Poesia-Pintura

“EU VI UM ANJO…”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Melancolia”
Original de minha autoria 
para este poema.
Janeiro de 2020
jas_melancolia3Final1901

“Melancolia”. Jas. 01-2020

POEMA – “EU VI UM ANJO…”

EU VI UM ANJO
Cair
Docemente
Sobre mim
Com seu rosto
Imaculado
Num momento
D’incerteza,
Mas prolongado,
Que parecia
Não ter fim...

VINHA ELE
Lá de bem alto
Onde eu
O pressentia,
Estremeci
Em sobressalto
Porque em mim
Esse anjo
Imaculado
(Vendo bem)
Não caberia.

SUA LUZ
Era intensa,
Ofuscava-me
O olhar,
O seu brilho
Deslumbrava
E eu senti-me
Quase cegar...

MAS NÃO SEI
Se era anjo...
................
Talvez fosse
Uma mulher,
E se não fosse
Arcanjo,
Ah,
Não era um
Rosto qualquer...

POR ISSO
ME FASCINOU,
Porque ao vê-lo
Descer
Desse trono
Onde reinava,
Quase, quase
Me cegou
A luz
Que o transportava...
..............
E levou-me
Ao Olimpo
Onde a arte
Lhe sobrava...

FIXEI-O, ENTÃO,
Num quadro
De memória,
Traços leves,
Cores intensas
Que cativam
O olhar.
Pintei-lhe
O cabelo
De vermelho
Para mais belo
Ficar
E seu rosto
Feminil
Assim poder
Desvelar
Essa mulher
Sensual
Que me veio
Capturar.

DESENHEI-A
Como um belo
Avatar
Que entrou
Dentro de mim
Para sempre
Me lembrar
Que era
Uma mulher...
............
E não era
Querubim.

MAS VI UM ANJO,
Ah, eu vi,
Entrar bem
Dentro de mim
Sob forma
De mulher,
Porque anjo
Imaculado,
Uma grandeza
Infinita,
Não caberia
(Por certo)
No meu pequeno
Jardim.

EU VI UM ANJO
DESCER
Neste vale
Da minha vida
E ele fez-me
Crescer,
Recomeçar
A partida...
.............
Para logo me
Perder...

E COM POEMAS
Parti
Em viagem
Ao Olimpo
Para com ele
Voar
Em cada palavra
Que digo,
Em cada verso
Que sinto,
Mas bem sei
Que com ele
Para sempre 
Me perdi...

jas_melancolia2Final1901R

Poesia-Pintura

“A COR DA MEMÓRIA”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Transparência”.
Original de minha autoria
para este poema. Janeiro de 2020.
Transparência1

“Transparência”. Jas. 01-2020

POEMA – “A COR DA MEMÓRIA”

NUM DIA DE CHUVA,
Bateram levemente
À porta da minha
Memória... 

ERA TRANSPARENTE,
A porta.
Vi que eras tu.
Reconheci a tua boca,
O bâton púrpura
Dos teus lábios. 

NÃO SEI SE
ME PRESSENTISTE,
Não sei.
A porta
Era um espelho,
Através dela
Só se via
Do lado de cá. 

ENTRASTE,
Cheia de cor,
Que a chuva
Humedecera,
Mas deixara
Intacta.
Apenas com mais
Brilho...
........
O teu! 

TAMBÉM TU
ERAS TRANSPARENTE.
Olhei-te
E vi, através de ti,
Um céu plúmbeo... 

E, NA TRANSPARÊNCIA,
DESPONTOU O SOL,
Coado em amarelo.
Havia umas nuvens
Escuras
A nascente,
Lá no Monte... 

ÀS VEZES, O AMARELO
Ganhava tons de
Âmbar
E vestia-te o corpo,
Nu,
Na minha intangível
Memória
Fotográfica. 

VIA COM NITIDEZ,
Sereno,
Esse teu belo
Sorriso
Cristalino,
Mas, quando te quis
Tocar,
Ao de leve,
Um vidro desceu,
Vertical,
Sobre nós.
Era frio
E húmido,
Esse vidro.
Separou-nos.
E eu chorei! 

AS LÁGRIMAS
Escorreram
Pelo vidro.
Tentaste
Agarrá-las
Do lado de lá
E fixá-las com
Todas as cores
Que tinhas contigo.
Ficaram apenas 
Algumas gotas
Amarelas
Nesse vidro frio,
Húmido
E cortante...

DE REPENTE,
Tornaste-te sol
E eu já não era
Mais do que um
Reflexo dos teus
Raios filtrados
Por algumas
Nuvens...
.........
Escuras! 

DESPERTEI
Ao som
De dedos que batiam
Suavemente
À porta
Do meu quarto.
Corri a abri-la...
...............
Ninguém! 

REGRESSEI, RÁPIDO,
À minha memória
Para te reencontrar,
Mas tu já não
Estavas,
Sequer como reflexo...
...................
Deixara aberta
A porta do tempo...


Transparência1R

“Transparência”. Detalhe.


					

Poesia-Pintura

TEMPO

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Amanhã...”. 
Original de minha autoria 
para este poema. Janeiro de 2020.
FuturoFinal2

“Amanhã…”. Jas. 01-2020

É TEMPO DE RECOMEÇO?
O que ontem
Eu já era
É o que hoje eu sou,
As festas
Quiseram tempo
Intenso,
Mas o tempo resistiu
Ao que a vontade
Tentou...
.................
É tempo
De recomeço
Quando o tempo
Não passou?

EM CADA MOMENTO
Procuro
O tempo
Que, no passado,
Eu, poeta, 
Não vivi
Porque sempre
Reinvento
Tudo aquilo 
Que perdi,
Num poema
Ou em pintura
Para saber
Quem eu sou
Antes de lá
Me perder...
............
Nos lugares
Pra onde vou...

ENTRE HOJE E ONTEM
Há algo
Que já mudou?
Acaso me libertei?
A esperança regressou?
Fui ao baú
Das memórias
E vi logo 
O que tu és:
A imagem bem certeira
Desse tempo
Que passou...

TUDO MUDA
Amanhã,
Quando, tenso,
Eu passar
Na curva
Do teu caminho?
Encontro o que antes
Nunca vi?
Mulher com futuro
No olhar,
Sempre a sorrir
Para ti,
A repetir com carinho
Um terno
E tão antigo “Olá!”,
Cabelos negros
Ao vento,
Corpo esguio
Em movimento,
Removendo um passado
Que nunca mais
Voltará?

NÃO, O SEU TEMPO
É o silêncio,
Já não o tenho
Nas mãos,
Ele corre
Sem destino,
É ritmo sem melodia,
Caminho
Da minha vida
Que percorro dia-a-dia
Na vertigem
Do passado,
Mais tristeza
Que alegria
Como este peso
Do fado
Só liberto em
Poesia.

TEM TEMPO, A POESIA?
Talvez tenha,
Eu não sei,
Com ela voo
No céu
Sem limites
Nem fronteiras,
Um tempo que é
Só meu.

AH, SIM,
O tempo da poesia
É a minha salvação,
Perdi-te, mas eu não queria
Passado de negação.

É TEMPO DE RECOMEÇO,
Sopra vento de feição?
Sou feliz em poesia.
Não é o tempo
 Que salva,
Mas as palavras
Que digo
Enquanto fores
Alimento
Desta minha inspiração
Porque é assim
Que te canto:
Da dor sai alegria
Que me cura 
Da paixão.
FuturoFinal2R

“Amanhã”. Detalhe.

 

Poesia-Pintura

NÃO SEI SE TE CHEGAM

AS PALAVRAS…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Jardim das Palavras”.
Original de minha autoria para este
Poema. Dezembro de 2019.
JardimDasPalavrasFinal2812

“O Jardim das Palavras”. Jas. 12-2019

POEMA – “NÃO SEI SE TE CHEGAM AS PALAVRAS…”

NÃO SEI SE TE CHEGAM
As palavras
E, se chegam,
Se te tocam.
Não sei se
As arrumas
Nas gavetas
Da rotina
Ou as deitas
Nos desperdícios
Da vida...

TALVEZ NEM CHEGUEM.
Não sei.
É esta a beleza
Da minha invocação.
Canto-te
Sem saber se te
Chegam as letras 
Com que vou desatando
A sufocada
Afeição
Ou se o vento
As leva
Pra lugares
De poética
Virtude,
Resgate
Desta minha 
Solidão...

TALVEZ NÃO INTERESSE
Saber se chegam
Ao destino.
O que m’importa
É dar forma
À melancolia 
Do meu desejo de ti
Como se fosse
O primeiro dia 
Em que, fora do poema,
Eu logo te pressenti.

É POR ISSO QUE SÃO
Palavras pintadas
Com as cores
Do meu jardim,
Porque na beleza
Das palavras
E da cor
Se cristaliza,
Da vida,
O amor
E, da falta de ti,
Se decanta
A minha dor.

SIM, ÉS TU
Que me moves,
Me inspiras
E induzes perfeição.
Sem ti
Seria arte estranha,
Simples adorno,
Jogo de formas,
Um canto
De diversão.

O POEMA É 
Uma forma de socorro,
É magia
Que invoca o teu
Rosto
Perdido nas 
Nas brumas 
Da memória e
Coberto pelo
Silêncio
Do que nunca
Me dirás.

NADA A FAZER.
Com arte
Te quero seduzir
E eleger.
Não te chegam,
As palavras?
Só importa
A ideia
Que tenho de ti
E a poesia
Que decanta 
A minha vida
Pra te ter
Por companhia
Nesta longa
Despedida.

MAS À ARTE
Respondes
Com o silêncio 
E o mistério
Pra não quebrares
O encanto
Que faz de ti
Galeria 
Do que em arte
Eu senti
Em forma de poesia.

ESTRANHAS SAUDADES
Virão
Quando o estro
Me faltar
E à Torre
De Montaigne
Subir como refém...
............
Dela nunca
Sairei
Para novo
Desencontro
Lá para os lados
De Belém...
JardimDasPalavrasFinal2812Recor

“O Jardim das Palavras”. Detalhe.

Poesia-Pintura

“PRESSENTIMENTO”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Travessia”.
Original de minha autoria
para este poema.
Dezembro, 2019.
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“Travessia”. Jas. 12-2019.

POEMA – “PRESSENTIMENTO”

MAIS UMA VEZ,
Ao entardecer,
Te pressenti,
Numa rua de Lisboa.
E não te vi.

AH, ESTA LISBOA 
Que amas!
Uma fria silhueta,
A travessia.
Um homem
Perdido em memórias
Que esfumam
No tempo
E deixam
A alma vazia.

DEUS EX MACHINA
Que desce sobre mim
No caos
Em que a vida
Se tornou,
Nos afectos
E na dor...
............
A invocar
As origens 
Do amor.

CAÍSTE-ME
NUMA ENCRUZILHADA
Improvável
Quando vinha
Da imensa planície
Onde os deuses
Se anunciam
No horizonte...

UM SÚBITO CLARÃO,
Um sobressalto...
 Estremeci.
Irrompeste,
Intempestiva,
Das brumas
Da memória...
...........
Mas apenas 
Te pressenti!

APROXIMEI-ME
Do teu mundo,
Sem saber?
Foi o destino,
Adormecido
Que estava
De nunca, 
Mas nunca 
Te ver.

ESTRANHOS
DESENCONTROS
Que desabam
Sobre nós
Com o destino
A comandar
No labirinto
Insondável
Das nossas vidas...

SILHUETA FUGIDIA,
É o que és,
Afinal,
Porque tudo é plano,
Demasiadamente
Plano, em ti.

VI UM NÚMERO,
A única certeza
Que tenho,
A janela
De onde te vislumbrei,
Mas incerto
Como todos
Os números
Deste mundo.
Incerto, sim,
Porque tu
Não és número
Que me dê
Certezas,
Para além da dor.
És mais quatro
Do que sete,
Meu amor!

OU TALVEZ TENHA SIDO
A minha fértil
Imaginação
Já um pouco doentia
A cruzar-se contigo
Num lance de
Pura magia.

MAS NEM SEI
Se é por ali
Que tu andas,
Porque de ti 
Nada sei,
Só o que me sobrou
Daquele tempo
E do tempo que criei
Para nunca te perder
Naquela história
Onde te conto
Longamente
Para em ti renascer.

QUE ESTRANHOS
Lugares de
Desencontro,
No meio da multidão!
Um instante,
Ambiente ruidoso
E improvável,
O regresso a ti,
Cada vez mais
Imaterial
Na película subtil
E transparente
Da memória...
Simulacro irreal.

AH, COMO NO FIM
Deste poema
Sofro a falta
De uns olhos verdes
A cobrirem-me a alma
De ternura,
Mas nem o sol
Se descobre
Para os acender
E me inundarem
De beleza
Da mais pura!
Jas_Silhueta3Recort

“Travessia”. Detalhe.

Poesia-Pintura

“O POETA-PINTOR”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Amanhecer”.
Original de minha autoria
para este poema.
Dezembro de 2019.
MulherNaJanela151219Final

“Amanhecer”. Jas. 12-2019.

POEMA – “O POETA-PINTOR”

O POETA BRINCAVA
Com suas palavras,
Cantava-te sempre
Quando não estavas...

ERA UM POETA,
Era fingidor,
Não te desenhava,
Cantava-te
A cor.

E AS SUAS CORES
Eram só poemas,
Fazia pincel
Da sua caneta,
Enquanto poeta
As letras riscava,
Mas a sua tinta
Já não era preta...
................
Escolheu a cor,
Pintou a palavra.

POR ISSO COMPROU
Um belo pincel
E como pintor
Pintava, pintava,
Era a granel
E a sua tela
Que ele adorava
Já não era só
O velho papel.

DESCOBRIU A COR,
Que o fascinou:
Dourado, vermelho
E tanto amarelo.
Tudo ele pintou,
Procurando sempre
O que era belo.

ATÉ QUE O ENCONTROU
Na cor dos
Teus olhos,
Era luz da pura
Que iluminava
O novo papel
Onde desenhou
O teu fino rosto
Com o seu pincel.

DEU CORPO À COR
Com que te dizia,
As suas palavras
Tornaram-se riscos...
......................
Mais que poesia.

PINTAVA-TE ASSIM.
Os poemas
Já não lhe chegavam,
Pintor de palavras
De cor as compunha
E versos voavam
No azul do céu...
.....................
“E o que tu fazias
Faço agora eu”,
Dissera-te um dia,
“Porque sou poeta
Mas também pintor.
Deixaste-me só,
Entregue à palavra
E, eu,
Tão pobre de ti,
Pintei-me de dor".

"MAS EU FAÇO DELA
O meu arco-íris
Pra subir ao céu
A ver se t’encontro
Atrás duma cor
Pintando o teu rosto
Para um poema
Que vou escrever
Com todas as cores
Que trago comigo
Enquanto viver”.

O POETA BRINCAVA
Mas era tão séria
Essa brincadeira!
Perdido em palavras,
Encontrou a cor
E nos seus poemas
Dela fez bandeira.
MulherNaJanela151219FinalR

“Amanhecer”. Detalhe.