Artigo

A PROPÓSITO DO MANIFESTO DOS 200 MAGNÍFICOS

 

JOÃO DE ALMEIDA DA SANTOS

 

Noite0905

 

AO INIMIGO CONVENCIONAL, representado por quem ameaçava com as armas a integridade de outrem, junta-se agora um novo inimigo invisível que urge combater com as armas da ciência, da solidariedade, da lucidez e da ética da responsabilidade, individual e colectiva. Este encontro entre a ética da responsabilidade individual e a ética da responsabilidade colectiva tem o nome de ética pública porque a esfera pública é, de facto, o lugar de encontro com o outro e com os outros, o lugar de encontro entre convicção e responsabilidade. Falo da ameaça do vírus, claro, e de tantas outras que com ele se hão-de revelar, para além do muito que já revelou. A ameaça do vírus vem juntar-se à ameaça de ruptura do ecossistema. Um problema sistémico, como afirmam os autores do Manifesto. São, pois, muito sérias as ameaças e, por isso, urge tomá-las convenientemente em consideração. Mas como? Apelando mais uma vez aos máximos dirigentes políticos mundiais? Mas se o poder instalado não se reforma, porque é transformista! Lembram-se de “Il Gattopardo”, do Tomasi di Lampedusa (livro) e do Luchino Visconti (filme)? Então, que fazer? Uma “rebelião das massas”, não daquelas de que, em 1930, falava Ortega y Gassett, mas do neopovo da rede?

REGRESSAR À NORMALIDADE?

TALVEZ o único caminho para lá chegar seja uma profunda mudança no modo de conceber e de exercer a política, aquela que depende dos cidadãos, eles, que agora têm nas mãos instrumentos que podem induzir profundas mudanças. O final do Manifesto “Não a um Regresso à Normalidade”, assinado por cerca de 200 personalidades do mundo da arte e da ciência, talvez possa sugerir algo interessante: “A transformação radical que se impõe – a todos os níveis – exige audácia e coragem. Ela não acontecerá sem um empenho massivo e determinado. Para quando as acções? É uma questão de sobrevivência, tal como é uma questão de dignidade e de coerência”. Empenho massivo em acções tendentes a provocar uma mudança de rumo, a resolver um problema que não é circunstancial, mas sistémico – este o tema do Manifesto.

A pandemia servirá de escola. O vírus percorreu rapidamente o mundo e o mundo teve de reagir até à escala individual, micro, com uma mobilização individual e comportamental que não tem precedentes. E isso significa que a mobilização de massa individualmente centrada é possível. Mass self-mobilization, diria, glosando o conceito do (agora) Ministro Castells. Para nos obrigarmos a nós próprios a mudar de vida e, naturalmente, para exigirmos aos máximos responsáveis pela condução dos nossos destinos uma mudança de rumo. É isto possível? Eu creio que sim, desde que a palavra seja obrigar, impedindo o transformismo. Mas para mudar é preciso encontrar uma mundividência estruturada e mobilizadora bem diferente da que os populistas e neopopulistas oferecem como resposta à visível crise do sistema.

A mobilização é possível, sim, há instrumentos para isso, através da rede, das TIC, das redes sociais, das grandes plataformas digitais. Sem dúvida. Mas em torno de que ideias para a política? E quem serão os protagonistas da mudança, nas ideias e na prática?

POLÍTICA

REGRESSANDO a um discurso mais próximo de uma perspectiva reformista, é possível dizer que a crise já nos disse muito sobre o papel social do Estado, agora muito revisitado, a responsabilidade social das empresas e a sua consistência estratégica, a ética da responsabilidade e a sua dimensão comportamental, a ética profissional e a sua dominância sobre o risco iminente, a pregnância de uma verdadeira ética pública.

Eu diria que este tempo de incerteza é o momento certo para revisitar a política e as categorias com que se rege em profundidade. Para a revisitar nas dimensões acima referidas. Personagens que interpretaram com sucesso o seu próprio tempo de vida e que são mundialmente conhecidos e admirados dizem agora que sim, que é tempo de mudar de vida, que não se pode regressar à velha normalidade e às suas categorias. E eu, que não tive o sucesso deles, concordo. E não só porque o vírus nos bateu à porta, mas sobretudo porque os tempos estão maduros para a mudança… ou para a regressão a tempos escuros e de má memória. Mas a mudança para ser mudança tem de bater às portas da política.

Na verdade, a mudança há muito que se anuncia, muito antes de sermos confrontados com este malicioso e veloz vírus. E, todavia, quem decide não só parece que não a quer ver como nem sequer tenta uma manobra transformista. TINA (There Is No Alternative), sim, para eles não há alternativa à política que temos.  Talvez porque são incapazes de a ver, de sair do paradigma em que sempre se moveram e que constitui o seu horizonte possível. Mas também é verdade que há cada vez mais novos aprendizes de feiticeiro, para não dizer inacreditáveis personagens de opereta, que tornam a mudança difícil. Por outro lado, a política tem vindo a ficar cada vez mais reduzida a puro management, à gestão remota dos grandes números da economia, a um discurso “algebrótico” e burocrático sem alma.

ÉTICA PÚBLICA

NA RAIZ do problema está, pois, a política, tout court: a ideia de autogoverno das sociedades e a respectiva ética pública. E, portanto, sobe ao topo da agenda a exigência de cruzar a independência e autonomia individual da classe política com o conhecimento, o saber e a cultura para a boa concepção e gestão política das sociedades, com a necessária síntese entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade e, consequentemente, entre ética profissional e ética pública. Mas há também um velho e grave problema que parece que ninguém que ver: os métodos de pré-selecção da classe política dirigente, onde vale mais a endogamia do que a competência e o saber.

São estes os ingredientes que deverão integrar o exercício da política porque só com eles é possível responder com eficácia aos complexos e enormes desafios que se põem às sociedades, hoje. São estes, mais do que as bases programáticas, que fazem o bom ou o mau tempo na política democrática. Só haverá bons programas se eles assentarem em bons princípios, bons métodos e bons executores. Vão longe os tempos do estruturalismo, onde as pessoas eram simplesmente identificadas com as funções que desempenhavam. E onde a função fazia o órgão. A responsabilidade individual diluía-se na responsabilidade da estrutura. Boas estruturas convertiam maus profissionais em bons dirigentes, ou não? Ou eram elas que, com eles, ruíam? Bem se tem visto, por exemplo, com os banqueiros! O capital humano é, sim, absolutamente decisivo. Afinal, são os seres humanos que constroem as estruturas e, por isso, o que lhes diga directamente respeito é sempre fundamental.

GREED IS NOT GOOD

É VERDADE, mas isso não quer dizer que os indivíduos singulares não se encontrem socialmente inscritos em esferas de maior dimensão e que, por isso, as suas competências e as suas convicções não devam ser também referidas a essas esferas.  Falo do interesse geral e da ética pública por contraposição aos jogos de interesse privado que têm vindo a confiscar cada vez mais a política, através precisamente dos aprendizes de feiticeiro e dos fantoches de serviço. Não é coisa nova e por isso estamos onde estamos. E é mais que certo que o tempo que estamos a viver acabará por revelar ainda com maior nitidez onde estão e o que fazem estes personagens. Muitos, demasiados até, são sobejamente conhecidos porque não escondem a ganância, para não dizer que até a exibem. E não, “greed is (not) good”, caro Fareed Zakaria. Gestores gananciosos que perdem milhões e que, depois, se atribuem milhões como prémio de gestão não é ganância boa, é roubo. E nem sequer já é possível dizer que privado é bom simplesmente porque é privado (embora também seja), visto que nas tempestades o socorro acaba sempre por vir do lado público, do Estado, dos bolsos de contribuintes a quem, em tempos de bonança, é dito para se arredarem do management, isto é, da política pura e dura.

É por tudo isto que, mais uma vez, a política deve intervir a partir da ética pública para defesa do interesse geral. Os que defendem que a política se deve reduzir ao management são, afinal, os mesmos que se servem instrumentalmente do Estado para enriquecer, expulsando a ética pública e o interesse geral da gestão política. Por isso, creio que chegou o tempo de dar uma volta a tudo isto, repensando radicalmente a política com novas categorias e cartografias e recentrando aquilo que sempre foi a sua matriz originária. É neste sentido que me associo ao apelo de tantas personalidades que, em abaixo-assinado, apelam a que mudemos de vida. E, para isso, antes dos programas, é preciso recomeçar a partir de nós mesmos e, em particular, dos que têm responsabilidade políticas.

CONCLUSÃO

TERMINO como comecei. Sim, mas para mudar, que fazer? Como? Fazer um apelo aos líderes mundiais, a todos? É como não o fazer a nenhum. Bem pelo contrário, seria preciso ir para essas grandes plataformas digitais interpelar os concorrentes a concretas eleições, tomando posição em cada caso concreto. Mas ir com ideias precisas sobre o que é preciso mudar, dizendo-lhes claramente que essa será a medida do voto de milhões de eleitores. Hoje isto é possível e desejável, graças à rede, até porque o velho establishment mediático continua a ser, não contrapoder, como erradamente reivindica, mas a outra face da moeda do poder. Na experiência das campanhas de Barack Obama a plataforma Moveon.org desempenhou um papel crucial. E de lá para cá o poder da rede aumentou consideravelmente, a ponto de, em Portugal, durante este período que vivemos, o ensino ter ficado literalmente a decorrer nas plataformas digitais e em rede. Sim, também acho que não devemos regressar à velha normalidade, como antes, afinal, já não achava, ou seja, quando a normalidade se transformou em realidade sem alternativa. Já vimos bem como acabaram os arautos do TINA. #

Poesia-Pintura

É ASSIM QUE EU TE VEJO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Uma Mulher”.
Original de minha autoria
para este poema. Maio de 2020
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“Uma Mulher”. Jas. 05-2020

POEMA – “É ASSIM QUE EU TE VEJO”

DESDE SEMPRE
Que te guardo
No meu peito.
Fixei-te melhor
Naquele dia
E guardei-te
Na memória
Profunda
Quando te vi
Perdida,
Por encanto,
A ouvir
Essa nossa
Melodia.

UM BRILHO QUIETO
Em teus olhos,
Suspensa
Nas nuvens,
A suave paixão
Maternal,
Inefável,
Quando as palavras
Já não chegam
Para te nomear
Com a alma,
De tão cheia
De ti,
A transbordar...

A MINHA AUSÊNCIA
Constante
E tão cortante,
O preço
Para ser
O que mais querias
Que fosse,
Fazia crescer
Em ti
O encantamento
Que tinhas
Contigo
Desde aquele dia,
Quando te nasci
E tu renasceste
Comigo.

AQUI SEMPRE
A meu lado,
Este rosto
Sedutor
Nunca me 
Despertara
O desejo
De o cantar
Para além da 
Memória
Remota 
Do afecto...

PALAVRAS
E melodia,
O olhar
Penetrante
Da alma,
Um canto
Devotado
Que tocasse
Em cada dia
As fronteiras
Intangíveis
Do sagrado.

FOI PRECISO
Aprender 
Os ofícios
Da arte
Pra te poder 
Celebrar
E dizer 
De todas as formas
Que sei
O que não quero
Calar.

E AQUI ESTOU.
Esse dia
Haveria de
Chegar.
E chegou.
JasFioriperte-cópia

“Flores do Meu Jardim Encantado”.

Poesia-Pintura

MARMELADA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Dança da Combustão”.
Original de minha autoria
para este poema. Maio de 2020.
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“A Dança da Combustão”. Jas. 05-2020.

POEMA – “MARMELADA”

COMO GOSTO
Da tua marmelada,
Meu amor...
...........
E gosto de
Chocolates,
Dos que me
Sabem a ti,
A esse tão doce
Sabor.

GOSTO DA METAFÍSICA
De confeitaria
Porque me adoça
A alma,
É nela que eu te
Encontro,
Nesta minha 
Fantasia,
Quando a noite
Se faz calma.

SOU GULOSO,
Como sabes,
E como é doce
E macia
Esta tua marmelada,
Sinto-a
Como alquimia,
Como arte
De uma fada.

COMO, COMO,
Sem parar,
Sabe-me
Sempre a ti,
Ao brilho
Do teu olhar,
Ao perfume 
Do teu corpo,
Onde hei-de
Naufragar.

NESTA TUA
MARMELADA,
Eu vejo-te
Artesanal,
Com os marmelos
Nas mãos,
Sabores
Em harmonia,
Uma receita fatal,
Polpa moldada
Por ti
Na dança
Da combustão,
Cor intensa
E profunda,
Iguaria
De convento
Com teus frutos
Em fusão.

TALVEZ A TENHAS
Criado
Em tempo
De quietude
Ou mesmo de
Solidão,
Quando esvaece
Esse lado
Tão agreste
E tão crispado
Que te esconde
A beleza
Dos momentos
De paixão...

AH, A MARMELADA,
A metafísica,
Chocolates,
Confeitaria...
..............
A doçura
Do teu jeito
Vai ficar-me
Sempre viva
Como suave
Suspiro
Que se solta
Do meu peito...
...............
Por essa tua
Magia...
Combustão030520_FimRec

“A Dança da Combustão”. Detalhe.

Poesia-Pintura

TRÊS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Geometria”.
Original de minha autoria.
Abril de 2020.
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“Geometria”. Jas. 04-2020

POEMA – “TRÊS”

SINTO TRÊS VEZES
A tua falta
Na sofrida
Solidão
Onde encerro
O que não tenho
No Monte,
Oráculo
Desta minha
Invocação.

TRÊS VEZES
Eu sinto
O teu silêncio,
Na ausência
Do teu rosto
E do som
Da tua voz,
Do aroma
Do teu corpo...
................
Minha foz.

ATÉ A ALMA
Escasseia...
...............
Não lhe sinto
Pulsação,
Desmaiada
Sobre mim,
Inerte
Nestes meus braços,
Uma carícia
Sem fim...

TEU SILÊNCIO
Cai pesado
Sobre a minha
Solidão,
Meteorito
Na alma,
Inaudível
Colisão.

SOBRA-ME,
De ti,
O nome,
Rasto da tua
Passagem
Na rua
Que já foi minha,
É nela que eu
Te sonho
E te pressinto
Como deusa
Nas noites
Do meu luar
E te canto
Em poemas
Onde os nomes
São metáforas
E sem limite
O poder
De nomear.

EU SINTO
A tua falta
Três vezes
De cada vez.
É falta a mais,
Eu bem sei,
Mas o número
Perfeito
É o três.

ABRAÇO
O número
Da perfeição,
Desenho
Triângulos
Em liberdade
Até que os sinta
Vibrar,
Instrumentos
Musicais
Que dão voz
À minha dor
Na exacta
Geometria
De teus breves
 Rituais.

 NELES OUÇO
A tua melodia
Como eco
Desse nome
Que no sonho
Invoquei,
Dou início
Ao poema
Pra te sussurrar
Baixinho
A história
Que sonhei.
Geometria29R

“Geometria”. Detalhe.

Poesia-Pintura

ALMA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – “S/Título”.
Original de minha
autoria para este poema.  
Abril de 2020.
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“S/Título”. Jas. 04-2020

POEMA – “ALMA”

SE QUISESSE
A tua alma
Como anjo
Do pecado,
Que farias
Do teu corpo
Que eu sonho
Imaculado?

SE O TEU CORPO
Pedisse
O poeta
Apaixonado
Não lhe darias
A alma,
Tributo do teu
Secreto
Pecado?

MAS EU QUERO
A tua alma
Mais do que quero
O teu corpo,
Do que de ti
Eu mais gosto,
Porque é ela
Que me fala
No brilho
Desses teus
Olhos,
No veludo
Do teu rosto.

ÀS VEZES
(Eu pressinto)
Abandonas-te
Ao ritmo
Encantatório
Das palavras
Que te lanço,
Da melodia que
Embala,
Da beleza
Do meu pranto
No poema
Que te fala.

É DIFERENTE
O meu encontro
Com teu rosto
Tão macio,
O brilho do teu
Olhar...
.................
Ou com sulcos
Tão crispados,
Espelho
Da tua alma,
Quando roubam
O encanto
Desse sorriso
Esboçado
De quem constrói
O futuro
Nas ruínas
Do passado.

O QUE EU
Procuro em ti,
É o lado
Desta minha
Perdição,
A beleza
Dos teus olhos
Onde te fala
A alma,
Onde cresce
Cada dia
Uma incontida
Paixão.

TALVEZ O TEU
SILÊNCIO,
Linguagem
Em forma pura,
Me seduza
E me cative
Na fronteira
De uma dor...
...............
Que com poesia
Se cura.
Jas_S:TituloFim1904R

“S/Título”. Detalhe.

Artigo

 

Narrativas da Crise – 2

Diagnóstico do Nosso Tempo

João de Almeida Santos

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Chakra. Jas. 01-2029

Tomo de empréstimo este título de 
um escrito de Karl Mannheim para propor 
algumas reflexões sobre o tempo 
que estamos a viver. E começo por dizer 
que ao reler a versão italiana 
de um livro de Zygmunt Bauman, de 1999, 
curiosamente intitulado, nesta versão, 
"La solitudine del cittadino globale” 
(mas na versão em inglês é 
“In search of politics”), 
parei logo nas primeiras páginas, 
pela exuberância 
e actualidade de dois conceitos por 
ele utilizados. Bauman referia-se a 
Pierre Bourdieu e à sua distinção 
entre um “uso cínico” e um “uso clínico” 
da razão e do conhecimento  (do modo 
como funcionam os mecanismos 
sociais complexos). 

“Uso Cínico” e “Uso Clínico” da Razão

  1. O uso cínico é aquele que se serve do conhecimento para fins de utilidade exclusivamente pessoal, não importa como seja a sociedade, justa ou injusta, solidária ou não. O uso clínico é aquele que se serve do conhecimento para, em comunidade, combater o que é errado, nocivo ou lesivo do nosso sentido moral. Um visa a pura utilidade pessoal; o outro visa a terapia do que vai mal na sociedade. Um é de natureza subjectiva e auto-referencial; o outro é de natureza comunitária ou societária.

Que estranha antecipação destes tempos o uso destes conceitos, a sua semiótica. Cínico versus clínico, em tempos de pandemia. Vem mesmo a propósito. Do ponto de vista da União, e a propósito da pandemia, houve países que tentaram até ao fim das reuniões do Eurogrupo fazer um uso cínico do conhecimento e do poder (em particular os Países Baixos, para onde têm fiscalmente migrado importantes grupos económicos) e outros que fizeram e propuseram um seu uso clínico (os do Sul do continente), acabando por obter uma vitória relativa. Mas até foi necessário ameaçar com o fim da União para se chegar a um fundo de 540 mil milhões comunitários para combater a crise. Ufa, que alívio! Parabéns ao Ministro Centeno. Não são propriamente eurobonds ou dívida mutualizada, mas anda lá perto. Também não são uma mão cheia de nada, como afirmam alguns. Tinha de ser ou seria o fim da EU. Ficamos agora a aguardar as medidas para a crise económica que aí virá.

  1. Fui, como sempre faço, ver a etimologia grega de ambos os conceitos. A do primeiro (“cínico”) remete para as palavras gregas kyôn (kynós) e kynikós – cão e canino. E remete também para a chamada filosofia cínica, de que foi fundador Antístenes. Em poucas palavras, o ideal desta filosofia era a autárkeia, a auto-referência e a recusa do nomos societal, numa certa oposição entre natureza e sociedade, entre privado e público, com apologia do primeiro termo. A do segundo (“clínico”) remete para klinikós – doente, o médico que visita o doente na cama, clínico. E é claro que esta etimologia remete para uma relação social, a que se estabelece entre o médico e o doente.

Não deixa de ser curioso – e por isso me detive neste livro de Zygmunt Bauman – que esta contraposição entre os amigos do “cada um por si”, os “cínicos”, e os que reivindicam a primazia da comunidade, os “clínicos”, assuma, já antes da pandemia, com Bourdieu e, depois, com Bauman, esta curiosa e estranha dimensão semiótica. A posição de Bauman é clara sobre esta dicotomia. Está do lado do “uso clínico”: a liberdade individual só pode ser o produto de um empenho colectivo se não quiser conhecer gravíssimos efeitos iatrogénicos: pobreza de massa, desemprego e medo generalizado. As palavras não são neutras e daí o uso da expressão “uso clínico” e “iatrogenia”, em tempos de pandemia e de busca de terapias para os problemas, que, numa primeira fase, serão de natureza médica, numa segunda fase, de natureza económica e, sempre, de natureza social, e para os quais será preciso encontrar também terapias correctas, através de um “uso clínico” da razão e do conhecimento acerca do funcionamento da sociedade.

  1. E o que nesta crise é curioso é que a auto-referência, a autárkeia seja condição para impedir a contaminação colectiva. O que até parece ser um triunfo dos cínicos, dos utilitaristas sobre os clínicos: preserva-te a ti porque assim preservarás toda a sociedade. Simples, não é, caro Watson? Mas não, não é assim tão simples. E sabem porquê? Porque a garantia de salvaguarda de todos e de cada um está centrada na comunidade. Num exército de operadores de saúde que constituem a garantia última da tua sobrevivência. Um exército comandado pelo poder político, ou seja, pela sociedade. A garantia está, portanto, no “uso clínico” do conhecimento, da razão e do poder. E, de facto, se é a comunidade dos operadores de saúde que está na linha da frente, quem comanda todo o dispositivo de guerra é o governo, não só do ponto de vista operacional, mas também do ponto de vista dos recursos. E sendo também certo que, num plano macro, a maior garantia dada pela União foi para o colectivo, que é a Nação (240 mil milhões), a segunda foi para outro colectivo que é a empresa (200 mil milhões) e que só a última foi para ao singulares (100 mil milhões). Mas, sim, também para estes vai uma garantia da Comunidade.

Afinal, há sociedade ou não?

  1. Esta pandemia é, pois, muito esclarecedora para a política. Tão esclarecedora que até levou um discípulo de Hayek e da Thatcher a dizer que, afinal, sempre há uma coisa a que podemos chamar sociedade. Se um não sabia o que é a justiça social (Hayek) e a outra dizia que não havia sociedade (Thatcher), mas só indivíduos, agora, indo em sentido oposto ao que seguiu o “cínico” discípulo de Sócrates, Antístenes, e o seu sucessor Diógenes de Sinope, Boris Johnson (que a comunidade médica o salve, é o meu desejo), aprendendo depressa (com os gregos?), recuperou a ideia de sociedade e a imprescindibilidade do “uso clínico” da razão e do conhecimento. Para um classicista como Boris Johnson talvez a filosofia cínica já não ocupe hoje um lugar tão central no seu pensamento. E nem sei se, hoje, com o que a vida já lhe ensinou, lá no fundo não pensará, se tal lhe fosse possível, que a ideia de uma sociedade maior, a União Europeia, seria, de facto, a melhor defesa para o combate a este insidioso inimigo. Não sei, não!
  2. A questão é profunda e tem a ver não só com o sentido da vida, mas também com o contexto em que ela é vivida: do íntimo ao social. É certo que todos estamos a experimentar, em medida relativa, um certo eremitismo com o recolhimento a que fomos forçados pelo poder invisível de um vírus ameaçador pelo seu poder intrusivo. Fomos obrigados à defensiva para podermos sair vitoriosos perante a ofensiva do inimigo. O Clausewitz de “Vom Kriege” ensina: a defensiva é superior à ofensiva. É nesta trincheira defensiva que estamos a viver, só nos sendo permitido saídas furtivas para não sermos alvejados pelo inimigo, que avançou de forma avalassadora no terreno, aumentando o número de vítimas e criando mais dificuldades logísticas aos que estão na frente de combate, apesar de numa lógica defensiva. Numa “guerra de movimento” que certamente se irá transformar numa “guerra de posição”, para usar os conceitos de Gramsci.

“L’enfer c’est les autres”?

  1. Este confinamento leva-nos a pensar em nós próprios e muito nos outros. Os que nos podem devolver o contágio. “L’enfer c’est les autres”, como dizia o Jean-Paul Sartre, no Huis Clos, de 1943-44, em plena guerra? Não creio. Os outros também somos nós, porque a imagem nos é devolvida precisamente pela sociedade (pelo outro), para onde se escoam rapidamente os nossos próprios actos.  E que nos chegam, depois, devolvidos como consequência. Observo e julgo – sou observado e sou julgado. Portanto, se “l’enfer c’est les autres”, então o inferno também somos nós próprios (para os outros). A sociedade como um jogo de espelhos.

Mas não terá tudo isto efeitos sobre o que seremos num futuro próximo? Bem sei que, enquanto humana natureza, o nosso ritmo evolutivo é lento e que, por isso, não haverá uma revolução na nossa relação com nós próprios, com os outros e com a natureza. Mas também creio que uma correcta interpretação do que está a acontecer poderá constituir-se como a nova narrativa de forças políticas que queiram afirmar-se como alternativa aos que sempre disseram e dizem “TINA!”, “There Is No Alternative”. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, porque o que eu sei é que a mudança só poderá ser por via de uma política culta, sim, culta e civilizacionalmente preparada. E é aqui que reside o problema e talvez a solução.

Espanto

  1. Por isso mesmo, confesso-me literalmente chocado com o que aconteceu. E não é pela gravidade do facto. Confesso-me chocado sobretudo pela impreparação dos centros de poder mundial, da política, dos serviços de informação, dos laboratórios altamente sofisticados, das Universidades no topo dos rankings mundiais… terem ali à frente dos olhos a tragédia de Wuhan durante tanto tempo e não terem sequer reagido à gravidade do fenómeno. Bem pelo contrário, fazendo jus ao politicamente correcto, terem-se exclusivamente preocupado em trazer os seus cidadãos da cidade sem saberem realmente do que se tratava. Vamos à Lua ou a Marte, mas não sabemos o que se passa aqui ao lado, em Wuhan. Tudo estes poderes vêem, com drones ou sem drones, com satélites ou sem satélites, com serviços de inteligência ou sem serviços de inteligência… e não se aperceberam do que se passava em Wuhan, apesar das mensagens dos corajosos Fang Bin ou dos Chen Qiuschi. Dá a sensação de que somos governados, em todas estas frentes, por imbecis burocratas (passe a redundância) e de a competência residir mais no preenchimento de formulários e na elaboração de receitas fiscais do que na leitura pública do real para uma acção prospectiva.

Não será preciso mais Europa e melhor Política?

  1. Chega-nos agora a notícia de que os USA injectam 3.9 biliões de euros na economia (Governo + Reserva Federal). Têm uma população de cerca de 330 milhões de habitantes. A EU tem 450 milhões e, depois de reuniões esfarrapadas, vai injectar 540 mil milhões de euros, a que se somam 750 mil milhões do BCE, num total de 1, 29 biliões de euros, como fundo financeiro para apoio a nações, empresas e indivíduos. Isto diz tudo acerca do estado da União em período de grave crise sanitária e económica: os USA com menos habitantes injectam na economia o triplo dos recursos financeiros. E muito mais diz quando países que sempre foram profundamente europeístas admitiram, pela primeira vez, pôr a União em causa  se não fosse encontrada uma solução solidária.
  2. Os nacionalistas e os populistas, sobretudo os identitários, esses sim, que sempre rejeitaram a União, voltam a achar que tudo é pouco. Que a União não presta porque dá pouco. Nunca a quiseram, mas acham que devia dar mais. Chegam, impantes, ao espaço público (de onde não saem) e dizem que a União não presta porque dá pouco: uma mão vazia e outra cheia de nada. Eu também acho que é pouco, mas a pergunta simples é esta: e se não houvesse União?
  3. A crise é grave, terá efeitos económicos devastadores, mas não creio que muito mude, porque serão sempre os mesmos a gerir os recursos de combate à crise. Especialistas em explorar as situações de crise, onde circula muito dinheiro com controlo menos apertado e abundam as razões solidárias para reivindicar. A política também não mudará porque estão lá os mesmos de sempre. Onde há burgessos a mais. E interesses privados a cavalgarem o interesse público. Falta de visão estratégica. Os mesmos mecanismos de selecção orgânica das classes dirigentes. A endogamia de sempre. Os entraves burocráticos que tudo atrofiam.

Em suma

E, todavia, há ingredientes suficientes para que as forças do progresso possam retirar lições e promover uma mudança profunda, sabendo-se que ela, afinal, há muito estava inscrita na natureza das coisas. Será? Importa evitar que reste apenas um rasto de destruição com os mesmos de sempre a enriqueceram brutalmente com a crise, com os recursos usados para a debelar. Não estou muito optimista, mas acredito que poderá haver um sobressalto na cidadania que obrigue a política a regenerar-se e a dotar-se de meios que a ponham ao nível mais dos desafios de hoje do que dos interesses de ontem. Há muito por onde começar. Ou a União Europeia não começou precisamente quando recomeçou a reconstrução estratégica da Europa, no pós-guerra, logo a seguir ao Plano Marshall?

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Chakra. Detalhe.

Poesia-Pintura

VOAR

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Pássaro de Fogo”.
Original de minha autoria
sobre desenho de Vera Sousa.
Abril de 2020.
Uccello12

“Pássaro de Fogo”. Jas. 04-2020.

POEMA – “VOAR”

APETECE-ME VOAR
Sobre o teu silêncio,
Confinado que estou
Entre paredes
De um subtil
E incerto afecto
Que me vai capturando
Pela sedução
De uma ausência
Insinuada...

AH, MAS EU SEI
Que estas paredes
São do tamanho
Da minha fantasia
E que o voo,
Livre como é,
Não terminará
Até que te sinta
Pulsar finalmente
Dentro de mim...

E SEI TAMBÉM
Que as minhas asas
Terão sempre
As cores
Do arco-íris
Para com elas
Voar
Sobre o vale da
Tua vida,
Montado num
Pássaro de Fogo.

VER-TE-EI 
Lá de cima
Caminhar distraída,
Perdida
Nas encruzilhadas
Que vais criando
No sendeiro inóspito
Da tua vida
E lançar-te-ei
Âncoras coloridas
Que dêem mais luz
À incerteza
Que te vai na alma.

E AGORA,
Que o pintei,
Já tenho um
Mensageiro
Que te levará,
Com o vento
(Ou num
Inesperado
E feliz reencontro
De palavras),
As cores
Com que, docemente,
Te vou pintando
E as deixará
No parapeito
Da tua janela.

MAS NÃO PRECISARÁS
De abri-la
De par em par
Porque ele não
Entrará...
.............
Poderia
Incendiar-te
A fantasia e
Engravidar-te
A alma
Com o fogo
Que levará
Consigo...
Uccello12Rec

“Pássaro de Fogo”. Detalhe.

 

Poesia-Pintura

REGRESSO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Primavera”.
Original de minha autoria
para este poema.
Abril de 2020.
RegressoFinal05LUZ

“Primavera”. Jas. 04-2020

POEMA: “REGRESSO”

ESTÁS TÃO LONGE
E tão perto
Eu te sinto...
.............
Neste tempo
De fronteiras
Eu sofro
O teu silêncio 
Como espinho
Cravado
Da mais brava
 Das roseiras.

MESMO ASSIM,
Mesmo em dor,
Regresso sempre
Ao lugar
Onde eu
Te conheci,
Ao mistério
Do teu rosto,
Quando por ele
Me perdi...

PERDI-ME,SIM,
Mas encontrei
O que julgava
Não ter,
Porque foste
O espelho
Onde me vi
Renascer,
Embora já
Pressentisse
Que por culpa
Do destino
Eu te iria
Perder.

AH, SE SOUBESSE
Onde estás
O vento
Levar-me-ia
Ao parapeito
Da tua incerta
Janela,
Ver a tua
Silhueta,
Partilhar
A solidão,
Sonhar,
Sentir-me
Um passarinho
Aninhado
Docemente
Na palma
Da tua mão,
Sem vontade
De voar...

MAS EU NÃO SEI
Onde estás,
O que fazes,
Com quem andas,
Se trabalhas,
Se viajas,
Se sonhas
E fantasias,
Se não ouves
Ou não lês
Os sinais que
Eu te dou...
..............
Poéticas
Sinfonias
Em pautas
Onde transcrevo
O que de ti
Me ficou.

OH, QUE DESTINO
Me calhou,
Ter-te 
Encontrado
Um dia
Para logo
Te perder
Nos caminhos
Desta vida
Que me levam
A cantar
Esta triste
Melodia
De eterna
Despedida...
RegressoFinal05LUZRec

“Primavera”. Detalhe.

Poesia-Pintura

INVOCAÇÃO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Casas no meu Jardim 
Encantado”. Original de minha 
autoria para este poema. 
Março de 2020. Veja a nota
no final do poema.
Casasnojardim2903Final

“Casas no meu Jardim Encantado”. Jas. 03-2020

POEMA – “INVOCAÇÃO”

QUE SINTAS
 O pulsar
Do poema
No teu peito
Para te ter
No silêncio
De uma casa
Iluminada 
Pelo brilho
Das magnólias
E da luz
Da primavera
Ao lusco-fusco
De um entardecer
...................
É o que mais
Eu desejo de ti.

SE CAÍRES EM SILÊNCIO
Profundo
Para melhor
Ouvir
O meu canto
E sentir o aroma
Das cores
Com que pinto
Para te encher
A alma
De Primavera...
...................
Ah, que feliz
Eu me sinto.

SE SENTIRES
Dentro de ti
O chamamento
Ao poema
E o ritmo do meu
Pulsar
Continuarei
A visitar
O oráculo
E a subir
À montanha
Onde a deusa
Espera
Notícias de ti.

SE O TEU SILÊNCIO
For o eco da
Minha voz,
A dança da melodia
Cantada 
Em surdina
Saberei que
Abraçaste o tempo
À medida de um
Sonho
Revelado
Onde constróis
O futuro...
...............
Reinventando o
Passado.

E SE EU SENTIR
Uma suave
Tristeza
De tanta ausência
Sofrida
E uma doce 
Nostalgia
Da luz 
Desses teus olhos 
Que m'incendeia 
O olhar
Então isso
Quer dizer
Que te amo...
...........
Com a alma
A transbordar...

MAS NÃO SEI...
................
Não sei se
Tudo será
Uma cálida
Fabulação
Pr’alimentar
A sede
Insaciável
De teu corpo
Imaginado
Num poema
Em que sonhei
Ter-te, assim, 
Tão intensamente
Amado...
Casasnojardim2903FinalRec

“Casas no meu Jardim Encantado”. Detalhe.

TALVEZ MOVIDO POR ESTE POEMA, 
tenho, nestes dias, 
frequentado, mais do que o 
habitual, as obras de Nietzsche. 
Transcrevo, pois, aqui dois 
aforismos (161 e 175) 
tirados de “Para além 
do bem e do mal", de 1886:  
1. “os poetas não têm pudor 
das suas aventuras; exploram-nas” 
– os poetas vivem as suas 
experiências íntimas como 
alimento da sua fantasia; 
2. “cada um ama o seu desejo 
e não o objecto desse desejo” – 
o que subsiste é o desejo, 
tudo reside nele e é ele 
que move montanhas.

Este poema remeteu-me para a 
necessidade de ter 
estes aforismos sempre presentes, 
tal como o aforismo 153: 
“o que se faz por amor está 
sempre para além do bem e do mal”. 

E não fosse a conversão interior 
e o desenho estético das suas 
pulsões naturais, 
para além do bem e do mal, 
a dor do poeta 
seria irremediável 
e talvez insuportável.
 
Assim, escreve, pinta 
e segue em frente, 
alheio ao (silencioso) ruído
exterior que ameaça 
perturbá-lo. 

O Nietzsche está mais perto 
da arte do que 
da filosofia. Sinto isso 
na minha própria pele. 
Eu, que não sou Zarathustra: 
“Die Liebe ist die 
Gefahr des Einsamsten” – 
“O amor é o perigo 
do mais solitário” 
(“Assim falou Zarathustra”, 
1883-85, III, Der Wanderer).
JAS#03-2020

 

Artigo

NARRATIVAS DA CRISE

João de Almeida Santos

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O TRONO. Original de minha autoria.

O ARTIGO – “NARRATIVAS DA CRISE”

EU CONCORDO com as restrições 
ditadas pelo 
“estado de emergência” se, 
no essencial, 
o que há a fazer é cortar, 
enquanto é tempo, 
as cadeias de contágio, 
perante um vírus 
altamente contagioso. 
Na verdade, estas restrições 
têm um único objectivo: 
estancar a contaminação.
 
Raciocínio banal que prescinde 
de grandes elaborações 
filosóficas. 

Mas a coisa está a 
provocar debate 
entre os juristas: 
a necessidade do estado 
de emergência e as suas 
contradições. 
Alguns ilustres juristas 
já vieram a público 
esmiuçar o assunto. 
Até há quem veja 
nisto um confronto 
dialógico entre 
António Costa e 
Marcelo Rebelo de Sousa 
por interpostos juristas, 
politizando o debate.

 

A DEMOCRACIA ESTÁ SUSPENSA?

Suspendeu-se a democracia temporariamente (onde é que eu já ouvi isto?), não é, senhor constitucionalista? Ou não se trata de uma suspensão, porque a democracia prevê isso mesmo, isto é, auto-suspender-se? Mas não é isto uma contradição em termos? E não é suicídio? Esta suspensão é temporária (logo, não pode ser suicídio) e visa restabelecer as condições necessárias para, a seguir, se viver a vida e a democracia em plenitude, dizem uns. Logo, é autodefesa. Mas não era necessária, dizem outros. É uma suspensão com elementos contraditórios, acrescentam ainda outros. E todos já parece estarem mais preocupados com a filosofia do direito do que com a expansão do vírus. Mesmo assim é bem melhor esta preocupação jurídico-filosófica do que a do excelso Giorgio Agamben a negar a epidemia e a acusar o governo italiano de  querer, a pretexto do COVID-19 (uma normal gripe, diz ele),  querer instaurar um estado de excepção pelo medo: “Parece quase que, esgotado o terrorismo como causa de medidas de exceção, a invenção de uma epidemia possa oferecer o pretexto ideal para ampliá-las além de todo o limite”. A realidade, custe o que custar, tem de confirmar as teses do livro que publicou, em 2003, sobre o “Stato di Eccezione”. De resto, o homem até acha que já vivemos há muito em estado de excepção Mas eu congratulo-me, até às entranhas, com a cacetada monumental que o Paolo Flores d’Arcais lhe deu na MicroMega (ver a nota final). 

Mas, sim, a suspensão até pode ser democrática (está prevista constitucionalmente), mas a situação que resulta da decisão não é. O que não me incomoda muito vista a dimensão e a natureza da ameaça. Na verdade, já os romanos chamavam a isto ditadura (comissária, para usar o conceito do democrata Carl Schmitt) e Maquiavel considerava-a positiva, por ser transitória e não afectar a ordem constitucional (“in diminuzione dello stato” – Opere, 1966, Milano, Mursia, pp. 187-189). Daí ser uma “ditadura comissária” e não uma “ditadura soberana”. A “ditadura comissária” permitia repor a ordem (neste caso, a ordem sanitária) depois de uma fase de grave anomia (sanitária, por via do contágio descontrolado). Também aqui a excepção, ou a emergência, estava prevista. O Cônsul nomeava o ditador sob invocação de “estado de necessidade” (e “necessitas legem no habet”). Lá, em Roma, eram seis meses e o ditador não podia, de facto, alterar a ordem constitucional nem o seu mandato podia durar mais do que o mandato do Cônsul que o tinha nomeado.

Não me parece, pois, que se possa dizer que continuamos a viver em ambiente democrático. Não. A democracia está suspensa porque os seus valores fundamentais estão suspensos (direitos e a separação dos poderes, visto que se verifica de certo modo uma “governamentalização da República”, para o dizer com o inefável Agamben do “Stato di Eccezione”). A começar pelo da liberdade. Como se vê. E se tivéssemos cá um Orbán ou um Salvini, e não um António Costa, a coisa até poderia mudar de figura: seria caso para nos preocuparmos com o futuro, mais do que já estamos. E seria caso para os Agambens da nossa praça se preocuparem realmente. Não me parece, todavia, que haja no ADN do PS o vírus do estado de excepção, com alto poder contagioso interno que vá do Primeiro-Ministro até ao guarda da esquina. Na verdade, trata-se, neste caso sim, de uma governamentalização da República, diria uma vez mais o Agamben, dando-lhe, afinal, uma imagem de normalidade contemporânea (o estado de excepção como “paradigma normal de governo” contemporâneo, segundo o inefável filósofo) em vez de considerar que é realmente uma excepcionalidade, embora prevista constitucionalmente. E, na verdade e neste caso, o “ditador” é, de facto, um governo legítimo, nomeado pelo Cônsul que é o Presidente da República e aprovado pelo Senatus Consultum, o Conselho de Estado e o Parlamento, neste caso. E nem sequer dura seis meses, mas quinze dias (se não for renovado).

A VERDADEIRA RAZÃO

A razão desta excepcionalidade não é, de facto, política (graves perturbações da ordem pública por razões de ordem política). É sanitária e é clara: romper a cadeia de contágio, libertar as forças do SNS para combater os efeitos do vírus, dar assistência aos que já foram atingidos e inverter a tendência.

Bem sei. Mas, para alguns, não era preciso o enquadramento de emergência porque, dizem, o governo já tinha poderes para agir com eficácia. Talvez queiram, com este argumento, salvaguardar a emergência do risco de banalização e os direitos perante uma sua (perigosa?)  captura governativa. Oh, digo eu, que me perdoem os sofistas do constitucionalismo, o que é preciso é impedir a banalização do contágio e garantir o irrenunciável direito à vida. Tenho mais medo do algoz viral do que do Marcelo Rebelo de Sousa ou do António Costa.

O QUE DIZ A NATUREZA?

Mas que a situação é estranha, é. Viremos, então, o bico ao prego.

A velocidade impressionante com que a natureza falou (se for a natureza) sugere-me uma narrativa muito simples. Diz ela, a natureza: ”haveis de parar à força para que eu possa respirar melhor. Vós, para mim, sois um (coroa) vírus porque estais a impedir-me de respirar, a provocar-me uma grave pneumonia. Fui contaminada por vocês, humanos, e se não reagir morro… Eu bem ouvi o representante máximo das vossas nações, António Guterres, avisar que deveriam arrepiar caminho. Não o fizeram e decidi agir pela força. E, já agora, digam ao Bolsonaro que pare com a destruição dos meus pulmões na Amazónia para não ter que reforçar a dose, especialmente no Brasil. Sei que há as favelas e que a punição seria infinitamente mais gravosa. Mas o homem ainda não percebeu que estou a falar e a agir a sério”.

Na verdade, esta parece uma decisão da Natureza sofrida e ditada realmente por um “estado de necessidade” que exige um “estado de excepção”. Questão de sobrevivência da “madre natura”. Por isso, primeiro, mandou-nos uma santa, Greta de seu nome (que logo desapareceu), a avisar, com ar muito, mas mesmo muito, zangado. Depois passou à acção e castigou-nos letalmente, pôs-nos inactivos, paralisou-nos e reduziu a nossa sociabilidade ao mínimo.

Mas quando respirar melhor, a mãe natureza irá deixar-nos livres de novo? Daqui a quando? E nós teremos aprendido a lição? Ou há uma mão humana invisível em tudo isto e um sério risco de ter perdido o controlo do processo, pondo-se (a mão invisível) a si própria em causa, como se pode concluir pela contaminação real de tantos poderosos deste mundo?

A GLOBALIZAÇÃO, A CRISE E A REDE

A globalização é uma importante variável em tudo isto. Ninguém pára. O low cost pôs o mundo em frenesim giratório, cada um transportando-se a si e à sua circunstância. E aumentando de forma insuportável a poluição. Ninguém parava, queria dizer…

Agora emerge também a rede com toda a sua força para reactivar o mundo de outro modo e sem vírus que afecte o corpo (que é um modo de dizer porque ele também existe na rede). Até parece que é a única forma de sociabilidade segura que nos resta! E, de facto, a rede é cada vez mais a sociedade replicada (com vírus e tudo). E terapia contra a solidão, criando comunidades e processos digitais que já produzem realidade… Aqui está a melhor resposta ao Austin do “How to do things with words”. Ou o poder performativo da rede, a força performativa do signo. Transformar as palavras e os signos em actos. E gerar comunidades e sociabilidade digital.

Depois disto, quem continuará a bradar contra o “povo da rede”? É que a escola, neste momento, já só existe na rede. Todos damos e temos aulas através das plataformas digitais. E todos, e cada um, em casa. Se assim continuar iremos ter uma profunda revolução… e não só na educação. O trabalho à distância vai crescer exponencialmente até porque se vai concluir que, afinal, é possível programá-lo com eficácia, de forma generalizada, poupando imensos recursos…

Este pode ser o salto para a mudança definitiva de paradigma.

E DEPOIS DA PANDEMIA?

Quando acabar esta guerra tenho a certeza que vai acontecer o que aconteceu depois da segunda guerra mundial, todos para a rua, a respirar liberdade, a dançar, a cantar, a beber, aparecerão os neo-existencialistas a dizer “primum vivere deinde philosophare” e que “a existência precede a essência”, mesmo quando um novo Plano Marshall – se a União Europeia tiver a coragem e a sabedoria de o fazer – já estiver a ser instalado para reconstruir as cidades destruídas por dentro dos seus alicerces económicos e financeiros e novas oportunidades começarem a ser exploradas…

Tudo isto, sim, mas lá que vamos pagar um elevadíssimo preço, lá isso vamos. Preparem-se.

NOTA

Os textos de Giorgio Agamben e a crítica de Paolo Flores d’Arcais.

  1. (https://www.quodlibet.it/giorgio-agamben-contagio;
  2. http://temi.repubblica.it/micromega-online/filosofia-e-virus-le-farneticazioni-di-giorgio-agamben/;
  3. http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/596584-o-estado-de-excecao-provocado-por-uma-emergencia-imotivada?fbclid=IwAR3KrGdgIp5fQxaeJNVq4463hGQygrtW0-R23-pRACI2mux5AfgOhOzbvYM).
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O Trono. Detalhe.