Poesia-Pintura

SONHEI-TE, NAQUELA NOITE

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Um Sonho”.
Original de minha autoria.
Fevereiro de 2020
JAS_Meteorito030918PublicadajpgTrab

“Um Sonho”. Jas. 02.2020

POEMA – “SONHEI-TE, NAQUELA NOITE”

SONHEI-TE, MEU AMOR.
Atravessava o deserto,
Há muito...
Nada via no horizonte.
Areia, só areia
No meu caminho.
E uma neblina quente
Lá ao fundo
Da minha vida.
Nem sei se
Na longa caminhada
Encontraria
Um oásis
Onde molhar
Os lábios
Já gretados
De tanta aridez.

TALVEZ NÃO.
O oásis ficara
Há muito para trás
E, depois, ficou
Uma longa rua
Onde me abandonei
A caminho do deserto...

NAS HOJE SONHEI-TE.
Saí do deserto
E reencontrei o oásis
Nas pupilas dos teus
Olhos.

ANINHEI-ME EM TI,
Sereno como nunca
Estivera
Desde que te conheci.
Ofereci-te uma história
Em papel
Onde te conto,
Nos conto
À exaustão,
Até ao limiar 
Do impossível,
Mas com uma réstia
De esperança
De não ter de 
Regressar
À torreira do deserto.

FALÁMOS DE ARTE,
Imagina,
Do seu poder
Curativo
E de como a vida
Se lê
E se resolve
Nela...

ABANDONEI OS MEUS BRAÇOS
Nos teus ombros,
Perdido em quentes
Memórias,
E caminhámos
Nem sei bem por onde
Ou para onde...

SONHEI-TE
Esta noite,
Meu amor.
E, sabes?
Acordei de ti
Embriagado
De felicidade,
Mesmo sem já te ter
Nos meus braços.

AH, HABITUEI-ME
A estar contigo
Em sonho
Ou em palavras,
A dizer-te 
Em poemas,
A interpelar-te
Ao longe...

HABITUEI-ME
Ao teu silêncio,
A uma fronteira
Inultrapassável
A não ser
Pelo vento
Que te cicia os
Meus murmúrios...

TENHO-TE
Dentro de mim
E já nem sei
O que seria
Encontrar-te,
Olhar de perto
Esses teus olhos
Negros e profundos,
Sentir o teu perfume
E perder-me
No mistério
Insondável
Da tua vida...

TALVEZ TE PERDESSE,
Nesse instante,
Por excesso de ti.
Mas eu não quero
Perder-te,
Meu amor...
JAS_Meteorito030918PublicadajpgTrabRec

“Um Sonho”. Detalhe.

 

 

 

Poesia-Pintura

A PALAVRA PROIBIDA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Beija-Flor em Magnólia”.
Original de minha autoria.
Fevereiro de 2020.
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“Beija-Flor em Magnólia”. Jas. 02-2020.

POEMA – “A PALAVRA PROIBIDA”

OS GUARDIÕES
Do sagrado templo
Da palavra
E da cor
Emitiram edital:
“O amor em poesia
Fica assim proibido
Porque pode ser 
Fatal.
Os versos 
E as estrofes
Banhados 
A luz e cor
Ficam pra sempre 
Banidos
Da arte 
E do amor.” 

DIZ O GRANDE
HONORÉ,
Balzac, de apelido,
Certeiro,
Como poeta,
Na palavra destemido,
Que o Amor
É poesia, 
É a arte 
Dos sentidos,
É perfume
Que inebria
E nos faz sentir
Perdidos
Se não houver
Guardião
Que decrete,
Impenitente: 
“Também eles 
São proibidos!” 

PROIBIDOS?
Ah, esses, 
Não,
Poesia
É emoção, 
É enlevo
Dos sentidos
Que resiste
Ao edital
Mesmo que seja
Cantado
Pelo mais belo
 Jogral. 

O POEMA LEVA
Aos píncaros
Da mais alta
Fantasia,
Sobem ao monte
Os sentidos
Com as asas
E a leveza
Da arte
Em poesia. 

MAS É DIFÍCIL
Ouvir 
E sentir
Em verso
Com alegria
Pois há sempre
Alguém
Que me rouba
A brisa
Dessa tua 
Maresia,
A que respiras
Bem cedo,
Logo ao 
Amanhecer
Quando ouves
O meu canto
Para nunca 
Te perder. 

OLHAS O MAR,
Ouves
As ondas
Dentro de ti
A cantar
Com versos
Que o vento 
Sopra
Pra te poder
Ciciar
O que por ti
Eu já sinto
Nesta canção
Que compus
Numa noite
De luar.

POESIA
Dos sentidos...
......................
O amor é mesmo isso,
Porque, queiras 
Ou não queiras,
Tem a força 
De feitiço.

ENCONTRO-A
Sempre em ti
E mesmo que 
Proibidos
Escrevo sempre
Poemas
Desde o dia
Em que te vi.

EXALTARAM-SE
Os sentidos
(Não sentiste?)
E para o poema
Parti
Com as asas
E as cores
De um belo colibri...

DECRETARAM
Edital.
Ah, que o façam, 
Pois, cumprir.
Mas poesia
É como vento
Que te leva
Cada dia,
Sopra
Tão forte
Na alma
Que o silêncio
É alento 
De poeta
Que com palavras
Se salva.

À PALAVRA PROIBIDA
Sempre o poeta
Resiste,
É livre no seu dizer
Das razões
Da sua vida
Quando a dor
Atormenta
E o sofrimento persiste...
Jas_Beija_Flor150220Rec

“Beija-Flor em Magnólia”. Detalhe.

Poesia-Pintura

ESTAVAS À MINHA FRENTE…

Poema de João de Almeida Santos.
Reproponho, com ligeiras alterações,
o poema – de Gianni para Paola, personagens
do meu romance “Via dei Portoghesi” 
(Lisboa, Parsifal, 2019) –
que publiquei há quatro anos.
Ilustração: “Licht, mehr Licht...” -
Original de minha autoria.
14 de Fevereiro de 2020.
Licht4

“Licht, mehr Licht…”. Jas. 14.02.2020

POEMA –  “ESTAVAS À MINHA FRENTE…”

PASSARAM ANOS E ANOS
Que nem consigo contar,
Estava feliz de te ver,
Ouvias-me nesse Solar
A dizer o que sentia
A sentir o teu olhar.

COM MEUS OLHOS TE DIZIA 
Que o mundo ia parar
Se chegássemos um dia
Nem sei bem a que lugar.

ESTAVAS À MINHA FRENTE
E pousavas o olhar
Em mim, tão docemente...
.....................
Nem podia acreditar,
Havia um brilho diferente
A iluminar o Solar...

FOI ESSE UM DIA FELIZ
Luminoso para mim
Vi-te com outra roupagem
Como se fosses cetim,
Perfume e suave aragem,
Um doce embalo sem fim...

LANCEI ENTÃO O OLHAR
Para a torre de marfim
Onde te fui projectar,
Tão bela eras assim,
Num dia, 
Nesse lugar,
A dizer o que sentias,
Dando voltas às palavras
Que timidamente dizias,
Medindo bem os efeitos
Que tu já bem 
Pressentias...

ESTAVAS À MINHA FRENTE,
Falávamos nesse Solar
E eu estava feliz,
Bastava-me o teu olhar.

NA MEMÓRIA DO PASSADO
Já não vejo esse lugar
Onde possa estar contigo,
Onde te possa falar,
Cumprido esse castigo
De não te poder encontrar
A não ser com as palavras
Em que me ponho a nu
Como se vê pelo dia
Em que as lanço ao vento
Tão fortes de meu soprar
Para ver se é com elas
Que te consigo alcançar...

ESTAVAS À MINHA FRENTE,
Lembro-me do teu olhar
No bulício desse dia,
Do teu leve respirar.

AGORA FOGES DE MIM.
Tens medo de soçobrar?
Tu és mais forte que eu
Resistes ao meu olhar,
Às vezes com timidez,
Outras sem me enfrentar...

NOS DIAS EM QUE TE VEJO
Ganha alento a minha vida,
Fortaleço-me a alma
Suspendo a despedida,
Fico sereno, em calma,
Cicatriza-me a ferida.

SE OLHAR PARA O FUTURO
E não te vir no caminho
Fica a vida sem sentido
E vazio o meu destino...

NÃO ESQUEÇAS QUEM, 
Ausente,
Ouve a tua melodia
E em cada instante pressente
O poder dess’alquimia
Que funde tudo o que sente
No sentir de cada dia.

E ASSIM VOU REGRESSANDO
A essa torre de marfim
Que vou construindo
Em palavras
Do que persiste em mim...

ESTAVAS À MINHA FRENTE…
Licht4Rec

“Licht, mehr Licht…”. Detalhe

Artigo

REFLEXÕES SOBRE A EUTANÁSIA

PORQUE SOU A FAVOR DA DESPENALIZAÇÃO

Por João de Almeida Santos

Maos

 

OUSO DIZER QUE NINGUÉM DEFENDE A EUTANÁSIA. Porque, por princípio, ninguém deseja a morte. O eros (a pulsão da vida) em condições normais sobreleva o thanatos (a pulsão da morte).

De outro modo, estaria em risco a sobrevivência do género humano ou da espécie. Se à ideia de morte está associada a ideia de dor e de fim, às ideias de vida e de reprodução da espécie estão associadas as ideias de prazer e de amor… e uma dialéctica dos afectos. É o princípio da vida aquele exibe argumentos mais fortes. Sem mais. A tal ponto que nas religiões esta ideia de vida é projectada para uma dimensão extraterrena, iludindo assim a própria ideia de fim, a própria ideia de morte.

É por isso que quem defende o direito à eutanásia não poderá, sob pena de má-fé de quem o faz, ser acusado de ser apologista da morte. Porque em condições normais ninguém o é. Na verdade, trata-se, aqui, de um caso excepcional, assumido em circunstâncias excepcionais. E como tal deve ser entendido. Com todos os seus ingredientes e não com a linearidade de um pensamento maniqueísta ou de uma qualquer ortodoxia acusatória. Mas vejamos.

DUAS POSIÇÕES

Usando a dicotomia como método de raciocínio, podemos dizer que sobre esta questão há duas posições extremas.

A religiosa, que considera a vida um dom divino que transcende a esfera da vontade humana e que, por isso, não concede ao crente liberdade de dispor da sua própria vida e de agir radicalmente sobre essa dádiva transcendente.

A construtivista, que considera que a vontade humana é soberana e pode, por isso, sobrepor-se às variáveis ditadas pela sociedade, pela história e pela natureza.

É lógica e coerente a primeira posição e, por isso, respeito-a, embora não me identifique com ela. Já quanto à segunda, embora reconheça que muitas conquistas civilizacionais se devem a ela, em muitos casos acaba numa problemática e incerta engenharia social. O tema muito mais difícil e complexo da clonagem – proibida, por exemplo, na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia – poderia inscrever-se problematicamente num discurso com estas características. Tal como o da eugenia.

O PAPEL DO ESTADO

Mencionei estas posições apenas porque elas nos permitem ver a questão com mais clareza. Não entro em questões estritamente jurídicas, porque num assunto destes o que interessa é a posição de fundo que se assume. E que terá, naturalmente, consequências jurídicas. Mas interrogo-me se ao Estado cabe produzir uma norma que proíba um cidadão de, em determinadas condições e circunstâncias, decidir livremente pôr termo à sua vida. Interrogo-me se o Estado pode e deve criminalizar, por exemplo, e seguindo a inspiração da Igreja católica, o suicídio. Quem se suicida contraria o carácter inviolável da vida e por isso deverá ser condenado? No além, sim, certamente! Mas, no aquém? Depois de morto? E quem não consegue suicidar-se com eficácia deverá ser condenado por ter atentado contra a sua própria vida? Pondo-o na prisão? Parecem raciocínios humorísticos, mas não são, porque vão ao fundo do problema.

A questão põe-se, todavia, quando alguém é chamado a cooperar, por competência técnica e formal (um médico), na livre decisão, devidamente enquadrada (aqui, sim, pelo Estado, enquanto regulador), de um cidadão pôr termo à própria vida. Se aceitar, esse médico deverá ser acusado por ter cometido assassínio? E se outro se opuser deverá ser acusado por se ter recusado a pôr fim ao sofrimento atroz de um ser humano, a pedido, consciente e fundamentado, dele? No meu entendimento, nem num caso nem no outro deverá haver acusação.

Do que se trata, no caso da Eutanásia, é de clarificar a situação, definindo a posição do Estado relativamente a esta matéria. Não devem os católicos, por exemplo, pedir ao Estado que produza norma, activamente ou por omissão (ficando a eutanásia tipificada como assassínio, subsumida à lei geral), já que os verdadeiros católicos nunca praticarão a eutanásia, por óbvias razões de doutrina e de visão do mundo, não sendo, pois, a comunidade de fiéis afectada pela posição reguladora (que referirei) que um Estado venha a assumir. Mas será aceitável que queiram impor, através do Estado, a toda a sociedade a sua própria visão do mundo e da vida? Não deve o Estado democrático, pelo contrário, ser o garante da livre afirmação de identidades, em todos os planos, político, cultural ou religioso, desde que enquadradas pelo que Habermas designa como “patriotismo constitucional”, ou seja, adesão aos grandes princípios civilizacionais adoptados pelo Estado como sua lei fundamental? Do que aqui se trata é da laicidade da abstenção do Estado para uma livre dialéctica das identidades! Até mesmo neste caso, já que a decisão é remetida para a esfera da liberdade individual. De resto, nem o Estado, numa civilização de matriz liberal, deve intervir numa matéria tão íntima e pessoal como esta, a não ser para proteger precisamente a liberdade de cada um tutelar a própria integridade como entender. Ou seja, o Estado tem o dever de intervir, sim, mas para proteger a liberdade individual da interferência de factores externos à sua livre, racional e ponderada decisão relativamente à própria vida.

O ESTADO E OS DIREITOS INDIVIDUAIS

Considero, deste modo, que a intervenção do Estado em relação a esta matéria deve somente ser reguladora, garantir o direito de cada um tutelar a sua vida ou a sua morte. Alguns Estados, como é sabido, e em alguns países democráticos e civilizacionalmente avançados, usam a pena de morte como punição máxima ou como salvaguarda de um bem superior. Mas lembro o art. 2.º dessa fabulosa “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, de 1789: “O fim de qualquer associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Estes direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão”. Este artigo, conjugado com art. 5.º (“a lei não tem o direito de proibir a não ser as acções prejudiciais para a sociedade; tudo o que não é proibido pela lei não pode ser impedido, e ninguém pode ser obrigado a fazer o que a lei não ordena”), leva-me a concluir que, nesta matéria, o Estado somente deverá remover o que possa prejudicar, por um lado, a sociedade e, por outro, a livre tutela do cidadão sobre si próprio, clarificando as condições em que a morte assistida possa ser praticada. Assim, no caso em que um cidadão esteja na posse plena das suas próprias faculdades, mas em condições de insuportabilidade física (mesmo com cuidados paliativos) e de destino irreversível, o Estado tem a obrigação, isso sim, de certificar institucionalmente estas condições, seja do ponto de vista psicológico seja do ponto de vista médico, perante o recurso a assistência médica. A verificar-se que não existem factores exógenos a determinar a decisão, o Estado não deve, nem que seja por omissão, permitir que quem intervenha no processo, a pedido do cidadão em causa, e exclusivamente porque é detentor formal de competência técnica, seja acusado de assassínio. Tal como não deve permitir que quem se recuse, por razões de ética da convicção ou religiosas, sendo detentor formal de competência técnica, a cooperar no acto de eutanásia, seja acusado.

A FUNÇÃO REGULADORA E DE CONTROLO DO ESTADO

Tratando-se de alguém que comprovadamente esteja numa situação de sofrimento atroz, mas incapaz intelectualmente de tutelar a sua própria vida, estando, assim, dependente de outra tutela (por exemplo, familiar), o Estado tem o dever, perante uma decisão desta natureza, de reforçar a tutela dos direitos do cidadão em causa, accionando idóneos meios institucionais de controlo para verificar que não há factores exógenos àquela que seria, supostamente, a sua vontade em condições de plena posse das suas faculdades. A clarificação em causa deverá, no meu modesto entendimento, confinar-se à certificação de que na decisão não intervêm quaisquer factores externos ou exógenos. E nada mais, sob pena de, em qualquer dos casos acima referidos, o Estado estar a entrar na zona protegida de um direito individual inalienável, o da livre tutela da própria vida. Ou seja, defendo sobre esta matéria uma intervenção minimalista, mas reguladora e de controlo do Estado, deixando aos cidadãos a liberdade de accionarem, ou não, os mecanismos para poderem usufruir de uma morte assistida. O que não é admissível é pedir ao Estado que, em nome de uma mundividência, seja ela religiosa ou filosófica, anule a liberdade individual naquela que é a mais profunda e íntima esfera da própria personalidade. A eutanásia não pode ser tipificada como assassínio, porque não o é, e muito menos numa sociedade de matriz liberal onde a tutela da liberdade é um dos mais importantes princípios. E nesta visão da liberdade entram de pleno direito os católicos e a sua legítima discordância relativamente a posições diferentes da sua.

 FINALMENTE

Em suma, a minha posição sobre o assunto é, como se viu, ditada pela ideia que tenho acerca da legitimidade da intervenção da sociedade, através do Estado, sobre a esfera individual ou mesmo íntima. É minha convicção que numa sociedade com uma matriz liberal como a nossa esta é a posição mais sensata e conforme a esta matriz. #

 

 

 

Poesia-Pintura

O MEU NOME

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Teu Corpo” - Original de
minha autoria. Fevereiro de 2020.
JAS_Deusa09022020

“O Teu Corpo”. Jas. 02-2020

POEMA – “O MEU NOME”

PORQUE NÃO
ME NOMEIAS,
Meu amor?
Nome-ar.
Tão simples.
Quatro letras.
Devolver-me
Identidade,
Aquecida
Nos teus lábios
Pelo ar quente
Que respiras...

ASSIM, PERCO-ME,
Não sei de mim,
Fico sem espelho
Onde me ver
A cores
E em perfil
De traço fino
Nos teus doces
Murmúrios...
................
Que sufocas...
..............
E não desvelo
O destino traçado
Pelos deuses
No chão arenoso
Do caminho 
Da minha vida.

TORNO-ME SOMBRA
De mim
Quando me interpelas
Sem nome-ar,
Não me reconheço,
Sou outro,
Pronome
Indefinido ou
 Interjeição,
Ideia vaga,
Incerto perfil
Que se dilui
Como aguarela
Em folha branca
Manejada
Por ti à procura
De uma forma
Que, afinal,
Não tem nome.

PORQUE CATIVAS
O som
De quatro letras
E não cantas
A minha melodia
Com uma palavra
Só?
Ah, a tua boca
Logo hesita
Quando a palavra
Assoma
À flor dos teus
Lábios,
Como daquela vez
Em que soou
Timidamente
Como sussurro,
Murmúrio
Imperceptível,
Em surdina,
Na fronteira 
Do silêncio.

O MEU NOME
Desata
A tua alma
E ameaça
Levá-la consigo
A voar sobre
O mundo
De mãos dadas
No fio do horizonte?
São vertigens,
Meu amor?

AH, SE ASSIM FOSSE
Diria
O teu nome
Mais do que digo
Até adormecer
De cansaço....
.............
Só para te
Sonhar.

MAS TU NÃO
ME DIZES
Porque me desejas
Como parte de ti,
Sem partilha
Nem confissão?
Guardas
O meu nome
No silêncio
Do teu peito,
Como se fosse
Pecado dizê-lo?
Sentes perigo?
Que o meu nome
Se torne lava
Ardente,
Beijo verbal
Proibido
Pela gramática
Do amor
Logo ao primeiro
Sinal?
E foges
Para dentro
De ti
Com o coração
Aos pulos?

OH, TAMBÉM EU
NÃO TE DIGO,
Como chamamento,
No meu poema,
Onde os nomes
Se dizem
De outro modo,
Têm som
E ritmo
Diferentes,
São notas
De uma melodia
Sofrida
E cifrada...

MAS AS TUAS LETRAS
Estão lá,
Todas,
Uma a uma,
E a cor
Dos teus cabelos
Em aguarela
E o cetim
Da tua pele
Macia
Por onde deslizam
Os meus olhos
À procura dos teus,
Negros e profundos,
E essas mãos
Perfumadas
Filhas da arte
Que te desenham
A alma
Com riscos
E cores
Que atiras
Ao vento
Para que eu
Os agarre
E lhes dê
Som,
Ritmo
E sentido
Num poema...
..................
Ao entardecer...

E, ASSIM,
EU CANTO
O teu ser,
Tudo
O que foste,
O que és e
O que serás,
O que sabes e
 O que sentes,
O que vives e
 O que sonhas.
O que dizes
No que calas...
...........
Tudo,
Meu amor.

MAS TU DIZES,
Com a ironia
Do silêncio
Triste
Que te cativou,
Que também eu
Não te digo
Aqui,
Em arte,
Mesmo quando
Te canto mais
Do que ouves,
Te nomeio
Mais do que
Posso,
Te pressinto
Mais do que
Sentes...

E TU
Apenas te expões
Às minhas palavras,
À minha música,
Silencias-me
Porque balbucias
O meu nome
Só dentro
De ti,
Foges ao som
Encantatório
Que corre
Atrás de ti
Para se ouvir
Nos teus lábios.

BEM SEI
Que o teu mundo
Não é o dos nomes
Ou das palavras,
Sequer murmurejadas,
Mas o das cidades
Invisíveis
Na tua fuga
Permanente para
O infinito...

E SEI QUE AÍ
Me vais
Silenciosamente
Interpelando,
Como rosto
Mutante,
Essa tua forma
De docemente
Me soletrar.

NOMEIAS-ME, SIM,
Meu amor,
Mas à tua maneira!
JAS_Deusa09022020_1

“O Teu Corpo”. Detalhe.

Poesia-Pintura

ESCULPIR-TE…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Bianco&Nero”.
Original de minha autoria 
para este poema. Fevereiro de 2020.
Travertino com veios

Bianco&Nero. Jas. 02-2020

POEMA – “ESCULPIR-TE…”

ENTRE O BRANCO
E O NEGRO
Quis esculpir-te
A alma
Na flor que,
Num acaso,
Encontrei
Perdida
No jardim
Da minha vida...

ATRÁS DE TI,
Ou em fuga
(Já nem sei...),
Gastara
Todas as cores do
Arco-íris
Que tinha
Guardadas
Dentro de mim.

SOBRARA
Uma marmórea
Pedra negra,
Espelho oracular
Onde me via
Escuro na alma
Por falta
De cores
Exuberantes
Que me protegessem
Do frio glacial
Da tua ausência
Nas longas
Intermitências
E contrapontos
Da nossa melodia.

SOPREI FORTE
Com a alma
Desnuda
E a flor
Pousou suavemente
Na pedra
Lisa e brilhante
Da catedral
Onde te ia
Celebrar...

ESCULPI-TE
Como filigrana
De ouro preto
Sobre branco-pérola,
Aurífice da tua
Alma sedutora
No coração
Alvoraçado
Dessa flor
Onde guardei
O teu nome
Gravado em letras 
Invisíveis.

CRIEI PARA TI
Alvas incrustações
Em filigrana
Como marcas
Indeléveis
Da arte
Que um dia
Me visitou
Para celebrar
A beleza
Do teu rosto.

E, AGORA,
A olhar para
O branco e o negro
Desse cântico
Desenhado
E esculpido
Ofereço-te
Este poema
Sobre pintura
Imaculada
Onde te celebro
Com beleza
Minimal,
Na cor
E na forma,
Sem fronteiras,
E onde
Te reinvento
Em fuga...
---------------
Um elegante
Fio branco
Que esvoaça,
Livre,
No marmóreo céu
Do teu altar.

A ÂNCORA,
A sul,
Desliza
Suavemente
Sobre ti
E dilui-se,
Como eu,
Na negra vastidão...

EVOCO-TE, ASSIM,
A branco e negro
Sobre a flor
Que um dia
Encontrei
Perdida
No meu jardim
Encantado
Quando visitava
O impossível...
.................
À tua procura...
Travertino com veiosRecorte

Bianco&Nero. Detalhe.

 

 

 

 

 

 

Poesia-Pintura

ESTOU A PERDER-TE…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Jardim das Memórias”.
Original de minha autoria,
com citações de Gustav Klimt (1912).
Janeiro de 2020.
UmaCasaNoJardim_3_1006PublicadaCOR3Cop

“Jardim das Memórias”. Jas. 01-2020

POEMA – “ESTOU A PERDER-TE…”

ESTOU A PERDER-TE
Meu amor,
O estro
Com que te canto
Esmorece,
Vai perdendo
Lentamente
O seu fulgor,
O poema
Empalidece
E eu,
Em poética anemia,
Sinto um doce
E sonolento
Torpor.

SUBI CONTIGO
AO MONTE,
 Ao meu jardim
Encantado,
Com as cores
Que tu me deste
Eu aprendi a cantar
Contigo sempre
A meu lado.

CANTEI
A TUA PARTIDA
Quando desceste
O vale,
Mas, triste e
Sem destino,
Por veredas
Caminhei
Com saudades
Do jardim
Que contigo
Cultivei.

PERDIDO
DE TI,
Vagueei
No monte
À procura
De eco
Do meu canto
Derramado,
Mas o eco
Era silêncio
Profundo
Sob o azul
Irreal
Da abóbada
Celeste
Desse monte
Seminal.

UMA TRISTEZA
PROFUNDA
Tomou conta
De mim,
Desmaiou
A emoção
De te ver
Ou inventar
Com as cores
Do meu jardim
Porque um silêncio
Cortante
Sufocava,
Impenitente,
O eco
Dessa canção...

TAMBÉM EU DESCI
O VALE
Da minha vida
E regressei
À triste
Monotonia
Sem teu rosto
Desenhado,
Semente
Em gestação
De cada palavra
Que verso
No poema
Em construção
Nesse jardim 
Encantado...

ESTOU A PERDER-TE,
É poética
Anemia,
Sinto vazio
No peito,
O estro já escasseia
E vacila
A melodia...

O CÂNTICO
É murmúrio
Inaudível
De alma ferida,
Sem comoção,
Que nem dor
Ela já sente
De tão gasta
Nesta vida
Por excesso
De paixão.

O VALE
ESPERA-ME,
Sinto-me vazio
De ti
Porque
Não chegam sinais
Da rua do
Desencontro
Nem das fugas
Irreais
Para o teu
Infinito,
Janelas
De onde te veja
Dobrar
As esquinas
Esquecidas
Do nosso
Contentamento.

ESTOU A PERDER-TE,
AMOR,
Não há janela,
Nem cor,
Não há tempo
Nem lugar,
Não há poema
Nem mar
Que suspenda
O vazio
De não poder
Navegar
Nas águas
Desse teu rio...
....................
Eu perdi-te,
Meu amor?
UmaCasaNoJardim_3_1006PublicadaCOR3CopR

“Jardim das Memórias”. Detalhe.