Artigo

CONSIDERAÇÕES SOBRE O FASCISMO

As Teses de Umberto Eco

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2026

NUM TEXTO a publicar entre o 25 de Abril e o 1.º de Maio, como este que hoje proponho, e sobretudo num tempo em que o fantasma dos regimes autocráticos está a ser de novo fortemente agitado, e precisamente com a genérica designação de fascismo, pareceu-me interessante reflectir sobre o assunto a partir de um texto do sempre imaginativo Umberto Eco, intitulado precisamente “Totalitarismo ‘fuzzy’ e fascismo eterno” e publicado há trinta anos pela revista francesa “Magazine Littéraire” (1), que reproduz a conferência que ele fez na Columbia University, em 24 de Abril de 1995. Eu próprio já tinha proposto uma reflexão, com este registo, e com as diferentes modulações que esta questão suscitava, sobre o actual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, há cerca de ano e meio, por ocasião das presidenciais americanas: “Trump é mesmo fascista?” (2). Vejamos agora, seguindo a análise de Umberto Eco, como poderá ser melhor enquadrada esta pergunta.

1.

Logo no início da conferência, referindo-se ao fascismo italiano, Eco faz uma curiosa distinção relativa ao fim do regime de Mussolini, que ele viveu em primeira pessoa. Diz ele que, muito jovem, aprendeu que “liberdade de expressão significava o fim da escravatura da retórica”. E que, nesse momento da libertação, se lhe abrira uma realidade totalmente nova para ele. Em 1945, tinha Eco 13 anos. E essa retórica a que ele se referia era própria de alguém que, afinal, não tinha pensamento, mas tinha, et pour cause, excesso de retórica: “Mussolini não tinha nenhuma filosofia: ele não tinha senão uma retórica”. E histriónica, bem visível quando falava às massas do balcão do Palazzo Venezia, em Roma. E talvez por isso, por defeito de filosofia e excesso de retórica, ele diga que o fascismo se tornou uma “sinédoque”, a denominação pars pro toto de movimentos totalitários diferentes: não representava a quintessência nem sequer a essência do totalitarismo, não era uma ideologia monolítica, mas sim “um ‘collage’ de diversas ideias políticas e filosóficas, pleno de contradições”.  Em suma, “o fascismo italiano era um totalitarismo ‘fuzzy’ ”. Confuso, impreciso, vago. Mas uma “confusão estruturada” ou uma “desarticulação ordenada”, diz Eco. Interpretado, depois, com a possante retórica do Duce, sem grande nitidez ideológica, sim, mas com a enorme força carismática e o decisionismo vigoroso de Mussolini, “er puzzone” (como lhe chamavam em Roma), que lhe dava unidade e coerência (na sua excelsa pessoa). Ou talvez fosse mesmo sobretudo uma ideologia de importação, visto o que um importante expoente da francesa “Action Française”, Georges Valois, um dia lhe disse, ou seja, que fora esta que construíra o ninho do fascismo, merecendo a seguinte resposta de Mussolini: “Sì, ma nella culla il bebè ce l’ho messo io” (3). Sim, mas o progenitor era ele. A “Action Française”, de Charles Maurras (1968-1952), foi, de facto, um importante alfobre das tendências autocráticas da altura, tendo sido o próprio líder um homem próximo (ou mesmo inspirador e conselheiro) de Salazar. E talvez houvesse mesmo mais afinidades da doutrina de Maurras com o Estado Novo de Salazar do que com o fascismo de Mussolini.

2.

 O que Eco pretendia dizer era que se tratava de um movimento cheio de contradições, que, de resto, ele enuncia neste texto, mas que encontrava no líder carismático e na força da sua retórica e da sua vontade a unidade de que precisava. Não na figura do Rei, mas nele, no líder carismático do Partido Nacional Fascista, que se lhe impusera, em 1922, com a famosa “Marcia su Roma” (sobre Mussolini e o fascismo veja o meu ensaio “Três andamentos para uma personagem – Benito Mussolini”) (4). E, todavia, também é verdade que, afinal, se tratava de um movimento político que, além da extravagante, complexa e ambivalente influência do poeta Gabriele d’Annunzio (que diz, de si, em carta a Mussolini: “o melhor do movimento ‘fascista’ foi seguramente gerado por mim”),  de Giovanni Gentile, Giovanni Papini ou até mesmo de Luigi Pirandello, tinha a sua própria arte orgânica, o Futurismo de Marinetti: o culto da violência, da velocidade, do risco, das máquinas de guerra (5). Mas Eco não deixava de ironizar sobre Marinetti ao referir que ele declarava o automóvel mais belo do que a Vitória de Samotrácia e que até queria, com convicção, matar o próprio “Clair de Lune”.

 3.

 Umberto Eco chega à conclusão de que o fascismo italiano, diferentemente do nazismo (“pagão, politeísta e anticristão”), ou do “falangismo hipercatólico” franquista, se tornou de tal modo flexível que, mesmo retirando-lhe algumas das suas características, podia sempre ser reconhecido como tal, isto é, como fascista. E talvez seja mesmo verdade pois, como se sabe, ainda hoje o que perdura como caracterização genérica ou estereótipo das direitas extremas ou dos regimes autocráticos é precisamente a designação “fascista”. Uma sobrevivência e universalidade que não será somente por o fascismo ter sido pioneiro – ou por não ter sido tão radical como o nazismo ou tão caracteristicamente espanhol como o falangismo -, mas também porque não se tratou de um sistema fechado, monolítico e coerente, como Eco demonstra, evidenciando as suas contradições: monarquia versus revolução; exército real versus milícias do Duce; privilégios da Igreja versus estatismo e violência; Estado absoluto versus mercado; revolução, mas financiamento pelos proprietários fundiários, que eram pela contra-revolução; fascismo republicano versus monarquia constitucional – estas algumas contradições do fascismo.

 4.

 E, todavia, Eco faz uma interessante e vasta digressão reflexiva sobre o fascismo italiano procurando encontrar arquétipos ou “uma lista de características típicas” daquilo que ele designa por ur-fascismo, ou seja, fascismo primitivo e eterno, ainda que considere que a denominação não está refém de um resultado cumulativo destes arquétipos. Quais são, então, os princípios que estruturam a mundividência fascista? Vejamos os que considero mais significativos e distintivos:

1. O culto da tradição – a verdade (primitiva) é enunciada uma vez por todas e só é lícito interpretar exclusivamente a sua mensagem.

2. Recusa do mundo moderno – logo desde a recusa do Iluminismo, das Luzes e da Razão, concebidas como o início da depravação moderna. O Ur-fascismo é, portanto, irracionalista e antiliberal.

3. A acção pela acção – a recusa da cultura, considerada suspeita pela sua vocação crítica e reflexiva e, consequentemente, por isso mesmo, irrespeitosa dos valores tradicionais. O que conta para o fascismo é a acção, o movimento. A “Action Française” de Charles Maurras já propusera uma “politique du fait” contra “la politique des idées”, precisamente numa atitude crítica em relação à tradição iluminista, ao império da razão, e no elogio da acção.

4. O sincretismo fascista não aceita a crítica e, por isso, todo o desacordo é considerado traição, com as respectivas e violentas consequências.

5. Nacionalismo e o agitar da permanente ameaça de complot interno e externo (os judeus eram a ameaça ideal porque neles se condensava em simultâneo o perigo interno e externo). A xenofobia era o correlativo natural do nacionalismo. Daqui, o medo da diferença – é preciso agir contra os intrusos, os que não são filhos da nação; de onde decorre uma orientação de fundo racista.

6. Apelo às classes médias frustradas pela crise económica, propondo restaurar a sua anterior condição.

7. A vida é uma guerra permanente, o que, de resto está bem plasmado na estética dos futuristas e na prática do squadrismo – os squadristi eram o braço armado do fascismo. A violência e o medo generalizado foram obra permanente deles. Quem viu o filme de Bertolucci, “Novecento”, pôde entender muito bem a brutalidade da violência (o fascista Attila Melanchini mata um gato com uma cabeçada).

8. Elitismo popular ou de massas, derivado da organização hierárquica da sociedade e presente em cada grau e comando da estrutura hierárquica da sociedade.

9. Culto do herói, associado ao culto da morte. A heroicidade é associada à total identificação de cada um com a nação e desta com o Duce, numa espécie de imolação. Mas diz Eco: o herói Ur-fascista “est impacient de mourir”, mas, digamos, na sua impaciência, acontece-lhe mais frequentemente levar, sim, os outros à morte.

10. Populismo qualitativo por oposição ao peso quantitativo do cidadão na democracia – cada cidadão identifica-se com a vontade comum, elevando-se à dimensão da comunidade nacional, sendo, depois, aquela interpretada pelo líder carismático, sacerdote supremo do oráculo nacional-popular. E, em nome do populismo qualitativo, o Ur-fascismo deve opor-se aos governos parlamentares “pútridos”, resultantes do execrável triunfo do número, da quantidade.

11. O Ur-fascismo fala uma novilíngua: um léxico pobre e uma sintaxe elementar – característica do regime onde a cultura é perigosa, onde discordar é pecado, onde a guerra e o perigo de complots são permanentes, onde a diferença não é aceite pelo bloco compacto da nacionalidade, onde o que conta é a acção, a “política do facto”.

5.

Esta a filosofia e os arquétipos que podem definir o fascismo clássico e que podem indiciar a emergência deste tipo de regime, sendo por isso uma espécie de sensores intelectuais que indiciam o regresso de algo que a palavra “fascismo” pode muito bem, com as naturais diferenças históricas, denotar ou representar. E Eco termina a sua conferência citando, imaginem, o que disse Roosevelt em 1938: “Eu ouso dizer que se a democracia americana parar de progredir como uma força viva, procurando dia e noite, por meios pacíficos, melhorar a condição dos nossos cidadãos a força do fascismo crescerá no nosso país”. Não sem que antes, premonitório, Eco tenha alertado para o seguinte: “o Ur-fascismo é susceptível de regressar sob as mais inocentes aparências”. E por isso é necessário desmascará-lo cada dia e por todo o lado em que ele se procure instalar (sobre este assunto veja, como já referi, toda a argumentação exposta no meu artigo “Trump é mesmo fascista?” – Nota 2). Não vivendo nós no tempo das grandes narrativas ideológicas e sob impacto da revolução soviética, como no período entre-guerras, há muitos elementos que podem, de facto, indiciar, em surdina, se seguirmos a fenomenologia de Eco, a chegada de autocracias com grandes afinidades com o fascismo.

6.

Vale, pois, a pena pensar no que há trinta anos disse o autor da famosa “Bustina di Minerva” (a da última página do semanário “L’Espresso”) e de obras de renome mundial (basta referir O Nome da Rosa ou, noutro campo, Apocalittici e Integrati), o grande Umberto Eco, quando estamos a viver um período que já podemos ler a partir da famosa dicotomia formulada por outro italiano, Giambattista Vico, “Corsi e Ricorsi”, sendo claro que cada vez mais nos aproximamos da fase regressiva da história, dos “Ricorsi”,  sob a forma de restauração das autocracias, depois de oitenta anos de relativa e democrática acalmia e de progresso. JAS@04-2026

7. NOTAS

(1) Eco, U, (1996). “Totalitarisme ‘fuzzy’ et fascisme éternel”. In “Magazine Littéraire”, n.º 342, Abril de 1996, pp. 149-160.

(2) “Trump é mesmo fascista?” (2024): https://joaodealmeidasantos.com/2024/10/29/artigo-175/ (acesso: 27.04.2026).

(3) Veja Santos, J. A. (1999). Os Intelectuais e o Poder. Lisboa: Fenda (pág.s 82-83).

(4) https://joaodealmeidasantos.com/2023/07/03/artigo-109/ (acesso: 27.04.2026).

(5) Veja Hamilton, A. (1973). L’Illusion Fasciste. Paris: Gallimard (pág.s. 67; 19-109 e 189-273).

 

 

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  1. Considerações sobre Considerações sobre o Fascismo
    Uma hermenêutica filosófica do ur-fascismo
    a partir de Umberto Eco e João de Almeida Santos

    André Moshe Veríssimo, PhD
    (Ensaísta, Escritor, Prof. Universitário)

    Resumo

    O presente ensaio interpreta hermeneuticamente o artigo Considerações sobre o fascismo: as teses de Umberto Eco, de João de Almeida Santos (2026), no qual se reactivam, no horizonte do regresso autocrático contemporâneo, as teses expostas por Eco (1996) na sua conferência da Universidade de Columbia. Identificam-se os cinco operadores conceptuais que estruturam o texto-matriz — sinédoque, lógica fuzzy, contradição estrutural, ur-fascismo e ricorso vichiano —, expõe-se a constelação de mananciais filosóficos patentes e latentes que sustenta os onze arquétipos do ur-fascismo, e articula-se uma rejeição sistémica do totalitarismo a partir do quadrilátero Levinas–Rosenzweig–Derrida–Agamben. A tese conducente é que ao projecto totalitário, definido como redução do plural ao Mesmo, só responde adequadamente uma anti-Totalidade construída no cruzamento entre fenomenologia da pluralidade arendtiana, ética da alteridade levinasiana, novo pensamento rosenzweighiano, hauntologia derridiana e biopolítica agambeniana, articuladas no imperativo zakhoriano da vigília democrática.

    Palavras-chave: ur-fascismo; totalitarismo fuzzy; Eco; Almeida Santos; Levinas; Rosenzweig; Derrida; Agamben; Vico; zakhor.

    1. Pórtico: o gesto e a sua temporalidade

    O artigo de João de Almeida Santos (2026) inscreve-se numa franja temporal eminentemente simbólica, entre o 25 de Abril e o 1.º de Maio, oscilando deliberadamente entre o pólo da libertação portuguesa do Estado Novo e o pólo memorial do antifascismo internacional. Esta moldura calendárica é, ela própria, um operador hermenêutico de primeira ordem: a kairologia da publicação inscreve o leitor num horizonte ético determinado, o da vigília democrática contra os regressos autocráticos. Ao convocar a conferência de Eco na Universidade de Columbia (1996), Almeida Santos executa uma dupla Aktualisierung, no sentido gadameriano (Gadamer, 1960/1999): reactiva uma palavra de há trinta anos, fazendo-a ressoar num presente em que, na sua própria fórmula, o fantasma dos regimes autocráticos é de novo fortemente agitado. A continuidade com o seu artigo anterior sobre Trump (Almeida Santos, 2024) confere ao gesto uma coerência hermenêutica: trata-se de pensar a tipologia, não de produzir um epíteto.

    2. Cinco operadores conceptuais

    O texto organiza-se como Auseinandersetzung — confrontação interpretativa — articulada em cinco operadores.
    O primeiro é a sinédoque: fascismo como pars pro toto, figura de retórica que se converte em diagnóstico. Por defeito de essencialidade — Mussolini não tinha filosofia, tinha retórica —, o termo opera por contiguidade, recordando a velha advertência de Croce (1945) e aproximando-se da noção wittgensteiniana de Familienähnlichkeit (Wittgenstein, 1953/2009): famílias semânticas reconhecíveis pela sobreposição parcial de traços, sem essência partilhada.
    O segundo operador é o fuzzy. A invocação da lógica difusa de Zadeh (1965) não é ornamental: o fascismo é um conjunto sem fronteiras nítidas, definido por graus de pertença. Esta heurística permite reconhecer fascismos sem exigir identidade morfológica plena com o caso italiano, evitando simultaneamente o nominalismo restritivo, que reservaria o termo apenas a 1922-1943, e o nominalismo expansivo, que o aplicaria a qualquer adversário.
    O terceiro operador é a contradição estrutural: as antinomias internas do regime — monarquia versus revolução, Igreja versus estatismo, Estado versus mercado, retórica revolucionária versus financiamento conservador — não são acidentes, são traços estruturantes. A análise aproxima-se da grande historiografia de De Felice (1965-1997) e do clássico inaugural de Tasca (1938), evidenciando que a coerência fascista não é doutrinária mas performativa: emerge da figura carismática do líder, da retórica e do mito. Gentile (1993) mostrou o fascismo como religião política, em consonância com a tese de Voegelin (1952/1987) sobre a imanentização do eschaton pelas ideologias modernas.
    O quarto operador é o ur-fascismo. A metonímia retórica revela-se metafísica: existe um fundo arquetípico, primigénio, com a ressonância schellinguiana e heideggeriana de Ursprung, que pode emergir sob morfologias inocentes. A categoria tem afinidade com o ultranacionalismo palingenético de Griffin (1991) e com as paixões mobilizadoras identificadas por Paxton (2004).
    O quinto e último operador é a filosofia vichiana da história. O recurso aos Corsi e Ricorsi de Vico (1744/1999) confere ao artigo a sua arquitectura mais ampla: estamos numa fase regressiva, num ricorso após oitenta anos de relativa acalmia democrática. O gesto vichiano é, ele próprio, rejeição do progressismo ingénuo e do hegelismo do espírito do mundo, reintroduzindo a contingência e a possibilidade do mal histórico recorrente.

    3. Os onze arquétipos: constelação filosófica

    Os onze arquétipos identificados por Eco e recolhidos por Almeida Santos podem ser lidos, sistemicamente, como manifestações fenomenológicas de uma única operação ontológica: a redução do plural ao Mesmo.
    O culto da tradição — verdade enunciada uma vez por todas — encontra em Maurras (1901/1972) a sua formulação política, e contrapõe-se à hermenêutica gadameriana e à ética dialógica de Rosenzweig (1921/2002), em que a verdade se verifica — bewährt sich — na vida partilhada.
    A recusa do mundo moderno tem em Sternhell (2006) a sua mais aguda genealogia, confrontando-se com o ideal kantiano de Mündigkeit e o sapere aude como gesto antitotalitário fundador (Kant, 1784/1985); mantenha-se distinguida, contudo, da crítica interna de Adorno e Horkheimer (1947/1985), que denunciaram a degeneração instrumental da razão sem recusar a sua promessa emancipatória.
    A acção pela acção articula-se na linha Sorel–Marinetti–Schmitt: o mito mobilizador, a estética futurista, o decisionismo soberano (Schmitt, 1922/2005). A esta pulsão activista opõe-se a vita activa arendtiana, plural, deliberada, fundada na promessa e no perdão (Arendt, 1958/2007).
    O sincretismo intolerante, em que toda a discordância é traição, encontra resposta na sociedade aberta popperiana (Popper, 1945/2008) e, mais radicalmente, na ética levinasiana do Rosto: a recusa da crítica é a recusa do Outro, a redução do diverso ao Mesmo (Levinas, 1961/2014).
    O nacionalismo paranóico — com o seu correlato xenófobo e a sua expressão mais sombria no antissemitismo — toca o núcleo escuro do ur-fascismo. Arendt (1951/1973) descreveu o judeu como bode expiatório do colapso do Estado-nação; Sartre (1946/1995) caracterizou o antissemita como aquele que recusa a contingência da existência. Contra esta paranóia, a tradição abraâmica do hakhnasat orhim — acolhimento dos hóspedes — encontra prolongamento filosófico contemporâneo na hospitalidade incondicional derridiana (Derrida, 1997/2000) e correlato político na ideia habermasiana de patriotismo constitucional (Habermas, 1992/2017).
    O apelo às classes médias frustradas foi tematizado por Reich (1933/2001), Fromm (1941/2008) e Polanyi (1944/2012); Paxton (2004) demonstrou que esta base classista é estruturante e não conjuntural.
    A vida como guerra permanente articula-se na linha Schmitt–Jünger e tem o seu desmascaramento decisivo em Benjamin (1936/2017), com a fórmula clássica: o fascismo estetiza a política. A violência squadrista não é acidente, é liturgia.
    O elitismo de massas — apropriação reduzida de Pareto (1916/1996), Mosca (1896/1939) e Michels (1911/2001) — é contradição performática que apenas o líder carismático resolve em pessoa.
    O culto do herói e da morte, com a fórmula ecoiana do herói impatient de mourir, encontra a sua inversão decisiva em Levinas (1974/2008): a heroicidade autêntica é substitution — mourir pour autrui —, não levar o outro à morte. O sujeito ético responde hineni, eis-me, em exposição responsável, jamais em imolação totalizante.
    O populismo qualitativo preenche, com a figura do líder-corpo-povo, aquilo que Lefort (1986/1991) descreveu como o lugar vazio do poder democrático, em oposição à aclamação schmittiana (Schmitt, 1928/1996).
    Por fim, a novilíngua — léxico empobrecido, sintaxe elementar — encontra os seus testemunhos exemplares em Orwell (1949/2007), Klemperer (1947/2006) e Steiner (1967/2014), e a sua interpretação ético-política em Arendt (1963/2003): os clichés funcionam como anestesiantes da consciência, gerando aquela banalidade do mal cuja superação exige a restituição da palavra à sua riqueza polissémica e melódica originária.

    4. Cartografia das correntes

    Sob os onze arquétipos identifica-se uma cartografia mais larga, que importa enunciar com brevidade. O eixo genealógico maior do ur-fascismo é o contra-iluminismo da revolução conservadora — Maistre, Maurras, Spengler, Schmitt, Jünger —, tematizado por Berlin (1973) e Sternhell (2006). A linha do vitalismo activista — Sorel, Marinetti, Bergson e Nietzsche em apropriações desnaturadas — articula-se com o decisionismo schmittiano e tem em Voegelin (1952/1987) a sua mais aguda crítica como religião política.
    Em contraponto, organizam-se cinco eixos resistentes: a teoria crítica frankfurtiana (Adorno, Horkheimer, Benjamin, Fromm, Reich); o liberalismo antifascista (Croce, Bobbio, Aron); a sociedade aberta (Popper, Berlin); a fenomenologia da pluralidade (Arendt, Patočka, Lefort); e o eixo decisivo, anti-totalitário por estrutura, da filosofia judaica do diálogo (Buber, Rosenzweig, Levinas), prolongado pela desconstrução e biopolítica contemporâneas (Derrida, Foucault, Agamben). A historiografia (De Felice, Mosse, Sternhell, Paxton, Griffin) sustenta empiricamente as construções filosóficas, e Césaire (1955/2010) acrescenta a tese fulgurante da matriz colonial do fascismo europeu — leitura ausente em Eco, mas indispensável ao quadro contemporâneo.

    5. Rejeição sistémica do totalitarismo

    O texto de Almeida Santos contém implícita uma posição ético-política inequívoca, que importa explicitar. O totalitarismo — fascismo, nazismo, estalinismo, ou as suas mutações biopolíticas contemporâneas — não é um regime entre regimes; é a abolição do regime do humano. Constitui-se pela redução do plural ao Mesmo, abolindo o que Arendt (1958/2007) chamou Pluralität e Levinas chamou Autrui; pela suspensão da ética em estetização decisionista, em que a beleza do uniforme e da liturgia ocupa o lugar do mandamento Não matarás; pela destruição da linguagem comum, empobrecimento sintáctico que torna impossível pensar e distinguir; pela conversão do dissidente em traidor; pelo culto do líder como portador da vontade-corpo nacional; e pela sacralização da violência, perversão da heroicidade autêntica que é exposição substitutiva ao outro.
    Contra cada um destes traços, há uma resposta filosófica positiva. À tradição imutável opõe-se a hermenêutica como Wirkungsgeschichte sem fechamento; à recusa do mundo moderno, a maioridade kantiana e a auto-correcção crítica do Iluminismo; à acção pela acção, a vita activa arendtiana fundada na promessa e no perdão; à recusa da crítica, a sociedade aberta e a controvérsia em nome do Céu — makhloket l’shem shamayim — da tradição rabínica; ao nacionalismo paranóico, a hospitalidade abraâmica e o patriotismo constitucional; à manipulação da frustração, a justiça económica como pressuposto material da liberdade política; à vida como guerra, o Sorge não-mobilizatório e o trabalho do luto (Rose, 1996); ao elitismo de massas, a aristocracia moral universal de cada singular irrepetível; ao culto do herói-morte, o hineni levinasiano da exposição responsável; ao populismo qualitativo, a democracia como invenção do dissenso institucionalizado; à novilíngua, a profusão melódica da palavra, a polissemia poética, a memória das obras — eis também o sentido último de uma poética em decasílabos camonianos: a riqueza prosódica é forma de resistência ética.

    6. Coda: Vico, ricorso e o dever da vigília

    A última nota de Almeida Santos é vichiana, e é decisiva. O fechamento na figura do ricorso faz da história, não progresso necessário, mas campo de possibilidades em que a barbárie regressa quando a civilização adormece. A democracia, recolhendo a frase profética de Roosevelt citada por Eco, não é estado, é movimento; quando deixa de progredir como força viva, cede o terreno. O dever do pensamento — sentido último da Bustina di Minerva ecoiana — é manter os sensores intelectuais activos: reconhecer cedo, denunciar cedo, distinguir bem. É, no fundo, o dever zakhoriano da memória traduzido em vigília política. Zakhor, lembra-te (Yerushalmi, 1982/1996): lembra-te do funcionário kafkiano que cumpre ordens sem questionar; lembra-te da palavra empobrecida pela retórica do regime; lembra-te do líder único intérprete da vontade comum; lembra-te do herói impaciente de morrer levando os outros consigo.
    Diante do regresso autocrático que Almeida Santos, com Vico e com Eco, percebe agudamente, a única resposta filosoficamente séria é a recusa veemente, articulada, fundamentada — não pelo afecto da indignação, que se esgota em si próprio, mas pela arquitectura de uma ética que reconhece no Outro o limite intransponível da soberania, na pluralidade a estrutura do humano, e na palavra livre o lugar onde o pensamento se mantém vivo. Diante do ricorso, a vigília. Diante da novilíngua, a profusão melódica da palavra. Diante da redução do Outro ao Mesmo, a epifania irredutível do Rosto. Diante da Totalidade, o Infinito. Esta é, em síntese, a postura filosófica que o tempo exige.

    Referências

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    Almeida Santos, J. (2024, 29 de Outubro). Trump é mesmo fascista? João de Almeida Santos. https://joaodealmeidasantos.com
    Almeida Santos, J. (2026, 28 de Abril). Considerações sobre o fascismo: As teses de Umberto Eco. João de Almeida Santos. https://joaodealmeidasantos.com
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