Artigo

CONSIDERAÇÕES SOBRE O FASCISMO

As Teses de Umberto Eco

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2o26

NUM TEXTO a publicar entre o 25 de Abril e o 1.º de Maio, como este que hoje proponho, e sobretudo num tempo em que o fantasma dos regimes autocráticos está a ser de novo fortemente agitado, e precisamente com a genérica designação de fascismo, pareceu-me interessante reflectir sobre o assunto a partir de um texto do sempre imaginativo Umberto Eco, intitulado precisamente “Totalitarismo ‘fuzzy’ e fascismo eterno” e publicado há trinta anos pela revista francesa “Magazine Littéraire” (1), que reproduz a conferência que ele fez na Columbia University, em 24 de Abril de 1995. Eu próprio já tinha proposto uma reflexão, com este registo, e com as diferentes modulações que esta questão suscitava, sobre o actual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, há cerca de ano e meio, por ocasião das presidenciais americanas: “Trump é mesmo fascista?” (2). Vejamos agora, seguindo a análise de Umberto Eco, como poderá ser melhor enquadrada esta pergunta.

1.

Logo no início da conferência, referindo-se ao fascismo italiano, Eco faz uma curiosa distinção relativa ao fim do regime de Mussolini, que ele viveu em primeira pessoa. Diz ele que, muito jovem, aprendeu que “liberdade de expressão significava o fim da escravatura da retórica”. E que, nesse momento da libertação, se lhe abrira uma realidade totalmente nova para ele. Em 1945, tinha Eco 13 anos. E essa retórica a que ele se referia era própria de alguém que, afinal, não tinha pensamento, mas tinha, et pour cause, excesso de retórica: “Mussolini não tinha nenhuma filosofia: ele não tinha senão uma retórica”. E histriónica, bem visível quando falava às massas do balcão do Palazzo Venezia, em Roma. E talvez por isso, por defeito de filosofia e excesso de retórica, ele diga que o fascismo se tornou uma “sinédoque”, a denominação pars pro toto de movimentos totalitários diferentes: não representava a quintessência nem sequer a essência do totalitarismo, não era uma ideologia monolítica, mas sim “um ‘collage’ de diversas ideias políticas e filosóficas, pleno de contradições”.  Em suma, “o fascismo italiano era um totalitarismo ‘fuzzy’ ”. Confuso, impreciso, vago. Mas uma “confusão estruturada” ou uma “desarticulação ordenada”, diz Eco. Interpretado, depois, com a possante retórica do Duce, sem grande nitidez ideológica, sim, mas com a enorme força carismática e o decisionismo vigoroso de Mussolini, “er puzzone” (como lhe chamavam em Roma), que lhe dava unidade e coerência (na sua excelsa pessoa). Ou talvez fosse mesmo sobretudo uma ideologia de importação, visto o que um importante expoente da francesa “Action Française”, George Valois, um dia lhe disse, ou seja, que fora esta que construíra o ninho do fascismo, merecendo a seguinte resposta de Mussolini: “Sì, ma nella culla il bebè ce l’ho messo io” (3). Sim, mas o progenitor era ele. A “Action Française”, de Charles Maurras (1968-1952), foi, de facto, um importante alfobre das tendências autocráticas da altura, tendo sido o próprio líder um homem próximo (ou mesmo inspirador e conselheiro) de Salazar. E talvez houvesse mesmo mais afinidades da doutrina de Maurras com o Estado Novo de Salazar do que com o fascismo de Mussolini.

2.

 O que Eco pretendia dizer era que se tratava de um movimento cheio de contradições, que, de resto, ele enuncia neste texto, mas que encontrava no líder carismático e na força da sua retórica e da sua vontade a unidade de que precisava. Não na figura do Rei, mas nele, no líder carismático do Partido Nacional Fascista, que se lhe impusera, em 1922, com a famosa “Marcia su Roma” (sobre Mussolini e o fascismo veja o meu ensaio “Três andamentos para uma personagem – Benito Mussolini”) (4). E, todavia, também é verdade que, afinal, se tratava de um movimento político que, além da extravagante, complexa e ambivalente influência do poeta Gabriele d’Annunzio (que diz, de si, em carta a Mussolini: “o melhor do movimento ‘fascista’ foi seguramente gerado por mim”),  de Giovanni Gentile, Giovanni Papini ou até mesmo de Luigi Pirandello, tinha a sua própria arte orgânica, o Futurismo de Marinetti: o culto da violência, da velocidade, do risco, das máquinas de guerra (5). Mas Eco não deixava de ironizar sobre Marinetti ao referir que ele declarava o automóvel mais belo do que a Vitória de Samotrácia e que até queria, com convicção, matar o próprio “Clair de Lune”.

 3.

 Umberto Eco chega à conclusão de que o fascismo italiano, diferentemente do nazismo (“pagão, politeísta e anticristão”), ou do “falangismo hipercatólico” franquista, se tornou de tal modo flexível que, mesmo retirando-lhe algumas das suas características, podia sempre ser reconhecido como tal, isto é, como fascista. E talvez seja mesmo verdade pois, como se sabe, ainda hoje o que perdura como caracterização genérica ou estereótipo das direitas extremas ou dos regimes autocráticos é precisamente a designação “fascista”. Uma sobrevivência e universalidade que não será somente por o fascismo ter sido pioneiro – ou por não ter sido tão radical como o nazismo ou tão caracteristicamente espanhol como o falangismo -, mas também porque não se tratou de um sistema fechado, monolítico e coerente, como Eco demonstra, evidenciando as suas contradições: monarquia versus revolução; exército real versus milícias do Duce; privilégios da Igreja versus estatismo e violência; Estado absoluto versus mercado; revolução, mas financiamento pelos proprietários fundiários, que eram pela contra-revolução; fascismo republicano versus monarquia constitucional – estas algumas contradições do fascismo.

 4.

 E, todavia, Eco faz uma interessante e vasta digressão reflexiva sobre o fascismo italiano procurando encontrar arquétipos ou “uma lista de características típicas” daquilo que ele designa por ur-fascismo, ou seja, fascismo primitivo e eterno, ainda que considere que a denominação não está refém de um resultado cumulativo destes arquétipos. Quais são, então, os princípios que estruturam a mundividência fascista? Vejamos os que considero mais significativos e distintivos:

1. O culto da tradição – a verdade (primitiva) é enunciada uma vez por todas e só é lícito interpretar exclusivamente a sua mensagem.

2. Recusa do mundo moderno – logo desde a recusa do Iluminismo, das Luzes e da Razão, concebidas como o início da depravação moderna. O Ur-fascismo é, portanto, irracionalista e antiliberal.

3. A acção pela acção – a recusa da cultura, considerada suspeita pela sua vocação crítica e reflexiva e, consequentemente, por isso mesmo, irrespeitosa dos valores tradicionais. O que conta para o fascismo é a acção, o movimento. A “Action Française” de Charles Maurras já propusera uma “politique du fait” contra “la politique des idées”, precisamente numa atitude crítica em relação à tradição iluminista, ao império da razão, e no elogio da acção.

4. O sincretismo fascista não aceita a crítica e, por isso, todo o desacordo é considerado traição, com as respectivas e violentas consequências.

5. Nacionalismo e o agitar da permanente ameaça de complot interno e externo (os judeus eram a ameaça ideal porque neles se condensava em simultâneo o perigo interno e externo). A xenofobia era o correlativo natural do nacionalismo. Daqui, o medo da diferença – é preciso agir contra os intrusos, os que não são filhos da nação; de onde decorre uma orientação de fundo racista.

6. Apelo às classes médias frustradas pela crise económica, propondo restaurar a sua anterior condição.

7. A vida é uma guerra permanente, o que, de resto está bem plasmado na estética dos futuristas e na prática do squadrismo – os squadristi eram o braço armado do fascismo. A violência e o medo generalizado foram obra permanente deles. Quem viu o filme de Bertolucci, “Novecento”, pôde entender muito bem a brutalidade da violência (o fascista Attila Melanchini mata um gato com uma cabeçada).

8. Elitismo popular ou de massas, derivado da organização hierárquica da sociedade e presente em cada grau e comando da estrutura hierárquica da sociedade.

9. Culto do herói, associado ao culto da morte. A heroicidade é associada à total identificação de cada um com a nação e desta com o Duce, numa espécie de imolação. Mas diz Eco: o herói Ur-fascista “est impacient de mourir”, mas, digamos, na sua impaciência, acontece-lhe mais frequentemente levar, sim, os outros à morte.

10. Populismo qualitativo por oposição ao peso quantitativo do cidadão na democracia – cada cidadão identifica-se com a vontade comum, elevando-se à dimensão da comunidade nacional, sendo, depois, aquela interpretada pelo líder carismático, sacerdote supremo do oráculo nacional-popular. E, em nome do populismo qualitativo, o Ur-fascismo deve opor-se aos governos parlamentares “pútridos”, resultantes do execrável triunfo do número, da quantidade.

11. O Ur-fascismo fala uma novilíngua: um léxico pobre e uma sintaxe elementar – característica do regime onde a cultura é perigosa, onde discordar é pecado, onde a guerra e o perigo de complots são permanentes, onde a diferença não é aceite pelo bloco compacto da nacionalidade, onde o que conta é a acção, a “política do facto”.

5.

Esta a filosofia e os arquétipos que podem definir o fascismo clássico e que podem indiciar a emergência deste tipo de regime, sendo por isso uma espécie de sensores intelectuais que indiciam o regresso de algo que a palavra “fascismo” pode muito bem, com as naturais diferenças históricas, denotar ou representar. E Eco termina a sua conferência citando, imaginem, o que disse Roosevelt em 1938: “Eu ouso dizer que se a democracia americana parar de progredir como uma força viva, procurando dia e noite, por meios pacíficos, melhorar a condição dos nossos cidadãos a força do fascismo crescerá no nosso país”. Não sem que antes, premonitório, Eco tenha alertado para o seguinte: “o Ur-fascismo é susceptível de regressar sob as mais inocentes aparências”. E por isso é necessário desmascará-lo cada dia e por todo o lado em que ele se procure instalar (sobre este assunto veja, como já referi, toda a argumentação exposta no meu artigo “Trump é mesmo fascista?” – Nota 2). Não vivendo nós no tempo das grandes narrativas ideológicas e sob impacto da revolução soviética, como no período entre-guerras, há muitos elementos que podem, de facto, indiciar, em surdina, se seguirmos a fenomenologia de Eco, a chegada de autocracias com grandes afinidades com o fascismo.

6.

Vale, pois, a pena pensar no que há trinta anos disse o autor da famosa “Bustina di Minerva” (a da última página do semanário “L’Espresso”) e de obras de renome mundial (basta referir O Nome da Rosa ou, noutro campo, Apocalittici e Integrati), o grande Umberto Eco, quando estamos a viver um período que já podemos ler a partir da famosa dicotomia formulada por outro italiano, Giambattista Vico, “Corsi e Ricorsi”, sendo claro que cada vez mais nos aproximamos da fase regressiva da história, dos “Ricorsi”,  sob a forma de restauração das autocracias, depois de oitenta anos de relativa e democrática acalmia e de progresso. JAS@04-2026

7. NOTAS

(1) Eco, U, (1996). “Totalitarisme ‘fuzzy’ et fascisme éternel”. In “Magazine Littéraire”, n.º 342, Abril de 1996, pp. 149-160.

(2) “Trump é mesmo fascista?” (2024): https://joaodealmeidasantos.com/2024/10/29/artigo-175/ (acesso: 27.04.2026).

(3) Veja Santos, J. A. (1999). Os Intelectuais e o Poder. Lisboa: Fenda (pág.s 82-83).

(4) https://joaodealmeidasantos.com/2023/07/03/artigo-109/ (acesso: 27.04.2026).

(5) Veja Hamilton, A. (1973). L’Illusion Fasciste. Paris: Gallimard (pág.s. 67; 19-109 e 189-273).

 

 

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