Poesia-Pintura

“O POETA-PINTOR”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Amanhecer”.
Original de minha autoria
para este poema.
Dezembro de 2019.
MulherNaJanela141219

“Amanhecer”. Jas. 12-2019

POEMA – “O POETA-PINTOR

O POETA BRINCAVA
Com suas palavras,
Cantava-te sempre
Quando não estavas...

ERA UM POETA,
Era fingidor,
Não te desenhava,
Cantava-te
A cor.

E AS SUAS CORES
Eram só poemas,
Fazia pincel
Da sua caneta,
Enquanto poeta
As letras riscava,
Mas a sua tinta
Já não era preta...
................
Escolheu a cor,
Pintou a palavra.

POR ISSO COMPROU
Um belo pincel
E como pintor
Pintava, pintava,
Era a granel
E a sua tela
Que ele adorava
Já não era só
O velho papel.

DESCOBRIU A COR,
Que o fascinou:
Dourado, vermelho
E tanto amarelo.
Tudo ele pintou,
Procurando sempre
O que era belo.

ATÉ QUE O ENCONTROU
Na cor dos
Teus olhos,
Era luz da pura
Que iluminava
O novo papel
Onde desenhou
O teu fino rosto
Com o seu pincel.

DEU CORPO À COR
Com que te dizia,
As suas palavras
Tornaram-se riscos...
......................
Mais que poesia.

PINTAVA-TE ASSIM.
Os poemas
Já não lhe chegavam,
Pintor de palavras
De cor as compunha
E versos voavam
No azul do céu...
.....................
“E o que tu fazias
Faço agora eu”,
Dissera-lhe um dia,
“Porque sou poeta
Mas também pintor.
Deixaste-me só,
Entregue à palavra
E, eu,
Tão pobre de ti,
Pintei-me de dor".

"MAS EU FAÇO DELA
O meu arco-íris
Pra subir ao céu
A ver se t’encontro
Atrás duma cor
Pintando o teu rosto
Para um poema
Que vou escrever
Com todas as cores
Que trago comigo
Enquanto viver”.

O POETA BRINCAVA
Mas era tão séria
Essa brincadeira!
Perdido em palavras,
Encontrou a cor
Que nos seus poemas
Dela fez bandeira...

MulherNaJanela141219R

“Amanhecer”. Detalhe.

Poesia-Pintura

NÃO DOBRES A ESQUINA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Variações”. 
Original de minha autoria.
Dezembro de 2019.
Jas_Nãodobresaesquina

“Variações”. Jas. 12-2019

POEMA – “NÃO DOBRES A ESQUINA…”

AH, ACREDITA,
Já nem sei
Quantos fazes...
................
A ti conto-te
E canto-te
Ao minuto
De tão rápido ser
O dobrar da
Esquina,
O regresso
Fatal
Ao lugar
De onde nunca
Sais,
Desde menina...

UM DIA DISSE
(Lembras-te?):
“ - Esquece a infância,
Pára e ouve
O silêncio
Que espreita
Para te desvendar
O mistério da
Vida!
Dir-te-á:
Nunca regresses
Ao sítio onde já
Não estás.”

MAS TU NUNCA
PÁRAS,
Na louca correria
Para fora de ti
(Os lugares do costume)
Em busca do
Esquecimento
Reparador...

E EU A OLHAR
Para o tempo
Quando o tempo
Já é pouco
E a saber que
Te hei-de sempre
Reinventar
Com os fios 
Soltos 
Da memória...

MAS O DIA
Em que renovas
O contrato
Contigo mesma
Representa
(Acredita)
Um recomeço
Para o reencontro
Com o silêncio...
..................
E, uma vez mais,
Ele acaba
Esquecido
Nos aplausos
Vibrantes
E calorosos
Com que todos
Te celebram...
.............
Por fora!

ACORDA,
Meu amor,
Porque o silêncio
Quer falar-te
De celebração
Da alma,
Da tua relação
Íntima com o
Mundo,
Antes da queda
Na rotina
Dos enganos!

DESPERTA,
Que o passado
Se escreve a partir
Do futuro
Que antecipas
Cada ano
Quando renasces
A caminho da
Última fronteira...

PORQUE HÁ, SIM, 
Um derradeiro
Espelho vital
Onde revemos
O passado
Que construímos
Sobre as ruínas
Do presente...
............
Sabias?

AH, SIM,
Mesmo que não saibas,
No dia da celebração
O silêncio
Espera-te sempre
À esquina
Das tuas ruínas
Na mais profunda
Solidão...

NÃO DOBRES,
Em fuga,
Essa esquina.
Escuta-o, nesse dia.
Talvez seja
A tua salvação...
Jas_NãodobresaesquinaR

Variações. Detalhe.

ENSAIO

 

A ARTE, O ARTISTA E OS OUTROS

DIÁLOGO COM FERNANDO PESSOA 
E MARGUERITE YOURCENAR

João de Almeida Santos

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“Ballerina III”. Jas. 12-2019

 

O TEXTO DE MARGUERITE YOURCENAR

Cruzei-me com um pequeno subcapítulo de «Le temps, ce grand sculpteur», de Marguerite Yourcenar, «II – Sixtine – Gherardo Perini» (Paris, Gallimard, 2015 – obra de 1983), e parti para uma nova reflexão acerca da minha experiência com a arte, na óptica do autor, e em profunda e sentida convergência com estas duas grandes figuras da literatura mundial, Pessoa e Yourcenar. 

Um excerto do texto de Yourcenar:

«L'amour d'un être est un présent si inattendu, et si peu mérité, 
que nous devons toujours nous étonner qu'on ne nous le reprenne pas 
plus tôt. Je ne suis pas inquiet de ceux que tu ne connais pas 
encore, mais vers lesquels tu vas et qui t'attendent peut-être: 
celui qu'ils connaitront sera différent de celui que je crus 
connaître, et que je m'imagine aimer. On ne possède personne (ceux 
qui pèchent même n'y parviennent pas) et l'art étant la seule 
possession véritable, il s'agit moins de s'emparer d'un être que 
de le recréer. 
Gherardo, ne te méprends pas sur mes larmes: il vaut mieux que ceux 
que nous aimons s'en aillent, lorsqu'il nous est encore loisible de 
les pleurer. Si tu restais, peut-être ta présence, en s'y 
superposant, eut affaibli l'image que je tiens à conserver d'elle. 
De même que tes vêtements ne sont que l'enveloppe de ton corps, 
tu n'es plus pour moi que l'enveloppe de l'autre, que j'ai dégagé 
de toi, et qui te survivra. Gherardo, tu es maintenant plus beau 
que toi-même. 
On ne possède eternellement que les amis qu’on a laissés»*.

 O TEXTO DE FERNANDO PESSOA

“Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência”. “Possuir é ser possuído, e portanto perder-se”. “A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos”. “Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio” (Pessoa, F., Livro do Desassossego, Porto, Assírio e Alvim, 2015, p. 238).

CRIAR A PARTIR DE UM INTERVALO…

O meu interesse súbito pelo texto «Sixtine – Gherardo Perini», evidente para quem tem seguido o meu percurso poético, deve-se também à posição ideal em que me coloco no processo de construção da narrativa poética, na dialéctica entre o texto e o real. Sim, narrativa, porque se trata, sempre, de uma narrativa, nem que seja de um instante vivido ou de uma impressão fugaz. O que me acontece com frequência. No meu processo criativo procuro, pois, contar sempre uma história, mais do que desenhar fragmentos impressivos do que sinto no momento em que escrevo, confundindo-os com palavras com poder performativo. Tenho sempre bem presente a frase da Isak Dinesen, que pratico: «all sorrows can be borne if you put them into a story or tell a story about them». Li esta frase pela primera vez num livro da Hannah Arendt, «The Human Condition». Precisamente. E adoptei-a, até pelo seu efeito terapêutico. E a poesia, pelo seu poder altamente performativo, age, de facto, sobre o autor ainda mais profundamente do que a narrativa romanesca, através dos seus personagens. Também já tive essa experiência, ao passar de uma para a outra, do romance para a poesia, quando o terminei e fiquei órfão das personagens, nostálgico e melancólico (Via dei Portoghesi, Lisboa, Parsifal, 2019). Ou seja, concretizando mais, o meu interesse por este texto da Yourcenar deve-se ao valor que atribuo a esse intervalo de onde me ponho a observar a minha própria relação com o mundo e com os outros, um autêntico espaço intermédio de onde se vê quer os bastidores quer o palco… da vida. (No texto, a relação é entre Michelangelo e Gherardo Perini, mas do que se trata é de um discurso sobre a arte, a beleza e o amor). Olho, pois, para esta relação, metodologicamente, como se estivesse já a olhar para uma obra de arte «in nuce», um quadro, uma fotografia, um passo de bailado, a partir da qual posso esculpir um texto ou um desenho, sempre indiscretos, pelo que me é dado observar, em especial se o observado for eu próprio. O «eu» como meio de arte para o poeta ou o pintor, desnudado como modelo às mãos do artista: «Je te vois nu. J’ai le don de voir, a travers le vêtement, le rayonnement du corps, et c’est de cette façon, je pense, que les saints voient les âmes». Isto diz a Yourcenar. Pintar-me com palavras, riscos ou cores, olhando o espelho onde se projecta a minha alma em acção, de algum modo comprometida  com o mundo, com os outros. Um pouco mais do que o que Pessoa queria, pois, a ele, na arte, a sua relação efectiva com o mundo não interessava mais do que o seu «quadro», a sua representação; de resto, ele até amava somente «com o olhar, e nem (sequer) com a fantasia» (Livro do Desassossego, edição citada, p. 424). Uma função que era desempenhada por uma espécie de espelho virtual onde ele se reconhecia e onde projectava a imagem do real que idealizava. Falo do Bernardo Soares, claro. Visão, pois, instrumental do sentimento ao serviço da arte. «Saber interpor-se constantemente entre si próprio e as coisas é o mais alto grau de sabedoria e prudência» – eis como Pessoa interpreta a posição de sageza e de prudência no relacionamento com o mundo, sobretudo quando a relação se localiza na arte.  Ninguém ama alguém – ama tão-só a ideia que se faz de alguém.  

AMAR POR PALAVRAS…

Medito, pois, a este propósito, nas divagações do Bernardo Soares no «Livro do Desassossego», onde sobressai a ideia que aqui vamos encontrar. Em palavras simples: a criação artística é suscitada pelo real, como não podia deixar de ser, como pulsão (meramente mecânica), estímulo e impressão sensorial (simples registo descomprometido), conhecendo, depois, um desenvolvimento autónomo, autopoiético, que segue as suas próprias leis, a sua dinâmica e a sua linguagem. Isto na óptica do radical Bernardo Soares, que não é exactamente a minha, mais comprometida com a dor e arredores, porque os arredores também são importantes, embora não tanto como diz Pessoa, falando do amor: “Não o amor, mas os arredores é que vale a pena…”.

Os filósofos dizem: uma coisa é a génese, outra é a validade. São esferas que pertencem a planos diferentes. Até o título de uma importante obra de Juergen Habermas, de 1992, alude a isto: «Faktizitaet und Geltung» – facticidade e validade, o concreto e a forma, o singular e o universal, o empírico e a lógica, a variável e o sistema. E quando o texto ganha forma, então, a impressão genética original torna-se remota, perde pregnância, passa a ser um simples elemento (residual) do sistema, por este «sobredeterminado», para usar o interessante conceito do Althusser do “Pour Marx”. Deste modo, o poeta ama, pois, mais com a palavra e na palavra do que com a pulsão e na pulsão. A performatividade da poesia é isto: toca e troca o real por palavras, por uma polissemia colorida e auto-suficiente, às vezes em tons escuros. E o pintor ama com o olhar, na cor e nos traços.

Há como que uma distância originária ou matricial entre o artista e o real, a que Pessoa chama renúncia e a que a Yourcenar responde com a ideia de que a verdadeira posse (a referência é sempre o real, claro) só é possível através da recriação artística. «Nunca amamos alguém », diz Pessoa. «Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém» (2015: 125) e «possuir é perder », mas «sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência», mantendo, pois, a distância necessária, ou seja, colocando-se num intervalo entre si e o ser amado ou esteticamente desejado.  Mas possuir é ser também possuído, logo, é perder a liberdade para recriar, porque se ficou cativo. Isto até faz lembrar o passarinho do Vinicius de Moraes, que teve de ir embora (“some-te daqui”) porque já não havia poeta, mas um homem feliz, talvez possuído pelo amor. Pois a Pessoa – para poder continuar a poetar – só interessava o real em forma de retrato ou representação para a recriação e, como bom dissidente da vida (2015: 120), não gostava de tocar na realidade sequer com a ponta dos dedos (2015: 246). 

Mas a Yourcenar também diz, aqui, na interlocução com Gherardo: «On ne possède personne (ceux qui pèchent même n’y parviennent pas) et l’art étant la seule possession véritable, il s’agit moins de s’emparer d’un être que de le recréer ». Só se possui com a arte, recriando, ao ponto de o ser amado, em arte, ser mais belo do que o modelo real: «Gherardo tu es maintenant plus beau que toi même». Aqui está: a transfiguração pela arte, a elevação, a imobilização da alma, como diria Yourcenar, ou a cristallisation, como gostava de dizer Stendhal, em particular no «De l’Amour» (1822), escrito, julgo, para se resgatar dessa intensa paixão pela Matilde Viscontini Dembowski, que não o quis. Ou, então, Pessoa: «os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor » (2015: 55). É a distância de que nos fala: saber interpor-se entre si e as coisas é a verdadeira sabedoria. Segredo da arte. Colocar-se num intervalo criativo, algo especular, sem se deixar sucumbir à força dessa “doença da alma” de que fala o Stendhal de “De l’Amour”. Diria eu, glosando o poeta: se não te tenho (possuo), ninguém pode roubar-te (2015: 209), porque tu já vives dentro de mim, confundida comigo próprio e com a ideia que tenho de ti. E provavelmente essa já nem és tu, mas sim o que me sobrou de ti quando partiste e te chorei, antes que te gastasses numa qualquer rotina.

A ARTE É A SOBRA DO QUE SE TEVE?

Yourcenar é dura no seu juízo acerca da imortalidade pela arte: se houver de imortalizar pela arte um amor não podemos deixar que esse ser se esgote na quotidianeidade, que se gaste, se consuma. É melhor que os que amamos partam enquanto for possível chorar a sua perda ou partida, pois a sua continuação acabaria por enfraquecer a imagem que temos deles, gastando-se e tornando-se imprópria para a arte – partida e a perda que provocam dor, esse alimento inesgotável da poesia! E essa, sim, é a autêntica  realidade que interessa ao artista-amante: o outro, o que está para além da aparência, da roupagem com que se cobre, do quotidiano sofrido, da presença que desgasta e que é preciso “imobilizar” a tempo, a partir da sua nudez, o ponto de partida necessário para a recriação, tal como «os santos vêem as almas», diria Yourcenar. Este sobreviverá ao outro que já partiu, o que deixou um rasto de si, como se tivesse partido sem ter esgotado a relação com o (re)criador. E por aqui entra a ideia de renúncia, ligada à ideia de ausência, de privação, quer em Yourcenar quer em Pessoa: «sou a ponte de passagem entre o que não tenho e o que não quero »; «a renúncia é a libertação”; “não querer é poder » (2015: 209, 140). E creio que se, para Yourcenar, a arte exprime realmente «o que sobrou do que (o artista) teve», porque não deixou que se esgotasse na sua presença, para Pessoa ela «exprime o que (o artista) não tem» (2015: 207), porque, no seu caso, não quer tocar a realidade sequer com a ponta dos dedos. Para Yourcenar a renúncia é a não-posse, a ausência e a partida, necessárias como condições para a (re)criação artística.

Gosto desta sugestão do Pessoa: fazer arte com o que sobrou do que se teve, sem, afinal, se ter tido. Fazer arte com o que resta do que, tão-somente, se pôde olhar. Processo que para Yourcenar exigiria um pouco mais: o que sobrou de alguém que se teve, mas que partiu. E o que sobrou foi o que o artista viu nesse alguém quando presente, bem diferente do que outros nele verão e que não será certamente o mesmo. «Tu m’as lié, et tu me délies», porque «tu ne m’aimes plus». Mas eu fiquei com o que de melhor vi em ti, diz. Era este que amava, não o outro que partiu, esse que já não será o mesmo que foi para si e que será outro para outros. Não o perdeu, apesar de não o possuir, porque, afinal, o recriou. É esse, o que sobrou dele, que será objecto de poemas, de narrativas, de pintura, de arte. É esse que será imortalizado pela arte: «Et c’est de la même façon que j’immobiliserai ton âme», que te sobreviverá. É esse, sim, que será «imobilizado» ou «cristalizado». E eu sinto que isso pode ser verdade, num plano onde a pragmática terá pouco a dizer e a fazer, sujeita que está ao declínio dos corpos. «Um dia, eu senti isso e nasci para a arte», diria o poeta, desabafando com alguém. 

O que julgou conhecer e crê amar – assim definia Yourcenar a relação amorosa e artística, um pouco menos radical do que Pessoa, que achava mesmo impossível conhecer o outro, sabendo que nem a si próprio conhecia. Por isso, o artista Pessoa é mais o que cria o que não teve, porque nele a renúncia é rainha, do que o que criou com o que lhe sobrou do que teve. E este é o artista da Marguerite Yourcenar. E eu, nisso, sinto-me duplamente mais perto dela do que de Pessoa.

A ARTE É SOLIDÃO

A solidão é outra das dimensões que os acomuna: «les choses purement belles sont solitaires come la douleur de l’homme», dizia Yourcenar. Lá onde parece que a comunhão de destinos funda o amor e a beleza, verifica-se que não é assim, que a arte é amiga da solidão, pois os que amamos e nos amam nos vão deixando «insensivelmente a cada instante que passa». O que fica, o que persiste é o que é extraído («dégagé») em presença e recriado em ausência. E só isso é eterno, o que sobrou: «on ne possède eternellement que les amis qu’on a laissés». Ou seja, a autêntica posse dá-se em ausência, logo, em solidão, ficando, pois, confinada numa recriação que outra coisa não é senão transfiguração pela arte. Este processo, na poesia, talvez seja mais real do que no romance porque a transfiguração nela é mais viva, intensa e indeterminada (sem limites), precisamente como na linguagem viva do sentimento, da emoção ou da pulsão. A performatividade da poesia talvez seja, de facto, muito superior à do romance.

EM SUMA,

É esta mesma dinâmica que eu julgo que move a minha poesia, talvez no registo de ambos, Pessoa e Marguerite, e das referências ausentes (que, para mim, são decisivas), pois parto da ideia de que tive sem ter e de que crio para preservar e elevar o que sobrou do que tive, sem ter tido. Na verdade, tive com o olhar e com a alma e porque me apoderei do que isso para mim representava e significava, da essência que extraí («que j’ai degagé de toi», para usar as palavras da Yourcenar) de quem estava à minha frente, do que não possuí a não ser como energia para me elevar pela arte, soprando-o para a eternidade, por mais efémera que realmente essa possa vir a ser. Eternidade efémera – um oxímoro de que gosto -, porque ela não existe se não houver um rosto, sempre efémero porque sujeito à lei do tempo, mesmo em arte. Lembro-me bem da famosa carta do Pessoa a um retrato de mulher casada. Até a reinventei no romance “Via dei Portoghesi”. Nela é possível juntar, em pensamento sobre a posse, Yourcenar e Pessoa, aos quais me associo por humilde afinidade de pensamento e de intuição e por confessada admiração, sem me esquecer das sábias palavras da Isak Dinesen, oportunamente relembradas por Hannah Arendt, que sabia bem do que se tratava. 

______________

* “O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco 
merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais 
cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, 
ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que 
eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer
e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o 
conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o 
que importa é recriar um ser e não prendê-lo. Gherardo, não te 
enganes sobre as minha lágrimas: vale mais que os que amamos 
partam quando ainda conseguimos chorá-los. Se ficasses, talvez 
atua presença, ao sobrepor-se-lhe, enfraquecesse a imagem que me 
importa conservar dela. Tal como as tuas vestes não são mais que 
o invólucro do teu corpo, assim tu também não és mais para mim 
do que o invólucro de um outro que extraí de ti e que te vai 
sobreviver. Gherardo, tu és agora mais belo que tu mesmo. 
Só se possui eternamente os amigos de quem nos separamos”.

 

Poesia-Pintura

AS PALAVRAS SÃO OÁSIS…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Oásis”. Original
de minha autoria para este
poema. Dezembro de 2019.
OasisFinal30

“Oásis”. Jas. 12-2019

POEMA – “AS PALAVRAS SÃO OÁSIS…”

PORQUE NÃO TE DÁS
Um pouco,
Meu amor?
A minha
Sede de ti
É tão grande
Como a dor
Do dia
Em que, no fim,
Te perdi.

PENSA NO DESERTO
E no oásis
Que o suspende
De tão longo
E árido ser
O caminhar
Sobre areia
Escaldante
Na procura
Infindável
De te alcançar
Como amante...

OS MEUS LÁBIOS,
Áridos de ti,
Não se saciam
Com uma gota
De água
Ou o aflorar
Da seiva
Exausta
Do meu caule,
Gasto de tanto
Te esperar...
.................
Mas quando falam
(O pouco que te 
Falam)
Humedecem,
Porque as palavras
Pousam neles,
São oásis
Verdejantes
No imenso deserto
De um amor
Em longa
Despedida...

E QUANDO CHEGO
Ao fim,
À última estrofe
Do teu poema,
Já sei
Que tenho de retomar
O arenoso caminho
Do canto 
Em solidão...

OS OÁSIS
São parte do deserto
Que atravessamos
Na nossa vida,
São bátegas
Que banham
A alma ressequida
De tanto
Clamar por uma
Saída
Nesse mar de areia
Em que o viver
Se tornou.

MAS TU
Nem gotículas
Me dás
Quando clamo
Por ti
Na miragem
Do deserto...

O QUE TALVEZ
Não saibas
(Ou sabes
Em demasia?)
É que a vida
É mais
Deserto do que
Oásis,
Mais areia do que
Gotículas
Que brilham
Ao sol ardente...
.................
E que os lagos
E as fontes
Onde refrescamos
A alma
São pura
Alucinação
Que nos deixa
Mais entregues
Ao silêncio...
...................
E à fria solidão.

AH, QUE FALTA SINTO
Da tua fonte
A jorrar
Cores vivas
Sobre mim,
Das bebedeiras
De palavras
Sobre ti,
Da densa neblina
No deserto
A coar o sol que
Me bate no peito
Onde mais te sinto.

IMAGINO-TE, ENTÃO,
Como meu oásis,
Chuva no deserto
Sobre esta minha pele
Seca e encrespada...
.....................
Mas bem sei
Que não passa de
Alucinação!

PORQUE HÃO-DE SER ASSIM
As nossas vidas,
Sem gotículas
Que banhem
O nosso corpo
Por falta de alma
Que as acolha?

O QUE ME SALVA,
Meu amor,
É este oásis
Verdejante
Que construí
Como palco
Para te cantar
Ao entardecer
Da nossa melancolia...
OasisFinal30R

“Oásis”. Detalhe.

Poesia-Pintura

PAIXÃO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Cascata”. Original de minha
autoria para este poema. Reproposição 
(com alterações) de um poema
publicado há três anos, em resposta
a um soneto de Ana de Sousa (09.2016).
Novembro de 2019.
Jas_Cascata241119-Exp.

“Cascata”. Jas. 11-2019

MOTE – SONETO

“Vinde cá meu tão certo Secretário”,
Confirmai meu gosto de espelhar
À Musa que recusa Amor notório
Gritando ao Mundo o que não quero calar!
 
De rosas, de loureiro, de jasmim
De astral, de amargor, de doce fel
As bagas, a folhagem, no jardim
Onde abelhas obreiras fazem mel! 

Dizei o que tanto quero ouvir
Que o que pensais, não quero, não!
Escrevei que meu engenho repetir  

Só quero na rima, mil dores de coração.
Enlace, ponto final, sem remédio é ir
Do próprio veneno provar... em edição.”

POEMA – “PAIXÃO”

ESPELHO MEU,
Espelho meu,
Vês dor mais forte
Do que a minha?
Não sabes que
Sem palavras
Nem tu me salvas,
Rainha?

PROVAR FEL
Em edição?
Tomei-o,
Nestes meus dias.
Castigo
Por afeição,
Derramado
Em poesias,
Palavras ditas
Em vão,
Estreitas sendas
Vazias...

INCAPAZ 
De as trilhar
Fui procurar
Novas vias,
Mas gastas
As encontrei,
Incertas
Em seu destino...
....................
Senti-me um pouco
Estranho
E perdi-me
Do caminho...

DEPOIS VIERAM
Flores...
...................
Tantas vezes disse
"Não!"...
Sempre falhei
Nos amores
E, agora, esta
Paixão!

NEM SEI O QUE
Aconteceu...
Um enigma,
Esse seu rosto!
Vi nele o que
Em mim faltava,
Tropecei,
Fiquei exposto,
Como ferida
Sempre aberta
Ao rubro o seu
Sangrar,
Uma dor que
Quando aperta
Põe palavras
A voar...

PALAVRAS
De vivas cores
Mais fortes que
Oração
Fortalecem-me a alma
Resisto mais
À tensão...

PROVAR FEL
Em edição,
Em poema
Amargurado?
Pois seja esse
O destino
E se foi o meu
Pecado
Será sempre
Desatino
Sofrer assim
Este fado!

TEM SABOR 
De um remédio?
Talvez tenha,
Não duvido,
Só alivia,
Não cura,
É afecto proibido,
Inclinação
Da mais pura
Em que me sinto
Perdido...

JÁ NÃO A VEJO
Nem ouço,
É luz que nasce
De mim,
Se passar
Eu fujo dela,
Procuro-a no meu
Jardim
Como arbusto florido
Sempre ali
À minha frente...
................ 
De ser planta
Robusta
Não tem defeitos
De gente,
É esguia,
Não é gorda,
Tem mil folhas
De cetim,
Espera-me sempre
De pé
Mesmo ao lado do
Jasmim!

É AMOR
Em provação?
Se tem de ser,
Pois que seja,
Lanço versos por
Paixão
Onde quer que
Ela esteja,
Sai de mim 
Esta tensão
Como em cântico
D’igreja
Ou incenso 
Que respiro
E quando m’inunda
Por dentro
É pro céu
Que eu me viro.

PROVAR FEL
Em edição?
É enlace
Do mais puro,
Resulta 
Duma paixão,
Intensa 
Neste poema
E bela como 
Canção,
Mas abraço 
Sem futuro!
Jas_Cascata22-Exp.Rec

“Cascata”. Detalhe.

Poesia

PAIXÃO

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Cascata”. Original 
de minha autoria para este poema. 
Reproposição (com alterações) 
de um poema publicado há três anos, 
em resposta a um soneto de Ana de Sousa. 
Novembro de 2019.
Jas_Cascata22-Exp.

“Cascata”. JAS. 11.2019

MOTE - SONETO sobre a poesia 
de JOÃO DE ALMEIDA SANTOS

“Vinde cá meu tão certo Secretário”, 
Confirmai meu gosto de espelhar 
À Musa que recusa Amor notório 
Gritando ao Mundo o que não quero calar!  

De rosas, de loureiro, de jasmim 
De astral, de amargor, de doce fel 
As bagas, a folhagem, no jardim 
Onde abelhas obreiras fazem mel!  

Dizei o que tanto quero ouvir 
Que o que pensais, não quero, não! 
Escrevei que meu engenho repetir 

Só quero na rima, mil dores de coração. 
Enlace, ponto final, sem remédio é ir 
Do próprio veneno provar... em edição.” 
(AdS, 19.09.2016)

POEMA – “PAIXÃO”

ESPELHO MEU,
Espelho meu,
Vês dor mais forte
Do que a minha?
Não sabes que
Sem palavras
Nem tu me salvas,
Rainha?

PROVAR FEL
Em edição?
Tomei-o,
Nestes meus dias.
Castigo
Por afeição,
Derramado
Em poesias,
Palavras ditas
Em vão,
Estreitas sendas
Vazias...

INCAPAZ 
De as trilhar
Fui procurar
Novas vias,
Mas gastas
As encontrei,
Incertas
Em seu destino...
.................
Senti-me um pouco
Estranho
E perdi-me
Do caminho...

DEPOIS VIERAM
Flores...
.................
Tantas vezes disse
"Não!"...
Sempre falhei
Nos amores
E, agora, esta
Paixão!

NEM SEI 
O que aconteceu...
Um enigma,
Esse seu rosto!
Vi nele o que
Em mim faltava,
Tropecei,
Fiquei exposto,
Como ferida
Sempre aberta
Ao rubro o seu
Sangrar,
Uma dor que
Quando aperta
Põe palavras
A voar...

PALAVRAS
De vivas cores
Mais fortes que
Oração
Fortalecem-me a alma
Resisto mais
À tensão...

PROVAR FEL
Em edição,
Em poema
Amargurado?
Pois seja esse
O destino
E se foi o meu
Pecado
Será sempre
Desatino
Sofrer assim
Este fado!

TEM SABOR DE UM
Remédio?
Talvez tenha,
Não duvido,
Só alivia,
Não cura,
É afecto proibido,
Inclinação
Da mais pura
Em que me sinto
Perdido...

JÁ NÃO A VEJO
Nem ouço,
É luz que nasce
De mim,
Se passar
Eu fujo dela,
Procuro-a no meu
Jardim
Como arbusto florido
Sempre ali
À minha frente...
............... 
De ser planta
Robusta
Não tem defeitos
De gente,
É esguia,
Não é gorda,
Tem mil folhas
De cetim,
Espera-me sempre
De pé
Mesmo ao lado do
Jasmim!

PROVAR FEL
Em edição?
Se tem de ser,
Pois que seja
Lanço versos por
Paixão
Onde quer que
Ela esteja,
Sai de mim esta tensão
Como em cântico
D’igreja
Ou incenso que respiro
E quando m’inunda
Por dentro
É pro céu
Que eu me viro.

PROVAR FEL
Em edição?
É enlace
Do mais puro,
Resulta duma paixão,
Intensa no meu poema,
Talvez bela a canção,
Mas abraço sem futuro!
Jas_Cascata22-Exp.-cópia

“Cascata”. Detalhe.

Poesia-Pintura

PARA LEONARD

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração, “Mil Beijos”. Original 
de minha autoria para este Poema,
dedicado a Leonard Cohen (1934-2016). 
Novembro de 2019.
MilBeij2Pub1711.7Experiencia

“Mil Beijos”. Jas. 11-2019

POEMA – “PARA LEONARD”

OUÇO-TE
Como respiro
Com a alma...
E como a sinto!
Vejo-a dançar
Na tua voz rouca
E grave
E, então, aninho-me
No regaço da tua
Melodia
A observar
O seu silêncio...
................
Mas estremeço
Como o rio quando
Entra na foz,
Mar adentro...

É SUAVE O REENCONTRO
Com ela,
Em fluxo submerso,
Como as dobras
Das palavras
Quando se ajeitam
Nas estrofes
Dos meus poemas
Ou os sons
Quentes
Na tua melodia,
Vindos lá do alto
Como ecos
Da montanha
Sagrada.

OUVIR-TE, ÀS VEZES,
Arrepia-me
Porque na tua voz
Acolhedora
Sinto-a
Dentro de mim
A segredar-me
O seu impossível
E sufocado
Silêncio.

E, ENTÃO, DANÇO,
DANÇO
Com a alma
Até ao fim...
.....................
Que nunca mais chega!
E não paro até 
(Já exausto)
Cair em mim...

OS MIL BEIJOS
Que não lhe dei
São, na tua melodia,
Mais profundos
Que as profundezas
Do mar,
Mais intensos
Que mil abraços
À superfície
Do seu corpo...

E ATÉ OS TEUS SORRISOS
Maliciosos
E os gracejos
Inocentes
Me levam
A inventar
Palavras quentes
Como balões coloridos
Que lanço
Ao vento
Que sopra
Na sua alma...

NÃO SOU COMO TU,
Leonard,
Eu esboço sozinho
Tristes canções
Em surdina
Até às lágrimas secas
Que nunca enxugam
Porque não tenho
Voz que chegue
Para a chamar 
Ao poema...
...................
Nem ela me ensinou
A cantar,
Por falta de jeito
E de tempo
Para amar...

MAS CANTAS TU
Por mim e por ela
E, então, ouço-te
Extasiado
Como se fosses
 Oráculo
Onde o silêncio
Partilhado
Se disfarça
De oração
Nos teus sons
E na tua voz
Para me enternecer
Até à emoção.

NÃO ME DESPEÇO,
De ti,
Com um abraço,
Leonard!
Vou continuar
A ouvir-te
Enquanto o silêncio
Me interpelar
No oráculo
Da tua melodia
E por ela sofrer
Dessa melancolia
Que nunca nos abandona,
Seja noite
Ou seja dia...
MilBeij2Pub1711.6Rec

“Mil Beijos”. Detalhe.