MOBILIZAÇÃO PROGRESSISTA GLOBAL
João de Almeida Santos
CONFESSO que, ao tomar conhecimento desta iniciativa do Partido dos Socialistas Europeus (PSE) e da Internacional Socialista (IS) – precisamente a da “Mobilização Progressista Global” (GPM) -, fiquei agradavelmente surpreendido por ver que a IS ainda mexe e que, finalmente, o nome de Pedro Sánchez e, consequentemente, as corajosas posições que tem vindo a tomar em matéria de política internacional aparecem publicamente associados à sua função numa organização de que, afinal, é líder desde 2022, substituindo Papandreu, seu presidente desde 2006. Quatro anos depois vemos, pois, entrar na agenda pública internacional uma grande iniciativa da IS, do PSE e da chamada “Aliança Progressista”, envolvendo mais de 40 países e mais de 140 oradores (“ponentes”; dados de 12.04, que constam do site do GPM, mas que ainda não incluíam Claudia Sheinbaum, a presidente do México, que estará presente no segundo dia), entre os quais Portugal, com a participação de António Costa (Presidente do Conselho Europeu), José Luís Carneiro, secretário-geral do PS, e Ana Catarina Mendes, eurodeputada. É de sublinhar não só a clareza das posições de Pedro Sánchez relativamente à política internacional, em nítida contraposição com o cinzentismo das posições dos dirigentes de topo da União Europeia, mas também a promoção deste importante encontro da social-democracia mundial.
1.
Um encontro importante não só pelo vasto programa, de que falarei, mas também pelo relevo dos participantes neste forum. Entre tantos outros, julgo importante mencionar, pelo que representam e pelo significado político e institucional que tem a sua presença, além de Pedro Sánchez (presidente da IS e do governo espanhol) e de Isabel Allende Bussi (presidente honorária da IS), Lula da Silva (Presidente do Brasil), Cyril Ramaphosa (presidente da África do Sul), Teresa Ribera (vice-presidente executiva da Comissão Europeia), Stefan Loefven (presidente do PSE), Cláudia Sheinbaum (presidente do México), Yamandú Orsi (presidente do Uruguay), Gustavo Petro (presidente da Colômbia), Inga Ruginiené (primeira-minista da Lituânia), Albin Kurti (primeiro-ministro do Kosovo), Mia Amor Mottley (primeira-ministra de Barbados), Francina Armengol Socias (presidente do Congresso dos Deputados de Espanha), Lars Klingbeil (vice-chanceler da Alemanha), Andreas Babler (vice-chanceler da Áustria), David Lammy (vice-primeiro ministro do Reino Unido e Lord Chancellor) Ndaba Gaolathe (vice-presidente e ministro das finanças do Botswana), Tanja Fajon (vice-primeira-ministra e ministra dos negócios estrangeiros e europeus da Eslovénia), Katarina Barley (vice-presidente do PE), Maria Ressa (Prémio Nobel da Paz), Rahul Gandi (líder da oposição na Índia), Elly Schlein (líder do PD de Itália), Olivier Faure (primeiro secretário do PSF, França), Ivana Bacik (líder do partido trabalhista irlandês), Wayne Swan (presidente do partido trabalhista australiano), Issoufou Mahamadou (ex-presidente da Nigéria), Ernesto Sampaio Pizano (ex-presidente da Colômbia), Mohammad Shtayyeh (ex-PM da Palestina), Abdulaziz Sager (presidente do Gulf Research Center – Arábia Saudita), Nicolas Schmit (presidente da FEEP), eurodeputados, empresários, membros de importantes organizações e fundações, professores universitários e diversos líderes de organizações sindicais nacionais e internacionais. E creio que basta para mostrar a importância deste encontro.
2.
O encontro não acontece por acaso. Na verdade, ele acontece num momento particularmente grave das relações internacionais, com a guerra da Ucrânia e o grave conflito que opõe os USA e Israel ao Irão, com as consequências gravosas que já está a ter a nível mundial e que se vieram juntar às que resultaram da invasão russa da Ucrânia. Donald Trump, com a habitual política da ameaça e do uso da força, veio provocar, interna e externamente, gravíssimas disrupções que alteraram substancialmente sobretudo os equilíbrios internacionais (com as famosas tarifas, com a guerra e com as constantes ameaças de intervenção e ocupação de solo alheio). E como se isso não fosse suficiente volta a falar da Gronelândia e ameaça sair da NATO, criticando os países europeus por se terem recusado a participar no conflito com o Irão, decidido unilateralmente por ele e por Israel. Por isso, este encontro, com o peso político que tem, e pelo tema central que exibe, a defesa da democracia e a resistência à ameaça da direita radical que tem vindo a crescer na América Latina (na Argentina e no Chile, por exemplo) e na Europa, fortemente e directamente encorajada pela Administração americana, vem no momento oportuno e verifica-se alguns dias depois da última intervenção política de James D. Vance e do próprio presidente Donald Trump (via telefone) na campanha eleitoral húngara, com os resultados que acabámos de conhecer. Depois da derrota de Giorgia Meloni no referendo sobre a justiça em Itália, é agora a vez de Viktor Orbán, cedendo perante Peter Magyar, que obteve uma maioria qualificada de deputados no parlamento. O mais exuberante amigo político de Putin e de Trump, ficou assim afastado da liderança do governo, depois de 16 anos no poder e de uma profunda reconversão autoritária do sistema político húngaro, tendo-se tornado famoso como o mais influente paladino europeu da chamada “democracia iliberal”. Se falarmos de democracia iliberal, lentamente implantada na Hungria, ao longo de 16 anos, então, esta paradoxal democracia foi a derrotada destas eleições, demonstrando que a democracia de matriz liberal, mesmo quando reduzida aos mínimos, permanece sempre como bastião remoto da liberdade política. Esta é porventura a mais expressiva conclusão a tirar destas eleições, além de representar uma derrota de Trump e de Putin, ao perderem o seu mais fiel aliado na Europa. Como sabemos, esta injunção da Administração americana, também ela paladina da “democracia iliberal”, na política interna de Estados terceiros não foi original, pois o mesmo Vance já se chegara à frente por ocasião da cimeira de Munique, em 2025, em defesa do partido de extrema-direita alemão Alternative für Deutschland. Não se coibindo de interferir clamorosa e despudoradamente nas dinâmicas políticas e económicas internas de outros países, como sistematicamente tem vindo a acontecer, mas acusando os outros de o fazerem, o que mais parece ser necessário é que as derrotas, directas ou indirectas, vão paulatinamente acontecendo, mas também que se forme uma vasta aliança internacional que responda energicamente, como acabaram de fazer os húngaros, a esta Administração, isolando-a internacionalmente, e que, desse modo, se dê argumentos aos democratas americanos para agirem em defesa da própria democracia e da ordem internacional, avançando designadamente para o impeachment que muitos já pretendem pôr em marcha, mas que terá certamente maior eficácia se for accionado depois das eleições de Novembro. De algum modo, esta reunião de Barcelona tem o sabor a toque a rebate das forças sociais-democratas em defesa da democracia e do direito internacional, de rejeição da política como ameaça e do uso discricionário da força e como alavanca política das forças iliberais em todo o mundo. Não sendo, creio, social-democrata, mesmo assim falta lá a Internacional Progressista, de Yanis Varoufakis e Bernie Sanders. Mais por Sanders do que por Varoufakis. De qualquer modo, esta Internacional não tem dado grandes sinais de vida, pelo que a sua ausência não terá grande significado, até porque na verdade este é um encontro de formações políticas, de governantes e de organizações de inspiração social-democrata.
3.
O forum tem uma agenda muito vasta para um alargado debate que envolverá mais de 140 oradores de muito diversificada proveniência. Dou aqui conta do conteúdo dos temas que me parece serem mais significativos em função do momento dramático que estamos a viver. Procuro, deste modo, sintetizar o vasto programa nos seus temas centrais e, sobretudo, nos temas que apontam para a crise mundial em curso, mas também para a crise da própria social-democracia. Os grandes temas: a defesa da democracia perante as ameaças da direita radical e dos regimes autoritários; as relações entre a América Latina, a África e a Europa em tempos de disrupção, de desnorte, de negacionismos, de regimes oligárquicos a substituírem-se aos regimes democráticos, num contexto geopolítico altamente complexo; a Agenda 2063 da União Africana: desafios-chave para melhorar a conectividade global, a transformação económica estrutural e a governança democrática na África; A Ucrânia e a defesa da Europa; a diversidade na Europa; a transição digital, a tecnologia, a inteligência artificial, as redes sociais, o acesso à internet, o assédio digital e a soberania tecnológica; temas clássicos propostos pela social-democracia, como a justiça social e os valores, o trabalho perante os desafios da inteligência artificial, as desigualdades, o custo da vida e a justiça social; a transição climática; a habitação (cidades para todos); a liberdade de expressão; memória e democracia; uma política migratória equitativa e o asilo. Estes, no essencial, os temas em debate, envolvendo as grandes questões com que a humanidade hoje se confronta.
4.
E, no entanto, o que eu julgo que deve ser evidenciado são dois aspectos, digamos, implícitos ou não explicitamente declarados, que este encontro representa: 1. o ressurgimento da social-democracia e do centro-esquerda à escala global (não é por acaso que o encontro se chama “mobilização progressista global”), dando sinal de que algo se começa a mover nesta infeliz fase de “ricorsi” históricos, de regressão civilizacional, para usar o conceito de Giambattista Vico, com vista a iniciar um novo caminho que reponha a política internacional na linha do progresso civilizacional, da cooperação, do direito internacional e do respeito pelos grandes princípios em que assenta a nossa modernidade (inaugurada com o sistema representativo e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789); 2. um claro sinal a Washington de que há mais vida para além da vontade imperativa, ondulatória e imperial de Donald Trump e que está pronta a manifestar-se sem prestar vassalagem aos que se crêem senhores do mundo, porque são militarmente e economicamente poderosos. Não foi por acaso que sinalizei as significativas presenças de personalidades que representam países e organizações influentes no mundo, sendo alguns dos países membros dos BRICS, como o Brasil, a África do Sul ou a Índia e estando a União Europeia presente em peso, atendendo à qualidade institucional dos presentes. Ou seja, este encontro é um encontro de natureza expressivamente política, ainda que também seja um rico forum de debate com temas de grande interesse e relevância cognitivos e com intervenientes que garantem também o valor cultural e propositivo desta tão vasta reflexão colectiva. O encontro de Barcelona sinaliza uma forte vontade colectiva, e de alcance mundial, de dizer à actual Administração americana que os valores da democracia, do direito internacional, da justiça e da autodeterminação dos povos continuam bem vivos.
5.
Muitos falam de crise do império americano e de emergência de um novo e poderoso actor mundial, como a China, que se vem paulatinamente preparando para tomar a dianteira. É verdade. E não creio que a Rússia possa vir a recuperar a posição no mundo que antes fora da URSS. Há, no entanto, a tentativa clara de repor as famosas zonas de influência por parte dos países poderosos, fazendo recuar fortemente o multilateralismo que parecia estar a consolidar-se como dialéctica dominante nas relações internacionais. A política de Trump é a pura antítese do multilateralismo pois procura impor o “triunfo da vontade” e da força, bem patente na acção política do presidente americano quer no plano militar quer no plano económico. Sendo grande a deriva em matéria de declarações políticas, uma coisa é certa: a sua é claramente uma orientação política autoritária e imperial. Ora esta orientação em curso do Estados Unidos conhece já fortes movimentos de resistência, dos quais o destaque vai para os BRICS, ainda que estes também estejam integrados pelos mesmos países que, como os Estados Unidos, com a novíssima doutrina Donroe, querem impor as novas zonas de influência (a China e a Rússia). Este encontro inscreve-se nesta tendência resistente à imposição da vontade e da força e à política da ameaça permanente interpretada vistosamente por Donald Trump. Mas a história, da qual os americanos parece nunca quererem retirar lições, está aí para mostrar o destino que tiveram os apologistas do “triunfo da vontade” e os impérios, os cultores da força bruta como meio de “diálogo” e da ameaça como princípio constituinte de uma estranha diplomacia. E se for assim, este encontro é muito bem-vindo pelo significado que tem. E oxalá que indicie também vontade de as forças progressistas iniciarem um processo de repensamento da sua própria identidade que dê continuidade àquela interessante décima primeira tese sobre Feuerbach do velho Marx: “Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert, es kommt drauf an, sie zu verändeln” (MEW, Berlin, Dietz Verlag, 1981, p. 7). Neste caso, tratando-se também de reflexões sobre a actualidade, a partir de uma certa interpretação política do mundo (social-democrata), mas sendo também, ou sobretudo, um acontecimento com forte densidade política, bem poderia constituir-se como um bom ponto de partida para a acção e um novo fôlego do centro-esquerda a nível mundial. Interpretar e agir. Não estou, realisticamente, muito confiante, visto o poderio económico e militar que os países não democráticos exibem, agora incompreensivelmente acompanhados pelos Estados Unidos, mas não será por isso que deixo de ter esperança num recomeço virtuoso da área política que me parece ser a que melhor interpreta o progresso civilizacional, sendo certo que mesmo quem não dispõe de arsenais gigantescos de armamento pode sempre afirmar com coragem a própria soberania e uma vontade firme de não se submeter à vontade de outrem por mais ameaçadora e poderosa que ela seja. Talvez também a União Europeia “acorde”, depois desta manifestação de coragem política e de empenhamento dos sociais-democratas. Sabemos que também existe o “soft power”, que, a longo prazo, tem bem mais força dos que os mísseis de um qualquer aspirante a ditador ou já em exercício. Bem o dizia Napoleão Bonarparte: “Você sabe”, dizia Napoleão a Fontanes, “o que é que eu mais admiro no mundo? A impotência da força para fundar algo. Só há duas potências no mundo: a espada e o espírito. No longo prazo a espada é sempre vencida pelo espírito”. Este diálogo foi citado por Albert Camus em L’Amandier, em 1940, no início da segunda grande guerra mundial. E é bem elucidativo.
6.
Este encontro, que se realiza por ocasião de um grave conflito bélico, acontece nos dias 17 e 18 de Abril. Pois bem, no dia 19 de Abril o PS faz 53 anos desde que foi criado, em 1973, em Bad Münstereifel, na Alemanha. Pode ser que o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, venha de lá inspirado e logo no dia seguinte meta mãos à obra, que o partido bem precisa. JAS@04-2026
