Poesia

UM SONHO NO MEU JARDIM

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Jardim Espectral”.
Original de minha autoria para
este poema. Agosto de 2020.
UmSonhonoJardim

“Jardim Espectral”. Jas. 08-2020.

POEMA – “UM SONHO NO MEU JARDIM”

NUMA TARDE QUENTE
De Verão
Adormeci
No meu Jardim
Encantado
À sombra de um
Loureiro
E sonhei,
Pensando em ti,
Que era
Um jardineiro...
...........
Apaixonado.

MAS ERA ESPECTRAL
A luz
Desse jardim,
Era branca,
Irreal,
Algo estranho
Para mim
Neste lugar
Seminal.

SONHEI-TE.
Nesta estranha
Visão
Tudo perdera
Cor,
Tudo era
Ilusão e
Voltou
O que então
Eu senti
Naquela tarde
De outono
Quando
Para sempre
Te perdi...
...........
Uma imensa
Comoção.

NO SONHO,
Já não te vi,
A memória
Perdeu cor,
Mas logo
Te pressenti
Nesse cíclico
Retorno
Da minha
Remota dor.

NÃO ERA
Deste mundo
Esse Jardim,
Perdera
O seu encanto,
O perfume
Já não era
Do inebriante
Jasmim
Nem de outra
Qualquer flor
Que sorrisse
Para mim.

MAS LOGO ACORDEI
Com a brisa fresca
Da noite
No meu Jardim
Encantado
E o sonho branco
E pesado
Logo teve
O seu fim,
Despertando
Uma doce
Nostalgia
Quando o brilho
Das estrelas
Do mais profundo
Do céu
Cobriu
Este meu rosto
De um cintilante
Véu
Como se fosse magia.
UmSonhonoJardimRec

“Jardim Espectral”. Detalhe.

A FLOR DE PAPEL

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Fleur de Papier en Vol
à la Recherche du Poème Perdu
dans un Jour d’Hiver”.
Original de minha autoria.
Julho de 2020.
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“Une Fleur de Papier en Vol à la Recherche du Poème Perdu dans un Jour d’Hiver”. Jas. 07-2020.

POEMA – “A FLOR DE PAPEL”

NUM DIA DE INVERNO
Uma flor de papel
Voou
Para longe,
Levada pelo vento.
Rajadas fortes
Quebraram
Os subtis
Filamentos
Que a ligavam
À raiz de onde
Nascera...
.............
Seu alento.

CONTINUA A VOAR,
Essa flor de papel,
Ao sabor do vento,
Pousando
Aqui e ali
E logo voando
Para outros
Destinos,
Em perpétuo
Movimento.

PERDEU AS CORES
Luminosas
Que exibia
E a fonte
D’inspiração,
A seiva
De cada dia,
Borboleta
Sem pólen
Para nova
Gestação
No jardim
Da fantasia.

MAS NUM DIA
Quente
De Verão
(Eu bem sabia)
Encontrei-a
Por acaso
Aninhada
Num arbusto,
Recolhida sobre si
Em profunda
Solidão.

PEGUEI-A
Com a mão
E levei-a
Ao Jardim
Do meu poeta
Pintor...
.............
Nosso chão.

DEU-LHE COR,
O meu poeta,
Alisou as suas rugas,
Mostrou-lhe
O horizonte
Nesse dia de
Verão
E logo a deitou
Ao vento,
Ao encontro
De raiz
Que nutrisse
Com sua seiva
Uma nova floração....
JASFleurdePapierFinal26R

“Dans un Jour d’Hiver…”. Jas. 07.2020.

RITUAIS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Templo Inacabado”.
Original de minha autoria
para este poema. Julho de 2020.
JanelaFimPublicado1psd

” Templo Inacabado”, Jas. 07-2020

POEMA – “RITUAIS”

IMAGINEI UM TEMPLO
Revestido de vitrais,
Celebrar-te
Com palavras
Em singelos rituais.

EVOCO
O tempo
Em que sempre
Me perdia
Nesse teu olhar
Esquivo...
............... E os silêncios Que sobravam Como se fossem Castigo. É O QUE RESTA Como alimento Da alma, O fervilhar De memórias, Inscrições Sensoriais, Silêncio Profundo A poético Chamamento... ............... E tudo o mais... UM FUTURO IMAGINADO De voluntário Amante, Construído Nas ruínas De um passado Que não é Muito distante. SIM, O QUE RESTA É este brilho Coado, Melancólico, Cinzento, O negro De teus olhos Inquietos E teus cabelos Fartos, Ao vento... TUDO FERVILHA Na minha sofrida Memória, Delicada criação Em palavras Com história. DOU-TE, ASSIM,  Nova vida E renovo-me Também eu, Falo ao mundo Comovido De um templo Que é só meu. IMAGINEI-O, O templo, Para quando Regressar Do meu Jardim Encantado, Vibrante de cores E por fora Perfumado, Mas por dentro Melancólico e Sofrido Por te ter, Nesse tempo Já passado, Dolorosamente Perdido... ......... De tanto Te ter amado.
JanelaFimPublicado1psdR

“Templo Inacabado”. Detalhe.

DEUSA NO MEU JARDIM ENCANTADO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Sonhei-te assim, 
no Poema”.
Original de minha autoria
para este poema. Julho de 2020.
Deusa290620Final0607

“Sonhei-te assim, no Poema”. Jas. 07-2020.

POEMA – “DEUSA NO MEU JARDIM ENCANTADO

”SONHEI-TE ASSIM,
Meu amor:
Uma deusa no Jardim.
Não te vendo,
Recrio-te
Com fantasia,
Olhar
Deslumbrado,
Alma
Devotada
Que persiste
Fascinada
Como quando
No passado
Eu te via.

QUE SAUDADES!
Não nos gastámos
Porque partiste
Cedo demais.
Sobrou-me
De ti o melhor,
Quando, ao ver-te,
Estremecia,
Olhos negros,
Inquietos,
Mistério
Que seduzia.

FICOU-ME A VONTADE
De te desvelar
Lentamente
À medida
Do desejo,
De um forte
Encantamento,
Renovada  
Inspiração,
Oráculo e
Devoção
E silente
Chamamento.

ESTA NOITE
Sonhei-te assim,
Amanhã
Eu já não sei,
Os sonhos vão
Lá pra longe
Ou vêm pra muito
Perto,
Noites longas e
Profundas,
Quando o amanhecer
 É incerto.

POR ISSO SONHEI-TE
Hoje,
Pra te contar
O meu sonho
Amanhã,
No dia em que
Mais sinto
Esta minha solidão,
A ausência
E o silêncio
A que respondo
Com poética
Evasão.

PROCURO-TE
Na fantasia,
Nos poemas,
Na pintura,
Nos sonhos
Ou no Jardim
Onde te vejo
Altiva
Aqui bem perto
De mim.

E QUANDO TE OLHO
Vejo o mundo
A partir desse teu
Rosto,
Mais belo
E misterioso,
Mais quente, 
Silencioso...

CRESCE A VONTADE,
O estro,
A poesia,
Vejo o futuro
Risonho,
Há uma certa acalmia
Neste mundo
Tão rugoso.

SONHEI-TE
Um dia antes
Do beijo
Que celebro
Com a minha poesia,
Ano após ano,
Ao encontro da raiz
Onde o poeta
Nasceu
Para o canto
Que a dor
Lhe prometeu
Como pura catarsia.
Deusa290620Final0607R

“Sonhei-te assim, no Poema”. Detalhe.

ENCONTRO NO JARDIM

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – “Cai a Noite no Jardim”.
Original de minha autoria
para este poema. Junho de 2020.
Anoiteceu2806FinalBrilho

“Cai a Noite no Jardim”. Jas. 06-2020.

POEMA – “ENCONTRO NO JARDIM…”

CAI A NOITE
No jardim
E já nem sei
Se amanheces
Dentro de mim.
Sobras-me
Em incerteza
Nos sonhos
Breves
Em que te encontro
Como se fosse
Eterna
Esta nossa despedida,
A versão já repetida
De um desencontro
Sem fim.

MAS À NOITE
O teu perfume
É mais intenso
No meu Jardim
Encantado,
O silêncio
Mais profundo,
Ouço mais
A tua voz
Cristalina
Ecoar
Na minha alma,
 Vejo o brilho
De teus olhos
Ausentes
Acender magnólias
Brancas
E sinto o vermelho
Das rosas
Incendiar-me
O corpo.

MAS ANOITECE,
Meu amor,
Ah, como anoitece,
Vai-se o sol
E a vibração dos sentidos,
Recomeça a viagem
Para dentro de mim,
Invoco-te
Com a alma
E trago-te
Como pétala às minhas
Palavras,
Olho-te por dentro
Quando a melancolia
Toma conta de mim
Neste cíclico
Anoitecer.

VOU AGORA A CAMINHO
Da noite,
Do sonho,
Do imaginário
Que entra sem pedir
Licença
E me arrasta
Na corrente
Onírica para um
Incerto destino
Onde não sei
Se habitas.

E O AMANHECER
É sempre imprevisível,
As ondas de luz que
Chegam com o sol
Ameaçam
As cores suaves
E quentes
Com que te
Sonho e te pinto
Na minha alma
Nas noites
De luar.

CAI A NOITE NO JARDIM
E anoitece-me
Na alma,
Meu amor!
Anoiteceu2806FinalRec

“Cai a Noite no Jardim”. Detalhe.

CASTA DIVA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “S/Título”.
Original de minha autoria
para este poema. Junho de 2020
RufetewomanCOR

“S/Título”. Jas. 06-2020.

POEMA – “CASTA DIVA”

SONHEI-TE
Nesta noite de Verão.
Eras casta.
Podias ser
Casta Diva.
Ou não.
Casta, sim,
De onde nasce
O meu vinho,
Milagre
Da natureza,
Sob forma de
Mulher,
Mas serás
Diva também
Se ao poema
Te trouxer.

SONHO-TE
Muitas vezes,
Voo contigo
À procura
Do passado,
Mas nunca eu
Te sonhei
Como casta
Em pecado,
Trepando,
Pela latada,
No meu
Jardim
Encantado.

AH, A LATADA
Essa sim,
Que um dia
Trepou por ti
Pernada acima
Nesse enlace
Fatal
Onde me nasceu
A rima,
O canto
Que te invoca
Quando me torno
Jogral.

AGORA SONHO-TE
ASSIM,
Mulher-Rufete,
Crescendo
Bem alto
Nas terras
Do meu Jardim...
.................
As voltas que
O mundo dá,
Neste recanto
Encantado
Com aroma
Perfumado
Da ramagem do
Jasmim.

CRESCES-ME
Na alma
Sob a forma de
Enlace,
Mas se agora
És videira
E ontem eras
Jasmim,
Amanhã
Serás arbusto
Mesmo que eu
O não queira
Por seres diva
Para mim.
RufetewomanCORRec

“S/Título”. Detalhe.

A EROSÃO DO TEMPO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Entardece no Jardim”.
Original de minha autoria
para este poema. Junho de 2020.
JardimJAS1406_2

“Entardece no Jardim”. Jas. 2020.

ENTARDECE NO JARDIM,
Entrevejo-te
Por entre folhas
De um arbusto,
Ao longe,
Uma imagem
Desfocada...
...............
O sol cai
No horizonte,
Vejo, apenas,
Um perfil
Esfumado,
Nuvem cinzenta
Arrastada
Pelo vento
Para lá desta
Montanha,
Meu alento,
Minha fada.

VIRO-ME 
Para dentro 
De mim
E o meu olhar
Interior
Confunde-se
Com o teu
E já nem sei
Se és tu
Ou se essa imagem
Um pouco baça
Serei eu.

O TEMPO
Esculpe o rosto
Na memória
Dos afectos
E só vejo
O que de ti
Me sobrou,
Retrato
De pouca cor
Composto
Ao ritmo
De suspiros...
............
E tanta dor.

NÃO FOSSE A POESIA
E restarias
Nuvem no céu
Entre o azul
E o branco
Desta minha
Fantasia,
Ponte espectral
Entre mim
E a deusa que
M’ilumina
Por dentro e
Por fora,
Um clarão irreal
Que cega
E me comove...
...............
Como quem chora.

AH, MAS O POEMA
Dá-te vida,
Dá-te luz
E dá-te cor,
Enche-te a alma
De emoção,
Interpela
Todo o teu ser
E rompe
Este minha
Tão sofrida
Solidão.

MAS EU TEMO
Encontrar-te
E já não saber
Quem tu és
Por há muito
Navegar
Outras ondas
E marés
Tão longe
Desse teu mar...
JardimJAS1406_2 - cópia

“Entardece no Jardim”. Detalhe.

A REINVENÇÃO DO TEMPO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A lua desceu sobre mim”.
Original de minha autoria
para este poema. Junho de 2020.
JAS2AluaDesceuSobreMim

“A lua desceu sobre mim”. Jas. 06-2020.

POEMA – “A REINVENÇÃO DO TEMPO”

FOI INESPERADA
A descida
Ao vale
Profundo
Da tua vida,
Reencontro
Com o destino
Que os deuses
Te traçaram,
Numa longa
Despedida.

TRILHOS NOVOS,
Fim do ciclo
Que corroía
E já tardava...
..............
Porque doía.

UM RÁPIDO
Bater de asas
Aos ventos que
Sopravam e
Incendiavam
O teu desejo
De liberdade...
...............
E o tempo
Da reinvenção
Aconteceu
Na outra metade
De ti.

OS CICLOS
Que a vida tem...
..................
De repente,
Assomam
Personagens
Que nos habitam
E aguardam
Em silêncio
O dobrar de uma
Esquina
Para tomarem
Conta de nós...

É A VIDA
Em sobressalto,
Renascida,
Ventos que sopram
Forte na alma,
Perfume de liberdade
Que docemente
Embriaga,
O sorriso inocente
Da criança que
Desperta
Para dar vida
Às coisas inanimadas
Que nos prendem
O olhar...
.............
Num luminoso 
Amanhecer.

PRESSENTI
Essa viagem,
A partida
Do túnel
Ensombrado
Do tempo,
Sem bagagens,
Apenas o teu corpo
E a vontade
De trepar pelo
Mundo acima
Como quem
Já o respira
Lá no alto
Da montanha.

E LOGO TE DISSE:
“Nasce outro
Personagem
Em ti
Que já se manifesta
À procura de autor
Que lhe reescreva
O destino
E o ponha em cena
No teatro 
Da tua vida...”

“VEM DAÍ, VEM,
Que a vida acontece
No grande teatro
Do mundo
Onde se viaja ao sabor
Do vento
E da fantasia
Em levitação
Sobre o vale
De onde se vê
A vida
Do lado certo
Do sonho.”

“E TU, QUE PAGASTE
O teu tributo,
Abraça a autoria
E procura esse palco
Onde encenar
A reinvenção do
Tempo
Com fantasia,
A que nasce  
Da liberdade
Que ilumina
O caminho,
A bússola 
Que já te guia.”

VÁ, VEM DAÍ,
Há muito 
Caminho para andar,
Há azul 
No horizonte
E brilho 
No teu luar,
Há sol 
Na madrugada,
Suave brisa 
No ar,
Há flores 
No teu jardim,
Água fresca 
Pra regar,
Há mais mundo
Que te espera
E uma vida
Para amar...
...............
Vem daí, vem, 
Meu amor,
Já nem sei
Como esperar!
JAS2AluaDesceuSobreMimRec

“A lua desceu sobre mim”. Detalhe.

ETERNO RETORNO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Encontrei-te no Jardim”.
Original de minha autoria
para este poema. Maio de 2020.
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“Encontrei-te no Jardim”. Jas. 05-2020.

POEMA – “ETERNO RETORNO”

SE TE VEJO
Estremeço,
Se não te vejo
Caio em
Melancolia,
Assalta-me
O desejo
De voar
Contigo...
...........
Nesse dia.

EU NÃO SEI
Como se muda
O mundo
Para te ter,
Então voo
Sobre ele
Ao sabor do vento
Pra que tu
Me possas ver.

É ESTRANHO, NÃO É?
Esta moinha
Que me consome
Porque não te vejo,
Não te ouço
E nem sequer
Te procuro
Porque sei
Que a via
Da minha arte
Me levará
A esse teu lado
Mais puro. 

É POR ISSO QUE
Só te espero
Na rua
Do desencontro,
No jardim
Da despedida
Que nunca parei
De regar
Com arte
E nostalgia,
Essa forma
De te amar
Cada noite
E cada dia.

É ACASO
Ou destino
Esperar-te numa
Esquina
Das tantas
Que a vida tem?
Foi dela
Que t'esgueiraste
Na densa
 Neblina
Desse teu
Quotidiano
De que ficaste
Refém.

SIM, É VERDADE,
Mas se te encontro
Nessa esquina
Que me leva
Ao jardim
Eu de novo
Estremeço,
Caio em mim,
Sinto um profundo
Torpor
E adormeço,
Pondo fim
A essa dor...

AH, MAS DEPOIS
É o céu,
Sim, o céu,
A sonhar-te
Em azul profundo
E o desejo
A cumprir-se
Nas ondas
Do nosso mar
Até que a aurora
Desponte
Para ser acometido
Por nova melancolia
E desejo
De voar...

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“Encontrei-te no Jardim”. Detalhe.

QUASE

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Desejo”.
Original de minha autoria
para este poema. Maio de 2020.
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“O Desejo”. Jas. 05-2010 .

POEMA – “QUASE”

DISSE-TE UMA VEZ
Que o desejo
É quase tudo
E o que sobra
Quase nada.

RESPONDESTE
Que, assim,
Eu nunca 
Sairia de mim
Pra conhecer
O sabor
Do quase
Que sempre
Sobra
Do desejo
Consumado.

SORRI
E com ternura
Te disse
Que é na posse
Que se mata
O desejo
Encantado...

ENCOLHESTE
Os ombros,
Olhaste-me
De revés
E foste embora
Dali.

FIQUEI SÓ,
Com o desejo
Nos braços,
Nostálgico
E pensativo,
Quando dobraste
A esquina
Deste nosso
Desencontro,
Tão curto,
Mas impressivo... 

RECORRI
À memória
Daquele instante
Fugaz,
Revi-te a beleza
Do rosto,
Expressivo
E tão vivaz,
Alma
Estampada
No corpo,
Essa boca
Sensual...
............
E o desejo
Transbordou
Das margens
Deste meu
Mundo
Tecido
De fantasia
Numa bola
De cristal.

FIXEI-ME
Na tua beleza
E dei asas
Ao desejo,
Desenhei-te
Numa tela
E cantei-te
Num poema
(As armas
Do meu poder),
Cobri-te
Toda de cores
Para nunca
Te perder.

E FIQUEI-ME
Por ali,
A sonhar-te...
..............
A matutar
No destino
Que cedo
Me cativou
Por achar que
O desejo
É quase tudo,
Mesmo quando
O mundo
Te abraça
E devolve
Tudo o que dele
Te sobrou.
JAS1_O Desejo052020Rec

“O Desejo”. Detalhe.

CONFISSÕES DE UM CONFINADO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “S/Título”.
Original de minha autoria 
para este poema. Maio de 2020.
JAS2020_1705_15

“S/Título”. Jas. 05-2020.

POEMA – “CONFISSÕES DE UM CONFINADO”

ANDO PERDIDO,
Por aí,
Nas tardes
De Primavera,
À procura de mim,
Neste estranho
Tempo
Que aviva
O que perdemos
Nas esquinas
Da nossa vida.

NÃO ME VENDO
No espelho
Dos outros,
Já não sei
Quem sou e
Onde estou.
Apenas suspeito.
Uma vaga ideia.

FALTA-ME O MUNDO
Para dar conta
De mim,
Mas, coisa estranha,
Ele entra-me 
Casa adentro
E devolve-me
O que perdi,
Mais selectivo
E profundo,
Apenas o que é
Remoto
Da cidade
Onde vivi.

ESTRANHO MUNDO,
Este,
Que escolhe
Por mim
O que me sobrou
Da voragem
Do tempo...

É POR ISSO
Que me procuro
Para saber
Se o que me
Bate
À porta
É meu
Ou se a falta
De mundo
Me provoca
Alucinações,
Sonhos ou
Sombras
Do que nunca
Aconteceu...

ENTÃO PROCURO-ME
No espelho
Que trago comigo,
Dádiva
De Athena,
Olho,
Volto a olhar
E descubro que
Afinal sou eu,
O esquecido
Sem abrigo,
Aquele que andou
Por aí
No bulício
Da vida,
Ao sabor do vento...
.............
Mas contigo.

E TAMBÉM SEI
Que, por isso,
Nesta errância,
Eu não petrifiquei.

AH, COMO É BOM
Saber
Que, afinal,
 O vento
Me levou
Para destinos
Encantados
Onde contigo
Renasci,
Quando o tempo
Trazido pelo vento
Que passou
Na rua da
Minha vida
Me bateu 
À porta...
............
E eu abri.
JAS2020_1705_15R

“S/Título”. Detalhe.

É ASSIM QUE EU TE VEJO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Uma Mulher”.
Original de minha autoria
para este poema. Maio de 2020
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“Uma Mulher”. Jas. 05-2020

POEMA – “É ASSIM QUE EU TE VEJO”

DESDE SEMPRE
Que te guardo
No meu peito.
Fixei-te melhor
Naquele dia
E guardei-te
Na memória
Profunda
Quando te vi
Perdida,
Por encanto,
A ouvir
Essa nossa
Melodia.

UM BRILHO QUIETO
Em teus olhos,
Suspensa
Nas nuvens,
A suave paixão
Maternal,
Inefável,
Quando as palavras
Já não chegam
Para te nomear
Com a alma,
De tão cheia
De ti,
A transbordar...

A MINHA AUSÊNCIA
Constante
E tão cortante,
O preço
Para ser
O que mais querias
Que fosse,
Fazia crescer
Em ti
O encantamento
Que tinhas
Contigo
Desde aquele dia,
Quando te nasci
E tu renasceste
Comigo.

AQUI SEMPRE
A meu lado,
Este rosto
Sedutor
Nunca me 
Despertara
O desejo
De o cantar
Para além da 
Memória
Remota 
Do afecto...

PALAVRAS
E melodia,
O olhar
Penetrante
Da alma,
Um canto
Devotado
Que tocasse
Em cada dia
As fronteiras
Intangíveis
Do sagrado.

FOI PRECISO
Aprender 
Os ofícios
Da arte
Pra te poder 
Celebrar
E dizer 
De todas as formas
Que sei
O que não quero
Calar.

E AQUI ESTOU.
Esse dia
Haveria de
Chegar.
E chegou.
JasFioriperte-cópia

“Flores do meu Jardim Encantado”.

MARMELADA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Dança da Combustão”.
Original de minha autoria
para este poema. Maio de 2020.
Combustão030520_Fim

“A Dança da Combustão”. Jas. 05-2020.

POEMA – “MARMELADA”

COMO GOSTO
Da tua marmelada,
Meu amor...
...........
E gosto de
Chocolates,
Dos que me
Sabem a ti,
A esse tão doce
Sabor.

GOSTO DA METAFÍSICA
De confeitaria
Porque me adoça
A alma,
É nela que eu te
Encontro,
Nesta minha 
Fantasia,
Quando a noite
Se faz calma.

SOU GULOSO,
Como sabes,
E como é doce
E macia
Esta tua marmelada,
Sinto-a
Como alquimia,
Como arte
De uma fada.

COMO, COMO,
Sem parar,
Sabe-me
Sempre a ti,
Ao brilho
Do teu olhar,
Ao perfume 
Do teu corpo,
Onde hei-de
Naufragar.

NESTA TUA
MARMELADA,
Eu vejo-te
Artesanal,
Com os marmelos
Nas mãos,
Sabores
Em harmonia,
Uma receita fatal,
Polpa moldada
Por ti
Na dança
Da combustão,
Cor intensa
E profunda,
Iguaria
De convento
Com teus frutos
Em fusão.

TALVEZ A TENHAS
Criado
Em tempo
De quietude
Ou mesmo de
Solidão,
Quando esvaece
Esse lado
Tão agreste
E tão crispado
Que te esconde
A beleza
Dos momentos
De paixão...

AH, A MARMELADA,
A metafísica,
Chocolates,
Confeitaria...
..............
A doçura
Do teu jeito
Vai ficar-me
Sempre viva
Como suave
Suspiro
Que se solta
Do meu peito...
...............
Por essa tua
Magia...
Combustão030520_FimRec

“A Dança da Combustão”. Detalhe.

TRÊS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Geometria”.
Original de minha autoria.
Abril de 2020.
GeometriaFinal26

“Geometria”. Jas. 04-2020

POEMA – “TRÊS

SINTO TRÊS VEZES
A tua falta
Na sofrida
Solidão
Onde encerro
O que não tenho
No Monte,
Oráculo
Desta minha
Invocação.

TRÊS VEZES
Eu sinto
O teu silêncio,
Na ausência
Do teu rosto
E do som
Da tua voz,
Do aroma
Do teu corpo...
................
Minha foz.

ATÉ A ALMA
Escasseia...
...............
Não lhe sinto
Pulsação,
Desmaiada
Sobre mim,
Inerte
Nestes meus braços,
Uma carícia
Sem fim...

TEU SILÊNCIO
Cai pesado
Sobre a minha
Solidão,
Meteorito
Na alma,
Inaudível
Colisão.

SOBRA-ME,
De ti,
O nome,
Rasto da tua
Passagem
Na rua
Que já foi minha,
É nela que eu
Te sonho
E te pressinto
Como deusa
Nas noites
Do meu luar
E te canto
Em poemas
Onde os nomes
São metáforas
E sem limite
O poder
De nomear.

EU SINTO
A tua falta
Três vezes
De cada vez.
É falta a mais,
Eu bem sei,
Mas o número
Perfeito
É o três.

ABRAÇO
O número
Da perfeição,
Desenho
Triângulos
Em liberdade
Até que os sinta
Vibrar,
Instrumentos
Musicais
Que dão voz
À minha dor
Na exacta
Geometria
De teus breves
 Rituais.

 NELES OUÇO
A tua melodia
Como eco
Desse nome
Que no sonho
Invoquei,
Dou início
Ao poema
Para te sussurrar
Baixinho
A história
Que sonhei.
Geometria29R

“Geometria”. Detalhe.

ALMA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – “S/Título”.
Original de minha
autoria para este poema.  
Abril de 2020.
S:TituloFinal2_19

“S/Título”. Jas. 04-2020

POEMA – “ALMA”

SE QUISESSE
A tua alma
Como anjo
Do pecado,
Que farias
Do teu corpo
Que eu sonho
Imaculado?

SE O TEU CORPO
Pedisse
O poeta
Apaixonado
Não lhe darias
A alma,
Tributo do teu
Secreto
Pecado?

MAS EU QUERO
A tua alma
Mais do que quero
O teu corpo,
Do que de ti
Eu mais gosto,
Porque é ela
Que me fala
No brilho
Desses teus
Olhos,
No veludo
Do teu rosto.

ÀS VEZES
(Eu pressinto)
Abandonas-te
Ao ritmo
Encantatório
Das palavras
Que te lanço,
Da melodia que
Embala,
Da beleza
Do meu pranto
No poema
Que te fala.

É DIFERENTE
O meu encontro
Com teu rosto
Tão macio,
O brilho do teu
Olhar...
.................
Ou com sulcos
Tão crispados,
Espelho
Da tua alma,
Quando roubam
O encanto
Desse sorriso
Esboçado
De quem constrói
O futuro
Nas ruínas
Do passado.

O QUE EU
Procuro em ti,
É o lado
Desta minha
Perdição,
A beleza
Dos teus olhos
Onde te fala
A alma,
Onde cresce
Cada dia
Uma incontida
Paixão.

TALVEZ O TEU
SILÊNCIO,
Linguagem
Em forma pura,
Me seduza
E me cative
Na fronteira
De uma dor...
...............
Que com poesia
Se cura.
Jas_S:TituloFim1904R

“S/Título”. Detalhe

VOAR

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Pássaro de Fogo”.
Original de minha autoria
sobre desenho de Vera Sousa.
Abril de 2020.
Uccello12

“Pássaro de Fogo”. Jas. 04-2020.

POEMA – “VOAR”

APETECE-ME VOAR
Sobre o teu silêncio,
Confinado que estou
Entre paredes
De um subtil
E incerto afecto
Que me vai capturando
Pela sedução
De uma ausência
Insinuada...

AH, MAS EU SEI
Que estas paredes
São do tamanho
Da minha fantasia
E que o voo,
Livre como é,
Não terminará
Até que te sinta
Pulsar finalmente
Dentro de mim...

E SEI TAMBÉM
Que as minhas asas
Terão sempre
As cores
Do arco-íris
Para com elas
Voar
Sobre o vale da
Tua vida,
Montado num
Pássaro de Fogo.

VER-TE-EI 
Lá de cima
Caminhar distraída,
Perdida
Nas encruzilhadas
Que vais criando
No sendeiro inóspito
Da tua vida
E lançar-te-ei
Âncoras coloridas
Que dêem mais luz
À incerteza
Que te vai na alma.

E AGORA,
Que o pintei,
Já tenho um
Mensageiro
Que te levará,
Com o vento
(Ou num
Inesperado
E feliz reencontro
De palavras),
As cores
Com que, docemente,
Te vou pintando
E as deixará
No parapeito
Da tua janela.

MAS NÃO PRECISARÁS
De abri-la
De par em par
Porque ele não
Entrará...
.............
Poderia
Incendiar-te
A fantasia e
Engravidar-te
A alma
Com o fogo
Que levará
Consigo...
Uccello12Rec

“Pássaro de Fogo”. Detalhe.

REGRESSO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Primavera”.
Original de minha autoria
para este poema.
Abril de 2020.
RegressoFinal05LUZ

“Primavera”. Jas. 04-2020

POEMA: “REGRESSO”

ESTÁS TÃO LONGE
E tão perto
Eu te sinto...
.............
Neste tempo
De fronteiras
Eu sofro
O teu silêncio 
Como espinho
Cravado
Da mais brava
 Das roseiras.

MESMO ASSIM,
Mesmo em dor,
Regresso sempre
Ao lugar
Onde eu
Te conheci,
Ao mistério
Do teu rosto,
Quando por ele
Me perdi...

PERDI-ME,SIM,
Mas encontrei
O que julgava
Não ter,
Porque foste
O espelho
Onde me vi
Renascer,
Embora já
Pressentisse
Que por culpa
Do destino
Eu te iria
Perder.

AH, SE SOUBESSE
Onde estás
O vento
Levar-me-ia
Ao parapeito
Da tua incerta
Janela,
Ver a tua
Silhueta,
Partilhar
A solidão,
Sonhar,
Sentir-me
Um passarinho
Aninhado
Docemente
Na palma
Da tua mão,
Sem vontade
De voar...

MAS EU NÃO SEI
Onde estás,
O que fazes,
Com quem andas,
Se trabalhas,
Se viajas,
Se sonhas
E fantasias,
Se não ouves
Ou não lês
Os sinais que
Eu te dou...
..............
Poéticas
Sinfonias
Em pautas
Onde transcrevo
O que de ti
Me ficou.

OH, QUE DESTINO
Me calhou,
Ter-te 
Encontrado
Um dia
Para logo
Te perder
Nos caminhos
Desta vida
Que me levam
A cantar
Esta triste
Melodia
De eterna
Despedida...
RegressoFinal05LUZRec

“Primavera”. Detalhe.

INVOCAÇÃO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Casas no meu Jardim 
Encantado”. Original de minha 
autoria para este poema. 
Março de 2020. Veja a nota
no final do poema.
Casasnojardim2903Final

“Casas no meu Jardim Encantado”. Jas. 03-2020

POEMA – “INVOCAÇÃO”

QUE SINTAS
 O pulsar
Do poema
No teu peito
Para te ter
No silêncio
De uma casa
Iluminada 
Pelo brilho
Das magnólias
E da luz
Da primavera
Ao lusco-fusco
De um entardecer
...................
É o que mais
Eu desejo de ti.

SE CAÍRES EM SILÊNCIO
Profundo
Para melhor
Ouvir
O meu canto
E sentir o aroma
Das cores
Com que pinto
Para te encher
A alma
De Primavera...
...................
Ah, que feliz
Eu me sinto.

SE SENTIRES
Dentro de ti
O chamamento
Ao poema
E o ritmo do meu
Pulsar
Continuarei
A visitar
O oráculo
E a subir
À montanha
Onde a deusa
Espera
Notícias de ti.

SE O TEU SILÊNCIO
For o eco da
Minha voz,
A dança da melodia
Cantada 
Em surdina
Saberei que
Abraçaste o tempo
À medida de um
Sonho
Revelado
Onde constróis
O futuro...
...............
Reinventando o
Passado.

E SE EU SENTIR
Uma suave
Tristeza
De tanta ausência
Sofrida
E uma doce 
Nostalgia
Da luz 
Desses teus olhos 
Que m'incendeia 
O olhar
Então isso
Quer dizer
Que te amo...
...........
Com a alma
A transbordar...

MAS NÃO SEI...
................
Não sei se
Tudo será
Uma cálida
Fabulação
Pr’alimentar
A sede
Insaciável
De teu corpo
Imaginado
Num poema
Em que sonhei
Ter-te, assim, 
Tão intensamente
Amado...
Casasnojardim2903FinalRec

“Casas no meu Jardim Encantado”. Detalhe.

TALVEZ MOVIDO POR ESTE POEMA, 
tenho, nestes dias, 
frequentado, mais do que o 
habitual, as obras de Nietzsche. 
Transcrevo, pois, aqui dois 
aforismos (161 e 175) 
tirados de “Para além 
do bem e do mal", de 1886:  
1. “os poetas não têm pudor 
das suas aventuras; exploram-nas” 
– os poetas vivem as suas 
experiências íntimas como 
alimento da sua fantasia; 
2. “cada um ama o seu desejo 
e não o objecto desse desejo” – 
o que subsiste é o desejo, 
tudo reside nele e é ele 
que move montanhas.

Este poema remeteu-me para a 
necessidade de ter 
estes aforismos sempre presentes, 
tal como o aforismo 153: 
“o que se faz por amor está 
sempre para além do bem e do mal”. 

E não fosse a conversão interior 
e o desenho estético das suas 
pulsões naturais, 
para além do bem e do mal, 
a dor do poeta 
seria irremediável 
e talvez insuportável.
 
Assim, escreve, pinta 
e segue em frente, 
alheio ao (silencioso) ruído
exterior que ameaça 
perturbá-lo. 

O Nietzsche está mais perto 
da arte do que 
da filosofia. Sinto isso 
na minha própria pele. 
Eu, que não sou Zarathustra: 
“Die Liebe ist die 
Gefahr des Einsamsten” – 
“O amor é o perigo 
do mais solitário” 
(“Assim falou Zarathustra”, 
1883-85, III, Der Wanderer).
JAS#03-2020

BRILHAM OS TEUS OLHOS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Oráculo”. 
Original de minha autoria para
este poema. Março de 2020.
Outono7psd

“Oráculo”. Jas. 03-2020.

POEMA – “BRILHAM OS TEUS OLHOS”

NO ORÁCULO
Há uma árvore
Iluminada
Nos dias de ritual...
...................
Essa árvore 
És tu
E eu a luz
Que alumia
Com o ceptro
De cristal
Do templo sagrado
De Athena,
Da arte
A catedral.

ÀS VEZES BRILHAS,
Incendeias-me
A alma e
O estro
No poema
Em construção,
Outras convocas
A sombra
E o silêncio,
A árvore
Entristece
E também eu
Me apago
Em infausta
Comoção.

É BELA A ÁRVORE
(Sem frutos),
Beleza luminosa
E um pouco fugidia
Quando em dias
De ritual
Quero cantá-la
Com vigor
E fantasia
Porque o brilho
Dos teus olhos
Me acende
Esta paixão
Como pura energia.

SE NELA EU 
NÃO TE VEJO,
Apago-me
Em submissa
Tristeza,
Falta-me o teu
Olhar,
De cada poema,
A luz 
E, do afecto,
Delicada
Incerteza...

FLUI O TEMPO,
Meu amor,
Gasta-se a vida,
Fogem de nós
As palavras,
O olhar
Empalidece
E esvai-se
A alegria,
O oráculo
Não acolhe
Este canto
E, depois,
Volta a rotina
De cada dia
E eu perco
O teu encanto...

MAS A DEUSA
Aguarda-nos
Impaciente
E eu hesito
A chamar-te
Ao ritual,
Tenho medo
Que não ouças
E perca,
Do oráculo,
A magia
Do seu ceptro
De cristal...

AH, MAS EU OUÇO-TE
Sempre
Dentro de mim
(És a minha
Salvação)
E convoco-te
Ao poema
Pr’acender
Com a tua melodia
A árvore
Inspiradora
Da minha deusa
Athena
Enquanto 
Meu canto
Durar
Nos dias 
Do ritual.

NÃO TE ABANDONES TU
Na perdição 
Da rotina,
Não apagues
Essa luz
Que começa a
Renascer
Com brilho que
M'ilumina,
Deixa que eu
Te cante
E te celebre
Em cada amanhecer,
Te acenda
A fantasia
Nem que seja
Num instante
Duma noite
Ou no acaso 
De um dia.
Outono6psdRec

“Oráculo”. Detalhe.

RAÍZES

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Jardim Encantado”.
Original de minha autoria 
para este poema. Março de 2020.
Jas_JardiimEncantado1503Transp

“Jardim Encantado”. Jas. 03-2020

POEMA – “RAÍZES”

FUI PROCURAR-TE
Ao Jardim
 (Vou sempre,
Quando te quero),
És planta
Seminal,
Magnólia,
O teu nome,
Erecta
Em mil raízes,
Encantado
Pedestal.

ÉS CÁLICE
D'AFECTO,
Cativas
O meu olhar,
Pedes palavras
Sem fim,
Cânticos,
Poesia
A brotar...

REVEJO-TE
Nela, mulher,
O seu porte
(Como o teu)
É altivo,
Desafia-me
O canto
Pra que o possa
Partilhar
E assim estar
Contigo,
Seduzido,
Por encanto,
Para logo
Te amar.

UMA GRAÇA,
É o que és,
Dessas três
Que sempre
Canto,
Com poemas
E alguma
Timidez
Que dissimula
O meu pranto...

UMA GRAÇA?
Ah, sim,
A que o poema
Resgata
Do futuro
Que perdeu,
Feita
De muitas raízes,
Desenhada
Com palavras
Onde o seu mito
Cresceu
Pra que o tempo
A conserve
E lhe marque
A ventura
Que a Moira
Concedeu.

NESTE JARDIM
Renasceste,
Acendeu-se
O verde
Desses teus olhos
De luz
(Ou castanho,
Já nem sei)
No brilho
Da primavera
Que vestirá
O teu corpo
Em tempo
De sagração...

APETECE-ME
Beber-te
Na seiva
Destas raízes,
Embriagar-me
De ti,
Deste cálice 
D'afecto,
Enlaçar-me
Com elas
Pra te amar
Nas origens,
No lugar onde
Nasceste,
Onde sofro de
Vertigens
Por aquilo
Que me deste...
.................
Só aí eu sei
Quem és...
Jas_JardiimEncantado1503TranspR

“Jardim Encantado”. Detalhe.

MARÇO

POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Fauno em Março" - Original
de minha autoria.
Oito de Março de 2020.
Fauno06_2020

“Fauno em Março”. Jas. 03-2020

POEMA – “MARÇO”

GOSTO DE MARÇO,
Entre o branco e
As flores
Que despontam
Na fronteira
Do tempo,
Entre a neve
E a primavera.

GOSTO DO BOTTICELLI,
Rostos e corpos
Feminis,
Volúpia de
Transparências
Sensuais.

GOSTO DA PELE
Acetinada
Dos corpos,
Dos traços
E da cor
Que desenham
Alvura nas
Três Graças...
..............
E no Amor!

GOSTO DO BRANCO,
No alto da Montanha
E das cores intensas
Que interpelam,
Insinuantes,
O meu olhar
Deslumbrado,
Cá em baixo,
Neste vale
Por elas sempre 
Iluminado.

GOSTO DE MARÇO,
Ah, como gosto!
Entrei nele
Contigo,
Ombro a ombro,
Em contraponto
Que se consumou
Como silêncio
Fatal,
Marca de tempo
Quase irreal,
Face obscura
Do meu rosto
Entristecido.

QUE O DIGAM
Os astros
Desalinhados...
...............
Para ti colhia
Flores luminosas,
Crescia
A inspiração
Em estrofes
Arrebatadas
Com que sentir
Fingia
O que dizer
Não podia.
Contraponto.
O outro lado
Da tua melodia...

MARCADO
Como selo
De inspiração
Às avessas,
Lá vou eu
Por aí,
Nem sei porquê
(Ou por falta de ti),
De braço dado
Com Botticelli,
Lá em cima,
na Galleria,
Onde quase morei,
Transeunte
Irreverente
No incerto desafio
De um dia.

PROCURO-TE, SIM,
Na laica oração
À deusa Athena,
A que trazes
(Eu bem sei)
No centro 
Do teu coração.

SINTO-TE PERTO
(É estranho, não é?),
Depuro
A tua imagem,
Bissetriz de mil
Rostos perdidos,
Até se tornar
Ideia precisa
De corpo ausente...

DEPOIS, AH, DEPOIS
REINVENTO-A
A cada instante,
Abraço-a
Com alma
De amante,
Pinto-a com
Palavras
De poeta
Encantado
E sonho-te
Numa plácida noite
Da primavera
Que assoma...

AO ACORDAR,
No amanhecer
De cada poema
Verei que continuas
Em mim
De olhos fechados
Como se fosses
Memória profunda
Do que nunca
Aconteceu.

ANDAREI
Por aí
(Os astros o dirão),
Vagando
Sobre o pólen
Da beleza sensível
Onde pousarei
O meu inquieto
Olhar
À procura
De alimento
Para pintar
O poema...
........................
E talvez o impossível!

LÁ NO ALTO
Te encontrarei,
No fio do horizonte,
Um risco,
Projecção do teu
Olhar
A construir infinito,
Onde, num adeus
Sem fronteiras
Nem cais de partida,
Hás-de desenhar
Com a alma
As mil silhuetas
Inacabadas...
................
Ou talvez não!

MEU DEUS,
Como gosto de ti...
...............
Em Março!
Fauno06_2020Rec

“Fauno em Março”. Detalhe.

MANDEI PODAR O LOUREIRO…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Loureiro em Flor
 no meu Jardim Encantado”.
Original de minha autoria
para este poema. Março de 2020.
Exp.Lou

“Loureiro em Flor no meu Jardim Encantado”. Jas.  03-2020

POEMA – “MANDEI PODAR O LOUREIRO…”

MANDEI PODAR O LOUREIRO
Num dia de Carnaval,
Cada ramo que caía
Doía, 
Fazia mal.

ESPALHAVA-SE O AROMA
Intenso pelo Jardim,
O podador a cortar
E, ele, triste  
E tão dorido, 
Sempre a olhar 
Para mim...

“QUE FIZ EU PARA SOFRER,
Estou sempre
À tua frente,
Porque mandaste
Podar-me,
Assim,
Tão de repente?”

“FOI PARA ME RENOVAR,
Pra ganhar
Um novo alento?
Porque não paras 
De olhar,
Acalmas o sofrimento?”

“JÁ NÃO APONTO PRÒ CÉU,
Fiquei mesmo redondinho
E, tu, quando me olhas,
Ficas sempre mais sozinho,
Mais longe do meu perfume
Que deitaste a perder
Com aparente azedume
Porque não podaste
A tempo
O que havia de crescer.”

“PERDI MUITAS
Das minhas bagas,
Estavam em mim 
Às centenas,
Agora ficaram chagas
E não são muito pequenas.”

“LEVOU-MAS O PODADOR
As bagas que tu perdeste,
Já não sinto o teu calor
Por tudo o que não fizeste
Mas que podias fazer
Se tivesses mais coragem...
......................
Deitaste tudo a perder
Só porque era selvagem!”

“NÃO SÃO LOUROS 
De glória,
Não são...
................
Por que razão 
Me deixaste,
Ferido de 
Tanta paixão?
Para teres 
Uma vitória
Que não merece
Perdão?”

“AGARRA-TE A MIM 
Agora,
Sou teu loureiro 
Em Jardim,
Se não quiseres,
Vai-te embora,
Que eu fico-me assim,
Mais pequeno, 
Mas robusto,
Mais redondo 
E mais belo...
...................
Serei sempre 
Mais que arbusto,
Não é preciso 
Dizê-lo.”

O LOUREIRO DO JARDIM
É planta seminal,
Viajo com ele
No tempo 
Como se fosse imortal.

É ÁRVORE DE POESIA,
É fonte d’inspiração,
Ajuda-me a renascer
Se vacila o coração. 

É UM POSTO DE VIGIA,
Cresce, cresce
Para cima,
É com ele que 
Eu resisto,
Declinando-me
Em rima...

POR ISSO MANDEI
Podá-lo
Para se fortalecer.
Se o não tivesse feito
Ia mesmo esmorecer
E com ele também eu
Caía em negação...
................
Não são fáceis
Estes tempos,
Mas loureiro é canção!
Exp.LouRec

“Loureiro em Flor no meu Jardim Encantado”. Detalhe

SONHEI-TE, NAQUELA NOITE

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Um Sonho”.
Original de minha autoria.
Fevereiro de 2020
JAS_Meteorito030918PublicadajpgTrab

“Um Sonho”. Jas. 02.2020

POEMA – “SONHEI-TE, NAQUELA NOITE”

SONHEI-TE, MEU AMOR.
Atravessava o deserto,
Há muito.
Nada via no horizonte.
Areia, só areia
No meu caminho
E uma neblina quente
Lá ao fundo...
Nem sabia se
Na longa caminhada
Encontraria
Um oásis
Onde molhar
Os lábios
Já gretados
De tanta aridez...

MAS HOJE SONHEI-TE.
Saí do deserto
E reencontrei o oásis
Nas pupilas dos teus
Olhos.

ANINHEI-ME EM TI,
Sereno como nunca
Estivera
Desde que te conheci.
Ofereci-te uma história
Em papel
Onde te conto,
Nos conto
À exaustão,
Até ao limiar 
Do impossível,
Mas com uma réstia
De esperança
De não ter de 
Regressar
À torreira 
Do deserto.

FALÁMOS DE ARTE,
Imagina,
Do seu poder
Curativo
E de como a vida
Se lê
E se resolve
Nela.

ABANDONEI-ME
Nos teus braços,
Perdido em quentes
Memórias,
E caminhámos
Nem sei bem por onde
Ou para onde.

SONHEI-TE
Esta noite,
Meu amor.
E, sabes?
Acordei de ti
Embriagado
De felicidade, 
Uma doce tontura...

AH, HABITUEI-ME
A estar contigo
Em sonho,
A dizer-te 
Em poemas,
A interpelar-te
De longe...

HABITUEI-ME
Ao teu silêncio,
A uma fronteira
Inultrapassável
A não ser
Pelo vento
Que te cicia os
Meus murmúrios...

TENHO-TE
Dentro de mim
E já nem sei
O que seria
Encontrar-te,
Olhar de perto
Esses teus olhos
Negros e profundos,
Sentir o teu perfume
E naufragar
No mistério
Insondável
Da tua vida.

TALVEZ TE PERDESSE,
Nesse instante,
Por excesso de ti.
Mas eu não quero
Perder-te,
Meu amor.
JAS_Meteorito030918PublicadajpgTrabRec

“Um Sonho”. Detalhe.

A PALAVRA PROIBIDA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Beija-Flor em Magnólia”.
Original de minha autoria.
Fevereiro de 2020.
Jas_Beija_Flor150220

“Beija-Flor em Magnólia”. Jas. 02-2020.

POEMA – “A PALAVRA PROIBIDA”

OS GUARDIÕES
Do sagrado templo
Da palavra
E da cor
Emitiram edital:
“O amor em poesia
Fica assim proibido
Porque pode ser 
Fatal.
Os versos 
E as estrofes
Banhados 
A luz e cor
Ficam pra sempre 
Banidos
Da arte 
E do amor.” 

DIZ O GRANDE
HONORÉ,
Balzac, de apelido,
Certeiro,
Como poeta,
Na palavra destemido,
Que o Amor
É poesia, 
É a arte 
Dos sentidos,
É perfume
Que inebria
E nos faz sentir
Perdidos
Se não houver
Guardião
Que decrete,
Impenitente: 
“Também eles 
São proibidos!” 

PROIBIDOS?
Ah, esses, 
Não,
Poesia
É emoção, 
É enlevo
Dos sentidos
Que resiste
Ao edital
Mesmo que seja
Cantado
Pelo mais belo
 Jogral. 

O POEMA LEVA
Aos píncaros
Da mais alta
Fantasia,
Sobem ao monte
Os sentidos
Com as asas
E a leveza
Da arte
Em poesia. 

MAS É DIFÍCIL
Ouvir 
E sentir
Em verso
Com alegria
Pois há sempre
Alguém
Que me rouba
A brisa
Dessa tua 
Maresia,
A que respiras
Bem cedo,
Logo ao 
Amanhecer
Quando ouves
O meu canto
Para nunca 
Te perder. 

OLHAS O MAR,
Ouves
As ondas
Dentro de ti
A cantar
Com versos
Que o vento 
Sopra
Pra te poder
Ciciar
O que por ti
Eu já sinto
Nesta canção
Que compus
Numa noite
De luar.

POESIA
Dos sentidos...
......................
O amor é mesmo isso,
Porque, queiras 
Ou não queiras,
Tem a força 
De feitiço.

ENCONTRO-A
Sempre em ti
E mesmo que 
Proibidos
Escrevo sempre
Poemas
Desde o dia
Em que te vi.

EXALTARAM-SE
Os sentidos
(Não sentiste?)
E para o poema
Parti
Com as asas
E as cores
De um belo colibri...

DECRETARAM
Edital.
Ah, que o façam, 
Pois, cumprir.
Mas poesia
É como vento
Que te leva
Cada dia,
Sopra
Tão forte
Na alma
Que o silêncio
É alento 
De poeta
Que com palavras
Se salva.

À PALAVRA PROIBIDA
Sempre o poeta
Resiste,
É livre no seu dizer
Das razões
Da sua vida
Quando a dor
Atormenta
E o sofrimento persiste...
Jas_Beija_Flor150220Rec

“Beija-Flor em Magnólia”. Detalhe.

ESTAVAS À MINHA FRENTE…

Poema de João de Almeida Santos.
Reproponho, com ligeiras alterações,
o poema – de Gianni para Paola, personagens
do meu romance “Via dei Portoghesi” 
(Lisboa, Parsifal, 2019) –
que publiquei há quatro anos.
Ilustração: “Licht, mehr Licht...” -
Original de minha autoria.
14 de Fevereiro de 2020.
Licht4

“Licht, mehr Licht…”. Jas. 14.02.2020

POEMA –  “ESTAVAS À MINHA FRENTE…”

PASSARAM ANOS E ANOS
Que nem consigo contar,
Estava feliz de te ver,
Ouvias-me nesse Solar
A dizer o que sentia
A sentir o teu olhar.

COM MEUS OLHOS TE DIZIA 
Que o mundo ia parar
Se chegássemos um dia
Nem sei bem a que lugar.

ESTAVAS À MINHA FRENTE
E pousavas o olhar
Em mim, tão docemente...
.....................
Nem podia acreditar,
Havia um brilho diferente
A iluminar o Solar...

FOI ESSE UM DIA FELIZ
Luminoso para mim
Vi-te com outra roupagem
Como se fosses cetim,
Perfume e suave aragem,
Um doce embalo sem fim...

LANCEI ENTÃO O OLHAR
Para a torre de marfim
Onde te fui projectar,
Tão bela eras assim,
Nesse dia, 
Nesse lugar,
A dizer o que sentias,
Dando voltas às palavras
Que timidamente dizias,
Medindo bem os efeitos
Que tu já bem 
Pressentias...

ESTAVAS À MINHA FRENTE,
Falávamos nesse Solar
E eu estava feliz,
Bastava-me o teu olhar.

NA MEMÓRIA DO PASSADO
Já não vejo esse lugar
Onde possa estar contigo,
Onde te possa falar,
Cumprido esse castigo
De não te poder encontrar
A não ser com as palavras
Em que me ponho a nu,
Como se vê pelo dia
Em que as lanço ao vento
Tão fortes de meu soprar
Para ver se é com elas
Que te consigo alcançar...

ESTAVAS À MINHA FRENTE,
Lembro-me do teu olhar
No bulício desse dia,
Do teu leve respirar.

AGORA FOGES DE MIM.
Tens medo de soçobrar?
Tu és mais forte que eu
Resistes ao meu olhar,
Às vezes com timidez,
Outras sem me enfrentar...

NOS DIAS EM QUE TE VEJO
Ganha alento a minha vida,
Fortaleço-me a alma
Suspendo a despedida,
Fico sereno, em calma,
Cicatriza-me a ferida.

SE OLHAR PARA O FUTURO
E não te vir no caminho
Fica a vida sem sentido
E vazio o meu destino...

NÃO ESQUEÇAS QUEM, 
Ausente,
Ouve a tua melodia
E em cada instante pressente
O poder dess’alquimia
Que funde tudo o que sente
No sentir de cada dia.

E ASSIM VOU REGRESSANDO
A essa torre de marfim
Que vou construindo
Em palavras
Do que persiste em mim...

ESTAVAS À MINHA FRENTE…
Licht4Rec

“Licht, mehr Licht…”. Detalhe

O MEU NOME

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Teu Corpo” - Original de
minha autoria. Fevereiro de 2020.
JAS_Deusa09022020

“O Teu Corpo”. Jas. 02-2020

POEMA – “O MEU NOME”

PORQUE NÃO
ME NOMEIAS,
Meu amor?
Nome-ar.
Tão simples.
Quatro letras.
Devolver-me
Identidade,
Aquecida
Nos teus lábios
Pelo ar quente
Que respiras...

ASSIM, PERCO-ME,
Não sei de mim,
Fico sem espelho
Onde me ver
A cores
E em perfil
De traço fino
Nos teus doces
Murmúrios...
................
Que sufocas...
..............
E não desvelo
O destino traçado
Pelos deuses
No chão arenoso
Do caminho 
Da minha vida.

TORNO-ME SOMBRA
De mim
Quando me interpelas
Sem nome-ar,
Não me reconheço,
Sou outro,
Pronome
Indefinido ou
 Interjeição,
Ideia vaga,
Incerto perfil
Que se dilui
Como aguarela
Em folha branca
Manejada
Por ti à procura
De uma forma
Que, afinal,
Não tem nome.

PORQUE CATIVAS
O som
De quatro letras
E não cantas
A minha melodia
Com uma palavra
Só?
Ah, a tua boca
Logo hesita
Quando a palavra
Assoma
À flor dos teus
Lábios,
Como daquela vez
Em que soou
Timidamente
Como sussurro,
Murmúrio
Imperceptível,
Em surdina,
Na fronteira 
Do silêncio.

O MEU NOME
Desata
A tua alma
E ameaça
Levá-la consigo
A voar sobre
O mundo
De mãos dadas
No fio do horizonte?
São vertigens,
Meu amor?

AH, SE ASSIM FOSSE
Diria
O teu nome
Mais do que digo
Até adormecer
De cansaço....
.............
Só para te
Sonhar.

MAS TU NÃO
ME DIZES
Porque me desejas
Como parte de ti,
Sem partilha
Nem confissão?
Guardas
O meu nome
No silêncio
Do teu peito,
Como se fosse
Pecado dizê-lo?
Sentes perigo?
Que o meu nome
Se torne lava
Ardente,
Beijo verbal
Proibido
Pela gramática
Do amor
Logo ao primeiro
Sinal?
E foges
Para dentro
De ti
Com o coração
Aos pulos?

OH, TAMBÉM EU
NÃO TE DIGO,
Como chamamento,
No meu poema,
Onde os nomes
Se dizem
De outro modo,
Têm som
E ritmo
Diferentes,
São notas
De uma melodia
Sofrida
E cifrada...

MAS AS TUAS LETRAS
Estão lá,
Todas,
Uma a uma,
E a cor
Dos teus cabelos
Em aguarela
E o cetim
Da tua pele
Macia
Por onde deslizam
Os meus olhos
À procura dos teus,
Negros e profundos,
E essas mãos
Perfumadas
Filhas da arte
Que te desenham
A alma
Com riscos
E cores
Que atiras
Ao vento
Para que eu
Os agarre
E lhes dê
Som,
Ritmo
E sentido
Num poema...
..................
Ao entardecer...

E, ASSIM,
EU CANTO
O teu ser,
Tudo
O que foste,
O que és e
O que serás,
O que sabes e
 O que sentes,
O que vives e
 O que sonhas.
O que dizes
No que calas...
...........
Tudo,
Meu amor.

MAS TU DIZES,
Com a ironia
Do silêncio
Triste
Que te cativou,
Que também eu
Não te digo
Aqui,
Em arte,
Mesmo quando
Te canto mais
Do que ouves,
Te nomeio
Mais do que
Posso,
Te pressinto
Mais do que
Sentes...

E TU
Apenas te expões
Às minhas palavras,
À minha música,
Silencias-me
Porque balbucias
O meu nome
Só dentro
De ti,
Foges ao som
Encantatório
Que corre
Atrás de ti
Para se ouvir
Nos teus lábios.

BEM SEI
Que o teu mundo
Não é o dos nomes
Ou das palavras,
Sequer murmurejadas,
Mas o das cidades
Invisíveis
Na tua fuga
Permanente para
O infinito...

E SEI QUE AÍ
Me vais
Silenciosamente
Interpelando,
Como rosto
Mutante,
Essa tua forma
De docemente
Me soletrar.

NOMEIAS-ME, SIM,
Meu amor,
Mas à tua maneira!
JAS_Deusa09022020_1

“O Teu Corpo…”. Detalhe.

ESCULPIR-TE…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Bianco&Nero”.
Original de minha autoria 
para este poema. Fevereiro de 2020.
Travertino com veios

Bianco&Nero. Jas. 02-2020

POEMA – “ESCULPIR-TE…”

ENTRE O BRANCO
E O NEGRO
Quis esculpir-te
A alma
Na flor que,
Num acaso,
Encontrei
Perdida
No jardim
Da minha vida...

ATRÁS DE TI,
Ou em fuga
(Já nem sei...),
Gastara
Todas as cores do
Arco-íris
Que tinha
Guardadas
Dentro de mim.

SOBRARA
Uma marmórea
Pedra negra,
Espelho oracular
Onde me via
Escuro na alma
Por falta
De cores
Exuberantes
Que me protegessem
Do frio glacial
Da tua ausência
Nas longas
Intermitências
E contrapontos
Da nossa melodia.

SOPREI FORTE
Com a alma
Desnuda
E a flor
Pousou suavemente
Na pedra
Lisa e brilhante
Da catedral
Onde te ia
Celebrar...

ESCULPI-TE
Como filigrana
De ouro preto
Sobre branco-pérola,
Aurífice da tua
Alma sedutora
No coração
Alvoraçado
Dessa flor
Onde guardei
O teu nome
Gravado em letras 
Invisíveis.

CRIEI PARA TI
Alvas incrustações
Em filigrana
Como marcas
Indeléveis
Da arte
Que um dia
Me visitou
Para celebrar
A beleza
Do teu rosto.

E, AGORA,
A olhar para
O branco e o negro
Desse cântico
Desenhado
E esculpido
Ofereço-te
Este poema
Sobre pintura
Imaculada
Onde te celebro
Com beleza
Minimal,
Na cor
E na forma,
Sem fronteiras,
E onde
Te reinvento
Em fuga...
---------------
Um elegante
Fio branco
Que esvoaça,
Livre,
No marmóreo céu
Do teu altar.

A ÂNCORA,
A sul,
Desliza
Suavemente
Sobre ti
E dilui-se,
Como eu,
Na negra vastidão...

EVOCO-TE, ASSIM,
A branco e negro
Sobre a flor
Que um dia
Encontrei
Perdida
No meu jardim
Encantado
Quando visitava
O impossível...
.................
À tua procura...
Travertino com veiosRecorte

Bianco&Nero. Detalhe.

ESTOU A PERDER-TE…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Jardim das Memórias”.
Original de minha autoria,
com citações de Gustav Klimt (1912).
Janeiro de 2020.
UmaCasaNoJardim_3_1006PublicadaCOR3Cop

“Jardim das Memórias”. Jas. 01-2020

POEMA – “ESTOU A PERDER-TE…”

ESTOU A PERDER-TE
Meu amor,
O estro
Com que te canto
Esmorece,
Vai perdendo
Lentamente
O seu fulgor,
O poema
Empalidece
E eu,
Em poética anemia,
Sinto um doce
E sonolento
Torpor.

SUBI CONTIGO
AO MONTE,
 Ao meu jardim
Encantado,
Com as cores
Que tu me deste
Eu aprendi a cantar
Contigo sempre
A meu lado.

CANTEI
A TUA PARTIDA
Quando desceste
O vale,
Mas, triste e
Sem destino,
Por veredas
Caminhei
Com saudades
Do jardim
Que contigo
Cultivei.

PERDIDO
DE TI,
Vagueei
No monte
À procura
De eco
Do meu canto
Derramado,
Mas o eco
Era silêncio
Profundo
Sob o azul
Irreal
Da abóbada
Celeste
Desse monte
Seminal.

UMA TRISTEZA
PROFUNDA
Tomou conta
De mim,
Desmaiou
A emoção
De te ver
Ou inventar
Com as cores
Do meu jardim
Porque um silêncio
Cortante
Sufocava,
Impenitente,
O eco
Dessa canção...

TAMBÉM EU DESCI
O VALE
Da minha vida
E regressei
À triste
Monotonia
Sem teu rosto
Desenhado,
Semente
Em gestação
De cada palavra
Que verso
No poema
Em construção
Nesse jardim 
Encantado...

ESTOU A PERDER-TE,
É poética
Anemia,
Sinto vazio
No peito,
O estro já escasseia
E vacila
A melodia...

O CÂNTICO
É murmúrio
Inaudível
De alma ferida,
Sem comoção,
Que nem dor
Ela já sente
De tão gasta
Nesta vida
Por excesso
De paixão.

O VALE
ESPERA-ME,
Sinto-me vazio
De ti
Porque
Não chegam sinais
Da rua do
Desencontro
Nem das fugas
Irreais
Para o teu
Infinito,
Janelas
De onde te veja
Dobrar
As esquinas
Esquecidas
Do nosso
Contentamento.

ESTOU A PERDER-TE,
AMOR,
Não há janela,
Nem cor,
Não há tempo
Nem lugar,
Não há poema
Nem mar
Que suspenda
O vazio
De não poder
Navegar
Nas águas
Desse teu rio...
....................
Eu perdi-te,
Meu amor?
UmaCasaNoJardim_3_1006PublicadaCOR3CopR

“Jardim das Memórias”. Detalhe.

“EU VI UM ANJO…”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Melancolia”
Original de minha autoria 
para este poema.
Janeiro de 2020
Melancolia1901Finaljpg

“Melancolia”. Jas. 01-2020

POEMA – “EU VI UM ANJO…”

EU VI UM ANJO
Cair
Docemente
Sobre mim
Com seu rosto
Imaculado
Num momento
D’incerteza
Que parecia
Não ter fim...

VINHA ELE
Lá de bem alto
Onde eu
O pressentia,
Estremeci,
Um sobressalto,
Porque esse anjo
Imaculado
Em mim
Não caberia.

SUA LUZ
Era intensa,
Ofuscava-me
O olhar,
O seu brilho
Deslumbrava
E eu senti-me
Cegar...

MAS NÃO SEI
Se era anjo...
................
Talvez fosse
Uma mulher,
E se não fosse
Arcanjo,
Ah,
Não era um
Rosto qualquer...

POR ISSO
ME FASCINOU,
Porque ao vê-lo
Descer
Desse trono
Onde reinava,
Quase, quase
Me cegou
A luz
Que o transportava...
..............
E levou-me
Ao Olimpo
Onde a arte
Lhe sobrava...

FIXEI-O, ENTÃO,
Num quadro
De memória,
Traços leves,
Cores intensas
Que cativam
O olhar.
Pintei-o
Da cor da
Minha paixão
Para nele
Desvelar
Essa mulher
Sensual
Que me veio
Cativar
Nesta tão bela
Prisão.

DESENHEI-A
Como belo
Avatar
Que entrou
Dentro de mim
Para sempre
Me lembrar
Que era
Uma mulher...
............
E não era
Querubim.

MAS VI UM ANJO,
Ah, eu vi,
Entrar bem
Dentro de mim
Sob forma
De mulher,
Porque anjo
Imaculado,
Uma grandeza
Infinita,
Não caberia
No meu pequeno
Jardim.

EU VI UM ANJO
DESCER
Neste vale
Da minha vida
E ele fez-me
Crescer,
Recomeçar
A partida...
.............
Para logo me
Perder...

E COM POEMAS
Parti
Em viagem
Ao Olimpo
Para com ele
Voar
Em cada palavra
Que digo,
Em cada verso
Que sinto...
.............
Mas bem sei
Que me perdi...

jas_melancolia3Final1901

“Melancolia”. Detalhe.

“A COR DA MEMÓRIA”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Transparência”.
Original de minha autoria
para este poema. Janeiro de 2020.
Transparência1

“Transparência”. Jas. 01-2020

POEMA – “A COR DA MEMÓRIA”

NUM DIA DE CHUVA,
Bateram levemente
À porta da minha
Memória... 

ERA TRANSPARENTE,
A porta.
Vi que eras tu.
Reconheci a tua boca,
O bâton púrpura
Dos teus lábios. 

NÃO SEI SE
ME PRESSENTISTE,
Não sei.
A porta
Era um espelho,
Através dela
Só se via
Do lado de cá. 

ENTRASTE,
Cheia de cor,
Que a chuva
Humedecera,
Mas deixara
Intacta.
Apenas com mais
Brilho...
........
O teu! 

TAMBÉM TU
ERAS TRANSPARENTE.
Olhei-te
E vi, através de ti,
Um céu plúmbeo... 

E, NA TRANSPARÊNCIA,
DESPONTOU O SOL,
Coado em amarelo.
Havia umas nuvens
Escuras
A nascente,
Lá no Monte... 

ÀS VEZES, O AMARELO
Ganhava tons de
Âmbar
E vestia-te o corpo,
Nu,
Na minha intangível
Memória
Fotográfica. 

VIA COM NITIDEZ,
Sereno,
Esse teu belo
Sorriso
Cristalino,
Mas, quando te quis
Tocar,
Ao de leve,
Um vidro desceu,
Vertical,
Sobre nós.
Era frio
E húmido,
Esse vidro.
Separou-nos.
E eu chorei! 

AS LÁGRIMAS
Escorreram
Pelo vidro.
Tentaste
Agarrá-las
Do lado de lá
E fixá-las com
Todas as cores
Que tinhas contigo.
Ficaram apenas 
Algumas gotas
Amarelas
Nesse vidro frio,
Húmido
E cortante...

DE REPENTE,
Tornaste-te sol
E eu já não era
Mais do que um
Reflexo dos teus
Raios filtrados
Por algumas
Nuvens...
.........
Escuras! 

DESPERTEI
Ao som
De dedos que batiam
Suavemente
À porta
Do meu quarto.
Corri a abri-la...
...............
Ninguém! 

REGRESSEI, RÁPIDO,
À minha memória
Para te reencontrar,
Mas tu já não
Estavas,
Sequer como reflexo...
...................
Deixara aberta
A porta do tempo...


Transparência1R

“Transparência”. Detalhe.

TEMPO

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Amanhã...”. 
Original de minha autoria 
para este poema. Janeiro de 2020.
FuturoFinal2

“Amanhã…”. Jas. 01-2020

É TEMPO DE RECOMEÇO?
O que ontem
Eu já era
É o que hoje eu sou,
As festas
Quiseram tempo
Intenso,
Mas o tempo resistiu
Ao que a vontade
Tentou...
.................
É tempo
De recomeço
Quando o tempo
Não passou?

EM CADA MOMENTO
Procuro
O tempo
Que, no passado,
Eu, poeta, 
Não vivi
Porque sempre
Reinvento
Tudo aquilo 
Que perdi,
Num poema
Ou em pintura
Para saber
Quem eu sou
Antes de lá
Me perder...
............
Nos lugares
Pra onde vou...

ENTRE HOJE E ONTEM
Há algo
Que já mudou?
Acaso me libertei?
A esperança regressou?
Fui ao baú
Das memórias
E vi logo 
O que tu és:
A imagem bem certeira
Desse tempo
Que passou...

TUDO MUDA
Amanhã,
Quando, tenso,
Eu passar
Na curva
Do teu caminho?
Encontro o que antes
Nunca vi?
Mulher com futuro
No olhar,
Sempre a sorrir
Para ti,
A repetir com carinho
Um terno
E tão antigo “Olá!”,
Cabelos negros
Ao vento,
Corpo esguio
Em movimento,
Removendo um passado
Que nunca mais
Voltará?

NÃO, O SEU TEMPO
É o silêncio,
Já não o tenho
Nas mãos,
Ele corre
Sem destino,
É ritmo sem melodia,
Caminho
Da minha vida
Que percorro dia-a-dia
Na vertigem
Do passado,
Mais tristeza
Que alegria
Como este peso
Do fado
Só liberto em
Poesia.

TEM TEMPO, A POESIA?
Talvez tenha,
Eu não sei,
Com ela voo
No céu
Sem limites
Nem fronteiras,
Um tempo que é
Só meu.

AH, SIM,
O tempo da poesia
É a minha salvação,
Perdi-te, mas eu não queria
Passado de negação.

É TEMPO DE RECOMEÇO,
Sopra vento de feição?
Sou feliz em poesia.
Não é o tempo
 Que salva,
Mas as palavras
Que digo
Enquanto fores
Alimento
Desta minha inspiração
Porque é assim
Que te canto:
Da dor sai alegria
Que me cura 
Da paixão.

FuturoFinal2R

NÃO SEI SE TE CHEGAM

AS PALAVRAS…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Jardim das Palavras”.
Original de minha autoria para este
Poema. Dezembro de 2019.
JardimDasPalavrasFinal2812

“O Jardim das Palavras”. Jas. 12-2019

POEMA – “NÃO SEI SE TE CHEGAM AS PALAVRAS…”

NÃO SEI SE TE CHEGAM
As palavras
E, se chegam,
Se te tocam.
Não sei se
As arrumas
Nas gavetas
Da rotina
Ou as deitas
Nos desperdícios
Da vida...

TALVEZ NEM CHEGUEM.
Não sei.
É esta a beleza
Da minha invocação.
Canto-te
Sem saber se te
Chegam as letras 
Com que vou desatando
A sufocada
Afeição
Ou se o vento
As leva
Pra lugares
De poética
Virtude,
Resgate
Desta minha 
Solidão...

TALVEZ NÃO INTERESSE
Saber se chegam
Ao destino.
O que m’importa
É dar forma
À melancolia 
Do meu desejo de ti
Como se fosse
O primeiro dia 
Em que, fora do poema,
Eu logo te pressenti.

É POR ISSO QUE SÃO
Palavras pintadas
Com as cores
Do meu jardim,
Porque na beleza
Das palavras
E da cor
Se cristaliza,
Da vida,
O amor
E, da falta de ti,
Se decanta
A minha dor.

SIM, ÉS TU
Que me moves,
Me inspiras
E induzes perfeição.
Sem ti
Seria arte estranha,
Simples adorno,
Jogo de formas,
Um canto
De diversão.

O POEMA É 
Uma forma de socorro,
É magia
Que invoca o teu
Rosto
Perdido nas 
Nas brumas 
Da memória e
Coberto pelo
Silêncio
Do que nunca
Me dirás.

NADA A FAZER.
Com arte
Te quero seduzir
E eleger.
Não te chegam,
As palavras?
Só importa
A ideia
Que tenho de ti
E a poesia
Que decanta 
A minha vida
Pra te ter
Por companhia
Nesta longa
Despedida.

MAS À ARTE
Respondes
Com o silêncio 
E o mistério
Pra não quebrares
O encanto
Que faz de ti
Galeria 
Do que em arte
Eu senti
Em forma de poesia.

ESTRANHAS SAUDADES
Virão
Quando o estro
Me faltar
E à Torre
De Montaigne
Subir como refém...
............
Dela nunca
Sairei
Para novo
Desencontro
Lá para os lados
De Belém...
JardimDasPalavrasFinal2812Recor

“O Jardim das Palavras”. Detalhe.

“PRESSENTIMENTO”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Travessia”.
Original de minha autoria
para este poema.
Dezembro, 2019.
Jas_Silhueta3

“Travessia”. Jas. 12-2019.

POEMA – “PRESSENTIMENTO”

MAIS UMA VEZ,
Ao entardecer,
Te pressenti,
Numa rua de Lisboa.
E não te vi.

AH, ESTA LISBOA 
Que amas!
Uma fria silhueta,
A travessia.
Um homem
Perdido em memórias
Que esfumam
No tempo
E deixam
A alma vazia.

DEUS EX MACHINA
Que desce sobre mim
No caos
Em que a vida
Se tornou,
Nos afectos
E na dor...
............
A invocar
As origens 
Do amor.

CAÍSTE-ME
NUMA ENCRUZILHADA
Improvável
Quando vinha
Da imensa planície
Onde os deuses
Se anunciam
No horizonte...

UM SÚBITO CLARÃO,
Um sobressalto...
 Estremeci.
Irrompeste,
Intempestiva,
Das brumas
Da memória...
...........
Mas apenas 
Te pressenti!

APROXIMEI-ME
Do teu mundo,
Sem saber?
Foi o destino,
Adormecido
Que estava
De nunca, 
Mas nunca 
Te ver.

ESTRANHOS
DESENCONTROS
Que desabam
Sobre nós
Com o destino
A comandar
No labirinto
Insondável
Das nossas vidas...

SILHUETA FUGIDIA,
É o que és,
Afinal,
Porque tudo é plano,
Demasiadamente
Plano, em ti.

VI UM NÚMERO,
A única certeza
Que tenho,
A janela
De onde te vislumbrei,
Mas incerto
Como todos
Os números
Deste mundo.
Incerto, sim,
Porque tu
Não és número
Que me dê
Certezas,
Para além da dor.
És mais quatro
Do que sete,
Meu amor!

OU TALVEZ TENHA SIDO
A minha fértil
Imaginação
Já um pouco doentia
A cruzar-se contigo
Num lance de
Pura magia.

MAS NEM SEI
Se é por ali
Que tu andas,
Porque de ti 
Nada sei,
Só o que me sobrou
Daquele tempo
E do tempo que criei
Para nunca te perder
Naquela história
Onde te conto
Longamente
Para em ti renascer.

QUE ESTRANHOS
Lugares de
Desencontro,
No meio da multidão!
Um instante,
Ambiente ruidoso
E improvável,
O regresso a ti,
Cada vez mais
Imaterial
Na película subtil
E transparente
Da memória...
Simulacro irreal.

AH, COMO NO FIM
Deste poema
Sofro a falta
De uns olhos verdes
A iluminarem-me a alma
De ternura,
Mas nem o sol
Se descobre
Para os acender
E me inundarem
De beleza
Da mais pura!
Jas_Silhueta3Recort

“Travessia”. Detalhe.

“O POETA-PINTOR”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Amanhecer”.
Original de minha autoria
para este poema.
Dezembro de 2019.
MulherNaJanela151219Final

“Amanhecer”. Jas. 12-2019.

POEMA – “O POETA-PINTOR”

O POETA BRINCAVA
Com suas palavras,
Cantava-te sempre
Quando não estavas...

ERA UM POETA,
Era fingidor,
Não te desenhava,
Cantava-te
A cor.

E AS SUAS CORES
Eram só poemas,
Fazia pincel
Da sua caneta,
Enquanto poeta
As letras riscava,
Mas a sua tinta
Já não era preta...
................
Escolheu a cor,
Pintou a palavra.

POR ISSO COMPROU
Um belo pincel
E como pintor
Pintava, pintava,
Era a granel
E a sua tela
Que ele adorava
Já não era só
O velho papel.

DESCOBRIU A COR,
Que o fascinou:
Dourado, vermelho
E tanto amarelo.
Tudo ele pintou,
Procurando sempre
O que era belo.

ATÉ QUE O ENCONTROU
Na cor dos
Teus olhos,
Era luz da pura
Que iluminava
O novo papel
Onde desenhou
O teu fino rosto
Com o seu pincel.

DEU CORPO À COR
Com que te dizia,
As suas palavras
Tornaram-se riscos...
......................
Mais que poesia.

PINTAVA-TE ASSIM.
Os poemas
Já não lhe chegavam,
Pintor de palavras
De cor as compunha
E versos voavam
No azul do céu...
.....................
“E o que tu fazias
Faço agora eu”,
Dissera-te um dia,
“Porque sou poeta
Mas também pintor.
Deixaste-me só,
Entregue à palavra
E, eu,
Tão pobre de ti,
Pintei-me de dor".

"MAS EU FAÇO DELA
O meu arco-íris
Pra subir ao céu
A ver se t’encontro
Atrás duma cor
Pintando o teu rosto
Para um poema
Que vou escrever
Com todas as cores
Que trago comigo
Enquanto viver”.

O POETA BRINCAVA
Mas era tão séria
Essa brincadeira!
Perdido em palavras,
Encontrou a cor
E nos seus poemas
Dela fez bandeira.
MulherNaJanela151219FinalR

“Amanhecer”. Detalhe.

NÃO DOBRES A ESQUINA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Variações”. 
Original de minha autoria.
Dezembro de 2019.
Jas_Nãodobresaesquina

“Variações”. Jas. 12-2019

POEMA – “NÃO DOBRES A ESQUINA…”

AH, ACREDITA,
Já nem sei
Quantos fazes...
................
A ti conto-te
E canto-te
Ao minuto
De tão rápido ser
O dobrar da
Esquina,
O regresso
Fatal
Ao lugar
De onde nunca
Sais,
Desde menina...

UM DIA DISSE
(Lembras-te?):
“ - Esquece a infância,
Pára e ouve
O silêncio
Que espreita
Para te desvendar
O mistério da
Vida!
Dir-te-á:
Nunca regresses
Ao sítio onde já
Não estás.”

MAS TU NUNCA
PÁRAS,
Na louca correria
Para fora de ti
(Os lugares do costume)
Em busca do
Esquecimento
Reparador...

E EU A OLHAR
Para o tempo
Quando o tempo
Já é pouco
E a saber que
Te hei-de sempre
Reinventar
Com os fios 
Soltos 
Da memória...

MAS O DIA
Em que renovas
O contrato
Contigo mesma
Representa
(Acredita)
Um recomeço
Para o reencontro
Com o silêncio...
..................
E, uma vez mais,
Ele acaba
Esquecido
Nos aplausos
Vibrantes
E calorosos
Com que todos
Te celebram...
.............
Por fora!

ACORDA,
Meu amor,
Porque o silêncio
Quer falar-te
De celebração
Da alma,
Da tua relação
Íntima com o
Mundo,
Antes da queda
Na rotina
Dos enganos!

DESPERTA,
Que o passado
Se escreve a partir
Do futuro
Que antecipas
Cada ano
Quando renasces
A caminho da
Última fronteira...

PORQUE HÁ, SIM, 
Um derradeiro
Espelho vital
Onde revemos
O passado
Que construímos
Sobre as ruínas
Do presente...
............
Sabias?

AH, SIM,
Mesmo que não saibas,
No dia da celebração
O silêncio
Espera-te sempre
À esquina
Das tuas ruínas
Na mais profunda
Solidão...

NÃO DOBRES,
Em fuga,
Essa esquina.
Escuta-o, nesse dia.
Talvez seja
A tua salvação...
Jas_NãodobresaesquinaR

Variações. Detalhe.

AS PALAVRAS SÃO OÁSIS…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Oásis”. Original
de minha autoria para este
poema. Dezembro de 2019.
OasisFinal30

“Oásis”. Jas. 12-2019

POEMA – “AS PALAVRAS SÃO OÁSIS…”

PORQUE NÃO TE DÁS
Um pouco,
Meu amor?
A minha
Sede de ti
É tão grande
Como a dor
Do dia
Em que, no fim,
Te perdi.

PENSA NO DESERTO
E no oásis
Que o suspende
De tão longo
E árido ser
O caminhar
Sobre areia
Escaldante
Na procura
Infindável
De te alcançar
Como amante...

OS MEUS LÁBIOS,
Áridos de ti,
Não se saciam
Com uma gota
De água
Ou com o aflorar
Da seiva
Exausta
Do meu caule,
Gasto de tanto
Te esperar...
.................
Mas quando falam
(O pouco que te 
Falam)
Humedecem,
Porque as palavras
Pousam neles,
São oásis
Verdejantes
No imenso deserto
De um amor
Em longa
Despedida...

E QUANDO CHEGO
Ao fim,
À última estrofe
Do teu poema,
Já sei
Que tenho de retomar
O arenoso caminho
Do canto 
Em solidão...

OS OÁSIS
São parte do deserto
Que atravessamos
Na nossa vida,
São bátegas
Que banham
A alma ressequida
De tanto
Clamar por uma
Saída
Nesse mar de areia
Em que o viver
Se tornou.

MAS TU
Nem gotículas
Me dás
Quando clamo
Por ti
Na miragem
Do deserto...

O QUE TALVEZ
Não Saibas
(Ou sabes
Em demasia?)
É que a vida
É mais
Deserto do que
Oásis,
Mais areia do que
Gotículas
Que brilham
Ao sol ardente...
.................
E que os lagos
E as fontes
Onde refrescamos
A alma
São pura
Alucinação
Que nos deixa
Mais entregues
Ao silêncio...
...................
E à fria solidão.

AH, QUE FALTA SINTO
Da tua fonte
A jorrar
Cores vivas
Sobre mim,
Das bebedeiras
De palavras
Sobre ti,
Da densa neblina
No deserto
A coar o sol que
Me bate no peito
Onde mais te sinto.

IMAGINO-TE, ENTÃO,
Como meu oásis,
Chuva no deserto
Sobre esta minha pele
Seca e encrespada...
.....................
Mas bem sei
Que não passa de
Alucinação!

PORQUE HÃO-DE SER ASSIM
As nossas vidas,
Sem gotículas
Que banhem
O nosso corpo
Por falta de alma
Que as acolha?

O QUE ME SALVA,
Meu amor,
É este oásis
Verdejante
Que construí
Como palco
Para te cantar
Ao entardecer
Da nossa melancolia...
OasisFinal30R

“Oásis”. Detalhe.

PAIXÃO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Cascata”. Original de minha
autoria para este poema. Reproposição 
(com alterações) de um poema
publicado há três anos, em resposta
a um soneto de Ana de Sousa (09.2016).
Novembro de 2019.
Jas_Cascata241119-Exp.

“Cascata”. Jas. 11-2019

MOTE – SONETO

“Vinde cá meu tão certo Secretário”,
Confirmai meu gosto de espelhar
À Musa que recusa Amor notório
Gritando ao Mundo o que não quero calar!
 
De rosas, de loureiro, de jasmim
De astral, de amargor, de doce fel
As bagas, a folhagem, no jardim
Onde abelhas obreiras fazem mel! 

Dizei o que tanto quero ouvir
Que o que pensais, não quero, não!
Escrevei que meu engenho repetir  

Só quero na rima, mil dores de coração.
Enlace, ponto final, sem remédio é ir
Do próprio veneno provar... em edição.”

POEMA – “PAIXÃO”

ESPELHO MEU,
Espelho meu,
Vês dor mais forte
Do que a minha?
Não sabes que
Sem palavras
Nem tu me salvas,
Rainha?

PROVAR FEL
Em edição?
Tomei-o,
Nestes meus dias.
Castigo
Por afeição,
Derramado
Em poesias,
Palavras ditas
Em vão,
Estreitas sendas
Vazias...

INCAPAZ 
De as trilhar
Fui procurar
Novas vias,
Mas gastas
As encontrei,
Incertas
Em seu destino...
....................
Senti-me um pouco
Estranho
E perdi-me
Do caminho...

DEPOIS VIERAM
Flores...
...................
Tantas vezes disse
"Não!"...
Sempre falhei
Nos amores
E, agora, esta
Paixão!

NEM SEI O QUE
Aconteceu...
Um enigma,
Esse seu rosto!
Vi nele o que
Em mim faltava,
Tropecei,
Fiquei exposto,
Como ferida
Sempre aberta
Ao rubro o seu
Sangrar,
Uma dor que
Quando aperta
Põe palavras
A voar...

PALAVRAS
De vivas cores
Mais fortes que
Oração
Fortalecem-me a alma
Resisto mais
À tensão...

PROVAR FEL
Em edição,
Em poema
Amargurado?
Pois seja esse
O destino
E se foi o meu
Pecado
Será sempre
Desatino
Sofrer assim
Este fado!

TEM SABOR 
De um remédio?
Talvez tenha,
Não duvido,
Só alivia,
Não cura,
É afecto proibido,
Inclinação
Da mais pura
Em que me sinto
Perdido...

JÁ NÃO A VEJO
Nem ouço,
É luz que nasce
De mim,
Se passar
Eu fujo dela,
Procuro-a no meu
Jardim
Como arbusto florido
Sempre ali
À minha frente...
................ 
De ser planta
Robusta
Não tem defeitos
De gente,
É esguia,
Não é gorda,
Tem mil folhas
De cetim,
Espera-me sempre
De pé
Mesmo ao lado do
Jasmim!

É AMOR
Em provação?
Se tem de ser,
Pois que seja,
Lanço versos por
Paixão
Onde quer que
Ela esteja,
Sai de mim esta tensão
Como em cântico
D’igreja
Ou incenso que respiro
E quando m’inunda
Por dentro
É pro céu
Que eu me viro.

PROVAR FEL
Em edição?
É enlace
Do mais puro,
Resulta duma paixão,
Intensa neste poema
E bela como 
Canção,
Mas abraço 
Sem futuro!
Jas_Cascata22-Exp.Rec

“Cascata”. Detalhe.

PARA LEONARD

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração, “Mil Beijos”. Original 
de minha autoria para este Poema,
dedicado a Leonard Cohen (1934-2016). 
Novembro de 2019.
MilBeij2Pub1711.7Experiencia

“Mil Beijos”. Jas. 11-2019

POEMA – “PARA LEONARD”

OUÇO-TE
Como respiro
Com a alma...
E como a sinto!
Vejo-a dançar
Na tua voz rouca
E grave
E, então, aninho-me
No regaço da tua
Melodia
A observar
O seu silêncio...
................
Mas estremeço
Como o rio quando
Entra na foz,
Mar adentro...

É SUAVE O REENCONTRO
Com ela,
Em fluxo submerso,
Como as dobras
Das palavras
Quando se ajeitam
Nas estrofes
Dos meus poemas
Ou os sons
Quentes
Na tua melodia,
Vindos lá do alto
Como ecos
Da montanha
Sagrada.

OUVIR-TE, ÀS VEZES,
Arrepia-me
Porque na tua voz
Acolhedora
Sinto-a
Dentro de mim
A segredar-me
O seu impossível
E sufocado
Silêncio.

E, ENTÃO, DANÇO,
DANÇO
Com a alma
Até ao fim...
.....................
Que nunca mais chega!
E não paro até 
(Já exausto)
Cair em mim...

OS MIL BEIJOS
Que não lhe dei
São, na tua melodia,
Mais profundos
Que as profundezas
Do mar,
Mais intensos
Que mil abraços
À superfície
Do seu corpo...

E ATÉ OS TEUS SORRISOS
Maliciosos
E os gracejos
Inocentes
Me levam
A inventar
Palavras quentes
Como balões coloridos
Que lanço
Ao vento
Que sopra
Na sua alma...

NÃO SOU COMO TU,
Leonard,
Eu esboço sozinho
Tristes canções
Em surdina
Até às lágrimas secas
Que nunca enxugam
Porque não tenho
Voz que chegue
Para a chamar 
Ao poema...
...................
Nem ela me ensinou
A cantar,
Por falta de jeito
E de tempo
Para amar...

MAS CANTAS TU
Por mim e por ela
E, então, ouço-te
Extasiado
Como se fosses
 Oráculo
Onde o silêncio
Partilhado
Se disfarça
De oração
Nos teus sons
E na tua voz
Para me enternecer
Até à emoção.

NÃO ME DESPEÇO,
De ti,
Com um abraço,
Leonard!
Vou continuar
A ouvir-te
Enquanto o silêncio
Me interpelar
No oráculo
Da tua melodia
E por ela sofrer
Dessa melancolia
Que nunca nos abandona,
Seja noite
Ou seja dia...
MilBeij2Pub1711.6Rec

“Mil Beijos”. Detalhe.

NÃO ME OUVES…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Voar”.
Original de minha autoria
para este poema.
Novembro de 2019.
Voar1011

“Voar”. Jas. 11-2019

O POEMA – “NÃO ME OUVES…”

NÃO ME OUVES,
Perdida
Que andas
Nas tuas rotinas,
Na vertigem
De cada teu
Amanhecer
Como se a arte
 Pudesse, assim,
Acontecer...

NÃO HÁ CRIAÇÃO
SEM LIBERDADE,
Aquela que
Construímos
Sobre as ruínas
Do nosso próprio
Viver...

A PROCURA
DE ETERNIDADE,
A chegada à galeria
Dos imortais
Só acontece
Quando das ruínas
Se eleva
Um silêncio
Que te fala
Em surdina...
.............
E nada mais!

MAS GOSTAS
De te pôr
Fora do mundo
(Eu bem sei)
Observá-lo,
Tomá-lo
Nas tuas mãos
Como brinquedo
Em construção,
Estética virtuosa,
Minúcia de
De artesão...

MAS É FRÁGIL
A utopia,
Que o mundo só
Se deixa possuir
Pela dor,
Pela liberdade
Em ferida aberta,
Por intensa
Melancolia
Ou vida sofrida
E incerta...

CAIR NO MUNDO,
Tropeçar nele,
Molhar as asas
Da alma,
Caminhando
Pelas ruas da
Cidade
Como silhueta
Em dias de
Densa
Neblina ou
De chuva
Tropical,
Sem saber
Pra onde ir,
Perdida
Em intenso
Vendaval...
............
Oh, então,
Gela-te
A alma
E sentes-te
Profundamente
Mortal...

INUNDA-TE
De chuva
Por dentro
E elevar-te-ás,
Um dia,
Para além da tua
Janela
De persianas
Coloridas,
Possuirás o mundo
Com essas mãos
Que afagam
As cores do
Arco-íris
No vale
Em que habitas,
Depois da tempestade...

A ARTE
É liberdade,
É subir pelas
Sete cores acima
E voar
Para a montanha
À procura
Do infinito
Sideral,
Do tempo
À medida do
Desejo...

AH, COMO GOSTARIA
De te emprestar
As minhas asas
Com cicatrizes
Da vida
Para voares
Mais alto
Que o azul
Do céu
Onde pudesses
Levitar
Sobre um poema
Sem risco
De te perderes...
..................
Mas tu não me ouves,
Meu amor!
Voar1011Rec

“Voar”. Detalhe.

“SOU O QUE SOU”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Fantasia de Poeta”. 
Original de minha
autoria para este poema.
Novembro de 2019.
OPoeta0311

Fantasia de Poeta. Jas. 11-2019

O POEMA – “SOU O QUE SOU”

EU SOU
O que sou,
Poeta
Pra te cantar
Mesmo que tu
Já não ouças
O pranto da minha
Voz
De tantas vezes
Chorar...

EU SOU
O que sou
Porque tu és
Em mim
Sempre mais
Do que pensas
Poder ser,
Uma deusa,
Uma musa
No jardim
Que m’inspira
Para de ti
Renascer...

BEM SEI
Que hoje
Me pintei
De poeta
Para duas vezes
Te ver
E duas
Te encontrar
Nos versos
Que já clamam
Por de novo
Te cantar.

SIM, TU ÉS
Musa
Dos versos
Perdidos,
Dos versos 
Cantados
Neste deserto
Interior
Da eterna
Despedida...

NÃO IMPORTA
O que pensem,
Como te vejo
Ou te canto
Porque serei
Sempre movido
Pela força
Do encanto.

ENCONTREI-TE
Sem procurar
O destino
Que te trouxe,
O mesmo
Que te levou...
.................
Cruzámo-nos
Nesse caminho
E, agora,
É por ele
Que sempre vou.

O VENTO SOPROU
Forte
Em nós
E voámos,
Voámos
No céu azul
Com as asas
Do desejo
Até cairmos
Do céu
Quando veio
A tempestade
E o vento
Nos deixou...

ACORDEI
Numa árvore
Frondosa,
Olhei em redor...
...Não te vi!

DESDE ENTÃO SOU
O que sou,
Aquele que
caiu das nuvens
E, sozinho,
Acordou
Na copa
De uma árvore
Onde pra sempre
Ficou.

POR LÁ FIQUEI,
Sim,
A olhar o azul
Do céu
Perscrutando
O horizonte
Para ver
Se lá te via,
Fosse tarde,
Fosse manhã,
Fosse noite
Ou fosse dia.

É A ÁRVORE
Onde vivo,
A minha casa
Discreta
De onde
Só te vislumbro
Como simples
Silhueta...

TORNOU-SE
Meu cativeiro,
Onde vivo
E te procuro
(Fantasia
De poeta)
Lá no fundo
Da memória
Pra me tornar
Teu profeta....

CERTOS DIAS,
Na memória
Ganho asas
E logo voo pra ti
Sem sair
De onde estou...
................
Perdi-te,
Já não te alcanço,
Já nem sei
Por onde vou...

TRAÇA-ME TU
O caminho,
Pra chegar
Ao pé de ti,
Tenho palavras
Que cheguem,
Foi com elas
Que cresci
E com elas
Eu voei
Na linha do
Horizonte
Quando um dia
Te encontrei
No sagrado
Do meu Monte.
OPoeta0311Rec

Fantasia de Poeta. Detalhe.

O TEU CORPO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração - “S/Título”- de minha autoria
sobre quadro anónimo (fotografia de mulher
em contraluz) da minha colecção privada.
Outubro de 2019
Mulher2110_2

S/Título. Jas. 10-2019

POEMA – “O TEU CORPO”

HÁ POESIA
No teu corpo,
Geometria
Sensual
Que te desenha
No espaço,
Como te contas
Sem palavras,
Contraponto
Luminoso
Da minha melodia...

HÁ MÚSICA
Em ti,
Pauta
De beleza 
Que ondula,
Instável,
Entre riscos
E cores,
Desenhando
Enigmas
Que só o poema
Pode decifrar...

TENS A ALMA
Inscrita
Nas formas
Do teu corpo,
Como eu a tenho
Nas palavras
Que lanço
Ao vento
À procura
Da tua utopia...

E VEJO-TE
Como letra
Da canção
Que vou cantando
Na minha subida
Ao monte,
Quando o vale
Já não me chega
E nem tu chegas,
Afinal,
Pois partiste
Em busca
Dos palcos
Da tua vida...

MAS EU RESPIRO-TE
Ao ritmo
De uma dança
Com o poema
Que canto,
Palco de beleza
Onde te enredo
A alma
Em teia
Que prende
E te liberta...

PROCURO-TE
Na pintura,
Fixo-te
Para te cantar
Quando a noite
Cai sobre mim
E mergulho
Na solidão
Do silêncio
Com que,
De longe,
Me falas.

E SONHO-TE
Num bailado
A solo,
Dançando,
Dançando,
Ao luar,
Na praia
Da meia-lua
Para que eu
Te volte a cantar
Em poemas
Ao ritmo
Com que te
Vais desenhando
Nas telas
Coloridas
Do teu acontecer.

E, NO FIM,
ROGO-TE
Que não pares
O teu silencioso
E longínquo
Bailado
Solitário
Até que eu te
Desenhe
Em palavras
Luminosas
Para que nelas
Te revejas
Como se fossem
O espelho
Encantado
Da tua alma...

QUE FAZES
Da tua vida,
Meu amor?
Mulher2110_2R

S/Título. Detalhe.

COMO TE QUERO...




POEMA de João de Almeida Santos.                    Gustav Klimt - Two studies to a young woman sitting on a tablenDeutsch Zwe - (MeisterDrucke-351787)

Ilustração: “SEDUÇÃO”. 

Composição de minha autoria a partir 
de um estudo de Gustav Klimt. 

- "Dois estudos de uma jovem mulher", 1885. 
JASKlimtFinal1410Fim3

“Sedução”. Jas. 10-2019

POEMA – “COMO TE QUERO…”

PEDI EMPRESTADO
Ao pintor
Este rosto
De onde vejo
A cor
Velada
Da tua alma...

ENIGMÁTICO
OLHAR
Que me perscruta
E fascina,
Beleza etérea,
Divina!

OS TRAÇOS
DELICADOS 
Que o desenham
E a leveza
Das vestes
Que velam 
E desvelam
O corpo
De pele macia
Que me cativa
O desejo...
..............
Seduzem-me!

E FICA-ME 
ESTE ROSTO
Solitário
Na galeria poética
Onde te versejo
Mil vezes
À procura
De um amanhecer
Que nunca chega...

PARA TI DIRIGI
O meu olhar
Através de um espelho,
A obra de arte,
Vi leveza,
Beleza intangível
E ouvi silêncio
Profundo
Envolto
Por uma densa
Neblina
Que nunca se dissipa!

E ENTÃO RECRIEI-TE,
Com a ajuda
Do pintor,
Tal como
Te desejo,
Na fronteira,
Sempre no limiar
Do impossível,
Na distância
Que o destino
Nos traçou
E nos compassos
Do silêncio
A que a deusa
Nos votou.

SE TE ENCONTRAR
De novo
Só saberei ver-te
A partir
Deste fino rosto,
Memória de ti,
Numa tela
Cantada por mim.

E ENTÃO REGRESSO
Às tuas cores
Para com elas
Te desenhar
De novo
Com o pincel mágico
Do pintor
Que eu amo
Em ti.
JASKlimtFinal1410Fim3Rec

“Sedução”. Detalhe.

JASMIM

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Rapsódia”.
Original de minha autoria.
Outubro de 2019.
JAS_RapsódiaFinal

“Rapsódia”. Jas. 06-2018

POEMA – “JASMIM”

FLORESCEU O JASMIM,
Dele jorra Poesia,
Embriaga,
O aroma,
Liberta-se
A fantasia!

DOU ÀS PALAVRAS
A COR,
O seu perfume
Ilumina,
Bate o sol
Nas suas pétalas,
É luz intensa
Que brilha
No poema que
Germina...

JÁ NÃO É SÓ
O LOUREIRO,
Agora canto
O jasmim,
É tão vivo
O seu perfume
Que se renova
Em mim.

INUNDO-ME
DE PALAVRAS,
Canto
Este mundo
Da cor,
Subo ao céu
E penso em ti,
Levo comigo
Essa dor...

SOU ÍCARO
Lá no alto
E quando o sol
Me bate forte
Caio em mim
Do meu poema
E no chão
Fico sem norte...

PEÇO AJUDA
À MONTANHA,
Volto a subir
Com alegria,
Lá no alto
Vou renascer,
Regressar à
À poesia...

E ENCONTRO
O MEU JASMIM
Mesmo ao lado do
Loureiro,
Respiro fundo
O aroma
E torno-me
Jardineiro!

E ASSIM EU VOU
VIVENDO
No jardim da
Minha vida
Em poemas
E pintura...
.............
E se a dor
Não tem remédio
Que seja esta
A cura!
JAS_RapsódiaFinalR

“Rapsódia”. Detalhe.

ENCONTRO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Silhueta”.
Original de minha autoria
para este poema. Outubro, 2019.
Silhueta06

“Silhueta”. Jas. 10-2019

POEMA  – “ENCONTRO”

OS ASTROS
ALINHARAM-SE
Uma só vez,
Passados anos
De aridez
Que roubou
Tempo
De fantasia,
Luz
À vida,
Lentamente,
Cada dia...

ENCONTREI-TE
Sem querer...
..................
Astros ou destino,
Quero lá saber...
Que bela
Esta forma
Tão singela
De te ver!

ABANDONEI-ME
Ao destino,
Chegou o acaso,
Vi-te estranha
Ao olhar
De tão tardio
Encontro
 Com a fita
Da memória
A rolar
Em moviola.

ERA INCERTA
A TUA IMAGEM,
O olhar
Embaciado,
Um arco-íris
Descera
Com o sol
Dessa manhã,
Gotículas
Brilhantes
Como lágrimas
De alegria...

FICOU-ME
A alma cheia,
A transbordar
(Ficou),
Mas o vazio
Também logo
Regressou.
Mais do mesmo,
Como antes,
Um desencontro
Sem fim...
...............
E o ânimo
Quebrou.

VISLUMBREI-TE
Perto do meu
Destino,
Raptou-me
O acaso
A incerta silhueta
Que não pude
Desenhar
No meu campo
De visão
Como se fosse
Castigo
Por insólita
Paixão.

AQUI ESTOU EU
Devolvido
À solidão,
Novas saudades
De ti,
Um poema
Em gestação...

SÓ ASSIM EU SEI
Falar,
Fico incerto
Se te vejo,
Troco o passo
A cada instante,
Hesito nesse
Momento,
Finjo aquilo
Que não sinto
E, por fim,
Fico tão-só
Amante da poesia
Que me dá o que
Não tenho...
...............
Uma réstia
De alegria.

OS ASTROS
ALINHARAM-SE
Pra te voltar
A perder,
Dois minutos,
Um sorriso...
................
Chegou cedo
Este novo
Entardecer!
Silhueta0610R

“Silhueta”. Detalhe.

ESSES OLHOS NEGROS…

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Olhar”. 
Original de minha autoria 
para este poema. Setembro 2019.
MakalFinal29

“Olhar”. Jas. 09-2019

POEMA  – “ESSES OLHOS NEGROS…”

DESSES OLHOS NEGROS
Eu tenho
Saudades,
Viajo com eles
Na minha memória
Pra te alcançar
Neste oceano
Onde eu navego
Entre altas vagas
Sem nunca parar...

E TENHO SAUDADES
Por nunca te ver...
..........
Quiseste
Partir
E logo negar
O tempo exacto
Para te sorrir.

EU TENHO SAUDADES
Saudades de ti,
Quando te invoco
Com estas palavras,
Te digo
O que sinto...
..................
Que esta saudade
Já não vai parar
Mesmo se minto
E digo em arte
Que te vou 
Inventar.

EU TENHO SAUDADES
De te encontrar
Naquele jardim
Onde o desencontro
De ser tão intenso
Até parecia
Nunca ter um fim...

E TENHO SAUDADES
Quando te escrevo
Estes meus poemas
Sabendo por certo
Que não terá eco
O que neles te digo
E sempre senti.
.
EU TENHO SAUDADES
Mas já nem eu sei
Porque é que vivo
Tão perto de ti
E quase te sinto
Quando tu respiras
O ar que te sopra
Como densa bruma
Nesse teu jardim.

EU TENHO SAUDADES,
Saudades de ti,
E até sei porquê
Este meu sufoco...
................
Talvez porque
Foges,
Nem sequer nomeias
O que te ressoa
Se o canto
Te chega
E sobre ti ecoa.

SEI BEM A RAZÃO
Porque não te encontro
Nem te dou a mão
Pra que não me fujas ...
........................
Porque é em vão!

COM TANTA SAUDADE
Até sou feliz
Em certos momentos,
Tão longe de ti,
Com alma
Em tormento,
Porque eu te amo
Ao sabor do vento
E da poesia
Que sopram
Intensos
Lá do teu jardim,
Mas tenho saudades
Desses teus olhos
Que vejo daqui
Porque eles me dizem
Que longe que estejas
Estás perto de mim.
MakalFinal1R

“Mulher com Véu”. Detalhe.

PINTEI-TE

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Mulher”. 
Original de minha
autoria para este poema. 
Setembro de 2019.
Tu_Final5_1809

“Mulher”. Mas. 09-2019

POEMA – “PINTEI-TE”

PINTEI-TE
Como te vejo
Por dentro.
Gosto do Modigliani
E gosto de ti,
Dei-te este rosto
Que por dentro
Me sorri.

PINTEI-TE
Única e
Deusa,
Meu encanto,
Aura e halo,
Entre a vida
E o meu canto
Infinito
Intervalo.

PINTEI, SIM,
Para te dar
A cor
Que não queres.
É como dar-te
A vida que
Não tens
Fora de mim.

E SABES?
Gosto de ti
Assim,
Com estas cores,
Geometria
Que desliza
Para uma aguarela,
Como água
Cristalina
A brotar
Desse teu rosto...

AGORA EXPONHO-TE,
És espelho
Do poema,
Cores quentes
A ferver
Como eu
Que t’escrevo
Cartas de amor
Disfarçado
De poeta
Neste meu
Entardecer,
Quando o azul
Se faz breu.

AH, SIM,
Metade sou eu,
Metade é o poeta
Que desenha
Com palavras
E te celebra
Com as cores
De que te veste
No tempo
Da fantasia.

PINTEI-TE
E eu não queria...
...............
Mas o desejo
De te ter
À minha frente
Foi mais forte
Do que eu,
Pulsão quente,
Desejo ardente,
Olhar de frente
O teu céu.

OH, AFINAL,
Pinto-te sempre
Na tela
Da minha alma
Com palavras
Que o vento
Leva
E cores
Que se dissolvem
Neste triste
Entardecer.

E PARA QUÊ?
Para nada?
Dizes:
“- Eu quero lá
Saber!
Pinta praí
Como danado
Até que a cor
Te doa
Do teu pecado,
Escreve
E canta
Até que as mãos
Afaguem
Essa garganta
Dorida,
Olha-me
Até que a vista
se canse
De nunca me
Alcançar
Por ser visão
Proibida”.

OH, PENSANDO
Melhor
(Finalmente,
Tu dirás),
“- Pinta, canta 
E olha
Porque, afinal,
Até gosto
Do que o teu
Canto me traz.

SEM TE LER
Nem te ouvir
Ou ver-te
Com memória
Atormentada
Do que nunca
Aconteceu...
...........
Eu bem sei
Como a ausência
Te doeu!”

“ - MAS PINTA,
Meu amor, pinta,
Quem to pede
Não te quer,
Mas sabe
Quanto a cor
Adoça a vida
Se perdeste
Uma mulher.”
Recorte

“Mulher”. Detalhe.

COLISÃO

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Meteorito”. 
Original de minha autoria 
para este poema. Setembro de 2019.
Meteorito_Final

Meteorito. Jas. 09-2019.

“Dentro de los meteoritos y sus metales 
extraños se leen 
las historias de otros mundos” 
(El País, 07.09.19)

POEMA – “COLISÃO”

CAÍSTE EM MIM
Como meteorito,
Embate espectral
No meu chão,
Abriste
Sulco profundo
No meu corpo,
Mas não doeu
Essa abrupta
Aparição...

A VELOCIDADE
Cegou-me
(É sempre assim),
Clarão,
Ondas,
Vibrações
Abanaram-me
A alma,
Raízes
Estremeceram
Lá mais no fundo
De mim.

PROCUREI-TE
Nessa cratera
Cavada na minha
Alma
E passada
A tempestade
Vi fragmentos 
De ti,
Minerais 
Pra lapidar
Como dunas
Desenhadas
Pelo vento
Aqui bem perto
Do mar.

NESSA FENDA
Tão profunda
Encontrei
Um brilho
Estranho
Que me pôs
A levitar,
Sol frio
Como metal,
Gelo cortante
A cair 
Na linha 
Do meu olhar...

NUNCA MAIS DE LÁ
SAÍ...
............
E com mãos
De alma pura
Peguei 
Subitamente
Em ti...
..........
Escaldavas
De tanto brilho
Exalar
E caíste-me
No chão,
Trémulo
De tão inquieta
Incerteza,
Calor
Fervente
No peito,
Mistério
De uma estranha 
Beleza
Que renasce
Na cratera
De um vulcão...

FIZ DE TI
Minha bola
De cristal,
Li nela
A história de um
Encanto
Que trespassou
Como raio
Uma fronteira
Vital.

E AQUI ESTÁS
Em tão sofrida
Distância,
Estranhos
Perante nós
Como quis o
Meu destino
E os astros
Do teu chão
Na fronteira
Do divino.

MAS NÃO PERDESTE
Magia,
Meteorito
Em quietude,
Íman
Silencioso
Que me atrai
Suavemente
Como oráculo
De um destino
Sempre em lenta
Gestação.

LEIO-ME A ALMA
Na superfície
Dourada
De teu corpo
Incandescente
Qu'ilumina
A emoção,
Me consome
E me domina
Nesta tensa
Relação.

ÉS RASTO CÓSMICO,
Atracção fatal
Que me suspende
A vida
Pra me fazer 
Levitar,
Tornando 
Meus tristes 
Dias
Uma paisagem 
Lunar.

AH, SIM,
Mas és razão
De arte
Nesta vida
Que inventei,
Encantamento,
Fonte seminal
Onde bebo
E me embriago
D'emoção
Até te ter
Um momento
Nas palavras
De um poema
De quimérica
Paixão.
Meteorito_FinalR

Meteorito. Detalhe.

“COR, MAIS COR…”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Caminhos”.
Original de minha autoria
para este poema.
Setembro de 2019.
CorMaiscorFinal2

Caminhos. Jas. 09-2019

POEMA – “COR, MAIS COR…”

COR, DÁ-ME COR
Fico mais perto
De ti
Se vieres
Com o vento...
..............
Cor, mais cor,
Que as palavras
Coloridas
Já me sabem
A cinzento...

OU TALVEZ NÃO.
Palavras
Já não me faltam,
Não sinto
Escuridão,
Ainda consigo
Dizer-te
Em mil palavras
Pintadas,
Entregar-te
A minha alma
Na palma
Da tua mão.

TENHO-AS
Que me cheguem
Para gritar
A vermelho
O concreto
Do teu nome,
Ver, assim,
Esse teu rosto
No eco
Da minha voz
Sem que a tristeza
Assome.

AH, E A COR
Se for intensa
E crescer
Em explosão,
Se tiver
Em contraponto
Palavras
De liberdade
Soletradas
Em azul
Dos teus sonhos
De papel...
............
É tudo
O que eu desejo
Pra t’esculpir
A cinzel.

DÁ-ME COR,
Que eu sou
Sensível
Ao brilho
Do teu olhar,
Vibro na luz
Qu’irradia
Quando vestes
O vermelho
Ou te cobres
Com as cores
Do arco-íris
Que és.

VÊS COMO TE 
Conheço?
Tu és cor,
Gota d’água
Suspensa
No fio
Do horizonte
Banhada por
Raios de sol
Que despontam
Lá no monte.

DANÇAS COM ELA,
A cor,
E com ela
Adormeces.
É sopro doce
Do peito,
Da vida
Exaltação,
Com luz
Coada por ti
Para um sonho
Perfeito
No reino da
Evasão.

EU GOSTO MUITO
De cor,
Confundir-me
Todo
Com ela,
Dançá-la
Como vida
Em eclosão,
Girândola
Que embriaga
Os sentidos
Como se fosse
Vulcão...

LEMBRO-ME
Bem do poeta
Que pedia
“Mais luz!”
Já em seu leito
Fatal.
Tinha luz
Dentro de si
Mas a cor
 Já não entrava
Pelas frestas
Do portal.

ERA CINZENTA
A cor que lhe 
Restava
Até escurecer
Quando a janela
Lentamente
Se fechava
No sol-posto
Desse seu
Entardecer.

MAS A PALAVRA
Fascina-me.
É com ela
Que te canto,
Com a cor
Danço e voo,
Na palavra
Calo
Os sentidos
Para melhor
Te sonhar
Dos dias
Em vão perdidos
Na deriva
Do teu mar!

AH, SIM,
Eu gosto
É de palavras
Porque cabes
Em quatro letras
Aninhadas
No teu nome
Que me sabe
A verde
Eterno
Nas tardes de
Primavera.
CorMaiscorFinal2Rec

Caminhos. Detalhe.

PALAVRAS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Geometria de um Poema”.
 Original de minha autoria.
Setembro de 2019.
Azálea31

“Geometria de um Poema”. Jas. 09-2019

POEMA  – “PALAVRAS”

PRA QUE SERVE
Este poema,
Meu amor?
“- Para nada!”,
Dizes tu,
“- São palavras
Que usas
Pra te sentires
Menos nu”.

PALAVRAS
São como vento,
Vão,
Voltam
E mudam
D’intensidade,
Sopram forte
Ou de mansinho,
São volúveis,
Ilusão,
Vão pra sul
Ou vão pra norte
Mas cruzam 
O teu destino
Mesmo que digas
Que não.

SÃO INTANGÍVEIS,
São sinais,
Podem ferir
Como espada,
Às vezes
Como silêncio,
Outras,
Pior, 
Como nada...

DIZEM SEMPRE
O que sinto,
Parecendo
Não o dizer,
Às vezes
É proibido
E outras
É por não
Querer.
E se escrevo
E te minto
É por ser forte
O desejo
De um dia
Eu te ter.

ESTE POEMA
Que te envio
Escrevi-o
Com o vento,
Mas nele
Eu também minto...
..............
E o vermelho
É cinzento!

MAS É CONFISSÃO
Inocente
Que chega
Ao seu destino
Como o Sol
Vai a poente
Num poema
Cristalino.

SÃO PALAVRAS,
Meu amor,
Murmúrios
De quem te quer,
São o sonho
Do poeta
Quando a vida
Adormece
No rosto
De uma mulher.

Azálea31Rec

“Geometria de um Poema”. Detalhe.

CATEDRAL

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Tempo”. 
Original de minha autoria 
sobre foto de Giovanna Bellelli, 
em Roma. Poema inspirado no Romance
“Via dei Portoghesi” (Parsifal, 2019).
Agosto de 2019.
Roma'802508_1

“Tempo” – Jas. 08-2019.

POEMA – “CATEDRAL”

VIAJÁMOS NO TEMPO
Até à cidade.
Encontrei-te
Por ali.
Nada mudara.
Rosto sereno,
Inocente,
Como quem
Sempre sorri.

FOMOS AO TEMPLO
Da rua
Da minha vida,
À cúpula
Da catedral.
Não te abracei
Nessa noite,
Era sagrado
O lugar,
Seria abraço
Fatal.

MAS FICOU-ME
O prazer
De te ter
Ali ao lado,
A sonhar
Nesse meu leito
O beijo
Que não trocámos
Numa noite
De luar,
Quando o amor
É mais quente
E o corpo
Desnudado
Por tanto a alma
Brilhar.

FOMOS À PRAÇA
NAVONA,
Escutámos
As águas da fonte
E os traços
Do Bernini,
Da beleza
Horizonte,
Íntimos,
Em sintonia,
Antevendo um futuro
Que nunca mais
Chegaria...

ATÉ QUE ME PROCURASTE
Nessa fita
Da memória,
A noite
Perdida de afectos
Na cúpula da catedral,
Corpos tensos
Sem palavras
Na fronteira
Do amor.

TORNOU-SE MAIS VIVO
O que não aconteceu
Como se fosse
Futuro
Que afinal
No teu passado
Ainda não se
Perdeu.

E CÁ ESTAMOS DE NOVO
À procura
Dessa noite,
Do beijo
Que não te dei,
Passado virou
Futuro
E do tempo
Dessa Igreja
Já nem sei
O que farei.

TALVEZ FAÇA
UM POEMA
Para te reencontrar,
Cantar esse
Sorriso
De que sempre
Eu gostei,
Voar no tempo
Em espaço sideral
E em noite de luar
Pousar de novo
Contigo
Na cúpula
Da catedral....
Roma'802508_1Rec

“Tempo” – Detalhe.

“LUA”

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Ballerina” 
Original de minha autoria 
para este poema. Agosto de 2018
Ballerina0819

Ballerina. Jas. 08.2019

POEMA – “LUA”

DESCI À PRAIA
Da meia-lua
A ver se nela
Te via.
Era brilhante
O anoitecer,
Cheio de luz
E perfume a maresia.

ERA DA LUA-CHEIA
A luz branca
Que do céu caía,
Gente que dançava
Em dia de festa,
De som e de cor...
....................
E se divertia!

NO CLARO DE LUA
Vi um rosto
De mulher
Que não era
Estranho,
Um perfil qualquer...

ERAM NEGROS
Os seus olhos,
Boca
Rúbida e quente,
Pele macia
Em corpo ardente,
Cabelos ao vento...

VI QUE ERA ELA
A deusa do baile,
Luz branca da lua,
Espelho de mar...
....................
Logo o meu olhar
Procurou o seu
Nesse cintilante
Brilho do luar...

COM ELA DANCEI,
Saltei e cantei
Em alegria,
Vibrou o meu corpo
Com essa melodia
Que me inspirava
Numa bela praia
Em forma de lua
E me seduzia.

VI O SEU SORRISO
Em perfil na lua
Que eu desenhei,
Uma luz intensa
Me iluminou
Quando eu dançava
Essa melodia
Que pra mim soou.

CORPO DE MULHER...
.................
Eu já nem sabia
Se era ela
Ou outra qualquer
Com quem eu podia
Erguer-me à lua
Com alma despida
Neste frágil corpo
Pouco mais que nu...

E TAMBÉM A ALMA
À sua procura
Era de nudez
Um pouco ousada,
Mas, sim, era pura
Por ser nesta lua
Que adivinhava
A minha ventura...
.....................
Pouco mais que nada!

ONDE ESTÁ A LUA?
Nessa bela praia
Ou noutro lugar
Onde a possa ver
Espreitar a rua
Pra me enfeitiçar?

ESTÁ EM TODO O LADO
Onde o meu poema
For entardecer
Para desenhar
Com suas palavras
Um suave rosto
Que é mais de deusa
Do que de mulher...
TeFinal3Exp2-cópia

Ballerina. Detalhe.

“AGUARELA”

Poema de João de Almeida Santos,
inspirado no poema de Manuel Bandeira
“Tema e Variações”.
Ilustração: “O Retrato”. Original de minha
autoria para este poema. Agosto de 2019.
ORetrato1108Fimpsd

“O Retrato”. Jas. 08-2019

POEMA – “AGUARELA”

SONHASTE, MANEL,
Que havias sonhado
Estar à janela
Sonhando, a cores,
Qu’estavas com ela.

TAMBÉM EU SONHEI
Que tinha sonhado
E que no sonho
A tinha encontrado,
Passando por ela,
Ali, lado a lado,
Mas quando acordei
Do primeiro sonho,
Sonhando eu vi
O seu rosto belo
Numa aguarela
Pintada a cores
Que tinha guardado
Para uma tela...

SONHEI, OUTRA VEZ,
No segundo sonho,
Que era pintor
Mas que pintava
Sempre o seu rosto
A uma só cor.

DIZIA, SONHANDO,
Que não podia ser.
Seu rosto expressivo
Era arco-íris
Ao amanhecer
E era sorriso
Para o mundo ver!

MAS EU SÓ O VIA
Com a minha cor,
Esse rosto belo
De seda tecido
Que me seduzia
No sonho sonhado
Onde sempre a via
Ali, a meu lado.

NÃO QUERIA ACORDAR
Do sonho feliz
E nele fiquei
De olhos fechados.

JÁ NÃO ACORDEI
Do sonho sonhado
Porque nessa cor
Fiquei encerrado
Com todo o meu ser...
..................
Talvez por amor.

NO SONHO OLHEI
Para o meu espelho
E logo eu vi
Que essa minha cor
Era o vermelho.

E QUANDO ACORDEI
Do primeiro sonho
Voltei a sonhar
Que desvanecia
Nesse rosto amado 
E logo lhe disse,
No segundo sonho,
Que a tinha sonhado.

DISSE-ME QUE NÃO
Que nunca me vira
Sequer acordado
E logo acordei
Desse pesadelo.

FOI ASSIM QUE VI
Que tinha sonhado
E que ela
Já lá não estava
Ali, a meu lado.

QUIS ADORMECER
Para a encontrar
Mas não consegui
Sonhar que a via,
Pôr os olhos nela,
Chorar d’alegria
Porque descobri
Na minha parede
Aquela aguarela
Que do sonho
Passado
Eu já conhecia...
.....................
Era o rosto dela!
ORetrato1108_FinalpsdR

“O Retrato”. Detalhe

ELAS FOGEM, AS PALAVRAS…

Poema, em dois andamentos, 
de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Letras”. Original
de minha autoria para este poema.
Agosto de 2019.
Palavras0308

“Letras”. Jas. 08-2019

POEMA – “ELAS FOGEM, AS PALAVRAS…”

I.

QUERIA FAZER-TE
UM POEMA,
Sentir-te nele
À vontade
E as palavras
Endoidaram
Quando,
Feliz,
Lhes falei
Da minha
Quente
Saudade.

FUGIRAM
Numa revolta
Sentida
Sem conhecer
A verdade
Deixando-me
Só,
Sem palavras,
À deriva,
Sem dó
Nem piedade...

EU ESTAVA
A MENTIR
Sem pensar
Na crueldade
De as usar
Como queria
Só porque
Tinha saudade...

ESGUEIRARAM
RUA FORA,
Cada uma
Por seu lado,
Em fugas
No horizonte
Deste poema
Tentado...

SÓ JÁ AS VIA
AO LONGE,
Ao fundo
Da tua rua,
Num ponto
Do infinito
Desta minha
Alma nua.

UMAS
ESVOAÇAVAM
No fio
Do horizonte,
Outras
Aninhadas
No passeio...
...................
E eu a tentar
O versejo
Capturado
No enleio
Desta prisão
Do desejo!

PALAVRAS
EM CORRERIA,
Letras
Perdendo forma
Como fios
De novelo
Já desfeito
De sentido
Como a água
Do gelo...

SÂO FIOS
EMARANHADOS,
Letras
Que se deslaçam
E procuram
Outras formas
Para lá da minha
Rima,
São riscos
Na tua tela
A subir
Por ela acima...

II.

QUERO FAZER-TE
UM POEMA
Com palavras
Desenhadas,
Mas elas fogem
Pra longe,
Correm, correm,
Assustadas,
Não vá mesmo
Ser verdade
Que as quero
Alinhadas
Neste recanto
Feliz
Onde resisto
À saudade.

ELAS GOSTAM
DE CANTAR
Esta minha
Triste dor
E gostam
De me dizer
Em intensa
Emoção,
Mas se me vêem
Feliz
Fogem de mim,
Dizem “não!”

O POEMA
PASSARINHO
Procura-te
Para cantar
Mas se já
Não sentes nada
É ele que foge
A voar...

E HOJE
É mesmo assim
Fogem todas
As palavras
Sem procurar
Um destino,
Já não consigo
Agarrá-las
Num poema
Genuíno...

NÃO SABEM
Da minha dor
E por isso
Vão embora
Estou sem palavras,
Amor,
Estou muito triste,
Agora!
Palavras0308Rec

“Letras”. Detalhe.

NEBLINA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “S/Título”. Original
de minha autoria para este poema.
Julho de 2019.
Jas. S:título

“S/Título”. Jas. 07-2019

POEMA  – “NEBLINA”

OUÇO O SILÊNCIO
Que me cerca
O corpo
E a alma...

ADENTRO-ME
Na multidão
Rumorosa
E ele cresce
Sobre mim,
Ensurdece-me
Por dentro!

MAS É DEMAIS,
Caustica-me
A pele
Macia das 
Recordações,
Faz-me
Zumbidos
Na alma,
Assobia
Como silvo
Do vento
Nas janelas
Da emoção,
Escuro
Em dias
De tempestade.

OUÇO
A palavra
Silêncio
Tonitruante
Dentro de mim...

HÁ TROVÕES
Silenciosos
Que me assaltam
E fujo
Para o ermo,
Lá em cima,
Solidão de
Eremita
Procurando
O silêncio
Que cobre
O nome
(Tão simples)
Que nunca
Ousaste
Pronunciar...

E O SILÊNCIO
Torna-se
Melodia,
Ouço uma harpa
Dedilhada
Por ti,
Notas musicais
Esvoaçando
No teu azul
De catedral.

VEJO-TE SAIR
Da densa neblina
Que te veste
E cubro-me de
Palavras
À procura
De autor
Que as componha
Num poema
Que te cante
E que te conte...

NOMEIO-TE
Em silêncio
E sussurro
Uma pequena
Palavra
Que nunca ousei
Dizer-te
Mas que ouviste
Ressoar-te
Na alma
Mil vezes!

O SILÊNCIO
Tomou conta de nós
E eu não sairei
Deste poema
Até que me ouças
E soletres
Finalmente
O meu nome
Com as cores
Da tua fantasia.
Jas. S:títuloR

“Sem/Título”. Detalhe.

CANTA, POETA, CANTA!

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Auto-Retrato de um Poeta". 
Original de minha autoria. Julho de 2019.
Jas_AutoR210719Boca

“Auto-Retrato de um Poeta”. Jas. 07-2019

“Ora al nuovo sole si affidano i nuovi germogli” 
Virgílio

POEMA – “CANTA, POETA, CANTA!”

CANTA, POETA, CANTA
Até que ela
Te ouça,
Nem que a palavra
Te doa
E a alma
Estremeça.

CANTA, POETA, CANTA
Que o teu poema
Tem dor
Que te baste
No amor
E tem cor
Que alumia
E tem sabor
A cerejas
Que as dá
A Primavera.

SE NO CANTAR
Tu quiseres
Atingir o infinito
Salta pra cima
Dum risco,
Agarra asas
De azul
E voa
Nesse teu céu
Até que ela
Te veja,
Te pinte
Numa cereja
E murmure
Este teu nome
Em silêncio
De igreja...

CANTA, POETA, CANTA
Que o teu cantar
É meu choro
E é água
Cristalina
Que corre
Lesta
Em seu rio
À procura de beleza
Num infinito
Adeus
Beijado
Pela tristeza.

CANTA, POETA, CANTA
Que contigo
Cantarei
A alvorada do dia,
Chora, que eu
Chorarei
Se não houver
Alegria,
Ri, que
Eu sorrirei
Animado por teu
Riso
E para ti
Dançarei
Uma valsa
De Strauss
Às portas
Do Paraíso.

CANTA, POETA, CANTA
Até que ela
Te ouça,
Não pares
De chorar alto,
Na montanha,
No planalto,
Num poema
Ou num desenho,
Numa cor
Em aguarela,
Afagado
Pela dor
De não a veres
À janela.

CANTA, POETA, CANTA,
Para ti
E para o mundo
Que o teu cantar
Enobrece
Quem ouvir
A tua prece,
Quem sentir
O teu lamento,
Que de ser
Já tão profundo
Não o leva
Nem o vento
Pois em ti
Ele entardece.

E SE O VENTO
O levar
Vai procurá-la
A ela,
Dobra lento
A esquina
Pra que a vejas
À janela
Num dia que 
É de festa
Sem cortinas
No poema...

MAS SE O VENTO
Não soprar,
O lamento
 Lá regressa
Ao poeta
Que o cantou
Pois não era
Dele o dia
Mas de quem
O castigou...

CANTA, POETA,
Canta
Que um dia há-de
Ouvir...
...................
Deixa, pois, que o
Tempo passe,
Que a razão
Se esclareça
E confia no porvir...

 CHORA, POETA,
Chora,
Neste teu
Entardecer
Aqui tão perto
Da arte
E saudades
De morrer...

CHORA, POETA, 
Chora,
Até que rompa
A aurora
Deste longo
Anoitecer...
Jas_AutoR210719BocaR

“Auto-Retrato de um Poeta”. Detalhe.

O BRINCO

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Brinco de pérolas e cristais”. 
Original de minha autoria para este poema. 
Julho de 2019.
BrincoJas12

“Brinco de pérolas e cristais”. Jas. 07-2019

POEMA – “O BRINCO”

VI-TE TRISTE
Naquele dia,
Rosto quieto,
Melancolia,
Olhar
Perdido,
Levemente
Embaciado...

NÃO SEI...
Era versátil
O teu rosto,
Bebia cores
Que se aninhavam
Na pele macia
Que a luz
Interpelava
(Cada dia)
Como pincel
Sobre tela
De veludo
(E bem se via).

TEUS OLHOS
TRISTES
Respondiam
Em metamorfoses
De brilho,
Ecos
Da natureza,
Raios de luz...

 E MEUS OLHOS,
Seu espelho,
Devolviam-lhes
Cor incerta,
Reflexo
De alma
A vaguear
Pelas mil
Dobras
Da vida,
À procura
De destinos
Em gestação...
..............
Aconchego
De alma
Itinerante!

 GANHARA VIDA
Esse brinco!
Desprendera-se
De um rosto
Que o pintor
Esculpira
Com as cores
Do desejo
Cristalizado
Pelo silêncio
Frio
Da tela.

ESTAVAS TRISTE
Nesse dia,
Sulcos marcados,
Peso na alma,
Sinais selados…

POUSARA EM TI
Esse brinco
Como sinal
Cravejado
De cristais,
Vindo de um longo
Silêncio,
Quase Irreal,
Agora resgatado
Com diamantes
Em mulher
Madura,
Olhar fatal...

CRISTAIS
Sobre mim...
...............
Código exposto,
Encontro
Casual,
Silêncio
Resgatado
Com brinco
Sensual
Em rosto
Pela tristeza
Toldado...

 ÉRAMOS DOIS
E o brinco
De cristais
Que em ti
Renasciam
Como sinais...

QUIS DESENHAR-TE
Num poema...
........
Olhei,
Marquei,
Tracei,
Era pintor
De metáforas
Com palavras
Roubadas
Ao silêncio...

ERA OUSADA,
Bem sei,
A poética
Que te compunha
Como breve,
Mas intensa
Sinfonia...

AH, MULHER,
Como te sonhei
Nesse dia!

UM
Dois,
Três,
Regressei
De vez
À rapariga
Do brinco
Original
Em mulher
Madura
E essas pérolas
Irreais
Eram pêndulo
Do tempo
Resgatado...
............
Tic, tac,
Tic, tac,
.............
A marcar
O ritmo
De uma valsa
Lenta
Para dentro
De ti,
Um sonho
Escrito
Com as palavras
Do desejo...

A CADA COMPASSO
Era mais belo
Esse brinco,
Brilhava
Como pérola
Em coral
De águas
Profundas,
Alegoria
Seminal
Que iluminava
Tua alma triste
E o perfil
De teu corpo
Humedecido e
Abandonado
Às mãos
Livres
Do poeta...

HAVIA PÉROLAS...
.................
E acariciavam,
Ondulantes,
A sensualidade
Aveludada
De teu rosto
Sobre mim...

 PENDULAR,
Esse brinco
Ecoava
No tempo
E renascia
Em ti...
...........
Tic, tac,
Tic, tac,
............
Em ritmo
Vital
E ofegante
Como se fosse
Estrofe
Oscilante
(Tic, tac)
Do breve
Poema
De tua vida!

BrincoJas12Rec

“Brinco de pérolas e cristais”. Detalhe.

O BEIJO

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração original do autor – “O BEIJO”. 
Dia Internacional do Beijo: 6 de Julho, 
o dia que celebro, com um poema, cada ano. 
Inspirado no Thomas Mann de “Lotte em Weimar” 
(1939), a obra que continuou "Werther” (1774), 
de Goethe (1749-1832), e no romance 
“Via dei Portoghesi”.
O_Beijo03_0607_2Publicada2019_1

“O Beijo”. Jas. 06-07-2019

Thomas Mann:
“O amor é o melhor na vida, assim, no amor, o melhor é o beijo – 
Poesia do amor...”. “Beijo é alegria, procriação é luxúria.”

Inspirado também em:

Kafka:
“Os beijos escritos não chegam ao destino, mas são bebidos pelos 
fantasmas ao longo do trajecto.”

Shakespeare:
Se para te beijar devesse, depois, ir para o inferno, fá-lo-ia. 
Assim, poderia vangloriar-me, com os diabos, de ter visto o paraíso 
sem nunca lá ter entrado.”

 Bernhardt:
“O primeiro beijo não é dado com a boca, mas com os olhos.

POEMA – “O BEIJO”

FOI O QUE NUNCA TE DEI
A não ser com o olhar!
O primeiro, esse beijo,
Dei-to, pois, sem te tocar!

E DEI-TE MAIS, COM PALAVRAS,
Quando olhar já não podia,
Foste embora, não estavas
E eu, triste, não te via!

FORAM BEIJOS QUE SONHEI
Na rotina dos meus dias
E desejos que enfrentei
Quando tu mais me fugias,
Mas dou-te beijos escritos
Que se perdem no caminho
E se me falta o poema
Fico ainda mais sozinho!

O BEIJO É EMOÇÃO,
É razão descontrolada,
Se não for dado a tempo
Pouco mais será que nada!

SEM BEIJO NÃO HÁ AMOR,
Sem amor perde-se o beijo,
A vida perde sentido
Se me faltar o desejo
Por te ter, assim, perdido!

AQUI O LANÇO AO VENTO
Pra que atinja como brisa
E suave melodia
Esse rosto que precisa
De afecto em poesia!

ESSE BEIJO QUE ME FALTA
De que nunca fui capaz
Voa pra ti em palavras
Põe-me sereno, em paz
E desejo que, no trajecto,
Voe, voe em grande altura,
Que fantasmas não o bebam
E minha dor tenha cura.

MAS SEI DOS ESCOLHOS DA VIA,
Dos perigos que ele corre,
Capturado por fantasmas
É mensagem que me morre!

NO DIA DO BEIJO É HORA
De te cantar em voz alta
A poética do amor
Pra redimir essa falta
E pôr fim à minha dor.

E PORQUE O DIA É TEU
Ganha força,
Intensidade...
........................
Mesmo que fantasmas
O bebam
É um beijo de verdade!

ESSE BEIJO QUE NÃO DEI
Foi pecado original,
Hei-de sofrê-lo pra sempre
Como chaga corporal.

NÃO HÁ PALAVRAS QUE BASTEM
Pra repor o que não dei
Elas voam, mas não chegam
E mesmo assim eu tentei...

É CERTO QUE SEMPRE O QUIS,
Só que nunca to roubei,
A culpa foi desse tempo,
Dos dias em que te amei,
Um tempo em diferido
Sem presente nem futuro,
Talvez beijo sem sentido
Porque queria do mais puro,
Tangendo eternidade
Às portas do Paraíso,
Um beijo de divindade,
Mas simples
Como um sorriso!

ESSE BEIJO IMPOSSÍVEL
Que não é do foro humano
Vou tentando construí-lo
Cada dia, cada ano,
Perdendo-me pelo caminho
Como sagrado em profano!

NoiteFinal1403R

ARLEQUIM

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Máscara”.
Original de minha autoria. 
Reproposição com ajustamentos 
no poema e na pintura. Junho de 2019.
Mascara17022019Final290619jpg2

“Máscara”. Jas. 06-2019

POEMA – “ARLEQUIM”

COMPREI UMA MÁSCARA,
Pu-la no rosto do
Meu amado poeta
E ele não a 
Enjeitou.
Ainda por cima
Me disse:
“- Sou eu, sou,
Como nas palavras
Que digo
Também meu rosto
Mudou.

NÃO ESPERAVAS
Ver-me assim!
Vá, confessa
O teu espanto!
Luzinhas na minha
Cabeça,
Rosto tão
Desfigurado,
Cor, tanta cor
(A que apeteça)
Pra sufocar
Esta dor,
Sempre que ela
Apareça
A pedir o meu
Cuidado.

ADOPTEI ESTA FIGURA,
Apresento-me assim,
As outras
Nada te dizem,
Com esta
Olhas pra mim!

PALHAÇO
É O QUE SOU,
Falo a
Surdos e mudos
Que não ouvem
O que digo
Nem me dizem
O que quero
Como se fosse
Mendigo
Do que, afinal,
Nem espero.

VALHA-ME POIS
ESTA MÁSCARA!
Assim rio
Desta vida,
Rio de ti
E de mim,
Da chegada
E da partida,
Dos abraços,
Das palavras
E também da
Despedida!

SOU PALHAÇO,
É o que sou,
Entretenho-me
A cantar
E se ouvires
Este meu canto
Arlequim
É seu autor,
Por isso tu
Não t’importes
O que diz
É de certeza
Pra espantar
Sua dor!”

A MÁSCARA
É o seu rosto,
Colou-se-lhe
Logo à pele
Com a cola
Do desgosto
E por isso
Já nem sabe
Se seu rosto
É o dele.

COMPREI UMA
MÁSCARA
Luminosa
No mercado
Da minha vida
Ponho-lha sempre
Que posso,
À chegada
E à partida.

NUNCA LHA TIRO,
Ao poeta,
Que rasgo a sua
Alma,
Pois se o canto
O liberta
É a máscara
Que o salva!
Mascara17022019Final290619jpgRec

Máscara”. Detalhe.

NOSTALGIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Nostalgia”. Original
de minha autoria. Poema inspirado no Romance
"Via dei Portoghesi", que será lançado na próxima 
Quinta-Feira, 27 de Junho, na Sala do Arquivo 
da Câmara Municipal de Lisboa, Praça do Município, 
às 18:30. Junho de 2019.

Convido hoje o leitor a ler também o meu Ensaio 
"A Arte, o Artista e os Outros", aqui em link:
https://joaodealmeidasantos.com/2018/08/24/ensaio-5/?fbclid=IwAR1UqXBHq-FMQBEd5hPrZYvVTpNnMYDJQ078xuo_KVL4c7-iyE2HUuaM1HQ
JAS_Nostalgia_2206_1

“Nostalgia”. Jas. 06-2019

POEMA – “NOSTALGIA”

RÁPIDA COMO O VENTO
Passou por mim
Esta palavra saudade
Numa rua do meu bairro
Sob o céu desta cidade.

GRAVEI-A
Na minha mente,
Evoquei-a
Ao crepúsculo
Com incerta
Nostalgia...
...................
Não queima tanto,
Esta palavra,
Porque a sinto
Mais fria!

COM CESÁRIO
(De quem gosto)
Dei-lhe cor,
Cantei-a
Com a pintura,
Dei-lhe vida
Num romance,
Tento tudo,
O que não posso,
Porque esta dor
Me perdura...

DA SUA COR
Vejo o mundo,
Com palavras
A recrio,
Procuro sempre
O seu rosto...
...................
E por mais longe
Qu’esteja
Eu não me sinto
Vazio.

A DOR 
Desta saudade
Alimenta-me
A alma
E aquece a minha
Vida
E assim eu vou
Vivendo
Em eterna
Despedida,
Neste cais
Que não tem fim,
Em partida
Que não há,
Um adeus que não
Existe,
Porque tu
Nunca saíste
Deste meu
Lado de cá.

MAS HÁ SEMPRE
Esta saudade
A que chamo
Nostalgia,
Uma tristeza
Feliz
Que eu sinto 
No labor de
Cada dia.

NÃO TE TENHO,
Mas não te perco,
Estás longe,
Perto daqui,
Não te encontro
Nem te vejo,
Mas sei que não
Te perdi...

INSPIRA-ME, 
A nostalgia...
......................
Recrio-te em cada
Instante,
Sou poeta,
Sou pintor
E também sou
Arlequim,
Por isso vejo
O teu mundo
A partir dum
Camarim!

ESCULPO
Teu rosto
Com palavras
Do meu peito,
Pinto a alma
Com a cor
Da tua voz,
Voo contigo
Em sonho,
Banho a alma
No dourado do 
Teu rio
Pra chegar
À tua foz.

TENHO COMIGO
PINCÉIS
E as asas
Do poeta,
Danço,
Sou arlequim,
Pinto-me nesta
Ribalta
Com as cores
Que vês
Em mim!

SEM TI
NESTA RUA
Da saudade
Sou palhaço
Em camarim
Que maquilha
O seu rosto
Num palco
Que não tem fim,
Representa
Para ti
Sem saber
Se lá estás,
A verdade
Não lh'importa,
É feliz com
O que faz!

ASSIM VIVE
O ARLEQUIM...
........................
No palco da sua vida
É só arte
O seu fazer,
As dádivas que ele
Te entrega
São um modo
De viver!
JAS_Nostalgia_2206_1Rec

“Nostalgia”. Detalhe.

DISSERAM-ME, UM DIA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Inscrições na Pedra”.
Original de minha autoria para este poema.
Junho de 2019.
GranitoTrab3Exp

“Inscrições na Pedra”. Jas. 06-2019

POEMA – “DISSERAM-ME, UM DIA…”

DISSERAM-ME,
Um dia, 
Que te viram
Sozinha
E melancólica, 
Sentada
Numa pedra
De granito...
...Amarelo,
Luminosa de  
Cristais,
À sombra
Duma figueira
E já nem sei,
Nem sei que mais...

DISSERAM-ME
Que foi
Lá em cima
No Monte
Sagrado,
Como se tivesses
Perdido
Uma parte de ti
E a chorasses
Em solidão,
Invocando a bela
Athena,
Essa deusa 
Que t'inspira
E te leva 
Pela mão...
 
DISSERAM, SIM,
E cantaram-te
A beleza triste,
A nostálgica
Melancolia
Espelhada
Em teu rosto,
Na turbação 
Desse dia...

E EU, ENTRISTECIDO,
Voltei
A imaginar-te
Projectada
Em mil rostos
Desenhados
A carvão,
Em flores
De cor intensa,
Bem pintadas  
A pastel,
Em planos de
Infinito
Desenhados 
No papel...

E VI-TE
A vaguear
No tempo,
Nos confins
Da memória
Com olhos
De fantasia
À procura
Da beleza
Que tens inscrita
Na alma,
De tua arte
A magia.

MAS EU VI
O mundo
Desabar
Sobre ti,
Rasgar a folha
Branca e macia
Onde desenhavas
O futuro
Com mestria,
Estilhaçando
A ténue luz
Que te alumiava
De perto,
Como por encanto,
O destino...
...................
E até a tua 
Serena alegria!

NÃO DESTE CONTA,
Bem sei,
Mas agora
Sentes-te um pouco
Às escuras,
O sol do Monte
Esgueirou-se
Para outras paisagens,
A poente,
E à noite
A lua-cheia
Da praia
Da meia-lua
Já só brilha
Intermitente...

NEM SEI COMO
Dizer-te,
Num poema
Ou num quadro,
Que a arte
Só vive
De liberdade,
Desnuda-nos
A alma toda
Como luz que nos 
Invade!

AGARRA, ENTÃO,
O vento
Que te sopra
Dentro,
Desnuda-te
E voa nele
De novo
Em direcção ao
Infinito,
Reinventa-te
Em azul
E grita ao mundo,
Lá de cima,
A arte que levas
Dentro de ti,
Grávida
Dessa beleza
Onde, nos meus poemas,
 Eu sempre, feliz, 
Renasci.

AH, COMO GOSTARIA
De voar de novo
Contigo
Agarrado a palavras
Deslaçadas
Em mil fios
Coloridos,
Cansado que estou
De voar sempre
Sozinho
Para não te perder
De vez
Nesta inóspita
Esquina
Do meu caminho...
................
Mas talvez seja
Tarde demais
Para apagar
Esta melancolia
Que me corrompe
O entardecer
De cada poema
E a sua melodia...
GranitoTrab3ExpR

“Inscrições na Pedra”. Detalhe.

EM CERTOS DIAS…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Beija-Flor em Magnólia Branca”. 
Original de minha autoria para este poema. 
Junho de 2019.
Magnolia3Final0706

Beija-Flor em Magnólia Branca”. Jas. 06-2019

POEMA – “EM CERTOS DIAS…”

EM CERTOS DIAS,
Teu macio rosto 
De veludo
Alterna
Entre suave doçura e
Vincos marcados
Como sulcos,
Aspereza de
Sensualidade
Sustida 
À flor da pele
Para que não
Transbordes
Em excesso
De ti.

COMO SE FOSSES DUAS
MULHERES,
As faces de Janus,
Decidida
E evasiva,
Passado e futuro,
Espartilho
Que quase anula
O teu fértil
Húmus anímico
Que remotamente 
Te inspira,
Desde a raiz.

MAS TU ÉS UMA SÓ,
Aquela que
Ficou
Sentada
Na soleira da tua
Alma
Quando, em solidão,
Saíste, decidida,
 Para a rua
Da tua vida
À conquista
Do mundo...

ACORDA, MULHER,
Vai à procura
De ti
Na fronteira
Do teu destino,
Olha o mundo
Da janela,
Mas sai
Pela porta da tua
Alma
De braço dado
Com o sol que 
Tantas vezes 
Te ilumina
O olhar
Com as cores
Do arco-íris.

HÁ TANTAS MAGNÓLIAS
(Como tu)
No meio do caminho
Da tua vida
Que basta olhá-las
Pra que ela
Te sorria.

AH, NÃO SABES
Quanta metafísica
Há numa magnólia
Branca!
Fala-lhe com os teus
Olhos,
Acende-a com
Teu sopro quente,
Acaricia-a com
Mãos macias
E verás que ela
Te apontará o caminho
Do reencontro
Contigo
Na brancura
De suas pétalas.

E VERÁS TAMBÉM
Que tu vives,
(Como eu)
Num intervalo entre ti
E o mundo
De onde te podes
Reconhecer 
No regresso
À tua soleira vital,
Para repartires
Aconchegada,
Contigo no regaço.

NA FRONTEIRA
- Sabias? -
Vemos melhor
Para dentro
e para fora
De nós,
Vemos 
Os demónios 
E os anjos...

VÁ, CANTA A VIDA
Com teus olhos,
Demora-te um pouco
Na janela sobranceira
Do teu íntimo
A ver passar
Aquela que já
Não queres ser
Porque apaga
O rasto do teu
Acontecer...
....................
E sai com o vento
Pela porta do
Teu destino.

E VAI AO JARDIM
Falar com as magnólias
E come chocolates
E canta
E dança
E grita se for preciso
Até que o eco
Te devolva
Identidade
E teus olhos
Se cubram
Daquele verde
Que nasce nas
Encostas,
Nos verões
Das nossas vidas,
Quando o sol
Já brilha no horizonte...

MAS BRILHA?
- Perguntarás.
E eu digo-te 
Que sim
Se o brilho 
Se acender também
No teu inquieto
Olhar!
MagnoliaRec

“Beija-Flor em Magnólia Branca”. Detalhe.

AH, PASÁRGADA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Idílio em Pasárgada”.
Original de minha autoria para este poema.
Um diálogo em poesia com Manuel Bandeira
(“Desencanto”; “Versos escritos na água”; 
“Renúncia" - Manuel Bandeira, Obras Poéticas. 
Lisboa, Minerva, 1956, pp. 33, 40, 101). 
Junho de 2019.
Pasargada29052019Final

“Idílio em Pasárgada”. Jas. 06.2019.

“POEMA: “AH, PASÁRGADA…”

“OS POUCOS VERSOS QUE AÍ VÃO,
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.” (M.B.)

OS MUITOS VERSOS 
Que te dei
Transparecem 
No que eu sou.
Se me leres 
Saberás
Que não pequei
E que é tanto
O que agora 
Eu te dou.

“NELES PORÁS TUA TRISTEZA
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...”

BELEZA 
Que desenhei
Sempre contigo,
Mas em tristeza 
E tanta dor 
Como castigo.

EU CANTO
O que perdi
P’ra que o verso
Vá ter contigo
Lá onde estejas
Queira o vento
Ser meu amigo
Mesmo que tu
Nunca me vejas.

“QUEM OS OUVIU NÃO OS AMOU
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.”

NÃO OS AMOU
Mas foi verdade
Este amor 
Que aqui nasceu
E que cantei 
Em liberdade
Em versos 
Que o vento
Já me levou
Dos muros 
Desta cidade.

OUTROS FARIA
Se pudesse
Para os pôr 
Na tua mão,
Não pediria que 
Os sonhasses,
Olhos cerrados,
Mas que os lesses 
Por afeição.

AH, MANEL,
Que bem me sabe
Pôr a dor 
Em poesia,
Em versos
A emoção,
No cantar 
Triste alegria
De tão intensa
Ser a paixão
Mesmo que seja
Apenas
Doce utopia
Ou singela
Ilusão.

DIZES TU,
Em poesia,
Que só a dor
Te enobrece.
É bem verdade, 
Meu bom poeta,
Alma dorida 
Logo me aquece
E com seus versos 
Entretece
O que a paixão
Já tanto afecta.

“A VIDA É VÃ COMO A SOMBRA QUE PASSA...
Sofre sereno e de alma sobranceira,
Sem um grito sequer tua desgraça.

ENCERRA EM TI TUA TRISTEZA INTEIRA.
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...”

POIS TENHO MEDO,
Ah, meu irmão, 
Que a dor 
Me passe,
Perca o poema 
Sua raiz,
Essa, sim, 
A verdadeira, 
E eu fique só 
Já sem palavras
E caiam secas 
Todas as rosas
Que me povoam
Esta roseira.

SOBRAM ESPINHOS,
Ferem-me a alma
E saem versos
E cai o sangue
“Gota a gota,
Do coração”,
“Volúpia ardente” 
Já sem remédio
“Eu faço versos 
Como quem chora”
E chamo a dor
Naquela hora
E ela vem
Por compaixão!

AH, POETA,
Ah, meu irmão,
Tu fazes versos 
“Como quem morre”
E eu procuro
Neste meu canto
O seu perdão.

TU, MANEL,
És o poeta
E a bandeira
E ela é
O meu refrão,
P’ra mim és verso
No meu poema
E ela é,
Na minha alma,
Esta paixão!
Pasargada29052019FinalRec

“Idílio em Pasárgada”. Detalhe.

ENCONTREI-TE NESTA RUA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: Capa do Romance “VIA DEI PORTOGHESI”,
sobre desenho original de João de Almeida Santos, autor.
Poema inspirado neste Romance,
que estará nas livrarias e nas grandes superfícies
no próximo dia 18 de Junho.
Editora Parsifal. Lisboa. 2019.
K_ViaPortoghesi_alta

Capa do Romance “Via dei Portoghesi”. Pintura original de JAS. 05-2019

POEMA – “ENCONTREI-TE NESTA RUA…”

ENCONTREI-TE NESTA RUA
Levemente curvada
Sob o peso da tua
Persistente
(E sedutora)
Melancolia...

 UM OLHAR
Invisível
Seguia
O teu rasto,
Por incontida
Paixão,
Na rua
Do desencontro,
Dos olhares cruzados,
Incertos ou
Dissimulados,
Inundados de
Lágrimas secas
Expulsas
Pela dor
Nostálgica
E profunda
De almas 
Em ferida.

MAS É A NOSSA RUA,
Não é?
Lugar vital
De tristes desacertos,
Vereda estreita,
Inacabada,
Destino
Traçado
Pelos deuses
Como castigo
Sei lá do quê,
Curva apertada
Da vida
Sobre abismo
Vertical
Que ameaça
Engolir-nos
No nada.

AH, EU SINTO
VERTIGENS
Ao passar na nossa 
Rua!
Estou sempre 
À beira de cair 
No precipício
Quando que me 
Cruzo contigo
Que seja 
Apenas na
Memória deste lugar
Que me atrai
Como laço
Nunca deslaçado
Porque nunca
Cumprido.

ESTA É A RUA DO
Meu abismo,
Atracção fatal
Das margens
Dos meus dias
Para um passado
Que me devora
Inexoravelmente
O futuro,
Sem compaixão...

EU GOSTO
DESTA RUA,
Estou sempre 
A celebrá-la
Com poemas,
Em exorcismos
Salvíficos
E consoladores,
Atraído
Por ela
Como se fosse
A nascente do meu
Incompleto 
E melancólico
Viver...

MESMO QUANDO NÃO ESTÁS
(Nunca estás, 
Eu bem sei)
Nela, tropeço
Em ti,
Seguro-me
Para não cair
Em mim
E sigo em frente
Até à esquina
Onde, contigo,
Me cruzava,
De uma certa forma,
Com o implacável
Mundo
Que nos era 
Friamente hostil.

É A RUA DO DESENCONTRO
Porque foi nela
Que te encontrei,
Trocando
As voltas ao destino
E seguindo em frente,
A teu lado,
Por algum tempo,
Até que te perdi
O rasto
Numa curva
Perigosa
Desse desfiladeiro
Da tua vida
Que ameaça sugar-te
Para um vazio
Profundo...

MAS AGORA VISITO-TE
Em lugares
Imateriais
Onde te procuro
E recrio 
Na esperança de
Um dia,
Inesperadamente,
Te ouvir dizer
De novo: “Olá!”...
................
E não seja
Tarde demais!
K_ViaPortoghesi_plano

Plano da Capa do Romance.

A JANELA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Onde te vejo”. Publico hoje, 
em reposição, mas juntando um poema (de Dezembro de 2017) 
e um quadro, ambos de minha autoria, 
que foram executados para momentos e referentes diferentes: 
“A Janela” (ligeiramente retocado) e “Onde te vejo”. 
Este é o único poema que, até hoje, 
publiquei onde o sujeito poético é uma mulher. 
Dadas as suas características, fortemente rimáticas, 
não fiz versão áudio.
OndeTeVejo3103Final

“Onde Te Vejo”. Jas. 03-2019

POEMA - "A JANELA"
NOS VIDROS
Desta janela
Se espelha
Todo o meu ser,
É neles que
Eu te revejo
Quando deixo
De te ver.

DA JANELA
Vejo o mundo
E o mundo
Vê a janela,
Debruçada
No parapeito
Olho o céu
E olho a rua
Para ver
Se passas nela...

NOS VIDROS
Desta janela
Há reflexos
Da vida
Olho p’ra eles
Pensativa
E não me sinto
Perdida
Se puder
Falar contigo
Quando te vir
De partida...

NOS VIDROS
Da minha janela
Se espelha
Todo o teu ser
Quando passas
Nesta rua
E me sinto
Estremecer
Da falta que tu
Me fazes
Por ainda
Não te ter.

SE TE AFASTAS
Da janela
E vislumbro
Silhueta
Lá ao fundo,
Longe dela,
Eu sofro
Por te perder...
..........
É uma dor
Tão profunda
Que logo
Se me revela.

VOA P’RA LONGE
Essa tua
Silhueta
Que s’esgueira
Na esquina
Como se fosse
Cometa
A passar
Na minha rua...
..............
Mas também eu
Me diluo
E me sinto
Um pouco nua
Na imagem
Transparente
Dos vidros
Desta janela
Como se fosse
Já tua.

FOSTE EMBORA
Do meu mundo
Onde eu
Te queria ter
Ao alcance
De um olhar
Para nunca
Te perder...

MAS NÃO DEIXEI
A janela,
Esperei sempre
Por ti,
Hora-a-hora,
Dia-a-dia,
Até que, por fim,
Eu te vi.

VI-TE
Da minha janela,
Desenhei-te
Com alma
E olhar
De devoção,
Pintei-te todo
A vermelho
Na cor da minha
Paixão...
................
Mas mesmo assim
Tu partiste
Sem me dar
A tua mão.

DA JANELA
Sempre te vejo,
Mesmo ausente
Da nossa rua,
Nos vidros
Fica imagem,
Perfeita
Como a tua,
Mas é sempre
Transparente
E não lhe posso
Tocar,
Guardo-a, então,
Com ternura
No meu inocente
Olhar.

E GOSTO
Da primavera,
Confundir-te
Com aromas
Que me chegam
À janela,
Anunciando
A chegada
Do melhor
Que sinto nela.

A JANELA
Não tem cortinas
P’ra te ver
Na nossa rua,
Ver-te chegar
E partir,
Ficando um pouco
Mais nua,
Querer que
Me vejas
Assim
Tão brilhante
Como a Lua...

AH, QUANTAS VEZES
Eu desci
Da janela
Para a rua...
...............
Olhava de baixo
P’ra cima,
Mas eu nela
Não me via,
E, assim,
Não era tua.

O MEU MUNDO
É a janela,
O da rua
É o teu,
É dela que
Eu te vejo,
Na rua
Já não sou eu.

DA JANELA
Do meu mundo
Olho p’ra ti
Com calor,
Sem ela
Eu não te sinto,
Fica um muro,
Meu amor!
A Janela_OndeTeVejo3103FinalRecorte

“Onde te vejo”. Detalhe.

O BENFEITOR

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Um homem das arábias”.
Original de minha autoria para este poema.
Maio de 2019.
Para ouvir a versão áudio, pelo autor, 
com música de Albinoni (Adagio), por von Karajan:

Berardo140519

“Um homem das arábias”. Jas. 05-2019

POEMA – “O BENFEITOR”

COMO TE VEJO,
Ó benfeitor,
Filho dilecto
 Da tua Ilha,
Nosso Jardim!
Há mil quadros,
Rara beleza,
Espelhos do teu
Amor,
Todos pra mim,
Aqui tão perto,
À minha beira...
..................
Sinto-me rico
De tanta cor
No ouro das molduras  
De madeira!

COMO TE SINTO,
Meu benfeitor,
Sempre de negro,
Artista grande
Que nem Dali,
Noites d’inverno
Onde o escuro
É a beleza
E o dinheiro
(Que foi pra ti)
O meu inferno!

VERMELHO E NEGRO,
Como Stendhal
Ou Julião
(Tens o Sarmento...),
De coração
A palpitar
(Sem um lamento).

A TUA VIDA
É um natal,
Com tantas prendas
Dos teus banqueiros...
Mas a minha
É tempestade
Com aguaceiros,
Sempre a pagar...
.................
É natural!

DA ARTE TU ÉS
O Mago,
A colecção 
Vai aumentar,
Banqueiro dá,
Finge qu'empresta,
É aos milhões,
Mas logo chega 
O meu castigo...
.................
É sempre assim,
Sempre a cobrar
(Põe-me mendigo)
O que pra ele
São só tostões...

EU GOSTO D’ARTE
Da que eu faço,
Sem a vender,
Nem a comprar,
Mas vou ao banco
(Vou muitas vezes),
Acerto o passo,
Eu tenho contas
Para pagar.

O MEU PAÍS
É muito culto,
Jeff Koons
Lucio Fontana,
Henri Michaux,
Mas no balcão
(Não sei porquê)
O meu banqueiro
É um sacana...
...................
Foi sempre assim,
Vem do avô!

ANSELM KIEFER,
Gerhard Richter.
Frank Stella...
É muito bom!
Pois tem de ser
Se o banqueiro
Olha pra ela,
(Prà colecção)
Fica pasmado
Com tanta arte
E dá-lhe tudo
Por gratidão!

E DUBUFFET,
Não gostas dele?
Morris Louis
Piero Manzoni
Georges Segal
Ou Chamberlain
É a beleza
Da colecção,
Perante ti...
Não percebeste?
Chegas e vês
Gostas e pagas,
És devedor...
...................
Não rogues, pois,
Crente da arte,
As tuas pragas
Ao benfeitor!

GOSTO DE TI,
Da tua arte,
Ficou humana
A nossa banca...
Mas sem milhões!
Que nos importa?
Temos beleza,
Temos amor...
E as nossas contas
Aos trambolhões...
Temos-te a ti,
Tão generoso...
..................
São os banqueiros
Os aldabrões.

MAS QUE M’IMPORTA,
Ó benfeitor,
Fizeste bem
Mais uma vez,
Pois ajudaste
Os teus banqueiros,
Tinham excesso
De liquidez.

GERALD LAING,
Alain Jacquet
Pauline Boty...
.................
Logo acertaste,
Ó benfeitor,
A liquidez
Ficou pra ti...
BerardoTrabR

“Um homem das arábias…”. Detalhe.

ENCONTRAR-TE NUM POEMA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “La Diseuse”. Original
de minha autoria para este poema.
Maio de 2019.
Para ouvir o poema pela voz do autor:
RostoJas0905

“La Diseuse”. Jas. 05-2019

POEMA – “ENCONTRAR-TE NUM POEMA…”

ÀS VEZES
Perco-me
Em ti
Quando te sonho
Num poema.
Ondulas
Entre tristeza
E doçura
Nos teus dias
Mais incertos,
Em momentos
De ventura!

SE ÉS TERNA,
Eu estremeço
Porque enleia,
O teu olhar!
Olhos escuros
Despontam
Da luz
No suave
Amanhecer
Quando em surdina
Me dizes
E partilhas
Esse teu 
Acontecer.

CONTEMPLO
A tua imagem,
Essa beleza
Tão pura,
Por instantes
Muito breves...
Mas logo recolho
Às palavras
Sedutoras
De tão inocente
Encanto
E de tão meiga 
Ternura...

O TEMPO
Corre sempre
Contra nós
E eu corro
Contra ele
Pra que a saudade
Não chegue
Antes do tempo
Chegar,
Pois sei
Que ela m’inunda,
Desagua
No meu rio
Para logo
Transbordar...

VIVO SEMPRE
Num intervalo
De onde nos vejo
Sorrir
 De saber
- Tu imagina -
Que nunca nos
Cansaremos
Por falta de tempo
Neste efémero
Viver
Sob esse poder
Que domina
E me impede
De te ter.

MAS PERCO-ME
No brilho intenso
Dos teus olhos
À procura dessa cor
Que desponta
Quando o sol
 Te ilumina.

SINTO CALOR
No meu peito
E procuro o teu
Regaço
Pra que me olhes
Por dentro
Nos poemas
Que te canto
E que dizes com
Fervor
Como se fosse
Um abraço.

EU GOSTO
Da doçura que te
Invade
Quando recusas
O mundo
Que te atropela
Nas curvas
Da tua vida...
................
Pra cantar
O meu poema
Porque me vês
De partida...

AH, COMO GOSTO
De te sonhar
A dizer-me
Em poesia,
É encanto,
É prazer
E é mistério...
..................
É a vida
Em sinfonia!
RostoJas0905R

“La Diseuse”. Detalhe.

SONHAR

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Sonho”. Original de minha
autoria para este poema.
Versão áudio pelo autor, tendo como fundo
o “Concerto de Aranjuez”, 
de Joaquín Rodrigo.

Para ouvir o poema dito pelo autor:
JAS_Sonho050519Pub

“Sonho”. Jas. 05-2019

POEMA – “SONHAR”

SONHEI
QUE AS PALAVRAS
Se gastaram,
Desfiaram,
Desataram,
Sobrando fios
Para tecer
O silêncio.

SONHEI
Que a tinta
Perdeu a cor,
Que não havia
Poemas
E que não era
Pintor.

SONHEI
Que não eras tu,
Que foi tudo
Uma ilusão.

SONHEI QUE TE PROCUREI
No mundo da fantasia,
Onde as flores
Caminhavam,
Sabiam a maresia,
Tinham rostos
De mulher,
Mas surdos
Ao que dizia.

SONHEI
Que não sabia
Onde estás,
O que fazes
E o que sonhas
Nas noites
Do teu luar,
O que vês
Nesses momentos
Fugazes
Em que olhas
Para ti.

SONHEI
Que já não me lês
E que não ouves
Poemas,
Que estás tão longe
Daqui...

NO SONHO
Fui à memória,
Que também
Perdeu a cor,
Ficou tudo
A preto e branco
E sonhei,
Sonhei, sim,
Que te perdi...
.................
Meu amor!

SONHANDO,
Procurei cor
Num outro
Lugar qualquer.
Só encontrei
O cinzento
E por falta
De vermelho
Meus versos
Tão desbotados
Já nem iam
Com o vento...

“FOSTE P’RA ONDE
Que eu não te vejo?”
Perguntei
Quando do sonho
Acordei.

SAÍSTE
De onde estavas
E agora resta
O desejo
De te cantar
Sem palavras
P’ra que ouças
O silêncio
Com que antes
Me chamavas.

JÁ NÃO ME CHEGAM
SINAIS,
O meu
É um poço escuro,
É buraco
Tão profundo
Que nele
Eu vou caindo
Como triste
Vagabundo...

O SOL TAMBÉM
JÁ SE FOI,
As sombras
Tomaram conta
De mim,
Meus dias
São sempre
Iguais,
Sinto um vazio
Sem fim...

MAS PINTO,
Agora pinto,
Tenho cores
E tenho aromas,
Tenho luz
E sou feliz...

AH, SIM,
Mas perdi
A minha Musa,
A fonte
D’inspiração
Foi p’ra longe
Com o vento
E em meu triste
Pensamento
Só ficou
A ilusão!

GASTARAM-SE
As palavras,
Meu amor.
Gastou-se tudo,
Afinal.
Só ficou o teu
Cinzento,
A tinta com que
Lavras
O meu peito
(Sem lamento)
E me afundas
Nesta dor,
A que canto
Em surdina
Para ouvires
O silêncio
Com que te pinto
Sem cor...
JAS_Sonho050519PubRec

“Sonho”. Detalhe.

LIBERDADE

Poema inédito de João de Almeida Santos,
escrito para a comemoração do
25 de Abril de 2019, em Portimão, 
na Sociedade Vencedora Portimonense,
pelo "Grupo Canto Renascido", dirigido pelo
Maestro António Vinagre.
Ilustração: "Liberdade". Original de minha 
autoria para este poema.
Dito, na Sessão, por Dulce Guerreiro, 
com acompanhamento ao piano.
Para ouvir o poema pela voz do autor 
e um nocturno de Chopin:
Liberdade250419Luz

“Liberdade”. Jas. Abril de 2019

POEMA – “LIBERDADE”

PERGUNTEI-TE,
Num dia
De sol:
“Voas comigo
Pra linha
Do horizonte?”
Deste-me a mão
E sorriste:
“Voo, sim,
Pois preciso
De ar puro
Lá bem no alto
Do Monte!”

E PARTIMOS.
Tu levaste
O arco-íris
Que tinhas
Dentro de ti
E eu as letras
Que tinha
Comigo,
Alinhadas
Nesta alma
Solitária
Recolhida
Em seu abrigo...

ENREDÁMOS
Todas as cores
Com linhas
De palavras
Deslaçadas,
Construímos
Asas em forma
De verso
E voámos
No céu
De um poema
Pintado todo
De azul...

ANDEI CONTIGO
Por lá
Anos a fio,
Vagueando
Ao sabor da
Inspiração,
Levados
Pela brisa
Que sopra fria
No Monte,
Mas afaga
O coração.

E COMO GOSTEI
De voar contigo,
Livres como
Pássaros
Sobre o vale
Onde um dia
Te encontrei
Construindo
Castelos
Na areia
Com força
De fantasia!

É ASSIM QUE EU
Te vejo,
Tecer a vida
Com sopro
Na alma
E as cores
Do arco-íris
Pintadas
Por tua mão
Como pautas
Coloridas
De uma bela
Melodia
Que canto
Com devoção!

FOI ASSIM QUE NOS
Dissemos
Nesse tempo,
Livres de amarras
Que não nos deixam
Voar,
Cantando com
Arte
Um destino
Marcado
Pela vontade
Pra fazer
Da nossa vida
Caminho
De liberdade.
Liberdade250419LuzRecort

Liberdade”. Detalhe”

UM SONHO NA ALDEIA

(Outra Versão Áudio) 

Poema de João de Almeida Santos

Outra versão áudio, com fundo musical, deste poema 
(de 21.04.2019), que uma Amiga me fez chegar e que 
tenho o gosto de partilhar... e de agradecer. 
Rua da Carreira210419FinalPubFimRecorte-cópia

“Rua na Minha Aldeia”.  Detalhe. Jas. 04-2019

UM SONHO NA ALDEIA

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Rua na minha aldeia”. 
No final, detalhe de um quadro inédito, 
"Sonho". Originais de minha autoria. 
Abril de 2019. 
Para ouvir o poema dito pelo autor:
Rua da Carreira210419FinalPubFim

“Rua na minha aldeia”. Jas. 04-2019

POEMA – “UM SONHO NA ALDEIA”

SONHEI-TE ESTA NOITE
Nas ruas
Da minha aldeia.
Não sei porquê
 (Os sonhos são
Sempre assim),
Caminhámos
Paralelos
Sem dizer
Uma palavra,
Sem um olhar
De través....
........................
Apenas pressentimento!

DUAS VEZES
Lá estive,
A sentir
O que sentia
Na rua
Da minha aldeia,
Nesse tempo
Diferido
Dos encontros
Intangíveis.

MAS VI-TE 
Com nitidez
(Um pouco baça, 
É certo)
No silêncio do meu
Sonho,
Em misteriosa
Alvura
A recordar
Tempo antigo
Quando a neve
Regressava.

FOI NA RUA DA CARREIRA
(A rua chama-se 
Assim)
Em frente
Da minha casa,
Onde me vejo
Passar...
..................
Sendeiro da minha
Vida!

CRUZÁMO-NOS
Por pouco tempo
(Como na vida real),
Nem um olhar
Nos trocámos,
Apenas nos pressentimos,
Tão fugaz foi
O meu sonho.

MAS SE A VIDA
É um sonho
Também os sonhos
São vida,
Pois senti que,
Na verdade,
Sonâmbula
Me adivinhaste
Nesta breve
Despedida.

E AQUI ESTOU EU 
A sonhar-te
Outra vez
Em palavras
Que derramo,
Porque te vi
Nesse sonho
Na rua da
Minha aldeia,
Lugar nativo 
Que amo.

É SEMPRE ASSIM,
Meu amor,
Quanto mais tu
Te esfumas
Mais me cresce
Esta dor.
É por isso
Que te sonho,
Pra desenhar
O teu rosto
Com palavras
De poeta.

E DE TANTO TE DIZER
Acabei por
Te encontrar
Na terra
Onde nasci,
Na rua
Onde brinquei,
Onde a neve
Derretia
Quando o sol
Já despontava
E a tristeza
Me cobria.

AGORA A NEVE 
És tu,
Fugaz que foi
A passagem
Na rua
Da minha vida,
Como a brancura
De outrora
Que em tempos
De meninice
De saudades
Me doía.

E QUANDO TE
Encontrar
Talvez não
Te reconheça...
.............
Terei então 
A certeza
Que recriei
Essa ausência
Para nunca 
Eu perder
O que de ti
Me sobrou,
Como a neve
Da minha rua
Que não há sol
Que a derreta
Na penumbra
Da memória...
...............
Que, em parte,
É a tua.
Rua da Carreira210419FinalPubFimRecorte-cópia

“Rua na Minha Aldeia”. Detalhe.

VESTIDA DE CORES

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Exaltação da Luz”
Original de minha autoria
para este poema. Abril de 2019.
Para ouvir o poema pela voz do autor:
Jas_Poema1404FinalPubLuz

“Exaltação da Luz”. Jas. 04-2019

POEMA – “VESTIDA DE CORES”

VESTES CORES
Garridas
Em elegantes
Danças
De luz
No palco
Do mundo
Como quem grita
A beleza que leva
Dentro de si.

COBRES-TE DE TI,
Agasalhas-te 
A alma,
Repetes
Em mil poses
O teu rosto,
Em perfil...

DIZES-TE
Em arte,
Com aura,
Única,
Corpo luminoso
Sempre a voar
Para lugares onde
Te confundes com
O que te é
Estranho
Num subtil
Jogo de
Espelhos e
Aparições
Fugazes
Onde te mostras
Feliz.

MAS QUANDO
Regressas
Às origens
É como o fim
De um sonho
Que te levou
Ao paraíso...
................
A queda
De um anjo
Na rotina do viver!

E PARTES DE NOVO,
À procura de ti
Noutros lugares,
Em catedrais
Onde o eco do
Silêncio
Bate mais forte
E o brilho do teu
Olhar
Se reflecte
Nos vitrais 
Translúcidos
Da divina luz
Que julgas  
Interpelar...

DOCE ILUSÃO
A dos vitrais que
Constróis
Sobre ti
Atravessados
Por raios de luz
Que te fascinam
E seduzem
Como hipnose
Da arte sublime
Que te transportará
Em levitação
Ao oráculo
Da divina Atena...
...................
Para a apoteose
Final!

MAS EU SIGO-TE,
Vou
E voo
Atrás de ti
Com os meus poemas
Sempre feridos
De cores vivas,
Ao rubro,
Com versos
Em voz
Rouca
De tanto te dizer
Ao longe,
Na melodia triste
Feita de
Murmúrios
Por não te alcançar...
.....................
Sequer com palavras!

NÃO IMPORTA
Que a fuga
Para a boca de cena
À procura de autor
Que te conte
Ao mundo
Seja fuga
De ti própria
Para a luz
Da ribalta,
Holofotes
Que iluminem
A penumbra
Onde, persistente,
Vestes
A tua imaginação
Para a exibir
Nas festas coloridas
E luminosas
Da arte,
Em rituais
De celebração...

GOSTO
De te ver assim,
Luminosa,
Oficiante
Desse rito pagão
Que celebra
A arte
E a liberdade
Que traz consigo
Como pregão
A convocar para
Um hino à vida,
Sem amarras!

MAS EU CONTINUO
Por aqui,
Na solidão
Sideral da
Montanha
A olhar 
O horizonte
Sem fim
E o céu plúmbeo,
Pagando
 Com um poema
E uma exuberante
Rapsódia de cores
O meu tributo
Ao ritual
Onde te celebras!

AH, COMO GOSTARIA
De te rever
Na praia
Da meia-lua,
No baile
Da meia-noite,
Em diálogo
Silencioso
Com um luar
Brilhante
De lua cheia
Que te iluminasse
A alma!
Jas_Poema1404FinalPubRec

“Exaltação da Luz”. Detalhe.

MUSA

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “A Praia”. Original de minha 
autoria para este poema. Abril de 2019.
Para ouvir o poema pela voz do autor:
Musa070419Pub

A Praia. Jas. 04-2019

POEMA – “MUSA”

EU TENHO UMA MUSA
Guardada
No fundo
Da minha memória.
Perdi-lhe o rasto
Ao corpo,
Ficou-me dela
O mistério
Que me alimenta
O estro
Quando a saudade
Me assalta.

SOBROU-ME
Recordação,
Marcas cá
Dentro de mim,
Desço ao fundo
Da alma
Mas não lhe vejo
O fim.

E ASSIM NÃO A
VISLUMBRO,
Há uma certa
Escuridão,
O olhar já
Não me chega,
Restam-me
As cicatrizes 
 E uma funda
Solidão.

ÀS VEZES DESENHO
Seu rosto,
Ponho-lhe cores
Muito vivas,
Pinto a alma
Com palavras,
Dou-lhe nome
Que não é seu,
Levo-a nos meus
Poemas...
...............
Devolvo tudo
O que ela
Não me deu.

VALE-ME A POESIA
Pra onde fujo
Com ela,
É como a maresia
Da praia
Que vejo
Da minha janela.

TENHO UMA MUSA
Na praia,
Nesse mar
Que não tem fim,
Revolvo-me
Nas suas ondas,
Regresso feliz
Ao poema
Onde sorri
Para mim.

NÃO IMPORTA
Onde está,
Musa é fonte
De inspiração
Desde que haja
Na praia
Uma intensa
Paixão...
Musa030419Final04LuzRec

“Praia”. Detalhe.

ORIGEM

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Onde Te Vejo”.
Original de minha autoria
para este Poema. Março de 2019.
Versão áudio pelo autor:

OndeTeVejo3103Final

“Onde Te Vejo”. Jas. 03-2019

POEMA – “ORIGEM”

A SUA ARTE
Nasceu contigo,
Do mistério e do
Silêncio  
Que te enchia a alma,
A transbordar...

NASCEU
De um inesperado
Encanto,
Da tristeza
Submissa,
Quase matricial,
Que o cativou.
O começo
De uma revelação
Que não tem fim...
Intemporal.

E ELE, CRIANÇA,
Fascinado
Pelo teu olhar
Profundo,
O teu ímpeto
Imparável,
Fúrias
Quentes,
Cabelos negros
Desgrenhados
À solta
Sobre um corpo
Incerto,
Seios generosos
Que anunciavam
O nascimento de um
Poeta...

NASCEU CONTIGO,
Sim,
No teu regaço,
O poeta,
Aninhado
Na incerteza,
Na bruma
densa 
Do encantamento.

DEPOIS CRESCEU
E quis a perfeição,
Seduzir-te
De longe,
Através do vento
Que te soprava
Na alma
Atormentada,
Com palavras cálidas,
Mas tristes,
Ritmadas
À medida que te
Ia perdendo
No implacável
Tempo da renúncia.

ACOLHESTE
A tormenta
No dia-a-dia
(Eu sei),
Obsessão
Martelante,
Sofrida em palavras
Repetidas
E gastas 
À exaustão
Até à fuga
Para o nada...
...................
Cheio de tudo
O que não pudeste
Ou não quiseste
Ter.

MAS LEVASTE
O poeta contigo
(E muito mais),
Grávida de palavras
Não ditas,
Olhares falhados,
Imperceptíveis 
Sinais,
Silêncios gritados,
Quieta turbação,
Lava oprimida
No centro de um
Vulcão
Que te alimenta
E consome
Nessa tua inefável  
Solidão!

E O POETA
Capturou-te
Dentro de si
Para te libertar
Com metódica
Persistência
Em poemas,
Nuvens
Cintilantes
Que espalha
No teu céu,
Sobre ti,
Para te refrescar
A alma
Incandescente.

E EU, SEU CONFIDENTE,
 Vejo-te só, 
A olhar
O céu da minha 
Janela,
As nuvens brilhantes
Do poeta,
À espera
Da chuva
E dos trovões
Que anunciem
Raios de luz
Sobre o teu olhar...

E TU, ALI,
Pensativa,
Silenciosa,
Taciturna,
A rever nelas
Um passado
Que nunca existiu, 
Porque tudo tiveste
E tudo se perdeu.

MAS O PASSADO,
Ah, o passado
Anuncia-se
Agora,
Na primavera,
Em metamorfose,
Como ressurgimento,
Cântico
À eternidade,
Onde um dia,
Na solidão do teu
Destino,
Te reconhecerás...
.................
Talvez com um
Sorriso 
Um pouco triste!
Mas não será tarde
Demais
Porque é o tempo
Do reencontro.
Janela_31MarçoFinalR

“Onde te vejo”. Detalhe.

COMO TE VEJO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Trono”. Original de minha
autoria para este Poema. Março de 2019.
Para ouvir o poema pela voz do autor:

Trono240319Final1

Trono. Jas. 03-2019

POEMA – “COMO TE VEJO”

COMO TE VEJO
Na minha imaginação?
Sentada num trono,
Hierática,
Sorriso formal,
Parca em palavras,
Muito bela,
Quase irreal...
.................
Como te sinto!

BELEZA FRIA,
Marmórea,
Pele desenhada
A rigor e
A cinzel
Por escultor
Que te perscrutou
A alma
Desnuda
Nos confins
Enigmáticos
Do teu ser.

FICOU-TE
A beleza
No perfil,
À superfície,
Onde ainda te
Vislumbro
Na cíclica
Neblina
Do meu olhar!

E CRIAS ROUPAGENS
De mil cores
Que descem
Do trono
E te gritam
Ao mundo,
Escondendo
A solidão
Da tua alma,
A queda
De um anjo
No poço fundo
De uma velada
Melancolia.

NÃO HÁ FUGA
Possível
Para o reino
Das formas puras
Quando falta
O sopro
Que anima
Os voos
Da fantasia
Para o infinito
De um espaço
Sideral.

MAS EU VEJO-TE
Sempre
Num trono
Dourado
Sentada na ilusão
De conquista
Do mundo
À medida que te
Vais gastando
Na voragem do
Tempo
Que te atira
Para fora
A vaguear
Na cidade
Em busca
Das formas
Perdidas...
......................
Para o teu mirífico
Reino.

SERÃO SÓ SINAIS
De fumo
Que se elevam
No horizonte
A anunciar-te,
Levados pelo vento
Que te sopra
Na alma,
E que clamam
Por atenção?

AH, COMO GOSTARIA
De os ler,
Os sinais,
Na exegese
De um oráculo
Promissor!

MAS O TRONO
Tem paredes subtis,
Leves e frágeis,
Tem rituais,
Tem ouro
E muito mais,
Tem cânticos
E tem vestais,
Orações,
Sacerdotes,
Musas
E catedrais...

E FICA LÁ EM CIMA
No Monte
Onde o ar é
Rarefeito
E os horizontes
Não têm fim
Porque tocam
A linha do infinito...
.....................
E turbam a alma!

ALGO ME DIZ
Que ao trono
Onde te vi
Não voltarás
Porque desceste
Ao vale
Chamada pelos arautos
Das formas vazias,
Apóstatas,
Timoratos
Da montanha
Sagrada,
Das vertigens
E das tonturas
Pela proximidade
Da sideral
E mágica
Abóbada celeste
Que nos arrebata
A alma.

A MONTANHA
Não se deixa subir
Duas vezes
Na procura de inspiração,
Sabias?
O trono muda
De cor
E de oficiantes,
Como se a vida
Lá em cima
Tivesse um único
Ciclo de tempo
Que não podemos
Abandonar.

SERÁ ESSE O TEU
DESTINO?
Não sei.
Mas na montanha
Há um trono
Onde nos sentamos
Uma única vez...

Trono240319FinalR

TARDO A ENCONTRAR-TE

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração. “Noite”. Original de minha
autoria para este Poema. Março de 2019.

Para ouvir o Poema, pela voz do Autor:

NoiteFinal1403Exp

“Noite”. Jas. 03-2019

POEMA – “TARDO A ENCONTRAR-TE”

TARDO A ENCONTRAR-TE
Porque não sei
Como procurar-te
Levado
Por um poema...

NÃO É A VONTADE,
Mas o destino a marcar
Os passos que
Eu darei
Ou que nunca
Ousarei
Nesta estreita
Vereda
Da minha vida.

E TU SABES
Que não sei
Mas sabes por onde
Andei
E me perdi,
À procura do que
Não podia ter
Pra preservar
O que não quis
Apenas
Dentro de mim.

ATÉ QUE TE REENCONTREI
No fim de um caminho
Que já nem sei se
Trilhei
Ou se abandonei
Antes de um qualquer
Início.

ÀS VEZES ENCONTRAVA-TE.
Encontros fugazes,
Onde o teu brilho
Cegava
Por fora
E iluminava
Por dentro...
....................
E cantava-te!

MAS NÃO SEI
Se te quero
Para nunca
Te ter,
Sentir saudades
Logo ao amanhecer
Do perfume da aurora
Quando te reencontre
Na memória fresca
Dos afectos
Indefinidos...
....................
Os mais perfeitos!

SIM, DEIXO-ME IR
Nas mãos do destino,
Bem sabes,
Mas há sempre
Um súbito
Sobressalto
Quando o real
Nos atropela
Por dentro
E tudo se torna
Inóspito...
.................
Então eu tenho
Saudades de ti!

SE NÃO ME DEIXO IR
Viajo para outros
Lugares,
Tenho sempre
De viajar
À procura de mim,
Dum espelho onde
Me veja por dentro
A olhar-te
Por fora,
À espera do próximo
Sobressalto...
...................
Que nunca demora!

AH, COMO ME ESCASSEIA
Esse véu que te cobre
O rosto
Quando te quero
Pintar com palavras
E te vejo 
Nua,
Com a alma a tiritar,
À mercê dos sobressaltos
Que te marcam
Como sulcos,
Cicatrizes ásperas
Da vida.

MAS EU PROCURO-TE
Com disfarçado
E tímido
Olhar,
Perscrutando-te
A alma
Que se aninha
Em ti
Para te proteger
Do risco da beleza
Exposta
Como fractura,
Aquela que os poetas
Cantam
Quando sentem a
Liberdade
Por perto.

TALVEZ A NOITE
Te sirva de véu
E te cubra as cicatrizes
Da vida,
Luz coada pela
Penumbra
Que te amacia
A pele
Encrespada,
Te devolva como
Sonho
Acetinado
Onde te reinventarei
Como mulher
Desejada...
....................
Para além do bem
E do mal.

MAS EU NÃO SEI,
Tenho medo
Dos sobressaltos,
De ser atropelado
Na esquina de um
Inocente
Jogo sedutor
Que te cative a
Alma
Já em fuga
Para o infinito
Que se cruza
Nos nossos olhares...
....................
Intermitentes.

TARDO A ENCONTRAR-TE
No bulício dos nossos
Dias...
...................
Até que no amanhecer
De um poema
Te encontre
E te diga
Com olhar
Submisso:
Meu amor!
Mas talvez já seja
Tarde demais...

NoiteFinal1403R

SOLIDÃO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Evasão". Original de minha 
autoria para este Poema. Março de 2019.
Para ouvir o Poema, dito pelo autor:
P5100319FinalTrab

Evasão. Jas. 03-2019

 “Os poetas são impudentes em relação às suas vivências: exploram-nas
(Die Dichter sind gegen ihre Erlebnisse
 schamlos: sie beuten sie aus) 

"O que se faz por amor acontece 
sempre para além do bem e do mal"
(Was aus Liebe gethan wird, geschieht 
immer jenseits von Gut und Böse).

F. Nietzsche, Jenseits von Gut und 
Böse (Para além do bem e do mal), 1886.
IV. Sprüche und Zwischenspiele: 161. 153.

POEMA – “SOLIDÃO”

PERGUNTEI AO POETA
Sobre a minha
Solidão...
...............
E sabes
O que me disse?
Que ela tem
Os sete véus
Pra que ninguém
Atravesse
O sagrado
Do seu halo...
.....................
Um oásis no deserto,
Confessou!

PERGUNTEI-LHE
Pela dor
Que me resta,
E eu afago,
Deste amor
Que me veio
Ao encontro
Como dádiva do céu...
........................
E sabes
O que me disse?
Deixa lá,
Se já não tens
Alegria
Pra encantar
Quem tu amas
Resta-te a dor
Em plena solidão,
Quente
Como lava
De vulcão
Em humana
Eternidade,
Fora do mundo,
Da cidade,
Em suave e doce
Evasão!

MAS DISSE
Mais.
Não a procures,
Não lhe fales
Nem a vejas
A não ser como
Poeta,
Nesse intervalo
Da vida
Que te torna
Intangível
Como pura
Silhueta!

FINGE
Que não a sentes
E confessa-lhe amor,
Sobe às nuvens
Pelas linhas
Do seu rosto e
Põe asas
No seu nome,
Mas finge
Que não o dizes
Pra que não
Te reconheça...

E SE UM DIA
Teus olhos
Pousarem nela
Finge outra vez,
Finge que
Não a vês,
Que estás ali
Por acaso,
Como se fosse
À janela,
Que o destino
Te levou
Para fora
Do teu mundo
À procura
De desejo
Que resgate
A solidão.

PERGUNTEI, DE NOVO,
Ao poeta
Sobre esta solidão
Que cresce dentro
De mim...
..................
E sabes
O que me disse?
Que também ele
Ia nu,
Viajando nas estrelas,
Com asas
De sete véus,
Transparentes
Como ar,
Mergulhando no azul
Para ver se
A cantava
Sentado no horizonte,
A tocar o infinito...

QUERO SER
Como falou
Zarathustra,
Sussurrou...
.....................
Que da paixão
Saia virtude,
Dos demónios
Nasçam anjos,
Da solidão
Liberdade,
Que na dor
Cresça alegria
Cada ano,
Cada dia,
Enquanto o poeta
Viver,
Enquanto a possa
Cantar...

ENCONTREI UM DIA
O poeta
A caminho
Das estrelas.
Perguntei-lhe
Sobre a minha solidão.
Bateu as asas
E disse:
Voa pra junto de mim
Com asas de sete véus
Que o azul deste
Meu céu
É a tua evasão!
P5100319FinalTrabRec

Evasão. Detalhe.

NÃO SEI!

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Incerteza”. Original de
minha autoria para este Poema.
Março de 2019.
Incerteza030319

“Incerteza”. Jas. 03-2019

POEMA – “NÃO SEI!”

SE ME PERGUNTARES
Por que razão
Eu te amo
Respondo-te,
Com espanto,
“Não sei!”

SE ME PERGUNTARES
Pelo que dói
Neste tão cego
Amor,
Respondo-te
Que não sei,
Que sinto
Pungente dor
Esparsa
Sobre o meu corpo
Como sentido
Penhor
De um rapto
Imprevisto
Que nunca há-de
Ter fim...

SE ME PERGUNTARES,
Depois,
Se eu sinto
A tua falta
Respondo-te
Logo que sim,
Que tenho sempre
Saudades
Mesmo quando
Eu te tenho
Aqui bem junto
De mim.

“- PORQUE SOU EU
A mulher
Que te merece
Atenção?”

AH, ISSO EU SEI,
Meu amor...
....................
Foi o destino
E a minha salvação,
Esta dor
Que não me vem
Da vontade,
Da procura
Da verdade,
De um saber
Que não terei...
.....................
E tudo o mais
Eu não sei...
...................
Quando te beijo
Na alma!

“- O QUE SABES
TU DE MIM,
Neste teu 
Desejo ardente?”

POUCO OU NADA
Sei de ti
E sabendo
O que não sei
Não te amaria
Às cegas,
Assim tão
Intensamente!

AMAR-TE
É como beber
Tempestades,
É dor que
Não se sabe
Onde está,
É mistério
Revelado,
É encanto
Permanente,
O reverso 
Do saber,
Luz intensa
Que me cega
E também
Fascinação,
Anúncio
Que nunca acaba,
Lado oculto
Da razão...

“- PRA QUE ME QUERES,
Então, meu amor?”

EU QUERO-TE
Para te querer,
Simples vontade
De ti
Como fim
Do meu viver,
Sentir saudades
Do que estou
Sempre a perder,
Olhar-te nos olhos
E ver neles
O teu mundo...
E o mundo
Dentro deles,
O brilho
Embaciado
De um olhar
Onde me perco...

E SE UM DIA
Eu souber
Por que razão
Te amei
Chorarei
Eternamente
Porque então
Descobrirei
Que por isso
Te perdi...
Incerteza030319R

“Incerteza”. Detalhe.

ANOITECEU…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Uma Janela no Jardim”.
Original de minha autoria
para este poema. Fevereiro de 2019.
Anoiteceu24_02_19FinalF24

“Uma Janela no Jardim”. Jas. 02-2019

POEMA – “ANOITECEU…”

É DAQUI QUE EU
Te vejo,
Ao luar,
Sempre que me
Anoitece
Na vida.

UMA JANELA,
Solidão,
Luz coada na
Vidraça
Onde pressinto
Que te dás,
Velada,
Ao meu olhar
Interior,
Tão discreto
Como a noite
Que me cai
Fundo
Na alma!

TENHO A MEU LADO
Uma flor,
Uma rosa
Iluminada...
A que o destino
Me deu
Por companhia,
Irrompendo,
Noite escura,
Como vela
Que perece
Pra m’iluminar
O caminho...

SIM, ANOITECE
Nas nossas vidas,
Em todas,
Bem sei,
E também eu já
Não te vejo
Nem te ouço
Ao entardecer,
Porque passou
Tempo demais...

SE AINDA TE
PRESSINTO
Em tão ténues
Sinais
Que me chegam
Aos sentidos
É porque tu
Já não me sais
Da memória
Onde sempre 
Te visito...

MAS AGORA,
JÁ SOBE,
Sim, sobe,
Suave e
Subtil,
Um perfume
No Jardim,
Aroma doce,
Anúncio de
Florescência
A despontar
Nua,
Como eu,
Para o que
Um dia
Haverá de
Germinar...

A JANELA ACENDE-SE
Com esplendor!
Luzes,
Brilho intenso,
Cores
Em catadupa,
Talvez uma nova
Vida
Possa ainda
Renascer
No meu jardim...
...............
Simples,
Como uma flor.

A ROSA
E A MAGNÓLIA
Ganham luz,
As pétalas quase
Gritam
Aos sentidos
E anunciam-te,
Imprevista
Alegria,
Cor da minha alma,
Aroma intenso,
Brilho profundo...
....................
E tu renasces,
Bela como sempre,
Quando o véu
Te cobre o rosto
Macio,
Sem marcas
De vida sofrida,
Beleza de perdição
Que devolve,
Como sopro,
Encanto
À minha vida
E reparo à 
Solidão.

OLHO A JANELA
De longe
E um perfume
De rosa
Desprende-se,
Denso,
A meu lado,
Inebriante...
....................
E incendeia-me
A alma
No mágico
Anoitecer...

ANOITECEU, SIM,
MEU AMOR...
...............
Mas à noite
Segue-se,
Sempre,
Implacável
E silenciosa,
A madrugada
E eu desperto
Do torpor
De um desperdiçado
Amor
Para renascer
De novo
Deste lado
Como flor
Que desponta,
Ao relento,
No jardim
Da minha vida!

Anoiteceu24_02_19FinalAcabouR

PALHAÇO

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Máscara” 
Original de minha autoria 
para este Poema. Fevereiro de 2019
Mascara17022019Finaljpg

“Máscara”. Jas. 02-2019

POEMA – “PALHAÇO”


COMPREI UMA MÁSCARA,
Pu-la no rosto do
Meu amado poeta
E ele não a enjeitou.
Ainda por cima
Me disse
“- Sou eu, sou...
........................
Como nas palavras
Que digo
Também meu rosto
Mudou".

"NÃO ESPERAVAS
Ver-me assim!
Vá, confessa
O teu espanto!
Luzinhas na minha
Cabeça,
Rosto tão
Desfigurado,
Cor, tanta cor,
A que apeteça
Pra sufocar
Esta dor
Sempre que ela
Apareça
A pedir o meu
Cuidado".

"ADOPTEI ESTA FIGURA,
Apresento-me assim,
As outras
Nada te dizem,
Com esta
Olhas pra mim!"

"PALHAÇO
É O QUE SOU,
Falo a
Surdos e mudos
Que não ouvem
O que digo
Nem me dizem
O que quero
Como se fosse
Mendigo
Do que, afinal,
Nem espero".

"VALHA-ME POIS
ESTA MÁSCARA!
Assim rio
Desta vida,
Rio de ti
E de mim,
Da chegada
E da partida,
Dos abraços,
Das palavras...
..................
E também da
Despedida!"

"SOU PALHAÇO,
É o que sou!
Entretenho-me
A cantar...
E se ouvires
Este canto
Arlequim
É seu autor...
......................
Não t’importes
Nem o chores,
 Pois o que diz
No poema
É para espantar 
Sua dor!”

A MÁSCARA
É o seu rosto,
Colou-se-lhe
Logo à pele
Com a cola
Do desgosto
E por isso
Já nem sabe
Se este rosto
É o dele.

COMPREI UMA
MÁSCARA
Luminosa
No mercado
Da minha vida,
Ponho-lha sempre
Que posso,
À chegada
E à partida!

NÃO LHA TIRES
Que rasgas a sua
Alma
Pois se o canto
O liberta
É a máscara
Que o salva!
Mascara17022019FinaljpgReco

“Máscara”. Detalhe.

“OLÁ!”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Raízes”.
Original de minha autoria
para este poema. Fevereiro de 2019
Mag100219

“Raízes”. Jas. 02-2019

POESIA – “OLÁ!”

PEDI-TE UM DIA
Que me desses
Um “Olá!”,
Com súplica
Em magnólia
Pra romper
O teu silêncio
E sarar
Esta ferida
Que me causa
Tanta dor...

E “OLÁ!” TU ME
Disseste,
Tão rápido
Como o vento
Que me sopra
Sobre a alma
Quando cruzo
O teu olhar!

BALBUCIEI 
O teu nome
Já distante
Do “Olá!”
Sem saber
O que fazer,
Se chamar-te
Para mim
Ou para longe 
Partir...
...........
Não sabia
Que dizer!

MAS QUANDO VIREI
O rosto
Vi-te de novo
Austera,
Muito fria
E distante...
...............
Ignoravas
O passado
Que passara
Nesse instante!

JÁ MUITO LONGE
De ti
Voltei a pedir
Um “Olá!”,
Mas já não
Me respondeste...
.....................
Caíra um raio
Do céu
Que rasgou
Esse teu véu
Donde ainda
Me olharas...

E DEPOIS...
Tantos “Olás!”
Te pedi,
Tantas vezes
Te chamei,
Os poemas
Qu’escrevi
Palavras
Que derramei...
....................
Sabendo nada
De ti!

TALVEZ O VENTO
Te chame,
Talvez a flor
Te seduza,
As raízes te
Comovam
Ou o poema
Te diga
Que nunca
É tarde
Demais
Pra que no eco
Te encontre...
.................
Meu amor!
Mag100219R

“Raízes”. Detalhe.

O POEMA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Ela”.
Original de minha autoria para este
Poema. Fevereiro de 2019.
ELAFinal030219

“ELA”. Jas. 02-2019

POEMA – “O POEMA”

PRA QUE SERVE
O meu Poema
Se ela,
Do outro lado
Da rua,
Não o vê e
Não o ouve,
Não lhe sente 
O perfume
Que a alma
Inebria?

AH, MAS EU
SINTO-A
A ela
Do lado de cá
Do Poema
E pinto-a
Em aguarela
P’ra que veja
A minha dor...
.................
Olho-a, então,
Com palavras
E falo-lhe
Como pintor.

PRA QUE SERVE O
MEU POEMA?
Pr’aquecer
A minha alma
Dizendo tudo
O que sinto
Mesmo quando
Nos meus versos
Até parece
Que minto...

MAS NÃO ESCREVO
Pra ela
Que não a vejo
À janela
A ver passar
O poema
Na rua do
Desencontro...

O POEMA
É de quem
O queira ver
E ouvir-lhe
A melodia,
Ler ou mesmo
Cantar
Como uma sinfonia,
É a festa
Dos sentidos,
É prazer,
É emoção,
Não o ouve
Nem o vê
Quem não pode
Ou quem não queira...
..................
Não é coisa da
Razão!

O POEMA É SEMPRE
CANTO,
Vale pela melodia,
Pelos sentidos que
Desperta
Cada hora,
Cada dia...

É VIDA QUE
ME LIBERTA
Das amarras
Da paixão
Porque voo com
Palavras
Ao sabor da emoção.

E SE TE CHAMO
Ao poema
É pra ter de volta
O meu eco,
Ouvir o som
Desta dor,
Decompô-la
Em palavras,
Anulando a paixão
Num canto libertador
Das amarras
Da prisão.

PARA ISTO
EU SOU POETA,
Canto pra quem
Me ouve,
Não espero
Reacção,
Porque sei que
Já partiste,
Me deixaste
Em solidão.

EM CANTO-ME
Nestes poemas
Pra redimir
Minha dor
E se a poesia
Não chega,
As palavras
Não me bastam,
Pois que seja...
...................
Sou pintor.
IMG_2340Rec

“Jardim”. Jas. 02-2019

LUZ

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “O Arbusto”. Original de minha
autoria para este poema, à procura 
da sinestesia perfeita. 
Janeiro de 2019.
licht7

O Arbusto. Jas. 01-2019

POEMA – “LUZ”

LUZ DO CÉU,
Muita luz
Descia por uma
Fresta
No coração
Do arbusto
Sobre meu
Olhar
Fascinado...

TÃO INTENSA
E brilhante
Ela era...
Como raio
(Ou quimera?)
Me cegou...
...............
E fiquei 
Aprisionado!

LUZ, MAIS LUZ,
Queria eu,
Era luz que me 
Faltava...
E ela
Esmoreceu
No meu olhar
Esmagado!

MAS FICOU DENTRO
De mim,
Num poema
Ou desenho
Esboçado,
Cores, traços, 
palavras,
Memória que 
Não tem fim...
.....................
Até que essa luz
Se apague
No arbusto
Do jardim...

LUZ, MAIS LUZ,
Insistia o poeta
Ao entardecer
Desse dia,
Quando a luz
Esmoreceu
E nela ele
Se perdia...

ERA VIDA
Que findava
Ou tempo
De despedida
Que cedo demais
Me chegava!

MAS A LUZ
Reavivou
Dentro de mim -
O meu sol-,
Renasceu
Nessas cores
E nas palavras
Que me saem
Cá do peito
E do fundo
Da memória...
.............
São poemas
Que te grito
E não ouves,
São cores
E riscos
Com que me rasgo
A alma,
São os sons 
Destas palavras
Com que
Ouço o teu 
Silêncio,
É pauta da melodia
Que já não sei
Soletrar...
...................
Por falta de ti,
Meu amor,
Que te negas
Ao olhar...
..............
P’ra que eu
Sempre te dance
Ao ritmo dessa
Saudade
Que me dói
Cada vez mais
Para melhor
Te guardar...

FOI ASSIM QUE
A LUZ
Voltou
P’ra iluminar
O arbusto
Que me tempera
A alma
Com suas folhas
Amargas,
Infusão de sentimento
Que me assalta
O corpo
Quando chega
A solidão...

REGRESSO, ASSIM,
Ao começo,
Tropeço na tua luz,
Ilumino-me a
Alma
E ponho fim
Ao desgosto
Dessa perda
Irreal
Que descobriu
No poema
Remédio
Para o meu mal.
licht7rec

Detalhe.

GEOMETRIA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Triângulos”.
Original de minha autoria para este
poema. Janeiro de 2019.
geometria

Triângulos. Jas. 01-2019

POEMA – “GEOMETRIA”

MEUS POEMAS
São triângulos
Perfeitos,
Geometria
De afecto
Irreal
Com três lados,
O poeta
Refractário,
A musa
Que o inspira
E a fonte
Seminal...

“ - PORQUÊ
GEOMETRIA”,
Dirias tu,
“Se o amor não
É exacto,
Perfeito e
Linear,
Linha pura
De um rosto
Que só tu podes
Olhar?”

PORQUE A GEOMETRIA
Eleva ao excelso
Paraíso,
Exactidão,
Leveza,
Rapidez,
Linhas
Rectas,
Refracção
(Como vês)
De um rosto
Divinal
Que projecto
Com a alma
No meu jardim
De cristal...

ELEVA-ME
À perfeição,
Que não é
Pecaminosa,
Distante
Da curva linha
Rugosa
Que descreve
O amor
Em gestação
Como onda
Sinuosa,
Turbilhão
Nesse vasto
Oceano
Que não ouso
Enfrentar...

E, POR ISSO,
Quando desenho
O amor
Como círculo
Perfeito,
Ângulo
Agudo do sete,
Eu perco-te,
Mesmo que o
Desenlace e
O projecte
Como linha
Que descreve
Um voo
Ao infinito
Que já transborda
De azul...

POR MAIS FIGURAS
Que desenhe
Ou fugas
Que eu encete,
Linhas no fio
Do céu,
Não encontro
O amor,
Mas projecção
Geométrica
De uma nudez
Interior
Que eu espelho
No meu canto,
Expiação
Desta dor!

NÃO HÁ AMOR
Num triângulo 
Perfeito,
Bem sei,
Na aritmética
Do espaço,
Linha em fuga
De uma deserta
Rua 
Para lá do
Horizonte
Dessa alma
Sempre nua...

AH, MAS NA COR...
Na cor que sinto
Bem fundo
Dentro de mim,
Como fonte
De calor
Com que me
Visto a alma
Para me agasalhar
Desta tão fria 
Dor...
Sim, eu vislumbro
O amor...
.............
Nas faces
De um cristal
De onde te vejo
Em triângulos
De cor e luz, 
Espelhos
Desse teu rosto 
Em refracção
Luminosa
Que ao poeta
Inspira e seduz
Quando te canta
A beleza
P’ra te dizer 
Do destino 
A que o poema 
Conduz...

MEUS POEMAS
Serão, pois, 
Triângulos
De luz e cor
Que m'iluminam a 
Alma
Onde te guardo 
Escondida,
Para sempre, 
Meu amor!
geometriar

Detalhe.

PERFUME

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Perfume”. 
Original de minha autoria para este poema. 
As duas referências que gostaria  
de assinalar, neste poema, são as 
“Memórias de Adriano", da Marguerite
Yourcenar (Alfragide, Leya, 2018: 72-73), 
e "Os Sonetos de Shakespeare" 
(Lisboa, Quetzal, 2016 - Soneto 54).
Janeiro de 2019.
rosarosaefinal1301

Perfume. Jas. 01-2019

POEMA – “PERFUME”

E SE UM DIA
Me perguntasse
O que é, para ti,
O amor?
Pintar
Esse teu rosto,
A retórica
Do corpo,
Celebrando-te
A cor?

OU DIZER-TE
NUM POEMA,
Retórica
Da minha alma
Que te sofre
Em dilema
Entre o silêncio
E o canto
De tão longa
Ser
Esta nossa
Despedida?

DESENHAR-TE
Como se fosses
Flor
À medida do
Desejo,
A retórica
Da cor
Que sempre,
Ao ver-te,
Festejo?

O QUE É?
O perfume de uma
Rosa,
Branca
Ou vermelha
De cor,
Que sempre 
Me enche 
De ti
E me perde,
Meu amor?

DESENHAR UMA 
PAISAGEM
Contigo
No horizonte,
Uma brisa
Que sopra
Suavemente
Lá em cima
No meu Monte?

O QUE É PARA TI
O AMOR?
Ouvir-te
Como minha
Sinfonia
Ou sentir o teu
Silêncio,
A secreta
Melodia?

ENLAÇAR TEU CORPO
Ao meu,
Um calor
Que inebria,
Celebrar-te
Sem parar
Uma noite
E um dia
Ou projectar
No espelho
O teu corpo
Virtual,
Celebrando
Teu perfil
Como minha
Alquimia
Num estranho
Ritual?

SABES O QUE É,
MEU AMOR?
Talvez não...
..................
De tanto te
Celebrar,
Pintar,
De tanto cantar
O teu rosto,
A beleza seminal,
Numa tela,
Num ecrã
Ou no meu triste
Mural...
................
Este amor
Pode até ser
Negação...

SAI DE TI
E deixa-te ir,
Vagueia
A vida
Com alma,
Não celebres
Com tristeza
Cada tua despedida
Como se o tempo
Parasse
Para não seres
Esquecida...

SAI DE TI, SIM!
Procura
O que o mundo
Te dará
Pois essa será
A tua certa
Medida...

AMOR TALVEZ SEJA
O perfume
De uma rosa
Em gestação,
“Brando odor que
Nela habita”,
Cor intensa,
Forma bela,
Palavra que
O poema
Sempre hesita,
Mas interpela
Em versos que
Te destilam
Verdade
Quando a vida
Se resolve
Na escrita...
...................
De uma tão funda
Saudade!

rosarosaefinal1301rec

PINTO-TE COM PALAVRAS!

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Chakra”. Original de minha
autoria para este poema. Janeiro de 2019.
chakra0601

Chakra. Jas. 01-2019

POEMA – “PINTO-TE COM PALAVRAS!”

TU PINTAS-ME...
Eu bem sei,
Gastas a alma
Na cor
E nos riscos
Que te fazes
Para assim
Me compor,
Elevar em 
Catarsia,
Parar a dor
Que te canto,
Choro triste,
Poesia.

“- E TU CANTAS
Meus pobres
Traços,
Euforia
De paisagens,
Rostos perdidos
No tempo,
Cores que
Tapam
A tristeza
De te perder
Para sempre
Como minha
Melodia”.

SIM, EU CANTO
Todas as cores
Com que te pintas
A vida,
O que te nasce
Das mãos
Sempre já em
Despedida...

E CANTO
As minhas dores
Com essas palavras
Gastas
Que são como
Os sabores
Com que tempero
O destino
De ti sempre
Tão ausente
Como laico
Do divino!

SIM, EU CANTO
A vida
Sem a tinta
Que é, afinal,
Um desejo...
Flui-te das mãos,
Expõe-te a alma
(Um lampejo!)
Ao poeta
Que te pinta
Em versos
Como cometa
Que nasce
E morre
Consigo
Como frágil
Borboleta
Que perdeu
O seu abrigo...

PORQUE DESENHAS
A alma
Com silêncio
Que tu logo
Cobres
De tinta
P’ra que eu já
Não te veja
Em meus versos
Enganados
E, assim,
Já não te minta...

MAS EU VEJO-TE
Sempre
Num poema
Para além da
Tua cor,
Por isso vivo
Em dilema:
Sou poeta ou
Pintor?

SE TE PINTO,
Cubro
O silêncio
De cor,
Se te canto
Sou eu mesmo...
..............
Um poeta,
Fingidor!

chakra0601recor

ESTA NOITE EU SONHEI-TE…

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Regresso a Pasárgada”. Original 
de minha autoria para este poema. Dezembro de 2018
Pasárgada301218

“Regresso a Pasárgada”. Jas. 12-2018

POEMA – “ESTA NOITE EU SONHEI-TE…”

ESTA NOITE EU
SONHEI-TE...
....................
Já passara
Tanto tempo
Que parti
Do meu nordeste,
Do jardim do 
Paraíso!

COMO SE NA
VASTIDÃO
Do espaço 
Entre o sonho
E tua vida
Não houvesse
Essa tristeza
De tão longa
Despedida...

QUE ESTRANHO
ESTE SONHO,
Pois julgava-te
Perdida
Lá no fundo
Da memória,
Onde a imagem
De teu rosto
Não me fosse
Devolvida!

AH, QUE BOM
SONHAR-TE,
Recriar
O que perdi,
Virar tudo
Do avesso,
Reviver
O teu sorriso
E ficar-me
Por aqui!

ESTA NOITE
EU SONHEI-TE
E gosto
De o dizer,
É como ter-te  
A meu lado
Para não mais
Te perder
Porque nasci
P’ra te amar...
...................
Esse dom
Que faz sofrer!

AH, QUE SONHO!
Ficou-me colado
Ao corpo
Mesmo quando
Acordei,
Foi um prazer
Infinito,
Pois tinha 
O doce sabor
De alguém
Que eu amei.

SONHEI-TE,
Senti-te
Dentro de mim...
.................
Mas eu não sei
Por onde andas,
Se te ganhas 
Ou te perdes...
..............
E esta dor
Não tem fim...

PERDI-TE
De modo diferente,
Bem sei,
Porque nunca
Te encontrei
Na ponte
Desse teu rio
Que eu nunca
Atravessei.

ESTA NOITE EU
SONHEI-TE...
...........
Voltaste
De longa ausência,
Voltas sempre,
Sim, eu sei,
Porque de mim
Não saíste,
Do dia em que  
Te encontrei.

MAS PARECE
Que te esfumas
No poço fundo
Do tempo,
A tua imagem
S'esbate
Nesta retina
Já gasta,
Tua voz é
O silêncio
Deste som
Que me consome,
Teu olhar
Fica cerrado
Para nunca mais
Me ver,
Braços caídos
No corpo
Para não me
Abraçares
Nem que seja
Na memória
Do que nos sobra
Da vida!

É ASSIM QUE
EU TE SONHO,
Vendo-te um pouco
Perdida,
Comigo sozinho
No cais
Com a alma
Adormecida,
Porque daqui, 
Deste meu 
Sonho, 
Tu já não sais,
 No resto da
Minha vida!

ESTA NOITE EU
SONHEI-TE
Porque estás
Longe de mim,
Não foi por 
Vontade minha,
Foi a vida,
Foi assim...

Pasárgada301218Rec

ENCONTRO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Dame mit Ohrring”. Original
de minha autoria para este poema. 
Dezembro, 2018.
Exactamente há um ano, publiquei o poema “Teus Olhos”, agora 
recriado sob a mesma inspiração, mas ilustrado, não com “Dame 
mit Muff”, de Gustav Klimt, que aqui evoco e invoco, mas por este  
quadro de minha autoria. O percurso de um ano, aqui plasmado, 
quarenta e cinco desenhos depois, de um atrevido aprendiz de pintor 
que, em grave estado de necessidade poética, se lançou na ousada 
aventura de ilustrador da sua própria poesia!
JAS_Dame mit Ohrring231218Final

“Dame mit Ohrring”. Jas. 12-2018

POEMA – “ENCONTRO”

CHEGASTE SÓ,
Rápida,
Deusa
No jardim,
Asas nos olhos,
Um horizonte
Sem fim...

A LUZ MORNA
Do entardecer
Deu brilho
Ao macio
Do teu rosto
Para o embelecer
Na penumbra
Que descia
Nesse cair
De sol-posto.

TUDO É BELO
Em ti, 
Quando te deixas
Ir,
E vais, livre,
Por aí,
Serena
E distante
Da fria rotina,
Seduzida pela cor
Que sempre
Te cativou
E há muito
Te destina...

 “ – ESTÁS MODERNO,
Meu amigo!”
Disseste, com
Malicioso sorriso,
Suave porto
De abrigo
De que tanto
Eu preciso...

VI-TE LEVE
Como traço
De pintor
Em aguarela,
Livre como
Pagã divindade,
Suave e doce
Como mulher
Sedutora
Em terna
E já madura
Idade...

VIMOS MIL
Quadros
Luminosos
E vi teu rosto
Em contraluz,
Esse perfil
Que há muito
Me seduz,
Traços finos em
Deslumbrante
Harmonia...
................
Era assim
Que nesse
Entardecer
Eu já te via!

SENTI-ME SUBIR
Ao céu,
Privilégio
Inesperado
Esse dom
Imerecido...
............
Ver-te ali
A meu lado
E sentir-me
Tão docemente
Perdido...

VEJO-TE, SIM,
Às vezes,
De semblante
Carregado,
Sulcos marcados
No rosto,
Recolhida
Num silêncio
Ecoado,
Dias cinzentos
Quando a luz
Te põe órfã
Por momentos,
Em sofrida
Melancolia!

CHEGASTE SÓ,
Nesse dia,
Mas cintilante,
A transbordar
De luz
E alegria.

LI-TE NA ALMA
Com o olhar,
Respirei contigo
O mesmo ar,
Dei vida
Ao que eu já
Pressentia...
................
Nesse morno
Entardecer!

QUANDO TE VEJO,
Assim,
Em sonho,
Nestes dias
De leveza,
Posso dizer
Que te amo,
Que te toco,
Ao olhar,
Que te beijo
Na alma
P’ra melhor
Te abraçar,
Que te digo
O que não ouso,
Ao sabor
Do vento
Em cada
Amanhecer
E que acordo
Sempre
Ao relento
Sob o céu
A descoberto
Para logo,
Bem cedo,
Ao lusco-fusco,
Eu te ter...

NO REGRESSO,
Parei a teu lado,
Por uns momentos,
Olhei-te
Sete vezes,
Um movimento
Sem fim,
Repeti
O teu nome,
Olhaste p’ra mim,
Perdi-me
Do mundo,
Levei-te ao jardim,
Colhi duas rosas,
Respirei
Bem fundo,
Um acre aroma
Me inebriou,
Beijei-te no rosto,
Meu peito parou...

MAS LOGO PARTISTE
Sozinha a voar
Ainda mais bela,
Comigo a sonhar,
Teus olhos
De mel
Em rosto sereno
E sempre feliz,
De alma bem cheia,
Um perfil de deusa
Como eu te quis...
....................
Até que o teu nome
Comigo partisse
P’ra este poema
Onde te recebi
Com estas palavras
Que nunca te disse
Mas que te ofereço
No que agora
Eu (já) escrevi!

JAS_Dame mit Ohrring231218FinalRec

FUGA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Corpos”.
Original de minha autoria 
sobre bailado de
Angelin Preljocaj para este poema. 
Dezembro de 2018.
Dance_16_12

“Corpos”. Jas. 12-2018

POEMA – “FUGA”

SINTO A TUA FALTA
E como a sinto
Eu danço e danço
Até cair exausto
No palco
De um poema.

SINTO O TEU SILÊNCIO
Murmurado
E como sinto
O meu canto
É triste,
Amargurado!

MAS NÃO SINTO
A tua pele
E como não a
Sinto
Eu pinto-a
De cores intensas
Numa folha
De papel.

NÃO OUÇO
A tua melodia
E como não a
Ouço,
Nem que seja
Por um dia,
Eu caio logo
Em silêncio
Para melhor
Te sentir,
Cá dentro,
Na minha fantasia.

FAZ-ME FALTA
A tua voz,
O teu sorriso...
..................
E como
Nunca me dizes
O nome
Digo-to eu
Num poema
Tão sofrido
Que busco
Um paraíso
Onde me sinta
 Perdido!

DA TUA FALTA
Nasce em mim
A orquestra
Para uma
Sinfonia,
Corpos que
Dançam
Abraçados
Ao sabor da fantasia,
Andamentos
Sem fim,
Em catarsia,
Contrapontos de
Silêncio,
Luzes e cores,
Aromas e
Flores...
.......... 
Neste palco 
Do poema!

TU FALTAS-ME
E eu revivo-te
No canto e
Na cor,
No silêncio e
Na dor,
Na dança
E no amor,
Na poesia...
...............
Em palavras
Que lanço
Ao vento
Construindo
As paredes
Desta minha
Utopia.

TUDO RECRIO
P’ra te reencontrar
À distância
De um poema,
Cantar-te,
Dançando
Com palavras,
Dizer-te
Em silêncio
Para melhor
Ouvir
O que nunca
Me dirás.

VISITO-TE, ASSIM,
Das mil maneiras
Com que te
Procuro
E te digo,
Encerrado
Numa torre de marfim,
Nesta teia
Enredado
P’ra melhor
Te reviver,
Com a leveza
Da arte,
Cá bem mais 
Dentro de mim.

Dance_13_12Rec

I N O C Ê N C I A

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Loubotinhas”. Original
de minha autoria para este Poema.
Dezembro de 2018.
Loubotinhas5

“Loubotinhas”. Jas. 12-2018

POEMA – “INOCÊNCIA”

ENTRE LIVROS
E POEMAS
Encontrei-as,
As botinhas,
Marcas puras
De infância
Que traçaram
Um caminho
Logo aos primeiros
Passos...
...............
Com o selo
Do carinho!

DEI-LHES COR,
A que pude
Encontrar
Nesta vida
De aventura,
E com ela
Eu pintei
As chegadas
E partidas,
Encontros
E despedidas
Na sua forma
Mais pura.

ENCONTREI-AS
E lembrei-me
Do dia
Em que eu
Te conheci,
Do sorriso
Que esbocei,
Da timidez
Que travei
P’ra te dizer
Do afecto
Que logo te
Prometi.

AGORA, REGRESSO
 A elas,
Aos passos
Que ensaiei,
Às palavras
Que tentei...
................
Ao beijo
Que não te dei,
À tristeza em que
Caí...

É DE PUREZA
Que falo,
Meu amor,
Antes de a vida
Me pôr
Laços presos
Ao meu corpo
Que já não sei
Deslaçar
A não ser
Em poesia
Onde posso viajar
P’ra muito
Perto de ti.

COM ESTAS BOTINHAS
Eu voo
E regresso
Ao paraíso,
Posso dizer
Que te amo
E mais dizer...
...............
Não preciso!

EU GOSTO DE 
GATINHAR COM
A ALMA,
Descobrir
O que não sei,
Encontrar-te
Outra vez,
Dar um passo,
Dois ou três,
Caminhar
Sempre inseguro,
Tropeçar
Quando me vês,
Cair prò lado
Escuro
Quando partes...
...................
Ou não me crês!

EU GOSTO DELAS
E por isso as pintei
Para tas oferecer,
Um sorriso
De criança
Antes de adormecer,
Um sinal
De esperança...
...................
E de tanto
Eu te querer!

REGRESSO
À inocência
E vejo-te
A partir dela
E assim já não
Te esqueço
Porque com
Estas botinhas
Posso voar
Lá de cima,
Da que foi
Nossa janela!

Loubotinhas5R

NA BRUMA DA MEMÓRIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Luar”. Original de minha
autoria para este poema. Dezembro de 2018.
Rosam5

“Luar”. Jas. 12-2018

POEMA – “NA BRUMA DA MEMÓRIA”

FUI LEVAR-TE
Uma rosa
Aos confins
Do meu afecto.
Desci fundo
Na memória
Onde ainda te
Guardava
Como se fosse
Teu tecto.

PROCUREI-TE
Na bruma
Espessa
Que caía
Sobre mim
E quase não te 
Encontrei,
De tão longa
Despedida...
...............
Uma saudade
Sem fim!

PERDI-TE
O rasto
E o perfil,
Até teu nome
Perdeu cor,
Teus olhos
Luziam,
Incertos,
Nesta neblina
Da dor...

PERDI-TE A VOZ
E a tua
Melodia,
Quase tudo...
................
Mas, no fim,
Não te perdia!

PORQUE ERAS
Uma ideia
Que me sobrou
Do afecto
Que por ti
Sempre senti,
Construção
De arquitecto
Para nunca
Te perder
Desde o dia
Em que te vi.

NO MEIO DA NEBLINA
Esfumava-se
O teu rosto
De tanto eu
Te perder,
Incerto
O cintilar
De teus olhos
Que eram negros
Nessa ideia
De te ver.

ERA BRUMA
Indefinida
Este meu
Esquecimento,
Mas sobraste
Como ideia
Nesse preciso
Momento.

E VOLTEI!
Eu volto sempre!
É desejo
De te ver,
Dar-te corpo
Nas palavras
Com que te quero
Dizer
Em cada dia,
Depois de, no fim, 
Te perder 
(Eu bem sabia).

AGORA, DESENHO-TE
Com palavras e
Com cores,
Com paisagens
Que tenho dentro
De mim,
Com rostos
E com flores,
Aromas,
Um passeio
Com pavões,
Utopias,
Gritos d’alma,
Emoções...
..................
P’ra te recriar
Com magia
E contigo
Caminhar
Lá mais no alto, 
Na fantasia,
Onde vive
Essa ideia
Que procuro
Quando te quero
Encontrar!

VOO COM UMA
Rosa,
Disfarçado de
Insecto,
P'ra te ver
Ali de perto,
Olhos negros,
Cintilantes,
Fugidios
Ao fascínio 
Do jogo da sedução
Numa noite
De luar...
............
E talvez
De perdição!

MAS TEUS
Olhos
Apagam-se
Na fria penumbra
 Da memória
E, então,
Pinto-os
Com as cores
Do arco-íris
P’ra melhor
Te inventar
Banhada
Pelo sol
Nas mil gotículas
Que brilham
Dentro de mim,
Ponte luminosa
Donde sempre 
Te alcanço
P’ra me resgatar
Com flores 
Do teu quimérico 
Jardim.

TOMA ESTA ROSA,
P'ra que sintas
O aroma  
Do meu estro
E como, ausente, 
Eu te guardo
Tão perto de mim!

Rosam5R

O PAVÃO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Azul no Parque”. Original de minha
autoria para este poema. 25 de Novembro de 2018.
Pavão4JPGCorExp.2211

“Azul no Parque” – Jas. 25.11.18

POEMA – “O PAVÃO”

FUI AO PARQUE
Do Mar’chal,
Logo ao amanhecer,
Num triste dia
D’outono,
À procura do pavão...
...........................
Eram muitas as saudades 
Pois passara mais
De um verão!

ENCONTREI-O
Por ali,
Sozinho,
Também triste
Como eu
(Ou talvez não),
E vi nele,
Ao caminhar,
As cores fortes
Desta minha 
Solidão...

PORQUE É
Tão belo
O meu pavão?
Porque se exibe
E me seduz,
Me enche
A alma e o olhar
De tanta cor,
De tanta luz?
Talvez não,
Pois esse seu 
Porte austero
Estranha
A minha alma
E gela-me 
A emoção!

MAS SEGUI-O, 
Nesse dia,
Parque fora
No silêncio
Luminoso
Da manhã...
.......................
Folhas caídas
No chão
Acolhiam
O nostálgico
Passeio
De um poeta
E um pavão...

NESSE JARDIM
Do encontro
A beleza
Despontava
Em seu ritmo
Natural...
..................
Passos lentos
E cuidados,
Pose austera,
Altivez,
Um singelo
Ritual!

CAMINHEI COM ELE
Horas a fio,
Lado a lado,
Sem destino,
Revendo
As cores que
Um dia
Te emprestou
Num jogo
De sedução
Que à arte
Te levou
Como torrente
Sensível
Ou lava
De um vulcão!

JÁ NO ALTO
De um muro,
Oráculo,
Arte pura,
Aparição,
Perguntei-lhe
Qual a cor
Da tua alma
E ele mostrou-me
(E com razão)
Esse azul
Tão luminoso
Onde sempre
Se esfumam
Os traços
Da tua mão...
...................
E logo,
E por encanto,
Eu vi
Espelhado
O teu rosto
Nas cores vivas
Do pavão!

Pavão4JPGCorExp.2211R

LUA

Poema de João de Almeida Santos,
 inspirado no quadro de Paula Rego “O Baile” (1988).
Ilustração: “Mouvement”. Original de minha
autoria para este Poema (Composição
sobre bailado de Jerome Robbins/Philip Glass -
Ópera Nacional de Paris - 2018).
Novembro de 2018. 
JAS_O Baile1811

Mouvement. Jas. 11.2018

POEMA – “LUA”

DESCI À PRAIA
Da meia-lua
A ver se te via
Num anoitecer
Que, com tanta luz,
Há muito 
Não acontecia!

ERA DA LUA-CHEIA
A luz que havia,
Gente que dançava
Em dia de festa,
De som e de cor,
E se divertia!

NO CLARO DE LUA
Vi um rosto
De mulher
Que não era
Estranho,
Um perfil qualquer...

ERAM NEGROS
Os seus olhos,
Boca
Rúbida e quente,
Pele macia
Em corpo ardente,
Cabelos ao vento...
.....................
Vi que era ela
A deusa do baile,
Luz branca da lua,
Espelho de mar...
......................
E logo minh'alma
Procurou a sua
Nesse cintilante
 Brilho do luar...

COM ELA DANCEI,
Saltei e cantei
Em alegria,
Respirei a fundo
Essa melodia
Que me inspirava
Numa bela praia
Em forma de lua
Que me seduzia.

VI O SEU SORRISO
Em perfil na lua
Que eu desenhei,
Uma luz intensa
Me alumiou
Quando eu dançava
Essa melodia
Que p’ra mim soou.

CORPO DE MULHER...
Eu já nem sabia
Se era ela 
Ou outra qualquer
Com quem eu podia
Erguer-me à lua
Com alma despida
Neste frágil corpo
Pouco mais que nu.

E TAMBÉM A ALMA
À sua procura
Era de nudez
Um pouco ousada,
Mas, sim, era pura
Por ser nesta lua
Que eu adivinhava
A minha ventura...
........................
Pouco mais que nada!

ONDE ESTÁ A LUA?
Nessa bela praia
Ou noutro lugar
Onde a possa ver
Espreitar a rua
P'ra me enfeitiçar?

ESTÁ EM TODO O LADO
Onde o poema 
Estiver,
Desenhando 
Com palavras
Um suave rosto
Que é mais de deusa
Do que de mulher...

JAS_O Baile1411REC1

ESPELHO DO TEMPO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Esfera do Tempo”.
Original de minha autoria para este Poema.
Novembro de 2018.
TempoFinal11_11p

Esfera do Tempo. JAS. 11-2018

POEMA – “ESPELHO DO TEMPO”


QUEM ÉS,
Tu que ressoas
Na minha imaginação
Sempre que parto
Para um poema? 

TEMPO
Que flui
E se gasta
Dentro de mim
Como memória
que se esfuma?

 ESFERA DO TEMPO...
É como te vejo
Do lado de cá
Do espelho
Plano
Onde te reflectes
Cada vez mais
Como espectro
Intangível.

TEMPO,
O nosso tempo,
Que desliza 
Silencioso,
Implacável,
Como esfera
De fogo,
Meteorito
Incandescente
Sobre o jardim
Das magnólias
Encantadas
Que me hão-de 
Renascer
Em cíclico 
Retorno...

E EU VOO
Atrás dele,
Do tempo,
Levito,
Queimando-me
As entranhas,
Vestido de
Azuis 
Que se mancham
De nuvens carregadas
Para apagar
O fogo 
Que faísca,
Intermitente,
Sobre mim.

ÉS TEMPO, SIM...
E és passado
Quando te revejo
Através de um 
Espelho
Baço e enrugado,
Superfície amarela
Iluminada por um
Clarão ao rubro
Que parece
Sombrear
Este presente
Sofrido!

MAS O MEU TEMPO,
Esse,
É intervalo
Entre o que foste
E o que serás
A meus olhos
Já húmidos 
De tanto fixar
Os teus espelhos
De água 
(Azul marinho)
Em busca
De uma poética
Da salvação
Quando me afundo
Na memória
Com que ainda
Te tenho
E te canto!

DENTRO DE MIM
Há, como sabes,
Um fogo intenso
Que me consome,
Mas que só arde
Por fora
Porque espelhos
Líquidos
Me devolvem a chama
De través
Para não petrificar
Como lava
De um vulcão
Aceso
Que me fascine
E atraia
Como se fosse
Borboleta...

ÉS TEMPO
E já não te alcanço
Neste balancear
Incerto
Onde me gasto
Em poemas
Para não ficar
Prisioneiro
Do passado
Nem de um futuro
Que se anuncie
Rápido a
Devorar-me
O presente.

QUEM ÉS TU, AFINAL?

TempoFinal11_11pREC

VOU CONTIGO P’RA PASÁRGADA

Poema de João de Almeida Santos.
Diálogo com o poeta brasileiro
e nordestino Manuel Bandeira - 1886/1968
(Poemas: “Vou-me embora p’ra Pasárgada”
e “Brisa”), pelo cinquentenário da sua partida.
Ilustração: “Pasárgada”. Original
de minha autoria para este Poema.
Novembro de 2018.
PasargadaFinal5

“Pasárgada”. Jas. 11-2018

POEMA – “VOU CONTIGO P’RA PASÁRGADA”

VOU CONTIGO
P’ra Pasárgada,
É outro mundo,
Irmão,
Eu não fico 
Por aqui,
Falha-me
A inspiração
Porque a brisa
Do nordeste
Ficou lá
No Maranhão!
 
NÃO TENHAS,
Manel,
Saudades, 
Nostalgia do futuro...
Temos passado
Que baste
E foi, sim,
Foi muito duro!

VOU CONTIGO
P’ra Pasárgada 
Não quero
Ficar aqui,
Há tempestade
No ar
E a brisa do nordeste
Não passou
Do Piauí.

P’RA PASÁRGADA
Quero ir,
Lá todos
Falam verdade,
Por aqui
Ah, eu nem sei,
Já me falta
Liberdade...

GOSTO DE TI,
Ó poeta
Do reino
Da utopia,
Sem passado
Nem futuro,
Onde se faz
Poesia,
Se pinta,
Canta
E dança
Porque o ar
É do mais puro
E cheira 
A maresia! 

VOU CONTIGO
P’ra Pasárgada, 
Por aqui
Não fico bem,
É escuro
O horizonte
E eu até
Já me sinto
Como se fosse...
..................
Ninguém!

NÃO GOSTO
D’estar aqui,
Há ruído
Que é demais,
Esta terra
Não me serve,
Eu espero-te
No cais...
..............
Vou contigo
No teu barco,
À procura
De mar calmo,
Céu sereno
E tudo o mais,
Navegando
No azul,
Peixes voando
No mar,
No horizonte
Uma ilha,
Mulheres lindas
A acenar...

EM PASÁRGADA 
Sou feliz
Canto e
Danço
Na madrugada
Até que o corpo
Se canse
Com alma
Apaixonada
E adormeça
No regaço
Da mulher
Que for amada.

POR AQUI OUÇO
Ruído,
Há armas 
A crepitar,
Matam poemas
Com gritos,
Já não podemos
Cantar...

VOU CONTIGO
P’ra Pasárgada 
Meu mestre
De poesia,
Cantarei os teus
Poemas
Seja de noite
Ou de dia...

VOU CONTIGO
P’RA PASÁRGADA...

PasargadaFinal5Rec

DUAS HORAS…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Entardecer”. Original de minha autoria
para este poema. Outubro de 2018.
(Reproposição de um poema de 2017, com adaptações 
e nova ilustração).
EntardecerC8

“Entardecer”. Jas. 10-2018

POEMA – “DUAS HORAS…”

OLHEI-TE NOS OLHOS!
Eram negros,
Intensos
E tão profundos!
Toquei teus cabelos
Com o olhar,
Caminhei a teu lado
Nesse jardim,
Senti o teu corpo
Tão perto de mim
A respirar
O acre perfume
Da verde
Ramagem
Do vasto jasmim…

INEBRIOU-ME
Esse intenso
Aroma
E eu enredei-te
Em tão doce
Enleio
Que não tinha fim…

BRILHARAM
Tão docemente
Duas horas inteiras
Esses teus olhos...
.........................
E neles me perdi!

ESTIVE NO CÉU
Ao lado de deus
E lá vi dois sóis
Que não eram dele
(Uma luz intensa)
Porque eram teus!

MAS O TEMPO
Correu
Depressa
Demais...
..................
E é sempre assim,
Todos os dias
Se tornam iguais
Quando tu partes
E, em nostalgia,
Eu fico no cais…

VOLTEI A OLHAR-TE
Três horas seguidas...
Parecia verdade
Mas era ilusão
Porque partiste
Deixando-me só
E o que sobrou...
....................
Foi solidão!

SUBIU A TRISTEZA,
A saudade irrompeu
Colou-se-me
Ao rosto...
...............
E como doeu!

SE EU NÃO TE VEJO
Sinto
Falta de ti,
Mas se te encontro
Logo te perco
Porque o tempo
Voa
E logo te leva
P’ra longe dali!

TER-TE DEMAIS
Aumenta a saudade
E quando te vais
São negras
As nuvens
Da nossa cidade!

AINDA QUE TRISTE
Eu sou feliz
E com estas mãos
Te vou escrevendo
O que quero dizer...
........................
Mas este meu tempo
Volta a correr
E cresce a vontade
De logo te ver
Mesmo que saiba
Que é nesse instante
Que te vou perder…

TENHO SAUDADES,
Saudades de ti,
Desse virar
Da nossa esquina,
Na mesma rua
Onde te vi,
Dessa janela
Donde espreitamos
O que do mundo
Sobra p’ra nós…

EU JÁ NEM SEI
Que hei-de fazer,
Ter-te demais
É puro prazer...
...................
Mas quando te vais
Fico a morrer!

NEM SEI QUE
Te diga,
Ah!, meu amor,
Quando me deixas
Já nem sinto dor
Tão grande a tristeza
De já não te ter
Pois tu partiste
Mesmo sem querer!

OLHEI-TE NOS OLHOS,
Sim, meu amor,
Nesse entardecer...

O TEU CORPO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Penché”. Original de minha
autoria para este Poema sobre um bailado
na Royal Opera House. Outubro de 2018.

Nota: “Penché” é o nome que designa a posição 
que, em dança, continua o “Arabesque” 
e é a que se vê neste quadro.
Pencher2

“Penché”. Jas. 10-2018

POEMA – “O TEU CORPO”

HÁ POESIA
No teu corpo...
Alma geométrica
Que se desenha
No espaço
Para te contar
Sem palavras,
Contraponto 
silencioso
E expressivo
Da tua melodia.

HÁ MÚSICA
No teu corpo...
Pauta
Da beleza
Que levita,
Instável,
Entre cores,
Desenhando
Enigmas
Que só o
Poema
Pode decifrar...

TENS A ALMA
Inscrita
No corpo,
Como eu a
Tenho nas palavras
Que roubo
Ao poema inatingível
Que procuro,
Incansável,
Como minha utopia...

VEJO-TE
Como letra
De uma canção
Que vou cantando
Na minha subida
Ao Monte,
Porque o vale
Já não me chega,
Nem tu chegas,
Pois partiste
Em busca dos palcos
da tua vida... 

MAS EU RESPIRO,
Com o poema,
A tua dança,
Ao longe,
Em forma de
Letra
No discurso da
Beleza
Em que nos vamos
Enredando
Como em teia
Que prende
E nos liberta...

E PROCURO-TE
Na pintura,
Fixo-te
Para te cantar
Quando a noite
Cai sobre mim
E mergulho
Na solidão
Do silêncio
Com que, de longe,
 Me falas.

VEJO-TE
Num bailado
A solo,
Dançando,
Dançando,
Para que te cante
Num poema,
Ao ritmo do
Corpo
E da alma
Com que te
Vais desenhando
Nas telas
Da tua vida.

E, NO FIM,
Rogo-te 
Que não pares
O teu silencioso
E longínquo
Bailado
Solitário
Até que eu te
Desenhe
Em palavras
Para que nelas
Te revejas
Como se fossem
O espelho
Encantado
Da tua alma!

A TEIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Pas de Deux”. Original de minha
autoria para este poema (sobre um “Pas de Deux”
na Royal Opera House - Londres).
Outubro de 2018.
PdDeux14

“Pas de Deux”. Jas. 10-2018

POEMA – “A TEIA”

JÁ GASTEI
Todos os poemas
Cantando
O que não ousas
Ouvir.
Já me fogem 
As palavras
E fico mais 
Pobre de ti!

JÁ NEM SEI
Se é silêncio
Ou são notas
Dissonantes
Com que me cobres
A suave
Melodia.

NEM PALAVRAS
Nem cores
Nem notas
(Desenhadas)
Na pauta
Do silêncio
Com que me falas...
...................
Nada!

AH! NEM EU
Já saberei 
Nomear-te
Na hora
Da despedida,
No encontro
Que nunca
Marcaremos
Nessa baça
Encruzilhada
Onde sempre
Te perdi!

PARA QUE SERVE
A poesia
Se não a
Sentes...
Por dentro?
Para que serve
A pintura
Se não desenhas
Com a alma?
Para que serve
Gritar
Se não ouves...
Com o peito?
Para que sirvo eu,
Poeta,
Se não te vejo...
Por fora,
Mesmo que te desenhe
E cante...
Por dentro?

PARA NADA,
A não ser
Para celebrar
O futuro
De um passado
Que esmoreceu
Para nunca lá chegar,
Perder-me
Na rotina
Dos ecos
Silenciosos
Da alma,
Enganar-me
Em desencontros
Inventados,
Ir por aí
Sem saber
Para onde vou,
Desaparecendo
Na montra
Dos meus inúteis
Passeios
Pela arte
Que desenterrei
Das vísceras!

AO MENOS DANÇO
Em Pas de Deux
Com meus
Poemas
Desenhados,
Enredado
Nos mil fios
Da fértil
Imaginação
Do poeta pintor
Que levita
Sobre escombros
De uma casa
(Ou de um palco)
Que nunca construiu...

É A DANÇA
Da solidão,
Contigo
Suspensa
Nos fios
Da teia
Em que vou
Enredando
A minha vida,
Até tombar exausto,
Ao cair do pano...
..................
Que tarda!

NEBLINA

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Deusa”. Original de minha autoria 
para este poema. Outubro de 2018.
Deusa021018Con8Final

“Deusa”. Jas. 10-2018

POEMA – “NEBLINA”

CRUZO-ME CONTIGO
Nas frias ruas do
Desencontro...
E não te vejo!

CAIU NEBLINA
Sobre nós...
............
Um fino véu
Translúcido
Desce
Sobre o meu
Rosto
Quando te 
Pressinto!
 
ESVAI-SE
A nitidez
E regresso
À memória
Onde ficou
Gravada
A ideia
De ti,
O retrato
Imaterial
Que desenhei
Na fina tela do meu 
Imaginário,
As cores intensas
Que te iluminam
E quase me
Cegam....
................
Por dentro.

CRESCES
Em mim,
Mas diluis-te
Por fora
Como espectro
Que se esgueira
Na fria bruma
De um entardecer,
Sem deixar rasto.

DA TUA IMAGEM
Física
Restam-me
Ténues riscos
De um rosto
Em aguarela
Inacabada
Que desmaia
No tempo
Que passa,
Veloz.

POR FORA,
O azul é cinzento,
O sol é sombra
E a luz já nem 
Atrai
As borboletas
que lhe voam longe.
O som emudece e
O tempo pára.
A vida já só
É passado.
Arrefeceu.
Petrificou!
 
MAS HÁ UM
Contraponto
Luminoso!
Lava ao rubro,
Quente,
Jorra em mim
E inunda-me
A imaginação.
O sol 
Acende a tua
Imagem irreal...
................
E então ganhas 
Perfeita
Nitidez,
Cor exuberante,
A forma
De uma deusa
Luminosa.
Até o silêncio
Fala
E nele
Ouço, por dentro, 
A tua
Encantatória
Melodia.

REACENDE-SE
Vida
Na minha
Imaginação
E eu recrio-te
Para voar,
Em fuga,
No teu azul
Até ao infinito...
.....................
E não mais
Voltar
Às frias ruas do 
Desencontro.

Deusa021018Con8Final_R

Pas de Deux

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Coreógrafo”. Original, de
minha autoria, para este poema. 
Setembro de 2018.
OCoreógrafoFim300918_trab

“O Coreógrafo”. Jas. 09-2018

POEMA – “Pas de Deux”

SOU COREÓGRAFO
Da minha alma,
Desenho-me
No espaço,
Embalado
Pela suave
Melodia do teu
Silêncio...

IMAGINO-ME,
Às vezes,
Num "pas de deux”
Contigo
Num palco
Em noite
De luar
Ali, na praia
Da meia-lua,
A dançar
O murmúrio
Desse mar
Com que te
Pintas
E ouves
Dentro de ti!

DANÇO
Com palavras,
Suspenso no ar
Pelos fios
Dos poemas
Com que
Teimosamente
Ilumino
Os caminhos
Por onde nunca
Ousas passar...

O SILÊNCIO É A TUA
Sinfonia,
O teu canto
De sereia,
A melodia
Que ressoa
Nesse mar
De linóleo
Onde me desenho
No suave
Bailado,
A solo,
De uma infinita
Despedida...

GOSTO DESTA
DANÇA
Espectral,
Contraponto
Dos sinais
Invisíveis
Com que pontuas
A tua assinalada
Ausência.

E CANTO-TE, SIM,
Mas, neste meu
Cantar,
Eu conto-me
Como espelho
Onde podes
Rever
O passado
Desse futuro
Que nunca
Existirá.

AGORA, SOZINHO,
No linóleo,
Ao pé da praia
Da meia-lua,
Acendo um sol
Com minhas mãos
E procuro
O que nunca
Encontrarei...
...............
A não ser
Sombras
De mim próprio
Gravadas
Na areia
Da baixa-mar.

POR ISSO, DANÇO,
Canto e 
Pinto
Em contraponto,
Livremente,
Com a melodia
Interior
Que toma
Conta
De mim
Sempre que um véu
Protector
Desce sobre
O meu rosto
Para apenas
Pressentir a tua
Silhueta,
Quando
Atravessas,
Atarefada,
A rotina
Dos teus dias.

ESTE,
O que te celebra
Em arte,
Já não sou eu,
Mas o coreógrafo
Da (minha)
Melancolia!

O Coreógrafo250918Final26Rec

É OUTRA, A JANELA…

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “A Outra Janela”. Original de JAS 
para este Poema. Setembro de 2018.
OutraJanela_160918

“A Outra Janela”. Jas. 09-2018

POEMA – “É OUTRA, A JANELA…”

DESTA JANELA
Não te vejo!
Há um caminho,
Uma silhueta
Que se insinua,
Mas não sei
Onde me leva...

SÓ SEI QUE
Parto,
Com o olhar,
De um viçoso
Canteiro
Verdejante
Onde as camélias
Me apontam
Um incerto
E sedutor
Destino,
A levante...

SIM, HÁ SEMPRE
Uma outra janela
De onde ver
O mundo...
.................
Mas nesta
Não te vejo
Sequer como perfil,
A nascente.

VEJO, SIM, 
Uma rua
Ou um rio,
Um traçado sensual,
Marcas
(Invisíveis)
De passos remotos
Escritos na água,
Um recanto liberto
Do presente,
Um caminho
Onde ninguém
Cruzou
Afectos
Para se despedir
Do que nunca
Ousou...

É OUTRA JANELA!
Não é a tua
Nem a dela,
Debruçadas sobre
A montanha
Ou sobre o mar!
É outra
De onde nunca
Verei
O teu rosto,
Porque dela,
A levante,
Lá onde nasce
O sol,
Chega uma luz
Que me cega
De tanto brilhar...

É A INTENSA 
Luz do dia
Que nos convida
A viver, sim...
....................
Mas o poeta
Dobra-se
Em si,
Com metódica
Timidez,
Para alcançar
Uma luz interior
Que o ilumine...
Sem cegar!

ENTENDES?
O mundo,
Quando acorda,
A nascente,
Ou entardece,
A poente,
Muda de cor
E de luz,
Mas vê-se sempre
Duma janela...
.............
E eu, a ti,
Vejo-te sempre
A sul,
Uma parábola
Entre o nascer
E o entardecer...
Quase como
Um destino!

SIM, TUDO DEPENDE
DO OLHAR,
Bem sei...
Se te vejo
Ou não te vejo,
Se na janela
Me revejo
Ou te descubro
Olhando 
O horizonte
Através das palavras
Com que há muito
Eu te digo...

MAS SABES PORQUE
NÃO É TUA,
Esta janela?
Porque nela
Te veria
De cima para baixo,
De um lugar
Que não é meu
Porque sempre
Foi teu,
Um lugar cimeiro.

E EU CANTAVA-TE
Cá de baixo,
Deste meu lado
Da rua
Com a alma
Cheia,
Mas nua,
Para me poder
Vestir de
Ti.

PERDI-TE,
Como sabes,
Porque nunca tive
Uma escada
Para te alcançar...

E, AGORA,
Há camélias,
Aqui.
Bem as vejo
Cá de cima,
Perto de mim.
Há um canteiro
Luminoso,
Talvez uma
Escada, sim...
............
Mas para ver
Mais longe!
Há um recanto,
Um caminho,
Há cor
E há palavras,
Uma silhueta
A apontar 
O sentido...
.....................
Mas eu não te vejo
Ao pé de mim,
Nesta janela,
A olhar a esquina
Que nunca ousámos
Dobrar...

HÁ SEMPRE OUTRA...
Janela!

OutraJanela_160918Rec

AZUL

Poema de João de Almeida Santos 
Ilustração: “Paraíso”. Original de minha autoria 
para este Poema. Setembro de 2018.
Jas_Paraíso

“Paraíso”. Jas. 09-2018

POEMA – “AZUL”

TANTO AZUL,
Meu deus!
O teu céu,
Esse imenso mar,
É espelho
Dos teus sonhos,
Medida do teu 
Olhar.

O MEU É BRANCO
E cintilante
Para te alumiar
Na noite escura
Onde brilham
Gotículas salgadas
Nos teus olhos,
A navegar...

OUVE-SE
O suave murmúrio
Das ondas
Que abriga,
Como véu
Translúcido,
O estranho silêncio
Que há muito
Ouço,
Insistente,
Com a alma
Dorida do
Poeta que me
Habita.

QUANDO, NOS
SONHOS,
Ao longe
Te entrevejo
Vestida de azul
Turquesa,
Entro numa porta
Branca
Que me leva
Directamente ao
Paraíso...
...................
E nele voo, voo,
A perder de vista,
Deixando para trás
O jardim
Inacabado,
Porta escancarada,
Bailéus desenhados
A rigor,
A preto e branco,
De onde
Um dia
Te vi
E cantei
No meu primeiro
Poema,
Num estranho
Enlace
Que não tem
Fim...

NOS SONHOS,
(Em todos eles)
Caio das nuvens
Brancas
Como Ícaro
Ou meteorito
Incandescente
E quase me afogo
Nesse frio azul
Até te encontrar
No coral
Luminoso
Onde vives
Vestida de todas
As cores
Que povoam
A cidade
Dos poetas...

MAS É ESSE 
Teu azul
Profundo e
Denso,
Que respiro,
O que me sobra
De ti,
Nos sonhos
Escritos
E pintados
Com que te
Vou soletrando
Lentamente...
Até cair exausto
E adormecer
No regaço
Da tua alma.

Jas_ParaísoR2

SEGREDO

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: "Meteorito". Original de minha autoria 
para este Poema. Setembro de 2018
JAS_Meteorito020918_030918jpg

“Meteorito”. Jas. 09-2018

POEMA - "SEGREDO"
VOU CONTAR-TE
UM SEGREDO:
Amei-te
Em poesia!
As palavras eram
 Graves,
Mas sempre cheias
De cor,
Com rimas
Muito suaves
E melodia
Com dor...
.........
Com tudo
O que de ti
Me sobrou...
...........
Meu amor!

CONTEI-TE HISTÓRIAS
De desencontros,
Dancei
Com palavras
Luminosas
Que inventei
Para por dentro
Te ver
Nesse quintal
De rosas 
Que cultivas
No teu peito.

CANTEI
Para te aquecer
Na fria dança
Do silêncio
E contigo levitar,
Voando,
Invisíveis,
Sobre ruas
E praças,
Ao luar...
................
E, depois,
Pela manhã, 
Um arco-íris 
Erguer
Como ponte
Desse vale
Exuberante
Onde sempre 
Te sonhei...
Neste meu 
Entardecer.

SONHEI,SIM,
Alheio ao bulício
E ao cochichar
Indiscreto
Dos que não sabem
Voar...

AH!, QUE SONHO ESSE...
.................
Mas sei que não
Pousaram
No parapeito da 
Tua janela
As palavras
E que alguém te
Contou
Que andavam
Borboletas
No ar,
Esvoaçando,
Perdidas,
À procura de pólen
Nos jardins 
Verdejantes das
Nossas vidas...

E TU PERGUNTAS,
Agora,
Se ainda vivem,
As borboletas
De vida breve,
Se regressam
Ou já pousaram
Noutro jardim,
Se há pólen,
Se há vento
Ou pensamento
Que as traga
De volta
Desse incerto
Confim...

E EU RESPONDO
Que o seu destino
É o brilho deste céu
Que ainda vive
Dentro de mim.

JAS_MeteoritoFim2308R

MAGIA

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração – “Magia”. 
Original de minha autoria, para este Poema. 
Agosto de 2018.
Magia190818FinalDefinitivo1608JAS

“Magia”. Jas. 08-2018

POEMA - "MAGIA"
OLHO A MONTANHA
De uma porta
De granito
Amarelo
(O de sempre,
Muito belo,
Com cristais)
Sobre o ocre
De um telhado
Como se fosse janela
Do meu palácio
Encantado
(Que do sonho
É o cais).

CONTEMPLO A SERRA
De sempre,
Mas é diferente
A visão,
Antes, eu via futuro,
Agora, vejo passado,
Essa bela ilusão
De te ter sempre 
A meu lado.

ENTRE PASSADO
E FUTURO
Sempre foi
Identidade,
Ficou quieta
À minha espera
Quando dela
Eu parti
Ao encontro
Da Cidade.

SUA FRONTEIRA
É o céu,
Abóbada sideral,
Sinto-a
Dentro de mim
Como fonte
Seminal,
Espelho da minha
Infância,
Um horizonte 
sem fim,
Forte raiz
Comovida
Que eu tive
De deixar
No duro jogo
Da vida.

ELA É PORTO
De abrigo
E é lugar de
Partida.
É, pois, mais
Do que janela...
.................
É fronteira
Que passamos
Quando a vida
Se revela.

É UM ETERNO RETORNO,
Um regresso 
Renovado
Onde posso
Renascer
Quando recrio
A memória
Do que não
Quero perder
Sem ter ficado
A teu lado.

ESTA PORTA
É MAGIA,
Viajo através dela,
Dou asas à fantasia
Como se fosse
Janela
De onde voo
Com o vento
Nos versos destes
Poemas
Que, sem ti,
Me dão alento.

DELA VOEI
Para o mundo
E o mundo veio
Até mim...
......................
Quando passei
Esta porta
Já era um mundo
Sem fim...

POR ISSO REGRESSO
A ela,
Esse pilar
Do meu ser...
..............
Quando chego,
Amanhece,
E, se parto,
Nem sinto
A despedida
Porque dela vejo
O mundo
Como a montanha
Da vida.

Magia190818FinalDefinitivo1608JASR

A OFERTA

Poema de João de Almeida Santos. 
 Ilustração: "Natureza Morta". Agosto de 2018. 
 Original do autor para este Poema.
JAS_Natureza MortaFinal120818PoemaFim

“Natureza Morta”. JAS. 08-2018

POEMA - "A OFERTA"
DO ENCONTRO IRREAL
Que aconteceu
Nesse tão cinzento
Dia
Quis libertar
O meu ser
Sem saber se
Conseguia.
Corri, então,
Junto ao mar
À hora da maresia...

SALTEI, DANCEI,
Respirei
Com a brisa
Que fazia
E libertei
O meu corpo

Da opressão
Que sofria...

FICOU O CORPO 
Sozinho,
À deriva, nesse dia,
Mas no regresso
Da praia
Eu vi-te
No meu caminho...
....................
Milagres da fantasia!

LOGO TE FIZ 
Um poema
Pois correr 
Já não chegava,
Pus palavras 
A sorrir
Quando a alma 
Regressava!

FUI COM ELA
À Montanha
,
Quis trazer-ta 
Num cabaz...
...............
Colhi frutos 
Lá no alto
Guardei-os junto
Do peito
P’ra esse encontro 
Fugaz
Que eu queria, sim,
Perfeito!

LEMBRAS-TE BEM 
Dessa cesta,

Dos frutos que 
Nela trazia?

Vinham todos 
Da Montanha,

Traziam consigo 
Alegria!

ESSES FRUTOS ERAM
Poemas
Que não podia 
Cantar,

Derramavam seus 
Aromas 

Em palavras de 
Embalar
E contavam 
Mil histórias

Que te faziam sorrir...
......................

Era oferta singela 

De quem só te
Queria sentir!

NA CESTA HAVIA 
Estrelas
Às centenas, 
vermelhinhas...
..................
Não viste nelas 
Cintilas

Que voavam 
Tão juntinhas?

ERAM MIL CORES
E aromas
Que desses frutos 
Brotavam,

Colavam-se 
À minha pele,

Mas era por ti 
Que passavam!

PARTISTE COM ELES 
Ao colo,

Rápida, sem me olhar,

Não esperava protocolo

(Tu bem sabes),
Mas foi grande
O meu espanto
 Desse teu estranho ar!

SÓ À NOITE ME DISSESTE
“- Obrigada, meu Amigo,

Esses frutos 
Que me deste,
Tão belos e tão gostosos,
Não serão 
O teu abrigo”!

P'RA ME CURAR 
Da estranheza
Fui correr 
Em poesia,

Cantei em rima 
Poemas,
Resisti bem 
À tristeza
Sem a tua companhia
Pois sempre em 
Meus versos
Ecoa
Uma tua melodia!

CUREI O CORPO, 
Não a alma!
Essa ficou 
Presa em ti,
Ninguém pode 
Devolver-ma,

Mas, assim, não te 
Perdi!

JAS_Natureza MortaFinal120818PoemaFimR

ESTRANHA ENCRUZILHADA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – “A Rua”.
Original do autor. Agosto de 2018.
VdP0108ExpCOR
"A Rua". Jas. 08/2018
POEMA - "ESTRANHA ENCRUZILHADA..."
CRUZEI-ME CONTIGO
Numa esquina
Da vida
Nesta rua
Onde reinventei
Uma estranha
Despedida!

NÃO TE VI
Como te via
Da janela
Sobranceira
Quando passavas
Na rua
Abraçada
À beleza, 
Teu perfeito 
Avatar
Numa nova
Encruzilhada
Que o tempo
Quis desenhar...

SE TE VI,
Mas eu não sei,
Foi duma janela
Vidrada
Que me devolveu
A imagem
Como espelho
De uma fada
Onde te fui
Visitar!

MESMO ASSIM
ESTREMECI...
Pressenti-te
Sem te ver,
Fugidio
Ao olhar
Indiscreto
De um acaso
Tecido pelo
Destino...

AH! DEPOIS 
SEGUI
Com a alma
Essa tua silhueta
Embaciada...
Pensei
Que não ia
Por ali
No meio
Da multidão,
Que não te via
Por falta
De nitidez
Do meu campo
De visão,
Que não te reconhecia
Nessa rua paralela
Onde todos
Nos cruzamos,
Indiferentes
Ao que já
Nem vemos nela!

ANÓNIMO
Me assumi
Como essa gente
Comum
Que se cruza
No caminho
Sem jogar
O seu destino...

SENTI TRISTEZA
Profunda,
A alma
Petrificada
Com lágrimas secas,
Das que
Não saem de nós,
Não banham
O nosso rosto,
Dor íntima,
Dor atroz
Cravada no peito
Lá bem fundo,
Perdida,
Já sem voz
Nem a melodia
Com que cantava
O rio
De que tu eras
A foz.

QUE ESTRANHA
Sensação!
Caminhando
Lado a lado,
Perdidos
Num horizonte
Que se esfuma
Até nos engolir
Como espuma
Que se desfaz
Na areia branca
Da praia...

ATÉ QUE CHEGUEI
A estas palavras
Escritas na água
Remexida pelo vento,
Também elas
Esmorecendo
Na praia
De um lamento
Porque sigo
Outras ondas
Noutras rimas
Em poemas errados
Ou simulados
Para dar voz
Ao poeta triste...

MAS GOSTEI
De olhar
Sem te ver,
Apenas imaginando
Que eras tu,
Regressada dos confins
Da minha memória...

E GOSTEI
Que me visses
Sem me olhar,
Pensando
Que nem sequer
Me pressentias,
A mim,
Esse anónimo
Que te seguia
Para logo
Te perder...

TUDO TÃO ONDULANTE,
Tão dolorosamente
Normal,
Estranhamente
Banal...
......................
Que até este poema
Espanta
Por cantar
O que nunca 
Aconteceu!

QUE EXERCÍCIO
Foi este?
Crueldade
De um destino
Apenas imaginado?
Indiferença fatal
Que se torna
Irreversível
Como ferida
Que não cura
E dor
Que dissolve
Como espuma,
No poema,
As palavras
Com que ainda
Te digo?

AFINAL, QUE TE FIZ,
Meu amor,
Para te perder
Assim,
Ao entardecer,
Numa encruzilhada
Da rua 
Que reinventei
Para te cantar
Como melodia
Para quem já
Não me ouve?

VdP0108ExpRec

POR CAMINHOS PARALELOS…

João de Almeida Santos

Ilustração de minha autoria. Julho de 2018.

FAMA2507“Uma Casa no Jardim”. JAS. Julho, 2018.

POEMA

POR CAMINHOS
PARALELOS
Nos seguimos
Ao infinito,
Pintei o meu
De vermelho
Mas o teu
É mais bonito!

GASTEI
As minhas palavras,
Gasto as cores,
Eu já nem sei,
E porque o silêncio
É de ouro
Só às palavras
Cheguei.
Mas tirei-lhes
Logo o som
Por saber
Que te doía.
 O silêncio
É, pois, o rei
Até que te veja,
Um dia...

A ESTES SENDEIROS
Cheguei
Quando eu te
Conheci,
Foram-se anos,
Bem sei,
Desde o dia
Em que te vi...

SÃO CAMINHOS
PARALELOS,
Nisto, naquilo,
Sei lá...
Mas estás
Do outro lado,
Eu não te vejo
Por cá,
Na rua do
Desencontro
Que ficou
Muito vazia
Desde que tu
Foste embora
Dessa forma
Inesperada
Como eu, sim,
Já previa...

O HORIZONTE
Que vejo
É o ponto
Destas linhas
Paralelas,
Convergimos
No olhar
Mas não caminhamos
Por elas
Porque a vida
Nos tirou
Da rua 
Das aguarelas! 

FAMA2507c

O SILÊNCIO DO POETA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Vermelho”. Quadro de
minha autoria. Julho de 2018.
Vermelho1
Vermelho. JAS. Julho de 2018

O SILÊNCIO DO POETA – POEMA

O SILÊNCIO DO POETA
É dito em poesia
Como canto
Em surdina
Do que não
Pode calar,
Do que sente
Mas não diz
Se conjuga
O verbo amar.

 SUA DOR VEM
Do silêncio
E chega à poesia.
Nela o poeta
Diz mais
Do que pode
E não devia
Porque sofrendo
Em excesso
Em sua dor
Não cabia.

 E FALA COM O
Silêncio,
A fala da poesia.
Diz tudo
O que nela cabe
Em suave melodia,
O que só
A alma ouve
Dessa triste
Sinfonia...

 SEU SILÊNCIO
É poesia...
...........
No cantar
É que ele sente
O que dizer
Não podia.

 DIZ, POIS,
SEM O DIZER.
É outra coisa
Que diz.
Sofre em silêncio
O poeta
A dor 
Que lhe vem
Lá da raiz
E que só o verso
Cura
Sem que o faça
Feliz.

 OUTRO SILÊNCIO
É o dela
Que nem lhe manda
Sinais...
.................
“ - Não importa”,
Diz-lhe ele,
“Dentro de mim
Vives mais”.

 O CANTO 
DESTE POETA
Do silêncio
 É o selo,
Sua vida é 
Em verso,
Não é fria 
Como gelo.
Seu canto 
É em surdina,
Só o ouve 
Quem o lê
Mas com luz 
Que ilumine
Aquilo que 
Não se vê.

 ASSIM O VATE
Persiste
Nesse sol 
Que irradia
E se o silêncio 
É gelo
Derrete-o 
Com fantasia,
Pois se a vida 
É de dor
Conjuga-se 
Em poesia...

Vermelho1Recorte

A MAGNÓLIA ENCANTADA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração – “A Magnólia Encantada”.
Original de minha autoria. Desenho e Poema sobre
Magnólia. Julho de 2018

MagnoliaEncantadaA Magnólia Encantada. JAS. Julho de 2018

"Una magnolia / pura, / redonda como un círculo / de nieve / 
subió hasta mi ventana  / y me reconcilió con la hermosura...
...Como / cantarte sin / tocar / tu / piel puríssima, / 
amarte / sólo / al pie / de tu hermosura,/ e llevarte / dormida /
en el árbol de mi alma, / resplandeciente, abierta, / 
deslumbrante, / sobre la selva oscura / de los sueños”

Ode à Magnólia – Pablo Neruda

MagnoliaEncantadaR1

A MAGNÓLIA ENCANTADA – POEMA

ERA UMA VEZ
Uma magnólia
Encantada,
Como num sonho,
Uma fada
Em busca
Do que perdera
No jardim
Onde morava...

FLOR EM FORMA
DE PEIXE
No profundo
Oceano da vida
À procura das raízes
De uma estranha
Despedida...

TRAZIA CONSIGO
Um inocente
Espanto
De ter ficado
Tão só,
De repente...
................
Por encanto!

PARTIU, 
LEVOU COR
E muita luz
Que seu corpo
Alumiava
Nesse caminho
Estreito
Que a dor
Incendiava...

DEIXOU O JARDIM,
Mar adentro,
Água seminal,
Em forma de peixe,
À procura
Do que perdera
Em recife de coral...

MAS ENCONTROU-TE
À TONA,
Vagueando
Nesse mar
Da tua vida,
Cores e
Riscos
Como remos,
Em busca da
Praia perdida...

REGRESSOU...
Vinha triste
De não te poder
Resgatar
Nesse dia,
No alto mar!

VOLTOU,
Mas era tarde 
Demais.
Já não te via
Remar...
.................
E então deu-se
De novo
Ao mar
A ver 
Se te encontrava
Nalguma praia
Deserta
P'ra te redimir
Com essa arte 
Divina
Em que já te via
Incerta...

FOI À PROCURA 
DE CORES,
Eram muitas 
E vibrantes,
Encontrou-as
No jardim,
Essas luzinhas
Brilhantes...

E LÁ FOI
E anda ela,
Umas vezes 
Como peixe
Outras 
Como aguarela,
Sempre 
À procura de ti,
Levada
Pela corrente,
Por aí,
Com ar tímido, 
D’espanto,
Até que um dia
Te encontre,
Talvez triste,
Na praia 
Do teu recanto!

ENTÃO DEIXA-TE 
AS CORES
E regressa 
À sua melancolia.
É flor em mutação,
Cada dia,
No tempo 
Em que germina, 
Renovada, 
A raiz da nostalgia...

MAGNÓLIA ENCANTADA
Num poema
E na pintura...
................
Assim te vou 
Construindo como 
Fada
Que me cura!

MagnoliaEncantadaR2

O BEIJO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração original do autor – “O Beijo”. 
Dia Internacional do Beijo: 6 de Julho, 
o dia que celebro, com um poema, cada ano.
Inspirado no Thomas Mann de “Lotte in Weimar” 
(1939), a obra que continuou "Werther” (1774),
de Goethe (1749-1832).

O_Beijo03_0607_1

“O Beijo”. JAS. 6 de Julho de 2018.

1.
Thomas Mann:
“Ist die Liebe das Beste im Leben,
so in der Lieb das Beste der Kuss
– Poesie der Liebe...”. “Kuss ist Glueck,
Zeugung Wollust”.

“O amor é o melhor na vida,
assim, no amor, o melhor é o beijo
– Poesia do amor...”.
“Beijo é alegria, procriação é luxúria”.

2.
Inspirado também em Kafka, Shakespeare e Bernhardt:

“Geschriebene Küsse kommen nicht an ihren Ort,
sondern werden von den Gespenstern
auf dem Wege ausgetrunken”
 
- Os beijos escritos não chegam ao destino, mas são bebidos pelos fantasmas 
ao longo do trajecto - Kafka

“If I were to kiss you then go to hell, I would.
So then I can brag with the devils that I saw
heaven without even entering it”
 
- Se para te beijar devesse, depois, 
ir para o inferno, fá-lo-ia.Assim, poderia vangloriar-me, com os diabos,de ter visto o paraíso 
sem nunca lá ter entrado - Shakespeare.

- O primeiro beijo não é dado com a boca,mas com os olhos – O. K. Bernhardt.

O_Beijo03_0607_1Rep

O BEIJO

FOI O QUE NUNCA TE DEI
 A não ser com o olhar!
 O primeiro, esse beijo,
 Dei-to, pois, sem te tocar!E DEI-TE MAIS, COM PALAVRAS,
 Quando olhar já não podia...
 Foste embora, não estavas
 E eu, triste, não te via!FORAM BEIJOS QUE SONHEI
 Na rotina dos meus dias
 E desejos que enfrentei
 Quando tu mais me fugias...Mas dou-te beijos escritos
 Que se perdem no caminho...............................
 E se o poema me falta
 Fico ainda mais sozinho!É ALEGRIA D'AMOR
 É suave respirar,
 É encontrar-te no céu,
 É vontade de te amar,É desejo, é procura,
 É sinal e é mensagem
 É razão suficiente
 P’ra te ter...................Como paisagem!O BEIJO É EMOÇÃO,
 É razão descontrolada,
 Se não for dado a tempo
 Pouco mais será que nada!SEM BEIJO NÃO HÁ AMOR,
 Sem Amor perde-se o Beijo.
 Nada tem qualquer sentido
 Se me faltar o desejoPor te ter, assim, perdido!AQUI O LANÇO AO VENTO
 P’ra que atinja como brisa
 E suave melodia
 Esse rosto que precisa
 De afecto em poesia!ESTE BEIJO QUE ME FALTA
 De que nunca fui capaz
 Voa p’ra ti em palavras
 Põe-me sereno, em paz,E desejo que, no trajecto,
 Voe, voe em grande altura...
.............................
 Que fantasmas não o bebam
 E minha dor tenha cura!Mas sei dos escolhos da via,
 Dos perigos que ele corre................................
 Capturado por fantasmas
 É mensagem que me morre!
 NO DIA DO BEIJO É HORA
 De te cantar em voz alta
 A poética do amor
 P’ra redimir essa falta
 E pôr fim à minha dor!E PORQUE O DIA É TEU
 Ganha força, intensidade,
 E mesmo que fantasmasO bebam
 É um Beijo de verdade!ESSE BEIJO QUE NÃO DEI
 Foi pecado original,
 Hei-de sofrê-lo p’ra sempre
 Como chaga corporal!Não há palavras que bastem
 P’ra repor o que não dei
 Elas voam, mas não chegam
 E mesmo assim eu tentei!É CERTO QUE SEMPRE O QUIS,
 Só que nunca to roubei,
 A culpa foi desse tempo,
 Dos dias em que te amei,
 Um tempo em diferido
 Sem presente nem futuro,
 Talvez beijo sem sentido
 Porque queria do mais puro,
 Tangendo eternidade
 Às portas do Paraíso,
 Um beijo de divindade...
.........................
 Mas simples... Como um sorriso!ESSE BEIJO IMPOSSÍVEL
 Que não é do foro humano
 Vou tentando construí-lo
 Cada dia, cada ano,
 Perdendo-me pelo caminho
 Como sagrado em profano!

O_Beijo03_0607_1Fim

BIANCO&NERO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – “Bianco&Nero”. Original
do Autor para este poema. Julho de 2018.

Desenho_BranconoNegroRecorte

Bianco&Nero. JAS, 2018.
ENTRE O BRANCO
E O NEGRO
Quis desenhar
A tua alma
Na flor que,
Num acaso,
Encontrei, perdida,
No jardim
Da minha vida...

 ATRÁS DE TI,
Ou em fuga,
Já nem sei,
Gastara
Todas as cores do
Arco-íris
Que tinha
Dentro de mim.

 SOBRARA-ME
Uma marmórea
Nébula negra
De travertino
Onde me revia
Como espelho
Oracular,
Curvado sobre mim, 
Escuro na alma,
Por falta
Das cores exuberantes
Que me protegiam
Do frio glacial
Do teu silêncio.

 SOPREI FORTE
Com a alma
Desnuda
E a flor branca
Foi pousar suavemente
Nesse mármore
Liso e brilhante
Da catedral
Onde te celebrava.

 E FICASTE ASSIM,
A branco e negro,
Em tinta-da-china
Esparsa,
Derramada
Sob a alvura
Do sol brilhante
Em que te via...
.................
Como uma flor!

 ESCULPI-TE
Como filigrana
De ouro preto
Sobre branco-pérola,
Aurífice da tua
Alma sedutora
No coração
Alvoraçado
Dessa flor
Que guardei
Com o teu nome
Gravado
Em letras invisíveis...

 CRIEI PARA TI 
Alvas incrustações
Sobre filigrana
Negra
Como marcas
Indeléveis
Da arte
Que um dia
Me visitou
Na celebração
Da tua beleza.

 E AGORA,
A olhar para
O branco e o negro
Deste cântico
Desenhado,
Ofereço-te
Este poema
Sobre pintura
Imaculada
Onde te celebro
Com beleza
Minimal,
Na cor
E na forma,
Sem fronteiras,
E onde
Te reinvento,
Em fuga,
Como esse subtil
Fio branco
Que esvoaça,
Livre,
No marmóreo céu
Do teu altar...

 A ÂNCORA, ESSA,
A sul,
Desliza
Suavemente
Sobre ti 
E dilui-se na 
Negra vastidão...
 
EVOCO-TE, ASSIM,
A branco e negro
E canto-te
Como alma em
Filigrana
De ouro preto
Em repouso sobre
O branco-pérola
Dessa flor
Que, um dia, 
Encontrei
No jardim
Da minha vida...

Desenho_Bianco&Nero_Recorte

NOSTALGIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Nostalgia”. Original
do Autor. Junho de 2018.

JAS_Nostalgia24R“Nostalgia”. Jas. 2018

RÁPIDA COMO O VENTO
Passou por mim
Essa palavra saudade
Numa rua do meu bairro
Sob o céu desta cidade.

 GRAVEI-A NA
Minha mente,
Evoquei-a
Ao crepúsculo,
Com incerta
Nostalgia…
…………………………
Não queima tanto,
A palavra,
Porque a sinto
Mais fria!

COM CESÁRIO,
Dei-lhe cor
E canto-a
Como pintura,
Dei-lhe vida
Num romance,
Tento tudo
O que não posso
Porque esta dor
Me perdura…

DA SUA COR
Vejo o mundo,
Com palavras
A recrio,
Procuro sempre
O teu rosto...
.................
E por mais longe
Qu’estejas
Eu não me sinto
Vazio.

 A DOR DESTA
SAUDADE
Alimenta-me
A alma
E aquece a minha
Vida...
E assim eu vou
Vivendo
Em eterna
Despedida,
Neste cais
Que não tem fim,
Em partida
Que não há,
Um adeus que não
Me dizes,
Porque tu
Nunca saíste
Deste meu
Lado de cá.

 MAS HÁ SEMPRE
Esta saudade
A que chamo
Nostalgia!
Vivo em tristeza
Feliz
Porque te sinto
Em cada dia.

 NÃO TE TENHO,
Mas não te perco,
Estás longe,
Perto daqui,
Não te encontro
Nem te vejo,
Mas sei que não
Te perdi…

INSPIRA-ME, A
NOSTALGIA...
Recrio-te em cada
Instante!
Sou poeta,
Sou pintor
E também sou
Arlequim...
..............
Por isso vejo
O teu mundo
A partir de um
Camarim!

ESCULPO
TEU ROSTO
Com palavras
Do meu peito,
Pinto-me a alma
D’azul,
Voo contigo
Em sonho
E o destino
É sempre o sul...

 LEVO COMIGO
PINCÉIS
E as asas
Do poeta.
Danço.
Sou arlequim.
Pinto-me nesta
Ribalta
Com as cores
Que vês
Em mim!

 SEM TI
NESTA RUA
Da saudade
Sou palhaço
Em camarim
Que maquilha
O seu rosto
Para um palco
Sem fim...

REPRESENTA
PARA TI
Sem saber
Se lá estás...
...........
A verdade
Já não lh'importa,
É feliz com
O que faz!

 ASSIM VIVE
O ARLEQUIM.
No palco,
É só arte
O seu fazer,
É dádiva que ele
Te entrega
Como modo
De viver!

JAS_Nostalgia24Rrecorte

J A S M I M

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração original do autor: “Rapsódia”. 
Junho, 2018.

JAS_Rapsódia.Final170618jpg

FLORESCEU O JASMIM!Dele jorra Poesia,Embriaga-me O aroma...Renovo-me Em fantasia!DAS PALAVRASVou à cor,O seu perfume Ilumina,Bate o sol Em suas pétalas,É luz intensa Que brilhaNo poema que Germina!JÁ NÃO É SÓO Loureiro!Agora canto O Jasmim!É tão intenso O aromaQue se renova Em mim!
INUNDO-MEDe palavras,Canto Esse mundoDa cor,Subo ao céu Com tuas asas,Vai comigoEsta dor...SOU ÍCAROLá no alto...
..............
E se o sol Me bate forteCaio em mim Do meu poemaE no chão Fico sem norte...PEÇO AJUDAÀ montanha...Volto a subir, Que alegria!Foi nela Que eu nasciE sou feliz
Lá no alto, Nem que seja 
Por um dia!E LÁ TENHOO JasmimMesmo ao lado doLoureiro...
.................
Respiro fundo Até à almaE torno-meJardineiro!E ASSIM EU VOUVivendo No jardim daMinha vidaEm poemasE pintura...
............
E se a dorNão tem remédioQue seja esta 
A cura!

JAS_Rapsódia.Final170618jpgCorte

A  C H A V E

Poema, em dois andamentos, de João de Almeida Santos, criado a partir
de um poema/comentário de Ana de Sousa sobre “A Porta”.
Ilustração: “Uma Casa No Jardim”. Original (com várias citações de 
Klimt) de minha autoria, para este Poema. Junho de 2018.

UmaCasaNoJardim_3_1006

MOTE“Como uma fonte, / Como uma ave... / No horizonte, / Sempre uma 
chave! / Sempre um segredo, / Não revelado, / Poema e quadro: / 
Sonho velado / Escreve pintor. / Pinta poeta. / A vida é cor, / Dor 
e amor / E tu, alerta!” 
Ana de Sousa

UmaCasaNoJardim_3_1006corte2

A  C H A V E

I.

PINTO E CANTO
O meu destino. 
Sonhos velados, 
A minha vida...
.................. 
Perdi a chave
Do meu futuro 
E só me resta 
A despedida! 
 
 POR ISSO CANTO
Com as aves, 
Voo mais longe 
E com mais cor 
Porque no céu 
Há mais azul 
E nos meus sonhos 
Há menos dor!

HÁ UM SEGREDO
Não revelado...
Se o dissesse
Não deveria 
Porque dizê-lo
Era pecado
E certamente
Até mentia!

E NÃO O DISSE,
Mas eu pequei
Com murmúrio
Apaixonado
Em poemas
Inocentes 
Por que fui
Tão castigado!

POR ISSO VOO
Sempre mais alto,
Trepo nas cores
P’ra lá chegar,
O céu azul
Dá-me alento
Para mais alto
Poder voar
E meus segredos
Dissipar... 

LEVO PALAVRAS 
Comigo,
Procuro inspiração. 
Levo cor,
O meu abrigo, 
Levo musas
E tudo o mais...
...................
E quando parto
Lá p’ra cima
É sempre festa
No cais.

 LEVO-TE A TI.
E deste jeito!
Sim, meu amor,
Para que sinta
Lá bem no alto
Ar rarefeito
E menos peso
Na minha dor!

EU CANTO 
E pinto
Por tudo isto,
P’ra resgatar
O pecado
De exaltar
Esse teu rosto,
Iluminar
Em aguarela
Esse enleio
Do meu olhar, 
Por te ver
Na nossa rua
Debruçado 
Na janela
Com vontade
De pintar.

 II.

POR ISSO CANTO, 
Por isso pinto,
Por isso voo
Lá para o alto...
...................
Já não os vejo,
Já não os ouço
E já não vivo
Em sobressalto.

MAS VEM COMIGO,
Eu dou-te asas,
O infinito
No céu azul,
Voamos juntos
Ao mesmo tempo
E o nosso rumo
Será o Sul.

VÁ, VEM COMIGO,
Voa mais alto,
Ah!, meu amor,
Se tu vieres
Eu já não sofro
E vai-se embora
A minha dor! 

UmaCasaNoJardim_3_1006corte1

O SILÊNCIO E A MEMÓRIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Levitação”. Original de
minha autoria. Maio 2018.

Fantasia2705

"Para que tú me oigas / mis palabras / se adelgazan a veces /como las huellas de las gaviotas en las playas"
Pablo Neruda

POEMA

NO SILÊNCIOEu vejo-teCom palavrasSufocadas.A pretoE branco.A linguagemDo tempoQue passaInexorávelE erodeOs ângulosSuavesE coloridosCom que nosFomosDesenhando...........Nos diasDe festa!E, AGORA, VIVOOblíquo,Neste intervaloSofridoDe ondeTe vislumbroA silhuetaAo crepúsculoDo fugazEncontro,Lá no Monte,Que oraDeclina...“VOU-ME EMBORAP’ra Pasárgada”,Diria o saudoso 
Poeta,“Porque aquiAnoiteceu”!MAS, NÃO!Eu não parto,Porque na memóriaTe vejo a cores.Aquelas com queNos fomosPintandoEm caminhadaCúmplice,À procuraDe formasPara oferecerEm trocaDe nada.NA MEMÓRIAAcaricio-teCom as mãosInvisíveisDa minha almaE o azulDo céuQue aindaNos sobraComo mantoTransparenteE frio.PRESSINTO-TE,Assim.Adivinho-teEm riscos queDeslizamDos teus dedos,DádivasDa belezaInscritaNo teu rostoQue me chegamCom a brisaDo amanhecerNesse pátioSecularDos nossosAntepassados.E ESTREMEÇOQuandoTe reencontroNestas veredasEstreitasMas profundasDa imaginaçãoCom queNos reinventamos.VISTO-ME, ENTÃO,De vermelho.Por dentro.A rigor.Solene.Pinto-meA almaAo sabor do vento.Cubro de rosasVermelhasO chão etéreoQue pisoSuavementeCom o olhar.Dou mais saborÀ liberdadeVoando comUma rosaP'ra te poderAlcançar.AH! SIM,Duplico-meNesta vidaÍntimaE oblíqua,Neste intervaloOnde te sonhoCom palavrasQue te chegamDesfiguradasPelo siroco,Vento do sulQue lhes sopraForte,No caminho,A áspera areiaDo deserto................Que habitamos.SIM, MAS SEO VENTOAinda sopraAo amanhecerQue me importam
A areia e o
O deserto?

A AGUARELA

Poema de João de Almeida Santos
inspirado no poema de Manuel Bandeira
“Tema e Variações” (Obras poéticas,
Lisboa, Minerva, 1956, p. 384).
Ilustração: “Vermelho”. Original de minha
autoria. Maio de 2018.
Milva: L'uomo dal mantello rosso

Botao200518Terminad3

     Milva (início da letra da canção, um sonho cantado):
     “La solitudine / È come la febbre: / diventa più forte di notte.
     / Un’aspirina e la febbre va via, / la solitudine no. / Io, che 
     colpa ne ho io, / se questa notte ho sognato?”

     - “C’era un uomo dal mantello rosso...”

POEMA


SONHASTE, MANEL, 
Que havias sonhado 
Estar à janela 
Sonhando a cores 
Qu’estavas com ela.


TAMBÉM EU SONHEI 
Que tinha sonhado
E que no sonho
A tinha encontrado,
Passando por ela, 
Ali, lado a lado, 
Mas quando acordei 
Do primeiro sonho, 
Sonhando, eu vi
O seu belo rosto 
Numa aguarela 
Pintada a cores 
Que tinha guardado 
Para uma tela...
SONHEI, OUTRA VEZ, 
No segundo sonho, 
Que era pintor
Mas que pintava 
Sempre o seu rosto
A uma só cor...


DIZIA, SONHANDO, 
Que não podia ser. 
Seu rosto expressivo 
Era arco-íris
Ao amanhecer
E era sorriso
Para o mundo ver!


MAS EU SÓ O VIA 
Com a minha cor, 
Esse rosto belo
De seda tecido 
Que me seduzia
No sonho sonhado 
Onde sempre a via 
Ali, a meu lado.


NÃO QUERIA ACORDAR 
Do sonho feliz
E nele fiquei
De olhos fechados.
Já não acordei
Do sonho sonhado 
Porque nessa cor 
Fiquei encerrado 
Com todo o meu ser... 
............... 
Talvez por amor.


NO SONHO OLHEI 
Para o meu espelho 
E logo eu vi
Que essa minha cor 
Era o vermelho.
QUANDO ACORDEI 
Do primeiro sonho 
Voltei a sonhar
Que tinha sonhado 
Que o encontrei, 
Esse rosto amado.
E logo lhe disse,
No segundo sonho, 
Que a tinha sonhado.


DISSE-ME QUE NÃO 
Que nunca me vira 
Sequer acordado.
E logo acordei
Desse pesadelo. 
Foi assim que vi 
Que tinha sonhado 
E que ela
Já lá não estava 
Ali, a meu lado.


QUIS ADORMECER 
Para a encontrar 
Mas não consegui 
Sonhar que a via, 
Pôr os olhos nela, 
Chorar d’alegria 
Porque descobri
Na minha parede 
Aquela aguarela 
Que do sonho 
Passado
Eu já conhecia... 
................ 
Era o rosto dela!

A MONTANHA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração (“O balão e a montanha”) de minha autoria.
Maio de 2018.

Flores130518_Final13_3

“I live not in myself, but I become
Portion of that around me; and to me,
High mountains are a feeling....” 
Lord Byron
Childe Harold’s Pilgrimage (1812-18).
Canto III, 72 (1816).

Flores130518_Final13_2Recorte 

POEMA

ESTOU A PERDER-TE,
Meu Amor!
O estro 
Com que te canto
Esmorece,
Vai perdendo
Lentamente 
O seu fulgor!
O poema
Empalidece
E eu, 
Em poética anemia,
Sinto 
Um doce, suave 
E sonolento 
Torpor...

SUBI A MONTANHA
Contigo!
E, feliz de lá chegar,
Com palavras
Que me deste
Eu aprendi a cantar!

CANTEI A TUA PARTIDA
Quando desceste 
O vale.
E, triste,
Eu caminhei
Por veredas 
Sem destino...
..........
Já nem sei!

PERDIDO
De ti,
Vagueei
À procura
De eco
Do meu canto
Derramado,
Som puro 
E cristalino
E por ti
Iluminado.

MAS O ECO
Era silêncio
Profundo, 
Sideral,
Inscrito
No azul,
Quase irreal,
Da abóbada
Celeste
Da montanha
Seminal.

NEM SEQUER
O CLARÃO
De um cometa 
Fugaz
Me visitava,
Pinhal abaixo,
Rumo ao horizonte
Do meu inquieto
Olhar...

O AR RAREFEITO
Da montanha
Tomou conta
De mim
E desfaleceu
A emoção 
De te rever,
Reinventar
E te cantar
Em surdina
Com esse 
Silêncio
Cortante
Que me negava,
Impenitente,
O eco da
Minha canção!

DESCI, ENTÃO,
Também eu,
O vale
Da tua vida
E regressei 
À triste monotonia,
Sem ti,
Em corpo 
Sequer imaginado,
Nem semente
De poesia.

ESTOU A PERDER-TE
Meu amor!
É poética 
Anemia.
Ar rarefeito
Que sufoca
A melodia.
O cântico
É murmúrio
Inaudível,
Sem comoção
De alma ferida
Que já nem 
A dor pressente,
De tão esgotada
Na vida 
Por excesso
De paixão!

O VALE ESPERA-ME.
Respiro ofegante,
Porque sei
Que não te vejo,
Que já não
Sobram sinais
Da rua do 
Desencontro,
Não há fugas 
Irreais
Para o teu
Infinito
Nem janelas
Donde te veja
Passar
Ou sequer imaginar
Na esquina
Esquecida 
Do nosso
Contentamento!

ESTOU A PERDER-TE,
MEU AMOR.
Não há janela,
Nem há cor
Ou infinito,
Não há tempo
Nem lugar,
Não há poema
Nem mar 
Que suspenda
O vazio
De não te poder
Encontrar!

JÁ TE PERDI,
Meu amor?

Flores130518_Final13_1recorte2

SONHO

POEMA TRISTE.
João de Almeida Santos.
Ilustração: “Sonho”. 
Original de João de Almeida Santos. 
Maio de 2018.
Milva canta "IN SOGNO" (Album: "Tra Due Sogni")
Letra de "IN SOGNO": 

"Sì, / L’alba è la più forte./ Sì, / Vince i 
sogni, la realtà. / Eppure, / Solo in sogno / Viene a noi / La verità.
/ Così si chiude un fiore / Se il sole non c’è più, / Ma tutto il 
suo colore / Raccoglie in sé".
Sonho0805060518

“Sonhei ter sonhado / Que havia sonhado./ Em sonho lembrei-me 
/ De um sonho passado: (…) / Ter sonhado o quê? / Que havia sonhado 
/ Estar com você. / Estar? Ter estado, / Que é tempo passado. 
/ Um sonho presente / Um dia sonhei. / Chorei, de repente 
/ Pois vi, despertado / Que tinha sonhado”. 

Manuel Bandeira

POEMA

Sonho0805060518_Corte

SONHEI 
QUES AS PALAVRAS
Se gastaram,
Desfiaram,
Desataram,
Sobrando fios
Para tecer 
O silêncio. 

SONHEI 
Que a tinta
Perdeu a cor.
Que já não havia 
Poemas
E que não era 
Pintor.

SONHEI 
Que não eras tu.
Que foi tudo ilusão.
Sonhei que te procurei
No mundo da fantasia
Onde as flores
Caminhavam,
Sabiam a maresia,
Tinham rostos
De mulher,
Mas surdos
Ao que eu dizia.

SONHEI
Que não sabia
Onde estás,
O que fazes
E o que sonhas
Nas noites 
Do teu luar,
O que vês
Nesses momentos 
Fugazes
Em que olhas 
Para ti. 

SONHEI
Que não me lês,
Que já não ouves 
Poemas,
Que estás tão longe
Daqui!

NO SONHO
Fui à memória,
Que também
Perdeu a cor.
Ficou tudo 
A preto e branco...
........
E sonhei,
Sonhei, sim,
Que te perdi,
Meu amor...

SONHANDO,
Procurei cor
Num outro
Lugar qualquer.
Só encontrei 
O cinzento
E por falta
De vermelho
Meus versos
Tão desbotados
Nem os levava
O vento...

FOSTE P’RA ONDE
Que eu não te vejo?
Perguntei 
Quando do sonho
Acordei.
Saíste 
De onde estavas
E agora resta
O desejo
De te cantar
Sem palavras
P’ra que ouças
O silêncio
Com que antes
Me chamavas.

JÁ NÃO ME CHEGAM
SINAIS.
O meu 
É poço escuro,
É buraco
Tão profundo
Que nele
Eu vou caindo
Como triste
Vagabundo...

O SOL TAMBÉM
JÁ SE FOI.
As sombras
Tomaram conta 
De mim.
Meus dias
São sempre
Iguais.
Sinto um vazio
Sem fim...

MAS PINTO, 
Agora pinto,
Tenho cores
E tenho aromas,
Tenho luz
E sou feliz...
........
Ah!, sim,
Mas perdi 
A minha Musa,
A fonte 
D’inspiração!
Foi p’ra longe,
Com o vento
E em meu triste 
Pensamento
Só ficou
A ilusão!

GASTARAM-SE 
As palavras,
Meu amor!
Gastou-se tudo,
Afinal!
Só ficou o teu 
Cinzento,
A tinta com que 
Lavras
O meu peito
(Sem lamento)
E me afundas
Nesta dor,
A que canto
Em surdina
Para ouvires 
O silêncio
Com que te pinto
Sem cor... 

Sonho0805060518_Corte2

METAMORFOSE

Poema de João de Almeida Santos criado 
em diálogo com este quadro original - 
“Metamorfose” - de João de Almeida Santos.
Abril de 2018.

Jas_Camélia2904_FinalDomingo8_30jpg

"Não colhas uma flor, senão chorarás ao vê-la murchar" 
Provérbio chinês 
Podem cortar todas as flores, mas nunca impedirão a primavera" 
Pablo Neruda 
"Talvez deva às flores ter-me tornado pintor" 
Claude Monet 
"Há flores por todo o lado para quem é capaz de as ver" 
Henri Matisse "
Uma flor é um ser totalmente poético" 
Novalis 
"Quem não tem pão, mas compra flores, é um poeta"
Provérbio turco

Jas_Camélia2904_FinalDomingo8_30_cortejpg

POEMA


CAMINHAS 
Tão docemente,
Tão irreal,
Sobre as cores
Que eu te dei...

ÉS PLANTA DE JARDIM,
Bem sei!
Na alma
Tu tens flores
Que eu sempre
Cultivei,
Alimento 
Dos meus olhos,
Aroma
Desses poemas
Que para ti
Cantarei.

CAMÉLIA
É o teu nome.
Encontrei-te, 
Desta vez, 
Em profunda
Solidão.
A alvura luminosa
Era tão densa
Que eu quase 
A tomei
Na palma da minha
Mão.

QUIS TRAZER-TE
Para dentro do poema.
Disseste 
Logo que sim.
Ficarias mais serena,
Estando tão perto
De mim...

FALEI CONTIGO.
Dei-te palavras
E dei-te cor.
A solidão
É castigo,
Eu bem sei.
Ah, meu amor!
E tu, 
Brancura divina,
Não mereces
Essa dor.

CAMINHÁMOS
Numa ponte
P’rá outra margem
Da vida.
Eram passos 
De liberdade,
Não eram 
De despedida.

VI EM TI
Uma mulher.
Recriei-te
Com afeição.
Pintei-te 
Em movimento.
Quis-te livre
No meu chão
De onde te
Elevaste
Quando eu
Te dei a mão.

É ESTRANHO
O movimento
Que não te afasta 
De mim...
Tu vives 
Em quietude
Porque te ofereces
Assim!

ESSA PONTE
De papel
Que parece um
Arco-íris
Saído do meu 
Pincel
Vai devolver-te
Ao jardim
Onde a cor
É alimento,
É como favo 
De mel,
De meus olhos
O sustento.

PERDIDO, EU,
Nessa tua 
Melancolia,
Convoquei
Todas as cores
(Que sabia)
Com palavras
De um poema.
E dei largas
À evasão
Da flor 
Que foi
Mulher
Porque comigo
Cantou
Em palavras 
Coloridas
Essa sua
Solidão.

VÊS, MEU AMOR, 
Como a solidão
Em flor
Pode ser libertação
Se lhe dermos
Muita cor
Com a força da
Paixão?  
Jas_Camélia no meu jardim2 A IMAGEM ORIGINAL, de 21.03.2016. Camélia 
solitária em Cameleira.  Na altura em que a publiquei, escrevi, 
no Facebook, o seguinte: "Surpreendente, a natureza! Camélia branca 
suspensa! A elegância sensual de uma fadada Cameleira. Encontrei-a 
no Jardim. Estava à minha espera. E logo a capturei, sem lhe tocar. 
Só para partilhar essa luminosa, fresca e solitária brancura! Estava 
ali como brilhante proposta estética da natureza: 'diz o que pensas 
desta estranha forma de surgir no teu Jardim. É provocação florida, 
não é? Sou tão branca e tão perfeita que e(n)levo a Cameleira’. 
Olho-a de baixo para cima e ponho-a numa sensual fronteira!". 
Respondo-lhe agora, dois anos depois. Ficaram-me a imagem e as 
palavras que escrevi. Cruzei-as com novas vivências e experiências 
estéticas... e deu nisto! A beleza fica registada na nossa memória 
para sempre... e alimenta-nos a alma quando um novo estímulo a 
reevoca e, às vezes, invoca!

O PINTOR

POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Celebração da Cor” -
Original de João de Almeida Santos.
Abril de 2018.

JAS_Uccello_Prova110418

"Le Poète se fait voyant par un long, immense et raisonné dérèglement 
de tous les sens". 
Rimbaud.

 

O PINTOR BRINCAVA
Com suas palavras.
Dizia-te sempre
Quando não estavas...

ERA UM POETA,
Era fingidor.
Não te desenhava.
Cantava-te
A cor.

SUAS CORES
Eram as palavras.
Fazia pincel 
Da sua caneta.
O pintor riscava,
Mas a sua tinta
Já não era preta.

POR ISSO COMPROU
Um belo pincel.
Pintava, pintava...
Era a granel,
Como se a tela
Deixasse de ser
O velho papel.

DESCOBRIU A COR,
Que o fascinou!
Azul, vermelho
E tanto amarelo.
Tudo ele pintou,
Procurando sempre 
O que era belo.

ATÉ QUE O ENCONTROU
Na cor dos 
Teus olhos.
Era luz da pura
Que iluminava
O branco papel
Onde desenhou
O teu fino rosto
Com o seu pincel.

DEU CORPO À COR
Com que te dizia.
As suas palavras
Tornaram-se riscos...
Mais que poesia.

PINTAVA-TE ASSIM.
Os poemas 
Já não lhe chegavam.
Pintor de palavras
De cor as compunha
E versos voavam
No azul do céu...
..................
“E o que tu fazias
Faço agora eu”
- Dissera-lhe um dia -
“Porque sou poeta
Mas também pintor.
Deixaste-me só,
Entregue à palavra...
E eu, 
Tão pobre de ti,
Pintei-me de dor.

MAS EU FAÇO DELA 
O meu arco-íris
P’ra subir ao céu
A ver se t’encontro
Atrás duma cor
Pintando o teu rosto
Para um poema
Que vou escrever
Com todas as cores
Que trago comigo
Enquanto viver”.

O PINTOR BRINCAVA
Mas era séria
Essa brincadeira.
Perdido em palavras
Encontrou a cor
Que dos seus poemas
Dela fez bandeira...

A COR DA MEMÓRIA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: Composição de JAS
sobre foto/ilustração de “Sogno di Libertà”
de Milva/Theodorakis. Vídeo aqui republicado:
Milva-Theodorakis - Sogno di Libertà

JAS_MemóriaPoema_Final18_52

“Si tu quieres soñar / y te hace falta un tónico / vuelve la copa del
cielo / ¡y bébete el azul!”. 
Luís Vidales, 1900-1990 - “Paseo”, 1976.
NUM DIA DE CHUVA
Bateste levemente
À porta da minha
Memória.

ERA TRANSPARENTE
Essa porta.
Vi que eras tu.
Reconheci a tua boca,
O bâton púrpura
Dos teus lábios.

NÃO SEI SE
ME PRESSENTISTE,
Não sei,
Porque a porta
Era um espelho.
Através dela 
Só se via
Do lado de cá.

ENTRASTE
Cheia de cor
Que a chuva 
Humedecera,
Mas deixara
Intacta.
Apenas com mais 
Brilho.

TAMBÉM TU
ERAS TRANSPARENTE.
Olhei-te
E vi, através de ti,
Um céu 
Pintado
De azul plúmbeo.
 
NA TRANSPARÊNCIA, 
DESPONTOU O SOL
Coado em amarelo.
Havia umas nuvens 
Escuras 
A nascente,
Lá no Monte...

ÀS VEZES, O AMARELO
Ganhava tons de
Âmbar
E vestia-te o corpo 
Na minha intangível
Memória 
Fotográfica.
 
RECORDAVA,
Sereno,
Esse teu belo
Sorriso...
..................
Mas quando te quis
Tocar,
Ao de leve,
Um vidro desceu,
Vertical, 
Sobre nós.
Era frio
E húmido.
Separou-nos.
E eu chorei!
 
AS LÁGRIMAS
Escorreram
Pelo vidro.
Tentaste
Agarrá-las
Do lado de lá
E fixá-las com
Todas as cores
Que tinhas contigo.
Ficaram algumas
Gotas
No vidro,
Em amarelo,
Porque tu, 
De repente,
Te tornaste sol
E eu já não era
Mais do que um
Reflexo dos teus
Raios filtrados
Por algumas 
Nuvens... 
.......
Escuras!

DESPERTEI
Ao som
De dedos que batiam
Suavemente
À porta 
Do meu quarto.

CORRI A ABRI-LA...
.......
Ninguém!

REGRESSEI, RÁPIDO,
À minha memória,
Mas tu já não 
Estavas,
Nem sequer
Como reflexo...
..............
Deixara aberta 
A porta do tempo!

COR, MAIS COR…

POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração - Inédito de JAS: 
Poseidôn. Abril, 2018.
Volto a propor uma bela canção de 
Milva/Theodorakis:
Milva-Theodorakis - Sogno di Libertà

JASPaperaEsasperata2018_3.jpg

"Donde termina el arco iris, en tu alma o en el horizonte?"
Pablo Neruda
COR, DÁ-ME COR!
Fico mais perto 
De ti
Se vieres
Com o vento.
Cor, mais cor,
Que as palavras coloridas
Já me sabem 
A cinzento...

OU TALVEZ NÃO!
Palavras
Já não me faltam
Nem vivo
Na escuridão.
Ainda consigo
Dizer-te,
Com palavras
Dar-te a mão.

TENHO-AS
QUE ME CHEGUEM
Para gritar
Em vermelho 
O concreto
Do teu nome.
Ver-te, assim,
Tão colorida
No vidro do meu
Espelho
Sem que a tristeza
Assome!

AH! MAS A COR
SE FOR INTENSA
E crescer 
Em explosão, 
Se tiver
Em contraponto
Palavras
De evasão
Que dão ritmo
Ao azul
Dos teus sonhos
De papel...
..........
É tudo 
O que eu preciso
P’ra t’esculpir
A cinzel.

DÁ-ME COR
Que eu sou
Sensível 
À luz intensa
Do teu olhar!
Aprendo nas
Flores que
Colho,
Quando vestes
O vermelho,
Com azul
Como espelho,
Ou te cobres 
Com as cores
Do arco-íris
Que és.

AH!, VÊS
COMO TE CONHEÇO?
Tu és cor,
Gota d’água
Suspensa 
No fio 
Do horizonte
Banhado por 
Raios de sol
Que despontam
Lá no Monte.
 
DANÇAS COM ELA,
A cor, 
E com ela adormeces.
Por amor.
É sopro 
Da tua alma
Quando a vida 
Já é sonho...
...........
E te acalma!
 
MAS EU GOSTO
DE TE PINTAR
Com palavras.
Em maiúscula.
Onde o azul é 
Mais íntimo
E o verde 
Te cobre 
Como manto.
Onde o vermelho
É pranto
Sem lágrimas
De enxugar...
..........
Nem sequer
Em amarelo
P'ra melhor
Te recordar!

NA COR DAS MINHAS
PALAVRAS
Te revejo
As vezes 
Que eu quiser
Pois és mais
Do que desejo
Nos cânticos
Que compuser!

MAS EU GOSTO
Cada vez mais 
De cor...
............
Confundir-me 
Com ela,
Dançá-la 
Como vida 
Em explosão,
Fogo de artifício
Que embriaga
Os sentidos
Como se fosse 
Vulcão...

LEMBRO-ME 
DO POETA QUE PEDIA
“Mais luz!”,
Já em seu leito 
Fatal.
Tinha luz 
Dentro de si 
Mas não entrava 
Cor
Pelo portal.
Era cinzenta
A cor que lhe restava
Até escurecer
Quando a janela
Lentamente 
Se fechava...

LUZ É COR,
Desperta da 
Letargia,
Ressuscita
Do torpor.
Celebra a vida.
É cântico.
Chilreio de 
Passarinho
Lá no alto
Que anuncia 
O meu voo
Aos azuis
Que tu pintas
Em cobalto.
 
MAS A PALAVRA
FASCINA-ME.
É com ela 
Que eu te canto!
Com a cor danço
E voo!
Com ela, leio-te
A alma.
Na cor, a tua
Roupagem.
Com a palavra
Suspendo 
Os sentidos
Para melhor
Te sonhar
De todos os dias
Perdidos...
........
À deriva
No teu mar!

AH!, SIM,
Eu gosto 
É das palavras! 
E sabes porquê?
Porque tu cabes
Em quatro letras
Mesmo que o teu
Nome 
Tenha cinco
E me saiba a verde
De Primavera...

ROSTO DE PEDRA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – Jovem mulher com bâton.
“Estudo de uma jovem mulher” (1885), de
Gustav Klimt, (atrevidamente) retocado
por João de Almeida Santos

JASKlimtFinal250318

ENCONTREI-TE

POR ACASO
E caíste
Sobre mim
Naquelas escadas
Sem fim
Por onde descias,
Altiva,
Como senhora
Do silêncio
Austero
Que me devora.

É SEMPRE ASSIM
Quando te vejo.
Crispada,
Sobrolho
Franzido
E pesado,
Sofrido,
Em eterna
Revolta,
Anunciando 
Penitência
Neste incerto
Destino
Já sem regresso.

DOEU?

Muito.
Mas que importa?
É sempre sal
Sobre ferida
Que não cura,
Mal que dura
E que perdura
Uma vida…

A TEIA
QUE NOS TECE
E cobre
Este espaço
Que entretece
E nos domina
É como o tempo
Que marca,
Implacável,
O acaso
Que tudo determina.
 
VI-TE, SIM,
Nesse dia,
Recolhida
Sobre ti,
Estranha na cidade
Invisível
Onde te conheci.

E ASSIM ME NEGAS. 
E foges
Para lugar
Nenhum.
Corres, corres
Para onde
Nunca irás.
Escondes-te
Atrás do que
Desconheces
E de ti própria
Onde blasfemas
Contra o mundo
Onde não te
Reconheces!

A REVOLTA

Não sai
De ti
E petrifica
A tua alma.
 
É ÁSPERO, SIM,
ESSE TEU ROSTO.
Julgava-te
Já perdida
No silêncio
Da raiva
Surda
Contra mim,
Sem redenção,
Condenado
A grilhões
Que pesam
Como cativeiro.
 
CHAVES?
Ah!, sim,
Tantas são
As chaves que tens
E que não usas

Para me libertar!
 
TALVEZ NEM QUEIRAS
Porque também tu
Já és prisioneira
Da síndroma
Que te aprisiona
E te queima
Como fogueira.

CAÍSTE SOBRE MIM.
De repente,
Levantaste-te
Dessa sombra
Onde te encerras,
Te encobres
E vigias.
E atropelaste-me…
 
MAS NÃO ERA PRECISO,
Meu amor!
Todos os dias
O fazes.
Mesmo ausente…

EU VI UM ANJO…

No Dia Mundial da Poesia,
hoje, 21 de Março,
ofereço este Poema
de João de Almeida Santos.
Ilustração: Vénus, de
Botticelli, re-reimagined 
por João de Almeida Santos 
a partir de Yin Xin
(2008) e de Botticelli (1490).

JAS_VenereYXin2103_Final

EU VI UM ANJO
CAIR
Docemente
Sobre mim
Com seu rosto 
Imaculado
Em momento
Inesperado
Que parecia 
Não ter fim...

VINHA ELE
Lá de bem alto
Onde eu
O pressentia
Mas tive 
Um sobressalto
Porque em mim
Esse anjo 
Imaculado
Não cabia.

SUA LUZ
ERA INTENSA
Ofuscava-me
O olhar.
O seu brilho 
Deslumbrava
E eu senti-me
Cegar...

MAS NÃO SEI
SE ERA ANJO.
Talvez fosse
Uma mulher.
E se não fosse
De arcanjo, 
Ah!, 
Não era um 
Rosto qualquer...

POR ISSO
ME FASCINOU,
Porque ao vê-lo
Descer
Do trono
Onde reinava,
Quase, quase
Me cegou
Com a luz
Que o transportava. 
E levou-me 
Ao Olimpo
Onde a arte
Lhe sobrava.

FIXEI-O, ENTÃO,
Num quadro 
De memória.
Traços leves,
Cores intensas 
Que cativam
O olhar.

PINTEI-LHE DE
NEGRO
O cabelo
Para mais belo
Ficar
E seu rosto
Feminil
Deste modo
Desvelar
Como mulher
Sensual
Que me veio
Capturar.

DESENHEI-A 
COMO BELO
Avatar
Que tomou
Conta de mim
Para sempre
Me lembrar
Que era 
Uma mulher
E não era
Querubim.

MAS VI 
UM ANJO,
Ah!, eu vi,
Entrar bem 
Dentro de mim
Sob forma
De mulher,
Porque anjo
Imaculado
Não cabia,
Infinito,
No meu pequeno
Jardim.

FOI MISTÉRIO
Que subiu
Ao oráculo
Da vida
Onde eu a
Posso ler 
Em texto 
Que só termina
No dia 
Da despedida,
Na hora em que 
Morrer.

EU VI UM ANJO
DESCER
Neste vale
Da minha vida
E ele fez-me
Crescer,
Recomeçar 
A partida...

E COM POEMAS
Parti
Em viagem
Ao Olimpo
Para com ele
Voar
Em cada palavra
Que digo,
Em cada verso
Que sinto!

CANTA, POETA, CANTA!

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: Auto-Retrato. Original de
João de Almeida Santos. Março de 2018.
Volto a repropor:
Marzo - Milva. Arietta di Salvatore di Giacomo
Para a letra e a tradução do napolitano, ver: Março.

JAS18032018
“Ora al nuovo sole si affidano i nuovi germogli”
Virgílio.
CANTA, POETA, CANTA
Até que Ela 
Te ouça,
Nem que a palavra
Te doa,
Nem que a alma 
T’estremeça!

CANTA, POETA, CANTA
Que o teu poema 
Tem dor
Que te baste,
No amor, 
E tem cor
Que alumia
E tem sabor
A cerejas,
Que as dá
A Primavera.

SE NO CANTAR
Tu quiseres
Atingir o infinito,
Salta p’ra cima 
Dum risco,
Agarra asas 
De azul
E voa
Nesse teu céu
Até que Ela 
Te veja, 
Te pinte
Numa cereja
E murmure
O teu nome
Em silêncio
De igreja...

CANTA, POETA, CANTA
Que o teu cantar 
É um choro.
E é água 
Cristalina
Que corre
Lesta 
Em teu rio
Seminal,
Dentro de ti,
Turbilhão
Arterial
À procura de beleza
No infinito
Fatal 
De um adeus
Beijado
Pela tristeza!

CANTA, POETA, CANTA
Que contigo 
Cantarei 
A alvorada do dia.
Chora, que eu
Chorarei
Se não houver 
Alegria.
Ri, que 
Eu cantarei
Animado por teu
Riso.
E para ti 
Dançarei
Uma valsa 
De Strauss
Às portas
Do Paraíso!

CANTA, POETA, CANTA
Até que Ela 
Te ouça.
Não pares
De chorar alto,
Lá em cima, 
Planalto
Ou montanha,
Poema 
Ou um desenho,
Uma cor
Em aguarela,
Afagado
Pela dor
Mesmo que olhes
P'ra ela
Com um intenso
Ardor 
Lá de cima
Da janela...

CANTA, POETA, CANTA,
Para ti 
E para o mundo
Que o teu cantar
Enobrece
Quem ouvir 
A tua prece,
Quem sentir
O teu lamento,
Que de ser
Já tão profundo
Não o leva
Nem o vento
Pois em ti
Ele entardece.

E SE O VENTO 
O LEVAR
Vai procurá-la
A Ela,
Dobra lento 
A esquina
P’ra que o veja
Da janela. 

MAS O DIA É DE
FESTA!
Há cortinas
No poema
E o lamento 
Lá regressa
Ao poeta 
Que o cantou.
O dia já 
Não é dele
Mas de quem 
O castigou.

CANTA, POETA, CANTA,
Que um dia vai-te 
Ouvir.
Deixa, pois, que o 
Tempo passe
E a razão se esclareça.
E confia no porvir.

CHORA, POETA, CHORA 
Neste teu 
Entardecer
Aqui tão perto
Da arte
Com saudades 
De morrer...

CHORA, POETA, CHORA... 

 

POEMA PARA TI

De: Olga Santos.
Ilustração inspirada em 
Botticelli, "Nascimento de Vénus".
Pormenor. “Re-reimagined” .
Intervenção de JAS sobre
Botticelli Reimagined 
– Venus in the gutter.
By Yin Xin, 2008. Venus after
Botticelli. 

BotticelliRe_reimaged21

CRUZÁMO-NOS POR ACASO
Na estrada da 
Poesia.
Palavras embriagadas 
De cor, de luz, 
De misteriosa e intensa paixão,
Caíam em suave cascata
No colo da estrofe
Que as aguardava
Im-Paciente.
 
SENTIDOS GENESÍACOS
Eram paridos
Pela neófita
Que se fizera à estrada,
Numa incontida explosão
De prazer...
 
JANELAS ERAM RASGADAS
No traçado do poema
Subitamente...
Cruza-se a voz 
Do Poeta
Com cantos de aedos outros.
 
IRROMPEM CÍTARAS E TROMBETAS
Volteiam bacantes palavras
Perturbadora-mente
Desassossegad-Horas.
Tudo é cor, brilho, ritmo, cadência,
Melodia...
Farandole de Bizet
Sarabande de Haendel.
 
MAS FEVEREIRO ERA FRIO
E a estrada penosa
Para quem março nevou.
 
SAÍ NA CURVA DA ESTRADA
Disse adeus à melodia...

PROMETIDO ESTÁ O REGRESSO, POETA!
Quando o sol cegar a sombra
E abrasar as pedras da montanha,
E da bonina o tempo for.

PRIMAVERA, QUASE

João de Almeida Santos
POEMA.
Ilustração: Primavera, Quase.
Original de João de Almeida Santos.
Março de 2018. 
Ilustração sonora de Milva,
em napolitano, sobre uma 
Arietta de Salvatore di Giacomo:
Marzo. Reproposição. 
Para a tradução, veja, aqui, Março.
Para ouvir Milva: 
Marzo - Milva. Arietta di Salvatore di Giacomo
                          Primavera, Quase

Pavão4
"Até nos nossos sonhos neva, mas uma única vez na vida". 
Orhan Pamuk, escritor turco. Prémio Nobel da Literatura.
PRIMAVERA, QUASE
SE ME PERGUNTASSES
PELA NEVE,
O que sempre te diria?
“- Tenho-a na minha
Alma,
Sinto-a, pura,
Em cada dia.”

DELA CONSERVO
O FRIO
E a brancura
Do seu manto,
Mas sinto-a quente
Por dentro,
Mesmo que sofra,
Em pranto.

ENTRA NEVE
NA PRIMAVERA
E dá húmus
Ao jardim,
Rega fundo 
A tua alma 
E ao sofrimento
Põe fim.

E QUANDO
O INVERNO
Termina
Saem cores 
Da tua mão,
Voam riscos,
Nascem amores,
Tudo brota
Do teu chão...

EU PERMANEÇO
NA NEVE,
Corpo frio, 
Alma quente.
Se te banhar
Como rio 
Germinas
Como semente,
Explodem os teus riscos
Em girândolas 
De cor.
É festa
Na tua terra,
Já não é tempo
De dor!

MAS SÓ DESÇO 
DA MONTANHA
Como neve
Que t'inspira
Pois da arte 
É alimento,
Frio branco
Que conserva
E à alma 
Dá alento.

SÓ ASSIM 
EU TE VISITO,
Perdoa
A minha falta.
No alto voam 
Foguetes,
Mas dentro de mim
É ribalta,
A que quero
Para ti
Pois eu não quero 
Mais nada.
Que Atena 
Te inspire
Com sua varinha
De Fada!

É FESTA NA TUA
TERRA,
Crepitam foguetes
No ar,
Fosse eu
O teu mordomo
Não iriam
As girândolas
Na tua festa
Parar!

BRANCA NEVE,
FRIA E HÚMIDA,
Não vê 
Foguetes no ar,
Mas banha 
A tua alma,
Lentamente,
Sem parar.

E SE PERGUNTAS
P'LA NEVE
Eu ouço-te 
Cá em cima,
Inspiro-me na 
Montanha
E respondo-te
Em rima,
Devolvo-te
Inspiração
Que da arte
É a vida,
Num poema 
Em oração
Que não é 
De despedida,
Mas canto, 
Em comoção,
Da palavra 
Proibida.

MARÇO

POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração: PÁN - Original
de João de Almeida Santos.
Em exposição na minha Galeria Poética,
de Março de 2018 até... Sempre!

Pán30FINAL

"Marzo: nu poco chiove / e n’ato ppoco stracqua: / torna a chiovere, 
schiove, / ride ’o sole cu ll’acqua./ Mo nu cielo celeste, / mo 
n’aria cupa e nera: / mo d’ ’o vierno ’e tempeste, / mo n’aria ’e 
primmavera. / N’auciello freddigliuso / aspetta ch’esce ’o sole: / 
ncopp’ ’o tturreno nfuso / suspireno ’e vviole... / Catarì!… Che buo’
cchiù? / Ntienneme, core mio! / Marzo, tu ’o ssaie, si’ tu, /e 
st’auciello songo io".

"Março: um pouco chove / e logo deixa de chover: / volta a chover, 
pára, / ri o sol com a água. / Ora um céu celeste, / ora um ar 
escuro e negro: / ora tempestades d’inverno, / ora um ar de 
primavera. / Um pássaro com frio / Espera que espreite o sol: / 
na terra ensopada suspiram as violetas... / Catarina! Que queres 
mais? / Entende-me, meu amor! / Março, sabes, és tu, / e aquele 
pássaro sou eu".

NOTA - “Arietta” (1898) do poeta napolitano Salvatore di Giacomo, 
1860-1934,em dialecto napolitano. Ouça MILVA em: 
https://www.youtube.com/watch?v=lMKDSnJEadc).
GOSTO DE MARÇO,
Entre a neve 
E a primavera,
O branco e
As flores.
Na fronteira, 
Como te vejo?
Talvez quimera!

GOSTO DO BOTTICELLI,
Dos rostos 
E dos corpos
Feminis.
Volúpia de 
Transparências
Sensuais.
Da pele, a Cor.
Dos traços
Que desenham 
Alvura nas 
Três Graças...
.........
E no Amor!

GOSTO DO BRANCO,
Cá de perto ou
Lá longe
No alto da Montanha.
E das cores intensas
Que brotam
Insinuantes
Ao meu olhar 
Deslumbrado, 
Cá em baixo,
Por ti
Iluminado!

GOSTO DE MARÇO.
Entrei nele
Contigo. 
Ombro a ombro.
No signo do 
Desencontro.
Que se repete
Em silêncio
Fatal, 
Marcado
Contraponto
Do tempo
Imprevisível
Deste “triste
Destino”...
Quase irreal.

QUE O DIGAM
Os astros 
Desalinhados!
Para ti colhia 
Flores luminosas
E a inspiração
Crescia
Nas estrofes
Arrebatadas
Com que fingia
Sentir
O que dizer 
Não podia,
Fosse por 
Uma hora
Ou por um dia.

NO SIGNO DO
Desencontro
Marcado como selo,
Lá vou eu
Por aí, 
Nem sei porquê
(Ou por falta de ti),
De braço dado 
Com Botticelli,
Lá em cima, 
na Galleria,
Onde, um dia, 
Eu quase morei.
Procuro-te
Em oração
À tua deusa, 
Atena,
Que trazes
(Eu bem sei)
No coração.

SINTO-TE PERTO,
Depuro
A tua imagem,
Bissetriz de mil
Rostos,
Até se tornar
Ideia
De corpo ausente!

DEPOIS REINVENTO-A
A cada instante,
Abraço-a
Com alma
De amante,
Pinto-a com 
Palavras
E silêncio
De catedral.
E sonho-te...

AO ACORDAR,
No amanhecer
De cada poema,
Verei que continuas 
Em mim,
De olhos fechados,
Como se fosses
Memória do que
Nunca aconteceu.
 
ANDAREMOS 
Por aí
(Os astros o dirão),
Vagando
No pólen
Da beleza sensível
Onde pousamos
O nosso inquieto
Olhar
À procura 
De alimento
Para pintar
O poema...
...................
Talvez o impossível!

LÁ NO ALTO
Te encontrarei,
Fio do horizonte,
Simulacro do teu
Olhar
A construir infinito,
Onde, num adeus 
Sem fronteiras
Nem cais de partida, 
Hás-de desenhar,
Com a alma,
As mil silhuetas 
Ainda inacabadas...
.............
Ou talvez não!

MEU DEUS,
Como gosto de ti...
........
Em Março! 

Poema de João de Almeida Santos 
Ilustração: Almada Negreiros - “Viento. Blanco y Negro. N.º 2.017. 21
de enero de 1931 ”. In Pessoa. Todo arte es una forma de literatura. 
Catálogo. Museo Reina Sofía. Madrid, 2018, p. 262. Exposição aberta 
até 07 de Maio de 2018.

DESPEDIDA

Almada2

“Tu prima m’inviasti verso Parnaso a ber ne le sue grotte, e prima 
appresso Dio m’alluminasti”. 
Dante Alighieri. Purgatorio. Canto XXII.
PERDI-TE
Porque nunca
Te encontrei.
Numa rua, 
Numa praça,
Num café.
Em lado nenhum.
Não sei!

ENCONTREI-TE
No Parnaso.
Lá em cima.
Intangível.
Sem poder
Tocar-te
A não ser com
Palavras.
Em forma de poema.
Sensível às cores 
Da tua alma.

DE REPENTE,
Vestiste-me
Com elas, 
As palavras.
E eu senti-me 
Quente,
Afagado
No meu Canto,
Às vezes, 
Amargurado,
Outras, 
Em pranto,
Sufocado.

SIM, ENCONTREI-TE 
No Parnaso.
Lá em cima. 
No Monte.
Através de ti 
Eu vi a costa, 
Eu vi o mar 
E o meu mundo 
Interior
Com nitidez,
A sonhar-te,
De cada vez,
Em azul...
......... 
A tua cor.

A NEBLINA
Cobria-te
Para te revestir
E refrescar
A alma
Como chuva
De palavras
Húmidas
Caídas do meu
Céu.

EU NÃO ERA MAIS
Do que espelho
Que te devolvia
Fantasia
Contra a
Petrificação
Que espreita sempre
Nos olhares 
Indiscretos.
Mas tu não me vias. 
Em mim, 
Especulavas,
Dizias...

E DE TANTO TE
VERES
E dizeres
Decidiste declinar
O espelho que
Começava 
A embaciar-te.

E NÃO ERA DA
NEBLINA
Que te envolvia,
Mas dos desenhos
Que tuas mãos
Esboçavam 
Timidamente
Nesse espelho 
Já húmido 
De ti.

E DESPEDISTE-TE.
Do Monte.
Desceste para ti
Vertiginosamente,
Em desconforto,
Sob os olhares 
Das mil górgonas
Que sempre ameaçam
Petrificar-te.
E sucumbiste.
Ou talvez não...

NO MONTE, O ESPELHO
Disse para si:
- De tanto te veres 
Em mim,
Ficou-me, de ti,
O repetido reflexo.
E sabes o que 
Brotava
Quando te olhavas
Com palavras
Na minha superfície?
Beleza! 
Toda a que me sobrou
Quando, triste,
Desceste o Monte.

MAS ESTA NÃO
PETRIFICARÁ
Porque ficou 
Guardada 
No meu corpo
Vítreo 
Onde todos 
Se revêem
Sem saber 
Que no reflexo
Levam, gravada
Em transparência,
A tua imagem...
.........
Embaciada.

E EU POR CÁ FIQUEI,
Espelho do mundo,
A olhar para 
O escuro espaço 
Sideral
À espera que um cometa
Me alumie o caminho
Para to devolver como
Teu reflexo 
Original...

A CAMINHO DE PASÁRGADA…

Poema de João de Almeida Santos, à desgarrada com Manuel Bandeira (1886-1968), a caminho de Pasárgada, inspirado em três poemas seus: Desencanto, 1912; Versos escritos na água, s.d.; Renúncia, 1906. In Obras Poéticas – 1956. Lisboa: Minerva, pp. 33, 40, 101. Ilustração: pormenor de uma obra do Mestre Guilherme Camarinha (1912-1994).

JAS_Camarinha2

“OS POUCOS VERSOS QUE AÍ VÃO,
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.”

OS MUITOS VERSOS 
Que te dei
Deixam claro 
O que sou.
Se tu me leres, 
Eu não pequei.
É pouco do muito 
Que te dou.

“NELES PORÁS TUA TRISTEZA
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...”

TALVEZ BELEZA
E algum sentido,
Tristeza, dor, 
Como castigo...
Eu canto 
O que perdi
P’ra que o verso
Vá ter contigo
Lá onde estejas...
.............. 
Queira o vento
Ser meu amigo. 

“QUEM OS OUVIU NÃO OS AMOU
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.”

NÃO OS AMOU
Por ser verdade
Este amor 
Que aqui nasceu
E que cantei 
Em liberdade
Em versos 
Que o vento
Já me levou
Aos muros 
Dessa cidade.

OUTROS FARIA
Se pudesse
Para os pôr 
Na tua mão,
Não pediria que 
Os sonhasses,
Olhos cerrados,
Mas que os lesses 
Com afeição!

AH!, MANUEL,
Que bem me sabe
Pôr a dor 
Em poesia,
Em versos
A emoção,
No cantar 
Triste alegria
E muito intensa
Uma paixão,
Mesmo que seja
Utopia!

DIZES TU,
Em poesia,
Que só a dor
Te enobrece.
É bem verdade, 
Meu bom poeta,
Alma dorida 
Logo aquece
E com seus versos 
Entretece
O que a paixão
Já tanto afecta.

“A VIDA É VÃ COMO A SOMBRA QUE PASSA...
Sofre sereno e de alma sobranceira,
Sem um grito sequer tua desgraça.

ENCERRA EM TI TUA TRISTEZA INTEIRA.
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...”

POIS TENHO MEDO,
Ah!, meu irmão, 
Que a dor 
Me passe,
Perca o poema 
Sua raiz,
Essa, sim, 
A verdadeira, 
E eu fique só 
Já sem palavras
E caiam secas 
Todas as rosas
Que me povoam
Esta roseira.

SOBRAM ESPINHOS
Ferem-me a alma
E saem versos
E cai o sangue
“Gota a gota,
Do coração”,
“Volúpia ardente” 
Já sem remédio
“Eu faço versos 
Como quem chora”
E chamo a dor
Naquela hora
E ela vem
Por compaixão!

AH!, POETA,
Ah!, meu irmão,
Tu fazes versos 
“Como quem morre”
E eu procuro
Neste meu canto...
............
O seu perdão!

TU, MANUEL,
És a bandeira
E ela o meu refrão,
P’ra mim és verso
No meu poema
E ela é...
............ 
Minha paixão!

A PALAVRA PROIBIDA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: Intervenção 
digital (cor) de JAS
sobre “O Rio” (1950), do 
artista italiano
Alberto Savinio (1891-1952).

Alberto Savinio-cópia

“L’amour est la poésie des sens”
Honoré de Balzac
OS GUARDIÕES
Do sagrado templo
Emitiram Edital:
“O amor em poesia
Fica assim proibido
Porque pode ser 
Fatal.
Os versos 
E as estrofes
Pintados 
A luz e cor
Ficam p’ra sempre 
Banidos
Da Arte 
E do Amor!”

DIZ O AMIGO
Honoré,
Certeiro
Como poeta,
Que o Amor
É poesia, 
É a arte 
Dos sentidos,
É perfume
Qu’inebria
E nos faz sentir
Perdidos...
.............
Se não houver
Guardião 
Impenitente
Que decrete: 
“Também eles 
São proibidos!”

PROIBIDOS?
Ah!, esses, 
Não!
Poesia
É emoção, 
É enlevo
Dos sentidos...
...........
Que resiste
Ao edital
Mesmo que seja
Cantado
Pelo mais
Belo jogral!

TENTA, POR ISSO,
Levá-los
Aos píncaros
Da fantasia,
Sobem lá alto
Os sentidos
Com asas
De poesia!

MAS É DIFÍCIL
Senti-los,
Ouvi-los 
Em verso, 
Com alegria,
Pois há sempre
Alguém
Que me rouba
A brisa
Dessa tua 
Maresia...
..............
A que respiras
Bem cedo,
Logo ao 
Amanhecer,
Em cada dia
Que sentes
Como, feliz,
Eu te canto
Para nunca 
Te perder!

OLHAS O MAR,
Sentes
As ondas
Dentro de ti
A cantar
Como versos
Que o vento 
Sopra
De mansinho
P’ra te poder
Sussurrar
O que por ti
Eu já sinto
Apesar de tão
Sozinho!

POESIA
Dos sentidos?
O amor também 
É isso
Porque, queiras 
Ou não queiras,
Tem a força 
De feitiço.
Encontro-a
Sempre em ti
E mesmo que 
Proibidos
Desenho sempre
Poemas
Desde o dia
Em que te vi...
............
Exaltaram-se 
Os sentidos
E para o poema
Parti...

DECRETARAM
Edital?
Ah!, que o façam, 
Pois, cumprir!
Mas poesia
É como vento,
Sopra-me 
Tão forte
Na alma
Que o teu silêncio
É alento 
Para sempre 
Te esculpir.
Na palavra proibida
Encontrará o poema
O seu próprio
Porvir...


***

PERDER-TE…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: intervenção digital de JAS
sobre “Portrait d’un Poète (Juliet)”, 1954,
de Man Ray (Man Ray, Cent’anni di
Libertà - 1890-1990. Venezia, Sodicart,
1990, p. 119). Homenagem a um Artista
que admiro.

MRayPd'unP_cópia

RENUNCIEI
Para nunca 
Te perder,
Mas neste 
Silêncio sofrido
Vai declinando
O que p’ra sempre
Eu quis ter...

VÊS, BERNARDO, 
Que destino?
Que desassossego,
O meu?
Quis seguir
O teu caminho
E perdi-me...
..........
Já não sou
Eu!

QUE DESENCONTRO
Foi esse
Desde o dia
Em que te vi?
Dei-te errados
Sinais
Cada dia
Que vivi,
Cavando
Cada vez mais
A solidão
Que m’invade
Desde quando 
Te perdi?

VÁ, DIZ-ME
Tudo o que 
Não sabes!
Eu quero
Mesmo saber
P’ra te cantar
Em poemas,
Pois não te
Quero perder!

TU AMAS 
A poesia?
Senti-la é
Doce sofrer,
Ela diz tudo
Com nada,
O seu canto
É prazer,
É melodia
De fada
Mesmo quando
Faz doer!

NO POEMA
Eu até finjo,
É poeta 
Quem o diz,
Mesmo que sinta 
O que digo
Nunca sou, 
Sem ti, 
Feliz!

MAS POEMA
É como a vida,
Posso ouvir
A tua alma
Em desejos
Com palavras.
É o modo
De te ter,
É remédio
Que me salva
De na solidão
Eu arder!

ESTE CANTO
É, pois, meu,
Nem tu 
Mo podes 
Roubar,
Se te dizem 
Que é p’ra ti
É verdade...
...........
De enganar!

O VERSO
É o meu beijo
Nesse rosto
Que perdi, 
É quente 
Como o desejo
E resiste
A quem te diz
Que o poeta
Não te ama,
Porque desenha 
As palavras
Com um pedaço
De giz...

O AMOR
Em poesia
Não é mesmo
Deste mundo,
Quem o ler
Como utopia
Vai mais longe
Vai mais fundo
E não cai 
Em afasia
Nem vê 
O pobre poeta
Como simples
Vagabundo.

EU NÃO GOSTO
Da renúncia,
Mas que posso 
Eu fazer?
Se não cantar
O que sinto
Ainda te vou 
Perder!

***

ALMA!

Poema a dois. Ana de Sousa
e João de Almeida Santos. 
Ilustração de João de Almeida Santos. 
"Deusa no Jardim". 28.01.2018.

JAS_Deusa_Jardim

“ - PROPÍCIA,
DESPERTA A MANHÃ,
Desperta o dia.
A Montanha distante
É tua.
Exageradamente fria.
Está escrito
Numa Estrela
Em matriz
Gravada
A cinzel!”

SIM, FRIA,
É A MONTANHA
Onde nascemos
Para o Destino
No granito
Das nossas vidas!

O CALOR
Habita
Outras paisagens
Mais a sul,
Onde nasce
A poesia
Para aquecer,
Com flocos 
De palavras, 
A minha alma 
Granítica 
E vadia...

“- FATAL CAMINHO
De linhas paralelas. 
Até os sonhos
Da mulher to dizem:
‘ - A solidão eterna
Não ouvida. 
Ferida antiga,
Aberta e repetida’.”
SOLIDÃO ETERNA...
É longo 
O caminho
Dos que amam
No deserto
Como gelo 
Na noite,
A fria lua
Iluminando a alma
Nua
Em desespero,
Tendo areia 
E vento
Como tempero...

“- PORÉM, O GELO
É QUENTE.
Mente.
Com a mentira sobrevive
O engano.
Da louca mansidão
Se afastam
Os sentidos
Do paladar
Do tacto.”

SIM, É QUENTE,
Porque não mente
E é cortante,
Faz brotar
Sangue
Em veias 
Flutuante
Que escorre
Sobre pele,
Mesmo distante,
Tal a força
Da paixão
Na memória
Escaldante...

“ - DE FACTO, PERDURA
A audição, o olhar.
O cheiro raro
De um perfume
Caro.
Negrume 
De eclipse!
Qual elipse?
E o símbolo
Do infinito
Ata-lhe
O petrificado coração. 
Reflecte um brilho
Inigualável o diamante
Inscrito
Na sua neve
Branca.
Flecte
Os joelhos.
Sabe ainda rezar...
Fá-lo
Em poesia
Confessando-se
Às palavras
Que se diz,
Em permanente
Melancolia...”

ELIPSE E INFINITO
Sabem de longe 
A não ouvido 
Grito de beleza
Sacrificial
Ou gemido 
Sussurrado
E esquecido
Lá longe.
Alma ferida
Que o seu altar
Colorido 
Não acolhe
Nessa distância
Desmedida
De uma fuga
Inesperada
E depois
Insistentemente
Ressentida
No eco do silêncio!

Oh! como é duro
Vê-la perdida
No meio da floresta
Desordenada 
De cores,
Esbracejando
No seu irresistível 
Ímpeto,
Em girândolas 
Ou estilhaços de
Poderosa fantasia
Em perigo
De autofagia
Cromática,
À procura do
Do tempo perdido 
Em sendeiro
De floresta...

“ - MAS O SILÊNCIO
De Deus
É um consolo.
Mudança de  estações,
Tempo
Insondável!
Milhares de vezes
Levanta voo a águia.
Seu destino
É voar.
O da fiandeira,
Fiar.”

VOA, VOA
A águia 
Com seus riscos,
Mas ele,
Que não é
Fiandeiro,
Fica-se 
Pelas palavras
Como ciscos 
No seu olhar 
Perturbado,
Sem cor
Abandonado,
Procurando,
Parado,
Voar
Com outras asas
Que encontra
Em si,
Sem saber
Para onde
Viajar,
Perdido o infinito
Que lhe roubaram
Dessas mãos 
Tão generosas
De palavras
E cores...

“ - SUAS IRMÃS,
AS PARCAS,
Riem
Do destino
Dessa mortal voadora.
Resta-lhe ficar
Soror da Seda 
Presa em seu casulo
Do mais alto céu,
Olhando de
Longe
Tudo o que a vida
Lhe não deu.”

MORTAL VOADORA
Que me liberta 
Da Moira
Que ao fim,
Inflexível, 
Me conduz,
Sem sair
Desse silêncio
Que tanto
Me seduz...
.........
Alma pura
Que me trouxe 
Tanta, mas tanta 
Luz,
Em plena vida
De poeta
Que resiste
Com a Sorte
À neblina
Que aflora
E espreita
A cada esquina...

“QUE CINZENTO
E AZULADO,
Porém, é o céu 
E o poente quente
Que cai
Alaranjado e vermelho,
Como a nuvem
Passou o sonho,
Seu espelho...
............
Ah, a doçura
Das palavras
Amargas!”

SIM, AMARGAS
Como o gelo 
Quente
Que não mente
E não derrete
Ao sol,
No poente,
Quando o verso 
Declina
No horizonte marinho
Ali a seu lado...
Porque à vida
E ao poema
Sempre
Reconduzem,
Sim,
As palavras,
Mesmo sem cor!

PROPÍCIA, DESPERTA
A manhã,
Sem ti,
Meu amor!

ELAS FOGEM, AS PALAVRAS…

AnaDeSousa.20180112_234446 (1)

POEMA de JOÃO DE ALMEIDA SANTOS. Ilustração de ANA de SOUSA. 01/2018
QUERIA FAZER-TE
UM POEMA,
Sentir-te nele
À vontade
E as palavras
Endoidaram
Quando 
Feliz 
Lhes falei
Da minha 
Quente
Saudade...
.............
Fugiram
Numa revolta
Sentida
Sem conhecer
A verdade.

EU ESTAVA
A MENTIR
Sem cuidar
Da crueldade
De as usar
Como queria
Só porque
Tinha saudade...

ESGUEIRARAM
RUA FORA,
Cada uma 
Por seu lado,
Em fugas
No horizonte
Deste poema
Tentado.

SÓ JÁ AS VIA
LÁ LONGE,
Ao fundo
Da tua rua
Num ponto 
Do infinito
Desta minha 
Alma nua.

UMAS
ESVOAÇAVAM
No fio 
Do horizonte,
Outras
Aninhadas
No passeio...
.............
E eu a tentar
O versejo
Capturado
Num enleio
Desta prisão
Do desejo!

PALAVRAS 
EM CORRERIA,
Letras
Perdendo forma
Como fios
De um novelo
Já desfeito
De sentido
Como a água
Do gelo...

SÃO FIOS
EMARANHADOS,
Letras 
Que se deslaçam
E procuram
Outras formas
Para lá da minha 
Rima,
São riscos
Na tua tela
A subir
Por ela acima...

QUERO FAZER-TE
UM POEMA
Com palavras
Desenhadas
Mas elas fogem
P’ra longe
Correm, correm
Assustadas
Não vá mesmo 
Ser verdade
Que as quero
Alinhadas
Neste recanto
Feliz
Onde resisto
À saudade.

ELAS GOSTAM
DE CANTAR
Esta minha 
Triste dor 
E gostam 
De me dizer
Esta intensa
Emoção...
...........
Mas se vêem
Que és feliz
Fogem de ti,
Dizem “não!”

O POEMA 
PASSARINHO
Procura-te
Para cantar
Mas se já 
Não sentes nada
É ele que foge
A voar...

E HOJE
É MESMO ASSIM
Fogem todas
As palavras
Sem procurar
Um destino,
Já não consigo
Agarrá-las
Num poema
Genuíno.

NÃO SABEM
DA MINHA DOR
E por isso
Vão embora
Estou sem palavras,
Amor,
Estou muito triste,
Agora!