MUSA
Poema de João de Almeida Santos Ilustração: “Musa” JAS 2026 Original de minha autoria Abril de 2026
POEMA – “MUSA”
EU TENHO UMA MUSA Guardada Lá no fundo Da memória, Perdi-lhe o rasto Ao corpo, Ficou-me dela O mistério Que me alimenta O estro Quando a saudade Me assalta. SOBROU-ME Recordação, Marcas cá bem Dentro de mim, Desço ao fundo Da alma Mas não lhe vejo O fim. E ASSIM NÃO A Vislumbro, Há uma certa Escuridão, O olhar já Não me chega, Restam-me As cicatrizes Da alma E uma funda Solidão. ÀS VEZES Desenho-lhe O rosto, Ponho-lhe cores Muito vivas, Pinto a alma Com palavras, Dou-lhe um nome Que não é seu, Levo-a aos meus Poemas E devolvo-lhe tudo O que ela Não me deu. VALE-ME A POESIA Para onde fujo Com ela, É como a maresia Da praia Que vejo Da minha janela. EU TENHO Uma musa Nesse mar Que não tem fim, Revolvo-me Nas suas ondas Que batem Nos meus poemas, Mas onde sorri Para mim. NÃO IMPORTA Onde está, Musa é fonte De inspiração Desde que haja Memória De uma intensa Paixão.


Publico o belíssimo Artigo de André Moshe Veríssimo sobre a minha poesia (em análise comparativa com a poesia de Fernando Pessoa) a partir deste Poema “MUSA”:
“André Moshe Veríssimo, PhD
(Recepção e análise)
12.04.2026
Comparação entre a poesia de João de Almeida Santos (“Eu tenho uma musa”) e a de Fernando Pessoa:
J. A. Santos: Poeta da Generosidade da Memória
(Análise estética, filosófica e estrutural, centrada no subentendido da memória e do corpo ausente)
João de Almeida Santos e Fernando Pessoa partilham o mesmo solo ontológico português: a saudade como força criadora. Mas enquanto Pessoa a explode em multiplicidade e desassossego cósmico, Santos a recolhe, íntima e generosa, num único corpo ausente que se torna fonte inesgotável de estro. O poema de Santos não é um eco; é uma variação contemporânea, mais pictórica e marítima, de temas pessoanos eternos.
1. Estrutura poética: fragmentação como corpo-próprio da ausência
Santos constrói o poema como um corpo estilhaçado que se recompõe — sete estrofes-cabeçalho em maiúsculas, como placas de identificação ou cicatrizes expostas. Cada bloco desce ao “fundo” (da memória, da alma) e interrompe o fluxo, mimetizando a recordação que nunca chega inteira. O enjambamento (“Perdi-lhe o rasto / Ao corpo”) cria respiração entrecortada, de quem procura e não toca.
Pessoa faz o mesmo, mas em escala maior e mais radical. Os heterónimos são o equivalente supremo dessa fragmentação: o “eu” não é um, é drama em gente. Em Autopsicografia o poeta é “fingidor” que finge tão completamente que chega a sentir a dor que não tem. No Livro do Desassossego (Bernardo Soares) a prosa-poema é um labirinto de fragmentos onde o sujeito se perde em si mesmo. A estrutura de Santos é mais compacta e orgânica (como um organismo que pulsa em direcção ao centro vazio); a de Pessoa é deliberadamente caótica, porque o próprio ser é caótico. Ambos, porém, usam a forma para materializar a ausência: o corpo da musa em Santos, o corpo do “eu” em Pessoa.
2. Estética: da pintura da memória ao maremoto sensacionista
Santos é pictórico e marítimo. Pinta a musa com “cores / Muito vivas”, dá-lhe nome que não é seu, leva-a aos poemas e devolve-lhe “tudo / O que ela / Não me deu”. A musa torna-se tela viva. O mar surge como clímax: “maresia / Da praia / Que vejo / Da minha janela” e o “mar / Que não tem fim” onde o poeta se revolve nas ondas que batem nos versos. A saudade é maresia — algo que se respira, que vem de fora e penetra.
Pessoa eleva isso ao paroxismo sensacionista. Em Álvaro de Campos (Ode Marítima) o mar é o próprio corpo do poeta que se dissolve em infinitas sensações: “Sinto tudo de todas as maneiras”. A saudade não é de um corpo concreto; é saudade “do que nunca houve” — da pré-existência, dos possíveis não vividos. A imagética marítima pessoana é dionisíaca, vertiginosa; a de Santos é mais serena, contemplativa (da janela), mas igualmente redentora. Ambos transformam a falta em cor e movimento: Santos pinta com palavras; Pessoa multiplica sensações até o “eu” se tornar mar.
3. Plano filosófico: memória como criação versus desassossego da multiplicidade
Aqui a afinidade é mais profunda.
Corpo ausente e memória criadora: Em Santos o corpo da musa desapareceu, mas deixou “marcas cá bem / Dentro de mim”. A ausência não é perda; é condição de possibilidade da poesia. O poeta não sofre a musa; engendra-a como musa no momento em que o corpo se ausenta. “Musa é fonte / De inspiração / Desde que haja / Memória / De uma intensa / Paixão.”
Pessoa radicaliza isso. A saudade em Caeiro é da “infância esquecida”; em Campos, do irreparável (“o que nunca foi, nem será para trás”). No ortónimo, a saudade é metafísica: “saudade do que nunca houve”. O corpo nunca foi suficiente; o poeta precisa de fingir outros corpos (heterónimos) para sentir. A memória não conserva: cria realidades paralelas. Santos devolve generosamente o que não recebeu; Pessoa finge tudo para não morrer de não ter recebido nada.
Solidão e criação como salvação: Santos transforma a “funda / Solidão” em solo fértil. A escuridão é húmus. Pessoa vive o desassossego como estado permanente: “Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa”. A criação não cura; multiplica o sofrimento e, simultaneamente, o salva. Ambos, porém, afirmam a mesma tese ontológica: a poesia é o único lugar onde o ausente pode sorrir (Santos: “Mas onde sorri / Para mim”; Pessoa: o fingidor que chega a sentir a dor fingida).
4. Emoção e complexos vitais: saudade–criação–solidão versus fingimento–multiplicidade–desassossego
O triângulo vital de Santos é saudade (assalto) – criação (devolução generosa) – solidão (fértil). É um amor que se torna arte para sobreviver, com um tom de reconciliação serena.
Em Pessoa o triângulo é saudade (do que nunca foi) – fingimento (multiplicidade) – desassossego (irremediável). Há mais ironia, mais angústia intelectual, menos reconciliação. O poeta pessoano não devolve o que não recebeu; inventa mundos inteiros para preencher o vazio. Santos habita a ausência como mar calmo; Pessoa navega-o em tempestade dionisíaca.
Conclusão: duas formas de ressuscitar o ausente
João de Almeida Santos escreve como quem ama uma única musa ausente e a torna eterna devolvendo-lhe o que ela negou. Fernando Pessoa escreve como quem ama todas as musas possíveis porque nenhuma é suficiente, e as multiplica em heterónimos para não morrer de saudade do que nunca existiu.
Santos é o poeta da generosidade da memória; Pessoa, o poeta da angústia da multiplicidade. Um recolhe a saudade num corpo-poema íntimo; o outro espalha-a pelo universo em fragmentos. Mas ambos provam a mesma verdade portuguesa e universal: o corpo ausente não morre — torna-se poema. E no poema, finalmente, a musa (ou o eu) sorri.
Se Santos é o continuador lírico e pictórico da tradição pessoana, Pessoa permanece o mestre que ensinou a todos nós que a saudade não é falta: é a matéria-prima de toda a grande poesia.
Transcrição do comentário de António José Dias de Almeida,
enviado por WhatsApp:
“Muito oportuno e muito feliz a interpretação.
Gostei da conclusão quando André Moshe Veríssimo escreveu que
“Santos é o poeta da memória (concordo plenamente)
e Pessoa da angústia e da multiplicidade (também concordo)”.