Artigo

SOBRE O DISCURSO DE ÓDIO NA INTERNET

JOÃO DE ALMEIDA SANTOS

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“Politically Correct”. Jas. 08-2020

A PROPÓSITO DA MONITORIZAÇÃO, através de um 
Observatório sobre o discurso de ódio na Internet 
que o Governo português vai promover, recordo 
um concurso lançado, em 2018, pela União Europeia 
sobre este tema no espaço da União:


Project: OvERlOOk web ObsERvatory 
On Online hate speech
TOPIC: Call for proposals to monitor, 
prevent and counter hate speech online”. 
A chamada fez parte do Rights, Equality 
and Citizenship Programme for the period 
2014 to 2020. Deadline: 11 October 2018. 


E RECORDO também a iniciativa da 
Comissão Europeia e das grandes Plataformas 
da Rede acerca do mesmo assunto:


“The European Comission and the IT Companies 
announce Code of Conduct on illegal 
online hate speech”. 31.05.2016. 
“The Commission together with Facebook, Twitter, 
YouTube and Microsoft (“the IT companies”) 
today unveil a code of conduct that 
includes a series of commitments 
to combat the spread of illegal 
hate speech online in Europe”.

ESTA ATENÇÃO especial não é, pois, nova 
e já foi objecto de iniciativas da 
União Europeia, pelo menos desde 2016. 
Seria bom que o Governo, para começar, 
publicitasse os resultados do Projecto  
Europeu acima referido e também os acordos 
alcançados com estas Grandes Plataformas. 
Seria necessário saber se, no seguimento 
do concurso de 2018, cujos resultados 
foram conhecidos nos inícios de 2019, 
já existe, ou não, um Observatório 
Europeu sobre “Hate Speech”.
É O INÍCIO de um processo de regulação 
básica da comunicação online que, no meu 
entendimento, não interfere com a liberdade 
na rede. Nas eleições para o Parlamento 
Europeu, em 2019, este Código de Conduta 
já fora aplicado com resultados muito 
significativos: a título de exemplo 
demonstrativo da relevância política 
atribuída às fake news e, em geral, à 
 desinformação, a nível político-institucional 
e organizacional, refiro a iniciativa da 
Comissão Europeia 
e das principais plataformas digitais, 
Facebook, Google, Twitter e YouTube, 
citando uma notícia de “El País”: 
“Según el informe de la Comisión, 
Google informó de la retirada 
entre enero y mayo, a nivel mundial, 
de más de tres millones de canales de 
YouTube; Facebook desactivó más de 
dos millones de cuentas falsas en el 
primer trimestre de este año; y Twitter 
verificó si 77 millones de cuentas 
eran reales” (El País, 14.06.20).

A QUESTÃO que se põe tem duas faces:
  1. 1. Se os governos ou a União Europeia podem 
    monitorizar o discurso público e, 
    eventualmente, sancioná-lo, quando agredir 
    os princípios básicos das constituições 
    e dos tratados ou dos seus protocolos.
  2. 2. Se as Universidades podem e devem 
    estudar todos os fenómenos sociais, 
    sem interferências políticas e  
    institucionais sobre os conteúdos.
ESTA ÚLTIMA questão veio à agenda pública 
a propósito de um livro sobre o Chega, 
envolvido em aspectos censórios e militantes. 
Mas a primeira, se for identificada como 
política de apoio e financiamento da investigação 
científica nas Universidades e UI&D,  
 nada tem de censurável. Bem, pelo contrário. 
Eu próprio, que tenho ideias bem firmes 
sobre a democracia e a liberdade, 
tendo lutado por elas durante o regime 
fascista, participei num concurso da UE 
sobre o discurso de ódio nas plataformas 
online, liderado pela Fundação da CGIL, 
a mais importante federação de sindicatos 
italiana, “Fondazione Giuseppe di Vittorio”.

MAS HÁ ALGO de que, decididamente, 
não gosto: polícias do pensamento, 
sejam eles de direita ou de esquerda. 
E eles abundam por aí disfarçados, 
à esquerda, de politicamente correcto 
e de polícias da ética republicana. 
E não gosto porque o combate só pode 
ser um: o discursivo e argumentativo. 
Não se vai lá com abaixo-assinados de 
repulsa pelo que o outro pensa.  
Combate-se, argumentando, não policiando. 
Tenho na minha biblioteca dezenas 
 e dezenas de livros sobre o fascismo, 
o nazismo, o comunismo das mais variadas 
orientações. E comprei-os com dinheiro meu. 
Para estudar e compreender. Para combater 
no pano das ideias. Na verdade, o combate 
mais importante é o da educação para 
a cidadania, para os valores sociais e 
para uma estética como base da 
sociabilidade. Lembro-me sempre das 
 Cartas sobre a Educação Estética do Homem 
("Ueber die aestetische Erziehung des Menschen", 
1794 - que os vigilantes do politicamente 
correcto um dia corrigirão para 
“Cartas sobre a Educação Estética do 
Ser Humano”, exactamente como fizeram 
com a “Declaração Universal dos 
Direitos do Homem”, de 1948, 
e como certamente farão com a "Declaração 
dos Direitos do Homem e do Cidadão", de 1789), 
de Friedrich Schiller, e da sua curiosa 
proposta de um Estado Estético (uma reflexão 
minha sobre este assunto em Santos, J. A. 
Os Intelectuais e o Poder, Lisboa, Fenda, 
1999, pp. 42-51).

EM MATÉRIA de publicações nas redes 
sociais, o critério das grandes plataformas 
é muito menos exigente do que o dos chamados 
“códigos éticos” do jornalismo, claramente 
aceites pela sociedade, mas muito pouco 
praticados pelo jornalismo actual. 
Outra coisa é os governos começarem
 criar autonomamente códigos de conduta. 
Não conheço nenhum código ético de jornalismo 
assinado por um governo democrático, 
mas conheço, sim, um código assinado 
pela Assembleia Parlamentar do Conselho 
da Europa, quanto a mim o melhor código ético 
alguma vez adoptado (Resolução 1003 da 
Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, 
de 01.07. 1993). Os códigos são, de resto, 
coisa antiga, que já vem desde o código 
Harris de 1690, e visam no essencial garantir 
a independência e a correcta gestão do 
bem público informação, ao serviço da cidadania.
 Outra coisa diferente é a de as Universidades 
darem atenção aos discursos que circulam 
na rede ou na comunicação social – 
incluídos os discursos de ódio - com 
o objectivo de os estudarem, enquanto fenómenos 
sociais. Isso, sim, é absolutamente desejável. 
Quanto ao combate, é, claro, legítimo e desejável, 
mas não pode ser feito em nome do politicamente 
correcto e ainda menos em nome 
da ciência (social). Combate-se com argumentos 
e influência social.

NÃO CONHEÇO o livro do autor italiano 
sobre o Chega (li apenas o artigo 
de Marina Costa Lobo, no público de ontem,
e o famoso abaixo-assinado),
mas conheço relativamente bem 
 o discurso deste partido e parece-me 
que há três coisas que devem ser evidenciadas, 
a propósito: a) se este partido é, ou não, nos 
termos da CRP, inconstitucional (nomeadamente 
nos termos do n. 4 do art. 46); b) este partido 
alimenta-se da oposição ao politicamente correcto, 
misturando um populismo anti-sistema com um 
populismo identitário; c) e cresce porque
 está permanentemente no topo da agenda, 
levado pelos vigilantes do politicamente correcto 
(mas, a este respeito, seria aconselhável 
que vissem o que diz a teoria do “agenda-setting”, 
de Maxwell McCombs e Donald Shaw).

EM CONCLUSÃO, é útil e desejável 
que haja um Observatório Europeu, 
liderado por Universidades e por UI&D, 
sobre o discurso de ódio, sobre fake news 
e desinformação,
iniciando um processo de regulação da 
rede (para além do que são já as normas 
legais existentes e aplicáveis ao uso 
do espaço público), fundado essencialmente 
na auto-regulação e na defesa de um 
espaço público respeitador dos princípios 
que constam das Cartas Universais dos 
Direitos Fundamentais. 
O que não é, todavia, desejável 
é o policiamento do pensamento e da 
linguagem nos termos em que os vigilantes 
do politicamente correcto o têm vindo a fazer. 
Sinceramente, eu tenho mais medo dos polícias 
do pensamento e da linguagem do que das 
velhas botas cardadas. Colonizar consciências 
é mais perigoso do que amedrontar corpos.
PoliticallyCorrect1R

“Politically Correct”. Detalhe.

Poesia-Pintura

ESTRANHO, NÃO É?

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Terraço”.
Original de minha autoria
para este poema.
Agosto de 2020.
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“Terraço”. Jas. 08-2020.

POEMA – “ESTRANHO, NÃO É?”

É VULGAR SONHAR-TE
Em ambiente idílico,
Dirás.
Sim, bem sei,
Tu que nada terias
De romântico
Mesmo que eu fosse
Um rei.

MAS, FOI ASSIM
Que te sonhei,
Aqui, onde o céu
Parece um lago
E as grades são,
À vista
Do casario
Que me veste
O olhar,
A minha libertação,
O meu tão cantado
Lar.

É AQUI QUE
Eu te tenho,
É aqui que eu
Te sonho,
Que te canto
E te choro,
É aqui que
Sobrevivo
Porque é aqui
Que te adoro.

PINTO-TE,
  Sabes?
Pinto o lugar
Onde te vejo
E te quero,
Onde mais
Eu já te sinto...
..............
E desespero...

ESTRANHO, NÃO É?
É um sítio
Onde só vives
Sob forma
De arbusto
E te respiro
O perfume,
Adormeço
Ao relento,
Te sonho
Com as estrelas
E viajo
Com o vento...
............
Como lume.

SINTO-TE PERTO
Quando te canto
(Liberto)
E me aprisiono
Na ideia que
De ti eu tenho
E onde mais
Me abandono.

PERCO-ME, SIM,
Nestas cores,
Nestas palavras,
Na minha fantasia,
Enquanto tu
Te perdes
Num silêncio
Programado,
Tal como eu,
Nesta minha
Teimosia,
Meu destino
E triste fado,
Tão sofrida
Nostalgia.

MAS EU ESCREVO
E pinto
Para ti,
Meu amor,
Alimento
(Com dor)
Do teu futuro
Quando olhares
Para trás
E só vires
Este meu canto
(Já tão maduro)
Na tua vida
Porque não foste
Capaz
De manter
A ilusão
Por ti sempre
Prometida...
Terraço0908_2Rec

“Terraço”. Detalhe.

Poesia-Pintura

UM SONHO NO MEU JARDIM

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Jardim Espectral”.
Original de minha autoria para
este poema. Agosto de 2020.

UmSonhonoJardim

“Jardim Espectral”. Jas. 08-2020.

POEMA – “UM SONHO NO MEU JARDIM”

NUMA TARDE QUENTE
De Verão
Adormeci
No meu Jardim
Encantado
À sombra de um
Loureiro
E sonhei,
Pensando em ti,
Que era
Um jardineiro...
...........
Apaixonado.

MAS ERA ESPECTRAL
A luz
Desse jardim,
Era branca,
Irreal,
Algo estranho
Para mim
Neste lugar
Seminal.

SONHEI-TE.
Nesta estranha
Visão
Tudo perdera
Cor,
Tudo era
Ilusão e
Voltou
O que então
Eu senti
Naquela tarde
De outono
Quando
Para sempre
Te perdi...
...........
Uma imensa
Comoção.

NO SONHO,
Já não te vi,
A memória
Perdeu cor,
Mas logo
Te pressenti
Nesse cíclico
Retorno
Da minha
Remota dor.

NÃO ERA
Deste mundo
Esse Jardim,
Perdera
O seu encanto,
O perfume
Já não era
Do inebriante
Jasmim
Nem de outra
Qualquer flor
Que sorrisse
Para mim.

MAS LOGO ACORDEI
Com a brisa fresca
Da noite
No meu Jardim
Encantado
E o sonho branco
E pesado
Logo teve
O seu fim,
Despertando
Uma doce
Nostalgia
Quando o brilho
Das estrelas
Do mais profundo
Do céu
Cobriu
Este meu rosto
De um cintilante
Véu
Como se fosse magia.

UmSonhonoJardimRec

“Jardim Espectral”. Detalhe.

Poesia-Pintura

A FLOR DE PAPEL

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Fleur de Papier en Vol
à la Recherche du Poème Perdu
dans un Jour d’Hiver”.
Original de minha autoria.
Julho de 2020.

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“Une Fleur de Papier en Vol à la Recherche du Poème Perdu dans un Jour d’Hiver”. Jas. 07-2020.

POEMA – “A FLOR DE PAPEL”

NUM DIA DE INVERNO
Uma flor de papel
Voou
Para longe,
Levada pelo vento.
Rajadas fortes
Quebraram
Os subtis
Filamentos
Que a ligavam
À raiz de onde
Nascera...
.............
Seu alento.

CONTINUA A VOAR,
Essa flor de papel,
Ao sabor do vento,
Pousando
Aqui e ali
E logo voando
Para outros
Destinos,
Em perpétuo
Movimento.

PERDEU AS CORES
Luminosas
Que exibia
E a fonte
D’inspiração,
A seiva
De cada dia,
Borboleta
Sem pólen
Para nova
Gestação
No jardim
Da fantasia.

MAS NUM DIA
Quente
De Verão
(Eu bem sabia)
Encontrei-a
Por acaso
Aninhada
Num arbusto,
Recolhida sobre si
Em profunda
Solidão.

PEGUEI-A
Com a mão
E levei-a
Ao Jardim
Do meu poeta
Pintor...
.............
Nosso chão.

DEU-LHE COR,
O meu poeta,
Alisou as suas rugas,
Mostrou-lhe
O horizonte
Nesse dia de
Verão
E logo a deitou
Ao vento,
Ao encontro
De raiz
Que nutrisse
Com sua seiva
Uma nova floração....

JASFleurdePapierFinal26R

“Dans un Jour d’Hiver…”. Jas. 07.2020.

Poesia-Pintura

A TUA VOZ

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Oferta”.
Original de minha autoria
para este poema. Julho de 2020.

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“A Oferta”. Jas. 07-2020.

POEMA – “A TUA VOZ”

OUVI-TE, HOJE
Ao longe,
Sons antigos
E quentes,
Iluminados
À medida
Da fantasia,
Como se o desejo
Fosse tudo,
Mesmo aquilo
Que ter
Eu não podia.

NÃO SABIA
Que me aquecias
Tanto a alma
Só de ouvir
A tua voz
Numa bela tarde
De calma.

DEPOIS VIERAM
Palavras
E consonância,
A tua voz
Soou
Cá muito dentro
De mim,
Como som
De uma harpa
Em melodia
Sem fim.

E QUANTO MAIS
Nos dizíamos
Em valsa lenta
Mais eu te sentia
Como perfume
Sonoro
Na pauta
Do nosso canto,
Som e eco
De um coro
Neste íntimo 
Recanto.

QUASE SENTIA
O calor do 
Teu corpo
Que tantas vezes
Desejei
Como abraço
Em silêncio,
Este cântico
Em surdina
Que para ti
Inventei
Como se fosses...
........ 
Divina.

MAS ENTRE NÓS
Há a barreira
Do tempo
E um muro
No espaço
(Eu bem sei),
Mas parece
Que ensaiamos
“Pas de deux”
Como abraço
Em palco íntimo
Onde contigo 
Dancei.

FAZES-ME FALTA,
É o que sempre
Eu te digo,
Mas resisto
Até que
Campaínhas do
Paraíso
Toquem
No meu Jardim
Encantado,
Poético
Reencontro
Sempre por mim
Desenhado.

MAS HOJE
Eu descobri
Que a tua alma
Oculta e
Silente,
Tão esquecida
De ti
À superfície
Dos dias,
É o que  mais
Aproxima
Quando
Te chamo 
E invoco
Com versos
Em boa rima...

OUVI-TE, HOJE,
Ao longe,
Quando te via
Perdida...
.............
Não te percas
Também tu,
Não te quero
De partida...

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“A Oferta”. Detalhe.

Poesia-Pintura

RITUAIS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Templo Inacabado”.
Original de minha autoria
para este poema. Julho de 2020.

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” Templo Inacabado”, Jas. 07-2020

POEMA – “RITUAIS”

IMAGINEI UM TEMPLO
Revestido de vitrais,
Celebrar-te
Com palavras
Em singelos rituais.

EVOCO
O tempo
Em que sempre
Me perdia
Nesse teu olhar
Esquivo...
...............
E os silêncios
Que sobravam
Como se fossem
Castigo.

É O QUE RESTA
Como alimento
Da alma,
O fervilhar
De memórias,
Inscrições
Sensoriais,
Silêncio
Profundo
A poético
Chamamento...
...............
E tudo o mais...

UM FUTURO IMAGINADO
De voluntário
Amante,
Construído
Nas ruínas
De um passado
Que não é
Muito distante.

SIM, O QUE RESTA
É este brilho
Coado,
Melancólico,
Cinzento,
O negro 
De teus olhos 
Inquietos
E teus cabelos
Fartos,
Ao vento...

TUDO FERVILHA
Na minha sofrida
Memória,
Delicada criação
Em palavras
Com história.

DOU-TE, ASSIM,
 Nova vida
E renovo-me
Também eu,
Falo ao mundo
Comovido
De um templo
Que é só meu.

IMAGINEI-O,
O templo,
Para quando
Regressar
Do meu Jardim
Encantado,
Vibrante de cores
E por fora
Perfumado,
Mas por dentro
Melancólico e
Sofrido
Por te ter,
Nesse tempo
Já passado,
Dolorosamente
Perdido...
.........
De tanto
Te ter amado.

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“Templo Inacabado”. Detalhe.

Poesia-Pintura

DEUSA NO MEU JARDIM ENCANTADO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Sonhei-te assim,
no Poema”.
Original de minha autoria
para este poema. Julho de 2020.
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“Sonhei-te assim, no Poema”. Jas. 07-2020.

POEMA – “DEUSA NO MEU JARDIM ENCANTADO”

SONHEI-TE ASSIM,
Meu amor:
Uma deusa no Jardim.
Não te vendo,
Recrio-te
Com fantasia,
Olhar
Deslumbrado,
Alma
Devotada
Que persiste
Fascinada
Como quando
No passado
Eu te via.

QUE SAUDADES!
Não nos gastámos
Porque partiste
Cedo demais.
Sobrou-me
De ti o melhor,
Quando, ao ver-te,
Estremecia,
Olhos negros,
Inquietos,
Mistério
Que seduzia.

FICOU-ME A VONTADE
De te desvelar
Lentamente
À medida
Do desejo,
De um forte
Encantamento,
Renovada  
Inspiração,
Oráculo e
Devoção
E silente
Chamamento.

ESTA NOITE
Sonhei-te assim,
Amanhã
Eu já não sei,
Os sonhos vão
Lá pra longe
Ou vêm pra muito
Perto,
Noites longas e
Profundas,
Quando o amanhecer
 É incerto.

POR ISSO SONHEI-TE
Hoje,
Pra te contar
O meu sonho
Amanhã,
No dia em que
Mais sinto
Esta minha solidão,
A ausência
E o silêncio
A que respondo
Com poética
Evasão.

PROCURO-TE
Na fantasia,
Nos poemas,
Na pintura,
Nos sonhos
Ou no Jardim
Onde te vejo
Altiva
Aqui bem perto
De mim.

E QUANDO TE OLHO
Vejo o mundo
A partir desse teu
Rosto,
Mais belo
E misterioso,
Mais quente,
Silencioso...

CRESCE A VONTADE,
O estro,
A poesia,
Vejo o futuro
Risonho,
Há uma certa acalmia
Neste mundo
Tão rugoso.

SONHEI-TE
Um dia antes
Do beijo
Que celebro
Com a minha poesia,
Ano após ano,
Ao encontro da raiz
Onde o poeta
Nasceu
Para o canto
Que a dor
Lhe prometeu
Como pura catarsia.
Deusa290620Final0607R

“Sonhei-te assim, no Poema”. Detalhe.

Poesia-Pintura

 

ENCONTRO NO JARDIM

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – “Cai a Noite no Jardim”.
Original de minha autoria
para este poema. Junho de 2020.
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“Cai a Noite no Jardim”. Jas. 06-2020.

POEMA – “ENCONTRO NO JARDIM…”

CAI A NOITE
No jardim
E já nem sei
Se amanheces
Dentro de mim.
Sobras-me
Em incerteza
Nos sonhos
Breves
Em que te encontro
Como se fosse
Eterna
Esta nossa despedida,
A versão já repetida
De um desencontro
Sem fim.

MAS À NOITE
O teu perfume
É mais intenso
No meu Jardim
Encantado,
O silêncio
Mais profundo,
Ouço mais
A tua voz
Cristalina
Ecoar
Na minha alma,
 Vejo o brilho
De teus olhos
Ausentes
Acender magnólias
Brancas
E sinto o vermelho
Das rosas
Incendiar-me
O corpo.

MAS ANOITECE,
Meu amor,
Ah, como anoitece,
Vai-se o sol
E a vibração dos sentidos,
Recomeça a viagem
Para dentro de mim,
Invoco-te
Com a alma
E trago-te
Como pétala às minhas
Palavras,
Olho-te por dentro
Quando a melancolia
Toma conta de mim
Neste cíclico
Anoitecer.

VOU AGORA A CAMINHO
Da noite,
Do sonho,
Do imaginário
Que entra sem pedir
Licença
E me arrasta
Na corrente
Onírica para um
Incerto destino
Onde não sei
Se habitas.

E O AMANHECER
É sempre imprevisível,
As ondas de luz que
Chegam com o sol
Ameaçam
As cores suaves
E quentes
Com que te
Sonho e te pinto
Na minha alma
Nas noites
De luar.

CAI A NOITE NO JARDIM
E anoitece-me
Na alma,
Meu amor!
Anoiteceu2806FinalRec

“Cai a Noite no Jardim”. Detalhe.

Poesia-Pintura

CASTA DIVA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “S/Título”.
Original de minha autoria
para este poema. Junho de 2020

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“S/Título”. Jas. 06-2020.

POEMA – “CASTA DIVA”

SONHEI-TE
Nesta noite de Verão.
Eras casta.
Podias ser
Casta Diva.
Ou não.
Casta, sim,
De onde nasce
O meu vinho,
Milagre
Da natureza,
Sob forma de
Mulher,
Mas serás
Diva também
Se ao poema
Te trouxer.

SONHO-TE
Muitas vezes,
Voo contigo
À procura
Do passado,
Mas nunca eu
Te sonhei
Como casta
Em pecado,
Trepando,
Pela latada,
No meu
Jardim
Encantado.

AH, A LATADA,
Essa sim,
Que um dia
Trepou por ti
Pernada acima
Nesse enlace
Fatal
Onde me nasceu
A rima,
O canto
Que te invoca
Quando me torno
Jogral.

AGORA SONHO-TE
ASSIM,
Mulher-Rufete,
Crescendo
Bem alto
Nas terras
Do meu Jardim...
.................
As voltas que
O mundo dá,
Neste recanto
Encantado
Com aroma
Perfumado
Da ramagem do
Jasmim.

CRESCES-ME
Na alma
Sob a forma de
Enlace,
Mas se agora
És videira
E ontem eras
Jasmim,
Amanhã
Serás arbusto
Mesmo que eu
O não queira
Por seres diva
Para mim.

RufetewomanCORRec

“S/Título”. Detalhe.

Poesia-Pintura

ENTRALAÇA NO MILECO

Poema meta-semântico 
de João de Almeida Santos,
inspirado em Fosco Maraini
e em “Il Lonfo”.
Ilustração: “O Poeta Pós-Semântico”.
Original de minha autoria.
Junho de 2020.
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“O Poeta Pós-Semântico”. Jas. 06-2020.

POEMA – ENTRALAÇA NO MILECO

ENTRALAÇA NO MILECO
O amante introfulado,
É triste o seu olhaco,
Chora lambrolhas
Caídas,
É salustre remolhado
Com carpetas
Retolhidas.

VÍRULA A ANTASIA
Pró lazul do seletaco,
Frassinol de matazia
Quem souber
Do samataco
Que dê voz à atropia.

BIRLA OU SACRÍPOLA?
Lassimodo, pilissul,
Rodo e prandicol,
Vassatu cripandolá
De seu longo
Pirandol.

JOSSÍMULO DO VALANDAL
Valha-me o sacripel
Do símilo ou purandul,
Andaril do pitirol
E sabor d'olandroal...

AH, CRASSIMAL,
Oh, farul do viandel,
Sacrista do sicriló,
Pitirá do bessamel?
Quilosá, ó purissol?
Jas_AutoR210719.2020PPospsdRec

“O Poeta Pós-Semântico”. Detalhe.