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Sobre joaodealmeidasantos1

Professor universitário, escritor, poeta, pintor. Publicou várias dezenas de livros, seus e em co-autoria, de filosofia, política, comunicação, romance, poesia, estética. Foi professor nas universidades de Coimbra, Roma "La Sapienza", Complutense de Madrid e Lusófona (Lisboa e Porto). Publica semanalmente, neste site, ensaios, artigos, poesia e pintura.

Artigo

“NOVOS FRAGMENTOS – PARA UM DISCURSO SOBRE A POESIA”

de João de Almeida Santos
APRESENTAÇÃO PÚBLICA
Café-Concerto 
do Teatro Municipal da Guarda, 
dia 24 de Setembro, às 18:00, 
por Dr. António José Dias de Almeida
e Prof. Doutor André Moshe Veríssimo

e no Centro Cultural de Cascais, 
dia 1 de Outubro, às 18:00,
por Prof. Doutor Salvato Teles de Menezes

A CAPA DO LIVRO “NOVOS FRAGMENTOS”

AMANHÃ, dia 24 de Setembro, ocorrerá, no CAFÉ-CONCERTO do Teatro Municipal da Guarda (TMG) o lançamento da minha nova obra:

NOVOS FRAGMENTOS 
Para um Discurso sobre a Poesia
(S. João do Estoril, ACA Edições, 2026, 
284 pág.s, preço: €18)

O evento contará com a presença do Presidente da Câmara Municipal da Guarda, Sérgio Costa, do Presidente da Assembleia Municipal da Guarda, José Relva, e da Vereadora da Cultura, Cláudia Guedes.

O CONVITE PARA AMANHÃ , CAFÉ-CONCERTO TMG, GUARDA, 18.00

O Grupo “REFLEXO IMPERFEITO” iniciará a sessão com a leitura, com fundo musical, de quatro poemas do Autor: “Casta Diva”, “Quem és tu?”, “Mistério” e “Dança da Solidão”.

A apresentação da obra será feita por António José Dias de Almeida,

António José Dias de Almeida, 
é professor aposentado 
do Ensino Secundário. Licenciado
em Filologia Românica pela Faculdade 
de Letras de Lisboa, exerceu funções 
docentes na cidade da Guarda. 
Em 2005 foi agraciado com o grau de
 comendador da Ordem de Instrução Pública 
pelo Presidente da República, 
Dr. Jorge Sampaio. Foi membro da
 Comissão Executiva do Centro 
de Estudos Ibéricos.
Comenta regularmente, há muitos
anos, a poesia de 
João de Almeida Santos


e por André Moshe Veríssimo

André Moshe Pereira, Montalegre, 
tem origens judaicas, 
galego-portuguesas (maternas) 
e germano-portuguesas (paternas). 
É Doutor em Ciências Sociais 
(especialização em Filosofia e Ética, 
Psicologia Evolutiva e Comunicação), 
Mestre e Licenciado em Filosofia, 
docente e investigador 
universitário, escritor, ensaísta 
e crítico editorial. 
Autor de uma multifacetada obra 
de cerca de 30 livros, 
ensaios, artigos críticos e traduções, 
em publicações de prestígio académico 
nacional e internacional. 
Escreve sobre Estética, Poética 
e Diálogo Crítico, 
sobre o gesto, a voz e o corpo, 
destacando-se a 
Série Crítica FPX em diálogo 
estético com o professor, 
escritor, poeta e pintor 
João de Almeida Santos.

Trata-se da minha segunda obra desta natureza: FRAGMENTOS. Com efeito, NOVOS FRAGMENTOS – Para um Discurso sobre a Poesia  (2026) segue-se a FRAGMENTOS – Para um Discurso sobre a Poesia (2025), uma linha editorial com uma rica tradição que remonta a Pensées, de Pascal, Novalis, Fragmente, Hofmannsthal, Buch der Freunde, Pessoa, Livro do Desassossego,  Barthes, Fragments d’un Discours Amoureux,  e tantos outros autores que nos legaram fascinantes obras de referência neste registo de fragmentos. Cada fragmento encerra, na linha de Schlegel, um conteúdo totalmente autónomo, quer do poema que lhe deu origem quer de referências de tipo intertextual, e pode, por isso, ser lido e interpretado sem recurso a referências externas, constituindo-se, deste modo, este livro, como um excelente “Livro de Cabeceira” para os amantes de poesia.

A obra tem 214 curtas reflexões, distribuídas por um Prefácio, uma Introdução, um Epílogo e 24 capítulos, desenvolvidos como proposta para um discurso sobre a poesia, a partir da própria experiência como poeta (com mais de 500 poemas publicados (incluído o livro Poesia, Lisboa, Buy the Book, 2021). São reflexões que resultaram dos diálogos com os leitores da minha poesia, publicados no meu Facebook, e que, depois, foram objecto de livre reelaboração com vista à sua publicação precisamente neste livro. Cada fragmento resulta de uma reflexão motivada por uma concreta poesia publicada, mas a sua interpretação pode ser feita de forma totalmente autónoma.

A obra contém, designadamente, reflexões sobre Novalis (Prefácio e um capítulo), Szymborska (um capítulo) ou o “Banquete” de Platão (Epílogo).

Esta é a minha quarta (encontrando~se as três últimas esgotadas) obra publicada pela Editora ACA Edições: A Dor e o Sublime, 2023; Política e Ideologia na Era do Algoritmo, 2024; Fragmentos – Para um Discurso sobre a Poesia, 2025; e Novos Fragmentos – Para um discurso sobre a Poesia, 2026.

No próximo dia 1 de Outubro a obra “NOVOS FRAGMENTOS” será apresentada também no Centro Cultural de Cascais, às 18:00, pelo Prof. Doutor Salvato Teles de Menezes.

O CONVITE PARA O CENTRO CULTURAL DE CASCAIS

UMA CURTA BIOGRAFIA DO AUTOR

João de Almeida Santos, doutor em filosofia e em ciências de comunicação pelas Universidades de Roma, “La Sapienza”, e Complutense de Madrid, é autor e co-autor de mais de três dezenas de obras, tendo sido professor e investigador nas Universidades de Coimbra, Roma “La Sapienza”, Complutense de Madrid e Lusófona, de Lisboa e Porto. Dentre as suas obras, destaque para O Princípio da Hegemonia em Gramsci (1986), Os Intelectuais e o Poder (1999), Homo Zappiens (2000; 2019), Media e Poder (2012), Via dei Portoghesi – romance (2019), Poesia (2021), A Dor e o Sublime (2023), Política e Ideologia na Era do Algoritmo (2024), Fragmentos (2025). Poeta e pintor, publica semanalmente no site joaodealmeidasantos.com. Expôs no Centro Cultural de Cascais (2022), no Museu da Guarda (2024) e na Galeria de Arte – Estoril (2026).

JAS@09-2026

 

Poesia-Pintura

ANOITECE NO JARDIM

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração – “Entardece no Jardim”
JAS 2021 (98x125, papel de algodão,
310gr, e verniz Hahnemühle, Artglass
AR70, em mold. de madeira;
Colecção da Fundação D.Luís/
/Centro Cultural de Cascais)
Original de minha autoria
Setembro de 2026

“Entardece no Jardim” – JAS 2021

POEMA – “ANOITECE NO JARDIM”

CAI A NOITE
No jardim
E já nem sei
Se amanheces
Em mim.
Sobras-me
Em incerteza
Nos sonhos
Breves
Em que te encontro
Como se fosse
Eterna
Esta nossa despedida,
A versão já repetida
De um desencontro
Sem fim.

MAS À NOITE
O teu perfume
(Como o do jasmim)
É mais intenso,
No Jardim,
O silêncio
É mais profundo
E ouço
A tua voz
Cristalina
Ecoar
Na minha alma,
 Vejo o brilho
Dos teus olhos
Ausentes
Acender magnólias
Brancas
E sinto o vermelho
Das rosas
Perfumadas
A incendiar-me
O corpo.

MAS ANOITECE
(Ah, como anoitece),
Vai-se o sol
E a vibração
Dos sentidos,
Recomeça a viagem
Para dentro de mim,
Invoco-te
Com a alma
E trago-te
Como pétala
Às minhas palavras
Para te dizer,
Olho-te por dentro
Quando a melancolia
Toma conta de mim
Neste cíclico
E repetido
Anoitecer.

VOU AGORA A CAMINHO
Da noite,
Do sonho,
Do imaginário
Que entra sem pedir
Licença
E me arrasta
Na corrente
Onírica para um
Incerto destino
Onde não sei
Se ainda habitas.

O AMANHECER
É sempre imprevisível,
As ondas de luz que
Chegam com o sol
Ameaçam
As cores suaves
E quentes
Com que te
Sonho e te pinto
Na minha alma
Nas noites
De luar.

CAI A NOITE NO JARDIM
E anoitece-me
Na alma,
Uma penumbra
Dolorosa
Que parece
Não ter fim!

 

Ensaio

 

A CARGA LEVE

ENSAIO DE HERMENÊUTICA POÉTICA
Musa, Fado e Libertação 
em «Poema em Construção»

Exegese de um Diálogo Poético 
de João de Almeida Santos

 André Moshe Veríssimo, PhD

“Musa Sedutora” – JAS 2026

RESUMO

O presente ensaio lê Poema em Construção — subtítulo: Diálogo Poético com um Amigo —, de João de Almeida Santos, publicado a 11 de Setembro de 2026 e acompanhado da ilustração original Musa Sedutora (JAS, 2026), como um corpus em que a consistência analítica dos temas se revela consecutiva, orgânica, real e coerente. Parte-se do bloco mais geral e estruturado do texto — o diálogo oral entre o poeta e um amigo anónimo — para a elaboração hermenêutica em que os eixos da musa, da carga, da subida e da libertação se mostram puros, legítimos e indefectíveis. (…) O axioma resolutivo — a arte como sublimação e não como penitência — encerra o processo sem o interromper: o poema permanece, segundo o próprio título, em construção.

Palavras-chave —João de Almeida Santos; musa; fado; Parnaso; catharsis; amor fati; élan vital; hermenêutica; poesia-pintura.

1. DO BLOCO GERAL AO CORPUS ELABORADO
Nota de Método

O ponto de partida deste ensaio é deliberadamente o primeiro bloco, o mais geral e estruturado: a página em que o poema se apresenta ao leitor — título, subtítulo, autoria, data, ilustração Musa Sedutora e o diálogo versificado entre o poeta e o amigo anónimo. Esse bloco não é um preâmbulo ornamental. É já o corpus. Nele se encontram, em estado de condensação oral, todos os temas que a análise ulterior desdobra: a musa que «não te larga», a carga, o pecado, o choro, o fado, a subida, o Parnaso, o castigo conjecturado, o abrigo proposto e, por fim, a recusa firme da via dolorosa em nome da libertação da arte. A passagem do bloco geral ao texto elaborado não é um salto de registo, mas um desenvolvimento. Os temas não se acrescentam de fora; revelam-se consecutivos. Cada secção deste ensaio retoma o mesmo feixe semântico e torna-o mais nítido, sem o adulterar. A consistência que se pretende mostrar — orgânica, real, coerente, pura, legítima, indefectível — não é um juízo de gosto: é a descrição de uma arquitectura interna. O poema dialoga consigo mesmo. O amigo formula a objecção do mundo; o poeta responde com a lei da obra. Entre uma e outra voz, o texto constrói-se exactamente no sentido que o título declara. O método é, por isso, de exegese imanente com aberturas controladas. Lê-se o poema verso a verso e bloco a bloco; confrontam-se os semas em oposição e em síntese; ouve-se a prosódia; situam-se os topoi na tradição ocidental e portuguesa; examina-se, por último, a economia psíquica da vocação. As referências filosóficas e literárias — Platão, a cantiga de amigo, o fado, o Parnaso, Nietzsche, Bergson, a linguagem alquímica da nigredo e da albedo — entram apenas quando o próprio texto as convoca ou as tolera sem violência. Não se aplica um sistema ao poema; deixa-se o poema exibir o sistema que já transporta.

Duas cláusulas de honestidade. Primeira: a ilustração Musa Sedutora não é um adorno editorial, mas um segundo texto, em registo sinestésico, segundo a práxis habitual do autor no ciclo Poesia-Pintura. Segunda: o título Poema em Construção impede o fecho dogmático. A leitura que se oferece é, também ela, um andaime — firme, mas não definitivo.

2. O TEXTO E O SEU HORIZONTE 
Poema em Construção

Poema em Construção inscreve-se na série dominical Poesia-Pintura que João de Almeida Santos (n. 1949, Famalicão da Serra) vem publicando no seu sítio, com ilustração de autoria própria. O autor — filósofo, ensaísta, poeta e pintor digital — deu a esta articulação o estatuto de poética explícita em Poesia (Lisboa, 2021), A Dor e o Sublime (S. João do Estoril, 2023) e Fragmentos. Para um Discurso sobre a Poesia (S. João do Estoril, 2025). O poema de 11 de Setembro de 2026 não é, pois, um hapax. Pertence a um contínuo em que a musa, a subida, a catarse e a sinestesia entre verso e imagem são matérias recorrentes. O subtítulo — Diálogo Poético com um Amigo — fixa o género. Não se trata de um monólogo lírico clássico, nem de um debate doutrinal. É um diálogo assimétrico: o amigo fala em nome da prudência vital; o poeta fala em nome da vocação. A assimetria é fecunda. Sem a objecção do amigo, a tese da libertação soaria a declaração; com ela, torna-se resposta, isto é, acto. O «anónimo amigo da minha melancólica poesia» quer «ser sincero» e «ser mais que uma simples cortesia». A cortesia seria o elogio vazio; a sinceridade é o diagnóstico. O poema nasce dessa recusa da cortesia. O mesmo horizonte atravessa poemas próximos da série. Em O Poeta e a Musa (Março de 2026), a musa é alto-mar e risco de naufrágio; em Musa (Abril de 2026), é memória de um corpo perdido e alimento do estro; noutro Poema em Construção (Julho de 2025), o poeta era já «operário em construção» entre a penúria do real e a beleza como salvação. O texto de Setembro de 2026 herda esse léxico e dá-lhe forma dramática: pela primeira vez, a objecção não é só interior — toma o corpo de um amigo que fala. O diálogo exterioriza o conflito que os poemas anteriores sustentavam em monólogo. Esta filiação importa para a tese da consistência. O corpus particular não é um cometido isolado. É um nó na rede da Poesia-Pintura, onde a musa, o fado, a catarse e a pintura de acompanhamento regressam com variações. A análise que se segue lê o nó sem esquecer a rede; mas recusa diluir o poema de 11 de Setembro numa paráfrase da obra inteira. O que este texto tem de próprio é o duelo das duas vozes e o axioma com que o duelo se resolve. O horizonte imediato do texto é, portanto, ético-estético. Discute-se se a ligação à musa é culpa, castigo, neurose ou destino; se a subida é via dolorosa ou via parnasiana; se o poema é abrigo (como o amigo deseja) ou libertação (como o poeta afirma). Estas alternativas não se excluem por capricho retórico: organizam a vida da obra. O ensaio segue-as na ordem em que o próprio diálogo as produz.

3. TRANSCRIÇÃO DO POEMA

João de Almeida Santos: «Poema em Construção — Diálogo Poético com um Amigo»

Link: https://joaodealmeidasantos.com/2026/09/11/19918/

4. ANÁLISE SEMÉMICA DIACRÍTICA 
E MICRO-SINTAXE POÉTICA
4.1. Estrutura estrófica 
e título como programa

O poema articula-se a partir de uma estrutura estrófica fluida, operando por blocos versificatórios curtos — predominantemente pentassílabos e hexassílabos — que mimetizam a respiração staccato do diálogo oral e a intermitência do acto composicional. Daí o título. Poema em Construção não descreve uma indecisão formal; nomeia o regime do texto. Cada bloco é um lance de pedreiro: assenta, espera a voz do outro, recomeça. A maiúscula inicial de cada bloco («CHORES MAIS», «ISTO ME DIZIA», «CHORA, SIM») funciona como rubrica de cena. O leitor não percorre uma estrofe contínua; assiste a uma obra que se ergue à vista. A micro-sintaxe confirma o programa. Predominam orações breves, aposição, interrogação e a réplica. Os encavalgamentos são raros e, quando ocorrem («para, / Anos afora, / Carregar»), servem o peso semântico da carga, não a fluência narrativa. A pontuação do amigo é a da pergunta moral; a do poeta, a da asserção que se corrige a si mesma («Pecados houve, / Talvez»). O talvez é um operador de honestidade: o texto não dogmatiza o pecado; admite-o como hipótese e desloca-lhe o sentido.

4.2. Três eixos diacríticos

A semiótica dos semas — unidades mínimas de significação — organiza-se em três eixos diacríticos de oposição e síntese. O primeiro eixo parte da Musa Sedutora e desdobra o sema do eros e da tentação até à miragem. O segundo parte da carga e da pena e desdobra o pathos do peso até à subida dolorosa. O terceiro parte da arte e da libertação e desdobra a catharsis da leveza até ao destino parnasiano. Os três eixos não são paralelos: o terceiro reconverte os dois primeiros.

Eixo de partida Sema diacrítico Síntese no texto
Musa sedutora Sema 1 — Eros / Tentação Tentação / miragem
Carga / pena Sema 2 — Pathos / Peso Subida dolorosa
Arte / libertação Sema 3 — Catharsis / Leveza Destino parnasiano
Quadro 1. Eixos diacríticos 
de oposição e síntese 
em «Poema em Construção»

A seta que percorre o quadro não é cronológica apenas, é lógica. Sem a musa não haveria carga; sem a carga não haveria subida; sem a subida a arte não teria de se afirmar como leveza. O poema pensa por transfigurações, não por substituição de temas.

4.3. Gravidade e leveza

O sema da gravidade versus leveza (/peso/ versus /sublimação/) organiza a curva afectiva do texto. O início é dominado pela semântica da condenação manual e corpórea: «carregar / uma tal carga», «preço», «via pesada, dolorosa», «castigo». São lexemas da física e da moral penal. O corpo do poeta é um suporte; a musa é um fardo; o tempo («Anos afora») é a duração da pena. A contraparte poética opera, porém, um desvio semântico. O lexema subida perde a acepção puramente sisífica ou penitencial para assumir a condição de ascensão anagógica. O passo decisivo está no bloco «E AGORA PAGA»: o preço existe, a sedução «não larga», «mas em arte / e em leveza, / que não são peso / nem carga». O adversativo mas é a dobradiça do poema. Não nega o preço; reconverte-lhe a natureza. A mesma relação que o amigo lê como gravidade é lida pelo poeta como leveza. O objecto não mudou; mudou o regime de sentido. Esta operação é rigorosa. Se a arte anulasse a carga, o amigo teria razão em recear uma fuga. Se a arte confirmasse a carga como castigo, o poeta cederia ao diagnóstico penitencial. O texto escolhe a terceira via: a carga permanece como intensidade («intensa sedução») e deixa de ser peso. É o paradoxo clássico da sublimação bem sucedida — não a denegação do real, mas a sua transfiguração.

4.4. A matriz da falha
- Pecado e criação

O tropo do pecado («Que pecados / Cometeste») é desconstruído diacriticamente. Não se trata de uma infracção moral clássica, catalogável num decálogo. Trata-se de uma hamartia estética: o erro — se erro é — de «perder-se / em miragem / sedutora». O poeta admite: «Pecados houve, / talvez, / com a musa / tentadora». A pergunta que se segue é a verdadeira correcção do tropo: «Mas o que foi / que o poeta / lhe fez?». A musa não é vítima de um acto; o poeta é o que se perde. O pecado é o rendimento irrestrito à contemplação do Belo. Esta inversão tem consequências. Numa moral convencional, o pecador deve separar-se do objecto da queda. No regime do poema, separar-se da musa seria a verdadeira falta — a traição da vocação. Por isso o poeta pode chorar «com um tímido / pudor» e, ao mesmo tempo, recusar o abandono. O pudor não é vergonha do ofício; é a consciência de que o ofício custa. Chorar «em verso / cantado» é já a primeira forma da catarse: a dor não se cala, modula-se. A miragem merece glosa. Não é simplesmente ilusão. É imagem que se dá a ver com a intensidade do verdadeiro e que, no entanto, não se deixa possuir. Perder-se nela é o risco constitutivo da poiesis. O texto não dissolve esse risco, dignifica-o. A sedução que «não larga» é a mesma que se torna «arte e leveza». A continuidade do sujeito — a musa que permanece — garante que o terceiro eixo não seja uma conversão oportunista, mas o amadurecimento do primeiro.

4.5. Topofilia dinâmica 
- A rota do Parnaso

O vector espacial do poema é rigorosamente vertical. Não há vagabundagem horizontal, nem deriva. Há subida. A oposição entre o «acaso» e a «via bem definida» converte o movimento ascendente num axioma existencial. A penúria da caminhada não é sintoma de extravio; é a condição de trânsito em direcção ao topo parnasiano. «Mas é subida / a caminho / do Parnaso» — o mas de novo opera. O amigo acabará por conceder a verticalidade («Bem sei / que é via / em subida») e reservará a reserva ao modo da via: penosa, pesada, dolorosa, talvez castigo. O poeta não discute o esforço; discute a destinação. Uma subida sem Parnaso seria Sísifo. Uma subida com Parnaso é vocação. A diferença não está no declive; está no cume que o justifica. Chama-se aqui topofilia dinâmica a este amor do lugar que só se realiza como percurso. O Parnaso não é um recinto já habitado; é um a caminho. O destino «na vida» coincide com a via. Não há atalho, e o texto recusa o acaso exactamente para não transformar a vocação em capricho. A liberdade do poeta não é a liberdade de escolher outro rumo; é a liberdade de não interpretar o rumo como suplício.

5. DIMENSÃO MUSICOLÓGICA, 
RÍTMICA E FÓNICA

A prosódia do poema estabelece uma cadência métrica próxima da cantiga de amigo e da estrutura da redondilha menor, conferindo-lhe uma sonoridade recitativa, quase responsorial. Os versos de cinco e seis sílabas, a dicção em blocos e a alternância de vozes reenviam a um modelo arcaico da lírica peninsular: pergunta e resposta, coro e solista, admoestação e confissão. O poema é, também por isso, cantado — a palavra ocorre no texto e não é metáfora vaga.

5.1. Matriz rítmica e cadência

O pulsar rítmico é dominado por iambos e troqueus, espelhando o ritmo cardíaco de uma subida íngreme. A brevidade dos versos força pausas respiratórias frequentes, simulando o esforço físico e o estancamento da voz diante da dor sublimada. Cada verso curto é um degrau. A leitura em voz alta — a única adequada a este corpus — faz ouvir o ofego e, ao mesmo tempo, a regularidade que o torna suportável. A métrica é já uma ética: o passo curto impede a queda.

As rimas toantes e consoantes curtas — «pudor / dor / fado», «carga / larga», «certeza / libertação» no horizonte vocálico da asserção final — sustentam a continuidade melódica sem engessar a estrutura estrófica. A rima não fecha o edifício, articula-o. Sublinha, uma vez mais, a natureza do texto como coisa em construção: o andaime soa, não se disfarça.

5.2. Modulação monódica e polifónica

O poema configura-se como um dueto lírico. A voz do amigo anónimo actua com o timbre grave do coro trágico grego: alerta, admoesta, projecta a sombra do sofrimento. É a voz da phronesis comum, da saúde, da medida. A voz do poeta responde numa tonalidade lírica ascendente, convertendo o modo menor — melancolia, fado — num modo maior: libertação, alívio. A conversão modal não apaga o menor; transmuda-o. O fado permanece no léxico; muda-lhe o modo de ser cantado. A polifonia é assimétrica, como já se disse, mas não é monológica. O amigo tem razão parcial: a via é em subida e pode parecer penosa. O poeta não o desmente; desloca o predicado. A última réplica («Não farei, não») introduz, pela primeira vez, a firmeza sem pudor. O tímido do terceiro bloco tornou-se o homem que recusa a via dolorosa. A música do texto acompanha essa mudança de carácter: do piano confessional ao forte axiomático, sem perder a clareza da linha.

5.3. Tessitura fónica

Predominam as sibilantes e as fricativas — «chores», «musa», «sincero», «sedução», «firmeza» — que mimetizam o sussurro da Musa Sedutora e, no mesmo gesto, o desdém pelo sofrimento terreno quando este se quer erigir em lei. O /ʃ/ e o /s/ atravessam o poema como um fio de voz baixa. Não há oratória. Há confidência elevada a cânone. A aliteração de oclusivas no campo da carga — «carregar», «carga», «preço», «pecados» — produz o efeito contrário: o choque, o peso na boca. Quando o texto passa à leveza e à libertação, as oclusivas rareiam e regressam as fricativas e as vocais abertas («arte», «leveza», «libertação»). A fonia confirma a semântica. Não é um artifício sobreposto; é o mesmo pensamento em outro plano.

5.4. A herança da cantiga 
e o regime responsorial

A proximidade com a cantiga de amigo não é uma analogia de circunstância. Na cantiga medieval, uma voz — muitas vezes a da amiga — fala a outra voz, humana ou natural, e o refrão organiza o retorno. Em Poema em Construção, o amigo ocupa, paradoxalmente, o lugar da voz que admoesta o «amigo» poeta, e o poeta responde como quem, na cantiga, confessaria o dano de amar. A inversão de papéis é fecunda: quem sofre não é a amiga abandonada; é o poeta habitado. O refrão, aqui, não é um verso repetido; é o regresso dos semas — musa, carga, subida, arte — em cada bloco. O regime responsorial explica ainda a pontuação das aspas. Os dois blocos do amigo vêm entre aspas, como réplicas de um diálogo dramático. Os blocos do poeta não as usam senão quando citam, no interior da narração, o que foi dito. Há, portanto, um narrador que enquadra o dueto — «Isto me dizia», «Foi o que eu lhe / respondi», «Respondeu / o meu Amigo», «Respondi-lhe / com firmeza». Esse narrador é o poeta depois do diálogo, o que já construiu o poema sobre a conversa. A construção anunciada no título é também esta: transformar a fala em estrofe sem lhe matar a oralidade. Da redondilha menor fica o ouvido português. Cinco e sete sílabas são a medida da memória colectiva da língua, da quadras populares ao fado. O poema não as imita como pastiche; toma-lhes o passo curto para que a tese filosófica não se desligue do canto. Quem lê em silêncio pode ainda assim ouvir. Essa audibilidade é parte da prova de consistência: o pensamento do texto é pensável em voz alta, sem que a voz o desminta.

6. MATRIZ VITALISTA 
E HERMENÊUTICA FILOSÓFICA

O vector vitalista do poema dialoga com a Lebensphilosophie — em especial com Nietzsche e Bergson — e com a tradição hermenêutica da catarse artística. O diálogo não é citação; é afinidade de estrutura. O texto recusa o niilismo e a vitimização com uma nitidez que autoriza o paralelo.

6.1. A transfiguração nietzschiana 
e o amor fati

A réplica final — «Não farei, não, / da minha vida […] uma via / dolorosa» — rejeita a interpretação do sofrimento como castigo judaico-cristão. O amigo havia deixado em suspenso a hipótese do castigo e, piedosamente, oferecera o poema como abrigo. O poeta recusa os dois gestos na sua forma passiva: nem a vida como pena, nem a arte como refúgio. O sofrimento é assimilado através do amor fati: a dor não é um fim, nem uma expiação punitiva; é o combustível da vontade de potência poética. O amor fati não é resignação. É afirmação do que se é, incluindo o declive. O poeta «mal s’ajeita / com a vida» — a inadaptação é confessada — e, por isso, paga o preço de um caminho sempre em subida. O «por isso» é causal e, no mesmo passo, electivo. A inadaptação à vida plana é a condição da vocação. Nietzsche reconheceria aqui a figura do artista que não pede à existência que seja outra; pede-lhe que possa ser transfigurada. A Vontade de Potência, neste corpus, não é domínio sobre outrem; é domínio sobre a interpretação da própria carga.

6.2. O élan vital e a arte 
como redenção imanente

Para a voz poética, a arte não é uma fuga — um simples «abrigo», como propõe o amigo —, mas uma força afirmativa e expansiva. A experiência estética transfigura a gravidade da existência em leveza. O processo criativo não anestesia a vida; antes a eleva ao seu ponto máximo de tensão criadora. Este é o ponto em que o texto se aproxima do élan vital bergsoniano: a vida como impulso que atravessa a matéria e, no artista, se reconhece a si mesma. A distinção é decisiva. O abrigo conserva, protege, imobiliza. A libertação atravessa. Se o poema fosse apenas abrigo, o amigo teria ganho a causa da prudência: a arte serviria para suportar o castigo sem o interrogar. Ao afirmar que «a arte não é / penosa / porque é / libertação», o poeta inverte a economia. A penosidade não é o fundo verdadeiro da arte, temporariamente aliviado; a libertação é o fundo verdadeiro da arte, que pode incluir o esforço sem se reduzir a ele. A redenção é imanente. Não se espera um outro mundo; trabalha-se este até que deixe de ser lido como cárcere.

6.3. O esquema da transfiguração

Pode figurar-se o vector filosófico do poema como uma linha única, não como uma alternativa de escolas. O desejo (a musa) conduz à subida (o sofrimento do ofício) e esta à transfiguração (a arte). Nietzsche fornece a ética da afirmação; Bergson, a metafísica do impulso. O texto não precisa de os nomear para os praticar. A consistência orgânica que se busca neste ensaio é, também aqui, a de uma sequência sem salto: não há musa sem custo, não há custo sem via, não há via sem destinação, não há destinação sem liberdade interpretativa.

7. EXEGESE HISTÓRICO-LITERÁRIA 
E DIÁLOGO INTERTEXTUAL

O poema insere-se de forma directa no cânone da lírica ocidental e portuguesa, reconfigurando topoi literários clássicos e modernos. A reconfiguração não é erudita por ostentação; é o modo de o texto se saber dentro de uma linhagem e, ao mesmo tempo, a deslocar.

Topos / referência Presença no texto Paralelo intertextual
O fado lírico «E suportar / o seu fado» Tradição romântica e matriz do fado português: aceitação do destino, requalificada pela dignidade estética.
O Monte Parnaso «A caminho / do Parnaso» Tradição helénica e parnasiana: a montanha sagrada das Musas como destino epistémico e estético inalienável.
A musa devoradora «Essa musa / não te larga» Mito da inspiração como possessão daemonica (Platão, Íon) e musa irónica do Romantismo.
A via sacra subvertida «Não farei […] uma via / dolorosa» Subversão do modelo da Via Crucis: a caminhada íngreme mantém o esforço e descarta o calvário moral.
Quadro 2. *Topoi* reconfigurados 
no poema de João de Almeida Santos

7.1. O fado requalificado

«Suportar o seu fado» poderia soar a fatalismo passivo. No contexto português, a palavra fado arrasta a canção, a saudade, a aceitação digna do que não se escolheu. O poema não recusa esse lastro, desloca-o. O fado do poeta é a inadaptação à vida plana e a subida que dela decorre. Suportar não é baixar a cabeça; é continuar a cantar. O verso cantado é, no terceiro bloco, o instrumento do suporte. A tradição do fado é, assim, reconduzida à sua verdade estética: não a queixa como destino, mas o destino como canto.

7.2. Parnaso e possessão

O Parnaso, morada das Musas, entra no texto sem aparato mitográfico. Basta o nome. Com ele, a subida deixa de ser metáfora vaga de esforço e torna-se topos de destinação artística. A musa que «não te larga», por seu turno, reenvia ao Íon platónico e à tese da possessão: o poeta não governa inteiramente o que o governa. A diferença relativamente ao modelo da mania é ética. Em Platão, a possessão explica o belo e, ao mesmo tempo, desapossa o artífice de saber. Em João de Almeida Santos, a musa seduz e permanece, mas o poeta responde, escolhe a interpretação da carga e pronuncia o axioma final. Há daemon; não há anulação do sujeito.

7.3. A Via Crucis recusada

O amigo sugere o castigo e oferece o abrigo. A sequência é teologicamente familiar: se há culpa, há pena; se há pena, haja consolo. O poeta corta a cadeia. Não fará da vida uma via dolorosa — a fórmula é explícita e, no espaço cultural português, inconfundível. A subida mantém-se; o calvário moral é descartado. O esforço deixa de ser mérito redentor ou expiação; passa a ser a forma da vocação. Esta subversão é talvez o gesto intertextual mais nítido do poema. Não polemiza com o cristianismo em tese; recusa o modelo narrativo que faria da arte uma estação da cruz.

7.4. Consciência metalinguística

A práxis poética de João de Almeida Santos, neste texto, demonstra uma auto-consciência metalinguística: o poema que se escreve sobre a impossibilidade de cessar a escrita constrói-se exactamente no espaço dialógico entre a advertência do mundo exterior (o amigo) e a imperatividade do imperativo interior (a musa). Escrever sobre a construção é já construir. Falar da musa que não larga é já não a largar. O título, o diálogo e a tese final são o mesmo acto em três graus de explicitação.

Esta metalinguagem não é fria. O «tímido pudor» e a «firmeza» ulterior mostram que o sujeito do ofício se expõe. A série Poesia-Pintura, a que o texto pertence, reforça o ponto: o poema vem acompanhado de Musa Sedutora, imagem que não ilustra um verso particular, mas o sema inteiro do primeiro eixo. Palavra e figura cooperam, segundo a sinestesia que o próprio autor tem reivindicado como método.

8. ABORDAGEM CLÍNICO-HERMÉTICA 
E DIAGNÓSTICO DA ALMA LÍRICA

Numa leitura hermético-alquímica e clínico-psicológica — sempre subordinada ao texto, nunca aplicada como grelha exterior — o poema expõe a dinâmica de transmutação da nigredo (melancolia, dor, peso) na albedo ou na rubedo (arte, iluminação, libertação). Os termos alquímicos servem aqui como língua da transformação, não como doutrina ocultista.

8.1. A melancolia como prima materia

O amigo diagnostica o estado do poeta a partir da superfície: a obsessão, o choro, o peso de uma «carga». Trata-se do diagnóstico da melancolia constitucional — «melancólica poesia». O olhar é clínico no sentido comum: vê sintoma, conjectura causa (pecados), prevê curso (castigo) e prescreve amparo (abrigo). É um olhar afectuoso e, por isso mesmo, mais difícil de recusar. A cortesia teria sido inócua; a sinceridade obriga. O poeta opera, contudo, uma leitura hermética dessa condição. A dor não é patologia a ser curada; é a prima materia da grande obra. Sem a melancolia confessada não haveria verso cantado; sem o verso cantado não haveria aplacamento; sem aplacamento não haveria a passagem à leveza. A clínica profana quer suprimir o material. A clínica da obra quer trabalhá-lo. A diferença não é de sensibilidade; é de finalidade.

8.2. O daemon e o complexo

O amigo interpreta a ligação do poeta à musa como uma culpa não resolvida, uma expiação. O poeta compreende a musa como um daemon — a força tutelar da vocação. O confronto entre as duas vozes sintetiza a distinção entre dois olhares. O olhar profano ou externo enxerga a obsessão poética como neurose, sofrimento inútil e servidão. «Essa musa / não te larga» soa a captura. «Anos afora» soa a cronicidade. «Carga» soa a sintoma. O olhar hermético ou iniciado reconhece na obsessão a fidelidade ao próprio destino psíquico — o processo de individuação — em que a dor convertida em símbolo deixa de ferir para libertar. A musa que não larga é, neste segundo olhar, o nome da coerência interior. Largá-la seria a verdadeira desagregação. Nenhum dos olhares é estúpido. O ensaio não canoniza a vocação contra a amizade. Limita-se a observar que o poema dá a última palavra ao segundo olhar, depois de ter deixado o primeiro falar por completo. A justiça dramática do texto está nessa audição prévia. O amigo não é um homem de palha; é a voz que qualquer poeta ouve; e a que este poeta responde.

8.3. A fórmula hermética da carga leve

O poema encerra-se com o axioma resolutivo do impasse psíquico: a arte é sublimação e não é penitência. Em forma compacta, que aqui se oferece apenas como ajuda de leitura e não como equivalência algébrica do verso:

Arte  =  sublimação   ≠   penitência

A recusa em transformar a existência numa «via dolorosa» marca o selo de encerramento do processo alquímico-poético. A libertação não ocorre pela fuga da subida nem pelo abandono da musa, mas pela recusa absoluta de conceber a criação artística como um fardo moral. A arte é confirmada, soberanamente, como o único vector de emancipação da alma perante a gravidade do mundo. Dizer único vector não é dizer único bem. É dizer que, no interior deste corpus, nenhuma outra instância — nem a cortesia, nem o castigo, nem o abrigo — cumpre a função de restituir leveza à carga sem a trair. O abrigo imobilizaria. O castigo sacralizaria a ferida. A cortesia evitaria o diálogo. Só a arte, tal como o poema a define, atravessa a nigredo sem a denegar e sem a idolatrar.

8.4. A ilustração como segundo texto

A pintura Musa Sedutora (JAS, 2026) não ilustra um verso: ilustra o sema. No regime da Poesia-Pintura, a imagem é co-enunciado. O título da tela confirma o primeiro eixo diacrítico e recusa a musa doméstica, tutelar ou meramente mnemónica. Sedutora é a que chama e não larga; é a miragem tornada figura. O leitor do poema que não vê a imagem perde uma prova; o contemplador da imagem que não lê o poema perde o argumento. A consistência do corpus é, também, esta cooperação dos sentidos. Em A Dor e o Sublime, o autor havia escrito a sua poética em prosa: a arte confronta a experiência do sentir e aspira a uma diferença ontológica relativamente ao sentimento bruto. Musa Sedutora, colocada sobre Poema em Construção, é a versão pictórica dessa tese. A sedução visível é o eros do primeiro sema; a composição da tela — qualquer que seja o pormenor figurativo — pertence à mesma subida que o verso declara. Não se trata de traduzir o poema em imagem, o que seria tautologia. Trata-se de deixar que o mesmo destino se diga em dois materiais. Esta duplicidade material reforça a recusa do abrigo. Um abrigo é um interior fechado. A sinestesia abre: a palavra chama a vista, a vista devolve a palavra. O amigo pedia que o poema servisse de tecto. O autor responde com uma casa sem paredes — verso e pintura em circulação. A libertação, no fim do texto, é também esta: não ficar preso a um só registo da alma.

9. CONSISTÊNCIA ORGÂNICA DO CORPUS
Síntese Consecutiva

Pode agora enunciar-se, com o texto à vista, o que a nota de método prometia. Os temas do ensaio não são capítulos justapostos. São o mesmo organismo em cortes sucessivos. No plano semémico, a musa gera a carga, a carga gera a subida, a subida é relida como via parnasiana, a via é relida como libertação. No plano musicológico, a respiração curta do diálogo, o dueto de timbres e a passagem do modo menor ao modo maior executam a mesma curva. No plano filosófico, o amor fati e o élan vital nomeiam, em língua conceptual, o que o verso já fez: afirmar o declive sem o transformar em cárcere. No plano intertextual, o fado, o Parnaso, o daemon e a via dolorosa são os nomes herdados dessa curva. No plano clínico-hermético, a nigredo da melancolia é a matéria da albedo estética. Cinco linguagens; uma só sequência. Essa sequência é consecutiva porque cada passo exige o anterior. É orgânica porque nenhum passo é enxerto. É real porque o diálogo a exibe em acto, não em tese prévia. É coerente porque as objecções do amigo são integradas, não apagadas. É pura porque o texto não mistura a libertação com a fuga. É legítima porque a última afirmação foi ganha no interior do próprio combate verbal. É indefectível no sentido preciso de que, uma vez aceite o regime do poema, nenhum dos eixos pode ser retirado sem que os outros desabem. Retire-se a musa, e a carga torna-se ininteligível. Retire-se a carga, e a leveza torna-se frase. Retire-se a subida, e o Parnaso torna-se postal. Retire-se a libertação, e o texto recai no diagnóstico do amigo.

Daí que o título continue a governar o conjunto. Um poema em construção não é um poema inacabado por fraqueza; é um poema que recusa o acabamento que o transformaria em monumento de uma tese. A construção é o modo de vida da consistência, não o seu adiamento.

10. CONCLUSÃO

Poema em Construção realiza, em diálogo breve, uma operação rara: tomar a objecção mais próxima — a do amigo que ama e receia — e convertê-la em pedra da própria obra. A musa não é inocentada; é compreendida. A carga não é negada; é transfigurada. A subida não é aplanada; é destinada. A arte não é consolação; é libertação. Entre o primeiro verso do amigo e o último verso do poeta medeia apenas a espessura de um ofício assumido. O ensaio procurou mostrar que essa operação é internamente necessária. Do bloco geral e estruturado da página publicada até à elaboração analítica das cinco matrizes, nada se acrescentou que o texto não suportasse, e nada se retirou que o texto exigisse. A ilustração Musa Sedutora permanece, à margem da escrita, como prova sinestésica do primeiro sema. A data — Setembro de 2026 — inscreve o poema na continuidade da Poesia-Pintura, onde o autor há muito ensaiava, em fragmentos e em verso, o mesmo problema: o que fazer da dor quando a dor é o preço de cantar. Resta uma ressalva, que o próprio título exige. Nenhuma leitura deste género esgota o diálogo. O amigo pode voltar a falar; o poeta pode voltar a responder; a musa, por definição, não larga. O ensaio não fecha o corpus — acompanha-lhe a construção. Se a consistência aqui descrita for verdadeira, novos poemas da série poderão deslocar o acento sem desmentir a curva: da tentação à carga, da carga à subida, da subida à leveza. A fidelidade ao texto de 11 de Setembro de 2026 consiste em não transformar essa curva numa lei para toda a obra, e em reconhecer, neste poema, a sua formulação mais nítida.

A resposta deste corpus é sóbria e firme. Não se fará da vida uma via dolorosa. Não porque a vida seja plana, mas porque a arte, sendo subida, não é pena. A carga, se for arte, é leve. E o poema, se for verdadeiro, continua em construção.

REFERÊNCIAS
Fontes patentes

Santos, J. de A. (2021). Poesia. Lisboa: Buy The Book.

Santos, J. de A. (2023). A dor e o sublime: Ensaios sobre a arte. S. João do Estoril: ACA Edições.

Santos, J. de A. (2025). Fragmentos: Para um discurso sobre a poesia. S. João do Estoril: ACA Edições.

Santos, J. de A. (2026, 11 de Setembro). Poema em construção [Poema, ilustração Musa Sedutora]. Poesia-Pintura (aqui em link).

Santos, J. de A. (2026). Musa Sedutora [Pintura digital]. Colecção do autor.

Fontes latentes

American Psychological Association. (2020). Publication manual of the American Psychological Association (7.ª ed.). Washington, DC: American Psychological Association.

Aristóteles. (1998). Poética (E. de Sousa, Trad.). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. (Obra original do séc. IV a.C.)

Bergson, H. (1907). L’évolution créatrice. Paris: Félix Alcan.

Bergson, H. (1934). La pensée et le mouvant. Paris: Félix Alcan.

Eliade, M. (1956). Forgerons et alchimistes. Paris: Flammarion.

Jung, C. G. (1968). Psychology and alchemy (2.ª ed.). Princeton, NJ: Princeton University Press. (Obra original publicada em 1944)

Lourenço, E. (1978). O labirinto da saudade: Psicanálise mítica do destino português. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

Nietzsche, F. (1889). Götzen-Dämmerung. Leipzig: C. G. Naumann.

Nietzsche, F. (1882). Die fröhliche Wissenschaft. Chemnitz: Ernst Schmeitzner.

Nietzsche, F. (1883–1885). Also sprach Zarathustra. Chemnitz: Ernst Schmeitzner.

Platão. (1992). Íon (J. Trindade Santos, Trad.). Lisboa: Editorial Inquérito. (Obra original do séc. IV a.C.)

Platão. (1999). Fedro (J. Trindade Santos, Trad.). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Saraiva, A. J., & Lopes, Ó. (1996). História da literatura portuguesa (17.ª ed.). Porto: Porto Editora.

Spitzer, L. (1980). La enumeración caótica en la poesía moderna. Madrid: Visor. (Obra original publicada em 1945)

Staiger, E. (1966). Conceptos fundamentales de poética. Madrid: Rialp.

Yourcenar, M. (1983). Le temps, ce grand sculpteur. Paris: Gallimard.

Zambrano, M. (1939). Filosofía y poesía. Morelia: Universidad Michoacana de San Nicolás de Hidalgo.

AMV@09-2026

Poesia-Pintura

POEMA EM CONSTRUÇÃO

DIÁLOGO POÉTICO 
COM UM AMIGO
Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Musa Sedutora”
JAS 2026
Original de minha autoria
Setembro de 2026

“Musa Sedutora” – JAS 2026

POEMA – “POEMA EM CONSTRUÇÃO”

“CHORES MAIS
Ou chores menos
Essa musa
Não te larga.
Que pecados
Cometeste para,
 Anos afora,
Carregar
Uma tal carga?”.

ISTO ME DIZIA
Um anónimo
Amigo
Da minha 
Melancólica
Poesia.
Quis ser
Sincero comigo,
Ser mais
Que uma simples
Cortesia.

CHORA, SIM,
O poeta pecador,
Foi o que eu lhe
Respondi,
Com um tímido
Pudor.
Chora o poeta
Em verso
Cantado
Para aplacar
Sua dor
E suportar
O seu fado.

PECADOS HOUVE,
Talvez,
Com a musa
Tentadora.
Mas o que foi
Que o poeta
Lhe fez?
Foi perder-se
Em miragem
Sedutora.

E AGORA PAGA
O preço
De uma intensa
Sedução
Que o não larga,
Mas em arte
E em leveza,
Que não são peso
Nem carga.

É O FADO
Do poeta
Que mal s'ajeita
Com a vida
E por isso
Paga o preço
De o caminho
Que percorre
Lhe ser sempre
Em subida.

MAS É SUBIDA
A caminho
Do Parnaso,
É via
Bem definida,
Não é rumo
Ao acaso,
Mas o destino
Na vida.

“BEM SEI 
Que é via
Em subida”,
Respondeu
O meu Amigo,
“Só noto
Que é penosa,
Via pesada,
Dolorosa,
Que talvez
Seja castigo...
................
Ah, e se assim for,
Que o poema
Te sirva sempre
De abrigo.”

NÃO FAREI, NÃO,
Da minha vida
(Respondi-lhe
Com firmeza)
Uma via
Dolorosa
(De certeza)
Por uma forte
Razão:
A arte não é
Penosa
Porque é
Libertação.

 

 

 

 

Ensaio

LÁGRIMAS

Poema triste, 
de João de Almeida Santos
ENSAIO DE LEITURA

ANDRÉ MOSHE VERÍSSIMO, PhD

“Lágrimas” – JAS 2026

EPÍGRAFE

«Language can only deal 
meaningfully with a special,
restricted segment of reality. 
The rest,and it is presumably 
the much larger part, is silence.»

George Steiner,  Language and Silence

«Ah, pudesse eu
temperar a minha alma
com o teu sal.»

João de Almeida Santos,  «Lágrimas»

I.  PROÉMIO. O Poema Triste 
e o pacto da Poesia-Pintura

Há poemas que não pedem comentário: pedem companhia. «Lágrimas», poema triste de João de Almeida Santos, publicado a 5 de Setembro de 2026 na série Poesia-Pintura e acompanhado pela ilustração homónima de 2026, pertence a essa espécie rara. Não é um texto que se explique. É um texto que se habita. A leitura que se segue não pretende, por isso, traduzir o poema numa tese. Pretende, mais modestamente e mais rigorosamente, acompanhar o movimento da sua falta — o movimento pelo qual o choro que não chega se converte em canto, e o canto, por falta da musa, se converte em pintura. A série Poesia-Pintura, que o autor cultiva há anos no seu espaço digital e nas exposições, não é um dispositivo de ilustração no sentido editorial do termo. Como o próprio Santos observou a propósito da sua pintura, não se pode dizer que o quadro seja a versão plástica do poema, nem que o poema seja a versão discursiva do quadro. Há, entre ambos, uma sinestesia intencional: duas linguagens convergem sobre o mesmo tema sem se reduzirem uma à outra. O díptico «Lágrimas» radicaliza essa convergência. O poema declara que as gotas não caem; a pintura deixa cair uma só, pontilhada, do centro de uma flor branca sobre fundo negro. Uma e outra habitam o mesmo intervalo: o lugar em que o afecto quer acontecer e só acontece como cor — ou como verso. O subtítulo que o próprio autor apõe — «Poema triste» — não é uma rubrica sentimental. É uma categoria. No regime da Poesia-Pintura, a tristeza não é humor psicológico; é uma tonalidade ontológica, uma Stimmung. O poema não descreve um estado de alma: institui um espaço. Nesse espaço, a musa é «fugidia», o olhar está «humedecido» sem que a água chegue a cair, a alma está «quase cheia de nada», e a poesia é «vertigem abissal» para onde o sujeito «sempre voa, por falta de ti». A fórmula é exacta: voa-se por falta, não apesar da falta. A ausência não é obstáculo da poesia; é o seu motor.

Duas advertências.

Primeira – Este ensaio não substitui o domingo em que o poema apareceu. A Poesia-Pintura de Santos é um rito semanal, quase litúrgico — e o próprio poema usa a palavra «litúrgico». Ler fora desse ritmo é já uma infidelidade necessária. Segunda – As lágrimas de que se fala não são as do autor do ensaio, nem as do leitor, nem sequer, de modo verificável, as do poeta. São lágrimas de papel. São, no vocabulário do próprio texto, «lágrimas secas», feitas «apenas com palavras e olhar enxutos». Toda a análise que se segue toma essa secura a sério.

II.  O TEXTO. 
Escuta integral do poema

Reproduz-se o poema na disposição que o autor lhe deu. A capitalização dos arranques de estrofe — QUERIA CHORAR, ENXUGAR, AH PUDESSE EU, MAS NÃO, SÓ ME RESTA — não é ornamento: é partitura. Cada bloco nasce de um verbo de vontade ou de um adversativo. A leitura em voz alta deve respeitar essa arquitectura de ímpetos e de quedas.

LINK para o Poema “Lágrimas”: https://joaodealmeidasantos.com/2026/09/05/19885/

Cinco blocos. Cinco verbos de regime. Queria. Enxugar. Pudesse. Não caem. Resta. A progressão é a de um rito que se tenta, se interrompe, se transfere e se aceita. O primeiro bloco ainda acredita no choro como método de busca: chorar para procurar a musa no sal do olhar. O segundo desloca o choro da face para a alma e deixa, no meio do verso, uma linha de pontos — o único momento em que o poema admite não saber continuar. O terceiro eleva o desejo à liturgia: temperar a alma com o sal da musa, celebrá-la no altar de uma catedral. O quarto é o golpe: as gotas não caem. O quinto é a ética residual: vaguear, cantar a ausência, impedir que ela se torne muda e fria. A pontuação é escassa e, por isso, decisiva. As reticências depois de «rosto» abrem um fosso. A vírgula depois de «tão ausente» não fecha a ferida: acrescenta-lhe a alma. O ponto final só chega no último verso. Até lá, o poema vive de encadeamento e de queda de linha. Cada verso é curto — dois, três, quatro vocábulos — como se a respiração não pudesse carregar mais. Essa pobreza silábica é já uma filosofia: o excesso do sentimento cabe numa medida mínima.

III.  O PARADIGMA NIHIL VARIETUR. 
Operadores ADP e FPX
III.1. Porquê um paradigma fixo

Chama-se Nihil Varietur ao protocolo que recusa variar o método quando o objecto muda. A tentação do ensaio de poesia é a da empatia livre: cada poema pediria a sua chave, o seu tom, a sua metáfora de acompanhamento. Essa liberdade produz, com frequência, prosa bela e leitura fraca. O paradigma que aqui se aplica faz o contrário. Fixa um conjunto de perguntas e obriga o texto a respondê-las. O que varia não é o instrumento; é a resposta. Só assim se distingue, no interior de uma obra vasta como a Poesia-Pintura, o que é recitação de um idioma e o que é acontecimento. O método tem quatro exigências. Primeira: o poema é lido como dispositivo, não como confissão. Segunda: a pintura que o acompanha é lida como campo, não como vinheta. Terceira: a teoria entra depois da escuta, nunca antes. Quarta: a citação guarda a medida do verso; não se engorda o que o poeta enxugou. Quando uma palavra chega de outra língua — desire, Stimmung, liquid love — fica nessa língua. Traz história. A tradução imediata apagaria o que nela ainda resiste.

III.2. ADP — Análise do Dispositivo Poético

A ADP descreve o poema como máquina de produzir ausência. Pergunta, sempre na mesma ordem: qual é o sujeito gramatical e qual é o sujeito afectivo? Qual é o vocativo e o que ele faz ao espaço? Qual é o regime verbal da vontade? Onde o texto se interrompe? Qual é o destino último da energia que não se consumiu? Em «Lágrimas», as respostas são nítidas. O sujeito gramatical é o eu. O sujeito afectivo é um eu já dividido entre o querer e o não poder. O vocativo — «Ó musa fugidia» — não invoca uma presença: invoca uma fuga. O regime verbal caminha do pretérito-imperfeito do desejo («queria») para o infinitivo de operação («enxugar»), para o pretérito-imperfeito do conjuntivo irreal («pudesse»), para o presente da recusa («não caem»), para o presente da residuidade («só me resta»). A interrupção está grafada: a linha de pontos. O destino da energia não consumida é o canto da ausência. A ADP observa ainda a economia do branco. Os versos curtos produzem uma página lacunar. Cada linha é uma gota que não cai. A disposição tipográfica imita, portanto, o fenómeno que o poema declara impossível. O leitor vê cair o que o sujeito não consegue verter. Esta é a primeira ironia formal do texto, e não é menor.

III.3. FPX — Forma Pura do Desejo

A FPX designa o operador que isola o desejo na sua forma, antes de qualquer conteúdo biográfico. Não pergunta quem é a musa. Pergunta como o desejo se configura quando o objecto se retira. Em «Lágrimas», a forma pura do desejo tem quatro traços. É vocativa: precisa de um «tu» para se dizer. É mineral: o sal é a sua substância. É litúrgica: aspira ao altar e à catedral. É aérea: acaba em voo e em sendeiro. Estes quatro traços não se somam, tensionam-se. O vocativo pede proximidade; o mineral pede cristalização; o litúrgico pede comunidade; o aéreo pede distância. O poema vive dessa incompatibilidade. A Forma Pura do Desejo, neste poema, não é eros possessivo. É eros de tempero. «Temperar a minha alma com o teu sal» é uma fórmula de uma precisão quase alquímica. O sal não é condimento decorativo; é o agente que impede a corrupção e que dá sabor. Sem o sal da musa, a alma não apodrece apenas: torna-se insípida. A lágrima seca é, então, o residual de um sabor que já não chega. A FPX lê essa insipidez como o verdadeiro drama do texto — mais do que a tristeza, mais do que a espera.

IV.  O SAL, O ROSTO, A ALMA, 
A POESIA, A VERTIGEM ABISSAL

Cinco núcleos atravessam o poema e voltam, com insistência quase obsessiva, sobre si mesmos. A ADP trata-os como isotopias. A FPX trata-os como metamorfoses de um mesmo desejo. Lê-se cada um, sem pressa.

IV.1. O Sal

O sal aparece três vezes, sempre ligado à musa ou à sua falta. Primeiro, é o meio em que se procura a musa: «no sal do meu olhar humedecido». Depois, é o dom que se pede: «temperar a minha alma com o teu sal». Por fim, é o que falta nas lágrimas secas: «sem o teu sal». A progressão é de lugar para substância e de substância para privação. O sal migra do olhar para a alma e da alma para o nada. Na ordem simbólica ocidental, o sal é pacto e é choro. É a aliança («sois o sal da terra») e é o resíduo do pranto. Santos usa as duas heranças sem as citar. O sal do olhar é já uma aliança falhada: a musa deveria estar dissolvida nessa água, e não está. O sal que se pede para a alma é uma eucaristia mineral: comungar o gosto do outro. O sal que falta nas lágrimas secas é o fim do pacto. Fica a água — mas a água, sem sal, não é lágrima; é apenas humidade. Há, ainda, uma terceira herança, menos óbvia: o sal como preço da visão. Na mitologia e no conto, quem olha para trás ou quem revela o que não devia é convertido em estátua de sal. O olhar humedecido de «Lágrimas» está no limiar dessa petrificação. Quase chora, quase se cristaliza. A pintura de 2026, como se verá, escolhe outro limiar: não o rosto que se mineraliza, mas a flor que chora no lugar do rosto. Uma quarta herança, bíblica e culinária ao mesmo tempo, merece ser dita com lentidão. O sal preserva. O sal arde. O sal sela um pacto. Quando o poema pede o «teu sal», não pede um condimento de mesa; pede o agente que impediria a alma de se corromper na espera. A alma sem sal é carne exposta ao tempo. Daí que as lágrimas secas, «sem o teu sal», sejam o contrário da preservação: são o pranto que já não conserva nada, nem sequer a memória intacta do gosto. O que se seca sem sal não é só a água; é a aliança. Repare-se, de resto, na topografia mínima da primeira ocorrência: «no sal do meu olhar humedecido». O sal não está no mar, nem na mesa, nem no altar — ainda. Está no olhar. O olhar é já um recipiente mineral. Procurar a musa aí é procurá-la no próprio instrumento da busca. O círculo é perfeito e é estéril: o sujeito procura no órgão que a deveria ver a substância que a tornaria visível. A ADP chama a isto curto-circuito do dispositivo. A FPX chama-lhe a forma pura do desejo quando o desejo se toma a si mesmo por objecto.

IV.2. O Rosto

O rosto surge uma só vez, e no plural dos seus sulcos: «pelos sulcos invisíveis do meu rosto». É um rosto que se nomeia pelos caminhos que as lágrimas fariam se caíssem. Os sulcos são invisíveis porque o pranto não os abriu — ou porque o tempo os abriu e o olhar já não os vê. Em qualquer dos casos, o rosto não é superfície de representação; é mapa de um rio seco. Na Poesia-Pintura de Santos, o rosto feminino — musa, perfil, aparição — é um dos motivos mais persistentes. Aqui, porém, o rosto que o poema nomeia é o do próprio sujeito, e a tela recusa-o. Não há face. Há uma flor. A inversão importa. O poema triste fala dos sulcos invisíveis de um rosto que não chora; a pintura de 2026 desloca o pranto para uma corola branca e faz cair dali o que o verso declara impossível.

IV.3. A Alma

A alma é nomeada quatro vezes, sempre em estado de necessidade. Enxugar a alma. Temperar a alma. Alma ferida e vazia. A alma quase cheia de nada. Esta última fórmula — «já quase cheio de nada» — é a mais grave. O nada, no poema, não é o vazio simples. É um nada que enche. Há uma plenitude negativa, uma saturatio nihil. A alma não está oca; está ocupada pela falta. A distinção não é sofística. Um vazio pede enchimento. Um nada que enche já não pede: ocupa. Por isso, o choro, se viesse, não preencheria a alma; apenas a enxugaria — «enxugar a alma, vertendo gotas». A paradoxal higiene do pranto: limpar vertendo. A alma, neste regime, é um tecido que só se lava com a sua própria água. Quando essa água não chega, a alma permanece suja de espera. A palavra «ferida» do quarto bloco não é metáfora médica; é o nome dessa sujidade.

IV.4. A Poesia

A poesia é nomeada duas vezes, em contextos quase opostos. Primeiro, no rito: «um litúrgico e poético ritual». Depois, no abismo: «nesta vertigem abissal da poesia para onde sempre voo». A poesia é altar e é precipício. É o lugar onde se celebraria a musa e o lugar para onde se foge quando a musa falta. Esta duplicidade é o coração da Poesia-Pintura. Escrever não é remediar a ausência; é habitar o espaço que a ausência abre. O voo «por falta de ti» inverte a aerodinâmica romântica. Não se voa porque a musa inspira; voa-se porque ela não está. A falta é combustível. A frase tem a dureza de um teorema e a doçura de uma confissão. Toda a obra recente de Santos — os poemas da musa, do silêncio, do desencontro, da palavra proibida — pode ler-se à luz desta proposição. A poesia não é o encontro. A poesia é o que se faz com o não-encontro.

IV.5. A Vertigem Abissal

«Vertigem abissal» não é ênfase. É descrição fenomenológica. A vertigem é o transtorno do equilíbrio quando o olhar não encontra fundo. O abismo é esse não-fundo. Juntos, os dois vocábulos dizem o mesmo duas vezes, como se uma vez não bastasse. A poesia, no quarto bloco, é esse transtorno. Não é consolação. Não é estilo. É o lugar onde o sujeito perde o chão e, por isso mesmo, se mantém em movimento. O último bloco transforma a vertigem em vaguear. A diferença é ética. A vertigem é passiva: padece-se. O vaguear é activo: escolhe-se um sendeiro, ainda que o sendeiro seja de fantasia. «Sendeiros luminosos desta minha enxuta fantasia» — a adjectivação é de uma honestidade rara. A fantasia é enxuta. Não está molhada de lágrimas. Não está embebedada de ilusão. É uma fantasia que já sabe que o é, e mesmo assim caminha. A lucidez não cancela o canto; torna-o possível.

V.  A FORMA PURA DO DESEJO 
E AS LÁGRIMAS

A lágrima, neste poema, passa por três estados de agregação. No primeiro bloco, é possibilidade: o olhar está humedecido, o sal está disponível, o choro é um projecto. No segundo, é operação: verter gotas pelos sulcos. No quarto, é recusa e, imediatamente, transmutação: lágrimas secas, feitas de palavras. A FPX lê esta transmutação como a operação central do texto. O desejo não desaparece quando o choro falha; muda de matéria. A lágrima seca é um oxímoro apenas na física. Na poética, é uma categoria antiga. É o pranto que se fez verso, o affectus que se fez dictio. Santos radicaliza a categoria ao destituí-la de sal. As lágrimas secas não são só secas: são dessalinizadas. Falta-lhes o gosto do outro. Restam «apenas palavras e olhar enxutos». O advérbio «apenas» é cruel e é exacto. A poesia, quando a musa falta, não é pouco. É apenas. Esse «apenas» é a sua dignidade e a sua pobreza. Deseja-se chorar para procurar. Deseja-se enxugar para aliviar. Deseja-se temperar para celebrar. Nenhuma destas operações se cumpre. O que se cumpre é uma quarta operação, não desejada no início e aceite no fim: cantar a ausência. A Forma Pura do Desejo, neste ponto, coincide com a definição que o próprio poema dá da sua ética residual. O desejo puro não é o desejo realizado. É o desejo que, falhando o objecto, encontra uma forma que o objecto já não pode desmentir. A canção da ausência não pode ser desmentida pela ausência. Pelo contrário: alimenta-se dela. É um perpetuum mobile da falta. Há, contudo, um risco, e o poema conhece-o. Cantar a ausência pode tornar-se um modo de a conservar. A musa permanece «tão muda e tão fria» precisamente porque o canto a substitui. A última finalidade declarada — «para não te sentir tão muda e tão fria» — é ambígua. O canto impede que a ausência congele; mas também impede que a ausência acabe. O sujeito não quer o fim da musa. Quer o fim do seu silêncio. A distinção é infinita. Uma musa que falasse deixaria de ser fugidia; uma musa cujo silêncio fosse cantado permanece musa. O poema escolhe a segunda. É uma escolha amorosa e é uma escolha artística. Não se deve moralizá-la. A forma pura do desejo, aplicada às lágrimas, produz ainda um corolário pictórico. Se a lágrima seca é palavra, a palavra, na série Poesia-Pintura, pede cor. Que cor tem então uma lágrima quando o poema a diz impossível? A tela de 2026 responde sem metáfora: branco de pétala, negro de campo, e um vermelho-ocre pontilhado que desce do ovário da flor. Não é o azul anil do pranto romântico. Não é o cinzento do choro realista. É um pranto de pigmento, granulado como sal, quente como ferida.

5.1. O ritual que não se celebra

O terceiro bloco merece uma paragem própria. «Ah, pudesse eu / temperar / a minha alma / com o teu sal, / celebrar-te / no altar / de um litúrgico / e poético ritual, / na penumbra / luminosa / de uma catedral.» O conjuntivo irreal («pudesse») suspende o rito no modo da irrealidade. O altar é nomeado. A catedral é nomeada. Nenhuma das duas é ocupada. O poema conhece a arquitectura do sagrado e recusa-se a fingir que nela entra. A justaposição «litúrgico e poético» não é um pleonasmo piedoso. Declara que a poesia, neste autor, ambiciona ser ofício — um ofício com horas, com gestos, com uma assembleia implícita. A série dos domingos é já essa liturgia. Cada publicação é uma missa baixa. «Lágrimas» é, então, a missa em que a hóstia não é elevada: o sal não chega, as gotas não caem, o oficiante fica só com o missal das palavras. A honestidade do bloco está em não converter essa falha em blasfémia nem em milagre. Deixa-a no conjuntivo, que é o modo gramatical da saudade. A «penumbra luminosa» prepara o olho para o negro da tela. Quem passe deste bloco à ilustração sem intervalo vê a catedral reduzida ao seu contrário: não a nave com fiel, mas um campo preto onde uma flor oficia sozinha. O ouro não está no vitral; está no mosaico do canto inferior esquerdo, tessela contra tessela, como um altar que já só é chão. A FPX lê o rito falhado como a mais alta forma do desejo neste poema: não o desejo do corpo, não o desejo da fama, não o desejo da obra. O desejo de celebrar. Celebrar é o contrário de possuir. É o contrário, também, de chorar só. Por isso o rito, se se cumprisse, resolveria o poema. Por isso, o poema existe: o rito não se cumpre.

VI. TRIANGULAÇÃO STEINER–MALAMUD–BAUMAN
NO LAMENTO E NA MELANCOLIA

Três pensadores, três regimes do pranto. Steiner pensa o silêncio depois da palavra. Malamud pensa o lamento como ética do sofrimento sem redenção fácil. Bauman pensa a fragilidade dos vínculos no tempo líquido. Nenhum deles escreveu sobre este poema. Todos eles o iluminam, se os fizermos trabalhar em triângulo, sem os fundir.

VI.1. Steiner: o contrato quebrado 
e a real presença que falta

Em Real Presences (Chicago, University of Chicago Press, 1989), George Steiner formula a pergunta que o poema de Santos encena sem a teorizar: há alguma coisa naquilo que dizemos? A modernidade, para Steiner, é o tempo posterior à quebra do pacto entre a palavra e o mundo — o tempo after the Word. Quando esse pacto se rompe, a linguagem continua a produzir sentidos, mas já não garante presença. O comentário multiplica-se; a coisa falha. «Lágrimas» habita exactamente essa quebra. O sujeito quer que o choro seja um método de busca — um sacramento do encontro. O choro recusa-se. As palavras continuam. A musa não vem. Steiner diria que o poema é honesto porque não finge uma real presence que o mundo já não assegura. A catedral do terceiro bloco — «na penumbra luminosa de uma catedral» — é o lugar onde essa presença ainda se pede. O «mas não» que se segue é o século XX a entrar no poema. A liturgia fica sem oficiante. Em Language and Silence (Londres, Faber and Faber, 1967), Steiner insiste em que a linguagem só cobre um segmento restrito do real. O resto é silêncio. O último bloco de «Lágrimas» não desmente essa tese: confirma-a pela positiva. Cantar a ausência é o modo poético de habitar o silêncio sem o trair. O canto não preenche o silêncio da musa; impede que esse silêncio se torne mudez absoluta. Entre o silêncio eloquente e a mudez fria, o poema escolhe um terceiro estado: a canção que nomeia o que não responde. A musa fugidia é, em chave steineriana, o nome local da transcendência que se retirou. Não é necessário teologizar o poema para o reconhecer. Basta notar que o vocativo funciona como prece e que a prece não é atendida. O que resta, depois da prece falhada, é o trabalho da forma. Steiner nunca deixou de crer que a forma — o poema, a sonata, o quadro — pode ainda ser visitada por uma presença. Santos é mais sóbrio. A presença, em «Lágrimas», não visita. A forma vive da visita que não ocorreu.

VI.2. Malamud: o lamento 
sem consolo barato

Bernard Malamud, em romances como The Assistant (Nova Iorque, Farrar, Straus and Cudahy, 1957) e The Fixer (Nova Iorque, Farrar, Straus and Giroux, 1966), construiu uma ética do sofrimento que recusa tanto o niilismo quanto a redenção sentimental. As suas personagens choram pouco. Padecem muito. O lamento, quando aparece, não lava, pesa. A pergunta malamudiana não é «como deixar de sofrer?». É «o que fazer com o sofrimento para que ele não se torne crueldade, nem auto-comiseração?». O poema de Santos passa no teste malamudiano. Não há auto-piedade no sentido folhetinesco. Há melancolia «de tanto esperar» — uma melancolia de duração, não de pose. Há uma alma «ferida e vazia», mas a ferida não é exibida; é declarada no mesmo fôlego em que se aceita o vaguear. O sujeito não pede ao leitor que o lastime. Pede à musa que apareça; e, quando ela não aparece, organiza o resto da vida em sendeiros. Essa organização é moral. É o equivalente poético do que, em Malamud, as personagens fazem quando o mundo não as absolve: continuam a trabalhar. O trabalho, aqui, é o canto. Cantar a ausência é o ofício. Não é terapia. Não é catarse no sentido vulgar. É um labour. O poema triste, lido com Malamud, deixa de ser um género menor da lírica amorosa e passa a ser uma disciplina. A disciplina consiste em não transformar a falta em acusação e em não transformar o canto em substituto triunfal. O último verso não vence a frieza da musa. Apenas a impede de ser «tão» fria. O advérbio de intensidade é o único consolo que o texto se permite. É um consolo de grau, não de substância. Malamud reconheceria a honestidade. Há, em Dubin’s Lives (Nova Iorque, Farrar, Straus and Giroux, 1979), uma frase de trabalho que ajuda a ler o quarto bloco de Santos. Dubin vive da biografia dos outros e fracassa na vida que lhe cabe. O fracasso não o torna cínico; torna-o exacto. Exactidão é o contrário da queixa. «Lágrimas» é, neste sentido, um poema exacto. Cada vocábulo do quarto bloco — «não caem», «lágrimas secas», «sem o teu sal», «apenas», «olhar enxutos», «melancólico de tanto esperar» — está pesado. Nada sobra. Nada falta, excepto o que o poema declara faltar. Essa exactidão é a moral malamudiana da forma. O lamento judaico que atravessa Malamud — não como tema folclórico, mas como estrutura de duração — também ajuda. O lamento não pede que o sofrimento acabe já. Pede que o sofrimento seja dito sem se tornar espectáculo. Santos, poeta de uma linhagem católica e mediterrânica pela imagética da catedral, encontra contudo, neste poema, um tom que é de sinagoga tanto quanto de nave: a repetição do vocativo, a insistência do sal, a recusa do desenlace. O lamento dura o tempo do texto. Depois, o sujeito levanta-se e vagueia. Levantar-se e vaguear é, também, uma liturgia.

VI.3. Bauman: o vínculo líquido 
e a musa sem endereço

Zygmunt Bauman descreveu, em Liquid Love (Cambridge, Polity Press, 2003) e em Liquid Modernity (Cambridge, Polity Press, 2000), um tempo em que os vínculos humanos perdem a forma antes de terem tempo de a fixar. O amor líquido quer segurança sem prisão, presença sem duração, intensidade sem destino. A musa de Santos é, à primeira vista, uma figura antiga — a inspiradora, a fugidia, a celebrada no altar. Mas o modo da sua ausência é contemporâneo. Ela não está noutro lugar mítico. Está «tão ausente». O advérbio não indica um sítio. Indica um grau. A musa não partiu para Siracusa. Diluiu-se. O espaço «irreal onde vagueio sem destino e onde tudo me parece estar perdido» é uma descrição quase sociológica da experiência líquida, escrita contudo na língua da lírica. O destino que falta não é só o da musa; é o da própria deambulação. Vagueia-se porque os laços já não amarram. A Poesia-Pintura, neste ponto, faz o que a sociologia não pode fazer: dá um corpo rítmico à fluidez. Os versos curtos são líquidos. Escorregam. Não acumulam período. Cada linha é uma unidade que se desfaz na seguinte, como um vínculo que não dura o suficiente para se tornar frase. Bauman observa que o eros não sobrevive à fusão possessiva. Santos observa o inverso complementar: o eros também não sobrevive à dessalinização. Sem o sal do outro, o choro torna-se palavra e a palavra torna-se fantasia enxuta. A modernidade líquida produz, assim, um novo tipo de pranto: o pranto sem corpo, o pranto que já é texto. As lágrimas secas são, neste sentido, o objecto lírico da liquidez. Não molham. Não comprometem. Circulam. Podem ser publicadas a um domingo e lidas a outro. O poema sabe disso e não se perdoa por sabê-lo. Daí a melancolia de tanto esperar. Espera-se, ainda, uma densidade que o tempo líquido já não garante.

VI.4. O Triângulo

Steiner dá o eixo vertical: a presença que se retirou e o silêncio que ficou. Malamud dá o eixo ético: o lamento que trabalha em vez de se contemplar. Bauman dá o eixo horizontal: o vínculo que já não cristaliza. No centro do triângulo está o poema. Sem Steiner, «Lágrimas» seria só queixa amorosa. Sem Malamud, seria só teologia da ausência. Sem Bauman, seria só peça de museu. Com os três, o texto revela a sua actualidade estranha: é um rito antigo escrito numa língua de agora, por um poeta que ainda acredita no altar e já conhece a liquidez.A melancolia do poema não é a melancholia escolástica dos humores, nem a depressão clínica, nem a saudade-postal. É o afecto que nasce quando os três eixos se cruzam: quando se espera uma presença que o século já não endossa, quando se recusa o consolo barato e quando o vínculo amado não encontra forma sólida. Por isso, o poema é triste. E por isso a tristeza é pensante.

VII.  ÁRPÁD SZENES. A CHAVE SZENESIANA  
O azul como não-cor 
e a filosofia do silêncio

Árpád Szenes (Budapeste, 1897 – Paris, 1985) oferece à leitura de «Lágrimas» o que a teoria literária, sozinha, não pode oferecer: uma filosofia da cor que é, ao mesmo tempo, uma filosofia do recolhimento. Pintor húngaro-francês, companheiro de Maria Helena Vieira da Silva, Szenes atravessou o século da abstracção sem nunca fazer da abstracção um programa ruidoso. A sua obra madura — sobretudo a partir de meados dos anos 1950 — reduz a paleta, privilegia o vertical e o horizontal, deixa a cor tender para o que os críticos franceses chamaram de non-couleurs: o branco, o cinzento, um azul que já não afirma o céu.

VII.1. O azul como não-cor

Chamar não-cor ao azul szenesiano não é dizer que o azul desapareceu. É dizer que o azul deixou de funcionar como atributo de objectos — céu, manto, veia, flor — e passou a funcionar como clima. É um azul que não representa a água; habita-a. É um azul que não representa a tristeza; torna-a respirável. Na tela tardia a cor já não aponta. Paira. A ilustração «Lágrimas», de 2026, não pede esta chave por semelhança. Pede-a por contraste. Szenes dissolve a figura no clima. Santos isola a figura no negro. Onde o húngaro deixa a cor pairar, o português concentra-a: branco da pétala, verde da folha, ouro do mosaico, e um único fio vermelho-ocre que desce. A não-cor, aqui, não é o azul. É o preto. O campo negro faz o ofício que em Szenes fazia o azul pálido: recusa o emblema da tristeza e torna a tristeza respirável como clima. Santos não pinta «como» Szenes, e seria ofensivo para ambos fingir uma filiação escolar. A chave szenesiana não é uma chave de influência; é uma chave de inteligibilidade. Serve para nomear o que a tela de 2026 faz ao negro: destituí-lo de cenário e fazê-lo meio. O preto deixa de ser fundo de natureza-morta. Passa a ser o espaço irreal do primeiro bloco — «onde vagueio sem destino e onde tudo me parece estar perdido». Essa distinção — entre o emblema e o meio — é a distinção entre a ilustração sentimental e a pintura.

VII.2. A Filosofia do Silêncio

Szenes é um pintor do silêncio não porque as suas telas estejam vazias, mas porque recusam a declamação. A forma dissolve-se no campo. O motivo — um parque, um banquete, um rosto de Vieira da Silva, uma paisagem vertical — sobrevive como pulso, não como narrativa. O silêncio szenesiano é o contrário do mudo. É um silêncio cheio, um silêncio que a matéria ainda habita. A analogia com o último bloco de «Lágrimas» é quase demasiado exacta para ser casual. «Cantando a tua ausência para não te sentir tão muda e tão fria»: o canto impede a mudez, como a pintura szenesiana impede o vazio. Um e outro trabalham o silêncio por dentro. A filosofia do silêncio, neste sentido, não é uma mística da interdição. É uma ética da medida. Szenes não grita a ausência de Vieira quando a pinta às centenas; deixa que a presença se decante até quase desaparecer. Santos não grita a ausência da musa; deixa que o verso encurte até quase calar. A linha de pontos no segundo bloco — «……..» — é o momento mais szenesiano do poema. Não diz o silêncio. Abre-o. O silêncio szenesiano tem, ainda, uma história política que não deve ser apagada por excesso de estética. Judeu húngaro, apátrida com Vieira da Silva durante a guerra, exilado no Brasil, Szenes aprendeu o silêncio também como sobrevivência. A non-couleur dos anos tardios não é só gosto; é memória de um século que gritara demais. Ler «Lágrimas» com esta memória não é forçar uma alegoria histórica sobre um poema de musa. É recordar que o silêncio, no século XX, nunca é apenas um efeito de atelier. Quando Santos escreve «tão muda e tão fria», a mudez e a frieza carregam, mesmo sem o saber o verso, o peso de um tempo em que muitas vozes se calaram. A chave szenesiana inclui esse peso. Não o exibe. Na Fundação de Lisboa que hoje leva o nome do casal, o visitante aprende a olhar devagar. As telas de Szenes não se entregam à primeira ronda. Pedem a segunda, a terceira, a que já não procura o motivo e começa a habitar o clima. «Lágrimas», poema e tela, pede o mesmo regime de visita. Quem leia o poema uma vez trará dele a queixa. Quem o leia três vezes trará dele a disciplina. A diferença entre a queixa e a disciplina é a diferença entre a primeira e a terceira visita a um Szenes tardio.

VII.3. Penumbra luminosa

O terceiro bloco do poema pede «a penumbra luminosa de uma catedral». A fórmula é, de novo, oxímoro rigoroso. A penumbra é a reserva da luz; a luz, na penumbra, não cega, persiste. As catedrais europeias — e Szenes viveu entre Paris e a memória de um centro europeu destruído — são máquinas de produzir exactamente essa tensão: o ouro que sobrevive na sombra. A ilustração de 2026 trabalha a mesma tensão por outra via. O ouro não sobrevive no vitral; sobrevive no mosaico do canto inferior, tessela contra tessela, encostado a uma massa ocre que pode ser muro, tecido ou ombro. A flor branca faz de lâmpada. O negro faz de nave. A chave szenesiana permite articular poema e pintura sem hierarquia, mesmo quando as paletas divergem. O poema dá ao silêncio uma sintaxe. A pintura dá ao silêncio um campo. Nem uma nem outra «explicam» a lágrima. O verso diz que ela não cai. A tela deixa-a cair, mas em ponto — um pranto granuloso, sem volume de água. Seca e, contudo, visível. Salgada de pigmento.

VIII.  O INTERVALO POÉTICO 
E O ENIGMA

Chama-se intervalo poético ao espaço que o poema abre entre o que pede e o que obtém. Em «Lágrimas», esse intervalo é o próprio texto. Entre o «queria chorar» e o «só me resta vaguear» decorre uma duração que não se mede em minutos; mede-se em estrofes. O enigma não é «por que não chora o poeta?». O enigma é «o que se produz no lugar do choro que não veio?». A resposta do próprio poema é dupla. Produz-se uma palavra enxuta. Produz-se uma fantasia luminosa. A ADP acrescenta uma terceira produção: produz-se um leitor. O leitor é convocado a ocupar o intervalo, a ser a testemunha do rito falhado. Sem leitor, a lágrima seca permanece no caderno. Com leitor, a lágrima seca circula e, ao circular, cumpre o destino paradoxal de toda a Poesia-Pintura: tornar público o que é de uma intimidade sem destinatário certo. O enigma tem ainda uma face temporal. O poema está datado de Setembro de 2026 e a ilustração de 2026. A série, porém, vem de longe. Quem lê «Lágrimas» depois de ter lido os poemas da musa, do silêncio, do desencontro, da aparição, reconhece um idioma. O enigma, então, desloca-se: não é o de um texto isolado; é o de uma obra que, domingo após domingo, volta ao mesmo altar com uma oferenda ligeiramente outra. O Nihil Varietur serve, aqui, para não confundir a recorrência com a repetição. A musa de Setembro não é a musa de Março. O sal de «Lágrimas» não é o silêncio de «O Poeta e o Silêncio». A variação só se vê se o método não variar. Há um segundo enigma, mais duro. O poema declara que canta a ausência «para não te sentir tão muda e tão fria». A finalidade é sentiente: trata-se de sentir de outro modo. Mas o sentimento que se obtém não é o calor da musa; é a menor frieza da sua falta. O intervalo poético é, portanto, um intervalo térmico. A poesia não aquece o mundo. Reduz, por graus, a hipotermia da ausência. Quem espere da lírica uma salvação encontrará este poema insuficiente. Quem aceite da lírica uma climatização da falta encontrará este poema exacto. O enigma, enfim, é pictórico. O poema diz que as gotas não caem. A tela mostra uma que cai. Não é contradição barata. É divisão de trabalho. O verso guarda a impossibilidade no sujeito; a pintura desloca a possibilidade para a flor. Quem chora, no díptico, não é o eu. É a corola. O intervalo está entre essas duas bocas — a da fala e a da pétala.

VIII.1. Protocolo breve de leitura

Para que o paradigma não fique só nomeado, importa dizer como se lê. Primeiro, o poema, em voz alta, sem lápis. Depois os cinco verbos de regime. Depois as isotopias — sal, rosto, alma, poesia, vertigem — ainda sem hierarquia. O vocativo confronta-se com o que ele não obtém. Só então se abre a tela. Só depois da tela se convoca a teoria. Se a teoria entrar primeiro, o poema vira exemplo. Se a tela entrar primeiro, o poema vira legenda. A ordem protege a precedência do texto sem recusar o díptico. O mesmo modo de ler, aplicado a «Musa», a «O Poeta e o Silêncio», a «Desencontro» ou a «Aparição», dará respostas diferentes. É esse o seu mérito. O Nihil Varietur não produz o mesmo ensaio; produz a mesma exigência: não variar o instrumento para não inventar a variação no objecto.

IX.  A ILUSTRAÇÃO «LÁGRIMAS» 
COMO CAMPO PICTÓRICO

A tela organiza-se sobre um campo negro quase absoluto. Não é um preto de estúdio fotográfico. É um preto de intervalo — o «espaço irreal» do primeiro bloco, o sítio onde se vagueia sem destino. Sobre esse campo paira uma flor branca, de pétalas espessas, camélia ou magnólia, ligeiramente deslocada para a esquerda do eixo. A corola não é imóvel: uma das pétalas inferiores cede, como se o peso do que vai cair já a inclinasse. Do centro da flor desce o que o título anuncia. Não é uma gota desenhada à maneira académica. É um fio pontilhado, vermelho-ocre, granulado, que nasce no ovário como um estame de ferida e se adelgaça até se perder no negro. A lágrima, aqui, é matéria pontual: sal que se vê, sangue que se conta, pólen que escorre. Tem a granulometria do mosaico que ocupa o canto inferior esquerdo — como se o pranto e o altar fossem feitos da mesma unidade mínima.

IX.1. Cromatologia

Cinco cores sustentam o quadro, e nenhuma é acessória. O negro é o clima. Ocupa a maior parte da superfície e não ilustra a noite: institui a ausência como lugar. Sem ele, a flor seria bodegón. Com ele, a flor é aparição. O branco da corola é marfim, não giz. Tem sombra fria nas dobras e uma leve carne nas convexidades. É o branco da «enxuta fantasia» e, ao mesmo tempo, o branco da oferenda. No poema, o olhar está enxuto; na tela, a pétala está seca — excepto no ponto em que o vermelho a fura. O vermelho-ocre do centro e do fio é a única humidade. Não é o carmim do emblema sentimental. É um vermelho de minério, de ferrugem viva, de sal que ardesse. Concentra-se no coração da flor como uma boca e depois cai, ponto a ponto, na vertical. Essa vertical é a única gravidade da composição. Tudo o resto flutua; o pranto obedece à terra. O verde da folha, cortado por uma faixa amarela, é o resto do mundo orgânico. Impede que a flor seja só símbolo. Há clorofila. Há nervura. Há um caule que vem de fora do quadro, pela esquerda, com um filete vermelho no bordo — como se a vida ainda entrasse, de viés, no campo da falta. O ouro e o ocre do canto inferior são arquitectura e corpo ao mesmo tempo. A faixa de baixo lê-se como mosaico: tesselas quentes, um rebordo vermelho. Acima dela, uma massa rosada-ocre sobe em diagonal, carne ou muro lavado. É o que sobra da catedral do terceiro bloco quando a nave se desfez: um chão de ouro e um ombro de cal.

IX.2. Contraponto com o poema

A relação entre o poema e a tela não é de tradução. É de contraponto. O poema nomeia o sal, o rosto, a alma, a catedral, o sendeiro — e declara que as gotas não caem. A tela cala os nomes e deixa cair uma só linha de pigmento. Quem lê o poema depois de ver a tela ouve os versos com outra humidade: a flor já chorou por ele. Quem vê a tela depois de ler o poema reconhece, no fio pontilhado, o sal que o eu não conseguiu verter. A fidelidade, neste díptico, não consiste em repetir a recusa. Consiste em a completar. O sujeito lírico fica com as palavras e o olhar enxutos; a flor fica com a lágrima. Entre os dois, o negro. Esse negro é o verdadeiro «sulco invisível» — agora visível como campo. A composição é vertical, mas o peso não está em cima. Está no fio. A flor é lâmpada; o mosaico é altar; o negro é nave. A luz não vem de uma janela. Vem da pétala. No poema, a musa deveria ser a fonte do sal. Na tela, a fonte é o miolo da flor. O rito que o verso não celebra, a pintura celebra em silêncio — uma missa de uma só gota.

X. CODA. CANTAR A AUSÊNCIA 
PARA NÃO A SENTIR TÃO MUDA

No termo da leitura, o que o paradigma Nihil Varietur permite afirmar, sem ênfase, é isto. «Lágrimas» é um poema de transferência. Transfere o choro para a palavra, a palavra para o canto, o canto para a deambulação, a deambulação para a pintura. Em cada transferência perde-se sal e ganha-se forma. A perda não é acidente. É o preço da forma. A ADP descreveu a máquina: cinco blocos, cinco verbos, uma interrupção grafada, uma ética residual. A FPX descreveu o desejo: vocativo, mineral, litúrgico, aéreo, incompatível consigo mesmo e, por isso, fecundo. A triangulação teórica situou o lamento: depois da presença (Steiner), aquém do consolo (Malamud), dentro da liquidez (Bauman). A tela deu ao pranto a sua cor verdadeira — branco, negro, e um vermelho-ocre que cai em ponto. O intervalo ficou nomeado como o lugar mesmo da obra. Não se conclui, porque o poema não conclui. O último verso não é uma moral; é uma precaução. Cantar a ausência para não a sentir tão muda e tão fria é um programa mínimo, e os programas mínimos são os únicos que a lírica honesta ainda pode assinar. Querer mais — querer a musa em pessoa, querer o choro em água, querer o altar ocupado — seria querer outro género. «Lágrimas» escolheu o seu. É um poema triste. Cumpre o que anuncia. Na economia da Poesia-Pintura, este domingo de Setembro de 2026 ficará, se a leitura for justa, como o domingo em que o pranto aceitou ser tinta e a tinta aceitou ser silêncio. O resto — a musa, o sal, a catedral — permanece no intervalo, onde deve permanecer. Não se toca no que falta. Canta-se.

X.1. Grelha final do paradigma

Fecha-se com a grelha preenchida. Não substitui a leitura. Resume o que ela tornou incontornável.

Dispositivo (ADP). Cinco blocos de ímpeto. Vocativo único: musa fugidia. Regime verbal: queria / enxugar / pudesse / não caem / só me resta. Interrupção grafada no segundo bloco. Destino da energia: canto da ausência. Branco tipográfico como imitação da gota que não cai.

Forma do desejo (FPX). Vocativa, mineral, litúrgica, aérea. Objecto sem endereço. Substância pedida: o sal. Operação falhada: o choro. Operação cumprida: a transferência da lágrima para a palavra. Risco reconhecido: conservar a ausência ao cantá-la.

Isotopias. Sal (lugar, substância, privação). Rosto (sulcos invisíveis). Alma (enxugar, temperar, ferida, cheia de nada). Poesia (rito e abismo). Vertigem (padecida) que se converte em vaguear (escolhido).

Triangulação. Steiner: quebra do pacto palavra-mundo; silêncio como resto maior do real. Malamud: lamento como trabalho, exactidão contra a queixa. Bauman: vínculo sem forma sólida; lágrima seca como objecto lírico da liquidez.

Chave szenesiana e cromatologia. O negro como não-cor do campo. Silêncio como ética da medida. A catedral reduzida a mosaico ocre. A flor branca como lâmpada. O vermelho pontilhado como a única gota — sal visível, no lugar do choro que o verso recusa.

Enigma. O que se produz no lugar do choro que não veio? Palavra enxuta, fantasia luminosa, um leitor. Intervalo térmico: a poesia não aquece o mundo; reduz a hipotermia da ausência.

Esta grelha, aplicada sem alteração a outros dípticos da série, permitirá, no tempo, um mapa da Poesia-Pintura. O que aqui fica é uma folha desse mapa. Não é o território. O território continua a ser o domingo em que o poema e a tela aparecem juntos, sem ensaio no meio.

BIBLIOGRAFIA
Fontes primárias

Santos, João de Almeida.  Lágrimas. Poema e ilustração homónima. Série Poesia-Pintura. 5 de Setembro de 2026.

Santos, João de Almeida.  Poesia. Lisboa: Buy The Book, 2021.

Santos, João de Almeida.  A Dor e o Sublime. S. João do Estoril, ACA Edições, 2023.

Santos, João de Almeida.  Poesia-Pintura. Arquivo em linha. Cascais / Lisboa: joaodealmeidasantos.com, 2015-2026.

Teoria, crítica e filosofia

Bauman, Zygmunt.  Liquid Modernity. Cambridge: Polity Press, 2000.

Bauman, Zygmunt.  Liquid Love: On the Frailty of Human Bonds. Cambridge: Polity Press, 2003.

Benjamin, Walter.  Ursprung des deutschen Trauerspiels. Berlim: Ernst Rowohlt Verlag, 1928.

Cioran, E. M.  Cahiers, 1957-1972. Paris: Gallimard, 1997.

Freud, Sigmund.  Trauer und Melancholie. Leipzig / Viena / Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 1917.

Malamud, Bernard.  The Assistant. Nova Iorque: Farrar, Straus and Cudahy, 1957.

Malamud, Bernard.  The Fixer. Nova Iorque: Farrar, Straus and Giroux, 1966.

Malamud, Bernard.  Dubin’s Lives. Nova Iorque: Farrar, Straus and Giroux, 1979.

Nancy, Jean-Luc.  Le Discours de la syncope. Paris: Flammarion, 1976.

Steiner, George.  Language and Silence: Essays 1958-1966. Londres: Faber and Faber, 1967.

Steiner, George.  Real Presences. Chicago: University of Chicago Press, 1989.

Steiner, George.  Grammars of Creation. Londres: Faber and Faber, 2001.

Starobinski, Jean.  La Mélancolie au miroir. Paris: Julliard, 1989.

Pintura e estudos szenesianos

Fondation Arpad Szenes–Vieira da Silva.  Arpad Szenes. Lisboa: Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, s.d.

Lassaigne, Jacques.  Vieira da Silva. Paris: Fernand Hazan, 1978.

Szenes, Árpád.  Blanc. Óleo sobre tela. Estrasburgo / Bruxelas: colecções públicas europeias, 1963.

Vieira, Milena Guerson.  Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes: diálogos de pintura. Juiz de Fora: UFJF, 2015.

Weelen, Guy.  Vieira da Silva. Paris: Chêne, 1977.

Poética e contextos portugueses

Lourenço, Eduardo.  O Canto do Signo. Existência e Literatura. Lisboa: Presença, 1994.

Pessoa, Fernando.  Livro do Desassossego. Lisboa: Ática, 1982.

Sena, Jorge de.  Sobre Esta Praia. Lisboa: Moraes Editores, 1977.

Sophia de Mello Breyner Andresen.  O Nome das Coisas. Lisboa: Moraes Editores, 1977.

Veríssimo, André Moshe.  Dois poetas, o mesmo solo. Nota crítica a propósito de «Musa». Série Poesia-Pintura. 2026.

Nota sobre o Autor

André Moshe Veríssimo, PhD, tem escrito em diálogo com a poesia e a pintura de João de Almeida Santos. Vê na série Poesia-Pintura um dos laboratórios mais persistentes da lírica portuguesa contemporânea. Aqui lê o díptico «Lágrimas», de Setembro de 2026, com o paradigma Nihil Varietur e os operadores ADP e FPX.A O ensaio quis caber nesse espaço como o verso quis caber na sua linha: sem sobra de ênfase, com a exacta falta que o texto autoriza. Sem o rito semanal da Poesia-Pintura — sem a obstinação de João de Almeida Santos em voltar, domingo após domingo, ao encontro da palavra com a cor — estas páginas não teriam objecto. O ensaio é posterior. A obra é primeira. Que o sal, se algum dia cair, caia sobre o original e não sobre o comentário.

AMV@09-2026

 

Poesia-Pintura

LÁGRIMAS

POEMA TRISTE
Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Lágrimas”
JAS 2026
Original de minha autoria
Setembro de 2026

“Lágrimas” – JAS 2026

POEMA – “LÁGRIMAS”

QUERIA CHORAR,
Eu queria,
Ó musa fugidia,
Para te procurar
No sal
Do meu olhar
Humedecido,
Nesse espaço
Irreal
Onde vagueio
Sem destino
E onde tudo
Me parece
Estar perdido.

ENXUGAR
A alma,
Vertendo gotas
De água
Salgada
Pelos sulcos
Invisíveis
Do meu rosto...
........
Já quase
Cheio de nada.

AH, PUDESSE EU
Temperar
A minha alma
Com o teu sal,
Celebrar-te
No altar
De um litúrgico
E poético ritual,
Na penumbra
Luminosa
De uma catedral.

MAS NÃO,
Não caem
Essas gotas
Salgadas
E agora
Eu quero chorar
Lágrimas secas,
Sem o teu sal,
Apenas
Com palavras
E olhar enxutos,
Melancólico
De tanto esperar
Nesta vertigem
Abissal
Da poesia
Para onde
Sempre voo,
Por falta de ti,
Tão ausente,
E de alma
 Ferida e vazia.

SÓ ME RESTA
Vaguear
Pelos sendeiros
Luminosos
Desta minha
Enxuta fantasia
Cantando
A tua ausência
Para não te sentir
Tão muda
E tão fria.

Artigo

O TESTE

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2026

É CLARO que o caso Luís Neves é simples, para efeitos de um banal juízo acerca da sua permanência ou não no cargo de Ministro da Administração Interna. Bastaria atermo-nos ao que ele próprio afirmou para justificar uma mais que justificada saída do cargo ministerial que ocupa. O cargo de ministro tem uma forte carga simbólica que deve ser preservada. Foi invocando isso (a propósito de um mísero parágrafo num comunicado da PGR, ainda hoje não explicado) que o PM António Costa abandonou o governo de maioria absoluta do PS e rumou a Bruxelas (sem parágrafo).  Mas também é legítimo perguntar se a sua resistência não se deve ao conhecimento de factos que envolvam personalidades importantes deste país ou, então, a sua eventual pertença a uma qualquer poderosa organização que proteja sempre os seus, em qualquer caso. Perguntas legítimas, perante tanta teimosia. Sim, muitas interrogações poderiam ser feitas acerca desta insólita resistência de um personagem que durante oito anos liderou a mais poderosa instituição do nosso sistema de investigação criminal. Instituição que guarda segredos como nenhuma outra no nosso país. Mas a situação chegou a um ponto tal que já nada disto é relevante, estando a agenda pública completamente saturada com este caso. Como também já não é, chegados aqui, sequer relevante saber se o PR deve ou não intervir, sendo certo que sobre ele recairá também a responsabilidade de não ter intervindo mais cedo, a tempo. Agora, com o assunto remetido ao parlamento, talvez não deva mesmo intervir, como, aliás, parece ser o que resulta da sua mais recente declaração, deixando que a tensão se resolva nas instâncias próprias, dado tratar-se de política pura e dura, ou seja, da questão do Poder (com P grande). Assim, nada de tudo isso já conta, porque do que se trata é de um confronto brutal entre dois poderes, o do sistema mediático e o poder executivo, entre a opinião e o facto, neste caso, o poder executivo, democraticamente instalado. Num recente artigo, “O Triunfo da Vontade” (link: https://joaodealmeidasantos.com/2026/08/04/19670/ ), falando do poder, chamava a atenção para o que, de acordo com Thomas Babington Macaulay, em An Essay on Frederic the Great, de 1882, Frederico II, o Grande, um dia teria dito”: “O meu povo e eu chegámos a um acordo que satisfaz ambos.  Eles dizem o que querem e ‘I am to do what I please’ ” (New York, Maynard, Merrill & Co., 1893: 46). E traduzi, então, para vernáculo, mas com todo o respeito, as palavras de Frederico II (atribuídas a) através de um famoso ditado popular: “os cães ladram e a caravana passa”. A ocupação obsessiva da agenda mediática com este caso acabou por saturar a própria opinião pública e por suscitar uma compreensível resistência do poder executivo a essa pressão, levando a uma crescente fractura, que seguramente conhecerá um novo patamar qualitativo na próxima terça-feira.

1.

A “vozearia” pública acerca do ministro é tão grande, tão longa e constante, sem que nada de significativo aconteça, que se pode dizer que já estamos perante um duro e sério confronto entre a opinião pública e a vontade (política) de quem detém legitimamente o Poder, neste caso, democrático, a um ponto tal que, qualquer que seja o desfecho (saída ou manutenção) uma das partes sairá significativamente derrotada e com enorme estrondo, humilhada e com consequências políticas devastadoras. O caso vale pelo seu simbolismo, não já pelo seu conteúdo (que parece não oferecer grandes dúvidas). E também não se trata de uma operação do CHEGA, como parece ser cada vez mais a opinião dominante, porque o assunto nasceu, foi e é alimentado pelo sistema mediático, tendo aquele partido, depois, entrado no confronto por clara oportunidade política, intensificando-o e trazendo-o para dentro do sistema de partidos e das instituições políticas. Ou seja, este confronto sem tréguas nem mediações entre o poder comunicacional e o poder executivo chegou já a um ponto de não retorno e a derrota de um ou de outro já significa inapelavelmente uma única coisa: drástica perda de credibilidade, de poder e de legitimidade. Ainda por cima, os dois partidos mainstream (PSD e PS), que representam o sistema, de um modo ou do outro sempre relativizaram o caso, mas o ponto a que se chegou já não lhes permitirá “assobiar para o lado”. Na esfera política, o único partido com representação parlamentar significativa que cavalga a onda mediática com medidas concretas é o CHEGA (CPI e Moção de Censura), contribuindo, deste modo, para levar o sistema de partidos a fechar-se em concha em defesa da autonomia da política, das instituições, da estabilidade governativa e dos seus próprios critérios internos, perante a radicalidade das iniciativas daquele partido, mas não tanto da máquina trituradora do poder mediático. De um ponto de vista lógico, a ruptura chegou longe demais e qualquer que seja a solução ela não será boa para o sistema. A piorar as coisas está a tentativa de desviar o problema para as instâncias judiciais e investigativas (já são cinco os inquéritos), subtraindo o problema à esfera política. Uma decisão tão grave como aquela que foi assumida quando uma questão de natureza judicial ou jurídica (a Spinumviva) foi transferida para a esfera electiva, com os resultados que conhecemos. Essa experiência está agora a pesar como chumbo sobre este caso. E poderá até ter efeitos semelhantes aos que se verificaram com as eleições de 2025.

2.

O CHEGA já entregou uma Moção de Censura no Parlamento a propósito deste caso, obrigando a que todos os partidos tomem posição, o que dará a este partido ocasião para apontar o dedo moral aos que a recusarem por pactuarem com a imoralidade, comummente reconhecida, da manutenção do inacreditável ministro no governo, mas de onde pode, paradoxalmente, resultar um pretexto para Luís Montenegro reafirmar a confiança no ministro, atendendo ao resultado da votação: chumbada institucionalmente a Moção de Censura, assunto resolvido. Tal como aconteceu com o resultado das eleições de 2025. A votação parlamentar poderá acabar por legitimar a presença do ministro no governo, já que a Moção de Censura foi precisamente sobre isso, tendo sido derrotada. Uma vitória do poder instalado e do PM, pois, e a confirmação do seu poder sobre a “vozearia” pública que grita à demissão: digam o que quiserem que eu faço o que quero. Porque sou eu que tenho o poder e a minha decisão acaba de ser legitimada pelo parlamento. Ganhará Montenegro, mas ganhará também Ventura e o CHEGA, podendo doravante exibir uma certa “superioridade moral” (anti-sistema). O grande perdedor será o PS das meias-tintas, que corre sempre atrás do prejuízo, porque está sem capacidade de condicionar a agenda, por antecipação.

3.

Este caso é, pois, mais complexo e denso do que parece (trata-se de uma prova de força do poder político) e até creio que ele deverá ser lido à luz da tendência que hoje parece estar a dominar a política, ou seja, um decisionismo que se afirma, cresce e consolida no meio de uma crescente “vozearia” caótica e politicamente inconsequente que perdeu o poder de condicionar as políticas decididas pelo poder instalado (mesmo que minoritário). É isto que está em cima da mesa: uma guerra sem quartel entre o poder comunicacional e o poder executivo, não uma guerra sem quartel entre o CHEGA e o governo (como muitos já tentam simular). É neste quadro que o PS está condenado a mover-se, acomodado que está, com a liderança de José Luís Carneiro, a gerir uma ideia de política da oportunidade, táctica, da bonomia e de excesso (paralisante) de institucionalismo. Como se a política não pudesse sair dos estreitos limites do institucionalismo e da sua rigidez formal. Pode, sim, e deve. Montenegro parece estar a jogar conscientemente na defensiva e a cavar trincheiras para uma batalha que provavelmente só em 2029 irá travar, tomando em consideração as personalidades políticas quer do actual líder do PS quer do actual PR. Até lá muitas voltas dará a política, mas, ao que parece, para estas voltas o PS não se está a preparar com dinâmicas internas de fundo. E não creio que seja o voluntarismo dos militantes do Instituto Progresso que o irá dinamizar, não provocando sequer um sobressalto que o ponha em movimento. Porque mais parece que estamos perante meros burocratas da política totalmente avessos ao risco e confiantes de que os ciclos da política acabarão por levá-los ao poder. Quando? Para fazerem o quê? O mesmo de sempre, ainda que os tempos tenham mudado tão profundamente?

4.

De tudo isto, o que a lógica parece ditar é que Luís Montenegro retire a evidente consequência do previsto chumbo da Moção de Censura, relegitimando-se, confirmando, assim, o seu inequívoco poder constitucional de ser ele a decidir da manutenção ou não de um ministro (tal como António Costa fez em relação ao pretenso diktat do então PR sobre o ministro João Galamba) e reforçando a sua autoridade. Paradoxalmente, a decisão do CHEGA de apresentar uma Moção de Censura era a chave de que Montenegro precisava para resolver a seu favor (tal como aconteceu, repito, com as eleições de 2025) a decisão de não fazer a vontade aos que queriam (como eu) que o ministro fosse demitido, reforçando o seu poder e a sua autoridade. Mas veremos o que irá acontecer na próxima terça-feira.

JAS@09-2026

 

Artigo

DESAFIOS À ESQUERDA

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2026

TIVEMOS NOTÍCIA da criação de um novo think tank, mais tank do que think, ao que diz o seu líder, chamado Instituto Progresso (IP – curiosa convergência com a sigla do Internet Protocol), com o seguinte mote: “Não queremos apenas pensar o futuro. Queremos ajudar a construí-lo”. De que modo, é o que estamos para ver. Para já, constata-se a generosidade. A iniciativa começou com a publicação de um “Manifesto”, que pouco diz, ou melhor, com umas ideias que podem ser partilhadas pela generalidade das pessoas (para não dizer com umas generalidades) e, como se lê no documento, que estão para além dos “espartilhos ideológicos”, sendo assumidas a partir da evidência e da experiência acumulada da razão, numa perspectiva reformista. De concreto, do ponto de vista temático, nada, por enquanto. Apenas a reivindicação do património iluminista do grande Condorcet e uma sintética descrição dos momentos de desenvolvimento da nossa sociedade e das diversas variáveis que hoje estão em jogo para um desenvolvimento seguro, eficaz e justo. O Instituto como “tubo de ensaio” de uma visão global reformista e progressista para Portugal. Nada mais. Mas já é alguma coisa.

1.

Assim sendo, e ficando a aguardar novos e mais esclarecedores elementos para uma ulterior avaliação, permito-me, a este propósito, retomar o que em outubro de 2023 escrevi a propósito da criação de um outro think tank de esquerda, “Causa Pública” (CP, sigla, esta, menos prometedora), que, entretanto, parece ter-se dissolvido na bruma inelutável do tempo histórico, apesar de ainda existir em forma de site. O que acontecerá com este Instituto não se sabe, sendo, todavia, certo que cada vez mais necessitamos de pensamento político e de acção perante esta fase de degradação da política nacional e mundial. Mas não deixa de ser curioso que se crie, de novo, um movimento quase justaposto politicamente ao PS, quando este partido tem no seu interior um recente Conselho Estratégico (para pensar o futuro tendo como horizonte 2050), um Instituto Jorge Sampaio (antigo Gabinete de Estudos), uma Fundação Res Publica (que não se sabe bem para que serve) e três Revistas, que se sobrepõem em conteúdo: Finisterra, Res Publica e Portugal Socialista. Talvez o líder deste IP, deputado do PS, pudesse liderar um destes organismos e promover pensamento e acção no interior do seu partido. Mas, não tendo acontecido, pôs mãos à obra e lançou este Instituto Progresso. Não deixa, entretanto, de ser curiosa a forma adoptada, Instituto, e o patrono escolhido, o iluminista e liberal Condorcet.

2.

O aparecimento deste novo IP parece-me, assim, suscitar duas questões: ou a sociedade civil (à esquerda) está a ganhar vitalidade política e a gerar formas organizacionais de revitalização, e este Instituto seria resultado disso, ou o PS não está a fazer bem o seu trabalho, sendo, portanto, necessário criar uma alavanca paralela que o possa reanimar. Sim, porque o IP é no essencial uma iniciativa da área PS. Mas não creio que estejam a acontecer duas coisas positivas ao mesmo tempo e em sinergia: a área do PS revitalizada quer partidariamente quer no plano da sociedade civil. Revitalizada ou, então, fracturada, pois muitos reconhecem neste movimento uma mão escondida e o desejo de promover uma alteração interna na classe dirigente do PS. Não sei. O que sei é que esta forma de reorganização não parece ser a melhor, porque, de certo modo, se sobrepõe ao PS e às suas próprias estruturas (com mais uns tantos desalinhados do PSD ou de outras formações mais pequenas), ainda que todas elas preocupantemente adormecidas. Mas não parece ser a melhor também porque não tem a forma de uma enxuta e eficaz plataforma mobilizadora da cidadania, certamente com uma orientação ideal definida, mas minimalista, quer do ponto de vista do conteúdo doutrinário quer organizacional. Criar uma organização para pensar, e com a forma de Instituto, é que me parece ser uma ideia de quem não sabe bem o que é pensar. Quem pense, há muito, neste país. O que falta é uma grande plataforma que possa difundir, organizar, socializar e promover as ideias de quem, com muito estudo e trabalho, pensa bem e na direcção certa (já que o PS não o faz). Ora, não parece ser essa a vocação deste Instituto, logo a começar no nome e na forma organizativa. As grandes plataformas que influenciam e promovem soluções são de outro tipo e limitam-se a ser máquinas simples, mas eficazes, de reprodução social de valores, de ideias, de iniciativas, sem estarem reféns nem de uma forma organizativa excessivamente orgânica e complexa nem do simbolismo de nomes-referência que acabam por funcionar, logo à partida, como filtros e como marcas que, mais do que alargar, restringem. Eu, ao ver ali certos nomes (sobretudo os que andam por todo o lado em busca da publicidade e da oportunidade perdidas) o que me apetece é, logo, distanciar-me do projecto. Estas marcas acabam por produzir sempre uma ressonância limitadora do alcance potencial das organizações. Pelo que já vi e pelos nomes que já circulam (aos quais não me refiro, mas que já são conhecidos pelo que fizeram e pelo que não fizeram) é mesmo disso que se trata. Mas aguardemos até ao dia 17 de Setembro para saber mais.

3.

Entretanto, tendo em consideração o pouco ou nada que se sabe deste novo IP, aparentemente próximo do PS (é dirigido por um deputado do PS, Miguel Costa Matos), julgo ser útil retomar, com oportunos ajustamentos e melhorias, o que escrevi, em 2023, a propósito da criação de um outro think tank de esquerda, a associação “Causa Pública”, sobre o que, então, no seu “Manifesto”, era dito, mas sobretudo omitido. Por que razão o faço? Porque me parece estarmos perante iniciativas parecidas, embora esta até me pareça estar mais condicionada e marcada logo à partida, além de, como a outra, não aproveitar experiências de sucesso que já aconteceram noutros países – Moveon.org., Meetup, Momentum, Club Forza Italia (este de direita), por exemplo.

 4.

Em 2023 foi criada uma associação de reflexão política, de esquerda, designada “Causa Pública”, presidida por Paulo Pedroso e que integrava muitos protagonistas da política nacional, designadamente deputados, ex-deputados e ex-governantes. Em Julho de 2023 fora aprovado o seu Manifesto, onde se identificava: “A Causa Pública é uma associação de cidadãs e cidadãos empenhados na construção de novos caminhos para Portugal”, sendo os seus valores fundamentais “a defesa do bem-comum, a democracia, a igualdade e a sustentabilidade”. Mas notei, de imediato, um significativo esquecimento: o do valor liberdade. E mais: em duas páginas, também notei que não se esqueceram de se referir diferenciadamente, seis vezes, aos dois géneros, o que no actual Manifesto não se verifica, parecendo a atitude ser expressiva, se tomarmos em consideração duas curtas frases que nele surgem: “rejeição de populismos iliberais e de guerras culturais importadas”; e sem “espartilhos ideológicos”.Pelo contrário, no Manifesta da CP, lia-se: “As e os associados da Causa Pública”. O que constituiu boa matéria de reflexão, logo para começar. Mas, na verdade, na altura considerei interessante e útil que se constituísse uma associação de pensamento político estratégico e de esquerda, visto que o pensamento político de esquerda andava, e ainda anda, hoje, muito a reboque (quase exclusivamente) do politicamente correcto e seus derivados. O que se esperava, pois, era que esta associação não fosse mais do mesmo: não enchesse o vazio de ideias com uma enxurrada woke que acalmasse a boa consciência dos paladinos da esquerda utópica e da causa identitária. Disso já tínhamos que chegasse. Até demais. Entretanto, estavam lá alguns deputados do PS, como Pedro Delgado Alves e Isabel Moreira, e até seus ex-governantes, como Alexandra Leitão, o próprio Paulo Pedroso e o meu amigo José Reis, ou mesmo ex-deputados como Miguel Vale de Almeida ou Ana Drago, ex-deputada do BE. Uma amostra significativa que deixava no ar a suspeita de ser mais do mesmo. O Manifesto, todavia, pouco ou nada dizia, mas também não seria possível dizer muito em duas páginas. De qualquer modo, fiz então alguns comentários ao pouco que era dito, ou melhor, sobretudo acerca do que não era dito, até porque, lido criticamente nessa óptica, era possível avaliar de forma mais certeira esta iniciativa. E hoje, “col senno di poi”, como dizem os italianos, o resultado da “Causa Pública” resulta ser literalmente nulo. O que aconteceu depois de 2023 não é, de certeza, culpa dela, longe disso, mas a verdade é que a situação se deteriorou substancialmente, politicamente e idealmente.

5.

Antes de mais, pareceu-me que entre os seus valores fundamentais deveria ter constado a liberdade. Mas não constava. Terá sido lapso? Esquerda sem liberdade é o quê? Esquerda com liberdade é liberal? A verdade é que a liberdade e a igualdade são, em igual medida, os dois valores essenciais da esquerda, e não só, pois já Cícero dizia que “si aequa non est, ne libertas quidem est”, frase de resto retomada por Hans Kelsen em 1929, em Essência e Valor da Democracia. Mas foi o equilíbrio e a harmonia entre eles o que sempre diferenciou a esquerda democrática, por um lado, do neoliberalismo e, por outro, da ortodoxia marxista, da liberdade selvagem e do igualitarismo. Esta falha pareceu-me, pois, grave. Por isso, acreditei que fosse simplesmente um lapso (mas não um lapsus calami, no sentido psicanalítico, verschreiben). Depois, essa insistência em contrariar a vetusta e sexista gramática, diferenciando repetidamente, ou mesmo obsessivamente, os dois géneros, pareceu-me ser um sinal pouco animador. No mínimo, pareceu-me ridícula, e até inestética, a frase já referida: “As e os associados da Causa Pública” (“os associados” já inclui o masculino e o feminino, porque está lá por todos). E todos é todos, todos, todos, como se diz agora, depois da visita do Papa Francisco. Não é todas, todas, todas e todos, todos, todos. Seis vezes… Mas, afinal, ainda lá faltava o neutro.

6.

Depois, a ideia de que “o foco excessivo dos partidos nas suas dinâmicas internas” limita a produção de pensamento também não me pareceu muito certeira, pela seguinte razão: tendo os partidos o monopólio de propositura da representação política nacional e, por consequência, sendo eles que fornecem os principais quadros para a gestão política do país, o foco sobre a sua vida interna deveria ser, não reduzido, mas  intensificado, sobretudo em relação aos seus processos internos de selecção da classe dirigente, que são absolutamente decisivos para a boa gestão política de um país, precisamente da Causa (e da Coisa) Pública. Não é difícil perceber isto. O que, na altura, não compreendi foi que Paulo Pedroso tivesse, entretanto, chegado a anunciar que a associação não queria “interferir no xadrez político”. Mas, então, para que servia a associação se o que determina a Causa (e a Coisa) Pública é precisamente o “xadrez político”? E esta é uma questão que parece não estar também muito bem identificada no actual “Manifesto”, parecendo até, em certas formulações, que o obreiro da mudança será o IP, embora noutras pareça ser simplesmente o agente do debate. Veja-se a seguinte formulação: “Propomos-nos  a (!) agregar uma comunidade de diferentes agentes de progresso em todo o território – cidadãos, instituições políticas e públicas, empresas do setor privado, academia, e sociedade civil – assegurando uma representação plural da realidade portuguesa. Mais do que um think-tank, queremos ser um do-tank. Integrando análise e implementação, trabalharemos com empresas, municípios, escolas, academia e sociedade civil para experimentar, calibrar e validar soluções antes da sua adoção em maior escala”. Adopção por quem? Perante isto, mais parece que querem é ser um partido, em vez de um think tank ou, melhor, de um tank to do. A ver vamos.

7.

Também constatei, no Manifesto da associação “Causa Pública”, que, ao contrário do que acontece com este, não havia uma palavra sobre o mundo digital, que hoje se tornou decisivo em todas as frentes da vida na sociedade actual. E certamente que os subscritores do Manifesto tinham lido o livro da Shoshana Zuboff sobre o chamado “Capitalismo da Vigilância”, de resto, já então publicado em português pela Relógio d’Água. Este tema deveria, pois, ter merecido uma atenção muito especial devido aos efeitos que o digital e a rede vieram produzir sobre a identidade do cidadão na “digital and network society” ou na “algorithmic society”, por exemplo, na sua relação com os processos eleitorais, atendendo às capacidades tecnológicas de determinação preditiva do comportamento eleitoral e ao novo Marketing 4.0, do senhor Philip Kotler. A relevância desta questão é enorme, pois trata-se do processo de acesso democrático ao poder e da sua própria legitimidade. De algo decisivo sobretudo numa democracia eleitoral, no sentido em que a define o V-Dem2026. Basta pensar no Brexit e na eleição do Senhor Trump. E no eficaz uso das TIC pela extrema-direita. O que nos dirá sobre este complexo assunto o IP, fazendo jus à própria sigla, como responderá a este desafio das grandes plataformas perante a sua capacidade de condicionar decisivamente o comportamento político e, consequentemente, os resultados eleitorais e a própria democracia? Em Portugal e na União Europeia?

8.

E pareceu-me até um pouco perturbadora essa vontade da CP “ir além dos caminhos já conhecidos”. Felizmente que neste Manifesto do IP se faz uma inversão de marcha em relação ao que a CP pretendia: “Não esperamos um salto em frente rumo ao desconhecido”. Maior realismo parece, portanto, existir no novo IP. Não seria, pois, necessário tanto, disse eu, na altura, pois a humanidade há séculos ou milénios que procura as melhores formas de autogoverno. Bastaria, mais prosaicamente, centrar-se num bem conhecido caminho, o da democracia representativa, e melhorá-lo, dando resposta à famosa crise da representação no quadro da democracia, fazendo-a evoluir para uma nova qualificação deliberativa. Na verdade, e ao contrário do que vulgarmente se diz, a democracia representativa ainda é muito jovem, por duas razões: a) só depois da segunda guerra mundial ela ficou garantida na sua plenitude (com a expansão do sufrágio universal, embora ainda com a limitação do bipolarismo ideológico, político e económico que se instalou com a formação dos dois blocos; por exemplo, o bloqueamento da democracia italiana durante mais de quarenta anos a isso se deve – a famosa conventio ad excludendum); b) a democracia representativa é um sistema muito exigente e difícil de alcançar porque pressupõe a plena consciência dos cidadãos em todos os planos da vida social como condição para a assunção de uma plena responsabilidade logo no acto do voto – o princípio equivale ao do imperativo categórico kantiano, que se pode ler na Fundamentação da metafísica dos Costumes: age como se a máxima da tua vontade pudesse valer sempre e ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal.

Neste aspecto, não é, pois, preciso inventar, caminhar em direcção ao desconhecido, mas somente desenvolver e aprofundar o princípio no sentido de uma autêntica democracia deliberativa, investindo na qualificação e na intervenção de uma cidadania activa no processo político.

9.

Também não vi naquele Manifesto – como não vejo neste – uma menção relativa a uma questão absolutamente decisiva, mas hoje muito esquecida pela esquerda: quais as fronteiras da acção do Estado perante uma cidadania de múltiplas pertenças e com poderosos e quase ilimitados instrumentos de informação e de intervenção no espaço público? Isto sem necessidade de reescrever, à luz do modelo social europeu, o famoso livro de Wilhelm von Humboldt sobre os limites da acção do Estado (de 1792;1851), considerado uma espécie de bíblia do liberalismo clássico (que tantos da esquerda moderada erradamente execram). Um exemplo: é inaceitável a ideia, que se tem vindo a impor sobretudo em períodos de crise, de um Estado-Caritas que se substitui ao verdadeiro Estado Social. A eficácia do Estado Social é hoje um problema a resolver politicamente, mas não através da prática esmoler, como repetidamente vem sendo praticada no nosso país (as tristemente e reiteradas famosas esmolas conjunturais aos reformados, sempre que sobram uns trocos). Depois, ligada precisamente à definição das fronteiras do Estado, está a política fiscal: quanto maiores forem as competências e a responsabilidade do Estado (tendo chegado ao absurdo de se tornar fiador de todos os que até aos 35 anos comprarem casas, provocando um aumento do seu preço em cerca de 10% num só ano) maior será a carga fiscal. A clarificação desta questão, em todos os sectores nevrálgicos da sociedade (saúde, habitação, educação), mas também no seu próprio alcance, tem, pois, implicações directas e fortes na política fiscal, como se compreende. Uma dialéctica que deveria ser de grande exigência, mas que mais parece em falência. E ainda: quem deverá pagar impostos directos? Todos (ainda que alguns só simbolicamente) ou somente uma parte (em Portugal em cerca de 5 milhões e 400 mil agregados só cerca de 3 milhões pagam IRS)? A valorização do princípio no representation without taxation e do seu inverso (o clássico do séc. XVIII, na América)? Trata-se de questões centrais da política nacional que merecem uma reflexão analítica muito clara, e à esquerda, em vez dos habituais fumos ideológicos e da retórica caritativa e esmoler. Mas a este respeito fico muito tranquilo, pois o IP não se moverá determinado por “espartilhos ideológicos”, seja lá o que for a ideologia para os responsáveis deste think tank, mas sim a partir “da evidência” e da “experiência acumulada da razão”, seja lá o que isso for para o inspirador “philosophe” e autor de Esquisse d’un tableau historique des progrès de l’esprit humain (1795), um tal Marie-Jean-Antoine-Nicolas de Caritat, marquês de Condorcet, iluminista e amigo de Turgot, de d’Alembert e de Voltaire. Um pequeno, mas muito elucidativo e visionário, extracto do “Esquisse”: “Le perfectionnement des lois, des institutions publiques, suite des progrès de ces sciences, n’a-t-il point pour effet de rapprocher, d’identifier l’intérêt commun de chaque homme avec l’intérêt commun de tous?” (Paris, 1879: II, 86: https://dn790006.ca.archive.org/0/items/esquisseduntable00cond/esquisseduntable00cond.pdf). Talvez o mais difícil desafio da esquerda seja, afinal, este: o de conseguir identificar o interesse de cada um com o interesse comum de todos, sem que um se sobreponha ao outro. Depois, o progresso baseado na razão é, para os iluministas, como o grande Condorcet, a libertação do domínio do preconceito. Mas isto, sendo muito, também é demasiadamente pouco. Mas já não é mau ver que este think tank valoriza (ao contrário de uma espécie de ideologia espontânea que campeia no PS) a tradição iluminista, que era a filosofia do liberalismo clássico, através de um seu ilustre e visionário representante. Precisamente Condorcet.

10.

Depois, e a propósito de ambos os Manifestos, também se torna necessário acabar definitivamente com os discursos nebulosos da esquerda acerca da função do mercado e da regulação? E, a ser feita, esta clarificação, ela deve ter consequências. Não se reduzir a um faz-de-conta, para boa consciência do progressismo regulador que nada regula e que só serve para desresponsabilizar a classe política, como se vê em Portugal, com os inúteis reguladores que dão emprego aos amigos políticos. Por exemplo, no preço dos combustíveis, nos juros do capital ou nos preços das telecomunicações, onde se verificam descarados cartéis que todos fingem ignorar. De resto, o problema do mercado cruza-se directamente com a determinação das fronteiras do Estado, sendo certo que o comando administrativo da sociedade ou o Estado mínimo sempre foram combatidos pela esquerda democrática e progressista. Pois bem, compete-lhe então esclarecer onde ficam as fronteiras da intervenção do Estado e as da intervenção do mercado, acabando de vez com a política-catavento, com o Estado-Caritas e a política esmoler. Em palavras simples, cumpre definir com rigor onde começa a responsabilidade individual e onde termina a responsabilidade da comunidade, mas seguramente pondo fim a esse organicismo social desresponsabilizador do indivíduo. E eu, a este propósito, perguntei aos associados da “Causa Pública”, e pergunto agora aos associados do IP, sobre o que pensavam e pensam da frase de John Kennedy, no “Inaugural Address”, em 20.01.1961: “Ask not what your country can do for you – ask what you can do for your country”. De Condorcet a John Kennedy: como se harmoniza o interesse comum de cada ser humano com o interesse comum de todos?

11.

Na mesma linha está a questão da gestão da dívida pública. É aceitável que o Estado se ponha alegremente nas mãos dos credores internacionais (e da banca nacional), a que se junta o domínio total das três famosas agências americanas de rating (que detêm a quase totalidade do mercado mundial de rating, cerca de 95%, e que são controladas pelos especuladores), “borrifando-se”, literalmente, para os recursos financeiros derivados da poupança nacional, dos aforradores nacionais, como aconteceu recentemente com os Certificados de Aforro, ainda por cima por um governo do Partido Socialista? Que justificação se pode encontrar para a decisão do ex-ministro Fernando Medina, em 2023, proibir o aforrador singular de adquirir, através dos CA, mais de 50 mil euros de dívida pública, quando antes (e agora, também, de novo) podia adquirir 250 mil euros? Nenhuma. Ainda menos se pensarmos que 28% dos juros da poupança nacional revertem a favor do Estado (imposto sobre capitais) e que os juros acabam por ser reintroduzidos na economia nacional, ao contrário do que acontece no caso dos credores internacionais (nem uma coisa nem a outra, estando designadamente isentos de imposto). E este é, a meu ver, um ponto muito elucidativo sobre a orientação política global de um governo e de um partido.  Sobretudo à esquerda. Um delicado sensor político. Um assunto muito delicado, se considerarmos a gigantesca dimensão dos juros da dívida pública, do serviço da dívida. Ser amigo do contribuinte que é, ao mesmo tempo, aforrador é coisa que, paradoxalmente, parece não estar nas cabecinhas de certos socialistas encartados. O que pensam disto os associados do IP?

12.

Outra, ainda, é a da eficácia da máquina do Estado (que não seja só para cobrar impostos e taxas) sobre a qual os governos se têm mostrado completamente ausentes, desde que não seja para punir o cidadão. Bastaria perguntar ao MAI quanto recebe por mês do seu Banco “privado”, a ANSR (no mês de Setembro de 2023, esta encaixou cerca de 7 milhões de euros de multas, não tanto para garantir a segurança rodoviária, mas sobretudo para garantir a segurança dos cofres do MAI). A eficiência do Estado, sobretudo quando estamos perante um robusto Estado Social, é um pilar essencial da democracia representativa e dos direitos dos cidadãos. Só ela pode justificar a enorme carga fiscal que pende sobre os ombros da cidadania. Não pode é ser uma espécie de Estado sniper financeiro, que se junta a um Estado cobrador, mau prestador de serviços e amigo de mãos largas dos oligopólios.

13.

Depois, a questão da mobilização da cidadania para além do quadro partidário, à semelhança do que acontece com as grandes plataformas digitais, como a MoveOn.Org. ou a Meetup, por exemplo. Nos Estados Unidos, aquela primeira plataforma foi muito importante para a eleição de Barack Obama, para a defesa do Obamacare ou para os resultados apreciáveis de Bernie Sanders nas primárias democratas. Em Itália, a plataforma Meetup (que, julgo, apareceu em 2003-2004 nos Estados Unidos, com Howard Dean, líder e candidato democrata) deu origem ao MoVimento5Stelle, que chegou a ser o partido maioritário em Itália, sendo hoje o terceiro partido. As insuficiências da democracia representativa e dos sistemas de partido não só se resolvem, certamente, “por dentro” como também se resolvem “por fora”, ou seja, promovendo canais de intervenção da cidadania fora do quadro tradicional da intermediação política e comunicacional. E a associação “Causa Pública” bem poderia ter tido a pretensão de se constituir como uma plataforma de pensamento e acção política complementar ao sistema de partidos. Mas para isso não deveria inibir-se de “interferir no xadrez político”, tornando-se politicamente inconsequente. Pelo contrário, uma intervenção competente poderia ter ajudado o PS a ultrapassar essas formas morbosas de endogamia e de fractura em relação à sociedade civil. Poucos meses depois de ter sido constituída deu-se a queda do governo do PS e o início do processo que haveria de levar o PSD ao poder. Não sei até que ponto essa situação contribuiu para a desactivação da CP, mas o que é certo é que o resultado está à vista: desapareceu sem qualquer resultado visível, precisamente quando seria mais necessária. E esta? Vai-lhe acontecer o mesmo fim? Talvez, visto o tipo de perfil (Instituto) que assume, como já tive ocasião de dizer, ou se for uma tentativa de uma ala do PS, telecomandada, pretender substituir-se ao actual grupo que dirige o partido. A ser assim, quase se poderia aplicar o velho ditado popular: “fazer (antes) o mal e (agora) a caramunha”. Em ambos os casos, tenho sérias dúvidas sobre o seu futuro. E até me parece que pode causar um forte desconforto no PS, ao evidenciar, com estrondo, a falta de iniciativa ou a insuficiência desse mesmo PS que criou um estranho Conselho Estratégico para se pensar com os olhos postos em 2050. Tentativas vai havendo, é certo, mas resultados nenhuns.

14.

E, já agora, também não teria sido descabido que, há três anos, a CP tivesse deixado registada uma palavra sobre a União Europeia e o seu futuro – por exemplo, acerca da manutenção da linha intergovernamental ou da sua constitucionalização -, hoje componente decisiva das próprias políticas nacionais dos Estados-Membros e tão importante como desejável reguladora da política internacional, cada vez mais influenciada por potências autoritárias e belicosas, onde cada vez mais o autoritarismo de Donald Trump, amigo confesso de Putin e de Kim Jong-Un, faz estragos de grandes dimensões. Mas também uma protagonista política que tem muito a fazer para se dotar de instrumentos que a autonomizem como sujeito político, e não só no plano da defesa, mas também no plano das tecnologias digitais e do rating financeiro, ambas dimensões de uma importância crucial para o futuro da União e até para salvaguarda do seu próprio sistema democrático. Preocupar-se-á, agora, o IP com estas questões e tentará influenciar, se for essa a sua vocação, o PS a ser mais interveniente e criativo nesta área da política europeia? Lembro-me bem das passeatas turísticas que algumas eurodeputadas do PS faziam, em vez de se preocuparem em promover, com o seu contributo, a qualificação política da União. Uma delas parece agora ir presidir à mesa da assembleia do novo IP.

15.

Poderia continuar, mas não é o caso, para me ater a uma dimensão equivalente à dos dois Manifestos. Outras oportunidades haverá, já com mais informação. Na verdade, a CP pouco ou nada acrescentou, a não ser a confirmação de genéricos e estereotípicos temas e da habitual linguagem politicamente correcta. E este IP? Na verdade, o que eu vi ali, na CP, foram sinais de uma orientação que mais parecia estar subordinada excessivamente a esse ambiente tóxico do politicamente correcto e seus derivados. A presença de certos personagens não dava lugar a dúvidas. Como, de resto, também neste IP. Oxalá me engane. Mas – pergunta obrigatória – o que disse o PS, há três anos, quando nasceu a CP? Nada. Manteve um prudente silêncio como se essa fosse a melhor política para fazer política? Não teria sido tarefa inútil, e nem sequer difícil, ter visto com muita atenção o perfil dos personagens que subscreveram o Manifesto e que integravam essa associação. Essa verificação fi-la, mas não quis pronunciar-me sobre eles. Fiquei-me pelas ideias, que aqui revisitei, e pelo não dito do Manifesto. O resultado é hoje conhecido. Será preciso ver de perto o que também irá acontecer com mais esta lufada de ar progressista sobre esse ambiente doutrinariamente um pouco incerto que se vive no interior do PS. O líder, José Luís Carneiro, já disse umas tímidas palavras de circunstância. Mas, como disse, há nesta iniciativa do ponto de vista da sua relação com o PS algo que me parece estranho. Pelo menos, a sobreposição do IP ao Conselho Estratégico do PS. Muito gostaria eu de ouvir algumas palavras (que não fossem de circunstância ou de pura hipocrisia política) sobre este assunto a Augusto Santos Silva, o coordenador desse Conselho, sempre tão pronto a malhar em alguém (e não só na direita).

16.

Hoje, em 2026, perante o aparecimento deste novo think tank, o meu desafio é equivalente ao de 2023: venham daí boas propostas, estabeleçam uma relação produtiva com o PS, ajudando-o a crescer, designadamente com o Conselho Estratégico, de Santos Silva, com a Res Publica, de Silva Pereira e Vieira da Silva, e com o Instituto Jorge Sampaio, não sei de quem, para fazer o que, ao que parece, estas estruturas do PS não estão mesmo a fazer. O que se espera é que este Instituto Progresso não seja uma mera rampa de lançamento, para voos mais altos, dos seus protagonistas no partido de que são ilustres militantes, confirmando, assim, infelizmente e mais uma vez, uma tendência de que o PS se deve urgentemente livrar: ser uma enorme federação de interesses pessoais e de grupo. O partido merece melhor e o país também.

JAS@O9-2026

 

Ensaio

O VAZIO QUE ESCREVE

ANÁLISE DO POEMA «MISTÉRIO» 
[Perfil de Musa],
de João de Almeida Santos

André Moshe Veríssimo, PhD

“Perfil de Musa” – JAS 2023

EPÍGRAFE
A poesia não é o relato 
de um encontro amoroso real, 
mas a arquitectura construída 
sobre a sua impossibilidade.

Nota de trabalho sobre «Mistério»

Beatrice appeared to me dressed 
in the noblest colour, humble 
and modest, with a white veil.

Dante Alighieri, Vita Nuova (c. 1293)

O mistério não é o que está 
para além do visível: 
é o visível enquanto se dá 
como inesgotável.

Maurice Merleau-Ponty, Le visible et l’invisible

RESUMO

O PRESENTE ENSAIO analisa o poema «Mistério» — também circulante sob o índice pictórico Perfil de Musa (JAS, 2023–2026) —, de João de Almeida Santos, no interior da tradição do lirismo amoroso ocidental. O texto articula desejo, memória e imaterialidade do objecto amado através de um diálogo estruturante entre o poeta e o seu interlocutor, o «Amigo da Guarda». Conclui-se que o poema não nasce da abundância da figura amada, mas da sua absoluta falta: a musa é projecção gerada pelo próprio acto de escrever.

Palavras-chave – João de Almeida Santos; lírica amorosa; musa; janela; Stil Novo; fenomenologia da percepção; metapoesia; cantigas de amigo; Beatriz; Laura.

Abstract – This essay examines João de Almeida Santos’s poem “Mistério” [Profile of a Muse] within the Western tradition of amorous lyric. Through the dual methodology ADP (Polysemic Deconstructive Analysis) and FPX (Phenomenology of Perception and Exegesis), the reading traces a constitutive tension between the visible street and the invisible interior, showing that the poem is an architecture built upon the impossibility of encounter.

SUMÁRIO
Introdução — o Poema 
como Liturgia da Ausência

Há poemas que narram um encontro e há poemas que instituem, no próprio tecido verbal, a impossibilidade desse encontro. «Mistério», de João de Almeida Santos (doravante JAS), pertence à segunda família — aquela em que a lírica não descreve o amor, mas o substitui. Publicado no ciclo Poesia-Pintura e associado à prancha Perfil de Musa (JAS, 2023), o texto integra um corpus mais amplo em que o autor — poeta e pintor — reconduz reiteradamente a figura feminina ao estatuto de arché da escrita: fonte, recusa, silêncio, perfil (Santos, 2023/2026; Veríssimo, 2026a, 2026b). O poema organiza-se como diálogo. De um lado, o «Amigo da Guarda», instância de comentário ético-estético que acusa o poeta de «abusar da musa»; do outro, o sujeito lírico, que aceita a acusação apenas para a esvaziar. Entre os dois polos desloca-se um terceiro termo — a mulher que «passa sempre, / cada dia, / na minha rua» —, cuja passagem nunca se confirma no espaço empírico. A rua, a janela e o andar apressado funcionam como décor de uma cena que, no decurso do texto, se revela interior: «Vejo o mistério / passar / […] / Mas é lá, / dentro de mim». O visível é pretexto; o invisível é o lugar da obra. Esta introdução não pretende antecipar as conclusões dos capítulos seguintes, mas fixar três teses de trabalho. Primeira: «Mistério» dialoga de modo explícito com a estrutura das cantigas de amigo e de amor da tradição galego-portuguesa, na qual o confidente (o amigo, a madre, as donzelas) serve de espelho à coita amorosa (Tavani, 2002; Oliveira, 1992). Segunda: a musa inalcançável que atravessa a via pública reencena o mito da donna angelicata — Beatriz em Dante, Laura em Petrarca —, convertendo a visão ocasional em liturgia profana (Alighieri, 1293/1995; Petrarca, 1336–1374/1996; De Sanctis, 1870/1959). Terceira: o fecho do poema («é jogo de fantasia / de quem musa / já não tem») opera uma inversão metapoética que retira à musa qualquer subsistência extratextual e a reconduz à economia da escrita. A poesia, aqui, não é abundância: é administração da falta. O ensaio segue a ordem das lentes anunciadas no título, sem pretender que cada lente seja estanque. A semântica da «janela» reaparece na fenomenologia da percepção; o verbo «abusar» reaparece na clínica da sublimação; o «Amigo da Guarda» reaparece na exegese das cantigas. A metodologia ADP e o quadro FPX, apresentados no capítulo seguinte, visam precisamente impedir que a análise se disperse em glossas impressionistas. O texto é o horizonte primeiro de inteligibilidade — princípio que o close readinganglo-saxónico partilha com a hermenêutica da imanência (Auerbach, 1946/2007; Ricoeur, 1969/1978; Candido, 1993).

Duas observações de método quanto ao objecto. Em primeiro lugar, JAS cultiva uma prática de ut pictura poesis contemporânea: o poema e a prancha não ilustram um ao outro; co-produzem um mesmo perfil. A análise privileia o texto verbal, mas não ignora que o título pictórico Perfil de Musa já contém uma tese: o que se dá a ver não é o rosto de face, é o corte, a linha, a silhueta — isto é, a forma da recusa. Em segundo lugar, o ciclo da musa em JAS (poemas como «Musa», «Pergunta o poeta à musa», «O poeta e a musa», «Confissão») constitui um sistema. «Mistério» é, nesse sistema, o poema em que o sistema se confessa como tal: o momento em que a escrita admite que a musa «já não tem» existência fora do jogo.

Protocolo de leitura

O protocolo concreto foi o seguinte. (1) Transcrição integral e segmentação estrófica, com atenção às maiúsculas de ataque — marca gráfica recorrente em JAS, que transforma cada bloco num incipit oracular. (2) Levantamento de frequências e de recorrências (janela, musa, passar, olhar, mistério, nome, abuso). (3) Construção de um quadrado semiótico mínimo: presença / ausência; visível / invisível; abuso / inocência; nome / anonimato. (4) Confrontação com o ciclo da musa no corpus JAS e com os tropos da lírica ocidental. (5) Redução fenomenológica da cena da janela: o que permanece quando se põe entre parênteses a tese do mundo objectivo? (6) Interpretação clínico-hermética da recusa («se a chamar… / ela não vem») como economia psíquica da criação. (7) Síntese metapoética.

A dimensão «clínico-hermética» não diagnostica o autor. Diagnostica o ethos do sujeito lírico enquanto figura textual. A hermética, por seu turno, não evoca aqui um esoterismo de seita; evoca o sentido antigo de hermeneuein — interpretar o que se oculta — e o sentido moderno de uma escrita que protege o objecto amado pela distância contemplativa (Blanchot, 1955/2011; Freud, 1908/1976). A clínica e a hermética encontram-se no mesmo ponto: a poesia como dispositivo que organiza o caos do desejo não correspondido.

O texto: transcrição de «Mistério»

Reproduz-se o poema na disposição fornecida pelo autor, a fim de que a análise subsequente possa remeter para o texto sem mediações. A pontuação, as maiúsculas de bloco e os pontos de suspensão são parte do sistema rítmico e não devem ser «normalizados».

POEMA – «MISTÉRIO»
LINK:  https://joaodealmeidasantos.com/2026/08/29/poesia-pintura-324/

 ANÁLISE SEMÉMICA 
E CRIPTOGRÁFICA LINGUÍSTICA

O poema opera numa tensão semântica constante entre o visível e o invisível. Do lado do visível: a rua, a janela física, o andar apressado, o perfil. Do lado do invisível: o olhar, a memória, o mistério interior, o nome esquecido. A ADP começa por recusar a tentação de tratar esta oposição como simples alegoria (o mundo de fora = aparência; o mundo de dentro = verdade). O texto não substitui um polo pelo outro: faz os dois coexistirem até que o segundo revele ter sido, desde o início, a condição do primeiro.

Semiótica da janela

A palavra «janela» sofre uma transposição metafórica contínua. Inicialmente, representa um ponto de observação empírico: «à janela / a ver passar». A janela é, neste primeiro estado, um dispositivo óptico — um frame que recorta o fluxo da rua e transforma o acaso da passagem em cena. A tradição pictórica ocidental conhece bem este dispositivo: a janela albertiana como «janela aberta sobre a história» (Alberti, 1435/2011); a janela romântica como limiar da subjectividade (Starobinski, 1970/1999). JAS herda ambos os usos e desvia-os.

No quarto bloco, a transposição torna-se explícita e, ao mesmo tempo, criptográfica: «MAS A JANELA, / Oh, a janela, / (Isso, o meu Amigo / Não vê?) / É sempre a do olhar / Que é a porta / Da alma». Três operações simultâneas. Primeira, a anáfora emotiva («Oh, a janela») ritualiza o lexema, convertendo-o de objecto em invocação. Segunda, o parêntese acusa o interlocutor de cegueira — o Amigo vê a janela de pedra e não vê a janela do olhar. Terceira, a cadeia metafórica janela → olhar → porta da alma reactiva o topos clássico dos olhos como janelas da alma, mas inverte-lhe o sentido: não é o interior da musa que se oferece pelos seus olhos; é o interior do poeta que se oferece pela sua janela-olhar. Quem se expõe não é ela; é ele.

A janela actua, portanto, como interface liminar entre a percepção sensorial exterior e o espaço hermético interior. Liminar, e não mera fronteira: na janela habita-se o umbral. Pode-se «entrar» nela («Porque nela posso / Entrar»), o que seria absurdo se a janela fosse apenas vidro. A entrada é iniciação. O poeta não olha através; olha para dentro do próprio olhar. A cripta linguística consiste nisto: o mesmo vocábulo designa, sem aviso morfológico, dois referentes incompatíveis. A leitura ingénua permanece na rua; a leitura criptográfica descobre que a rua já era memória.

O duplo sentido de «abusa»

O verbo «abusar» é desconstruído ao longo do poema. Na boca do Amigo, o abuso é ético-estilístico: o poeta desgasta a musa enquanto recurso («Não a deixas / Repousar»). A musa é pensada como trabalhadora da inspiração, sujeito de direitos, presença manipulável. O tom «grave e muito sério» parodia a gravidade do crítico que protege a figura feminina contra a voracidade do escritor — um topos que a modernidade conhece bem, da musa explorada à musa museificada. O poeta aceita primeiro a acusação («Que sim»), mas desloca-lhe o objecto. O abuso, se o há, não é exercício de poder sobre uma mulher real; é «jogo de fantasia». A última estrofe anula o processo: «Por isso, / Não abuso dela, / É jogo de fantasia / De quem musa / Já não tem». A lógica é rigorosa. Só se abusa do que existe e do que se pode convocar. Se a musa «já não tem» existência disponível, o abuso é categoria vazia. A acusação cai por falta de objecto. Derrida diria que o poema desconstrói a metafísica da presença da musa: o significante «musa» sobrevive à ausência da coisa (Derrida, 1967/1991). Há, contudo, um resto. O poeta admite «É assim / Que abuso dela, / A olhar / Dessa janela, / Mas sem sequer / A chamar?». O ponto de interrogação é decisivo. O abuso residual não é o chamado (que não ocorre), é o olhar. Olhar sem chamar: eis a fórmula do voyeurismo contemplativo, sobre a qual se voltará no capítulo 7. Por agora, interessa o trabalho linguístico: «abusar» passa de verbo transitivo com objecto externo a verbo reflexivo da própria escrita. Abusa-se da musa como se abusa de uma metáfora — até ela confessar que era só metáfora.

A ausência do nome

O Amigo pergunta: «Como se chama / A musa?». A pergunta é a pergunta do realismo: quer um referente, um estado civil, uma ficha. O poeta responde com uma série de concessões e de recuos: ela tem nome; ele não sabe que nome usa; não se lembra do nome; não a chama; se a chamar, ela não vem. A gradação é um dispositivo retórico de rarefacção. Cada verso retira uma camada de determinabilidade ao signo. No termo, o nome existe in absentia — «Mas que tem nome, / Ela tem» — precisamente para que a sua falta seja sentida como falta e não como vazio originário. A musa não é anónima por pobreza; é anónima por excesso. Sem nome próprio, o signo «musa» permanece aberto, incodificável e, por isso, universal.

A tradição lírica conhece este gesto. Laura é nome e, ao mesmo tempo, lauro, louro, vento, ouro — um nome que se desfaz em paronomásias (Petrarca, 1336–1374/1996; Contini, 1970). Beatriz é nome e beatitude (Alighieri, 1293/1995). Cesário Verde, inversamente, satura os seus poemas de nomes de rua e de ofício para melhor fazer sentir o que neles não cabe (Verde, 1887/1992). JAS escolhe a via da omissão: o nome é afirmado e logo retirado, como um véu que se levanta apenas para mostrar que por baixo há outro véu. A criptografia do nome é, assim, o mecanismo linguístico que transforma a mulher concreta em arquétipo sem a denunciar como alegoria. O arquétipo, aqui, não precede a mulher: produz-se no esquecimento do nome.

Isotopias e quadrado semiótico

Podem isolar-se quatro isotopias dominantes. Isotopia do trânsito: passar, rua, andar apressado, filme que não tem fim. Isotopia do umbral: janela, porta, entrar, olhar. Isotopia do rito: liturgia, refrigério, cantar, castigo. Isotopia da falta: não sei, não lembro, não chamo, não vem, já não tem. O quadrado semiótico mínimo opõe presença a ausência e, no eixo contrário, a acusação de abuso à declaração de inocência. O poema percorre o quadrado até ao vértice em que a ausência se torna produtiva: é porque ela não vem que o jogo de fantasia se justifica. A falta não é resto; é motor.

A palavra «mistério» ocupa o centro deste dispositivo. No discurso do Amigo, o mistério «vive lá / Dentro dela» — é propriedade da mulher vista. No discurso do poeta, o mistério passa «dentro de mim». A deslocação do advérbio de lugar é a operação semémica mais importante do texto. O mistério muda de morada. De objecto interior dela passa a filme interior dele. A cripta está nesta mudança de domicílio: o mesmo significante, duas ontologias.

LEITURA FENOMENOLÓGICA E PSICOLÓGICA

Sob a perspectiva da fenomenologia da percepção, a visão da musa não se dá no espaço objectivo da rua, mas na intencionalidade da consciência do sujeito (Merleau-Ponty, 1945/1999). A redução FPX consiste em suspender a tese ingénua — «há uma mulher que passa todos os dias na rua do poeta» — e interrogar o modo de doação do fenómeno. O que se dá? Um perfil. Quando se dá? «Quando me passa / Na memória / Um filme / Que não tem fim». Onde se dá? «Lá, / Dentro de mim».

A musa intramundana e a musa interiorizada

O poema esclarece explicitamente a distinção. Há uma musa intramundana, a da rua, aquela que o Amigo julga ver quando ouve o poeta. E há uma musa interiorizada, a do filme mnemónico. A segunda não é cópia da primeira. É a condição de possibilidade da primeira. Sem o filme que não tem fim, a passagem na rua seria um facto indiferente, um recorte de movimento urbano. O «apressado andar» só se torna perfil de musa porque a consciência já está à janela — e a janela, como se viu, é o olhar.

Merleau-Ponty ensina que o visível é sempre visível de um corpo, segundo um estilo de visão (Merleau-Ponty, 1964/2014). O estilo de visão deste sujeito lírico é o perfil: nunca a face, nunca o corpo de frente, nunca o encontro. O perfil é a forma perceptiva da recusa. Ver de perfil é aceitar que o outro se dá apenas como passagem, nunca como paragem. A fenomenologia do perfil é, por isso, uma ética da distância. O poeta não quer possuir o visto; quer permanecer na posição de quem vê passar. A epoché voluntária do chamado («sem sequer / A chamar») protege o fenómeno contra a sua consumação. Se ela parasse, se respondesse ao nome, o mistério cairia no facto. O filme teria fim.

O filme que não tem fim

A metáfora cinematográfica — «um filme / que não tem fim» — introduz uma temporalidade específica. Não é a duréebergsoniana do fluxo puro, nem o tempo circular do mito, nem o tempo escatológico da espera messiânica. É o tempo da projecção repetida: a mesma sequência, sempre de novo, sem The End. A memória, aqui, não arquiva; projecta. Distingue-se da recordação voluntária de Proust, que busca o tempo perdido para o transfigurar em obra (Proust, 1913–1927/1987). Em JAS, a obra é o próprio loop. O poema não salva o passado; instala a passagem como regime permanente da consciência.

Psicologicamente, este regime aproxima-se da ruminação e, ao mesmo tempo, distingue-se dela. A ruminação padece; o filme poético forma. A diferença está no quadro — na janela, no bloco maiúsculo, no diálogo com o Amigo. A forma é o que impede que a memória se torne puro sintoma. Ricoeur chamaria a isto o trabalho da mise en intrigue: a configuração narrativa (mesmo quando a narrativa é a de um filme sem fim) que torna a experiência transmissível (Ricoeur, 1983/1994). O Amigo da Guarda é, neste sentido, o primeiro espectador do filme. Sem ele, o loop permaneceria mudo.

A recusa como acontecimento perceptivo

«É aí que vejo / A musa / E é aí / Que me recusa». O mesmo lugar — o interior mnemónico — é o lugar da visão e o lugar da recusa. A recusa não sobrevém à visão; é o modo da visão. Ver a musa é ser por ela recusado. A fórmula é quase lacaniana: o objecto do desejo constitui-se como objecto perdido (Lacan, 1966/1998). Mas o poema não precisa da metapsicologia para o dizer. Diz o que a percepção, deixada a si, já sabe: o perfil que passa não se deixa deter pelo olhar que o constitui. A consciência intencional encontra o seu limite no próprio êxito. Conseguiu ver; por isso foi recusada.

DIMENSÃO CLÍNICO-HERMÉTICA

O processo de criação poética surge, neste texto, como sublimação da solidão e do luto do objecto amado. Sublimação, no sentido freudiano mínimo: derivação da pulsão para um alvo socialmente partilhável — o poema, o canto, a prancha (Freud, 1908/1976, 1910/1976). Hermética, no sentido de uma escrita que reserva, que não entrega o nome, que protege o objecto pela distância. A clínica e a hermética não se contradizem: a reserva é a forma madura da pulsão quando esta aceita não se consumar.

Convocação e certeza da recusa

O poeta vive a contradição entre o desejo de convocação e a certeza da recusa: «se a chamar… / ela não vem». Os pontos de suspensão — «Mas se a chamar… / ………… / Ela não vem» — são o lugar gráfico da hesitação clínica. O chamado é imaginado, ensaiado, deixado em suspenso, e só depois desmentido. A linha de pontos funciona como tempo de uma sessão: o silêncio entre a associação e o seu limite. Chamar seria atravessar o umbral da fantasia em direcção ao teste de realidade. O poema recusa esse teste. Prefere a certeza da ausência à probabilidade da decepção. Esta economia é conhecida da lírica ocidental. O amor cortês institui a dama como inalcançável para que o canto possa durar (Nelli, 1963; Rougemont, 1939/2003). O fin’amor não falha o encontro: organiza-se para que o encontro não ocorra. JAS herda esta estrutura e seculariza-a. Já não há senhorio feudal nem teologia da dama. Há uma rua, um perfil, um amigo que comenta. O dispositivo, porém, é o mesmo: a distância é a condição do canto. Se ela viesse, o poema acabaria — não por felicidade, mas por desemprego da forma.

Liturgia e refrigério

O Amigo chama ao hábito do poeta «liturgia» e «refrigério». As duas palavras merecem ser tomadas a sério. Liturgia: obra pública, rito reiterado, serviço. O poeta não improvisa a visão; celebra-a. Cada dia, a mesma janela, o mesmo passar, o mesmo perfil. A repetição não é pobreza inventiva; é ofício. Refrigério: alívio, frescura, descanso do calor. A poesia actua como catarse que organiza o caos do desejo não correspondido ou inalcançável, protegendo a psique através da distância contemplativa. Aristóteles situava a catarse na tragédia (Aristóteles, c. 335 a.C./2008); aqui ela migra para o lírico quotidiano. O refrigério não cura a falta; torna-a habitável.

Há uma nota de humor na gravidade do Amigo — «em tom grave / e muito sério» — que impede a leitura de se tornar patética. O diálogo protege o sujeito lírico contra o monólogo da queixa. A clínica do poema é, também, uma clínica da amizade: alguém vê o poeta cantar e pensa que é «castigo» vê-la passar. O Amigo humaniza o rito. Sem ele, a liturgia seria onanismo da forma; com ele, torna-se conversa, isto é, mundo partilhado.

O luto que não conclui

«De quem musa / já não tem»: a fórmula final admite um luto. Houve musa; já não há. O tempo verbal é o da perda consumada. Contudo, o poema inteiro desmente a consumação, porque a musa continua a passar, a recusar, a viver «lá dentro». Estamos perante o que Freud descreveu como a dificuldade do trabalho de luto quando o objecto é reinstalado no eu (Freud, 1917/1976). A introjecção, aqui, não é patológica no sentido clínico corrente; é o próprio modo de produção da obra. O objecto perdido é conservado como filme. O luto não conclui porque a conclusão extinguiria a fonte. A hermética desta recusa a concluir é ética: há perdas que se honram não resolvendo-as. No ciclo mais amplo de JAS, esta economia reaparece. Em «Musa», o sujeito declara ter perdido o rasto do corpo e conservado o mistério que lhe alimenta o estro (Santos, 2026; Veríssimo, 2026b). Em «O Beijo», o beijo não dado torna-se forma (Veríssimo, 2026a). «Mistério» é o poema em que essa economia se teoriza a si mesma, ainda que sob a máscara do diálogo. A clínica da obra JAS poderia resumir-se assim: a ausência é o ateliê.

HERMENÊUTICA HISTÓRICO-EXEGÉTICA 
DA LÍRICA MULTISSECULAR

O texto dialoga directamente com tropos fundamentais da lírica amorosa ocidental. A exegese FPX não inventaria fontes para provar erudição; mostra como formas antigas continuam a trabalhar num poema de 2023–2026. A tradição não está «atrás» do texto; está no seu interior, como memória de formas.

O Amigo da Guarda e as cantigas

A presença do «Amigo da Guarda» evoca a estrutura das cantigas de amigo e de amor medievais galego-portuguesas, onde a figura do confessor ou interlocutor serve de espelho e testemunha da coita (Tavani, 2002; Oliveira, 1992; Lang, 1894/1970). Nas cantigas de amigo, a donzela fala às amigas ou à madre; nas de amor, o trovador expõe ao público — e, por vezes, a um confidente — o serviço da dama. JAS cruza os dois géneros. O sujeito é masculino, como no amor; o tom de queixa íntima e o dispositivo do diálogo aproximam-se do amigo. O topónimo «da Guarda» ancora o interlocutor numa geografia concreta da Beira, retirando-lhe a abstracção do «leitor» e devolvendo-lhe o corpo de uma amizade real. A Guarda, cidade alta, é também metáfora discreta: o amigo guarda, vigia, comenta, protege o poeta contra o seu próprio excesso.

A função medieval do interlocutor era garantir que a coita não permanecesse idiolecto. O sofrimento tornava-se canto porque havia quem o escutasse no interior do próprio texto. O Amigo de JAS cumpre essa função e acrescenta-lhe uma função moderna: a da crítica. Ele não se limita a lastimar com o poeta; acusa-o. O diálogo lírico torna-se, assim, também diálogo meta-estético. A cantiga absorve o ensaio.

Amor cortês, Stil Novo, 
Beatriz e Laura

A musa inalcançável que passa na rua reencena o mito de Beatriz e de Laura. Na Vita Nuova, Dante vê Beatriz vestida de nobre cor, e essa visão inaugura uma vida nova cuja matéria é o próprio ver (Alighieri, 1293/1995; Singleton, 1958). Em Petrarca, Laura atravessa Avignon e o tempo do Canzoniere como aparição reiterada, morta e reencontrada, nome e louro (Petrarca, 1336–1374/1996; Santagata, 1992). A passagem da amada na via pública é a aparição da donna angelicata, uma liturgia profana que transforma a visão num acto de elevação espiritual. JAS conserva a estrutura — a rua, o passar, o olhar, a recusa — e retira-lhe a teologia. Não há Paradiso no termo do perfil. Há um filme sem fim e um jogo de fantasia. O dolce stil novo ensinava que o amor é intelecto de amor, louvor da mulher angelical, refinamento do coração (Guinizelli; Cavalcanti; Dante). O poema de JAS conhece esse refinamento e desconfia dele. A musa não ensina virtude; recusa. O poeta não se eleva; interioriza. A herança stilnovista sobrevive no léxico da liturgia e da alma, mas o movimento da alma não é ascensional: é regressivo, em direcção à memória. Se há beatitude, é a beatitude ambígua de quem pode entrar na janela do olhar e lá permanecer, recusado e salvo.

Camões, Cesário, Pessoa 
A rua portuguesa

A lírica portuguesa oferece três mediações indispensáveis. Em Camões, a amada é frequentemente vista, perdida, cantada na ausência; o amor é experiência de naufrágio e de permanência da imagem (Camões, 1595/2005; Sena, 1980). Em Cesário Verde, a rua lisboeta torna-se o grande teatro do olhar moderno: o flâneur doente vê passar ofícios, corpos, luzes, e o poema regista o choque perceptivo (Verde, 1887/1992; Lopes, 1987). Em Pessoa, sobretudo no ortónimo e em Campos, a visão do outro é sempre visão de um eu que se desmultiplica; a amada, quando existe, é pretexto de desassossego (Pessoa, 1990; Lopes, 1990).

JAS situa-se depois destes três. Da rua de Cesário guarda o «passar» como acontecimento urbano; de Camões, a fidelidade à imagem na ausência; de Pessoa, a consciência de que o eu que vê é já um eu escrito. Mas recusa a fragmentação heteronímica e o documentarismo realista. A sua rua é quase anónima — «a minha rua» — e o seu eu é um eu de ofício: o poeta que se põe à janela. O comparatismo com Pessoa, já ensaiado a propósito de «Musa» (Veríssimo, 2026b), confirma-se aqui com uma diferença: em «Mistério» o fingimento é confessado no fecho («jogo de fantasia»), ao passo que em Pessoa o fingimento é lei geral da arte. JAS particulariza. Não é tudo fingimento; é este jogo, desta musa que já não tem.

A dimensão mítico-erótica

O erotismo do poema não é corpóreo, mas contemplativo e voyeurístico no sentido platónico — não no sentido policial do termo. O prazer reside na observação do perfil, na suspensão do toque e na permanência do mistério. Platão, no Fedro e no Banquete, descreve a escada do desejo que sobe do belo corpo ao belo em si (Platão, c. 370 a.C./1980). JAS detém-se num degrau intermédio, que é talvez o mais honesto: o perfil. Nem corpo possuído, nem ideia pura. O mistério «vive lá dentro dela», mas simultaneamente «dentro de mim», fundindo o observador e o objecto observado. Esta fusão não é êxtase místico; é a estrutura da percepção segundo Merleau-Ponty: o vidente e o visível entrelaçados na carne do mundo (Merleau-Ponty, 1964/2014). O voyeurismo contemplativo distingue-se do voyeurismo possessivo porque não visa o desnudamento. O perfil é o contrário do nu: é a forma que se reserva. Bataille associava o erotismo à transgressão e à continuidade perdida (Bataille, 1957/1988). Em «Mistério», a transgressão é mínima e toda ela verbal — o abuso de que o Amigo acusa o poeta. A continuidade perdida não se procura no êxtase; procura-se no filme sem fim. O mito erótico do poema é, por isso, um mito da continência. Erato, musa da lírica amorosa, é invocada sem o ser: o nome da musa particular cala-se para que o ofício da musa universal continue.

O VAZIO DA MUSA E A METAPOESIA

A estrofe final desconstrói a premissa inicial do poema. O que começara como querela sobre o abuso de uma presença termina como confissão de uma ausência constitutiva:

Por isso, / não abuso dela, / é jogo de fantasia / de quem musa / já não tem.

O poema revela-se, assim, uma obra metapoética. A escrita não nasce da abundância da musa, mas da sua absoluta falta. A musa é uma projecção gerada pelo próprio acto de escrever; a poesia não é o relato de um encontro amoroso real, mas a arquitectura construída sobre a sua impossibilidade. Esta tese, anunciada na epígrafe, pode agora ser fundamentada no detalhe.

O jogo de fantasia

«Jogo de fantasia» é fórmula ambígua e, por isso, exacta. Jogo: actividade regrada, gratuita, reiterável, que institui um mundo provisório (Huizinga, 1938/2003; Caillois, 1958/1990). Fantasia: faculdade de figurar o ausente, e também, no uso corrente, capricho, irrealidade. JAS não pede desculpa pela fantasia; reivindica-a como ofício. O jogo tem regras, e o poema acaba de as expor: não chamar, não nomear, permanecer à janela do olhar, aceitar a recusa como forma da visão, conversar com o Amigo, voltar a escrever. A metapoesia não é um comentário exterior ao lírico; é o lírico a descobrir as suas regras no momento em que as cumpre.

A tradição portuguesa conhece esta viragem. Pessoa teoriza o fingimento no interior do poema de fingir (Pessoa, 1990). Carlos de Oliveira, Ruy Belo, Herberto Helder — cada um a seu modo — fazem da poesia o lugar onde a poesia se interroga. JAS distingue-se pela simplicidade do dispositivo. Não há desdobramento heteronímico, não há barroco da linguagem, não há manifesto. Há um amigo, uma rua, uma janela, um nome esquecido. A metapoesia emerge do quotidiano do ofício, não da especulação. Por isso convence.

«De quem musa já não tem»

A construção «de quem musa / já não tem» merece uma nota gramatical. A ausência do artigo — não «a musa», mas «musa» — universaliza e, ao mesmo tempo, desnuda. Musa vira substância comum, quase um bem de equipamento: ter musa, já não ter musa, como se tem ou já não se tem voz, fôlego, fé. O verso final não diz apenas que esta mulher partiu. Diz que o poeta trabalha a partir de um desemprego da inspiração clássica. A musa das Teogonias, a que ditava, a que visitava, a que se podia ofender por abuso — essa já não está disponível. Resta o jogo.

Blanchot observou que a inspiração moderna é experiência da ausência de inspiração: o escritor escreve a partir do ponto em que as musas se calaram (Blanchot, 1955/2011). «Mistério» dá a essa tese uma encarnação narrativa. As musas não se calaram no céu; calaram-se na rua. Passam, mas não vêm. Têm nome, mas o nome não se lembra. O silêncio delas é o material. A metapoesia de JAS é, neste sentido, uma poética da inspiração tardia: escreve-se depois do fim da musa, e é precisamente esse depois que autoriza o canto.

Pictoricidade: o perfil como tese

O índice Perfil de Musa confirma a tese metapoética no plano visual. O perfil é a forma que recusa a frontalidade do retrato de identidade e a intimidade do nu. É a linha. Na história da arte, o perfil tem servido o poder (a medalha, a moeda, a corte) e o enigma (a silhueta, a sombra, o sfumato lateral). JAS escolhe o perfil como modo de não possuir. Pintar o perfil da musa é aceitar que o rosto inteiro não será dado — nem à pintura, nem ao poema. A ut pictura poesis do ciclo Poesia-Pintura não é ilustração recíproca; é uma única recusa dita em dois meios.

CONCLUSÃO 
O jogo de fantasia 
de quem musa já não tem

Chegados ao termo, as seis lentes convergem numa única proposição. «Mistério» é um poema de amor cujo objecto é a impossibilidade do amor como encontro, e um poema sobre poesia cujo objecto é a impossibilidade da musa como presença. A rua, a janela, o perfil, o Amigo, o nome esquecido e o filme sem fim são peças de um mesmo dispositivo: a transformação da falta em ofício. A ADP mostrou como os lexemas «janela», «abusar», «nome» e «mistério» mudam de domicílio sem mudar de corpo verbal, e como essa mudança constitui a cripta do texto. O FPX mostrou que a visão da musa é intencional e interior; que a recusa é o modo da percepção, não o seu acidente; que a liturgia quotidiana organiza um luto que não deseja concluir-se; que a forma dialogal reactiva as cantigas; que a passagem na rua reencena Beatriz e Laura sem lhes dever o céu; que o erotismo é contemplativo e platónico na sua continência; que o fecho metapoético não cancela o lírico — liberta-o da obrigação de referir uma musa disponível.

Duas consequências, para terminar. A primeira diz respeito à obra de João de Almeida Santos. «Mistério» funciona como chave de leitura do ciclo da musa: o que em outros poemas se apresenta como saudade, beijo não dado, corpo perdido ou pergunta à musa, aqui se teoriza como jogo. A segunda diz respeito à tradição. A lírica amorosa ocidental não está esgotada; está disponível para ser habitada por quem aceite escrever depois do fim da musa. O Amigo da Guarda tem razão e não tem. O poeta abusa — mas abusa de uma ausência, o que, em rigor, já não é abuso. É hospitalidade. A musa que já não tem é acolhida, ainda assim, na janela do olhar, que é a porta da alma, e aí permanece, recusando e salvando. No limiar deste ensaio afirmou-se que há poemas que instituem a impossibilidade do encontro. Pode agora acrescentar-se: há poemas que, ao instituí-la, tornam o encontro desnecessário. Não porque o amor cesse, mas porque o amor encontrou a sua forma. Essa forma chama-se, neste caso, «Mistério». E o mistério, como Merleau-Ponty recordava, não é o que está para além do visível: é o visível enquanto se dá como inesgotável.

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AMV@08-2026

Poesia-Pintura

MISTÉRIO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Perfil de Musa”
Jas 2023(-2026)
(63x78, em papel de algodão, 310gr,
e verniz Hahnemühle, Artglass AR70,
em mold. de madeira)
Original de minha autoria
Agosto de 2026

“Perfil de Musa” – JAS 2023(-2026)

POEMA – “MISTÉRIO”

SEMPRE QUE ESCREVO
Um poema
O meu Amigo
Da Guarda
Nunca tarda
A comentar:
“Abusas da musa,
Poeta,
Não a deixas
Repousar”.

“ABUSAS, SIM”,
Insiste ele,
Em tom grave
E muito sério,
“É liturgia,
Refrigério
De quem está
À janela
A ver passar
O mistério
Que vive lá
Dentro dela”.

E EU SEMPRE
Lhe respondo
Que sim,
Que para mim
É liturgia,
Porque ela
Passa sempre,
Cada dia,
Na minha rua
Em seu
Apressado
Andar
E eu ponho-me
À janela
Para ver o perfil
Dela
Quando está
A passar.

MAS A JANELA,
Oh, a janela,
(Isso, o meu Amigo
Não vê?)
É sempre a do olhar
Que é a porta
Da alma
(E ele sabe
Bem porquê),
Aquela que sempre
Me salva
Porque nela posso
Entrar.

VEJO O MISTÉRIO
Passar
(Pois vejo),
Mas é lá,
Dentro de mim,
Quando me passa
Na memória
Um filme
Que não tem fim.

É AÍ QUE VEJO
A musa
E é aí
Que me recusa.

OH, MAS EU FALO
Sempre
Com ela,
Como se estivesse
À janela
A vê-la na rua
Passar...
.......
É assim 
Que abuso dela,
A olhar
Dessa janela,
Mas sem sequer
A chamar?

“COMO SE CHAMA
A musa?”,
Pergunta
O meu Amigo,
Que gosta
De ver-me
Cantar
E que  pensa
Que é castigo
Vê-la sempre
Da janela
Na minha rua
Passar...

AH, EU NÃO SEI
Que nome usa,
Mas que tem nome,
Ela tem,
Não me lembro
Do nome dela,
Nem a chamo
Da janela,
Mas se a chamar...
............
Ela não vem.
Por isso,
Não abuso dela,
É jogo de fantasia
De quem musa
Já não tem.