Poesia-Pintura

ARTE AO VIVO

No meu Jardim Encantado

1. “LUZ NA MONTANHA”;
2. “EVOCAÇÃO DE UMA MAGNÓLIA”

Partilho imagens de dois quadros já prontos para a Exposição em preparação, 92×123, e 98X127, respectivamente, ambos em papel algodão Hahnemuhle e com vidro de museu (70%). Estes quadros podem ser adquiridos, mediante comunicação de eventual interesse via WhatsApp, E-Mail ou Messenger.

  1. “LUZ NA MONTANHA”, 2021

Luz

LUZ na Montanha

2. “EVOCAÇÃO DE UMA MAGNÓLIA”, 2021

Magnólia

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Poesia-Pintura

O POETA E A MÁSCARA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Transfiguração”.
Original de minha autoria
para este poema.
Maio de 2021.

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“Transfiguração”. Jas. 05-2021.

POEMA – “O POETA E A MÁSCARA”

COMPREI UMA MÁSCARA,
Pu-la no rosto do
Meu amado poeta
E ele não a
Enjeitou.
Ainda por cima
Me disse:
“Sou eu, sou,
Como nas palavras
Que digo
Também meu corpo
Mudou”.

“NÃO ESPERAVAS
Ver-me assim,
É grande o teu
Espanto,
Vá, confessa,
Ganhei um corpo 
De rosa,
Tanta cor
(A que apeteça),
Um rosto
Dissimulado
Pra me curar
Desta dor
Sempre que ela
Apareça
A pedir o meu
Cuidado”.

“ADOPTEI ESTA FIGURA,
Apresento-me assim,
As outras
Nada te dizem,
Com esta
Olhas pra mim”.

“PALHAÇO
É O QUE SOU,
Falo a
Surdos e mudos
Que não ouvem
O que digo
Nem me dizem
O que quero
Como se fosse
Mendigo
Do que, afinal,
Nem espero”.

“VALHA-ME POIS
ESTA MÁSCARA.
Assim,rio
Desta vida,
Rio de ti
E de mim,
Da chegada
E da partida,
Dos abraços,
Das palavras
E, enfim,
Da despedida”.

“SOU PALHAÇO,
É o que sou,
Entretenho-me
A cantar
E se ouvires
Este meu canto
Um poeta
É seu autor,
Por isso tu
Tu não t’importes,
O que diz
É de certeza
Para espantar
Sua dor”.

A MÁSCARA
É o seu rosto,
Colou-se-lhe
Logo à pele
Com a cola
Do desgosto
E por isso
Já nem sabe
Se seu rosto
É o dele.

COMPREI UMA
MÁSCARA
Vermelha
No mercado
Da minha vida,
Ponho-lha sempre
Que posso,
À chegada
E à partida,
E se puder
Não lha tiro
Pra não lhe rasgar
A alma
Pois se o canto
O liberta
É a máscara
Que o salva.

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“Transfiguração”. Detalhe.

Poesia-Pittura

LA PORTA DEL TEMPO

Poesia di João de Almeida Santos.
Pittura: "Trasparenza". 
Originale mio.
Maggio 2021.

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“Trasparenza”. Jas. 05-2021.

POESIA – “LA PORTA DEL TEMPO”

UN GIORNO DI PIOGGIA
O di sole
(Non saprei dirlo)
Bussano
Alla porta della mia
Memoria,
Bussano piano,
Leggermente,
Come chi ti chiama,
Come chi ti dice
Cosa sente.

È TRASPARENTE
La porta.
Da li
Si vede il mondo...
E ti ho visto,
Così,
Ho visto il tuo viso
Disegnato
Come se fosse
Un ritratto.

HO VISTO LE TUE LABBRA
Sensuali
Tinte di porpora,
Carnali,
Ho visto il verde
Brillante
Dei tuoi occhi 
Quando il sole,
Innamorato,
Li accende
E mi dà fuoco
All’anima
Perché sto
Accanto a te,
Anche io
Ammaliato.

NON SO SE
Mi hai percepito
Nel mondo magico
Della mia
Fantasia,
Luogo di sogno
E desiderio,
Il mio riparo
Dell’utopia.

SEI ENTRATA
Vibrante,
Brillando
Come l’arcobaleno,
Scintilla
Trasbordante
Di colore
Che arde
E mi brucia...
..........
D'amore.

MA ANCHE TU
Eri trasparente.
Ti guardo
E vedo in te
Il cielo plumbeo
E quieto
Invocando
Malinconia,
Pace,
Nell’inquietudine 
Del giorno,
All’anima mia.

ALL’IMPROVVISO
Nella trasparenza
Del tuo viso
Irrompe il sole
Dorato
Tra il candore
Sfumato
Delle nuvole
Sfuggevoli,
In alto, 
Sulla Montagna
Che sempre 
I miei giorni
Accoglie.

IL DORATO
Diventa ambra
E ti copre 
Il corpo
Nudo
Nell’intangibile
Memoria
Dove sempre
Ti rivedo
Quando si apre
La porta
Del tempo
Con la chiave
Del desiderio.

TI GUARDO COSÌ,
Un pò perso,
In estasi,
E provo a sfiorare
Leggermente
La tua pelle
Di velluto
Satinato...
............
Ma il sole
Ti scolpiva
Il viso
Di luce
E io rimasi
Appena un riflesso
Dei tuoi raggi
Filtrati
Che segnavano
Il destino
Dei miei desideri
Sognati...

MI SVEGLIAI
Sentendo
Delle dita
Che bussavano
Pian, piano
Più in là,
Alla porta
Della mia camera
Immaginata.
Corsi ad aprirla...
.........
Nessuno.
Solo pura 
Nebbiolina
Io vidi.

SONO TORNATO, VELOCE,
Ai colori
Della mia memoria
Per ritrovarti
Nella magia
Del mio mondo,
Ma non c’eri più
Neanche come riflesso
Del tuo lato
Più profondo...

AVEVO LASCIATA APERTA
La porta del tempo...

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“Trasparenza”. Dettaglio.

Artigo

UM RASTO DE INQUIETAÇÃO

Reflexões sobre a Poesia

Por João de Almeida Santos

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“Palácio das Artes no Monte Parnaso, ao entardecer”. Jas. 05-2021

“Saber interpor-se constantemente 
entre si próprio e as coisas é o
mais alto grau de sabedoria 
e prudência”.

Bernardo Soares
A POESIA É DESASSOSSEGO...

Ou nasce dele. Dá forma à dor, revivendo-a e transfigurando-a em palavras, sendo, ao mesmo tempo, a sua sublimação semântica e a sua notação musical, a sua melodia. Não foge da dor, mas metaboliza-a para a superar. Dor? Porquê sempre dor? Porque a poesia, sendo sensitiva, também é privação sensorial, porque vive num intervalo, ligeiramente recuada relativamente ao real. Ou resulta dela, da privação. É uma linguagem que é quase um sentir puro, em “carne viva”. Um comportamento, esteticamente desenhado e cantado… em surdina. “Comporta-te poeticamente”, poderia ter dito o Hans-Georg Gadamer de “Verdade e Método”. Ou o velho Schiller das “Cartas sobre a educação estética do ser humano”. Vive a vida assim, poeticamente, sem te deixares ir nessa volúpia devoradora dos sentidos que te pode sugar e engolir a alma e a distância contemplativa. Caindo numa circularidade de onde não se pode sair por não haver pontos de fuga, como os da linha elíptica. Põe os sensores em movimento, mas cria distância, intervalos por onde possas ressuscitar do mortal torpor quotidiano. Mas não corras demais. A velocidade cega, ouviste? Quem vive a correr não sente o pulsar da vida, o seu lado mais profundo. Corre só o suficiente para não ficares parado e para agarrares a vida pelo seu lado mais denso e profundo. Respirando-a e bebendo a seiva dos seus frutos mais puros. Aqueles que só podes encontrar em ti, enquanto ser humano, apesar de serem comuns e universais. Eles estão aí, pois estão, mas é preciso sensores para os encontrar e os decantar esteticamente. Coisa não fácil. Mas isso acontecerá quando te aproximares das fronteiras da existência, desses abismos que ameaçam sugar-te irremediavelmente. Dessas pulsões mais intensas que podem magnetizar-te, porque, à partida, são mais fortes do que tu. Se for preciso pára e escuta, não queiras ir logo, em correria, impaciente, até ao fim. Se fores, o que farás depois? Sentas-te à espera que regressem as pulsões e chegue inspiração para novas metas? Não. E, não, porque será sempre ilusório chegar rapidamente a um fim desejado. Se o atingiste e o esgotaste, esse fim era falso, era uma miragem. Cria, pois, um intervalo entre ti e a vida para melhor a observares sem deixar de a viver, de a tocar, nem que seja só com a ponta dos dedos. E deixa-te ficar nele, com os sensores ligados ao máximo, sem tentações perigosas. Era mais ou menos isto o que dizia o famoso Bernardo. Nesse intervalo podes tocar com as mãos o real e fazer a sua notação poética, convertê-lo numa forma que quase o não é, porque pode dizer tudo com quase nada (de forma). Até mais do que a própria imagem. E se alguém disser que uma imagem vale mil palavras, responde que um verso pode valer mil imagens, porque nele a palavra poética soa a melodia do silêncio… que só pode ser ouvida a partir desse intervalo. Só a palavra poética se pode aproximar à fala do silêncio, o murmúrio.

PRIVAÇÃO

Na poesia há privação. Há, sim. Se te saciares de real não precisas de poesia. Nem sequer a podes compreender. Ela é um intervalo denso e intenso entre o desejo, a impossibilidade e aquilo a que renunciamos: é vida transfigurada em palavras sincopadas ao ritmo de uma difusa  dor interior. É levitação desejada por privação sofrida. Uma moinha que só não te devora porque a vais dizendo metódica e melodicamente ao ritmo que te impõe. Porque a adoptas em vez de a reprimires. Com uma paradoxal alegria melancólica, a da beleza sentida de um poema. É assim que eu a sinto. Foi assim que a senti desde o princípio. E por isso me deixei ir, dizendo-a para a conservar, metabolizando-a e transformando-a em energia interior. A dor sublima-se, não se reprime nem se foge dela, se houver poesia para a adoptar.

“A arte”, diz Bernardo Soares, “é a expressão intelectual da emoção”. E diz mais: “o que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonho, e é com esse sonho que fazemos arte”. Sim, o sonho, onde vivo o impossível, onde nunca atinjo a meta, onde nunca chego ao fim… pois quando estou a atingi-lo, acordo. Essa é que é essa. Irremediavelmente. Lembra-me o Calderón de la Barca e o seu “La vida es sueño”. E, por isso, também se pode acordar da vida para a dura realidade. Que o diga Segismundo. A arte está lá nesse intervalo por onde irrompe o sonho, sob a forma de palavra, risco, cor, som. Quando nos sentimos orquestra e nos tocamos. Ah, como é bom sentir-se orquestra, com todos os sentidos a executarem uma sinfonia. E o compositor mais próximo talvez seja Mahler. Para mim é mesmo. Tenho a certeza, sem ser necessário ir a Veneza ou ter uma conversa com o Luchino Visconti ou com o Thomas Mann (mas, com este último, mais lá para a frente do artigo, falarei).

A poesia é sonho de olhos abertos, sonho sensitivo, mas com alma sofrida por renúncia ou por impossibilidade. Neste intervalo também se constrói a liberdade, sob forma de arte: não me pode ser tirado o que eu reconstruí neste intervalo sofrido de privação, como arte, diria, de certeza, Bernardo Soares. Sim, porque o reconstruí em ausência. E neste estado de privação “nada me pode ser tirado nem diminuído”. Bem pelo contrário, sou eu que lanço ao mundo essa vida revisitada e recriada com a minha sensibilidade, a partir desse sentimento (doloroso) de privação. Canto e dou música ao mundo. E o mundo fica mais belo do que já era, diria a minha amiga Marguerite Yourcenar: maintenant tu es plus beau que toi-même, Gherardo. Mundo ou Gherardo, tanto faz. O que importa é a recriação em ausência. Ou, como dizia o Italo Calvino, nas famosas “Lições Americanas”: “creio que seja uma constante antropológica este nexo entre levitação desejada e privação sofrida. É este dispositivo antropológico que a literatura perpetua”. Diria mais, com ele: a poesia é uma “função existencial” que procura a leveza como reacção ao peso doloroso do viver. A leveza dos sonhos a olhos abertos, cantados em palavras e lançados ao vento que há-de mover, como chamamento, as copas das árvores… ou dos arbustos. Ou talvez não.

RENÚNCIA

Comprei, pois, para tirar dúvidas, uma nova edição do “Livro do Desassossego” do Fernando Pessoa ou, se quiserem, do Bernardo Soares. Porque gosto deste livro e porque quero olhar para a minha poesia, agora que a vou pôr em livro (100 poemas), acompanhado por ele. Por este Fernando Pessoa, filósofo. Revisito-o com regularidade, como quem vai ali ao PUB conversar com os amigos sobre as coisas da vida para depois escrever sobre elas. Por necessidade interior. Irmanado nessa renúncia que é privação sofrida… à procura de leveza. Que vou encontrando à medida que caminho entre o silêncio e o sonho, montado em palavras, riscos e cores intensas, ao som de versos entonados e paradoxais, que me vão desenhando e iluminando esta vereda tão estreita da minha vida. E porque compreendi que Pessoa chegou perto dos nexos fundamentais da existência, naquilo que ela tem de mais sublime, de mais elevado. Neste livro anda por lá essa ideia que tanto me fascina, do ponto de vista estético: a ideia de renúncia. Tal como no meu, que foi, afinal, a solução para a renúncia. A escrita poética como solução da própria vida quando a vida anda aos pulos e não conseguimos pará-la. Sim, essa ideia de renúncia (ou mesmo de impossibilidade) que, um dia, me pôs em intervalo criativo. Não a do eremita, daquele que foge da vida para se aproximar de deus, da natureza ou da eternidade. Não, essa não, mas a daquele que se afasta um pouco da vida para entrar nela com mais profundidade, compreendê-la e vivê-la numa dimensão que está para além do imprevisível tempo do acaso, do presente efémero e circular, da volúpia orgástica ou do império dos sentidos. Digamos, vivê-la em alvoroço poético. Claro que não sou tão radical como ele. Nem tão pesado nos juízos. Mas sei bem que só radicalizando poderemos compreender o essencial para, depois o dizermos, com sabedoria e beleza sedutora. Não como mero exercício intelectual. Nestas condições, a arte permite isso. Porque não é do domínio do pragmático e do útil. Porque não serve, aparentemente, para coisa alguma, a não ser como adereço? Não. Ela serve, sim, mas noutra dimensão. Encontra-se num dispositivo que, sendo universal, procede em registos únicos, com aura. “Subjectividade universal”, diria o Kant dessa extraordinária “Crítica do Juízo”. Assunto tão relevante que, um dia, o Schiller haveria de propor um “Estado Estético” que fundasse a harmonia social na educação estética, ou seja, na celebração social e quotidiana do belo. Já reflecti sobre esta ideia de Schiller no meu livro “Os Intelectuais e o Poder”. Mas nunca mais ouvi falar desta sua ideia. Talvez porque se trate de uma utopia impraticável ou até mesmo perigosa para uma certa visão do poder; ou talvez porque a estética, na verdade, seja impolítica e, por isso, nunca possa estar lá no horizonte estratégico de quem governa. Desta dicotomia, quase antinomia – política versus estética -, falou Thomas Mann abundantemente nas suas “Considerações de um Impolítico” (1918), apesar de nela encontrar, além de antinomias, uma convergência: ambas “têm uma posição intermédia e mediadora entre a vida e o espírito” (Thomas Mann, Considerazioni di um impolítico, Milano, Adelphi, 1997, p. 575). Sem dúvida, ainda que em registos diferentes. Eu diria assim: a mediação pela arte visa elevar a vida ao espírito, enquanto a mediação pela política visa levar o espírito à vida. A boa política. A arte não pertence, de facto, à esfera da praticidade, não procura influenciar e a sua magia consiste precisamente em superar “o conteúdo através da forma”, ou seja, desvitalizando-o para o fazer levitar na beleza formal.  Por isso ela é “irresponsável”, permitindo que o artista se retire para os seus domínios quando na esfera prática as coisas não lhe correm bem, quando não se entende com a realidade nem a realidade com ele. Afinal, o artista tem “direito à paixão” e por isso, o mundo, inclusivamente ele próprio,  tolera isso, desculpa-o, aceita-o assim (1918:  544). Ora aqui está, dito pelo autor dessa extraordinária “Montanha Mágica” (1924), essa enciclopédia do século XX de que as “Considerações” constituem uma bela e elucidativa antecipação. Um lugar especial para a “irresponsabilidade” da arte e em particular a do poeta.

Talvez esta ideia de renúncia tenha a ver precisamente com esse direito exclusivo à paixão e com o desinteresse pelos efeitos da obra de arte que dela resulta. Não renunciar exige responsabilidades que o artista não tem condições para honrar, sob pena de suicídio estético. O poeta apaixona-se por uma imagem e, depois, pinta-a com palavras. Não é assim, Bernardo?

SILÊNCIO

É uma grande obra, esta, a do “Desassossego”. Desta vez reli, pela enésima vez e de forma altamente interesseira, uns textos sobre a relação entre a poesia e a prosa. Também eu ando por ali e quis medir bem o que o Bernardo dizia, esse que preferia a prosa ao verso, pela simples razão de ser “incapaz de escrever em verso”. Que era o que eu próprio sentia até há cerca de sete ou oito anos. Prosa e mais prosa. Pior: teoria. Até que se deu o clique. Ao olhar para um arbusto cheio de carga simbólica e ao observar um estranho enlace. Algo inesperado, mas que não me apanhou totalmente impreparado, pois há algum tempo que vinha sentindo falta de alguns personagens do meu romance “Via dei Portoghesi”, que tinha acabado de escrever.  E vi neste estranho enlace a minha salvação. Mais propriamente, uma espécie de “fissão poética”, com libertação de energia criativa e até mesmo com potência destrutiva. Ah, sim. Sei bem do poder de um poema. E sei quase tudo sobre quem os não sabe ler como resultado do tal intervalo e fica sempre ao pé da letra. Sem arredar pé dali, da letra. A julgar o mundo por uns pobres versos escritos em estado de necessidade. Como se de prosa se tratasse, nem sequer ficcional. Ora bolas, que desperdício!

Percebi que o que não é possível dizer em prosa pode ser dito em poesia, sendo também claro que a prosa não tem o mesmo poder performativo. Dizer o indizível com a força de um acto. Aumenta o espaço de liberdade, aumenta sim, e até pode adquirir um carácter substitutivo. E não só porque o poeta é um fingidor que sente pelo menos metade do que diz, fingindo que mente só porque o diz num poema. Mas diz o que diz, com asas, em voo sobre o vale da vida. E isso deveria ser o suficiente para arredar dali, da letra.  Ou seja, a poesia torna-nos mais livres e mais leves, também porque dizemos o que sentimos de forma livremente auto-referencial, sem grandes responsabilidades pessoais, embora nesse registo universal com que traduzimos, em arte, o nosso próprio registo sensorial ou a nossa experiência vivida. O que é suficiente para dar autonomia à narrativa poética retirando-lhe eventuais excessos de subjectividade. E até porque o que sob esta forma se diz tem a pretensão de ser mais do que o que simplesmente se quer dizer, se comunica sob qualquer outra forma: ser simplesmente belo e sedutor. Indo para além do registo sensorial, denotativo e conceptual. Dizer de forma cifrada, leve e musical, onde a própria linguagem é mais, muito mais do que meio de expressão. Dizer tudo, parecendo nada dizer. Parecendo simples murmúrio. Mas não só por isso. Sobretudo porque é uma linguagem plena que pode dizer quase tanto como o que diz o silêncio. Quase um contraponto, um intervalo musical.  A poesia é a linguagem mais próxima dele, do silêncio. É silêncio murmurado, balbuciado, mas composto, musicado, conservando ao mesmo tempo uma dimensão polissémica, mas sem pretensões denotativas, tal como a música. Mesmo que haja referentes (e há sempre) que nela se possam vir a reconhecer. Mas ela é mais do que isso: aspira a um reconhecimento subjectivo universal, filtrado, claro, pelo dispositivo sensorial de todos e de cada um. A arte, sendo universal, interpela singularmente cada um de nós, através da sensibilidade. A poesia não é, pois, para as massas, mas para cada um, singularmente considerado. E aqui a antinomia política/arte acontece. Que se lixem os efeitos se o que digo em arte é belo. Pronto, é isto.

MÚSICA

O Bernardo Soares diz que o verso é uma passagem da música para a prosa. Genial intuição. Ou seja, a poesia não só está entre a música e a prosa como permite a passagem de uma para a outra, sem se reduzir a simples meio ou instrumento. Tem elementos de ambas. E, por isso, reside nesse intervalo com corporeidade, substância e vida própria. Mas julgo ser possível dizer também que entre o silêncio e a poesia talvez esteja a música. A música é a voz do silêncio, porque ainda não diz, mas deixa espaço à poesia para dizer, como melodia cantada, o que é (quase) indizível. A poesia também é música ela própria e é silêncio já em forma larvar. Ela acrescenta semântica à música e música ao silêncio, num só registo, o registo poético. E é na sua quase indizibilidade melódica, nesta fisicidade, que reside o poder da poesia.  É por isso que o silêncio e a música se podem exprimir como semântica de forma larvar na poesia, sendo cada poema a borboleta que esvoaça sobre as nossas vidas e a nossa imaginação para interpelar a fundo o nosso pólen, a nossa sensibilidade individual. Sim, cada poema é uma borboleta à procura de pólen…

EM SUMA, UM RASTO DE INQUIETAÇÃO…

É nestes intervalos que o poeta se coloca ao cantar a música da vida com a pauta da poesia. Um canto sofrido, porque fruto do desassossego, da privação, da dor, mas por isso mesmo obra de jograis vadios, nómadas, irresponsáveis, sempre em movimento, atravessando fronteiras à procura do que nunca encontram e nem querem encontrar, porque se encontrassem perder-se-iam no encontro. Um quase suicídio. O Vinicius não disse ao passarinho que já não havia poeta nem poesia porque ficara feliz? O passarinho que estava ali para o acompanhar no canto e matizar na dor foi-se embora do parapeito da sua janela à procura de outras dores e de outros cantos. A poesia é o modo de comunicar a partir desse intervalo perpétuo em que vivem: em permanente privação, com um passarinho por companhia. Não digo, ironicamente, com um passarinho na cabeça, seria demais, digo, por companhia, se possível ali no parapeito da janela, de onde possa sempre voar. Talvez para a terra do nunca. Os seus poemas são cantos com que querem encantar para logo partir, deixando um rasto de inquietação, que é ao que de mais belo a poesia pode aspirar.

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“Palácio das Artes”. Detalhe.

Poesia-Pintura

A PORTA DO TEMPO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Transparência”.
Original de minha autoria.
Maio de 2021.

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“Transparência”. Jas. 05-2021.

POEMA – “A PORTA DO TEMPO”

NUM DIA DE CHUVA
Ou de sol
(Eu já nem sei),
Batem
À porta da minha
Memória,
Batem leve,
Levemente,
Como quem chama
Por mim,
Como quem diz 
O que sente.

É TRANSPARENTE,
Essa porta.
Vê-se o mundo
Através dela...
E eu vi-te,
Assim,
Vi teu rosto
Desenhado
Como se fosse
Uma tela.

VI TEUS LÁBIOS
Sensuais
 De rubro
Tingidos,
Carnais,
Vi o verde
Brilhante
De teus olhos
Quando o sol
Os acende,
Apaixonado,
E a minha alma
Incendeia,
Por estar ali
A teu lado.

NÃO SEI SE
Me pressentiste
No mundo
Mágico
Desta minha
Fantasia,
Lugar de sonho
E desejo,
 Recanto
De utopia.

ENTRASTE NELE
Vibrante,
Com brilho de 
Arco-íris,
A transbordar
De tanta cor,
Esse brilho
Que me arde
E que queima,
Meu amor.

MAS ERAS
Transparente
Também tu.
Olho-te
E vejo
Através de ti
Um céu plúmbeo
E quieto
A rogar
Melancolia
Que me pacifique
A alma
Na inquietação
Deste dia.

SUBITAMENTE,
Na transparência
Do teu rosto
Irrompe 
O sol,
Coado em dourado,
Por entre a leveza
Esfumada
De nuvens brancas, 
Fugidias,
A nascente,
Lá no alto
Da Montanha
Que inspira
Os meus dias...

 O DOURADO
Ganha tons de
Âmbar
E veste-te o corpo
Nu,
Na intangível
Memória
Onde sempre
Te revejo
Quando se abre
A porta 
Do tempo
Com a chave do
Desejo.

CONTEMPLO-TE,
Assim,
Já um pouco
Perdido,
Extasiado,
E quero tocar,
Ao de leve,
A tua pele 
De veludo
Acetinado...
...........
Mas o sol
Esculpiu-te
O rosto de
Luz
E eu já só era
 Um reflexo 
Dos teus
Raios filtrados
Que marcavam
O destino
De meus desejos
Sonhados...

DESPERTEI
Ao som
De dedos que batiam
Levemente,
Mais além,
À porta
Do meu quarto
Imaginado.
Corri a abri-la...
.......
Ninguém.
Era pura neblina 
O outro lado.

REGRESSEI, RÁPIDO,
Às cores
Da minha memória
Para te reencontrar
Na magia
Do meu mundo,
Mas tu já não
Estavas,
Sequer como reflexo
Do teu lado
 Mais profundo...

DEIXARA ABERTA
A porta do tempo...

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“Transparência”. Detalhe.

Artigo * Nova Versão

PROGRESSISTAS E TIROS NO PÉ

(Com versão em italiano e o artigo de “Il Fatto Quotidiano”)

Por João de Almeida Santos

PSE_05_2021Final

S/Título”. Jas. 05-2021.

HÁ MUITO que me parece que o Partido Socialista Europeu se reduz exclusivamente às cimeiras que antecedem os Conselhos Europeus e à sua expressão institucional no Parlamento Europeu. Não se lhe conhece vida própria. O que é muito pouco se considerarmos que a Internacional Socialista na prática desapareceu. Papandreu, Presidente, e o eterno Luís Ayala, Secretário-geral, andam desaparecidos e ao Vice-Presidente português, Carlos César, nunca lhe ouvi uma palavra sobre o assunto. E não falo do défice ideológico e de pensamento que afecta os próprios partidos socialistas europeus. Depois dos tão criticados “New Democrats”, “Third Way” ou “Neue Mitte” parece ter sobrado um imenso deserto de ideias. E o suposto resgate de esquerda de Jeremy Corbyn deu no que deu, mais derrotas, Brexit e triunfo de Boris Johnson.  Resta o quê? Uma quase desconhecida Fundação presidida por uma ex-eurodeputada portuguesa de nome Maria João Rodrigues: “Fundação Europeia de Estudos Progressistas”. Certamente por falha minha, não conheço trabalhos ou iniciativas relevantes desta Fundação sobre o socialismo europeu, num tempo em que a crise do socialismo democrático e da social-democracia é verdadeiramente preocupante, estando os partidos socialistas e sociais-democratas europeus em perda eleitoral contínua e em risco de irrelevância política e ideológica.

OS PARTIDOS SOCIALISTAS EUROPEUS

O PARTIDO ÂNCORA do socialismo europeu, o SPD, está a tornar-se um partido irrelevante com uma consistência eleitoral pouco superior à do partido de extrema-direita, “Alternative fuer Deutschland” (na última sondagem estava com 13% e o AFD com 11%). O partido socialista francês quase desapareceu, o mesmo se verificando com o PASOK. O Labour já perdeu quatro eleições sucessivas e Tony Blair viria a afirmar, há dias, a propósito da nova liderança de Keir Starmer: “But the Labour party won’t revive simply by a change of leader. It needs total deconstruction and reconstruction. Nothing less will do”. É necessário, segundo Blair, um novo movimento progressista, uma nova agenda progressista e a construção de uma nova coligação de governo, sobretudo em diálogo aberto com os demo-liberais (The Guardian, 12.05.2021). Sublinho: um novo movimento progressista e uma nova agenda progressista. Ou seja, o progressismo de que deveria falar a FEEP, ainda que o caso da famosa Internacional Progressista que reuniu Bernie Sanders e Varoufakis já tenha alertado para a inacção quer da IS quer do PSE.  Mas também o PSOE, que governa Espanha, acaba de sofrer uma pesada derrota em Madrid, para os populares, colocando-o, as sondagens, no mesmo plano eleitoral do PP (27,1% contra 25,43% do PP), com o VOX em terceiro lugar, com cerca de 17% (média de 14 sondagens de 9 empresas diferentes, entre 11.04 e 10.05, segundo “Electocracia”). Em Itália, segundo um conjunto de 7 sondagens de Março, o Partito Democratico não descola dos cerca de 18,5%, sendo o segundo partido, a seguir à Lega, com 23, 4%, e com pouco mais do que Fratelli d’Italia, já com 17%. A extrema-direita soma, assim, 40, 4% (sem contar com Forza Italia, 6,9%, enquanto a soma do PD com o M5S e com Liberi e Uguali se fica pelos 37%. Em sondagens de Maio há pequenos ajustamentos que não alteram o essencial. Mesmo assim, sublinho um ligeiro aumento para o PD (19,4) e para o M5S (16,9), verificando-se alteração na extrema-direita: menos 1,6% para a Lega e mais 1,5 para FdI. Em Portugal é o que sabemos – o PS governa com uma média de cerca de 37/38%, uma aldeia “gaulesa” no panorama socialista europeu.

O CASO D'ALEMA

TUDO ISTO PARA DIZER que o panorama dos partidos socialistas europeus é preocupante e que necessita de um trabalho de reflexão sobre esta lenta, mas persistente queda e sobre que mudanças será necessário promover para voltarem a ganhar a confiança dos cidadãos, aspirar à hegemonia ético-política e cultural, para usar o conceito de Gramsci, e um lugar proeminente na história futura da União Europeia. E, aqui, a Fundação do PSE deveria servir para relançar um vigoroso processo de reformas para o relançamento do socialismo europeu. Mesmo que se assumisse como subsidiária em relação às fundações nacionais que sejam, na realidade, mais do que mero nome ou anúncio de intenções.

Pois bem, em vez disso, estamos a assistir a um lamentável e incompreensível striptease da FEEP, a um processo desta Fundação contra o ex-Primeiro-Ministro italiano Massimo D’Alema, que foi durante sete anos seu presidente. A crer nas notícias vindas a público no jornal italiano “La Repubblica” e em “Il Fatto Quotidiano”, a história conta-se em poucas palavras. Até 2013, D’Alema foi Presidente com remuneração zero, sendo deputado. Depois, até 2017, tendo deixado de ser deputado, foi remunerado com 120 mil euros (brutos) anuais (correspondentes a 5000 euros mensais líquidos), em contrato celebrado com o Secretário-Geral da Fundação. Este contrato previa a remuneração não pela função, mas por trabalho efectivamente desenvolvido em regime de exclusividade, tendo havido parecer favorável de uma sociedade especializada belga sobre a regularidade deste contrato.  A Fundação pede agora a D’Alema que reponha o total de 500 mil euros, porque não teria direito a remuneração pelo exercício do cargo, como acontecia antes e como acontece agora, com a actual Presidente. Para isso pôs uma acção em tribunal, na Bélgica.

Das notícias, sabe-se que as 25 Fundações dos partidos socialistas foram chamadas a pronunciar-se, tendo 23 votado a favor da posição da Fundação e duas tendo-se abstido.

Esta história, em qualquer dos casos, não é edificante e mostra claramente com que assuntos a FEEP se preocupa: levar a tribunal um seu antigo Presidente (durante sete anos) e ex-Primeiro-Ministro de Itália por ter sido remunerado durante o exercício do cargo de presidente da Fundação (pelo trabalho desenvolvido em regime de exclusividade), não auferindo outra remuneração por já não ser deputado, não desempenhando funções em nenhuma instituição europeia em Bruxelas, como provavelmente será o caso da Doutora Maria João Rodrigues. Uma remuneração que foi objecto de contrato entre D’Alema e o Secretário-Geral da Fundação, o alemão Ernst Stetter, que, ao que parece, nem sequer foi ouvido neste processo.

A crise dos partidos socialistas e das suas fundações é grave e exige um enorme esforço de todos para a superar, até porque esta crise afecta também gravemente a própria União Europeia, enquanto os partidos socialistas são um seu pilar essencial, político e ideal. Mas, não, a única notícia que nos chega da Fundação é um processo em tribunal contra D’Alema. Algo está mal nisto, porque não só danifica a imagem dos socialistas europeus, mas também porque dá conta das preocupações que animam a direcção da FEEP. Silêncio sobre o essencial, ruído público sobre questões internas de procedimento administrativo, não se sabendo se a razão está na actual FEEP ou no seu ex-Presidente, ex-líder do PDS e dos Democratici di Sinistra e antigo Primeiro-Ministro de Itália.

Conheço muito bem o trajecto de Massimo D’Alema (e até o conheci pessoalmente) desde os tempos em que era um dos dois dirigentes do PCI do saudoso Enrico Berlinguer (o outro era Walter Veltroni) que estavam destinados a protagonizar o futuro da esquerda italiana. Não concordei com a cisão que promoveu no PD aquando do famoso referendo promovido por Matteo Renzi, ainda que hoje, vendo como age politicamente este último, compreenda melhor as suas razões. Mas respeito-o politicamente. Em toda aquela confusão que se seguiu a Tangentopoli não tenho memória de o ter visto envolvido em casos de corrupção. A remuneração que concordou com o secretário-geral da FEEP, a partir do quarto ano em que foi seu Presidente, nem sequer me parece imoral ou injustificada. E, na verdade, nem sequer a FEEP põe em causa o trabalho desenvolvido ou a possibilidade de o Presidente ser remunerado, mas tão só o facto de o contrato não ter sido levado ao Conselho de Administração. D’Alema já justificou, em entrevista ao jornal “La Repubblica” (!4.05.2021), a sua posição.

EM SÍNTESE

ESTEJA A RAZÃO procedimental com quem estiver, o que resultará deste imbróglio será uma imagem pouco edificante desta Fundação e a ideia de que em vez de se preocupar com o que realmente interessa, o futuro do socialismo democrático e da social-democracia, a consolidação e o aprofundamento da União Europeia e a construção de uma cidadania europeia, preocupa-se com guerrilhas internas de sabor contabilístico sem grandes cuidados com os efeitos que isso terá na sua própria imagem e na imagem de alguém que foi Primeiro-Ministro de um grande e importante país da União Europeia. #Jas@05-2021.

VERSÃO ITALIANA
I PROGRESSISTI SI SPARANO SUI PIEDI

Da molto tempo mi pare che il Partito socialista europeo (PSE) sia ridotto ai vertici che precedono i Consigli europei e alla sua espressione istituzionale nel Parlamento Europeo. Non sembra che abbia vita propria. Il che è tanto più grave se si considera che l’Internazionale Socialista (IS), in realtà, è scomparsa. Papandreu, presidente, e l’eterno Luís Ayala, segretario generale, sono scomparsi e il vicepresidente portoghese, Carlos César, non ne ha mai parlato. E non mi riferisco al deficit ideologico e di pensiero che colpisce gli stessi partiti socialisti europei. Dopo i tanto criticati “New Democrats”, “Third Way”” o “Neue Mitte”, sembra che sia rimasto un enorme vuoto di idee. E il presunto salvataggio della sinistra di Jeremy Corbyn è finito male: più sconfitte, Brexit e il trionfo di Boris Johnson. Che cosa rimane? Una Fondazione quasi sconosciuta presieduta da un’ex eurodeputata portoghese di nome Maria João Rodrigues: “Fondazione Europea degli Studi Progressisti”. Certamente per colpa mia, non conosco opere o iniziative rilevanti di questa Fondazione sul socialismo europeo, in un momento in cui la crisi del socialismo democratico e della socialdemocrazia è davvero preoccupante, con i partiti socialisti e socialdemocratici europei in continuo calo elettorale a rischio di irrilevanza politica e ideologica.

I PARTITI SOCIALISTI EUROPEI

L’ANCHOR PARTY del socialismo europeo, la SPD, sta diventando un partito irrilevante con una consistenza elettorale soltanto leggermente superiore a quella del partito di estrema destra “Alternative fuer Deutschland” (nell’ultimo sondaggio la sua quota era del 13% e quella di AfD era del 11%) . Il partito socialista francese è quasi scomparso, così come il PASOK. I laburisti hanno già perso quattro elezioni consecutive e Tony Blair avrebbe detto, pochi giorni fa, sulla nuova leadership di Keir Starmer: ” But the Labour party won’t revive simply by a change of leader. It needs total deconstruction and reconstruction. Nothing less will do ”. È necessario, secondo Blair, un nuovo movimento progressista, una nuova agenda progressista e la costruzione di una nuova coalizione di governo, soprattutto in un dialogo aperto con i demo-liberali (The Guardian, 12.05.2021). Sottolineo: un nuovo movimento progressista e una nuova agenda progressista. Ovvero il progressismo di cui dovrebbe parlare la FESP, anche se il caso della famosa Internazionale Progressista che ha riunito Bernie Sanders e Varoufakis ci ha già messo in guardia dall’inazione sia dell’IS che del PSE. Ma anche il PSOE, che governa la Spagna, ha appena subito una pesante sconfitta a Madrid, a vantaggio dei popolari, avendo la stessa quota elettorale del PP (27,1% contro 25,43% del PP), con VOX in terzo posto, con circa il 17% (media di 14 sondaggi di 9 società diverse, tra l’11.04 e il 10.05, secondo “Electocracia”). In Italia, secondo una serie di rilevazioni del mese di marzo, il Partito Democraticonon decolla dal 18,5%, essendo il secondo partito, dopo la Lega, con il 23,4%, e con poco più di Fratelli d’Italia, già con il 17%.  L’estrema destra sale quindi al 40,4% (senza includere Forza Italia, com 6,9%), mentre la somma del PD con M5S e Liberi e Uguali si attesta al 37%. Nei sondaggi di maggio ci sono aggiustamenti minori che non cambiano l’essenziale. Anche così, sottolineo un leggero aumento per il PD (19,4%) e per il M5S (16,9%), con una variazione all’estrema destra: 1,6% in meno per Lega e più 1,5% per FdI. In Portogallo, la situazione è quella che sappiamo – il PS governa in media con circa il 37/38%, un villaggio “gallico” nel panorama socialista europeo.

IL CASO D’ALEMA

IL TUTTO PER DIRE che il panorama dei partiti socialisti europei è preoccupante e che necessita di un lavoro di riflessione su questa lenta, ma persistente, caduta e su quali cambiamenti sarà necessario promuovere per riconquistare la fiducia dei cittadini, per aspirare a una egemonia etico-politica e culturale, per usare il concetto di Gramsci, e un posto di rilievo nella storia futura dell’Unione europea. E qui la Fondazione del PSE dovrebbe servire per promuovere un vigoroso processo di riforma per il rilancio del socialismo europeo. Anche assumendosi come sussidiaria rispetto a fondazioni nazionali che siano, in realtà, più di un semplice nome o annuncio di intenzioni.

Ebbene, invece, stiamo assistendo a uno spiacevole e incomprensibile “spogliarello” della FESP, a un processo di questa Fondazione contro l’ex premier italiano Massimo D’Alema, che ne è stato presidente per sette anni. A credere nelle notizie rese pubbliche dai quotidiani italiani “La Repubblica” e “Il Fatto Quotidiano”, la storia può essere raccontata in poche parole. Fino al 2013, D’Alema è stato Presidente senza remunerazione, essendo deputato. Poi, fino al 2017, non esendo più deputato, gli venivano corrisposti 120 mila euro (lordi) annui (corrispondenti a 5000 euro mensili netti), in un contratto firmato con il Segretario generale della Fondazione. Tale contratto prevedeva una remunerazione non per la funzione, ma per il lavoro effettivamente svolto in esclusiva, con il parere favorevole di una società specializzata belga sulla regolarità del contratto. La Fondazione chiede ora a D’Alema di restituire il totale dei 500 mila euro, perché non avrebbe diritto a compensi per l’esercizio della sua carica, come accaduto prima e come accade ora, con l’attuale Presidente. Per questo la Fondazione ha intentato una causa in Belgio. Dalle notizie si sa che furono chiamate a pronunciarsi le 25 Fondazioni dei partiti socialisti, con 23 voti favorevoli e due astensioni.

Questa storia, in ogni caso, non è edificante e mostra chiaramente di cosa si occupa la FESP: portare in tribunale un ex Presidente (per sette anni) della Fondazione ed ex Primo Ministro italiano per essere stato pagato durante l’esercizio della carica. Cioé, per il lavoro svolto, in regime di esclusività, non percependo nessun altro compenso per non essere più deputato e non svolgere funzioni in nessuna istituzione europea a Bruxelles, come, invece, probabilmente sarà il caso dell’attuale presidente, Maria João Rodrigues. Un compenso che è stato oggetto di un contratto tra D’Alema e il segretario generale della Fondazione, il tedesco Ernst Stetter, che, a quanto pare, non è stato nemmeno ascoltato in questo processo.

La crisi dei partiti socialisti e delle loro fondamenta è grave e richiede uno sforzo enorme da parte di tutti per superarla, anche perché questa crisi colpisce gravemente la stessa Unione Europea, dal momento che i partiti socialisti sono il suo pilastro essenziale, politico e ideale. Ma, no, l’unica notizia che arriva dalla Fondazione è un procedimento giudiziario contro D’Alema. C’è qualcosa di sbagliato in questo, perché non solo danneggia l’immagine dei socialisti europei, ma anche perché rende conto delle preoccupazioni che occupano l’attuale leadership della FESP: silenzio sull’essenziale, clamore  pubblico su questioni interne di procedimento amministrativo, mentre non si sa se la ragione stia dalla parte della FESP o del suo ex presidente, ex leader del PDS e dei Democratici di Sinistra ed ex premier italiano.

Conosco la traiettoria di Massimo D’Alema (e l’ho conosciuto anche di persona) dai tempi in cui era uno dei due dirigenti del PCI del compianto Enrico Berlinguer (l’altro era Walter Veltroni) che erano destinati a recitare un ruolo da protagonisti nel futuro della sinistra italiana. Non sono stato d’accordo con la scissione da lui ispirata nel PD durante il famoso referendum promosso da Matteo Renzi, anche se oggi, visto come agisce politicamente quest’ultimo, capisco meglio le sue ragioni. Ma lo rispetto politicamente. In tutta la confusione che seguì Tangentopoli, non ricordo di averlo visto coinvolto in casi di corruzione. Il compenso concordato con il segretario generale della FESP, dal quarto anno in cui ne era il presidente, non mi sembra neppure immorale o ingiustificato. E, in realtà, neanche la FESP ha dubbi sul lavoro svolto o sulla possibilità di remunerazione del Presidente. Quello che non accetta è soltanto il fatto del contratto non essere stato inoltrato al Consiglio di Amministrazione per approvazione.  D’Alema ha giustificato, in un’intervista al quotidiano “La Repubblica” (14.05.2021).

IN SINTESI

Da qualunque parte stia la ragione, ciò che risulterà da questo caso sarà un’immagine poco edificante della Fondazione e l’idea che invece di preoccuparsi di ciò che conta davvero, il futuro del socialismo democratico e della socialdemocrazia, il consolidamento e l’approfondimento dell’Unione Europea e la costruzione di una cittadinanza europea, si occupa di guerriglie interne dal sapore contabile senza grandi preocupazioni sugli effetti che questo avrà sulla propria immagine e su quella di chi è stato Primo Ministro di un grande e importante Paese dell’Unione Europea. # Jas @ 05-2021.

L'ARTICOLO SU "IL FATTO QUOTIDIANO"

IL FATTO (CASO D'ALEMA)

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“S/Título”. Detalhe.

Poesia-Pintura

A FRONTEIRA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Horizonte”.
Original de minha autoria.
Maio de 2021.

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“Horizonte”. Jas. 05-2021.

POEMA – “A FRONTEIRA”

OLHO A MONTANHA
Da porta
De granito
Amarelo,
Com cristais,
Sobre o ocre
De um telhado
Como se fosse
Janela
De um palácio
Encantado
Que do sonho
Fosse cais.

CONTEMPLO
A linha do horizonte,
Mas é diferente
A visão.
Antes, eu via futuro,
Agora, vejo passado,
Essa tão bela
Ilusão
De a ter sempre
A meu lado.

ENTRE PASSADO
E FUTURO,
É a minha
Identidade,
Ficou quieta
À minha espera
Quando dela
Eu parti
Ao encontro
Da cidade.

ELA É PORTO
De abrigo
E é lugar de
Partida,
É, pois, mais
Que uma porta,
É fronteira
Que passamos
No desafio
Da vida.

MAS É ETERNO
Retorno,
Um regresso
Renovado
Onde posso
Renascer
Quando visito
A memória
Do que não
Quero perder,
Ficando sempre
A seu lado.

ESTA PORTA
É magia,
Viajo sempre
Por ela
Porque é uma
Janela
De onde voa
A fantasia.

DELA ALCANCEI
O mundo
E o mundo veio
Até mim,
Ao passar por
Esta porta
Sinto o meu
Horizonte
Como fronteira
Sem fim...

POR ISSO REGRESSO
A ela,
Esse pilar
Do meu ser.
Quando chego,
Logo amanhece,
E quando estou
De partida
Sinto que
 O mundo
Acontece
Como a montanha
Na vida.

JAS_Horizonte2021_12Rec

“Horizonte”. Detalhe.

Artigo

PROGRESSISTAS E TIROS NO PÉ

Por João de Almeida Santos

PSE_05_2021Final

S/Título”. Jas. 05-2021.

HÀ MUITO que me parece que o PSE se reduz exclusivamente às cimeiras que antecedem os Conselhos Europeus e à sua expressão institucional no Parlamento Europeu. Não se lhe conhece vida própria. O que é muito pouco se considerarmos que a Internacional Socialista na prática desapareceu. Papandreu, Presidente, e o eterno Luís Ayala, Secretário-geral, andam desaparecidos e ao Vice-Presidente português, Carlos César, nunca lhe ouvi uma palavra sobre o assunto. E não falo do défice ideológico e de pensamento que afecta os próprios partidos socialistas europeus. Depois dos tão criticados “New Democrats”, “Third Way” ou “Neue Mitte” parece ter sobrado um imenso deserto de ideias. E o suposto resgate de esquerda de Jeremy Corbyn deu no que deu, mais derrotas, Brexit e triunfo de Boris Johnson.  Resta o quê? Uma quase desconhecida Fundação presidida por uma ex-eurodeputada portuguesa de nome Maria João Rodrigues: “Fundação Europeia de Estudos Progressistas”. Certamente por falha minha, não conheço trabalhos ou iniciativas relevantes desta Fundação sobre o socialismo europeu, num tempo em que a crise do socialismo democrático e da social-democracia é verdadeiramente preocupante, estando os partidos socialistas e sociais-democratas europeus em perda eleitoral contínua e em risco de irrelevância política e ideológica.

OS PARTIDOS SOCIALISTAS EUROPEUS

O PARTIDO ÂNCORA do socialismo europeu, o SPD, está a tornar-se um partido irrelevante com uma consistência eleitoral pouco superior à do partido de extrema-direita, “Alternative fuer Deutschland” (na última sondagem estava com 13% e o AFD com 11%). O partido socialista francês quase desapareceu, o mesmo se verificando com o PASOK. O Labour já perdeu quatro eleições sucessivas e Tony Blair viria a afirmar, há dias, a propósito da nova liderança de Keir Starmer: “But the Labour party won’t revive simply by a change of leader. It needs total deconstruction and reconstruction. Nothing less will do”. É necessário, segundo Blair, um novo movimento progressista, uma nova agenda progressista e a construção de uma nova coligação de governo, sobretudo em diálogo aberto com os demo-liberais (The Guardian, 12.05.2021). Sublinho: um novo movimento progressista e uma nova agenda progressista. Ou seja, o progressismo de que deveria falar a FEEP, ainda que o caso da famosa Internacional Progressista que reuniu Bernie Sanders e Varoufakis já tenha alertado para a inacção quer da IS quer do PSE.  Mas também o PSOE, que governa Espanha, acaba de sofrer uma pesada derrota em Madrid, para os populares, colocando-o, as sondagens, no mesmo plano eleitoral do PP (27,1% contra 25,43% do PP), com o VOX em terceiro lugar, com cerca de 17% (média de 14 sondagens de 9 empresas diferentes, entre 11.04 e 10.05, segundo “Electocracia”). Em Itália, segundo um conjunto de 7 sondagens de Março, o Partito Democratico não descola dos cerca de 18,5%, sendo o segundo partido, a seguir à Lega, com 23, 4%, e com pouco mais do que Fratelli d’Italia, já com 17%. A extrema-direita soma, assim, 40, 4% (sem contar com Forza Italia, 6,9%, enquanto a soma do PD com o M5S e com Liberi e Uguali se fica pelos 37%. Em sondagens de Maio há pequenos ajustamentos que não alteram o essencial. Mesmo assim, sublinho um ligeiro aumento para o PD (19,4) e para o M5S (16,9), verificando-se alteração na extrema-direita: menos 1,6% para a Lega e mais 1,5 para FdI. Em Portugal é o que sabemos – o PS governa com uma média de cerca de 37/38%, uma aldeia “gaulesa” no panorama socialista europeu.

O CASO D'ALEMA

TUDO ISTO PARA DIZER que o panorama dos partidos socialistas europeus é preocupante e que necessita de um trabalho de reflexão sobre esta lenta, mas persistente queda e sobre que mudanças será necessário promover para voltarem a ganhar a confiança dos cidadãos, aspirar à hegemonia ético-política e cultural, para usar o conceito de Gramsci, e um lugar proeminente na história futura da União Europeia. E, aqui, a Fundação do PSE deveria servir para relançar um vigoroso processo de reformas para o relançamento do socialismo europeu. Mesmo que se assumisse como subsidiária em relação às fundações nacionais que sejam, na realidade, mais do que mero nome ou anúncio de intenções.

Pois bem, em vez disso, estamos a assistir a um lamentável e incompreensível striptease da FEEP, a um processo desta Fundação contra o ex-Primeiro-Ministro italiano Massimo D’Alema, que foi durante sete anos seu presidente. A crer nas notícias vindas a público no jornal italiano “La Repubblica” e em “Il Fatto Quotidiano”, a história conta-se em poucas palavras. Até 2013, D’Alema foi Presidente com remuneração zero, sendo deputado. Depois, até 2017, tendo deixado de ser deputado, foi remunerado com 120 mil euros (brutos) anuais (correspondentes a 5000 euros mensais líquidos), em contrato celebrado com o Secretário-Geral da Fundação. Este contrato previa a remuneração não pela função, mas por trabalho efectivamente desenvolvido em regime de exclusividade, tendo havido parecer favorável de uma sociedade especializada belga sobre a regularidade deste contrato.  A Fundação pede agora a D’Alema que reponha o total de 500 mil euros, porque não teria direito a remuneração pelo exercício do cargo, como acontecia antes e como acontece agora, com a actual Presidente. Para isso pôs uma acção em tribunal, na Bélgica.

Das notícias, sabe-se que as 25 Fundações dos partidos socialistas foram chamadas a pronunciar-se, tendo 23 votado a favor da posição da Fundação e duas tendo-se abstido.

Esta história, em qualquer dos casos, não é edificante e mostra claramente com que assuntos a FEEP se preocupa: levar a tribunal um seu antigo Presidente (durante sete anos) e ex-Primeiro-Ministro de Itália por ter sido remunerado durante o exercício do cargo de presidente da Fundação (pelo trabalho desenvolvido em regime de exclusividade), não auferindo outra remuneração por já não ser deputado, não desempenhando funções em nenhuma instituição europeia em Bruxelas, como provavelmente será o caso da Doutora Maria João Rodrigues. Uma remuneração que foi objecto de contrato entre D’Alema e o Secretário-Geral da Fundação, o alemão Ernst Stetter, que, ao que parece, nem sequer foi ouvido neste processo.

A crise dos partidos socialistas e das suas fundações é grave e exige um enorme esforço de todos para a superar, até porque esta crise afecta também gravemente a própria União Europeia, enquanto os partidos socialistas são um seu pilar essencial, político e ideal. Mas, não, a única notícia que nos chega da Fundação é um processo em tribunal contra D’Alema. Algo está mal nisto, porque não só danifica a imagem dos socialistas europeus, mas também porque dá conta das preocupações que animam a direcção da FEEP. Silêncio sobre o essencial, ruído público sobre questões internas de procedimento administrativo, não se sabendo se a razão está na actual FEEP ou no seu ex-Presidente, ex-líder do PDS e dos Democratici di Sinistra e antigo Primeiro-Ministro de Itália.

Conheço muito bem o trajecto de Massimo D’Alema (e até o conheci pessoalmente) desde os tempos em que era um dos dois dirigentes do PCI do saudoso Enrico Berlinguer (o outro era Walter Veltroni) que estavam destinados a protagonizar o futuro da esquerda italiana. Não concordei com a cisão que promoveu no PD aquando do famoso referendo promovido por Matteo Renzi, ainda que hoje, vendo como age politicamente este último, compreenda melhor as suas razões. Mas respeito-o politicamente. Em toda aquela confusão que se seguiu a Tangentopoli não tenho memória de o ter visto envolvido em casos de corrupção. A remuneração que concordou com o secretário-geral da FEEP, a partir do quarto ano em que foi seu Presidente, nem sequer me parece imoral ou injustificada. De resto, D’Alema já o justificou ontem (14.05.2021), em entrevista ao jornal “La Repubblica”.

EM SÍNTESE

ESTEJA A RAZÃO procedimental com quem estiver, o que resultará deste imbróglio será uma imagem pouco edificante desta Fundação e a ideia de que em vez de se preocupar com o que realmente interessa, o futuro do socialismo democrático e da social-democracia, a consolidação e o aprofundamento da União Europeia e a construção de uma cidadania europeia, preocupa-se com guerrilhas internas de sabor contabilístico sem grandes cuidados com os efeitos que isso terá na sua própria imagem e na imagem de alguém que foi Primeiro-Ministro de um grande e importante país da União Europeia. #Jas@05-2021.

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“S/Título”. Detalhe.

IGUALDADE DE GÉNERO E LUTA DE CLASSES

Por João de Almeida Santos

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“S/Título”. Jas. 05.2021.

NÃO É ASSIM TÃO RARO encontrar tomadas de posição pelas defensoras de uma política para a igualdade de género que, de tão radicais, mais parece estarem a transpor para a luta política a lógica da luta de classes. Uma luta pelo poder entre quem o tem e quem o não tem. Assim, sem mais. Ou seja, a mesma filosofia e lógica que via a classe operária como classe explorada pela revolução industrial e pelo poder dela derivado. Marx explicou bem a razão desta posição. As duas classes centrais na sociedade e na história eram a classe dos proprietários dos meios de produção e a classe dos produtores. Uma detinha todo o poder, a outra sofria-o. Hoje, nesta visão aggiornata, as mulheres representariam o grupo social dominado e explorado pela própria dinâmica interna de um sistema construído segundo a lógica do poder masculino. Um sistema, afinal, muito mais antigo do que a própria revolução industrial. No discurso feminista radical esta foi, é e continua a ser a contradição principal, apesar da igualdade perante a lei e das conquistas que foram alcançadas sobretudo ao longo do século XX. E convenhamos que, apesar dos enormes progressos alcançados relativamente ao que se verificou durante séculos e séculos, a generalidade das sociedades desenvolvidas ainda não conseguiu atingir a igualdade substantiva, que não a legal, entre homens e mulheres. Até porque a lei não está concebida para tratar das identidades de forma diferenciada, porque, por definição, é geral e abstracta, sendo o seu referente a cidadania, e não as identidades. Não há, na matriz liberal do direito, nem um direito de classe, como queriam os teóricos do chamado direito soviético, nem de género ou de raça. E isto faz a diferença.

DA DESIGUALDADE À IGUALDADE 
DE CONDIÇÕES E DE OPORTUNIDADES

PODERIA FAZER aqui uma exaustiva análise das etapas de evolução da relação homem-mulher, desde o conceito romano de filiae loco (e não de uxor) até Kant, onde à mulher não é reconhecida “personalidade civil”, sendo a sua “existência de qualquer modo somente inerência”, “porque a conservação da sua existência” não depende do próprio impulso, mas do comando de outrem (“Metafísica dos Costumes”, II, §46).  Por isso, não lhe é reconhecido, pelos liberais em geral, o direito de voto. Ou, depois, a situação nos USA até à XIX Emenda da Constituição, de 1920, onde finalmente acabaria por lhe ser reconhecido o direito de voto.  Ou ainda toda a legislação que determinou uma sua dependência formal do marido. E por aí em diante, numa clara discriminação histórica de metade da humanidade. Bastaria ver a evolução do sufrágio universal para se ficar logo com uma visão dos termos e da iniquidade política desta relação ao longo da história.

Na verdade, se as desigualdades subsistem – e não é só, ou particularmente, entre homens e mulheres, mas entre homens e homens e entre mulheres e mulheres -, o objectivo deverá ser o da promoção progressiva de condições gerais que tornem possível a qualquer cidadão dispor das mesmas oportunidades. O Tocqueville chamava-lhe “igualdade de condições”. O Estado e a lei devem distribuir os bens públicos necessários a essa igualdade geral de condições e de oportunidades. Mas isso não significará automaticamente que todos aproveitem essas condições de base para atingirem os mesmos resultados, por várias e complexas razões. Justiça distributiva e justiça comutativa, são os dois conceitos que distinguem, neste aspecto, a visão liberal da visão social-democrata e socialista. No caso da relação homem-mulher a questão é mais clara e pode ser isolada, removendo finalmente todos os obstáculos a que uma mulher, seja de que condição for, possa atingir com sucesso os mesmos resultados que os homens. E a primeira dessas condições deve ser, claro, a igualdade perante a lei, devendo-se, depois, proteger as diferenças específicas de género de modo a que não sejam impeditivas de obter resultados equivalentes. Por exemplo, a condição de mãe e todas as variáveis que decorrem dessa condição.

Políticas progressivas na relação homem-mulher tal como nas relações de cidadania são necessárias. Até mesmo recorrendo a medidas de discriminação positiva que ajudem a promover a igualdade de condições e de oportunidades, na relação homem-mulher ou, por exemplo, nas relações entre um interior deprimido e um litoral desenvolvido, desde que isso não se transforme em regra, castigando a universalidade e o carácter abstracto da lei.

A NATUREZA DA RELAÇÃO HOMEM-MULHER

MAS O QUE NÃO ME PARECE ACEITÁVEL é identificar a relação homem-mulher simplesmente como uma relação de poder, centrando nela toda a atenção e transformando-a na clivagem central das sociedades desenvolvidas. Até porque nestas sociedades o que legalmente é possível fazer já foi feito ou está a ser feito. E se é verdade que a relação homem-mulher é central na sociedade, ela não o é porque se trate fundamentalmente de uma relação de poder de um sobre o outro. Porque esta é uma relação ontológica que garante a reprodução da espécie. Sendo uma relação social ela é também uma relação natural. E é, e também por isso, uma relação com uma dialéctica de afectos que vai para além da relação de espécie, elevando-se à dimensão universal de género, sem perder a sua dimensão natural. Sobre isto Marx tem uma página muito interessante nos “Manuscritos de 1844”, no 3.º Manuscrito. Cito duas frases (MEW, Berlin: Dietz Verlag, 1981: Schriften bis 1844, I, 535): “A relação imediata, natural, necessária do ser humano com o ser humano (“Menschen”) é a relação do homem (“Mannes”) com a mulher (Weibe”). (…).  A relação do homem (“Mannes”) com a mulher (“Weib”) é a mais natural relação do ser humano com o ser humano” (Menschen zum Menschen”). Sublinho: relação natural do ser humano com o ser humano. Ou seja, nesta relação a natureza humaniza-se e o ser humano exprime-se como ser natural.  Melhor ainda, com Umberto Cerroni: a relação homem-mulher “torna-se a medida de toda a civilização no específico sentido de que ela é a primeira relação natural do género humano e a primeira relação humana da sensibilidade natural” (“Il rapporto uomo-donna nella civiltà borghese”, Roma, Riuniti, , 1976: 59).   Mas ela é também constitutiva dessa comunidade de base que é a família com toda a série de vínculos inerentes, a começar nas relações de parentalidade e nas responsabilidades inerentes a essa condição. Esta relação é, pois, muito mais complexa do que uma relação de poder. Identificá-la, como faz, por exemplo, a deputada socialista Isabel Moreira (num artigo no “Expresso”, de 07.05.2021), como relação de poder é amputá-la das outras dimensões ou talvez seja mesmo amputá-la da sua dimensão essencial. Uma sociedade que veja desse modo esta relação – como relação de poder – tornar-se-á uma sociedade onde não se poderá viver porque atravessada por uma tensão permanente que destruirá a própria essencialidade, complexidade, riqueza e extrema delicadeza desta relação. Ela é uma relação ontológica que traduz não só o grau civilizacional de uma sociedade, mas também a sua moralidade, a sua cultura, a sua relação com o afecto, com a sensibilidade, com a beleza e com o futuro. Numa palavra: ela é mais, muito mais do que uma relação de poder. Identificá-la assim significa diminuí-la e reduzi-la a uma mera relação política, esquecendo que ela é uma relação ontológica primordial, como muito bem viu Marx, em 1843.

RADICALISMO

CONFESSO que fiquei impressionado com este artigo da deputada, pelo seu radicalismo.  Se este artigo fosse um poema, até teria gostado. Mas não, este é um grito de uma mulher que se sente assediada pelo mundo masculino mesmo na sua posição de poder, como deputada da nação, titular de soberania no poder legislativo, mas também no poder comunicacional, onde também ocupa uma posição regular. Dir-se-á: é o grito de uma representante. Só que ela não representa as mulheres, representa a Nação. Não pode, pois, pôr o Parlamento, a que pertence, a gritar contra a outra parte da Nação.

Cito o início do seu artigo, que é todo um programa de combate:

Todas as mulheres sabem que lhes falta poder. Aquele poder. O poder que o sistema atribui por defeito aos homens. O mundo avança, mas o mundo ainda é (em tudo) ‘masculino por defeito’ (…) e qualquer comportamento nosso é filtrado, e por isso enviesado, por essa distorção”.

O poder masculino não é, pois, conquistado pelos homens, mas funcionalmente atribuído pelo sistema, “por defeito”, ou seja, automaticamente. O sistema tem sexo e é masculino. Consequência? Mudar o sistema. Pela revolução?

Outra citação:

“As múltiplas convenções internacionais (…) deviam fazer pensar que a nossa morte acontece porque há um sistema de poder machista que passa por tudo, sim, por tudo, desde a linguagem que nos omite à organização do poder político”.

É mesmo uma questão de sistema. Faça-se o que se fizer, o sistema estará sempre lá para atribuir o poder aos homens e silenciar as mulheres. Consequência? Mudar o sistema. Pela revolução?

Finalmente:

“Todas as mulheres sabem o que é não ter poder, o mesmo é dizer que todas as mulheres sabem o que é ser mulher”.

Todas as mulheres sabem o que é não ter poder. Todas? É um problema de poder dito por uma mulher de poder a milhões de homens sem poder algum. O outro lado do poder é a mulher, na sua visão. Definir o poder pela negativa, por aquilo que não é, só é possível pela definição do que é ser mulher, o seu contrário. A contradição principal que se deduz de toda esta narrativa é a que se verifica entre poder (masculino) e mulher. No mínimo, é um modo um pouco estranho de encarar o poder e as desigualdades sociais. Muda-se o sistema para resolver esta contradição e, ipso facto, resolve-se todas as outras? Marx dizia que esta era uma relação natural já com dimensão social e que era a primeira relação social com dimensão natural. Dimensões que superam de longe a relação de poder entre ambos (uma relação social), porque se trata, afinal, de uma relação constituinte, enquanto relação de espécie e relação social primigénia, onde a dimensão cooperativa é, sem dúvida, determinante.

CONCLUSÃO

A MIM PARECE EXAGERADA esta maneira de ver o mundo, sobretudo nos países desenvolvidos, onde a igualdade perante a lei, a igualdade de condição e a igualdade de oportunidades atingiram níveis de concretização muito assinaláveis. É um olhar zangado sobre o mundo. Depois, é uma visão anti-sistema, vinda de alguém que ocupa um importante lugar no sistema, pertencendo a um partido que não é, julgo eu, anti-sistema. Vendo bem, a culpa nem é da masculinidade em si, mas do sistema que a adoptou, uma espécie de “mão invisível” que tudo controla e domina. Depois, a consequência: a ruptura com o sistema e com o poder que dele resulta. E a pergunta natural: para populismo anti-sistema não chega já o CHEGA ou é preciso que os deputados eleitos nas listas do PS também passem a interpretar este papel?

Resumindo, poderia dizer que na relação homem-mulher converge o essencial da ideia de vida (Lebenswelt) e, por isso, não é me parece aceitável reduzi-la a uma mera relação de poder. #Jas@05-2021.

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“S/Título”. Detalhe.

Poesia-Pintura

UM BRILHO NOS TEUS OLHOS…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Teus Olhos”.
Original de minha autoria.
Maio de 2021.

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“Teus Olhos”. Jas. 05-2021.

POEMA – “UM BRILHO NOS TEUS OLHOS…”

OLHEI-TE NOS OLHOS,
Eram negros,
Intensos
E tão profundos,
Toquei teus cabelos
Com o olhar,
Caminhei a teu lado
Nesse jardim,
Senti o teu corpo
Tão perto de mim
A respirar
O acre perfume
Dessa ramagem
Do belo jasmim...

INEBRIOU-ME
Esse intenso
Aroma
E eu enredei-te
Num tão doce
Enleio
Que não tinha fim...

BRILHARAM
Pra mim,
Tão docemente,
Duas horas inteiras,
Esses teus olhos...
..................
E neles me perdi.

ESTIVE NO CÉU
Ao lado de deus
E lá vi dois sóis...
..................
Que não eram dele
(Uma luz intensa)
Porque eram teus.

MAS O TEMPO
Correu
Depressa demais...
...................
E é sempre assim.

TODOS OS DIAS
Se tornam iguais
Quando tu partes
E, em nostalgia,
Eu fico no cais.

VOLTEI A OLHAR-TE
Três horas seguidas.
Parecia verdade,
Mas era ilusão
Porque partiste
Deixando-me só
E o que sobrou
Foi solidão.

SUBIU A TRISTEZA,
A saudade irrompeu
Colou-se-me
Ao rosto...
..............
E como doeu!

SE EU NÃO TE VEJO
Sinto
Falta de ti,
Mas se te encontro
Logo te perco
Porque o tempo
Voa
E logo te leva
Pra longe dali.

TER-TE DEMAIS
Aumenta a saudade
E quando te vais
São tristes
As ruas
Da nossa cidade.

AINDA QUE TRISTE
Eu sou feliz
E com estas mãos
Te vou escrevendo
O que quero dizer,
Mas este meu tempo
Volta a correr
E cresce a vontade
De logo te ver
Mesmo que saiba
Que é nesse instante
Que te vou perder.

TENHO SAUDADES,
Saudades de ti
Desse virar
Da nossa esquina,
Na mesma rua
Onde te vi,
Dessa janela
Donde espreitávamos
O que do mundo
Sobrava pra nós.

EU JÁ NEM SEI
Que hei-de fazer,
Ter-te demais
É puro prazer,
Mas quando te vais
Fico sombrio,
Quase a morrer.

NEM SEI QUE TE DIGA.
Quando me deixas
Já nem sinto a dor
Tão grande a tristeza
De já não te ter
Pois tu partiste
Mesmo sem querer,
Ah, meu amor.

Jas_TeusOlhosPublicadoFinal0905R

“Teus Olhos”. Detalhe.