A NORMALIZAÇÃO DA DIREITA RADICAL
A propósito de um Ensaio de Luca Manucci
João de Almeida Santos
A PROPÓSITO DA DIREITA RADICAL em Portugal e em Espanha, li com muita atenção e interesse (o tema merece), no Expresso “Ideias”, de 24.04.2026, um ensaio de Luca Manucci, investigador do ICS, sobre “O passado como promessa: quando os media normalizam a direita radical”. O estudo analisa seis jornais (Público, Diário de Notícias Correio da Manhã e El País, El Mundo e ABC). E conclui dizendo que “parte do efeito dos media não se exerce de forma directa sobre as preferências eleitorais, mas através da forma como contribuem para moldar a percepção do passado – e, com ela, a disposição para apoiar estes partidos” (itálico meu) da direita radical (em Portugal, o CHEGA e, em Espanha, o VOX). Registo: “moldar a percepção do passado”. E ainda: “a nostalgia autoritária está fortemente associada ao apoio à direita radical”, funcionando como um “recurso político eficaz, reforçando o seu apoio eleitoral e ampliando a sua base social”.
1.
Poderia começar esta minha reflexão perguntando se foram os media que, moldando “a percepção do passado” e dando expressão à chamada “nostalgia autoritária”, contribuíram para reforçar o apoio eleitoral e para normalizar a direita radical ou se foram os eleitores, cansados de promessas não cumpridas, seduzidos pelo discurso de André Ventura e desejosos de dar um abanão ao sistema, quem a projectou eleitoralmente, através do voto. Mas também é legítima a pergunta: o que vem primeiro, a galinha ou o ovo? A galinha põe o ovo, mas ela nasce de um ovo. Neste caso, há uma relação deste tipo? Não, porque o fenómeno é mais complexo. Por isso não respondo já, mas tomo nota da ideia de que os media (os analisados foram três jornais, em cada país) moldam a percepção do passado e reforçam com isso o apoio eleitoral aos partidos da direita radical. Sendo certo que os media, mas sobretudo a televisão, produzem fortes efeitos eleitorais (disso não tenho dúvidas), a questão é, todavia, complexa, pelo menos a de saber como está configurada e se processa essa influência. O debate sobre isto é muito antigo e eu próprio me debrucei detalhada e longamente sobre ele no meu livro Media e Poder – O poder mediático e a erosão da democracia representativa (Lisboa, Vega, 2012), ficando logo clara no título a conclusão a que chego.
2.
Tratando-se de matéria já muito estudada, achei um pouco estranho que neste ensaio não houvesse qualquer referência precisamente às teorias sobre os efeitos dos media, que existem pelo menos desde os anos ’40 do século passado, com Lazarsfeld e Elihu Katz e a teoria do two-step flow of communication ou até mesmo desde a obra seminal de Gabriel Tarde, nos finais do século XIX, com “As Leis da Imitação” e, um pouco mais tarde, com “L’Opinion et la Foule” (1901); aos estereótipos de que falava Walter Lippmann nos anos vinte do século passado; ou à teoria da tematização, de Niklas Luhmann, convergente com a teoria do agenda-setting. E por aí em diante (veja Santos, 2012: 241-256). Também estranhei que não tenha sido tomada em consideração (é feita uma referência ocasional) a influência que verdadeiramente conta, ou seja, a da televisão e a das redes sociais, mesmo que o alinhamento das televisões retome, em parte, o agendamento da imprensa escrita (e daqui resulte alguma infuência). Mas, sobretudo, o que me parece de difícil compreensão é que não tenha sido considerado aquele que eu considero ser o factor verdadeiramente relevante: o efeito (perverso) de propulsão da polarização da atenção sobre os partidos da direita radical – em Portugal, o CHEGA – provocado pela obsessão da esquerda de pôr, negativa e permanentemente, na agenda pública este partido como se se tratasse de uma ameaça fatal à democracia; partido este, sim, promotor de uma revisitação positiva do passado e noticiada, depois, pelos media, tendo sido até objecto de debate televisivo entre Pacheco Pereira e André Ventura, que, ele sim, conhece muito bem a vantagem que, em qualquer caso, resulta da sua exposição televisiva. O trajecto percorrido por Ventura, que começou com o seu discurso sobre os ciganos, e centrado num discurso permanentemente disruptivo tem resultado como aglutinador quer do discurso crítico de toda a esquerda (mas em parte também do centro-direita – o célebre “não, é não” de Montenegro), colocando-o no centro da atenção social, quer do tabloidismo exacerbado dos media (em particular da televisão), sempre atraídos pelo negativo e pelos comportamentos disruptivos (veja o artigo sobre “Por que razão André Ventura é tão disruptivo” – https://joaodealmeidasantos.com/2023/05/02/artigo-100/; e o meu “El Discurso Populista” – https://revistas.ucm.es/index.php/HICS/article/view/92237). Só mais tarde, e com o CHEGA já com uma consistente dimensão parlamentar, o antigo regime viria a ser mais directamente objecto de particular atenção, mas, na minha opinião, sim, como recurso discursivo disruptivo polarizador de atenção por parte de André Ventura e não como idiossincrasia mediática moldadora de uma determinada visão do passado autoritário. Não me parece que seja possível imputar ao jornalismo português uma qualquer simpatia militante pelo antigo regime. Bem pelo contrário. Direi mesmo que ele não “molda”, mas que, isso sim, agenda em virtude dessa atração fatal pelo negativo e pelos discursos disruptivos. Sobretudo a televisão e, no plano da imprensa, o “Correio da Manhã” (que, todavia, nunca vi particularmente activo nesta matéria). Não cabe aqui entrar no mundo das redes sociais, que existe e cada vez mais com uma forte influência.
3.
Lembro o que diz a teoria dos efeitos “agenda-setting” (de McCombs e Shaw): o que importa não é o tanto conteúdo, mas a polarização da atenção social sobre o tema e o seu efeito de arrastamento para o topo da agenda pública. Vejamos o que disse, em 1963, o precursor desta teoria, Bernard Cohen: a imprensa “pode na maior parte dos casos não ser capaz de sugerir às pessoas o que pensar, mas ela tem um poder surpreendente de sugerir aos leitores sobre o que pensar”. “Sobre o que pensar”: ou seja, o poder de agendar, de pôr na agenda um tema, concentrando a atenção nele (Santos, 2012: 246-248). Mesmo assim, parece-me legítimo perguntar: quem lê hoje o “Diário de Notícias”, um dos três jornais estudados para Portugal? Segundo a APCT, a circulação média paga e impressa deste jornal, em 2025, foi de cerca de 913 jornais e a circulação digital foi, no mesmo ano, de cerca de 761. Que conclusões se pode tirar de uma irrelevância como esta? Não creio, por isso, que a causa causans que se procurava tenha sido claramente detectada neste estudo. Na minha opinião não foi mesmo. E não só pela relativa irrelevância sociológica do objecto de estudo – os três jornais (mas refiro-me sobretudo a Portugal). Mas vejamos melhor o assunto.
4.
Diz-se que os media não foram apenas o espaço onde a direita radical ganhou visibilidade, mas que foram também um dos mecanismos através dos quais essa visibilidade se traduziu em normalização política, moldando a percepção do passado. Claro, não é inócua a narrativa mediática, mas ela própria tem uma génese, uma causa, uma motivação. O que leva os media a agendar um determinado assunto? O que os leva a publicar isto e não aquilo? Nem vale a pena invocar o código ético para explicar a mecânica informativa porque eles não o cumprem (demonstrei isto no meu livro Media e Poder, Lisboa, Vega, 2012).
Também se diz que a chamada “nostalgia autoritária” está fortemente associada ao apoio à direita radical, sendo significativamente mais elevada entre eleitores do VOX e do CHEGA do que entre quaisquer outros grupos políticos do arco parlamentar. Claro, compreende-se e é natural. Mais ainda: longe de penalizar eleitoralmente estes partidos — como durante muito tempo foi assumido —, a ligação ao passado autoritário pode, pelo contrário, funcionar como um recurso político eficaz, reforçando o seu apoio eleitoral e ampliando a sua base social. Mas o que me parece é que a dimensão eleitoral deste recurso fica por provar em três planos: a) que os media (escritos) moldem a percepção; b) que esta percepção se traduza em voto; c) e que esta tradução tenha um valor eleitoral significativo. Pode-se perguntar, mas eu não tenho dúvidas sobre isso, se os cerca de 33% de votos em André Ventura nas presidenciais se deve mais à sua figura e à sua performance discursiva ou à “nostalgia autoritária” de que ele seja o representante. Depois, é minha convicção de que os media portugueses não alinham generalizadamente nesta valorização ou normalização do passado. Este passado não será, bem pelo contrário, valorizado por associação a um discurso sedutor, eficaz e performativo de André Ventura ou a direita radical vale sobretudo porque ela é intérprete da “nostalgia autoritária”? Entre uma coisa e a outra não haverá outros e poderosos factores? A figura carismática do líder e o seu discurso mobilizador (que não se centra na “nostalgia autoritária”), a saturação relativa ao sistema, a crise do custo de vida? Os media, afinal, favorecem a “nostalgia autoritária”? Tendencialmente e do ponto de vista do conteúdo é uma certeza que não. A favorecerem será por a colocarem na agenda, mais ou menos frequentemente, pelas mais variadas razões, mas sobretudo pela atracção fatal do negativo tablóide e pelo dever de pôr na agenda o combate frontal e radical da esquerda contra esta ameaça fatal à democracia. Também porque ela sabe a sangue quente.
A integração de um líder carismático como André Ventura no ecossistema mediático ilustra bem esta normalização. A sua presença em programas de grande audiência, debates políticos e espaços de comentário tornou-se, bem cedo, regular, quase previsível. Mas mais importante do que a presença em si é o enquadramento dessa presença? Não, não é. A lógica mediática contemporânea privilegia frequentemente a espetacularização, a polarização e a frase impactante, o seu poder de polarização da atenção – é o seu discurso disruptivo que interessa. Neste contexto, discursos que antes seriam marginalizados, agora, precisamente por serem controversos e por serem de sujeitos com dimensão significativa política, geram interação. Eles são agendados porque atraem audiência, na lógica do negativismo tablóide, mas também porque atingiram uma representatividade de relevo, com todas as consequências que isso tem para efeitos de comunicação.
E diz-se ainda que os media, não sendo os únicos agentes deste processo, eles são dos mais influentes, precisamente porque operam ao nível da construção de significado. Que a ideia de que os media são apenas espelhos da realidade política é intuitiva, mas incompleta. Que os media não se limitam a reflectir — também moldam. Selecionam temas, definem enquadramentos, estabelecem prioridades. E que o que está em causa não é apenas o sucesso eleitoral de determinados partidos – é a transformação do espaço democrático. E acrescenta-se ainda que quando o passado autoritário deixa de funcionar como limite, passa a estar disponível como argumento. E que quando isso acontece, o campo do possível expande-se: num contexto em que o passado é cada vez mais mobilizado como instrumento político, a forma como esse passado é representado torna-se decisiva porque quando o passado deixa de ser um limite, passa a ser um argumento — e isso transforma profundamente o que uma democracia está disposta a aceitar.
Diz-se tudo isto. Mas não creio que seja exactamente assim – a mobilização do passado como recurso político não é o essencial na acção da direita radical. Por exemplo, central é, sim, e em toda a Europa, a agenda anti-imigração, como recurso político. É só ver o que aconteceu em Itália quando Salvini foi ministro do interior – esra era o discurso que o mobilizava e nas europeias de 2019 duplicou os votos atingindo cerca de 34%. Os media condicionam certamente a agenda pública, isto é, põem no espaço público democrático determinados temas, incluído o tema do passado autoritário, mas quando esse temas são suscitados por algum factor relevante. Mas duvido mesmo que ele seja assumido como “recurso político” e argumento pela direita radical. Não creio mesmo. Lembro os termos em que ocorreu a famosa “Historikerstreit” que aconteceu na Alemanha a propósito do nazismo, do “passado que não quer passar” (a direita procurava explicar, por analogia ou mesmo por causa-efeito relativamente `revolução russa, mas não a propunha como recurso político), mas lembro sobretudo que em Itália o passado fascista já nem sequer é utilizado como argumento ou “recurso político” pelos Fratelli d’Italia, de origem neofascista. Bem pelo contrário, como muito bem saberá Luca Manucci (sobre isto veja o meu “Política e Ideologia na Era do Algoritmo”, onde analiso a evolução dos FdI e a sua distanciação em relação a esse passado – Santos 2024: pp. 101-118).
5.
Os media noticiam, de facto, o que acontece, e, claro, dão visibilidade, seleccionam e comentam. Mas não é a sua narrativa propriamente dita que conta, e sim o poder de agendamento e de polarização da atenção sobre determinados temas e determinados personagens. Que a presença dos actores aumente no espaço mediático à medida que ganham representação política é natural. Mas a sua presença aumenta também quando o seu discurso é altamente disruptivo, crítico do status (e não precisa de ser em nome do passado) e dominado pelo negativo. E um negativo que, neste caso, é, quando estão na oposição, sobre a chamada “podridão” do regime ou do sistema, tal como está configurado. É aí que os media os levam à agenda vista a tendência dominante para a adopção do negativo, o tabloidismo, como orientação que capta audiências. Mas também quando o discurso da direita radical é considerado uma ameaça para a democracia levando as forças de esquerda a tocar a rebate em defesa do território democrático ameaçado. Então, a visibilidade aumenta e, naturalmente, os media dão-lhe um grande espaço noticioso e de comentário. Agora já não é só o discurso disruptivo, é também a polarização provocada por ter sido transformada em inimiga mortal do regime, quase como se fosse força invasora do território democrático nacional. Uma lógica de guerra, de amigo-inimigo, de schmittiana memória. Por outro lado, e como disse, a teoria do “agenda-setting” não valoriza tanto, como o autor parece fazer, os efeitos dos conteúdos cognitivos sobre a cidadania, porque o que mais conta é a polarização da atenção social sobre um determinado tema, ou pessoa, e a sua regular presença no topo da agenda. Veja-se o caso de André Ventura, não do “CHEGA”, mas sobretudo dele, enquanto líder carismático sobre o qual se centram todas as atenções.
6.
“Nostalgia autoritária”? O que é isso? É um recurso político? Que categoria política é esta?Saudades da ditadura? Os muito jovens que votam CHEGA (e são muitos, apesar da última sondagem da Aximage) têm “nostalgia autoritária” da velha ordem, por indução, visto que não a experienciaram directamente? Basta seguir o percurso de André Ventura para compreender como acontece a normalização. Mas nem ele a terá porque não a viveu. A nostalgia é um sentimento e esta resulta da experiência vivida. Talvez um discurso poético tenha poder perfomativo para a tornar activa como experiência. Mas até agora ainda não surgiram, que eu saiba, Gabriele d’Annunzio ou Marinetti portugueses disponíveis para esta nossa direita radical.
7.
Depois de ter ido o ensaio fiquei com uma legítima dúvida: os media, para não induzirem “nostalgia autoritária”, fazendo dele um recurso eficaz, não deviam noticiar, ouvir, entrevistar, falar do antigo regime ou sequer da direita radical? O que o ensaio parece indiciar é um dever de comportamento censório dos media em relação ao passado autoritário e às forças que o representam, de modo a não as normalizar. O que estas forças representam nada significa, a não ser ameaça? Um milhão e setecentos mil votos não devem ser tomados em consideração e noticiados pelo que eles representam e significam? Os media devem ser militantes, fazer “jornalismo advocacy”? Onde fica o seu “código ético”? Devem comportar-se como “contrapoderes”, contrariando a lúcida Recomendação 1003, aprovada por unanimidade, do Conselho da Europa sobre Ética do Jornalismo (de 1993)? O que a democracia deve conter é somente o discurso do centro-esquerda e do centro-direita, cancelando informativamente os extremos, seja à esquerda seja à direita, para que não haja normalização e a democracia não passe a estar mortalmente ameaçada? Na verdade, (e a usarmos este conceito) não há somente “nostalgia autoritária” à direita (radical), também há à esquerda, onde houve e há regimes fortemente autoritários. Mas, a ser assim, estaríamos ainda em democracia representativa? Ou a política acabaria por ficar confinada simplesmente a uma lógica de resistência, onde o adversário se tornaria inimigo? A resposta democrática nunca se poderá traduzir em cancelamento, mas em promoção de boas políticas e de bons argumentos que levem a cidadania a escolher com a razão e não com a emoção, o consenso e não a força, o compromisso e não o conflito, a liberdade e não o cancelamento do adversário. A melhor defesa é o ataque com boas políticas e melhores valores. Isto, sim, ainda que não me pareça que os media escritos, na era do triunfo do audiovisual, da televisão e das redes sociais, tenham o poder de moldar consciências em relação a um passado que tinha mais afinidades com a Idade Média (e veja-se a influência da Action Française e de Maurras sobre Salazar) do que com a modernidade que foi inaugurada com o liberalismo e com o iluminismo. E não creio que a direita radical mobilize, no essencial, a “nostalgia autoritária” na sua acção política. Mobiliza, sim, outros recursos, como por exemplo, a imigração ou o decisionismo e, quando em oposição, a crítica radical ao sistema, considerado corrupto. A evolução do Fratelli d’Italia é, a este respeito, muito elucidativa.
NOTA.
Será que ao fazer e publicar, como ilustração, o Perfil de André Ventura também eu estou a normalizar a direita radical? Ou até que o próprio ensaio de Luca Manucci, ao pô-la na agenda mediática, num importante semanário português, se transforme, inadvertidamente, em normalizador desta direita? JAS@05-2026

