Poesia-Pintura

REGRESSO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Primavera”.
Original de minha autoria
para este poema.
Abril de 2020.
RegressoFinal05LUZ

“Primavera”. Jas. 04-2020

POEMA: “REGRESSO”

ESTÁS TÃO LONGE
E tão perto
Eu te sinto...
.............
Neste tempo
De fronteiras
Eu sofro
O teu silêncio 
Como espinho
Cravado
Da mais brava
 Das roseiras.

MESMO ASSIM,
Mesmo em dor,
Regresso sempre
Ao lugar
Onde eu
Te conheci,
Ao mistério
Do teu rosto,
Quando por ele
Me perdi...

PERDI-ME,SIM,
Mas encontrei
O que julgava
Não ter,
Porque foste
O espelho
Onde me vi
Renascer,
Embora já
Pressentisse
Que por culpa
Do destino
Eu te iria
Perder.

AH, SE SOUBESSE
Onde estás
O vento
Levar-me-ia
Ao parapeito
Da tua incerta
Janela,
Ver a tua
Silhueta,
Partilhar
A solidão,
Sonhar,
Sentir-me
Um passarinho
Aninhado
Docemente
Na palma
Da tua mão,
Sem vontade
De voar...

MAS EU NÃO SEI
Onde estás,
O que fazes
Com quem andas,
Se trabalhas,
Se viajas,
Se sonhas
E fantasias,
Se não ouves
Ou não lês
Os sinais que
Eu te dou...
..............
Poéticas
Sinfonias
Em pautas
Onde transcrevo
O que de ti
Me ficou.

OH, QUE DESTINO
Me calhou,
Ter-te 
Encontrado
Um dia
Para logo
Te perder
Nos caminhos
Desta vida
Que me levam
A cantar
Esta triste
Melodia
De eterna
Despedida...
RegressoFinal05LUZRec

“Primavera”. Detalhe.

Poesia-Pintura

INVOCAÇÃO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Casas no meu Jardim 
Encantado”. Original de minha 
autoria para este poema. 
Março de 2020. Veja a nota
no final do poema.
Casasnojardim2903Final

“Casas no meu Jardim Encantado”. Jas. 03-2020

POEMA – “INVOCAÇÃO”

QUE SINTAS
 O pulsar
Do poema
No teu peito
Para te ter
No silêncio
De uma casa
Iluminada 
Pelo brilho
Das magnólias
E da luz
Da primavera
Ao lusco-fusco
De um entardecer
...................
É o que mais
Eu desejo de ti.

SE CAÍRES EM SILÊNCIO
Profundo
Para melhor
Ouvir
O meu canto
E sentir o aroma
Das cores
Com que pinto
Para te encher
A alma
De Primavera...
...................
Ah, que feliz
Eu me sinto.

SE SENTIRES
Dentro de ti
O chamamento
Ao poema
E o ritmo do meu
Pulsar
Continuarei
A visitar
O oráculo
E a subir
À montanha
Onde a deusa
Espera
Notícias de ti.

SE O TEU SILÊNCIO
For o eco da
Minha voz,
A dança da melodia
Cantada 
Em surdina
Saberei que
Abraçaste o tempo
À medida de um
Sonho
Revelado
Onde constróis
O futuro...
...............
Reinventando o
Passado.

E SE EU SENTIR
Uma suave
Tristeza
De tanta ausência
Sofrida
E uma doce 
Nostalgia
Da luz 
Desses teus olhos 
Que m'incendeia 
O olhar
Então isso
Quer dizer
Que te amo...
...........
Com a alma
A transbordar...

MAS NÃO SEI...
................
Não sei se
Tudo será
Uma cálida
Fabulação
Pr’alimentar
A sede
Insaciável
De teu corpo
Imaginado
Num poema
Em que sonhei
Ter-te, assim, 
Tão intensamente
Amado...
Casasnojardim2903FinalRec

“Casas no meu Jardim Encantado”. Detalhe.

TALVEZ MOVIDO POR ESTE POEMA, 
tenho, nestes dias, 
frequentado, mais do que o 
habitual, as obras de Nietzsche. 
Transcrevo, pois, aqui dois 
aforismos (161 e 175) 
tirados de “Para além 
do bem e do mal", de 1886:  
1. “os poetas não têm pudor 
das suas aventuras; exploram-nas” 
– os poetas vivem as suas 
experiências íntimas como 
alimento da sua fantasia; 
2. “cada um ama o seu desejo 
e não o objecto desse desejo” – 
o que subsiste é o desejo, 
tudo reside nele e é ele 
que move montanhas.

Este poema remeteu-me para a 
necessidade de ter 
estes aforismos sempre presentes, 
tal como o aforismo 153: 
“o que se faz por amor está 
sempre para além do bem e do mal”. 

E não fosse a conversão interior 
e o desenho estético das suas 
pulsões naturais, 
para além do bem e do mal, 
a dor do poeta 
seria irremediável 
e talvez insuportável.
 
Assim, escreve, pinta 
e segue em frente, 
alheio ao (silencioso) ruído
exterior que ameaça 
perturbá-lo. 

O Nietzsche está mais perto 
da arte do que 
da filosofia. Sinto isso 
na minha própria pele. 
Eu, que não sou Zarathustra: 
“Die Liebe ist die 
Gefahr des Einsamsten” – 
“O amor é o perigo 
do mais solitário” 
(“Assim falou Zarathustra”, 
1883-85, III, Der Wanderer).
JAS#03-2020

 

Artigo

NARRATIVAS DA CRISE

João de Almeida Santos

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O TRONO. Original de minha autoria.

O ARTIGO – “NARRATIVAS DA CRISE”

EU CONCORDO com as restrições 
ditadas pelo 
“estado de emergência” se, 
no essencial, 
o que há a fazer é cortar, 
enquanto é tempo, 
as cadeias de contágio, 
perante um vírus 
altamente contagioso. 
Na verdade, estas restrições 
têm um único objectivo: 
estancar a contaminação.
 
Raciocínio banal que prescinde 
de grandes elaborações 
filosóficas. 

Mas a coisa está a 
provocar debate 
entre os juristas: 
a necessidade do estado 
de emergência e as suas 
contradições. 
Alguns ilustres juristas 
já vieram a público 
esmiuçar o assunto. 
Até há quem veja 
nisto um confronto 
dialógico entre 
António Costa e 
Marcelo Rebelo de Sousa 
por interpostos juristas, 
politizando o debate.

 

A DEMOCRACIA ESTÁ SUSPENSA?

Suspendeu-se a democracia temporariamente (onde é que eu já ouvi isto?), não é, senhor constitucionalista? Ou não se trata de uma suspensão, porque a democracia prevê isso mesmo, isto é, auto-suspender-se? Mas não é isto uma contradição em termos? E não é suicídio? Esta suspensão é temporária (logo, não pode ser suicídio) e visa restabelecer as condições necessárias para, a seguir, se viver a vida e a democracia em plenitude, dizem uns. Logo, é autodefesa. Mas não era necessária, dizem outros. É uma suspensão com elementos contraditórios, acrescentam ainda outros. E todos já parece estarem mais preocupados com a filosofia do direito do que com a expansão do vírus. Mesmo assim é bem melhor esta preocupação jurídico-filosófica do que a do excelso Giorgio Agamben a negar a epidemia e a acusar o governo italiano de  querer, a pretexto do COVID-19 (uma normal gripe, diz ele),  querer instaurar um estado de excepção pelo medo: “Parece quase que, esgotado o terrorismo como causa de medidas de exceção, a invenção de uma epidemia possa oferecer o pretexto ideal para ampliá-las além de todo o limite”. A realidade, custe o que custar, tem de confirmar as teses do livro que publicou, em 2003, sobre o “Stato di Eccezione”. De resto, o homem até acha que já vivemos há muito em estado de excepção Mas eu congratulo-me, até às entranhas, com a cacetada monumental que o Paolo Flores d’Arcais lhe deu na MicroMega (ver a nota final). 

Mas, sim, a suspensão até pode ser democrática (está prevista constitucionalmente), mas a situação que resulta da decisão não é. O que não me incomoda muito vista a dimensão e a natureza da ameaça. Na verdade, já os romanos chamavam a isto ditadura (comissária, para usar o conceito do democrata Carl Schmitt) e Maquiavel considerava-a positiva, por ser transitória e não afectar a ordem constitucional (“in diminuzione dello stato” – Opere, 1966, Milano, Mursia, pp. 187-189). Daí ser uma “ditadura comissária” e não uma “ditadura soberana”. A “ditadura comissária” permitia repor a ordem (neste caso, a ordem sanitária) depois de uma fase de grave anomia (sanitária, por via do contágio descontrolado). Também aqui a excepção, ou a emergência, estava prevista. O Cônsul nomeava o ditador sob invocação de “estado de necessidade” (e “necessitas legem no habet”). Lá, em Roma, eram seis meses e o ditador não podia, de facto, alterar a ordem constitucional nem o seu mandato podia durar mais do que o mandato do Cônsul que o tinha nomeado.

Não me parece, pois, que se possa dizer que continuamos a viver em ambiente democrático. Não. A democracia está suspensa porque os seus valores fundamentais estão suspensos (direitos e a separação dos poderes, visto que se verifica de certo modo uma “governamentalização da República”, para o dizer com o inefável Agamben do “Stato di Eccezione”). A começar pelo da liberdade. Como se vê. E se tivéssemos cá um Orbán ou um Salvini, e não um António Costa, a coisa até poderia mudar de figura: seria caso para nos preocuparmos com o futuro, mais do que já estamos. E seria caso para os Agambens da nossa praça se preocuparem realmente. Não me parece, todavia, que haja no ADN do PS o vírus do estado de excepção, com alto poder contagioso interno que vá do Primeiro-Ministro até ao guarda da esquina. Na verdade, trata-se, neste caso sim, de uma governamentalização da República, diria uma vez mais o Agamben, dando-lhe, afinal, uma imagem de normalidade contemporânea (o estado de excepção como “paradigma normal de governo” contemporâneo, segundo o inefável filósofo) em vez de considerar que é realmente uma excepcionalidade, embora prevista constitucionalmente. E, na verdade e neste caso, o “ditador” é, de facto, um governo legítimo, nomeado pelo Cônsul que é o Presidente da República e aprovado pelo Senatus Consultum, o Conselho de Estado e o Parlamento, neste caso. E nem sequer dura seis meses, mas quinze dias (se não for renovado).

A VERDADEIRA RAZÃO

A razão desta excepcionalidade não é, de facto, política (graves perturbações da ordem pública por razões de ordem política). É sanitária e é clara: romper a cadeia de contágio, libertar as forças do SNS para combater os efeitos do vírus, dar assistência aos que já foram atingidos e inverter a tendência.

Bem sei. Mas, para alguns, não era preciso o enquadramento de emergência porque, dizem, o governo já tinha poderes para agir com eficácia. Talvez queiram, com este argumento, salvaguardar a emergência do risco de banalização e os direitos perante uma sua (perigosa?)  captura governativa. Oh, digo eu, que me perdoem os sofistas do constitucionalismo, o que é preciso é impedir a banalização do contágio e garantir o irrenunciável direito à vida. Tenho mais medo do algoz viral do que do Marcelo Rebelo de Sousa ou do António Costa.

O QUE DIZ A NATUREZA?

Mas que a situação é estranha, é. Viremos, então, o bico ao prego.

A velocidade impressionante com que a natureza falou (se for a natureza) sugere-me uma narrativa muito simples. Diz ela, a natureza: ”haveis de parar à força para que eu possa respirar melhor. Vós, para mim, sois um (coroa) vírus porque estais a impedir-me de respirar, a provocar-me uma grave pneumonia. Fui contaminada por vocês, humanos, e se não reagir morro… Eu bem ouvi o representante máximo das vossas nações, António Guterres, avisar que deveriam arrepiar caminho. Não o fizeram e decidi agir pela força. E, já agora, digam ao Bolsonaro que pare com a destruição dos meus pulmões na Amazónia para não ter que reforçar a dose, especialmente no Brasil. Sei que há as favelas e que a punição seria infinitamente mais gravosa. Mas o homem ainda não percebeu que estou a falar e a agir a sério”.

Na verdade, esta parece uma decisão da Natureza sofrida e ditada realmente por um “estado de necessidade” que exige um “estado de excepção”. Questão de sobrevivência da “madre natura”. Por isso, primeiro, mandou-nos uma santa, Greta de seu nome (que logo desapareceu), a avisar, com ar muito, mas mesmo muito, zangado. Depois passou à acção e castigou-nos letalmente, pôs-nos inactivos, paralisou-nos e reduziu a nossa sociabilidade ao mínimo.

Mas quando respirar melhor, a mãe natureza irá deixar-nos livres de novo? Daqui a quando? E nós teremos aprendido a lição? Ou há uma mão humana invisível em tudo isto e um sério risco de ter perdido o controlo do processo, pondo-se (a mão invisível) a si própria em causa, como se pode concluir pela contaminação real de tantos poderosos deste mundo?

A GLOBALIZAÇÃO, A CRISE E A REDE

A globalização é uma importante variável em tudo isto. Ninguém pára. O low cost pôs o mundo em frenesim giratório, cada um transportando-se a si e à sua circunstância. E aumentando de forma insuportável a poluição. Ninguém parava, queria dizer…

Agora emerge também a rede com toda a sua força para reactivar o mundo de outro modo e sem vírus que afecte o corpo (que é um modo de dizer porque ele também existe na rede). Até parece que é a única forma de sociabilidade segura que nos resta! E, de facto, a rede é cada vez mais a sociedade replicada (com vírus e tudo). E terapia contra a solidão, criando comunidades e processos digitais que já produzem realidade… Aqui está a melhor resposta ao Austin do “How to do things with words”. Ou o poder performativo da rede, a força performativa do signo. Transformar as palavras e os signos em actos. E gerar comunidades e sociabilidade digital.

Depois disto, quem continuará a bradar contra o “povo da rede”? É que a escola, neste momento, já só existe na rede. Todos damos e temos aulas através das plataformas digitais. E todos, e cada um, em casa. Se assim continuar iremos ter uma profunda revolução… e não só na educação. O trabalho à distância vai crescer exponencialmente até porque se vai concluir que, afinal, é possível programá-lo com eficácia, de forma generalizada, poupando imensos recursos…

Este pode ser o salto para a mudança definitiva de paradigma.

E DEPOIS DA PANDEMIA?

Quando acabar esta guerra tenho a certeza que vai acontecer o que aconteceu depois da segunda guerra mundial, todos para a rua, a respirar liberdade, a dançar, a cantar, a beber, aparecerão os neo-existencialistas a dizer “primum vivere deinde philosophare” e que “a existência precede a essência”, mesmo quando um novo Plano Marshall – se a União Europeia tiver a coragem e a sabedoria de o fazer – já estiver a ser instalado para reconstruir as cidades destruídas por dentro dos seus alicerces económicos e financeiros e novas oportunidades começarem a ser exploradas…

Tudo isto, sim, mas lá que vamos pagar um elevadíssimo preço, lá isso vamos. Preparem-se.

NOTA

Os textos de Giorgio Agamben e a crítica de Paolo Flores d’Arcais.

  1. (https://www.quodlibet.it/giorgio-agamben-contagio;
  2. http://temi.repubblica.it/micromega-online/filosofia-e-virus-le-farneticazioni-di-giorgio-agamben/;
  3. http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/596584-o-estado-de-excecao-provocado-por-uma-emergencia-imotivada?fbclid=IwAR3KrGdgIp5fQxaeJNVq4463hGQygrtW0-R23-pRACI2mux5AfgOhOzbvYM).
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O Trono. Detalhe.

 

Poesia-Pintura

BRILHAM OS TEUS OLHOS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Oráculo”. 
Original de minha autoria para
este poema. Março de 2020.
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“Oráculo”. Jas. 03-2020.

POEMA – “BRILHAM OS TEUS OLHOS”

NO ORÁCULO
Há uma árvore
Iluminada
Nos dias de ritual...
...................
Essa árvore 
És tu
E eu a luz
Que alumia
Com o ceptro
De cristal
Do templo sagrado
De Athena,
Da arte
A catedral.

ÀS VEZES BRILHAS,
Incendeias-me
A alma e
O estro
No poema
Em construção,
Outras convocas
A sombra
E o silêncio,
A árvore
Entristece
E também eu
Me apago
Em infausta
Comoção.

É BELA A ÁRVORE
(Sem frutos),
Beleza luminosa
E um pouco fugidia
Quando em dias
De ritual
Quero cantá-la
Com vigor
E fantasia
Porque o brilho
Dos teus olhos
Me acende
Esta paixão
Como pura energia.

SE NELA EU 
NÃO TE VEJO,
Apago-me
Em submissa
Tristeza,
Falta-me o teu
Olhar,
De cada poema,
A luz 
E, do afecto,
Delicada
Incerteza...

FLUI O TEMPO,
Meu amor,
Gasta-se a vida,
Fogem de nós
As palavras,
O olhar
Empalidece
E esvai-se
A alegria,
O oráculo
Não acolhe
Este canto
E, depois,
Volta a rotina
De cada dia
E eu perco
O teu encanto...

MAS A DEUSA
Aguarda-nos
Impaciente
E eu hesito
A chamar-te
Ao ritual,
Tenho medo
Que não ouças
E perca,
Do oráculo,
A magia
Do seu ceptro
De cristal...

AH, MAS EU OUÇO-TE
Sempre
Dentro de mim
(És a minha
Salvação)
E convoco-te
Ao poema
Pr’acender
Com a tua melodia
A árvore
Inspiradora
Da minha deusa
Athena
Enquanto 
Meu canto
Durar
Nos dias 
Do ritual.

NÃO TE ABANDONES TU
Na perdição 
Da rotina,
Não apagues
Essa luz
Que começa a
Renascer
Com brilho que
M'ilumina,
Deixa que eu
Te cante
E te celebre
Em cada amanhecer,
Te acenda
A fantasia
Nem que seja
Num instante
Duma noite
Ou no acaso 
De um dia.
Outono6psdRec

“Oráculo”. Detalhe.

Poesia-Pintura

RAÍZES

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Jardim Encantado”.
Original de minha autoria 
para este poema. Março de 2020.
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“Jardim Encantado”. Jas. 03-2020

POEMA – “RAÍZES”

FUI PROCURAR-TE
Ao Jardim
 (Vou sempre,
Quando te quero),
És planta
Seminal,
Magnólia,
O teu nome,
Erecta
Em mil raízes,
Encantado
Pedestal.

ÉS CÁLICE
D'AFECTO,
Cativas
O meu olhar,
Pedes palavras
Sem fim,
Cânticos,
Poesia
A brotar...

REVEJO-TE
Nela, mulher,
O seu porte
(Como o teu)
É altivo,
Desafia-me
O canto
Pra que o possa
Partilhar
E assim estar
Contigo,
Seduzido,
Por encanto,
Para logo
Te amar.

UMA GRAÇA,
É o que és,
Dessas três
Que sempre
Canto,
Com poemas
E alguma
Timidez
Que dissimula
O meu pranto...

UMA GRAÇA?
Ah, sim,
A que o poema
Resgata
Do futuro
Que perdeu,
Feita
De muitas raízes,
Desenhada
Com palavras
Onde o seu mito
Cresceu
Pra que o tempo
A conserve
E lhe marque
A ventura
Que a Moira
Concedeu.

NESTE JARDIM
Renasceste,
Acendeu-se
O verde
Desses teus olhos
De luz
(Ou castanho,
Já nem sei)
No brilho
Da primavera
Que vestirá
O teu corpo
Em tempo
De sagração...

APETECE-ME
Beber-te
Na seiva
Destas raízes,
Embriagar-me
De ti,
Deste cálice 
D'afecto,
Enlaçar-me
Com elas
Pra te amar
Nas origens,
No lugar onde
Nasceste,
Onde sofro de
Vertigens
Por aquilo
Que me deste...
.................
Só aí eu sei
Quem és...
Jas_JardiimEncantado1503TranspR

“Jardim Encantado”. Detalhe.

 

 

 

 

 

Poesia-Pintura

MARÇO

POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Fauno em Março" - Original
de minha autoria.
Oito de Março de 2020.
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“Fauno em Março”. Jas. 03-2020

POEMA – “MARÇO”

GOSTO DE MARÇO,
Entre o branco e
As flores
Que despontam
Na fronteira
Do tempo,
Entre a neve
E a primavera.

GOSTO DO BOTTICELLI,
Rostos e corpos
Feminis,
Volúpia de
Transparências
Sensuais.

GOSTO DA PELE
Acetinada
Dos corpos,
Dos traços
E da cor
Que desenham
Alvura nas
Três Graças...
..............
E no Amor!

GOSTO DO BRANCO,
No alto da Montanha
E das cores intensas
Que interpelam,
Insinuantes,
O meu olhar
Deslumbrado,
Cá em baixo,
Neste vale
Por elas sempre 
Iluminado.

GOSTO DE MARÇO,
Ah, como gosto!
Entrei nele
Contigo,
Ombro a ombro,
Em contraponto
Que se consumou
Como silêncio
Fatal,
Marca de tempo
Quase irreal,
Face obscura
Do meu rosto
Entristecido.

QUE O DIGAM
Os astros
Desalinhados...
...............
Para ti colhia
Flores luminosas,
Crescia
A inspiração
Em estrofes
Arrebatadas
Com que sentir
Fingia
O que dizer
Não podia.
Contraponto.
O outro lado
Da tua melodia...

MARCADO
Como selo
De inspiração
Às avessas,
Lá vou eu
Por aí,
Nem sei porquê
(Ou por falta de ti),
De braço dado
Com Botticelli,
Lá em cima,
na Galleria,
Onde quase morei,
Transeunte
Irreverente
No incerto desafio
De um dia.

PROCURO-TE, SIM,
Na laica oração
À deusa Athena,
A que trazes
(Eu bem sei)
No centro 
Do coração.

SINTO-TE PERTO
(É estranho, não é?),
Depuro
A tua imagem,
Bissetriz de mil
Rostos perdidos,
Até se tornar
Ideia precisa
De corpo ausente...

DEPOIS, AH, DEPOIS
REINVENTO-A
A cada instante,
Abraço-a
Com alma
De amante,
Pinto-a com
Palavras
De poeta
Encantado
E sonho-te
Numa plácida noite
Da primavera
Que assoma...

AO ACORDAR,
No amanhecer
De cada poema
Verei que continuas
Em mim
De olhos fechados
Como se fosses
Memória profunda
Do que nunca
Aconteceu.

ANDAREI
Por aí
(Os astros o dirão),
Vagando
Sobre o pólen
Da beleza sensível
Onde pousarei
O meu inquieto
Olhar
À procura
De alimento
Para pintar
O poema...
........................
E talvez o impossível!

LÁ NO ALTO
Te encontrarei,
No fio do horizonte,
Um risco,
Projecção do teu
Olhar
A construir infinito,
Onde, num adeus
Sem fronteiras
Nem cais de partida,
Hás-de desenhar
Com a alma
As mil silhuetas
Inacabadas...
................
Ou talvez não!

MEU DEUS,
Como gosto de ti...
...............
Em Março!
Fauno06_2020Rec

“Fauno em Março”. Detalhe.

Poesia-Pintura

MANDEI PODAR O LOUREIRO…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Loureiro em Flor
 no meu Jardim Encantado”.
Original de minha autoria
para este poema. Março de 2020.
Exp.Lou

“Loureiro em Flor no meu Jardim Encantado”. Jas.  03-2020

POEMA – “MANDEI PODAR O LOUREIRO…”

MANDEI PODAR O LOUREIRO
Num dia de Carnaval,
Cada ramo que caía
Doía, 
Fazia mal.

ESPALHAVA-SE O AROMA
Intenso pelo Jardim,
O podador a cortar
E, ele, triste  
E tão dorido, 
Sempre a olhar 
Para mim...

“QUE FIZ EU PARA SOFRER,
Estou sempre
À tua frente,
Porque mandaste
Podar-me,
Assim,
Tão de repente?”

“FOI PARA ME RENOVAR,
Pra ganhar
Um novo alento?
Porque não paras 
De olhar,
Acalmas o sofrimento?”

“JÁ NÃO APONTO PRÒ CÉU,
Fiquei mesmo redondinho
E, tu, quando me olhas,
Ficas sempre mais sozinho,
Mais longe do meu perfume
Que deitaste a perder
Com aparente azedume
Porque não podaste
A tempo
O que havia de crescer.”

“PERDI MUITAS
Das minhas bagas,
Estavam em mim 
Às centenas,
Agora ficaram chagas
E não são muito pequenas.”

“LEVOU-MAS O PODADOR
As bagas que tu perdeste,
Já não sinto o teu calor
Por tudo o que não fizeste
Mas que podias fazer
Se tivesses mais coragem...
......................
Deitaste tudo a perder
Só porque era selvagem!”

“NÃO SÃO LOUROS 
De glória,
Não são...
................
Por que razão 
Me deixaste,
Ferido de 
Tanta paixão?
Para teres 
Uma vitória
Que não merece
Perdão?”

“AGARRA-TE A MIM 
Agora,
Sou teu loureiro 
Em Jardim,
Se não quiseres,
Vai-te embora,
Que eu fico-me assim,
Mais pequeno, 
Mas robusto,
Mais redondo 
E mais belo...
...................
Serei sempre 
Mais que arbusto,
Não é preciso 
Dizê-lo.”

O LOUREIRO DO JARDIM
É planta seminal,
Viajo com ele
No tempo 
Como se fosse imortal.

É ÁRVORE DE POESIA,
É fonte d’inspiração,
Ajuda-me a renascer
Se vacila o coração. 

É UM POSTO DE VIGIA,
Cresce, cresce
Para cima,
É com ele que 
Eu resisto,
Declinando-me
Em rima...

POR ISSO MANDEI
Podá-lo
Para se fortalecer.
Se o não tivesse feito
Ia mesmo esmorecer
E com ele também eu
Caía em negação...
................
Não são fáceis
Estes tempos,
Mas loureiro é canção!
Exp.LouRec

“Loureiro em Flor no meu Jardim Encantado”. Detalhe.