Poesia

I N O C Ê N C I A

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Loubotinhas”. Original
de minha autoria para este Poema.
Dezembro de 2018.
Loubotinhas5

“Loubotinhas”. Jas. 12-2018

POEMA – “INOCÊNCIA”

ENTRE LIVROS
E POEMAS
Encontrei-as,
As botinhas,
Marcas puras
De infância
Que traçaram
Um caminho
Logo aos primeiros
Passos...
...............
Com o selo
Do carinho!

DEI-LHES COR,
A que pude
Encontrar
Nesta vida
De aventura,
E com ela
Eu pintei
As chegadas
E partidas,
Encontros
E despedidas
Na sua forma
Mais pura.

ENCONTREI-AS
E lembrei-me
Do dia
Em que eu
Te conheci,
Do sorriso
Que esbocei,
Da timidez
Que travei
P’ra te dizer
Do afecto
Que logo te
Prometi.

AGORA, REGRESSO
 A elas,
Aos passos
Que ensaiei,
Às palavras
Que tentei...
................
Ao beijo
Que não te dei,
À tristeza em que
Caí...

É DE PUREZA
Que falo,
Meu amor,
Antes de a vida
Me pôr
Laços presos
Ao meu corpo
Que já não sei
Deslaçar
A não ser
Em poesia
Onde posso viajar
P’ra muito
Perto de ti.

COM ESTAS BOTINHAS
Eu voo
E regresso
Ao paraíso,
Posso dizer
Que te amo
E mais dizer...
...............
Não preciso!

EU GOSTO DE 
GATINHAR COM
A ALMA,
Descobrir
O que não sei,
Encontrar-te
Outra vez,
Dar um passo,
Dois ou três,
Caminhar
Sempre inseguro,
Tropeçar
Quando me vês,
Cair prò lado
Escuro
Quando partes...
...................
Ou não me crês!

EU GOSTO DELAS
E por isso as pintei
Para tas oferecer,
Um sorriso
De criança
Antes de adormecer,
Um sinal
De esperança...
...................
E de tanto
Eu te querer!

REGRESSO
À inocência
E vejo-te
A partir dela
E assim já não
Te esqueço
Porque com
Estas botinhas
Posso voar
Lá de cima,
Da que foi
Nossa janela!

Loubotinhas5R

 

NA BRUMA DA MEMÓRIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Luar”. Original de minha
autoria para este poema. Dezembro de 2018.
Rosam5

“Luar”. Jas. 12-2018

POEMA – “NA BRUMA DA MEMÓRIA”

FUI LEVAR-TE
Uma rosa
Aos confins
Do meu afecto.
Desci fundo
Na memória
Onde ainda te
Guardava
Como se fosse
Teu tecto.

PROCUREI-TE
Na bruma
Espessa
Que caía
Sobre mim
E quase não te 
Encontrei,
De tão longa
Despedida...
...............
Uma saudade
Sem fim!

PERDI-TE
O rasto
E o perfil,
Até teu nome
Perdeu cor,
Teus olhos
Luziam,
Incertos,
Nesta neblina
Da dor...

PERDI-TE A VOZ
E a tua
Melodia,
Quase tudo...
................
Mas, no fim,
Não te perdia!

PORQUE ERAS
Uma ideia
Que me sobrou
Do afecto
Que por ti
Sempre senti,
Construção
De arquitecto
Para nunca
Te perder
Desde o dia
Em que te vi.

NO MEIO DA NEBLINA
Esfumava-se
O teu rosto
De tanto eu
Te perder,
Incerto
O cintilar
De teus olhos
Que eram negros
Nessa ideia
De te ver.

ERA BRUMA
Indefinida
Este meu
Esquecimento,
Mas sobraste
Como ideia
Nesse preciso
Momento.

E VOLTEI!
Eu volto sempre!
É desejo
De te ver,
Dar-te corpo
Nas palavras
Com que te quero
Dizer
Em cada dia,
Depois de, no fim, 
Te perder 
(Eu bem sabia).

AGORA, DESENHO-TE
Com palavras e
Com cores,
Com paisagens
Que tenho dentro
De mim,
Com rostos
E com flores,
Aromas,
Um passeio
Com pavões,
Utopias,
Gritos d’alma,
Emoções...
..................
P’ra te recriar
Com magia
E contigo
Caminhar
Lá mais no alto, 
Na fantasia,
Onde vive
Essa ideia
Que procuro
Quando te quero
Encontrar!

VOO COM UMA
Rosa,
Disfarçado de
Insecto,
P'ra te ver
Ali de perto,
Olhos negros,
Cintilantes,
Fugidios
Ao fascínio 
Do jogo da sedução
Numa noite
De luar...
............
E talvez
De perdição!

MAS TEUS
Olhos
Apagam-se
Na fria penumbra
 Da memória
E, então,
Pinto-os
Com as cores
Do arco-íris
P’ra melhor
Te inventar
Banhada
Pelo sol
Nas mil gotículas
Que brilham
Dentro de mim,
Ponte luminosa
Donde sempre 
Te alcanço
P’ra me resgatar
Com flores 
Do teu quimérico 
Jardim.

TOMA ESTA ROSA,
P'ra que sintas
O aroma  
Do meu estro
E como, ausente, 
Eu te guardo
Tão perto de mim!

Rosam5R

O PAVÃO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Azul no Parque”. Original de minha
autoria para este poema. 25 de Novembro de 2018.
Pavão4JPGCorExp.2211

“Azul no Parque” – Jas. 25.11.18

POEMA – “O PAVÃO”

FUI AO PARQUE
Do Mar’chal,
Logo ao amanhecer,
Num triste dia
D’outono,
À procura do pavão...
...........................
Eram muitas as saudades 
Pois passara mais
De um verão!

ENCONTREI-O
Por ali,
Sozinho,
Também triste
Como eu
(Ou talvez não),
E vi nele,
Ao caminhar,
As cores fortes
Desta minha 
Solidão...

PORQUE É
Tão belo
O meu pavão?
Porque se exibe
E me seduz,
Me enche
A alma e o olhar
De tanta cor,
De tanta luz?
Talvez não,
Pois esse seu 
Porte austero
Estranha
A minha alma
E gela-me 
A emoção!

MAS SEGUI-O, 
Nesse dia,
Parque fora
No silêncio
Luminoso
Da manhã...
.......................
Folhas caídas
No chão
Acolhiam
O nostálgico
Passeio
De um poeta
E um pavão...

NESSE JARDIM
Do encontro
A beleza
Despontava
Em seu ritmo
Natural...
..................
Passos lentos
E cuidados,
Pose austera,
Altivez,
Um singelo
Ritual!

CAMINHEI COM ELE
Horas a fio,
Lado a lado,
Sem destino,
Revendo
As cores que
Um dia
Te emprestou
Num jogo
De sedução
Que à arte
Te levou
Como torrente
Sensível
Ou lava
De um vulcão!

JÁ NO ALTO
De um muro,
Oráculo,
Arte pura,
Aparição,
Perguntei-lhe
Qual a cor
Da tua alma
E ele mostrou-me
(E com razão)
Esse azul
Tão luminoso
Onde sempre
Se esfumam
Os traços
Da tua mão...
...................
E logo,
E por encanto,
Eu vi
Espelhado
O teu rosto
Nas cores vivas
Do pavão!

Pavão4JPGCorExp.2211R

 

LUA

Poema de João de Almeida Santos,
 inspirado no quadro de Paula Rego “O Baile” (1988).
Ilustração: “Mouvement”. Original de minha
autoria para este Poema (Composição
sobre bailado de Jerome Robbins/Philip Glass -
Ópera Nacional de Paris - 2018).
Novembro de 2018. 
JAS_O Baile1811

Mouvement. Jas. 11.2018

POEMA – “LUA”

DESCI À PRAIA
Da meia-lua
A ver se te via
Num anoitecer
Que, com tanta luz,
Há muito 
Não acontecia!

ERA DA LUA-CHEIA
A luz que havia,
Gente que dançava
Em dia de festa,
De som e de cor,
E se divertia!

NO CLARO DE LUA
Vi um rosto
De mulher
Que não era
Estranho,
Um perfil qualquer...

ERAM NEGROS
Os seus olhos,
Boca
Rúbida e quente,
Pele macia
Em corpo ardente,
Cabelos ao vento...
.....................
Vi que era ela
A deusa do baile,
Luz branca da lua,
Espelho de mar...
......................
E logo minh'alma
Procurou a sua
Nesse cintilante
 Brilho do luar...

COM ELA DANCEI,
Saltei e cantei
Em alegria,
Respirei a fundo
Essa melodia
Que me inspirava
Numa bela praia
Em forma de lua
Que me seduzia.

VI O SEU SORRISO
Em perfil na lua
Que eu desenhei,
Uma luz intensa
Me alumiou
Quando eu dançava
Essa melodia
Que p’ra mim soou.

CORPO DE MULHER...
Eu já nem sabia
Se era ela 
Ou outra qualquer
Com quem eu podia
Erguer-me à lua
Com alma despida
Neste frágil corpo
Pouco mais que nu.

E TAMBÉM A ALMA
À sua procura
Era de nudez
Um pouco ousada,
Mas, sim, era pura
Por ser nesta lua
Que eu adivinhava
A minha ventura...
........................
Pouco mais que nada!

ONDE ESTÁ A LUA?
Nessa bela praia
Ou noutro lugar
Onde a possa ver
Espreitar a rua
P'ra me enfeitiçar?

ESTÁ EM TODO O LADO
Onde o poema 
Estiver,
Desenhando 
Com palavras
Um suave rosto
Que é mais de deusa
Do que de mulher...

JAS_O Baile1411REC1

ESPELHO DO TEMPO  

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Esfera do Tempo”.
Original de minha autoria para este Poema.
Novembro de 2018.
TempoFinal11_11p

Esfera do Tempo. JAS. 11-2018

POEMA – “ESPELHO DO TEMPO”


QUEM ÉS,
Tu que ressoas
Na minha imaginação
Sempre que parto
Para um poema? 

TEMPO
Que flui
E se gasta
Dentro de mim
Como memória
que se esfuma?

 ESFERA DO TEMPO...
É como te vejo
Do lado de cá
Do espelho
Plano
Onde te reflectes
Cada vez mais
Como espectro
Intangível.

TEMPO,
O nosso tempo,
Que desliza 
Silencioso,
Implacável,
Como esfera
De fogo,
Meteorito
Incandescente
Sobre o jardim
Das magnólias
Encantadas
Que me hão-de 
Renascer
Em cíclico 
Retorno...

E EU VOO
Atrás dele,
Do tempo,
Levito,
Queimando-me
As entranhas,
Vestido de
Azuis 
Que se mancham
De nuvens carregadas
Para apagar
O fogo 
Que faísca,
Intermitente,
Sobre mim.

ÉS TEMPO, SIM...
E és passado
Quando te revejo
Através de um 
Espelho
Baço e enrugado,
Superfície amarela
Iluminada por um
Clarão ao rubro
Que parece
Sombrear
Este presente
Sofrido!

MAS O MEU TEMPO,
Esse,
É intervalo
Entre o que foste
E o que serás
A meus olhos
Já húmidos 
De tanto fixar
Os teus espelhos
De água 
(Azul marinho)
Em busca
De uma poética
Da salvação
Quando me afundo
Na memória
Com que ainda
Te tenho
E te canto!

DENTRO DE MIM
Há, como sabes,
Um fogo intenso
Que me consome,
Mas que só arde
Por fora
Porque espelhos
Líquidos
Me devolvem a chama
De través
Para não petrificar
Como lava
De um vulcão
Aceso
Que me fascine
E atraia
Como se fosse
Borboleta...

ÉS TEMPO
E já não te alcanço
Neste balancear
Incerto
Onde me gasto
Em poemas
Para não ficar
Prisioneiro
Do passado
Nem de um futuro
Que se anuncie
Rápido a
Devorar-me
O presente.

QUEM ÉS TU, AFINAL?

TempoFinal11_11pREC

 

VOU CONTIGO P’RA PASÁRGADA

Poema de João de Almeida Santos.
Diálogo com o poeta brasileiro
e nordestino Manuel Bandeira - 1886/1968
(Poemas: “Vou-me embora p’ra Pasárgada”
e “Brisa”), pelo cinquentenário da sua partida.
Ilustração: “Pasárgada”. Original
de minha autoria para este Poema.
Novembro de 2018.
PasargadaFinal5

“Pasárgada”. Jas. 11-2018

POEMA – “VOU CONTIGO P’RA PASÁRGADA”

VOU CONTIGO
P’ra Pasárgada,
É outro mundo,
Irmão,
Eu não fico 
Por aqui,
Falha-me
A inspiração
Porque a brisa
Do nordeste
Ficou lá
No Maranhão!
 
NÃO TENHAS,
Manel,
Saudades, 
Nostalgia do futuro...
Temos passado
Que baste
E foi, sim,
Foi muito duro!

VOU CONTIGO
P’ra Pasárgada 
Não quero
Ficar aqui,
Há tempestade
No ar
E a brisa do nordeste
Não passou
Do Piauí.

P’RA PASÁRGADA
Quero ir,
Lá todos
Falam verdade,
Por aqui
Ah, eu nem sei,
Já me falta
Liberdade...

GOSTO DE TI,
Ó poeta
Do reino
Da utopia,
Sem passado
Nem futuro,
Onde se faz
Poesia,
Se pinta,
Canta
E dança
Porque o ar
É do mais puro
E cheira 
A maresia! 

VOU CONTIGO
P’ra Pasárgada, 
Por aqui
Não fico bem,
É escuro
O horizonte
E eu até
Já me sinto
Como se fosse...
..................
Ninguém!

NÃO GOSTO
D’estar aqui,
Há ruído
Que é demais,
Esta terra
Não me serve,
Eu espero-te
No cais...
..............
Vou contigo
No teu barco,
À procura
De mar calmo,
Céu sereno
E tudo o mais,
Navegando
No azul,
Peixes voando
No mar,
No horizonte
Uma ilha,
Mulheres lindas
A acenar...

EM PASÁRGADA 
Sou feliz
Canto e
Danço
Na madrugada
Até que o corpo
Se canse
Com alma
Apaixonada
E adormeça
No regaço
Da mulher
Que for amada.

POR AQUI OUÇO
Ruído,
Há armas 
A crepitar,
Matam poemas
Com gritos,
Já não podemos
Cantar...

VOU CONTIGO
P’ra Pasárgada 
Meu mestre
De poesia,
Cantarei os teus
Poemas
Seja de noite
Ou de dia...

VOU CONTIGO
P’RA PASÁRGADA...

PasargadaFinal5Rec

DUAS HORAS…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Entardecer”. Original de minha autoria
para este poema. Outubro de 2018.
(Reproposição de um poema de 2017, com adaptações 
e nova ilustração).
EntardecerC8

“Entardecer”. Jas. 10-2018

POEMA – “DUAS HORAS…”

OLHEI-TE NOS OLHOS!
Eram negros,
Intensos
E tão profundos!
Toquei teus cabelos
Com o olhar,
Caminhei a teu lado
Nesse jardim,
Senti o teu corpo
Tão perto de mim
A respirar
O acre perfume
Da verde
Ramagem
Do vasto jasmim…

INEBRIOU-ME
Esse intenso
Aroma
E eu enredei-te
Em tão doce
Enleio
Que não tinha fim…

BRILHARAM
Tão docemente
Duas horas inteiras
Esses teus olhos...
.........................
E neles me perdi!

ESTIVE NO CÉU
Ao lado de deus
E lá vi dois sóis
Que não eram dele
(Uma luz intensa)
Porque eram teus!

MAS O TEMPO
Correu
Depressa
Demais...
..................
E é sempre assim,
Todos os dias
Se tornam iguais
Quando tu partes
E, em nostalgia,
Eu fico no cais…

VOLTEI A OLHAR-TE
Três horas seguidas...
Parecia verdade
Mas era ilusão
Porque partiste
Deixando-me só
E o que sobrou...
....................
Foi solidão!

SUBIU A TRISTEZA,
A saudade irrompeu
Colou-se-me
Ao rosto...
...............
E como doeu!

SE EU NÃO TE VEJO
Sinto
Falta de ti,
Mas se te encontro
Logo te perco
Porque o tempo
Voa
E logo te leva
P’ra longe dali!

TER-TE DEMAIS
Aumenta a saudade
E quando te vais
São negras
As nuvens
Da nossa cidade!

AINDA QUE TRISTE
Eu sou feliz
E com estas mãos
Te vou escrevendo
O que quero dizer...
........................
Mas este meu tempo
Volta a correr
E cresce a vontade
De logo te ver
Mesmo que saiba
Que é nesse instante
Que te vou perder…

TENHO SAUDADES,
Saudades de ti,
Desse virar
Da nossa esquina,
Na mesma rua
Onde te vi,
Dessa janela
Donde espreitamos
O que do mundo
Sobra p’ra nós…

EU JÁ NEM SEI
Que hei-de fazer,
Ter-te demais
É puro prazer...
...................
Mas quando te vais
Fico a morrer!

NEM SEI QUE
Te diga,
Ah!, meu amor,
Quando me deixas
Já nem sinto dor
Tão grande a tristeza
De já não te ter
Pois tu partiste
Mesmo sem querer!

OLHEI-TE NOS OLHOS,
Sim, meu amor,
Nesse entardecer...

O TEU CORPO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Penché”. Original de minha
autoria para este Poema sobre um bailado
na Royal Opera House. Outubro de 2018.

Nota: “Penché” é o nome que designa a posição 
que, em dança, continua o “Arabesque” 
e é a que se vê neste quadro.
Pencher2

“Penché”. Jas. 10-2018

POEMA – “O TEU CORPO”

HÁ POESIA
No teu corpo...
Alma geométrica
Que se desenha
No espaço
Para te contar
Sem palavras,
Contraponto 
silencioso
E expressivo
Da tua melodia.

HÁ MÚSICA
No teu corpo...
Pauta
Da beleza
Que levita,
Instável,
Entre cores,
Desenhando
Enigmas
Que só o
Poema
Pode decifrar...

TENS A ALMA
Inscrita
No corpo,
Como eu a
Tenho nas palavras
Que roubo
Ao poema inatingível
Que procuro,
Incansável,
Como minha utopia...

VEJO-TE
Como letra
De uma canção
Que vou cantando
Na minha subida
Ao Monte,
Porque o vale
Já não me chega,
Nem tu chegas,
Pois partiste
Em busca dos palcos
da tua vida... 

MAS EU RESPIRO,
Com o poema,
A tua dança,
Ao longe,
Em forma de
Letra
No discurso da
Beleza
Em que nos vamos
Enredando
Como em teia
Que prende
E nos liberta...

E PROCURO-TE
Na pintura,
Fixo-te
Para te cantar
Quando a noite
Cai sobre mim
E mergulho
Na solidão
Do silêncio
Com que, de longe,
 Me falas.

VEJO-TE
Num bailado
A solo,
Dançando,
Dançando,
Para que te cante
Num poema,
Ao ritmo do
Corpo
E da alma
Com que te
Vais desenhando
Nas telas
Da tua vida.

E, NO FIM,
Rogo-te 
Que não pares
O teu silencioso
E longínquo
Bailado
Solitário
Até que eu te
Desenhe
Em palavras
Para que nelas
Te revejas
Como se fossem
O espelho
Encantado
Da tua alma!

 

A TEIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Pas de Deux”. Original de minha
autoria para este poema (sobre um “Pas de Deux”
na Royal Opera House - Londres).
Outubro de 2018.
PdDeux14

“Pas de Deux”. Jas. 10-2018

POEMA – “A TEIA”

JÁ GASTEI
Todos os poemas
Cantando
O que não ousas
Ouvir.
Já me fogem 
As palavras
E fico mais 
Pobre de ti!

JÁ NEM SEI
Se é silêncio
Ou são notas
Dissonantes
Com que me cobres
A suave
Melodia.

NEM PALAVRAS
Nem cores
Nem notas
(Desenhadas)
Na pauta
Do silêncio
Com que me falas...
...................
Nada!
 
AH! NEM EU
Já saberei 
Nomear-te
Na hora
Da despedida,
No encontro
Que nunca
Marcaremos
Nessa baça
Encruzilhada
Onde sempre
Te perdi!
 
PARA QUE SERVE
A poesia
Se não a
Sentes...
Por dentro?
Para que serve
A pintura
Se não desenhas
Com a alma?
Para que serve
Gritar
Se não ouves...
Com o peito?
Para que sirvo eu,
Poeta,
Se não te vejo...
Por fora,
Mesmo que te desenhe
E cante...
Por dentro?

PARA NADA,
A não ser
Para celebrar
O futuro
De um passado
Que esmoreceu
Para nunca lá chegar,
Perder-me
Na rotina
Dos ecos
Silenciosos
Da alma,
Enganar-me
Em desencontros
Inventados,
Ir por aí
Sem saber
Para onde vou,
Desaparecendo
Na montra
Dos meus inúteis
Passeios
Pela arte
Que desenterrei
Das vísceras!

AO MENOS DANÇO
Em Pas de Deux
Com meus
Poemas
Desenhados,
Enredado
Nos mil fios
Da fértil
Imaginação
Do poeta pintor
Que levita
Sobre escombros
De uma casa
(Ou de um palco)
Que nunca construiu...

É A DANÇA
Da solidão,
Contigo
Suspensa
Nos fios
Da teia
Em que vou
Enredando
A minha vida,
Até tombar exausto,
Ao cair do pano...
..................
Que tarda!

NEBLINA

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Deusa”. Original de minha autoria 
para este poema. Outubro de 2018.
Deusa021018Con8Final

“Deusa”. Jas. 10-2018

POEMA – “NEBLINA”

CRUZO-ME CONTIGO
Nas frias ruas do
Desencontro...
E não te vejo!

CAIU NEBLINA
Sobre nós...
............
Um fino véu
Translúcido
Desce
Sobre o meu
Rosto
Quando te 
Pressinto!
 
ESVAI-SE
A nitidez
E regresso
À memória
Onde ficou
Gravada
A ideia
De ti,
O retrato
Imaterial
Que desenhei
Na fina tela do meu 
Imaginário,
As cores intensas
Que te iluminam
E quase me
Cegam....
................
Por dentro.

CRESCES
Em mim,
Mas diluis-te
Por fora
Como espectro
Que se esgueira
Na fria bruma
De um entardecer,
Sem deixar rasto.

DA TUA IMAGEM
Física
Restam-me
Ténues riscos
De um rosto
Em aguarela
Inacabada
Que desmaia
No tempo
Que passa,
Veloz.

POR FORA,
O azul é cinzento,
O sol é sombra
E a luz já nem 
Atrai
As borboletas
que lhe voam longe.
O som emudece e
O tempo pára.
A vida já só
É passado.
Arrefeceu.
Petrificou!
 
MAS HÁ UM
Contraponto
Luminoso!
Lava ao rubro,
Quente,
Jorra em mim
E inunda-me
A imaginação.
O sol 
Acende a tua
Imagem irreal...
................
E então ganhas 
Perfeita
Nitidez,
Cor exuberante,
A forma
De uma deusa
Luminosa.
Até o silêncio
Fala
E nele
Ouço, por dentro, 
A tua
Encantatória
Melodia.

REACENDE-SE
Vida
Na minha
Imaginação
E eu recrio-te
Para voar,
Em fuga,
No teu azul
Até ao infinito...
.....................
E não mais
Voltar
Às frias ruas do 
Desencontro. 

Deusa021018Con8Final_R

 

Pas de Deux

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Coreógrafo”. Original, de
minha autoria, para este poema. 
Setembro de 2018.
OCoreógrafoFim300918_trab

“O Coreógrafo”. Jas. 09-2018

POEMA – “Pas de Deux”

SOU COREÓGRAFO
Da minha alma,
Desenho-me
No espaço,
Embalado
Pela suave
Melodia do teu
Silêncio...

IMAGINO-ME,
Às vezes,
Num "pas de deux”
Contigo
Num palco
Em noite
De luar
Ali, na praia
Da meia-lua,
A dançar
O murmúrio
Desse mar
Com que te
Pintas
E ouves
Dentro de ti!

DANÇO
Com palavras,
Suspenso no ar
Pelos fios
Dos poemas
Com que
Teimosamente
Ilumino
Os caminhos
Por onde nunca
Ousas passar...

O SILÊNCIO É A TUA
Sinfonia,
O teu canto
De sereia,
A melodia
Que ressoa
Nesse mar
De linóleo
Onde me desenho
No suave
Bailado,
A solo,
De uma infinita
Despedida...

GOSTO DESTA
DANÇA
Espectral,
Contraponto
Dos sinais
Invisíveis
Com que pontuas
A tua assinalada
Ausência.

E CANTO-TE, SIM,
Mas, neste meu
Cantar,
Eu conto-me
Como espelho
Onde podes
Rever
O passado
Desse futuro
Que nunca
Existirá.

AGORA, SOZINHO,
No linóleo,
Ao pé da praia
Da meia-lua,
Acendo um sol
Com minhas mãos
E procuro
O que nunca
Encontrarei...
...............
A não ser
Sombras
De mim próprio
Gravadas
Na areia
Da baixa-mar.

POR ISSO, DANÇO,
Canto e 
Pinto
Em contraponto,
Livremente,
Com a melodia
Interior
Que toma
Conta
De mim
Sempre que um véu
Protector
Desce sobre
O meu rosto
Para apenas
Pressentir a tua
Silhueta,
Quando
Atravessas,
Atarefada,
A rotina
Dos teus dias.

ESTE,
O que te celebra
Em arte,
Já não sou eu,
Mas o coreógrafo
Da (minha)
Melancolia!

O Coreógrafo250918Final26Rec

É OUTRA, A JANELA…

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “A Outra Janela”. Original de JAS 
para este Poema. Setembro de 2018.
OutraJanela_160918

“A Outra Janela”. Jas. 09-2018

POEMA – “É OUTRA, A JANELA…”

DESTA JANELA
Não te vejo!
Há um caminho,
Uma silhueta
Que se insinua,
Mas não sei
Onde me leva...

SÓ SEI QUE
Parto,
Com o olhar,
De um viçoso
Canteiro
Verdejante
Onde as camélias
Me apontam
Um incerto
E sedutor
Destino,
A levante...

SIM, HÁ SEMPRE
Uma outra janela
De onde ver
O mundo...
.................
Mas nesta
Não te vejo
Sequer como perfil,
A nascente.

VEJO, SIM, 
Uma rua
Ou um rio,
Um traçado sensual,
Marcas
(Invisíveis)
De passos remotos
Escritos na água,
Um recanto liberto
Do presente,
Um caminho
Onde ninguém
Cruzou
Afectos
Para se despedir
Do que nunca
Ousou...

É OUTRA JANELA!
Não é a tua
Nem a dela,
Debruçadas sobre
A montanha
Ou sobre o mar!
É outra
De onde nunca
Verei
O teu rosto,
Porque dela,
A levante,
Lá onde nasce
O sol,
Chega uma luz
Que me cega
De tanto brilhar...

É A INTENSA 
Luz do dia
Que nos convida
A viver, sim...
....................
Mas o poeta
Dobra-se
Em si,
Com metódica
Timidez,
Para alcançar
Uma luz interior
Que o ilumine...
Sem cegar!

ENTENDES?
O mundo,
Quando acorda,
A nascente,
Ou entardece,
A poente,
Muda de cor
E de luz,
Mas vê-se sempre
Duma janela...
.............
E eu, a ti,
Vejo-te sempre
A sul,
Uma parábola
Entre o nascer
E o entardecer...
Quase como
Um destino!

SIM, TUDO DEPENDE
DO OLHAR,
Bem sei...
Se te vejo
Ou não te vejo,
Se na janela
Me revejo
Ou te descubro
Olhando 
O horizonte
Através das palavras
Com que há muito
Eu te digo...

MAS SABES PORQUE
NÃO É TUA,
Esta janela?
Porque nela
Te veria
De cima para baixo,
De um lugar
Que não é meu
Porque sempre
Foi teu,
Um lugar cimeiro.

E EU CANTAVA-TE
Cá de baixo,
Deste meu lado
Da rua
Com a alma
Cheia,
Mas nua,
Para me poder
Vestir de
Ti.

PERDI-TE,
Como sabes,
Porque nunca tive
Uma escada
Para te alcançar...

E, AGORA,
Há camélias,
Aqui.
Bem as vejo
Cá de cima,
Perto de mim.
Há um canteiro
Luminoso,
Talvez uma
Escada, sim...
............
Mas para ver
Mais longe!
Há um recanto,
Um caminho,
Há cor
E há palavras,
Uma silhueta
A apontar 
O sentido...
.....................
Mas eu não te vejo
Ao pé de mim,
Nesta janela,
A olhar a esquina
Que nunca ousámos
Dobrar...

HÁ SEMPRE OUTRA...
Janela!

OutraJanela_160918Rec

AZUL

Poema de João de Almeida Santos 
Ilustração: “Paraíso”. Original de minha autoria 
para este Poema. Setembro de 2018.
Jas_Paraíso

“Paraíso”. Jas. 09-2018

POEMA – “AZUL”

TANTO AZUL,
Meu deus!
O teu céu,
Esse imenso mar,
É espelho
Dos teus sonhos,
Medida do teu 
Olhar.

O MEU É BRANCO
E cintilante
Para te alumiar
Na noite escura
Onde brilham
Gotículas salgadas
Nos teus olhos,
A navegar...

OUVE-SE
O suave murmúrio
Das ondas
Que abriga,
Como véu
Translúcido,
O estranho silêncio
Que há muito
Ouço,
Insistente,
Com a alma
Dorida do
Poeta que me
Habita.

QUANDO, NOS
SONHOS,
Ao longe
Te entrevejo
Vestida de azul
Turquesa,
Entro numa porta
Branca
Que me leva
Directamente ao
Paraíso...
...................
E nele voo, voo,
A perder de vista,
Deixando para trás
O jardim
Inacabado,
Porta escancarada,
Bailéus desenhados
A rigor,
A preto e branco,
De onde
Um dia
Te vi
E cantei
No meu primeiro
Poema,
Num estranho
Enlace
Que não tem
Fim...

NOS SONHOS,
(Em todos eles)
Caio das nuvens
Brancas
Como Ícaro
Ou meteorito
Incandescente
E quase me afogo
Nesse frio azul
Até te encontrar
No coral
Luminoso
Onde vives
Vestida de todas
As cores
Que povoam
A cidade
Dos poetas...

MAS É ESSE 
Teu azul
Profundo e
Denso,
Que respiro,
O que me sobra
De ti,
Nos sonhos
Escritos
E pintados
Com que te
Vou soletrando
Lentamente...
Até cair exausto
E adormecer
No regaço
Da tua alma.

Jas_ParaísoR2

SEGREDO

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: "Meteorito". Original de minha autoria 
para este Poema. Setembro de 2018
JAS_Meteorito020918_030918jpg

“Meteorito”. Jas. 09-2018

POEMA - "SEGREDO"
VOU CONTAR-TE
UM SEGREDO:
Amei-te
Em poesia!
As palavras eram
 Graves,
Mas sempre cheias
De cor,
Com rimas
Muito suaves
E melodia
Com dor...
.........
Com tudo
O que de ti
Me sobrou...
...........
Meu amor!

CONTEI-TE HISTÓRIAS
De desencontros,
Dancei
Com palavras
Luminosas
Que inventei
Para por dentro
Te ver
Nesse quintal
De rosas 
Que cultivas
No teu peito.

CANTEI
Para te aquecer
Na fria dança
Do silêncio
E contigo levitar,
Voando,
Invisíveis,
Sobre ruas
E praças,
Ao luar...
................
E, depois,
Pela manhã, 
Um arco-íris 
Erguer
Como ponte
Desse vale
Exuberante
Onde sempre 
Te sonhei...
Neste meu 
Entardecer.

SONHEI,SIM,
Alheio ao bulício
E ao cochichar
Indiscreto
Dos que não sabem
Voar...

AH!, QUE SONHO ESSE...
.................
Mas sei que não
Pousaram
No parapeito da 
Tua janela
As palavras
E que alguém te
Contou
Que andavam
Borboletas
No ar,
Esvoaçando,
Perdidas,
À procura de pólen
Nos jardins 
Verdejantes das
Nossas vidas...

E TU PERGUNTAS,
Agora,
Se ainda vivem,
As borboletas
De vida breve,
Se regressam
Ou já pousaram
Noutro jardim,
Se há pólen,
Se há vento
Ou pensamento
Que as traga
De volta
Desse incerto
Confim...

E EU RESPONDO
Que o seu destino
É o brilho deste céu
Que ainda vive
Dentro de mim.

JAS_MeteoritoFim2308R

MAGIA

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração – “Magia”. 
Original de minha autoria, para este Poema. 
Agosto de 2018.
Magia190818FinalDefinitivo1608JAS

“Magia”. Jas. 08-2018

POEMA - "MAGIA"
OLHO A MONTANHA
De uma porta
De granito
Amarelo
(O de sempre,
Muito belo,
Com cristais)
Sobre o ocre
De um telhado
Como se fosse janela
Do meu palácio
Encantado
(Que do sonho
É o cais).

CONTEMPLO A SERRA
De sempre,
Mas é diferente
A visão,
Antes, eu via futuro,
Agora, vejo passado,
Essa bela ilusão
De te ter sempre 
A meu lado.

ENTRE PASSADO
E FUTURO
Sempre foi
Identidade,
Ficou quieta
À minha espera
Quando dela
Eu parti
Ao encontro
Da Cidade.

SUA FRONTEIRA
É o céu,
Abóbada sideral,
Sinto-a
Dentro de mim
Como fonte
Seminal,
Espelho da minha
Infância,
Um horizonte 
sem fim,
Forte raiz
Comovida
Que eu tive
De deixar
No duro jogo
Da vida.

ELA É PORTO
De abrigo
E é lugar de
Partida.
É, pois, mais
Do que janela...
.................
É fronteira
Que passamos
Quando a vida
Se revela.

É UM ETERNO RETORNO,
Um regresso 
Renovado
Onde posso
Renascer
Quando recrio
A memória
Do que não
Quero perder
Sem ter ficado
A teu lado.

ESTA PORTA
É MAGIA,
Viajo através dela,
Dou asas à fantasia
Como se fosse
Janela
De onde voo
Com o vento
Nos versos destes
Poemas
Que, sem ti,
Me dão alento.

DELA VOEI
Para o mundo
E o mundo veio
Até mim...
......................
Quando passei
Esta porta
Já era um mundo
Sem fim...

POR ISSO REGRESSO
A ela,
Esse pilar
Do meu ser...
..............
Quando chego,
Amanhece,
E, se parto,
Nem sinto
A despedida
Porque dela vejo
O mundo
Como a montanha
Da vida.

Magia190818FinalDefinitivo1608JASR

 

A OFERTA

Poema de João de Almeida Santos. 
 Ilustração: "Natureza Morta". Agosto de 2018. 
 Original do autor para este Poema.
JAS_Natureza MortaFinal120818PoemaFim

“Natureza Morta”. JAS. 08-2018

POEMA - "A OFERTA"
DO ENCONTRO IRREAL
Que aconteceu
Nesse tão cinzento
Dia
Quis libertar
O meu ser
Sem saber se
Conseguia.
Corri, então,
Junto ao mar
À hora da maresia...

SALTEI, DANCEI,
Respirei
Com a brisa
Que fazia
E libertei
O meu corpo

Da opressão
Que sofria...

FICOU O CORPO 
Sozinho,
À deriva, nesse dia,
Mas no regresso
Da praia
Eu vi-te
No meu caminho...
....................
Milagres da fantasia!

LOGO TE FIZ 
Um poema
Pois correr 
Já não chegava,
Pus palavras 
A sorrir
Quando a alma 
Regressava!

FUI COM ELA
À Montanha
,
Quis trazer-ta 
Num cabaz...
...............
Colhi frutos 
Lá no alto
Guardei-os junto
Do peito
P’ra esse encontro 
Fugaz
Que eu queria, sim,
Perfeito!

LEMBRAS-TE BEM 
Dessa cesta,

Dos frutos que 
Nela trazia?

Vinham todos 
Da Montanha,

Traziam consigo 
Alegria!

ESSES FRUTOS ERAM
Poemas
Que não podia 
Cantar,

Derramavam seus 
Aromas 

Em palavras de 
Embalar
E contavam 
Mil histórias

Que te faziam sorrir...
......................

Era oferta singela 

De quem só te
Queria sentir!

NA CESTA HAVIA 
Estrelas
Às centenas, 
vermelhinhas...
..................
Não viste nelas 
Cintilas

Que voavam 
Tão juntinhas?

ERAM MIL CORES
E aromas
Que desses frutos 
Brotavam,

Colavam-se 
À minha pele,

Mas era por ti 
Que passavam!

PARTISTE COM ELES 
Ao colo,

Rápida, sem me olhar,

Não esperava protocolo

(Tu bem sabes),
Mas foi grande
O meu espanto
 Desse teu estranho ar!

SÓ À NOITE ME DISSESTE
“- Obrigada, meu Amigo,

Esses frutos 
Que me deste,
Tão belos e tão gostosos,
Não serão 
O teu abrigo”!

P'RA ME CURAR 
Da estranheza
Fui correr 
Em poesia,

Cantei em rima 
Poemas,
Resisti bem 
À tristeza
Sem a tua companhia
Pois sempre em 
Meus versos
Ecoa
Uma tua melodia!

CUREI O CORPO, 
Não a alma!
Essa ficou 
Presa em ti,
Ninguém pode 
Devolver-ma,

Mas, assim, não te 
Perdi!

JAS_Natureza MortaFinal120818PoemaFimR

 

ESTRANHA ENCRUZILHADA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – “A Rua”.
Original do autor. Agosto de 2018.
VdP0108ExpCOR
"A Rua". Jas. 08/2018
POEMA - "ESTRANHA ENCRUZILHADA..."
CRUZEI-ME CONTIGO
Numa esquina
Da vida
Nesta rua
Onde reinventei
Uma estranha
Despedida!

NÃO TE VI
Como te via
Da janela
Sobranceira
Quando passavas
Na rua
Abraçada
À beleza, 
Teu perfeito 
Avatar
Numa nova
Encruzilhada
Que o tempo
Quis desenhar...

SE TE VI,
Mas eu não sei,
Foi duma janela
Vidrada
Que me devolveu
A imagem
Como espelho
De uma fada
Onde te fui
Visitar!

MESMO ASSIM
ESTREMECI...
Pressenti-te
Sem te ver,
Fugidio
Ao olhar
Indiscreto
De um acaso
Tecido pelo
Destino...

AH! DEPOIS 
SEGUI
Com a alma
Essa tua silhueta
Embaciada...
Pensei
Que não ia
Por ali
No meio
Da multidão,
Que não te via
Por falta
De nitidez
Do meu campo
De visão,
Que não te reconhecia
Nessa rua paralela
Onde todos
Nos cruzamos,
Indiferentes
Ao que já
Nem vemos nela!

ANÓNIMO
Me assumi
Como essa gente
Comum
Que se cruza
No caminho
Sem jogar
O seu destino...

SENTI TRISTEZA
Profunda,
A alma
Petrificada
Com lágrimas secas,
Das que
Não saem de nós,
Não banham
O nosso rosto,
Dor íntima,
Dor atroz
Cravada no peito
Lá bem fundo,
Perdida,
Já sem voz
Nem a melodia
Com que cantava
O rio
De que tu eras
A foz.

QUE ESTRANHA
Sensação!
Caminhando
Lado a lado,
Perdidos
Num horizonte
Que se esfuma
Até nos engolir
Como espuma
Que se desfaz
Na areia branca
Da praia...

ATÉ QUE CHEGUEI
A estas palavras
Escritas na água
Remexida pelo vento,
Também elas
Esmorecendo
Na praia
De um lamento
Porque sigo
Outras ondas
Noutras rimas
Em poemas errados
Ou simulados
Para dar voz
Ao poeta triste...

MAS GOSTEI
De olhar
Sem te ver,
Apenas imaginando
Que eras tu,
Regressada dos confins
Da minha memória...

E GOSTEI
Que me visses
Sem me olhar,
Pensando
Que nem sequer
Me pressentias,
A mim,
Esse anónimo
Que te seguia
Para logo
Te perder...

TUDO TÃO ONDULANTE,
Tão dolorosamente
Normal,
Estranhamente
Banal...
......................
Que até este poema
Espanta
Por cantar
O que nunca 
Aconteceu!

QUE EXERCÍCIO
Foi este?
Crueldade
De um destino
Apenas imaginado?
Indiferença fatal
Que se torna
Irreversível
Como ferida
Que não cura
E dor
Que dissolve
Como espuma,
No poema,
As palavras
Com que ainda
Te digo?

AFINAL, QUE TE FIZ,
Meu amor,
Para te perder
Assim,
Ao entardecer,
Numa encruzilhada
Da rua 
Que reinventei
Para te cantar
Como melodia
Para quem já
Não me ouve?

VdP0108ExpRec

 

POR CAMINHOS PARALELOS…

João de Almeida Santos

Ilustração de minha autoria. Julho de 2018.

FAMA2507“Uma Casa no Jardim”. JAS. Julho, 2018.

POEMA

POR CAMINHOS
PARALELOS
Nos seguimos
Ao infinito,
Pintei o meu
De vermelho
Mas o teu
É mais bonito!

GASTEI
As minhas palavras,
Gasto as cores,
Eu já nem sei,
E porque o silêncio
É de ouro
Só às palavras
Cheguei.
Mas tirei-lhes
Logo o som
Por saber
Que te doía.
 O silêncio
É, pois, o rei
Até que te veja,
Um dia...

A ESTES SENDEIROS
Cheguei
Quando eu te
Conheci,
Foram-se anos,
Bem sei,
Desde o dia
Em que te vi...

SÃO CAMINHOS
PARALELOS,
Nisto, naquilo,
Sei lá...
Mas estás
Do outro lado,
Eu não te vejo
Por cá,
Na rua do
Desencontro
Que ficou
Muito vazia
Desde que tu
Foste embora
Dessa forma
Inesperada
Como eu, sim,
Já previa...

O HORIZONTE
Que vejo
É o ponto
Destas linhas
Paralelas,
Convergimos
No olhar
Mas não caminhamos
Por elas
Porque a vida
Nos tirou
Da rua 
Das aguarelas! 

FAMA2507c 

O SILÊNCIO DO POETA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Vermelho”. Quadro de
minha autoria. Julho de 2018.
Vermelho1
Vermelho. JAS. Julho de 2018

 

O SILÊNCIO DO POETA – POEMA

O SILÊNCIO DO POETA
É dito em poesia
Como canto
Em surdina
Do que não
Pode calar,
Do que sente
Mas não diz
Se conjuga
O verbo amar.

 SUA DOR VEM
Do silêncio
E chega à poesia.
Nela o poeta
Diz mais
Do que pode
E não devia
Porque sofrendo
Em excesso
Em sua dor
Não cabia.

 E FALA COM O
Silêncio,
A fala da poesia.
Diz tudo
O que nela cabe
Em suave melodia,
O que só
A alma ouve
Dessa triste
Sinfonia...

 SEU SILÊNCIO
É poesia...
...........
No cantar
É que ele sente
O que dizer
Não podia.

 DIZ, POIS,
SEM O DIZER.
É outra coisa
Que diz.
Sofre em silêncio
O poeta
A dor 
Que lhe vem
Lá da raiz
E que só o verso
Cura
Sem que o faça
Feliz.

 OUTRO SILÊNCIO
É o dela
Que nem lhe manda
Sinais...
.................
“ - Não importa”,
Diz-lhe ele,
“Dentro de mim
Vives mais”.

 O CANTO 
DESTE POETA
Do silêncio
 É o selo,
Sua vida é 
Em verso,
Não é fria 
Como gelo.
Seu canto 
É em surdina,
Só o ouve 
Quem o lê
Mas com luz 
Que ilumine
Aquilo que 
Não se vê.

 ASSIM O VATE
Persiste
Nesse sol 
Que irradia
E se o silêncio 
É gelo
Derrete-o 
Com fantasia,
Pois se a vida 
É de dor
Conjuga-se 
Em poesia...

Vermelho1Recorte

A MAGNÓLIA ENCANTADA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração – “A Magnólia Encantada”.
Original de minha autoria. Desenho e Poema sobre
Magnólia. Julho de 2018

MagnoliaEncantadaA Magnólia Encantada. JAS. Julho de 2018

"Una magnolia / pura, / redonda como un círculo / de nieve / 
subió hasta mi ventana  / y me reconcilió con la hermosura...
...Como / cantarte sin / tocar / tu / piel puríssima, / 
amarte / sólo / al pie / de tu hermosura,/ e llevarte / dormida /
en el árbol de mi alma, / resplandeciente, abierta, / 
deslumbrante, / sobre la selva oscura / de los sueños”

Ode à Magnólia – Pablo Neruda 

MagnoliaEncantadaR1

A MAGNÓLIA ENCANTADA – POEMA

ERA UMA VEZ
Uma magnólia
Encantada,
Como num sonho,
Uma fada
Em busca
Do que perdera
No jardim
Onde morava...

 FLOR EM FORMA
DE PEIXE
No profundo
Oceano da vida
À procura das raízes
De uma estranha
Despedida...

 TRAZIA CONSIGO
Um inocente
Espanto
De ter ficado
Tão só,
De repente...
................
Por encanto!

 PARTIU, 
LEVOU COR
E muita luz
Que seu corpo
Alumiava
Nesse caminho
Estreito
Que a dor
Incendiava...

 DEIXOU O JARDIM,
Mar adentro,
Água seminal,
Em forma de peixe,
À procura
Do que perdera
Em recife de coral...

 MAS ENCONTROU-TE
À TONA,
Vagueando
Nesse mar
Da tua vida,
Cores e
Riscos
Como remos,
Em busca da
Praia perdida...

 REGRESSOU...
Vinha triste
De não te poder
Resgatar
Nesse dia,
No alto mar!

 VOLTOU,
Mas era tarde 
Demais.
Já não te via
Remar...
.................
E então deu-se
De novo
Ao mar
A ver 
Se te encontrava
Nalguma praia
Deserta
P'ra te redimir
Com essa arte 
Divina
Em que já te via
Incerta...

 FOI À PROCURA 
DE CORES,
Eram muitas 
E vibrantes,
Encontrou-as
No jardim,
Essas luzinhas
Brilhantes...

 E LÁ FOI
E anda ela,
Umas vezes 
Como peixe
Outras 
Como aguarela,
Sempre 
À procura de ti,
Levada
Pela corrente,
Por aí,
Com ar tímido, 
D’espanto,
Até que um dia
Te encontre,
Talvez triste,
Na praia 
Do teu recanto!

 ENTÃO DEIXA-TE 
AS CORES
E regressa 
À sua melancolia.
É flor em mutação,
Cada dia,
No tempo 
Em que germina, 
Renovada, 
A raiz da nostalgia...

 MAGNÓLIA ENCANTADA
Num poema
E na pintura...
................
Assim te vou 
Construindo como 
Fada
Que me cura!

MagnoliaEncantadaR2

 

 

O BEIJO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração original do autor – “O Beijo”. 
Dia Internacional do Beijo: 6 de Julho, 
o dia que celebro, com um poema, cada ano.
Inspirado no Thomas Mann de “Lotte in Weimar” 
(1939), a obra que continuou "Werther” (1774),
de Goethe (1749-1832).

O_Beijo03_0607_1

“O Beijo”. JAS. 6 de Julho de 2018.

1.
Thomas Mann:
“Ist die Liebe das Beste im Leben,
so in der Lieb das Beste der Kuss
– Poesie der Liebe...”. “Kuss ist Glueck,
Zeugung Wollust”.

“O amor é o melhor na vida,
assim, no amor, o melhor é o beijo
– Poesia do amor...”.
“Beijo é alegria, procriação é luxúria”.

2.
Inspirado também em Kafka, Shakespeare e Bernhardt:

“Geschriebene Küsse kommen nicht an ihren Ort,
sondern werden von den Gespenstern
auf dem Wege ausgetrunken”
 
- Os beijos escritos não chegam ao destino, 
mas são bebidos pelos fantasmas 
ao longo do trajecto - Kafka

“If I were to kiss you then go to hell, I would.
So then I can brag with the devils that I saw
heaven without even entering it”
 
- Se para te beijar devesse, depois, 
ir para o inferno, fá-lo-ia.
Assim, poderia vangloriar-me, com os diabos,
de ter visto o paraíso 
sem nunca lá ter entrado - Shakespeare.

- O primeiro beijo não é dado com a boca,
mas com os olhos – O. K. Bernhardt.

O_Beijo03_0607_1Rep

O BEIJO

FOI O QUE NUNCA TE DEI
 A não ser com o olhar!
 O primeiro, esse beijo,
 Dei-to, pois, sem te tocar!

E DEI-TE MAIS, COM PALAVRAS,
 Quando olhar já não podia...
 Foste embora, não estavas
 E eu, triste, não te via!

 FORAM BEIJOS QUE SONHEI
 Na rotina dos meus dias
 E desejos que enfrentei
 Quando tu mais me fugias...
Mas dou-te beijos escritos
 Que se perdem no caminho...
............................
 E se o poema me falta
 Fico ainda mais sozinho!

 É ALEGRIA D'AMOR
 É suave respirar,
 É encontrar-te no céu,
 É vontade de te amar,
É desejo, é procura,
 É sinal e é mensagem
 É razão suficiente
 P’ra te ter...
................
Como paisagem!

O BEIJO É EMOÇÃO,
 É razão descontrolada,
 Se não for dado a tempo
 Pouco mais será que nada!

SEM BEIJO NÃO HÁ AMOR,
 Sem Amor perde-se o Beijo.
 Nada tem qualquer sentido
 Se me faltar o desejo
Por te ter, assim, perdido!

AQUI O LANÇO AO VENTO
 P’ra que atinja como brisa
 E suave melodia
 Esse rosto que precisa
 De afecto em poesia!

ESTE BEIJO QUE ME FALTA
 De que nunca fui capaz
 Voa p’ra ti em palavras
 Põe-me sereno, em paz,
E desejo que, no trajecto,
 Voe, voe em grande altura...
.............................
 Que fantasmas não o bebam
 E minha dor tenha cura!
Mas sei dos escolhos da via,
 Dos perigos que ele corre...
.............................
 Capturado por fantasmas
 É mensagem que me morre!

 NO DIA DO BEIJO É HORA
 De te cantar em voz alta
 A poética do amor
 P’ra redimir essa falta
 E pôr fim à minha dor!

E PORQUE O DIA É TEU
 Ganha força, intensidade,
 E mesmo que fantasmas
O bebam
 É um Beijo de verdade!

ESSE BEIJO QUE NÃO DEI
 Foi pecado original,
 Hei-de sofrê-lo p’ra sempre
 Como chaga corporal!
Não há palavras que bastem
 P’ra repor o que não dei
 Elas voam, mas não chegam
 E mesmo assim eu tentei! 

É CERTO QUE SEMPRE O QUIS,
 Só que nunca to roubei,
 A culpa foi desse tempo,
 Dos dias em que te amei,
 Um tempo em diferido
 Sem presente nem futuro,
 Talvez beijo sem sentido
 Porque queria do mais puro,
 Tangendo eternidade
 Às portas do Paraíso,
 Um beijo de divindade...
.........................
 Mas simples... 
Como um sorriso!

ESSE BEIJO IMPOSSÍVEL
 Que não é do foro humano
 Vou tentando construí-lo
 Cada dia, cada ano,
 Perdendo-me pelo caminho
 Como sagrado em profano!

O_Beijo03_0607_1Fim

BIANCO&NERO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – “Bianco&Nero”. Original
do Autor para este poema. Julho de 2018.

Desenho_BranconoNegroRecorte

Bianco&Nero. JAS, 2018.

 

ENTRE O BRANCO
E O NEGRO
Quis desenhar
A tua alma
Na flor que,
Num acaso,
Encontrei, perdida,
No jardim
Da minha vida...

 ATRÁS DE TI,
Ou em fuga,
Já nem sei,
Gastara
Todas as cores do
Arco-íris
Que tinha
Dentro de mim.

 SOBRARA-ME
Uma marmórea
Nébula negra
De travertino
Onde me revia
Como espelho
Oracular,
Curvado sobre mim, 
Escuro na alma,
Por falta
Das cores exuberantes
Que me protegiam
Do frio glacial
Do teu silêncio.

 SOPREI FORTE
Com a alma
Desnuda
E a flor branca
Foi pousar suavemente
Nesse mármore
Liso e brilhante
Da catedral
Onde te celebrava.

 E FICASTE ASSIM,
A branco e negro,
Em tinta-da-china
Esparsa,
Derramada
Sob a alvura
Do sol brilhante
Em que te via...
.................
Como uma flor!

 ESCULPI-TE
Como filigrana
De ouro preto
Sobre branco-pérola,
Aurífice da tua
Alma sedutora
No coração
Alvoraçado
Dessa flor
Que guardei
Com o teu nome
Gravado
Em letras invisíveis...

 CRIEI PARA TI 
Alvas incrustações
Sobre filigrana
Negra
Como marcas
Indeléveis
Da arte
Que um dia
Me visitou
Na celebração
Da tua beleza.

 E AGORA,
A olhar para
O branco e o negro
Deste cântico
Desenhado,
Ofereço-te
Este poema
Sobre pintura
Imaculada
Onde te celebro
Com beleza
Minimal,
Na cor
E na forma,
Sem fronteiras,
E onde
Te reinvento,
Em fuga,
Como esse subtil
Fio branco
Que esvoaça,
Livre,
No marmóreo céu
Do teu altar...

 A ÂNCORA, ESSA,
A sul,
Desliza
Suavemente
Sobre ti 
E dilui-se na 
Negra vastidão...
 
EVOCO-TE, ASSIM,
A branco e negro
E canto-te
Como alma em
Filigrana
De ouro preto
Em repouso sobre
O branco-pérola
Dessa flor
Que, um dia, 
Encontrei
No jardim
Da minha vida...

Desenho_Bianco&Nero_Recorte

 

NOSTALGIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Nostalgia”. Original
do Autor. Junho de 2018.

JAS_Nostalgia24R“Nostalgia”. Jas. 2018

RÁPIDA COMO O VENTO
Passou por mim
Essa palavra saudade
Numa rua do meu bairro
Sob o céu desta cidade.

 GRAVEI-A NA
Minha mente,
Evoquei-a
Ao crepúsculo,
Com incerta
Nostalgia…
…………………………
Não queima tanto,
A palavra,
Porque a sinto
Mais fria!

COM CESÁRIO,
Dei-lhe cor
E canto-a
Como pintura,
Dei-lhe vida
Num romance,
Tento tudo
O que não posso
Porque esta dor
Me perdura…

DA SUA COR
Vejo o mundo,
Com palavras
A recrio,
Procuro sempre
O teu rosto...
.................
E por mais longe
Qu’estejas
Eu não me sinto
Vazio.

 A DOR DESTA
SAUDADE
Alimenta-me
A alma
E aquece a minha
Vida...
E assim eu vou
Vivendo
Em eterna
Despedida,
Neste cais
Que não tem fim,
Em partida
Que não há,
Um adeus que não
Me dizes,
Porque tu
Nunca saíste
Deste meu
Lado de cá.

 MAS HÁ SEMPRE
Esta saudade
A que chamo
Nostalgia!
Vivo em tristeza
Feliz
Porque te sinto
Em cada dia.

 NÃO TE TENHO,
Mas não te perco,
Estás longe,
Perto daqui,
Não te encontro
Nem te vejo,
Mas sei que não
Te perdi…

INSPIRA-ME, A
NOSTALGIA...
Recrio-te em cada
Instante!
Sou poeta,
Sou pintor
E também sou
Arlequim...
..............
Por isso vejo
O teu mundo
A partir de um
Camarim!

ESCULPO
TEU ROSTO
Com palavras
Do meu peito,
Pinto-me a alma
D’azul,
Voo contigo
Em sonho
E o destino
É sempre o sul...

 LEVO COMIGO
PINCÉIS
E as asas
Do poeta.
Danço.
Sou arlequim.
Pinto-me nesta
Ribalta
Com as cores
Que vês
Em mim!

 SEM TI
NESTA RUA
Da saudade
Sou palhaço
Em camarim
Que maquilha
O seu rosto
Para um palco
Sem fim...

REPRESENTA
PARA TI
Sem saber
Se lá estás...
...........
A verdade
Já não lh'importa,
É feliz com
O que faz!

 ASSIM VIVE
O ARLEQUIM.
No palco,
É só arte
O seu fazer,
É dádiva que ele
Te entrega
Como modo
De viver!

JAS_Nostalgia24Rrecorte

 

 

 

J A S M I M

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração original do autor: “Rapsódia”. 
Junho, 2018.

JAS_Rapsódia.Final170618jpg

FLORESCEU O JASMIM!
Dele jorra Poesia,
Embriaga-me 
O aroma...
Renovo-me 
Em fantasia!

DAS PALAVRAS
Vou à cor,
O seu perfume 
Ilumina,
Bate o sol 
Em suas pétalas,
É luz intensa 
Que brilha
No poema que 
Germina!

JÁ NÃO É SÓ
O Loureiro!
Agora canto 
O Jasmim!
É tão intenso 
O aroma
Que se renova 
Em mim!

INUNDO-ME
De palavras,
Canto 
Esse mundo
Da cor,
Subo ao céu 
Com tuas asas,
Vai comigo
Esta dor...

SOU ÍCARO
Lá no alto...
..............
E se o sol 
Me bate forte
Caio em mim 
Do meu poema
E no chão 
Fico sem norte...

PEÇO AJUDA
À montanha...
Volto a subir, 
Que alegria!
Foi nela 
Que eu nasci
E sou feliz
Lá no alto, 
Nem que seja 
Por um dia!

E LÁ TENHO
O Jasmim
Mesmo ao lado do
Loureiro...
.................
Respiro fundo 
Até à alma
E torno-me
Jardineiro!

E ASSIM EU VOU
Vivendo 
No jardim da
Minha vida
Em poemas
E pintura...
............
E se a dor
Não tem remédio
Que seja esta 
A cura!   

JAS_Rapsódia.Final170618jpgCorte

A  C H A V E

Poema, em dois andamentos, de João de Almeida Santos, criado a partir
de um poema/comentário de Ana de Sousa sobre “A Porta”.
Ilustração: “Uma Casa No Jardim”. Original (com várias citações de 
Klimt) de minha autoria, para este Poema. Junho de 2018.

UmaCasaNoJardim_3_1006

MOTE
“Como uma fonte, / Como uma ave... / No horizonte, / Sempre uma 
chave! / Sempre um segredo, / Não revelado, / Poema e quadro: / 
Sonho velado / Escreve pintor. / Pinta poeta. / A vida é cor, / Dor 
e amor / E tu, alerta!” 
Ana de Sousa

UmaCasaNoJardim_3_1006corte2

A  C H A V E

I.

PINTO E CANTO
O meu destino. 
Sonhos velados, 
A minha vida...
.................. 
Perdi a chave
Do meu futuro 
E só me resta 
A despedida! 
 
 POR ISSO CANTO
Com as aves, 
Voo mais longe 
E com mais cor 
Porque no céu 
Há mais azul 
E nos meus sonhos 
Há menos dor!

HÁ UM SEGREDO
Não revelado...
Se o dissesse
Não deveria 
Porque dizê-lo
Era pecado
E certamente
Até mentia!

E NÃO O DISSE,
Mas eu pequei
Com murmúrio
Apaixonado
Em poemas
Inocentes 
Por que fui
Tão castigado!

POR ISSO VOO
Sempre mais alto,
Trepo nas cores
P’ra lá chegar,
O céu azul
Dá-me alento
Para mais alto
Poder voar
E meus segredos
Dissipar... 

LEVO PALAVRAS 
Comigo,
Procuro inspiração. 
Levo cor,
O meu abrigo, 
Levo musas
E tudo o mais...
...................
E quando parto
Lá p’ra cima
É sempre festa
No cais.

 LEVO-TE A TI.
E deste jeito!
Sim, meu amor,
Para que sinta
Lá bem no alto
Ar rarefeito
E menos peso
Na minha dor!

EU CANTO 
E pinto
Por tudo isto,
P’ra resgatar
O pecado
De exaltar
Esse teu rosto,
Iluminar
Em aguarela
Esse enleio
Do meu olhar, 
Por te ver
Na nossa rua
Debruçado 
Na janela
Com vontade
De pintar.

 II.

POR ISSO CANTO, 
Por isso pinto,
Por isso voo
Lá para o alto...
...................
Já não os vejo,
Já não os ouço
E já não vivo
Em sobressalto.

MAS VEM COMIGO,
Eu dou-te asas,
O infinito
No céu azul,
Voamos juntos
Ao mesmo tempo
E o nosso rumo
Será o Sul.

VÁ, VEM COMIGO,
Voa mais alto,
Ah!, meu amor,
Se tu vieres
Eu já não sofro
E vai-se embora
A minha dor! 

UmaCasaNoJardim_3_1006corte1

O SILÊNCIO E A MEMÓRIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Levitação”. Original de
minha autoria. Maio 2018.

Fantasia2705

"Para que tú me oigas / mis palabras / se adelgazan a veces /
como las huellas de las gaviotas en las playas"
Pablo Neruda

POEMA

NO SILÊNCIO
Eu vejo-te
Com palavras
Sufocadas.
A preto
E branco.
A linguagem
Do tempo
Que passa
Inexorável
E erode
Os ângulos
Suaves
E coloridos
Com que nos
Fomos
Desenhando...
........
Nos dias
De festa!

E, AGORA, VIVO
Oblíquo,
Neste intervalo
Sofrido
De onde
Te vislumbro
A silhueta
Ao crepúsculo
Do fugaz
Encontro,
Lá no Monte,
Que ora
Declina...

“VOU-ME EMBORA
P’ra Pasárgada”,
Diria o saudoso 
Poeta,
“Porque aqui
Anoiteceu”!

MAS, NÃO!
Eu não parto,
Porque na memória
Te vejo a cores.
Aquelas com que
Nos fomos
Pintando
Em caminhada
Cúmplice,
À procura
De formas
Para oferecer
Em troca
De nada.

NA MEMÓRIA
Acaricio-te
Com as mãos
Invisíveis
Da minha alma
E o azul
Do céu
Que ainda
Nos sobra
Como manto
Transparente
E frio.

PRESSINTO-TE,
Assim.
Adivinho-te
Em riscos que
Deslizam
Dos teus dedos,
Dádivas
Da beleza
Inscrita
No teu rosto
Que me chegam
Com a brisa
Do amanhecer
Nesse pátio
Secular
Dos nossos
Antepassados.

E ESTREMEÇO
Quando
Te reencontro
Nestas veredas
Estreitas
Mas profundas
Da imaginação
Com que
Nos reinventamos.

VISTO-ME, ENTÃO,
De vermelho.
Por dentro.
A rigor.
Solene.
Pinto-me
A alma
Ao sabor do vento.
Cubro de rosas
Vermelhas
O chão etéreo
Que piso
Suavemente
Com o olhar.
Dou mais sabor
À liberdade
Voando com
Uma rosa
P'ra te poder
Alcançar.

AH! SIM,
Duplico-me
Nesta vida
Íntima
E oblíqua,
Neste intervalo
Onde te sonho
Com palavras
Que te chegam
Desfiguradas
Pelo siroco,
Vento do sul
Que lhes sopra
Forte,
No caminho,
A áspera areia
Do deserto...
.............
Que habitamos.

SIM, MAS SE
O VENTO
Ainda sopra
Ao amanhecer
Que me importam
A areia e o
O deserto?

 

 

 

 

 

A AGUARELA

Poema de João de Almeida Santos
inspirado no poema de Manuel Bandeira
“Tema e Variações” (Obras poéticas,
Lisboa, Minerva, 1956, p. 384).
Ilustração: “Vermelho”. Original de minha
autoria. Maio de 2018.
Milva: L'uomo dal mantello rosso

Botao200518Terminad3

     Milva (início da letra da canção, um sonho cantado):
     “La solitudine / È come la febbre: / diventa più forte di notte.
     / Un’aspirina e la febbre va via, / la solitudine no. / Io, che 
     colpa ne ho io, / se questa notte ho sognato?”

     - “C’era un uomo dal mantello rosso...”

POEMA


SONHASTE, MANEL, 
Que havias sonhado 
Estar à janela 
Sonhando a cores 
Qu’estavas com ela.


TAMBÉM EU SONHEI 
Que tinha sonhado
E que no sonho
A tinha encontrado,
Passando por ela, 
Ali, lado a lado, 
Mas quando acordei 
Do primeiro sonho, 
Sonhando, eu vi
O seu belo rosto 
Numa aguarela 
Pintada a cores 
Que tinha guardado 
Para uma tela...
SONHEI, OUTRA VEZ, 
No segundo sonho, 
Que era pintor
Mas que pintava 
Sempre o seu rosto
A uma só cor...


DIZIA, SONHANDO, 
Que não podia ser. 
Seu rosto expressivo 
Era arco-íris
Ao amanhecer
E era sorriso
Para o mundo ver!


MAS EU SÓ O VIA 
Com a minha cor, 
Esse rosto belo
De seda tecido 
Que me seduzia
No sonho sonhado 
Onde sempre a via 
Ali, a meu lado.


NÃO QUERIA ACORDAR 
Do sonho feliz
E nele fiquei
De olhos fechados.
Já não acordei
Do sonho sonhado 
Porque nessa cor 
Fiquei encerrado 
Com todo o meu ser... 
............... 
Talvez por amor.


NO SONHO OLHEI 
Para o meu espelho 
E logo eu vi
Que essa minha cor 
Era o vermelho.
QUANDO ACORDEI 
Do primeiro sonho 
Voltei a sonhar
Que tinha sonhado 
Que o encontrei, 
Esse rosto amado.
E logo lhe disse,
No segundo sonho, 
Que a tinha sonhado.


DISSE-ME QUE NÃO 
Que nunca me vira 
Sequer acordado.
E logo acordei
Desse pesadelo. 
Foi assim que vi 
Que tinha sonhado 
E que ela
Já lá não estava 
Ali, a meu lado.


QUIS ADORMECER 
Para a encontrar 
Mas não consegui 
Sonhar que a via, 
Pôr os olhos nela, 
Chorar d’alegria 
Porque descobri
Na minha parede 
Aquela aguarela 
Que do sonho 
Passado
Eu já conhecia... 
................ 
Era o rosto dela!

A MONTANHA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração (“O balão e a montanha”) de minha autoria.
Maio de 2018.

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“I live not in myself, but I become
Portion of that around me; and to me,
High mountains are a feeling....” 
Lord Byron
Childe Harold’s Pilgrimage (1812-18).
Canto III, 72 (1816).

Flores130518_Final13_2Recorte 

POEMA

ESTOU A PERDER-TE,
Meu Amor!
O estro 
Com que te canto
Esmorece,
Vai perdendo
Lentamente 
O seu fulgor!
O poema
Empalidece
E eu, 
Em poética anemia,
Sinto 
Um doce, suave 
E sonolento 
Torpor...

SUBI A MONTANHA
Contigo!
E, feliz de lá chegar,
Com palavras
Que me deste
Eu aprendi a cantar!

CANTEI A TUA PARTIDA
Quando desceste 
O vale.
E, triste,
Eu caminhei
Por veredas 
Sem destino...
..........
Já nem sei!

PERDIDO
De ti,
Vagueei
À procura
De eco
Do meu canto
Derramado,
Som puro 
E cristalino
E por ti
Iluminado.

MAS O ECO
Era silêncio
Profundo, 
Sideral,
Inscrito
No azul,
Quase irreal,
Da abóbada
Celeste
Da montanha
Seminal.

NEM SEQUER
O CLARÃO
De um cometa 
Fugaz
Me visitava,
Pinhal abaixo,
Rumo ao horizonte
Do meu inquieto
Olhar...

O AR RAREFEITO
Da montanha
Tomou conta
De mim
E desfaleceu
A emoção 
De te rever,
Reinventar
E te cantar
Em surdina
Com esse 
Silêncio
Cortante
Que me negava,
Impenitente,
O eco da
Minha canção!

DESCI, ENTÃO,
Também eu,
O vale
Da tua vida
E regressei 
À triste monotonia,
Sem ti,
Em corpo 
Sequer imaginado,
Nem semente
De poesia.

ESTOU A PERDER-TE
Meu amor!
É poética 
Anemia.
Ar rarefeito
Que sufoca
A melodia.
O cântico
É murmúrio
Inaudível,
Sem comoção
De alma ferida
Que já nem 
A dor pressente,
De tão esgotada
Na vida 
Por excesso
De paixão!

O VALE ESPERA-ME.
Respiro ofegante,
Porque sei
Que não te vejo,
Que já não
Sobram sinais
Da rua do 
Desencontro,
Não há fugas 
Irreais
Para o teu
Infinito
Nem janelas
Donde te veja
Passar
Ou sequer imaginar
Na esquina
Esquecida 
Do nosso
Contentamento!

ESTOU A PERDER-TE,
MEU AMOR.
Não há janela,
Nem há cor
Ou infinito,
Não há tempo
Nem lugar,
Não há poema
Nem mar 
Que suspenda
O vazio
De não te poder
Encontrar!

JÁ TE PERDI,
Meu amor?

Flores130518_Final13_1recorte2

 

SONHO

POEMA TRISTE.
João de Almeida Santos.
Ilustração: “Sonho”. 
Original de João de Almeida Santos. 
Maio de 2018.
Milva canta "IN SOGNO" (Album: "Tra Due Sogni")
Letra de "IN SOGNO": 

"Sì, / L’alba è la più forte./ Sì, / Vince i 
sogni, la realtà. / Eppure, / Solo in sogno / Viene a noi / La verità.
/ Così si chiude un fiore / Se il sole non c’è più, / Ma tutto il 
suo colore / Raccoglie in sé".
Sonho0805060518

“Sonhei ter sonhado / Que havia sonhado./ Em sonho lembrei-me 
/ De um sonho passado: (…) / Ter sonhado o quê? / Que havia sonhado 
/ Estar com você. / Estar? Ter estado, / Que é tempo passado. 
/ Um sonho presente / Um dia sonhei. / Chorei, de repente 
/ Pois vi, despertado / Que tinha sonhado”. 

Manuel Bandeira

POEMA

Sonho0805060518_Corte

SONHEI 
QUES AS PALAVRAS
Se gastaram,
Desfiaram,
Desataram,
Sobrando fios
Para tecer 
O silêncio. 

SONHEI 
Que a tinta
Perdeu a cor.
Que já não havia 
Poemas
E que não era 
Pintor.

SONHEI 
Que não eras tu.
Que foi tudo ilusão.
Sonhei que te procurei
No mundo da fantasia
Onde as flores
Caminhavam,
Sabiam a maresia,
Tinham rostos
De mulher,
Mas surdos
Ao que eu dizia.

SONHEI
Que não sabia
Onde estás,
O que fazes
E o que sonhas
Nas noites 
Do teu luar,
O que vês
Nesses momentos 
Fugazes
Em que olhas 
Para ti. 

SONHEI
Que não me lês,
Que já não ouves 
Poemas,
Que estás tão longe
Daqui!

NO SONHO
Fui à memória,
Que também
Perdeu a cor.
Ficou tudo 
A preto e branco...
........
E sonhei,
Sonhei, sim,
Que te perdi,
Meu amor...

SONHANDO,
Procurei cor
Num outro
Lugar qualquer.
Só encontrei 
O cinzento
E por falta
De vermelho
Meus versos
Tão desbotados
Nem os levava
O vento...

FOSTE P’RA ONDE
Que eu não te vejo?
Perguntei 
Quando do sonho
Acordei.
Saíste 
De onde estavas
E agora resta
O desejo
De te cantar
Sem palavras
P’ra que ouças
O silêncio
Com que antes
Me chamavas.

JÁ NÃO ME CHEGAM
SINAIS.
O meu 
É poço escuro,
É buraco
Tão profundo
Que nele
Eu vou caindo
Como triste
Vagabundo...

O SOL TAMBÉM
JÁ SE FOI.
As sombras
Tomaram conta 
De mim.
Meus dias
São sempre
Iguais.
Sinto um vazio
Sem fim...

MAS PINTO, 
Agora pinto,
Tenho cores
E tenho aromas,
Tenho luz
E sou feliz...
........
Ah!, sim,
Mas perdi 
A minha Musa,
A fonte 
D’inspiração!
Foi p’ra longe,
Com o vento
E em meu triste 
Pensamento
Só ficou
A ilusão!

GASTARAM-SE 
As palavras,
Meu amor!
Gastou-se tudo,
Afinal!
Só ficou o teu 
Cinzento,
A tinta com que 
Lavras
O meu peito
(Sem lamento)
E me afundas
Nesta dor,
A que canto
Em surdina
Para ouvires 
O silêncio
Com que te pinto
Sem cor... 

Sonho0805060518_Corte2

METAMORFOSE

Poema de João de Almeida Santos criado 
em diálogo com este quadro original - 
“Metamorfose” - de João de Almeida Santos.
Abril de 2018.

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"Não colhas uma flor, senão chorarás ao vê-la murchar" 
Provérbio chinês 
Podem cortar todas as flores, mas nunca impedirão a primavera" 
Pablo Neruda 
"Talvez deva às flores ter-me tornado pintor" 
Claude Monet 
"Há flores por todo o lado para quem é capaz de as ver" 
Henri Matisse "
Uma flor é um ser totalmente poético" 
Novalis 
"Quem não tem pão, mas compra flores, é um poeta"
Provérbio turco

Jas_Camélia2904_FinalDomingo8_30_cortejpg

POEMA


CAMINHAS 
Tão docemente,
Tão irreal,
Sobre as cores
Que eu te dei...

ÉS PLANTA DE JARDIM,
Bem sei!
Na alma
Tu tens flores
Que eu sempre
Cultivei,
Alimento 
Dos meus olhos,
Aroma
Desses poemas
Que para ti
Cantarei.

CAMÉLIA
É o teu nome.
Encontrei-te, 
Desta vez, 
Em profunda
Solidão.
A alvura luminosa
Era tão densa
Que eu quase 
A tomei
Na palma da minha
Mão.

QUIS TRAZER-TE
Para dentro do poema.
Disseste 
Logo que sim.
Ficarias mais serena,
Estando tão perto
De mim...

FALEI CONTIGO.
Dei-te palavras
E dei-te cor.
A solidão
É castigo,
Eu bem sei.
Ah, meu amor!
E tu, 
Brancura divina,
Não mereces
Essa dor.

CAMINHÁMOS
Numa ponte
P’rá outra margem
Da vida.
Eram passos 
De liberdade,
Não eram 
De despedida.

VI EM TI
Uma mulher.
Recriei-te
Com afeição.
Pintei-te 
Em movimento.
Quis-te livre
No meu chão
De onde te
Elevaste
Quando eu
Te dei a mão.

É ESTRANHO
O movimento
Que não te afasta 
De mim...
Tu vives 
Em quietude
Porque te ofereces
Assim!

ESSA PONTE
De papel
Que parece um
Arco-íris
Saído do meu 
Pincel
Vai devolver-te
Ao jardim
Onde a cor
É alimento,
É como favo 
De mel,
De meus olhos
O sustento.

PERDIDO, EU,
Nessa tua 
Melancolia,
Convoquei
Todas as cores
(Que sabia)
Com palavras
De um poema.
E dei largas
À evasão
Da flor 
Que foi
Mulher
Porque comigo
Cantou
Em palavras 
Coloridas
Essa sua
Solidão.

VÊS, MEU AMOR, 
Como a solidão
Em flor
Pode ser libertação
Se lhe dermos
Muita cor
Com a força da
Paixão?  
Jas_Camélia no meu jardim2 A IMAGEM ORIGINAL, de 21.03.2016. Camélia 
solitária em Cameleira.  Na altura em que a publiquei, escrevi, 
no Facebook, o seguinte: "Surpreendente, a natureza! Camélia branca 
suspensa! A elegância sensual de uma fadada Cameleira. Encontrei-a 
no Jardim. Estava à minha espera. E logo a capturei, sem lhe tocar. 
Só para partilhar essa luminosa, fresca e solitária brancura! Estava 
ali como brilhante proposta estética da natureza: 'diz o que pensas 
desta estranha forma de surgir no teu Jardim. É provocação florida, 
não é? Sou tão branca e tão perfeita que e(n)levo a Cameleira’. 
Olho-a de baixo para cima e ponho-a numa sensual fronteira!". 
Respondo-lhe agora, dois anos depois. Ficaram-me a imagem e as 
palavras que escrevi. Cruzei-as com novas vivências e experiências 
estéticas... e deu nisto! A beleza fica registada na nossa memória 
para sempre... e alimenta-nos a alma quando um novo estímulo a 
reevoca e, às vezes, invoca!

O PINTOR

POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Celebração da Cor” -
Original de João de Almeida Santos.
Abril de 2018.

JAS_Uccello_Prova110418

"Le Poète se fait voyant par un long, immense et raisonné dérèglement 
de tous les sens". 
Rimbaud.

 

O PINTOR BRINCAVA
Com suas palavras.
Dizia-te sempre
Quando não estavas...

ERA UM POETA,
Era fingidor.
Não te desenhava.
Cantava-te
A cor.

SUAS CORES
Eram as palavras.
Fazia pincel 
Da sua caneta.
O pintor riscava,
Mas a sua tinta
Já não era preta.

POR ISSO COMPROU
Um belo pincel.
Pintava, pintava...
Era a granel,
Como se a tela
Deixasse de ser
O velho papel.

DESCOBRIU A COR,
Que o fascinou!
Azul, vermelho
E tanto amarelo.
Tudo ele pintou,
Procurando sempre 
O que era belo.

ATÉ QUE O ENCONTROU
Na cor dos 
Teus olhos.
Era luz da pura
Que iluminava
O branco papel
Onde desenhou
O teu fino rosto
Com o seu pincel.

DEU CORPO À COR
Com que te dizia.
As suas palavras
Tornaram-se riscos...
Mais que poesia.

PINTAVA-TE ASSIM.
Os poemas 
Já não lhe chegavam.
Pintor de palavras
De cor as compunha
E versos voavam
No azul do céu...
..................
“E o que tu fazias
Faço agora eu”
- Dissera-lhe um dia -
“Porque sou poeta
Mas também pintor.
Deixaste-me só,
Entregue à palavra...
E eu, 
Tão pobre de ti,
Pintei-me de dor.

MAS EU FAÇO DELA 
O meu arco-íris
P’ra subir ao céu
A ver se t’encontro
Atrás duma cor
Pintando o teu rosto
Para um poema
Que vou escrever
Com todas as cores
Que trago comigo
Enquanto viver”.

O PINTOR BRINCAVA
Mas era séria
Essa brincadeira.
Perdido em palavras
Encontrou a cor
Que dos seus poemas
Dela fez bandeira...

A COR DA MEMÓRIA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: Composição de JAS
sobre foto/ilustração de “Sogno di Libertà”
de Milva/Theodorakis. Vídeo aqui republicado:
Milva-Theodorakis - Sogno di Libertà

JAS_MemóriaPoema_Final18_52

“Si tu quieres soñar / y te hace falta un tónico / vuelve la copa del
cielo / ¡y bébete el azul!”. 
Luís Vidales, 1900-1990 - “Paseo”, 1976.
NUM DIA DE CHUVA
Bateste levemente
À porta da minha
Memória.

ERA TRANSPARENTE
Essa porta.
Vi que eras tu.
Reconheci a tua boca,
O bâton púrpura
Dos teus lábios.

NÃO SEI SE
ME PRESSENTISTE,
Não sei,
Porque a porta
Era um espelho.
Através dela 
Só se via
Do lado de cá.

ENTRASTE
Cheia de cor
Que a chuva 
Humedecera,
Mas deixara
Intacta.
Apenas com mais 
Brilho.

TAMBÉM TU
ERAS TRANSPARENTE.
Olhei-te
E vi, através de ti,
Um céu 
Pintado
De azul plúmbeo.
 
NA TRANSPARÊNCIA, 
DESPONTOU O SOL
Coado em amarelo.
Havia umas nuvens 
Escuras 
A nascente,
Lá no Monte...

ÀS VEZES, O AMARELO
Ganhava tons de
Âmbar
E vestia-te o corpo 
Na minha intangível
Memória 
Fotográfica.
 
RECORDAVA,
Sereno,
Esse teu belo
Sorriso...
..................
Mas quando te quis
Tocar,
Ao de leve,
Um vidro desceu,
Vertical, 
Sobre nós.
Era frio
E húmido.
Separou-nos.
E eu chorei!
 
AS LÁGRIMAS
Escorreram
Pelo vidro.
Tentaste
Agarrá-las
Do lado de lá
E fixá-las com
Todas as cores
Que tinhas contigo.
Ficaram algumas
Gotas
No vidro,
Em amarelo,
Porque tu, 
De repente,
Te tornaste sol
E eu já não era
Mais do que um
Reflexo dos teus
Raios filtrados
Por algumas 
Nuvens... 
.......
Escuras!

DESPERTEI
Ao som
De dedos que batiam
Suavemente
À porta 
Do meu quarto.

CORRI A ABRI-LA...
.......
Ninguém!

REGRESSEI, RÁPIDO,
À minha memória,
Mas tu já não 
Estavas,
Nem sequer
Como reflexo...
..............
Deixara aberta 
A porta do tempo!

COR, MAIS COR…

POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração - Inédito de JAS: 
Poseidôn. Abril, 2018.
Volto a propor uma bela canção de 
Milva/Theodorakis:
Milva-Theodorakis - Sogno di Libertà

JASPaperaEsasperata2018_3.jpg

"Donde termina el arco iris, en tu alma o en el horizonte?"
Pablo Neruda
COR, DÁ-ME COR!
Fico mais perto 
De ti
Se vieres
Com o vento.
Cor, mais cor,
Que as palavras coloridas
Já me sabem 
A cinzento...

OU TALVEZ NÃO!
Palavras
Já não me faltam
Nem vivo
Na escuridão.
Ainda consigo
Dizer-te,
Com palavras
Dar-te a mão.

TENHO-AS
QUE ME CHEGUEM
Para gritar
Em vermelho 
O concreto
Do teu nome.
Ver-te, assim,
Tão colorida
No vidro do meu
Espelho
Sem que a tristeza
Assome!

AH! MAS A COR
SE FOR INTENSA
E crescer 
Em explosão, 
Se tiver
Em contraponto
Palavras
De evasão
Que dão ritmo
Ao azul
Dos teus sonhos
De papel...
..........
É tudo 
O que eu preciso
P’ra t’esculpir
A cinzel.

DÁ-ME COR
Que eu sou
Sensível 
À luz intensa
Do teu olhar!
Aprendo nas
Flores que
Colho,
Quando vestes
O vermelho,
Com azul
Como espelho,
Ou te cobres 
Com as cores
Do arco-íris
Que és.

AH!, VÊS
COMO TE CONHEÇO?
Tu és cor,
Gota d’água
Suspensa 
No fio 
Do horizonte
Banhado por 
Raios de sol
Que despontam
Lá no Monte.
 
DANÇAS COM ELA,
A cor, 
E com ela adormeces.
Por amor.
É sopro 
Da tua alma
Quando a vida 
Já é sonho...
...........
E te acalma!
 
MAS EU GOSTO
DE TE PINTAR
Com palavras.
Em maiúscula.
Onde o azul é 
Mais íntimo
E o verde 
Te cobre 
Como manto.
Onde o vermelho
É pranto
Sem lágrimas
De enxugar...
..........
Nem sequer
Em amarelo
P'ra melhor
Te recordar!

NA COR DAS MINHAS
PALAVRAS
Te revejo
As vezes 
Que eu quiser
Pois és mais
Do que desejo
Nos cânticos
Que compuser!

MAS EU GOSTO
Cada vez mais 
De cor...
............
Confundir-me 
Com ela,
Dançá-la 
Como vida 
Em explosão,
Fogo de artifício
Que embriaga
Os sentidos
Como se fosse 
Vulcão...

LEMBRO-ME 
DO POETA QUE PEDIA
“Mais luz!”,
Já em seu leito 
Fatal.
Tinha luz 
Dentro de si 
Mas não entrava 
Cor
Pelo portal.
Era cinzenta
A cor que lhe restava
Até escurecer
Quando a janela
Lentamente 
Se fechava...

LUZ É COR,
Desperta da 
Letargia,
Ressuscita
Do torpor.
Celebra a vida.
É cântico.
Chilreio de 
Passarinho
Lá no alto
Que anuncia 
O meu voo
Aos azuis
Que tu pintas
Em cobalto.
 
MAS A PALAVRA
FASCINA-ME.
É com ela 
Que eu te canto!
Com a cor danço
E voo!
Com ela, leio-te
A alma.
Na cor, a tua
Roupagem.
Com a palavra
Suspendo 
Os sentidos
Para melhor
Te sonhar
De todos os dias
Perdidos...
........
À deriva
No teu mar!

AH!, SIM,
Eu gosto 
É das palavras! 
E sabes porquê?
Porque tu cabes
Em quatro letras
Mesmo que o teu
Nome 
Tenha cinco
E me saiba a verde
De Primavera...

ROSTO DE PEDRA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – Jovem mulher com bâton.
“Estudo de uma jovem mulher” (1885), de
Gustav Klimt, (atrevidamente) retocado
por João de Almeida Santos

JASKlimtFinal250318

ENCONTREI-TE

POR ACASO
E caíste
Sobre mim
Naquelas escadas
Sem fim
Por onde descias,
Altiva,
Como senhora
Do silêncio
Austero
Que me devora.

É SEMPRE ASSIM
Quando te vejo.
Crispada,
Sobrolho
Franzido
E pesado,
Sofrido,
Em eterna
Revolta,
Anunciando 
Penitência
Neste incerto
Destino
Já sem regresso.

DOEU?

Muito.
Mas que importa?
É sempre sal
Sobre ferida
Que não cura,
Mal que dura
E que perdura
Uma vida…

A TEIA
QUE NOS TECE
E cobre
Este espaço
Que entretece
E nos domina
É como o tempo
Que marca,
Implacável,
O acaso
Que tudo determina.
 
VI-TE, SIM,
Nesse dia,
Recolhida
Sobre ti,
Estranha na cidade
Invisível
Onde te conheci.

E ASSIM ME NEGAS. 
E foges
Para lugar
Nenhum.
Corres, corres
Para onde
Nunca irás.
Escondes-te
Atrás do que
Desconheces
E de ti própria
Onde blasfemas
Contra o mundo
Onde não te
Reconheces!

A REVOLTA

Não sai
De ti
E petrifica
A tua alma.
 
É ÁSPERO, SIM,
ESSE TEU ROSTO.
Julgava-te
Já perdida
No silêncio
Da raiva
Surda
Contra mim,
Sem redenção,
Condenado
A grilhões
Que pesam
Como cativeiro.
 
CHAVES?
Ah!, sim,
Tantas são
As chaves que tens
E que não usas

Para me libertar!
 
TALVEZ NEM QUEIRAS
Porque também tu
Já és prisioneira
Da síndroma
Que te aprisiona
E te queima
Como fogueira.

CAÍSTE SOBRE MIM.
De repente,
Levantaste-te
Dessa sombra
Onde te encerras,
Te encobres
E vigias.
E atropelaste-me…
 
MAS NÃO ERA PRECISO,
Meu amor!
Todos os dias
O fazes.
Mesmo ausente…

EU VI UM ANJO…

No Dia Mundial da Poesia,
hoje, 21 de Março,
ofereço este Poema
de João de Almeida Santos.
Ilustração: Vénus, de
Botticelli, re-reimagined 
por João de Almeida Santos 
a partir de Yin Xin
(2008) e de Botticelli (1490).

 

JAS_VenereYXin2103_Final

EU VI UM ANJO
CAIR
Docemente
Sobre mim
Com seu rosto 
Imaculado
Em momento
Inesperado
Que parecia 
Não ter fim...

VINHA ELE
Lá de bem alto
Onde eu
O pressentia
Mas tive 
Um sobressalto
Porque em mim
Esse anjo 
Imaculado
Não cabia.

SUA LUZ
ERA INTENSA
Ofuscava-me
O olhar.
O seu brilho 
Deslumbrava
E eu senti-me
Cegar...

MAS NÃO SEI
SE ERA ANJO.
Talvez fosse
Uma mulher.
E se não fosse
De arcanjo, 
Ah!, 
Não era um 
Rosto qualquer...

POR ISSO
ME FASCINOU,
Porque ao vê-lo
Descer
Do trono
Onde reinava,
Quase, quase
Me cegou
Com a luz
Que o transportava. 
E levou-me 
Ao Olimpo
Onde a arte
Lhe sobrava.

FIXEI-O, ENTÃO,
Num quadro 
De memória.
Traços leves,
Cores intensas 
Que cativam
O olhar.

PINTEI-LHE DE
NEGRO
O cabelo
Para mais belo
Ficar
E seu rosto
Feminil
Deste modo
Desvelar
Como mulher
Sensual
Que me veio
Capturar.

DESENHEI-A 
COMO BELO
Avatar
Que tomou
Conta de mim
Para sempre
Me lembrar
Que era 
Uma mulher
E não era
Querubim.

MAS VI 
UM ANJO,
Ah!, eu vi,
Entrar bem 
Dentro de mim
Sob forma
De mulher,
Porque anjo
Imaculado
Não cabia,
Infinito,
No meu pequeno
Jardim.

FOI MISTÉRIO
Que subiu
Ao oráculo
Da vida
Onde eu a
Posso ler 
Em texto 
Que só termina
No dia 
Da despedida,
Na hora em que 
Morrer.

EU VI UM ANJO
DESCER
Neste vale
Da minha vida
E ele fez-me
Crescer,
Recomeçar 
A partida...

E COM POEMAS
Parti
Em viagem
Ao Olimpo
Para com ele
Voar
Em cada palavra
Que digo,
Em cada verso
Que sinto!

CANTA, POETA, CANTA!

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: Auto-Retrato. Original de
João de Almeida Santos. Março de 2018.
Volto a repropor:
Marzo - Milva. Arietta di Salvatore di Giacomo
Para a letra e a tradução do napolitano, ver: Março.

JAS18032018
“Ora al nuovo sole si affidano i nuovi germogli”
Virgílio.
CANTA, POETA, CANTA
Até que Ela 
Te ouça,
Nem que a palavra
Te doa,
Nem que a alma 
T’estremeça!

CANTA, POETA, CANTA
Que o teu poema 
Tem dor
Que te baste,
No amor, 
E tem cor
Que alumia
E tem sabor
A cerejas,
Que as dá
A Primavera.

SE NO CANTAR
Tu quiseres
Atingir o infinito,
Salta p’ra cima 
Dum risco,
Agarra asas 
De azul
E voa
Nesse teu céu
Até que Ela 
Te veja, 
Te pinte
Numa cereja
E murmure
O teu nome
Em silêncio
De igreja...

CANTA, POETA, CANTA
Que o teu cantar 
É um choro.
E é água 
Cristalina
Que corre
Lesta 
Em teu rio
Seminal,
Dentro de ti,
Turbilhão
Arterial
À procura de beleza
No infinito
Fatal 
De um adeus
Beijado
Pela tristeza!

CANTA, POETA, CANTA
Que contigo 
Cantarei 
A alvorada do dia.
Chora, que eu
Chorarei
Se não houver 
Alegria.
Ri, que 
Eu cantarei
Animado por teu
Riso.
E para ti 
Dançarei
Uma valsa 
De Strauss
Às portas
Do Paraíso!

CANTA, POETA, CANTA
Até que Ela 
Te ouça.
Não pares
De chorar alto,
Lá em cima, 
Planalto
Ou montanha,
Poema 
Ou um desenho,
Uma cor
Em aguarela,
Afagado
Pela dor
Mesmo que olhes
P'ra ela
Com um intenso
Ardor 
Lá de cima
Da janela...

CANTA, POETA, CANTA,
Para ti 
E para o mundo
Que o teu cantar
Enobrece
Quem ouvir 
A tua prece,
Quem sentir
O teu lamento,
Que de ser
Já tão profundo
Não o leva
Nem o vento
Pois em ti
Ele entardece.

E SE O VENTO 
O LEVAR
Vai procurá-la
A Ela,
Dobra lento 
A esquina
P’ra que o veja
Da janela. 

MAS O DIA É DE
FESTA!
Há cortinas
No poema
E o lamento 
Lá regressa
Ao poeta 
Que o cantou.
O dia já 
Não é dele
Mas de quem 
O castigou.

CANTA, POETA, CANTA,
Que um dia vai-te 
Ouvir.
Deixa, pois, que o 
Tempo passe
E a razão se esclareça.
E confia no porvir.

CHORA, POETA, CHORA 
Neste teu 
Entardecer
Aqui tão perto
Da arte
Com saudades 
De morrer...

CHORA, POETA, CHORA... 

 

POEMA PARA TI

De: Olga Santos.
Ilustração inspirada em 
Botticelli, "Nascimento de Vénus".
Pormenor. “Re-reimagined” .
Intervenção de JAS sobre
Botticelli Reimagined 
– Venus in the gutter.
By Yin Xin, 2008. Venus after
Botticelli. 

BotticelliRe_reimaged21

CRUZÁMO-NOS POR ACASO
Na estrada da 
Poesia.
Palavras embriagadas 
De cor, de luz, 
De misteriosa e intensa paixão,
Caíam em suave cascata
No colo da estrofe
Que as aguardava
Im-Paciente.
 
SENTIDOS GENESÍACOS
Eram paridos
Pela neófita
Que se fizera à estrada,
Numa incontida explosão
De prazer...
 
JANELAS ERAM RASGADAS
No traçado do poema
Subitamente...
Cruza-se a voz 
Do Poeta
Com cantos de aedos outros.
 
IRROMPEM CÍTARAS E TROMBETAS
Volteiam bacantes palavras
Perturbadora-mente
Desassossegad-Horas.
Tudo é cor, brilho, ritmo, cadência,
Melodia...
Farandole de Bizet
Sarabande de Haendel.
 
MAS FEVEREIRO ERA FRIO
E a estrada penosa
Para quem março nevou.
 
SAÍ NA CURVA DA ESTRADA
Disse adeus à melodia...

PROMETIDO ESTÁ O REGRESSO, POETA!
Quando o sol cegar a sombra
E abrasar as pedras da montanha,
E da bonina o tempo for.

 

PRIMAVERA, QUASE

João de Almeida Santos
POEMA.
Ilustração: Primavera, Quase.
Original de João de Almeida Santos.
Março de 2018. 
Ilustração sonora de Milva,
em napolitano, sobre uma 
Arietta de Salvatore di Giacomo:
Marzo. Reproposição. 
Para a tradução, veja, aqui, Março.
Para ouvir Milva: 
Marzo - Milva. Arietta di Salvatore di Giacomo
                          Primavera, Quase

Pavão4
"Até nos nossos sonhos neva, mas uma única vez na vida". 
Orhan Pamuk, escritor turco. Prémio Nobel da Literatura.
PRIMAVERA, QUASE
SE ME PERGUNTASSES
PELA NEVE,
O que sempre te diria?
“- Tenho-a na minha
Alma,
Sinto-a, pura,
Em cada dia.”

DELA CONSERVO
O FRIO
E a brancura
Do seu manto,
Mas sinto-a quente
Por dentro,
Mesmo que sofra,
Em pranto.

ENTRA NEVE
NA PRIMAVERA
E dá húmus
Ao jardim,
Rega fundo 
A tua alma 
E ao sofrimento
Põe fim.

E QUANDO
O INVERNO
Termina
Saem cores 
Da tua mão,
Voam riscos,
Nascem amores,
Tudo brota
Do teu chão...

EU PERMANEÇO
NA NEVE,
Corpo frio, 
Alma quente.
Se te banhar
Como rio 
Germinas
Como semente,
Explodem os teus riscos
Em girândolas 
De cor.
É festa
Na tua terra,
Já não é tempo
De dor!

MAS SÓ DESÇO 
DA MONTANHA
Como neve
Que t'inspira
Pois da arte 
É alimento,
Frio branco
Que conserva
E à alma 
Dá alento.

SÓ ASSIM 
EU TE VISITO,
Perdoa
A minha falta.
No alto voam 
Foguetes,
Mas dentro de mim
É ribalta,
A que quero
Para ti
Pois eu não quero 
Mais nada.
Que Atena 
Te inspire
Com sua varinha
De Fada!

É FESTA NA TUA
TERRA,
Crepitam foguetes
No ar,
Fosse eu
O teu mordomo
Não iriam
As girândolas
Na tua festa
Parar!

BRANCA NEVE,
FRIA E HÚMIDA,
Não vê 
Foguetes no ar,
Mas banha 
A tua alma,
Lentamente,
Sem parar.

E SE PERGUNTAS
P'LA NEVE
Eu ouço-te 
Cá em cima,
Inspiro-me na 
Montanha
E respondo-te
Em rima,
Devolvo-te
Inspiração
Que da arte
É a vida,
Num poema 
Em oração
Que não é 
De despedida,
Mas canto, 
Em comoção,
Da palavra 
Proibida.

MARÇO

POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração: PÁN - Original
de João de Almeida Santos.
Em exposição na minha Galeria Poética,
de Março de 2018 até... Sempre!

 

Pán30FINAL

"Marzo: nu poco chiove / e n’ato ppoco stracqua: / torna a chiovere, 
schiove, / ride ’o sole cu ll’acqua./ Mo nu cielo celeste, / mo 
n’aria cupa e nera: / mo d’ ’o vierno ’e tempeste, / mo n’aria ’e 
primmavera. / N’auciello freddigliuso / aspetta ch’esce ’o sole: / 
ncopp’ ’o tturreno nfuso / suspireno ’e vviole... / Catarì!… Che buo’
cchiù? / Ntienneme, core mio! / Marzo, tu ’o ssaie, si’ tu, /e 
st’auciello songo io".

"Março: um pouco chove / e logo deixa de chover: / volta a chover, 
pára, / ri o sol com a água. / Ora um céu celeste, / ora um ar 
escuro e negro: / ora tempestades d’inverno, / ora um ar de 
primavera. / Um pássaro com frio / Espera que espreite o sol: / 
na terra ensopada suspiram as violetas... / Catarina! Que queres 
mais? / Entende-me, meu amor! / Março, sabes, és tu, / e aquele 
pássaro sou eu".

NOTA - “Arietta” (1898) do poeta napolitano Salvatore di Giacomo, 
1860-1934,em dialecto napolitano. Ouça MILVA em: 
https://www.youtube.com/watch?v=lMKDSnJEadc).
GOSTO DE MARÇO,
Entre a neve 
E a primavera,
O branco e
As flores.
Na fronteira, 
Como te vejo?
Talvez quimera!

GOSTO DO BOTTICELLI,
Dos rostos 
E dos corpos
Feminis.
Volúpia de 
Transparências
Sensuais.
Da pele, a Cor.
Dos traços
Que desenham 
Alvura nas 
Três Graças...
.........
E no Amor!

GOSTO DO BRANCO,
Cá de perto ou
Lá longe
No alto da Montanha.
E das cores intensas
Que brotam
Insinuantes
Ao meu olhar 
Deslumbrado, 
Cá em baixo,
Por ti
Iluminado!

GOSTO DE MARÇO.
Entrei nele
Contigo. 
Ombro a ombro.
No signo do 
Desencontro.
Que se repete
Em silêncio
Fatal, 
Marcado
Contraponto
Do tempo
Imprevisível
Deste “triste
Destino”...
Quase irreal.

QUE O DIGAM
Os astros 
Desalinhados!
Para ti colhia 
Flores luminosas
E a inspiração
Crescia
Nas estrofes
Arrebatadas
Com que fingia
Sentir
O que dizer 
Não podia,
Fosse por 
Uma hora
Ou por um dia.

NO SIGNO DO
Desencontro
Marcado como selo,
Lá vou eu
Por aí, 
Nem sei porquê
(Ou por falta de ti),
De braço dado 
Com Botticelli,
Lá em cima, 
na Galleria,
Onde, um dia, 
Eu quase morei.
Procuro-te
Em oração
À tua deusa, 
Atena,
Que trazes
(Eu bem sei)
No coração.

SINTO-TE PERTO,
Depuro
A tua imagem,
Bissetriz de mil
Rostos,
Até se tornar
Ideia
De corpo ausente!

DEPOIS REINVENTO-A
A cada instante,
Abraço-a
Com alma
De amante,
Pinto-a com 
Palavras
E silêncio
De catedral.
E sonho-te...

AO ACORDAR,
No amanhecer
De cada poema,
Verei que continuas 
Em mim,
De olhos fechados,
Como se fosses
Memória do que
Nunca aconteceu.
 
ANDAREMOS 
Por aí
(Os astros o dirão),
Vagando
No pólen
Da beleza sensível
Onde pousamos
O nosso inquieto
Olhar
À procura 
De alimento
Para pintar
O poema...
...................
Talvez o impossível!

LÁ NO ALTO
Te encontrarei,
Fio do horizonte,
Simulacro do teu
Olhar
A construir infinito,
Onde, num adeus 
Sem fronteiras
Nem cais de partida, 
Hás-de desenhar,
Com a alma,
As mil silhuetas 
Ainda inacabadas...
.............
Ou talvez não!

MEU DEUS,
Como gosto de ti...
........
Em Março! 

 


Poema de João de Almeida Santos 
Ilustração: Almada Negreiros - “Viento. Blanco y Negro. N.º 2.017. 21
de enero de 1931 ”. In Pessoa. Todo arte es una forma de literatura. 
Catálogo. Museo Reina Sofía. Madrid, 2018, p. 262. Exposição aberta 
até 07 de Maio de 2018.

DESPEDIDA

Almada2

“Tu prima m’inviasti verso Parnaso a ber ne le sue grotte, e prima 
appresso Dio m’alluminasti”. 
Dante Alighieri. Purgatorio. Canto XXII.

 

PERDI-TE
Porque nunca
Te encontrei.
Numa rua, 
Numa praça,
Num café.
Em lado nenhum.
Não sei!

ENCONTREI-TE
No Parnaso.
Lá em cima.
Intangível.
Sem poder
Tocar-te
A não ser com
Palavras.
Em forma de poema.
Sensível às cores 
Da tua alma.

DE REPENTE,
Vestiste-me
Com elas, 
As palavras.
E eu senti-me 
Quente,
Afagado
No meu Canto,
Às vezes, 
Amargurado,
Outras, 
Em pranto,
Sufocado.

SIM, ENCONTREI-TE 
No Parnaso.
Lá em cima. 
No Monte.
Através de ti 
Eu vi a costa, 
Eu vi o mar 
E o meu mundo 
Interior
Com nitidez,
A sonhar-te,
De cada vez,
Em azul...
......... 
A tua cor.

A NEBLINA
Cobria-te
Para te revestir
E refrescar
A alma
Como chuva
De palavras
Húmidas
Caídas do meu
Céu.

EU NÃO ERA MAIS
Do que espelho
Que te devolvia
Fantasia
Contra a
Petrificação
Que espreita sempre
Nos olhares 
Indiscretos.
Mas tu não me vias. 
Em mim, 
Especulavas,
Dizias...

E DE TANTO TE
VERES
E dizeres
Decidiste declinar
O espelho que
Começava 
A embaciar-te.

E NÃO ERA DA
NEBLINA
Que te envolvia,
Mas dos desenhos
Que tuas mãos
Esboçavam 
Timidamente
Nesse espelho 
Já húmido 
De ti.

E DESPEDISTE-TE.
Do Monte.
Desceste para ti
Vertiginosamente,
Em desconforto,
Sob os olhares 
Das mil górgonas
Que sempre ameaçam
Petrificar-te.
E sucumbiste.
Ou talvez não...

NO MONTE, O ESPELHO
Disse para si:
- De tanto te veres 
Em mim,
Ficou-me, de ti,
O repetido reflexo.
E sabes o que 
Brotava
Quando te olhavas
Com palavras
Na minha superfície?
Beleza! 
Toda a que me sobrou
Quando, triste,
Desceste o Monte.

MAS ESTA NÃO
PETRIFICARÁ
Porque ficou 
Guardada 
No meu corpo
Vítreo 
Onde todos 
Se revêem
Sem saber 
Que no reflexo
Levam, gravada
Em transparência,
A tua imagem...
.........
Embaciada.

E EU POR CÁ FIQUEI,
Espelho do mundo,
A olhar para 
O escuro espaço 
Sideral
À espera que um cometa
Me alumie o caminho
Para to devolver como
Teu reflexo 
Original...

A CAMINHO DE PASÁRGADA…

Poema de João de Almeida Santos, à desgarrada com Manuel Bandeira (1886-1968), a caminho de Pasárgada, inspirado em três poemas seus: Desencanto, 1912; Versos escritos na água, s.d.; Renúncia, 1906. In Obras Poéticas – 1956. Lisboa: Minerva, pp. 33, 40, 101. Ilustração: pormenor de uma obra do Mestre Guilherme Camarinha (1912-1994).

 

JAS_Camarinha2

 

“OS POUCOS VERSOS QUE AÍ VÃO,
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.”

OS MUITOS VERSOS 
Que te dei
Deixam claro 
O que sou.
Se tu me leres, 
Eu não pequei.
É pouco do muito 
Que te dou.

“NELES PORÁS TUA TRISTEZA
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...”

TALVEZ BELEZA
E algum sentido,
Tristeza, dor, 
Como castigo...
Eu canto 
O que perdi
P’ra que o verso
Vá ter contigo
Lá onde estejas...
.............. 
Queira o vento
Ser meu amigo. 

“QUEM OS OUVIU NÃO OS AMOU
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.”

NÃO OS AMOU
Por ser verdade
Este amor 
Que aqui nasceu
E que cantei 
Em liberdade
Em versos 
Que o vento
Já me levou
Aos muros 
Dessa cidade.

OUTROS FARIA
Se pudesse
Para os pôr 
Na tua mão,
Não pediria que 
Os sonhasses,
Olhos cerrados,
Mas que os lesses 
Com afeição!

AH!, MANUEL,
Que bem me sabe
Pôr a dor 
Em poesia,
Em versos
A emoção,
No cantar 
Triste alegria
E muito intensa
Uma paixão,
Mesmo que seja
Utopia!

DIZES TU,
Em poesia,
Que só a dor
Te enobrece.
É bem verdade, 
Meu bom poeta,
Alma dorida 
Logo aquece
E com seus versos 
Entretece
O que a paixão
Já tanto afecta.

“A VIDA É VÃ COMO A SOMBRA QUE PASSA...
Sofre sereno e de alma sobranceira,
Sem um grito sequer tua desgraça.

ENCERRA EM TI TUA TRISTEZA INTEIRA.
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...”

POIS TENHO MEDO,
Ah!, meu irmão, 
Que a dor 
Me passe,
Perca o poema 
Sua raiz,
Essa, sim, 
A verdadeira, 
E eu fique só 
Já sem palavras
E caiam secas 
Todas as rosas
Que me povoam
Esta roseira.

SOBRAM ESPINHOS
Ferem-me a alma
E saem versos
E cai o sangue
“Gota a gota,
Do coração”,
“Volúpia ardente” 
Já sem remédio
“Eu faço versos 
Como quem chora”
E chamo a dor
Naquela hora
E ela vem
Por compaixão!

AH!, POETA,
Ah!, meu irmão,
Tu fazes versos 
“Como quem morre”
E eu procuro
Neste meu canto...
............
O seu perdão!

TU, MANUEL,
És a bandeira
E ela o meu refrão,
P’ra mim és verso
No meu poema
E ela é...
............ 
Minha paixão!

A PALAVRA PROIBIDA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: Intervenção 
digital (cor) de JAS
sobre “O Rio” (1950), do 
artista italiano
Alberto Savinio (1891-1952).

Alberto Savinio-cópia

“L’amour est la poésie des sens”
Honoré de Balzac
OS GUARDIÕES
Do sagrado templo
Emitiram Edital:
“O amor em poesia
Fica assim proibido
Porque pode ser 
Fatal.
Os versos 
E as estrofes
Pintados 
A luz e cor
Ficam p’ra sempre 
Banidos
Da Arte 
E do Amor!”

DIZ O AMIGO
Honoré,
Certeiro
Como poeta,
Que o Amor
É poesia, 
É a arte 
Dos sentidos,
É perfume
Qu’inebria
E nos faz sentir
Perdidos...
.............
Se não houver
Guardião 
Impenitente
Que decrete: 
“Também eles 
São proibidos!”

PROIBIDOS?
Ah!, esses, 
Não!
Poesia
É emoção, 
É enlevo
Dos sentidos...
...........
Que resiste
Ao edital
Mesmo que seja
Cantado
Pelo mais
Belo jogral!

TENTA, POR ISSO,
Levá-los
Aos píncaros
Da fantasia,
Sobem lá alto
Os sentidos
Com asas
De poesia!

MAS É DIFÍCIL
Senti-los,
Ouvi-los 
Em verso, 
Com alegria,
Pois há sempre
Alguém
Que me rouba
A brisa
Dessa tua 
Maresia...
..............
A que respiras
Bem cedo,
Logo ao 
Amanhecer,
Em cada dia
Que sentes
Como, feliz,
Eu te canto
Para nunca 
Te perder!

OLHAS O MAR,
Sentes
As ondas
Dentro de ti
A cantar
Como versos
Que o vento 
Sopra
De mansinho
P’ra te poder
Sussurrar
O que por ti
Eu já sinto
Apesar de tão
Sozinho!

POESIA
Dos sentidos?
O amor também 
É isso
Porque, queiras 
Ou não queiras,
Tem a força 
De feitiço.
Encontro-a
Sempre em ti
E mesmo que 
Proibidos
Desenho sempre
Poemas
Desde o dia
Em que te vi...
............
Exaltaram-se 
Os sentidos
E para o poema
Parti...

DECRETARAM
Edital?
Ah!, que o façam, 
Pois, cumprir!
Mas poesia
É como vento,
Sopra-me 
Tão forte
Na alma
Que o teu silêncio
É alento 
Para sempre 
Te esculpir.
Na palavra proibida
Encontrará o poema
O seu próprio
Porvir...


***

PERDER-TE…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: intervenção digital de JAS
sobre “Portrait d’un Poète (Juliet)”, 1954,
de Man Ray (Man Ray, Cent’anni di
Libertà - 1890-1990. Venezia, Sodicart,
1990, p. 119). Homenagem a um Artista
que admiro.

MRayPd'unP_cópia

 

RENUNCIEI
Para nunca 
Te perder,
Mas neste 
Silêncio sofrido
Vai declinando
O que p’ra sempre
Eu quis ter...

VÊS, BERNARDO, 
Que destino?
Que desassossego,
O meu?
Quis seguir
O teu caminho
E perdi-me...
..........
Já não sou
Eu!

QUE DESENCONTRO
Foi esse
Desde o dia
Em que te vi?
Dei-te errados
Sinais
Cada dia
Que vivi,
Cavando
Cada vez mais
A solidão
Que m’invade
Desde quando 
Te perdi?

VÁ, DIZ-ME
Tudo o que 
Não sabes!
Eu quero
Mesmo saber
P’ra te cantar
Em poemas,
Pois não te
Quero perder!

TU AMAS 
A poesia?
Senti-la é
Doce sofrer,
Ela diz tudo
Com nada,
O seu canto
É prazer,
É melodia
De fada
Mesmo quando
Faz doer!

NO POEMA
Eu até finjo,
É poeta 
Quem o diz,
Mesmo que sinta 
O que digo
Nunca sou, 
Sem ti, 
Feliz!

MAS POEMA
É como a vida,
Posso ouvir
A tua alma
Em desejos
Com palavras.
É o modo
De te ter,
É remédio
Que me salva
De na solidão
Eu arder!

ESTE CANTO
É, pois, meu,
Nem tu 
Mo podes 
Roubar,
Se te dizem 
Que é p’ra ti
É verdade...
...........
De enganar!

O VERSO
É o meu beijo
Nesse rosto
Que perdi, 
É quente 
Como o desejo
E resiste
A quem te diz
Que o poeta
Não te ama,
Porque desenha 
As palavras
Com um pedaço
De giz...

O AMOR
Em poesia
Não é mesmo
Deste mundo,
Quem o ler
Como utopia
Vai mais longe
Vai mais fundo
E não cai 
Em afasia
Nem vê 
O pobre poeta
Como simples
Vagabundo.

EU NÃO GOSTO
Da renúncia,
Mas que posso 
Eu fazer?
Se não cantar
O que sinto
Ainda te vou 
Perder!

***

ALMA!

Poema a dois. Ana de Sousa
e João de Almeida Santos. 
Ilustração de João de Almeida Santos. 
"Deusa no Jardim". 28.01.2018.

JAS_Deusa_Jardim

“ - PROPÍCIA,
DESPERTA A MANHÃ,
Desperta o dia.
A Montanha distante
É tua.
Exageradamente fria.
Está escrito
Numa Estrela
Em matriz
Gravada
A cinzel!”

SIM, FRIA,
É A MONTANHA
Onde nascemos
Para o Destino
No granito
Das nossas vidas!

O CALOR
Habita
Outras paisagens
Mais a sul,
Onde nasce
A poesia
Para aquecer,
Com flocos 
De palavras, 
A minha alma 
Granítica 
E vadia...

“- FATAL CAMINHO
De linhas paralelas. 
Até os sonhos
Da mulher to dizem:
‘ - A solidão eterna
Não ouvida. 
Ferida antiga,
Aberta e repetida’.”
SOLIDÃO ETERNA...
É longo 
O caminho
Dos que amam
No deserto
Como gelo 
Na noite,
A fria lua
Iluminando a alma
Nua
Em desespero,
Tendo areia 
E vento
Como tempero...

“- PORÉM, O GELO
É QUENTE.
Mente.
Com a mentira sobrevive
O engano.
Da louca mansidão
Se afastam
Os sentidos
Do paladar
Do tacto.”

SIM, É QUENTE,
Porque não mente
E é cortante,
Faz brotar
Sangue
Em veias 
Flutuante
Que escorre
Sobre pele,
Mesmo distante,
Tal a força
Da paixão
Na memória
Escaldante...

“ - DE FACTO, PERDURA
A audição, o olhar.
O cheiro raro
De um perfume
Caro.
Negrume 
De eclipse!
Qual elipse?
E o símbolo
Do infinito
Ata-lhe
O petrificado coração. 
Reflecte um brilho
Inigualável o diamante
Inscrito
Na sua neve
Branca.
Flecte
Os joelhos.
Sabe ainda rezar...
Fá-lo
Em poesia
Confessando-se
Às palavras
Que se diz,
Em permanente
Melancolia...”

ELIPSE E INFINITO
Sabem de longe 
A não ouvido 
Grito de beleza
Sacrificial
Ou gemido 
Sussurrado
E esquecido
Lá longe.
Alma ferida
Que o seu altar
Colorido 
Não acolhe
Nessa distância
Desmedida
De uma fuga
Inesperada
E depois
Insistentemente
Ressentida
No eco do silêncio!

Oh! como é duro
Vê-la perdida
No meio da floresta
Desordenada 
De cores,
Esbracejando
No seu irresistível 
Ímpeto,
Em girândolas 
Ou estilhaços de
Poderosa fantasia
Em perigo
De autofagia
Cromática,
À procura do
Do tempo perdido 
Em sendeiro
De floresta...

“ - MAS O SILÊNCIO
De Deus
É um consolo.
Mudança de  estações,
Tempo
Insondável!
Milhares de vezes
Levanta voo a águia.
Seu destino
É voar.
O da fiandeira,
Fiar.”

VOA, VOA
A águia 
Com seus riscos,
Mas ele,
Que não é
Fiandeiro,
Fica-se 
Pelas palavras
Como ciscos 
No seu olhar 
Perturbado,
Sem cor
Abandonado,
Procurando,
Parado,
Voar
Com outras asas
Que encontra
Em si,
Sem saber
Para onde
Viajar,
Perdido o infinito
Que lhe roubaram
Dessas mãos 
Tão generosas
De palavras
E cores...

“ - SUAS IRMÃS,
AS PARCAS,
Riem
Do destino
Dessa mortal voadora.
Resta-lhe ficar
Soror da Seda 
Presa em seu casulo
Do mais alto céu,
Olhando de
Longe
Tudo o que a vida
Lhe não deu.”

MORTAL VOADORA
Que me liberta 
Da Moira
Que ao fim,
Inflexível, 
Me conduz,
Sem sair
Desse silêncio
Que tanto
Me seduz...
.........
Alma pura
Que me trouxe 
Tanta, mas tanta 
Luz,
Em plena vida
De poeta
Que resiste
Com a Sorte
À neblina
Que aflora
E espreita
A cada esquina...

“QUE CINZENTO
E AZULADO,
Porém, é o céu 
E o poente quente
Que cai
Alaranjado e vermelho,
Como a nuvem
Passou o sonho,
Seu espelho...
............
Ah, a doçura
Das palavras
Amargas!”

SIM, AMARGAS
Como o gelo 
Quente
Que não mente
E não derrete
Ao sol,
No poente,
Quando o verso 
Declina
No horizonte marinho
Ali a seu lado...
Porque à vida
E ao poema
Sempre
Reconduzem,
Sim,
As palavras,
Mesmo sem cor!

PROPÍCIA, DESPERTA
A manhã,
Sem ti,
Meu amor!

 

 

ELAS FOGEM, AS PALAVRAS…

AnaDeSousa.20180112_234446 (1)

POEMA de JOÃO DE ALMEIDA SANTOS. Ilustração de ANA de SOUSA. 01/2018

 

QUERIA FAZER-TE
UM POEMA,
Sentir-te nele
À vontade
E as palavras
Endoidaram
Quando 
Feliz 
Lhes falei
Da minha 
Quente
Saudade...
.............
Fugiram
Numa revolta
Sentida
Sem conhecer
A verdade.

EU ESTAVA
A MENTIR
Sem cuidar
Da crueldade
De as usar
Como queria
Só porque
Tinha saudade...

ESGUEIRARAM
RUA FORA,
Cada uma 
Por seu lado,
Em fugas
No horizonte
Deste poema
Tentado.

SÓ JÁ AS VIA
LÁ LONGE,
Ao fundo
Da tua rua
Num ponto 
Do infinito
Desta minha 
Alma nua.

UMAS
ESVOAÇAVAM
No fio 
Do horizonte,
Outras
Aninhadas
No passeio...
.............
E eu a tentar
O versejo
Capturado
Num enleio
Desta prisão
Do desejo!

PALAVRAS 
EM CORRERIA,
Letras
Perdendo forma
Como fios
De um novelo
Já desfeito
De sentido
Como a água
Do gelo...

SÃO FIOS
EMARANHADOS,
Letras 
Que se deslaçam
E procuram
Outras formas
Para lá da minha 
Rima,
São riscos
Na tua tela
A subir
Por ela acima...

QUERO FAZER-TE
UM POEMA
Com palavras
Desenhadas
Mas elas fogem
P’ra longe
Correm, correm
Assustadas
Não vá mesmo 
Ser verdade
Que as quero
Alinhadas
Neste recanto
Feliz
Onde resisto
À saudade.

ELAS GOSTAM
DE CANTAR
Esta minha 
Triste dor 
E gostam 
De me dizer
Esta intensa
Emoção...
...........
Mas se vêem
Que és feliz
Fogem de ti,
Dizem “não!”

O POEMA 
PASSARINHO
Procura-te
Para cantar
Mas se já 
Não sentes nada
É ele que foge
A voar...

E HOJE
É MESMO ASSIM
Fogem todas
As palavras
Sem procurar
Um destino,
Já não consigo
Agarrá-las
Num poema
Genuíno.

NÃO SABEM
DA MINHA DOR
E por isso
Vão embora
Estou sem palavras,
Amor,
Estou muito triste,
Agora!

 

 

 

 

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