar Mesmo se minto E digo em arte Que te vou Inventar. EU TENHO SAUDADES De te encontrar Naquele jardim Onde o desencontro De ser tão intenso Até parecia Nunca ter um fim... E TENHO SAUDADES Quando te escrevo Estes meus poemas Sabendo por certo Que não terá eco O que neles te digo E sempre senti. . EU TENHO SAUDADES Mas já nem eu sei Porque é que vivo Tão perto de ti E quase te sinto Quando tu respiras O ar que te sopra Como densa bruma Nesse teu jardim. EU TENHO SAUDADES, Saudades de ti, E até sei porquê Este meu sufoco... ................ Talvez porque Foges, Nem sequer nomeias O que te ressoa Se o canto Te chega E sobre ti ecoa. SEI BEM A RAZÃO Porque não te encontro Nem te dou a mão Pra que não me fujas ... ........................ Porque é em vão! COM TANTA SAUDADE Até sou feliz Em certos momentos, Tão longe de ti, Com alma Em tormento, Porque eu te amo Ao sabor do vento E da poesia Que sopram Intensos Lá do teu jardim, Mas tenho saudades Desses teus olhos Que vejo daqui Porque eles me dizem Que longe que estejas Estás perto de mim.

“Mulher com Véu”. Detalhe.
PINTEI-TE
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Mulher”. Original de minha autoria para este poema. Setembro de 2019.

“Mulher”. Mas. 09-2019
POEMA – “PINTEI-TE”
PINTEI-TE
Como te vejo
Por dentro.
Gosto do Modigliani
E gosto de ti,
Dei-te este rosto
Que por dentro
Me sorri.
PINTEI-TE
Única e
Deusa,
Meu encanto,
Aura e halo,
Entre a vida
E o meu canto
Infinito
Intervalo.
PINTEI, SIM,
Para te dar
A cor
Que não queres.
É como dar-te
A vida que
Não tens
Fora de mim.
E SABES?
Gosto de ti
Assim,
Com estas cores,
Geometria
Que desliza
Para uma aguarela,
Como água
Cristalina
A brotar
Desse teu rosto...
AGORA EXPONHO-TE,
És espelho
Do poema,
Cores quentes
A ferver
Como eu
Que t’escrevo
Cartas de amor
Disfarçado
De poeta
Neste meu
Entardecer,
Quando o azul
Se faz breu.
AH, SIM,
Metade sou eu,
Metade é o poeta
Que desenha
Com palavras
E te celebra
Com as cores
De que te veste
No tempo
Da fantasia.
PINTEI-TE
E eu não queria...
...............
Mas o desejo
De te ter
À minha frente
Foi mais forte
Do que eu,
Pulsão quente,
Desejo ardente,
Olhar de frente
O teu céu.
OH, AFINAL,
Pinto-te sempre
Na tela
Da minha alma
Com palavras
Que o vento
Leva
E cores
Que se dissolvem
Neste triste
Entardecer.
E PARA QUÊ?
Para nada?
Dizes:
“- Eu quero lá
Saber!
Pinta praí
Como danado
Até que a cor
Te doa
Do teu pecado,
Escreve
E canta
Até que as mãos
Afaguem
Essa garganta
Dorida,
Olha-me
Até que a vista
se canse
De nunca me
Alcançar
Por ser visão
Proibida”.
OH, PENSANDO
Melhor
(Finalmente,
Tu dirás),
“- Pinta, canta
E olha
Porque, afinal,
Até gosto
Do que o teu
Canto me traz.
SEM TE LER
Nem te ouvir
Ou ver-te
Com memória
Atormentada
Do que nunca
Aconteceu...
...........
Eu bem sei
Como a ausência
Te doeu!”
“ - MAS PINTA,
Meu amor, pinta,
Quem to pede
Não te quer,
Mas sabe
Quanto a cor
Adoça a vida
Se perdeste
Uma mulher.”

“Mulher”. Detalhe.
COLISÃO
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Meteorito”.
Original de minha autoria
para este poema. Setembro de 2019.

Meteorito. Jas. 09-2019.
“Dentro de los meteoritos y sus metales
extraños se leen
las historias de otros mundos”
(El País, 07.09.19)
POEMA – “COLISÃO”
CAÍSTE EM MIM Como meteorito, Embate espectral No meu chão, Abriste Sulco profundo No meu corpo, Mas não doeu Essa abrupta Aparição... A VELOCIDADE Cegou-me (É sempre assim), Clarão, Ondas, Vibrações Abanaram-me A alma, Raízes Estremeceram Lá mais no fundo De mim. PROCUREI-TE Nessa cratera Cavada na minha Alma E passada A tempestade Vi fragmentos De ti, Minerais Pra lapidar Como dunas Desenhadas Pelo vento Aqui bem perto Do mar. NESSA FENDA Tão profunda Encontrei Um brilho Estranho Que me pôs A levitar, Sol frio Como metal, Gelo cortante A cair Na linha Do meu olhar... NUNCA MAIS DE LÁ SAÍ... ............ E com mãos De alma pura Peguei Subitamente Em ti... .......... Escaldavas De tanto brilho Exalar E caíste-me No chão, Trémulo De tão inquieta Incerteza, Calor Fervente No peito, Mistério De uma estranha Beleza Que renasce Na cratera De um vulcão... FIZ DE TI Minha bola De cristal, Li nela A história de um Encanto Que trespassou Como raio Uma fronteira Vital. E AQUI ESTÁS Em tão sofrida Distância, Estranhos Perante nós Como quis o Meu destino E os astros Do teu chão Na fronteira Do divino. MAS NÃO PERDESTE Magia, Meteorito Em quietude, Íman Silencioso Que me atrai Suavemente Como oráculo De um destino Sempre em lenta Gestação. LEIO-ME A ALMA Na superfície Dourada De teu corpo Incandescente Qu'ilumina A emoção, Me consome E me domina Nesta tensa Relação. ÉS RASTO CÓSMICO, Atracção fatal Que me suspende A vida Pra me fazer Levitar, Tornando Meus tristes Dias Uma paisagem Lunar. AH, SIM, Mas és razão De arte Nesta vida Que inventei, Encantamento, Fonte seminal Onde bebo E me embriago D'emoção Até te ter Um momento Nas palavras De um poema De quimérica Paixão.

Meteorito. Detalhe.
“COR, MAIS COR…”
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Caminhos”. Original de minha autoria para este poema. Setembro de 2019.

Caminhos. Jas. 09-2019
POEMA – “COR, MAIS COR…”
COR, DÁ-ME COR
Fico mais perto
De ti
Se vieres
Com o vento...
..............
Cor, mais cor,
Que as palavras
Coloridas
Já me sabem
A cinzento...
OU TALVEZ NÃO.
Palavras
Já não me faltam,
Não sinto
Escuridão,
Ainda consigo
Dizer-te
Em mil palavras
Pintadas,
Entregar-te
A minha alma
Na palma
Da tua mão.
TENHO-AS
Que me cheguem
Para gritar
A vermelho
O concreto
Do teu nome,
Ver, assim,
Esse teu rosto
No eco
Da minha voz
Sem que a tristeza
Assome.
AH, E A COR
Se for intensa
E crescer
Em explosão,
Se tiver
Em contraponto
Palavras
De liberdade
Soletradas
Em azul
Dos teus sonhos
De papel...
............
É tudo
O que eu desejo
Pra t’esculpir
A cinzel.
DÁ-ME COR,
Que eu sou
Sensível
Ao brilho
Do teu olhar,
Vibro na luz
Qu’irradia
Quando vestes
O vermelho
Ou te cobres
Com as cores
Do arco-íris
Que és.
VÊS COMO TE
Conheço?
Tu és cor,
Gota d’água
Suspensa
No fio
Do horizonte
Banhada por
Raios de sol
Que despontam
Lá no monte.
DANÇAS COM ELA,
A cor,
E com ela
Adormeces.
É sopro doce
Do peito,
Da vida
Exaltação,
Com luz
Coada por ti
Para um sonho
Perfeito
No reino da
Evasão.
EU GOSTO MUITO
De cor,
Confundir-me
Todo
Com ela,
Dançá-la
Como vida
Em eclosão,
Girândola
Que embriaga
Os sentidos
Como se fosse
Vulcão...
LEMBRO-ME
Bem do poeta
Que pedia
“Mais luz!”
Já em seu leito
Fatal.
Tinha luz
Dentro de si
Mas a cor
Já não entrava
Pelas frestas
Do portal.
ERA CINZENTA
A cor que lhe
Restava
Até escurecer
Quando a janela
Lentamente
Se fechava
No sol-posto
Desse seu
Entardecer.
MAS A PALAVRA
Fascina-me.
É com ela
Que te canto,
Com a cor
Danço e voo,
Na palavra
Calo
Os sentidos
Para melhor
Te sonhar
Dos dias
Em vão perdidos
Na deriva
Do teu mar!
AH, SIM,
Eu gosto
É de palavras
Porque cabes
Em quatro letras
Aninhadas
No teu nome
Que me sabe
A verde
Eterno
Nas tardes de
Primavera.

Caminhos. Detalhe.
PALAVRAS
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Geometria de um Poema”.
Original de minha autoria.
Setembro de 2019.

“Geometria de um Poema”. Jas. 09-2019
POEMA – “PALAVRAS”
PRA QUE SERVE
Este poema,
Meu amor?
“- Para nada!”,
Dizes tu,
“- São palavras
Que usas
Pra te sentires
Menos nu”.
PALAVRAS
São como vento,
Vão,
Voltam
E mudam
D’intensidade,
Sopram forte
Ou de mansinho,
São volúveis,
Ilusão,
Vão pra sul
Ou vão pra norte
Mas cruzam
O teu destino
Mesmo que digas
Que não.
SÃO INTANGÍVEIS,
São sinais,
Podem ferir
Como espada,
Às vezes
Como silêncio,
Outras,
Pior,
Como nada...
DIZEM SEMPRE
O que sinto,
Parecendo
Não o dizer,
Às vezes
É proibido
E outras
É por não
Querer.
E se escrevo
E te minto
É por ser forte
O desejo
De um dia
Eu te ter.
ESTE POEMA
Que te envio
Escrevi-o
Com o vento,
Mas nele
Eu também minto...
..............
E o vermelho
É cinzento!
MAS É CONFISSÃO
Inocente
Que chega
Ao seu destino
Como o Sol
Vai a poente
Num poema
Cristalino.
SÃO PALAVRAS,
Meu amor,
Murmúrios
De quem te quer,
São o sonho
Do poeta
Quando a vida
Adormece
No rosto
De uma mulher.

“Geometria de um Poema”. Detalhe.
CATEDRAL
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Tempo”. Original de minha autoria sobre foto de Giovanna Bellelli, em Roma. Poema inspirado no Romance “Via dei Portoghesi” (Parsifal, 2019). Agosto de 2019.

“Tempo” – Jas. 08-2019.
POEMA – “CATEDRAL”
VIAJÁMOS NO TEMPO Até à cidade. Encontrei-te Por ali. Nada mudara. Rosto sereno, Inocente, Como quem Sempre sorri. FOMOS AO TEMPLO Da rua Da minha vida, À cúpula Da catedral. Não te abracei Nessa noite, Era sagrado O lugar, Seria abraço Fatal. MAS FICOU-ME O prazer De te ter Ali ao lado, A sonhar Nesse meu leito O beijo Que não trocámos Numa noite De luar, Quando o amor É mais quente E o corpo Desnudado Por tanto a alma Brilhar. FOMOS À PRAÇA NAVONA, Escutámos As águas da fonte E os traços Do Bernini, Da beleza Horizonte, Íntimos, Em sintonia, Antevendo um futuro Que nunca mais Chegaria... ATÉ QUE ME PROCURASTE Nessa fita Da memória, A noite Perdida de afectos Na cúpula da catedral, Corpos tensos Sem palavras Na fronteira Do amor. TORNOU-SE MAIS VIVO O que não aconteceu Como se fosse Futuro Que afinal No teu passado Ainda não se Perdeu. E CÁ ESTAMOS DE NOVO À procura Dessa noite, Do beijo Que não te dei, Passado virou Futuro E do tempo Dessa Igreja Já nem sei O que farei. TALVEZ FAÇA UM POEMA Para te reencontrar, Cantar esse Sorriso De que sempre Eu gostei, Voar no tempo Em espaço sideral E em noite de luar Pousar de novo Contigo Na cúpula Da catedral....

“Tempo” – Detalhe.
“LUA”
Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Ballerina”
Original de minha autoria
para este poema. Agosto de 2018

Ballerina. Jas. 08.2019
POEMA – “LUA”
DESCI À PRAIA
Da meia-lua
A ver se nela
Te via.
Era brilhante
O anoitecer,
Cheio de luz
E perfume a maresia.
ERA DA LUA-CHEIA
A luz branca
Que do céu caía,
Gente que dançava
Em dia de festa,
De som e de cor...
....................
E se divertia!
NO CLARO DE LUA
Vi um rosto
De mulher
Que não era
Estranho,
Um perfil qualquer...
ERAM NEGROS
Os seus olhos,
Boca
Rúbida e quente,
Pele macia
Em corpo ardente,
Cabelos ao vento...
VI QUE ERA ELA
A deusa do baile,
Luz branca da lua,
Espelho de mar...
....................
Logo o meu olhar
Procurou o seu
Nesse cintilante
Brilho do luar...
COM ELA DANCEI,
Saltei e cantei
Em alegria,
Vibrou o meu corpo
Com essa melodia
Que me inspirava
Numa bela praia
Em forma de lua
E me seduzia.
VI O SEU SORRISO
Em perfil na lua
Que eu desenhei,
Uma luz intensa
Me iluminou
Quando eu dançava
Essa melodia
Que pra mim soou.
CORPO DE MULHER...
.................
Eu já nem sabia
Se era ela
Ou outra qualquer
Com quem eu podia
Erguer-me à lua
Com alma despida
Neste frágil corpo
Pouco mais que nu...
E TAMBÉM A ALMA
À sua procura
Era de nudez
Um pouco ousada,
Mas, sim, era pura
Por ser nesta lua
Que adivinhava
A minha ventura...
.....................
Pouco mais que nada!
ONDE ESTÁ A LUA?
Nessa bela praia
Ou noutro lugar
Onde a possa ver
Espreitar a rua
Pra me enfeitiçar?
ESTÁ EM TODO O LADO
Onde o meu poema
For entardecer
Para desenhar
Com suas palavras
Um suave rosto
Que é mais de deusa
Do que de mulher...

Ballerina. Detalhe.
“AGUARELA”
Poema de João de Almeida Santos, inspirado no poema de Manuel Bandeira “Tema e Variações”. Ilustração: “O Retrato”. Original de minha autoria para este poema. Agosto de 2019.

“O Retrato”. Jas. 08-2019
POEMA – “AGUARELA”
SONHASTE, MANEL, Que havias sonhado Estar à janela Sonhando, a cores, Qu’estavas com ela. TAMBÉM EU SONHEI Que tinha sonhado E que no sonho A tinha encontrado, Passando por ela, Ali, lado a lado, Mas quando acordei Do primeiro sonho, Sonhando eu vi O seu rosto belo Numa aguarela Pintada a cores Que tinha guardado Para uma tela... SONHEI, OUTRA VEZ, No segundo sonho, Que era pintor Mas que pintava Sempre o seu rosto A uma só cor. DIZIA, SONHANDO, Que não podia ser. Seu rosto expressivo Era arco-íris Ao amanhecer E era sorriso Para o mundo ver! MAS EU SÓ O VIA Com a minha cor, Esse rosto belo De seda tecido Que me seduzia No sonho sonhado Onde sempre a via Ali, a meu lado. NÃO QUERIA ACORDAR Do sonho feliz E nele fiquei De olhos fechados. JÁ NÃO ACORDEI Do sonho sonhado Porque nessa cor Fiquei encerrado Com todo o meu ser... .................. Talvez por amor. NO SONHO OLHEI Para o meu espelho E logo eu vi Que essa minha cor Era o vermelho. E QUANDO ACORDEI Do primeiro sonho Voltei a sonhar Que desvanecia Nesse rosto amado E logo lhe disse, No segundo sonho, Que a tinha sonhado. DISSE-ME QUE NÃO Que nunca me vira Sequer acordado E logo acordei Desse pesadelo. FOI ASSIM QUE VI Que tinha sonhado E que ela Já lá não estava Ali, a meu lado. QUIS ADORMECER Para a encontrar Mas não consegui Sonhar que a via, Pôr os olhos nela, Chorar d’alegria Porque descobri Na minha parede Aquela aguarela Que do sonho Passado Eu já conhecia... ..................... Era o rosto dela!

“O Retrato”. Detalhe
ELAS FOGEM, AS PALAVRAS…
Poema, em dois andamentos, de João de Almeida Santos. Ilustração: “Letras”. Original de minha autoria para este poema. Agosto de 2019.

“Letras”. Jas. 08-2019
POEMA – “ELAS FOGEM, AS PALAVRAS…”
I. QUERIA FAZER-TE UM POEMA, Sentir-te nele À vontade E as palavras Endoidaram Quando, Feliz, Lhes falei Da minha Quente Saudade. FUGIRAM Numa revolta Sentida Sem conhecer A verdade Deixando-me Só, Sem palavras, À deriva, Sem dó Nem piedade... EU ESTAVA A MENTIR Sem pensar Na crueldade De as usar Como queria Só porque Tinha saudade... ESGUEIRARAM RUA FORA, Cada uma Por seu lado, Em fugas No horizonte Deste poema Tentado... SÓ JÁ AS VIA AO LONGE, Ao fundo Da tua rua, Num ponto Do infinito Desta minha Alma nua. UMAS ESVOAÇAVAM No fio Do horizonte, Outras Aninhadas No passeio... ................... E eu a tentar O versejo Capturado No enleio Desta prisão Do desejo! PALAVRAS EM CORRERIA, Letras Perdendo forma Como fios De novelo Já desfeito De sentido Como a água Do gelo... SÂO FIOS EMARANHADOS, Letras Que se deslaçam E procuram Outras formas Para lá da minha Rima, São riscos Na tua tela A subir Por ela acima... II. QUERO FAZER-TE UM POEMA Com palavras Desenhadas, Mas elas fogem Pra longe, Correm, correm, Assustadas, Não vá mesmo Ser verdade Que as quero Alinhadas Neste recanto Feliz Onde resisto À saudade. ELAS GOSTAM DE CANTAR Esta minha Triste dor E gostam De me dizer Em intensa Emoção, Mas se me vêem Feliz Fogem de mim, Dizem “não!” O POEMA PASSARINHO Procura-te Para cantar Mas se já Não sentes nada É ele que foge A voar... E HOJE É mesmo assim Fogem todas As palavras Sem procurar Um destino, Já não consigo Agarrá-las Num poema Genuíno... NÃO SABEM Da minha dor E por isso Vão embora Estou sem palavras, Amor, Estou muito triste, Agora!

“Letras”. Detalhe.
NEBLINA…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “S/Título”. Original de minha autoria para este poema. Julho de 2019.

“S/Título”. Jas. 07-2019
POEMA – “NEBLINA”
OUÇO O SILÊNCIO
Que me cerca
O corpo
E a alma...
ADENTRO-ME
Na multidão
Rumorosa
E ele cresce
Sobre mim,
Ensurdece-me
Por dentro!
MAS É DEMAIS,
Caustica-me
A pele
Macia das
Recordações,
Faz-me
Zumbidos
Na alma,
Assobia
Como silvo
Do vento
Nas janelas
Da emoção,
Escuro
Em dias
De tempestade.
OUÇO
A palavra
Silêncio
Tonitruante
Dentro de mim...
HÁ TROVÕES
Silenciosos
Que me assaltam
E fujo
Para o ermo,
Lá em cima,
Solidão de
Eremita
Procurando
O silêncio
Que cobre
O nome
(Tão simples)
Que nunca
Ousaste
Pronunciar...
E O SILÊNCIO
Torna-se
Melodia,
Ouço uma harpa
Dedilhada
Por ti,
Notas musicais
Esvoaçando
No teu azul
De catedral.
VEJO-TE SAIR
Da densa neblina
Que te veste
E cubro-me de
Palavras
À procura
De autor
Que as componha
Num poema
Que te cante
E que te conte...
NOMEIO-TE
Em silêncio
E sussurro
Uma pequena
Palavra
Que nunca ousei
Dizer-te
Mas que ouviste
Ressoar-te
Na alma
Mil vezes!
O SILÊNCIO
Tomou conta de nós
E eu não sairei
Deste poema
Até que me ouças
E soletres
Finalmente
O meu nome
Com as cores
Da tua fantasia.

“Sem/Título”. Detalhe.
CANTA, POETA, CANTA!
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: "Auto-Retrato de um Poeta". Original de minha autoria. Julho de 2019.

“Auto-Retrato de um Poeta”. Jas. 07-2019
“Ora al nuovo sole si affidano i nuovi germogli” Virgílio
POEMA – “CANTA, POETA, CANTA!”
CANTA, POETA, CANTA Até que ela Te ouça, Nem que a palavra Te doa E a alma Estremeça. CANTA, POETA, CANTA Que o teu poema Tem dor Que te baste No amor E tem cor Que alumia E tem sabor A cerejas Que as dá A Primavera. SE NO CANTAR Tu quiseres Atingir o infinito Salta pra cima Dum risco, Agarra asas De azul E voa Nesse teu céu Até que ela Te veja, Te pinte Numa cereja E murmure Este teu nome Em silêncio De igreja... CANTA, POETA, CANTA Que o teu cantar É meu choro E é água Cristalina Que corre Lesta Em seu rio À procura de beleza Num infinito Adeus Beijado Pela tristeza. CANTA, POETA, CANTA Que contigo Cantarei A alvorada do dia, Chora, que eu Chorarei Se não houver Alegria, Ri, que Eu sorrirei Animado por teu Riso E para ti Dançarei Uma valsa De Strauss Às portas Do Paraíso. CANTA, POETA, CANTA Até que ela Te ouça, Não pares De chorar alto, Na montanha, No planalto, Num poema Ou num desenho, Numa cor Em aguarela, Afagado Pela dor De não a veres À janela. CANTA, POETA, CANTA, Para ti E para o mundo Que o teu cantar Enobrece Quem ouvir A tua prece, Quem sentir O teu lamento, Que de ser Já tão profundo Não o leva Nem o vento Pois em ti Ele entardece. E SE O VENTO O levar Vai procurá-la A ela, Dobra lento A esquina Pra que a vejas À janela Num dia que É de festa Sem cortinas No poema... MAS SE O VENTO Não soprar, O lamento Lá regressa Ao poeta Que o cantou Pois não era Dele o dia Mas de quem O castigou... CANTA, POETA, Canta Que um dia há-de Ouvir... ................... Deixa, pois, que o Tempo passe, Que a razão Se esclareça E confia no porvir... CHORA, POETA, Chora, Neste teu Entardecer Aqui tão perto Da arte E saudades De morrer... CHORA, POETA, Chora, Até que rompa A aurora Deste longo Anoitecer...

“Auto-Retrato de um Poeta”. Detalhe.
O BRINCO
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Brinco de pérolas e cristais”.
Original de minha autoria para este poema.
Julho de 2019.

“Brinco de pérolas e cristais”. Jas. 07-2019
POEMA – “O BRINCO”
VI-TE TRISTE
Naquele dia,
Rosto quieto,
Melancolia,
Olhar
Perdido,
Levemente
Embaciado...
NÃO SEI...
Era versátil
O teu rosto,
Bebia cores
Que se aninhavam
Na pele macia
Que a luz
Interpelava
(Cada dia)
Como pincel
Sobre tela
De veludo
(E bem se via).
TEUS OLHOS
TRISTES
Respondiam
Em metamorfoses
De brilho,
Ecos
Da natureza,
Raios de luz...
E MEUS OLHOS,
Seu espelho,
Devolviam-lhes
Cor incerta,
Reflexo
De alma
A vaguear
Pelas mil
Dobras
Da vida,
À procura
De destinos
Em gestação...
..............
Aconchego
De alma
Itinerante!
GANHARA VIDA
Esse brinco!
Desprendera-se
De um rosto
Que o pintor
Esculpira
Com as cores
Do desejo
Cristalizado
Pelo silêncio
Frio
Da tela.
ESTAVAS TRISTE
Nesse dia,
Sulcos marcados,
Peso na alma,
Sinais selados…
POUSARA EM TI
Esse brinco
Como sinal
Cravejado
De cristais,
Vindo de um longo
Silêncio,
Quase Irreal,
Agora resgatado
Com diamantes
Em mulher
Madura,
Olhar fatal...
CRISTAIS
Sobre mim...
...............
Código exposto,
Encontro
Casual,
Silêncio
Resgatado
Com brinco
Sensual
Em rosto
Pela tristeza
Toldado...
ÉRAMOS DOIS
E o brinco
De cristais
Que em ti
Renasciam
Como sinais...
QUIS DESENHAR-TE
Num poema...
........
Olhei,
Marquei,
Tracei,
Era pintor
De metáforas
Com palavras
Roubadas
Ao silêncio...
ERA OUSADA,
Bem sei,
A poética
Que te compunha
Como breve,
Mas intensa
Sinfonia...
AH, MULHER,
Como te sonhei
Nesse dia!
UM
Dois,
Três,
Regressei
De vez
À rapariga
Do brinco
Original
Em mulher
Madura
E essas pérolas
Irreais
Eram pêndulo
Do tempo
Resgatado...
............
Tic, tac,
Tic, tac,
.............
A marcar
O ritmo
De uma valsa
Lenta
Para dentro
De ti,
Um sonho
Escrito
Com as palavras
Do desejo...
A CADA COMPASSO
Era mais belo
Esse brinco,
Brilhava
Como pérola
Em coral
De águas
Profundas,
Alegoria
Seminal
Que iluminava
Tua alma triste
E o perfil
De teu corpo
Humedecido e
Abandonado
Às mãos
Livres
Do poeta...
HAVIA PÉROLAS...
.................
E acariciavam,
Ondulantes,
A sensualidade
Aveludada
De teu rosto
Sobre mim...
PENDULAR,
Esse brinco
Ecoava
No tempo
E renascia
Em ti...
...........
Tic, tac,
Tic, tac,
............
Em ritmo
Vital
E ofegante
Como se fosse
Estrofe
Oscilante
(Tic, tac)
Do breve
Poema
De tua vida!

“Brinco de pérolas e cristais”. Detalhe.
O BEIJO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração original do autor – “O BEIJO”. Dia Internacional do Beijo: 6 de Julho, o dia que celebro, com um poema, cada ano. Inspirado no Thomas Mann de “Lotte em Weimar” (1939), a obra que continuou "Werther” (1774), de Goethe (1749-1832), e no romance “Via dei Portoghesi”.

“O Beijo”. Jas. 06-07-2019
Thomas Mann: “O amor é o melhor na vida, assim, no amor, o melhor é o beijo – Poesia do amor...”. “Beijo é alegria, procriação é luxúria.” Inspirado também em: Kafka: “Os beijos escritos não chegam ao destino, mas são bebidos pelos fantasmas ao longo do trajecto.” Shakespeare: “Se para te beijar devesse, depois, ir para o inferno, fá-lo-ia. Assim, poderia vangloriar-me, com os diabos, de ter visto o paraíso sem nunca lá ter entrado.” Bernhardt: “O primeiro beijo não é dado com a boca, mas com os olhos.”
POEMA – “O BEIJO”
FOI O QUE NUNCA TE DEI A não ser com o olhar! O primeiro, esse beijo, Dei-to, pois, sem te tocar! E DEI-TE MAIS, COM PALAVRAS, Quando olhar já não podia, Foste embora, não estavas E eu, triste, não te via! FORAM BEIJOS QUE SONHEI Na rotina dos meus dias E desejos que enfrentei Quando tu mais me fugias, Mas dou-te beijos escritos Que se perdem no caminho E se me falta o poema Fico ainda mais sozinho! O BEIJO É EMOÇÃO, É razão descontrolada, Se não for dado a tempo Pouco mais será que nada! SEM BEIJO NÃO HÁ AMOR, Sem amor perde-se o beijo, A vida perde sentido Se me faltar o desejo Por te ter, assim, perdido! AQUI O LANÇO AO VENTO Pra que atinja como brisa E suave melodia Esse rosto que precisa De afecto em poesia! ESSE BEIJO QUE ME FALTA De que nunca fui capaz Voa pra ti em palavras Põe-me sereno, em paz E desejo que, no trajecto, Voe, voe em grande altura, Que fantasmas não o bebam E minha dor tenha cura. MAS SEI DOS ESCOLHOS DA VIA, Dos perigos que ele corre, Capturado por fantasmas É mensagem que me morre! NO DIA DO BEIJO É HORA De te cantar em voz alta A poética do amor Pra redimir essa falta E pôr fim à minha dor. E PORQUE O DIA É TEU Ganha força, Intensidade... ........................ Mesmo que fantasmas O bebam É um beijo de verdade! ESSE BEIJO QUE NÃO DEI Foi pecado original, Hei-de sofrê-lo pra sempre Como chaga corporal. NÃO HÁ PALAVRAS QUE BASTEM Pra repor o que não dei Elas voam, mas não chegam E mesmo assim eu tentei... É CERTO QUE SEMPRE O QUIS, Só que nunca to roubei, A culpa foi desse tempo, Dos dias em que te amei, Um tempo em diferido Sem presente nem futuro, Talvez beijo sem sentido Porque queria do mais puro, Tangendo eternidade Às portas do Paraíso, Um beijo de divindade, Mas simples Como um sorriso! ESSE BEIJO IMPOSSÍVEL Que não é do foro humano Vou tentando construí-lo Cada dia, cada ano, Perdendo-me pelo caminho Como sagrado em profano!

ARLEQUIM
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Máscara”. Original de minha autoria. Reproposição com ajustamentos no poema e na pintura. Junho de 2019.

“Máscara”. Jas. 06-2019
POEMA – “ARLEQUIM”
COMPREI UMA MÁSCARA, Pu-la no rosto do Meu amado poeta E ele não a Enjeitou. Ainda por cima Me disse: “- Sou eu, sou, Como nas palavras Que digo Também meu rosto Mudou. NÃO ESPERAVAS Ver-me assim! Vá, confessa O teu espanto! Luzinhas na minha Cabeça, Rosto tão Desfigurado, Cor, tanta cor (A que apeteça) Pra sufocar Esta dor, Sempre que ela Apareça A pedir o meu Cuidado. ADOPTEI ESTA FIGURA, Apresento-me assim, As outras Nada te dizem, Com esta Olhas pra mim! PALHAÇO É O QUE SOU, Falo a Surdos e mudos Que não ouvem O que digo Nem me dizem O que quero Como se fosse Mendigo Do que, afinal, Nem espero. VALHA-ME POIS ESTA MÁSCARA! Assim rio Desta vida, Rio de ti E de mim, Da chegada E da partida, Dos abraços, Das palavras E também da Despedida! SOU PALHAÇO, É o que sou, Entretenho-me A cantar E se ouvires Este meu canto Arlequim É seu autor, Por isso tu Não t’importes O que diz É de certeza Pra espantar Sua dor!” A MÁSCARA É o seu rosto, Colou-se-lhe Logo à pele Com a cola Do desgosto E por isso Já nem sabe Se seu rosto É o dele. COMPREI UMA MÁSCARA Luminosa No mercado Da minha vida Ponho-lha sempre Que posso, À chegada E à partida. NUNCA LHA TIRO, Ao poeta, Que rasgo a sua Alma, Pois se o canto O liberta É a máscara Que o salva!

Máscara”. Detalhe.
NOSTALGIA
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Nostalgia”. Original
de minha autoria. Poema inspirado no Romance
"Via dei Portoghesi", que será lançado na próxima
Quinta-Feira, 27 de Junho, na Sala do Arquivo
da Câmara Municipal de Lisboa, Praça do Município,
às 18:30. Junho de 2019.
Convido hoje o leitor a ler também o meu Ensaio
"A Arte, o Artista e os Outros", aqui em link:
https://joaodealmeidasantos.com/2018/08/24/ensaio-5/?fbclid=IwAR1UqXBHq-FMQBEd5hPrZYvVTpNnMYDJQ078xuo_KVL4c7-iyE2HUuaM1HQ

“Nostalgia”. Jas. 06-2019
POEMA – “NOSTALGIA”
RÁPIDA COMO O VENTO
Passou por mim
Esta palavra saudade
Numa rua do meu bairro
Sob o céu desta cidade.
GRAVEI-A
Na minha mente,
Evoquei-a
Ao crepúsculo
Com incerta
Nostalgia...
...................
Não queima tanto,
Esta palavra,
Porque a sinto
Mais fria!
COM CESÁRIO
(De quem gosto)
Dei-lhe cor,
Cantei-a
Com a pintura,
Dei-lhe vida
Num romance,
Tento tudo,
O que não posso,
Porque esta dor
Me perdura...
DA SUA COR
Vejo o mundo,
Com palavras
A recrio,
Procuro sempre
O seu rosto...
...................
E por mais longe
Qu’esteja
Eu não me sinto
Vazio.
A DOR
Desta saudade
Alimenta-me
A alma
E aquece a minha
Vida
E assim eu vou
Vivendo
Em eterna
Despedida,
Neste cais
Que não tem fim,
Em partida
Que não há,
Um adeus que não
Existe,
Porque tu
Nunca saíste
Deste meu
Lado de cá.
MAS HÁ SEMPRE
Esta saudade
A que chamo
Nostalgia,
Uma tristeza
Feliz
Que eu sinto
No labor de
Cada dia.
NÃO TE TENHO,
Mas não te perco,
Estás longe,
Perto daqui,
Não te encontro
Nem te vejo,
Mas sei que não
Te perdi...
INSPIRA-ME,
A nostalgia...
......................
Recrio-te em cada
Instante,
Sou poeta,
Sou pintor
E também sou
Arlequim,
Por isso vejo
O teu mundo
A partir dum
Camarim!
ESCULPO
Teu rosto
Com palavras
Do meu peito,
Pinto a alma
Com a cor
Da tua voz,
Voo contigo
Em sonho,
Banho a alma
No dourado do
Teu rio
Pra chegar
À tua foz.
TENHO COMIGO
PINCÉIS
E as asas
Do poeta,
Danço,
Sou arlequim,
Pinto-me nesta
Ribalta
Com as cores
Que vês
Em mim!
SEM TI
NESTA RUA
Da saudade
Sou palhaço
Em camarim
Que maquilha
O seu rosto
Num palco
Que não tem fim,
Representa
Para ti
Sem saber
Se lá estás,
A verdade
Não lh'importa,
É feliz com
O que faz!
ASSIM VIVE
O ARLEQUIM...
........................
No palco da sua vida
É só arte
O seu fazer,
As dádivas que ele
Te entrega
São um modo
De viver!

“Nostalgia”. Detalhe.
DISSERAM-ME, UM DIA…
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Inscrições na Pedra”.
Original de minha autoria para este poema.
Junho de 2019.

“Inscrições na Pedra”. Jas. 06-2019
POEMA – “DISSERAM-ME, UM DIA…”
DISSERAM-ME,
Um dia,
Que te viram
Sozinha
E melancólica,
Sentada
Numa pedra
De granito...
...Amarelo,
Luminosa de
Cristais,
À sombra
Duma figueira
E já nem sei,
Nem sei que mais...
DISSERAM-ME
Que foi
Lá em cima
No Monte
Sagrado,
Como se tivesses
Perdido
Uma parte de ti
E a chorasses
Em solidão,
Invocando a bela
Athena,
Essa deusa
Que t'inspira
E te leva
Pela mão...
DISSERAM, SIM,
E cantaram-te
A beleza triste,
A nostálgica
Melancolia
Espelhada
Em teu rosto,
Na turbação
Desse dia...
E EU, ENTRISTECIDO,
Voltei
A imaginar-te
Projectada
Em mil rostos
Desenhados
A carvão,
Em flores
De cor intensa,
Bem pintadas
A pastel,
Em planos de
Infinito
Desenhados
No papel...
E VI-TE
A vaguear
No tempo,
Nos confins
Da memória
Com olhos
De fantasia
À procura
Da beleza
Que tens inscrita
Na alma,
De tua arte
A magia.
MAS EU VI
O mundo
Desabar
Sobre ti,
Rasgar a folha
Branca e macia
Onde desenhavas
O futuro
Com mestria,
Estilhaçando
A ténue luz
Que te alumiava
De perto,
Como por encanto,
O destino...
...................
E até a tua
Serena alegria!
NÃO DESTE CONTA,
Bem sei,
Mas agora
Sentes-te um pouco
Às escuras,
O sol do Monte
Esgueirou-se
Para outras paisagens,
A poente,
E à noite
A lua-cheia
Da praia
Da meia-lua
Já só brilha
Intermitente...
NEM SEI COMO
Dizer-te,
Num poema
Ou num quadro,
Que a arte
Só vive
De liberdade,
Desnuda-nos
A alma toda
Como luz que nos
Invade!
AGARRA, ENTÃO,
O vento
Que te sopra
Dentro,
Desnuda-te
E voa nele
De novo
Em direcção ao
Infinito,
Reinventa-te
Em azul
E grita ao mundo,
Lá de cima,
A arte que levas
Dentro de ti,
Grávida
Dessa beleza
Onde, nos meus poemas,
Eu sempre, feliz,
Renasci.
AH, COMO GOSTARIA
De voar de novo
Contigo
Agarrado a palavras
Deslaçadas
Em mil fios
Coloridos,
Cansado que estou
De voar sempre
Sozinho
Para não te perder
De vez
Nesta inóspita
Esquina
Do meu caminho...
................
Mas talvez seja
Tarde demais
Para apagar
Esta melancolia
Que me corrompe
O entardecer
De cada poema
E a sua melodia...

“Inscrições na Pedra”. Detalhe.
EM CERTOS DIAS…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Beija-Flor em Magnólia Branca”. Original de minha autoria para este poema. Junho de 2019.

Beija-Flor em Magnólia Branca”. Jas. 06-2019
POEMA – “EM CERTOS DIAS…”
EM CERTOS DIAS, Teu macio rosto De veludo Alterna Entre suave doçura e Vincos marcados Como sulcos, Aspereza de Sensualidade Sustida À flor da pele Para que não Transbordes Em excesso De ti. COMO SE FOSSES DUAS MULHERES, As faces de Janus, Decidida E evasiva, Passado e futuro, Espartilho Que quase anula O teu fértil Húmus anímico Que remotamente Te inspira, Desde a raiz. MAS TU ÉS UMA SÓ, Aquela que Ficou Sentada Na soleira da tua Alma Quando, em solidão, Saíste, decidida, Para a rua Da tua vida À conquista Do mundo... ACORDA, MULHER, Vai à procura De ti Na fronteira Do teu destino, Olha o mundo Da janela, Mas sai Pela porta da tua Alma De braço dado Com o sol que Tantas vezes Te ilumina O olhar Com as cores Do arco-íris. HÁ TANTAS MAGNÓLIAS (Como tu) No meio do caminho Da tua vida Que basta olhá-las Pra que ela Te sorria. AH, NÃO SABES Quanta metafísica Há numa magnólia Branca! Fala-lhe com os teus Olhos, Acende-a com Teu sopro quente, Acaricia-a com Mãos macias E verás que ela Te apontará o caminho Do reencontro Contigo Na brancura De suas pétalas. E VERÁS TAMBÉM Que tu vives, (Como eu) Num intervalo entre ti E o mundo De onde te podes Reconhecer No regresso À tua soleira vital, Para repartires Aconchegada, Contigo no regaço. NA FRONTEIRA - Sabias? - Vemos melhor Para dentro e para fora De nós, Vemos Os demónios E os anjos... VÁ, CANTA A VIDA Com teus olhos, Demora-te um pouco Na janela sobranceira Do teu íntimo A ver passar Aquela que já Não queres ser Porque apaga O rasto do teu Acontecer... .................... E sai com o vento Pela porta do Teu destino. E VAI AO JARDIM Falar com as magnólias E come chocolates E canta E dança E grita se for preciso Até que o eco Te devolva Identidade E teus olhos Se cubram Daquele verde Que nasce nas Encostas, Nos verões Das nossas vidas, Quando o sol Já brilha no horizonte... MAS BRILHA? - Perguntarás. E eu digo-te Que sim Se o brilho Se acender também No teu inquieto Olhar!

“Beija-Flor em Magnólia Branca”. Detalhe.
AH, PASÁRGADA…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Idílio em Pasárgada”. Original de minha autoria para este poema. Um diálogo em poesia com Manuel Bandeira (“Desencanto”; “Versos escritos na água”; “Renúncia" - Manuel Bandeira, Obras Poéticas. Lisboa, Minerva, 1956, pp. 33, 40, 101). Junho de 2019.

“Idílio em Pasárgada”. Jas. 06.2019.
“POEMA: “AH, PASÁRGADA…”
“OS POUCOS VERSOS QUE AÍ VÃO, Em lugar de outros é que os ponho. Tu que me lês, deixo ao teu sonho Imaginar como serão.” (M.B.) OS MUITOS VERSOS Que te dei Transparecem No que eu sou. Se me leres Saberás Que não pequei E que é tanto O que agora Eu te dou. “NELES PORÁS TUA TRISTEZA Ou bem teu júbilo, e, talvez, Lhes acharás, tu que me lês, Alguma sombra de beleza...” BELEZA Que desenhei Sempre contigo, Mas em tristeza E tanta dor Como castigo. EU CANTO O que perdi P’ra que o verso Vá ter contigo Lá onde estejas Queira o vento Ser meu amigo Mesmo que tu Nunca me vejas. “QUEM OS OUVIU NÃO OS AMOU Meus pobres versos comovidos! Por isso fiquem esquecidos Onde o mau vento os atirou.” NÃO OS AMOU Mas foi verdade Este amor Que aqui nasceu E que cantei Em liberdade Em versos Que o vento Já me levou Dos muros Desta cidade. OUTROS FARIA Se pudesse Para os pôr Na tua mão, Não pediria que Os sonhasses, Olhos cerrados, Mas que os lesses Por afeição. AH, MANEL, Que bem me sabe Pôr a dor Em poesia, Em versos A emoção, No cantar Triste alegria De tão intensa Ser a paixão Mesmo que seja Apenas Doce utopia Ou singela Ilusão. DIZES TU, Em poesia, Que só a dor Te enobrece. É bem verdade, Meu bom poeta, Alma dorida Logo me aquece E com seus versos Entretece O que a paixão Já tanto afecta. “A VIDA É VÃ COMO A SOMBRA QUE PASSA... Sofre sereno e de alma sobranceira, Sem um grito sequer tua desgraça. ENCERRA EM TI TUA TRISTEZA INTEIRA. E pede humildemente a Deus que a faça Tua doce e constante companheira...” POIS TENHO MEDO, Ah, meu irmão, Que a dor Me passe, Perca o poema Sua raiz, Essa, sim, A verdadeira, E eu fique só Já sem palavras E caiam secas Todas as rosas Que me povoam Esta roseira. SOBRAM ESPINHOS, Ferem-me a alma E saem versos E cai o sangue “Gota a gota, Do coração”, “Volúpia ardente” Já sem remédio “Eu faço versos Como quem chora” E chamo a dor Naquela hora E ela vem Por compaixão! AH, POETA, Ah, meu irmão, Tu fazes versos “Como quem morre” E eu procuro Neste meu canto O seu perdão. TU, MANEL, És o poeta E a bandeira E ela é O meu refrão, P’ra mim és verso No meu poema E ela é, Na minha alma, Esta paixão!

“Idílio em Pasárgada”. Detalhe.
ENCONTREI-TE NESTA RUA…
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: Capa do Romance “VIA DEI PORTOGHESI”,
sobre desenho original de João de Almeida Santos, autor.
Poema inspirado neste Romance,
que estará nas livrarias e nas grandes superfícies
no próximo dia 18 de Junho.
Editora Parsifal. Lisboa. 2019.

Capa do Romance “Via dei Portoghesi”. Pintura original de JAS. 05-2019
POEMA – “ENCONTREI-TE NESTA RUA…”
ENCONTREI-TE NESTA RUA
Levemente curvada
Sob o peso da tua
Persistente
(E sedutora)
Melancolia...
UM OLHAR
Invisível
Seguia
O teu rasto,
Por incontida
Paixão,
Na rua
Do desencontro,
Dos olhares cruzados,
Incertos ou
Dissimulados,
Inundados de
Lágrimas secas
Expulsas
Pela dor
Nostálgica
E profunda
De almas
Em ferida.
MAS É A NOSSA RUA,
Não é?
Lugar vital
De tristes desacertos,
Vereda estreita,
Inacabada,
Destino
Traçado
Pelos deuses
Como castigo
Sei lá do quê,
Curva apertada
Da vida
Sobre abismo
Vertical
Que ameaça
Engolir-nos
No nada.
AH, EU SINTO
VERTIGENS
Ao passar na nossa
Rua!
Estou sempre
À beira de cair
No precipício
Quando que me
Cruzo contigo
Que seja
Apenas na
Memória deste lugar
Que me atrai
Como laço
Nunca deslaçado
Porque nunca
Cumprido.
ESTA É A RUA DO
Meu abismo,
Atracção fatal
Das margens
Dos meus dias
Para um passado
Que me devora
Inexoravelmente
O futuro,
Sem compaixão...
EU GOSTO
DESTA RUA,
Estou sempre
A celebrá-la
Com poemas,
Em exorcismos
Salvíficos
E consoladores,
Atraído
Por ela
Como se fosse
A nascente do meu
Incompleto
E melancólico
Viver...
MESMO QUANDO NÃO ESTÁS
(Nunca estás,
Eu bem sei)
Nela, tropeço
Em ti,
Seguro-me
Para não cair
Em mim
E sigo em frente
Até à esquina
Onde, contigo,
Me cruzava,
De uma certa forma,
Com o implacável
Mundo
Que nos era
Friamente hostil.
É A RUA DO DESENCONTRO
Porque foi nela
Que te encontrei,
Trocando
As voltas ao destino
E seguindo em frente,
A teu lado,
Por algum tempo,
Até que te perdi
O rasto
Numa curva
Perigosa
Desse desfiladeiro
Da tua vida
Que ameaça sugar-te
Para um vazio
Profundo...
MAS AGORA VISITO-TE
Em lugares
Imateriais
Onde te procuro
E recrio
Na esperança de
Um dia,
Inesperadamente,
Te ouvir dizer
De novo: “Olá!”...
................
E não seja
Tarde demais!

Plano da Capa do Romance.
A JANELA
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Onde te vejo”. Publico hoje, em reposição, mas juntando um poema (de Dezembro de 2017) e um quadro, ambos de minha autoria, que foram executados para momentos e referentes diferentes: “A Janela” (ligeiramente retocado) e “Onde te vejo”. Este é o único poema que, até hoje, publiquei onde o sujeito poético é uma mulher. Dadas as suas características, fortemente rimáticas, não fiz versão áudio.

“Onde Te Vejo”. Jas. 03-2019
POEMA - "A JANELA"
NOS VIDROS Desta janela Se espelha Todo o meu ser, É neles que Eu te revejo Quando deixo De te ver. DA JANELA Vejo o mundo E o mundo Vê a janela, Debruçada No parapeito Olho o céu E olho a rua Para ver Se passas nela... NOS VIDROS Desta janela Há reflexos Da vida Olho p’ra eles Pensativa E não me sinto Perdida Se puder Falar contigo Quando te vir De partida... NOS VIDROS Da minha janela Se espelha Todo o teu ser Quando passas Nesta rua E me sinto Estremecer Da falta que tu Me fazes Por ainda Não te ter. SE TE AFASTAS Da janela E vislumbro Silhueta Lá ao fundo, Longe dela, Eu sofro Por te perder... .......... É uma dor Tão profunda Que logo Se me revela. VOA P’RA LONGE Essa tua Silhueta Que s’esgueira Na esquina Como se fosse Cometa A passar Na minha rua... .............. Mas também eu Me diluo E me sinto Um pouco nua Na imagem Transparente Dos vidros Desta janela Como se fosse Já tua. FOSTE EMBORA Do meu mundo Onde eu Te queria ter Ao alcance De um olhar Para nunca Te perder... MAS NÃO DEIXEI A janela, Esperei sempre Por ti, Hora-a-hora, Dia-a-dia, Até que, por fim, Eu te vi. VI-TE Da minha janela, Desenhei-te Com alma E olhar De devoção, Pintei-te todo A vermelho Na cor da minha Paixão... ................ Mas mesmo assim Tu partiste Sem me dar A tua mão. DA JANELA Sempre te vejo, Mesmo ausente Da nossa rua, Nos vidros Fica imagem, Perfeita Como a tua, Mas é sempre Transparente E não lhe posso Tocar, Guardo-a, então, Com ternura No meu inocente Olhar. E GOSTO Da primavera, Confundir-te Com aromas Que me chegam À janela, Anunciando A chegada Do melhor Que sinto nela. A JANELA Não tem cortinas P’ra te ver Na nossa rua, Ver-te chegar E partir, Ficando um pouco Mais nua, Querer que Me vejas Assim Tão brilhante Como a Lua... AH, QUANTAS VEZES Eu desci Da janela Para a rua... ............... Olhava de baixo P’ra cima, Mas eu nela Não me via, E, assim, Não era tua. O MEU MUNDO É a janela, O da rua É o teu, É dela que Eu te vejo, Na rua Já não sou eu. DA JANELA Do meu mundo Olho p’ra ti Com calor, Sem ela Eu não te sinto, Fica um muro, Meu amor!

“Onde te vejo”. Detalhe.
O BENFEITOR
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Um homem das arábias”.
Original de minha autoria para este poema.
Maio de 2019.
Para ouvir a versão áudio, pelo autor,
com música de Albinoni (Adagio), por von Karajan:

“Um homem das arábias”. Jas. 05-2019
POEMA – “O BENFEITOR”
COMO TE VEJO,
Ó benfeitor,
Filho dilecto
Da tua Ilha,
Nosso Jardim!
Há mil quadros,
Rara beleza,
Espelhos do teu
Amor,
Todos pra mim,
Aqui tão perto,
À minha beira...
..................
Sinto-me rico
De tanta cor
No ouro das molduras
De madeira!
COMO TE SINTO,
Meu benfeitor,
Sempre de negro,
Artista grande
Que nem Dali,
Noites d’inverno
Onde o escuro
É a beleza
E o dinheiro
(Que foi pra ti)
O meu inferno!
VERMELHO E NEGRO,
Como Stendhal
Ou Julião
(Tens o Sarmento...),
De coração
A palpitar
(Sem um lamento).
A TUA VIDA
É um natal,
Com tantas prendas
Dos teus banqueiros...
Mas a minha
É tempestade
Com aguaceiros,
Sempre a pagar...
.................
É natural!
DA ARTE TU ÉS
O Mago,
A colecção
Vai aumentar,
Banqueiro dá,
Finge qu'empresta,
É aos milhões,
Mas logo chega
O meu castigo...
.................
É sempre assim,
Sempre a cobrar
(Põe-me mendigo)
O que pra ele
São só tostões...
EU GOSTO D’ARTE
Da que eu faço,
Sem a vender,
Nem a comprar,
Mas vou ao banco
(Vou muitas vezes),
Acerto o passo,
Eu tenho contas
Para pagar.
O MEU PAÍS
É muito culto,
Jeff Koons
Lucio Fontana,
Henri Michaux,
Mas no balcão
(Não sei porquê)
O meu banqueiro
É um sacana...
...................
Foi sempre assim,
Vem do avô!
ANSELM KIEFER,
Gerhard Richter.
Frank Stella...
É muito bom!
Pois tem de ser
Se o banqueiro
Olha pra ela,
(Prà colecção)
Fica pasmado
Com tanta arte
E dá-lhe tudo
Por gratidão!
E DUBUFFET,
Não gostas dele?
Morris Louis
Piero Manzoni
Georges Segal
Ou Chamberlain
É a beleza
Da colecção,
Perante ti...
Não percebeste?
Chegas e vês
Gostas e pagas,
És devedor...
...................
Não rogues, pois,
Crente da arte,
As tuas pragas
Ao benfeitor!
GOSTO DE TI,
Da tua arte,
Ficou humana
A nossa banca...
Mas sem milhões!
Que nos importa?
Temos beleza,
Temos amor...
E as nossas contas
Aos trambolhões...
Temos-te a ti,
Tão generoso...
..................
São os banqueiros
Os aldabrões.
MAS QUE M’IMPORTA,
Ó benfeitor,
Fizeste bem
Mais uma vez,
Pois ajudaste
Os teus banqueiros,
Tinham excesso
De liquidez.
GERALD LAING,
Alain Jacquet
Pauline Boty...
.................
Logo acertaste,
Ó benfeitor,
A liquidez
Ficou pra ti...

“Um homem das arábias…”. Detalhe.
ENCONTRAR-TE NUM POEMA…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “La Diseuse”. Original de minha autoria para este poema. Maio de 2019. Para ouvir o poema pela voz do autor:

“La Diseuse”. Jas. 05-2019
POEMA – “ENCONTRAR-TE NUM POEMA…”
ÀS VEZES Perco-me Em ti Quando te sonho Num poema. Ondulas Entre tristeza E doçura Nos teus dias Mais incertos, Em momentos De ventura! SE ÉS TERNA, Eu estremeço Porque enleia, O teu olhar! Olhos escuros Despontam Da luz No suave Amanhecer Quando em surdina Me dizes E partilhas Esse teu Acontecer. CONTEMPLO A tua imagem, Essa beleza Tão pura, Por instantes Muito breves... Mas logo recolho Às palavras Sedutoras De tão inocente Encanto E de tão meiga Ternura... O TEMPO Corre sempre Contra nós E eu corro Contra ele Pra que a saudade Não chegue Antes do tempo Chegar, Pois sei Que ela m’inunda, Desagua No meu rio Para logo Transbordar... VIVO SEMPRE Num intervalo De onde nos vejo Sorrir De saber - Tu imagina - Que nunca nos Cansaremos Por falta de tempo Neste efémero Viver Sob esse poder Que domina E me impede De te ter. MAS PERCO-ME No brilho intenso Dos teus olhos À procura dessa cor Que desponta Quando o sol Te ilumina. SINTO CALOR No meu peito E procuro o teu Regaço Pra que me olhes Por dentro Nos poemas Que te canto E que dizes com Fervor Como se fosse Um abraço. EU GOSTO Da doçura que te Invade Quando recusas O mundo Que te atropela Nas curvas Da tua vida... ................ Pra cantar O meu poema Porque me vês De partida... AH, COMO GOSTO De te sonhar A dizer-me Em poesia, É encanto, É prazer E é mistério... .................. É a vida Em sinfonia!

“La Diseuse”. Detalhe.
SONHAR
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Sonho”. Original de minha autoria para este poema. Versão áudio pelo autor, tendo como fundo o “Concerto de Aranjuez”, de Joaquín Rodrigo. Para ouvir o poema dito pelo autor:

“Sonho”. Jas. 05-2019
POEMA – “SONHAR”
SONHEI QUE AS PALAVRAS Se gastaram, Desfiaram, Desataram, Sobrando fios Para tecer O silêncio. SONHEI Que a tinta Perdeu a cor, Que não havia Poemas E que não era Pintor. SONHEI Que não eras tu, Que foi tudo Uma ilusão. SONHEI QUE TE PROCUREI No mundo da fantasia, Onde as flores Caminhavam, Sabiam a maresia, Tinham rostos De mulher, Mas surdos Ao que dizia. SONHEI Que não sabia Onde estás, O que fazes E o que sonhas Nas noites Do teu luar, O que vês Nesses momentos Fugazes Em que olhas Para ti. SONHEI Que já não me lês E que não ouves Poemas, Que estás tão longe Daqui... NO SONHO Fui à memória, Que também Perdeu a cor, Ficou tudo A preto e branco E sonhei, Sonhei, sim, Que te perdi... ................. Meu amor! SONHANDO, Procurei cor Num outro Lugar qualquer. Só encontrei O cinzento E por falta De vermelho Meus versos Tão desbotados Já nem iam Com o vento... “FOSTE P’RA ONDE Que eu não te vejo?” Perguntei Quando do sonho Acordei. SAÍSTE De onde estavas E agora resta O desejo De te cantar Sem palavras P’ra que ouças O silêncio Com que antes Me chamavas. JÁ NÃO ME CHEGAM SINAIS, O meu É um poço escuro, É buraco Tão profundo Que nele Eu vou caindo Como triste Vagabundo... O SOL TAMBÉM JÁ SE FOI, As sombras Tomaram conta De mim, Meus dias São sempre Iguais, Sinto um vazio Sem fim... MAS PINTO, Agora pinto, Tenho cores E tenho aromas, Tenho luz E sou feliz... AH, SIM, Mas perdi A minha Musa, A fonte D’inspiração Foi p’ra longe Com o vento E em meu triste Pensamento Só ficou A ilusão! GASTARAM-SE As palavras, Meu amor. Gastou-se tudo, Afinal. Só ficou o teu Cinzento, A tinta com que Lavras O meu peito (Sem lamento) E me afundas Nesta dor, A que canto Em surdina Para ouvires O silêncio Com que te pinto Sem cor...

“Sonho”. Detalhe.
LIBERDADE
Poema inédito de João de Almeida Santos, escrito para a comemoração do 25 de Abril de 2019, em Portimão, na Sociedade Vencedora Portimonense, pelo "Grupo Canto Renascido", dirigido pelo Maestro António Vinagre. Ilustração: "Liberdade". Original de minha autoria para este poema. Dito, na Sessão, por Dulce Guerreiro, com acompanhamento ao piano. Para ouvir o poema pela voz do autor e um nocturno de Chopin:

“Liberdade”. Jas. Abril de 2019
POEMA – “LIBERDADE”
PERGUNTEI-TE, Num dia De sol: “Voas comigo Pra linha Do horizonte?” Deste-me a mão E sorriste: “Voo, sim, Pois preciso De ar puro Lá bem no alto Do Monte!” E PARTIMOS. Tu levaste O arco-íris Que tinhas Dentro de ti E eu as letras Que tinha Comigo, Alinhadas Nesta alma Solitária Recolhida Em seu abrigo... ENREDÁMOS Todas as cores Com linhas De palavras Deslaçadas, Construímos Asas em forma De verso E voámos No céu De um poema Pintado todo De azul... ANDEI CONTIGO Por lá Anos a fio, Vagueando Ao sabor da Inspiração, Levados Pela brisa Que sopra fria No Monte, Mas afaga O coração. E COMO GOSTEI De voar contigo, Livres como Pássaros Sobre o vale Onde um dia Te encontrei Construindo Castelos Na areia Com força De fantasia! É ASSIM QUE EU Te vejo, Tecer a vida Com sopro Na alma E as cores Do arco-íris Pintadas Por tua mão Como pautas Coloridas De uma bela Melodia Que canto Com devoção! FOI ASSIM QUE NOS Dissemos Nesse tempo, Livres de amarras Que não nos deixam Voar, Cantando com Arte Um destino Marcado Pela vontade Pra fazer Da nossa vida Caminho De liberdade.

Liberdade”. Detalhe”
UM SONHO NA ALDEIA
(Outra Versão Áudio)
Poema de João de Almeida Santos Outra versão áudio, com fundo musical, deste poema (de 21.04.2019), que uma Amiga me fez chegar e que tenho o gosto de partilhar... e de agradecer.

“Rua na Minha Aldeia”. Detalhe. Jas. 04-2019
UM SONHO NA ALDEIA
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Rua na minha aldeia”.
No final, detalhe de um quadro inédito,
"Sonho". Originais de minha autoria.
Abril de 2019.
Para ouvir o poema dito pelo autor:

“Rua na minha aldeia”. Jas. 04-2019
POEMA – “UM SONHO NA ALDEIA”
SONHEI-TE ESTA NOITE
Nas ruas
Da minha aldeia.
Não sei porquê
(Os sonhos são
Sempre assim),
Caminhámos
Paralelos
Sem dizer
Uma palavra,
Sem um olhar
De través....
........................
Apenas pressentimento!
DUAS VEZES
Lá estive,
A sentir
O que sentia
Na rua
Da minha aldeia,
Nesse tempo
Diferido
Dos encontros
Intangíveis.
MAS VI-TE
Com nitidez
(Um pouco baça,
É certo)
No silêncio do meu
Sonho,
Em misteriosa
Alvura
A recordar
Tempo antigo
Quando a neve
Regressava.
FOI NA RUA DA CARREIRA
(A rua chama-se
Assim)
Em frente
Da minha casa,
Onde me vejo
Passar...
..................
Sendeiro da minha
Vida!
CRUZÁMO-NOS
Por pouco tempo
(Como na vida real),
Nem um olhar
Nos trocámos,
Apenas nos pressentimos,
Tão fugaz foi
O meu sonho.
MAS SE A VIDA
É um sonho
Também os sonhos
São vida,
Pois senti que,
Na verdade,
Sonâmbula
Me adivinhaste
Nesta breve
Despedida.
E AQUI ESTOU EU
A sonhar-te
Outra vez
Em palavras
Que derramo,
Porque te vi
Nesse sonho
Na rua da
Minha aldeia,
Lugar nativo
Que amo.
É SEMPRE ASSIM,
Meu amor,
Quanto mais tu
Te esfumas
Mais me cresce
Esta dor.
É por isso
Que te sonho,
Pra desenhar
O teu rosto
Com palavras
De poeta.
E DE TANTO TE DIZER
Acabei por
Te encontrar
Na terra
Onde nasci,
Na rua
Onde brinquei,
Onde a neve
Derretia
Quando o sol
Já despontava
E a tristeza
Me cobria.
AGORA A NEVE
És tu,
Fugaz que foi
A passagem
Na rua
Da minha vida,
Como a brancura
De outrora
Que em tempos
De meninice
De saudades
Me doía.
E QUANDO TE
Encontrar
Talvez não
Te reconheça...
.............
Terei então
A certeza
Que recriei
Essa ausência
Para nunca
Eu perder
O que de ti
Me sobrou,
Como a neve
Da minha rua
Que não há sol
Que a derreta
Na penumbra
Da memória...
...............
Que, em parte,
É a tua.

“Rua na Minha Aldeia”. Detalhe.
VESTIDA DE CORES
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Exaltação da Luz”
Original de minha autoria
para este poema. Abril de 2019.
Para ouvir o poema pela voz do autor:

“Exaltação da Luz”. Jas. 04-2019
POEMA – “VESTIDA DE CORES”
VESTES CORES Garridas Em elegantes Danças De luz No palco Do mundo Como quem grita A beleza que leva Dentro de si. COBRES-TE DE TI, Agasalhas-te A alma, Repetes Em mil poses O teu rosto, Em perfil... DIZES-TE Em arte, Com aura, Única, Corpo luminoso Sempre a voar Para lugares onde Te confundes com O que te é Estranho Num subtil Jogo de Espelhos e Aparições Fugazes Onde te mostras Feliz. MAS QUANDO Regressas Às origens É como o fim De um sonho Que te levou Ao paraíso... ................ A queda De um anjo Na rotina do viver! E PARTES DE NOVO, À procura de ti Noutros lugares, Em catedrais Onde o eco do Silêncio Bate mais forte E o brilho do teu Olhar Se reflecte Nos vitrais Translúcidos Da divina luz Que julgas Interpelar... DOCE ILUSÃO A dos vitrais que Constróis Sobre ti Atravessados Por raios de luz Que te fascinam E seduzem Como hipnose Da arte sublime Que te transportará Em levitação Ao oráculo Da divina Atena... ................... Para a apoteose Final! MAS EU SIGO-TE, Vou E voo Atrás de ti Com os meus poemas Sempre feridos De cores vivas, Ao rubro, Com versos Em voz Rouca De tanto te dizer Ao longe, Na melodia triste Feita de Murmúrios Por não te alcançar... ..................... Sequer com palavras! NÃO IMPORTA Que a fuga Para a boca de cena À procura de autor Que te conte Ao mundo Seja fuga De ti própria Para a luz Da ribalta, Holofotes Que iluminem A penumbra Onde, persistente, Vestes A tua imaginação Para a exibir Nas festas coloridas E luminosas Da arte, Em rituais De celebração... GOSTO De te ver assim, Luminosa, Oficiante Desse rito pagão Que celebra A arte E a liberdade Que traz consigo Como pregão A convocar para Um hino à vida, Sem amarras! MAS EU CONTINUO Por aqui, Na solidão Sideral da Montanha A olhar O horizonte Sem fim E o céu plúmbeo, Pagando Com um poema E uma exuberante Rapsódia de cores O meu tributo Ao ritual Onde te celebras! AH, COMO GOSTARIA De te rever Na praia Da meia-lua, No baile Da meia-noite, Em diálogo Silencioso Com um luar Brilhante De lua cheia Que te iluminasse A alma!

“Exaltação da Luz”. Detalhe.
MUSA
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “A Praia”. Original de minha autoria para este poema. Abril de 2019. Para ouvir o poema pela voz do autor:

A Praia. Jas. 04-2019
POEMA – “MUSA”
EU TENHO UMA MUSA
Guardada
No fundo
Da minha memória.
Perdi-lhe o rasto
Ao corpo,
Ficou-me dela
O mistério
Que me alimenta
O estro
Quando a saudade
Me assalta.
SOBROU-ME
Recordação,
Marcas cá
Dentro de mim,
Desço ao fundo
Da alma
Mas não lhe vejo
O fim.
E ASSIM NÃO A
VISLUMBRO,
Há uma certa
Escuridão,
O olhar já
Não me chega,
Restam-me
As cicatrizes
E uma funda
Solidão.
ÀS VEZES DESENHO
Seu rosto,
Ponho-lhe cores
Muito vivas,
Pinto a alma
Com palavras,
Dou-lhe nome
Que não é seu,
Levo-a nos meus
Poemas...
...............
Devolvo tudo
O que ela
Não me deu.
VALE-ME A POESIA
Pra onde fujo
Com ela,
É como a maresia
Da praia
Que vejo
Da minha janela.
TENHO UMA MUSA
Na praia,
Nesse mar
Que não tem fim,
Revolvo-me
Nas suas ondas,
Regresso feliz
Ao poema
Onde sorri
Para mim.
NÃO IMPORTA
Onde está,
Musa é fonte
De inspiração
Desde que haja
Na praia
Uma intensa
Paixão...

“Praia”. Detalhe.
ORIGEM
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Onde Te Vejo”.
Original de minha autoria
para este Poema. Março de 2019.
Versão áudio pelo autor:

“Onde Te Vejo”. Jas. 03-2019
POEMA – “ORIGEM”
A SUA ARTE
Nasceu contigo,
Do mistério e do
Silêncio
Que te enchia a alma,
A transbordar...
NASCEU
De um inesperado
Encanto,
Da tristeza
Submissa,
Quase matricial,
Que o cativou.
O começo
De uma revelação
Que não tem fim...
Intemporal.
E ELE, CRIANÇA,
Fascinado
Pelo teu olhar
Profundo,
O teu ímpeto
Imparável,
Fúrias
Quentes,
Cabelos negros
Desgrenhados
À solta
Sobre um corpo
Incerto,
Seios generosos
Que anunciavam
O nascimento de um
Poeta...
NASCEU CONTIGO,
Sim,
No teu regaço,
O poeta,
Aninhado
Na incerteza,
Na bruma
densa
Do encantamento.
DEPOIS CRESCEU
E quis a perfeição,
Seduzir-te
De longe,
Através do vento
Que te soprava
Na alma
Atormentada,
Com palavras cálidas,
Mas tristes,
Ritmadas
À medida que te
Ia perdendo
No implacável
Tempo da renúncia.
ACOLHESTE
A tormenta
No dia-a-dia
(Eu sei),
Obsessão
Martelante,
Sofrida em palavras
Repetidas
E gastas
À exaustão
Até à fuga
Para o nada...
...................
Cheio de tudo
O que não pudeste
Ou não quiseste
Ter.
MAS LEVASTE
O poeta contigo
(E muito mais),
Grávida de palavras
Não ditas,
Olhares falhados,
Imperceptíveis
Sinais,
Silêncios gritados,
Quieta turbação,
Lava oprimida
No centro de um
Vulcão
Que te alimenta
E consome
Nessa tua inefável
Solidão!
E O POETA
Capturou-te
Dentro de si
Para te libertar
Com metódica
Persistência
Em poemas,
Nuvens
Cintilantes
Que espalha
No teu céu,
Sobre ti,
Para te refrescar
A alma
Incandescente.
E EU, SEU CONFIDENTE,
Vejo-te só,
A olhar
O céu da minha
Janela,
As nuvens brilhantes
Do poeta,
À espera
Da chuva
E dos trovões
Que anunciem
Raios de luz
Sobre o teu olhar...
E TU, ALI,
Pensativa,
Silenciosa,
Taciturna,
A rever nelas
Um passado
Que nunca existiu,
Porque tudo tiveste
E tudo se perdeu.
MAS O PASSADO,
Ah, o passado
Anuncia-se
Agora,
Na primavera,
Em metamorfose,
Como ressurgimento,
Cântico
À eternidade,
Onde um dia,
Na solidão do teu
Destino,
Te reconhecerás...
.................
Talvez com um
Sorriso
Um pouco triste!
Mas não será tarde
Demais
Porque é o tempo
Do reencontro.

“Onde te vejo”. Detalhe.
COMO TE VEJO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Trono”. Original de minha autoria para este Poema. Março de 2019. Para ouvir o poema pela voz do autor:

Trono. Jas. 03-2019
POEMA – “COMO TE VEJO”
COMO TE VEJO Na minha imaginação? Sentada num trono, Hierática, Sorriso formal, Parca em palavras, Muito bela, Quase irreal... ................. Como te sinto! BELEZA FRIA, Marmórea, Pele desenhada A rigor e A cinzel Por escultor Que te perscrutou A alma Desnuda Nos confins Enigmáticos Do teu ser. FICOU-TE A beleza No perfil, À superfície, Onde ainda te Vislumbro Na cíclica Neblina Do meu olhar! E CRIAS ROUPAGENS De mil cores Que descem Do trono E te gritam Ao mundo, Escondendo A solidão Da tua alma, A queda De um anjo No poço fundo De uma velada Melancolia. NÃO HÁ FUGA Possível Para o reino Das formas puras Quando falta O sopro Que anima Os voos Da fantasia Para o infinito De um espaço Sideral. MAS EU VEJO-TE Sempre Num trono Dourado Sentada na ilusão De conquista Do mundo À medida que te Vais gastando Na voragem do Tempo Que te atira Para fora A vaguear Na cidade Em busca Das formas Perdidas... ...................... Para o teu mirífico Reino. SERÃO SÓ SINAIS De fumo Que se elevam No horizonte A anunciar-te, Levados pelo vento Que te sopra Na alma, E que clamam Por atenção? AH, COMO GOSTARIA De os ler, Os sinais, Na exegese De um oráculo Promissor! MAS O TRONO Tem paredes subtis, Leves e frágeis, Tem rituais, Tem ouro E muito mais, Tem cânticos E tem vestais, Orações, Sacerdotes, Musas E catedrais... E FICA LÁ EM CIMA No Monte Onde o ar é Rarefeito E os horizontes Não têm fim Porque tocam A linha do infinito... ..................... E turbam a alma! ALGO ME DIZ Que ao trono Onde te vi Não voltarás Porque desceste Ao vale Chamada pelos arautos Das formas vazias, Apóstatas, Timoratos Da montanha Sagrada, Das vertigens E das tonturas Pela proximidade Da sideral E mágica Abóbada celeste Que nos arrebata A alma. A MONTANHA Não se deixa subir Duas vezes Na procura de inspiração, Sabias? O trono muda De cor E de oficiantes, Como se a vida Lá em cima Tivesse um único Ciclo de tempo Que não podemos Abandonar. SERÁ ESSE O TEU DESTINO? Não sei. Mas na montanha Há um trono Onde nos sentamos Uma única vez...

TARDO A ENCONTRAR-TE
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração. “Noite”. Original de minha autoria para este Poema. Março de 2019. Para ouvir o Poema, pela voz do Autor:

“Noite”. Jas. 03-2019
POEMA – “TARDO A ENCONTRAR-TE”
TARDO A ENCONTRAR-TE
Porque não sei
Como procurar-te
Levado
Por um poema...
NÃO É A VONTADE,
Mas o destino a marcar
Os passos que
Eu darei
Ou que nunca
Ousarei
Nesta estreita
Vereda
Da minha vida.
E TU SABES
Que não sei
Mas sabes por onde
Andei
E me perdi,
À procura do que
Não podia ter
Pra preservar
O que não quis
Apenas
Dentro de mim.
ATÉ QUE TE REENCONTREI
No fim de um caminho
Que já nem sei se
Trilhei
Ou se abandonei
Antes de um qualquer
Início.
ÀS VEZES ENCONTRAVA-TE.
Encontros fugazes,
Onde o teu brilho
Cegava
Por fora
E iluminava
Por dentro...
....................
E cantava-te!
MAS NÃO SEI
Se te quero
Para nunca
Te ter,
Sentir saudades
Logo ao amanhecer
Do perfume da aurora
Quando te reencontre
Na memória fresca
Dos afectos
Indefinidos...
....................
Os mais perfeitos!
SIM, DEIXO-ME IR
Nas mãos do destino,
Bem sabes,
Mas há sempre
Um súbito
Sobressalto
Quando o real
Nos atropela
Por dentro
E tudo se torna
Inóspito...
.................
Então eu tenho
Saudades de ti!
SE NÃO ME DEIXO IR
Viajo para outros
Lugares,
Tenho sempre
De viajar
À procura de mim,
Dum espelho onde
Me veja por dentro
A olhar-te
Por fora,
À espera do próximo
Sobressalto...
...................
Que nunca demora!
AH, COMO ME ESCASSEIA
Esse véu que te cobre
O rosto
Quando te quero
Pintar com palavras
E te vejo
Nua,
Com a alma a tiritar,
À mercê dos sobressaltos
Que te marcam
Como sulcos,
Cicatrizes ásperas
Da vida.
MAS EU PROCURO-TE
Com disfarçado
E tímido
Olhar,
Perscrutando-te
A alma
Que se aninha
Em ti
Para te proteger
Do risco da beleza
Exposta
Como fractura,
Aquela que os poetas
Cantam
Quando sentem a
Liberdade
Por perto.
TALVEZ A NOITE
Te sirva de véu
E te cubra as cicatrizes
Da vida,
Luz coada pela
Penumbra
Que te amacia
A pele
Encrespada,
Te devolva como
Sonho
Acetinado
Onde te reinventarei
Como mulher
Desejada...
....................
Para além do bem
E do mal.
MAS EU NÃO SEI,
Tenho medo
Dos sobressaltos,
De ser atropelado
Na esquina de um
Inocente
Jogo sedutor
Que te cative a
Alma
Já em fuga
Para o infinito
Que se cruza
Nos nossos olhares...
....................
Intermitentes.
TARDO A ENCONTRAR-TE
No bulício dos nossos
Dias...
...................
Até que no amanhecer
De um poema
Te encontre
E te diga
Com olhar
Submisso:
Meu amor!
Mas talvez já seja
Tarde demais...

SOLIDÃO
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Evasão". Original de minha
autoria para este Poema. Março de 2019.
Para ouvir o Poema, dito pelo autor:

Evasão. Jas. 03-2019
“Os poetas são impudentes em relação às suas vivências: exploram-nas” (Die Dichter sind gegen ihre Erlebnisse schamlos: sie beuten sie aus) "O que se faz por amor acontece sempre para além do bem e do mal" (Was aus Liebe gethan wird, geschieht immer jenseits von Gut und Böse). F. Nietzsche, Jenseits von Gut und Böse (Para além do bem e do mal), 1886. IV. Sprüche und Zwischenspiele: 161. 153.
POEMA – “SOLIDÃO”
PERGUNTEI AO POETA
Sobre a minha
Solidão...
...............
E sabes
O que me disse?
Que ela tem
Os sete véus
Pra que ninguém
Atravesse
O sagrado
Do seu halo...
.....................
Um oásis no deserto,
Confessou!
PERGUNTEI-LHE
Pela dor
Que me resta,
E eu afago,
Deste amor
Que me veio
Ao encontro
Como dádiva do céu...
........................
E sabes
O que me disse?
Deixa lá,
Se já não tens
Alegria
Pra encantar
Quem tu amas
Resta-te a dor
Em plena solidão,
Quente
Como lava
De vulcão
Em humana
Eternidade,
Fora do mundo,
Da cidade,
Em suave e doce
Evasão!
MAS DISSE
Mais.
Não a procures,
Não lhe fales
Nem a vejas
A não ser como
Poeta,
Nesse intervalo
Da vida
Que te torna
Intangível
Como pura
Silhueta!
FINGE
Que não a sentes
E confessa-lhe amor,
Sobe às nuvens
Pelas linhas
Do seu rosto e
Põe asas
No seu nome,
Mas finge
Que não o dizes
Pra que não
Te reconheça...
E SE UM DIA
Teus olhos
Pousarem nela
Finge outra vez,
Finge que
Não a vês,
Que estás ali
Por acaso,
Como se fosse
À janela,
Que o destino
Te levou
Para fora
Do teu mundo
À procura
De desejo
Que resgate
A solidão.
PERGUNTEI, DE NOVO,
Ao poeta
Sobre esta solidão
Que cresce dentro
De mim...
..................
E sabes
O que me disse?
Que também ele
Ia nu,
Viajando nas estrelas,
Com asas
De sete véus,
Transparentes
Como ar,
Mergulhando no azul
Para ver se
A cantava
Sentado no horizonte,
A tocar o infinito...
QUERO SER
Como falou
Zarathustra,
Sussurrou...
.....................
Que da paixão
Saia virtude,
Dos demónios
Nasçam anjos,
Da solidão
Liberdade,
Que na dor
Cresça alegria
Cada ano,
Cada dia,
Enquanto o poeta
Viver,
Enquanto a possa
Cantar...
ENCONTREI UM DIA
O poeta
A caminho
Das estrelas.
Perguntei-lhe
Sobre a minha solidão.
Bateu as asas
E disse:
Voa pra junto de mim
Com asas de sete véus
Que o azul deste
Meu céu
É a tua evasão!

Evasão. Detalhe.
NÃO SEI!
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Incerteza”. Original de minha autoria para este Poema. Março de 2019.

“Incerteza”. Jas. 03-2019
POEMA – “NÃO SEI!”
SE ME PERGUNTARES Por que razão Eu te amo Respondo-te, Com espanto, “Não sei!” SE ME PERGUNTARES Pelo que dói Neste tão cego Amor, Respondo-te Que não sei, Que sinto Pungente dor Esparsa Sobre o meu corpo Como sentido Penhor De um rapto Imprevisto Que nunca há-de Ter fim... SE ME PERGUNTARES, Depois, Se eu sinto A tua falta Respondo-te Logo que sim, Que tenho sempre Saudades Mesmo quando Eu te tenho Aqui bem junto De mim. “- PORQUE SOU EU A mulher Que te merece Atenção?” AH, ISSO EU SEI, Meu amor... .................... Foi o destino E a minha salvação, Esta dor Que não me vem Da vontade, Da procura Da verdade, De um saber Que não terei... ..................... E tudo o mais Eu não sei... ................... Quando te beijo Na alma! “- O QUE SABES TU DE MIM, Neste teu Desejo ardente?” POUCO OU NADA Sei de ti E sabendo O que não sei Não te amaria Às cegas, Assim tão Intensamente! AMAR-TE É como beber Tempestades, É dor que Não se sabe Onde está, É mistério Revelado, É encanto Permanente, O reverso Do saber, Luz intensa Que me cega E também Fascinação, Anúncio Que nunca acaba, Lado oculto Da razão... “- PRA QUE ME QUERES, Então, meu amor?” EU QUERO-TE Para te querer, Simples vontade De ti Como fim Do meu viver, Sentir saudades Do que estou Sempre a perder, Olhar-te nos olhos E ver neles O teu mundo... E o mundo Dentro deles, O brilho Embaciado De um olhar Onde me perco... E SE UM DIA Eu souber Por que razão Te amei Chorarei Eternamente Porque então Descobrirei Que por isso Te perdi...

“Incerteza”. Detalhe.
ANOITECEU…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Uma Janela no Jardim”. Original de minha autoria para este poema. Fevereiro de 2019.

“Uma Janela no Jardim”. Jas. 02-2019
POEMA – “ANOITECEU…”
É DAQUI QUE EU Te vejo, Ao luar, Sempre que me Anoitece Na vida. UMA JANELA, Solidão, Luz coada na Vidraça Onde pressinto Que te dás, Velada, Ao meu olhar Interior, Tão discreto Como a noite Que me cai Fundo Na alma! TENHO A MEU LADO Uma flor, Uma rosa Iluminada... A que o destino Me deu Por companhia, Irrompendo, Noite escura, Como vela Que perece Pra m’iluminar O caminho... SIM, ANOITECE Nas nossas vidas, Em todas, Bem sei, E também eu já Não te vejo Nem te ouço Ao entardecer, Porque passou Tempo demais... SE AINDA TE PRESSINTO Em tão ténues Sinais Que me chegam Aos sentidos É porque tu Já não me sais Da memória Onde sempre Te visito... MAS AGORA, JÁ SOBE, Sim, sobe, Suave e Subtil, Um perfume No Jardim, Aroma doce, Anúncio de Florescência A despontar Nua, Como eu, Para o que Um dia Haverá de Germinar... A JANELA ACENDE-SE Com esplendor! Luzes, Brilho intenso, Cores Em catadupa, Talvez uma nova Vida Possa ainda Renascer No meu jardim... ............... Simples, Como uma flor. A ROSA E A MAGNÓLIA Ganham luz, As pétalas quase Gritam Aos sentidos E anunciam-te, Imprevista Alegria, Cor da minha alma, Aroma intenso, Brilho profundo... .................... E tu renasces, Bela como sempre, Quando o véu Te cobre o rosto Macio, Sem marcas De vida sofrida, Beleza de perdição Que devolve, Como sopro, Encanto À minha vida E reparo à Solidão. OLHO A JANELA De longe E um perfume De rosa Desprende-se, Denso, A meu lado, Inebriante... .................... E incendeia-me A alma No mágico Anoitecer... ANOITECEU, SIM, MEU AMOR... ............... Mas à noite Segue-se, Sempre, Implacável E silenciosa, A madrugada E eu desperto Do torpor De um desperdiçado Amor Para renascer De novo Deste lado Como flor Que desponta, Ao relento, No jardim Da minha vida!

PALHAÇO
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Máscara”
Original de minha autoria
para este Poema. Fevereiro de 2019

“Máscara”. Jas. 02-2019
POEMA – “PALHAÇO”
COMPREI UMA MÁSCARA,
Pu-la no rosto do
Meu amado poeta
E ele não a enjeitou.
Ainda por cima
Me disse
“- Sou eu, sou...
........................
Como nas palavras
Que digo
Também meu rosto
Mudou".
"NÃO ESPERAVAS
Ver-me assim!
Vá, confessa
O teu espanto!
Luzinhas na minha
Cabeça,
Rosto tão
Desfigurado,
Cor, tanta cor,
A que apeteça
Pra sufocar
Esta dor
Sempre que ela
Apareça
A pedir o meu
Cuidado".
"ADOPTEI ESTA FIGURA,
Apresento-me assim,
As outras
Nada te dizem,
Com esta
Olhas pra mim!"
"PALHAÇO
É O QUE SOU,
Falo a
Surdos e mudos
Que não ouvem
O que digo
Nem me dizem
O que quero
Como se fosse
Mendigo
Do que, afinal,
Nem espero".
"VALHA-ME POIS
ESTA MÁSCARA!
Assim rio
Desta vida,
Rio de ti
E de mim,
Da chegada
E da partida,
Dos abraços,
Das palavras...
..................
E também da
Despedida!"
"SOU PALHAÇO,
É o que sou!
Entretenho-me
A cantar...
E se ouvires
Este canto
Arlequim
É seu autor...
......................
Não t’importes
Nem o chores,
Pois o que diz
No poema
É para espantar
Sua dor!”
A MÁSCARA
É o seu rosto,
Colou-se-lhe
Logo à pele
Com a cola
Do desgosto
E por isso
Já nem sabe
Se este rosto
É o dele.
COMPREI UMA
MÁSCARA
Luminosa
No mercado
Da minha vida,
Ponho-lha sempre
Que posso,
À chegada
E à partida!
NÃO LHA TIRES
Que rasgas a sua
Alma
Pois se o canto
O liberta
É a máscara
Que o salva!

“Máscara”. Detalhe.
“OLÁ!”
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Raízes”.
Original de minha autoria
para este poema. Fevereiro de 2019

“Raízes”. Jas. 02-2019
POESIA – “OLÁ!”
PEDI-TE UM DIA
Que me desses
Um “Olá!”,
Com súplica
Em magnólia
Pra romper
O teu silêncio
E sarar
Esta ferida
Que me causa
Tanta dor...
E “OLÁ!” TU ME
Disseste,
Tão rápido
Como o vento
Que me sopra
Sobre a alma
Quando cruzo
O teu olhar!
BALBUCIEI
O teu nome
Já distante
Do “Olá!”
Sem saber
O que fazer,
Se chamar-te
Para mim
Ou para longe
Partir...
...........
Não sabia
Que dizer!
MAS QUANDO VIREI
O rosto
Vi-te de novo
Austera,
Muito fria
E distante...
...............
Ignoravas
O passado
Que passara
Nesse instante!
JÁ MUITO LONGE
De ti
Voltei a pedir
Um “Olá!”,
Mas já não
Me respondeste...
.....................
Caíra um raio
Do céu
Que rasgou
Esse teu véu
Donde ainda
Me olharas...
E DEPOIS...
Tantos “Olás!”
Te pedi,
Tantas vezes
Te chamei,
Os poemas
Qu’escrevi
Palavras
Que derramei...
....................
Sabendo nada
De ti!
TALVEZ O VENTO
Te chame,
Talvez a flor
Te seduza,
As raízes te
Comovam
Ou o poema
Te diga
Que nunca
É tarde
Demais
Pra que no eco
Te encontre...
.................
Meu amor!

“Raízes”. Detalhe.
O POEMA
Poema de João de Almeida Santos Ilustração: “Ela”. Original de minha autoria para este Poema. Fevereiro de 2019.

“ELA”. Jas. 02-2019
POEMA – “O POEMA”
PRA QUE SERVE O meu Poema Se ela, Do outro lado Da rua, Não o vê e Não o ouve, Não lhe sente O perfume Que a alma Inebria? AH, MAS EU SINTO-A A ela Do lado de cá Do Poema E pinto-a Em aguarela P’ra que veja A minha dor... ................. Olho-a, então, Com palavras E falo-lhe Como pintor. PRA QUE SERVE O MEU POEMA? Pr’aquecer A minha alma Dizendo tudo O que sinto Mesmo quando Nos meus versos Até parece Que minto... MAS NÃO ESCREVO Pra ela Que não a vejo À janela A ver passar O poema Na rua do Desencontro... O POEMA É de quem O queira ver E ouvir-lhe A melodia, Ler ou mesmo Cantar Como uma sinfonia, É a festa Dos sentidos, É prazer, É emoção, Não o ouve Nem o vê Quem não pode Ou quem não queira... .................. Não é coisa da Razão! O POEMA É SEMPRE CANTO, Vale pela melodia, Pelos sentidos que Desperta Cada hora, Cada dia... É VIDA QUE ME LIBERTA Das amarras Da paixão Porque voo com Palavras Ao sabor da emoção. E SE TE CHAMO Ao poema É pra ter de volta O meu eco, Ouvir o som Desta dor, Decompô-la Em palavras, Anulando a paixão Num canto libertador Das amarras Da prisão. PARA ISTO EU SOU POETA, Canto pra quem Me ouve, Não espero Reacção, Porque sei que Já partiste, Me deixaste Em solidão. EM CANTO-ME Nestes poemas Pra redimir Minha dor E se a poesia Não chega, As palavras Não me bastam, Pois que seja... ................... Sou pintor.

“Jardim”. Jas. 02-2019
LUZ
Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “O Arbusto”. Original de minha
autoria para este poema, à procura
da sinestesia perfeita.
Janeiro de 2019.

O Arbusto. Jas. 01-2019
POEMA – “LUZ”
LUZ DO CÉU,
Muita luz
Descia por uma
Fresta
No coração
Do arbusto
Sobre meu
Olhar
Fascinado...
TÃO INTENSA
E brilhante
Ela era...
Como raio
(Ou quimera?)
Me cegou...
...............
E fiquei
Aprisionado!
LUZ, MAIS LUZ,
Queria eu,
Era luz que me
Faltava...
E ela
Esmoreceu
No meu olhar
Esmagado!
MAS FICOU DENTRO
De mim,
Num poema
Ou desenho
Esboçado,
Cores, traços,
palavras,
Memória que
Não tem fim...
.....................
Até que essa luz
Se apague
No arbusto
Do jardim...
LUZ, MAIS LUZ,
Insistia o poeta
Ao entardecer
Desse dia,
Quando a luz
Esmoreceu
E nela ele
Se perdia...
ERA VIDA
Que findava
Ou tempo
De despedida
Que cedo demais
Me chegava!
MAS A LUZ
Reavivou
Dentro de mim -
O meu sol-,
Renasceu
Nessas cores
E nas palavras
Que me saem
Cá do peito
E do fundo
Da memória...
.............
São poemas
Que te grito
E não ouves,
São cores
E riscos
Com que me rasgo
A alma,
São os sons
Destas palavras
Com que
Ouço o teu
Silêncio,
É pauta da melodia
Que já não sei
Soletrar...
...................
Por falta de ti,
Meu amor,
Que te negas
Ao olhar...
..............
P’ra que eu
Sempre te dance
Ao ritmo dessa
Saudade
Que me dói
Cada vez mais
Para melhor
Te guardar...
FOI ASSIM QUE
A LUZ
Voltou
P’ra iluminar
O arbusto
Que me tempera
A alma
Com suas folhas
Amargas,
Infusão de sentimento
Que me assalta
O corpo
Quando chega
A solidão...
REGRESSO, ASSIM,
Ao começo,
Tropeço na tua luz,
Ilumino-me a
Alma
E ponho fim
Ao desgosto
Dessa perda
Irreal
Que descobriu
No poema
Remédio
Para o meu mal.

Detalhe.
GEOMETRIA
Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Triângulos”.
Original de minha autoria para este
poema. Janeiro de 2019.

Triângulos. Jas. 01-2019
POEMA – “GEOMETRIA”
MEUS POEMAS
São triângulos
Perfeitos,
Geometria
De afecto
Irreal
Com três lados,
O poeta
Refractário,
A musa
Que o inspira
E a fonte
Seminal...
“ - PORQUÊ
GEOMETRIA”,
Dirias tu,
“Se o amor não
É exacto,
Perfeito e
Linear,
Linha pura
De um rosto
Que só tu podes
Olhar?”
PORQUE A GEOMETRIA
Eleva ao excelso
Paraíso,
Exactidão,
Leveza,
Rapidez,
Linhas
Rectas,
Refracção
(Como vês)
De um rosto
Divinal
Que projecto
Com a alma
No meu jardim
De cristal...
ELEVA-ME
À perfeição,
Que não é
Pecaminosa,
Distante
Da curva linha
Rugosa
Que descreve
O amor
Em gestação
Como onda
Sinuosa,
Turbilhão
Nesse vasto
Oceano
Que não ouso
Enfrentar...
E, POR ISSO,
Quando desenho
O amor
Como círculo
Perfeito,
Ângulo
Agudo do sete,
Eu perco-te,
Mesmo que o
Desenlace e
O projecte
Como linha
Que descreve
Um voo
Ao infinito
Que já transborda
De azul...
POR MAIS FIGURAS
Que desenhe
Ou fugas
Que eu encete,
Linhas no fio
Do céu,
Não encontro
O amor,
Mas projecção
Geométrica
De uma nudez
Interior
Que eu espelho
No meu canto,
Expiação
Desta dor!
NÃO HÁ AMOR
Num triângulo
Perfeito,
Bem sei,
Na aritmética
Do espaço,
Linha em fuga
De uma deserta
Rua
Para lá do
Horizonte
Dessa alma
Sempre nua...
AH, MAS NA COR...
Na cor que sinto
Bem fundo
Dentro de mim,
Como fonte
De calor
Com que me
Visto a alma
Para me agasalhar
Desta tão fria
Dor...
Sim, eu vislumbro
O amor...
.............
Nas faces
De um cristal
De onde te vejo
Em triângulos
De cor e luz,
Espelhos
Desse teu rosto
Em refracção
Luminosa
Que ao poeta
Inspira e seduz
Quando te canta
A beleza
P’ra te dizer
Do destino
A que o poema
Conduz...
MEUS POEMAS
Serão, pois,
Triângulos
De luz e cor
Que m'iluminam a
Alma
Onde te guardo
Escondida,
Para sempre,
Meu amor!

Detalhe.
PERFUME
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Perfume”. Original de minha autoria para este poema. As duas referências que gostaria de assinalar, neste poema, são as “Memórias de Adriano", da Marguerite Yourcenar (Alfragide, Leya, 2018: 72-73), e "Os Sonetos de Shakespeare" (Lisboa, Quetzal, 2016 - Soneto 54). Janeiro de 2019.

Perfume. Jas. 01-2019
POEMA – “PERFUME”
E SE UM DIA
Me perguntasse
O que é, para ti,
O amor?
Pintar
Esse teu rosto,
A retórica
Do corpo,
Celebrando-te
A cor?
OU DIZER-TE
NUM POEMA,
Retórica
Da minha alma
Que te sofre
Em dilema
Entre o silêncio
E o canto
De tão longa
Ser
Esta nossa
Despedida?
DESENHAR-TE
Como se fosses
Flor
À medida do
Desejo,
A retórica
Da cor
Que sempre,
Ao ver-te,
Festejo?
O QUE É?
O perfume de uma
Rosa,
Branca
Ou vermelha
De cor,
Que sempre
Me enche
De ti
E me perde,
Meu amor?
DESENHAR UMA
PAISAGEM
Contigo
No horizonte,
Uma brisa
Que sopra
Suavemente
Lá em cima
No meu Monte?
O QUE É PARA TI
O AMOR?
Ouvir-te
Como minha
Sinfonia
Ou sentir o teu
Silêncio,
A secreta
Melodia?
ENLAÇAR TEU CORPO
Ao meu,
Um calor
Que inebria,
Celebrar-te
Sem parar
Uma noite
E um dia
Ou projectar
No espelho
O teu corpo
Virtual,
Celebrando
Teu perfil
Como minha
Alquimia
Num estranho
Ritual?
SABES O QUE É,
MEU AMOR?
Talvez não...
..................
De tanto te
Celebrar,
Pintar,
De tanto cantar
O teu rosto,
A beleza seminal,
Numa tela,
Num ecrã
Ou no meu triste
Mural...
................
Este amor
Pode até ser
Negação...
SAI DE TI
E deixa-te ir,
Vagueia
A vida
Com alma,
Não celebres
Com tristeza
Cada tua despedida
Como se o tempo
Parasse
Para não seres
Esquecida...
SAI DE TI, SIM!
Procura
O que o mundo
Te dará
Pois essa será
A tua certa
Medida...
AMOR TALVEZ SEJA
O perfume
De uma rosa
Em gestação,
“Brando odor que
Nela habita”,
Cor intensa,
Forma bela,
Palavra que
O poema
Sempre hesita,
Mas interpela
Em versos que
Te destilam
Verdade
Quando a vida
Se resolve
Na escrita...
...................
De uma tão funda
Saudade!

PINTO-TE COM PALAVRAS!
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Chakra”. Original de minha autoria para este poema. Janeiro de 2019.

Chakra. Jas. 01-2019
POEMA – “PINTO-TE COM PALAVRAS!”
TU PINTAS-ME... Eu bem sei, Gastas a alma Na cor E nos riscos Que te fazes Para assim Me compor, Elevar em Catarsia, Parar a dor Que te canto, Choro triste, Poesia. “- E TU CANTAS Meus pobres Traços, Euforia De paisagens, Rostos perdidos No tempo, Cores que Tapam A tristeza De te perder Para sempre Como minha Melodia”. SIM, EU CANTO Todas as cores Com que te pintas A vida, O que te nasce Das mãos Sempre já em Despedida... E CANTO As minhas dores Com essas palavras Gastas Que são como Os sabores Com que tempero O destino De ti sempre Tão ausente Como laico Do divino! SIM, EU CANTO A vida Sem a tinta Que é, afinal, Um desejo... Flui-te das mãos, Expõe-te a alma (Um lampejo!) Ao poeta Que te pinta Em versos Como cometa Que nasce E morre Consigo Como frágil Borboleta Que perdeu O seu abrigo... PORQUE DESENHAS A alma Com silêncio Que tu logo Cobres De tinta P’ra que eu já Não te veja Em meus versos Enganados E, assim, Já não te minta... MAS EU VEJO-TE Sempre Num poema Para além da Tua cor, Por isso vivo Em dilema: Sou poeta ou Pintor? SE TE PINTO, Cubro O silêncio De cor, Se te canto Sou eu mesmo... .............. Um poeta, Fingidor!
ESTA NOITE EU SONHEI-TE…
Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Regresso a Pasárgada”. Original
de minha autoria para este poema. Dezembro de 2018

“Regresso a Pasárgada”. Jas. 12-2018
POEMA – “ESTA NOITE EU SONHEI-TE…”
ESTA NOITE EU
SONHEI-TE...
....................
Já passara
Tanto tempo
Que parti
Do meu nordeste,
Do jardim do
Paraíso!
COMO SE NA
VASTIDÃO
Do espaço
Entre o sonho
E tua vida
Não houvesse
Essa tristeza
De tão longa
Despedida...
QUE ESTRANHO
ESTE SONHO,
Pois julgava-te
Perdida
Lá no fundo
Da memória,
Onde a imagem
De teu rosto
Não me fosse
Devolvida!
AH, QUE BOM
SONHAR-TE,
Recriar
O que perdi,
Virar tudo
Do avesso,
Reviver
O teu sorriso
E ficar-me
Por aqui!
ESTA NOITE
EU SONHEI-TE
E gosto
De o dizer,
É como ter-te
A meu lado
Para não mais
Te perder
Porque nasci
P’ra te amar...
...................
Esse dom
Que faz sofrer!
AH, QUE SONHO!
Ficou-me colado
Ao corpo
Mesmo quando
Acordei,
Foi um prazer
Infinito,
Pois tinha
O doce sabor
De alguém
Que eu amei.
SONHEI-TE,
Senti-te
Dentro de mim...
.................
Mas eu não sei
Por onde andas,
Se te ganhas
Ou te perdes...
..............
E esta dor
Não tem fim...
PERDI-TE
De modo diferente,
Bem sei,
Porque nunca
Te encontrei
Na ponte
Desse teu rio
Que eu nunca
Atravessei.
ESTA NOITE EU
SONHEI-TE...
...........
Voltaste
De longa ausência,
Voltas sempre,
Sim, eu sei,
Porque de mim
Não saíste,
Do dia em que
Te encontrei.
MAS PARECE
Que te esfumas
No poço fundo
Do tempo,
A tua imagem
S'esbate
Nesta retina
Já gasta,
Tua voz é
O silêncio
Deste som
Que me consome,
Teu olhar
Fica cerrado
Para nunca mais
Me ver,
Braços caídos
No corpo
Para não me
Abraçares
Nem que seja
Na memória
Do que nos sobra
Da vida!
É ASSIM QUE
EU TE SONHO,
Vendo-te um pouco
Perdida,
Comigo sozinho
No cais
Com a alma
Adormecida,
Porque daqui,
Deste meu
Sonho,
Tu já não sais,
No resto da
Minha vida!
ESTA NOITE EU
SONHEI-TE
Porque estás
Longe de mim,
Não foi por
Vontade minha,
Foi a vida,
Foi assim...

ENCONTRO
Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Dame mit Ohrring”. Original
de minha autoria para este poema.
Dezembro, 2018.
Exactamente há um ano, publiquei o poema “Teus Olhos”, agora
recriado sob a mesma inspiração, mas ilustrado, não com “Dame
mit Muff”, de Gustav Klimt, que aqui evoco e invoco, mas por este
quadro de minha autoria. O percurso de um ano, aqui plasmado,
quarenta e cinco desenhos depois, de um atrevido aprendiz de pintor
que, em grave estado de necessidade poética, se lançou na ousada
aventura de ilustrador da sua própria poesia!

“Dame mit Ohrring”. Jas. 12-2018
POEMA – “ENCONTRO”
CHEGASTE SÓ,
Rápida,
Deusa
No jardim,
Asas nos olhos,
Um horizonte
Sem fim...
A LUZ MORNA
Do entardecer
Deu brilho
Ao macio
Do teu rosto
Para o embelecer
Na penumbra
Que descia
Nesse cair
De sol-posto.
TUDO É BELO
Em ti,
Quando te deixas
Ir,
E vais, livre,
Por aí,
Serena
E distante
Da fria rotina,
Seduzida pela cor
Que sempre
Te cativou
E há muito
Te destina...
“ – ESTÁS MODERNO,
Meu amigo!”
Disseste, com
Malicioso sorriso,
Suave porto
De abrigo
De que tanto
Eu preciso...
VI-TE LEVE
Como traço
De pintor
Em aguarela,
Livre como
Pagã divindade,
Suave e doce
Como mulher
Sedutora
Em terna
E já madura
Idade...
VIMOS MIL
Quadros
Luminosos
E vi teu rosto
Em contraluz,
Esse perfil
Que há muito
Me seduz,
Traços finos em
Deslumbrante
Harmonia...
................
Era assim
Que nesse
Entardecer
Eu já te via!
SENTI-ME SUBIR
Ao céu,
Privilégio
Inesperado
Esse dom
Imerecido...
............
Ver-te ali
A meu lado
E sentir-me
Tão docemente
Perdido...
VEJO-TE, SIM,
Às vezes,
De semblante
Carregado,
Sulcos marcados
No rosto,
Recolhida
Num silêncio
Ecoado,
Dias cinzentos
Quando a luz
Te põe órfã
Por momentos,
Em sofrida
Melancolia!
CHEGASTE SÓ,
Nesse dia,
Mas cintilante,
A transbordar
De luz
E alegria.
LI-TE NA ALMA
Com o olhar,
Respirei contigo
O mesmo ar,
Dei vida
Ao que eu já
Pressentia...
................
Nesse morno
Entardecer!
QUANDO TE VEJO,
Assim,
Em sonho,
Nestes dias
De leveza,
Posso dizer
Que te amo,
Que te toco,
Ao olhar,
Que te beijo
Na alma
P’ra melhor
Te abraçar,
Que te digo
O que não ouso,
Ao sabor
Do vento
Em cada
Amanhecer
E que acordo
Sempre
Ao relento
Sob o céu
A descoberto
Para logo,
Bem cedo,
Ao lusco-fusco,
Eu te ter...
NO REGRESSO,
Parei a teu lado,
Por uns momentos,
Olhei-te
Sete vezes,
Um movimento
Sem fim,
Repeti
O teu nome,
Olhaste p’ra mim,
Perdi-me
Do mundo,
Levei-te ao jardim,
Colhi duas rosas,
Respirei
Bem fundo,
Um acre aroma
Me inebriou,
Beijei-te no rosto,
Meu peito parou...
MAS LOGO PARTISTE
Sozinha a voar
Ainda mais bela,
Comigo a sonhar,
Teus olhos
De mel
Em rosto sereno
E sempre feliz,
De alma bem cheia,
Um perfil de deusa
Como eu te quis...
....................
Até que o teu nome
Comigo partisse
P’ra este poema
Onde te recebi
Com estas palavras
Que nunca te disse
Mas que te ofereço
No que agora
Eu (já) escrevi!

FUGA
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Corpos”.
Original de minha autoria
sobre bailado de
Angelin Preljocaj para este poema.
Dezembro de 2018.

“Corpos”. Jas. 12-2018
POEMA – “FUGA”
SINTO A TUA FALTA
E como a sinto
Eu danço e danço
Até cair exausto
No palco
De um poema.
SINTO O TEU SILÊNCIO
Murmurado
E como sinto
O meu canto
É triste,
Amargurado!
MAS NÃO SINTO
A tua pele
E como não a
Sinto
Eu pinto-a
De cores intensas
Numa folha
De papel.
NÃO OUÇO
A tua melodia
E como não a
Ouço,
Nem que seja
Por um dia,
Eu caio logo
Em silêncio
Para melhor
Te sentir,
Cá dentro,
Na minha fantasia.
FAZ-ME FALTA
A tua voz,
O teu sorriso...
..................
E como
Nunca me dizes
O nome
Digo-to eu
Num poema
Tão sofrido
Que busco
Um paraíso
Onde me sinta
Perdido!
DA TUA FALTA
Nasce em mim
A orquestra
Para uma
Sinfonia,
Corpos que
Dançam
Abraçados
Ao sabor da fantasia,
Andamentos
Sem fim,
Em catarsia,
Contrapontos de
Silêncio,
Luzes e cores,
Aromas e
Flores...
..........
Neste palco
Do poema!
TU FALTAS-ME
E eu revivo-te
No canto e
Na cor,
No silêncio e
Na dor,
Na dança
E no amor,
Na poesia...
...............
Em palavras
Que lanço
Ao vento
Construindo
As paredes
Desta minha
Utopia.
TUDO RECRIO
P’ra te reencontrar
À distância
De um poema,
Cantar-te,
Dançando
Com palavras,
Dizer-te
Em silêncio
Para melhor
Ouvir
O que nunca
Me dirás.
VISITO-TE, ASSIM,
Das mil maneiras
Com que te
Procuro
E te digo,
Encerrado
Numa torre de marfim,
Nesta teia
Enredado
P’ra melhor
Te reviver,
Com a leveza
Da arte,
Cá bem mais
Dentro de mim.

I N O C Ê N C I A
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Loubotinhas”. Original
de minha autoria para este Poema.
Dezembro de 2018.

“Loubotinhas”. Jas. 12-2018
POEMA – “INOCÊNCIA”
ENTRE LIVROS
E POEMAS
Encontrei-as,
As botinhas,
Marcas puras
De infância
Que traçaram
Um caminho
Logo aos primeiros
Passos...
...............
Com o selo
Do carinho!
DEI-LHES COR,
A que pude
Encontrar
Nesta vida
De aventura,
E com ela
Eu pintei
As chegadas
E partidas,
Encontros
E despedidas
Na sua forma
Mais pura.
ENCONTREI-AS
E lembrei-me
Do dia
Em que eu
Te conheci,
Do sorriso
Que esbocei,
Da timidez
Que travei
P’ra te dizer
Do afecto
Que logo te
Prometi.
AGORA, REGRESSO
A elas,
Aos passos
Que ensaiei,
Às palavras
Que tentei...
................
Ao beijo
Que não te dei,
À tristeza em que
Caí...
É DE PUREZA
Que falo,
Meu amor,
Antes de a vida
Me pôr
Laços presos
Ao meu corpo
Que já não sei
Deslaçar
A não ser
Em poesia
Onde posso viajar
P’ra muito
Perto de ti.
COM ESTAS BOTINHAS
Eu voo
E regresso
Ao paraíso,
Posso dizer
Que te amo
E mais dizer...
...............
Não preciso!
EU GOSTO DE
GATINHAR COM
A ALMA,
Descobrir
O que não sei,
Encontrar-te
Outra vez,
Dar um passo,
Dois ou três,
Caminhar
Sempre inseguro,
Tropeçar
Quando me vês,
Cair prò lado
Escuro
Quando partes...
...................
Ou não me crês!
EU GOSTO DELAS
E por isso as pintei
Para tas oferecer,
Um sorriso
De criança
Antes de adormecer,
Um sinal
De esperança...
...................
E de tanto
Eu te querer!
REGRESSO
À inocência
E vejo-te
A partir dela
E assim já não
Te esqueço
Porque com
Estas botinhas
Posso voar
Lá de cima,
Da que foi
Nossa janela!

NA BRUMA DA MEMÓRIA
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Luar”. Original de minha
autoria para este poema. Dezembro de 2018.

“Luar”. Jas. 12-2018
POEMA – “NA BRUMA DA MEMÓRIA”
FUI LEVAR-TE Uma rosa Aos confins Do meu afecto. Desci fundo Na memória Onde ainda te Guardava Como se fosse Teu tecto. PROCUREI-TE Na bruma Espessa Que caía Sobre mim E quase não te Encontrei, De tão longa Despedida... ............... Uma saudade Sem fim! PERDI-TE O rasto E o perfil, Até teu nome Perdeu cor, Teus olhos Luziam, Incertos, Nesta neblina Da dor... PERDI-TE A VOZ E a tua Melodia, Quase tudo... ................ Mas, no fim, Não te perdia! PORQUE ERAS Uma ideia Que me sobrou Do afecto Que por ti Sempre senti, Construção De arquitecto Para nunca Te perder Desde o dia Em que te vi. NO MEIO DA NEBLINA Esfumava-se O teu rosto De tanto eu Te perder, Incerto O cintilar De teus olhos Que eram negros Nessa ideia De te ver. ERA BRUMA Indefinida Este meu Esquecimento, Mas sobraste Como ideia Nesse preciso Momento. E VOLTEI! Eu volto sempre! É desejo De te ver, Dar-te corpo Nas palavras Com que te quero Dizer Em cada dia, Depois de, no fim, Te perder (Eu bem sabia). AGORA, DESENHO-TE Com palavras e Com cores, Com paisagens Que tenho dentro De mim, Com rostos E com flores, Aromas, Um passeio Com pavões, Utopias, Gritos d’alma, Emoções... .................. P’ra te recriar Com magia E contigo Caminhar Lá mais no alto, Na fantasia, Onde vive Essa ideia Que procuro Quando te quero Encontrar! VOO COM UMA Rosa, Disfarçado de Insecto, P'ra te ver Ali de perto, Olhos negros, Cintilantes, Fugidios Ao fascínio Do jogo da sedução Numa noite De luar... ............ E talvez De perdição! MAS TEUS Olhos Apagam-se Na fria penumbra Da memória E, então, Pinto-os Com as cores Do arco-íris P’ra melhor Te inventar Banhada Pelo sol Nas mil gotículas Que brilham Dentro de mim, Ponte luminosa Donde sempre Te alcanço P’ra me resgatar Com flores Do teu quimérico Jardim. TOMA ESTA ROSA, P'ra que sintas O aroma Do meu estro E como, ausente, Eu te guardo Tão perto de mim!
O PAVÃO
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Azul no Parque”. Original de minha
autoria para este poema. 25 de Novembro de 2018.

“Azul no Parque” – Jas. 25.11.18
POEMA – “O PAVÃO”
FUI AO PARQUE
Do Mar’chal,
Logo ao amanhecer,
Num triste dia
D’outono,
À procura do pavão...
...........................
Eram muitas as saudades
Pois passara mais
De um verão!
ENCONTREI-O
Por ali,
Sozinho,
Também triste
Como eu
(Ou talvez não),
E vi nele,
Ao caminhar,
As cores fortes
Desta minha
Solidão...
PORQUE É
Tão belo
O meu pavão?
Porque se exibe
E me seduz,
Me enche
A alma e o olhar
De tanta cor,
De tanta luz?
Talvez não,
Pois esse seu
Porte austero
Estranha
A minha alma
E gela-me
A emoção!
MAS SEGUI-O,
Nesse dia,
Parque fora
No silêncio
Luminoso
Da manhã...
.......................
Folhas caídas
No chão
Acolhiam
O nostálgico
Passeio
De um poeta
E um pavão...
NESSE JARDIM
Do encontro
A beleza
Despontava
Em seu ritmo
Natural...
..................
Passos lentos
E cuidados,
Pose austera,
Altivez,
Um singelo
Ritual!
CAMINHEI COM ELE
Horas a fio,
Lado a lado,
Sem destino,
Revendo
As cores que
Um dia
Te emprestou
Num jogo
De sedução
Que à arte
Te levou
Como torrente
Sensível
Ou lava
De um vulcão!
JÁ NO ALTO
De um muro,
Oráculo,
Arte pura,
Aparição,
Perguntei-lhe
Qual a cor
Da tua alma
E ele mostrou-me
(E com razão)
Esse azul
Tão luminoso
Onde sempre
Se esfumam
Os traços
Da tua mão...
...................
E logo,
E por encanto,
Eu vi
Espelhado
O teu rosto
Nas cores vivas
Do pavão!

LUA
Poema de João de Almeida Santos, inspirado no quadro de Paula Rego “O Baile” (1988). Ilustração: “Mouvement”. Original de minha autoria para este Poema (Composição sobre bailado de Jerome Robbins/Philip Glass - Ópera Nacional de Paris - 2018). Novembro de 2018.

Mouvement. Jas. 11.2018
POEMA – “LUA”
DESCI À PRAIA Da meia-lua A ver se te via Num anoitecer Que, com tanta luz, Há muito Não acontecia! ERA DA LUA-CHEIA A luz que havia, Gente que dançava Em dia de festa, De som e de cor, E se divertia! NO CLARO DE LUA Vi um rosto De mulher Que não era Estranho, Um perfil qualquer... ERAM NEGROS Os seus olhos, Boca Rúbida e quente, Pele macia Em corpo ardente, Cabelos ao vento... ..................... Vi que era ela A deusa do baile, Luz branca da lua, Espelho de mar... ...................... E logo minh'alma Procurou a sua Nesse cintilante Brilho do luar... COM ELA DANCEI, Saltei e cantei Em alegria, Respirei a fundo Essa melodia Que me inspirava Numa bela praia Em forma de lua Que me seduzia. VI O SEU SORRISO Em perfil na lua Que eu desenhei, Uma luz intensa Me alumiou Quando eu dançava Essa melodia Que p’ra mim soou. CORPO DE MULHER... Eu já nem sabia Se era ela Ou outra qualquer Com quem eu podia Erguer-me à lua Com alma despida Neste frágil corpo Pouco mais que nu. E TAMBÉM A ALMA À sua procura Era de nudez Um pouco ousada, Mas, sim, era pura Por ser nesta lua Que eu adivinhava A minha ventura... ........................ Pouco mais que nada! ONDE ESTÁ A LUA? Nessa bela praia Ou noutro lugar Onde a possa ver Espreitar a rua P'ra me enfeitiçar? ESTÁ EM TODO O LADO Onde o poema Estiver, Desenhando Com palavras Um suave rosto Que é mais de deusa Do que de mulher...

ESPELHO DO TEMPO
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Esfera do Tempo”.
Original de minha autoria para este Poema.
Novembro de 2018.

Esfera do Tempo. JAS. 11-2018
POEMA – “ESPELHO DO TEMPO”
QUEM ÉS, Tu que ressoas Na minha imaginação Sempre que parto Para um poema? TEMPO Que flui E se gasta Dentro de mim Como memória que se esfuma? ESFERA DO TEMPO... É como te vejo Do lado de cá Do espelho Plano Onde te reflectes Cada vez mais Como espectro Intangível. TEMPO, O nosso tempo, Que desliza Silencioso, Implacável, Como esfera De fogo, Meteorito Incandescente Sobre o jardim Das magnólias Encantadas Que me hão-de Renascer Em cíclico Retorno... E EU VOO Atrás dele, Do tempo, Levito, Queimando-me As entranhas, Vestido de Azuis Que se mancham De nuvens carregadas Para apagar O fogo Que faísca, Intermitente, Sobre mim. ÉS TEMPO, SIM... E és passado Quando te revejo Através de um Espelho Baço e enrugado, Superfície amarela Iluminada por um Clarão ao rubro Que parece Sombrear Este presente Sofrido! MAS O MEU TEMPO, Esse, É intervalo Entre o que foste E o que serás A meus olhos Já húmidos De tanto fixar Os teus espelhos De água (Azul marinho) Em busca De uma poética Da salvação Quando me afundo Na memória Com que ainda Te tenho E te canto! DENTRO DE MIM Há, como sabes, Um fogo intenso Que me consome, Mas que só arde Por fora Porque espelhos Líquidos Me devolvem a chama De través Para não petrificar Como lava De um vulcão Aceso Que me fascine E atraia Como se fosse Borboleta... ÉS TEMPO E já não te alcanço Neste balancear Incerto Onde me gasto Em poemas Para não ficar Prisioneiro Do passado Nem de um futuro Que se anuncie Rápido a Devorar-me O presente. QUEM ÉS TU, AFINAL?

VOU CONTIGO P’RA PASÁRGADA
Poema de João de Almeida Santos.
Diálogo com o poeta brasileiro
e nordestino Manuel Bandeira - 1886/1968
(Poemas: “Vou-me embora p’ra Pasárgada”
e “Brisa”), pelo cinquentenário da sua partida.
Ilustração: “Pasárgada”. Original
de minha autoria para este Poema.
Novembro de 2018.

“Pasárgada”. Jas. 11-2018
POEMA – “VOU CONTIGO P’RA PASÁRGADA”
VOU CONTIGO P’ra Pasárgada, É outro mundo, Irmão, Eu não fico Por aqui, Falha-me A inspiração Porque a brisa Do nordeste Ficou lá No Maranhão! NÃO TENHAS, Manel, Saudades, Nostalgia do futuro... Temos passado Que baste E foi, sim, Foi muito duro! VOU CONTIGO P’ra Pasárgada Não quero Ficar aqui, Há tempestade No ar E a brisa do nordeste Não passou Do Piauí. P’RA PASÁRGADA Quero ir, Lá todos Falam verdade, Por aqui Ah, eu nem sei, Já me falta Liberdade... GOSTO DE TI, Ó poeta Do reino Da utopia, Sem passado Nem futuro, Onde se faz Poesia, Se pinta, Canta E dança Porque o ar É do mais puro E cheira A maresia! VOU CONTIGO P’ra Pasárgada, Por aqui Não fico bem, É escuro O horizonte E eu até Já me sinto Como se fosse... .................. Ninguém! NÃO GOSTO D’estar aqui, Há ruído Que é demais, Esta terra Não me serve, Eu espero-te No cais... .............. Vou contigo No teu barco, À procura De mar calmo, Céu sereno E tudo o mais, Navegando No azul, Peixes voando No mar, No horizonte Uma ilha, Mulheres lindas A acenar... EM PASÁRGADA Sou feliz Canto e Danço Na madrugada Até que o corpo Se canse Com alma Apaixonada E adormeça No regaço Da mulher Que for amada. POR AQUI OUÇO Ruído, Há armas A crepitar, Matam poemas Com gritos, Já não podemos Cantar... VOU CONTIGO P’ra Pasárgada Meu mestre De poesia, Cantarei os teus Poemas Seja de noite Ou de dia... VOU CONTIGO P’RA PASÁRGADA...

DUAS HORAS…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Entardecer”. Original de minha autoria para este poema. Outubro de 2018. (Reproposição de um poema de 2017, com adaptações e nova ilustração).

“Entardecer”. Jas. 10-2018
POEMA – “DUAS HORAS…”
OLHEI-TE NOS OLHOS! Eram negros, Intensos E tão profundos! Toquei teus cabelos Com o olhar, Caminhei a teu lado Nesse jardim, Senti o teu corpo Tão perto de mim A respirar O acre perfume Da verde Ramagem Do vasto jasmim… INEBRIOU-ME Esse intenso Aroma E eu enredei-te Em tão doce Enleio Que não tinha fim… BRILHARAM Tão docemente Duas horas inteiras Esses teus olhos... ......................... E neles me perdi! ESTIVE NO CÉU Ao lado de deus E lá vi dois sóis Que não eram dele (Uma luz intensa) Porque eram teus! MAS O TEMPO Correu Depressa Demais... .................. E é sempre assim, Todos os dias Se tornam iguais Quando tu partes E, em nostalgia, Eu fico no cais… VOLTEI A OLHAR-TE Três horas seguidas... Parecia verdade Mas era ilusão Porque partiste Deixando-me só E o que sobrou... .................... Foi solidão! SUBIU A TRISTEZA, A saudade irrompeu Colou-se-me Ao rosto... ............... E como doeu! SE EU NÃO TE VEJO Sinto Falta de ti, Mas se te encontro Logo te perco Porque o tempo Voa E logo te leva P’ra longe dali! TER-TE DEMAIS Aumenta a saudade E quando te vais São negras As nuvens Da nossa cidade! AINDA QUE TRISTE Eu sou feliz E com estas mãos Te vou escrevendo O que quero dizer... ........................ Mas este meu tempo Volta a correr E cresce a vontade De logo te ver Mesmo que saiba Que é nesse instante Que te vou perder… TENHO SAUDADES, Saudades de ti, Desse virar Da nossa esquina, Na mesma rua Onde te vi, Dessa janela Donde espreitamos O que do mundo Sobra p’ra nós… EU JÁ NEM SEI Que hei-de fazer, Ter-te demais É puro prazer... ................... Mas quando te vais Fico a morrer! NEM SEI QUE Te diga, Ah!, meu amor, Quando me deixas Já nem sinto dor Tão grande a tristeza De já não te ter Pois tu partiste Mesmo sem querer! OLHEI-TE NOS OLHOS, Sim, meu amor, Nesse entardecer...
O TEU CORPO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Penché”. Original de minha autoria para este Poema sobre um bailado na Royal Opera House. Outubro de 2018. Nota: “Penché” é o nome que designa a posição que, em dança, continua o “Arabesque” e é a que se vê neste quadro.

“Penché”. Jas. 10-2018
POEMA – “O TEU CORPO”
HÁ POESIA No teu corpo... Alma geométrica Que se desenha No espaço Para te contar Sem palavras, Contraponto silencioso E expressivo Da tua melodia. HÁ MÚSICA No teu corpo... Pauta Da beleza Que levita, Instável, Entre cores, Desenhando Enigmas Que só o Poema Pode decifrar... TENS A ALMA Inscrita No corpo, Como eu a Tenho nas palavras Que roubo Ao poema inatingível Que procuro, Incansável, Como minha utopia... VEJO-TE Como letra De uma canção Que vou cantando Na minha subida Ao Monte, Porque o vale Já não me chega, Nem tu chegas, Pois partiste Em busca dos palcos da tua vida... MAS EU RESPIRO, Com o poema, A tua dança, Ao longe, Em forma de Letra No discurso da Beleza Em que nos vamos Enredando Como em teia Que prende E nos liberta... E PROCURO-TE Na pintura, Fixo-te Para te cantar Quando a noite Cai sobre mim E mergulho Na solidão Do silêncio Com que, de longe, Me falas. VEJO-TE Num bailado A solo, Dançando, Dançando, Para que te cante Num poema, Ao ritmo do Corpo E da alma Com que te Vais desenhando Nas telas Da tua vida. E, NO FIM, Rogo-te Que não pares O teu silencioso E longínquo Bailado Solitário Até que eu te Desenhe Em palavras Para que nelas Te revejas Como se fossem O espelho Encantado Da tua alma!
A TEIA
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: “Pas de Deux”. Original de minha autoria para este poema (sobre um “Pas de Deux” na Royal Opera House - Londres). Outubro de 2018.

“Pas de Deux”. Jas. 10-2018
POEMA – “A TEIA”
JÁ GASTEI Todos os poemas Cantando O que não ousas Ouvir. Já me fogem As palavras E fico mais Pobre de ti! JÁ NEM SEI Se é silêncio Ou são notas Dissonantes Com que me cobres A suave Melodia. NEM PALAVRAS Nem cores Nem notas (Desenhadas) Na pauta Do silêncio Com que me falas... ................... Nada! AH! NEM EU Já saberei Nomear-te Na hora Da despedida, No encontro Que nunca Marcaremos Nessa baça Encruzilhada Onde sempre Te perdi! PARA QUE SERVE A poesia Se não a Sentes... Por dentro? Para que serve A pintura Se não desenhas Com a alma? Para que serve Gritar Se não ouves... Com o peito? Para que sirvo eu, Poeta, Se não te vejo... Por fora, Mesmo que te desenhe E cante... Por dentro? PARA NADA, A não ser Para celebrar O futuro De um passado Que esmoreceu Para nunca lá chegar, Perder-me Na rotina Dos ecos Silenciosos Da alma, Enganar-me Em desencontros Inventados, Ir por aí Sem saber Para onde vou, Desaparecendo Na montra Dos meus inúteis Passeios Pela arte Que desenterrei Das vísceras! AO MENOS DANÇO Em Pas de Deux Com meus Poemas Desenhados, Enredado Nos mil fios Da fértil Imaginação Do poeta pintor Que levita Sobre escombros De uma casa (Ou de um palco) Que nunca construiu... É A DANÇA Da solidão, Contigo Suspensa Nos fios Da teia Em que vou Enredando A minha vida, Até tombar exausto, Ao cair do pano... .................. Que tarda!
NEBLINA
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Deusa”. Original de minha autoria
para este poema. Outubro de 2018.

“Deusa”. Jas. 10-2018
POEMA – “NEBLINA”
CRUZO-ME CONTIGO
Nas frias ruas do
Desencontro...
E não te vejo!
CAIU NEBLINA
Sobre nós...
............
Um fino véu
Translúcido
Desce
Sobre o meu
Rosto
Quando te
Pressinto!
ESVAI-SE
A nitidez
E regresso
À memória
Onde ficou
Gravada
A ideia
De ti,
O retrato
Imaterial
Que desenhei
Na fina tela do meu
Imaginário,
As cores intensas
Que te iluminam
E quase me
Cegam....
................
Por dentro.
CRESCES
Em mim,
Mas diluis-te
Por fora
Como espectro
Que se esgueira
Na fria bruma
De um entardecer,
Sem deixar rasto.
DA TUA IMAGEM
Física
Restam-me
Ténues riscos
De um rosto
Em aguarela
Inacabada
Que desmaia
No tempo
Que passa,
Veloz.
POR FORA,
O azul é cinzento,
O sol é sombra
E a luz já nem
Atrai
As borboletas
que lhe voam longe.
O som emudece e
O tempo pára.
A vida já só
É passado.
Arrefeceu.
Petrificou!
MAS HÁ UM
Contraponto
Luminoso!
Lava ao rubro,
Quente,
Jorra em mim
E inunda-me
A imaginação.
O sol
Acende a tua
Imagem irreal...
................
E então ganhas
Perfeita
Nitidez,
Cor exuberante,
A forma
De uma deusa
Luminosa.
Até o silêncio
Fala
E nele
Ouço, por dentro,
A tua
Encantatória
Melodia.
REACENDE-SE
Vida
Na minha
Imaginação
E eu recrio-te
Para voar,
Em fuga,
No teu azul
Até ao infinito...
.....................
E não mais
Voltar
Às frias ruas do
Desencontro.

Pas de Deux
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Coreógrafo”. Original, de
minha autoria, para este poema.
Setembro de 2018.

“O Coreógrafo”. Jas. 09-2018
POEMA – “Pas de Deux”
SOU COREÓGRAFO
Da minha alma,
Desenho-me
No espaço,
Embalado
Pela suave
Melodia do teu
Silêncio...
IMAGINO-ME,
Às vezes,
Num "pas de deux”
Contigo
Num palco
Em noite
De luar
Ali, na praia
Da meia-lua,
A dançar
O murmúrio
Desse mar
Com que te
Pintas
E ouves
Dentro de ti!
DANÇO
Com palavras,
Suspenso no ar
Pelos fios
Dos poemas
Com que
Teimosamente
Ilumino
Os caminhos
Por onde nunca
Ousas passar...
O SILÊNCIO É A TUA
Sinfonia,
O teu canto
De sereia,
A melodia
Que ressoa
Nesse mar
De linóleo
Onde me desenho
No suave
Bailado,
A solo,
De uma infinita
Despedida...
GOSTO DESTA
DANÇA
Espectral,
Contraponto
Dos sinais
Invisíveis
Com que pontuas
A tua assinalada
Ausência.
E CANTO-TE, SIM,
Mas, neste meu
Cantar,
Eu conto-me
Como espelho
Onde podes
Rever
O passado
Desse futuro
Que nunca
Existirá.
AGORA, SOZINHO,
No linóleo,
Ao pé da praia
Da meia-lua,
Acendo um sol
Com minhas mãos
E procuro
O que nunca
Encontrarei...
...............
A não ser
Sombras
De mim próprio
Gravadas
Na areia
Da baixa-mar.
POR ISSO, DANÇO,
Canto e
Pinto
Em contraponto,
Livremente,
Com a melodia
Interior
Que toma
Conta
De mim
Sempre que um véu
Protector
Desce sobre
O meu rosto
Para apenas
Pressentir a tua
Silhueta,
Quando
Atravessas,
Atarefada,
A rotina
Dos teus dias.
ESTE,
O que te celebra
Em arte,
Já não sou eu,
Mas o coreógrafo
Da (minha)
Melancolia!

É OUTRA, A JANELA…
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Outra Janela”. Original de JAS
para este Poema. Setembro de 2018.

“A Outra Janela”. Jas. 09-2018
POEMA – “É OUTRA, A JANELA…”
DESTA JANELA
Não te vejo!
Há um caminho,
Uma silhueta
Que se insinua,
Mas não sei
Onde me leva...
SÓ SEI QUE
Parto,
Com o olhar,
De um viçoso
Canteiro
Verdejante
Onde as camélias
Me apontam
Um incerto
E sedutor
Destino,
A levante...
SIM, HÁ SEMPRE
Uma outra janela
De onde ver
O mundo...
.................
Mas nesta
Não te vejo
Sequer como perfil,
A nascente.
VEJO, SIM,
Uma rua
Ou um rio,
Um traçado sensual,
Marcas
(Invisíveis)
De passos remotos
Escritos na água,
Um recanto liberto
Do presente,
Um caminho
Onde ninguém
Cruzou
Afectos
Para se despedir
Do que nunca
Ousou...
É OUTRA JANELA!
Não é a tua
Nem a dela,
Debruçadas sobre
A montanha
Ou sobre o mar!
É outra
De onde nunca
Verei
O teu rosto,
Porque dela,
A levante,
Lá onde nasce
O sol,
Chega uma luz
Que me cega
De tanto brilhar...
É A INTENSA
Luz do dia
Que nos convida
A viver, sim...
....................
Mas o poeta
Dobra-se
Em si,
Com metódica
Timidez,
Para alcançar
Uma luz interior
Que o ilumine...
Sem cegar!
ENTENDES?
O mundo,
Quando acorda,
A nascente,
Ou entardece,
A poente,
Muda de cor
E de luz,
Mas vê-se sempre
Duma janela...
.............
E eu, a ti,
Vejo-te sempre
A sul,
Uma parábola
Entre o nascer
E o entardecer...
Quase como
Um destino!
SIM, TUDO DEPENDE
DO OLHAR,
Bem sei...
Se te vejo
Ou não te vejo,
Se na janela
Me revejo
Ou te descubro
Olhando
O horizonte
Através das palavras
Com que há muito
Eu te digo...
MAS SABES PORQUE
NÃO É TUA,
Esta janela?
Porque nela
Te veria
De cima para baixo,
De um lugar
Que não é meu
Porque sempre
Foi teu,
Um lugar cimeiro.
E EU CANTAVA-TE
Cá de baixo,
Deste meu lado
Da rua
Com a alma
Cheia,
Mas nua,
Para me poder
Vestir de
Ti.
PERDI-TE,
Como sabes,
Porque nunca tive
Uma escada
Para te alcançar...
E, AGORA,
Há camélias,
Aqui.
Bem as vejo
Cá de cima,
Perto de mim.
Há um canteiro
Luminoso,
Talvez uma
Escada, sim...
............
Mas para ver
Mais longe!
Há um recanto,
Um caminho,
Há cor
E há palavras,
Uma silhueta
A apontar
O sentido...
.....................
Mas eu não te vejo
Ao pé de mim,
Nesta janela,
A olhar a esquina
Que nunca ousámos
Dobrar...
HÁ SEMPRE OUTRA...
Janela!

AZUL
Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Paraíso”. Original de minha autoria
para este Poema. Setembro de 2018.

“Paraíso”. Jas. 09-2018
POEMA – “AZUL”
TANTO AZUL,
Meu deus!
O teu céu,
Esse imenso mar,
É espelho
Dos teus sonhos,
Medida do teu
Olhar.
O MEU É BRANCO
E cintilante
Para te alumiar
Na noite escura
Onde brilham
Gotículas salgadas
Nos teus olhos,
A navegar...
OUVE-SE
O suave murmúrio
Das ondas
Que abriga,
Como véu
Translúcido,
O estranho silêncio
Que há muito
Ouço,
Insistente,
Com a alma
Dorida do
Poeta que me
Habita.
QUANDO, NOS
SONHOS,
Ao longe
Te entrevejo
Vestida de azul
Turquesa,
Entro numa porta
Branca
Que me leva
Directamente ao
Paraíso...
...................
E nele voo, voo,
A perder de vista,
Deixando para trás
O jardim
Inacabado,
Porta escancarada,
Bailéus desenhados
A rigor,
A preto e branco,
De onde
Um dia
Te vi
E cantei
No meu primeiro
Poema,
Num estranho
Enlace
Que não tem
Fim...
NOS SONHOS,
(Em todos eles)
Caio das nuvens
Brancas
Como Ícaro
Ou meteorito
Incandescente
E quase me afogo
Nesse frio azul
Até te encontrar
No coral
Luminoso
Onde vives
Vestida de todas
As cores
Que povoam
A cidade
Dos poetas...
MAS É ESSE
Teu azul
Profundo e
Denso,
Que respiro,
O que me sobra
De ti,
Nos sonhos
Escritos
E pintados
Com que te
Vou soletrando
Lentamente...
Até cair exausto
E adormecer
No regaço
Da tua alma.

SEGREDO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: "Meteorito". Original de minha autoria para este Poema. Setembro de 2018

“Meteorito”. Jas. 09-2018
POEMA - "SEGREDO"
VOU CONTAR-TE
UM SEGREDO:
Amei-te
Em poesia!
As palavras eram
Graves,
Mas sempre cheias
De cor,
Com rimas
Muito suaves
E melodia
Com dor...
.........
Com tudo
O que de ti
Me sobrou...
...........
Meu amor!
CONTEI-TE HISTÓRIAS
De desencontros,
Dancei
Com palavras
Luminosas
Que inventei
Para por dentro
Te ver
Nesse quintal
De rosas
Que cultivas
No teu peito.
CANTEI
Para te aquecer
Na fria dança
Do silêncio
E contigo levitar,
Voando,
Invisíveis,
Sobre ruas
E praças,
Ao luar...
................
E, depois,
Pela manhã,
Um arco-íris
Erguer
Como ponte
Desse vale
Exuberante
Onde sempre
Te sonhei...
Neste meu
Entardecer.
SONHEI,SIM,
Alheio ao bulício
E ao cochichar
Indiscreto
Dos que não sabem
Voar...
AH!, QUE SONHO ESSE...
.................
Mas sei que não
Pousaram
No parapeito da
Tua janela
As palavras
E que alguém te
Contou
Que andavam
Borboletas
No ar,
Esvoaçando,
Perdidas,
À procura de pólen
Nos jardins
Verdejantes das
Nossas vidas...
E TU PERGUNTAS,
Agora,
Se ainda vivem,
As borboletas
De vida breve,
Se regressam
Ou já pousaram
Noutro jardim,
Se há pólen,
Se há vento
Ou pensamento
Que as traga
De volta
Desse incerto
Confim...
E EU RESPONDO
Que o seu destino
É o brilho deste céu
Que ainda vive
Dentro de mim.

MAGIA
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – “Magia”.
Original de minha autoria, para este Poema.
Agosto de 2018.

“Magia”. Jas. 08-2018
POEMA - "MAGIA"
OLHO A MONTANHA
De uma porta
De granito
Amarelo
(O de sempre,
Muito belo,
Com cristais)
Sobre o ocre
De um telhado
Como se fosse janela
Do meu palácio
Encantado
(Que do sonho
É o cais).
CONTEMPLO A SERRA
De sempre,
Mas é diferente
A visão,
Antes, eu via futuro,
Agora, vejo passado,
Essa bela ilusão
De te ter sempre
A meu lado.
ENTRE PASSADO
E FUTURO
Sempre foi
Identidade,
Ficou quieta
À minha espera
Quando dela
Eu parti
Ao encontro
Da Cidade.
SUA FRONTEIRA
É o céu,
Abóbada sideral,
Sinto-a
Dentro de mim
Como fonte
Seminal,
Espelho da minha
Infância,
Um horizonte
sem fim,
Forte raiz
Comovida
Que eu tive
De deixar
No duro jogo
Da vida.
ELA É PORTO
De abrigo
E é lugar de
Partida.
É, pois, mais
Do que janela...
.................
É fronteira
Que passamos
Quando a vida
Se revela.
É UM ETERNO RETORNO,
Um regresso
Renovado
Onde posso
Renascer
Quando recrio
A memória
Do que não
Quero perder
Sem ter ficado
A teu lado.
ESTA PORTA
É MAGIA,
Viajo através dela,
Dou asas à fantasia
Como se fosse
Janela
De onde voo
Com o vento
Nos versos destes
Poemas
Que, sem ti,
Me dão alento.
DELA VOEI
Para o mundo
E o mundo veio
Até mim...
......................
Quando passei
Esta porta
Já era um mundo
Sem fim...
POR ISSO REGRESSO
A ela,
Esse pilar
Do meu ser...
..............
Quando chego,
Amanhece,
E, se parto,
Nem sinto
A despedida
Porque dela vejo
O mundo
Como a montanha
Da vida.

A OFERTA
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: "Natureza Morta". Agosto de 2018. Original do autor para este Poema.

“Natureza Morta”. JAS. 08-2018
POEMA - "A OFERTA"
DO ENCONTRO IRREAL
Que aconteceu
Nesse tão cinzento
Dia
Quis libertar
O meu ser
Sem saber se
Conseguia.
Corri, então,
Junto ao mar
À hora da maresia...
SALTEI, DANCEI,
Respirei
Com a brisa
Que fazia
E libertei
O meu corpo
Da opressão
Que sofria...
FICOU O CORPO
Sozinho,
À deriva, nesse dia,
Mas no regresso
Da praia
Eu vi-te
No meu caminho...
....................
Milagres da fantasia!
LOGO TE FIZ
Um poema
Pois correr
Já não chegava,
Pus palavras
A sorrir
Quando a alma
Regressava!
FUI COM ELA
À Montanha
,
Quis trazer-ta
Num cabaz...
...............
Colhi frutos
Lá no alto
Guardei-os junto
Do peito
P’ra esse encontro
Fugaz
Que eu queria, sim,
Perfeito!
LEMBRAS-TE BEM
Dessa cesta,
Dos frutos que
Nela trazia?
Vinham todos
Da Montanha,
Traziam consigo
Alegria!
ESSES FRUTOS ERAM
Poemas
Que não podia
Cantar,
Derramavam seus
Aromas
Em palavras de
Embalar
E contavam
Mil histórias
Que te faziam sorrir...
......................
Era oferta singela
De quem só te
Queria sentir!
NA CESTA HAVIA
Estrelas
Às centenas,
vermelhinhas...
..................
Não viste nelas
Cintilas
Que voavam
Tão juntinhas?
ERAM MIL CORES
E aromas
Que desses frutos
Brotavam,
Colavam-se
À minha pele,
Mas era por ti
Que passavam!
PARTISTE COM ELES
Ao colo,
Rápida, sem me olhar,
Não esperava protocolo
(Tu bem sabes),
Mas foi grande
O meu espanto
Desse teu estranho ar!
SÓ À NOITE ME DISSESTE
“- Obrigada, meu Amigo,
Esses frutos
Que me deste,
Tão belos e tão gostosos,
Não serão
O teu abrigo”!
P'RA ME CURAR
Da estranheza
Fui correr
Em poesia,
Cantei em rima
Poemas,
Resisti bem
À tristeza
Sem a tua companhia
Pois sempre em
Meus versos
Ecoa
Uma tua melodia!
CUREI O CORPO,
Não a alma!
Essa ficou
Presa em ti,
Ninguém pode
Devolver-ma,
Mas, assim, não te
Perdi!

ESTRANHA ENCRUZILHADA…
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – “A Rua”.
Original do autor. Agosto de 2018.
"A Rua". Jas. 08/2018
POEMA - "ESTRANHA ENCRUZILHADA..."
CRUZEI-ME CONTIGO
Numa esquina
Da vida
Nesta rua
Onde reinventei
Uma estranha
Despedida!
NÃO TE VI
Como te via
Da janela
Sobranceira
Quando passavas
Na rua
Abraçada
À beleza,
Teu perfeito
Avatar
Numa nova
Encruzilhada
Que o tempo
Quis desenhar...
SE TE VI,
Mas eu não sei,
Foi duma janela
Vidrada
Que me devolveu
A imagem
Como espelho
De uma fada
Onde te fui
Visitar!
MESMO ASSIM
ESTREMECI...
Pressenti-te
Sem te ver,
Fugidio
Ao olhar
Indiscreto
De um acaso
Tecido pelo
Destino...
AH! DEPOIS
SEGUI
Com a alma
Essa tua silhueta
Embaciada...
Pensei
Que não ia
Por ali
No meio
Da multidão,
Que não te via
Por falta
De nitidez
Do meu campo
De visão,
Que não te reconhecia
Nessa rua paralela
Onde todos
Nos cruzamos,
Indiferentes
Ao que já
Nem vemos nela!
ANÓNIMO
Me assumi
Como essa gente
Comum
Que se cruza
No caminho
Sem jogar
O seu destino...
SENTI TRISTEZA
Profunda,
A alma
Petrificada
Com lágrimas secas,
Das que
Não saem de nós,
Não banham
O nosso rosto,
Dor íntima,
Dor atroz
Cravada no peito
Lá bem fundo,
Perdida,
Já sem voz
Nem a melodia
Com que cantava
O rio
De que tu eras
A foz.
QUE ESTRANHA
Sensação!
Caminhando
Lado a lado,
Perdidos
Num horizonte
Que se esfuma
Até nos engolir
Como espuma
Que se desfaz
Na areia branca
Da praia...
ATÉ QUE CHEGUEI
A estas palavras
Escritas na água
Remexida pelo vento,
Também elas
Esmorecendo
Na praia
De um lamento
Porque sigo
Outras ondas
Noutras rimas
Em poemas errados
Ou simulados
Para dar voz
Ao poeta triste...
MAS GOSTEI
De olhar
Sem te ver,
Apenas imaginando
Que eras tu,
Regressada dos confins
Da minha memória...
E GOSTEI
Que me visses
Sem me olhar,
Pensando
Que nem sequer
Me pressentias,
A mim,
Esse anónimo
Que te seguia
Para logo
Te perder...
TUDO TÃO ONDULANTE,
Tão dolorosamente
Normal,
Estranhamente
Banal...
......................
Que até este poema
Espanta
Por cantar
O que nunca
Aconteceu!
QUE EXERCÍCIO
Foi este?
Crueldade
De um destino
Apenas imaginado?
Indiferença fatal
Que se torna
Irreversível
Como ferida
Que não cura
E dor
Que dissolve
Como espuma,
No poema,
As palavras
Com que ainda
Te digo?
AFINAL, QUE TE FIZ,
Meu amor,
Para te perder
Assim,
Ao entardecer,
Numa encruzilhada
Da rua
Que reinventei
Para te cantar
Como melodia
Para quem já
Não me ouve?

POR CAMINHOS PARALELOS…
João de Almeida Santos
Ilustração de minha autoria. Julho de 2018.
“Uma Casa no Jardim”. JAS. Julho, 2018.
POEMA
POR CAMINHOS
PARALELOS
Nos seguimos
Ao infinito,
Pintei o meu
De vermelho
Mas o teu
É mais bonito!
GASTEI
As minhas palavras,
Gasto as cores,
Eu já nem sei,
E porque o silêncio
É de ouro
Só às palavras
Cheguei.
Mas tirei-lhes
Logo o som
Por saber
Que te doía.
O silêncio
É, pois, o rei
Até que te veja,
Um dia...
A ESTES SENDEIROS
Cheguei
Quando eu te
Conheci,
Foram-se anos,
Bem sei,
Desde o dia
Em que te vi...
SÃO CAMINHOS
PARALELOS,
Nisto, naquilo,
Sei lá...
Mas estás
Do outro lado,
Eu não te vejo
Por cá,
Na rua do
Desencontro
Que ficou
Muito vazia
Desde que tu
Foste embora
Dessa forma
Inesperada
Como eu, sim,
Já previa...
O HORIZONTE
Que vejo
É o ponto
Destas linhas
Paralelas,
Convergimos
No olhar
Mas não caminhamos
Por elas
Porque a vida
Nos tirou
Da rua
Das aguarelas!

O SILÊNCIO DO POETA
Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Vermelho”. Quadro de
minha autoria. Julho de 2018.
Vermelho. JAS. Julho de 2018
O SILÊNCIO DO POETA – POEMA
O SILÊNCIO DO POETA
É dito em poesia
Como canto
Em surdina
Do que não
Pode calar,
Do que sente
Mas não diz
Se conjuga
O verbo amar.
SUA DOR VEM
Do silêncio
E chega à poesia.
Nela o poeta
Diz mais
Do que pode
E não devia
Porque sofrendo
Em excesso
Em sua dor
Não cabia.
E FALA COM O
Silêncio,
A fala da poesia.
Diz tudo
O que nela cabe
Em suave melodia,
O que só
A alma ouve
Dessa triste
Sinfonia...
SEU SILÊNCIO
É poesia...
...........
No cantar
É que ele sente
O que dizer
Não podia.
DIZ, POIS,
SEM O DIZER.
É outra coisa
Que diz.
Sofre em silêncio
O poeta
A dor
Que lhe vem
Lá da raiz
E que só o verso
Cura
Sem que o faça
Feliz.
OUTRO SILÊNCIO
É o dela
Que nem lhe manda
Sinais...
.................
“ - Não importa”,
Diz-lhe ele,
“Dentro de mim
Vives mais”.
O CANTO
DESTE POETA
Do silêncio
É o selo,
Sua vida é
Em verso,
Não é fria
Como gelo.
Seu canto
É em surdina,
Só o ouve
Quem o lê
Mas com luz
Que ilumine
Aquilo que
Não se vê.
ASSIM O VATE
Persiste
Nesse sol
Que irradia
E se o silêncio
É gelo
Derrete-o
Com fantasia,
Pois se a vida
É de dor
Conjuga-se
Em poesia...

A MAGNÓLIA ENCANTADA
Poema de João de Almeida Santos Ilustração – “A Magnólia Encantada”. Original de minha autoria. Desenho e Poema sobre Magnólia. Julho de 2018
A Magnólia Encantada. JAS. Julho de 2018
"Una magnolia / pura, / redonda como un círculo / de nieve / subió hasta mi ventana / y me reconcilió con la hermosura... ...Como / cantarte sin / tocar / tu / piel puríssima, / amarte / sólo / al pie / de tu hermosura,/ e llevarte / dormida / en el árbol de mi alma, / resplandeciente, abierta, / deslumbrante, / sobre la selva oscura / de los sueños” Ode à Magnólia – Pablo Neruda

A MAGNÓLIA ENCANTADA – POEMA
ERA UMA VEZ Uma magnólia Encantada, Como num sonho, Uma fada Em busca Do que perdera No jardim Onde morava... FLOR EM FORMA DE PEIXE No profundo Oceano da vida À procura das raízes De uma estranha Despedida... TRAZIA CONSIGO Um inocente Espanto De ter ficado Tão só, De repente... ................ Por encanto! PARTIU, LEVOU COR E muita luz Que seu corpo Alumiava Nesse caminho Estreito Que a dor Incendiava... DEIXOU O JARDIM, Mar adentro, Água seminal, Em forma de peixe, À procura Do que perdera Em recife de coral... MAS ENCONTROU-TE À TONA, Vagueando Nesse mar Da tua vida, Cores e Riscos Como remos, Em busca da Praia perdida... REGRESSOU... Vinha triste De não te poder Resgatar Nesse dia, No alto mar! VOLTOU, Mas era tarde Demais. Já não te via Remar... ................. E então deu-se De novo Ao mar A ver Se te encontrava Nalguma praia Deserta P'ra te redimir Com essa arte Divina Em que já te via Incerta... FOI À PROCURA DE CORES, Eram muitas E vibrantes, Encontrou-as No jardim, Essas luzinhas Brilhantes... E LÁ FOI E anda ela, Umas vezes Como peixe Outras Como aguarela, Sempre À procura de ti, Levada Pela corrente, Por aí, Com ar tímido, D’espanto, Até que um dia Te encontre, Talvez triste, Na praia Do teu recanto! ENTÃO DEIXA-TE AS CORES E regressa À sua melancolia. É flor em mutação, Cada dia, No tempo Em que germina, Renovada, A raiz da nostalgia... MAGNÓLIA ENCANTADA Num poema E na pintura... ................ Assim te vou Construindo como Fada Que me cura!

O BEIJO
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração original do autor – “O Beijo”. Dia Internacional do Beijo: 6 de Julho, o dia que celebro, com um poema, cada ano. Inspirado no Thomas Mann de “Lotte in Weimar” (1939), a obra que continuou "Werther” (1774), de Goethe (1749-1832).

“O Beijo”. JAS. 6 de Julho de 2018.
1.
Thomas Mann:
“Ist die Liebe das Beste im Leben,
so in der Lieb das Beste der Kuss
– Poesie der Liebe...”. “Kuss ist Glueck,
Zeugung Wollust”.
“O amor é o melhor na vida,
assim, no amor, o melhor é o beijo
– Poesia do amor...”.
“Beijo é alegria, procriação é luxúria”.
2.
Inspirado também em Kafka, Shakespeare e Bernhardt:
“Geschriebene Küsse kommen nicht an ihren Ort,
sondern werden von den Gespenstern
auf dem Wege ausgetrunken”
- Os beijos escritos não chegam ao destino, mas são bebidos pelos fantasmas
ao longo do trajecto - Kafka
“If I were to kiss you then go to hell, I would.
So then I can brag with the devils that I saw
heaven without even entering it”
- Se para te beijar devesse, depois,
ir para o inferno, fá-lo-ia.Assim, poderia vangloriar-me, com os diabos,de ter visto o paraíso
sem nunca lá ter entrado - Shakespeare.
- O primeiro beijo não é dado com a boca,mas com os olhos – O. K. Bernhardt.

O BEIJO
FOI O QUE NUNCA TE DEI
A não ser com o olhar!
O primeiro, esse beijo,
Dei-to, pois, sem te tocar!E DEI-TE MAIS, COM PALAVRAS,
Quando olhar já não podia...
Foste embora, não estavas
E eu, triste, não te via!FORAM BEIJOS QUE SONHEI
Na rotina dos meus dias
E desejos que enfrentei
Quando tu mais me fugias...Mas dou-te beijos escritos
Que se perdem no caminho...............................
E se o poema me falta
Fico ainda mais sozinho!É ALEGRIA D'AMOR
É suave respirar,
É encontrar-te no céu,
É vontade de te amar,É desejo, é procura,
É sinal e é mensagem
É razão suficiente
P’ra te ter...................Como paisagem!O BEIJO É EMOÇÃO,
É razão descontrolada,
Se não for dado a tempo
Pouco mais será que nada!SEM BEIJO NÃO HÁ AMOR,
Sem Amor perde-se o Beijo.
Nada tem qualquer sentido
Se me faltar o desejoPor te ter, assim, perdido!AQUI O LANÇO AO VENTO
P’ra que atinja como brisa
E suave melodia
Esse rosto que precisa
De afecto em poesia!ESTE BEIJO QUE ME FALTA
De que nunca fui capaz
Voa p’ra ti em palavras
Põe-me sereno, em paz,E desejo que, no trajecto,
Voe, voe em grande altura...
.............................
Que fantasmas não o bebam
E minha dor tenha cura!Mas sei dos escolhos da via,
Dos perigos que ele corre................................
Capturado por fantasmas
É mensagem que me morre!
NO DIA DO BEIJO É HORA
De te cantar em voz alta
A poética do amor
P’ra redimir essa falta
E pôr fim à minha dor!E PORQUE O DIA É TEU
Ganha força, intensidade,
E mesmo que fantasmasO bebam
É um Beijo de verdade!ESSE BEIJO QUE NÃO DEI
Foi pecado original,
Hei-de sofrê-lo p’ra sempre
Como chaga corporal!Não há palavras que bastem
P’ra repor o que não dei
Elas voam, mas não chegam
E mesmo assim eu tentei!É CERTO QUE SEMPRE O QUIS,
Só que nunca to roubei,
A culpa foi desse tempo,
Dos dias em que te amei,
Um tempo em diferido
Sem presente nem futuro,
Talvez beijo sem sentido
Porque queria do mais puro,
Tangendo eternidade
Às portas do Paraíso,
Um beijo de divindade...
.........................
Mas simples... Como um sorriso!ESSE BEIJO IMPOSSÍVEL
Que não é do foro humano
Vou tentando construí-lo
Cada dia, cada ano,
Perdendo-me pelo caminho
Como sagrado em profano!

BIANCO&NERO
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – “Bianco&Nero”. Original
do Autor para este poema. Julho de 2018.

Bianco&Nero. JAS, 2018.
ENTRE O BRANCO
E O NEGRO
Quis desenhar
A tua alma
Na flor que,
Num acaso,
Encontrei, perdida,
No jardim
Da minha vida...
ATRÁS DE TI,
Ou em fuga,
Já nem sei,
Gastara
Todas as cores do
Arco-íris
Que tinha
Dentro de mim.
SOBRARA-ME
Uma marmórea
Nébula negra
De travertino
Onde me revia
Como espelho
Oracular,
Curvado sobre mim,
Escuro na alma,
Por falta
Das cores exuberantes
Que me protegiam
Do frio glacial
Do teu silêncio.
SOPREI FORTE
Com a alma
Desnuda
E a flor branca
Foi pousar suavemente
Nesse mármore
Liso e brilhante
Da catedral
Onde te celebrava.
E FICASTE ASSIM,
A branco e negro,
Em tinta-da-china
Esparsa,
Derramada
Sob a alvura
Do sol brilhante
Em que te via...
.................
Como uma flor!
ESCULPI-TE
Como filigrana
De ouro preto
Sobre branco-pérola,
Aurífice da tua
Alma sedutora
No coração
Alvoraçado
Dessa flor
Que guardei
Com o teu nome
Gravado
Em letras invisíveis...
CRIEI PARA TI
Alvas incrustações
Sobre filigrana
Negra
Como marcas
Indeléveis
Da arte
Que um dia
Me visitou
Na celebração
Da tua beleza.
E AGORA,
A olhar para
O branco e o negro
Deste cântico
Desenhado,
Ofereço-te
Este poema
Sobre pintura
Imaculada
Onde te celebro
Com beleza
Minimal,
Na cor
E na forma,
Sem fronteiras,
E onde
Te reinvento,
Em fuga,
Como esse subtil
Fio branco
Que esvoaça,
Livre,
No marmóreo céu
Do teu altar...
A ÂNCORA, ESSA,
A sul,
Desliza
Suavemente
Sobre ti
E dilui-se na
Negra vastidão...
EVOCO-TE, ASSIM,
A branco e negro
E canto-te
Como alma em
Filigrana
De ouro preto
Em repouso sobre
O branco-pérola
Dessa flor
Que, um dia,
Encontrei
No jardim
Da minha vida...

NOSTALGIA
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Nostalgia”. Original
do Autor. Junho de 2018.
“Nostalgia”. Jas. 2018
RÁPIDA COMO O VENTO
Passou por mim
Essa palavra saudade
Numa rua do meu bairro
Sob o céu desta cidade.
GRAVEI-A NA
Minha mente,
Evoquei-a
Ao crepúsculo,
Com incerta
Nostalgia…
…………………………
Não queima tanto,
A palavra,
Porque a sinto
Mais fria!
COM CESÁRIO,
Dei-lhe cor
E canto-a
Como pintura,
Dei-lhe vida
Num romance,
Tento tudo
O que não posso
Porque esta dor
Me perdura…
DA SUA COR
Vejo o mundo,
Com palavras
A recrio,
Procuro sempre
O teu rosto...
.................
E por mais longe
Qu’estejas
Eu não me sinto
Vazio.
A DOR DESTA
SAUDADE
Alimenta-me
A alma
E aquece a minha
Vida...
E assim eu vou
Vivendo
Em eterna
Despedida,
Neste cais
Que não tem fim,
Em partida
Que não há,
Um adeus que não
Me dizes,
Porque tu
Nunca saíste
Deste meu
Lado de cá.
MAS HÁ SEMPRE
Esta saudade
A que chamo
Nostalgia!
Vivo em tristeza
Feliz
Porque te sinto
Em cada dia.
NÃO TE TENHO,
Mas não te perco,
Estás longe,
Perto daqui,
Não te encontro
Nem te vejo,
Mas sei que não
Te perdi…
INSPIRA-ME, A
NOSTALGIA...
Recrio-te em cada
Instante!
Sou poeta,
Sou pintor
E também sou
Arlequim...
..............
Por isso vejo
O teu mundo
A partir de um
Camarim!
ESCULPO
TEU ROSTO
Com palavras
Do meu peito,
Pinto-me a alma
D’azul,
Voo contigo
Em sonho
E o destino
É sempre o sul...
LEVO COMIGO
PINCÉIS
E as asas
Do poeta.
Danço.
Sou arlequim.
Pinto-me nesta
Ribalta
Com as cores
Que vês
Em mim!
SEM TI
NESTA RUA
Da saudade
Sou palhaço
Em camarim
Que maquilha
O seu rosto
Para um palco
Sem fim...
REPRESENTA
PARA TI
Sem saber
Se lá estás...
...........
A verdade
Já não lh'importa,
É feliz com
O que faz!
ASSIM VIVE
O ARLEQUIM.
No palco,
É só arte
O seu fazer,
É dádiva que ele
Te entrega
Como modo
De viver!

J A S M I M
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração original do autor: “Rapsódia”.
Junho, 2018.

FLORESCEU O JASMIM!Dele jorra Poesia,Embriaga-me O aroma...Renovo-me Em fantasia!DAS PALAVRASVou à cor,O seu perfume Ilumina,Bate o sol Em suas pétalas,É luz intensa Que brilhaNo poema que Germina!JÁ NÃO É SÓO Loureiro!Agora canto O Jasmim!É tão intenso O aromaQue se renova Em mim!
INUNDO-MEDe palavras,Canto Esse mundoDa cor,Subo ao céu Com tuas asas,Vai comigoEsta dor...SOU ÍCAROLá no alto...
..............
E se o sol Me bate forteCaio em mim Do meu poemaE no chão Fico sem norte...PEÇO AJUDAÀ montanha...Volto a subir, Que alegria!Foi nela Que eu nasciE sou feliz
Lá no alto, Nem que seja
Por um dia!E LÁ TENHOO JasmimMesmo ao lado doLoureiro...
.................
Respiro fundo Até à almaE torno-meJardineiro!E ASSIM EU VOUVivendo No jardim daMinha vidaEm poemasE pintura...
............
E se a dorNão tem remédioQue seja esta
A cura!

A C H A V E
Poema, em dois andamentos, de João de Almeida Santos, criado a partir
de um poema/comentário de Ana de Sousa sobre “A Porta”.
Ilustração: “Uma Casa No Jardim”. Original (com várias citações de
Klimt) de minha autoria, para este Poema. Junho de 2018.

MOTE“Como uma fonte, / Como uma ave... / No horizonte, / Sempre uma
chave! / Sempre um segredo, / Não revelado, / Poema e quadro: /
Sonho velado / Escreve pintor. / Pinta poeta. / A vida é cor, / Dor
e amor / E tu, alerta!”
Ana de Sousa

A C H A V E
I.
PINTO E CANTO
O meu destino.
Sonhos velados,
A minha vida...
..................
Perdi a chave
Do meu futuro
E só me resta
A despedida!
POR ISSO CANTO
Com as aves,
Voo mais longe
E com mais cor
Porque no céu
Há mais azul
E nos meus sonhos
Há menos dor!
HÁ UM SEGREDO
Não revelado...
Se o dissesse
Não deveria
Porque dizê-lo
Era pecado
E certamente
Até mentia!
E NÃO O DISSE,
Mas eu pequei
Com murmúrio
Apaixonado
Em poemas
Inocentes
Por que fui
Tão castigado!
POR ISSO VOO
Sempre mais alto,
Trepo nas cores
P’ra lá chegar,
O céu azul
Dá-me alento
Para mais alto
Poder voar
E meus segredos
Dissipar...
LEVO PALAVRAS
Comigo,
Procuro inspiração.
Levo cor,
O meu abrigo,
Levo musas
E tudo o mais...
...................
E quando parto
Lá p’ra cima
É sempre festa
No cais.
LEVO-TE A TI.
E deste jeito!
Sim, meu amor,
Para que sinta
Lá bem no alto
Ar rarefeito
E menos peso
Na minha dor!
EU CANTO
E pinto
Por tudo isto,
P’ra resgatar
O pecado
De exaltar
Esse teu rosto,
Iluminar
Em aguarela
Esse enleio
Do meu olhar,
Por te ver
Na nossa rua
Debruçado
Na janela
Com vontade
De pintar.
II.
POR ISSO CANTO,
Por isso pinto,
Por isso voo
Lá para o alto...
...................
Já não os vejo,
Já não os ouço
E já não vivo
Em sobressalto.
MAS VEM COMIGO,
Eu dou-te asas,
O infinito
No céu azul,
Voamos juntos
Ao mesmo tempo
E o nosso rumo
Será o Sul.
VÁ, VEM COMIGO,
Voa mais alto,
Ah!, meu amor,
Se tu vieres
Eu já não sofro
E vai-se embora
A minha dor!

O SILÊNCIO E A MEMÓRIA
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Levitação”. Original de
minha autoria. Maio 2018.

"Para que tú me oigas / mis palabras / se adelgazan a veces /como las huellas de las gaviotas en las playas"
Pablo Neruda
POEMA
NO SILÊNCIOEu vejo-teCom palavrasSufocadas.A pretoE branco.A linguagemDo tempoQue passaInexorávelE erodeOs ângulosSuavesE coloridosCom que nosFomosDesenhando...........Nos diasDe festa!E, AGORA, VIVOOblíquo,Neste intervaloSofridoDe ondeTe vislumbroA silhuetaAo crepúsculoDo fugazEncontro,Lá no Monte,Que oraDeclina...“VOU-ME EMBORAP’ra Pasárgada”,Diria o saudoso
Poeta,“Porque aquiAnoiteceu”!MAS, NÃO!Eu não parto,Porque na memóriaTe vejo a cores.Aquelas com queNos fomosPintandoEm caminhadaCúmplice,À procuraDe formasPara oferecerEm trocaDe nada.NA MEMÓRIAAcaricio-teCom as mãosInvisíveisDa minha almaE o azulDo céuQue aindaNos sobraComo mantoTransparenteE frio.PRESSINTO-TE,Assim.Adivinho-teEm riscos queDeslizamDos teus dedos,DádivasDa belezaInscritaNo teu rostoQue me chegamCom a brisaDo amanhecerNesse pátioSecularDos nossosAntepassados.E ESTREMEÇOQuandoTe reencontroNestas veredasEstreitasMas profundasDa imaginaçãoCom queNos reinventamos.VISTO-ME, ENTÃO,De vermelho.Por dentro.A rigor.Solene.Pinto-meA almaAo sabor do vento.Cubro de rosasVermelhasO chão etéreoQue pisoSuavementeCom o olhar.Dou mais saborÀ liberdadeVoando comUma rosaP'ra te poderAlcançar.AH! SIM,Duplico-meNesta vidaÍntimaE oblíqua,Neste intervaloOnde te sonhoCom palavrasQue te chegamDesfiguradasPelo siroco,Vento do sulQue lhes sopraForte,No caminho,A áspera areiaDo deserto................Que habitamos.SIM, MAS SEO VENTOAinda sopraAo amanhecerQue me importam
A areia e o
O deserto?
A AGUARELA
Poema de João de Almeida Santos
inspirado no poema de Manuel Bandeira
“Tema e Variações” (Obras poéticas,
Lisboa, Minerva, 1956, p. 384).
Ilustração: “Vermelho”. Original de minha
autoria. Maio de 2018.
Milva: L'uomo dal mantello rosso

Milva (início da letra da canção, um sonho cantado): “La solitudine / È come la febbre: / diventa più forte di notte. / Un’aspirina e la febbre va via, / la solitudine no. / Io, che colpa ne ho io, / se questa notte ho sognato?” - “C’era un uomo dal mantello rosso...”
POEMA
SONHASTE, MANEL,
Que havias sonhado
Estar à janela
Sonhando a cores
Qu’estavas com ela.
TAMBÉM EU SONHEI
Que tinha sonhado
E que no sonho
A tinha encontrado,
Passando por ela,
Ali, lado a lado,
Mas quando acordei
Do primeiro sonho,
Sonhando, eu vi
O seu belo rosto
Numa aguarela
Pintada a cores
Que tinha guardado
Para uma tela...
SONHEI, OUTRA VEZ,
No segundo sonho,
Que era pintor
Mas que pintava
Sempre o seu rosto
A uma só cor...
DIZIA, SONHANDO,
Que não podia ser.
Seu rosto expressivo
Era arco-íris
Ao amanhecer
E era sorriso
Para o mundo ver!
MAS EU SÓ O VIA
Com a minha cor,
Esse rosto belo
De seda tecido
Que me seduzia
No sonho sonhado
Onde sempre a via
Ali, a meu lado.
NÃO QUERIA ACORDAR
Do sonho feliz
E nele fiquei
De olhos fechados.
Já não acordei
Do sonho sonhado
Porque nessa cor
Fiquei encerrado
Com todo o meu ser...
...............
Talvez por amor.
NO SONHO OLHEI
Para o meu espelho
E logo eu vi
Que essa minha cor
Era o vermelho.
QUANDO ACORDEI
Do primeiro sonho
Voltei a sonhar
Que tinha sonhado
Que o encontrei,
Esse rosto amado.
E logo lhe disse,
No segundo sonho,
Que a tinha sonhado.
DISSE-ME QUE NÃO
Que nunca me vira
Sequer acordado.
E logo acordei
Desse pesadelo.
Foi assim que vi
Que tinha sonhado
E que ela
Já lá não estava
Ali, a meu lado.
QUIS ADORMECER
Para a encontrar
Mas não consegui
Sonhar que a via,
Pôr os olhos nela,
Chorar d’alegria
Porque descobri
Na minha parede
Aquela aguarela
Que do sonho
Passado
Eu já conhecia...
................
Era o rosto dela!
A MONTANHA
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração (“O balão e a montanha”) de minha autoria.
Maio de 2018.

“I live not in myself, but I become
Portion of that around me; and to me,
High mountains are a feeling....”
Lord Byron
Childe Harold’s Pilgrimage (1812-18).
Canto III, 72 (1816).
POEMA
ESTOU A PERDER-TE,
Meu Amor!
O estro
Com que te canto
Esmorece,
Vai perdendo
Lentamente
O seu fulgor!
O poema
Empalidece
E eu,
Em poética anemia,
Sinto
Um doce, suave
E sonolento
Torpor...
SUBI A MONTANHA
Contigo!
E, feliz de lá chegar,
Com palavras
Que me deste
Eu aprendi a cantar!
CANTEI A TUA PARTIDA
Quando desceste
O vale.
E, triste,
Eu caminhei
Por veredas
Sem destino...
..........
Já nem sei!
PERDIDO
De ti,
Vagueei
À procura
De eco
Do meu canto
Derramado,
Som puro
E cristalino
E por ti
Iluminado.
MAS O ECO
Era silêncio
Profundo,
Sideral,
Inscrito
No azul,
Quase irreal,
Da abóbada
Celeste
Da montanha
Seminal.
NEM SEQUER
O CLARÃO
De um cometa
Fugaz
Me visitava,
Pinhal abaixo,
Rumo ao horizonte
Do meu inquieto
Olhar...
O AR RAREFEITO
Da montanha
Tomou conta
De mim
E desfaleceu
A emoção
De te rever,
Reinventar
E te cantar
Em surdina
Com esse
Silêncio
Cortante
Que me negava,
Impenitente,
O eco da
Minha canção!
DESCI, ENTÃO,
Também eu,
O vale
Da tua vida
E regressei
À triste monotonia,
Sem ti,
Em corpo
Sequer imaginado,
Nem semente
De poesia.
ESTOU A PERDER-TE
Meu amor!
É poética
Anemia.
Ar rarefeito
Que sufoca
A melodia.
O cântico
É murmúrio
Inaudível,
Sem comoção
De alma ferida
Que já nem
A dor pressente,
De tão esgotada
Na vida
Por excesso
De paixão!
O VALE ESPERA-ME.
Respiro ofegante,
Porque sei
Que não te vejo,
Que já não
Sobram sinais
Da rua do
Desencontro,
Não há fugas
Irreais
Para o teu
Infinito
Nem janelas
Donde te veja
Passar
Ou sequer imaginar
Na esquina
Esquecida
Do nosso
Contentamento!
ESTOU A PERDER-TE,
MEU AMOR.
Não há janela,
Nem há cor
Ou infinito,
Não há tempo
Nem lugar,
Não há poema
Nem mar
Que suspenda
O vazio
De não te poder
Encontrar!
JÁ TE PERDI,
Meu amor?

SONHO
POEMA TRISTE. João de Almeida Santos. Ilustração: “Sonho”. Original de João de Almeida Santos. Maio de 2018. Milva canta "IN SOGNO" (Album: "Tra Due Sogni")
Letra de "IN SOGNO": "Sì, / L’alba è la più forte./ Sì, / Vince i sogni, la realtà. / Eppure, / Solo in sogno / Viene a noi / La verità. / Così si chiude un fiore / Se il sole non c’è più, / Ma tutto il suo colore / Raccoglie in sé".
“Sonhei ter sonhado / Que havia sonhado./ Em sonho lembrei-me / De um sonho passado: (…) / Ter sonhado o quê? / Que havia sonhado / Estar com você. / Estar? Ter estado, / Que é tempo passado. / Um sonho presente / Um dia sonhei. / Chorei, de repente / Pois vi, despertado / Que tinha sonhado”. Manuel Bandeira
POEMA

SONHEI QUES AS PALAVRAS Se gastaram, Desfiaram, Desataram, Sobrando fios Para tecer O silêncio. SONHEI Que a tinta Perdeu a cor. Que já não havia Poemas E que não era Pintor. SONHEI Que não eras tu. Que foi tudo ilusão. Sonhei que te procurei No mundo da fantasia Onde as flores Caminhavam, Sabiam a maresia, Tinham rostos De mulher, Mas surdos Ao que eu dizia. SONHEI Que não sabia Onde estás, O que fazes E o que sonhas Nas noites Do teu luar, O que vês Nesses momentos Fugazes Em que olhas Para ti. SONHEI Que não me lês, Que já não ouves Poemas, Que estás tão longe Daqui! NO SONHO Fui à memória, Que também Perdeu a cor. Ficou tudo A preto e branco... ........ E sonhei, Sonhei, sim, Que te perdi, Meu amor... SONHANDO, Procurei cor Num outro Lugar qualquer. Só encontrei O cinzento E por falta De vermelho Meus versos Tão desbotados Nem os levava O vento... FOSTE P’RA ONDE Que eu não te vejo? Perguntei Quando do sonho Acordei. Saíste De onde estavas E agora resta O desejo De te cantar Sem palavras P’ra que ouças O silêncio Com que antes Me chamavas. JÁ NÃO ME CHEGAM SINAIS. O meu É poço escuro, É buraco Tão profundo Que nele Eu vou caindo Como triste Vagabundo... O SOL TAMBÉM JÁ SE FOI. As sombras Tomaram conta De mim. Meus dias São sempre Iguais. Sinto um vazio Sem fim... MAS PINTO, Agora pinto, Tenho cores E tenho aromas, Tenho luz E sou feliz... ........ Ah!, sim, Mas perdi A minha Musa, A fonte D’inspiração! Foi p’ra longe, Com o vento E em meu triste Pensamento Só ficou A ilusão! GASTARAM-SE As palavras, Meu amor! Gastou-se tudo, Afinal! Só ficou o teu Cinzento, A tinta com que Lavras O meu peito (Sem lamento) E me afundas Nesta dor, A que canto Em surdina Para ouvires O silêncio Com que te pinto Sem cor...

METAMORFOSE
Poema de João de Almeida Santos criado
em diálogo com este quadro original -
“Metamorfose” - de João de Almeida Santos.
Abril de 2018.

"Não colhas uma flor, senão chorarás ao vê-la murchar"
Provérbio chinês
Podem cortar todas as flores, mas nunca impedirão a primavera"
Pablo Neruda
"Talvez deva às flores ter-me tornado pintor"
Claude Monet
"Há flores por todo o lado para quem é capaz de as ver"
Henri Matisse "
Uma flor é um ser totalmente poético"
Novalis
"Quem não tem pão, mas compra flores, é um poeta"
Provérbio turco

POEMA
CAMINHAS
Tão docemente,
Tão irreal,
Sobre as cores
Que eu te dei...
ÉS PLANTA DE JARDIM,
Bem sei!
Na alma
Tu tens flores
Que eu sempre
Cultivei,
Alimento
Dos meus olhos,
Aroma
Desses poemas
Que para ti
Cantarei.
CAMÉLIA
É o teu nome.
Encontrei-te,
Desta vez,
Em profunda
Solidão.
A alvura luminosa
Era tão densa
Que eu quase
A tomei
Na palma da minha
Mão.
QUIS TRAZER-TE
Para dentro do poema.
Disseste
Logo que sim.
Ficarias mais serena,
Estando tão perto
De mim...
FALEI CONTIGO.
Dei-te palavras
E dei-te cor.
A solidão
É castigo,
Eu bem sei.
Ah, meu amor!
E tu,
Brancura divina,
Não mereces
Essa dor.
CAMINHÁMOS
Numa ponte
P’rá outra margem
Da vida.
Eram passos
De liberdade,
Não eram
De despedida.
VI EM TI
Uma mulher.
Recriei-te
Com afeição.
Pintei-te
Em movimento.
Quis-te livre
No meu chão
De onde te
Elevaste
Quando eu
Te dei a mão.
É ESTRANHO
O movimento
Que não te afasta
De mim...
Tu vives
Em quietude
Porque te ofereces
Assim!
ESSA PONTE
De papel
Que parece um
Arco-íris
Saído do meu
Pincel
Vai devolver-te
Ao jardim
Onde a cor
É alimento,
É como favo
De mel,
De meus olhos
O sustento.
PERDIDO, EU,
Nessa tua
Melancolia,
Convoquei
Todas as cores
(Que sabia)
Com palavras
De um poema.
E dei largas
À evasão
Da flor
Que foi
Mulher
Porque comigo
Cantou
Em palavras
Coloridas
Essa sua
Solidão.
VÊS, MEU AMOR,
Como a solidão
Em flor
Pode ser libertação
Se lhe dermos
Muita cor
Com a força da
Paixão?
A IMAGEM ORIGINAL, de 21.03.2016. Camélia
solitária em Cameleira. Na altura em que a publiquei, escrevi,
no Facebook, o seguinte: "Surpreendente, a natureza! Camélia branca
suspensa! A elegância sensual de uma fadada Cameleira. Encontrei-a
no Jardim. Estava à minha espera. E logo a capturei, sem lhe tocar.
Só para partilhar essa luminosa, fresca e solitária brancura! Estava
ali como brilhante proposta estética da natureza: 'diz o que pensas
desta estranha forma de surgir no teu Jardim. É provocação florida,
não é? Sou tão branca e tão perfeita que e(n)levo a Cameleira’.
Olho-a de baixo para cima e ponho-a numa sensual fronteira!".
Respondo-lhe agora, dois anos depois. Ficaram-me a imagem e as
palavras que escrevi. Cruzei-as com novas vivências e experiências
estéticas... e deu nisto! A beleza fica registada na nossa memória
para sempre... e alimenta-nos a alma quando um novo estímulo a
reevoca e, às vezes, invoca!
O PINTOR
POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Celebração da Cor” -
Original de João de Almeida Santos.
Abril de 2018.

"Le Poète se fait voyant par un long, immense et raisonné dérèglement
de tous les sens".
Rimbaud.
O PINTOR BRINCAVA
Com suas palavras.
Dizia-te sempre
Quando não estavas...
ERA UM POETA,
Era fingidor.
Não te desenhava.
Cantava-te
A cor.
SUAS CORES
Eram as palavras.
Fazia pincel
Da sua caneta.
O pintor riscava,
Mas a sua tinta
Já não era preta.
POR ISSO COMPROU
Um belo pincel.
Pintava, pintava...
Era a granel,
Como se a tela
Deixasse de ser
O velho papel.
DESCOBRIU A COR,
Que o fascinou!
Azul, vermelho
E tanto amarelo.
Tudo ele pintou,
Procurando sempre
O que era belo.
ATÉ QUE O ENCONTROU
Na cor dos
Teus olhos.
Era luz da pura
Que iluminava
O branco papel
Onde desenhou
O teu fino rosto
Com o seu pincel.
DEU CORPO À COR
Com que te dizia.
As suas palavras
Tornaram-se riscos...
Mais que poesia.
PINTAVA-TE ASSIM.
Os poemas
Já não lhe chegavam.
Pintor de palavras
De cor as compunha
E versos voavam
No azul do céu...
..................
“E o que tu fazias
Faço agora eu”
- Dissera-lhe um dia -
“Porque sou poeta
Mas também pintor.
Deixaste-me só,
Entregue à palavra...
E eu,
Tão pobre de ti,
Pintei-me de dor.
MAS EU FAÇO DELA
O meu arco-íris
P’ra subir ao céu
A ver se t’encontro
Atrás duma cor
Pintando o teu rosto
Para um poema
Que vou escrever
Com todas as cores
Que trago comigo
Enquanto viver”.
O PINTOR BRINCAVA
Mas era séria
Essa brincadeira.
Perdido em palavras
Encontrou a cor
Que dos seus poemas
Dela fez bandeira...
A COR DA MEMÓRIA
Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: Composição de JAS
sobre foto/ilustração de “Sogno di Libertà”
de Milva/Theodorakis. Vídeo aqui republicado:
Milva-Theodorakis - Sogno di Libertà

“Si tu quieres soñar / y te hace falta un tónico / vuelve la copa del
cielo / ¡y bébete el azul!”.
Luís Vidales, 1900-1990 - “Paseo”, 1976.
NUM DIA DE CHUVA
Bateste levemente
À porta da minha
Memória.
ERA TRANSPARENTE
Essa porta.
Vi que eras tu.
Reconheci a tua boca,
O bâton púrpura
Dos teus lábios.
NÃO SEI SE
ME PRESSENTISTE,
Não sei,
Porque a porta
Era um espelho.
Através dela
Só se via
Do lado de cá.
ENTRASTE
Cheia de cor
Que a chuva
Humedecera,
Mas deixara
Intacta.
Apenas com mais
Brilho.
TAMBÉM TU
ERAS TRANSPARENTE.
Olhei-te
E vi, através de ti,
Um céu
Pintado
De azul plúmbeo.
NA TRANSPARÊNCIA,
DESPONTOU O SOL
Coado em amarelo.
Havia umas nuvens
Escuras
A nascente,
Lá no Monte...
ÀS VEZES, O AMARELO
Ganhava tons de
Âmbar
E vestia-te o corpo
Na minha intangível
Memória
Fotográfica.
RECORDAVA,
Sereno,
Esse teu belo
Sorriso...
..................
Mas quando te quis
Tocar,
Ao de leve,
Um vidro desceu,
Vertical,
Sobre nós.
Era frio
E húmido.
Separou-nos.
E eu chorei!
AS LÁGRIMAS
Escorreram
Pelo vidro.
Tentaste
Agarrá-las
Do lado de lá
E fixá-las com
Todas as cores
Que tinhas contigo.
Ficaram algumas
Gotas
No vidro,
Em amarelo,
Porque tu,
De repente,
Te tornaste sol
E eu já não era
Mais do que um
Reflexo dos teus
Raios filtrados
Por algumas
Nuvens...
.......
Escuras!
DESPERTEI
Ao som
De dedos que batiam
Suavemente
À porta
Do meu quarto.
CORRI A ABRI-LA...
.......
Ninguém!
REGRESSEI, RÁPIDO,
À minha memória,
Mas tu já não
Estavas,
Nem sequer
Como reflexo...
..............
Deixara aberta
A porta do tempo!
COR, MAIS COR…
POEMA de João de Almeida Santos. Ilustração - Inédito de JAS: Poseidôn. Abril, 2018. Volto a propor uma bela canção de Milva/Theodorakis: Milva-Theodorakis - Sogno di Libertà

"Donde termina el arco iris, en tu alma o en el horizonte?"
Pablo Neruda
COR, DÁ-ME COR!
Fico mais perto
De ti
Se vieres
Com o vento.
Cor, mais cor,
Que as palavras coloridas
Já me sabem
A cinzento...
OU TALVEZ NÃO!
Palavras
Já não me faltam
Nem vivo
Na escuridão.
Ainda consigo
Dizer-te,
Com palavras
Dar-te a mão.
TENHO-AS
QUE ME CHEGUEM
Para gritar
Em vermelho
O concreto
Do teu nome.
Ver-te, assim,
Tão colorida
No vidro do meu
Espelho
Sem que a tristeza
Assome!
AH! MAS A COR
SE FOR INTENSA
E crescer
Em explosão,
Se tiver
Em contraponto
Palavras
De evasão
Que dão ritmo
Ao azul
Dos teus sonhos
De papel...
..........
É tudo
O que eu preciso
P’ra t’esculpir
A cinzel.
DÁ-ME COR
Que eu sou
Sensível
À luz intensa
Do teu olhar!
Aprendo nas
Flores que
Colho,
Quando vestes
O vermelho,
Com azul
Como espelho,
Ou te cobres
Com as cores
Do arco-íris
Que és.
AH!, VÊS
COMO TE CONHEÇO?
Tu és cor,
Gota d’água
Suspensa
No fio
Do horizonte
Banhado por
Raios de sol
Que despontam
Lá no Monte.
DANÇAS COM ELA,
A cor,
E com ela adormeces.
Por amor.
É sopro
Da tua alma
Quando a vida
Já é sonho...
...........
E te acalma!
MAS EU GOSTO
DE TE PINTAR
Com palavras.
Em maiúscula.
Onde o azul é
Mais íntimo
E o verde
Te cobre
Como manto.
Onde o vermelho
É pranto
Sem lágrimas
De enxugar...
..........
Nem sequer
Em amarelo
P'ra melhor
Te recordar!
NA COR DAS MINHAS
PALAVRAS
Te revejo
As vezes
Que eu quiser
Pois és mais
Do que desejo
Nos cânticos
Que compuser!
MAS EU GOSTO
Cada vez mais
De cor...
............
Confundir-me
Com ela,
Dançá-la
Como vida
Em explosão,
Fogo de artifício
Que embriaga
Os sentidos
Como se fosse
Vulcão...
LEMBRO-ME
DO POETA QUE PEDIA
“Mais luz!”,
Já em seu leito
Fatal.
Tinha luz
Dentro de si
Mas não entrava
Cor
Pelo portal.
Era cinzenta
A cor que lhe restava
Até escurecer
Quando a janela
Lentamente
Se fechava...
LUZ É COR,
Desperta da
Letargia,
Ressuscita
Do torpor.
Celebra a vida.
É cântico.
Chilreio de
Passarinho
Lá no alto
Que anuncia
O meu voo
Aos azuis
Que tu pintas
Em cobalto.
MAS A PALAVRA
FASCINA-ME.
É com ela
Que eu te canto!
Com a cor danço
E voo!
Com ela, leio-te
A alma.
Na cor, a tua
Roupagem.
Com a palavra
Suspendo
Os sentidos
Para melhor
Te sonhar
De todos os dias
Perdidos...
........
À deriva
No teu mar!
AH!, SIM,
Eu gosto
É das palavras!
E sabes porquê?
Porque tu cabes
Em quatro letras
Mesmo que o teu
Nome
Tenha cinco
E me saiba a verde
De Primavera...
ROSTO DE PEDRA…
Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – Jovem mulher com bâton.
“Estudo de uma jovem mulher” (1885), de
Gustav Klimt, (atrevidamente) retocado
por João de Almeida Santos

ENCONTREI-TE
POR ACASO
E caíste
Sobre mim
Naquelas escadas
Sem fim
Por onde descias,
Altiva,
Como senhora
Do silêncio
Austero
Que me devora.
É SEMPRE ASSIM
Quando te vejo.
Crispada,
Sobrolho
Franzido
E pesado,
Sofrido,
Em eterna
Revolta,
Anunciando
Penitência
Neste incerto
Destino
Já sem regresso.
DOEU?
Muito.
Mas que importa?
É sempre sal
Sobre ferida
Que não cura,
Mal que dura
E que perdura
Uma vida…
A TEIA
QUE NOS TECE
E cobre
Este espaço
Que entretece
E nos domina
É como o tempo
Que marca,
Implacável,
O acaso
Que tudo determina.
VI-TE, SIM,
Nesse dia,
Recolhida
Sobre ti,
Estranha na cidade
Invisível
Onde te conheci.
E ASSIM ME NEGAS.
E foges
Para lugar
Nenhum.
Corres, corres
Para onde
Nunca irás.
Escondes-te
Atrás do que
Desconheces
E de ti própria
Onde blasfemas
Contra o mundo
Onde não te
Reconheces!
A REVOLTA
Não sai
De ti
E petrifica
A tua alma.
É ÁSPERO, SIM,
ESSE TEU ROSTO.
Julgava-te
Já perdida
No silêncio
Da raiva
Surda
Contra mim,
Sem redenção,
Condenado
A grilhões
Que pesam
Como cativeiro.
CHAVES?
Ah!, sim,
Tantas são
As chaves que tens
E que não usas
Para me libertar!
TALVEZ NEM QUEIRAS
Porque também tu
Já és prisioneira
Da síndroma
Que te aprisiona
E te queima
Como fogueira.
CAÍSTE SOBRE MIM.
De repente,
Levantaste-te
Dessa sombra
Onde te encerras,
Te encobres
E vigias.
E atropelaste-me…
MAS NÃO ERA PRECISO,
Meu amor!
Todos os dias
O fazes.
Mesmo ausente…
EU VI UM ANJO…
No Dia Mundial da Poesia,
hoje, 21 de Março,
ofereço este Poema
de João de Almeida Santos.
Ilustração: Vénus, de
Botticelli, re-reimagined
por João de Almeida Santos
a partir de Yin Xin
(2008) e de Botticelli (1490).

EU VI UM ANJO
CAIR
Docemente
Sobre mim
Com seu rosto
Imaculado
Em momento
Inesperado
Que parecia
Não ter fim...
VINHA ELE
Lá de bem alto
Onde eu
O pressentia
Mas tive
Um sobressalto
Porque em mim
Esse anjo
Imaculado
Não cabia.
SUA LUZ
ERA INTENSA
Ofuscava-me
O olhar.
O seu brilho
Deslumbrava
E eu senti-me
Cegar...
MAS NÃO SEI
SE ERA ANJO.
Talvez fosse
Uma mulher.
E se não fosse
De arcanjo,
Ah!,
Não era um
Rosto qualquer...
POR ISSO
ME FASCINOU,
Porque ao vê-lo
Descer
Do trono
Onde reinava,
Quase, quase
Me cegou
Com a luz
Que o transportava.
E levou-me
Ao Olimpo
Onde a arte
Lhe sobrava.
FIXEI-O, ENTÃO,
Num quadro
De memória.
Traços leves,
Cores intensas
Que cativam
O olhar.
PINTEI-LHE DE
NEGRO
O cabelo
Para mais belo
Ficar
E seu rosto
Feminil
Deste modo
Desvelar
Como mulher
Sensual
Que me veio
Capturar.
DESENHEI-A
COMO BELO
Avatar
Que tomou
Conta de mim
Para sempre
Me lembrar
Que era
Uma mulher
E não era
Querubim.
MAS VI
UM ANJO,
Ah!, eu vi,
Entrar bem
Dentro de mim
Sob forma
De mulher,
Porque anjo
Imaculado
Não cabia,
Infinito,
No meu pequeno
Jardim.
FOI MISTÉRIO
Que subiu
Ao oráculo
Da vida
Onde eu a
Posso ler
Em texto
Que só termina
No dia
Da despedida,
Na hora em que
Morrer.
EU VI UM ANJO
DESCER
Neste vale
Da minha vida
E ele fez-me
Crescer,
Recomeçar
A partida...
E COM POEMAS
Parti
Em viagem
Ao Olimpo
Para com ele
Voar
Em cada palavra
Que digo,
Em cada verso
Que sinto!
CANTA, POETA, CANTA!
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: Auto-Retrato. Original de João de Almeida Santos. Março de 2018. Volto a repropor: Marzo - Milva. Arietta di Salvatore di Giacomo Para a letra e a tradução do napolitano, ver: Março.“Ora al nuovo sole si affidano i nuovi germogli” Virgílio.
CANTA, POETA, CANTA Até que Ela Te ouça, Nem que a palavra Te doa, Nem que a alma T’estremeça! CANTA, POETA, CANTA Que o teu poema Tem dor Que te baste, No amor, E tem cor Que alumia E tem sabor A cerejas, Que as dá A Primavera. SE NO CANTAR Tu quiseres Atingir o infinito, Salta p’ra cima Dum risco, Agarra asas De azul E voa Nesse teu céu Até que Ela Te veja, Te pinte Numa cereja E murmure O teu nome Em silêncio De igreja... CANTA, POETA, CANTA Que o teu cantar É um choro. E é água Cristalina Que corre Lesta Em teu rio Seminal, Dentro de ti, Turbilhão Arterial À procura de beleza No infinito Fatal De um adeus Beijado Pela tristeza! CANTA, POETA, CANTA Que contigo Cantarei A alvorada do dia. Chora, que eu Chorarei Se não houver Alegria. Ri, que Eu cantarei Animado por teu Riso. E para ti Dançarei Uma valsa De Strauss Às portas Do Paraíso! CANTA, POETA, CANTA Até que Ela Te ouça. Não pares De chorar alto, Lá em cima, Planalto Ou montanha, Poema Ou um desenho, Uma cor Em aguarela, Afagado Pela dor Mesmo que olhes P'ra ela Com um intenso Ardor Lá de cima Da janela... CANTA, POETA, CANTA, Para ti E para o mundo Que o teu cantar Enobrece Quem ouvir A tua prece, Quem sentir O teu lamento, Que de ser Já tão profundo Não o leva Nem o vento Pois em ti Ele entardece. E SE O VENTO O LEVAR Vai procurá-la A Ela, Dobra lento A esquina P’ra que o veja Da janela. MAS O DIA É DE FESTA! Há cortinas No poema E o lamento Lá regressa Ao poeta Que o cantou. O dia já Não é dele Mas de quem O castigou. CANTA, POETA, CANTA, Que um dia vai-te Ouvir. Deixa, pois, que o Tempo passe E a razão se esclareça. E confia no porvir. CHORA, POETA, CHORA Neste teu Entardecer Aqui tão perto Da arte Com saudades De morrer... CHORA, POETA, CHORA...
POEMA PARA TI
De: Olga Santos. Ilustração inspirada em Botticelli, "Nascimento de Vénus". Pormenor. “Re-reimagined” . Intervenção de JAS sobre Botticelli Reimagined – Venus in the gutter. By Yin Xin, 2008. Venus after Botticelli.
CRUZÁMO-NOS POR ACASO Na estrada da Poesia. Palavras embriagadas De cor, de luz, De misteriosa e intensa paixão, Caíam em suave cascata No colo da estrofe Que as aguardava Im-Paciente. SENTIDOS GENESÍACOS Eram paridos Pela neófita Que se fizera à estrada, Numa incontida explosão De prazer... JANELAS ERAM RASGADAS No traçado do poema Subitamente... Cruza-se a voz Do Poeta Com cantos de aedos outros. IRROMPEM CÍTARAS E TROMBETAS Volteiam bacantes palavras Perturbadora-mente Desassossegad-Horas. Tudo é cor, brilho, ritmo, cadência, Melodia... Farandole de Bizet Sarabande de Haendel. MAS FEVEREIRO ERA FRIO E a estrada penosa Para quem março nevou. SAÍ NA CURVA DA ESTRADA Disse adeus à melodia... PROMETIDO ESTÁ O REGRESSO, POETA! Quando o sol cegar a sombra E abrasar as pedras da montanha, E da bonina o tempo for.
PRIMAVERA, QUASE
João de Almeida Santos
POEMA. Ilustração: Primavera, Quase. Original de João de Almeida Santos. Março de 2018. Ilustração sonora de Milva, em napolitano, sobre uma Arietta de Salvatore di Giacomo: Marzo. Reproposição. Para a tradução, veja, aqui, Março. Para ouvir Milva: Marzo - Milva. Arietta di Salvatore di Giacomo
Primavera, Quase
"Até nos nossos sonhos neva, mas uma única vez na vida". Orhan Pamuk, escritor turco. Prémio Nobel da Literatura.
PRIMAVERA, QUASE
SE ME PERGUNTASSES PELA NEVE, O que sempre te diria? “- Tenho-a na minha Alma, Sinto-a, pura, Em cada dia.” DELA CONSERVO O FRIO E a brancura Do seu manto, Mas sinto-a quente Por dentro, Mesmo que sofra, Em pranto. ENTRA NEVE NA PRIMAVERA E dá húmus Ao jardim, Rega fundo A tua alma E ao sofrimento Põe fim. E QUANDO O INVERNO Termina Saem cores Da tua mão, Voam riscos, Nascem amores, Tudo brota Do teu chão... EU PERMANEÇO NA NEVE, Corpo frio, Alma quente. Se te banhar Como rio Germinas Como semente, Explodem os teus riscos Em girândolas De cor. É festa Na tua terra, Já não é tempo De dor! MAS SÓ DESÇO DA MONTANHA Como neve Que t'inspira Pois da arte É alimento, Frio branco Que conserva E à alma Dá alento. SÓ ASSIM EU TE VISITO, Perdoa A minha falta. No alto voam Foguetes, Mas dentro de mim É ribalta, A que quero Para ti Pois eu não quero Mais nada. Que Atena Te inspire Com sua varinha De Fada! É FESTA NA TUA TERRA, Crepitam foguetes No ar, Fosse eu O teu mordomo Não iriam As girândolas Na tua festa Parar! BRANCA NEVE, FRIA E HÚMIDA, Não vê Foguetes no ar, Mas banha A tua alma, Lentamente, Sem parar. E SE PERGUNTAS P'LA NEVE Eu ouço-te Cá em cima, Inspiro-me na Montanha E respondo-te Em rima, Devolvo-te Inspiração Que da arte É a vida, Num poema Em oração Que não é De despedida, Mas canto, Em comoção, Da palavra Proibida.
MARÇO
POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração: PÁN - Original
de João de Almeida Santos.
Em exposição na minha Galeria Poética,
de Março de 2018 até... Sempre!

"Marzo: nu poco chiove / e n’ato ppoco stracqua: / torna a chiovere,
schiove, / ride ’o sole cu ll’acqua./ Mo nu cielo celeste, / mo
n’aria cupa e nera: / mo d’ ’o vierno ’e tempeste, / mo n’aria ’e
primmavera. / N’auciello freddigliuso / aspetta ch’esce ’o sole: /
ncopp’ ’o tturreno nfuso / suspireno ’e vviole... / Catarì!… Che buo’
cchiù? / Ntienneme, core mio! / Marzo, tu ’o ssaie, si’ tu, /e
st’auciello songo io".
"Março: um pouco chove / e logo deixa de chover: / volta a chover,
pára, / ri o sol com a água. / Ora um céu celeste, / ora um ar
escuro e negro: / ora tempestades d’inverno, / ora um ar de
primavera. / Um pássaro com frio / Espera que espreite o sol: /
na terra ensopada suspiram as violetas... / Catarina! Que queres
mais? / Entende-me, meu amor! / Março, sabes, és tu, / e aquele
pássaro sou eu".
NOTA - “Arietta” (1898) do poeta napolitano Salvatore di Giacomo,
1860-1934,em dialecto napolitano. Ouça MILVA em:
https://www.youtube.com/watch?v=lMKDSnJEadc).
GOSTO DE MARÇO,
Entre a neve
E a primavera,
O branco e
As flores.
Na fronteira,
Como te vejo?
Talvez quimera!
GOSTO DO BOTTICELLI,
Dos rostos
E dos corpos
Feminis.
Volúpia de
Transparências
Sensuais.
Da pele, a Cor.
Dos traços
Que desenham
Alvura nas
Três Graças...
.........
E no Amor!
GOSTO DO BRANCO,
Cá de perto ou
Lá longe
No alto da Montanha.
E das cores intensas
Que brotam
Insinuantes
Ao meu olhar
Deslumbrado,
Cá em baixo,
Por ti
Iluminado!
GOSTO DE MARÇO.
Entrei nele
Contigo.
Ombro a ombro.
No signo do
Desencontro.
Que se repete
Em silêncio
Fatal,
Marcado
Contraponto
Do tempo
Imprevisível
Deste “triste
Destino”...
Quase irreal.
QUE O DIGAM
Os astros
Desalinhados!
Para ti colhia
Flores luminosas
E a inspiração
Crescia
Nas estrofes
Arrebatadas
Com que fingia
Sentir
O que dizer
Não podia,
Fosse por
Uma hora
Ou por um dia.
NO SIGNO DO
Desencontro
Marcado como selo,
Lá vou eu
Por aí,
Nem sei porquê
(Ou por falta de ti),
De braço dado
Com Botticelli,
Lá em cima,
na Galleria,
Onde, um dia,
Eu quase morei.
Procuro-te
Em oração
À tua deusa,
Atena,
Que trazes
(Eu bem sei)
No coração.
SINTO-TE PERTO,
Depuro
A tua imagem,
Bissetriz de mil
Rostos,
Até se tornar
Ideia
De corpo ausente!
DEPOIS REINVENTO-A
A cada instante,
Abraço-a
Com alma
De amante,
Pinto-a com
Palavras
E silêncio
De catedral.
E sonho-te...
AO ACORDAR,
No amanhecer
De cada poema,
Verei que continuas
Em mim,
De olhos fechados,
Como se fosses
Memória do que
Nunca aconteceu.
ANDAREMOS
Por aí
(Os astros o dirão),
Vagando
No pólen
Da beleza sensível
Onde pousamos
O nosso inquieto
Olhar
À procura
De alimento
Para pintar
O poema...
...................
Talvez o impossível!
LÁ NO ALTO
Te encontrarei,
Fio do horizonte,
Simulacro do teu
Olhar
A construir infinito,
Onde, num adeus
Sem fronteiras
Nem cais de partida,
Hás-de desenhar,
Com a alma,
As mil silhuetas
Ainda inacabadas...
.............
Ou talvez não!
MEU DEUS,
Como gosto de ti...
........
Em Março!
Poema de João de Almeida Santos Ilustração: Almada Negreiros - “Viento. Blanco y Negro. N.º 2.017. 21 de enero de 1931 ”. In Pessoa. Todo arte es una forma de literatura. Catálogo. Museo Reina Sofía. Madrid, 2018, p. 262. Exposição aberta até 07 de Maio de 2018.
DESPEDIDA

“Tu prima m’inviasti verso Parnaso a ber ne le sue grotte, e prima
appresso Dio m’alluminasti”.
Dante Alighieri. Purgatorio. Canto XXII.
PERDI-TE
Porque nunca
Te encontrei.
Numa rua,
Numa praça,
Num café.
Em lado nenhum.
Não sei!
ENCONTREI-TE
No Parnaso.
Lá em cima.
Intangível.
Sem poder
Tocar-te
A não ser com
Palavras.
Em forma de poema.
Sensível às cores
Da tua alma.
DE REPENTE,
Vestiste-me
Com elas,
As palavras.
E eu senti-me
Quente,
Afagado
No meu Canto,
Às vezes,
Amargurado,
Outras,
Em pranto,
Sufocado.
SIM, ENCONTREI-TE
No Parnaso.
Lá em cima.
No Monte.
Através de ti
Eu vi a costa,
Eu vi o mar
E o meu mundo
Interior
Com nitidez,
A sonhar-te,
De cada vez,
Em azul...
.........
A tua cor.
A NEBLINA
Cobria-te
Para te revestir
E refrescar
A alma
Como chuva
De palavras
Húmidas
Caídas do meu
Céu.
EU NÃO ERA MAIS
Do que espelho
Que te devolvia
Fantasia
Contra a
Petrificação
Que espreita sempre
Nos olhares
Indiscretos.
Mas tu não me vias.
Em mim,
Especulavas,
Dizias...
E DE TANTO TE
VERES
E dizeres
Decidiste declinar
O espelho que
Começava
A embaciar-te.
E NÃO ERA DA
NEBLINA
Que te envolvia,
Mas dos desenhos
Que tuas mãos
Esboçavam
Timidamente
Nesse espelho
Já húmido
De ti.
E DESPEDISTE-TE.
Do Monte.
Desceste para ti
Vertiginosamente,
Em desconforto,
Sob os olhares
Das mil górgonas
Que sempre ameaçam
Petrificar-te.
E sucumbiste.
Ou talvez não...
NO MONTE, O ESPELHO
Disse para si:
- De tanto te veres
Em mim,
Ficou-me, de ti,
O repetido reflexo.
E sabes o que
Brotava
Quando te olhavas
Com palavras
Na minha superfície?
Beleza!
Toda a que me sobrou
Quando, triste,
Desceste o Monte.
MAS ESTA NÃO
PETRIFICARÁ
Porque ficou
Guardada
No meu corpo
Vítreo
Onde todos
Se revêem
Sem saber
Que no reflexo
Levam, gravada
Em transparência,
A tua imagem...
.........
Embaciada.
E EU POR CÁ FIQUEI,
Espelho do mundo,
A olhar para
O escuro espaço
Sideral
À espera que um cometa
Me alumie o caminho
Para to devolver como
Teu reflexo
Original...
A CAMINHO DE PASÁRGADA…
Poema de João de Almeida Santos, à desgarrada com Manuel Bandeira (1886-1968), a caminho de Pasárgada, inspirado em três poemas seus: Desencanto, 1912; Versos escritos na água, s.d.; Renúncia, 1906. In Obras Poéticas – 1956. Lisboa: Minerva, pp. 33, 40, 101. Ilustração: pormenor de uma obra do Mestre Guilherme Camarinha (1912-1994).
“OS POUCOS VERSOS QUE AÍ VÃO, Em lugar de outros é que os ponho. Tu que me lês, deixo ao teu sonho Imaginar como serão.” OS MUITOS VERSOS Que te dei Deixam claro O que sou. Se tu me leres, Eu não pequei. É pouco do muito Que te dou. “NELES PORÁS TUA TRISTEZA Ou bem teu júbilo, e, talvez, Lhes acharás, tu que me lês, Alguma sombra de beleza...” TALVEZ BELEZA E algum sentido, Tristeza, dor, Como castigo... Eu canto O que perdi P’ra que o verso Vá ter contigo Lá onde estejas... .............. Queira o vento Ser meu amigo. “QUEM OS OUVIU NÃO OS AMOU Meus pobres versos comovidos! Por isso fiquem esquecidos Onde o mau vento os atirou.” NÃO OS AMOU Por ser verdade Este amor Que aqui nasceu E que cantei Em liberdade Em versos Que o vento Já me levou Aos muros Dessa cidade. OUTROS FARIA Se pudesse Para os pôr Na tua mão, Não pediria que Os sonhasses, Olhos cerrados, Mas que os lesses Com afeição! AH!, MANUEL, Que bem me sabe Pôr a dor Em poesia, Em versos A emoção, No cantar Triste alegria E muito intensa Uma paixão, Mesmo que seja Utopia! DIZES TU, Em poesia, Que só a dor Te enobrece. É bem verdade, Meu bom poeta, Alma dorida Logo aquece E com seus versos Entretece O que a paixão Já tanto afecta. “A VIDA É VÃ COMO A SOMBRA QUE PASSA... Sofre sereno e de alma sobranceira, Sem um grito sequer tua desgraça. ENCERRA EM TI TUA TRISTEZA INTEIRA. E pede humildemente a Deus que a faça Tua doce e constante companheira...” POIS TENHO MEDO, Ah!, meu irmão, Que a dor Me passe, Perca o poema Sua raiz, Essa, sim, A verdadeira, E eu fique só Já sem palavras E caiam secas Todas as rosas Que me povoam Esta roseira. SOBRAM ESPINHOS Ferem-me a alma E saem versos E cai o sangue “Gota a gota, Do coração”, “Volúpia ardente” Já sem remédio “Eu faço versos Como quem chora” E chamo a dor Naquela hora E ela vem Por compaixão! AH!, POETA, Ah!, meu irmão, Tu fazes versos “Como quem morre” E eu procuro Neste meu canto... ............ O seu perdão! TU, MANUEL, És a bandeira E ela o meu refrão, P’ra mim és verso No meu poema E ela é... ............ Minha paixão!
A PALAVRA PROIBIDA…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: Intervenção digital (cor) de JAS sobre “O Rio” (1950), do artista italiano Alberto Savinio (1891-1952).
“L’amour est la poésie des sens” Honoré de Balzac
OS GUARDIÕES Do sagrado templo Emitiram Edital: “O amor em poesia Fica assim proibido Porque pode ser Fatal. Os versos E as estrofes Pintados A luz e cor Ficam p’ra sempre Banidos Da Arte E do Amor!” DIZ O AMIGO Honoré, Certeiro Como poeta, Que o Amor É poesia, É a arte Dos sentidos, É perfume Qu’inebria E nos faz sentir Perdidos... ............. Se não houver Guardião Impenitente Que decrete: “Também eles São proibidos!” PROIBIDOS? Ah!, esses, Não! Poesia É emoção, É enlevo Dos sentidos... ........... Que resiste Ao edital Mesmo que seja Cantado Pelo mais Belo jogral! TENTA, POR ISSO, Levá-los Aos píncaros Da fantasia, Sobem lá alto Os sentidos Com asas De poesia! MAS É DIFÍCIL Senti-los, Ouvi-los Em verso, Com alegria, Pois há sempre Alguém Que me rouba A brisa Dessa tua Maresia... .............. A que respiras Bem cedo, Logo ao Amanhecer, Em cada dia Que sentes Como, feliz, Eu te canto Para nunca Te perder! OLHAS O MAR, Sentes As ondas Dentro de ti A cantar Como versos Que o vento Sopra De mansinho P’ra te poder Sussurrar O que por ti Eu já sinto Apesar de tão Sozinho! POESIA Dos sentidos? O amor também É isso Porque, queiras Ou não queiras, Tem a força De feitiço. Encontro-a Sempre em ti E mesmo que Proibidos Desenho sempre Poemas Desde o dia Em que te vi... ............ Exaltaram-se Os sentidos E para o poema Parti... DECRETARAM Edital? Ah!, que o façam, Pois, cumprir! Mas poesia É como vento, Sopra-me Tão forte Na alma Que o teu silêncio É alento Para sempre Te esculpir. Na palavra proibida Encontrará o poema O seu próprio Porvir...
***
PERDER-TE…
Poema de João de Almeida Santos. Ilustração: intervenção digital de JAS sobre “Portrait d’un Poète (Juliet)”, 1954, de Man Ray (Man Ray, Cent’anni di Libertà - 1890-1990. Venezia, Sodicart, 1990, p. 119). Homenagem a um Artista que admiro.

RENUNCIEI Para nunca Te perder, Mas neste Silêncio sofrido Vai declinando O que p’ra sempre Eu quis ter... VÊS, BERNARDO, Que destino? Que desassossego, O meu? Quis seguir O teu caminho E perdi-me... .......... Já não sou Eu! QUE DESENCONTRO Foi esse Desde o dia Em que te vi? Dei-te errados Sinais Cada dia Que vivi, Cavando Cada vez mais A solidão Que m’invade Desde quando Te perdi? VÁ, DIZ-ME Tudo o que Não sabes! Eu quero Mesmo saber P’ra te cantar Em poemas, Pois não te Quero perder! TU AMAS A poesia? Senti-la é Doce sofrer, Ela diz tudo Com nada, O seu canto É prazer, É melodia De fada Mesmo quando Faz doer! NO POEMA Eu até finjo, É poeta Quem o diz, Mesmo que sinta O que digo Nunca sou, Sem ti, Feliz! MAS POEMA É como a vida, Posso ouvir A tua alma Em desejos Com palavras. É o modo De te ter, É remédio Que me salva De na solidão Eu arder! ESTE CANTO É, pois, meu, Nem tu Mo podes Roubar, Se te dizem Que é p’ra ti É verdade... ........... De enganar! O VERSO É o meu beijo Nesse rosto Que perdi, É quente Como o desejo E resiste A quem te diz Que o poeta Não te ama, Porque desenha As palavras Com um pedaço De giz... O AMOR Em poesia Não é mesmo Deste mundo, Quem o ler Como utopia Vai mais longe Vai mais fundo E não cai Em afasia Nem vê O pobre poeta Como simples Vagabundo. EU NÃO GOSTO Da renúncia, Mas que posso Eu fazer? Se não cantar O que sinto Ainda te vou Perder!
***
ALMA!
Poema a dois. Ana de Sousa e João de Almeida Santos. Ilustração de João de Almeida Santos. "Deusa no Jardim". 28.01.2018.

“ - PROPÍCIA, DESPERTA A MANHÃ, Desperta o dia. A Montanha distante É tua. Exageradamente fria. Está escrito Numa Estrela Em matriz Gravada A cinzel!” SIM, FRIA, É A MONTANHA Onde nascemos Para o Destino No granito Das nossas vidas! O CALOR Habita Outras paisagens Mais a sul, Onde nasce A poesia Para aquecer, Com flocos De palavras, A minha alma Granítica E vadia... “- FATAL CAMINHO De linhas paralelas. Até os sonhos Da mulher to dizem: ‘ - A solidão eterna Não ouvida. Ferida antiga, Aberta e repetida’.”
SOLIDÃO ETERNA... É longo O caminho Dos que amam No deserto Como gelo Na noite, A fria lua Iluminando a alma Nua Em desespero, Tendo areia E vento Como tempero... “- PORÉM, O GELO É QUENTE. Mente. Com a mentira sobrevive O engano. Da louca mansidão Se afastam Os sentidos Do paladar Do tacto.” SIM, É QUENTE, Porque não mente E é cortante, Faz brotar Sangue Em veias Flutuante Que escorre Sobre pele, Mesmo distante, Tal a força Da paixão Na memória Escaldante... “ - DE FACTO, PERDURA A audição, o olhar. O cheiro raro De um perfume Caro. Negrume De eclipse! Qual elipse? E o símbolo Do infinito Ata-lhe O petrificado coração. Reflecte um brilho Inigualável o diamante Inscrito Na sua neve Branca. Flecte Os joelhos. Sabe ainda rezar... Fá-lo Em poesia Confessando-se Às palavras Que se diz, Em permanente Melancolia...” ELIPSE E INFINITO Sabem de longe A não ouvido Grito de beleza Sacrificial Ou gemido Sussurrado E esquecido Lá longe. Alma ferida Que o seu altar Colorido Não acolhe Nessa distância Desmedida De uma fuga Inesperada E depois Insistentemente Ressentida No eco do silêncio! Oh! como é duro Vê-la perdida No meio da floresta Desordenada De cores, Esbracejando No seu irresistível Ímpeto, Em girândolas Ou estilhaços de Poderosa fantasia Em perigo De autofagia Cromática, À procura do Do tempo perdido Em sendeiro De floresta... “ - MAS O SILÊNCIO De Deus É um consolo. Mudança de estações, Tempo Insondável! Milhares de vezes Levanta voo a águia. Seu destino É voar. O da fiandeira, Fiar.” VOA, VOA A águia Com seus riscos, Mas ele, Que não é Fiandeiro, Fica-se Pelas palavras Como ciscos No seu olhar Perturbado, Sem cor Abandonado, Procurando, Parado, Voar Com outras asas Que encontra Em si, Sem saber Para onde Viajar, Perdido o infinito Que lhe roubaram Dessas mãos Tão generosas De palavras E cores... “ - SUAS IRMÃS, AS PARCAS, Riem Do destino Dessa mortal voadora. Resta-lhe ficar Soror da Seda Presa em seu casulo Do mais alto céu, Olhando de Longe Tudo o que a vida Lhe não deu.” MORTAL VOADORA Que me liberta Da Moira Que ao fim, Inflexível, Me conduz, Sem sair Desse silêncio Que tanto Me seduz... ......... Alma pura Que me trouxe Tanta, mas tanta Luz, Em plena vida De poeta Que resiste Com a Sorte À neblina Que aflora E espreita A cada esquina... “QUE CINZENTO E AZULADO, Porém, é o céu E o poente quente Que cai Alaranjado e vermelho, Como a nuvem Passou o sonho, Seu espelho... ............ Ah, a doçura Das palavras Amargas!” SIM, AMARGAS Como o gelo Quente Que não mente E não derrete Ao sol, No poente, Quando o verso Declina No horizonte marinho Ali a seu lado... Porque à vida E ao poema Sempre Reconduzem, Sim, As palavras, Mesmo sem cor! PROPÍCIA, DESPERTA A manhã, Sem ti, Meu amor!
ELAS FOGEM, AS PALAVRAS…

POEMA de JOÃO DE ALMEIDA SANTOS. Ilustração de ANA de SOUSA. 01/2018
QUERIA FAZER-TE UM POEMA, Sentir-te nele À vontade E as palavras Endoidaram Quando Feliz Lhes falei Da minha Quente Saudade... ............. Fugiram Numa revolta Sentida Sem conhecer A verdade. EU ESTAVA A MENTIR Sem cuidar Da crueldade De as usar Como queria Só porque Tinha saudade... ESGUEIRARAM RUA FORA, Cada uma Por seu lado, Em fugas No horizonte Deste poema Tentado. SÓ JÁ AS VIA LÁ LONGE, Ao fundo Da tua rua Num ponto Do infinito Desta minha Alma nua. UMAS ESVOAÇAVAM No fio Do horizonte, Outras Aninhadas No passeio... ............. E eu a tentar O versejo Capturado Num enleio Desta prisão Do desejo! PALAVRAS EM CORRERIA, Letras Perdendo forma Como fios De um novelo Já desfeito De sentido Como a água Do gelo... SÃO FIOS EMARANHADOS, Letras Que se deslaçam E procuram Outras formas Para lá da minha Rima, São riscos Na tua tela A subir Por ela acima... QUERO FAZER-TE UM POEMA Com palavras Desenhadas Mas elas fogem P’ra longe Correm, correm Assustadas Não vá mesmo Ser verdade Que as quero Alinhadas Neste recanto Feliz Onde resisto À saudade. ELAS GOSTAM DE CANTAR Esta minha Triste dor E gostam De me dizer Esta intensa Emoção... ........... Mas se vêem Que és feliz Fogem de ti, Dizem “não!” O POEMA PASSARINHO Procura-te Para cantar Mas se já Não sentes nada É ele que foge A voar... E HOJE É MESMO ASSIM Fogem todas As palavras Sem procurar Um destino, Já não consigo Agarrá-las Num poema Genuíno. NÃO SABEM DA MINHA DOR E por isso Vão embora Estou sem palavras, Amor, Estou muito triste, Agora!








