Poesia

O PINTOR

POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Celebração da Cor” -
Original de João de Almeida Santos.
Abril de 2018.

JAS_Uccello_Prova110418

"Le Poète se fait voyant par un long, immense et raisonné dérèglement 
de tous les sens". 
Rimbaud.

 

O PINTOR BRINCAVA
Com suas palavras.
Dizia-te sempre
Quando não estavas...

ERA UM POETA,
Era fingidor.
Não te desenhava.
Cantava-te
A cor.

SUAS CORES
Eram as palavras.
Fazia pincel 
Da sua caneta.
O pintor riscava,
Mas a sua tinta
Já não era preta.

POR ISSO COMPROU
Um belo pincel.
Pintava, pintava...
Era a granel,
Como se a tela
Deixasse de ser
O velho papel.

DESCOBRIU A COR,
Que o fascinou!
Azul, vermelho
E tanto amarelo.
Tudo ele pintou,
Procurando sempre 
O que era belo.

ATÉ QUE O ENCONTROU
Na cor dos 
Teus olhos.
Era luz da pura
Que iluminava
O branco papel
Onde desenhou
O teu fino rosto
Com o seu pincel.

DEU CORPO À COR
Com que te dizia.
As suas palavras
Tornaram-se riscos...
Mais que poesia.

PINTAVA-TE ASSIM.
Os poemas 
Já não lhe chegavam.
Pintor de palavras
De cor as compunha
E versos voavam
No azul do céu...
..................
“E o que tu fazias
Faço agora eu”
- Dissera-lhe um dia -
“Porque sou poeta
Mas também pintor.
Deixaste-me só,
Entregue à palavra...
E eu, 
Tão pobre de ti,
Pintei-me de dor.

MAS EU FAÇO DELA 
O meu arco-íris
P’ra subir ao céu
A ver se t’encontro
Atrás duma cor
Pintando o teu rosto
Para um poema
Que vou escrever
Com todas as cores
Que trago comigo
Enquanto viver”.

O PINTOR BRINCAVA
Mas era séria
Essa brincadeira.
Perdido em palavras
Encontrou a cor
Que dos seus poemas
Dela fez bandeira...

A COR DA MEMÓRIA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: Composição de JAS
sobre foto/ilustração de “Sogno di Libertà”
de Milva/Theodorakis. Vídeo aqui republicado:
Milva-Theodorakis - Sogno di Libertà

JAS_MemóriaPoema_Final18_52

“Si tu quieres soñar / y te hace falta un tónico / vuelve la copa del
cielo / ¡y bébete el azul!”. 
Luís Vidales, 1900-1990 - “Paseo”, 1976.
NUM DIA DE CHUVA
Bateste levemente
À porta da minha
Memória.

ERA TRANSPARENTE
Essa porta.
Vi que eras tu.
Reconheci a tua boca,
O bâton púrpura
Dos teus lábios.

NÃO SEI SE
ME PRESSENTISTE,
Não sei,
Porque a porta
Era um espelho.
Através dela 
Só se via
Do lado de cá.

ENTRASTE
Cheia de cor
Que a chuva 
Humedecera,
Mas deixara
Intacta.
Apenas com mais 
Brilho.

TAMBÉM TU
ERAS TRANSPARENTE.
Olhei-te
E vi, através de ti,
Um céu 
Pintado
De azul plúmbeo.
 
NA TRANSPARÊNCIA, 
DESPONTOU O SOL
Coado em amarelo.
Havia umas nuvens 
Escuras 
A nascente,
Lá no Monte...

ÀS VEZES, O AMARELO
Ganhava tons de
Âmbar
E vestia-te o corpo 
Na minha intangível
Memória 
Fotográfica.
 
RECORDAVA,
Sereno,
Esse teu belo
Sorriso...
..................
Mas quando te quis
Tocar,
Ao de leve,
Um vidro desceu,
Vertical, 
Sobre nós.
Era frio
E húmido.
Separou-nos.
E eu chorei!
 
AS LÁGRIMAS
Escorreram
Pelo vidro.
Tentaste
Agarrá-las
Do lado de lá
E fixá-las com
Todas as cores
Que tinhas contigo.
Ficaram algumas
Gotas
No vidro,
Em amarelo,
Porque tu, 
De repente,
Te tornaste sol
E eu já não era
Mais do que um
Reflexo dos teus
Raios filtrados
Por algumas 
Nuvens... 
.......
Escuras!

DESPERTEI
Ao som
De dedos que batiam
Suavemente
À porta 
Do meu quarto.

CORRI A ABRI-LA...
.......
Ninguém!

REGRESSEI, RÁPIDO,
À minha memória,
Mas tu já não 
Estavas,
Nem sequer
Como reflexo...
..............
Deixara aberta 
A porta do tempo!

COR, MAIS COR…

POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração - Inédito de JAS: 
Poseidôn. Abril, 2018.
Volto a propor uma bela canção de 
Milva/Theodorakis:
Milva-Theodorakis - Sogno di Libertà

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"Donde termina el arco iris, en tu alma o en el horizonte?"
Pablo Neruda
COR, DÁ-ME COR!
Fico mais perto 
De ti
Se vieres
Com o vento.
Cor, mais cor,
Que as palavras coloridas
Já me sabem 
A cinzento...

OU TALVEZ NÃO!
Palavras
Já não me faltam
Nem vivo
Na escuridão.
Ainda consigo
Dizer-te,
Com palavras
Dar-te a mão.

TENHO-AS
QUE ME CHEGUEM
Para gritar
Em vermelho 
O concreto
Do teu nome.
Ver-te, assim,
Tão colorida
No vidro do meu
Espelho
Sem que a tristeza
Assome!

AH! MAS A COR
SE FOR INTENSA
E crescer 
Em explosão, 
Se tiver
Em contraponto
Palavras
De evasão
Que dão ritmo
Ao azul
Dos teus sonhos
De papel...
..........
É tudo 
O que eu preciso
P’ra t’esculpir
A cinzel.

DÁ-ME COR
Que eu sou
Sensível 
À luz intensa
Do teu olhar!
Aprendo nas
Flores que
Colho,
Quando vestes
O vermelho,
Com azul
Como espelho,
Ou te cobres 
Com as cores
Do arco-íris
Que és.

AH!, VÊS
COMO TE CONHEÇO?
Tu és cor,
Gota d’água
Suspensa 
No fio 
Do horizonte
Banhado por 
Raios de sol
Que despontam
Lá no Monte.
 
DANÇAS COM ELA,
A cor, 
E com ela adormeces.
Por amor.
É sopro 
Da tua alma
Quando a vida 
Já é sonho...
...........
E te acalma!
 
MAS EU GOSTO
DE TE PINTAR
Com palavras.
Em maiúscula.
Onde o azul é 
Mais íntimo
E o verde 
Te cobre 
Como manto.
Onde o vermelho
É pranto
Sem lágrimas
De enxugar...
..........
Nem sequer
Em amarelo
P'ra melhor
Te recordar!

NA COR DAS MINHAS
PALAVRAS
Te revejo
As vezes 
Que eu quiser
Pois és mais
Do que desejo
Nos cânticos
Que compuser!

MAS EU GOSTO
Cada vez mais 
De cor...
............
Confundir-me 
Com ela,
Dançá-la 
Como vida 
Em explosão,
Fogo de artifício
Que embriaga
Os sentidos
Como se fosse 
Vulcão...

LEMBRO-ME 
DO POETA QUE PEDIA
“Mais luz!”,
Já em seu leito 
Fatal.
Tinha luz 
Dentro de si 
Mas não entrava 
Cor
Pelo portal.
Era cinzenta
A cor que lhe restava
Até escurecer
Quando a janela
Lentamente 
Se fechava...

LUZ É COR,
Desperta da 
Letargia,
Ressuscita
Do torpor.
Celebra a vida.
É cântico.
Chilreio de 
Passarinho
Lá no alto
Que anuncia 
O meu voo
Aos azuis
Que tu pintas
Em cobalto.
 
MAS A PALAVRA
FASCINA-ME.
É com ela 
Que eu te canto!
Com a cor danço
E voo!
Com ela, leio-te
A alma.
Na cor, a tua
Roupagem.
Com a palavra
Suspendo 
Os sentidos
Para melhor
Te sonhar
De todos os dias
Perdidos...
........
À deriva
No teu mar!

AH!, SIM,
Eu gosto 
É das palavras! 
E sabes porquê?
Porque tu cabes
Em quatro letras
Mesmo que o teu
Nome 
Tenha cinco
E me saiba a verde
De Primavera...

ROSTO DE PEDRA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – Jovem mulher com bâton.
“Estudo de uma jovem mulher” (1885), de
Gustav Klimt, (atrevidamente) retocado
por João de Almeida Santos

JASKlimtFinal250318

ENCONTREI-TE

POR ACASO
E caíste
Sobre mim
Naquelas escadas
Sem fim
Por onde descias,
Altiva,
Como senhora
Do silêncio
Austero
Que me devora.

É SEMPRE ASSIM
Quando te vejo.
Crispada,
Sobrolho
Franzido
E pesado,
Sofrido,
Em eterna
Revolta,
Anunciando 
Penitência
Neste incerto
Destino
Já sem regresso.

DOEU?

Muito.
Mas que importa?
É sempre sal
Sobre ferida
Que não cura,
Mal que dura
E que perdura
Uma vida…

A TEIA
QUE NOS TECE
E cobre
Este espaço
Que entretece
E nos domina
É como o tempo
Que marca,
Implacável,
O acaso
Que tudo determina.
 
VI-TE, SIM,
Nesse dia,
Recolhida
Sobre ti,
Estranha na cidade
Invisível
Onde te conheci.

E ASSIM ME NEGAS. 
E foges
Para lugar
Nenhum.
Corres, corres
Para onde
Nunca irás.
Escondes-te
Atrás do que
Desconheces
E de ti própria
Onde blasfemas
Contra o mundo
Onde não te
Reconheces!

A REVOLTA

Não sai
De ti
E petrifica
A tua alma.
 
É ÁSPERO, SIM,
ESSE TEU ROSTO.
Julgava-te
Já perdida
No silêncio
Da raiva
Surda
Contra mim,
Sem redenção,
Condenado
A grilhões
Que pesam
Como cativeiro.
 
CHAVES?
Ah!, sim,
Tantas são
As chaves que tens
E que não usas

Para me libertar!
 
TALVEZ NEM QUEIRAS
Porque também tu
Já és prisioneira
Da síndroma
Que te aprisiona
E te queima
Como fogueira.

CAÍSTE SOBRE MIM.
De repente,
Levantaste-te
Dessa sombra
Onde te encerras,
Te encobres
E vigias.
E atropelaste-me…
 
MAS NÃO ERA PRECISO,
Meu amor!
Todos os dias
O fazes.
Mesmo ausente…

EU VI UM ANJO…

No Dia Mundial da Poesia,
hoje, 21 de Março,
ofereço este Poema
de João de Almeida Santos.
Ilustração: Vénus, de
Botticelli, re-reimagined 
por João de Almeida Santos 
a partir de Yin Xin
(2008) e de Botticelli (1490).

 

JAS_VenereYXin2103_Final

EU VI UM ANJO
CAIR
Docemente
Sobre mim
Com seu rosto 
Imaculado
Em momento
Inesperado
Que parecia 
Não ter fim...

VINHA ELE
Lá de bem alto
Onde eu
O pressentia
Mas tive 
Um sobressalto
Porque em mim
Esse anjo 
Imaculado
Não cabia.

SUA LUZ
ERA INTENSA
Ofuscava-me
O olhar.
O seu brilho 
Deslumbrava
E eu senti-me
Cegar...

MAS NÃO SEI
SE ERA ANJO.
Talvez fosse
Uma mulher.
E se não fosse
De arcanjo, 
Ah!, 
Não era um 
Rosto qualquer...

POR ISSO
ME FASCINOU,
Porque ao vê-lo
Descer
Do trono
Onde reinava,
Quase, quase
Me cegou
Com a luz
Que o transportava. 
E levou-me 
Ao Olimpo
Onde a arte
Lhe sobrava.

FIXEI-O, ENTÃO,
Num quadro 
De memória.
Traços leves,
Cores intensas 
Que cativam
O olhar.

PINTEI-LHE DE
NEGRO
O cabelo
Para mais belo
Ficar
E seu rosto
Feminil
Deste modo
Desvelar
Como mulher
Sensual
Que me veio
Capturar.

DESENHEI-A 
COMO BELO
Avatar
Que tomou
Conta de mim
Para sempre
Me lembrar
Que era 
Uma mulher
E não era
Querubim.

MAS VI 
UM ANJO,
Ah!, eu vi,
Entrar bem 
Dentro de mim
Sob forma
De mulher,
Porque anjo
Imaculado
Não cabia,
Infinito,
No meu pequeno
Jardim.

FOI MISTÉRIO
Que subiu
Ao oráculo
Da vida
Onde eu a
Posso ler 
Em texto 
Que só termina
No dia 
Da despedida,
Na hora em que 
Morrer.

EU VI UM ANJO
DESCER
Neste vale
Da minha vida
E ele fez-me
Crescer,
Recomeçar 
A partida...

E COM POEMAS
Parti
Em viagem
Ao Olimpo
Para com ele
Voar
Em cada palavra
Que digo,
Em cada verso
Que sinto!

CANTA, POETA, CANTA!

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: Auto-Retrato. Original de
João de Almeida Santos. Março de 2018.
Volto a repropor:
Marzo - Milva. Arietta di Salvatore di Giacomo
Para a letra e a tradução do napolitano, ver: Março.

JAS18032018
“Ora al nuovo sole si affidano i nuovi germogli”
Virgílio.
CANTA, POETA, CANTA
Até que Ela 
Te ouça,
Nem que a palavra
Te doa,
Nem que a alma 
T’estremeça!

CANTA, POETA, CANTA
Que o teu poema 
Tem dor
Que te baste,
No amor, 
E tem cor
Que alumia
E tem sabor
A cerejas,
Que as dá
A Primavera.

SE NO CANTAR
Tu quiseres
Atingir o infinito,
Salta p’ra cima 
Dum risco,
Agarra asas 
De azul
E voa
Nesse teu céu
Até que Ela 
Te veja, 
Te pinte
Numa cereja
E murmure
O teu nome
Em silêncio
De igreja...

CANTA, POETA, CANTA
Que o teu cantar 
É um choro.
E é água 
Cristalina
Que corre
Lesta 
Em teu rio
Seminal,
Dentro de ti,
Turbilhão
Arterial
À procura de beleza
No infinito
Fatal 
De um adeus
Beijado
Pela tristeza!

CANTA, POETA, CANTA
Que contigo 
Cantarei 
A alvorada do dia.
Chora, que eu
Chorarei
Se não houver 
Alegria.
Ri, que 
Eu cantarei
Animado por teu
Riso.
E para ti 
Dançarei
Uma valsa 
De Strauss
Às portas
Do Paraíso!

CANTA, POETA, CANTA
Até que Ela 
Te ouça.
Não pares
De chorar alto,
Lá em cima, 
Planalto
Ou montanha,
Poema 
Ou um desenho,
Uma cor
Em aguarela,
Afagado
Pela dor
Mesmo que olhes
P'ra ela
Com um intenso
Ardor 
Lá de cima
Da janela...

CANTA, POETA, CANTA,
Para ti 
E para o mundo
Que o teu cantar
Enobrece
Quem ouvir 
A tua prece,
Quem sentir
O teu lamento,
Que de ser
Já tão profundo
Não o leva
Nem o vento
Pois em ti
Ele entardece.

E SE O VENTO 
O LEVAR
Vai procurá-la
A Ela,
Dobra lento 
A esquina
P’ra que o veja
Da janela. 

MAS O DIA É DE
FESTA!
Há cortinas
No poema
E o lamento 
Lá regressa
Ao poeta 
Que o cantou.
O dia já 
Não é dele
Mas de quem 
O castigou.

CANTA, POETA, CANTA,
Que um dia vai-te 
Ouvir.
Deixa, pois, que o 
Tempo passe
E a razão se esclareça.
E confia no porvir.

CHORA, POETA, CHORA 
Neste teu 
Entardecer
Aqui tão perto
Da arte
Com saudades 
De morrer...

CHORA, POETA, CHORA... 

 

POEMA PARA TI

De: Olga Santos.
Ilustração inspirada em 
Botticelli, "Nascimento de Vénus".
Pormenor. “Re-reimagined” .
Intervenção de JAS sobre
Botticelli Reimagined 
– Venus in the gutter.
By Yin Xin, 2008. Venus after
Botticelli. 

BotticelliRe_reimaged21

CRUZÁMO-NOS POR ACASO
Na estrada da 
Poesia.
Palavras embriagadas 
De cor, de luz, 
De misteriosa e intensa paixão,
Caíam em suave cascata
No colo da estrofe
Que as aguardava
Im-Paciente.
 
SENTIDOS GENESÍACOS
Eram paridos
Pela neófita
Que se fizera à estrada,
Numa incontida explosão
De prazer...
 
JANELAS ERAM RASGADAS
No traçado do poema
Subitamente...
Cruza-se a voz 
Do Poeta
Com cantos de aedos outros.
 
IRROMPEM CÍTARAS E TROMBETAS
Volteiam bacantes palavras
Perturbadora-mente
Desassossegad-Horas.
Tudo é cor, brilho, ritmo, cadência,
Melodia...
Farandole de Bizet
Sarabande de Haendel.
 
MAS FEVEREIRO ERA FRIO
E a estrada penosa
Para quem março nevou.
 
SAÍ NA CURVA DA ESTRADA
Disse adeus à melodia...

PROMETIDO ESTÁ O REGRESSO, POETA!
Quando o sol cegar a sombra
E abrasar as pedras da montanha,
E da bonina o tempo for.

 

PRIMAVERA, QUASE

João de Almeida Santos
POEMA.
Ilustração: Primavera, Quase.
Original de João de Almeida Santos.
Março de 2018. 
Ilustração sonora de Milva,
em napolitano, sobre uma 
Arietta de Salvatore di Giacomo:
Marzo. Reproposição. 
Para a tradução, veja, aqui, Março.
Para ouvir Milva: 
Marzo - Milva. Arietta di Salvatore di Giacomo
                          Primavera, Quase

Pavão4
"Até nos nossos sonhos neva, mas uma única vez na vida". 
Orhan Pamuk, escritor turco. Prémio Nobel da Literatura.
PRIMAVERA, QUASE
SE ME PERGUNTASSES
PELA NEVE,
O que sempre te diria?
“- Tenho-a na minha
Alma,
Sinto-a, pura,
Em cada dia.”

DELA CONSERVO
O FRIO
E a brancura
Do seu manto,
Mas sinto-a quente
Por dentro,
Mesmo que sofra,
Em pranto.

ENTRA NEVE
NA PRIMAVERA
E dá húmus
Ao jardim,
Rega fundo 
A tua alma 
E ao sofrimento
Põe fim.

E QUANDO
O INVERNO
Termina
Saem cores 
Da tua mão,
Voam riscos,
Nascem amores,
Tudo brota
Do teu chão...

EU PERMANEÇO
NA NEVE,
Corpo frio, 
Alma quente.
Se te banhar
Como rio 
Germinas
Como semente,
Explodem os teus riscos
Em girândolas 
De cor.
É festa
Na tua terra,
Já não é tempo
De dor!

MAS SÓ DESÇO 
DA MONTANHA
Como neve
Que t'inspira
Pois da arte 
É alimento,
Frio branco
Que conserva
E à alma 
Dá alento.

SÓ ASSIM 
EU TE VISITO,
Perdoa
A minha falta.
No alto voam 
Foguetes,
Mas dentro de mim
É ribalta,
A que quero
Para ti
Pois eu não quero 
Mais nada.
Que Atena 
Te inspire
Com sua varinha
De Fada!

É FESTA NA TUA
TERRA,
Crepitam foguetes
No ar,
Fosse eu
O teu mordomo
Não iriam
As girândolas
Na tua festa
Parar!

BRANCA NEVE,
FRIA E HÚMIDA,
Não vê 
Foguetes no ar,
Mas banha 
A tua alma,
Lentamente,
Sem parar.

E SE PERGUNTAS
P'LA NEVE
Eu ouço-te 
Cá em cima,
Inspiro-me na 
Montanha
E respondo-te
Em rima,
Devolvo-te
Inspiração
Que da arte
É a vida,
Num poema 
Em oração
Que não é 
De despedida,
Mas canto, 
Em comoção,
Da palavra 
Proibida.

MARÇO

POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração: PÁN - Original
de João de Almeida Santos.
Em exposição na minha Galeria Poética,
de Março de 2018 até... Sempre!

 

Pán30FINAL

"Marzo: nu poco chiove / e n’ato ppoco stracqua: / torna a chiovere, 
schiove, / ride ’o sole cu ll’acqua./ Mo nu cielo celeste, / mo 
n’aria cupa e nera: / mo d’ ’o vierno ’e tempeste, / mo n’aria ’e 
primmavera. / N’auciello freddigliuso / aspetta ch’esce ’o sole: / 
ncopp’ ’o tturreno nfuso / suspireno ’e vviole... / Catarì!… Che buo’
cchiù? / Ntienneme, core mio! / Marzo, tu ’o ssaie, si’ tu, /e 
st’auciello songo io".

"Março: um pouco chove / e logo deixa de chover: / volta a chover, 
pára, / ri o sol com a água. / Ora um céu celeste, / ora um ar 
escuro e negro: / ora tempestades d’inverno, / ora um ar de 
primavera. / Um pássaro com frio / Espera que espreite o sol: / 
na terra ensopada suspiram as violetas... / Catarina! Que queres 
mais? / Entende-me, meu amor! / Março, sabes, és tu, / e aquele 
pássaro sou eu".

NOTA - “Arietta” (1898) do poeta napolitano Salvatore di Giacomo, 
1860-1934,em dialecto napolitano. Ouça MILVA em: 
https://www.youtube.com/watch?v=lMKDSnJEadc).
GOSTO DE MARÇO,
Entre a neve 
E a primavera,
O branco e
As flores.
Na fronteira, 
Como te vejo?
Talvez quimera!

GOSTO DO BOTTICELLI,
Dos rostos 
E dos corpos
Feminis.
Volúpia de 
Transparências
Sensuais.
Da pele, a Cor.
Dos traços
Que desenham 
Alvura nas 
Três Graças...
.........
E no Amor!

GOSTO DO BRANCO,
Cá de perto ou
Lá longe
No alto da Montanha.
E das cores intensas
Que brotam
Insinuantes
Ao meu olhar 
Deslumbrado, 
Cá em baixo,
Por ti
Iluminado!

GOSTO DE MARÇO.
Entrei nele
Contigo. 
Ombro a ombro.
No signo do 
Desencontro.
Que se repete
Em silêncio
Fatal, 
Marcado
Contraponto
Do tempo
Imprevisível
Deste “triste
Destino”...
Quase irreal.

QUE O DIGAM
Os astros 
Desalinhados!
Para ti colhia 
Flores luminosas
E a inspiração
Crescia
Nas estrofes
Arrebatadas
Com que fingia
Sentir
O que dizer 
Não podia,
Fosse por 
Uma hora
Ou por um dia.

NO SIGNO DO
Desencontro
Marcado como selo,
Lá vou eu
Por aí, 
Nem sei porquê
(Ou por falta de ti),
De braço dado 
Com Botticelli,
Lá em cima, 
na Galleria,
Onde, um dia, 
Eu quase morei.
Procuro-te
Em oração
À tua deusa, 
Atena,
Que trazes
(Eu bem sei)
No coração.

SINTO-TE PERTO,
Depuro
A tua imagem,
Bissetriz de mil
Rostos,
Até se tornar
Ideia
De corpo ausente!

DEPOIS REINVENTO-A
A cada instante,
Abraço-a
Com alma
De amante,
Pinto-a com 
Palavras
E silêncio
De catedral.
E sonho-te...

AO ACORDAR,
No amanhecer
De cada poema,
Verei que continuas 
Em mim,
De olhos fechados,
Como se fosses
Memória do que
Nunca aconteceu.
 
ANDAREMOS 
Por aí
(Os astros o dirão),
Vagando
No pólen
Da beleza sensível
Onde pousamos
O nosso inquieto
Olhar
À procura 
De alimento
Para pintar
O poema...
...................
Talvez o impossível!

LÁ NO ALTO
Te encontrarei,
Fio do horizonte,
Simulacro do teu
Olhar
A construir infinito,
Onde, num adeus 
Sem fronteiras
Nem cais de partida, 
Hás-de desenhar,
Com a alma,
As mil silhuetas 
Ainda inacabadas...
.............
Ou talvez não!

MEU DEUS,
Como gosto de ti...
........
Em Março! 

 


Poema de João de Almeida Santos 
Ilustração: Almada Negreiros - “Viento. Blanco y Negro. N.º 2.017. 21
de enero de 1931 ”. In Pessoa. Todo arte es una forma de literatura. 
Catálogo. Museo Reina Sofía. Madrid, 2018, p. 262. Exposição aberta 
até 07 de Maio de 2018.

DESPEDIDA

Almada2

“Tu prima m’inviasti verso Parnaso a ber ne le sue grotte, e prima 
appresso Dio m’alluminasti”. 
Dante Alighieri. Purgatorio. Canto XXII.

 

PERDI-TE
Porque nunca
Te encontrei.
Numa rua, 
Numa praça,
Num café.
Em lado nenhum.
Não sei!

ENCONTREI-TE
No Parnaso.
Lá em cima.
Intangível.
Sem poder
Tocar-te
A não ser com
Palavras.
Em forma de poema.
Sensível às cores 
Da tua alma.

DE REPENTE,
Vestiste-me
Com elas, 
As palavras.
E eu senti-me 
Quente,
Afagado
No meu Canto,
Às vezes, 
Amargurado,
Outras, 
Em pranto,
Sufocado.

SIM, ENCONTREI-TE 
No Parnaso.
Lá em cima. 
No Monte.
Através de ti 
Eu vi a costa, 
Eu vi o mar 
E o meu mundo 
Interior
Com nitidez,
A sonhar-te,
De cada vez,
Em azul...
......... 
A tua cor.

A NEBLINA
Cobria-te
Para te revestir
E refrescar
A alma
Como chuva
De palavras
Húmidas
Caídas do meu
Céu.

EU NÃO ERA MAIS
Do que espelho
Que te devolvia
Fantasia
Contra a
Petrificação
Que espreita sempre
Nos olhares 
Indiscretos.
Mas tu não me vias. 
Em mim, 
Especulavas,
Dizias...

E DE TANTO TE
VERES
E dizeres
Decidiste declinar
O espelho que
Começava 
A embaciar-te.

E NÃO ERA DA
NEBLINA
Que te envolvia,
Mas dos desenhos
Que tuas mãos
Esboçavam 
Timidamente
Nesse espelho 
Já húmido 
De ti.

E DESPEDISTE-TE.
Do Monte.
Desceste para ti
Vertiginosamente,
Em desconforto,
Sob os olhares 
Das mil górgonas
Que sempre ameaçam
Petrificar-te.
E sucumbiste.
Ou talvez não...

NO MONTE, O ESPELHO
Disse para si:
- De tanto te veres 
Em mim,
Ficou-me, de ti,
O repetido reflexo.
E sabes o que 
Brotava
Quando te olhavas
Com palavras
Na minha superfície?
Beleza! 
Toda a que me sobrou
Quando, triste,
Desceste o Monte.

MAS ESTA NÃO
PETRIFICARÁ
Porque ficou 
Guardada 
No meu corpo
Vítreo 
Onde todos 
Se revêem
Sem saber 
Que no reflexo
Levam, gravada
Em transparência,
A tua imagem...
.........
Embaciada.

E EU POR CÁ FIQUEI,
Espelho do mundo,
A olhar para 
O escuro espaço 
Sideral
À espera que um cometa
Me alumie o caminho
Para to devolver como
Teu reflexo 
Original...

A CAMINHO DE PASÁRGADA…

Poema de João de Almeida Santos, à desgarrada com Manuel Bandeira (1886-1968), a caminho de Pasárgada, inspirado em três poemas seus: Desencanto, 1912; Versos escritos na água, s.d.; Renúncia, 1906. In Obras Poéticas – 1956. Lisboa: Minerva, pp. 33, 40, 101. Ilustração: pormenor de uma obra do Mestre Guilherme Camarinha (1912-1994).

 

JAS_Camarinha2

 

“OS POUCOS VERSOS QUE AÍ VÃO,
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.”

OS MUITOS VERSOS 
Que te dei
Deixam claro 
O que sou.
Se tu me leres, 
Eu não pequei.
É pouco do muito 
Que te dou.

“NELES PORÁS TUA TRISTEZA
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...”

TALVEZ BELEZA
E algum sentido,
Tristeza, dor, 
Como castigo...
Eu canto 
O que perdi
P’ra que o verso
Vá ter contigo
Lá onde estejas...
.............. 
Queira o vento
Ser meu amigo. 

“QUEM OS OUVIU NÃO OS AMOU
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.”

NÃO OS AMOU
Por ser verdade
Este amor 
Que aqui nasceu
E que cantei 
Em liberdade
Em versos 
Que o vento
Já me levou
Aos muros 
Dessa cidade.

OUTROS FARIA
Se pudesse
Para os pôr 
Na tua mão,
Não pediria que 
Os sonhasses,
Olhos cerrados,
Mas que os lesses 
Com afeição!

AH!, MANUEL,
Que bem me sabe
Pôr a dor 
Em poesia,
Em versos
A emoção,
No cantar 
Triste alegria
E muito intensa
Uma paixão,
Mesmo que seja
Utopia!

DIZES TU,
Em poesia,
Que só a dor
Te enobrece.
É bem verdade, 
Meu bom poeta,
Alma dorida 
Logo aquece
E com seus versos 
Entretece
O que a paixão
Já tanto afecta.

“A VIDA É VÃ COMO A SOMBRA QUE PASSA...
Sofre sereno e de alma sobranceira,
Sem um grito sequer tua desgraça.

ENCERRA EM TI TUA TRISTEZA INTEIRA.
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...”

POIS TENHO MEDO,
Ah!, meu irmão, 
Que a dor 
Me passe,
Perca o poema 
Sua raiz,
Essa, sim, 
A verdadeira, 
E eu fique só 
Já sem palavras
E caiam secas 
Todas as rosas
Que me povoam
Esta roseira.

SOBRAM ESPINHOS
Ferem-me a alma
E saem versos
E cai o sangue
“Gota a gota,
Do coração”,
“Volúpia ardente” 
Já sem remédio
“Eu faço versos 
Como quem chora”
E chamo a dor
Naquela hora
E ela vem
Por compaixão!

AH!, POETA,
Ah!, meu irmão,
Tu fazes versos 
“Como quem morre”
E eu procuro
Neste meu canto...
............
O seu perdão!

TU, MANUEL,
És a bandeira
E ela o meu refrão,
P’ra mim és verso
No meu poema
E ela é...
............ 
Minha paixão!

A PALAVRA PROIBIDA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: Intervenção 
digital (cor) de JAS
sobre “O Rio” (1950), do 
artista italiano
Alberto Savinio (1891-1952).

Alberto Savinio-cópia

“L’amour est la poésie des sens”
Honoré de Balzac
OS GUARDIÕES
Do sagrado templo
Emitiram Edital:
“O amor em poesia
Fica assim proibido
Porque pode ser 
Fatal.
Os versos 
E as estrofes
Pintados 
A luz e cor
Ficam p’ra sempre 
Banidos
Da Arte 
E do Amor!”

DIZ O AMIGO
Honoré,
Certeiro
Como poeta,
Que o Amor
É poesia, 
É a arte 
Dos sentidos,
É perfume
Qu’inebria
E nos faz sentir
Perdidos...
.............
Se não houver
Guardião 
Impenitente
Que decrete: 
“Também eles 
São proibidos!”

PROIBIDOS?
Ah!, esses, 
Não!
Poesia
É emoção, 
É enlevo
Dos sentidos...
...........
Que resiste
Ao edital
Mesmo que seja
Cantado
Pelo mais
Belo jogral!

TENTA, POR ISSO,
Levá-los
Aos píncaros
Da fantasia,
Sobem lá alto
Os sentidos
Com asas
De poesia!

MAS É DIFÍCIL
Senti-los,
Ouvi-los 
Em verso, 
Com alegria,
Pois há sempre
Alguém
Que me rouba
A brisa
Dessa tua 
Maresia...
..............
A que respiras
Bem cedo,
Logo ao 
Amanhecer,
Em cada dia
Que sentes
Como, feliz,
Eu te canto
Para nunca 
Te perder!

OLHAS O MAR,
Sentes
As ondas
Dentro de ti
A cantar
Como versos
Que o vento 
Sopra
De mansinho
P’ra te poder
Sussurrar
O que por ti
Eu já sinto
Apesar de tão
Sozinho!

POESIA
Dos sentidos?
O amor também 
É isso
Porque, queiras 
Ou não queiras,
Tem a força 
De feitiço.
Encontro-a
Sempre em ti
E mesmo que 
Proibidos
Desenho sempre
Poemas
Desde o dia
Em que te vi...
............
Exaltaram-se 
Os sentidos
E para o poema
Parti...

DECRETARAM
Edital?
Ah!, que o façam, 
Pois, cumprir!
Mas poesia
É como vento,
Sopra-me 
Tão forte
Na alma
Que o teu silêncio
É alento 
Para sempre 
Te esculpir.
Na palavra proibida
Encontrará o poema
O seu próprio
Porvir...


***

PERDER-TE…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: intervenção digital de JAS
sobre “Portrait d’un Poète (Juliet)”, 1954,
de Man Ray (Man Ray, Cent’anni di
Libertà - 1890-1990. Venezia, Sodicart,
1990, p. 119). Homenagem a um Artista
que admiro.

MRayPd'unP_cópia

 

RENUNCIEI
Para nunca 
Te perder,
Mas neste 
Silêncio sofrido
Vai declinando
O que p’ra sempre
Eu quis ter...

VÊS, BERNARDO, 
Que destino?
Que desassossego,
O meu?
Quis seguir
O teu caminho
E perdi-me...
..........
Já não sou
Eu!

QUE DESENCONTRO
Foi esse
Desde o dia
Em que te vi?
Dei-te errados
Sinais
Cada dia
Que vivi,
Cavando
Cada vez mais
A solidão
Que m’invade
Desde quando 
Te perdi?

VÁ, DIZ-ME
Tudo o que 
Não sabes!
Eu quero
Mesmo saber
P’ra te cantar
Em poemas,
Pois não te
Quero perder!

TU AMAS 
A poesia?
Senti-la é
Doce sofrer,
Ela diz tudo
Com nada,
O seu canto
É prazer,
É melodia
De fada
Mesmo quando
Faz doer!

NO POEMA
Eu até finjo,
É poeta 
Quem o diz,
Mesmo que sinta 
O que digo
Nunca sou, 
Sem ti, 
Feliz!

MAS POEMA
É como a vida,
Posso ouvir
A tua alma
Em desejos
Com palavras.
É o modo
De te ter,
É remédio
Que me salva
De na solidão
Eu arder!

ESTE CANTO
É, pois, meu,
Nem tu 
Mo podes 
Roubar,
Se te dizem 
Que é p’ra ti
É verdade...
...........
De enganar!

O VERSO
É o meu beijo
Nesse rosto
Que perdi, 
É quente 
Como o desejo
E resiste
A quem te diz
Que o poeta
Não te ama,
Porque desenha 
As palavras
Com um pedaço
De giz...

O AMOR
Em poesia
Não é mesmo
Deste mundo,
Quem o ler
Como utopia
Vai mais longe
Vai mais fundo
E não cai 
Em afasia
Nem vê 
O pobre poeta
Como simples
Vagabundo.

EU NÃO GOSTO
Da renúncia,
Mas que posso 
Eu fazer?
Se não cantar
O que sinto
Ainda te vou 
Perder!

***

ALMA!

Poema a dois. Ana de Sousa
e João de Almeida Santos. 
Ilustração de João de Almeida Santos. 
"Deusa no Jardim". 28.01.2018.

JAS_Deusa_Jardim

“ - PROPÍCIA,
DESPERTA A MANHÃ,
Desperta o dia.
A Montanha distante
É tua.
Exageradamente fria.
Está escrito
Numa Estrela
Em matriz
Gravada
A cinzel!”

SIM, FRIA,
É A MONTANHA
Onde nascemos
Para o Destino
No granito
Das nossas vidas!

O CALOR
Habita
Outras paisagens
Mais a sul,
Onde nasce
A poesia
Para aquecer,
Com flocos 
De palavras, 
A minha alma 
Granítica 
E vadia...

“- FATAL CAMINHO
De linhas paralelas. 
Até os sonhos
Da mulher to dizem:
‘ - A solidão eterna
Não ouvida. 
Ferida antiga,
Aberta e repetida’.”
SOLIDÃO ETERNA...
É longo 
O caminho
Dos que amam
No deserto
Como gelo 
Na noite,
A fria lua
Iluminando a alma
Nua
Em desespero,
Tendo areia 
E vento
Como tempero...

“- PORÉM, O GELO
É QUENTE.
Mente.
Com a mentira sobrevive
O engano.
Da louca mansidão
Se afastam
Os sentidos
Do paladar
Do tacto.”

SIM, É QUENTE,
Porque não mente
E é cortante,
Faz brotar
Sangue
Em veias 
Flutuante
Que escorre
Sobre pele,
Mesmo distante,
Tal a força
Da paixão
Na memória
Escaldante...

“ - DE FACTO, PERDURA
A audição, o olhar.
O cheiro raro
De um perfume
Caro.
Negrume 
De eclipse!
Qual elipse?
E o símbolo
Do infinito
Ata-lhe
O petrificado coração. 
Reflecte um brilho
Inigualável o diamante
Inscrito
Na sua neve
Branca.
Flecte
Os joelhos.
Sabe ainda rezar...
Fá-lo
Em poesia
Confessando-se
Às palavras
Que se diz,
Em permanente
Melancolia...”

ELIPSE E INFINITO
Sabem de longe 
A não ouvido 
Grito de beleza
Sacrificial
Ou gemido 
Sussurrado
E esquecido
Lá longe.
Alma ferida
Que o seu altar
Colorido 
Não acolhe
Nessa distância
Desmedida
De uma fuga
Inesperada
E depois
Insistentemente
Ressentida
No eco do silêncio!

Oh! como é duro
Vê-la perdida
No meio da floresta
Desordenada 
De cores,
Esbracejando
No seu irresistível 
Ímpeto,
Em girândolas 
Ou estilhaços de
Poderosa fantasia
Em perigo
De autofagia
Cromática,
À procura do
Do tempo perdido 
Em sendeiro
De floresta...

“ - MAS O SILÊNCIO
De Deus
É um consolo.
Mudança de  estações,
Tempo
Insondável!
Milhares de vezes
Levanta voo a águia.
Seu destino
É voar.
O da fiandeira,
Fiar.”

VOA, VOA
A águia 
Com seus riscos,
Mas ele,
Que não é
Fiandeiro,
Fica-se 
Pelas palavras
Como ciscos 
No seu olhar 
Perturbado,
Sem cor
Abandonado,
Procurando,
Parado,
Voar
Com outras asas
Que encontra
Em si,
Sem saber
Para onde
Viajar,
Perdido o infinito
Que lhe roubaram
Dessas mãos 
Tão generosas
De palavras
E cores...

“ - SUAS IRMÃS,
AS PARCAS,
Riem
Do destino
Dessa mortal voadora.
Resta-lhe ficar
Soror da Seda 
Presa em seu casulo
Do mais alto céu,
Olhando de
Longe
Tudo o que a vida
Lhe não deu.”

MORTAL VOADORA
Que me liberta 
Da Moira
Que ao fim,
Inflexível, 
Me conduz,
Sem sair
Desse silêncio
Que tanto
Me seduz...
.........
Alma pura
Que me trouxe 
Tanta, mas tanta 
Luz,
Em plena vida
De poeta
Que resiste
Com a Sorte
À neblina
Que aflora
E espreita
A cada esquina...

“QUE CINZENTO
E AZULADO,
Porém, é o céu 
E o poente quente
Que cai
Alaranjado e vermelho,
Como a nuvem
Passou o sonho,
Seu espelho...
............
Ah, a doçura
Das palavras
Amargas!”

SIM, AMARGAS
Como o gelo 
Quente
Que não mente
E não derrete
Ao sol,
No poente,
Quando o verso 
Declina
No horizonte marinho
Ali a seu lado...
Porque à vida
E ao poema
Sempre
Reconduzem,
Sim,
As palavras,
Mesmo sem cor!

PROPÍCIA, DESPERTA
A manhã,
Sem ti,
Meu amor!

 

 

ELAS FOGEM, AS PALAVRAS…

AnaDeSousa.20180112_234446 (1)

POEMA de JOÃO DE ALMEIDA SANTOS. Ilustração de ANA de SOUSA. 01/2018

 

QUERIA FAZER-TE
UM POEMA,
Sentir-te nele
À vontade
E as palavras
Endoidaram
Quando 
Feliz 
Lhes falei
Da minha 
Quente
Saudade...
.............
Fugiram
Numa revolta
Sentida
Sem conhecer
A verdade.

EU ESTAVA
A MENTIR
Sem cuidar
Da crueldade
De as usar
Como queria
Só porque
Tinha saudade...

ESGUEIRARAM
RUA FORA,
Cada uma 
Por seu lado,
Em fugas
No horizonte
Deste poema
Tentado.

SÓ JÁ AS VIA
LÁ LONGE,
Ao fundo
Da tua rua
Num ponto 
Do infinito
Desta minha 
Alma nua.

UMAS
ESVOAÇAVAM
No fio 
Do horizonte,
Outras
Aninhadas
No passeio...
.............
E eu a tentar
O versejo
Capturado
Num enleio
Desta prisão
Do desejo!

PALAVRAS 
EM CORRERIA,
Letras
Perdendo forma
Como fios
De um novelo
Já desfeito
De sentido
Como a água
Do gelo...

SÃO FIOS
EMARANHADOS,
Letras 
Que se deslaçam
E procuram
Outras formas
Para lá da minha 
Rima,
São riscos
Na tua tela
A subir
Por ela acima...

QUERO FAZER-TE
UM POEMA
Com palavras
Desenhadas
Mas elas fogem
P’ra longe
Correm, correm
Assustadas
Não vá mesmo 
Ser verdade
Que as quero
Alinhadas
Neste recanto
Feliz
Onde resisto
À saudade.

ELAS GOSTAM
DE CANTAR
Esta minha 
Triste dor 
E gostam 
De me dizer
Esta intensa
Emoção...
...........
Mas se vêem
Que és feliz
Fogem de ti,
Dizem “não!”

O POEMA 
PASSARINHO
Procura-te
Para cantar
Mas se já 
Não sentes nada
É ele que foge
A voar...

E HOJE
É MESMO ASSIM
Fogem todas
As palavras
Sem procurar
Um destino,
Já não consigo
Agarrá-las
Num poema
Genuíno.

NÃO SABEM
DA MINHA DOR
E por isso
Vão embora
Estou sem palavras,
Amor,
Estou muito triste,
Agora!

 

 

 

 

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