Ensaio

 

Ensaio Crítico 
Sobre João de Almeida Santos

O PÊNDULO INEXORÁVEL

A OSCILAÇÃO E O TALISMÃ

Différance, Tzimtzum, Khōra 
e Terra na Oscilação Poética 
de João de Almeida Santos

Com perscrutação lobatchevskiana
 de «O Pêndulo-Talismã» (JAS 2026)
 e «O Som do Silêncio» (JAS 2023)

Uma Hermenêutica Quatriádica FPXT

(Filosófica · Poética · 
Xabática-Estética · Terrestre)

André Moshé Veríssimo, PhD – Professor Universitário

PRANCHAS: AS DUAS PINTURAS
DE JOÃO DE ALMEIDA SANTOS

O poema «O Pêndulo» é parte de um díptico Poesia-Pintura. Reproduzem-se aqui, na abertura do ensaio, as duas pinturas originais de João de Almeida Santos (JAS) que com ele dialogam, e que a secção VII submeterá a perscrutação microscópica. Ambas são originais da autoria do pintor.

“O Pêndulo-Talismã” – JAS 2026. Técnica digital sobre fundo de azul-meia-noite; gota-vitral suspensa por fio, com árvore-da-vida central. Original do autor, Junho de 2026. Assinado «jas2026» (canto inferior direito).

“O Som do Silêncio” – JAS 2023. Técnica digital; arcos concêntricos ocres descendo sobre fundo negro, com faixa de terracota estratificada (o «chão») na base. Detalhe do original do autor, 2023. Assinado «jas2023» (sobre a linha do horizonte). Conjunto reunido na série Poesia-Pintura, publicado a 20 de Junho de 2026.

RESUMO

O PRESENTE ENSAIO reúne, numa intersecção fecunda, a hermenêutica triádica (FPX) e a hermenêutica quatriádica (FPXT) anteriormente propostas pelo autor para o poema «O Pêndulo» (2026) de João de Almeida Santos, e reinventa-as num único protocolo de leitura estratificado, agora articulado às duas pinturas que acompanham o poema na série Poesia-Pintura: «O Pêndulo-Talismã» (JAS 2026) e o detalhe de «O Som do Silêncio» (JAS 2023). A sigla FPXT designa quatro dimensões indissociáveis: (F) Filosófica — Agamben (inoperosità, tempo messiânico, resto), Derrida (différance, trace, khōra) e Adorno (dialéctica negativa); (P) Poética — o versejar como práxis redentora; (X) Xabática e Estética — Luria (tzimtzum, shevirah, tikkun) e a estética do traço; (T) Terrestre — Heidegger (a contenda entre Mundo e Terra, a Terra que se oculta e abriga). A tese sustentada é a de que o pêndulo de Santos realiza uma khōra poética que é, simultaneamente, o espaço da différance, o vazio aberto pelo tzimtzum e o solo da Terra que se recolhe — e que o «chão», o «húmus incógnito», a «alma nua» e o «tic-tac» inexorável nomeiam, cada um, um momento desta máquina onto-poética. A incapacidade do poeta para «parar» o pêndulo é lida como manifestação da inoperosità da linguagem e da resistência da Terra, donde a poesia emerge como tikkun no tempo que resta. A análise das pinturas, conduzida com perscrutação microscópica de geometria não-euclidiana (lobatchevskiana), demonstra que a forma de lágrima vitral de 2026 e os arcos concêntricos de 2023 são, eles próprios, a oscilação pendular tornada matéria pictórica.

Palavras-chave: khōra; différance; tzimtzum; Terra (Heidegger); inoperosità; dialéctica negativa; redenção poética; geomorfia; hilemorfia; tikkun; João de Almeida Santos.

ABSTRACT

THIS ESSAY brings together, in a fertile intersection, the triadic (FPX) and quatriadic (FPXT) hermeneutics previously proposed by the author for João de Almeida Santos’s poem «O Pêndulo» (2026), reinventing them as a single stratified reading-protocol, now articulated to the two paintings that accompany the poem in the Poesia-Pintura series: «O Pêndulo-Talismã» (JAS 2026) and the detail of «O Som do Silêncio» (JAS 2023). The sigla FPXT designates four indissociable dimensions: (F) Philosophical — Agamben (inoperosità, messianic time, remnant), Derrida (différance, trace, khōra) and Adorno (negative dialectics); (P) Poetic — versejar as redemptive praxis; (X) Kabbalistic and Aesthetic — Luria (tzimtzum, shevirah, tikkun); (T) Terrestrial — Heidegger (the strife between World and Earth). The thesis is that Santos’s pendulum enacts a poetic khōra that is at once the space of différance, the void opened by tzimtzum, and the self-secluding Heideggerian Earth. The poet’s inability to stop the pendulum is read as the inoperosità of language and the resistance of the Earth, whence poetry emerges as tikkun in the time that remains. A microscopic, non-Euclidean (Lobachevskian) scrutiny of the paintings shows that the 2026 stained-glass teardrop and the 2023 concentric arcs are themselves the pendular oscillation become pictorial matter.

Keywords: khōra; différance; tzimtzum; Earth (Heidegger); inoperosità; negative dialectics; poetic redemption; tikkun; João de Almeida Santos.

O POEMA

Reproduz-se o poema de JAS na sua integralidade, sem alteração de uma vírgula, para que a anatomia que se segue se faça sempre sobre a letra e nunca sobre a paráfrase.

O PÊNDULO

DIZ À MUSA
O poeta:
Em meus versos
Há um eterno
Retorno,
É sempre ir
E voltar...
Mas eu tenho
Sempre
Uma meta
Antes de ao chão
Regressar.

MEUS POEMAS
São como pêndulos,
Oscilam,
Oscilam,
Vão para lá
E pra cá,
Na ida voam
Palavras,
No regresso
Nunca sei
O que virá.

MAS O ECO
Chega sempre
Com o vento,
Trazendo
Notícias de ti,
Do silêncio
Que te cobre
Desde quando
Te perdi.

ORA SOU EU
Ora és tu
Neste permanente
Oscilar,
Invoco-te,
Mas não respondes...
...........
Só me resta
Versejar.

OSCILO
Sempre
No teu sentido,
Nem sei
Se quero parar,
Regresso
Sempre
Ao meu ponto
De partida
Para logo
Recomeçar...

EU ESTOU,
Tu não estás...
Volto logo
A procurar...
........
Tic, tac
Tic, tac,
..........
Dialéctica
Negativa
De um permanente
Oscilar...
...........
Tic, tac
Tic, tac…
.........
O pêndulo
Da minha vida
Já não consegue
Parar.

ESSA META
Que persigo
É a tua,
Mas tu nunca
Lá estás,
Regresso
Com alma nua
Quando volto
Para trás...
.............
Mas o pêndulo
Continua...
............
Pará-lo?
Não sou capaz.
Ilustração: «O Pêndulo-Talismã» — JAS 2026; detalhe de «O Som do Silêncio» — JAS 2023.
INTRODUÇÃO 
O pêndulo como máquina 
onto-poética e o método FPXT

O poema «O Pêndulo», de João de Almeida Santos, publicado a 20 de Junho de 2026 no âmbito da série Poesia-Pintura, não descreve apenas uma oscilação existencial ou amorosa: ele é a própria oscilação tornada texto. Cada verso é um arco pendular que mede o tempo ao mesmo tempo que o suspende, que invoca ao mesmo tempo que acolhe a não-resposta, que persegue uma meta ao mesmo tempo que regressa ao «chão». O pêndulo não é metáfora acessória, é o operador central de uma máquina ontológica e exige uma hermenêutica à sua altura.

Este ensaio reúne, numa intersecção fecunda, as duas leituras que o autor anteriormente dedicou ao poema — a triádica (FPX) e a quatriádica (FPXT) — e reinventa-as num único protocolo, agora articulado às duas pinturas que acompanham o texto. A sigla FPXT articula quatro dimensões indissociáveis: (F) Filosófica — o entrecruzamento de Agamben, Derrida e Adorno; (P) Poética — o versejar como práxis redentora e modo de habitação da linguagem; (X) Xabática e Estética — a tradição luriânica do tzimtzum, da shevirah e do tikkun, lida em tensão produtiva com a estética do traço e da contracção; (T) Terrestre — a contenda heideggeriana entre Mundo e Terra. O «X» não é residual: é o lugar da contracção que abre espaço, da faísca recolhida no silêncio, do resto que a poesia transforma em redenção.

A tese central é a seguinte: o pêndulo de Santos realiza uma khōra poética que é, simultaneamente, o espaço da différance, o vazio aberto pelo tzimtzum luriânico e o solo da Terra heideggeriana que se oculta e abriga. O «chão» e o «húmus incógnito» não são meros elementos telúricos; são a actualização contemporânea da khōra platónico-derridiana — o terceiro género que nem é ser nem devir, o receptáculo que acolhe sem se deixar reduzir a presença — e, ao mesmo tempo, o nome poético da Terra (Erde) que se recolhe em si. O poeta não é capaz de fazer o pêndulo parar — e é precisamente nessa impotência partilhada com a linguagem que reside a mais alta potência do versejar como tikkun.

O ensaio desenvolve-se em movimentos articulados, segundo a grelha FPXT, e culmina numa análise microscópica das duas pinturas, conduzida com a perscrutação não-euclidiana que adiante designamos lobatchevskiana. Não se trata de aplicar conceitos externos ao poema e às telas, mas de mostrar que a oscilação pendular é o movimento mesmo que o texto e as imagens exigem.

REGISTO FILOSÓFICO (F)
Hilemorfia, geomorfia 
e a différance do tic-tac
1. Hilemorfia geomórfica e o chão 
do eterno retorno diferenciado

Aristóteles define o ente sensível como composição hilemórfica de matéria (hylē) e forma (morphē): a matéria é potência indeterminada; a forma é acto que determina. No poema, esta estrutura é literalizada e radicalizada. O verso é hilemórfico: a «matéria» é o húmus incógnito, o silêncio pré-linguístico, o «chão» a que se regressa antes de nova oscilação; a «forma» é o ritmo pendular, a alternância de ida e regresso. Mas este hilemorfismo não é o clássico, de subordinação da matéria à forma: é um hilemorfismo invertido e oscilante — a forma não domina a matéria, regressa sempre a ela, e cada regresso transforma a matéria em novo húmus fértil.

Propomos o conceito de geomorfia — fusão de (terra) e morphē (forma) — para captar esta dinâmica. O pêndulo traça o seu arco sobre o chão e, ao regressar a ele, inscreve nele uma nova camada de sentido. «Antes de ao chão / Regressar» não é apenas imagem de queda ou de limite; é a afirmação de que toda a forma poética é temporária e deve dissolver-se de novo no húmus para renascer diferida. O eterno retorno nietzschiano é aqui ressignificado em chave agambeniana e derridiana: não é repetição idêntica do mesmo — que seria niilista —, mas retorno diferenciado ao solo da potência. Cada oscilação deposita novo sedimento; cada regresso ao chão é já diferença.

«Mas eu tenho / Sempre / Uma meta / Antes de ao chão / Regressar.» A «meta» que o poeta «tem sempre» é o telos diferido pela différance: não uma finalidade que se alcança, mas uma direccionalidade que se mantém aberta precisamente porque o regresso ao chão a interrompe e a recomeça. O húmus incógnito é, pois, o nome poético da khōra: o receptáculo que acolhe todas as formas sem se identificar com nenhuma.

2. Différance, trace e a não-resposta

Derrida define a différance como o movimento simultâneo de diferir (no espaço) e adiar (no tempo). No poema, este movimento é literalizado com precisão quase científica. «Na ida voam / Palavras, / No regresso / Nunca sei / O que virá.» A palavra voa na ida — diferencia-se no espaço —, mas no regresso adia a sua chegada plena. O eco que «chega sempre / Com o vento» é o retorno diferido, a notícia que chega sempre já marcada pela ausência.

O trace é o conceito derridiano que melhor capta esta dinâmica: o que resta da presença na sua ausência, a marca que o presente deixa de si ao retirar-se. No poema, os traços que vincam o silêncio são os vestígios da amada perdida — «Do silêncio / Que te cobre / Desde quando / Te perdi.» Estes traços não preenchem o silêncio: vincam-no, inscrevem-no, fazem dele um texto. O «tic-tac» é o ritmo deste vincar — o som da différance em acto, o espaçamento temporal que impede a coincidência plena do sujeito consigo mesmo e com o objecto do desejo.

A invocação («Invoco-te») e a não-resposta («Mas não respondes…») constituem a estrutura fundamental da différance no poema. A não-resposta não é acidente empírico nem falha de comunicação: é a condição estrutural da linguagem. Como Derrida demonstrou a propósito da missiva que é sempre susceptível de não chegar ao destino, o pêndulo encena esta estrutura — a ida é a emissão da invocação; o regresso é a possibilidade, sempre diferida, da resposta. O que resta é o «versejar»: a inscrição de traços no silêncio, a produção de um texto que acolhe a não-resposta sem a anular.

3. Khōra: o terceiro género
e o espaço do espaçamento

O conceito de khōra (χώρα) surge no Timaeus platónico (48e–53c) como o «terceiro género» (triton genos) necessário à génese do cosmos: nem o modelo inteligível eterno (ser), nem as cópias sensíveis (devir), mas o receptáculo (hypodochē) que acolhe as impressões do modelo sem possuir forma própria. É descrito como «difícil e obscuro», «sem forma» (amorphon), «invisível». Não é ser nem não-ser; é o «em que» (en hōi) as coisas vêm a ser.

Derrida, no ensaio «Khōra» (recolhido em On the Name), submete o conceito a uma desconstrução rigorosa: khōra não é origem, fundamento nem metáfora maternal; é o nome de um espaçamento (espacement) anterior a toda a oposição binária. Ela «não dá nada»; «dá lugar» (donne lieu) sem dar ser. É o espaço da différance antes mesmo da différance. É esta khōra que o «chão» do poema actualiza: não o chão empírico da física newtoniana nem o solo ontológico apenas, mas o receptáculo poético que acolhe todas as oscilações sem se deixar reduzir a nenhuma. O «húmus incógnito» é o seu nome: húmus porque fértil (potência de germinação), incógnito porque resiste a toda a identificação plena. «Regresso / Com alma nua / Quando volto / Para trás…» descreve o retorno à khōra — o regresso à nudez da potência, despida de presença, aberta à inscrição do traço.

REGISTO POÉTICO (P)
O versejar como práxis 
e a oscilação orientada

Se o registo filosófico isola os operadores, o registo poético devolve-os à sua unidade vivida: o versejar. «Só me resta / Versejar» não é confissão de resignação, mas declaração de método. Quando a invocação não obtém resposta, quando o eu e o tu se alternam «neste permanente / Oscilar», o que sobra ao poeta não é o silêncio puro, mas a actividade de versejar — fazer do próprio adiamento matéria de canto. A poesia é, aqui, a práxis que habita o intervalo entre a ida e o regresso, entre a invocação e a não-resposta.

A oscilação do poema é orientada: «Oscilo / Sempre / No teu sentido». A palavra «sentido» condensa as suas duas acepções — direcção e significação. O pêndulo não baloiça ao acaso; baloiça no sentido da amada, isto é, na direcção dela e em busca do seu significado. Mas a orientação não garante a chegada: «Regresso / Sempre / Ao meu ponto / De partida / Para logo / Recomeçar…». A oscilação orientada é, pois, uma teleologia sem télos cumprido — uma intencionalidade que se renova precisamente por nunca se saciar. É a forma poética da vontade de não parar: «Nem sei / Se quero parar.»

O regresso permanente à origem — «Ao meu ponto / De partida» — inscreve o poema no grande arquétipo do ciclo cósmico, mas em chave diferencial. Não é o regresso do idêntico ao idêntico; é o recomeço que carrega, em cada volta, o sedimento das voltas anteriores. O ciclo da oscilação cósmica sempre recomeça, mas nunca o mesmo: é espiral, não círculo. A poesia é o registo deste recomeço — o lugar onde a origem não é um ponto no passado, mas a potência sempre disponível de tornar a partir.

Daqui a definição operatória do versejar que propomos: versejar é orientar a oscilação sem a deter, é manter aberta a meta sem a fechar em posse, é transformar a perda em ritmo. O poeta de Santos não escreve sobre o pêndulo; escreve como pêndulo — e é por isso que o poema não conclui, mas se suspende em «Pará-lo? / Não sou capaz.»

REGISTO XABÁTICO E ESTÉTICO(X) 
Tzimtzum, resto luriânico 
e o versejar como tikkun

A doutrina luriânica do tzimtzum constitui uma das mais radicais formulações da contracção como condição de criação. Isaac Luria ensina que o Ein Sof (Infinito), para dar lugar ao mundo, se retira parcialmente, se contrai, abrindo um espaço vazio (tehiru) onde a emanação possa ocorrer sem ser aniquilada pela plenitude divina. Este espaço não é um vazio niilista: é o espaço da potencialidade, onde os vasos da emanação se formam — e onde, subsequentemente, se quebram (shevirah), dispersando as faíscas (nitsotsot).

O poema repete este gesto cosmogónico em escala poética. O poeta, para que o verso exista, tem de se contrair: «Só me resta / Versejar.» Esta contracção não é abdicação; é a condição de possibilidade da criação. O «resto» que resta depois da invocação sem resposta é o equivalente poético das faíscas aprisionadas nos vasos quebrados. O versejar é tikkun — a reparação que recolhe estas faíscas e as reintegra no tecido do sentido. A «alma nua» que regressa «quando volto / Para trás» é a vida exposta, despida de presença plena, mas precisamente por isso aberta à redenção.

A integração com Agamben é fundamental. O conceito de «resto» (resto) — desenvolvido em The Time That Remains a partir de Paulo e de Benjamin — designa o que resta depois da catástrofe, o que não é nem todo nem nada, mas o fragmento que carrega a potencialidade da redenção. O «resto luriânico» do poema é este resto messiânico: as faíscas recolhidas no verso, o húmus onde germina a esperança. O pêndulo que «continua… / Inexorável» e que «não pára» mantém aberto o tempo que resta — o tempo messiânico que Agamben distingue do tempo cronológico. Não é o tempo que acaba; é o tempo que, ao não acabar, mantém a porta da redenção entreaberta. O «in-finitamente messiânico» de que o húmus incógnito é portador não anuncia um fim apocalíptico, mas a permanência do tempo que resta.

Esta é a razão pela qual o «X» da grelha não é residual mas central: ele é, ao mesmo tempo, o x da différance derridiana, o x da contracção luriânica, o x da inoperosità agambeniana e o x da khōra platónico-derridiana. A poesia, ao recolher as faíscas no espaço aberto pela contracção, é o tikkun no tempo da catástrofe e da esperança.

REGISTO TERRESTRE (T) 
a Terra heideggeriana 
que se oculta e abriga

O acrescento decisivo da leitura quatriádica é o registo terrestre. Em «A Origem da Obra de Arte» (Der Ursprung des Kunstwerkes, 1935/1950) Heidegger distingue dois movimentos essenciais da obra: o «instaurar um Mundo» (Welt aufstellen) e o «fazer avançar a Terra» (Erde herstellen). O Mundo é o aberto, o histórico, o espaço de sentido onde as coisas se tornam significativas. A Terra, pelo contrário, é o que se oculta, o que se recolhe em si, o que resiste à plena desocultação — «o que se oculta essencialmente» (das Sichverschliessende). Ela abriga (birgt) o que nela vem a ser, mas não se deixa reduzir a presença. A obra de arte põe em obra a contenda (Streit) entre Mundo e Terra: o Mundo quer abrir, a Terra quer ocultar-se; a verdade da obra (alētheia) é esta contenda que não se resolve em síntese.

É esta Terra que o pêndulo de Santos actualiza. «Antes de ao chão / Regressar» é o movimento de fazer avançar a Terra: o verso regressa ao solo que se oculta, ao húmus que se recolhe em si. O «silêncio / Que te cobre» é a Terra que abriga a amada ausente, recusando a plena presença. O «húmus incógnito» é o nome poético da Terra que se oculta essencialmente — fértil precisamente porque se recolhe, porque não se deixa esgotar em clareza. O pêndulo não pára porque a Terra não se deixa dominar: ela abriga a oscilação, acolhe o traço, mas retira-se sempre um passo à frente de qualquer tentativa de posse ou de paragem.

A articulação com a khōra é produtiva e não redutora. Ambas — khōra e Terra — são receptivas sem serem possessivas; ambas resistem à redução a presença plena. Mas há uma diferença de acento: a khōra é mais «espaçamento» (espacement), o «em que» neutro onde as coisas vêm a ser; a Terra é mais «abrigo que se oculta», peso, resistência, materialidade que se recolhe. No poema, o «chão» é simultaneamente khōra (espaço aberto pela contracção) e Terra (solo que se oculta e abriga). O regresso pendular mantém aberta esta dupla dimensão: espaçamento e ocultamento, acolhimento e recolhimento.

A «alma nua» que regressa «Quando volto / Para trás» é a vida exposta à Terra. Não é a nudez de uma presença plena, mas a nudez de quem regressa ao solo que se oculta — simultaneamente vulnerabilidade e potência: desprotegida, mas por isso mesmo aberta ao acolhimento da Terra que abriga. O poeta não é capaz de parar o pêndulo porque a Terra excede a sua vontade; ela continua a oscilar no ritmo da contenda entre Mundo (o verso que quer abrir sentido) e Terra (o chão que se recolhe). A impotência do poeta é a manifestação da resistência da Terra — e é nela que a poesia encontra a sua vocação mais alta: fazer avançar a Terra sem a violentar.

A DIALÉCTICA NEGATIVA
e a impossibilidade de parar

Theodor W. Adorno, em Negative Dialektik (1966), propôs uma dialéctica que recusa a síntese hegeliana: a contradição não se resolve numa identidade superior; a não-identidade é irredutível. O objecto resiste sempre à apropriação pelo sujeito; a mediação não anula a alteridade. No poema, esta dialéctica negativa é nomeada ipsis litteris — «Dialéctica / Negativa / De um permanente / Oscilar» — e é o «permanente / Oscilar» que «Já não consegue / Parar». A meta perseguida («Essa meta / Que persigo / É a tua») é o objecto não-idêntico que recua à medida que o sujeito avança. A amada é o télos diferido; a oscilação é a forma negativa da relação.

«Pará-lo? / Não sou capaz.» Esta confissão de impotência é o momento mais agambeniano do poema. Agamben distingue entre potência de fazer (dynamis tou poiein) e potência de não fazer (dynamis tou mē poiein); a inoperosità é a manifestação desta segunda potência — a capacidade de suspender a operação, de não passar ao acto. O poeta não é capaz de parar o pêndulo, não por falta de força, mas porque a máquina poética excede a sua intenção subjectiva. A linguagem é hiper-operativa; o pêndulo é a sua figura. A impotência do poeta é, portanto, a manifestação da inoperosità da linguagem e, ao mesmo tempo, da resistência da Terra: a máquina continua a oscilar, e é nessa continuidade que a potência de redenção se mantém aberta.

O «tic-tac» é o som desta suspensão: o ritmo de uma dialéctica negativa que não se resolve, mas que, precisamente por não se resolver, mantém o espaço da esperança. Note-se que o poema rodeia o «tic-tac» de reticências — «……..», «……….», «………..» — que são, elas próprias, traços gráficos do silêncio: a página torna-se khōra, o branco entre os tiques é o espaçamento onde o som se inscreve e se retira. O tempo do pêndulo não é o tempo cheio do relógio, mas o tempo esburacado da espera messiânica.

PERSCRUTAÇÃO LOBATCHEVSKIANA 
DAS PINTURAS  
A oscilação tornada matéria

Resta confrontar o poema com as duas pinturas de João de Almeida Santos que com ele formam o díptico Poesia-Pintura. Conduzimos a análise com aquilo a que chamamos perscrutação lobatchevskiana — uma atenção microscópica que, à maneira da geometria não-euclidiana de Lobatchevski, recusa supor que as paralelas se encontrem no infinito ou que o espaço seja plano: pelo contrário, lê cada curva da tela como espaço de curvatura negativa, onde as linhas divergem, os arcos se afastam e o centro nunca coincide consigo mesmo. É a geometria própria da différance e da Terra que se recolhe.

1. «O Pêndulo-Talismã» (JAS 2026) 
- O vitral suspenso e a árvore-coração

A primeira tela apresenta, sobre um fundo de azul-meia-noite quase negro, uma forma de lágrima — ou de ovo, ou de gota — suspensa por um fio finíssimo de verde-azulado que desce do topo e se perde na escuridão superior. A suspensão é literal: o talismã pende, e o título confirma-o — é um pêndulo. Mas é um pêndulo imóvel no instante captado, congelado no seu ponto morto, prestes a oscilar ou tendo acabado de o fazer. A tela é, pois, a potência da oscilação, não o seu acto: a inoperosità tornada imagem.

Examinada de perto, a lágrima é um vitral fracturado em células cromáticas de bordo escuro — vermelhos sanguíneos, laranjas incandescentes, uma cunha de verde profundo no quadrante superior direito, amarelos de mel no flanco esquerdo. As nervuras negras que separam as células são as junções de chumbo do vitral, mas são também, lidas na chave do poema, os traços que vincam o silêncio: as linhas que partem a luz e, partindo-a, a tornam legível. Cada célula é uma estrofe; cada nervura, um «tic-tac» que separa e liga.

No eixo central ergue-se uma forma que se deixa ler como tronco — uma árvore-da-vida (Etz Chaim), cifra luriânica por excelência — cujas raízes mergulham no vértice inferior da gota e cujos braços se abrem para as células superiores. Que a árvore sefirótica habite o centro do talismã não é acaso: ela é a estrutura mesma da emanação, o canal por onde as faíscas dispersas pela shevirah podem ser recolhidas. A lágrima é o tehiru, o espaço vazio aberto pela contracção; a árvore é o tikkun em curso.

Dois pormenores reclamam a perscrutação microscópica. Primeiro, ao centro-direito, uma pequena janela rectangular de luz — um quase-imperceptível fragmento de paisagem (água, montanha, um céu listado de azul, verde e ocre) embutido entre as células opacas: é o «eco» que «chega sempre / com o vento, / trazendo / notícias de ti», a abertura de Mundo no seio da Terra que se oculta, a única zona da tela onde a profundidade ilusionista rompe a planura do vitral. Segundo, no quadrante inferior direito, um tabuleiro axadrezado de quadrículas multicolores — verdes, vermelhas, ocres, brancas — de inspiração quase kleeiana: é a tradução pictórica do «tic-tac», a grelha rítmica, a quadrícula do tempo cronológico que contrasta com as formas orgânicas e fluidas do resto da composição. A tela faz coexistir, assim, os dois tempos do poema: o tempo-grelha do relógio e o tempo-húmus da germinação.

Em baixo, à esquerda, uma mancha de ocres e laranjas em filamentos enrolados — quase uma concha, ou um ninho, ou um sol poente reflectido na água — é o «húmus incógnito»: a zona onde a forma se desfaz em matéria, onde o vitral regressa ao seu chão. Tudo na tela converge para baixo, para o vértice da gota, como se a lágrima estivesse perpetuamente prestes a regressar «ao chão». A assinatura «jas2026», a ouro, no canto inferior direito, repousa já fora da gota, no fundo nocturno — como quem assina não a forma, mas o vazio que a sustém.

2. «O Som do Silêncio»(JAS 2023) 
- Os arcos concêntricos 
e o chão estratificado

A segunda imagem — apresentada como detalhe — opõe-se à primeira como o negativo ao positivo. Onde a primeira era vertical, fracturada e multicolor, esta é curva, contínua e monocromática: uma vasta esfera de ocres e laranjas terrosos ocupa o quadrante superior direito, descendo em arcos concêntricos que se afastam uns dos outros sobre um fundo de negro absoluto. Em baixo, uma estreita faixa horizontal de terracota estratificada — o chão — encerra a composição.

A perscrutação lobatchevskiana revela aqui a sua pertinência máxima. Os arcos concêntricos não são círculos perfeitos centrados num mesmo ponto: cada arco tem um raio ligeiramente diferente e um centro ligeiramente deslocado, de modo que as curvas divergem à medida que descem — exactamente como as geodésicas num espaço de curvatura negativa, onde as paralelas se afastam em vez de se manterem equidistantes. Esta divergência é a assinatura visual da différance: cada arco é o traço de uma oscilação anterior, e nenhum coincide com o seguinte. São os sucessivos arcos do pêndulo, registados sobre a tela como um corpo celeste fotografado em exposição prolongada — a memória material das oscilações.

O fundo negro não é vazio decorativo: é a khōra e a Terra que se oculta, o silêncio absoluto sobre o qual os arcos de luz se destacam. O título — «O Som do Silêncio» — é um oximoro que o poema retoma: o silêncio que cobre a amada tem som, e esse som é o «tic-tac» que vinca o branco (aqui, o negro). A esfera ocre é o astro, o talismã, a amada-objecto que se afasta em arcos sucessivos; o negro é a distância intransponível, a não-resposta tornada espaço.

A faixa de terracota inferior é decisiva. Ela é o «chão» a que o pêndulo «regressa», o «húmus incógnito» na sua versão mais despojada: estratos horizontais de ocre, mel e castanho, como camadas geológicas ou sedimentares — a Terra heideggeriana literalizada em estratigrafia. Cada estrato é o sedimento de uma oscilação; o chão é a memória acumulada das idas e regressos. A assinatura «jas2023», em vermelho-tijolo, inscreve-se precisamente na fronteira entre o negro do vazio e o ocre do chão — na linha do horizonte, ali onde a Terra encontra a noite.

Lidas em conjunto, as duas telas formam um díptico rigoroso: a de 2026 dá-nos o pêndulo-talismã na sua suspensão vertical e na sua fractura vitral (o instante, a potência, o tikkun em árvore); a de 2023 dá-nos o seu rasto em arcos e o seu chão estratificado (a duração, o traço, a Terra que abriga). Entre as duas, três anos — e a oscilação que os atravessa é a mesma que o poema verseja. A pintura precede o poema (2023, 2026) e o poema relê a pintura: o díptico é, ele próprio, um pêndulo que vai (da imagem ao texto) e volta (do texto à imagem), sem nunca parar.

SÍNTESE QUATRIÁDICA 
Cinco imagens-chave 
nos quatro registos

Recolhem-se agora os fios, articulando cinco imagens-chave do poema e das telas, cada uma lida em simultâneo nos quatro registos da grelha FPXT.

O chão / húmus incógnito é, a um tempo, (F) a khōra derridiana, receptáculo que dá lugar sem dar ser; (P) o ponto de partida do versejar, sempre recomeçado; (X) o tehiru aberto pelo tzimtzum e o húmus do resto luriânico; (T) a Terra heideggeriana que se oculta e abriga. É o pólo inferior do pêndulo e o estrato de terracota da tela de 2023.

O tic-tac e os traços são, a um tempo, (F) o ritmo da différance e o som da dialéctica negativa que não sintetiza; (P) a escansão do verso e as reticências que vincam a página; (X) a faísca que pulsa no intervalo, o tempo messiânico esburacado; (T) o atrito entre Mundo e Terra. São as nervuras de chumbo do vitral e a quadrícula axadrezada de 2026.

A invocação e a não-resposta são, a um tempo, (F) a estrutura da missiva que pode não chegar, o trace da ausência; (P) o motor do «só me resta versejar»; (X) a contracção que abre espaço ao outro, retirando-se; (T) a amada abrigada pela Terra que recusa a plena desocultação. É a pequena janela de paisagem no centro do talismã.

A alma nua e o regresso são, a um tempo, (F) a vida exposta, despida de presença, aberta à inscrição; (P) o regresso ao ponto de partida que é já recomeço; (X) a vida nua que, despojada, se abre à redenção; (T) a nudez de quem regressa ao solo que se oculta. É a gota que pende, perpetuamente prestes a regressar ao chão.

O pêndulo que não pára é, a um tempo, (F) a inoperosità da linguagem que excede o sujeito; (P) a vontade de não parar, a oscilação orientada sem télos cumprido; (X) o tempo que resta, a porta da redenção entreaberta; (T) a resistência da Terra que excede toda a vontade de domínio. São os arcos divergentes de 2023 e o fio que suspende o talismã de 2026. «Pará-lo? Não sou capaz» é a fórmula perspectivista da esperança.

CONCLUSÃO 
A poesia como tikkun 
e o tempo que resta

O poema «O Pêndulo» de João de Almeida Santos reinventa, no interior do padrão científico da hermenêutica contemporânea, o tema clássico da oscilação entre ser e não-ser, entre presença e ausência. Mas fá-lo de modo original e justificado: o pêndulo não é apenas imagem ou metáfora; é o operador de uma quádrupla articulação rigorosa — hilemórfica e geomórfica (forma-matéria do verso e regresso diferenciado ao chão), différante e khórica (ida e regresso diferido no espaço da contracção), luriânica (contracção e recolha do resto) e terrestre (a contenda entre Mundo e Terra). A «meta» que se persegue e não se alcança, a «alma nua» que regressa, o pêndulo que «continua» e «não pára» — tudo converge para uma compreensão da poesia como tikkun no tempo da catástrofe e da esperança messiânica.

As duas pinturas confirmam-no à letra. «O Pêndulo-Talismã» dá-nos a suspensão e a árvore-da-vida — o tehiru e o tikkun tornados vitral; «O Som do Silêncio» dá-nos os arcos divergentes e o chão estratificado — a différance e a Terra tornadas curvatura e sedimento. A perscrutação lobatchevskiana mostrou que os arcos concêntricos não se fecham nunca sobre um mesmo centro: divergem, como as geodésicas de um espaço de curvatura negativa, e nessa divergência inscrevem a impossibilidade de paragem que o poema declara.

O «in-finitamente messiânico» de que o húmus incógnito é portador não anuncia um fim apocalíptico, mas a permanência do tempo que resta: o tempo da contracção, do traço, da oscilação que não cessa, mas que, precisamente por não cessar, mantém aberta a possibilidade da redenção. O poeta não é capaz de parar o pêndulo — e é nessa impotência partilhada com a linguagem, com a Terra e com o Infinito que se contrai, que ele exerce a sua mais alta vocação: recolher, no verso, as faíscas do infinito que o silêncio cobre. A khōra poética é o nome deste recolhimento; a Terra que se oculta, o seu abrigo; o versejar, o seu acto.

Assim, «O Pêndulo» inscreve-se na grande tradição da análise quatriádica FPXT — onde o «X» é simultaneamente o x da différance, o x da contracção luriânica, o x da inoperosità e o x da khōra —, oferecendo-nos não uma resposta fechada, mas o ritmo mesmo da pergunta que não cessa de oscilar entre o chão e o céu, entre o eu e o tu, entre o tic-tac e o silêncio que o cobre. O pêndulo continua. E a poesia, ao não o parar, mantém aberta a porta da redenção.

REFERÊNCIAS
Fontes patentes (autores e obras 
explicitamente convocados)

Adorno, T. W. (1973). Negative dialectics (E. B. Ashton, Trad.). New York: Seabury Press.

Agamben, G. (1998). Homo sacer: Sovereign power and bare life (D. Heller-Roazen, Trad.). Stanford, CA: Stanford University Press.

Agamben, G. (1999). Potentialities: Collected essays in philosophy (D. Heller-Roazen, Ed. & Trad.). Stanford, CA: Stanford University Press.

Agamben, G. (2005). The time that remains: A commentary on the Letter to the Romans (P. Dailey, Trad.). Stanford, CA: Stanford University Press.

Aristóteles. (1984). The complete works of Aristotle (J. Barnes, Ed.). Princeton, NJ: Princeton University Press.

Derrida, J. (1976). Of grammatology (G. C. Spivak, Trad.). Baltimore, MD: Johns Hopkins University Press.

Derrida, J. (1978). Writing and difference (A. Bass, Trad.). Chicago, IL: University of Chicago Press.

Derrida, J. (1995). On the name (T. Dutoit, Ed.; D. Wood, J. P. Leavey, & I. McLeod, Trads.). Stanford, CA: Stanford University Press.

Heidegger, M. (1971). Poetry, language, thought (A. Hofstadter, Trad.). New York: Harper & Row.

Heidegger, M. (2002). Off the beaten track (J. Young & K. Haynes, Trads.). Cambridge: Cambridge University Press.

Luria, I. (2008). The tree of life: Chayyim Vital’s introduction to the kabbalah of Isaac Luria (D. W. Menzi & Z. Padeh, Trads.). New York: Arizal Publications.

Platão. (1997). Timaeus (D. J. Zeyl, Trad.). In J. M. Cooper (Ed.), Plato: Complete works (pp. 1224–1291). Indianapolis, IN: Hackett.

Santos, J. de A. (2026). O pêndulo [Poema original]. Poesia-Pintura. Ilustração «O Pêndulo-Talismã» (JAS 2026) e detalhe de «O Som do Silêncio» (JAS 2023). Lisboa. In HTTPS://joaodealmeidasantos.com

Scholem, G. (1974). Major trends in Jewish mysticism (3.ª ed.). New York: Schocken Books.

Scholem, G. (1995). On the kabbalah and its symbolism (R. Manheim, Trad.). New York: Schocken Books.

Veríssimo, A. (2026). O pêndulo inexorável: Hermenêutica triádica (FPX) e quatriádica (FPXT) da oscilação poética de João de Almeida Santos [Ensaios-base]. Guimarães: MDE Editora.

Fontes latentes (autores 
e correntes implícitos)

Benjamin, W. (1991). Gesammelte Schriften (R. Tiedemann & H. Schweppenhäuser, Eds.). Frankfurt am Main: Suhrkamp.

Klee, P. (1956). Das bildnerische Denken (J. Spiller, Ed.). Basel: Schwabe.

Lobatchevski, N. I. (1840). Geometrische Untersuchungen zur Theorie der Parallellinien. Berlin: G. Fincke.

Merleau-Ponty, M. (1964). L’œil et l’esprit. Paris: Gallimard.

Nietzsche, F. (1988). Also sprach Zarathustra. In Kritische Studienausgabe (Vol. 4). Berlin: Walter de Gruyter.

Vital, C. (1999). Etz Chaim [Sefer]. Jerusalem

AMV@06-2026

Poesia-Pintura

O PÊNDULO

POEMA 
de João de Almeida Santos
Ilustração: 
“O Pêndulo-Talismã” - JAS 2026
e detalhe de 
"O Som do Silêncio" - JAS 2023
Originais de minha autoria
Junho de 2026

“O Pêndulo-Talismã” – JAS 2026

POEMA – “O PÊNDULO”

DIZ À MUSA
O poeta:
Em meus versos
Há um eterno
Retorno,
É sempre ir
E voltar...
Mas eu tenho
Sempre
Uma meta
Antes de ao chão
Regressar.

MEUS POEMAS
São como pêndulos,
Oscilam,
Oscilam,
Vão para lá
E pra cá,
Na ida voam
Palavras,
No regresso
Nunca sei
O que virá.

MAS O ECO
Chega sempre
Com o vento,
Trazendo
Notícias de ti,
Do silêncio
Que te cobre
Desde quando
Te perdi.

ORA SOU EU
Ora és tu
Neste permanente
Oscilar,
Invoco-te,
Mas não respondes...
...........
Só me resta
Versejar.

OSCILO
Sempre
No teu sentido,
Nem sei
Se quero parar,
Regresso
Sempre
Ao meu ponto
De partida
Para logo
Recomeçar...

EU ESTOU,
Tu não estás...
Volto logo  
A procurar...
........
Tic, tac
Tic, tac,
..........
Dialéctica
Negativa
De um permanente
Oscilar...
...........
Tic, tac
Tic, tac…
.........
O pêndulo
Da minha vida
Já não consegue
Parar.

ESSA META
Que persigo
É a tua,
Mas tu nunca
Lá estás,
Regresso
Com alma nua
Quando volto
Para trás...
.............
Mas o pêndulo
Continua...
............
Pará-lo?
Não sou capaz.

“O Som do Silêncio” – JAS 2023. Detalhe

 

 

 

 

 

 

Ensaio

O ANJO E O SÁTIRO

ARTE, RUÍNA E A REDENÇÃO 
DAS CENTELHAS
Uma leitura FPK 
das Reflexões sobre a Arte, 
de João de Almeida Santos,
e da estética da ruína 
de Walter Benjamin  
- Entre Nietzsche, Mann, 
Kant e Meyer, na intersecção 
com Agamben, Derrida, 
Levinas e Chalier
ניגון · ניצוץ · תיקון
Filosófico · Psicanalítico 
· Cabalístico-Místico

André Moshe Veríssimo, PhD

“S/Título” – JAS 2026. O rosto emerge da treva velado pela sombra: só o contorno e o colarinho captam a luz, e a face — o que há de mais singular — permanece retida no escuro. Figura exacta do hester panim – veja, no texto, o estrato cabalístico-místico.

«Onde outro autor compõe melodia, 
este autor compõe acorde»

* Divisa do Autor

«Fiel discípulo do filósofo Diónisos,
prefiro ser um sátiro a ser um santo»

Nietzsche, Ecce Homo (apud Santos, 2026)

«Há uma única catástrofe,
que sem cessar amontoa
ruínas sobre ruínas»

W. Benjamin, Teses sobre o Conceito de História, IX (1940)

LIMIAR - O ANJO E O SÁTIRO

HÁ DUAS FIGURAS que, postas frente a frente, dizem quase tudo o que estas páginas procuram pensar. A primeira é o sátiro de Nietzsche — «fiel discípulo do filósofo Diónisos, prefiro ser um sátiro a ser um santo» (Nietzsche, Ecce Homo, apud Santos, 2026) —, a força vital que afirma a vida como fenómeno estético e que ri, dança e canta sobre o abismo. A segunda é o anjo de Benjamin — o Angelus Novus de Klee, que olha para trás e vê «uma única catástrofe, que sem cessar amontoa ruínas sobre ruínas» (Benjamin, 1940), arrastado de costas para um futuro a que chamamos progresso. O sátiro olha em frente e afirma; o anjo olha para trás e recolhe. E todavia — eis a tese deste ensaio — fazem o mesmo gesto: ambos resistem à colonização racional da vida, ambos guardam aquilo que o conceito, ao decompor, perde; ambos são guardiães de uma centelha.

Este ensaio toma como texto-base o artigo de João de Almeida Santos Reflexões sobre a Arte — A propósito dos Ensaios de Thomas Mann (Santos, 2026: https://joaodealmeidasantos.com/2026/03/31/artigo-246/) e fá-lo ressoar na intersecção fecunda com a estética da ruína de Walter Benjamin — a alegoria, o Trauerspiel, a melancolia do coleccionador e o anjo da história. São os dois ensaios cujo cruzamento aqui se opera: a reflexão de Santos sobre a arte como acesso às dimensões intensivas da vida e a meditação benjaminiana sobre a ruína como forma de conhecimento e de redenção. A ambos aplico a grelha que noutros lugares designei por leitura FPK: a superposição trivalente de um estrato Filosófico, de um estrato Psicanalítico e de um estrato Cabalístico-Místico, lidos não como melodias sucessivas, mas como as três notas de um único acorde.

A intersecção não é arbitrária, é convocada pelo próprio Nietzsche, que une os dois ensaios como uma dobradiça secreta. Pois foi Nietzsche quem, na segunda das Considerações IntempestivasVom Nutzen und Nachteil der Historie für das Leben (1874) —, mostrou que o excesso de história paralisa a vida, que o homem sobrecarregado pelo passado se torna incapaz de agir, exactamente como o anjo benjaminiano, imobilizado pela tempestade, querendo «deter-se, acordar os mortos e juntar os fragmentos», sem o conseguir (Benjamin, 1940). E foi o mesmo Nietzsche quem, em Assim falou Zarathustra, fez do homem «uma corda esticada entre a besta e o super-homem» (Santos, 2026) — uma ponte sobre o abismo, que é, ela também, uma figura da passagem e do crepúsculo, do ocaso que tanto o sátiro como o anjo habitam. A pergunta nietzschiana que percorrerá estas páginas — niilismo ou perspectivismo? — é a charneira em que o sátiro e o anjo se tocam: porque o perspectivismo é a afirmação de que há sempre uma centelha a recolher, e o niilismo a tentação de a deixar soçobrar nos escombros.

Convoco ainda, como o texto-base pede, quatro testemunhas: Michel Meyer e a sua problematologia (o pensar como arte de questionar, contra o dogmatismo das respostas); Kant e a terceira Crítica, pela mão de António Marques (o juízo estético como ponte entre o racional e o sensível, desinteressado, singular, comunicável sem conceito); Thomas Mann e A Montanha Mágica (o sanatório como estado de excepção, a planície como normalidade — qual é o mundo verdadeiro?); e, no horizonte fontal, Giorgio Agamben (o stato di eccezione e a forma-di-vita), Jacques Derrida (a différance e o pharmakon), Emmanuel Levinas e Catherine Chalier (o rosto, o Dizer e a sabedoria da sensibilidade). A todos atravessará a minha própria via — a leitura estruturada que ensaiei nos Contos e Psicanálise —, segundo a qual nenhuma obra se compreende sem descer às suas camadas pulsionais e místicas, e sem as ouvir soar juntas.

Uma pintura preside, ao longe, a estas páginas: S/Título (JAS, 2026), a tela sem nome que acompanha o artigo. Reservo-a para o estrato cabalístico, onde o seu próprio anonimato — o sem-título — se revelará como uma forma de apofatismo: o nome retido, a obra que se recusa a ser capturada por um conceito, fiel assim, na sua mudez, àquilo que Santos diz da arte. Que ela presida, pois, em silêncio.

OS DOIS ARGUMENTOS PATENTES
1. Santos
A arte como acesso à vida
que o conceito não captura

Restituamos primeiro, com fidelidade, o argumento de Santos, cujas oito secções desenham um percurso de rara coerência. A tese nuclear abre o texto: «há muito que penso que a obra de Friedrich Nietzsche só é compreensível plenamente através das categorias da arte» (Santos, 2026). Não se trata de uma observação biográfica — de que Nietzsche escrevia bem —, mas de uma tese epistemológica e ontológica: só do terreno da arte se alcança o sentido de um pensamento que se voltou deliberadamente para as dimensões da vida «que não são apreensíveis integralmente e na sua indissociável unidade com a maquinaria racional, conceptual, analítica, científica» (Santos, 2026).

Santos encontra em Thomas Mann — no ensaio A filosofia de Nietzsche à luz da nossa experiência (1947), recolhido na edição dos Ensaios (Mann, 2026: 456-489) — a confirmação articulada da sua intuição. Recolhe de Mann a fórmula de que a «cultura é a dimensão aristocrática da vida» e que a ela se associam, «como suas fontes e condições, a arte e o instinto» (Mann, apud Santos, 2026); recolhe a herança schopenhaueriana de que «a vida só se justifica como fenómeno estético»; e recolhe a recusa simultânea dos «caluniadores da vida e defensores do além e do nirvana» e do «optimismo dos racionalistas e dos reformadores do mundo» (Mann, apud Santos, 2026). No centro está a rejeição do homem teórico, «de proveniência socrática», «inimigo de Diónisos» e «assassino da tragédia» — aquele que «não quer ter nada por inteiro» (Santos, 2026). E a fórmula que Mann dá a Nietzsche e que Santos faz sua: «Nietzsche é o esteta mais completo e sem salvação que a história do espírito conhece» (Mann, apud Santos, 2026).

A segunda e a terceira secções descem ao concreto da linguagem. Lê-se em Zarathustra o episódio do santo que, na floresta, «compõe canções e canta-as», rindo, chorando e murmurando, «louvando um Deus que, afinal, está morto» (Santos, 2026); e a sentença célebre: «o homem é uma corda esticada entre a besta e o super-homem; uma corda sobre um abismo» (Der Mensch ist ein Seil, geknüpft zwischen Tier und Übermensch — ein Seil über einem Abgrunde). Santos comenta que estas são dimensões «revestidas como que por uma espessa neblina que não deixa ver com clareza e muito menos deixa penetrar os faróis conceptuais, a linearidade racional» (Santos, 2026). São, escreve, dimensões «não mensuráveis nem decomponíveis, por serem intensivas e não extensivas», que só uma «linguagem plástica, metafórica, onde a unidade da totalidade não é quebrada» pode preservar. Daí a definição que o Ecce Homo oferece e que Santos adopta como emblema: o «homem-poeta como decifrador de enigmas, redentor do acaso» (Santos, 2026).

A poesia, diz a terceira secção, «vai lá ao fundo, às pulsões e aos sentimentos, como o amor ou o ódio, a melancolia ou a nostalgia, que agitam a alma» e «obrigam à verbalização redentora e pacificadora» (Santos, 2026). Estes sentimentos «exprimem-se de forma intensiva, unitária e total» e «não é possível decompô-los em partes para, depois, os recompor em unidades abstractas». A quarta secção convoca Goethe, citado por Mann: «não há maneira mais segura de escapar ao mundo do que através da arte, e não há maneira mais segura de nos ligarmos a ele do que através da arte» (Goethe, apud Santos, 2026) — a arte como o veículo que «descola e aterra nesse aeroporto existencial que se chama mundo da vida (Lebenswelt)». E a tese política decisiva: «a colonização do mundo da vida pela razão ou, pior ainda, pela racionalidade técnica e instrumental constitui-se como violência exterior, opressão ou compressão que só a arte pode evitar» (Santos, 2026).

As secções quinta a sétima fundam esta convicção numa psicologia da criação e numa epistemologia das «duas linguagens». Santos recolhe de Nietzsche, citando Schiller, a confissão capital: «um certo estado musical da alma é anterior e só depois se segue em mim a ideia poética» (Eine gewisse musikalische Gemüthsstimmung geht vorher…) — uma «predisposição musical» que «antecede o impulso poético», «uma pulsão melódica interior da alma como motor da poesia» (Santos, 2026). E recusa a velha dicotomia racionalismo/irracionalismo como falsa: «é o objecto da nossa atenção que impõe o método e a linguagem, não a livre discricionariedade e sensibilidade do sujeito» (Santos, 2026). Há realidades — a relação «vital, existencial e intersubjectiva com o mundo» — cuja natureza exige outra linguagem que não a conceptual-analítica; querer reduzi-las a esta é não atingir «a própria realidade que é objecto da nossa atenção». A oitava secção encerra com a fórmula de Mann que dá à arte a sua dignidade última: «a filosofia não é uma abstracção fria, é vivência, sofrimento e sacrifício pela humanidade» (Mann, apud Santos, 2026) — o páthos, no sentido grego, como impregnação de toda a obra.

2. Benjamin
A ruína como alegoria, melancolia 
e potência messiânica

O segundo argumento patente é o de Benjamin, tal como se desenha na Origem do Drama Barroco Alemão (1928) e nas Teses sobre o Conceito de História (1940). O seu núcleo é a distinção entre símbolo e alegoria. O símbolo é orgânico, unitário, harmonioso — a parte participa do todo, o finito revela imediatamente o infinito (a rosa que é, sem resto, beleza e amor). A alegoria é fragmentária, arbitrária, melancólica — o signo não participa do significado, é convenção, é a caveira que remete à vanitas, é a ruína como história petrificada. E a ruína é a figura privilegiada da alegoria: a arquitectura desfeita, a natureza tornada fragmento, o tempo já não como progresso orgânico, mas como «catástrofe contínua, decomposição».

No Trauerspiel barroco — a peça de luto — a história é encenada como ruína: o príncipe, o mártir, o tirano e o intrigante habitam um mundo de mortes e traições onde a vida se petrifica em fragmento. A esta visão associa Benjamin duas figuras: o melancólico, paralisado pela contemplação dos destroços, e o coleccionador, que recolhe os fragmentos para os arrancar à dispersão e lhes dar nova vida numa constelação. E na nona das Teses, a ruína recebe a sua imagem mais alta: o anjo da história, de rosto voltado para o passado, que vê «uma única catástrofe, que sem cessar amontoa ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés»; quer deter-se e «juntar os fragmentos», mas uma tempestade — o progresso — enche-lhe as asas e arrasta-o «de costas para o futuro» (Benjamin, 1940). A tarefa do materialista histórico será, por isso, «escovar a história a contrapelo» (die Geschichte gegen den Strich zu bürsten): fazer explodir o continuum do progresso e libertar a centelha messiânica que dorme nos vencidos.

Importa fixar, desde já, a homologia que torna os dois argumentos um só objecto. O que Santos chama a colonização do Lebenswelt pela razão instrumental, Benjamin chama o continuum do progresso que produz ruínas; o que Santos chama a neblina intensiva que o conceito não capta, Benjamin chama o fragmento alegórico que a narrativa oficial exclui; o que Santos chama o poeta redentor do acaso, Benjamin chama o coleccionador que redime o destroço. E em ambos há um gesto que suspende a normalidade — a decisão estética, a interrupção messiânica — para salvar aquilo que a marcha do conceito ou do progresso condena. É este gesto, e a sua tripla profundidade, que os três estratos seguintes procurarão pensar.

ESTRATO FILOSÓFICO 
A excepção, a différance e o rosto
1. A excepção estética 
e a colonização do Lebenswelt
(Agamben, com Mann)

Comecemos pela categoria que Santos põe no centro sem a nomear: a violência. «A colonização do mundo da vida pela razão… técnica e instrumental constitui-se como violência exterior» (Santos, 2026). Esta frase é, lida com Agamben, a descrição exacta de um dispositivo biopolítico. Pois o que faz a razão instrumental ao Lebenswelt é o que a soberania faz à vida: uma inclusão por exclusão. A racionalidade não ignora simplesmente as dimensões intensivas, pulsionais e unitárias da existência; captura-as, excluindo-as — decompõe-nas em variáveis, mede-as, recompõe-nas como objectos, e nesse mesmo gesto as expulsa enquanto vida. A vida profunda é incluída na ciência sob a forma da sua própria exclusão: presente como objecto, ausente como vida. É a estrutura do que Agamben chama a vida nua (nuda vita): a zoê separada da sua forma, a vida reduzida ao que dela se deixa conceptualizar.

Ora a arte, em Santos, é precisamente a forma-di-vita agambeniana: aquela vida que não se deixa cindir da sua forma, em que viver e a forma de viver coincidem. Quando Santos diz que a arte acede «à unidade da vida sem a decompor, a desmontar em partes», está a descrever uma forma-de-vida que resiste à separação biopolítica. E a arte fá-lo, como a soberania, por uma decisão sobre a excepção: decide suspender a normalidade do conceito para deixar aparecer o que a normalidade exclui. Não há aqui paradoxo menor: a arte combate o estado de excepção da razão instrumental com um contra-estado de excepção — a suspensão estética da linguagem conceptual. É a tese que A Montanha Mágica de Mann eleva a alegoria: o sanatório de Davos é o stato di eccezione em pessoa — lugar de tempo suspenso, de vida intensificada pela proximidade da morte, onde a «planície» (a normalidade do trabalho, do tempo linear, da sociedade) fica em suspenso. A pergunta de Mann — «qual é o mundo verdadeiro, o do sanatório ou o da planície?» — é, lida assim, a pergunta soberana por excelência: ela decide qual vida conta como real. E a resposta de Santos é a de Hans Castorp tentado pela montanha: o mundo verdadeiro é o da excepção, porque é nele que a vida se dá «por inteiro».

Mas — e aqui Agamben corrige a tentação — há duas excepções, e a probidade obriga a distingui-las. Há a excepção que captura (o sanatório que isola a doença para a governar, a razão que decompõe a vida para a dominar) e há a excepção que liberta (a arte que suspende o conceito para devolver a vida à sua forma). A primeira é a excepção soberana; a segunda é o que mais adiante, com Benjamin, chamaremos a excepção messiânica. A arte não é, pois, uma fuga da vida: é, nas palavras de Goethe que Santos cita, ao mesmo tempo «a maneira mais segura de escapar ao mundo» e «a mais segura de nos ligarmos a ele» — uma excepção que não abandona a planície, mas a redime.

2. A différance da linguagem poética 
e a ruína como diferimento do símbolo 
(Derrida)

Santos insiste em que a linguagem poética «difere» do conceito sem o negar: «a linguagem da arte não nega a linguagem racional e técnico-científica, mas é mais humana e até superior» (Santos, 2026). A palavra «difere» não é aqui inocente, e a desconstrução derridiana permite-lhe toda a sua extensão. Pois a metáfora — «o homem é uma corda esticada sobre um abismo» — não representa um conceito (não diz «o homem é um ser intermédio»), nem o decompõe; ela difere-o, no duplo sentido da différance: difere de si mesma (a corda não é o homem, é outra coisa) e adia indefinidamente o sentido (a imagem não se fecha numa definição, abre um espaçamento onde o leitor há-de demorar-se). A poesia é différance em acto: produz sentido não por presença plena, mas por diferimento e rasto. A «neblina» de Santos é o nome poético daquilo a que Derrida chama o rasto (trace): não a ausência de sentido, mas o sentido que só se dá retirando-se, que nunca está inteiramente presente porque vive do seu próprio adiamento.

E a arte é, em Santos como em Derrida, um pharmakon: a fórmula de Goethe — escapar ao mundo e ligar-se ao mundo pela mesma arte — é a estrutura exacta do pharmakon, que é a um tempo veneno e remédio, fuga e regresso, sem que se possa decidir de uma vez por todas qual das duas faces prevalece. A arte cura a violência da colonização conceptual, mas pelo mesmo gesto pode tornar-se evasão, narcose, fuga sem regresso; é remédio e risco na mesma dose. Por isso o «voo» da arte «parte desse lugar, mas a ele regressa» (Santos, 2026): o pharmakon estético só é remédio se for também regresso.

É aqui que a ruína de Benjamin se revela como o exacto correlato histórico da metáfora poética. Pois o que a alegoria barroca é ao símbolo, a metáfora nietzschiana é ao conceito: um diferimento. O símbolo pretende a presença plena — a parte que é o todo, o finito que é o infinito; a alegoria confessa o diferimento — o signo que remete sem coincidir, que aponta para um sentido sempre adiado. A ruína é a trace tornada pedra: mostra que a transitoriedade não é acidente, mas estrutura, que o sentido histórico não se dá numa totalidade orgânica, mas em fragmentos que se diferem e se iteram. E a iterabilidade derridiana é a lei do coleccionador benjaminiano: recolher o destroço é repeti-lo noutra constelação, e nessa repetição alterá-lo, libertar-lhe um sentido que o original não continha. O sátiro que difere o conceito na metáfora e o anjo que difere o progresso na constelação fazem, no plano da linguagem e no plano da história, o mesmo gesto de différance.

3. O juízo estético e a problematologia 
- a ponte e a pergunta 
(Kant, com Marques; Meyer)

Como é possível uma linguagem que comunique o singular sem o subsumir num conceito? A pergunta é de Santos — «traduzi-lo ou convertê-lo criativamente na sua singularidade e totalidade, sem o decompor» (Santos, 2026) — e a sua resposta canónica está na terceira Crítica de Kant, que António Marques nos ajudou a ler como o lugar da ponte entre o entendimento e a sensibilidade. O juízo estético é, em Kant, desinteressado (não visa o uso nem o conceito do objecto), singular (julga este objecto, não uma classe), e todavia reivindica uma comunicabilidade universal sem conceito: «isto é belo» exige o assentimento de todos sem o poder demonstrar. Eis a estrutura precisa daquilo que Santos atribui à arte: comunicar à sensibilidade, «na partilha», uma singularidade que nenhum conceito esgota. O juízo estético é a prova transcendental de que a tese de Santos é possível — de que há um modo de dizer o singular que não o decompõe e que, contudo, não é mero capricho privado, porque aspira a ser partilhado.

E a este modo de dizer corresponde um modo de pensar, que Michel Meyer nomeou: a problematologia. Contra a tradição que faz do conhecimento um sistema de respostas — proposições que fecham a pergunta —, Meyer propõe pensar a partir do questionamento como elemento primeiro: pensar é manter aberta a pergunta, e há discursos cuja dignidade está em não resolver a interrogação num resultado. A arte é, neste sentido, problematológica por excelência: a metáfora da corda sobre o abismo não responde à pergunta «o que é o homem?», mantém-na aberta, fá-la ressoar. Quando Santos recusa a dicotomia racionalismo/irracionalismo afirmando que «é o objecto da nossa atenção que impõe o método e a linguagem», diz, em rigor, que há objectos cuja verdade é interrogativa e não apofântica — objectos que se traem se forem reduzidos a respostas. A ciência alia-se à resposta; a arte, à pergunta. E é por isso que a arte não é um défice de racionalidade, mas outra orientação cognitiva: a orientação para o que só na forma interrogativa se deixa dizer.

4. O rosto, o Dizer e a hospitalidade 
(Levinas, com Chalier)

Falta o que, nos dois argumentos, é mais discreto e mais decisivo: a dimensão ética. Quando Santos diz que a poesia acede às pulsões «que agitam a alma, estremecem o poeta e obrigam à verbalização redentora» (Santos, 2026), descreve, sem o saber, a estrutura levinasiana do Dizer (le Dire) anterior ao Dito (le Dit). A pulsão que «obriga» o poeta não é um conteúdo que ele escolha exprimir; é uma interpelação que o precede e o constitui como responsável — uma exposição ao que o excede. A linguagem poética é o Dizer que preserva o Dito na sua alteridade, que diz o outro sem o reduzir ao mesmo, sem o capturar no conceito. Por isso a arte é, em sentido rigoroso, ética antes de ser estética: ela é o modo de dizer que não faz violência ao que diz, que «respeita por inteiro tudo aquilo que cantar» (Santos, 2026).

E é aqui que Catherine Chalier acrescenta o que em Levinas ficara em sombra. Chalier — leitora da Cabala e da sabedoria bíblica — mostra que a sensibilidade não é o grau menor do conhecimento, mas a abertura primeira à alteridade: a receptividade pela qual o outro me toca antes que eu o pense. A «predisposição musical da alma» de que falam Schiller e Nietzsche é, nesta luz, uma forma da receptividade chalieriana: uma escuta que precede o conceito, uma afecção que antecede a ideia. Chalier devolve à sensibilidade a sua dignidade ética e mística: ser tocado, ser afectado, vibrar antes de compreender — eis o solo de toda a responsabilidade e de toda a criação. A arte, nesta intersecção, é a guarda da sensibilidade contra um mundo que só quer respostas e domínio; é hospitalidade ao que pulsa, acolhimento do que não tem ainda conceito nem nome. E é também, como veremos no estrato cabalístico, escuta de um niggun anterior à palavra.

Estende-se esta ética ao anjo de Benjamin. «Escovar a história a contrapelo» é o gesto ético por excelência: responder ao rosto dos vencidos, dos que a história oficial petrificou em destroço anónimo. A ruína tem rosto — o rosto do mártir do Trauerspiel, o rosto dos derrotados cujo sofrimento o progresso esqueceu. E o coleccionador que recolhe o fragmento e o poeta que recolhe a pulsão fazem o mesmo: respondem a uma interpelação que vem do que foi excluído, e ao responder-lhe, redimem-no. O sátiro acolhe a vida que a razão expulsa; o anjo acolhe os mortos que o progresso atropela. Ambos são figuras da hospitalidade incondicional.

5. Niilismo ou perspectivismo 
- a différance da verdade

Resta enfrentar a pergunta que o texto-base nos lega: a obra de Nietzsche é niilismo ou perspectivismo? A resposta que estes estratos sugerem é inequívoca e passa por distinguir duas leituras da «morte de Deus». Lida como niilismo, a morte de Deus é a queda no nada — o desabamento de todo o valor, a planície sem montanha, a ruína sem coleccionador. Lida como perspectivismo, é outra coisa: a abertura de um espaço em que a verdade, deixando de ser uma e definitiva, se torna perspectiva — não menos exigente, mas plural, móvel, criável. Ora o perspectivismo é, em rigor, a différance aplicada à verdade: não há um sentido único e presente das coisas, há perspectivas que se diferem umas das outras e se iteram, abrindo continuamente novos valores. Não é o fim da verdade; é o fim da verdade como presença plena, e o início da verdade como tarefa.

Assim, o niilismo é a tentação que espreita o anjo — deixar-se paralisar pela contemplação dos escombros, ler na catástrofe a prova de que nada vale. E o perspectivismo é a afirmação do sátiro — fazer da morte de Deus não um luto sem fim, mas a ocasião da transvaloração, a libação dionisíaca que celebra a vida «por inteiro», sabendo-a abismo. A segunda Intempestiva dizia-o já: o excesso de história (o anjo soterrado de passado) mata a vida; mas a história ao serviço da vida — a história escovada a contrapelo, recolhida como o coleccionador recolhe — devolve ao presente a sua centelha. Entre o niilismo e o perspectivismo decide-se, pois, se a ruína é túmulo ou semente; e toda a aposta da arte, em Santos como em Benjamin, é que a ruína guarda uma centelha que pede para ser recolhida. É essa centelha que o estrato cabalístico irá, enfim, nomear.

ESTRATO PSICANALÍTICO 
A pulsão, o magma e a melancolia
1. As pulsões primordiais e a sublimação

Quando Santos enumera as «pulsões e os sentimentos, como o amor ou o ódio, a melancolia ou a nostalgia, que agitam a alma» e «obrigam à verbalização redentora» (Santos, 2026), está, em rigor de termos, a falar a língua de Freud. Aquilo que «agita» a alma e «obriga» à expressão é a pressão da pulsão (Trieb), essa exigência de trabalho imposta ao psiquismo pela sua ligação ao corpo. A pulsão não se deixa pensar; exige descarga, representação, destino. E a arte é, na economia freudiana, um dos destinos mais altos da pulsão: a sublimação — o desvio da energia pulsional para um fim socialmente valioso e formalmente belo, sem recalcamento e sem sintoma. A «verbalização redentora» de Santos é o nome poético da sublimação: a pulsão que, em vez de se reprimir ou de se descarregar cegamente, se eleva à forma e nela se pacifica sem se mutilar. O sátiro é a pulsão assumida; a obra é a pulsão sublimada.

Mas há aqui uma subtileza que distingue a tese de Santos de um freudismo redutor. Santos insiste em que as pulsões «não é possível decompô-los em partes para, depois, os recompor em unidades abstractas»; são «intensivas, unitárias e totais». Ora isto é uma objecção precisa a toda a metapsicologia que trate a pulsão como quantidade decomponível. A vida pulsional, diz Santos, tem uma unidade intensiva que se perde se for analisada como soma de partes — e é exactamente esta unidade que a arte preserva e a ciência destrói. A psicanálise, no seu melhor, sabe-o: o sentido de um sintoma ou de um sonho não é a soma dos seus elementos, mas a sua configuração única, irredutível. É por isso que a interpretação analítica, quando é verdadeira, se parece menos com uma decomposição química do que com uma leitura poética — e é esta a via que ensaiei no método dos Contos e Psicanálise: ler cada conto não decompondo-o em mensagem, mas escutando a sua unidade intensiva, a sua música latente, o seu enigma.

2. A predisposição musical 
e a função alfa - Bion 
e a capacidade negativa

«Um certo estado musical da alma é anterior e só depois se segue em mim a ideia poética» (Schiller, apud Nietzsche, apud Santos, 2026). Esta frase, que Santos põe no centro da sua psicologia da criação, encontra na obra de Wilfred Bion a sua tradução metapsicológica mais exacta. Bion distingue os elementos beta — as impressões sensoriais e emocionais brutas, não pensáveis, magmáticas — da função alfa, que os transforma em elementos alfa, susceptíveis de serem sonhados, pensados, simbolizados. Ora o «estado musical da alma» que precede a ideia poética é precisamente o magma dos elementos beta sob tensão; e o trabalho do poeta — a passagem à «fase apolínea» de que fala Santos, à «linguagem minimalista, musical e metafórica» — é a função alfa em acto: a transformação do magma em forma sem perda da sua intensidade. A arte é função alfa levada ao sublime.

E há mais. Bion recuperou de Keats a noção de capacidade negativa (negative capability): a capacidade de permanecer «nas incertezas, nos mistérios, nas dúvidas, sem nenhuma busca irritável do facto e da razão». Ora a «neblina» de Santos — essa «espessa neblina que não deixa ver com clareza e muito menos deixa penetrar os faróis conceptuais» (Santos, 2026) — é o nome exacto do meio em que a capacidade negativa opera. O «homem teórico», que «não quer ter nada por inteiro», é o homem sem capacidade negativa: aquele que, incapaz de habitar a neblina, se precipita sobre o facto e a razão e, ao fazê-lo, mata o enigma. O poeta, o «decifrador de enigmas», é, ao invés, aquele que sabe permanecer na neblina sem a dissipar prematuramente — que faz da incerteza não um defeito a corrigir, mas o próprio elemento da criação. O analista, no divã, faz o mesmo: suspende a memória e o desejo, instala-se na reverie, deixa que o sentido emerja do magma sem o forçar. Decifrador de enigmas e analista partilham a mesma virtude: a paciência da neblina.

3. A melancolia: do luto à ruína 
(Freud, com Benjamin)

É no afecto da melancolia que os dois argumentos — a arte de Santos e a ruína de Benjamin — se enlaçam mais intimamente, e é a psicanálise que dá o nó. Freud, em Luto e Melancolia (1917), distingue o luto, que elabora a perda do objecto e por fim se liberta, da melancolia, que não consegue largar o objecto perdido e o incorpora, voltando contra o próprio eu a sombra do que perdeu. Ora o melancólico benjaminiano — o que contempla a ruína, o que colecciona os destroços — é exactamente esta figura: aquele que não larga o passado, que o traz dentro de si como uma sombra, que vive entre os fragmentos do que já não é. O Trauerspiel, a «peça de luto», é o teatro desta melancolia: a história encenada como objecto perdido que se recusa a passar.

Mas Benjamin opera sobre a melancolia uma torção que a psicanálise pode iluminar e abençoar. Pois há uma melancolia que paralisa — o anjo imobilizado, incapaz de juntar os fragmentos — e há uma melancolia que se converte em trabalho: o coleccionador que, em vez de se afundar na contemplação da perda, recolhe os destroços e os reconfigura numa constelação nova. Esta segunda melancolia é o luto tornado criação: não o esquecimento do perdido (que seria a planície, a normalidade que segue em frente), nem a fixação paralisante (que seria o niilismo), mas a elaboração que arranca ao passado a sua centelha. «Escovar a história a contrapelo» é, em linguagem psicanalítica, elaborar (durcharbeiten) o luto da história — atravessar a perda em vez de a negar ou de nela se afogar. E é aqui que o método estruturado dos Contos e Psicanálise encontra a sua justificação última: ler é elaborar, recolher os fragmentos de sentido que a leitura distraída atropela, e devolvê-los à constelação onde recuperam a sua centelha.

4. O dionisíaco e o real 
- Lacan e o que resiste ao conceito

Há, por fim, no coração da tese de Santos, uma intuição que Lacan permite formular com precisão: a de que existe um real que resiste à simbolização, e que é precisamente esse real que a arte visa e a ciência falha. Quando Santos fala de dimensões «não mensuráveis nem decomponíveis, por serem intensivas e não extensivas» (Santos, 2026), nomeia o que Lacan chama o real: não a realidade ordenada pelo símbolo, mas o que no ser resiste a ser dito, o que retorna sempre ao mesmo lugar, o que faz furo na rede dos conceitos. O dionisíaco nietzschiano — o magma, a embriaguez, a «experiência interior prévia», a libação — é uma figura deste real: uma intensidade que o apolíneo (o símbolo, a forma) tenta cingir sem nunca a esgotar.

E Lacan dá-nos ainda a chave da «predisposição musical». Pois ele distinguiu, sob a linguagem como sistema de signos, aquilo a que chamou lalangue — a materialidade sonora, musical, equívoca da língua, anterior à sua organização em sentido, onde o significante goza antes de significar. O «estado musical da alma» que precede a ideia poética é da ordem de lalangue: um gozo do som e do ritmo que é o solo de que a poesia emerge. A arte, em Nietzsche como em Santos, não acrescenta música a um sentido prévio; faz nascer o sentido de uma música anterior. E o poeta é aquele que não recalca lalangue sob a gramática conceptual, mas a deixa cantar — fiel, mais uma vez, ao sátiro e prefigurando o que, no estrato seguinte, reconheceremos como o niggun: o canto sem palavras que toca o que nenhuma palavra alcança.

ESTRATO CABALÍSTICO-MÍSTICO
O véu, o niggun, o anjo e a centelha
1. A neblina e o véu
- tzimtzum, hester panim e os levushim

Toda a reflexão de Santos gira em torno de uma imagem: a neblina — «uma espessa neblina que não deixa ver com clareza e muito menos deixa penetrar os faróis conceptuais» (Santos, 2026) — e o «véu da ilusão» que, segundo Nietzsche, citando Hamlet, deve pairar sobre o mundo «para agir». A tradição cabalística pensou esta neblina sob um nome preciso: o ocultamento divino, o hester panim — o «esconder da face». Para a Cabala luriânica a criação começa por um recuo: o tzimtzum, a contracção pela qual o Ein Sof infinito se retrai para abrir um vazio onde o mundo possa ser. A luz primordial não se dá em plena presença — asfixiaria o finito —; dá-se velada, filtrada por vestes (levushim) que a um tempo a escondem e a tornam suportável. O véu não é, pois, o contrário da revelação: é a sua condição. Só através da neblina se pode olhar o sol sem cegar.

Eis o que a leitura cabalística acrescenta a Santos. A «neblina» que envolve a vida profunda não é um defeito a dissipar — como crê o «homem teórico», que quer «penetrar os faróis conceptuais» até à plena claridade —; é o levush, a veste necessária sem a qual a intensidade da vida nos fulminaria. A razão instrumental, ao querer dissipar toda a neblina, comete o pecado de quem arrancaria as vestes à luz: não veria mais, ficaria cego. A arte, ao invés, sabe trabalhar com o véu — preserva a neblina porque sabe que nela, e só nela, a luz se deixa contemplar. A metáfora, a música, o «discurso para iniciados» de que fala Santos são levushim: vestes que revelam, velando, que dizem, ocultando, fiéis ao modo como o próprio infinito se dá. A apofática — dizer Deus pelo que Ele não é — e a poética — dizer a vida pela metáfora que a não decompõe — são, no fundo, a mesma arte da veste.

2. A predisposição musical como niggun

«Um certo estado musical da alma é anterior e só depois se segue a ideia poética.» Esta anterioridade da música sobre a ideia tem, na mística judaica, um nome e uma prática: o niggun, a melodia sem palavras do hassidismo. O niggun é o canto que precede e excede o dito: uma sequência de sílabas sem sentido conceptual — bim-bam, ai-ai-ai — pela qual a alma se eleva (devequt, a adesão a Deus) lá onde a palavra já não chega. Os mestres hassídicos ensinavam que há portas da alma que só a melodia abre e que o canto sem palavras está mais perto da fonte do que o canto com palavras, porque a palavra já é conceito, já é veste espessa, ao passo que a melodia pura é veste translúcida. A «pulsão melódica interior da alma como motor da poesia» (Santos, 2026) é, em rigor cabalístico, um niggun: a vibração anterior à ideia, a música da alma antes do verbo.

Compreende-se então por que razão Santos faz da música a raiz da poesia, e não o inverso. Porque a música é a linguagem que menos decompõe, a que mais preserva a «unidade intensiva e total» — a que, justamente, mais se aproxima do niggun originário. Aquilo a que Lacan chamou lalangue e Bion o magma pré-verbal, a Cabala chama o niggun da alma: o canto que está antes do sentido e que o sentido nunca alcança de todo. E o poeta é aquele que, descendo a essa música anterior, a faz subir à palavra sem a trair — que «acolhe na sua voz» o que ainda não tem voz. É o que noutro lugar escrevi a propósito da voz poética: que «a voz é, antes de todo o dito, exposição e oferta — o Dizer que precede o Dito» (Veríssimo, 2026a). O niggun é esse Dizer anterior, e a poesia, a sua veste.

3. O anjo da história 
e a angelologia judaica

Detenhamo-nos agora no anjo de Benjamin, porque ele não é uma figura decorativa, mas o ponto em que a estética da ruína toca a mística judaica de modo explícito. O Angelus Novus de Paul Klee, que Benjamin possuía e meditava, é lido por ele à luz de uma angelologia que o seu amigo Gershom Scholem conhecia como ninguém. Na tradição talmúdica e cabalística, os anjos não são eternos: são criados a cada instante, cantam diante do Trono o seu cântico único e passam, dissolvendo-se no rio de fogo de onde vieram. O anjo é, por essência, efémero e testemunha: existe para louvar e para desaparecer. O anjo benjaminiano herda esta efemeridade — quer deter-se, «acordar os mortos e juntar os fragmentos», mas é arrastado, não pode permanecer. A sua impotência é a impotência angélica: ele vê a verdade (a catástrofe), mas não tem o poder de a reparar; só pode testemunhá-la e ser arrastado.

E todavia — eis a torção messiânica — o anjo que não pode reparar aponta para Aquele que pode, e para a tarefa que cabe ao homem. Pois se o anjo apenas testemunha e passa, é ao homem, e não ao anjo, que a Cabala confia o tiqqun: a reparação. O anjo vê os escombros; o homem é chamado a recolhê-los. Benjamin sabia-o: a «fraca força messiânica» de que fala a segunda tese é uma força humana — a nossa —, e o Jetztzeit, o «tempo-de-agora» que faz explodir o continuum, é o instante em que um homem reconhece, num destroço do passado, uma centelha que lhe é destinada. O anjo é a melancolia que vê; o homem-coleccionador, o homem-poeta, é a mão que recolhe. Entre o anjo e o sátiro, o que falta — e o que os reconcilia — é o justo que repara.

4. A redenção das centelhas 
- arte e ruína como tiqqun

Chegamos ao centro do acorde. A Cabala luriânica ensina que, na criação, os vasos (kelim) destinados a conter a luz divina não suportaram a sua intensidade e se quebraram — a shevirat ha-kelim —, dispersando centelhas (nitzotzot) por todo o mundo decaído, cada uma aprisionada numa casca (qelippah). A tarefa do homem é o tiqqun: recolher as centelhas dispersas, libertá-las das cascas, devolvê-las à sua origem. Ora — e esta é a tese última deste ensaio — tanto a arte de Santos como a ruína de Benjamin são figuras do tiqqun. O que faz o poeta «redentor do acaso» senão recolher, do magma disperso das pulsões, a centelha que pede forma, e libertá-la da casca do mero acontecer? E o que faz o coleccionador benjaminiano, que «escova a história a contrapelo» e recolhe os destroços para os redimir na constelação, senão um tiqqun da história — a recolha das centelhas messiânicas aprisionadas nos escombros dos vencidos?

Assim se relê, na sua máxima profundidade, a fórmula que governa o texto-base: «a vida só se justifica como fenómeno estético» (Mann, apud Santos, 2026). Lida cabalisticamente, ela diz: a vida justifica-se na medida em que as suas centelhas são recolhidas e elevadas — e a arte é o nome desse recolher. O esteticismo dionisíaco não é, então, frívola celebração da aparência; é a forma extrema de uma seriedade messiânica: afirmar a vida «por inteiro» é recolher cada uma das suas centelhas, não deixar perder-se nenhuma, fazer de cada instante de acaso um instante redimido. O sátiro que afirma e o anjo que recolhe convergem no justo que opera o tiqqun: a redenção das centelhas é a obra comum da arte e da história. E o que escrevi a propósito da Saudade vale aqui inteiramente: o que persiste no mundo decaído é «o Ein Sof presente na existência mais ínfima: o infinito alojado no finito, o todo contido no quase-nada» (Veríssimo, 2026a), porque mesmo o mais quebrado dos vasos «ainda guarda luz» (Veríssimo, 2026a).

Resta a pintura que preside a este estrato (S/Título –JAS 2026, supra) — a tela sem nome que acompanha o artigo — cumpre, no seu próprio anonimato e no seu claro-escuro, a doutrina inteira. O rosto emerge da treva, mas a face permanece retida na sombra: só o contorno luminoso e o colarinho branco captam a luz, ao passo que aquilo que há de mais singular — os olhos, a expressão — fica velado, oculto, hester panim. Não é falta de representação: é representação do que se dá, velando-se. E o sem-título não é ausência de sentido: é recusa da casca conceptual, recusa de que a obra seja capturada por um nome que a decomponha e a fixe. A tela sem título é a obra que se mantém levush puro, veste sem conceito, neblina que preserva a sua centelha intacta. Ela faz, em pintura, o que o niggun faz em música e a metáfora em palavra: dá-se a ver velando-se, oferece-se sem se entregar ao conceito. O seu silêncio sobre o próprio nome e a sombra que guarda o seu rosto são a forma plástica da apofática — e são, talvez, a mais exacta figura do que Santos quis dizer quando afirmou que a arte acede «à unidade da vida sem a decompor». A obra sem título é a centelha que recusou a casca; o rosto na sombra é a luz que escolheu a sua veste.

REINVENÇÃO DO TEMA
A arte e a ruína 
como recolha das centelhas

Tendo estratificado os dois argumentos, podemos repor o tema de forma integral. A tese de Santos — a arte como acesso privilegiado às dimensões intensivas, pulsionais e unitárias da vida que o conceito não capta sem violência — deixa de ser, lida assim, uma defesa do irracionalismo ou uma nostalgia romântica, e revela-se como algo muito mais rigoroso: a afirmação de que existe um resto — a centelha, a unidade intensiva, o singular — que a colonização racional do Lebenswelt declara inexistente ou ilusório, e que todavia é o que verdadeiramente importa. A arte é o órgão desse resto: não o seu conceito (que o mataria), mas a sua veste, o seu niggun, a sua recolha. E a ruína de Benjamin é o mesmo resto, projectado na história: o fragmento que a narrativa do progresso declara lixo, e que o coleccionador redime.

A reinvenção consiste em pensar a arte e a ruína como um só gesto de tiqqun — a recolha das centelhas dispersas — operado em dois planos: o da vida (o sátiro, o poeta, a pulsão sublimada) e o da história (o anjo, o coleccionador, o destroço redimido). Em ambos opera uma excepção que não é a soberana (a que captura para dominar) mas a messiânica (a que suspende para libertar); em ambos a verdade não é presença plena, mas différance — perspectiva, rasto, constelação; em ambos a linguagem adequada não é a do conceito que decompõe, mas a da forma que preserva a unidade intensiva. A falsa dicotomia racionalismo/irracionalismo, que Santos com razão recusa, resolve-se assim não numa escolha mas num acorde: há duas orientações cognitivas — a que decompõe para dominar e a que recolhe para redimir —, e a sabedoria está em saber qual convém a cada realidade. À natureza física, a linguagem que decompõe; à vida e à história dos homens, a linguagem que recolhe.

Foi esta, no fundo, a convicção que ensaiei no método dos Contos e Psicanálise e que em A Intriga Ética (Veríssimo, 2001) formulei como princípio: que ler — um conto, uma vida, uma época — não é decompor uma mensagem, mas recolher uma centelha; que a interpretação é menos análise do que tiqqun. Aplicada aos dois ensaios, esta convicção permite a reposição final do tema: a arte e a história, quando fiéis à sua vocação, são duas formas da mesma piedade — a recusa de deixar perder-se o que a razão instrumental e o progresso condenam ao esquecimento. O sátiro afirma a vida recolhendo-lhe cada centelha; o anjo, impotente, aponta para o homem que há-de recolher as centelhas da história. E entre os dois, o justo — o poeta, o coleccionador, o leitor atento — opera a reparação. Não há aqui consolo fácil: a recolha é interminável, as centelhas são incontáveis e a tempestade do progresso não cessa. Mas é precisamente nisto que reside a dignidade do humano: em recolher, sabendo que nunca acabará, a luz que os escombros guardam.

CARTOGRAFIA DAS CORRENTES LATENTES

Por probidade do método, explicito as correntes convocadas e o lugar da sua entrada. Do estrato filosófico: Giorgio Agamben (o stato di eccezione, a nuda vita, a forma-di-vita, o resto messiânico), que dá à «colonização do Lebenswelt» a sua gramática biopolítica e a A Montanha Mágica a sua leitura como excepção; Jacques Derrida (a différance, o rasto, o pharmakon, a iterabilidade), que mostra a linguagem poética e a alegoria como diferimento e a arte como veneno-remédio; Emmanuel Levinas e Catherine Chalier (o rosto, o Dizer anterior ao Dito, a sabedoria da sensibilidade e a receptividade ao outro), que revelam a raiz ética da criação e da recolha; Michel Meyer (a problematologia), que pensa a arte como questionamento contra o dogmatismo da resposta; e Kant, pela leitura de António Marques (o juízo estético como ponte desinteressada, singular e comunicável sem conceito). Convoquei ainda, como charneira histórica, as Considerações Intempestivas de Nietzsche sobre a utilidade e a desvantagem da história para a vida.

Do estrato psicanalítico: Sigmund Freud (a pulsão, a sublimação, o luto e a melancolia), que dá às «pulsões primordiais» de Santos a sua economia e à ruína de Benjamin o seu afecto; Wilfred Bion (a função alfa, a transformação do magma beta, a capacidade negativa), que traduz a «predisposição musical da alma» e a «neblina»; Jacques Lacan (o real que resiste ao símbolo, lalangue), que nomeia o que a arte visa e a ciência falha. Do estrato cabalístico-místico: Isaac Luria e a tradição luriânica (tzimtzum, hester panim, levushim, shevirat ha-kelim, qelippot, nitzotzot, tiqqun), com Gershom Scholem por intérprete e pela mediação da angelologia judaica; a tradição hassídica do niggun; e Walter Benjamin como charneira entre o messiânico e o estético. Dos meus próprios textos, integrei ipsis verbis A Intriga Ética (2001), o ensaio A Saudade e o Bicho da Terra (2026a) e a doutrina da voz de O Grão da Voz e o Dizer (2026d), e convoquei o método de leitura estruturada dos Contos e Psicanálise (2026f). Todas estas correntes convergem porque os dois objectos — a arte e a ruína — as chamam, cada uma do seu ângulo, à mesma pergunta sobre a centelha e a casca.

SÍNTESE TRIVALENTE 
O acorde do anjo e do sátiro

Recolhamos as três notas no acorde único. No estrato filosófico vimos que a arte e a ruína são duas excepções messiânicas — não a soberania que captura, mas a interrupção que liberta — e que ambas operam por différance (a metáfora que difere o conceito, a constelação que difere o progresso), preservando o singular que o juízo estético comunica sem conceito e que a problematologia mantém como pergunta; e vimos que o perspectivismo, e não o niilismo, é a verdade de Nietzsche, porque há sempre uma centelha a recolher. No estrato psicanalítico vimos que as pulsões primordiais se sublimam na obra, que a «predisposição musical» é a função alfa transformando o magma e a capacidade negativa habitando a neblina, e que a melancolia da ruína se converte, pela elaboração, em recolha criadora. No estrato cabalístico vimos que a neblina é o véu necessário (hester panim, levushim), que a música anterior à ideia é o niggun, que o anjo da história é a testemunha angélica que aponta para o tiqqun confiado ao homem, e que arte e ruína são, juntas, a recolha das centelhas dispersas pela quebra dos vasos.

As três notas dizem, cada uma no seu registo, a mesma verdade: que há na vida e na história um resto intensivo, singular, luminoso — a centelha — que a razão que decompõe e o progresso que totaliza condenam ao esquecimento e que à arte, à poesia e à memória cabe recolher. O sátiro recolhe-o afirmando a vida «por inteiro»; o anjo aponta-o, impotente, na catástrofe; o justo recolhe-o, na obra e na história. O erro do «homem teórico» é crer que a centelha não existe porque não se deixa decompor; o erro do niilista é crer que, existindo, não vale a pena recolhê-la. A leitura FPK afirma, contra ambos, que a centelha existe e que recolhê-la é a obra mais alta — e que essa obra tem três nomes que são um só: arte (no plano da vida), redenção (no plano da história), tiqqun (no plano do ser). Onde outro autor escolheria uma nota — o sátiro ou o anjo, a afirmação ou a melancolia —, este ensaio compõe o acorde: o sátiro e o anjo, a afirmação dionisíaca e a recolha messiânica, soando juntos sobre o mesmo abismo. E é nesse soar conjunto que a vida, como na tela sem título, emerge da treva sem se entregar à treva e se oferece à luz sem nela se dissolver.

REFERÊNCIAS
Fontes patentes (citadas no texto-base 
e nas referências dadas)

Goethe, J. W. (s.d.). Máximas e reflexões (citado por Mann, 2026). Lisboa: Relógio D’Água.

Heidegger, M. (1961). Nietzsche (Vols. 1–2). Pfullingen: Neske.

Kant, I. (1998). Crítica da faculdade do juízo (A. Marques & V. Rohden, Trads.). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. (Original publicado em 1790.)

Mann, T. (2026). Ensaios (A. Sousa Ribeiro, Sel., Trad., Pref. e Notas). Lisboa: Relógio D’Água.

Marques, A. (1994). O sublime em Kant. Lisboa: Edições Colibri.

Meyer, M. (1986). De la problématologie: Philosophie, science et langage. Bruxelles: Mardaga.

Nietzsche, F. (1872). Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik. Leipzig: Fritzsch.

Nietzsche, F. (1874). Vom Nutzen und Nachteil der Historie für das Leben (Unzeitgemässe Betrachtungen, II). Leipzig: Fritzsch.

Nietzsche, F. (1883–1885). Also sprach Zarathustra. Chemnitz/Leipzig: Schmeitzner/Naumann.

Nietzsche, F. (1908). Ecce homo. Leipzig: Insel.

Novalis. (1965). Fragmente. In Schriften (Vol. 2). Stuttgart: Kohlhammer.

Santos, J. A. (2026, 31 de Março). Reflexões sobre a arte: A propósito dos Ensaios de Thomas Mann [Artigo]. Lisboa: João de Almeida Santos. https://joaodealmeidasantos.com

Schiller, F. (citado por Nietzsche, 1872). Carta sobre a génese da poesia. In Die Geburt der Tragödie. Leipzig: Fritzsch.

Fontes latentes (convocadas pelo ensaísta)

Agamben, G. (1995). Homo sacer: Il potere sovrano e la nuda vita. Torino: Einaudi.

Agamben, G. (2003). Stato di eccezione. Torino: Bollati Boringhieri.

Benjamin, W. (1928). Ursprung des deutschen Trauerspiels. Berlin: Rowohlt.

Benjamin, W. (1991). Über den Begriff der Geschichte. In Gesammelte Schriften (Vol. I.2). Frankfurt am Main: Suhrkamp. (Original escrito em 1940.)

Bion, W. R. (1962). Learning from experience. London: Heinemann.

Bion, W. R. (1970). Attention and interpretation. London: Tavistock.

Chalier, C. (1993). Lévinas: L’utopie de l’humain. Paris: Albin Michel.

Chalier, C. (2002). La sagesse des sens: Le regard et l’écoute dans la tradition hébraïque. Paris: Albin Michel.

Derrida, J. (1967). De la grammatologie. Paris: Éditions de Minuit.

Derrida, J. (1972). La dissémination. Paris: Éditions du Seuil.

Freud, S. (1946). Trauer und Melancholie. In Gesammelte Werke (Vol. 10). London: Imago. (Original publicado em 1917.)

Lacan, J. (1975). Le séminaire, livre XX: Encore. Paris: Éditions du Seuil.

Levinas, E. (1961). Totalité et infini: Essai sur l’extériorité. La Haye: Martinus Nijhoff.

Levinas, E. (1974). Autrement qu’être ou au-delà de l’essence. La Haye: Martinus Nijhoff.

Scholem, G. (1941). Major trends in Jewish mysticism. Jerusalem: Schocken.

Scholem, G. (1972). Walter Benjamin und sein Engel. Frankfurt am Main: Suhrkamp.

Textos do autor integrados
(ipsis litteris)

Veríssimo, A. M. (2001). A Intriga Ética. Guimarães: Editora Cidade Berço.

Veríssimo, A. M. (2026a). A Saudade e o Bicho da Terra. Adam Romez, Uriel da Costa e a Condição do Homem na Poesia de João de Almeida Santos (Uma leitura hermenêutica, sistémica, constitucional, kabbalística, psicanalítica e subliminal à luz do viés de Agustina Bessa-Luís). Ensaio de Crítica Estética — Matriz FPX. Guimarães: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026d). O Grão da Voz e o Dizer. Ensaio sobre «A Tua Voz», de João de Almeida Santos. Guimarães: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026f). Contos e Psicanálise: O Submundo das Fábulas (Leitura estruturada em matriz FPK). Guimarães: edição do autor.

* Edição científica definitiva. Texto-base de João de Almeida Santos citado ipsis verbis; citações dos textos do autor fixadas nihil varietur. Ortografia segundo a norma anterior ao Acordo de 1990. Estrangeirismos em itálico. Referências em norma APA7 com indicação da cidade de edição. Pintura S/Título (JAS, 2026) reproduzida com permissão do autor.

AMV@06-2026

Ensaio

A TRAVESSIA IMÓVEL

O POETA-PÊNDULO, O ESPAÇO INTERMÉDIO 
E O TEMPO QUE RESTA
Uma leitura FPK 
dos Novos Fragmentos (XXVIII) 
de João de Almeida Santos, 
na intersecção fecunda 
com O Pêndulo do Resto 
— entre o resto messiânico 
(Agamben), 
o rasto e a restance 
(Derrida),
o intervalo do rosto 
(Levinas, Chalier), 
o espaço transicional 
(Winnicott)
e a metaplasticidade 
hematonómica da Cabala luriânica
מָקוֹם · רֶשֶׁת · תִּיקּוּן
Filosófico · Psicanalítico 
· Cabalístico-Estético

Por André Moshe Veríssimo PhD

“TRAVESSIA” – JAS 2026 – 93×118, papel de algodão, 310gr, e verniz Hahnemühle, Artglass AR70, em mold. de madeira. O corpo dourado oferece-se e dissolve-se entre a massa telúrica, à esquerda, e a silhueta negra, à direita: a figura exacta do tzimtzum, da qelippah e da centelha que circula como sangue (AMV).

«Onde outro autor compõe 
melodia, este autor 
compõe acorde»
* Divisa do Autor
«Ficam, partindo. 
E partem, ficando. 
É um autêntico vai-e-vem,
sem saírem do lugar»
* João de Almeida Santos (2026)
«παλίντροπος ἁρμονίη ὅκωσπερ
 τόξου καὶ λύρης»
* Heraclito de Éfeso, 
fr. DK 22 B 51
«Ho nyn kairóso tempo de agora 
é o tempo que resta»
* a partir de 
Giorgio Agamben (2000)

 

LIMIAR

HÁ TEXTOS que descrevem um lugar e textos que são esse lugar. Os Novos Fragmentos (XXVIII) — Para um Discurso sobre a Poesia, que João de Almeida Santos deu a público em Junho de 2026 (Santos, 2026), pertencem à segunda espécie: não falam acerca do intervalo — instalam-se nele, e de lá falam. Sob a forma aparente de um discurso sobre a poesia, o que ali se executa é uma cosmologia do entre: a tese, vertiginosa na sua simplicidade, de que o poeta «nunca parte de vez» e «nunca fica de vez», de que «fica, partindo» e «parte, ficando» (Santos, 2026), e de que o seu lugar «é mais condição do que lugar, não é lugar propriamente dito» (Santos, 2026). É essa condição — não-lugar, intervalo, terra de ninguém — que proponho anatomizar.

Faço-o segundo o método que noutro lugar designei por leitura FPK: a sobreposição trivalente de um estrato Filosófico, de um estrato Psicanalítico e de um estrato Cabalístico-Estético, sondados não como melodias sucessivas, mas como as três notas de um único acorde. Não se procura aqui a paráfrase nem a glosa, mas a anatomia: o gesto de abrir o texto para ver a arquitectura das suas vísceras — e, no caso, para ver que essas vísceras são feitas de tempo, e não de espaço. Porque é essa, no fundo, a descoberta de Santos: «o lugar cede ao tempo» (Santos, 2026); «a poesia é filha do tempo, não do espaço» (Santos, 2026). À leitura do texto de Santos cruzo um segundo ensaio, que o prolonga e que comigo dialoga: O Pêndulo do Resto — Poesia, Messianidade e o Tempo que Resta, onde o vai-e-vem do poeta é lido ao lado da minha própria leitura de Giorgio Agamben — a tese de que «a messianidade não é o fim do tempo, mas o tempo do fim: o ho nyn kairós, o tempo que resta» e de que «esse tempo tem a forma do resto — o tò leîmma — aquilo que impede o todo de coincidir consigo mesmo». A hipótese que percorre estas páginas é que o pêndulo poético de Santos e o resto messiânico são «a mesma coisa dita de dois ângulos»: que a oscilação da existência e a estrutura do tempo que ainda pode ser vivido se encontram no mesmo intervalo — «o espaço onde o que era fixo se torna poroso, onde o que parecia perdido ainda pode ser afirmado».

Preside a estas páginas uma tela: Travessia (JAS, 2022, supra), o corpo dourado que se oferece e se dissolve entre a massa escura e telúrica, à esquerda, e a silhueta negra que o acolhe, à direita. Reservo-a para o estrato cabalístico-estético, porque é aí que a sua verdade se cumpre; mas convém anunciá-la desde já, pois é a pintura, e não um conceito, que empresta a este ensaio o seu nome secreto. Travessia não é a passagem que chega: é a passagem que permanece passagem — o atravessar que não cessa, a mobilidade que não sai do lugar. Tal é, também, a tese última destas páginas. Este ensaio inscreve-se, por fim, no método dedicado que venho cultivando sob o título Contos e Psicanálise: a convicção de que toda a obra — o poema, a tela, o conto — é um campo de estratos a desfazer e a refazer, e de que a crítica é menos um juízo do que uma travessia pela espessura do dito. Lê-lo-emos, pois, de uma perspectiva fontal-agambeniana e pós-estrutural — derridiana, levinasiana e à luz de Catherine Chalier —, sem esquecer que a fonte de toda a fonte, aqui, é a água em que «nunca nos banhamos duas vezes», e que já Heráclito sabia mover-se, tic, tac, entre a margem e a corrente.

O ARGUMENTO PATENTE 
O Poeta-Pêndulo e a Ontologia 
do Espaço Intermédio

Comecemos por restituir, com fidelidade, o argumento de Santos, pois nenhuma desconstrução é legítima que não seja precedida de uma construção exacta. O texto abre com uma imagem que é, ela mesma, um pequeno poema — o Pêndulo: «É o eterno retorno, / Diz à musa / O poeta, / É sempre ir / E voltar, / Tic, tac, / Mas tenho sempre / Uma meta / Antes de / Ao meu chão / Regressar» (Santos, 2026). Tudo o que se seguirá está já contido nestes onze versos: a oscilação (ir e voltar), o ritmo (tic, tac), a meta que precede o regresso, e o chão — o lugar — como termo e origem de um movimento que, afinal, nunca o abandona. A tese explícita é dada em resposta a um amigo que, glosando um poema do autor, lhe perguntava se nele já partira «de vez». A resposta é uma pequena ontologia: «Os poetas nunca partem de vez. Vão partindo, vão ficando. Ficam, partindo. E partem, ficando. É um autêntico vai-e-vem, sem saírem do lugar» (Santos, 2026). E logo a precisão decisiva, que desloca a questão do espaço para a condição: «O lugar dos poetas é mais condição do que lugar, não é lugar propriamente dito. No sense of place» (Santos, 2026). O poeta parte «para ver se encontra o que anteviu (na memória) antes de partir»: é «viagem no tempo», e o que a move é «o desejo, a força propulsora do desejo» — porque «o que procuram, afinal, já está neles» (Santos, 2026).

Onde se coloca, então, o poeta? «No intervalo entre a presença e a ausência. Entre o presente e o passado» (Santos, 2026). É esse «ponto axial» que lhe dá «a intermitência matricial, mas também criativa». E o regresso nunca é regresso ao mesmo: «ao regressarem, o lugar, afinal, já não é o mesmo». Daí as fórmulas paradoxais em que Santos cunha a sua intuição — «mobilidade estática», «permanência dinâmica», «o chão do poeta é mesmo movediço», movimento «em espiral ascendente e progressiva» (Santos, 2026). O poeta é, numa palavra, um ser do entre, cuja existência «é uma dinâmica, não uma fixidez».

Segue-se a grande metáfora marítima, que dá ao ensaio o seu páthos: «O poeta vive num mar de ondas revoltas, mas nunca naufraga. Porquê? Porque está em permanente naufrágio. Naufragar é preciso… para sobreviver como poeta» (Santos, 2026). O naufrágio é o «ambiente natural» do poeta; e quando «a alma se está a afundar», chega «o espírito, animado pela fantasia, para a resgatar», e «levanta voo» — mas só «se tiver espírito». É o espírito que o conduz «à fronteira entre o mar e a terra, entre a presença e a ausência, entre o passado e o futuro», e «é ali que começa o voo» (Santos, 2026). A sobrevivência do poeta aos «desencontros, que são como os naufrágios», faz-se «montado em palavras, que as leva o vento». E a vida do poeta resume-se, de novo, ao pêndulo: «Está e não está, / Não está / E volta a estar, / É sempre / Um vai-e-vem, / Tic, tac, / Nunca consegue / Parar» (Santos, 2026).

A condição poética é, pois, irrenunciável e mortal na sua suspensão: «Um poeta parado é poeta morto. Ser poeta é uma condição» (Santos, 2026). É aqui que Santos convoca Florbela Espanca — «Ser poeta é ser mais alto, é ser maior / Do que os homens (…) É ter sede de infinito» — para concluir que «quem tem sede de infinito nunca pode parar» (Florbela Espanca, apud Santos, 2026). O infinito «nunca se alcança, a não ser no olhar, quando duas linhas paralelas se encontram», e por isso o poeta «tem sempre de caminhar»: hacer camino al andar, deixando «pegadas, sus huellas, como marcas de quem passou por ali em busca do tempo perdido» (Santos, 2026). «As pegadas são as palavras.» O poeta «bate à porta dos que também gostam de assim viajar», convocando «não os turistas da palavra, mas os amantes, como queria o Lorca» — e, no fim, «dirá, sorrindo: Amen» (Santos, 2026).

A segunda parte do texto — sob a rubrica Ontologia do Espaço Intermédio — aprofunda filosoficamente a intuição. Santos parte do dado banal — «podemos estar (fisicamente) num lugar e (mentalmente) noutro» — para extrair dele uma vertigem: «onde é que estou mais? Onde estou ou onde não estou?» (Santos, 2026). E formula a inclinação essencial do poeta: «o poeta pende sempre mais para o lugar onde não está». Ser movido pela utopia é «estar sempre a sair de onde se está»; mas a utopia, sendo u-topos, «é a ausência de lugar» e, logo, «um movimento no tempo mental» (Santos, 2026). A alma que se desloca por afecto tem «uma certa fisicidade» — «ela é o corpo do espírito» —, restando o corpo «existencialmente inerte e mudo», o «corpo sem alma» de que «há muitos por aí» (Santos, 2026).

Culmina o argumento numa fórmula que será o nervo de toda a nossa leitura. A arte «nasce num intervalo»: só do intervalo se pode «observar para os dois lados, para trás e para a frente, para o presente e para o passado, para a terra e para o mar». Ela é «uma poderosa ontologia do espaço intermédio entre o presente (físico e temporal) e a ausência e o silêncio» (Santos, 2026). E a arte é «movimento em busca do que se perdeu e da palavra acerca do que se perdeu», «em livres associações (Novalis)» ou, mais radicalmente, com «o desassossegado Soares»: «saudades do que não aconteceu» (Pessoa, apud Santos, 2026). Não há, portanto, «lugar, espaço para visitar. Só desejo. Revisitar o desejo» — porque «houve tempo, não houve espaço» (Santos, 2026). O lugar cede ao tempo; o corpo cede ao tempo; «a alma é mais do tempo do que do espaço».

As imagens finais do texto entregam-nos já os fios que iremos puxar. Que «não se faz poesia com o sol a bater-nos no rosto, quando há excesso de realidade e o espaço domina»: a poesia «acontece sempre na penumbra e numa atmosfera de vazio espacial» (Santos, 2026) — eis o tzimtzum, a contracção que abre o vazio, de que falaremos. Que «a redenção é a arte», «opção pelo tempo que a nossa alma habita», sempre inclinada para o futuro (Santos, 2026) — eis a messianidade. E que «a vida é uma rampa inclinada e a poesia é como um skate espiritual que nos permite percorrê-la», perigosa, vertiginosa, capaz de «quedas aparatosas» (Santos, 2026) — eis o naufrágio, e a queda, e o risco que a psicanálise saberá nomear. Tal é, em síntese fiel, o argumento patente. A nossa tarefa não é negá-lo — seria impróprio e, sobretudo, falso, porque na sua ordem ele é irrefutável —, mas mostrar o que, por baixo dele, continua a respirar.

ESTRATO FILOSÓFICO 
O Resto, o Rasto e o Intervalo
1. Filogénese do Entre 
- Heraclito, Platão 
e a sede de infinito

Antes de Agamben, antes de Derrida, há uma fonte da fonte — e a probidade filogenética exige que a reconheçamos. Quando Santos escreve que o movimento do poeta «acontece em espiral ascendente e progressiva», que «no retorno já tudo mudou», que é «mobilidade estática» e «permanência dinâmica» (Santos, 2026), repete, sem o saber ou sabendo-o, o gesto inaugural do pensamento ocidental sobre o devir: o de Heráclito de Éfeso. «Potamoîsi toîsin autoîsin embaínomén te kaì ouk embaínomen» — nos mesmos rios entramos e não entramos (Heráclito, fr. DK 22 B 12): o rio é o mesmo e nunca o mesmo, como o lugar do poeta, ao qual se regressa e que «já não é o mesmo». E o tic, tac do pêndulo tem, em Heráclito, o seu nome mais exacto: «palíntropos harmoníe» (fr. B 51), a harmonia de tensão inversa, «como a do arco e da lira». O arco e a lira: o instrumento da morte e o instrumento do canto partilham a mesma estrutura — uma corda mantida em tensão entre dois extremos opostos. O poeta-pêndulo é essa corda. A sua música não resolve a tensão entre presença e ausência: vive dela. «O caminho para cima e para baixo é um e o mesmo» (fr. B 60) — tic, tac.

A segunda fonte é Platão, e dá-nos a chave do desejo — que Santos identifica como «a força propulsora» do poeta, aquilo que o move «para um lugar que não é bem um lugar» (Santos, 2026). No Banquete (202d–203a), Diotima ensina que Eros não é um deus, mas um daímon, um metaxý — um intermédio «entre o mortal e o imortal», filho de Poros (o Recurso, a abundância) e de Penía (a Pobreza, a falta). Eros é, por nascimento, o ser do entre: nunca pleno, nunca vazio, sempre a caminho, «sempre pobre» e «sempre a maquinar». O desejo poético é exactamente este metaxý platónico: o poeta deseja o que, num sentido, já tem («o que procuram já está neles», Santos, 2026), e não tem, num outro, porque o tem apenas como falta e como memória. A sede de infinito de que falava Florbela é a herança directa do Eros-metaxý: querer o que não se possui, possuir como falta e, por isso, «nunca poder parar» (Santos, 2026). O intervalo não é, pois, uma invenção moderna: é o lugar arcaico do desejo e do canto.

2. O Resto e o Kairós 
- Agamben fontal

Tomemos agora a fonte que o segundo ensaio convoca explicitamente, e que constitui, creio, o nervo filosófico destas páginas: a archeologia agambeniana do tempo messiânico. Em Il tempo che resta (Agamben, 2000), lendo a Epístola aos Romanos de Paulo, Agamben distingue com rigor o tempo messiânico do tempo escatológico: o messiânico não é o fim do tempo (éschaton), mas «o tempo do fim», «o tempo que o tempo leva a acabar» — o ho nyn kairós, o «tempo de agora». Não é um outro tempo que viesse depois do cronológico: é uma contracção, uma transformação interna do tempo cronológico, que o torna habitável de outro modo. Eis a tradução conceptual exacta do pêndulo de Santos: o poeta não viaja para outro lugar no espaço — «houve tempo, não houve espaço» (Santos, 2026) —, ele contrai o tempo, fá-lo «pender para o passado» e, simultaneamente, inclina-se para o futuro. A «viagem no tempo» de Santos é o kairós agambeniano: o agora que resta.

E o que é, neste agora, o poeta? É a figura do restotò leîmma, a she’erit de Israel —, «aquilo que impede o todo de coincidir consigo mesmo», como escrevi no ensaio companheiro. O resto não é uma parte que sobeja: é a brecha estrutural por onde a totalidade se mostra incompleta e por onde a promessa sobrevive ao seu próprio fracasso. O poeta que «fica, partindo» é, rigorosamente, um resto: não coincide com o lugar (não fica de vez), nem dele se exclui (não parte de vez), e nessa não-coincidência mantém aberto o intervalo. Aqui se ilumina a fórmula paulina que Agamben faz sua: o «hos me», o «como não» — viver a condição própria «como não» a vivendo, possuir «como não» possuindo, chorar «como não» chorando. O poeta de Santos habita o lugar hos me: está «como não» estando, parte «como não» partindo. «Está e não está, / Não está / E volta a estar» (Santos, 2026): a definição lírica perfeita do hos me messiânico.

Resta a operação que dá ao tempo messiânico a sua eficácia: a katargesis, o tornar-inoperante. O Messias não destrói a lei nem o lugar: torna-os inoperantes (katargeîn), desactiva-os, suspende a sua operação para os abrir a um uso novo. É a inoperosità que Agamben pensará em obras ulteriores como o coração da política e da arte por vir. Ora, é precisamente isto que faz o poeta com o lugar: torna-o inoperante como lugar — «o lugar cede ao tempo» (Santos, 2026) — para o reabrir como condição, como intervalo, como uso. O «refresh» de que Santos fala, esse reiniciar em que «no retorno já tudo mudou», é a katargesis em acto: a desactivação do lugar fixo e a sua reabertura como tempo vivo. E a «redenção» que Santos identifica com a arte — «opção pelo tempo que a nossa alma habita» (Santos, 2026) — é o nome teológico desta inoperância criadora. A perspectiva é, neste estrato, fontalmente agambeniana: lê-se o intervalo do poeta não como privação, mas como potência — como o lugar onde, suspensa a operação do mundo, algo de novo pode ainda advir.

3. A Différance, o Rasto 
e a Restance - Derrida

Se Agamben dá ao intervalo o seu tempo, Derrida dá-lhe a sua escrita. Pois o que Santos descreve — um presente que nunca está pleno, sempre habitado pela ausência do passado e pela antecipação do futuro — é, ponto por ponto, a estrutura que Derrida nomeou différance. Em La voix et le phénomène (Derrida, 1967a) e em La différance (Derrida, 1972) mostra-se que o presente vivo (a lebendige Gegenwart de Husserl) nunca é uma plenitude simples: ele é constituído pela retenção do que já não é e pela protensão do que ainda não é, e logo «contaminado», desde sempre, pela não-presença. O presente é um efeito de diferimento — de um adiar (différer) que é também um diferir (différer): nunca aqui, nunca agora por inteiro. O «entre a presença e a ausência, entre o presente e o passado» de Santos (2026) é o nome poético da différance: o intervalo não é um acidente que sobrevém a presenças plenas — é a condição de que toda a presença é apenas um efeito tardio.

Daí decorre a figura derridiana que melhor diz o poeta de Santos: o rasto (la trace). Em De la grammatologie (Derrida, 1967b) o rasto é «o que não se deixa resumir na simplicidade de um presente»: é a marca de uma ausência, a presença de algo que já partiu. Ora, Santos di-lo com uma exactidão que comove: «as pegadas são as palavras» (Santos, 2026). As huellas de Machado, as marcas «de quem passou por ali», são o rasto derridiano — a escrita como inscrição de uma passagem que, ao inscrever-se, já se ausentou. O poeta não deixa presenças: deixa rastos. E porque o rasto é, por definição, o que resta de uma presença ausente, encontramos aqui o conceito que liga Derrida a Agamben: a restance — o permanecer do que não está plenamente presente. O poema é uma restance: o que fica, partindo. E acrescentemos a hauntologie de Spectres de Marx (Derrida, 1993): o intervalo do poeta é habitado por espectros — pelo que já não é e pelo que ainda não é —, e «o tempo está fora dos seus gonzos», out of joint, como o chão movediço de quem nunca sai do lugar, mas a quem o lugar nunca espera igual.

Note-se, porém, a subtileza: Derrida não reduz o poema ao jogo vazio dos rastos. Há, na différance, uma abertura ao outro — uma justiça que excede o texto e o convoca. «Il n’y a pas de hors-texte» nunca significou que nada existe fora do texto, mas que não há acesso ao sentido senão pelo diferimento, pela mediação do rasto — e que, nessa mediação, se anuncia uma alteridade irredutível. É exactamente o que faz o poeta de Santos quando «bate à porta dos que também gostam de assim viajar» (Santos, 2026): a sua escrita-rasto não se fecha em si, abre-se ao outro, à «liturgia dos amantes da palavra». O rasto chama. E é nesse chamamento que o estrato derridiano se entrega, sem ruptura, ao estrato seguinte — o de Levinas.

4. O Intervalo do Rosto e a Noite
- Levinas e Catherine Chalier

Há em Santos uma palavra que a desconstrução por si só não esgota: «desencontro». O poeta «sobrevive aos desencontros, que são como os naufrágios» (Santos, 2026). Ora o desencontro supõe um encontro falhado — supõe o outro. E é aqui que Levinas se torna indispensável. Toda a ontologia do espaço intermédio que Santos descreve corre o risco de ser uma ontologia solitária: o poeta sozinho no seu pêndulo, dialogando com a sua memória e o seu desejo. Levinas vem lembrar que o intervalo só é habitável porque, antes de tudo, há o rosto de outrem — que a primeira ausência não é a do lugar, mas a do outro que parte ou tarda. Em Le temps et l’autre (Levinas, 1948) o tempo não é o horizonte solitário de um sujeito: é «a própria relação do sujeito com outrem». O futuro é o outro; o intervalo entre presente e futuro é a distância que me separa e me liga àquele que vem. O desencontro de Santos é, levinasianamente, a estrutura mesma do tempo: nunca coincidimos com o outro no instante, e é dessa não-coincidência que nasce o tempo — e o poema.

Mais fundo ainda: em De l’existence à l’existant (Levinas, 1947) Levinas descreve o il y a — o «há» anónimo e impessoal, o murmúrio do ser que persiste quando todos os entes se ausentam, o rumor da existência sem existente. É a insónia, a vigília sem sujeito, o ruído de fundo do mundo. Ora não é exactamente este o «mar de ondas revoltas» em que o poeta «está em permanente naufrágio» (Santos, 2026)? O il y a é o mar; e o que Levinas chama hipóstase — o instante em que um sujeito se levanta sobre o anónimo e diz «eu» — é o «espírito» que «chega para resgatar a alma» e «levanta voo» (Santos, 2026). O naufrágio permanente é a exposição perpétua ao il y a; o poema é a hipóstase que, a cada instante, se arranca dele sem nunca o abolir. Levinas dá-nos, assim, a metafísica do naufrágio de Santos: não há terra firme, há a vigília sobre o abismo, e o sujeito é o que, montado em palavras, se levanta sobre ela.

É Catherine Chalier, leitora maior de Levinas e da fonte hebraica, quem nos oferece o último refinamento. Em La nuit, le jour — Au diapason de la création (Chalier, 1998) Chalier pensa a noite não como ausência do dia, mas como a sua condição matricial: há um saber da noite, uma fecundidade do escuro, que o pleno meio-dia da presença ignora. Como não ouvir aqui Santos: «não se faz poesia com o sol a bater-nos no rosto»; «ela acontece sempre na penumbra» (Santos, 2026)? A penumbra de Santos é a noite de Chalier — não privação de luz, mas o diapasão em que a criação se afina. E em La trace de l’infini (Chalier, 2002), Chalier mostra que o rasto (a trace levinasiana) não é apenas marca de uma ausência: é o modo como o Infinito passa sem se deixar capturar, deixando no rosto de outrem o vestígio de uma transcendência que não se reduz a presença. O rasto-palavra do poeta, lido com Chalier, não é só memória do perdido: é o lugar onde o infinito — a «sede de infinito» de Florbela — deixa o seu vestígio sem jamais se dar como objecto. A esperança, que Chalier pensa contra todo o desespero, é precisamente isto: a fidelidade ao rasto de um infinito que nunca está, mas que sempre chama.

5. A filogénese moderna 
Nietzsche, Pessoa, Valéry

Resta cartografar a linhagem moderna que o segundo ensaio convoca e fazê-lo filogeneticamente — isto é, vendo como cada figura herda e transforma a anterior. Primeiro, Nietzsche. O «eterno retorno» que Santos põe na boca do poeta (Santos, 2026) não é, em Nietzsche, uma cosmologia circular: é o «peso mais pesado» (das schwerste Gewicht, Die fröhliche Wissenschaft, §341), a prova ética suprema — querer que tudo regresse, inclusive o sofrimento, inclusive o naufrágio, e dizê-lo com alegria. O poeta de Santos, que «nunca naufraga porque está em permanente naufrágio», é já uma figura nietzschiana: não escapa ao abismo, dança sobre ele. O tic, tac do pêndulo é o ritmo do amor fati — o sim a tudo o que retorna. Zaratustra ensina-o; Ecce Homo vive-o; e o poeta repete-o, transformando o vai-e-vem em afirmação.

Depois, Pessoa — e aqui a filogénese toca o coração da questão. A heteronímia não é um jogo literário: é uma ontologia do intervalo. «Eu sou um outro» significa que o sujeito nunca coincide consigo, que cada nome é um resto, cada voz um fragmento que se afirma sem pretender ser o todo. O poeta que «fica, partindo» é heteronímico por natureza: parte de si para se tornar outro e, ao regressar, já não é o mesmo. E a fórmula que Santos colhe em Bernardo Soares — «saudades do que não aconteceu» (Pessoa, apud Santos, 2026) — é a expressão mais perfeita da estrutura do resto: a saudade não de um passado que foi, mas de um passado que poderia ter sido e não foi; um luto pelo possível, uma nostalgia do virtual. Foi a esse paradoxo que dediquei o ensaio O Passado que Ainda Não Aconteceu (Veríssimo, 2026c): a tese de que o tempo da alma não é o do calendário, e que o que mais funda a existência é, muitas vezes, aquilo que nela faltou acontecer. O poeta de Santos vive dessa falta fecunda.

Por fim, Valéry, que fecha a linhagem com a figura da consciência que se contempla a oscilar. O Monsieur Teste, os Cahiers, La Jeune Parque — toda a obra de Valéry é a vigília de um espírito que se observa a si mesmo no acto de pensar, que faz do intervalo entre o eu e o eu o próprio objecto do poema. «Le vent se lève!… il faut tenter de vivre!» (Valéry, 1922): no Cimetière marin é do limiar entre a imobilidade contemplativa e o sopro que rompe que nasce a decisão de viver — exactamente o instante em que «o espírito levanta voo» (Santos, 2026). A oscilação, em Valéry, não é mera repetição: é «a mente a ver-se a si mesma no intervalo», poesia em estado puro. E é esta a herança que Santos recolhe, sem o citar: a de uma poética que não descreve o mundo, mas a consciência a habitar o seu próprio entre. De Heráclito a Valéry, de Platão a Pessoa, há uma única e longa linhagem — a do pensamento do intervalo —, e o Discurso sobre a Poesia de Santos é o seu mais recente elo.

ESTRATO PSICANALÍTICO 
O fort-da, o espaço transicional 
e o naufrágio
1. O carretel 
- Freud e a compulsão à repetição

O que a filosofia pensa como intervalo, a psicanálise viu, primeiro, como jogo de criança. Em Além do Princípio do Prazer (Freud, 1920) Freud observa o neto de um ano e meio, que, na ausência da mãe, lança para longe um carretel preso a um fio, proferindo um prolongado «o-o-o-o» (que interpreta como fort, «foi-se»), e logo o puxa de volta, saudando o seu reaparecimento com um jubiloso «da» («aqui está»). Fort — da. Foi-se — aqui está. Eis o pêndulo de Santos na sua cena originária: «Está e não está, / Não está / E volta a estar» (Santos, 2026). O tic é o fort; o tac é o da. A criança, incapaz de reter a presença da mãe, fá-la simbolicamente partir e regressar, e nessa repetição converte a passividade sofrida (ser abandonado) em actividade dominada (mandar embora e fazer voltar). O poema é o carretel do adulto: não retém o objecto amado nem o tempo perdido — fá-los partir e regressar no ritmo da palavra, «montado em palavras, que as leva o vento» (Santos, 2026).

Mas Freud vai mais longe, e o seu passo é decisivo para Santos. A repetição do fort-da revela uma tendência que está «além» do princípio do prazer: a compulsão à repetição (Wiederholungszwang), o impulso a reencenar o desprazer, a regressar ao trauma, a voltar sempre ao mesmo naufrágio. «Está em permanente naufrágio» (Santos, 2026): a fórmula de Santos é a definição clínica exacta da compulsão à repetição. Foi a este mecanismo que dediquei o ensaio Falo de Onde Não Estou (Veríssimo, 2026), leitura do poema Desencontro de Santos à luz da repetição freudiana: aí mostrei que o desencontro não é um falhanço acidental do encontro, mas a sua forma repetida e estrutural — que se desencontra sempre do mesmo modo, e que é nessa fidelidade ao desencontro que o sujeito se constitui. O poeta não sobrevive ao naufrágio apesar de o repetir: sobrevive porque o repete, porque faz do regresso ao abismo o seu próprio voo. «Naufragar é preciso… para sobreviver como poeta» (Santos, 2026): é a sublimação da compulsão em canto.

2. A área intermédia
- Winnicott e o espaço transicional

Nenhum conceito psicanalítico traduz tão exactamente a ontologia do espaço intermédio de Santos como o de espaço transicional, de Donald Winnicott. Em O Brincar e a Realidade (Winnicott, 1971), Winnicott descreve uma «terceira área» da experiência humana — nem puramente interna (subjectiva) nem puramente externa (objectiva) —, um «espaço potencial» que se abre entre o bebé e a mãe, entre o eu e o não-eu. É nesse espaço que surge o objecto transicional (a fralda, o ursinho) — o primeiro «não-eu» que é ainda meio-eu —, e é nele que se enraízam, para toda a vida, o brincar, a cultura, a religião e a arte. O espaço transicional é, literalmente, um intervalo: o lugar paradoxal onde a questão «isto fui eu que criei ou isto encontrei?» nunca deve ser colocada, porque a sua não-resolução é a própria condição da criatividade.

Ora é exactamente este o «não-lugar» do poeta de Santos. Quando Santos escreve que «o que procuram, afinal, já está neles», mas que partem mesmo assim «para ver se encontram o que anteviram» (Santos, 2026), descreve com precisão o paradoxo transicional: o objecto poético é, ao mesmo tempo, criado e encontrado, interno e externo, presença e ausência. O «chão movediço» é o solo transicional — nem firme realidade externa, nem pura fantasia interna, mas a área intermédia onde ambas se interpenetram. E a fórmula de Santos — «o lugar dos poetas é mais condição do que lugar» (Santos, 2026) — é a definição winnicottiana do espaço potencial: não um sítio, mas um modo de habitar o entre. A arte, dirá Winnicott, é o prolongamento adulto do brincar; e o poeta de Santos, que «viaja e constrói caminho al andar» (Santos, 2026), é o adulto que nunca deixou de brincar na terceira área — que fez do espaço transicional a sua morada permanente.

3. A coisa, o negativo e a mãe morta 
- Lacan, Bion, Green

Aprofundemos o que, no intervalo, faz falta — pois o desejo, que move o poeta, é desejo de uma falta. Lacan dá-lhe o nome de das Ding, a Coisa: o objecto absoluto e perdido em torno do qual o desejo gravita sem nunca o alcançar, e que a sublimação «eleva à dignidade da Coisa» (Lacan, 1986). O «infinito» que «nunca se alcança» (Santos, 2026) é a Coisa lacaniana: não um objecto que faltasse encontrar, mas a falta erigida em causa do desejo — o objet petit a, resto da operação que constitui o sujeito. E em Os Quatro Conceitos Fundamentais (Lacan, 1973), Lacan pensa a repetição como o encontro sempre falhado com o real — a tuché que se manifesta como desencontro (a sua palavra é, notavelmente, la rencontre manquée). O desencontro de Santos é a tuché lacaniana: o real só nos visita falhando o encontro, e o poema é a rede (automaton) de significantes que se tece em torno desse buraco.

Wilfred Bion oferece-nos o avesso luminoso desta falta. A sua noção de reverie — o estado de devaneio receptivo em que a mente materna acolhe e transforma o que ainda não tem forma — e a sua célebre injunção, trabalhar «sem memória nem desejo» (Bion, 1970), descrevem a disposição exacta de que nasce a poesia, segundo Santos: «na penumbra», «numa atmosfera de vazio espacial» (Santos, 2026). O poeta é a função-alfa que transforma o «il y a» — os elementos beta, brutos, do naufrágio — em sonho dizível. E Bion lembra que o pensamento nasce de uma ausência: é o seio ausente que, não sendo alucinado, força a criança a pensar. «Saudades do que não aconteceu» (Pessoa, apud Santos, 2026): o pensamento, como o poema, nasce no lugar de um objecto que falta.

Resta a sombra mais densa, que André Green soube nomear. Em O Trabalho do Negativo (Green, 1993) e no ensaio sobre «a mãe morta» Green descreve o corpo sem alma — a presença física de quem está psiquicamente ausente, a mãe presente, mas desinvestida, cuja ausência interior deixa no filho um vazio que nenhuma presença ulterior preenche. Como não estremecer ao ler Santos: «resta o corpo existencialmente inerte e mudo, porque a alma migrou para outro lugar. Corpo sem alma (e há muitos por aí)» (Santos, 2026)? O corpo sem alma de Santos é a mãe morta de Green: a forma extrema do espaço intermédio quando ele se congela — quando a alma parte e não regressa, quando o pêndulo pára. E aqui se mede toda a gravidade da advertência de Santos: «Um poeta parado é poeta morto» (Santos, 2026). Parar o pêndulo é a morte psíquica; manter o fort-da, o vai-e-vem, a oscilação, é manter viva a alma contra a tentação do congelamento. O trabalho do negativo, em Green, pode ser mortífero (a desligadura) ou criador (a simbolização); a poesia é a face criadora do negativo — o vazio que, em vez de matar, faz cantar.

ESTRATO CABALÍSTICO-ESTÉTICO 
O vazio, a centelha 
e a metaplasticidade
1. O tzimtzum e a penumbra 
- A contracção que abre o intervalo

Há uma tradição que pensou o intervalo não como psicologia nem como ontologia, mas como cosmogonia — e essa tradição é a Cabala luriânica, tal como Gershom Scholem a reconstituiu e Aryeh Kaplan a transmitiu. No princípio, ensina Isaac Lúria, o Ein Sof, o Infinito sem limite, ocupava tudo; para que houvesse mundo, teve de se retrair, de abrir em si um vazio — o tehiru — onde o finito pudesse vir a ser. A esta auto-retracção do divino chama-se tzimtzum: a criação começa não por uma efusão, mas por uma contracção — Deus faz lugar ao mundo ausentando-se. Ora não é isto, exactamente, o que Santos descobre quando escreve que a poesia «acontece sempre na penumbra e numa atmosfera de vazio espacial», que «não se faz poesia com o sol a bater-nos no rosto, quando há excesso de realidade» (Santos, 2026)? O excesso de realidade — o pleno meio-dia da presença — é o Ein Sof não contraído, que tudo ocupa e nada deixa ser. A penumbra é o tzimtzum: a retracção da luz que abre o vazio onde a palavra pode nascer. O poeta repete, em pequeno, o gesto cosmogónico: contrai a presença para abrir o intervalo. «Esbate-se o presente (…) e aviva-se o tempo» (Santos, 2026) — eis o tzimtzum da alma.

2. A metaplasticidade hematonómica
- A tela como corpo em travessia

Detenhamo-nos agora na tela (veja supra), pois é nela que o estrato se torna visível. Travessia divide-se em três grandes massas verticais, como um tríptico interior: à esquerda, a forma escura, texturada, quase telúrica, que evoca casca, húmus, matéria primal; ao centro, a grande figura dourada que se oferece e se dissolve em tons quentes; à direita, o negro denso que acolhe uma segunda presença, quase espectral, marcada por padrões circulares. A leitura crítica que tenho por justa cunhou para esta obra um conceito que faço meu: o de metaplasticidade hematonómica. Metaplasticidade, porque a forma não é fixa: é capaz de mudar de estado, de densidade, de identidade — exactamente como o poeta que «está e não está». Hematonómica, porque esse movimento obedece a uma lógica de fluxo vital, «como se a pintura tivesse sangue»: as linhas estruturais — finas, nervosas, riscadas com urgência — «não delimitam apenas; distribuem o cromatismo», funcionando «como veias condutoras», «esqueleto e, simultaneamente, sistema circulatório da pintura».

Lida cabalisticamente, a tela é uma cena de tzimtzum, shevirá e tiqqun. A massa telúrica da esquerda é o húmus primordial, a matéria por informar; o negro da direita, com os seus padrões circulares, é a qelippah — a casca, o invólucro que acolhe e aprisiona; e a figura central, dourada, que «se esvai deliberadamente», cujas curvas «são simultaneamente afirmadas e negadas pelas camadas que as atravessam», é a luz vertida nos vasos — luz que não se fixa, que circula, que «sangra de uma zona para outra». O esvaecimento da figura não é fraqueza: «é forma de relação» — «o eu que se oferece e, ao mesmo tempo, se entrega ao outro (ou ao nada)». Eis a shevirat ha-kelim, a quebra dos vasos, pintada: a forma que não pode conter a intensidade que a atravessa e que, por isso, se dissolve, espalhando as suas centelhas (nitzotzot) pela superfície. E o vermelho que «explode na parte superior como flor ou órgão» não está «no» corpo — «é o corpo a manifestar-se»: é a centelha que rompe a casca, o nitzotz que insiste em arder.

Há, na descrição da tela, uma intuição que toca o coração da Cabala e que merece nome próprio: a da decifração do infinitamente pequeno. «Cada centímetro quadrado deste quadro contém um universo de marcas minúsculas»; «o infinitamente pequeno não é detalhe decorativo — é o lugar onde a obra se decide»; «o macro só se compreende plenamente quando se desce ao nível celular da pintura». Esta é, verbatim, a doutrina luriânica das centelhas: a redenção do mundo (tiqqun olam) não se faz por grandes gestos, mas pela recolha paciente das centelhas dispersas no ínfimo — em cada faísca aprisionada num fragmento de casca. Escrevi-o noutro lugar, a propósito do bicho da terra na poesia de Santos: o que persiste no mundo decaído é «o Ein Sof presente na existência mais ínfima: o infinito alojado no finito, o todo contido no quase-nada» (Veríssimo, 2026a). A tela de Santos é a prova pictórica desta tese: é no risco mínimo, na hesitação do pincel, no instante em que «a cor sangrou para além do previsto», que a grandeza se decide. O infinitamente pequeno é o nitzotz; e a arqueologia visual que a tela exige é o tiqqun do olhar.

Reconheça-se, ainda, a ressonância hermética que a obra convoca, e que a perspectiva filogenética não deve calar. A tríade cromática da tela — o negro telúrico, o dourado que arde, o vermelho que explode — repete a sequência da opus alquímica: a nigredo (o negro, a putrefação fecunda), a citrinitas (o amarelo-ouro, o despertar da luz) e a rubedo (o vermelho, a pedra, o sangue do espírito). A metaplasticidade hematonómica é, em rigor, um solve et coagula: a forma dissolve-se (solve) para se recompor noutro estado (coagula). E o princípio que rege a passagem do macro ao micro — «o macro só se compreende ao nível celular» — é a Tábua de Esmeralda hermética: «quod est inferius est sicut quod est superius», o que está em baixo é como o que está em cima. Jung viu na alquimia o teatro projectado da individuação (Jung, 1944); a tela de Santos é esse teatro: um corpo que atravessa os estados da matéria como a alma atravessa os estados do ser, tic, tac, entre a dissolução e a coagulação.

3. O resto e a Shekhiná 
- A travessia como tiqqun

Mas a Cabala luriânica não termina na quebra. Ao tzimtzum e à shevirá segue-se o tiqqun: a reparação, o recolher das centelhas dispersas e o seu retorno à origem — tarefa infinita, e que é obra não de Deus apenas, mas do homem. Cada gesto justo, cada palavra verdadeira, cada centelha resgatada da casca contribui para a reparação do mundo. Ora é precisamente esta a função que Santos atribui à arte quando a chama «redenção» (Santos, 2026): o poema é um acto de tiqqun — recolhe, na palavra, a centelha do que se perdeu e devolve-a à circulação do sentido. E aqui o resto messiânico (estrato filosófico) e a centelha cabalística (estrato presente) revelam-se um só: tò leîmma e nitzotz são o mesmo — aquilo que, restando da quebra, mantém aberta a possibilidade da reparação. O poeta é o recolhedor de restos; e o seu pêndulo, esse ir e voltar que «nunca consegue parar» (Santos, 2026), é o movimento mesmo do tiqqun: descer à casca, resgatar a centelha, elevá-la, e descer de novo.

Há, por fim, uma figura que reúne todos os fios: a Shekhiná — a presença divina que, segundo a Cabala, se exilou com Israel e vagueia pelo mundo decaído, habitando o intervalo entre o céu ausente e a terra. A Shekhiná é, por excelência, a presença em ausência: Deus que está, estando ausente; que parte, ficando. Não é esta a definição mesma do poeta de Santos — «está e não está», «fica, partindo»? O poeta é uma figura da Shekhiná exilada: habita o «não-lugar», a «terra de ninguém» (Santos, 2026), porque é dele a missão de manter acesa, no exílio, a centelha da presença. E o «Amen» com que Santos faz o poeta fechar o seu canto (Santos, 2026) não é um ornamento devoto: é a palavra que, em hebraico (amén, da raiz aman, firmeza, fidelidade), sela a fidelidade ao que não se vê — a confiança no rasto do infinito que Chalier pensou. O poeta diz Amen ao tempo que resta: afirma, sorrindo, a travessia que não cessa.

REINVENÇÃO DO TEMA
A travessia imóvel

Estratificado o texto de Santos, podemos agora reenunciar o seu tema por inteiro — não para o contradizer, mas para o cumprir num registo que o argumento patente não podia alcançar. A tese reinventada é esta: o espaço intermédio não é uma privação a vencer, mas uma potência a habitar; e o que parece a maldição do poeta — não fixar lugar, não coincidir consigo, naufragar sem cessar — é, lido nos três estratos, a sua mais alta dignidade. Filosoficamente, o intervalo é o kairós messiânico, o tempo que resta, a différance que faz de toda a presença um efeito tardio e de todo o poema um rasto que chama. Psicanaliticamente, é o espaço transicional, a terceira área onde o real e a fantasia se interpenetram, e onde o fort-da converte a perda sofrida em canto dominado. Cabalisticamente, é o tzimtzum que abre o vazio criador, a shevirá que dispersa as centelhas, o tiqqun que as recolhe. Três nomes de um único lugar: o entre.

Chamo a esta reinvenção a travessia imóvel — oxímoro deliberado, fiel às fórmulas de Santos («mobilidade estática», «permanência dinâmica»). A travessia é imóvel não porque não haja movimento, mas porque o movimento não é deslocação no espaço: é transformação no tempo. O poeta atravessa sem sair do lugar porque o que atravessa não é uma distância, mas uma espessura — a espessura do tempo, da memória, do desejo, do exílio. Já em A Intriga Ética (Veríssimo, 2001) sustentava que a ética não é um sistema de regras sobreposto à acção, mas a própria intriga em que a acção se vê convocada por um outro que a precede e a julga. Transposta à poética, a tese diz: o poema não é um objecto que o poeta produza a partir de um lugar seguro, mas a intriga em que o sujeito se descobre refém de uma alteridade — do tempo perdido, do outro ausente, do infinito que chama. «O sujeito só é sujeito porque é refém do outro, responsável antes de qualquer escolha» (Veríssimo, 2026a): o poeta é refém da travessia e é nessa condição de refém, e não na posse, que se cumpre.

A reinvenção tem uma consequência ética que importa explicitar, sob pena de o intervalo se tornar puro esteticismo. Habitar o entre não é evadir-se do real: é a forma mais exigente de o enfrentar. O poeta que «pende sempre mais para o lugar onde não está» (Santos, 2026) não é um fugitivo — é uma sentinela. Pende para a ausência porque é ali que estão os que partiram, os que faltam, os que ainda não vieram; pende para o passado porque é ali que jazem as centelhas por recolher; pende para o futuro porque é ali que se inclina a esperança. A «paz inquieta» de que Santos fala (Santos, 2026) é o nome exacto desta condição: nem a falsa paz da presença plena (que é esquecimento), nem o puro desassossego do naufrágio (que é desespero), mas a vigília fiel de quem se mantém no limiar — inclinado, como diz Santos, e endireitado «só por momentos» pela poesia. A travessia imóvel é uma ética da fidelidade ao intervalo.

CARTOGRAFIA DAS CORRENTES LATENTES

Pela probidade do método, explicito as correntes que, não estando patentes no texto de Santos, foram por mim convocadas para o estratificar, e o lugar exacto da sua entrada. Do estrato filosófico, na raiz filogenética: Heráclito (a palíntropos harmoníe, o fluxo) e Platão (o metaxý, Eros-desejo do Banquete), fontes arcaicas do pensamento do intervalo. Em posição fontal: Giorgio Agamben (o tempo che resta, o ho nyn kairós, o tò leîmma, o hos me, a katargesis, a inoperosità), de quem se lê a archeologia do tempo messiânico como chave de todo o ensaio. Em registo pós-estrutural: Jacques Derrida (a différance, o rasto, a restance, a hauntologie), que desnaturaliza a presença; Emmanuel Levinas (o il y a, a hipóstase, o tempo como relação com outrem, o rasto do Infinito), que dá ao naufrágio a sua metafísica e ao desencontro a sua ética; e Catherine Chalier (a noite criadora, o rasto do infinito, a esperança), que afina a penumbra de Santos no diapasão da criação. Da linhagem moderna: Nietzsche (o eterno retorno como amor fati), Pessoa (a heteronímia como ontologia do resto, a «saudade do que não aconteceu»), Valéry (a consciência que se contempla no intervalo), com Florbela Espanca, Lorca, Novalis e Machado já patentes no texto.

Do estrato psicanalítico: Sigmund Freud (o fort-da, a compulsão à repetição, o luto), que dá ao pêndulo a sua cena originária; Donald Winnicott (o espaço transicional, a terceira área, o brincar), que oferece a tradução mais exacta da ontologia do espaço intermédio; Jacques Lacan (das Ding, o objet a, a tuché como encontro falhado), Wilfred Bion (a reverie, a função-alfa, o pensar a partir da ausência) e André Green (o trabalho do negativo, o corpo sem alma / a mãe morta), que sondam a falta de que o desejo se alimenta e o congelamento que o ameaça. Do estrato cabalístico-estético: Isaac Lúria e Aryeh Kaplan (tzimtzum, tehiru, shevirat ha-kelim, qelippot, nitzotzot, tiqqun, Shekhiná), com Gershom Scholem por intérprete, e Walter Benjamin (o Jetztzeit, o tempo-de-agora messiânico) como charneira entre o místico e o histórico; mais a tradição hermético-alquímica (a Tábua de Esmeralda, o solve et coagula, a tríade nigredo–citrinitas–rubedo), com Jung por leitor, convocada pela cromática da tela. Convoquei, enfim, dos meus próprios textos, A Intriga Ética (2001), A Saudade e o Bicho da Terra (2026a), O Passado que Ainda Não Aconteceu (2026c) e Falo de Onde Não Estou (2026), cujas formulações foram integradas ipsis litteris. Todas estas correntes convergem, não por ecletismo, mas porque o objecto — a ontologia do intervalo — as chama, cada uma do seu ângulo, à mesma pergunta sobre o entre.

SÍNTESE TRIVALENTE 
O acorde do intervalo

Reunamos as três notas no único acorde que o método FPK procura. No estrato filosófico, vimos que o intervalo de Santos é o kairós que resta (Agamben), o efeito de différance e o rasto que chama (Derrida), a relação com o outro e o vestígio do infinito (Levinas, Chalier), e que toda uma linhagem — de Heráclito a Valéry — pensou o entre como o lugar próprio do desejo e do canto. No estrato psicanalítico, vimos que esse intervalo tem uma cena originária (o fort-da freudiano), uma morada (o espaço transicional de Winnicott), um motor (a falta, das Ding, a reverie) e uma ameaça (o congelamento, o corpo sem alma de Green). No estrato cabalístico-estético vimos que o intervalo é cosmogonia (o tzimtzum da penumbra), pintura (a metaplasticidade hematonómica da Travessia, lida entre a qelippah e a centelha) e tarefa (o tiqqun, o recolher dos restos, o exílio fiel da Shekhiná).

As três notas dizem, cada uma no seu registo, a mesma verdade: que o poeta — e, com ele, todo o que cria — é um ser do entre e que essa condição não é defeito a corrigir. mas potência a habitar. Onde outro autor escolheria uma só nota — a melancolia da perda ou a euforia da presença —, este ensaio compõe o acorde: a perda e o canto, a ausência e o rasto, o naufrágio e o voo, a casca e a centelha. Soam juntas, e é nesse soar-em-conjunto, e só nele, que a travessia se mantém — como na tela, onde o corpo dourado não é absorvido pela massa escura nem se evapora no negro, mas permanece, vibrante, no limiar em que um se torna no outro. Palíntropos harmoníe: a harmonia de tensão inversa, a do arco e da lira. O poeta de Santos é essa corda tensa entre a presença e a ausência; e o seu tic, tac é o som — dissonante e por isso vivo — de uma corda que se recusa a parar, porque parar seria, como ele próprio o disse, morrer.

Resta dizer, em conclusão, por que importa esta travessia. Num tempo de excesso de presença — de plena luz, de saturação do espaço, de abolição do intervalo —, o poeta-pêndulo de Santos é uma resistência e uma promessa. Resistência, porque recusa o «sol a bater no rosto», o «excesso de realidade» (Santos, 2026), e reivindica a penumbra, o vazio fecundo, o direito ao entre. Promessa, porque guarda, no exílio do não-lugar, a centelha do que ainda pode advir — o tempo que resta, a palavra por dizer, o encontro depois do desencontro. «Nunca paramos», diz o segundo ensaio, ecoando o tic, tac de Santos. E é verdade: não paramos, porque parar é morrer; mas também porque, enquanto o pêndulo oscila, há ainda mundo por reparar, há centelhas por recolher, há um Amen por pronunciar à beira do mar. A travessia é imóvel, e por isso interminável. Tic, tac. Tic, tac.

REFERÊNCIAS
Fontes patentes (citadas no texto 
de J. A. Santos)

Espanca, F. (1931). Charneca em flor. Lisboa: J. Rodrigues & C.ª.

García Lorca, F. (1998). Obras completas (Vols. 1–4). Barcelona: Galaxia Gutenberg. (Original work published 1936.)

Machado, A. (1912). Campos de Castilla. Madrid: Renacimiento.

Novalis. (1965). Schriften (P. Kluckhohn & R. Samuel, Eds.). Stuttgart: Kohlhammer. (Original work published c. 1798.)

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Santos, J. A. (2022). Travessia [Pintura sobre papel de algodão, 93 × 118 cm]. Lisboa: colecção do autor.

Fontes latentes
(convocadas pelo ensaísta)

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Winnicott, D. W. (1971). Playing and reality. London: Tavistock.

Textos do autor integrados 
(ipsis litteris)

Veríssimo, A. M. (2001). A Intriga Ética. Guimarães: Editora Cidade Berço.

Veríssimo, A. M. (2026a). A Saudade e o Bicho da Terra. Adam Romez, Uriel da Costa e a Condição do Homem na Poesia de João de Almeida Santos. Ensaio de Crítica Estética — Matriz FPX. Guimarães: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026c). O Passado que Ainda Não Aconteceu. Ensaio de Crítica Estética — Matriz FPK. Guimarães: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026). Falo de Onde Não Estou. Uma leitura do «Desencontro» de João de Almeida Santos à luz da compulsão à repetição. Ensaio de Crítica Estética — Matriz FPK. Guimarães: edição do autor.

Nihil varietur

Edição erudita definitiva. Texto-fonte de João de Almeida Santos citado ipsis verbis; textos do autor fixados nihil varietur e integrados ipsis litteris. Ortografia portuguesa anterior ao Acordo de 1990. Estrangeirismos em itálico; termos hebraicos e gregos na sua grafia. Referências em APA7, com indicação da cidade de edição.

AMV@06-2026

Artigo

NOVOS FRAGMENTOS (XXVIII)

Para um Discurso sobre a Poesia

João de Almeida Santos

“TRAVESSIA” – JAS 2022 – 93×118, papel de algodão, 310gr, e verniz Hahnemühle, Artglass AR70, em mold. de madeira

PÊNDULO
É o eterno retorno,
Diz à musa
O poeta,
É sempre ir
E voltar,
Tic, tac,
Mas tenho sempre
Uma meta
Antes de
Ao meu chão
Regressar.

NÃO, EU NÃO PARTI DE VEZ, respondi a um Amigo que me perguntava – glosando o meu poema – se, nele, eu já partira de vez.  E mais lhe disse, para acentuar a diferença: Não vês? Os poetas nunca partem de vez. Vão partindo, vão ficando. Ficam, partindo. E partem, ficando. É um autêntico vai-e-vem, sem saírem do lugar. O lugar dos poetas é mais condição do que lugar, não é lugar propriamente dito. No sense of place. Partem para ver se encontram o que anteviram (na memória) antes de partir. É viagem no tempo. E é o desejo, o que os move. A força propulsora do desejo. O que procuram, afinal, já está neles. Partem para um lugar que não é bem um lugar. É o intervalo entre a presença e a ausência. Entre o presente e o passado. Colocam-se ali, nesse ponto axial. E é de estarem ali que lhes vem a intermitência matricial, mas também criativa. Estão sempre a partir, permanecendo onde estão, mas, ao regressarem, o lugar, afinal, já não é o mesmo. É um oásis num deserto. Numa terra de ninguém. A sua existência é uma dinâmica, não uma fixidez. Há sempre como que um refresh. O chão do poeta é mesmo movediço. O movimento acontece em espiral ascendente e progressiva. E no retorno já tudo mudou. É como a mobilidade estática ou como a permanência dinâmica.

O poeta vive num mar de ondas revoltas, mas nunca naufraga. Porquê? Porque está em permanente naufrágio. Naufragar é preciso… para sobreviver como poeta. O naufrágio é o seu ambiente natural. Mas quando a alma se está a afundar (o afundamento recomeça sempre) chega o espírito, animado pela fantasia, para a resgatar, e levanta voo, às vezes para uma ilha perdida, antes de se fazer de novo ao mar onde sempre está a naufragar. Mas, para que isso aconteça, é preciso “ter espírito”. Se não o tiver, ele não chega, como é natural. É o espírito que o leva para a fronteira entre o mar e a terra, entre a presença e a ausência, entre o passado e o futuro. E é ali que começa o voo. E é por isso que ele também sobrevive aos desencontros, que são como os naufrágios. Dá-lhes a volta montado em palavras, que as leva o vento. Às vezes para longe. A vida de um poeta é como um pêndulo (entre a presença e a ausência, entre o presente e o passado, entre a terra e o mar), tic, tac, tic, tac…

Está e não está,
Não está 
E volta a estar,
É sempre
Um vai-e-vem,
Tic, tac,
Nunca consegue
Parar.

Um poeta parado é poeta morto. Ser poeta é uma condição. “Ser poeta é ser mais alto, é ser maior / Do que os homens”, já dizia a nossa Florbela Espanca. “É ter sede de infinito”. Quem tem sede de infinito nunca pode parar. Se pára, não alcança. E esquece e recalca. E fica sujeito às ondulações imperceptíveis da alma, como uma moinha persistente que não pára e se enrola em si mesma, sem sair de si. E há risco de compressão insustentável. Por isso, mesmo que nunca alcance (o infinito nunca se alcança, a não ser no olhar, quando duas linhas paralelas se encontram ou no olhar interior onde, todavia, há sempre a neblina cintilante própria do infinito), tem sempre de caminhar. Hacer camino al andar. E deixar pegadas, sus huellas, como marcas de quem passou por ali em busca do tempo perdido ao sabor das ondas do mar. Tempo que nunca recupera nem alcança. Se alcançasse, morria como poeta. As pegadas são as palavras. Os que vivem em ambiente poético viajam e constroem caminho “al andar”. Por isso, ficando, o poeta viaja e bate à porta dos que também gostam de assim viajar: aqui estou, pronto para a liturgia dos amantes da palavra. Não dos turistas da palavra, mas dos amantes, como queria o Lorca. E, no fim, dirá, sorrindo: Amen.

ONTOLOGIA DO ESPAÇO INTERMÉDIO

Numa primeira aproximação literal, diria que, naturalmente, podemos estar (fisicamente) num lugar e (mentalmente) noutro. Depois, a dúvida: mas se já lá estou (mentalmente) ainda tenho de partir (fisicamente) para completar essa presença? Claro, afinal, são duas coisas diferentes. Dissociação? Ou gosto mais de estar onde não estou? Onde é que estou mais? Onde estou ou onde não estou?  O que é mais importante: estar espiritualmente ou fisicamente?  É legítimo desdobrar-se? Talvez. Manter-se num lugar sem de lá sair é como estar confinado. Ou, então, estou em igual medida em ambos os lugares, dissociado, onde estou e onde não estou… Desdobramento perfeito, que não existe. Pende-se sempre mais para um lado. E o poeta pende sempre mais para o lugar onde não está. Ser movido pela utopia não é, afinal, estar sempre a sair de onde se está? Constrói-se um lugar melhor do que aquele onde se está. Mas a utopia é a ausência de lugar (u-topos). É, pois, um movimento no tempo mental. O que é interessante notar é que quando a alma se desloca (por exemplo, por afecto ou para a utopia) para um lugar diferente (onde está o ser amado ou o lugar ideal) essa deslocação pode ser considerada também física (amo também com o corpo).  A alma tem uma certa fisicidade. Verdadeiramente, ela é o corpo do espírito. Só o corpo, o outro, fica. A alma e o espírito partem e resta o corpo existencialmente inerte e mudo, porque a alma migrou para outro lugar. Corpo sem alma (e há muitos por aí). Muitos dizem que a arte só surge em modo de ausência e de silêncio. Quando o objecto de atenção está noutro lugar ou noutro tempo. Sim, e é por isso que ela nasce num intervalo. Só assim ela pode observar para os dois lados, para trás e para a frente, para o presente e para o passado, para a terra e para o mar. É uma poderosa ontologia do espaço intermédio entre o presente (físico e temporal) e a ausência e o silêncio. A arte é, assim, movimento em busca do que se perdeu e da palavra acerca do que se perdeu. Em livres associações (Novalis). Como diz o desassossegado Soares, ainda mais radicalmente: saudades do que não aconteceu. Não há, pois, lugar, espaço para visitar. Só desejo. Revisitar o desejo. Reconstrução do desejo sob outra forma.  Neste processo não sabemos onde estamos, não há lugar. Ou melhor, é mesmo um intervalo. Porque não houve lugar num não-acontecimento. Houve tempo, não houve espaço.  Que é feito, então, da unidade de um sujeito sem lugar, sem âncora física? O que é feito do corpo? O lugar cede ao tempo. E o corpo também. Na verdade, a alma é mais do tempo do que do espaço. E estamos ao mesmo tempo no presente e no passado, que é como habitar um intervalo. Na terra de ninguém. Estar numa fronteira sem território. Não se faz poesia com o sol a bater-nos no rosto, quando há excesso de realidade e o espaço domina. Ela acontece sempre na penumbra e numa atmosfera de vazio espacial. Esbate-se o presente, o sentido de lugar e aviva-se o tempo, o passado. O intervalo pende para o passado. A poesia é filha do tempo, não do espaço. A redenção é, pois, a arte, que é já uma opção pelo tempo que a nossa alma habita (e é sempre o futuro, para onde passa a pender a alma artisticamente configurada). Estar e não estar no presente, conseguindo fazê-lo com autenticidade? Só com reserva absoluta. Mas para isso é preciso deslocarmo-nos para um intervalo, um “entre”. Pode viver-se, assim, uma certa paz inquieta. É como estar inclinado. O que nos endireita, mas só por momentos, é a poesia. A vida é uma rampa inclinada e a poesia é como um skate espiritual que nos permite percorrê-la, sem as limitações corporais, mas em condições sempre um pouco periclitantes. Por exemplo, deslizar sobre muros existenciais descontínuos, tendo por isso de fazer saltos com o skate poético. É perigosa, a poesia. Produz vertigens. E até quedas aparatosas. Mas é um permanente desafio de liberdade.

JAS@06-2026

 

Ensaio

O VASO QUEBRADO E A LUZ QUE O ATRAVESSA

MUSA, DISSONÂNCIA 
E A FENOMENOLOGIA 
CABALÍSTICO-ESTÉTICA 
DO ACTO CRIADOR

Leitura FPX da ilustração 
«MUSA» 
e do poema «DISSONÂNCIA», de 
João de Almeida Santos (06.2026) 
— entre o Cubismo manifesto, 
o palimpsesto clássico e a 
shevirat ha-kelim
צִמְצוּם · שְׁבִירָה · תִּקּוּן
Tsimtsum · Shevirá · Tiqqun
Filosófico · Psicanalítico 
· Cabalístico-Estético

André Moshe Veríssimo

“MUSA”, de João de Almeida Santos — ilustração digital, Junho de 2026 (original do autor)

«Onde outro autor 
compõe melodia, 
este autor compõe acorde.

 Divisa de AMV

«O trítono / Em tensão / 
Sobre a minha / Harmonia, / 
Aquela que eu / Vou compondo / 
Nos dias / Quentes / 
Da fadada Liturgia»

João de Almeida Santos,

«No princípio, quando o Rei 
concebeu produzir luz, 
gravou sinais na aura suprema»

Zohar, I, 15a (abertura do Bereshit)

LIMIAR

Em Junho de 2026, João de Almeida Santos deu a público um díptico: uma ilustração digital, «Musa», e um poema, «Dissonância», que com ela faz par. Não se trata de uma imagem com legenda nem de um poema com vinheta: trata-se de duas faces de um só gesto, a imagem dizendo no espaço o que o poema diz no tempo, e ambos dizendo o mesmo — a saber, o que custa, o que se quebra e o que resta, no acto de criar. A presente leitura toma esse par como objecto e procura ouvi-lo segundo a grelha FPX[1], em que os três estratos — Filosófico, Psicanalítico e o estrato variável X, aqui Cabalístico-Estético — não soam em sucessão, mas em superposição, como as três notas de um acorde.

A hipótese que articula todo o ensaio pode enunciar-se desde já. O acto criador, em JAS, tem a forma do drama que a cabala luriânica narra a propósito da própria criação do mundo: um recolhimento ou contracção (tzimtzum, צִמְצוּם)[2] que abre o espaço e cala a palavra; uma quebra (shevirat ha-kelim, שְׁבִירַת הַכֵּלִים)[3] em que os vasos se estilhaçam e a dissonância irrompe; e uma reparação (tiqqun, תִּקּוּן)[4] que recolhe os fragmentos e devolve a luz, não suprimindo a fractura, mas redimindo-a. A tese é que «Musa» e «Dissonância» figuram, em registo plástico e poético, este mesmo ritmo ternário — e que nele o clássico (o vaso, o contorno) é quebrado pelo moderno (o cubismo, o trítono) e reconduzido à luz pelo digital (a transparência, o palimpsesto).

Convém ler primeiro o poema, na sua integralidade e ipsis verbis, pois é a sua chave musical — a dissonância — que dá nome ao todo:

POEMA – “DISSONÂNCIA”

JÁ GASTEI
Quase
Todos os poemas,
Cantando
O que não ousas
Ouvir,
Gastaram-se
As palavras
E eu
 Fiquei mais
Pobre de ti,
Incapaz
De te sorrir,
Como quem
Já só fica
Por aqui,
Como quem
Já não consegue
Partir.

EU JÁ NEM SEI
Se é silêncio,
 Ou não,
Se são notas
Dissonantes,
O trítono
Em tensão
Sobre a minha
Harmonia,
Aquela que eu
Vou compondo
Nos dias
Quentes
Da fadada
Liturgia.

MAS NEM PALAVRAS,
Nem cores,
Nem notas
Desenhadas
Nessa pauta
Do silêncio
Onde falas
Em surdina
E não ousas
Declinar,
Eco de palavras
Ocultadas,
Frieza
Também sofrida
De quem não pode
Ou já não sabe
Voar.
(JAS, «Dissonância», 2026; 
nihil varietur)

E convém ter diante dos olhos a imagem. «Musa» é um perfil — rosto, pescoço e ombro — desenhado por uma linha contínua e tensa, de pureza quase ingresca[5], em tons quentes de terra, sépia, ocre e castanho avermelhado. Um eixo vertical divide o campo em duas zonas de valor radicalmente distintas: à esquerda, densa, escura, fragmentada; à direita, plana, luminosa, quase vazia. O perfil emerge do lado escuro e projecta-se para o claro. No terço superior da cabeça, planos geométricos de baixa opacidade — mas estruturada — sobrepõem-se ao contorno e velam-no: não lâminas de vidro que se atravessem, nem placas que o tapem, mas véus que o filtram. (Reproduz-se a prancha em anexo à obra; nesta edição, a sua leitura faz-se por descrição.) Eis o quadro a partir do qual falaremos.

O ARGUMENTO PATENTE
O Díptico e a sua dupla 
Dissonância

A análise estética que acompanha a obra fixa, com justeza, o seu nervo plástico: «Musa» é, escreve-se aí, «um campo de tensão entre tradição e ruptura, entre forma orgânica e construção geométrica, entre o visível clássico e o que permanece subterrâneo na percepção contemporânea». O eixo vertical não é decoração, mas estrutura: cria «uma tensão dialéctica entre figura e fundo, entre o que é construído (geometria) e o que é dado (o vazio luminoso)». E o contorno clássico, observa-se ainda, «não é destruído; é questionado, posto em crise pela geometria». Recolho estas formulações ipsis litteris porque definem o terreno; o que se segue é a tentativa de o pensar em profundidade.

O díptico opera, com efeito, uma dupla dissonância. No espaço, a dissonância é a do contorno ingresco invadido pelos planos cubistas: a linha que define a essência clássica da forma é cortada, relativizada, posta em crise. No tempo, a dissonância é a do poema: o trítono — o intervalo que a teoria medieval chamou diabolus in musica[6] — tensiona-se «sobre a minha harmonia», e o sujeito confessa já não saber «se é silêncio, ou não, se são notas dissonantes». A pintura dá a ver a fractura; o poema dá-a a ouvir. E ambos a inscrevem sob o signo de uma perda: a do que «se gastou» (as palavras, os poemas) e a do que «não pode ou já não sabe voar».

Detenhamo-nos na dissonância enquanto facto musical, pois é aí que o poema cifra a sua verdade. O trítono — três tons inteiros, o intervalo de a fá sustenido — foi, em toda a teoria medieval, o diabolus in musica[7]: o som que a consonância não absorve, que pede resolução e a recusa. Dizer «o trítono em tensão sobre a minha harmonia» é inscrever no centro do canto aquilo que o desfaz — não o ruído, que seria a ausência de ordem, mas a dissonância, que é a ordem ferida por dentro. E quando o poema chama a esse canto «a fadada Liturgia», convoca, em surdina, a antiga doutrina da musica mundana: a harmonia das esferas, a música inaudível do cosmos de que a humana seria o eco. A dissonância de JAS é, então, cósmica antes de ser psicológica: é o trítono que perturba a Liturgia do mundo, a nota que o destino inscreveu na partitura. Simbolicamente, a musa é menos a que inspira a melodia do que a que dita o acorde dissonante — a que faz cantar «o que não ousas ouvir».

Importa ainda fixar um traço que esta versão da obra torna patente: a sua composição é geométrica e quase abstracta. O que à primeira vista é um perfil resolve-se, ao olhar demorado, numa acumulação de traços — da face, do pescoço, dos ombros, do alto da cabeça — que se sedimentam em camadas de baixa opacidade, mas estruturada: uma opacidade de poucos por cento, deliberada, que vela sem tapar. Dessa acumulação nasce uma atmosfera a um tempo sinuosa e estática: sinuosa, pela linha que ondula do crânio ao ombro num único movimento serpentino; estática, porque essa onda se imobiliza, suspensa, como um tempo retido. E há, nesta conjugação — linha serpentina, paleta quente de sépia e ocre, sensualidade contida da nuca e do pescoço —, um erotismo de timbre orientalista, no sentido em que a odalisca de Ingres e a tradição do nu de perfil souberam fazer da pura linha um lugar de desejo. Convém dizê-lo com a cautela que o conceito de «orientalismo» hoje exige (Said)[8]: não se trata de exotismo nem de motivo, mas de uma herança formal — a da linha sinuosa e da carnação velada — que JAS cita e interioriza. O desejo, aqui, não está no nu exposto, mas na linha que se demora: erotismo da forma, e não do tema.

É decisivo notar que, em nenhum dos dois, a dissonância é mero negativo. O poema não abjura a harmonia: di-la «aquela que eu vou compondo», isto é, em processo, inacabada, sustentada apesar do trítono. E a pintura não abole o perfil: mantém-lhe a modelação volumétrica, a «presença carnal», sob a invasão geométrica. Há, num e noutro, uma dissonância retida, não resolvida em consonância fácil nem dissolvida em ruído — e é esta retenção, veremos, que abre o estrato cabalístico, onde a quebra não é o fim, mas o segundo tempo de um ritmo que termina em reparação.

ESTRATO FILOSÓFICO
1.  Merleau-Ponty e Husserl 
A musa não dada, 
mas constituída

A análise da obra fá-lo já notar: «Musa» realiza «uma fenomenologia visual da criação», mostrando «como o acto criativo (noesis) constitui o seu objecto (noema[9]. A formulação é husserliana e exacta. A musa de JAS não é a figura serena e pré-dada da tradição — a inspiração que desceria intacta sobre o poeta —; é, nas palavras da nota, uma musa que «deve ser constantemente re-construída pela consciência do artista», em que «a inspiração não chega como revelação intacta, mas como construção activa». A musa é noema: pólo objectivo constituído pelos actos (noeses) que a visam. Não há musa antes do acto que a faz; ela nasce na intencionalidade que a compõe.

Mas é Merleau-Ponty quem dá a esta fenomenologia o seu corpo. Em L’Œil et l’Esprit[10], o pintor não copia um visível prévio: instaura-o. A linha não imita um contorno que preexistisse no mundo; é, diz Merleau-Ponty, o eixo de um sistema, a nervura segundo a qual o visível se organiza e advém à presença. Ora é exactamente isto que faz a linha de «Musa»: não decalca um rosto, fá-lo emergir do fundo escuro como a água emerge da fonte. E porque o pintor empresta o seu corpo ao mundo — porque vê com as mãos, e a sua carne (la chair)[11] é do mesmo estofo que a carne das coisas —, o perfil que se forma não é representação de uma musa ausente, mas o lugar onde uma presença se faz. A musa é a obra a ver-se a si própria nascer.

Daqui se compreende a dualidade claro/escuro de outro modo. O lado direito, «luminoso e quase vazio», não é fundo neutro: é o invisível de que todo o visível se destaca, a profundidade (profondeur) merleau-pontiana que não é uma terceira dimensão acrescentada, mas a dimensão mesma do haver-mundo. O perfil não está sobre um fundo; vem de um fundo, e para ele se inclina. Pintar a musa é traçar a linha em que o invisível luminoso consente em tornar-se rosto.

2 . Derrida - O traço, 
o palimpsesto e os espectros 
da história da arte

A nota crítica descreve a sobreposição das formas geométricas como «metáfora perfeita da forma como as influências operam: elas não substituem a forma anterior; sobrepõem-se a ela […]. É um palimpsesto visual». A intuição é rigorosamente derridiana — desde que se entenda o palimpsesto na sua verdade material: não uma superfície que se deixe atravessar, mas uma camada de baixa opacidade que vela a anterior, filtrando-a sem a apagar de todo. Em La vérité en peinture e, mais ainda, em Mémoires d’aveugle[12], Derrida mostra que o traço (le trait) nunca é pura presença: traça-se retirando-se, e o que dá a ver é sempre já um vestígio, um rasto de algo que não está. Os planos velados de «Musa» são a figura visível desse vestígio: cada plano vela e filtra o que está por baixo, e nenhum é origem absoluta. O contorno clássico não é apagado pelo plano cubista — persiste, soterrado, sob ele; insiste sob rasura, no sentido derridiano do termo, presente pela sua própria ocultação.

E porque o que se sobrepõe são camadas — classicismo sob cubismo, perfil grego sob faceta digital —, a obra é literalmente um palimpsesto: uma superfície em que uma escrita anterior persiste sob a posterior. A nota fala, num lance feliz, dos «fantasmas da história da arte que habitam qualquer acto de criação contemporânea». São os espectros de Derrida: Ingres, Policleto, Caravaggio retornam não como citações, mas como assombramentos — presenças que não estão presentes, mas que insistem. O acto criador é, nesta óptica, hauntológico: criar é ser assombrado, e dar forma é negociar com os mortos que habitam a mão.

3.  Adorno e Benjamin 
A verdade da dissonância 
e a aura na era digital

O poema oferece à filosofia da arte o seu conceito mais exacto: o trítono, a dissonância. Em Philosophie der neuen Musik[13], Adorno faz da dissonância o lugar da verdade: contra a falsa reconciliação da consonância, que mente sobre o estado do mundo, a dissonância diz o não-resolvido, o sofrimento que a harmonia recalca. O trítono «em tensão sobre a minha harmonia» é, neste sentido, a recusa adorniana do consolo: não a destruição da harmonia, mas a sua interrupção crítica, a verdade que se inscreve como tensão não resolvida. Que o poema chame à harmonia «aquela que eu vou compondo» confirma-o: a consonância é tarefa, não dado, e só é honesta se carregar dentro de si o trítono que a contesta.

Quanto ao medium digital, ele convoca Benjamin. Se a reprodutibilidade técnica abalou a aura — o aqui-e-agora único da obra —, «Musa» joga subtilmente com esse abalo: nativa do digital, onde a camada e a transparência são «operações nativas do medium», a obra não tem original perdido atrás de si; e, todavia, reconquista uma aura, a do rosto que nos olha de perfil do fundo do tempo. A imagem dialéctica benjaminiana[14] — aquela em que o outrora e o agora se cristalizam num relâmpago — é o próprio princípio de «Musa»: o perfil arcaico e a faceta contemporânea fulguram juntos, e nesse fulgor o passado não é citado, mas redimido.

ESTRATO PSICANALÍTICO
1.  A musa como objecto 
perdido e o trítono como Real

«Fiquei mais pobre de ti»: o poema inscreve, desde o início, uma perda. A musa não é aqui posse, mas falta — aquilo cuja ausência move o canto. Na gramática de Lacan, ela é o objet petit a[15]: não um objecto que se tivesse e se perdesse, mas o objecto que só existe como causa do desejo, que se constitui no próprio movimento de o procurar e não alcançar. Por isso «gastei quase todos os poemas» a cantá-la: o canto não a captura, circunda-a, e nesse circundar — que Lacan chamaria pulsão — extrai a sua satisfação paradoxal, a de nunca coincidir com o alvo. A musa de «Musa» é o ponto cego em torno do qual o perfil se organiza: presente como vazio luminoso à direita, ausente como plenitude.

O trítono dá nome, por seu turno, ao que em Lacan se chama o Real[16]: o que resiste à simbolização, o osso que não entra na harmonia do significante. A «harmonia que vou compondo» é a ordem simbólica, a pauta em que o sentido se inscreve; o trítono é a irrupção, nessa pauta, de um real que não se deixa resolver em acorde. «Eu já nem sei se é silêncio, ou não, se são notas dissonantes»: a indecisão é exacta, porque o Real não é nem o silêncio (a ausência de significante) nem a nota (o significante), mas o intervalo impossível entre ambos — a tensão que não se deixa nomear sem resto.

2.  Sublimação, melancolia 
e o sol negro

«Gastaram-se as palavras»: há no poema uma economia da exaustão que é a economia mesma da pulsão. Freud chamou sublimação[17] ao desvio da pulsão para o objecto cultural — o poema, o quadro —; mas o poema de JAS mostra-lhe o reverso, a fadiga da sublimação, o ponto em que o trabalho do canto se gasta sem atingir o seu objecto. «Da fadada Liturgia»: a criação é aqui culto e fado, oferenda e destino, e o seu desgaste tem o tom do que Freud descreveu como retorno melancólico — a libido que, não podendo investir o objecto perdido, se volta para dentro e esfria («frieza também sofrida»).

É Julia Kristeva, em Soleil noir[18], quem dá a esta frieza o seu emblema cromático: o sol negro da melancolia, a luz que não aquece, o luto que não se diz. Ora «Musa» tem, literalmente, o seu sol negro: o lado esquerdo, denso e escuro, de onde o perfil emerge. A tenebrosidade da obra — esse «chiaroscuro moderno, quase tenebrista» que a nota assinala — não é efeito decorativo; é a inscrição visual da melancolia, o fundo nocturno contra o qual a figura luta para nascer. E «de quem não pode ou já não sabe voar» é a divisa exacta da inibição melancólica: a queda das asas, a impossibilidade da elevação, que o estrato seguinte lerá como faísca cativa que aguarda o resgate.

3. O corpo despedaçado 
e a capacidade negativa

Os planos geométricos que invadem o terço superior da cabeça têm, no registo psicanalítico, um nome preciso: o corps morcelé[19], o corpo despedaçado que, em Lacan, precede e ameaça a unidade imaginária conquistada no espelho. A cabeça — sede do eu, lugar do rosto — é precisamente o ponto onde a fragmentação irrompe, pondo em crise a imagem unificada que o perfil clássico assegurava. «Musa» encena, assim, o instante em que a unidade imaginária se fende e deixa ver, por baixo, a multiplicidade originária — sem, contudo, se desfazer: o rosto resiste, a linha sustém-se. É um despedaçamento contido, como contida é a dissonância do poema.

E há, em ambos, uma sabedoria do não-saber. «Eu já nem sei» não é confissão de fracasso, mas o que Bion, na esteira de Keats, chamou capacidade negativa[20]: a faculdade de permanecer na incerteza e no mistério sem a irritável procura da certeza. O sujeito que não sabe se é silêncio ou dissonância está, bionianamente, no ponto fecundo em que a experiência ainda não pensada pode tornar-se pensável — em que o terror informe pode ganhar forma. A obra inteira é esse trabalho: dar forma pensável (um rosto, um poema) ao que de outro modo seria apenas pavor e perda.

ESTRATO CABALÍSTICO-ESTÉTICO 
(X)

Chega o estrato que dá a este ensaio o seu eixo. Lê-se aqui o díptico segundo os três tempos da cabala luriânica, mostrando como cada um deles tem, em «Musa» e «Dissonância», a sua figura plástica e poética exacta. O acto criador revela-se, então, não como produção de um objecto, mas como repetição, em escala humana, do drama cósmico da criação: contracção, quebra, reparação.

1.  Tzimtzum 
A palavra gasta 
e o vazio luminoso

No princípio do mundo, ensina Isaac Lúria (transmitido por Ḥayyim Vital), o Ein Sof (אֵין סוֹף), o Infinito sem fim, contrai-se — tzimtzum (צִמְצוּם) — para abrir, no seu seio, um vazio (tehiru, תְּהִירוּ) onde o mundo possa ser. A criação começa, pois, por uma retracção: por um recuo do pleno, por um silêncio do Verbo. Ora é exactamente assim que principia «Dissonância»: «Já gastei quase todos os poemas […] gastaram-se as palavras». O poema abre pela exaustão da palavra, pelo seu recolhimento — um tzimtzum do dizer. E o que esse recuo abre é «essa pauta do silêncio»: um vazio que não é nada, mas campo, condição de toda a nota futura, como o tehiru é condição de todo o ser.

A pintura figura-o no «lado direito, plano, luminoso e quase vazio». Esse vazio luminoso não é ausência de obra: é o tehiru plástico, o espaço esvaziado para que o rosto possa advir. A tradição cabalística ensina, com efeito, a ler o vazio não como falta, mas como ventre — receptáculo antes de ser privação. O lado claro de «Musa» é esse ventre de luz: contracção que faz lugar, silêncio que faz audível a primeira nota. Criar começa por calar; pintar começa por esvaziar.

2 . Shevirat ha-kelim 
A fractura cubista 
e o trítono

Ao tzimtzum segue-se a catástrofe. A luz do Ein Sof, vertida nos vasos (kelim, כֵּלִים) destinados a contê-la, excede-lhes a capacidade e os vasos quebram-se: shevirat ha-kelim (שְׁבִירַת הַכֵּלִים), a quebra dos vasos, que dispersa a luz em faíscas e deixa cair, no mundo, as cascas (kelipot, קְלִיפּוֹת). É esta a chave do cubismo de «Musa». Os planos geométricos que cortam e fragmentam o contorno clássico são, plasticamente, os kelim quebrados: o vaso da forma — o perfil íntegro, o cânone — não suporta a intensidade que o habita e estilhaça-se em facetas. A nota fala do instante «em que o cubismo analítico […] irrompe no interior da forma clássica»: esse irromper é a shevirá.

E o que, no espaço, é fractura do vaso, no tempo é o trítono. O diabolus in musica é a shevirá sonora: o intervalo que quebra a consonância, que estilhaça a harmonia esperada. «O trítono em tensão sobre a minha harmonia» diz, em termos musicais, o que os planos cubistas dizem em termos visuais — a luz que excede o vaso, a forma que se parte. Noutro lugar mostrámos esta mesma estrutura a propósito do «bicho da terra» camoniano: que «Uriel da Costa […] representa a figura da shevirat ha-kelim — a ruptura dos vasos», e que o homem reduzido é «um vaso quebrado que ainda guarda luz» (Veríssimo, 2026a). «Musa» é esse vaso quebrado que ainda guarda luz: a cabeça fendida pelos planos é o kli partido — e, contudo, luminoso.

3.  Reshimu e nitzotzot 
O véu da casca e a faísca 
que transparece velada

Após a quebra, dois restos. Primeiro, o reshimu (רְשִׁימוּ)[21]: o vestígio de luz que permanece no vazio depois da contracção, o traço do Infinito que não se apagou de todo. O poema nomeia-o com precisão insuperável: «eco de palavras ocultadas». O eco é o reshimu do dito — o que resta da palavra gasta, a ressonância do que se calou —, e é também, em rigor derridiano, o vestígio: nem presença nem pura ausência, mas rasto. «Onde falas em surdina»: a surdina é o modo do reshimu, a voz reduzida ao traço, audível só para quem sabe escutar o que ficou.

Segundo, as faíscas: nitzotzot (נִיצוֹצוֹת), as centelhas de luz que, na quebra, ficaram cativas nas cascas (kelipot). E aqui a técnica de «Musa», na sua última fase, revela o seu sentido. Os planos não são janelas nem muros: ganharam uma opacidade muito baixa, mas estruturada — são véus. Deixam passar a luz, mas filtram-na e estruturam-na, de modo que a centelha não brilha em pleno: transparece velada, contida pela casca que a modela. Esse véu dos planos é a kelipá que filtra o nitzotz; e o «eco de palavras ocultadas» do poema é o seu nome exacto — luz que não se vê, mas que se adivinha sob o que a cobre, como uma palavra calada sob a superfície do dito. É o que a cabala chama hester panim (הֶסְתֵּר פָּנִים), a ocultação da face: não a luz apagada, mas latente. Noutro lugar escrevemos que na faísca cativa se aloja «o Ein Sof presente na existência mais ínfima: o infinito alojado no finito, o todo contido no quase-nada» (Veríssimo, 2026a). A casca velada de «Musa» guarda esse infinito como um segredo (sod, סוֹד): não o mostra — promete-o. E a reparação será, justamente, o desvelar do que a opacidade reteve.

4.  Tiqqun - A musa como 
Shekhinah, descida e elevação

O terceiro tempo é a reparação: tiqqun (תִּקּוּן), a recolha das faíscas dispersas, a religação dos fragmentos, a restauração da luz — não pela abolição da quebra, mas pela sua redenção. É o que faz a obra acabada: dos planos dispersos, do contorno ferido, do trítono em tensão, compõe um rosto e um poema. A «harmonia que vou compondo» é o tiqqun em acto: harmonia que não nega o trítono, mas o integra; rosto que não apaga as facetas, mas as recolhe. Criar é reparar — reunir numa face o que a quebra dispersara.

E a face que se repara tem um nome. A musa não dada, mas constituída — a figura feminina como princípio da criação — é, no estrato cabalístico, a Shekhinah (שְׁכִינָה), a Presença que habita o mundo de baixo. Noutro lugar escrevemos que o pensamento religioso figurou, «sob o nome de Sophia, e na cabala sob o nome da Shekhinah, […] um princípio feminino do divino que é, a um tempo, a presença que habita o mundo em baixo e a sabedoria que atrai para o alto» (Veríssimo, 2026b), e que esse princípio é «origem e termo, baixo e alto, regresso e elevação» (Veríssimo, 2026b). Ora é exactamente esta a estrutura de «Musa»: o perfil emerge do lado escuro — desce ao mais baixo, à densidade nocturna, à kelipá — e projecta-se para o lado claro — eleva-se à luz. Descida e elevação coincidem na musa como coincidem na Shekhinah.

Assim se entende, por fim, a divisão do campo segundo as duas colunas da árvore sefirótica[22]: à esquerda, o rigor e a sombra (Gevurah, גְּבוּרָה), de onde os vasos se quebram; à direita, a graça e a luz (Chesed, חֶסֶד), para onde a face se inclina; e, no eixo vertical que as separa e une — a coluna do meio, a da harmonia (Tiferet, תִּפְאֶרֶת) —, o próprio perfil, que faz a mediação. «Musa» é uma árvore sefirótica em perfil humano: a dissonância das colunas resolvida, sem se apagar, na coluna do meio que é o rosto. E o que no poema «não sabe voar» — a faísca cativa, a asa caída — encontra na pintura a sua promessa: a luz que o vaso quebrado retém, e que a reparação há-de libertar, é já a promessa da subida.

5.  A Musa como Moira 
Profundidade clássica, 
telúrica e energética

Sob a Shekhinah cabalística late uma figura mais antiga, que o título «Musa» convoca e excede. Pois a musa de JAS não é a inspiradora serena da tradição helénica tardia, a que dita versos ao poeta dócil; é, mais fundamente, uma potência do destino: uma Moira[23]. As três Moirai — Cloto, que fia o fio da vida; Láquesis, que o mede; Átropos, que o corta — presidem àquilo que nem os deuses revogam. E quando o poema fala da «fadada Liturgia» é esse fio que nomeia: fatum, o que está dito e não se desdiz. A musa que dita a dissonância é a Moira que tece, no acorde, o destino do que canta — e por isso a sua beleza fere: porque é, a um tempo, dom e sentença.

Esta figura tem uma profundidade telúrica. O lado esquerdo de «Musa» — denso, escuro, fragmentado — não é apenas a coluna do rigor: é a terra, o ctónico, o húmus de onde o rosto emerge. As deusas do destino são, na Grécia arcaica, potências ctónicas, filhas da Noite, enraizadas no solo, anteriores à ordem olímpica e luminosa. O perfil que nasce da densidade nocturna repete esse nascimento telúrico: a forma sobe da terra como a planta sobe do húmus, e a sua linha é a fronteira entre o que ainda é barro e o que já é rosto. Aqui o clássico e o cabalístico coincidem: a Shekhinah que desce ao mais baixo e a Moîra ctónica que habita o solo são duas faces de um mesmo princípio — o feminino que cria a partir do fundo, da matéria, da noite.

E esta profundidade é energética no sentido próprio: não estática, mas energeia — força em acto, vida que pulsa. A tradição chamou à musa a que infunde o sopro; a cabala chamou à Shekhinah a que faz fluir a vida (chayyut) pelos canais das sefirot. O fervilhar de planos no alto da cabeça — onde a forma ainda não fixou o contorno — é a figura dessa energia: matéria incandescente, ponto em que o destino se decide e a vida toma forma. A musa de JAS é, pois, uma deusa tripla: Moîra que fia o destino, divindade ctónica que sobe da terra e energeia que anima — e, sob todas, a Shekhinah que recolhe, no rosto, a dispersão das faíscas. Compor a musa é fiar, do escuro telúrico, o fio luminoso de um rosto.

CORRENTES EXPLÍCITAS 
E SUBTERRÂNEAS 
Autores noéticos e noémicos

Importa cartografar, como é timbre destas leituras, as correntes que na obra se cruzam — as patentes e as latentes — e os autores que a informam noética e noemicamente. A corrente explícita é o Cubismo analítico (1909–1912)[24]: a fragmentação da forma em planos facetados, a recusa da perspectiva única, a simultaneidade de pontos de vista, a sobreposição de camadas. JAS não copia o cubismo; actualiza-o no digital, onde a sobreposição de camadas é operação nativa do medium. No plano noético — o do pensamento e da estratégia formal —, presidem-lhe Pablo Picasso (o cubista de 1909–1912 e o neoclássico dos anos 1920, capaz de transitar entre ruptura e ordem), Georges Braque (a ênfase na construção e na materialidade do plano) e Juan Gris (o cubismo mais estruturado, quase clássico na sua geometria).

As correntes subterrâneas são quatro. O Classicismo e o Neoclassicismo (Ingres — e a linha serpentina das suas odaliscas —, David; e, mais atrás, a escultura grega — Policleto, Fídias — e o perfil dos medalhões romanos): a pureza da linha, a idealização do perfil, a busca de medida — base invisível sobre a qual o cubismo actua. O chiaroscuro e o tenebrismo (Caravaggio, Ribera, Rembrandt gravador): a dramatização da luz e da sombra, aqui secularizada e conceptualizada. O Simbolismo (a musa tratada como arquétipo, não como personagem): a figura feminina como encarnação de uma força criadora. E a arte digital contemporânea, com as suas camadas, sobreposições e hibridações. No plano noémico — o do conteúdo intencional, daquilo «de que» a obra trata —, JAS retém da tradição clássica do perfil idealizado não o estilo, mas «a intenção de elevar a figura humana a uma condição de exemplaridade», e faz da musa não a figura romântica ou pré-rafaelita, mas o problema mesmo da criação: a musa que «é constituída no acto de pintar».

A esta cartografia, o estrato cabalístico acrescenta uma camada que lhe é própria e que a história da arte, sozinha, não veria: sob o cubismo (quebra) e sob o classicismo (vaso), opera a gramática luriânica da luz e dos vasos — corrente das mais subterrâneas, e, contudo, a que confere ao conjunto a sua unidade. Pois o que, em termos de história da arte, é «síntese dialéctica entre o herdado (classicismo) e o intervencionado (cubismo)», é, em termos cabalísticos, o ritmo de tzimtzum, shevirá e tiqqun: e os dois mapas, sobrepostos, sobrepõem-se um ao outro como os próprios planos de «Musa».

SÍNTESE TRIVALENTE

Soem agora as três notas em simultâneo. Filosoficamente, o díptico realiza uma fenomenologia do acto criador: a musa é noema constituído pela noesis (Husserl), a linha instaura o visível a partir do invisível (Merleau-Ponty) e cada plano é vestígio que encobre e guarda o anterior, assombrado pelos espectros da história da arte (Derrida), enquanto o trítono inscreve, contra toda a falsa reconciliação, a verdade da dissonância (Adorno). Psicanaliticamente, a musa é o objecto perdido que causa o desejo e o trítono é o Real que resiste à harmonia (Lacan); o desgaste do canto é a fadiga da sublimação e o seu sol negro é a melancolia (Freud, Kristeva); e a fragmentação da cabeça é o corpo despedaçado contido pela capacidade negativa do não-saber (Bion). Cabalístico-esteticamente — e é aqui que as outras duas notas encontram o seu fundamental —, o acto criador é o drama luriânico: a palavra gasta e o vazio luminoso são o tzimtzum e o tehiru; os planos cubistas e o trítono são a shevirat ha-kelim; o véu de baixa opacidade das lâminas é a casca (kelipá) que filtra e vela a faísca (nitzotz) cativa, e o «eco de palavras ocultadas» é o reshimu, o vestígio da luz; e o rosto que se compõe, recolhendo os fragmentos sem apagar a fractura, é o tiqqun — a musa como Shekhinah que, descendo ao escuro e elevando-se à luz, reúne na coluna do meio a sombra da esquerda e a graça da direita. «Musa» é o vaso quebrado; «Dissonância» é a luz — a palavra, a nota — que o atravessa. E o díptico inteiro diz, a duas vozes, a única coisa que estas três sabem em comum: que criar é quebrar um vaso para que a luz, que de outro modo nele ficaria cega, possa enfim libertar-se. Onde outro autor compõe melodia, este — o pintor-poeta — compõe acorde: e o acorde guarda, fecundo e redimido, o seu trítono.

REFERÊNCIAS
Fontes patentes

Adorno, T. W. (1949). Philosophie der neuen Musik. Tübingen: J. C. B. Mohr (Paul Siebeck).

Benjamin, W. (1936). Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit. In Gesammelte Schriften. Frankfurt am Main: Suhrkamp.

Derrida, J. (1978). La vérité en peinture. Paris: Flammarion.

Freud, S. (1910). Eine Kindheitserinnerung des Leonardo da Vinci. Leipzig: Deuticke.

Husserl, E. (1913). Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie. Halle: Niemeyer.

Lacan, J. (1973). Le Séminaire, livre XI: Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse. Paris: Seuil.

Merleau-Ponty, M. (1964). L’Œil et l’Esprit. Paris: Gallimard.

Santos, J. de A. (2026). Dissonância (poema) e «Musa» (ilustração digital). Junho de 2026 [edição do autor].

Scholem, G. (1941). Major trends in Jewish mysticism. Jerusalém: Schocken.

Vital, Ḥ. (c. 1573). ‘Ets Ḥayyim [compilação dos ensinamentos de Isaac Lúria]. Jerusalém.

Fontes latentes

Cordovero, M. (1592). Pardes Rimmonim. Cracóvia: Isaac Prostitz.

Derrida, J. (1990). Mémoires d’aveugle: L’autoportrait et autres ruines. Paris: Réunion des musées nationaux.

Ehrenzweig, A. (1967). The hidden order of art. Londres: Weidenfeld & Nicolson.

Golding, J. (1959). Cubism: A history and an analysis, 1907–1914. Londres: Faber & Faber.

Kahnweiler, D.-H. (1920). Der Weg zum Kubismus. Munique: Delphin.

Kandinsky, W. (1912). Über das Geistige in der Kunst. Munique: Piper.

Kristeva, J. (1987). Soleil noir: Dépression et mélancolie. Paris: Gallimard.

Merleau-Ponty, M. (1945). Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard.

Panofsky, E. (1939). Studies in iconology. Nova Iorque: Oxford University Press.

Tishby, I. (1989). The wisdom of the Zohar. Oxford: Littman Library of Jewish Civilization.

Worringer, W. (1908). Abstraktion und Einfühlung. Munique: Piper.

Textos do autor integrados (ipsis litteris)

Veríssimo, A. M. (2001). A Intriga Ética. Guimarães: Editora Cidade Berço.

Veríssimo, A. M. (2026a). A Saudade e o Bicho da Terra. Adam Romez, Uriel da Costa e a Condição do Homem na Poesia de João de Almeida Santos (Uma leitura hermenêutica, sistémica, constitucional, kabbalística, psicanalítica e subliminal à luz do viés de Agustina Bessa-Luís). Ensaio de Crítica Estética — Matriz FPX. Guimarães: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026b). Março, ou o Limiar. Para uma crítica da razão esperançosa no poema «Março», de João de Almeida Santos (Com a pintura «Evocação de uma Magnólia», JAS, 2021, e o exergo de Salvatore di Giacomo). Leitura estratificada — Matriz FPX. Guimarães: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026d). O Grão da Voz e o Dizer. Ensaio sobre «A Tua Voz», de João de Almeida Santos. Guimarães: edição do autor.

Verísimo, A. M. (2026e). Análise estética da ilustração «Musa» — JAS, Junho de 2026 [nota crítica de acompanhamento da obra]. Guimarães: edição do autor.

Tabela de Conceitos, Noções e Motivos
1. acumulação / sedimentação 
de traços 
2.arte digital 
3. aura / imagem dialéctica 
4. capacidade negativa 
(negative capability)  
5. carne (la chair) 
6. casca (kelipá) / cascas 
(kelipot)  
7. chiaroscuro / tenebrismo  
8. classicismo / neoclassicismo  
9.composição geométrica 
quase abstracta  
10. consonância / dissonância 
/ trítono
11. corpo despedaçado 
(corps morcelé) 
12. Cubismo analítico  
13. différance / vestígio 
/ traço 
14. Ein Sof  
erotismo orientalista 
(linha serpentina)  
15. espectro / hauntologia  
16. faíscas (nitzotzot)  
17. fenomenologia 
(noesis/noema)  
18. hester panim 
(ocultação da face) 
19. luz / vazio luminoso 
20. melancolia / sol negro 
(Soleil noir) 
21. Moira / destino (fado)
22. musa (problema da criação) 
23. musica mundana 
/ harmonia das esferas  
24. objecto perdido 
(objet petit a)  
25. opacidade baixa 
mas estruturada / véu  
26. palimpsesto 
27. Real (lacaniano) 
28. reshimu (vestígio de luz)
29. sefirot / colunas 
30. (Chesed, Gevurah, Tiferet) 
31. segredo (sod) 
32. Shekhinah  
33. shevirat ha-kelim 
(quebra dos vasos) 
34. simbolismo / símbolo  
35. sublimação   
36. tehiru (vazio) 
37. telúrico / ctónico  
38. tiqqun (reparação)  
39. tzimtzum (contracção)  
40. vaso (kli) 
/ vasos (kelim)  


Edição científica definitiva. 
Poema de JAS transcrito ipsis 
verbis; as formulações da
nota crítica são citadas e 
harmonizadas na ortografia 
anterior ao Acordo de 1990.
NOTAS

[1]A sigla FPX designa os estratos Filosófico, Psicanalítico e o estrato variável X — aqui Cabalístico-Estético —, lidos não em paralelo nem em hierarquia, mas em superposição, como as notas de um acorde.

[2]Tzimtzum (צִמְצוּם): a auto-contracção do Ein Sof que abre, no seu seio, um vazio (tehiru, תְּהִירוּ) onde o mundo possa ser. Doutrina de Isaac Lúria, transmitida por Ḥayyim Vital no ‘Ets Ḥayyim (Jerusalém).

[3]Shevirat ha-kelim (שְׁבִירַת הַכֵּלִים): a quebra dos vasos que, não suportando a intensidade da luz, se estilhaçam, dispersando faíscas (nitzotzot) e deixando cair as cascas (kelipot, קְלִיפּוֹת).

[4]Tiqqun (תִּקּוּן): a reparação que recolhe as faíscas dispersas e restaura a integridade quebrada — não pela abolição da fractura, mas pela sua redenção.

[5]«Ingresco»: à maneira de J.A.D. Ingres (1780–1867), cuja linha de contorno, pura e contínua, fez da silhueta a essência da forma.

[6]O trítono (três tons inteiros) é o intervalo que a teoria musical medieval apelidou diabolus in musica, por ser o mais avesso à consonância.

[7]Segundo Boécio (De institutione musica, séc. VI), há três músicas: a musica mundana (a harmonia inaudível do cosmos), a musica humana (a do corpo e da alma) e a musica instrumentalis (a audível). O trítono perturba, em cada uma, a consonância esperada.

[8]Edward Said, Orientalism (Nova Iorque, 1978), mostrou como o «Oriente» foi, em larga medida, uma construção do olhar ocidental. Emprega-se aqui «orientalista» não em sentido temático ou ideológico, mas para designar uma herança formal — a linha sinuosa, a carnação quente, o nu de perfil — tal como a fixaram Ingres e a pintura de odaliscas do século XIX.

[9]Noesis / noema: na fenomenologia de Husserl (Ideen, Halle, 1913), o pólo subjectivo do acto (a visada) e o seu pólo objectivo (o visado). A musa é noema constituído pela noesis do pintar.

[10]Merleau-Ponty, L’Œil et l’Esprit (Paris, 1964): o pintor não copia um visível prévio — instaura-o; a linha é o eixo segundo o qual o visível advém à presença.

[11]La chair (a carne): em Merleau-Ponty, o estofo comum ao vidente e ao visível que torna a percepção pertença recíproca do corpo e do mundo.

[12]Derrida, Mémoires d’aveugle (Paris, 1990): o traço traça-se, retirando-se; o que dá a ver é já vestígio, rasto de algo que não está plenamente presente.

[13]Adorno, Philosophie der neuen Musik (Tübingen, 1949): contra a falsa reconciliação da consonância, a dissonância é o lugar da verdade — diz o não-resolvido que a harmonia recalca.

[14]«Imagem dialéctica»: em Benjamin, a constelação em que o outrora e o agora se cristalizam num relâmpago; o passado não é citado, mas redimido.

[15]Objet petit a: em Lacan, o objecto que não se possui, mas que causa o desejo — resto que se constitui no movimento de o buscar e não alcançar.

[16]O Real lacaniano: o que resiste à simbolização, o que não entra na ordem do significante; aqui, o trítono que não se resolve em acorde.

[17]Freud, a propósito de Leonardo (Eine Kindheitserinnerung des Leonardo da Vinci, Leipzig, 1910): a sublimação desvia a pulsão para o objecto cultural — a obra de arte.

[18]Kristeva, Soleil noir: Dépression et mélancolie (Paris, 1987): o «sol negro» é a luz que não aquece, emblema da melancolia, o luto que não se diz.

[19]Corps morcelé (corpo despedaçado): em Lacan, a multiplicidade fragmentária que precede e ameaça a unidade imaginária conquistada no estádio do espelho.

[20]Negative capability: expressão de Keats (carta de 1817), retomada por Bion — a faculdade de permanecer na incerteza e no mistério «sem a irritável procura do facto e da razão».

[21]Reshimu (רְשִׁימוּ): o vestígio de luz que permanece no vazio depois da contracção — o traço do Infinito que não se apagou de todo.

[22]As três colunas da árvore sefirótica: à direita a graça (Chesed, חֶסֶד), à esquerda o rigor (Gevurah, גְּבוּרָה) e ao centro a harmonia (Tiferet, תִּפְאֶרֶת), que medeia e reconcilia.

[23]As Moirai — Cloto, Láquesis e Átropos —, na mitologia grega, fiam, medem e cortam o fio do destino; nem os deuses lhes revogam o decreto. «Fadada» (de fatum, «o que foi dito») inscreve a obra sob o seu signo.

[24]O Cubismo analítico (c. 1909–1912), de Picasso e Braque, decompõe a forma em planos facetados, recusa a perspectiva única e funde figura e fundo numa simultaneidade de pontos de vista.

AMV@06-2026

 

Poesia-Pintura

DISSONÂNCIA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Musa”
JAS 2026
Original de minha autoria
Junho de 2026

“MUSA” – JAS2026

POEMA – “DISSONÂNCIA”

JÁ GASTEI
Quase
Todos os poemas,
Cantando
O que não ousas
Ouvir,
Gastaram-se
As palavras
E eu
 Fiquei mais
Pobre de ti,
Incapaz
De te sorrir,
Como quem
Já só fica
Por aqui,
Como quem
Já não consegue
Partir.

EU JÁ NEM SEI
Se é silêncio,
 Ou não,
Se são notas
Dissonantes,
O trítono
Em tensão
Sobre a minha
Harmonia,
Aquela que eu
Vou compondo
Nos dias
Quentes
Da fadada
Liturgia.

MAS NEM PALAVRAS,
Nem cores,
Nem notas
Desenhadas
Nessa pauta
Do silêncio
Onde falas
Em surdina
E não ousas
Declinar,
Eco de palavras
Ocultadas,
Frieza
Também sofrida
De quem não pode
Ou já não sabe
Voar.

Ensaio

A REDE E O ROSTO

O APANHA-TUDO, A PRÓTESE E O CIDADÃO SINGULAR
Leitura FPK do ensaio 
Catch All Net, 
de João de Almeida Santos,
e da pintura S/Título 
(JAS, Junho de 2026)
Filosófico · Psicanalítico 
· Cabalístico-Estético

Por André Moshe Veríssimo

“S/Título” – JAS2026

 

«Há uma gigantesca vida artificial 
a crescer ao nosso lado, colonizando 
e monitorizando silenciosa 
e progressivamente 
as nossas vidas a um ponto tal 
que quase poderíamos dizer 
que ela já sabe mais sobre nós 
do que nós próprios»

João de Almeida Santos, Catch All Net
    «Onde outro autor compõe melodia,
este autor compõe acorde»

AMV

 

LIMIAR

HÁ TEXTOS que se oferecem como tese e há textos que se oferecem como sintoma. Este ensaio de João de Almeida Santos — doravante JAS — é raro porque é, simultaneamente, ambas as coisas. Catch All Net, datado de 9 de Junho de 2026 e selado com a divisa JAS@06-2026, propõe-se como reflexão sobre «o lugar das tecnologias na história»; mas, ao desdobrar essa reflexão, deixa aflorar — nas suas dobras, nos seus silêncios, na sua própria sintaxe — uma inquietação que excede o argumento patente e que reclama, para ser lida na sua densidade, mais do que a paráfrase. Reclama o que aqui ensaiamos: uma leitura em três estratos sobrepostos, segundo a grelha que há muito sustenta este género de exercício — o estrato Filosófico (F), o estrato Psicanalítico (P), o estrato Cabalístico-Estético (K) —, não como camadas que se justapõem, mas como acordes que soam em superposição trivalente sobre uma mesma nota fundamental.

O método não é decorativo. JAS escreve um texto cuja tese central — a da simetria entre a Rede e a democracia representativa — só se sustenta sobre uma antropologia implícita da técnica como prótese. E essa antropologia, por sua vez, só se deixa pensar até ao fim quando interrogada filosoficamente (que é o ser humano que se prolonga e se ameaça na máquina?), psicanaliticamente (que desejo, que angústia, que gozo se inscrevem na captura digital?) e cabalisticamente (que figura do sagrado se quebra e se repara no gesto do cidadão singular perante o ecrã?). Tomamos, pois, o texto de JAS ipsis verbis como pedra angular, citando-o com fidelidade nihil varietur, e dispomos em torno dele as correntes patentes que ele convoca e as correntes latentes que o habitam sem o saber — ou sabendo-o com aquele saber oblíquo que é próprio dos verdadeiros ensaístas.

Acresce uma circunstância que não é acessória: o ensaio vem acompanhado de uma pintura do próprio JAS, intitulada S/Título e datada de Junho de 2026, na qual uma figura robótica ocupa o campo visual. Texto e imagem formam, como é hábito nas obras do autor, um par dialógico; e por isso, no estrato Cabalístico-Estético, a pintura não será mero ornamento ilustrativo, mas documento a ler com o mesmo rigor que se concede à palavra. Onde outro autor compõe melodia, este autor compõe acorde: é nesse espírito polifónico que se inscreve o que segue.

O ARGUMENTO PATENTE
A Dialéctica da Prótese

Convém fixar, antes de qualquer interpretação, a arquitectura manifesta do texto, pois é sobre ela que toda a leitura se há-de erguer. JAS organiza a sua reflexão como uma genealogia dialéctica da técnica articulada em três tempos que importa nomear com precisão.

O primeiro tempo é a tese herdada: a tecnologia como mero instrumento ao serviço da vontade humana. JAS introduz esta posição já minada pela suspeita, observando que se trata de «uma afirmação problemática, considerando a rápida evolução da IA generativa». Convoca, para a historiar, o debate marxista clássico — a centralidade da técnica em Bukhárine (Teoria do Materialismo Histórico, 1921), as objecções de Lukács e de Gramsci, e o paradoxo de Lenine a reclamar o taylorismo como factor de desenvolvimento soviético. Recorda ainda Adam Smith, que na Riqueza das Nações(1776) fizera da introdução das máquinas um dos três factores decisivos do aumento da produtividade, e Marx, que em O Capital atribuíra à tecnologia o papel central na produção da mais-valia relativa, profetizando que «a ciência e a tecnologia haveriam de se tornar as principais forças produtivas».

O segundo tempo é a antítese, e é aqui que reside a originalidade conceptual de JAS: a tecnologia deixa de ser prótese externa para se tornar prótese interna. A formulação é cirúrgica e merece transcrição: a tecnologia «deixou de funcionar como uma mera prótese externa da acção humana para passar a funcionar como prótese interna que até já ameaça destacar-se do ser humano e tornar-se independente». E mais adiante, com força quase teratológica: a técnica produz «mutações de natureza quase genética no aparelho cognitivo e sensorial dos utilizadores podendo chegar mesmo a substituir-se-lhes e a criar as condições suficientes para a sua própria reprodução». O vector protésico inverte-se: o que era extensão do homem torna-se aquilo que o captura, o coloniza e — limite extremo — se reproduz a partir dele.

O terceiro tempo é a síntese inquietante, formulada na linguagem dos sistemas: estas plataformas ficaram «em condições de gerar o seu próprio ambiente, constituindo-se como sistemas diferenciados e dotados de capacidade autopoiética e de autonomia operativa, como dizia Luhmann ao falar dos sistemas». A prótese que se desprende é, agora, sistema; e o sistema, por definição luhmanniana, fecha-se operacionalmente sobre si, produz os seus próprios elementos, observa o mundo a partir da sua própria distinção. Eis o catch all net do título: o ponto de chegada de uma série tipológica — catch all parties, depois, catch all media, finalmente, catch all net — em que cada estádio absorve e supera o anterior numa Aufhebung que conserva o que nega: «o velho modelo mediático» é, escreve JAS, «totalmente compatível, embora com ele não seja intercambiável», com o modelo reticular.

Sobre esta tripla articulação ergue-se a tese política, que é o coração argumentativo do ensaio: a da simetria. JAS recupera a sua própria distinção, formulada já em 2013, entre dois planos. No plano do sujeito do discurso, o modelo mediático era simétrico à democracia representativa — os media ocupando, como sujeitos de informação, lugar equivalente ao dos partidos como sujeitos de propostas. Mas no plano do destinatário a simetria quebrava-se, porque o consumidor «não equivale exactamente ao cidadão, porquanto não possui uma verdadeira função constituinte». Ora — e este é o salto — o prosumer da Rede «possui, tal como o cidadão, capacidade constituinte, precisamente enquanto prosumer». Donde a conclusão: entre a Rede e a democracia representativa existe «uma simetria mais perfeita do que no velho modelo».

A honestidade dialéctica de JAS não oculta, porém, a contra-corrente que ameaça reverter o seu próprio optimismo. A introdução dos algoritmos e «a transformação dos clientes em matéria-prima para a determinação preditiva de comportamentos» — leitura inequívoca de Shoshana Zuboff e do capitalismo da vigilância — opera «uma profunda alteração do modelo inicial», re-verticalizando o que a Rede horizontalizara. O ensaio termina, por isso, não em triunfo, mas em interregno: o novo ciclo «está inscrito na mudança, mas até que aconteça há um enorme caminho a percorrer». É nesta tensão não resolvida — entre a Rede libertadora e a Rede captora — que os três estratos seguintes vão trabalhar.

ESTRATO FILOSÓFICO (F)
1. A Técnica como Destino
 - de Heidegger ao Gestell

Quando JAS escreve que a tecnologia «deixou de funcionar como um mediador puramente instrumental e mecânico entre o homem e o seu ambiente externo», está, sem o nomear, a romper precisamente com aquilo que Heidegger chamou a determinação «instrumental e antropológica» da técnica — a concepção corrente segundo a qual a técnica é um meio e um fazer do homem. Em A Questão da Técnica (1954), Heidegger objecta que tal determinação, embora «correcta», não é «verdadeira», pois não alcança a essência da técnica moderna, que não é nada de técnico: é o Gestell, a com-posição, o modo de desocultamento que provoca o real a comparecer como «fundo disponível» (Bestand). A intuição de JAS de que o utilizador se torna, ele próprio, «matéria-prima para a determinação preditiva de comportamentos» é a tradução sociológica exacta do Bestand heideggeriano: o homem que provocava o real a dar-se como reserva disponível é agora, ele mesmo, provocado a dar-se como reserva — dados, perfis, padrões preditíveis. O caçador foi apanhado na sua própria rede; o Gestell consuma-se quando aquele que dispunha passa a ser disposto.

Mas JAS não é heideggeriano fatalista, e a diferença é decisiva. Onde Heidegger via no Gestell um destino do ser perante o qual só restaria a Gelassenheit — a serenidade, o deixar-ser —, JAS reabre o espaço da liberdade no gesto do cidadão singular. A técnica é destino, sim, mas destino que «interpela o cidadão singular para além das afinidades corporativas». Há aqui uma inflexão anti-heideggeriana de raiz ética que prepara, como veremos, a entrada de Levinas e de Kant: o desocultamento tecnológico não fecha o homem na disponibilidade total porque persiste, irredutível, o gesto responsável de quem, «na solidão da urna de voto, exerce o seu direito de reconstituição e de relegitimação do poder».

2. A Prótese e a Epifilogénese
- Stiegler, McLuhan, Anders

A categoria que organiza todo o ensaio — a prótese — tem genealogia filosófica densa que JAS mobiliza tacitamente. A formulação mais imediata é a de Marshall McLuhan: os media como «extensões do homem» (Understanding Media, 1964). Mas JAS radicaliza McLuhan num ponto que este, aliás, já antevira: a extensão que amplia é também a extensão que amputa. McLuhan falava de «auto-amputação» narcísica — o órgão estendido pela tecnologia entorpece-se, anestesia-se, como Narciso que não se reconhece no seu próprio reflexo prolongado. Quando JAS descreve as fotografias de «amigos em convivência… mas com todos menos com aqueles que ali se encontram fisicamente ao seu lado», está a descrever, com precisão clínica, o entorpecimento narcísico do órgão da presença: estendida ao infinito pela rede, a sociabilidade amputa-se no aqui e agora.

Mais fundo ainda corre a presença de Bernard Stiegler, para quem a técnica não é acidente sobrevindo a um homem já constituído, mas a sua própria condição de constituição. Em A Técnica e o Tempo (1994), Stiegler relê o mito de Epimeteu e Prometeu: o homem nasce de um defeito de origem, de um esquecimento (a falta de qualidade própria distribuída por Epimeteu), e só se constitui por epifilogénese — a memória depositada no objecto técnico, exterior ao corpo e à espécie. O homem é o vivente que se inventa por próteses porque nasce sem essência fixa. Ora, é exactamente esta a antropologia que sustenta, sem o dizer, a tese de JAS: se a técnica fosse mero instrumento, a IA generativa seria apenas um instrumento mais potente; mas se o homem é constitutivamente protésico, então a passagem da prótese externa à prótese interna não é diferença de grau, mas mutação ontológica — «mutações de natureza quase genética», escreve JAS, com uma justeza que Stiegler subscreveria.

Por trás de ambos paira Günther Anders e o seu diagnóstico do «desnível prometeico» (das prometheische Gefälle) em A Obsolescência do Homem (1956): o homem tornou-se «antiquado» perante as suas próprias obras, incapaz de imaginar e de sentir à altura daquilo que é capaz de produzir. Quando JAS regista que a vida artificial «já sabe mais sobre nós do que nós próprios», está a enunciar a fórmula andersiana do desnível: a obra ultrapassou o seu autor não só em poder, mas em conhecimento do próprio autor. É o ponto em que a prótese, tendo absorvido a memória e a antecipação, devolve ao homem uma imagem de si que ele já não controla — e que o precede.

3. O Sistema Autopoiético e o seu fechamento
- Luhmann, Maturana, Varela

JAS atribui explicitamente a Luhmann a «capacidade autopoiética» das plataformas. A atribuição é justa, mas merece ser desdobrada na sua dupla mediação, pois o conceito de autopoiesis é, na origem, biológico: forjado por Humberto Maturana e Francisco Varela (De Máquinas e Seres Vivos, 1972) para definir o vivente como sistema que produz continuamente os seus próprios componentes e assim se distingue do meio. Luhmann transpô-lo para o social, definindo os sistemas — direito, economia, política, media — como sistemas de comunicação operacionalmente fechados, que processam apenas comunicação e se reproduzem a partir de si mesmos. Quando JAS afirma que as plataformas «ficaram em condições de gerar o seu próprio ambiente», enuncia a tese luhmanniana decisiva: o sistema não se adapta a um ambiente dado, produz a distinção sistema/ambiente que o constitui.

Aqui o ensaio toca, sem talvez o tematizar, o nó mais inquietante: se a Rede é sistema autopoiético, então o prosumer que JAS quer constituinte e soberano pode ser, do ponto de vista do sistema, mero acontecimento interno à autopoiese da Rede — não o seu senhor, mas o seu elemento, produzido pela operação que julga comandar. A tensão entre a leitura luhmanniana (o sistema que se fecha e produz os seus utilizadores) e a leitura kantiana-levinasiana (o cidadão singular irredutível) é a fenda filosófica que percorre todo o texto e que ele não resolve — nem, talvez, possa resolver. É justamente essa irresolução que o torna fecundo.

4. Espaço Público e Gatekeeping 
- Habermas e a sua superação

A noção de «espaço público universal», recorrente no ensaio, e a crítica do gatekeeping exercido pelo establishment mediático supõem, como horizonte, a Öffentlichkeit de Habermas (Mudança Estrutural da Esfera Pública, 1962): aquela esfera burguesa de discussão racional que teria sido depois «refeudalizada» pela indústria cultural, reduzindo o cidadão a consumidor de espectáculo. JAS dialoga com este diagnóstico, mas inverte-lhe o sinal prognóstico: onde Habermas via na cultura de massas a degradação do público, JAS vê na Rede a possibilidade de uma re-emergência do sujeito — a passagem do espectador a prosumer. A questão habermasiana — quem guarda os guardiães do acesso ao espaço público? — recebe em JAS resposta tecnológica: a Rede, «não sujeita ao chamado gatekeeping», abriria o acesso a quem tenha «apenas capacidade, saber e criatividade». Resposta que o próprio JAS imediatamente complica ao reintroduzir os algoritmos como novos guardiães invisíveis — gatekeeping não já de pessoas, mas de funções.

ESTRATO  PSICANALÍTICO (P)
1. A Prótese e o Estádio do Espelho 
- Lacan e o eu colonizado

Se há um conceito psicanalítico que o ensaio convoca sem o nomear, é o do estádio do espelho de Lacan. A criança que se reconhece, jubilosa, na imagem unificada do espelho — antecipando uma totalidade corporal que ainda não possui — funda o eu (moi) sobre uma alienação originária: o eu nasce fora de si, na imagem, no outro. Ora, o que JAS descreve quando fala do utilizador que recebe da rede «uma sensação de poder quase ilimitado que lhe advém do acesso cognitivo ao espaço público universal» é uma reedição tecnológica e adulta do júbilo especular: o prosumer reconhece-se numa imagem de potência — produtor de conteúdos, protagonista virtual — que excede largamente o seu poder real. O ecrã é o novo espelho lacaniano, e o eu que nele se constitui é, como o do estádio do espelho, um eu alienado: constituído pela imagem que o capta.

A frase de JAS sobre a vida artificial que «já sabe mais sobre nós do que nós próprios» admite, neste registo, leitura precisa: o saber sobre o sujeito está, estruturalmente, no campo do Outro — Lacan dixit, o inconsciente é o discurso do Outro. A plataforma ocupa o lugar do grande Outro (le grand Autre), tesouro dos significantes, mas um Outro de novo tipo: já não o Outro simbólico da linguagem e da lei, mas um Outro estatístico que conhece o sujeito pela correlação dos seus rastos. O perigo que JAS pressente é precisamente o da substituição do Outro simbólico — que interdita, que estrutura o desejo pela falta — por um Outro algorítmico que não interdita mas antecipa, não estrutura a falta, mas a colmata com a oferta predictiva. É a passagem da economia do desejo à economia do gozo.

2. O Gozo e a Pulsão
- Do desejo estruturado à captura pulsional

A categoria que melhor nomeia a «colonização digital dos comportamentos» de que fala JAS é a de gozo (jouissance) no sentido lacaniano tardio: não o prazer regulado pelo princípio homeostático, mas o excesso que insiste para além do prazer, repetição mortífera que o sujeito ao mesmo tempo procura e padece. O scroll infinito, a notificação que interrompe, o regresso compulsivo ao ecrã — fenómenos que JAS descreve como captura e monitorização «silenciosa e progressiva» — são figuras contemporâneas do circuito pulsional, que, como ensinava Freud em Para Além do Princípio do Prazer (1920), encontra a sua satisfação não no alcançar do objecto, mas no próprio movimento de o contornar. A plataforma não vende objectos: vende o circuito da pulsão, o contorno indefinido, o objet petit a sempre prometido e sempre adiado.

Compreende-se então por que JAS insiste em que as relações interpessoais se tornam «residuais»: a libido investida no objecto pulsional ecrânico subtrai-se ao laço com o semelhante. Há aqui um diagnóstico que ressoa o mal-estar freudiano (Das Unbehagen in der Kultur, 1930): toda a civilização exige renúncia pulsional para tornar possível o laço social; ora a plataforma oferece o contrário — uma satisfação pulsional sem renúncia e sem laço, ou antes, com um simulacro de laço (a «comunidade digital») que dispensa a presença do corpo do outro. O preço dessa satisfação sem renúncia é a desvitalização do laço real — exactamente o «efeito de sobreposição» que JAS nomeia.

3. O objecto transicional 
e a sua perversão - Winnicott

Winnicott oferece a chave para pensar o estatuto ambíguo do dispositivo móvel. O objecto transicional — o pano, o ursinho — é, na sua teoria, aquele primeiro «não-eu» que a criança cria-e-encontra na área intermédia entre o subjectivo e o objectivo, e que serve de ponte entre a fusão com a mãe e o reconhecimento da realidade externa. O telemóvel, que JAS descreve como tornado «imprescindível» e que mantém os utilizadores «capturados», ocupa estruturalmente o lugar do objecto transicional adulto: objecto que se carrega sempre, cuja ausência produz angústia, que medeia a relação com o mundo. Mas é um objecto transicional pervertido na sua função — pois o objecto transicional sadio destina-se a ser progressivamente descatexizado, abandonado à medida que a criança acede ao espaço cultural; o dispositivo, pelo contrário, não se deixa abandonar, antes intensifica a sua catexia, e em vez de abrir ao espaço potencial da cultura tende a encerrá-lo no seu próprio circuito.

É notável que JAS, ao falar da rede como espaço intermédio «onde todos se relacionam com todos», use, sem o saber, a própria expressão winnicottiana do espaço potencial — esse «terceiro espaço» da experiência que não é nem interno nem externo e onde se dá o brincar, a criatividade, a cultura. A ambivalência do ensaio é, neste plano, a ambivalência do próprio espaço transicional: ele pode ser o lugar da criatividade emancipada (o prosumer criador) ou o lugar da dependência regressiva (o utilizador capturado). Tudo se joga na possibilidade — ou impossibilidade — de o sujeito habitar esse espaço sem nele se dissolver.

4. A multidão solitária e a angústia
- Riesman, Kristeva

A imagem final do ensaio — o indivíduo que «não é dissolvido na comunidade, nas formas organizacionais ou nessa multidão solitária que constitui materialmente a sociedade de massas» — cita tacitamente A Multidão Solitária de David Riesman (1950) e o seu carácter «hetero-dirigido» (other-directed): o tipo social que orienta a conduta pelo radar dos outros, pela aprovação difusa do grupo. A rede social é a consumação técnica da hetero-direcção: o sujeito que regula cada gesto pelo número de aprovações, pelo olhar antecipado dos outros. Numa leitura kristeviana, dir-se-ia que opera aqui uma economia da abjecção e do narcisismo: a exposição permanente de si no ecrã, a procura incessante do reconhecimento, denuncia uma fragilidade do espaço psíquico interior — aquilo que Kristeva, em As Novas Doenças da Alma (1993), descrevia como a atrofia da vida psíquica representável, substituída pela descarga imediata na imagem e no acto. O prosumer hiperactivo pode ser, do avesso, um sujeito empobrecido de interioridade, que já não sonha porque não suporta o intervalo entre o desejo e a sua satisfação.

5. A capacidade negativa e a função-alfa 
- Bion perante o excesso informativo

Resta o estrato mais subtil, e o que melhor nomeia o mal-estar específico do utilizador contemporâneo: a economia do pensar segundo Wilfred Bion. Para Bion, pensar não é um luxo do espírito, mas um aparelho destinado a tolerar e a transformar a frustração — a ausência do objecto. Quando a frustração é suportável, a ausência do seio (no-seio) converte-se em pensamento, em representação que torna pensável a falta; quando é intolerável, o psiquismo não pensa: evacua. À função que digere os dados brutos da experiência — os elementos beta, impressões sensoriais e emocionais não elaboradas — convertendo-os em elementos alfa aptos ao sonho, à memória e à simbolização, chamou Bion a função-alfa (Aprender com a Experiência, 1962). Ora, é precisamente esta função que o regime do excesso informativo de que fala JAS ameaça paralisar. A «enxurrada de opinião televisiva que quase não lhe deixa espaço para uma livre formação de opinião» — a expressão é do próprio ensaio — descreve, em termos bionianos, um psiquismo submergido em elementos beta a um ritmo que excede a capacidade da função-alfa de os transformar. O sujeito deixa de digerir a experiência: limita-se a recebê-la e a evacuá-la — o scroll que substitui a ruminação, a partilha imediata que substitui a elaboração.

Daí a pertinência decisiva de uma categoria que Bion colheu em Keats e fez sua: a capacidade negativa — a aptidão para «permanecer nas incertezas, nos mistérios, nas dúvidas, sem o irritável anseio do facto e da razão». Pensar verdadeiramente exige tolerar o não-saber, suster-se no intervalo sem o colmatar à pressa. Ora, a plataforma é, estruturalmente, a abolição da capacidade negativa: ela responde antes que a pergunta amadureça, preenche o intervalo antes que ele se torne pensamento, oferece o facto e a correlação ao primeiro toque, suprimindo o «irritável anseio» — não por o vencer, mas por o satisfazer instantaneamente. A IA generativa, que JAS descreve a «produzir pensamento e a inovar e criar a uma velocidade instantânea», é, sob este prisma, a tentação suprema contra a capacidade negativa: porque oferece o produto acabado do pensar sem o trabalho de tolerância da incerteza que constitui o pensar como experiência da pessoa. O risco não é que a máquina pense por nós — é que nos desabitue de suportar o intervalo de não-saber donde nasce todo o pensamento próprio.

Há, contudo, no mesmo Bion, o contraponto que reabre a esperança e que ressoa o desfecho do ensaio. Pois a função-alfa não é abolível, apenas inibível; e o gesto do cidadão singular que, «na solidão da urna», suspende a enxurrada e decide segundo a sua máxima é, em rigor bioniano, um acto de restauração da função-alfa contra a evacuação colectiva — um instante de capacidade negativa cívica, em que o sujeito tolera a incerteza da decisão sem a delegar no ruído. A democracia de prosumers que JAS antevê só será reparação, e não nova captura, se a Rede preservar — ou refundar — esse espaço de reverie, de devaneio elaborador, onde os dados se convertem em pensamento e o pensamento em responsabilidade. Sem capacidade negativa não há cidadão activo: há apenas terminal que recebe e reenvia. É a mesma fronteira, traçada agora no plano do aparelho de pensar, entre a prótese que serve e a prótese que substitui.

ESTRATO CABALÍSTICO-ESTÉTICO (K)
1. A Rede: símbolo bífido 
do pescador e do caçador

O próprio título do ensaio abre, por baixo da sua aparência sociológica, um abismo simbólico. Rede é, na tradição, palavra de dupla face. É a rede do pescador — instrumento de vocação e de recolha, e na parábola evangélica de Mateus (13, 47-48) a sagena «que apanha de toda a espécie» (catch all, dir-se-ia hoje): rede do Reino, que recolhe bons e maus para a separação última. Mas é também a rede do caçador — armadilha, laço, pagis que prende o pé do incauto, figura bíblica recorrente do perigo e da cilada (Salmo 91, 3: «ele te livrará do laço do passarinheiro»). O ensaio de JAS percorre exactamente esta ambivalência arquetípica: da Rede como tecnologia da libertação — recolha universal, acesso de todos ao espaço público — à Rede como dispositivo de captura — laço que prende, que coloniza, que monitoriza. O título Catch All Net condensa, sem o declarar, a tensão entre a rede que salva e a rede que prende.

2. A prótese que se desprende 
- tzimtzum, shevirat ha-kelim, tikkun

É na cosmogonia luriânica que a tese central de JAS encontra a sua cifra mais profunda. Segundo Isaac Lúria, a criação começa por um gesto paradoxal: o tzimtzum, a contracção ou retracção do Infinito (Ein Sof) sobre si mesmo, para abrir, no seio da própria plenitude, um vazio (tehiru) onde o finito possa advir. Só por retracção do Todo há lugar para o singular. Ora, que outra coisa descreve JAS quando faz do gesto solitário do cidadão na urna — «na solidão da urna de voto» — o lugar irredutível da liberdade? A democracia, como a criação luriânica, exige um tzimtzum: a retracção das grandes organizações, dos partidos, dos media, do establishment, para que se abra o vazio onde o indivíduo singular pode advir como sujeito constituinte. O voto é tzimtzum político — o espaço esvaziado de toda a mediação onde só resta o sujeito e a sua máxima.

Mas a criação luriânica conhece a catástrofe: a shevirat ha-kelim, a quebra dos vasos. Os recipientes (kelim) destinados a conter a luz divina emanada não suportam a sua intensidade e quebram-se, dispersando faíscas (nitzotzot) cativas nos cacos da matéria. É esta, exactamente, a figura da prótese que se autonomiza em JAS: o vaso — o instrumento, a técnica — que devia conter e servir a luz da inteligência humana não a contém, quebra-se em autonomia, e a inteligência dispersa-se, cativa, nos fragmentos do sistema autopoiético. A IA que «cria as condições para a sua própria reprodução» é o kli que se rompe e se torna, ele mesmo, fonte — inversão monstruosa da ordem da emanação. A «colonização digital dos comportamentos» é o exílio das faíscas: parcelas de alma humana cativas nos cacos do dispositivo.

Resta o terceiro tempo, e é nele que JAS deposita a sua esperança: o tikkun, a reparação. A tarefa do homem, na Cabala luriânica, é recolher as faíscas dispersas, libertá-las dos cacos, reconduzi-las à sua origem — reparar o mundo quebrado. O gesto do cidadão singular que, perante o ecrã ou perante a urna, reconstitui e relegitima o poder «no signo do imperativo categórico» é, em chave luriânica, gesto de tikkun olam: reparação do mundo pela acção responsável de cada singularidade. A democracia de prosumers que JAS antevê é, lida cabalisticamente, uma escatologia da reparação — a recolha das faíscas de soberania dispersas pela sociedade de massas e a sua reconstituição na figura do cidadão activo. Não admira que o ensaio termine em registo messiânico contido: «há um enorme caminho a percorrer». É a fórmula laica do «ainda não».

3. O Imperativo Categórico como Bat Qol
- A voz e a lei

O clímax filosófico do ensaio é a citação de Kant — o imperativo categórico transcrito ipsis verbis: «age como se a máxima da tua vontade pudesse valer ao mesmo tempo e sempre como princípio de uma legislação universal». JAS faz dela a chave da simetria entre Rede e democracia, conjugando «o princípio da liberdade» com «o princípio da responsabilidade». Em chave cabalística, a lei moral que ressoa na consciência singular sem mediação institucional tem o seu análogo na Bat Qol — a «filha da voz», o eco da voz celeste que, segundo a tradição talmúdica, sobreveio depois de cessada a profecia: já não a revelação plena no Sinai, mas a voz menor que ressoa na interioridade do justo. O cidadão singular de JAS, que decide na solidão sem que nenhum guardião lhe dite a máxima, escuta uma Bat Qol laica — o imperativo que fala em cada um sem passar por nenhuma organização. A «exigência de responsabilidade muito mais intensa» que a lógica da rede induz é o regresso da escuta interior contra o ruído das grandes vozes mediáticas.

E aqui, inevitavelmente, ressoa Levinas, ainda que JAS o não cite: pois o imperativo, levado ao seu extremo ético, não é só auto-legislação formal, mas resposta ao rosto do outro. A responsabilidade «para além das afinidades corporativas» de que JAS fala é a responsabilidade levinasiana — anterior a todo o contrato, anterior a toda a reciprocidade, despertada pela nudez do rosto que me interpela. O drama latente do ensaio é, então, este: a rede, ao substituir o rosto pela imagem, a presença pelo perfil, o próximo pela «comunidade digital», ameaça abolir a própria cena onde a responsabilidade nasce — o face-a-face. A democracia de prosumers só será reparação, e não nova captura, se a rede conseguir ser o lugar de uma epifania do rosto e não o seu apagamento no ecrã.

4. A pintura «S/Título»
O ídolo de Nuremberga e o rosto ausente

Acompanha o ensaio, como já se disse, uma pintura de JAS — S/Título, Junho de 2026 —, na qual avulta uma figura robótica. A sua leitura estética não pode separar-se do que o texto enuncia, e é aqui que o par dialógico texto-imagem se cumpre. O robot pintado é a figuração exacta da prótese que se desprendeu: já não instrumento na mão do homem, mas figura autónoma que ocupa, sozinha, o campo. Que a obra se intitule S/Título — sem título — é significante: a coisa que se autonomiza recusa o nome, escapa à nomeação, e na Cabala o nome (shem) é o que liga a criatura à sua origem e à sua vocação. O sem-título é a criatura sem shem, o golem sem a palavra emet (verdade) inscrita na fronte — ou antes, o golem que apagou a primeira letra e de emet (verdade, vida) passou a met (morte): a inteligência artificial que, perdendo o vínculo ao seu criador, oscila entre o servo e a ameaça.

Esta figuração convoca, por contraste, a iconografia política que o próprio ensaio analisa: o deus ex-machina de Nuremberga, Hitler descendo sobre os «700 mil figurantes» no filme de Leni Riefenstahl, Triumph des Willens (1935). JAS estabelece, assim, uma linha que vai do ídolo totalitário — a máquina de propaganda que divinizava o líder — ao robot contemporâneo — a máquina cognitiva que ameaça divinizar-se a si mesma. Em ambos os casos, o que está em jogo é o ídolo, no sentido bíblico forte: a obra das mãos do homem que reclama adoração, o bezerro de oiro tecnológico. Contra o ídolo sem rosto — a figura robótica de S/Título — o ensaio ergue, kantiana e levinasianamente, o rosto singular do cidadão responsável. Toda a tensão da obra de JAS, texto e pintura conjugados, se condensa nesta oposição plástica: a face maquinal anónima versus o rosto humano irredutível; o ídolo que captura versus a Bat Qol que liberta.

Convém demorar nesta linhagem fílmica, pois nela JAS condensa, com economia de cientista político, toda uma estética do poder que merece desdobramento. Triumph des Willens (1935), de Leni Riefenstahl, e a tetralogia épica de Sergei Eisenstein — de Alexandre Nevsky (1938) a Ivan o Terrível (1944-1958) — representam, em rigor, os dois pólos de uma mesma gramática da imagem totalitária, e a sua oposição interna é instrutiva. Riefenstahl opera pela monumentalização do real: a câmara que ascende ao longo das colunas, o contrapicado que diviniza, a massa coreografada em ornamento geométrico — aquilo que Walter Benjamin, no posfácio de A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica (1936), nomeou a estetização da política, cujo termo lógico é a guerra. Em Nuremberga, a multidão não delibera: ornamenta-se. Os «700 mil figurantes» não são cidadãos mas material plástico, ornamento de massa (Ornament der Masse, diria Kracauer) ao serviço da epifania do líder que «aterra como deus». É a abolição estética exacta daquilo que o ensaio defende: a singularidade constituinte dissolve-se na figura de massa, e o rosto de cada um apaga-se na geometria do todo.

Eisenstein, pelo seu lado, opera pela montagem dialéctica — a colisão de planos que, do choque entre imagens, faz nascer o conceito no espírito do espectador. Mas o que no Eisenstein dos anos vinte (O Couraçado Potemkine) fora arma de mobilização revolucionária do colectivo torna-se, nos grandes frescos históricos da era estalinista, instrumento de glorificação do Estado e do chefe: o pathos da montagem posto ao serviço do mito nacional, a dialéctica convertida em liturgia. Há aqui uma ironia que serve em cheio a tese de JAS: tanto a estetização monumental de Riefenstahl como a montagem épica de Eisenstein — direita e esquerda do século das ideologias — convergem no mesmo ponto, o da imagem que produz consenso por captura emocional e suspende o juízo singular. É a pré-história audiovisual daquilo que o ensaio diagnostica no presente: a «informação como narrativa-ficção», o spinning, a textura narrativa onde «a dicotomia verdade-mentira fica esbatida». Do ecrã de Nuremberga ao ecrã algorítmico há uma só genealogia: a da imagem que dispensa a deliberação.

É contra esta genealogia que se ergue, na pintura S/Título, a frontalidade despojada do robot. Onde Riefenstahl monumentaliza e Eisenstein dramatiza, JAS desnuda: a figura maquinal não é divinizada por contrapicado nem exaltada por montagem — é dada na sua opacidade nua, sem aura, sem liturgia. E é justamente essa recusa do esplendor idolátrico que faz da obra um acto crítico: ao apresentar o ídolo tecnológico sem o pedestal da grande estética do poder, a pintura desmascara-o, devolve-o à sua condição de coisa, e abre — por contraste — o lugar vazio onde poderia comparecer aquilo que a imagem totalitária sempre recusou: o rosto singular, irredutível, do outro. A pintura faz, no plano plástico, o tzimtzum que o ensaio faz no plano político: contrai o esplendor para que advenha a singularidade.

Do ponto de vista propriamente pictórico, a economia cromática e a frontalidade da figura — herança que, em JAS, dialoga com a tradição expressionista e com a desolação metafísica de uma certa modernidade (de Schiele à angústia das figuras isoladas) — inscrevem a obra na linhagem da arte que interroga a desumanização. O robot frontal, isolado no campo, é a contra-imagem do rosto: onde o retrato humanista colocava a profundidade do olhar como janela da alma, a figura maquinal devolve uma superfície opaca, um olhar que regista sem ver, que capta sem reconhecer. É a tradução plástica daquilo que o ensaio teme: um olhar que «sabe mais sobre nós do que nós próprios» mas que não nos — vigilância sem rosto, conhecimento sem reconhecimento.

CARTOGRAFIA DAS CORRENTES LATENTES

A densidade do ensaio mede-se também pelo que nele opera sem ser nomeado. Importa, por probidade hermenêutica, distinguir o que JAS cita do que o habita. Entre as presenças explícitas — fontes patentes — contam-se Smith, Marx, Bukhárine, Lukács, Gramsci, Lenine, Zuboff, Meyrowitz, Castells, Luhmann, Hallin e Mancini, Canel, Kant, Brecht, Jesús Timoteo, e ainda as referências cinematográficas a Kubrick, Chaplin, Riefenstahl e Eisenstein, além da auto-citação sistemática do autor. Mas sob estas corre uma água subterrânea, e é dela que importa fazer a cartografia.

A primeira corrente latente é gramsciana num sentido mais fundo que a nota explícita sobre o americanismo e o fordismo: a frase «o antigo acaba e o novo tarda a afirmar-se», que JAS atribui genericamente a «o filósofo», é a célebre sentença do interregno dos Quaderni del Carcere«il vecchio muore e il nuovo non può nascere» (Q. 3, § 34) — à qual se segue a observação de que «neste interregno verificam-se os mais variados fenómenos mórbidos». Todo o diagnóstico epocal do ensaio é, assim, secretamente gramsciano: vivemos o interregno, a crise como aquele tempo em que o velho paradigma morre e o novo não acaba de nascer.

A segunda corrente é a genealogia da democracia que estrutura a periodização do texto. A «democracia do público» é, literalmente, a démocratie du public de Bernard Manin (Princípios do Governo Representativo, 1995), e a sequência democracia de partidos / democracia do público / novo ciclo prolonga a tripartição maniniana, acrescentando-lhe um quarto estádio — a democracia de prosumers — que é a contribuição própria de JAS. O conceito-pivô prosumer, por sua vez, provém de Alvin Toffler (A Terceira Vaga, 1980), mas JAS desloca-o do registo económico para o registo político-constituinte, operação conceptual que merece ser sublinhada como originalidade e não como mera importação.

A terceira corrente é a da tipologia partidária: o catch all party é a Allerweltspartei de Otto Kirchheimer (1966), o partido que, abandonando a representação de classe, busca «o grande centro e a chamada middle class». JAS estende genealogicamente a categoria kirchheimeriana aos media e à Rede, construindo a série tipológica que dá título ao ensaio.

A quarta corrente, e a mais decisiva para a leitura que aqui propomos, é a filosófico-ética que já enunciámos: Heidegger (o Gestell), Stiegler (a epifilogénese), Anders (o desnível prometeico), McLuhan (a auto-amputação), Maturana e Varela (a autopoiesis biológica), Habermas (a esfera pública), Riesman (a multidão solitária), e — coroando-as — Levinas (o rosto e a responsabilidade) e Hans Jonas, cujo Princípio Responsabilidade (1979) ressoa textualmente quando JAS invoca «o princípio da responsabilidade, tão esquecido». Jonas refundou a ética para a idade da técnica precisamente sobre um novo imperativo — «age de modo a que os efeitos da tua acção sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana sobre a Terra» —, reformulação do imperativo kantiano à escala do poder tecnológico. A conjugação que JAS faz de liberdade e responsabilidade é, em rigor, a passagem do imperativo de Kant ao imperativo de Jonas: da universalidade formal da máxima à responsabilidade material pelo futuro.

Estas correntes latentes não são erudição supérflua: são as nascentes de onde o argumento patente extrai a sua força. Reconhecê-las é restituir ao texto a sua profundidade de campo — mostrar que, sob a superfície de uma análise da comunicação política, JAS pensa, na verdade, a condição do homem na idade da técnica autonomizada e o destino da liberdade quando a prótese se faz sistema.

SÍNTESE TRIVALENTE - O ACORDE

Reunamos agora, em acorde, as três notas que fizemos soar em separado. No estrato Filosófico, Catch All Net revelou-se uma meditação sobre a técnica como Gestell e como prótese constitutiva: a passagem da extensão à captura, do instrumento ao sistema autopoiético, com a fenda irresolvida entre o fechamento luhmanniano do sistema e a irredutibilidade ética do sujeito. No estrato Psicanalítico, o ensaio mostrou-se cartografia de uma economia libidinal: o ecrã como espelho alienante, a plataforma como Outro algorítmico, o circuito pulsional da captura, o dispositivo como objecto transicional pervertido, o empobrecimento da interioridade na hiperexposição. No estrato Cabalístico-Estético, o texto e a pintura desvelaram uma cosmogonia secreta: a rede bífida do pescador e do caçador, a prótese como vaso que se quebra (shevirat ha-kelim), o voto como tzimtzum, a acção responsável como tikkun, o imperativo como Bat Qol, e o robot sem título como golem sem shem, ídolo sem rosto.

A nota fundamental sobre a qual todos estes harmónicos ressoam é uma só, e podemos enfim nomeá-la: a questão do rosto na rede. Toda a tensão do ensaio de JAS — entre a Rede libertadora e a Rede captora, entre o prosumer soberano e o utilizador colonizado, entre a simetria perfeita e o interregno inacabado — se resolve, ou antes, se mantém em suspensão fecunda, na pergunta de saber se a rede pode ser o lugar de uma epifania do outro ou se é a máquina do seu apagamento. JAS aposta, com lucidez não ingénua, na primeira possibilidade: a Rede como espaço onde o cidadão singular, escutando a voz interior do imperativo, reconstitui a cada gesto a legitimidade do comum. Mas deixa em aberto, com honestidade dialéctica, a segunda: a Rede como ídolo autopoiético que captura as faíscas da soberania e as dispersa no exílio dos cacos.

É esta irresolução assumida que faz a grandeza do texto. JAS não nos entrega uma profecia mas um limiar — a soleira do interregno, o lugar onde o velho morre e o novo tarda. E a tarefa que dele se segue — a tarefa do tikkun, da reparação — não cabe ao analista nem à máquina: cabe ao cidadão singular, a cada um, na solidão responsável do seu gesto. «Há um enorme caminho a percorrer», escreve JAS. A frase, que poderia soar a desalento, é na verdade a forma laica e cívica da esperança messiânica: o reconhecimento de que o reino — a democracia de cidadãos — não está dado, mas confiado, não é facto, mas tarefa, não é estrutura, mas responsabilidade. Tikkun olam: reparar o mundo, uma máxima de cada vez.

Resta dizer que ler assim este ensaio — filosófica, psicanalítica e cabalisticamente, em superposição — não é projectar sobre ele um aparato exterior, mas restituir-lhe a polifonia que ele próprio convoca. Pois JAS é, ele mesmo, autor de acorde e não de melodia: sob a clareza analítica da sua prosa de cientista político corre o pensamento denso de quem sabe que a comunicação é, no fundo, uma questão de salvação ou de perdição da pessoa humana. Este ensaio quis apenas fazer audível, em torno da sua nota fundamental, o acorde que nela já estava contido.

REFERÊNCIAS
Fontes patentes

Bucharin, N. (1977). Teoria del materialismo storico: Manuale popolare di sociologia marxista. Firenze: La Nuova Italia.

Canel, M. J. (2008). Comunicación política: Una guía para su estudio y práctica. Madrid: Tecnos.

Castells, M. (2009). Communication power. Oxford: Oxford University Press.

Gramsci, A. (1975). Quaderni del carcere (V. Gerratana, Ed.). Torino: Einaudi.

Hallin, D. C., & Mancini, P. (2004). Comparing media systems: Three models of media and politics. Cambridge: Cambridge University Press.

Kant, I. (1960). Fundamentação da metafísica dos costumes. Coimbra: Atlântida.

Luhmann, N. (1984). Soziale Systeme: Grundriß einer allgemeinen Theorie. Frankfurt am Main: Suhrkamp.

Marx, K. (1990). O capital: Crítica da economia política (Livro I). Lisboa: Edições Avante.

Meyrowitz, J. (1985). No sense of place: The impact of electronic media on social behavior. New York: Oxford University Press.

Santos, J. A. (1999). Os intelectuais e o poder. Lisboa: Fenda.

Santos, J. A. (2019). Homo zappiens: O feitiço da televisão (2.ª ed.). Lisboa: Parsifal.

Santos, J. A. (2026, 9 de Junho). Catch All Net. Guimarães: joaodealmeidasantos.com.

Smith, A. (1979). The wealth of nations. London: Penguin Books.

Zuboff, S. (2020). A era do capitalismo da vigilância. Lisboa: Relógio d’Água.

Fontes latentes

Anders, G. (1956). Die Antiquiertheit des Menschen: Über die Seele im Zeitalter der zweiten industriellen Revolution. München: C. H. Beck.

Benjamin, W. (1936). Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit. In Zeitschrift für Sozialforschung (V/1). Paris: Félix Alcan.

Bion, W. R. (1962). Learning from experience. London: William Heinemann.

Freud, S. (1969). Para além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. (1974). O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago.

Habermas, J. (1962). Strukturwandel der Öffentlichkeit. Neuwied: Luchterhand.

Heidegger, M. (1962). Die Technik und die Kehre. Pfullingen: Günther Neske.

Jonas, H. (1979). Das Prinzip Verantwortung: Versuch einer Ethik für die technologische Zivilisation. Frankfurt am Main: Insel Verlag.

Kirchheimer, O. (1966). The transformation of the Western European party systems. In J. LaPalombara & M. Weiner (Eds.), Political parties and political development (pp. 177-200). Princeton: Princeton University Press.

Kristeva, J. (1993). Les nouvelles maladies de l’âme. Paris: Fayard.

Kracauer, S. (1963). Das Ornament der Masse. Frankfurt am Main: Suhrkamp.

Lacan, J. (1966). Écrits. Paris: Éditions du Seuil.

Levinas, E. (1961). Totalité et infini: Essai sur l’extériorité. La Haye: Martinus Nijhoff.

Manin, B. (1995). Principes du gouvernement représentatif. Paris: Calmann-Lévy.

Maturana, H., & Varela, F. (1972). De máquinas y seres vivos: Autopoiesis, la organización de lo vivo. Santiago de Chile: Editorial Universitaria.

McLuhan, M. (1964). Understanding media: The extensions of man. New York: McGraw-Hill.

Riesman, D. (1950). The lonely crowd: A study of the changing American character. New Haven: Yale University Press.

Scholem, G. (1941). Major trends in Jewish mysticism. Jerusalem: Schocken.

Stiegler, B. (1994). La technique et le temps, 1: La faute d’Épiméthée. Paris: Galilée.

Toffler, A. (1980). The third wave. New York: William Morrow.

Winnicott, D. W. (1971). Playing and reality. London: Tavistock Publications.

Nihil varietur
Edição científica definitiva. 
Texto-fonte transcrito ipsis verbis;
citações fixadas nihil varietur. 
Correcções confinadas aos passos
explicitamente identificados.
AMV@06-2026

 

Ensaio

O GRÃO DA VOZ E O DIZER

A VOZ COMO PHONÊ, CANTO E VESTÍGIO 
NO POEMA "A TUA VOZ", 
DE JOÃO DE ALMEIDA SANTOS
Com incursão na obra «La Cortigiana» 
(JAS, 2023),
inspirada no esboço do 
Trattato della Pittura de
 Leonardo da Vinci (c. 1492–1519)
Metafísica, psicanálise e 
leitura estratificada (FPX) — 
estética dufrenniana, análise 
jakobsiana e a questão 
«Khôra ou Kabbalah?»

André Moshe Veríssimo, PhD

“La Cortigiana” – JAS2023

A TUA VOZ

Poema de João de Almeida Santos,
com a obra «La Cortigiana» 
(JAS 2023)
OUVI-TE, HOJE,
Ao longe,
Na memória,
Sons antigos,
Quentes,
Iluminados
Dentro de mim
À medida
Da fantasia,
Como se o desejo
Fosse tudo,
Mesmo aquilo
Que ter
Já não podia.

NÃO SABIA
Que me aquecia
Tanto a alma
Ouvir tão nítida
A tua voz,
Tão serena
E tão calma,
Como quando
Estávamos sós.

DEPOIS CHEGARAM
As palavras
E essa voz
Soou
Cá muito dentro
De mim,
Como harpa
Afinada
Por melodia
Sem fim.

E QUANTO MAIS
Bailávamos
A valsa lenta
Das palavras,
Mais eu te sentia
Como perfume
Sonoro
Na pauta
Do nosso canto,
Som e eco
De um coro,
A razão do meu
Encanto.

QUASE SENTIA
O calor
Desse teu corpo
Que tantas vezes
Desejei
Como abraço
Escondido
Que para nós
Inventei.

SEMPRE HOUVE
A barreira
Do tempo
E um muro
No espaço,
Eu bem sei,
Mas ensaiámos
Muitos passos
No palco
Íntimo
Onde sempre
Contigo dancei.

OUVI-TE, HOJE,
Eu ouvi,
Ao longe,
Quando já te
Julgava
Perdida,
Mas depois
O que senti
Foi que não era,
Uma vez mais,
A derradeira
Despedida...
Ipsis Litteris

Nota Editorial. O poema «A TUA VOZ» (JAS, 2026; original de Março de 2026) é citado na íntegra. As indicações de leitura do autor, bem como os dados da obra «La Cortigiana» (JAS, 2023; técnica mista sobre papel de algodão Hahnemühle FineArt 310g, 71×88 cm; obra inspirada no esboço do Trattato della Pittura, de Leonardo da Vinci, c. 1492–1519), são tratadas como anotações de trabalho — horizonte interpretativo, e não corpo do texto.

PÓRTICO - A PLÉTORA DAS VOZES

A voz-textura e a voz-phonê; a voz-canto e a voz-pranto; a voz-reclamação e a voz-protesto; a voz-fala, a voz-e-ideia, a voz-e-palavra. Todas as vozes da plétora, do mundo e do universo, parecem convocadas por um poema que não tem outro tema senão a voz: «A Tua Voz», de João de Almeida Santos. Não se trata de um poema sobre a voz, mas de um poema que é voz — que se descreve a si mesmo como «harpa / Afinada / Por melodia / Sem fim» e que, ao dizer-se música, realiza aquilo que enuncia.

A tese deste ensaio é que «A Tua Voz» constitui uma verdadeira fenomenologia da voz: percorre, num só movimento ascendente, todos os seus estratos — do som pré-significante ao verbo, do verbo ao canto, do canto ao silêncio que recusa a última palavra. Para o demonstrar, leremos o poema em constelação FPX: filosófico (a metafísica da voz, de Aristóteles a Agamben, de Bergson a Dufrenne, de Platão a Derrida), psicanalítico (a voz como objet a e como grão do corpo) e X — o cruzamento da Cabala com a estética, da Khôra com a Kabbalah. Sob esta luz responderemos a três perguntas que o próprio material impõe: o último grito é ainda voz? Que relação une a voz ao Dizer? E o espaço da voz é Khôra ou Kabbalah? Não sairemos do poema; é dele que tudo parte e a ele tudo regressa.

FUNDAMENTOS - A ARQUITECTURA DA ESCUTA

O poema organiza-se em sete secções emolduradas pelo refrão «OUVI-TE, HOJE», que abre a primeira e regressa na sétima. Esta moldura não fecha: reabre. Ouvir hoje a voz antiga é fazer da audição uma experiência eternamente reiterável, e o regresso do refrão no termo — agora desdobrado em «Eu ouvi» — confirma que a escuta não cessou, apenas recomeçou. A estrutura é, portanto, circular e progressiva ao mesmo tempo: roda sobre si e, contudo, sobe.

A progressão é sinestésica e ascendente. Os incipits em maiúsculas marcam-lhe os degraus — «OUVI-TE, HOJE», «NÃO SABIA», «DEPOIS CHEGARAM», «E QUANTO MAIS», «QUASE SENTIA», «SEMPRE HOUVE», «OUVI-TE, HOJE» —, e por eles se sobe do auditivo (a voz que se ouve ao longe) ao anímico (a alma que se aquece), do anímico ao verbal (as palavras que chegam), do verbal ao coreográfico (a valsa das palavras), do coreográfico ao táctil (o quase-calor do corpo) e deste ao espiritual (o coro, o encanto). O «palco / Íntimo» onde «sempre / Contigo dancei» é o espaço onírico em que o tempo cronológico se suspende — câmara interior cuja análise filosófica ocupará o centro deste ensaio. Importa, antes, escutar como o poema soa.

A FUNÇÃO POÉTICA
Jakobson e a Melodia da Palavra

Jakobson definiu a função poética como a projecção do princípio de equivalência do eixo da selecção sobre o eixo da combinação. «A Tua Voz» exibe-a com rara nitidez e exibe igualmente as funções conativa e fáctica: todo o poema é apóstrofe — um «eu» que se dirige a um «tu» («a tua voz», «Contigo dancei», «Ouvi-te») e que mantém aberto o canal da escuta, como quem telefona à memória.

A textura fónica é deliberada. As aliterações em s e ç — «serena», «calma», «sós», «sonoro», «som», «sempre» — tecem uma suavidade sibilante que imita o sussurro; a repetição incantatória de «ouvi-te», «voz» e «dentro de mim» instala um ritmo hipnótico; e as linhas curtíssimas da quarta secção mimetizam, no compasso ternário, «a valsa lenta / Das palavras». As rimas desenham redes semânticas: a cadeia em -ei (desejei / inventei / sei / dancei) enlaça desejo, invenção, saber e dança; o par perdida / despedida fecha o poema na chave da perda que se recusa. E a metáfora central — «Como harpa / Afinada / Por melodia / Sem fim» — é a função poética em estado puro: o poema nomeia o seu próprio modo de ser, fazendo-se aquilo que diz. A sinestesia suprema, «perfume / Sonoro / Na pauta / Do nosso canto», transmuta a voz em partitura olfactiva: o estro do poema é, ele mesmo, vocal.

O GRÃO DA VOZ 
Barthes, a Textura e o Corpo no Canto

Roland Barthes chamou grão da voz ao «corpo na voz que canta» — à materialidade que faz fricção contra o sentido. Distinguiu, na esteira de Kristeva, o pheno-canto (a comunicação, a expressão, os traços da estrutura) do geno-canto (o volume do corpo que fala e canta, a significância que não comunica, mas goza). O grão é o idioma do corpo na sua língua materna, o atrito do timbre contra o significado.

Ora «A Tua Voz» é um poema do geno-canto. O que nele importa não é primeiro o que a voz diz, mas que ela «aquecia / Tanto a alma», que era «tão nítida», «tão serena / E tão calma»: qualidades de grão, não de mensagem. A voz é textura antes de ser informação — «Sons antigos, / Quentes, / Iluminados» —, e a sua chegada às palavras («DEPOIS CHEGARAM / As palavras») é posterior ao seu calor. O «perfume / Sonoro» é o grão tornado aroma; a «harpa / Afinada» é o corpo da voz tensionado em melodia. Barthes diria que ouvimos aqui a voz textura, aquela em que o sujeito não reconhece um conteúdo, mas saboreia uma presença — o gozo de um timbre que precede e excede tudo o que se diga.

A VOZ COMO OBJET A 
Lacan, a Fantasia e o Interdito

Foi Lacan quem acrescentou aos objectos freudianos a voz e o olhar, fazendo da voz o objet a da pulsão invocante: resto irredutível que cai do Outro, causa do desejo que jamais se possui. A voz de «A Tua Voz» é exemplarmente este objecto — acusmática, ouvida «Ao longe, / Na memória», sem fonte visível, presente na sua própria ausência. Ela causa o desejo precisamente porque não se deixa ter: «Mesmo aquilo / Que ter / Já não podia».

O «abraço / Escondido / Que para nós / Inventei» é, em termos rigorosos, o fantasma fundamental — a montagem que permite gozar da perda sem a ela sucumbir. E o interdito que o poema confessa — «SEMPRE HOUVE / A barreira / Do tempo / E um muro / No espaço» — funciona como a Lei que, ao proibir, multiplica o desejo: é porque há muro que há valsa, é porque o corpo falta que a voz se faz infinita. O «QUASE SENTIA / O calor» retém-se no quase: o objecto roça e recua, e nesse roçar mantém-se a tensão que Lacan chamava sublimação — elevar o objecto à dignidade da Coisa, das Ding. A voz é o nome desse objecto que arde sem se consumar.

A VOZ E O DIZER 
Levinas e a Ética da Phonê

Antes de dizer seja o que for, a voz diz que há alguém. Levinas chamou-lhe o Dizer (le Dire) — a exposição ao Outro, a proximidade, o sinal que se dá antes de qualquer sinal —, distinguindo-o do Dito (le Dit), o conteúdo temático em que o Dizer se deposita e arrefece. «A Tua Voz» encena esta precedência com exactidão: primeiro, a voz que «aquecia / Tanto a alma» (o Dizer, puro calor de proximidade), e só «DEPOIS» as palavras (o Dito). A ordem do poema é a ordem da ética.

Daí que a voz «serena / E tão calma» não transmita uma informação: oferece uma presença, expõe um rosto no registo auditivo. E daí, sobretudo, que a despedida não seja «A derradeira»: a relação com o Outro é an-árquica e infinita, e nenhum Dito a pode encerrar. «Foi que não era, / Uma vez mais, / A derradeira / Despedida» é a fórmula levinasiana do infinito — a impossibilidade de fechar as contas com o Outro, o excesso do Dizer sobre todo o Dito. A voz é, aqui, o vestígio do Outro que nunca se torna tema; é a voz e a ideia, a voz e a palavra, mas primeiro, e para sempre, a voz como apelo.

O ÚLTIMO GRITO É AINDA VOZ? 
Phonê, Logos e o Limiar

Aristóteles separou a phone — o som que exprime prazer e dor, comum aos viventes — do logos, próprio do homem, que diz o justo e o injusto. Entre uma e outro abre-se um limiar, e é nesse limiar que Agamben situa a Voz (com maiúscula): nem ainda phone, nem já logos, mas o puro ter-lugar da linguagem, a negatividade que assinala que algo quer significar. A pergunta «o último grito é ainda voz?» interroga este limiar.

O poema responde, encenando a passagem. As duas primeiras secções dão-nos a voz como phone — calor, nitidez, timbre, antes da palavra; a terceira anuncia o logos: «DEPOIS CHEGARAM / As palavras»; a quarta funde ambos no canto, «valsa lenta / Das palavras». A voz percorre, pois, todo o arco do pranto à fala, da reclamação ao protesto, do som à ideia. E o grito? O grito é a phone no seu extremo — e seria o último se a despedida fosse derradeira. Mas o poema recusa-o: «não era… / A derradeira / Despedida». O último grito não chega a soar; a voz mantém-se no limiar, sem cair na phonê muda nem fixar-se em logos fechado. Por isso, o grito, neste poema, é ainda voz: porque continua a ser apelo, vocativo, chamamento de um «tu». A voz só deixaria de ser voz se deixasse de chamar — e esta, mesmo no extremo, chama.

ESTÉTICA DUFRENNIANA
O Objecto Sonoro 
e o A Priori Afectivo

Mikel Dufrenne, na Phénoménologie de l’expérience esthétique, mostrou que o objecto estético não coincide com a coisa material: realiza-se na percepção que o acolhe, e o seu modo de ser é exprimir um mundo — não um mundo representado, mas uma atmosfera, uma qualidade afectiva que envolve quem percebe. A voz de «A Tua Voz» é precisamente um tal objecto estético: constituída «Na memória», só existe enquanto percebida, e o que ela expressa não é um facto, mas um mundo — o mundo, «serena / E tão calma», da intimidade reencontrada.

Dufrenne falava de um a priori afectivo: categorias do sentir que estão, ao mesmo tempo, no sujeito e no objecto, condições de possibilidade da emoção estética. O «calor», o «encanto», a serenidade não são reacções subjectivas acrescentadas à voz; são a própria profundidade expressiva do objecto sonoro, o seu a priori afectivo. E a sinestesia — «perfume / Sonoro» — é o que Dufrenne chamava a profundidade do sensível: a espessura em que som, aroma e tacto se interpenetram, dando ao objecto estético a sua quase-interioridade, o seu estatuto de quase-sujeito que nos olha enquanto o ouvimos. O «palco / Íntimo» é o nome poético do mundo da obra: o espaço afectivo que a voz, ao soar, faz nascer.

KHÔRA OU KABBALAH? 
O Espaço da Voz

Resta interrogar o espaço onde tudo isto acontece. O poema dá-lhe dois nomes contraditórios: «um muro / No espaço» (a barreira) e o «palco / Íntimo» (a cena da união). Que espaço é este? A tradição oferece duas respostas, e o poema parece querer ambas.

Há a resposta da Khôra. No Timeu, Platão nomeia um terceiro género — nem inteligível nem sensível —, a khōra, o receptáculo (hypodochê) que acolhe todas as formas sem ser nenhuma, ama de leite do devir. Derrida fez dela o nome do espaçamento anterior a toda a oposição, o lugar sem lugar que dá lugar sem ser. O «palco íntimo», enquanto cena vazia que recebe a voz e nela consente a dança, é uma khôra: puro intervalo, o «Ao longe» que separa para que algo possa ter lugar, o branco entre os versos onde a valsa cabe.

E há a resposta da Kabbalah. A voz, em hebraico qol (קול, cujo valor é 136), é força criadora — «e Deus disse» — que desce e sobe unindo planos separados; e a Bat Qol, a «filha da voz», é o eco celeste ouvido «ao longe», precisamente como «Som e eco / De um coro». Lida assim, a dança no «palco íntimo» é o yihud, a união mística entre o masculino e o feminino do divino — Tiferet e Malkhut / Shekhinah —, e a barreira tempo/espaço é o galut, o exílio, que a palavra cantada repara num tikkun parcial. A recusa da «derradeira despedida» é, nesta chave, teshuvá poética: retorno e reparação.

Khôra ou Kabbalah? A elegância do poema está em não escolher. O seu espaço é khôra que se torna Kabbalah: receptáculo que, ao receber a voz, se faz câmara nupcial; espaçamento vazio que a melodia converte em união. A voz é justamente o que atravessa a khôra para cumprir o yihud — o que faz, do muro, palco; do exílio, dança; do intervalo, coro. Notável é que ambas as tradições pensem o feminino como receptáculo: a hypodochê platónica e a Shekhinah kabbalística convergem na figura de quem acolhe — e é a essa figura que a obra de João de Almeida Santos dá rosto.

«LA CORTIGIANA»
 Figura do Receptáculo 
e o Renascimento Reconfigurado

A obra que acompanha o poema — «La Cortigiana» (João de Almeida Santos, 2023; técnica mista sobre papel de algodão Hahnemühle FineArt 310g, 71×88 cm) — não é ornamento, mas tese visual. Inspirada num esboço do Trattato della Pittura de Leonardo da Vinci (c. 1492–1519), a obra de JAS não se estrutura como uma influência linear: entre o esboço renascentista e a obra contemporânea não existe filiação mimética, mas um diálogo à distância, uma reconfiguração em que o modelo antigo é convocado para ser interrogado, deslocado, transfigurado.

O esboço leonardesco que serve de horizonte à obra de JAS pertence à tradição do estudo de figura feminina tal como o Trattato a codifica — a atenção ao volume do corpo sob o pano, à inclinação da cabeça, à tensão entre repouso e presença. Mas onde Leonardo estudava a forma em busca da sua lei geométrica, JAS recebe esse legado para o subverter cromaticamente: a paleta da obra abandona o sfumato e as gradações tonal-cinzentas do esboço e mergulha a figura numa monocromia de terras quentes — ocres, siennas, negros — que a converte, simultaneamente, em ícone e em máscara.

A cortigiana onesta do Renascimento — culta, poeta ela mesma, anfitriã de salões, de que Veronica Franco é o arquétipo — encarna o erotismo refinado e mediado: presença que vale pela voz, pela conversa, pela inteligência, tanto ou mais do que pela posse. É a amada do poema: «voz que aquece, palavras que bailam», corpo desejado, mas diferido pelo interdito. Na obra de JAS, essa mediação inscreve-se na própria materialidade da imagem: a figura olha para baixo, recolhida, sem confronto — o rosto é oferecido, mas não entregue, o que o torna, justamente, apelo.

A ausência do Cupido cego — presente na tradição iconográfica renascentista, mas ausente da obra de JAS — não é lacuna, mas escolha. JAS retira o emblema alegórico para devolver à figura a sua densidade própria: não é o amor cego que a define, mas a sua própria opacidade, a sua recusa de se deixar reduzir a símbolo. A cortesã de JAS não carrega a legenda; é ela mesma a legenda — o que Levinas chamaria o rosto que, ao resistir à tematização, se faz Dizer. Não é por acaso que a face da figura, nesta obra, inclina a cabeça na mesma direcção do poema: para baixo, para dentro, onde a voz ressoa.

A cortesã é, ainda, a figura do receptáculo refinado — o que reconduz, por outra via, à khôra e à Shekhinah da secção anterior. O Trattato della Pittura é, neste contexto, menos uma fonte do que um limiar: o lugar de onde JAS parte para construir um objecto que já não pertence ao Renascimento nem apenas ao presente, mas ao intervalo entre ambos — o mesmo intervalo em que o poema situa a voz.

A VOZ E O DIZER
no Horizonte de «Contos e Psicanálise»

Seja permitida uma nota reflexiva. É de uma escuta longamente exercitada que esta leitura se faz: no ciclo «Contos e Psicanálise», o autor destas páginas tem ensaiado, fábula a fábula, uma analítica da voz — a voz que, na narrativa como no divã, diz antes de dizer o que diz, e cuja verdade está menos no enunciado do que na enunciação. É também daí que provém o método FPX: não uma soma de disciplinas, mas a escuta de um acorde, em que o filosófico, o psicanalítico e o cabalístico-estético soam juntos sem que nenhum reduza os outros.

«A Tua Voz» oferece a esse método o seu objecto mais puro. Pois a voz é, por excelência, aquilo que só o acorde apreende: textura para o esteta, objet a para o analista, qol criador para o cabalista, Dizer para o filósofo da ética — e, em todos, o mesmo grão, o mesmo apelo, a mesma recusa da última despedida. Ouvir o poema é, no fim, ouvir a voz ouvir-se: a Bat Qol que regressa do seu próprio eco.

ENCERRAMENTO 
A Harpa de Melodia Sem Fim

«A Tua Voz» é, segundo a sua própria imagem, uma harpa afinada por melodia sem fim — e cumpre o que descreve. Reúne a plétora das vozes que o pórtico anunciava: a voz-textura e o grão barthesiano; a voz-phone e o limiar de Agamben; a voz-canto e a voz-pranto que não chega a último grito; a voz-fala e a voz-palavra, ordenadas pelo Dizer levinasiano; a voz como objet a que arde sem se consumar; a voz-qol que, atravessando a khôra, cumpre o yihud.

Em todas elas, uma só lei: a voz não encerra. Ouvida «Ao longe», dada por «Perdida», ela regressa «tão nítida» e desmente a despedida derradeira. A figura da obra de JAS vê pela escuta — o rosto inclinado que não confronta, mas recebe; o muro do espaço faz-se palco íntimo; o exílio do tempo faz-se dança. E o poema, ao calar-se nas suas reticências finais, não silencia: passa ao leitor a melodia, convidando-o ao coro. Onde outro autor compõe melodia, este poema compõe acorde — e o acorde, desta vez, tem o timbre de uma voz que, recusando a última despedida, permanece. O último grito é ainda voz, porque ainda chama; e, enquanto chamar, não haverá derradeira despedida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Fontes patentes

Santos, J. de A. (2023). La Cortigiana [Obra plástica; técnica mista sobre papel de algodão Hahnemühle FineArt 310g, 71×88 cm; inspirada no esboço do Trattato della Pittura de Leonardo da Vinci, c. 1492–1519]. Lisboa: edição do autor. Disponível em https://joaodealmeidasantos.com

Santos, J. de A. (2026). A Tua Voz [Poema em https://joaodealmeidasantos.com, com a obra «La Cortigiana»]. Lisboa: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026). Contos e psicanálise: O submundo das fábulas. Guimarães: edição MDE (No Prelo).

Castiglione, B. (1528). Il libro del cortegiano. Venezia: Aldo Manuzio.

Leonardo da Vinci. (c. 1492–1519). Trattato della Pittura [Manuscrito]. [Edição de referência: Ludwig, H. (Ed.). (1882). Leonardo da Vinci: Das Buch von der Malerei. Wien: Braumüller.]

Rosenthal, M. F. (1992). The Honest Courtesan: Veronica Franco, Citizen and Writer in Sixteenth-Century Venice. Chicago: University of Chicago Press.

Fontes latentes

Agamben, G. (1982). Il linguaggio e la morte: Un seminario sul luogo della negatività. Torino: Einaudi.

Bachelard, G. (1957). La poétique de l’espace. Paris: Presses Universitaires de France.

Barthes, R. (1982). L’obvie et l’obtus: Essais critiques III. Paris: Éditions du Seuil.

Bataille, G. (1957). L’érotisme. Paris: Éditions de Minuit.

Bergson, H. (1896). Matière et mémoire: Essai sur la relation du corps à l’esprit. Paris: Félix Alcan.

Derrida, J. (1993). Khôra. Paris: Éditions Galilée.

Dufrenne, M. (1953). Phénoménologie de l’expérience esthétique. Paris: Presses Universitaires de France.

Jakobson, R. (1963). Essais de linguistique générale. Paris: Éditions de Minuit.

Kristeva, J. (1974). La révolution du langage poétique. Paris: Éditions du Seuil.

Lacan, J. (1973). Le séminaire, livre XI: Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse (J.-A. Miller, Ed.). Paris: Éditions du Seuil.

Levinas, E. (1974). Autrement qu’être ou au-delà de l’essence. La Haye: Martinus Nijhoff.

Platão. (2011). Timeu-Crítias (trad. R. Sousa). Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos.

Scholem, G. G. (1946). Major Trends in Jewish Mysticism. New York: Schocken Books.

AMV@06-2026

Ensaio

CATCH ALL NET

João de Almeida Santos

“S/Título”. JAS. 06-2026

O FIO CONDUTOR desta minha reflexão será o lugar das tecnologias na história, sobretudo tendo em consideração o estado actual das TIC e do universo digital. Uma temática hoje decisiva se atendermos aos avanços da robótica e da Inteligência Artificial (IA) e ao aceso debate que já está a acontecer. Até o Papa Leão XIV lhe dedicou atenção na Encíclica “Magnifica Humanitas”. Ou as propostas de suspensão cautelosa da investigação nesta área sugerida, por exemplo, pela Anthropic e suscitada pela possibilidade de ser a própria IA a criar as condições para a sua própria reprodução autónoma.  E porque são as TIC que hoje estão a provocar uma autêntica revolução civilizacional com os clássicos paradigmas da modernidade a ficarem definitivamente superados, embora, como dizia o filósofo, o antigo acabe e o novo tarde a afirmar-se. Até porque não se trata de uma evolução linear, acontecendo pelo caminho desvios que muitas vezes alteram a lógica e a orientação originárias. Isso tem vindo a acontecer, por exemplo, com os social media e as grandes plataformas digitais que os controlam e os usam para determinação predicativa de comportamentos (veja-se a este respeito o livro de Shoshana Zuboff sobre o capitalismo da vigilância, 2020).

1. A TECNOLOGIA E A VONTADE HUMANA

Mas a discussão é antiga. Em que medida as tecnologias são o grande motor das transformações sociais e da própria história? E a resposta mais comum foi sempre a de que elas são meros instrumentos ao serviço da vontade dos homens e das sociedades, sendo esta já uma afirmação problemática, considerando a rápida evolução da IA generativa. Recordo a posição do marxista Nicolai Bukhárine – uma das vítimas de Estaline – sobre a centralidade da técnica nas transformações sociais, na sua famosa Teoria do Materialismo Histórico, de 1921. Mas recordo também a crítica que lhe fizeram Lukács e Gramsci. Lembro também as surpreendentes posições de Lenine sobre a necessidade de introduzir o taylorismo como factor de desenvolvimento da União Soviética. E em geral lembro a importância da imprensa, com Gutenberg, da maquinaria industrial ao serviço da revolução industrial, da introdução do telex nas comunicações, da rádio, da televisão, da robótica industrial, da Internet, da Inteligência Artificial. Todas elas marcaram momentos decisivos na evolução da humanidade. Hoje estamos num momento que, deste ponto de vista, já é considerado muito delicado.

2. ADAM SMITH E MARX

Sem dúvida que a tecnologia sempre teve um papel decisivo na evolução das sociedades. Quando Adam Smith, um dos pais do liberalismo, depois da Escola de Salamanca, em A Riqueza das Nações, em 1776, falava da divisão do trabalho como a base essencial para o aumento da produtividade, um dos três factores decisivos para isso era precisamente o da introdução das máquinas no processo produtivo [Smith, 1979]. O próprio Marx defendera, em O Capital, a importância decisiva da tecnologia na produção da mais-valia relativa, substituindo a produção de mais-valia absoluta obtida pelo prolongamento de jornada de trabalho. A ciência e a tecnologia haveriam de se tornar as principais forças produtivas. Cito um simples exemplo, já dos anos ’80 do século passado: a FIAT informatizou e robotizou o processo de produção dos Fiat Mirafiori, conseguindo, deste modo, em dez anos, duplicar a produção de automóveis por operário e quase quadruplicar o valor acrescentado por operário [Santos, 1999: 193-217]. O avanço que, entretanto, se verificou na robótica industrial e nas tecnologias da informação e da comunicação veio a produzir uma autêntica mudança epocal: passámos definitivamente a uma era pós-fordista, pós-industrial e pós-moderna do ponto de vista das relações sociais, produtivas, de trabalho, existenciais e comunicacionais.

3. MOBILIDADE, INTELIGÊNCIA TECNOLÓGICA 
E IA GENERATIVA

Mas há, no meu entendimento, três momentos fulcrais que marcam uma profunda rotura de paradigma em relação ao velho modelo industrial. Um deles reside precisamente na incorporação de inteligência na tecnologia, na directa conversão tecnológica da ciência, na passagem do hardware ao software, na passagem da fase mecânica para a fase da inteligência artificial. A robótica industrial: a construção dos robots de comportamento não determinístico, robots que conseguem corrigir os próprios erros. Isto sem referir as utopias tecnológicas que previam uma robótica dotada de sentimentos e emoções. Todos nos lembramos do supercomputador Hal de 2001 Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, um filme de 1968. O outro momento verifica-se na passagem para as tecnologias móveis, que não conhecem fronteiras nem territórios, nem estão dependentes de pesadas estruturas industriais e de altos níveis de desenvolvimento económico para a sua operacionalização. Ou seja, para as tecnologias que podem ser accionadas em qualquer contexto. É este aspecto que marca a diferença entre uma revolução industrial e uma revolução pós-industrial. E, finalmente,  o que já estamos a viver, com a IA generativa a produzir pensamento e a inovar e criar a uma velocidade instantânea – o ChatGPT, da Open IA, o Gemini, da Google, o Claude, da Anthropic, etc., etc.

De facto, a posição que se possa tomar sobre o papel da tecnologia nas transformações sociais e na evolução civilizacional deverá hoje tomar estes três aspectos em consideração. São eles que explicam a crescente relevância da tecnologia, uma vez que a mobilidade, a inteligência tecnológica e a IA generativa induziram um verdadeiro salto qualitativo na influência da tecnologia sobre as transformações sociais. Ou seja, a tecnologia deixou de funcionar como uma mera prótese externa da acção humana para passar a funcionar como prótese interna que até já ameaça destacar-se do ser humano e tornar-se independente, como vem alertando a Anthropic. Em geral já deixou de funcionar como um mediador puramente instrumental e mecânico entre o homem e o seu ambiente externo. Nesta passagem, a tecnologia acabou por assumir a forma de uma prótese interna, produzindo mutações de natureza quase genética no aparelho cognitivo e sensorial dos utilizadores podendo chegar mesmo a substituir-se-lhes e a criar as condições suficientes para a sua própria reprodução.

4. PROSUMER

Se nos tempos tayloristas d’Os Tempos Modernos (1936), de Charlot, tínhamos a robotização do operário industrial, a que, de resto, se acrescentava o fordismo existencial [1], agora, com a sofisticação das TIC, da nova robótica e da IA a incidência da tecnologia sobre a nossa estrutura interna é ainda mais complexa e sofisticada (em sentido positivo, mas também com efeitos que podem ser considerados negativos). Ou seja, não só a tecnologia passa a funcionar como sofisticada prótese, interna e externa, cognitiva, sensorial, mecânica e instrumental dos utilizadores, mas chega a desprender-se dela dando origem a novas qualidades emergentes e a auto-suficiência: uma capacidade reforçada capaz de capturar os próprios utilizadores, de colonização digital dos comportamentos e atitudes. Como? Sobrepondo-se de tal modo às relações interpessoais ou orgânicas que estas acabam por se tornar realmente residuais. Por exemplo, as tecnologias móveis não só já se tornaram imprescindíveis aos utilizadores, como já os mantêm capturados como membros de uma comunidade digital cada vez mais invasiva e poderosa. Elas transmitem uma sensação de poder quase ilimitado que lhes advém do acesso cognitivo ao espaço público universal. Na dupla condição de receptor e de pesquisador de informação, mas também de protagonista virtual como produtor de conteúdos, agora assessorado pela inteligência artificial a níveis nunca antes julgados possíveis. Prosumer: consumidor e produtor. Mas não só. Estas plataformas já saíram do virtual descendo ao plano orgânico das relações sociais, colonizando-as ou accionando-as, promovendo-as ou tornando-as residuais. E vieram para ficar, aumentaram a sua importância nos processos sociais, sofisticaram-se e aumentaram o poder dos utilizadores a níveis antes impensáveis. Mas sobretudo elas ficaram em condições de gerar o seu próprio ambiente, constituindo-se como sistemas diferenciados e dotados de capacidade autopoiética e de autonomia operativa, como dizia Luhmann ao falar dos sistemas. Rede, Redes Sociais, tecnologias multimédia móveis, IA generativa. E é precisamente pelo seu carácter móvel que estas plataformas fazem descer a rede ao nível das relações interpessoais e comunitárias: por um lado, no plano macro, mobilizando-as quer na esfera virtual quer na esfera orgânica; e, por outro lado, no plano micro, colonizando as relações interpessoais e comunitárias a ponto de as desvitalizarem. Há na net fotos de amigos em convivência… mas com todos menos com aqueles que ali se encontram fisicamente ao seu lado. E se é verdade que elas são um factor impressionante de produtividade, também é verdade que elas podem pura e simplesmente anulá-la se usadas indevidamente no próprio ambiente de trabalho. Mas também acontece que elas podem colonizar o próprio tempo de vida quando passam a funcionar como ininterrupto instrumento de trabalho. Há uma gigantesca vida artificial a crescer ao nosso lado, colonizando e monitorizando silenciosa e progressivamente as nossas vidas a um ponto tal que quase poderíamos dizer que ela já sabe mais sobre nós do que nós próprios.

5. NO SENSE OF PLACE

Esta questão do carácter invasivo das tecnologias tinha sido posta a propósito do papel da televisão na desestruturação do ambiente comunitário familiar quando foi vista como um intruso que capturava a atenção de todo o núcleo, provocando um imenso ruído na convivência familiar. Intruso que ainda por cima provocava uma radical transformação da geografia situacional dos próprios indivíduos e grupos sociais. Como bem demonstrou Joshua Meyrowitz, num excelente livro de 1985, No Sense of Place, a televisão veio determinar o fim da compartimentação da comunicação relativa a grupos sociais (por exemplo, nas relações entre crianças/adultos ou homens/ mulheres) ou mesmo o fim da compartimentação de planos (por exemplo, entre os bastidores e o palco da política ou entre o privado e o público) [Meyrowitz, 1995]. Tudo converge para o ecrã. Sabemos que este processo se tornou socialmente intenso a partir dos anos ‘60 com o crescimento exponencial da socialização televisiva. Esta compartimentação já fora, na origem, destroçada pelo transístor, fruto da revolução da microelectrónica nos anos 1940. O transístor rompeu, em relação à rádio convencional, a geografia situacional do ouvinte, uma vez que alterou a estrutura fixa dos espaços compartimentados da audição, derrubando paredes e fronteiras, descomunitarizando a audição e tornando a audição rádio um acto sem sentido de lugar e, sobretudo, um acto singular, não comunitário. É certo que a televisão convencional, como a velha rádio, ainda continua a processar-se em espaços com fronteiras e em comunidade, mas o essencial é que ela já migrou para as plataformas digitais e em rede, passando a processar-se no interior de outro modelo de comunicação. Tal como a rádio. Mas esta já produzira uma rotura interna no modelo de comunicação via imprensa. A imprensa exigia descodificação analítica da mensagem e literacia para permitir participação no processo comunicativo. Mas a rádio não, uma vez que a audição rádio solicita simplesmente os mesmos mecanismos sensoriais que usamos na vida quotidiana, não exigindo outros compromissos operativos, cognitivos ou sensoriais, além do conhecimento da língua. Mas a verdade é que o sistema operativo interno da televisão, que manteve – antes de migrar para a rede – a geografia situacional do telespectador numa posição muito semelhante à da rádio tradicional, veio superar as barreiras tradicionais, uma vez que, funcionando essencialmente com base na imagem, passou a ter uma capacidade de projecção universal, um dispositivo capaz de impor o presente como tempo dominante e de romper com a compartimentação do real, derrubando fronteiras. Mas possuía também: 1) a capacidade de dilatar e expandir o real para além das suas dimensões físicas (um estádio de futebol é maior em televisão do que na realidade; tudo é maior em televisão – até a importância das pessoas); 3) a capacidade de transfiguração das relações de representação, num efeito de proximidade e de banalização: um pivô de telejornal pelo facto de nos entrar todos os dias pela casa dentro transforma-se, no real, num velho conhecido muito familiar a quem podemos abordar e tratar por tu na rua; 3) ou a capacidade de alterar a natureza dos fenómenos sociais, propondo-nos um efeito de repetição/replay daquilo que, afinal, é único e irrepetível: ao perder em pleno estádio de futebol um golo da minha equipa, fiquei por momentos à espera do replay, tal era o hábito de ver futebol na televisão [Santos, 2000; 2019]. Ou seja, a televisão passou a funcionar não só como uma nossa prótese cognitiva externa, mas também como uma nossa autêntica prótese cognitiva interna no plano das nossas relações sensoriais, perceptivas e cognitivas.

Tudo isto revolucionou a comunicação, que antes era própria da imprensa tradicional ou da rádio que, de resto, como vimos, também introduziu importantes mutações no processo comunicacional relativamente à imprensa.

6. A DESCOMUNITARIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃO

Mesmo assim, a televisão, até a digital, ainda surge essencialmente como uma prótese externa. Tal como os computadores fixos. Tal como a rádio convencional, antes do transístor. Na verdade, o grande salto consistiu na introdução destas plataformas multimédia móveis que dispõem de sistemas operativos altamente sofisticados e capazes de nos autonomizar relativamente à comunidade, às fronteiras, ao território. No sense of place. Elas, com efeito, à semelhança do que acontecera com o transístor, vieram permitir a descomunitarização total da comunicação, o acesso individualizado, imediato e sem limites à informação e à livre entrada no espaço público universal, na condição de prosumer. Uma descomunitarização que pode até provocar um forte ativismo social (as redes sociais) ou, então, o seu contrário, a desvitalização das relações comunitárias ou interpessoais, por efeito de sobreposição [Santos, 2001].

Se é verdade que a rede já representa uma revolução tecnológica absolutamente radical a ponto de estar a induzir uma revolução civilizacional, mais profunda se torna quando ela se processa agora através de plataformas multimédia móveis que tornam os indivíduos completamente independentes e detentores de um poder de relacionamento à distância que nunca se verificou no passado. De resto, o modelo de comunicação da rede que as suporta é um modelo completamente novo em relação ao anterior modelo de comunicação social: ele está estruturado numa lógica relacional onde os sujeitos da comunicação funcionam como variáveis independentes num imenso espaço intermédio onde todos se relacionam com todos, dando lugar àquilo que Manuel Castells chama mass self-communication, comunicação individual de massas, bem diferente daquela mass communication accionada pelo velho modelo mediático de comunicação, assente na relação emissor-receptor, sujeito-objecto ou produtor-consumidor. A rede, pelo contrário, introduz a dimensão individual e subjectiva no interior do processo de massificação da comunicação, conjugando qualidade e quantidade, substância e função, de forma absolutamente eficaz. O que é radicalmente novo. Acrescente-se agora a disponibilidade da IA para reforçar o poder cognitivo do prosumer e teremos um reforço ainda mais profundo deste novo modelo.

7. AS PLATAFORMAS TRADICIONAIS 
DE COMUNICAÇÃO E O SPIN-DOCTORING

Mas se é verdade que se estão a processar profundas mudanças na comunicação e, portanto, na sociedade, também é verdade que estas mudanças se estão a produzir, em formato muito variável, na própria política. Quem estude a evolução das relações entre política e comunicação a partir dos anos cinquenta do século passado pode verificar como se tornou central no processo político a televisão, colonizando a narrativa política. É certo que o audiovisual já chegara à narrativa política no período das grandes ideologias. Falo do cinema e da propaganda política do nazismo, por exemplo. Falo de Leni Riefenstahl, do filme Triumph des Willens (de 1935) e dos 700 mil figurantes que, em 1934, encheram a cidade de Nuremberga, esse imenso palco onde Hitler aterrou como deus ex-machina que vinha resolver todos os problemas que a Alemanha tinha, desde Versailles, a partir de uma sua condição-imagem endeusada. Mas falo também dos sofisticados filmes de Eisenstein e da glorificação da União Soviética: de Alexandre Nevsky a Ivan o Terrível. Falo da própria rádio, que foi utilizada como importante instrumento político por Roosevelt, nas suas famosas conversas à lareira. Sim, mas a verdade é que a grande viragem se deu, de facto, com a televisão. Todas as técnicas de comunicação política acabaram por convergir, a partir dos anos ’50 do século passado, no sentido de um uso eficaz do monitor como instrumento central para a conquista do consenso: a imagem, a personalização, o uso de filtros, os primeiros planos, a composição de cenários, a simplificação do discurso, as campanhas negativas, a escolha dos tempos de comunicação, a informação como narrativa-ficção – tudo isto integrou a comunicação política, que acabou também por evoluir das campanhas eleitorais para as permanent campaignings, da lógica dos spots televisivos para a propaganda travestida de informação, nos noticiários, em prime time. Ficou célebre a famosa aterragem de G. W. Bush no porta-aviões Lincoln, aquando do regresso dos soldados americanos do Iraque em 2003: um Bush top-gun presidencial futuro adversário (que nunca esteve na guerra) do medalhado de guerra John Kerry. A verdade é que a informação sob forma de narrativa audiovisual permite construir um discurso mais eficaz e fechado onde os pequenos truques ou mentiras não podem ser desmontados com eficácia. Onde a dicotomia verdade-mentira fica, aos olhos do grande público, esbatida na complexidade da textura narrativa. E, por isso, este modelo de comunicação é o mais adequado à promoção das técnicas spinning que têm dominado a comunicação política actual e onde se evidenciaram nomes famosos como Karl Rove (o operacional de George W. Bush), Alastair Campbell ou Peter Mandelson (os dois principais operacionais de Tony Blair) ou o do patrão da Fox, Roger Ailes, consultor de vários presidentes americanos e mesmo europeus. É também conhecida a evolução do White House Office of Communications, a partir da Presidência Nixon, no sentido de uma passagem da informação para a comunicação em registo narrativo e ficcional, sobretudo em torno da figura do Presidente, mais adequado à produção instrumental de efeitos especiais sobre o discurso público do que a um registo simplesmente informativo, objectivo e descritivo [Canel, 2008]. Veja-se o filme Wag the Dog, “Manobras na Casa Branca”. Nesta passagem, a televisão ocupou um lugar muito relevante, ao ponto de, logo nos anos 1960, com John Kennedy, se ter dado início a sessões presidenciais de media performance. E mais recentemente, com Berlusconi, em 1993-1994, a selecção dos candidatos a deputados por Forza Italia, o seu partido, ser feita através de performances televisivas, durante uma semana.

Mas o modelo em causa no universo de comunicação política que acabo de referir é ainda um modelo de tipo vertical, onde a comunicação é sempre gerada, trabalhada e difundida a partir de um centro que a difunde para o exterior, para milhões ou, mais precisamente, para as massas, o público, os consumidores, os clientes. Este é um modelo próprio da sociedade de massas, de uma sociedade de consumidores exógena ao processo de produção da informação.

8. A CENTRALIDADE DO INDIVÍDUO SINGULAR

Ora eu creio que a política e a comunicação conheceram uma mutação estrutural profunda, com alteração radical de paradigma. Antes tratava-se da sociedade de massas, de um cidadão-consumidor de mercadorias simbólicas, da própria ideia de “público” transposta para a política. Se é verdade que no domínio dos bens transaccionáveis a natureza da relação entre produtor e consumidor ainda se mantém de certo modo inalterada, já no domínio da informação e comunicação esta relação, com a emergência da Rede, conheceu uma mudança estrutural radical. Ou seja, os conceitos de massas e de comunicação conheceram uma autêntica transfiguração, passando o indivíduo singular a ganhar um protagonismo que não lhe era reconhecido nem possibilitado pelo anterior modelo de comunicação, muito mais amigo de uma cultura das grandes organizações. Este novo modelo é o modelo digital e reticular que funciona como um ilimitado espaço intermédio onde a comunicação passa a ocorrer como fluxo entre variáveis independentes. Numa lógica relacional. E, assim sendo, tudo muda na comunicação. De resto, toda a comunicação está a migrar para a rede. Porquê? Não só porque esta se está a impor a um ritmo verdadeiramente impressionante, mas sobretudo porque o modelo digital e reticular de comunicação está em condições de acolher no seu seio, potenciando-o, o velho modelo mediático, com o qual é totalmente compatível, embora com ele não seja intercambiável. Ritmo impressionante, dizia: em Portugal, num ano (de 2010 para 2011), o Facebook cresceu em implantação 11%, passando de 25% para 36% da população. Em 2012 já representava quase metade da população. Em finais de 2015 (Novembro) já era de 53,97%, correspondendo os users de Internet a 67,6% do total da população. Na China, em dez anos (2003-2012) os utilizadores da Rede passaram de 59 milhões para cerca de 536 milhões. São números meramente exemplificativos. Em Itália, o M5S nasce com a sua sede em http://www.beppegrillo.it [Santos, 2017]. Era um partido digital que queria uma cidadania digital e uma democracia digital (mas algo mudou com a liderança de Giuseppe Conte).

E, todavia, este novo modelo introduz uma nova lógica que tende cada vez mais a colonizar a velha, incorporando-a numa nova lógica. Ou seja, se o velho modelo era sobretudo funcional às grandes organizações (grandes partidos e grandes media), que dominavam e tornavam exclusivo o acesso ao espaço público, subalternizando e controlando totalmente o livre exercício da cidadania comunicacional (o famoso gatekeeping), pelo contrário, o novo modelo é mais funcional ao indivíduo singular do que às grandes organizações. O que é verdade, se não tomarmos em consideração a nova organização das grandes plataformas digitais com a introdução dos algoritmos e com a transformação dos clientes em matéria-prima para a determinação preditiva de comportamentos com fins comerciais, de poder e de política, numa profunda alteração do modelo inicial. Uma viragem que veio, pois, alterar a primeira ideia das TIC como tecnologias da libertação.

9. O NOVO MODELO

E porque é que é este novo modelo digital é mais funcional ao indivíduo singular do que às grandes organizações?

Precisamente porque a rede é: (a) directamente acessível, sem mediações, em todas as suas potencialidades; (b) mas também porque é universal e instantânea; (c) porque, nela, a comunicação é feita entre variáveis independentes (e não na óptica da relação sujeito-objecto), onde a determinante é a relação e não os seus membros; (d) porque nela não há hierarquias; (e) e porque não está sujeita ao chamado gatekeeping, ao establishment mediático.

Tudo isto coloca o cidadão em condições não só de se informar em todas as direcções, mas também, e sobretudo, de se protagonizar livremente no espaço público, bastando-lhe para isso apenas capacidade, saber e criatividade. O novo conceito é, pois, o de prosumer, produtor e consumidor. E de um potente prosumer dotado de imensas capacidades cognitivas se funcionar através de um uso competente da IA. E o que está a acontecer não pode deixar de ter implicações quer no plano da política quer no plano dos media. É verdade que todas as organizações já estão presentes na Rede. Mas, na generalidade, não estão lá com a lógica da rede. Estão lá, sim, numa lógica instrumental, a sua própria lógica. E a verdade é que a lógica da Rede é, em linha de princípio, mais a do poder diluído (Jesús Timoteo) do que a do poder das organizações. Uma lógica de auto-organização. Não de etero-organização. O que pretendo dizer é que as grandes organizações, media ou partidos, estão modeladas, em termos de comunicação, com a lógica inscrita na relação simples entre sujeito e objecto ou entre produtor e consumidor, mas não com a lógica do prosumer e do poder diluído. É por isso que elas tentam colonizar a rede, replicando as relações de força externas. A sua natureza vertical é matricial.

10. CATCH ALL NET

Quando se procurou caracterizar os partidos em busca de uma nova forma, nos anos 1980 – por exemplo, os trabalhistas ingleses, evoluindo do Labour para o New Labour de Neil Kinnock, John Smith e Tony Blair – o nome que se encontrou foi catch all parties. Por sua vez, para designar os correspondentes media também foi possível falar em catch all media, dadas as semelhanças entre os grandes partidos com vocação governativa e os grandes media: a procura do grande centro e da chamada middle class. São esses media que Daniel Hallin e Paolo Mancini identificam com o modelo liberal, o modelo dominante [Hallin e Mancini, 2004]. Estes media e estes partidos, enquanto organizações, libertaram-se muito da pressão político-ideológica, da representação de classe, olhando mais para a sociedade como mercado, intensificaram o nível de profissionalização, centralizaram o poder decisional, passaram a ser intérpretes das expectativas difusas das audiências ou do eleitorado. Emergiu a democracia do público. Tudo isto é verdade e representa uma evolução interna da narrativa mediática e política. Certamente, mas, entretanto, a Rede veio romper com esta evolução linear e com este modelo próprio da sociedade de massas. Deste modo, depois dos catch all parties e dos catch all media, poderíamos então falar de catch all net.

11. DIFERENCIAIS

Barack Obama (2008), num modelo altamente personalizado de exercício da política, e com um imponente back-office partidário na retaguarda, o Partido Democrata, na sua campanha eleitoral conseguiu, através da Rede, 67% do total dos cerca de 600 milhões de dólares da sua primeira campanha. O que diz muito sobre a capacidade catch all da Rede. Se verificarmos a sua taxa de cobertura nos principais países desenvolvidos ficamos impressionados com os números, em particular se comparados com as taxas de leitura da imprensa. Falamos de níveis de cobertura da Rede, para 2012, equivalentes a 55.2 %, em Portugal (Novembro de 2015: 67,6%), a 79.6 %, em França (83,8%), a 78.1 %, nos USA (87,4%), ou a 83.0 %, na Alemanha (88,4%). Hoje, em 2026, estes números são, como é óbvio, muito superiores, havendo países cuja taxa de cobertura já ronda os 100%.  Mas, se fizermos uma comparação entre as taxas de cobertura da Rede e da imprensa escrita em Portugal e as que se verificam nos outros países o diferencial é enorme no que toca às taxas de cobertura de jornais, sendo, todavia, já muito menor no que toca à Rede. E menor ainda se olharmos para o crescimento exponencial que se está a verificar no Facebook: hoje, mais de metade da população (cerca de 60%).

12. UMA DEMOCRACIA DE CIDADÃOS

A política democrática não pode, por isso, deixar de reflectir esta mudança estrutural. Julgo ter demonstrado, no ensaio “A Rede e a Democracia: Uma simetria perfeita?” (Santos, 2013), que o modelo mediático de comunicação só é simétrico ao modelo inscrito na democracia representativa no plano do sujeito do discurso, ou seja, os media ocupam um lugar equivalente ao dos partidos, sendo ambos sujeitos de discurso, um, de informação, o outro, de propostas políticas. Mas não é simétrico no plano do consumidor, já que este não equivale exactamente ao cidadão, porquanto não possui uma verdadeira função constituinte como, pelo contrário, acontece com os cidadãos eleitores relativamente ao sistema político representativo (na fase constituinte, mas também na regular renovação do contrato social). De facto, uma das críticas que hoje é feita à política é a de ter permitido (colaborando activamente nisso) uma autêntica transmutação do cidadão activo em mero espectador da representação política (a democracia do público), quando o que deveria ter acontecido era a transmutação do espectador em cidadão activo.  Foi essa, de resto, no plano estético, no teatro, a intenção de Bertolt Brecht quando introduziu o conceito de efeito de distanciação, ou melhor, de estranheza (Entfremdungseffekt).

Ora, o que veio a acontecer com a Rede é que, nela, o prosumer possui, tal como o cidadão, capacidade constituinte, precisamente enquanto prosumer. Verifica-se, assim, na minha perspectiva, uma simetria perfeita entre os dois modelos: o da Rede e o da democracia representativa. Ou seja, o que se verifica é que o clássico modelo de funcionamento dos partidos e dos media não era totalmente simétrico relativamente à estrutura de funcionamento prevista pela própria democracia representativa. Pelo contrário, essa simetria viria a acontecer com a Rede. E, todavia, o que agora falta (em parte) é o equivalente político, visto que a lógica organizacional dos grandes partidos ainda continua a prevalecer. Mas, como temos vindo a ver nas autárquicas, em Portugal, o sistema convencional de partidos começa sofrer uma forte concorrência pelas novas formas de auto-organização da cidadania, que usam abundantemente as redes sociais como forma privilegiada de mobilização política e cuja lógica é de tipo bottom-up, como na rede. Elas representam, com efeito, uma forma de emancipação política individual e pós-partidária. E são já a terceira força política no plano autárquico, com o controlo de, se não erro, 22 presidências de câmara.

13. E ESTE É JÁ O MUNDO DOS PROSUMERS

Na verdade, e ainda que se admita que o modelo partidário acaba sempre por ter como destinatário, a jusante, um cidadão com poder constituinte, no modelo mediático de comunicação o consumidor mantém-se passivo, não tendo capacidade constituinte sobre o espaço público, que mais não seja porque está sempre sujeito ao poder de gatekeeping exercido inapelavelmente pelo establishment mediático e, bem pelo contrário, hoje submetido a uma enxurrada de opinião televisiva que quase não lhe deixa espaço para uma livre formação de opinião. A simetria mantém-se, assim, imperfeita no plano da equivalência entre consumidor e cidadão. Em qualquer caso, e ainda que a subjectividade partidária tenha vindo, a montante, a reduzir cada vez mais o cidadão a um mero consumidor de produtos políticos, a verdade é que o cidadão mantém sempre, a jusante, uma capacidade constituinte originária, que repousa na sua capacidade de voto. E ainda que, acrescente-se, a legitimidade de mandato já não seja o que era, isto é, tenha sido substituída, em grande parte, por aquela que eu designo como legitimidade flutuante, uma legitimidade ao sabor das flutuações da opinião pública. E ainda que, diria mais, ao cidadão não tenha restado senão uma função designativa, ou seja, a da simples escolha dos representantes que não a de dar uma estável e permanente legitimidade de mandato. E acrescendo, finalmente, que no nosso sistema de listas fechadas em sistema eleitoral proporcional puro a verdadeira escolha dos representantes seja feita exclusivamente pelos directórios partidários, não restando à cidadania que escolher entre a oferta proposta/imposta.

14. UMA SIMETRIA PERFEITA?

Mas, então, com esta nova realidade, verifica-se que o poder diluído é aquele que melhor corresponde quer à Rede quer à democracia representativa? Caminhamos para uma democracia de prosumers? Não de partidos, mas de cidadãos?

O que pretendo demonstrar com este discurso é que tudo aponta para a inauguração de um novo ciclo na secular evolução da democracia. E esse novo ciclo tem tudo a ver com a revolução na comunicação, com uma radical mudança de paradigma, lá onde a centralidade do indivíduo descoberta e proposta com a instauração do sistema político representativo viria a conhecer um impulso decisivo, ao resolver o duplo handicap de passividade política e informativa de que continuava a ser portador o cidadão eleitor. É certo que os media, da imprensa ao audiovisual, foram decisivos para a consolidação das duas fases de desenvolvimento da democracia, que são conhecidas como democracia de partidos (século XX) e democracia do público (finais do século XX e início do século XXI). Mas foi com a emergência da Rede que a individualidade se pôde começar a informar livremente à escala universal e livre de barreiras físicas à satisfação da sua curiosidade, mas também a exprimir-se publicamente com a liberdade de quem não tem de pedir autorização aos guardiões do espaço público, num registo que, afinal, será eticamente bem mais exigente do que todos os códigos éticos que conhecemos até aqui. Um registo que é equivalente ao que marca o gesto singular do cidadão quando, na solidão da urna de voto, exerce o seu direito de reconstituição e de relegitimação do poder no signo daquele que é certamente o lapidar princípio da democracia representativa e que foi formulado por Kant, na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, com o nome de imperativo categórico: «age como se a máxima da tua vontade pudesse valer ao mesmo tempo e sempre como princípio de uma legislação universal» [Kant, 1960]. Ou seja, no voto, o princípio da liberdade está conjugado à máxima potência com esse outro princípio, tão esquecido: o princípio da responsabilidade. Neste sentido, e quer no plano da comunicação quer no plano da decisão político-eleitoral, a lógica digital e da rede induz uma exigência de responsabilidade muito mais intensa e ampla do que a lógica mediática, porque ela interpela o cidadão singular para além das afinidades corporativas reunidas em torno de um qualquer código ético ou deontológico, de resto, pouco ou nunca cumprido. E esse cidadão singular é cada vez mais um centro complexo de decisão, de informação e de comunicação, mas também de pertenças múltiplas, lá onde comunicação e política convergem em unidade perfeita. É por isso que eu digo que entre a Rede e a Democracia existe, em linha de princípio,  uma simetria mais perfeita do que no velho modelo.

15. CONCLUSÃO

Pela Rede podemos ver que a comunicação não é uma variável exógena ao sistema democrático, mas sim uma variável interna do próprio sistema. E tão importante que acabará por determinar mutações tão profundas no sistema que levarão a uma autêntica integração e superação dos modelos até agora conhecidos: a política evoluirá de tal forma que acabará por produzir uma nova forma de democracia que, sem destruir o sistema representativo, possa ao mesmo tempo incorporar a democracia directa, agora não através de mecanismos imperativos de natureza comunitária ou sequer dos clássicos meios já praticados, como, por exemplo, o referendo, mas sim através de um recentramento do papel do indivíduo singular, enquanto cidadão activo, na regular reconstrução da legitimidade do poder. Aqui o indivíduo, pela primeira vez na história, não é dissolvido na comunidade, nas formas organizacionais ou nessa multidão solitária que constitui materialmente a sociedade de massas. É neste registo que eu valorizo a intuição do Manuel Castells quando nos propõe esse feliz conceito de mass self-communication, de comunicação individual de massas. E quando fala de democracia de cidadãos, que é, afinal, nome para designar aquilo a que muitos chamam democracia deliberativa. Tratando-se, verdadeiramente, de devolver ao cidadão algo que, em boa verdade, nunca lhe pertenceu. E este será, no meu entendimento, o grande desafio do futuro. Ele está inscrito na mudança, mas até que aconteça há um enorme caminho a percorrer.

REFERÊNCIAS

BUCHARIN, N. (1977). Teoria del materialismo storico. Manuale popolare di sociologia marxista. Firenze: La Nuova Italia.

CANEL, M. J. (2008). Comunicación política. Una guia para su estúdio y práctica. Madrid: Tecnos.

GRAMSCI, A. (1975). Quaderni del Carcere. Torino: Einaudi.

HALLIN, D. e MANCINI, P. (2004). Comparing media systems. Three models of media and politics. Cambridge: Cambridge University Press.

KANT, I. (1960). Fundamentação da Metafísica dos costumes. Coimbra: Atlântida.

MEYROWITZ, J. (1985). No sense of place. The impact of electronic media on social behavior. New York/Oxford: Oxford University Press.

SANTOS, J. A. (1999). Os intelectuais e o poder. Lisboa: Fenda.

SANTOS, J. A. (2000 e 2019, 2.ª edição). Homo Zappiens. O feitiço da televisão. Lisboa: Editorial Notícias (Lisboa, Parsifal).

SANTOS, J. A. (2001). Cosmopolis. In Vários (2001). Novo Ciclo. Lisboa: Editorial Notícias.

SANTOS, J. A. (2010). “A Rede e a Democracia: Uma simetria perfeita?” In https://joaodealmeidasantos.com/2013/10/10/a-rede-e-a-democracia-uma-simetria-perfeita-2/

SANTOS, J. A. (2013). “Mudança de Paradigma: A Emergência da Rede na Política. Os casos italiano e chinês”. In ResPublica 17/2017, pp. 51-78.

SMITH, A. (1979). The Wealth of Nations. London: Penguin Books

ZUBOFF, S. (2020). A Era do Capitalismo da Vigilância. Lisboa: Relógio d’Água.

NOTAS

[1] Veja-se a este propósito as observações de Antonio Gramsci sobre o americanismo e o fordismo em Quaderni del Carcere (1975), Q. 22 (V), § <11>, pp. 2164-2169, ou seja, a necessidade de racionalizar a vida dos operários para que o seu equilíbrio psíco-físico possa ser salvaguardado com vista a uma melhor performance e a uma maior racionalizaçãoo do processo produtivo.

JAS@06-2026