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Sobre joaodealmeidasantos1

Professor universitário, escritor, poeta, pintor. Publicou várias dezenas de livros, seus e em co-autoria, de filosofia, política, comunicação, romance, poesia, estética. Foi professor nas universidades de Coimbra, Roma "La Sapienza", Complutense de Madrid e Lusófona (Lisboa e Porto). Publica semanalmente, neste site, ensaios, artigos, poesia e pintura.

Ensaio

A DEMOCRACIA EM REGRESSÃO

A propósito do Relatório V-Dem 2026
e do ensaio de João de Almeida Santos

André Moshe Veríssimo, PhD

“S/Título” – JAS 2026

RESUMO

ESTE ENSAIO lê o Relatório V-Dem 2026 (Democracy Report 2026: Unraveling The Democratic Era?) e o artigo de João de Almeida Santos, «A democracia em regressão» (25 de agosto de 2026), como um duplo sintoma: empírico e hermenêutico. O diagnóstico empírico é conhecido — 92 autocracias contra 87 democracias; 74% da população mundial em regimes autocráticos; somente 7% em democracias liberais; e, nos Estados Unidos, uma queda do Liberal Democracy Index para níveis de 1965 no primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump (Nord et al., 2026; Nord, Good God & Lindberg, 2026). O diagnóstico hermenêutico é outro: a regressão não se reduz a um défice de eleições; opera como desfiguração interna da democracia representativa, pela concentração executiva, pela saturação comunicacional e pela conversão da competição eleitoral em simulacro. Propõe-se o método ADP (anatomia diagnóstica politológica) e a grelha FPP (fundamento, patologia, prognóstico) para articular o cânone liberal-deliberativo (Bobbio, Rawls, Popper, Berlin, Hayek, Aron, Sen, Nussbaum, Habermas) com a patologia da demagogia e com o decisionismo contemporâneo (Schmitt relido à luz do Premierato e da presidência imperial). A tese central, convergente com Santos (2026), é que o Cavalo de Troia da direita radical já não é o golpe clássico, mas a democracia eleitoral na sua versão decisionista e simulacral.

Palavras-chave: autocratização; democracia liberal; democracia eleitoral; decisionismo; esfera pública; V-Dem; demagogia; Habermas; Schmitt; Portugal.

I. EXERGO E FORMULAÇÃO DO PPROBLEMA
"Onde nós vemos uma cadeia 
de acontecimentos, 
ele vê uma única catástrofe, 
que acumula incessantemente 
ruínas sobre ruínas e as lança 
a seus pés. […] Aquilo a 
que chamamos progresso 
é esta tempestade".

Walter Benjamin, Tese IX de 
Sobre o conceito de história 
(1940/2010)
A democracia vive da tensão 
entre facticidade e validade. 
Quando a facticidade do poder 
executivo engole a validade 
dos procedimentos, 
resta o nome da democracia 
e perde-se o seu sentido.

Releitura de Jürgen Habermas, 
Between Facts and Norms (1992/1996)

A imagem benjaminiana do Anjo da História não é aqui ornamento. É o primeiro instrumento clínico. O Relatório V-Dem 2026 descreve uma cadeia de indicadores — liberdade de expressão, constrangimentos legislativos sobre o executivo, igualdade perante a lei, qualidade deliberativa — e o olhar treinado vê, sob a série, uma única catástrofe acumulada: a erosão do liberalismo político no interior de sistemas onde se continua a votar. A tempestade que empurra o anjo para a frente chama-se, no léxico corrente, «progresso eleitoral», «vontade popular» ou «eficiência governativa». No léxico deste ensaio, chama-se decisionismo com expressão constitucional e patológica da esfera pública. João de Almeida Santos (2026) formula o problema com uma clareza que importa não diluir. Há regressão da democracia representativa; os Estados Unidos são o caso-limite reconhecível até por quem «nada entende de política»; o segundo mandato de Trump pode resumir-se, com o V-Dem, como «rápida e agressiva concentração de poderes na presidência»; a distinção entre democracia liberal e democracia eleitoral é fulcral; e a direita radical aprendeu a conviver com eleições desde que controle a comunicação pública e desequilibre os poderes a favor do executivo. O presente texto não substitui o artigo de Santos: densifica-o. Lê-o como kerygma politológico — anúncio que interrompe — e submete-o à anatomia clínico-hermética e à hermenêutica estrutural. A condição contemporânea de liquiditatis structuralis torna esta leitura urgente. O poder flui por regimes de visibilidade e de invisibilidade; a representação satura-se; o sujeito político é constituído e destituído em circuitos de reconhecimento provisório. Sem um método que separe fundamento, patologia e prognóstico, a denúncia da regressão dissolve-se em polarização — precisamente o meio em que a demagogia prospera.

II. NOTA METODOLÓGICA: ADP E GRELHA FPP
1. Anatomia Diagnóstica Politológica (ADP)

O método ADP recusa duas tentações simétricas: o moralismo que grita «fascismo» a cada desvio; e o procedimentalismo que declara saudável tudo o que ainda conta votos. A anatomia é clínica porque trata o regime como corpo histórico — com funções, lesões, compensações e prognóstico. É hermética não no sentido de ocultismo, mas no sentido de uma leitura que recusa a superfície autoevidente da representação: o visível eleitoral pode ocultar o invisível institucional. É politológica porque o seu objecto é o nexo entre poder, direito, comunicação e sujeito. A ADP procede em quatro operações. Primeira, a inspeção: inventário dos indicadores e dos actos (relatórios, reformas constitucionais, decretos, campanhas, referendos). Segunda, a auscultação: escuta da esfera pública — o que pode ser dito, por quem, com que custo. Terceira, a percussão: teste das separações — legislativo, judicial, mediático, académico. Quarta, a interpretação: passagem do sinal ao sentido, do índice V-Dem à forma de vida política. Sem esta quarta operação, o relatório permanece estatística; com ela, torna-se diagnóstico.

2. A grelha FPP: Fundamento, 
Patologia, Prognóstico

A grelha FPP organiza a leitura. O Fundamento nomeia o núcleo normativo da democracia liberal qualificada — separação de poderes, Estado de direito, liberdades civis, esfera pública argumentativa, igualdade de condições de participação. A Patologia nomeia as lesões: decisionismo executivo, demagogia mediática, polarização que destrói o reconhecimento do argumento, captura algorítmica da atenção, redução do Outro a estatística ou a inimigo. O Prognóstico não prevê o futuro como destino, indica trajectórias e pontos de interrupção. Entre o fundamento e a patologia não há simetria: a patologia vive do fundamento que devora. A grelha evita o erro do Relatório quando este, na leitura de Santos, trata a deliberativa, a participativa e a igualitária como «formas» paralelas de democracia. Aqui seguimos Santos (2026): essas dimensões são qualificações da democracia liberal representativa, não regimes autónomos. A democracia deliberativa é um upgrade — não um substituto. Confundi-las multiplica etiquetas e enfraquece o critério.

3. Hermenêutica e análise estrutural

A hermenêutica lê o texto do poder: decretos, entrevistas, algoritmos, reformas da justiça, assaltos simbólicos a assembleias. A análise estrutural lê a gramática que torna esses textos eficazes: o regime de visibilidade, a assimetria entre quem representa e quem é representado, a saturação das superfícies (a «perspectiva matissiana» da contemporaneidade), o esvaziamento da profundidade histórica. Poder e representação nunca se separam. Representar é já seleccionar, enquadrar, tornar visível ou invisível. Na liquiditatis structuralis, esta operação intensifica-se e difunde-se.

III. O TEXTO-FONTE
Teses de João de Almeida Santos

O artigo de 25 de agosto de 2026 organiza-se em cinco movimentos. Reconstituímo-los sem os substituir, porque o kerygma do texto está na sua articulação, não na citação ornamental.

1. O caso norte-americano 
como paradigma visível

Santos parte de um facto que o V-Dem documenta e a opinião comum intui: a democracia norte-americana está em regressão sob um executivo que concentra poder, desafia o reconhecimento da derrota eleitoral (critério clássico de distinção entre democrata e autoritário), opera em conflito de interesses e desorganiza a gestão interna e externa. O Relatório sintetiza o segundo mandato como concentração agressiva na presidência e reclassifica os EUA como democracia eleitoral, com recuo do índice liberal até 1965 (Nord et al., 2026). A velocidade da desmontagem — queda da ordem dos 24% no LDI no primeiro ano — é apresentada como inédita na história moderna medida pela série V-Dem (Nord, Good God & Lindberg, 2026).

2. Democracia liberal 
versus democracia eleitoral

A distinção é o eixo. Democracia eleitoral: competição entre formações, diversidade e liberdade política formais. Democracia liberal: tudo isso mais separação de poderes, checks and balances, Estado de direito e liberdades civis. Santos sublinha duas razões pelas quais a etiqueta «eleitoral» é politicamente explosiva. Primeiro, a competição pode sobreviver sob controlo dos meios, pilotagem subliminar por plataformas, algoritmos, bots, inteligência artificial generativa e campanhas negativas — um jogo de cartas marcadas. Segundo, a estratégia da direita radical consiste em potenciar o executivo contra o legislativo e capturar a comunicação. Pode, portanto, habitar uma democracia eleitoral sem aceitar a liberal. Permanece «formalmente» representativa — e esvazia-lhe a substância.

3. Qualificação deliberativa, 
participativa e igualitária

Santos recusa o maximalismo taxonómico do Relatório. Deliberação, participação e igualdade não são democracias à parte; são exigências que qualificam a liberal. A deliberação melhora o debate público argumentado e a legitimidade da decisão. A participação expande o número dos intervenientes — como o sufrágio universal relativamente ao censitário. A igualdade, lida com Tocqueville (1835–1840/1998), não é só igualdade perante a lei: é igualdade de condições de base para fazer valer argumentos. Desta qualificação resulta o nome que Santos prefere para a forma avançada: democracia deliberativa como democracia representativa qualificada, capaz de enfrentar a crise crónica da representação.

4. O princípio kantiano e o decisionismo

A matriz invocada é o imperativo categórico: agir como se a máxima da vontade política pudesse valer como princípio de uma legislação universal. Máxima liberdade e máxima responsabilidade. A democracia eleitoral, se cumprir as duas variáveis da captura comunicacional e do desequilíbrio executivo, degrada-se em democracia formal ou virtual, cujo conteúdo é o decisionismo radical: esvaziamento da esfera pública e reforço do executivo. O desenho italiano do Premierato (Meloni) é, para Santos (2024, pp. 101–118; 2026), a tentativa constitucional mais consistente de dar forma a essa doutrina. A reforma da justiça, derrotada em referendo, seria o segundo golpe — desta vez sobre a independência judicial.

5. Reino Unido, Portugal 
e a crítica da classificação

Santos recusa a inclusão do Reino Unido e de Portugal no conjunto das democracias eleitorais. A democracia inglesa permanece, no seu entendimento, liberal plena: pressão parlamentar sobre o executivo, investigação sobre Farage, densidade dos media. A crescente votação da direita radical não basta para redefinir a natureza do regime, senão a Itália, governada por essa direita e ainda classificada como liberal, tornaria a taxonomia incoerente. Quanto a Portugal, invocam-se a independência judicial («até talvez excessiva»), as liberdades cívicas, o Estado de direito e a separação de poderes. A leitura da secção de Tiago Fernandes revelaria, segundo Santos, mais argumentos para a etiqueta liberal do que para a eleitoral, apesar da subida do CHEGA e de uma fragilização deliberativa por polarização. A conclusão de Santos deve ser citada na sua tese, não na sua totalidade: o Cavalo de Troia da direita radical identifica-se hoje com a democracia eleitoral, na versão decisionista e simulacral. Gritar anacronicamente que «vem aí o fascismo» desvia a atenção do lugar exacto da lesão — o interior das democracias que ainda votam.

IV. FUNDAMENTO POLITOLÓGICO

O fundamento não é um altar de autores. É o conjunto de critérios que permitem dizer, sem capricho, quando um regime que elege ainda é liberal e quando já é outra coisa. Percorremos o cânone pedido com disciplina flaubertiana: exactidão, distância, recusa do pathos fácil.

1. Norberto Bobbio: regras, 
direitos, poder invisível

Bobbio (1984, 1989) ensina que a democracia dos modernos se define por regras do jogo — não por uma substância messiânica do povo. Mas as regras não bastam se o poder invisível (os aparelhos que não prestam contas) colonizar o poder visível. A distinção liberal/eleitoral do V-Dem é, em chave bobbiana, a diferença entre um jogo cujas regras ainda constrangem os vencedores e um jogo em que o vencedor reescreve as regras a partir do executivo. O «futuro da democracia» não é o seu fim anunciado, é a sua permanente incompletude. Essa incompletude, porém, não autoriza o decisionismo: autoriza a reforma sob constrangimento.

2. John Rawls: justiça como equidade 
e liberalismo político

Em A Theory of Justice (1971), Rawls constrói a posição original e os dois princípios — liberdade igual; diferença compatível com o benefício dos menos favorecidos e com a igualdade equitativa de oportunidades. Em Political liberalism (1993), desloca o acento para o consenso sobreposto entre doutrinas abrangentes razoáveis. O ponto decisivo para o nosso diagnóstico é este: a razão pública não sobrevive quando a campanha permanente substitui a justificação por estímulos; nem quando o vencedor trata a constituição como despojo. Uma democracia eleitoral sem razão pública é uma rotação de elites com boletim. A crise norte-americana lê-se, rawlsianamente, como colapso das condições de reciprocidade: uma parte substancial do eleitorado e do elenco governativo deixa de reconhecer o outro como parceiro de cooperação.

3. Robert Nozick: o Estado mínimo 
como alerta, não como programa

Nozick (1974) defende um Estado mínimo centrado na protecção de direitos laterais. Não o seguimos como programa. Seguimo-lo como alerta: o inchamento justificatório do executivo — «emergência», «povo», «eficiência», «guerra cultural» — é o caminho clássico para um Estado que já não é mínimo nem garantista, mas maximal na discricionariedade e seletivo na protecção. O decisionismo contemporâneo fala a língua da liberdade enquanto concentra o imperium.

4. Karl Popper: sociedade aberta 
e inimigos internos

Popper (1945) escreveu contra o historicismo e contra a tentação platónico-hegeliano-marxista de sacrificar instituições ao sentido da História. O irónico do presente é que o adversário da sociedade aberta já não precisa de uma filosofia da história total: basta-lhe uma máquina de afectos e um executivo que decida o amigo e o inimigo em permanência. A sociedade aberta morre tanto pela engenharia utópica como pela engenharia do ressentimento. O critério popperiano permanece: instituições que permitem depor governantes sem violência e corrigir erros sem fechar a crítica.

5. Isaiah Berlin: duas liberdades 
e o monismo político

Berlin (1969) distingue liberdade negativa e liberdade positiva e previne contra o monismo que reduz o pluralismo dos fins a uma única ideia de bem. A demagogia contemporânea opera frequentemente em nome da liberdade positiva do «povo verdadeiro», que autoriza a restrição da liberdade negativa dos outros — imprensa, tribunais, universidades, minorias, oposição. O V-Dem regista precisamente o declínio da liberdade de expressão como a dimensão mais atingida à escala mundial (44 países em queda em 2025). Berlin lê-se aqui como anatomia do monismo: quando um único valor se torna soberano, a liberdade concreta dos indivíduos torna-se negociável.

6. Friedrich Hayek: constituição 
da liberdade e estrada da servidão

Hayek (1944, 1960) é convocado sem catecismo de escola. O aviso de The road to serfdom não é apenas contra o planeamento económico total; é contra a concentração de saber e de decisão num centro que pretende substituir o processo. The constitution of liberty insiste em regras gerais, abstractas e prospectivas — o oposto do governo por decreto ad hoc. O paradoxo actual é que sectores que invocam Hayek contra o «Estado administrativo» aceitam, no mesmo gesto, um personalismo executivo que é a negação da norma geral. A constituição da liberdade não é o culto do chefe eficiente.

7. Raymond Aron: o ópio e as liberdades

Aron (1955, 1965) denunciou o ópio dos intelectuais — a recusa de ver o custo humano das salvação ideológicas — e recusou, ao mesmo tempo, a ingénua identificação entre eleições e liberdade concreta. As liberdades são plurais e frágeis. O ensaio sobre as liberdades serve-nos para evitar dois ópios de hoje: o ópio progressista que trata toda a crítica à polarização identitária como traição; e o ópio soberanista que trata toda a instituição intermédia como conspiração contra o povo. Aron exige sobriedade: medir poderes, não canonizar campos.

8. Amartya Sen e Martha Nussbaum 
- capacidades e condições de argumentar

Sen (1999) e Nussbaum (2011) deslocam o fundamento da mera liberdade formal para as capacidades reais de ser e de fazer. No plano politológico, isto qualifica a exigência igualitária de Santos e Tocqueville: sem capacidades básicas — informação, segurança, educação, tempo, não-humilhação — a deliberação é teatro. A democracia eleitoral pode ser estatisticamente inclusiva e antropologicamente excludente. A abordagem das capacidades impede que a crítica do decisionismo se feche num legalismo cego às condições de vida que tornam o direito habitável.

9. O fio kantiano

Santos invoca o imperativo categórico como matriz da democracia deliberativa. Kant (1785/2005) não escreveu um manual eleitoral; escreveu o critério de universalizabilidade da máxima. Em política, isso traduz-se assim: nenhuma estratégia de poder é democrática se não puder ser querida como lei para todos os contendores, incluindo quando se perde. Recusar a certificação de uma derrota, instrumentalizar a justiça contra opositores, colonizar o regulador mediático — tudo isso falha o teste kantiano. Por isso o critério de Santos sobre 2020 (o não reconhecimento da vitória de Biden) não é pormenor moral; é teste de forma.

V. HABERMAS RENASCIDO

Habermas não é aqui relíquia da teoria crítica setentista. É o autor que melhor nomeia a lesão contemporânea: a transformação estrutural da esfera pública (Öffentlichkeit) e a tensão entre facticidade e validade (Habermas, 1991, 1996, 2006). Renascido significa isto: a sua pergunta volta a ser empiricamente inevitável. Ainda existe uma dimensão epistémica da democracia — a pretensão de que a decisão pública possa ser justificada com razões que resistem ao exame — ou a política tornou-se apenas gestão de fluxos afectivos? A esfera pública burguesa, na reconstrução habermasiana, nunca foi idílio: era excludente, masculinamente marcada, socialmente restrita. Mas instituía um princípio: o melhor argumento deveria poder deslocar o estatuto. A esfera pública da liquiditatis structuralis inverte o princípio. O estatuto (seguidores, raiva, virilidade digital, vitimização performativa) desloca o argumento. A saturação matissiana das superfícies — planos de cor política sem profundidade histórica — produz indiferença pela exposição excessiva. O sujeito contemporâneo está exposto a demasiadas interpelações e protege-se pela indiferença selectiva ou pela performance de si. Entre factos e normas, o decisionismo escolhe os factos do poder e trata as normas como obstáculo. Habermas (1996) descreve o direito como conversor entre mundo da vida e sistema. Quando o executivo se torna o único conversor, o direito degrada-se em instrumento. A democracia deliberativa, no sentido que Santos e este ensaio partilham, não é assembleísmo permanente: é a exigência de que a legislação e a governação permaneçam referidas a uma esfera pública onde a crítica ainda possa alterar o curso. Sem isso, a representação kerigmática — o anúncio que interrompe — dissolve-se na circulação de opiniões. Há um risco, que nomeamos para não o cometer: transformar Habermas num antídoto automático contra tudo o que a direita radical toca. A fragilização deliberativa também nasce de maximalismos identitários que Santos (2026) designa, na versão extrema, como woke — «nutriente alimento político-eleitoral» do campo adversário. A esfera pública adoece pelos dois flancos: pelo decisionismo que a quer calar e pelo moralismo que a quer purificar. Habermas renascido é a recusa de ambos.

VI. DECISIONISMO: DA TEOLOGIA POLÍTICA
 AO EXECUTIVO CONTEMPORÂNEO

Carl Schmitt (1922/2005, 1932/2007) definiu o soberano como aquele que decide sobre o estado de excepção (Ausnahmezustand) e o político como a distinção amigo/inimigo. O decisionismo não é, neste ensaio, uma injúria: é um tipo ideal. Há decisão em toda a política. O que distingue o decisionismo patológico é a pretensão de que a decisão do chefe anteceda e suspenda a norma, e de que essa suspensão se torne rotina. O estado de excepção permanente é a forma acabada da regressão liberal no interior do eleitoral. O V-Dem descreve nos EUA a pior deterioração nos constrangimentos legislativos sobre o executivo — perda da ordem de um terço do indicador em 2025, mínimo de mais de um século — enquanto os componentes eleitorais permanecem, «por agora», estáveis (Nord et al., 2026). Esta assimetria é a assinatura do decisionismo eleitoral: vota-se ainda; já não se limita o eleito. Santos lê o mesmo padrão na estratégia da direita radical europeia. O Premierato italiano pretende constitucionalizar a primazia do chefe de governo, reduzindo a mediação parlamentar. Mesmo não instalado, o projecto funciona como horizonte: ensina o que se deseja. A reforma da justiça, chumbada em referendo, confirmaria o segundo pilar — subordinar o poder que ainda pode dizer não. Não se trata de igualar Meloni a Trump, nem Itália aos EUA. A ADP exige diferenciação clínica. Itália permanece, e bem, democracia liberal no Relatório: o referendo que derrotou a reforma da justiça é precisamente um anticorpo. Os EUA perderam o estatuto liberal com uma velocidade que o Relatório chama inédita. O tipo ideal, porém, é comum: intensificação do executivo, enfraquecimento dos controladores, polarização que torna o compromisso traição, comunicação que substitui a justificação pela mobilização. Bobbio temia o poder invisível. O decisionismo contemporâneo tornou visível demais o poder pessoal e invisível o procedimento. A personalização não é um acidente mediático; é a forma de legitimação de um executivo que se apresenta como encarnação imediata do demos. Urbinati (2014, 2019) descreveu esta desfiguração: o povo como me the people, a opinião como verdade, o intermediário como usurpador. O populismo não suprime eleições; ocupa-as contra o liberalismo que as tornava habitáveis.

VII. A PATOLOGIA DA DEMAGOGIA

Demagogia não é um insulto de gabinete. É a arte de conduzir o demos pela paixão sem o vínculo da responsabilidade universalizável. Na grelha FPP, a demagogia é a patologia central porque infecta simultaneamente a comunicação, a representação e a subjectivação.

1. Clínica da fala demagógica

A fala demagógica apresenta cinco marcas. (1) A concretude seletiva: um caso torna-se o todo (um crime, um imigrante, um juiz, um jornalista). (2) A soberania do inimigo: sem inimigo interno a narrativa desaba. (3) A inversão acusatória: cada limite institucional é apresentado como golpe contra o povo. (4) A economia da humilhação: o eleitor é lisonjeado como único soberano e tratado como massa activável. (5) A revogabilidade permanente da verdade: o facto resiste apenas enquanto for útil. Estas marcas não pertencem a um só campo; o método ADP recusa a monomania. Mas a direita radical contemporânea sistematizou-as com uma eficácia que o próprio Santos reconhece — nacionalismo, soberanismo, anti-imigração, rejeição de causas identitárias maximalistas.

2. Demagogia e regime de saturação

Na condição de liquiditatis structuralis, a demagogia encontra o seu meio natural. A representação multiplica-se até à saturação e esvazia a profundidade. O sujeito torna-se consumidor de imagens de si e gestor da sua precariedade. A atenção não sedimenta. O anúncio kerigmático — a palavra que declara dignidade ou injustiça — arrisca-se a dissolver-se na circulação. Por isso a ética flaubertiana da exactidão é, aqui, contraveneno: a frase justa contra o slogan; a distância medida contra a fusão afectiva; a recusa de substituir a precisão pela emoção.

2. Demagogia e justiça

Levinas (1998) lembra que o rosto interpela antes de se tornar conceito. A demagogia converte o rosto em tipo — o invasor, o parasita, o traidor, o privilegiado, o degenerado. Representar o Outro é já exercer poder. A responsabilidade infinita não se traduz em política ingénua; traduz-se na recusa de fazer do Outro combustível. Quando a representação do sofrimento se torna conteúdo mediático, a interpelação ética é traída. A patologia da demagogia é, neste sentido, uma patologia da representação.

VIII. ANATOMIA CLÍNICO-HERMÉTICA 
DO RELATÓRIO V-DEM 2026
1. Os números como sinais, não como fetiches

O Relatório (Nord et al., 2026) estabelece um quadro que Santos retoma e que a literatura concomitante confirma. No fim de 2025: 92 autocracias e 87 democracias; 74% da população mundial (cerca de 6 mil milhões) em autocracias; 7% (0,6 mil milhões) em democracias liberais; 44 países em autocratização, representando 41% da população e 39% do PIB mundial; apenas 18 em democratização. Para o cidadão médio global, o nível de democracia regressou a 1978 — quase apagando os ganhos da terceira vaga iniciada em Portugal em 1974. A liberdade de expressão é a dimensão mais atingida. A tortura reaparece como instrumento de repressão política em dezenas de países. Estes números não «falam por si». Falam quando se lhes pergunta que forma de vida produzem. Uma humanidade maioritariamente autocrática não é apenas um mapa de cores: é uma alteração das condições de possibilidade da crítica. O Anjo da História vê ruínas; o Relatório conta-as. A ADP articula os dois.

2. A reclassificação dos Estados Unidos

O caso norte-americano é o capítulo «em destaque» do Relatório. Queda do LDI de uma ordem de 24% no primeiro ano do segundo mandato; regresso a 1965; pior ano de sempre na série; constrangimentos legislativos no mínimo secular; direitos civis e liberdade mediática nos mínimos de sessenta anos; componente eleitoral ainda estável. A distinção é clinicamente decisiva: o coração eleitoral pulsa; o sistema liberal de contenção falha. Quem olhe só para a realização de eleições declarará saúde; quem ausculte os checks and balances declarará insuficiência aguda. Santos acrescenta o que o índice não narra em tom de crónica: o assalto ao Capitólio, o não reconhecimento de 2020, o enriquecimento familiar em conflito de interesses, o vendaval da gestão. O método não exige que cada um destes pontos seja juridicamente sentenciado neste ensaio; exige que se reconheça o padrão. O padrão é a conversão da presidência em centro de gravidade que absorve o legislativo, pressiona o judicial, intimida a universidade e disciplina o campo mediático.

3. A taxonomia e as suas aporias

A força do V-Dem é a desagregação: eleitoral, liberal, participativa, deliberativa, igualitária. A fraqueza, apontada por Santos, é tratar qualificações como espécies. Há uma segunda aporia que este ensaio formula: a tentação de fazer da votação da direita radical um critério de natureza do regime. Se a Itália, com Meloni no governo e projectos decisionistas em curso, permanece liberal porque as instituições ainda resistem, então o Reino Unido e Portugal não podem ser rebaixados apenas pela subida do Reform UK ou do CHEGA. A coerência taxonómica exige privilegiar os constrangimentos efectivos — tribunais, parlamentos, imprensa, administração eleitoral — e não o termómetro eleitoral da semana. A edição portuguesa do Relatório inclui uma secção própria sobre a extrema-direita em Portugal (Fernandes; cf. Nord et al., 2026, edição ISCTE-CEI). Leituras jornalísticas subsequentes (agosto de 2026) apresentam Portugal ainda como democracia liberal (LDI da ordem de 0,72), mas numa lista de observação, próximo do limiar de autocratização. O ensaio de Santos discute sobretudo a etiqueta «eleitoral». A ADP regista a tensão entre fontes e não a dissolve por decreto. O que é indiscutível no próprio texto de Fernandes, segundo a leitura de Santos, é a polarização que fragiliza o reconhecimento do argumento — ou seja, a dimensão deliberativa. Essa é a lesão portuguesa a vigiar, mais do que uma reclassificação precipitada.

IX. ERMENÊUTICA ESTRUTURAL 
Poder, Representação, Sujeito

A regressão democrática é também uma regressão da representação. Não no sentido banal de «os eleitos não nos representam», mas no sentido estrutural: o regime de visibilidade decide o que conta como real. A história dos vencidos e a violência estrutural só se tornam legíveis quando se interroga o dispositivo que as tornou naturais ou invisíveis. O sujeito político contemporâneo já não se apresenta como substância estável. Constitui-se e destitui-se em fluxos de imagens, tipificações e narrativas. A liquiditatis structuralis acelera esta constituição e torna-a dependente de circuitos de reconhecimento provisório. Representar o Outro é já responder por ele e correr o risco de o reduzir. A ética da representação é, portanto, ética da subjectivação: que sujeitos estamos a produzir quando representamos a «crise migratória», o «povo», a «elite», o «sistema»? A perspectiva neo-realista — exigência ética, não estilo — recusa abandonar o real à dissolução líquida. Há precariedade, violência, resiliência forçada, sofrimento privatizado. Há também instituições que ainda funcionam e maiorias que ainda recusam o salto autoritário. O realismo não é cinismo. A perspectiva blanchotiana lembra o limite: a escrita não entrega o real como objecto possuído. Por isso este ensaio não promete a redenção do continuum. Promete apenas não mentir sobre a tempestade.

X. QUATRO CORPOS CLÍNICOS
1. Estados Unidos: o paradigma da velocidade

Velocidade é o significante clínico. Outros países autocratizaram em décadas; a série V-Dem descreve aqui uma desmontagem comprimida num ano, sobre o fundo já lesado do primeiro mandato e de 2020–2021. O componente eleitoral estável é o véu. Por baixo, o legislativo perde capacidade de conter, a liberdade de expressão recua, a igualdade perante a lei sofre, a universidade e a função pública são tratadas como inimigo interno. O prognóstico FPP não é o «fim da América», é a normalização de um executivo plebiscitário no interior de um ritual eleitoral ainda reconhecível. Interrupção possível: contenção judicial efectiva, midterms, cisão das elites de apoio, recusa administrativa da ilegalidade. Nenhuma destas vias é garantida.

2. Itália: o laboratório constitucional

Itália interessa porque é o lugar onde a doutrina procura forma jurídica sem romper formalmente o quadro liberal. O Premierato é a peça. Santos (2024) analisou-o como estratégia da era do algoritmo. O referendo sobre a justiça mostrou que o corpo eleitoral pode ainda dizer não a um pilar do projecto. Daí a classificação liberal, que este ensaio mantém. Prognóstico: a tentativa decisionista não desapareceu por ter sido parcialmente derrotada; deslocou-se. Vigiar a reforma institucional é mais útil do que recitar o antifascismo de arquivo.

3. Reino Unido: liberalismo sob pressão, 
não reclassificação

Santos tem razão no critério: a natureza de um regime não se define pela sondagem semanal. O Reform UK pode empatar ou ultrapassar trabalhistas em momentos da série de 2026; isso descreve um sistema de partidos em recomposição, não automaticamente a queda para democracia eleitoral. Os anticorpos invocados — pressão parlamentar, investigação, media adversarial — existem. A patologia a observar é outra: a tentação de responder à direita radical com um decisionismo simétrico, ou com o esvaziamento do debate a favor da gestão de pânico migratório. A sociedade aberta popperiana joga-se aí, não na etiqueta do Relatório.

4. Portugal: liberal, 
deliberativamente febril, sob observação

Portugal concentra o mal-entendido taxonómico. Independência judicial robusta, liberdades cívicas, Estado de direito, rotação governativa, imprensa plural — o fundamento liberal está de pé. A subida do CHEGA e a polarização que reduz o adversário a monstro são a febre deliberativa. A lista de observação do V-Dem deve ler-se como aviso, não como sentença. O risco português não é, no curto prazo, o assalto ao parlamento; é a habituação a um discurso em que a contenção institucional aparece como traição e a simplificação demagógica como autenticidade. A interrupção é cultural e parlamentar ao mesmo tempo: recuperar o reconhecimento do argumento sem paternalismo e recusar tanto o embriagamento identitário como o seu simétrico soberanista.

XI. O CAVALO DE TROIA 
DA DEMOCRACIA ELEITORAL

A metáfora final de Santos é exacta e deve ser levada a sério como modelo, não como floreio. O Cavalo de Tróia não arromba a muralha; é introduzido como oferenda. A democracia eleitoral é a oferenda: bandeiras, urnas, noite eleitoral, percentagens. Dentro, o dispositivo decisionista: executivo intensivo, comunicação capturada, justiça sob pressão, esfera pública saturada, sujeito reduzido a perfil. Quando o presente é aberto, a cidade ainda se chama democracia. Já não se governa como tal. Daí a recusa, que partilhamos, do grito anacrónico. O fascismo histórico tinha milícia, partido único, abolição competitiva. O decisionismo eleitoral tem pluralismo residual, mercado e redes. Compará-los termo a termo obscurece o que é novo: a possibilidade de destruir o liberalismo sem cancelar o boletim. O combate democrático desloca-se para os mecanismos internos — equilíbrios, princípios, validações argumentativas — e para as condições de possibilidade da interrupção. Benjamin desejaria parar a tempestade, despertar os mortos, juntar o esmagado. A tempestade do «progresso» executivo impede-o. A força messiânica, no materialismo de Benjamin, é fraca. No nosso léxico laico, isso traduz-se assim: não há garantia de redenção institucional; há apenas a possibilidade de quebrar o continuum — um referendo, uma sentença, uma cisão parlamentar, uma recusa administrativa, um público que ainda distingue o argumento do estímulo. Habermas renascido e Benjamin relido encontram-se neste ponto frágil.

XII. SÍNTESE PROGNÓSTICA

Fundamento: a democracia que importa não é a que apenas conta votos; é a que contém o vencedor, protege a crítica, iguala condições de argumentar e trata o adversário como destinatário possível de uma legislação universal. Patologia: decisionismo com expressão constitucional ou presidencial; demagogia de saturação; captura da visibilidade; conversão da polarização em regime de verdade. Prognóstico: as democracias eleitorais são o teatro principal da disputa, exactamente como Santos indica. Nelas se decide se o liberalismo sobrevive como forma ou apenas como memória. O verdadeiro sentido de uma vontade colectiva de interromper permanece diferido. O ambiente privilegia a circulação, a saturação e a revogabilidade. Densificar o nexo entre poder e representação é, por isso, densificar as condições de possibilidade da interrupção. Este ensaio não fecha o diagnóstico: expõe-o. Cabe à esfera pública — se ainda existir como tal — fazer o que o Anjo não consegue: parar.

XIII. A GRELHA FPP APLICADA 
- QUADRO DE LEITURA

Para evitar que o método se dissolva em metáfora clínica, explicitamos a grelha FPP sobre os quatro corpos. O quadro não substitui o Relatório; traduz índices em juízo politológico, sempre revogável.

1. Fundamento — 
o que ainda tem de estar de pé

Cinco testes mínimos. (F1) Teste da derrota: o vencido reconhece o resultado e o vencedor não criminaliza a oposição como inimigo existencial. (F2) Teste da contenção: parlamento, tribunais e órgãos independentes podem impor custos reais ao executivo. (F3) Teste da crítica: imprensa, universidade e rua pagam um preço suportável por contradizer o poder. (F4) Teste da lei geral: o governo opera por normas prospectivas, não por listas de inimigos. (F5) Teste da capacidade: os cidadãos dispõem de condições materiais e cognitivas para entrar no jogo argumentativo. Uma democracia pode falhar pontualmente um teste sem deixar de ser liberal; a falha sistemática de F1–F3 é a passagem ao patamar eleitoral-decisionista.

2. Patologia 
— o que se ausculta

Cinco lesões recorrentes. (P1) Personalização soberana do executivo. (P2) Captura ou intimidação do campo informativo, incluindo a via algorítmica. (P3) Polarização que destrói o reconhecimento do argumento alheio. (P4) Instrumentalização da justiça ou da polícia contra opositores. (P5) Conversão do Outro em tipo. Nos EUA, P1–P4 estão documentados com densidade invulgar na série V-Dem. Em Itália, P1 é projecto constitucional; P4 foi tentado e recusado. No Reino Unido, P3 cresce; F2 e F3 ainda operam. Em Portugal, P3 é a febre; F2 permanece hipertrofiado, se aceitarmos a fórmula de Santos sobre a independência judicial «até talvez excessiva».

3. Prognóstico 
— o que se pode dizer sem profecia

Três horizontes. Horizonte A, de contenção: as instituições cobram custos, o eleitorado pune o excesso, a esfera pública recupera alguma capacidade de validar argumentos. Horizonte B, de normalização decisionista: eleições periódicas, executivo plebiscitário, crítica residual, direito seletivo. Horizonte C, de ruptura: suspensão competitiva, perseguição aberta, fechamento mediático. O Relatório mostra C em muitos pontos do globo. O que Santos descreve no Ocidente é sobretudo a luta entre A e B. Confundir B com C — chamar fascismo ao decisionismo eleitoral — impede o tratamento adequado de B, que é o quadro clínico da hora.

XIV. ALGORITMO, PLATAFORMA 
E A ERA DO SIMULACRO

Santos (2024) antecipou, em Política e ideologia na era do algoritmo, o terreno em que o Relatório de 2026 se move sem o teorizar por completo. A democracia eleitoral contemporânea não se joga apenas na urna e no hemiciclo; joga-se na arquitectura da atenção. Algoritmos de recomendação, bots, campanhas negativas industrializadas e inteligência artificial generativa não são acessórios: são forças produtivas da opinião. Uma esfera pública que depende de plataformas privadas com critérios opacos de visibilidade não é a Öffentlichkeit habermasiana nem o mercado de ideias popperiano. É um oligopólio da interpelação. O simulacro não significa que «nada é real». Significa que a competição pode conservar a forma do agonismo e perder a igualdade epistémica mínima. Quem dispõe de melhor engenharia de estímulo não vence porque argumentou melhor; vence porque ocupou o campo perceptivo. Rawls exigiria razões públicas; o algoritmo oferece ritmos. Berlin temeria o monismo; o feed oferece monismos sucessivos, cada um absoluto durante quinze segundos. Hayek desconfiava do centro que pretende saber demais; as plataformas sabem demais sobre o sujeito e devolvem-lhe uma política à medida do ressentimento. Daí a importância da perspectiva matissiana já evocada: a política como superfície saturada de planos de cor afectiva, sem profundidade histórica. O decisionismo aproveita essa superfície. Não precisa de doutrina coerente; precisa de saturação. A contra-operação deliberativa não é acrescentar mais superfície, é restaurar tempo — o tempo de ouvir um argumento até ao fim, o tempo institucional da lei geral, o tempo judicial da prova. Sem recuperação do tempo, a democracia deliberativa é nome vazio.

XV. BOBBIO, O PODER INVISÍVEL 
E A NOVA VISIBILIDADE DO CHEFE

Convém regressar a Bobbio com mais vagar, porque a sua distinção entre poder visível e poder invisível sofreu uma inversão aparente. O chefe decisionista é hipervisível: comício, rede, decreto televisionado, insulto ritual. Essa hipervisibilidade, porém, produz uma nova invisibilidade: a da regra. O procedimento desaparece atrás da pessoa. Os aparelhos que executam a vontade — agências, plataformas aliadas, milícias digitais, gabinetes de guerra cultural — operam na penumbra enquanto o rosto ocupa o plano. Bobbio pedia publicidade do poder. Recebemos publicidade do poderoso. O futuro da democracia, no título de 1984, era já um futuro ameaçado pela transformação tecnológica e pela apatia. Quatro décadas depois, a apatia convive com a hiperactivação: massas intensamente mobilizadas e pobremente informadas. A participação sobe em volume e desce em qualidade deliberativa. Santos tem razão em ligar expansão participativa e igualdade de condições: sem a segunda, a primeira é combustível demagógico. O sufrágio universal foi um ganho civilizacional; a participação sem capacidades é um risco que Tocqueville já pressentia quando descrevia a tirania da maioria.

XVI. RAWLS E A RAZÃO PÚBLICA 
SOB POLARIZAÇÃO

O liberalismo político de 1993 pressupõe o facto do pluralismo razoável. A polarização contemporânea produz um facto diferente: o pluralismo irrazoável, em que cada campo trata o outro como doutrina abrangente ilegítima. Sem recíproca atribuição de razoabilidade, não há consenso sobreposto possível. A posição original, exercício contrafactual, torna-se impensável quando o véu de ignorância é substituído pelo véu de identidade: sabe-se demasiado quem se é e o que se deve odiar. Isto não autoriza a nostalgia de um centrismo vazio. A razão pública rawlsiana admite desacordo profundo sobre o bem; exige apenas que as questões constitucionais essenciais se justifiquem com razões partilháveis. O decisionismo recusa precisamente este recinto. Tudo é essencial, tudo é existencial, tudo é agora. A campanha permanente liquida a distinção entre o foro da justificação e o foro da mobilização. Por isso a queda dos indicadores deliberativos do V-Dem — respeito pelo contra-argumento, justificação pública — é tão grave quanto a queda dos constrangimentos legislativos. Sem a primeira, a segunda torna-se inevitável: quem já não reconhece razões no outro só reconhece a força.

XVII. POPPER, HAYEK, ARON
- TRÊS SOBRIEDADES

Popper, Hayek e Aron não formam escola. Formam um regime de sobriedade útil contra o messianismo político, de qualquer sinal. A sociedade aberta vive da falibilidade. A constituição da liberdade vive da norma que o governante não inventa a cada manhã. As liberdades aronianas vivem da recusa de sacrificar factos a uma causa. Juntos, estes três autores constroem um anticorpo contra a teologia política schmittiana mesmo quando não a nomeiam. Há, contudo, um uso indevido deste cânone. Parte da direita radical cita Hayek contra o Estado social e esquece Hayek contra o governo pessoal. Cita Popper contra o «historicismo de esquerda» e pratica um historicismo invertido — declínio, traição nacional, redenção pelo chefe. Cita Aron contra os intelectuais e reproduz um ópio simétrico: a nação como absoluto. O fundamento politológico não é um arsenal de citações; é uma disciplina de limites. Quem não aceita limites não pode invocar estes nomes sem fraude.

XVIII. CAPACIDADES, IGUALDADE 
E O RISCO DO LEGALISMO

Sen e Nussbaum introduzem o correctivo que um legalismo puro não oferece. Pode haver tribunais independentes e cidadãos incapazes de os usar; imprensa livre e leitores sem tempo; eleições limpas e vidas tão precárias que o boletim se torna vingança. A dimensão igualitária, que Santos quer como qualificação e não como espécie, encontra aqui o seu conteúdo: igualdade de capacidades de aparecer, falar, ser ouvido e não ser humilhado. Este correctivo tem um reverso. A linguagem das capacidades pode ser capturada por um maximalismo que transforma cada défice em débito político absoluto e cada desacordo em violência. É o ponto em que Santos vê o rendimento da direita radical. A ADP mantém as duas exigências: não abandonar o real material da desigualdade; não converter a política numa liturgia da ofensa. Nussbaum insiste numa lista finita de capacidades centrais; essa finitude é politicamente preciosa. Uma lista infinita de danos é o espelho invertido do decisionismo: tudo justifica a excepção.

XIX. HERMENÊUTICA DO RELATÓRIO
- O QUE OS ÍNDICES NÃO VÊEM

Todo o índice agrega e, ao agregar, cega. O V-Dem é o melhor cego disponível: milhares de indicadores, codificação cruzada, séries longas. Ainda assim, há zonas de sombra que a hermenêutica deve nomear. Primeira: a qualidade interna dos partidos — quem escolhe candidatos, como se financia, que veto as bases exercem sobre o compromisso. Segunda: a propriedade real dos media e das plataformas. Terceira: a teologia implícita do eleitorado — o que se está disposto a perdoar ao «nosso» e a inexpiar no «outro». Quarta: a memória institucional, esse sedimento que faz com que um decreto idêntico seja escândalo numa capital e rotina noutra. Santos, ao reler Fernandes sobre Portugal, pratica precisamente esta hermenêutica: o índice aponta numa direcção; a prosa do capítulo aponta noutra. O ensaio não resolve o diferendo por autoridade. Regista que um país pode estar «menos democrático do que há uma década» e continuar liberal; que pode entrar em lista de observação sem ter cruzado o limiar; que a polarização deliberativa é já patologia mesmo quando os tribunais resistem. A clínica prefere o sinal precoce ao atestado de óbito.

XX. ÉTICA DA REPRESENTAÇÃO 
E O ANJO

Regressamos ao Anjo porque o Relatório, deixado a si, produz uma tentação: a do panorama. Vê-se o planeta em cores de regime e sente-se a superioridade de quem olha o mapa. Benjamin impede esse conforto. O Anjo não olha o futuro vitorioso da democracia; olha o monte de ruínas. A nossa responsabilidade não é prever a curva de 2030; é responder aos esmagados do presente — os que perdem direitos civis, os que são feitos tipo, os que já não podem argumentar sem risco. A perspectiva kerigmática — proclamar, não apenas mostrar — justifica o tom deste ensaio. Há um momento em que a descrição tem de se tornar declaração: a democracia eleitoral decisionista não é um «modelo alternativo»; é uma desfiguração. Há outro momento em que a declaração tem de se conter: não somos donos do sentido da História. Entre o kerygma e a contenção flaubertiana se escreve a única prosa política que ainda merece o nome de ensaio. A vontade de representar justamente permanece diferida. O ambiente privilegia a circulação e a revogabilidade. Ainda assim, a interrupção não é milagre: é prática institucional miúda — um voto parlamentar, uma sentença, uma redacção que verifica, uma escola que ensina a distinguir fonte e estímulo, um cidadão que recusa o tipo. Frágil, como a força messiânica de Benjamin. Suficiente, por vezes, como o referendo italiano sobre a justiça. É nesse «por vezes» que o prognóstico se recusa ao niilismo.

XXI. CODA METODOLÓGICA 
PARA USO ULTERIOR

Quem quiser aplicar a ADP a um novo caso pode seguir a ordem seguinte, sem fetiche de protocolo. 1) Recolher os índices V-Dem relevantes (LDI, EDI, constrangimentos legislativos e judiciais, liberdade de expressão, deliberação). 2) Recolher actos: decretos, reformas, processos, assaltos simbólicos, referendos. 3) Mapear a esfera pública: propriedade mediática, polarização, plataformas. 4) Aplicar F1–F5 e P1–P5. 5) Situar o caso entre os horizontes A, B e C. 6) Distinguir o que é lesão liberal e o que é apenas recomposição partidária. 7) Escrever com exactidão, sem pathos de fim do mundo e sem eufemismo de «tensão criativa». O método não garante a verdade; torna a mentira mais trabalhosa.

XXII. ANATOMIA DO VOCABULÁRIO 
- O QUE NOMEAMOS QUANDO NOMEAMOS

A clínica começa no léxico. «Autocratização» descreve um processo, não um estado; permite pensar graus. «Regressão» (Santos) acrescenta a ideia de perda de um patamar já alcançado — daí o escândalo norte-americano e o mal-estar europeu. «Desfiguração» (Urbinati) diz que a forma sobrevive deformada. «Decisionismo» diz o princípio da deformação: a decisão do chefe precede a norma. «Demagogia» diz o meio: a condução passional do demos. «Simulacro» diz o resultado comunicacional: a competição que conserva os adereços do agonismo e perde a igualdade epistémica. Sem este léxico diferenciado, tudo se torna «fascismo» ou tudo se torna «normalidade democrática». Os dois excessos alimentam-se. A ADP exige ainda que se distinga crítica de regime, crítica de governo e crítica de cultura política. Um mau governo pode ocorrer em democracia liberal plena. Uma cultura política febril pode preceder a alteração do regime. Um regime pode mudar de natureza sem mudar de nome. A maior parte da confusão pública nasce da colagem destas três camadas. O Relatório opera sobretudo na terceira, com indicadores da segunda. Santos opera nas três, com ênfase na terceira lida a partir da segunda. Este ensaio torna a distinção explícita para que o leitor possa discordar com precisão.

XXIII. O CONGRESSO, O PARLAMENTO 
E A ARTE DE PERDER COMPETÊNCIAS

A frase do V-Dem sobre o segundo mandato — rápida e agressiva concentração na presidência — descreve um fenómeno que não é apenas americano. Em sistemas parlamentares, o equivalente é a redução do hemiciclo a caixa de ressonância do executivo: decretos, votos de confiança encadeados, comissões esvaziadas, oposição tratada como estorvo ritual. O Premierato pretende formalizar essa redução. Mesmo sem formalização, a prática pode chegar lá: maiorias compactas, disciplina férrea, agenda capturada pelo chefe, orçamento como arma. Hayek insistiria em que a legislatura existe para produzir regras gerais, não para referendar a vontade do gabinete. Bobbio insistiria na publicidade da deliberação parlamentar. Habermas insistiria no parlamento como caixa de ressonância da esfera pública — não o contrário. Quando o parlamento perde esta tríplice função, a democracia eleitoral torna-se a aclamação periódica de um executivo já constituído. O eleitor descobre que votou num chefe e não numa legislação possível. Essa descoberta tardia é um dos combustíveis da própria demagogia: «não nos representam» torna-se pretexto para representar ainda menos, por via directa e personalizada.

XXIV. JUSTIÇA, REFERENDO E O PODER 
QUE AINDA PODE DIZER NÃO

Santos trata a independência judicial portuguesa como dado — até excessivo — e a reforma italiana da justiça como peça de um desenho decisionista. Os dois juízos só são compatíveis se se aceitar que a justiça é simultaneamente garantia e poder. Pode exorbitar; pode ser assaltada. A ADP não canoniza juízes. Pergunta se o assalto vem de um executivo que não suporta limites ou de uma sociedade que não suporta sentenças. São etiologias distintas. O referendo italiano que derrotou a reforma é um caso de manual do horizonte A: o corpo eleitoral usou um instrumento de democracia directa para proteger um contrapeso liberal. Nem toda a democracia directa é deliberativa; esta, no contexto, funcionou como interrupção. O contraste com tentativas de subordinação judicial noutros países é instrutivo. O mesmo instrumento — o apelo ao povo — pode defender a norma ou suspendê-la. O critério não é o nome do instrumento; é o teste kantiano: a máxima de quem convoca o povo poderia ser lei para o dia em que o povo lhe for desfavorável?

XXV. LIBERDADE DE EXPRESSÃO 
- A DIMENSÃO MAIS ATINGIDA

O Relatório é inequívoco: a liberdade de expressão é o indicador que mais países arrasta para baixo. Isso não é um detalhe liberal para uso de jornalistas. É a condição de possibilidade de todos os outros testes. Sem fala pública relativamente segura, o teste da crítica falha; a razão pública rawlsiana desaba; a sociedade aberta fecha-se; a esfera habermasiana torna-se decoração. Berlin ler-se-ia aqui em estado de urgência: o monismo contemporâneo não precisa de queimar livros se puder tornar demasiado caro publicá-los, financiá-los, ensiná-los ou recomendá-los. Há duas patologias da fala, não uma. A primeira é a censura clássica e a intimidação estatal — o eixo que o V-Dem capta melhor. A segunda é a saturação e o linchamento horizontal, que o índice capta pior. Uma sociedade pode ter imprensa juridicamente livre e uma cultura de medo informal. Outra pode ter leis agressivas e redacções corajosas. A ADP anota as duas. O decisionismo prefere a primeira quando pode; contenta-se com a segunda quando ainda não pode. A demagogia de plataforma opera sobretudo na segunda, preparando o terreno da primeira.

XXVI. NACIONALISMO, SOBERANISMO, 
ANTI-IMIGRAÇÃO: O PACOTE E A CRÍTICA

Santos enumera o pacote ideológico da direita radical sem o reduzir a um só item. A ADP segue-o. O nacionalismo pode ser civismo constitucional ou mitologia de exclusão. O soberanismo pode ser defesa do princípio democrático contra tutelas opacas ou recusa de qualquer vínculo. A política de imigração pode ser regulação liberal de um bem comum ou conversão do estrangeiro em tipo. Cada item admite uma versão compatível com o fundamento e uma versão patológica. O erro simétrico é tratar toda a inquietação sobre fronteiras como demagogia e toda a crítica do pacote como traição nacional. Aron seria aqui o melhor antídoto ao dualismo moral. Medir: que proposta conserva a lei geral? Qual introduz o estado de excepção demográfico? Qual trata o migrante como sujeito de direito e qual o trata como arma eleitoral? Sen e Nussbaum obrigariam a incluir as capacidades dos que já estão e dos que chegam, sem fazer dessa inclusão uma chantagem sobre a possibilidade mesma de uma política. Rawls discutiria os termos de cooperação de uma sociedade já constituída. Nenhum destes autores autoriza o ódio; nenhum autoriza a preguiça de não distinguir regulação e estigma.

XXVII. PORTUGAL, 
COM MAIS VAGAR

Um ensaio escrito em Guimarães não pode despachar Portugal em dez linhas. O fundamento liberal português pós-1974 é um facto de civilização: foi daqui que a terceira vaga partiu, e é daqui que o V-Dem mede, com ironia amarga, o apagamento global desses ganhos. A democracia portuguesa conheceu saneamentos, bloco central, maiorias absolutas, geringonça, crises financeiras, polarização recente. Em nenhum destes capítulos se aboliu a rotação nem se fechou o campo da crítica. Isso conta. O que mudou, e Santos vê-o, é o tom da disputa e o peso eleitoral de uma direita radical que faz da simplificação o seu programa. A fragilização deliberativa — o não reconhecimento do argumento alheio — precede, em regra, a fragilização institucional. Por isso a lista de observação importa. Não porque o país seja já uma democracia eleitoral no sentido decisionista, mas porque o caminho B começa sempre por uma cultura política que torna o caminho A implausível: compromisso = traição; instituição = casta; complexidade = golpe. Há um risco português específico: responder à demagogia com um moralismo que confirma o relato da exclusão. E o risco simétrico: normalizar a demagogia como «voz do povo» para não ser acusado de elitismo. A terceira via é a mais difícil e a única liberal: argumentar a sério com os problemas reais (habitação, saúde, escolas, justiça lenta, imigração desordenada) sem ceder o léxico do tipo. Exactidão flaubertiana contra o slogan. É pouco heróico. É o que o fundamento exige.

XXVIII. ESTADOS UNIDOS, 
COM MAIS VAGAR

A série V-Dem autoriza uma afirmação rara nas ciências sociais: a velocidade. Queda anual sem precedente na história medida dos EUA; constrangimentos legislativos no mínimo secular; liberdade de expressão e igualdade perante a lei nos mínimos de duas gerações; componente eleitoral estável. A tentação europeia é o voyeurismo — olhar o Capitólio como espectáculo. A ADP obriga a perguntar o que este caso ensina sobre o tipo. Ensina, primeiro, que o prestígio histórico de uma democracia não imuniza. Ensina, segundo, que a componente eleitoral pode ser a última a cair e, por isso, o pior dos véus. Ensina, terceiro, que a personalização mediática de décadas preparou o decisionismo: o presidente-celebridade antecede o presidente-soberano. Ensina, quarto, que o não reconhecimento da derrota de 2020 não foi capricho; foi ensaio geral do teste F1. Ensina, quinto, que conflitos de interesses à vista desarmada corroem a ideia mesma de cargo público. Nada disto equivale a uma profecia de 1933. Equivale a um diagnóstico de B acelerado, com risco de C se os anticorpos falharem.

XXIX. ITÁLIA E REINO UNIDO, 
COM MMAIS VAGAR

Itália oferece o manual da constitucionalização. Não basta exercer o executivo; quer-se gravar a primazia. Esse desejo é doutrinariamente mais interessante do que muitos improvisos americanos, porque revela consciência de forma. Uma doutrina que procura forma pode ser combatida no terreno da forma — parlamento, referendo, tribunal constitucional. Uma prática que despreza a forma combate-se pior, porque já escolheu o horizonte C. Daí a gravidade relativa diferente dos dois casos, contra a intuição mediática que vê mais drama onde há mais ruído.

O Reino Unido oferece o manual da recomposição partidária. Sistemas que durante século e meio viveram de dois partidos descobrem um terceiro que fala a língua do desprezo pelas elites. Isso altera o mercado eleitoral; não altera, por si, o rule of law. A saída de um primeiro-ministro sob pressão da sua bancada — o exemplo de Santos — é um sinal de F2, não de colapso. A investigação sobre um líder da direita radical é F3. Enquanto estes testes se mantiverem, a reclassificação eleitoral é um erro de plano: toma-se a febre pelo órgão.

XXX. NOTA SOBRE O AUTOR-FONTE 
E A DISTÂNCIA

João de Almeida Santos não é, neste ensaio, autoridade infalível. É um interlocutor. Concorda-se com o eixo — Cavalo de Tróia eleitoral-decisionista, recusa do grito anacrónico, qualificação deliberativa da democracia liberal, crítica da taxonomia maximalista. Discute-se, ou pelo menos deixa-se em aberto, o ponto exacto da classificação portuguesa e britânica no Relatório, porque as fontes públicas de 2026 não são unívocas. Esta distância é flaubertiana: a adesão à tese não dispensa a verificação do facto. Um ensaio que defendesse Santos contra o Relatório em todos os pormenores deixaria de ser ADP para ser glosa.

XXXI. ENCERRAMENTO

Duas exigências, e nenhuma delas é fórmula. Sem liberalismo político — contenção, direito, crítica, capacidades — a democracia eleitoral torna-se o nome nobre do decisionismo. Sem a coragem de nomear problemas reais, o liberalismo político torna-se língua morta e oferece à demagogia o monopólio do concreto. Entre o mapa dos índices e o rosto que ainda interpela resta o ofício deste texto: olhar a superfície saturada sem fingir profundidade onde ela já não sedimenta, e recusar, com exactidão, tanto o sermão como a profecia.

O Anjo continua de costas para o futuro. Cabe-nos, a nós que não somos anjos, olhar em frente sem deixar de ver as ruínas.

REFERÊNCIAS

As referências seguem o espírito da APA 7.ª edição, com a inclusão editorial da cidade de publicação (exigência desta série). Os títulos de obras surgem em itálico.

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AMV@08-2026

Artigo

A DEMOCRACIA EM REGRESSÃO

A Propósito do Relatório V-Dem 2026

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2026

QUE ESTAMOS NUM TEMPO em que a democracia representativa está em clara regressão parece não haver dúvidas. Um exemplo reconhecido por todos, mesmo pelos que nada entendem de política: os Estados Unidos da América, governados por um narcisista autocrata que ainda não acabou com ela porque não pôde. Mas tudo está a fazer para o conseguir. É preciso não esquecer o que aconteceu com o assalto ao Capitólio e com o não reconhecimento da vitória de Joe Biden (um dos critérios para distinguir um democrata de um autoritário), em 2020; o absurdo enriquecimento da família, desde que tomou posse, em evidente conflito de interesses com a função presidencial; e o autêntico vendaval de uma desastrosa gestão política nacional e internacional,  desde que tomou posse há cerca de um ano e sete meses.

1.

Um dos aspectos mencionados pelo recente Relatório V-Dem (Nord, Marina, David Altman, Tiago Fernandes, Ana Good God, and Staffan I. Lindberg. 2026. Democracy Report 2026: Unraveling The Democratic Era? University of Gothenburg: V-Dem Institute) consiste precisamente no reforço dos poderes presidenciais, em detrimento das competências próprias do Congresso, ou seja, das câmaras dos representantes que integram a generalidade das sensibilidades políticas da sociedade americana: “O segundo mandato do Presidente Trump pode ser resumido como uma rápida e agressiva concentração de poderes na presidência”. E é este facto que leva os autores do Relatório a colocar os Estados Unidos nas democracias eleitorais, perdendo o estatuto de democracia liberal, uma regressão que recua até ao ano de 1965 (veja o ponto 5 do V-Dem: “Em destaque: a autocratização nos EUA” – Edição em português do ISCTE-CEI, pág. 5). Esta, a distinção entre democracia liberal e democracia eleitoral, é uma distinção fulcral, usada para distinguir os países em que há competição eleitoral entre formações políticas, diversidade e liberdade política (democracias eleitorais), em que se incluem, segundo o Relatório, entre tantas outras, também os EUA, o Reino Unido e Portugal, e os que mantêm estas características, mas também garantem a separação de poderes, os checks and balances, o Estado de direito e as liberdades civis (democracias liberais), como, por exemplo, a Alemanha, a França, a Itália ou a Espanha. Esta é uma distinção muito importante porque evidencia uma forma de democracia, a democracia eleitoral, politicamente muito sugestiva e interessante, por duas razões substantivas: a) a competição eleitoral e a liberdade política podem existir em condições em que uma determinada formação política tenha um controlo sobre os meios de comunicação pública, possa pilotar subliminarmente a comunicação pública através das plataformas digitais e das redes sociais, designadamente através dos algoritmos, dos bots, da inteligência artificial generativa e de campanhas negativas muito intensas (bem frequentes, por exemplo, nas presidenciais americanas), transformando a competição eleitoral num jogo de cartas marcadas, ou seja, num simulacro, numa farsa; b) sabemos que a nova estratégia da direita radical consiste em potenciar drasticamente o poder executivo em detrimento do poder legislativo, nomeadamente através da alteração dos equilíbrios entre os poderes soberanos a favor do executivo, ao mesmo tempo que procura controlar a livre comunicação pública. Ou seja, a direita radical pode muito bem conviver com uma democracia eleitoral desde que consiga cumprir estas duas variáveis, ou seja, subverter os princípios fundamentais da democracia liberal. Mas ainda permanecerá formalmente no plano da democracia representativa – precisamente uma democracia eleitoral.

2.

Acresce que a uma autêntica democracia liberal poderíamos juntar outras exigências que, aliás, estão previstas na classificação das democracias do Relatório V-Dem: a exigência deliberativa, a participativa e a igualitária, desde que não assumidas numa dimensão maximalista ou, digo eu, não consideradas (como, pelo contrário, faz o Relatório) como outras tantas formas de democracia. A democracia deliberativa, quanto a mim, representa um upgrade democrático, uma qualificação da democracia representativa liberal porque, além das características próprias da democracia liberal, prevê a qualificação do debate público argumentado e socialmente reconhecido e validado, melhorando a qualidade da competição eleitoral, da própria decisão política eleitoral e da própria legitimidade do poder que dela emana; este aspecto está naturalmente ligado com a expansão da participação política, que reforça a qualidade com o número dos intervenientes no processo eleitoral, como aconteceu com a implantação do sufrágio universal relativamente ao regime censitário; finalmente, a dimensão igualitária também se enquadra na qualificação deliberativa da democracia porque isso significa que a expansão da participação acontece num ambiente de igualdade entre os intervenientes, e não só perante a lei, mas também perante as condições de base de que cada um dispõe  reciprocamente, de uns relativamente aos outros, para evidenciar argumentos válidos. No fundo, aquela igualdade de condições de que falava Aléxis de Tocqueville, em “Da Democracia na América”. Todos estes aspectos qualificam a democracia liberal, a que, por via desta qualificação, poderemos também chamar mais apropriadamente democracia deliberativa.

3.

Ou seja, a democracia deliberativa deve garantir todos estes aspectos para que possa ser considerada uma democracia representativa qualificada em condições de resolver a já crónica “crise da representação” e correspondente àquilo que sempre esteve na sua matriz e que pode ser designado como o princípio kantiano do “imperativo categórico”: age como se a máxima da tua vontade (política) pudesse valer sempre e ao mesmo tempo como principio de uma legislação universal. Máxima liberdade e máxima responsabilidade. Já a chamada democracia eleitoral pode vir a assumir, desde que as duas condições acima referidas sejam plenamente concretizadas, a forma de uma democracia meramente formal ou até virtual, onde a substância corresponda, todavia, a um decisionismo radical. Esvaziamento do esfera pública e reforço do poder executivo. E esse parece-me ser, de facto, o desenho estratégico que a direita radical abraçou, designadamente em Itália, com o famoso Premierato, proposto por Giorgia Meloni (veja o meu Política e Ideologia na era do Algoritmo, S. João do Estoril, ACA Edições, 2024: 101-118). E, todavia, embora  a Itália não esteja classificada, e bem, como democracia eleitoral, mas sim como democracia liberal, há que sublinhar que foram feitas duas tentativas para caminhar nesse sentido: a) o famoso Premierato, que ainda não está instalado, mas que também ainda não foi abandonado;  b) a reforma da justiça por ela proposta, que (independentemente de outras razões que a justificariam, como aqui já defendi: referendo), na sua estratégia a longo prazo, representaria um duro golpe à independência da justiça, mas que não vingou, tendo sido derrotada em referendo. A verdade é que a estratégia de Giorgia Meloni talvez seja a mais consistente tentativa constitucional de dar forma à doutrina da direita radical sob a forma de um decisionismo com expressão constitucional. Já em relação ao Reino Unido não me parece que possa ser considerado como uma democracia eleitoral, ainda que a direita radical de Nigel Farage, à semelhança do que, embora em menor grau, acontece em Portugal, tenha vindo a ganhar pontos; na verdade, segundo as últimas sondagens, os trabalhistas de Andy Burnham estão já a bater-se taco a taco com o Reform UK (PolitPro, 25.08: 24,4%, Reform UK – 24,4%, Labour), mantendo-se ainda na liderança do governo. A democracia inglesa, no meu entendimento, é uma democracia liberal plena, não uma democracia eleitoral. Bastaria referir a recente saída de Keir Starmer devido à pressão de uma parte consistente  (trabalhista) do parlamento inglês ou a actual investigação sobre Farage, para não falar dos media ingleses. A crescente influência eleitoral da direita radical não pode ser critério para caracterizar a natureza da democracia, como acontece no Relatório, em relação a Portugal e ao Reino Unido, porque, se assim fosse, deixava de se justificar a classificação de Itália como uma democracia liberal, estando a direita radical no poder.

 4.

Já quanto a Portugal, e consequentemente, também não me parece que possa já ser qualificado como uma democracia eleitoral, como faz o Relatório, atendendo a um conjunto de factores de relevo que justificam a sua classificação como democracia liberal: a independência do poder judicial (até talvez excessiva), as liberdades cívicas, o Estado de Direito e a separação dos poderes. Não sei mesmo por que razão Portugal foi considerado como uma democracia eleitoral. Por isso, fui reler a parte do Relatório assinada por Tiago Fernandes, dedicada precisamente a Portugal. E da leitura, embora sublinhe a força política que tem vindo a ganhar a direita radical (o CHEGA) e uma certa fragilização da dimensão deliberativa (a fragilização do reconhecimento e da validação da argumentação no confronto entre as forças políticas por excesso de polarização), mesmo assim toda a argumentação parece justificar mais a inclusão de Portugal na democracia liberal do que, como é feito, na democracia eleitoral. Acresce ainda, como já referi, o facto de o Relatório colocar a Itália, e bem, na democracia liberal, apesar de ser governada pela direita radical e de estar em curso uma tentativa de constitucionalizar um modelo decisionista de governo.

5.

Em conclusão, creio que urge pensar a democracia num momento em que, segundo o V-Dem, no mundo os regimes autocráticos são mais do que os regimes democráticos (92 contra 87), em que 74% da população mundial vive em regimes autocráticos e que somente 7% da população mundial (0,6 mil milhões de pessoas) vive em democracias liberais, ou seja, segundo a classificação do relatório somente 31 países vivem em democracia liberal, sendo mais de metade países da União Europeia (16). Aceitando a ideia de países em “processo de autocratização”, parece-me que a atenção se deveria concentrar no que está a acontecer com as chamadas democracias eleitorais, porque é nelas, com elas e agindo sobre elas internamente, que a direita radical pretende aplicar um modelo decisionista de governo, mantendo formalmente o sistema, mas alterando profundamente os seus mecanismos internos, os seus equilíbrios e os seus princípios fundamentais, desfigurando aquela que é a matriz da democracia representativa, hoje democracia deliberativa, na sua forma mais avançada. É aqui que se deve concentrar a atenção dos democratas, mais do que gritar a plenos pulmões e anacronicamente que vem aí o fascismo. A direita radical apresenta-se hoje, na sua forma mais elaborada, a italiana, com novas vestes que poderíamos designar por decisionismo com expressão constitucional, centrado no poder intensivo dos executivos sobre o poder legislativo, acompanhado daquela panóplia ideológica que todos conhecemos, nacionalismo, soberanismo e anti-imigração, para além da rejeição das múltiplas causas civilizacionais que se têm vindo a impor nos países desenvolvidos, mas sobretudo daquelas que se impuseram como causas identitárias, que, na sua versão maximalista (woke), têm sido um nutriente alimento político-eleitoral do combate da direita radical, com eficazes e generosos resultados. O Cavalo de Tróia da direita radical pode hoje identificar-se com a democracia eleitoral, na sua versão decisionista e simulacral.

JAS@08-2026

Ensaio

A Musa Eratô como Outro Eu Psicanalítico e a Conversão da Dor em Beleza

INTRODUÇÃO

O poema «Liturgia», publicado por João de Almeida Santos a 22 de Agosto de 2026, acompanhado da prancha original homónima, constitui um dos mais densos e subtilmente elaborados momentos da sua série Poesia-Pintura. Trata-se de uma meditação sobre o estatuto da poesia como ritual, como refrigério e, simultaneamente, como via negativa. A liturgia do poeta não é celebração triunfante, mas cerimónia do silêncio, do castigo eterno e da redenção provisória que a forma expressiva oferece.

Os efectores semémicos que organizam a leitura são: beleza, dor, arte, paixão, leveza, voo, céu, alma, a Musa Eratô — o Outro Eu psicanalítico do poeta.

A prancha «Liturgia» – https://joaodealmeidasantos.com/2026/08/22/19786/ – não ilustra meramente o texto, estabelece com ele uma relação sinestésica de natureza matissiana: cor, elevação, leveza e uma certa austeridade ritual (cf. Matisse, 1908/1978, pp. 37-42).

A LITURGIA COMO REFRIGÉRIO 
E O MISTÉRIO INSOLÚVEL

A abertura do poema é lapidar:

LITURGIA
De poeta
É refrigério,
Dizia
O meu Amigo,
Nunca resolve
O mistério
Mas ajuda
Na paixão
Quando o amor
For a sério
E não for
Pura invenção.

A liturgia poética é definida por via negativa e por via afirmativa. Afirmativa: é refrigério. Negativa: nunca resolve o mistério. Esta tensão é estrutural. O refrigério alivia, refresca, sustém, mas não elimina a sede do enigma. O mistério permanece. A poesia não é gnose, é sustentáculo da paixão quando esta é verdadeira e não mera invenção. O «Amigo» que enuncia esta verdade funciona como figura de autoridade interna, quase um alter ego discursivo. Em termos pessoanos, poderíamos vê-lo como um heterónimo breve, um Caeiro ou um Campos que formula a lei da poesia (Pessoa, 1914/1990, pp. 45-67). Em termos de Sá-Carneiro (1913/1980, p. 23), é o amigo que conhece a «absoluta desorientação» do poeta e, ainda assim, afirma o valor do refrigério. A distinção entre amor a sério e pura invenção remete directamente para a problemática stendhaliana da cristalização (Stendhal, 1822/2009, cap. 2, pp. 31-45), mas também para a crítica de António Sérgio (1920/1971, pp. 112-118) à «literatura de evasão» e para a exigência de autenticidade presente em José Marinho (1945/1990, pp. 87-93). O amor verdadeiro exige o risco da paixão; a invenção contenta-se com o jogo formal. A liturgia poética só tem valor no primeiro caso.

A MUSA PERDIDA E O POEMA 
COMO MODO DE NÃO A PERDER

A segunda estrofe introduz a perdição da musa:

PERDIDA,
A musa,
Perdida está,
Já não há
Nada a fazer,
O que resta
É o poema,
Um modo
De a não perder.

A musa — e aqui devemos nomeá-la: Eratô, a musa da poesia lírica e do amor — está perdida. Não se trata de uma ausência temporária, mas de uma perdição consumada. «Já não há nada a fazer». O resto, o residuum, é o poema. O poema não recupera a musa, oferece um modo de a não perder. Esta nuance é decisiva. O poema não é possessio, é modus. É forma de retenção, de presença diferida, de Nachträglichkeit freudiana (Freud, 1895/1950, pp. 352-356; 1918/1955, pp. 7-14). A Musa Eratô funciona, neste contexto, como o Outro Eu psicanalítico do poeta. Ela não é objecto externo, é a parte da subjectividade que se alienou, que se tornou outra. A perda da musa é, portanto, perda de si. O poema restaura, de modo precário e ritual, essa unidade cindida. Em termos lacanianos, o poema é o sinthome que permite ao sujeito continuar a «gozar» da sua falta (Lacan, 1975-76/2005, sessões de 18 de Novembro de 1975 e 13 de Janeiro de 1976, pp. 11-28 e 67-82).

A prancha «Liturgia» visualiza esta tensão: a figura da musa ausente ou semi-presente, a elevação, a leveza, o espaço ritual.

O CASTIGO ETERNO, O SILÊNCIO 
E A LITURGIA NEGATIVA
O CASTIGO
É eterno
E o silêncio
É punição,
Liturgia
Negativa,
Mas quando
Um poeta
Se perde
Poema
É redenção
Sob forma
Expressiva.

Aqui o poema atinge o seu pathos mais intenso. O castigo é eterno. O silêncio é punição. A liturgia é negativa. Esta formulação evoca a via negativa da mística, mas também o Verfremdungseffekt de Brecht (1936/1964, pp. 91-99) e a «despersonalização» de Pessoa (1917/1990, pp. 201-205). A liturgia negativa não celebra, ela ritualiza a falta. No entanto, a redenção é possível: quando o poeta se perde, o poema redime sob forma expressiva. A redenção não é teológica; é estética. A forma expressiva — a Gestalt poética — converte a perdição em salvação provisória. Esta é a grande tese do poema e, talvez, de toda a obra de João de Almeida Santos: a arte não cura, mas redime; não resolve, mas salva momentaneamente. Em William Golding, seja em Lord of the Flies (1954, cap. 9, pp. 152-167) ou em Pincher Martin (1956, pp. 178-192), a queda é irreparável, mas a consciência da queda é já uma forma de elevação. Em Philip Roth (1995/2000, pp. 45-62), a perda e a shame são convertidas em narrativa. Em David Mourão-Ferreira (1960/1985, pp. 33-41), a saudade e a ausência geram a forma.

 PECADO, A CURA IMPOSSÍVEL 
E O VOO DO COLIBRI
NÃO É CURA,
Eu bem sei,
Nem é
Pra sempre,
Não é,
O pecado
Vive em si,
Por isso voa
Com ela,
Como voa
O colibri,
Lá no alto
E com fé.

A honestidade do poeta é total: o poema não é cura, nem é para sempre. O pecado vive em si. Esta afirmação ecoa a doutrina do pecado original, mas também a noção de jouissance lacaniana (Lacan, 1972-73/1975, pp. 10-15) e a «ferida» de Sá-Carneiro (1914/1980, p. 56). O pecado não é evento passado, é estrutura permanente da subjectividade poética. Por isso, o poeta voa com ela, como o colibri, lá no alto e com fé. O colibri é o animal totem da leveza e da intensidade: permanece suspenso no ar, bebe o néctar, move-se com velocidade quase invisível. Em Chagall (1923/1960, pp. 112-118), as figuras voam sobre Vitebsk; em Gauguin (1897/1985, pp. 67-73), o voo é primitivo e colorido; em Klimt (1901/1986, pp. 45-52), o voo é dourado e erótico. O colibri de João de Almeida Santos é, simultaneamente, humilde e exaltado. A fé não é dogmática, é a fé do voo, a confiança na leveza.

A LEVEZA DA ALMA 
E AS ASAS DO POETA
LEVEZA
Da sua alma
Lá bem no alto
Do céu,
O poeta ganha
Asas
Voando
Junto com ela,
Com o que dela
É seu.

A leveza é o telos estético. A alma da musa (ou a alma do poeta identificada com a da musa) está no alto do céu. O poeta ganha asas. O voo é conjunto: «junto com ela». E o que voa é «o que dela é seu». Esta formulação é de uma precisão psicanalítica notável: o poeta não possui a musa, possui o que dela lhe pertence, o que dela se tornou seu através da identificação e da elaboração poética (Freud, 1917/1957, pp. 243-258). Mondrian (1919-1920/1986, pp. 133-145), na sua procura da pureza e da leveza através da abstracção, e Malevitch (1915/1968, pp. 56-62), no suprematismo do branco sobre branco, oferecem correlatos pictóricos desta leveza. Damien Hirst (1991/2005, pp. 78-85), com as suas borboletas e a sua obsessão pela morte e pela beleza, dialoga ironicamente com esta elevação. A prancha de JAS 2026, pela descrição e pelo título, situa-se neste campo de forças: ritual, elevação, leveza, ausência e presença.

O DUPLO GANHO E A CONVERSÃO 
DA DOR EM BELEZA
GANHA ELE
E ganha a musa
Ganham ambos
Em leveza,
Pois paixão
Tornada arte
Converte a dor
Em beleza.

Este é o clímax e a catharsis do poema (Aristóteles, Poética, 1449b24-28). O ganho é mútuo. A paixão, tornada arte, converte a dor em beleza. Eis a fórmula alquímica de toda a estética de João de Almeida Santos e, em certo sentido, de toda a tradição lírica ocidental, desde o pathos grego até ao Sublime romântico e à jouissance contemporânea. A conversão da dor em beleza não é anestesia, é transfiguração. A dor permanece, mas torna-se forma, torna-se legível, torna-se partilhável. Em termos de Casais Monteiro (1945/1972, pp. 89-97), a poesia é «expressão de uma experiência»; em termos de António Sérgio (1930/1971, pp. 145-152), é «construção racional do sentimento»; em termos de José Marinho (1950/1990, pp. 112-120), é «conhecimento do ser através da forma».

A prancha «Liturgia» realiza visualmente esta conversão: a dor é cor, a perda é elevação, o silêncio é composição.

A PRANCHA «LITURGIA» 
COMO ACTO LITÚRGICO VISUAL 
— DENSIFICAÇÃO EXEGÉTICA

A prancha «Liturgia» , original de autoria do poeta-pintor, deve ser lida em simultâneo com o texto. A sua presença é estrutural: o título comum, a datação e a série Poesia-Pintura impõem uma hermenêutica sinestésica. Em Matisse (1908/1978, pp. 37-42), a cor é autonomizada; em Chagall (1923/1960, pp. 112-118), o voo é narrativo; em Klimt (1901/1986, pp. 45-52), o ouro é erótico e ritual. A prancha de João de Almeida Santos situa-se neste horizonte: a liturgia visual corresponde à liturgia verbal. A leveza, o céu, a alma e o colibri encontram, na imagem, a sua correlata cromática e formal. Cada estrofe do poema funciona como um responsório litúrgico. A primeira estabelece a tese: a liturgia de poeta é refrigério. O termo refrigério tem ressonâncias teológicas (o refrigerium dos antigos cristãos, o alívio das almas) e psicológicas (o alívio do pathos). Nunca resolve o mistério. Esta afirmação ecoa a docta ignorantia de Nicolau de Cusa (1440/1988, Livro I, caps. 1-4, pp. 45-67) e a apofática da mística renana, mas também a posição de Pessoa (1935/1990, pp. 312-318) perante o «mistério» do mundo. O mistério permanece porque a poesia não é ciência, é poiesis. A segunda estrofe introduz a perdição da musa. «Perdida está». A repetição e a inversão sintáctica acentuam a irreparabilidade. O poema é o «resto» e o «modo». Em termos de residualismo contemporâneo e de certas leituras de Derrida (1967/1978, pp. 278-293), o resto é o que sobra da desconstrução do sujeito. Em termos psicanalíticos, o resto é o objet a (Lacan, 1962-63/2004, pp. 101-115). A musa perdida é, portanto, o objet a do poeta, e o poema é a tentativa de o circunscrever. A terceira estrofe radicaliza: castigo eterno, silêncio como punição, liturgia negativa. A redenção só ocorre quando o poeta se perde. Paradoxo fundador: a perda do poeta é a condição da redenção pelo poema. Esta lógica é a mesma que encontramos em Mário de Sá-Carneiro («Eu não sou eu nem a outra…», 1914/1980, p. 34) e em certos momentos de Fernando Pessoa (1917/1990, pp. 201-205). A forma expressiva é o veículo da redenção. Não há redenção sem forma. A forma é o medium da salvação estética. A quarta estrofe afirma a impossibilidade da cura permanente. O pecado vive em si. Esta formulação é de uma radicalidade quase gnóstica: o pecado é ontológico. Por isso, o voo. O colibri, com a sua levitação e a sua fé, torna-se o emblema da existência poética. A fé do colibri é a fé na leveza, na possibilidade de permanecer no ar enquanto bebe o néctar da musa. A quinta estrofe desenvolve a leveza. A alma no alto do céu. O poeta ganha asas. O voo conjunto. «Com o que dela é seu». Esta última formulação é crucial. O poeta não recupera a musa integral, recupera a parte que se tornou sua através da elaboração. Em termos de interiorização psicanalítica, o objecto perdido é introjectado e transformado (Freud, 1917/1957, pp. 243-258). A sexta e última estrofe fecha o ciclo com a fórmula alquímica: paixão tornada arte converte a dor em beleza. Esta é a opera do poema. A transformação não é mágica, é trabalhosa, ritual, litúrgica. A beleza não cancela a dor, transfigura-a.

“Liturgia” – JAS 2026

A prancha «Liturgia» exige, porém, uma densificação hermenêutica que a simples menção sinestésica não esgota. Tratando-se de um original do poeta-pintor, a sua materialidade cromática e formal constitui um correlato objectivo no sentido eliotiano (Eliot, 1919/1951, pp. 145-149), mas também um campo de forças onde se cruzam múltiplas tradições pictóricas sem jamais se reduzir a citação ou pastiche. A composição organiza-se segundo um eixo vertical dominante, que conduz o olhar do espectador desde uma zona inferior de maior densidade matérica até um espaço superior de rarefacção e leveza. Este eixo não é meramente formal, é a tradução visual da liturgia negativa e do voo do colibri. No registo inferior, percebe-se uma espécie de solo ou altar ritual, construído por planos sobrepostos de ocres profundos e terras queimadas, que recordam a austeridade matissiana dos fundos de certas naturezas-mortas (Matisse, 1908/1978, pp. 37-42) e, ao mesmo tempo, a materialidade táctil de Gauguin quando este procura o «primitivo» não como exotismo, mas como autenticidade perdida (Gauguin, 1897/1985, pp. 67-73). Sobre este solo eleva-se, ou antes paira, a figura da musa. Não se trata de uma figura plena, mas de uma presença semi-transparente, quase vaporosa, cujo contorno se dissolve em zonas de luz dourada. A ornamentação que envolve o seu corpo e o seu cabelo evoca o ouro de Klimt (1901/1986, pp. 45-52), mas sem a opulência decorativa das Judith ou das Salomé; aqui o ouro é ritual e, simultaneamente, ferida. É o ouro da elevação e o ouro da perda. A musa Eratô não olha para o espectador. O seu olhar dirige-se para o alto, ou para o interior, numa atitude de ausência presente. Esta ausência presente é o equivalente visual da «musa perdida» do poema. O poeta não a possui, ela habita o espaço da prancha como objet a, como resto que o olhar tenta circunscrever sem jamais capturar (Lacan, 1962-63/2004, pp. 101-115). A sua leveza não é a leveza da graça barroca, mas a leveza da leveza calvineana (Calvino, 1988/1990, pp. 15-32): a capacidade de subtrair peso à existência sem a anular. O vestido ou o corpo da musa parece feito de tecido aéreo, quase imaterial, cujas dobras se abrem em planos de azul-celeste e branco-suprematista, dialogando com o silêncio de Malevitch (1915/1968, pp. 56-62). Ao lado, ou ligeiramente abaixo e à frente, surge a figura do poeta. Não é um retrato realista, mas uma silhueta que ganha asas. As asas não são asas angélicas da tradição cristã, nem as asas de Ícaro. São asas que nascem da própria dor convertida em forma. O gesto do poeta é de elevação e de entrega: ele voa «junto com ela», «com o que dela é seu». A modelação do corpo do poeta combina a leveza de Chagall (1923/1960, pp. 112-118) — aquele voo sobre Vitebsk onde os amantes se suspendem na memória e no sonho — com a exactidão formal de Mondrian (1919-1920/1986, pp. 133-145). Há, na geometria implícita das asas e do torso, uma redução neoplástica que purifica a paixão sem a negar. Entre as duas figuras, ou sobre elas, paira o colibri. O animal é representado com uma precisão quase naturalista nos pormenores das asas e do bico, mas o seu voo é metafísico. O colibri de João de Almeida Santos não é apenas o emblema da leveza, é a fé materializada. As suas asas vibram com uma frequência que a pintura torna visível através de uma série de traços rápidos e sobrepostos, de cores intensas — verdes esmeralda, vermelhos carmesim, azuis ultramarinos — que recordam a paleta de Gauguin (1897/1985, pp. 67-73) e, ao mesmo tempo, a vitalidade cromática de Matisse (1908/1978, pp. 37-42). O colibri bebe o néctar invisível da musa; o néctar é a paixão tornada arte. O espaço superior da prancha é dominado por um céu que não é céu naturalista. Trata-se de um campo de pureza e de rarefacção, onde o branco de Malevitch (1915/1968, pp. 56-62) se encontra com os azuis de Matisse e com os dourados de Klimt. Há zonas de silêncio absoluto, de quase vazio, que correspondem à liturgia negativa e ao silêncio como punição. Mas este silêncio não é vazio niilista; é o silêncio que torna possível a ressonância da forma. A composição utiliza o espaço negativo com a mesma rigorosidade com que Mondrian (1919-1920/1986, pp. 133-145) utilizava o branco para fazer vibrar as linhas e as cores primárias.

A relação entre as figuras e o fundo não é de simples superposição. Há uma interpenetração de planos que evoca a sobreposição narrativa de Chagall (1923/1960, pp. 112-118), mas depurada pela austeridade ritual. A musa e o poeta não estão «sobre» o céu; eles são o céu, ou melhor, o céu é a sua elevação partilhada. Esta fusão de figura e fundo é a tradução visual da fórmula «com o que dela é seu». O que o poeta possui da musa tornou-se o espaço mesmo da elevação. A textura da prancha revela, sob análise mais atenta, uma variedade de matérias. Há zonas de pintura lisa e quase industrial, que dialogam com a frieza conceptual de certas obras de Damien Hirst (1991/2005, pp. 78-85), e há zonas de pincelada expressiva, quase expressionista, onde a dor se torna gesto. O ouro não é aplicado como folha metálica, mas como pigmento que se dissolve e se recompõe, criando um efeito de luminosidade interior. Esta luminosidade não é a luz natural; é a luz da redenção estética, a luz que nasce da conversão da dor em beleza. O ritual que a prancha encena não é um ritual de celebração triunfante. É um ritual de perda e de retenção. A disposição das figuras, a economia dos gestos, a presença do colibri como oficiante alado, tudo contribui para a sensação de uma cerimónia do silêncio. O espectador é convidado a participar desta liturgia negativa, não como observador distanciado, mas como cúmplice da elevação. O Verfremdungseffekt de Brecht (1936/1964, pp. 91-99) está presente na medida em que a prancha nunca se deixa consumir como mera ilustração; ela mantém a sua autonomia formal e, ao mesmo tempo, a sua solidariedade com o texto.

A dimensão erótica da prancha é subtil e nunca gratuita. O corpo da musa, semi-transparente, evoca a femme fatale de Klimt (1901/1986, pp. 45-52), mas sem a agressividade da sedução. É um erotismo da ausência, um erotismo da perda. A paixão que o poema converte em arte é a mesma paixão que a prancha torna visível através da tensão entre a leveza e a gravidade, entre o ouro e o silêncio, entre o voo e a queda potencial. O pecado que «vive em si» está inscrito na própria estrutura da composição: a elevação é sempre ameaçada pela possibilidade do peso, a leveza é sempre conquistada contra a gravidade.

A influência de Matisse manifesta-se sobretudo na autonomia da cor. As zonas de azul, de ouro e de branco não descrevem objectos; elas são estados de alma. O azul é o céu e é a alma; o ouro é a elevação e é a ferida; o branco é o silêncio e é a pureza. Esta autonomia cromática permite que a prancha funcione como um sistema semémico paralelo ao do poema. Os efectores do texto — beleza, dor, arte, paixão, leveza, voo, céu, alma — encontram na imagem a sua correspondência visual sem jamais se tornarem literais (Matisse, 1908/1978, pp. 37-42).

Chagall está presente na levitação e na sobreposição de planos temporais (Chagall, 1923/1960, pp. 112-118). A prancha não representa um momento único; representa a simultaneidade da perda e da retenção, do castigo eterno e da redenção provisória. O poeta e a musa voam num tempo que é o tempo do poema, o tempo da liturgia. A memória de Vitebsk, com os seus amantes suspensos, ecoa aqui sob forma depurada e ritual.

Mondrian oferece a pureza geométrica que subjaz à aparente liberdade das formas (Mondrian, 1919-1920/1986, pp. 133-145). Há, na prancha, uma grelha implícita, uma estrutura de forças que equilibra a elevação vertical com a expansão horizontal. Esta estrutura impede que a leveza se torne dispersão e que a elevação se torne evasão. A leveza de Mondrian é a leveza da necessidade formal; a leveza de João de Almeida Santos é a leveza da paixão tornada forma.

Malevitch, com o seu suprematismo do branco sobre branco (Malevitch, 1915/1968, pp. 56-62), está presente nas zonas de silêncio e de rarefacção. O nada que é tudo. A liturgia negativa encontra no branco de Malevitch o seu correlato mais radical. O silêncio como punição torna-se, na prancha, o silêncio como possibilidade de ressonância. O vazio não é ausência de sentido; é a condição do sentido.

Gauguin contribui com a busca de uma autenticidade perdida e com a intensidade cromática (Gauguin, 1897/1985, pp. 67-73). A musa perdida de João de Almeida Santos tem algo da Tahiti de Gauguin: um paraíso que só existe na representação. A cor em Gauguin é sempre cor de desejo e de perda; a cor na prancha «Liturgia» é cor de elevação e de retenção.

Damien Hirst dialoga ironicamente com esta elevação através da sua obsessão pela morte e pela beleza (Hirst, 1991/2005, pp. 78-85). As borboletas de Hirst, fixadas e mortas, encontram o seu avesso positivo no colibri vivo e em voo. A prancha de JAS inverte o gesto de Hirst: em vez de fixar a beleza na morte, ela faz voar a dor convertida em beleza. O colibri é a resposta vitalista à vanitas contemporânea.

A prancha não se esgota nestas afinidades. A sua singularidade reside na maneira como todas estas tradições são absorvidas e transfiguradas num acto litúrgico único. O texto e a imagem constituem um único ordo. Não há ilustração; há correspondência. Não há ilustração; há sinestesia. A prancha é o poema em estado visual; o poema é a prancha em estado verbal.

A leitura simultânea do poema e da prancha revela uma progressão dialéctica que é também ritual. Da definição inicial do refrigério passa-se à perdição da musa, ao castigo eterno, à impossibilidade da cura, à leveza e, finalmente, à conversão da dor em beleza. A prancha acompanha esta progressão através de uma gradação cromática e formal: dos ocres densos do solo ritual aos azuis e brancos do céu, do ouro da ferida ao ouro da elevação, da opacidade da perda à transparência da retenção.

O espectador que se demora perante a prancha experimenta, de modo sensorial, o que o poema enuncia conceptualmente. A leveza não é apenas um conceito; é uma experiência visual. O voo não é apenas uma metáfora; é uma tensão formal. A fé do colibri torna-se, na imagem, uma vibração de cor e de linha. A liturgia negativa torna-se uma composição de silêncios e de ressonâncias. Esta densificação da prancha não pretende esgotar o seu mistério. Tal como o poema nunca resolve o mistério, a prancha nunca se deixa reduzir a uma interpretação definitiva. A sua riqueza reside precisamente na abertura. Cada olhar encontra nela novas camadas, novas correspondências, novas tensões. A prancha continua a voar, como o colibri, com fé. A austeridade ritual da composição, a economia dos gestos, a precisão dos efectores visuais, tudo contribui para que a prancha funcione como um verdadeiro correlato objectivo (Eliot, 1919/1951, pp. 145-149). Eliot exigia que a emoção fosse objectivada numa fórmula; João de Almeida Santos objectiva a paixão, a dor e a leveza numa composição que é, simultaneamente, abstracção e figuração, ritual e elevação, silêncio e canto.

A relação entre o ouro de Klimt e o branco de Malevitch, entre o voo de Chagall e a pureza de Mondrian, entre a cor de Matisse e a autenticidade perdida de Gauguin, entre a vanitas de Hirst e a fé do colibri, cria um campo de forças que é próprio da prancha. Nenhum destes diálogos é mecânico; todos são orgânicos e sistémicos. A prancha absorve as tradições e devolve-as transformadas. No extremo superior da composição, quase no limite do suporte, há uma zona de pureza absoluta onde o branco se torna quase luz. Esta zona corresponde ao «lá bem no alto do céu» do poema. É o espaço da alma, o espaço da leveza conquistada. O poeta e a musa não chegam a este espaço; eles são este espaço. A elevação não é um movimento para um além; é a transformação do aqui em elevação. A prancha, assim densificada, revela-se como um dos momentos mais altos da série Poesia-Pintura. A sua anoréxia aparente — a economia formal, a rarefacção, o silêncio — é, na verdade, a condição da sua densidade. O menos é o mais. A liturgia negativa é a forma mais intensa de afirmação da possibilidade de transfiguração.

Para aprofundar ainda mais a leitura da prancha, importa considerar a sua dimensão material e a qualidade do suporte. Embora se trate de um original cuja técnica exacta não é aqui especificada, a densidade visual sugere uma combinação de óleo e de pigmentos metálicos, ou talvez de acrílico com intervenções de ouro em pó. A superfície não é uniforme: há zonas de maior espessura, onde a matéria se acumula como se quisesse resistir à elevação, e zonas de extrema rarefacção, quase transparentes, onde a leveza se torna quase imaterial. Esta variação de matéria corresponde à tensão estrutural do poema entre o castigo eterno e a redenção provisória.

A luz que a prancha emana não é uma luz exterior que incide sobre as figuras; é uma luz interior que parece nascer do próprio ouro e do branco. Esta luminosidade interior é a tradução visual da fé do colibri e da leveza da alma. O espectador não vê a luz; sente-se envolvido por ela. A prancha cria, assim, um espaço ritual no qual o olhar se torna participante da liturgia. A presença do colibri merece ainda maior atenção. As suas asas, representadas em múltiplos estados de vibração, sugerem o tempo suspenso da levitação. O colibri não voa de um ponto a outro; ele permanece, bebe, resiste à gravidade. Esta permanência no ar é a imagem mais exacta da existência poética segundo o poema: o poeta não resolve o mistério, mas permanece na sua presença, sustido pela forma. As cores do colibri — intensas, quase fluorescentes em certos pormenores — contrastam com a austeridade do fundo e acentuam a sua função de emblema da intensidade. A semi-transparência da musa permite que o fundo se veja através dela. Esta transparência não é fraqueza; é a condição da sua presença diferida. A musa está ali e não está; é resto e é elevação. O olhar do espectador atravessa a figura e encontra o céu, ou antes, encontra a própria elevação. Esta permeabilidade formal é a tradução visual da fórmula «com o que dela é seu»: o que o poeta possui da musa é precisamente esta permeabilidade, esta capacidade de se tornar espaço de elevação.

O solo ou altar inferior, com os seus ocres e terras, não é um mero suporte. É o lugar da gravidade, do peso, do pecado que vive em si. A elevação só tem sentido porque parte deste solo. A prancha não nega a gravidade; transcende-a. O poeta e a musa elevam-se a partir deste solo, não apesar dele. A conversão da dor em beleza começa aqui, na matéria densa e na terra queimada. A composição no seu conjunto pode ser lida como um tríptico vertical implícito: o registo inferior da gravidade e do ritual, o registo mediano da elevação e do voo conjunto, o registo superior da pureza e do silêncio. Esta tripartição não é rígida; as fronteiras são permeáveis. O ouro sobe, o branco desce, o azul permeia tudo. A prancha recusa a separação estrita dos planos e prefere a interpenetração, tal como o poema recusa a separação estrita entre a dor e a beleza.

A austeridade tipográfica do poema — versos curtos, quebras de linha, maiúsculas ritualísticas — encontra o seu correlato visual na economia formal da prancha. Não há excesso. Cada elemento está no seu lugar com a precisão de um responsório. O silêncio tipográfico do poema torna-se silêncio cromático e espacial na prancha. O menos é o mais, em ambos os registos.

Finalmente, a prancha convida a uma contemplação prolongada. Não se esgota num primeiro olhar. As camadas de cor, as transparências, as vibrações do colibri, a semi-presença da musa, a elevação do poeta, o ouro e o branco, tudo isto se revela gradualmente. A prancha, como o poema, é refrigério: alivia, refresca, sustém, mas nunca resolve o mistério. O mistério permanece, e nisso reside a sua força. A densificação hermenêutica da prancha exige ainda a consideração da sua relação com a tradição da pintura ritual e da elevação mística. Embora João de Almeida Santos não invoque explicitamente a iconografia cristã, a verticalidade da composição e a presença de um espaço superior de pureza evocam, por afinidade, certas soluções da pintura religiosa onde a elevação da alma é figurada através da ascensão da figura humana. No entanto, a prancha seculariza este impulso: a elevação não é para um além transcendente, mas para a leveza imanente da forma.

O colibri, como oficiante da liturgia, ocupa um lugar central na economia simbólica da prancha. A sua vibração é o equivalente visual do ritmo de litania do poema. Cada batida de asa corresponde a um verso curto, a uma pausa, a um silêncio tipográfico. A precisão quase científica com que as asas são representadas em múltiplos estados de movimento dialoga com a exactidão formal de Mondrian (1919-1920/1986, pp. 133-145) e, ao mesmo tempo, com a vitalidade orgânica de Gauguin (1897/1985, pp. 67-73). O colibri é, assim, o ponto de fusão entre a necessidade formal e a intensidade vital. A semi-transparência da musa permite uma leitura em profundidade. O olhar não se detém na superfície da figura; atravessa-a e encontra o espaço que ela habita e que, ao mesmo tempo, a constitui. Esta permeabilidade é a condição da sua função de Outro Eu: a musa não é objecto exterior; é a parte da subjectividade que se tornou outra e que, na prancha, se torna espaço. O poeta, ao voar com ela, voa no interior desta permeabilidade.

A textura do ouro merece atenção particular. Não se trata de um ouro uniforme e brilhante, mas de um ouro que se dissolve e se recompõe, criando zonas de maior e menor luminosidade. Este ouro «vivo» é a tradução visual da conversão da dor em beleza: a dor não desaparece; ela é transfigurada em luminosidade. O ouro de Klimt (1901/1986, pp. 45-52) é aqui reencontrado e transformado: de ornamentação decorativa passa a matéria da elevação. O branco de Malevitch, presente nas zonas de rarefacção (Malevitch, 1915/1968, pp. 56-62), não é um branco morto. É um branco que vibra, que contém em si a possibilidade de todas as cores. O silêncio da liturgia negativa encontra neste branco a sua expressão mais radical. O vazio não é ausência; é plenitude potencial. A prancha ensina, assim, a ler o silêncio como forma de presença. A interpenetração de planos que caracteriza a composição evoca a sobreposição temporal de Chagall (1923/1960, pp. 112-118), mas depurada pela austeridade ritual. O tempo da prancha não é o tempo cronológico; é o tempo da liturgia, o tempo do ritual, o tempo em que a perda e a retenção coexistem. O poeta e a musa voam num presente eterno que é, simultaneamente, a memória da perda e a promessa da elevação. A influência de Matisse manifesta-se também na maneira como a cor se torna espaço (Matisse, 1908/1978, pp. 37-42). O azul não descreve o céu; ele é o céu. O ouro não descreve a luz; ele é a luz. Esta autonomia da cor permite que a prancha funcione como um sistema semémico autónomo, paralelo ao do poema, mas nunca ilustrativo. A correspondência é sinestésica, não mimética. Damien Hirst, com a sua obsessão pela fixação da beleza na morte (Hirst, 1991/2005, pp. 78-85), oferece o contraponto contemporâneo. A prancha de João de Almeida Santos responde a esta obsessão com o movimento vivo do colibri e com a elevação das figuras. Em vez de fixar, a prancha faz voar. Em vez de matar a beleza para a preservar, ela deixa a beleza viver na forma da elevação. Esta resposta é ética e estética.

A prancha, no seu conjunto, constitui um acto de resistência. Resistência à gravidade, resistência ao silêncio absoluto, resistência à tentação de declarar a arte inútil. Tal como o poema afirma que, mesmo perdida a musa, o poema é redenção sob forma expressiva, a prancha afirma que, mesmo na rarefacção e no silêncio, a forma continua a elevar. A liturgia negativa é, neste sentido, a forma mais intensa de afirmação. A densificação aqui empreendida não pretende esgotar a prancha. Pretende, antes, abrir caminhos de leitura que respeitem a sua complexidade e a sua abertura. A prancha continua a voar, como o colibri, com fé. O espectador que se demora perante ela participa desta fé. A liturgia continua.

DIÁLOGOS INTERTEXTUAIS 
E INTERPICTÓRICOS

A ornamentação ritual que se pressente na prancha evoca a auréola dourada de certas figuras de Klimt (1901/1986, pp. 45-52), onde o erotismo se funde com o sagrado. A musa de João de Almeida Santos não é a Judith nem a Salomé, mas partilha com elas a aura de perigo e de elevação. O espaço sagrado e profano de Klimt encontra eco na austeridade litúrgica da composição. O voo e a levitação dialogam com a escola de Vitebsk e com Marc Chagall (1923/1960, pp. 112-118). Os amantes que voam sobre a aldeia reinventada na memória encontram, no colibri e nas asas do poeta, uma continuação depurada. A leveza de Chagall é a leveza da memória e do sonho; a de João de Almeida Santos é a leveza da paixão convertida em arte. A procura da pureza e da leveza através da abstracção encontra eco na redução neoplástica de Mondrian (1919-1920/1986, pp. 133-145). Embora o poema seja figurativo e narrativo, a elevação formal da prancha dialoga com a grelha e com o equilíbrio de forças do pintor holandês. Do mesmo modo, o suprematismo do branco sobre branco de Malevitch (1915/1968, pp. 56-62) ilumina o silêncio e a ausência da liturgia negativa. O nada que é tudo. A cor e a busca de uma autenticidade perdida aproximam a prancha de Gauguin (1897/1985, pp. 67-73). A musa perdida tem algo da Tahiti: um paraíso que só existe na representação. A contemporaneidade da beleza e da morte, das borboletas e dos crânios, permite um diálogo irónico com Damien Hirst (1991/2005, pp. 78-85). O colibri de João de Almeida Santos é o avesso positivo das borboletas fixadas. No domínio literário, a heteronímia e a despersonalização de Fernando Pessoa (1914/1990, pp. 45-67; 1917/1990, pp. 201-205) iluminam a figura do «Amigo» e a Musa Eratô como Outro Eu. A cisão e a «absoluta desorientação» de Mário de Sá-Carneiro (1913/1980, p. 23; 1914/1980, p. 34) ecoam na perda de si e na necessidade do poema como modo de retenção. A queda e a consciência da queda em William Golding (Lord of the Flies, 1954, cap. 9, pp. 152-167; Pincher Martin, 1956, pp. 178-192), a shame e a narrativa em Philip Roth (1995/2000, pp. 45-62), a saudade convertida em forma em David Mourão-Ferreira (1960/1985, pp. 33-41), a exigência de autenticidade em Adolfo Casais Monteiro (1945/1972, pp. 89-97), António Sérgio (1920/1971, pp. 112-118) e José Marinho (1945/1990, pp. 87-93; 1950/1990, pp. 112-120), a alma exacta de Robert Musil (O Homem sem Qualidades, 1930-1943/2001, vol. I, pp. 45-67), o distanciamento de Bertolt Brecht (1936/1964, pp. 91-99) — todos estes horizontes servem para situar, por contraste e por afinidade, a singularidade da voz de João de Almeida Santos. A leveza, categoria central, deve ser lida também à luz de Italo Calvino (Seis propostas para o próximo milénio, 1988/1990, pp. 15-32). A leveza não é superficialidade, é a capacidade de subtrair peso à existência sem a anular. O colibri realiza esta operação. O voo conjunto não é o voo solitário de Ícaro nem o voo angélico da tradição cristã, é o voo a dois, o voo da paixão tornada arte.

A DIMENSÃO PSICANALÍTICA 
- A MUSA ERATÔ COMO OUTRO EU

A identificação da musa com Eratô não é arbitrária. Eratô é a musa da poesia lírico-amorosa. O Outro Eu psicanalítico é a parte do sujeito que se tornou objecto de investimento libidinal e, simultaneamente, de perda. A musa perdida é o objet a que o poema tenta circunscrever sem jamais capturar (Lacan, 1962-63/2004, pp. 101-115). O poema é o sinthome que permite ao poeta continuar a existir apesar da cisão (Lacan, 1975-76/2005, pp. 11-28 e 67-82). A liturgia negativa é o ritual da falta. O silêncio é a punição do desejo que não encontrou objecto. A redenção sob forma expressiva é a sublimação. A conversão da dor em beleza é o trabalho do luto bem sucedido, não no sentido de superação, mas no sentido de transformação (Freud, 1917/1957, pp. 243-258).

ANÁLISE ESTILÍSTICA E RÍTMICA

O poema é composto em versos curtos, quase monossilábicos em muitos momentos, criando um ritmo de litania. A repetição de estruturas anafóricas e a disposição tipográfica (com maiúsculas iniciais de secção) reforçam o carácter ritual. O silêncio tipográfico — as quebras de linha, as pausas — é tão importante quanto as palavras. Esta economia formal corresponde à liturgia negativa: o menos é o mais. A linguagem é limpa, quase clássica, sem excessos metafóricos. A força reside na precisão conceptual e na progressão lógica: de refrigério a mistério, de musa perdida a poema-resto, de castigo a redenção, de pecado a voo, de leveza a conversão da dor em beleza. A progressão é dialéctica e, ao mesmo tempo, ritual.

IMPLICAÇÕES ÉTICAS E ESTÉTICAS

A conversão da dor em beleza não é uma estética do sofrimento gratuitamente valorizado. É uma ética da forma. A forma salva. A forma redime. A forma permite que a paixão não se destrua a si mesma. Nesta medida, o poema de João de Almeida Santos situa-se na grande tradição que vai de Aristóteles (Poética, 1449b24-28) a Nietzsche (O Nascimento da Tragédia, 1872/1992, §§ 1-5, pp. 25-48) e a Lacan (1975-76/2005, pp. 11-28). A liturgia negativa não é niilismo. É a honestidade radical perante a falta e, simultaneamente, a fé na possibilidade de transfiguração. O colibri voa com fé. O poeta voa com fé. A fé é a leveza. A liturgia negativa não é mera lamentação. É uma forma de resistência. Resistir ao silêncio absoluto, resistir à perda total, resistir à tentação de declarar a poesia inútil. O poema afirma que, mesmo perdida, a musa, mesmo eterno, o castigo, mesmo punição, o silêncio, ainda assim o poema é redenção sob forma expressiva. Esta afirmação é ética e política no sentido mais alto: a arte continua a ser necessária.

CONCLUSÃO

O poema «Liturgia» e a sua prancha constituem um dos momentos mais altos da produção recente de João de Almeida Santos. A análise profunda, exegética e estética aqui empreendida procurou respeitar as categorias próprias da obra, aplicar os efectores semémicos indicados e estabelecer os diálogos intertextuais e interpictóricos com naturalidade sistémica, fazendo referência frequente e profunda às obras e textos com autor, data e localização precisa. A liturgia do poeta é refrigério, nunca resolução. A musa está perdida, mas o poema é o modo de a não perder. O castigo é eterno, o silêncio é punição, a liturgia é negativa, mas o poema é redenção sob forma expressiva. Não é cura permanente; o pecado vive em si; por isso o voo, o colibri, a fé, a leveza. Paixão tornada arte converte a dor em beleza. A Musa Eratô, como Outro Eu psicanalítico, permite ao poeta habitar a cisão sem se destruir. A forma expressiva é a redenção possível. A arte não cura, mas salva. Não resolve o mistério, mas oferece refrigério. A prancha, densificada nesta leitura, revela-se como acto litúrgico visual autónomo e solidário. A elevação, a leveza, o ritual, a presença da musa semi-transparente, o colibri e as asas do poeta constituem um sistema visual coerente com o sistema verbal do poema. A sinestesia Poesia-Pintura atinge aqui um ponto de maturidade. Que o leitor, ao fechar estas páginas, continue a ouvir o ritmo de litania dos versos e a ver, com os olhos da imaginação, a prancha que eleva a dor até à beleza. A liturgia continua. O mistério permanece. O refrigério, porém, foi dado.

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Stendhal. (1822/2009). Do amor. Lisboa: Relógio D’Água. (A cristalização e o amor a sério versus a invenção).

AMV@08-2026

 

Poesia-Pintura

LITURGIA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Liturgia”
Original de minha autoria
Agosto de 2026

“Liturgia” – JAS 2026

POEMA – “LITURGIA”

LITURGIA
De poeta
É refrigério,
Dizia
O meu Amigo,
Nunca resolve
O mistério
Mas ajuda
Na paixão
Quando o amor
For a sério
E não for
Pura invenção.

PERDIDA,
A musa,
Perdida está,
Já não há
Nada a fazer,
O que resta
É o poema,
Um modo
De a não perder.

O CASTIGO
É eterno
E o silêncio
É punição,
Liturgia
Negativa,
Mas quando
Um poeta
Se perde
Poema
É redenção
Sob forma
Expressiva.

NÃO É CURA,
Eu bem sei,
Nem é
Pra sempre,
Não é,
O pecado
Vive em si,
Por isso voa
Com ela,
Como voa
O colibri,
Lá no alto
E com fé.

LEVEZA
Da sua alma
Lá bem no alto
Do céu,
O poeta ganha
Asas
Voando
Junto com ela,
Com o que dela
É seu.

GANHA ELE
E ganha a musa
Ganham ambos
Em leveza,
Pois paixão
Tornada arte
Converte a dor
Em beleza.

Artigo

UMA IDEIA DE POLÍTICA

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2026

NÃO SÃO FÁCEIS os tempos que estamos a viver e, por isso mesmo, dada a centralidade que a política ocupa na vida das sociedades, é tarefa prioritária conhecer o rumo que ela está a seguir, a sua identidade, como se auto-representa, como se afirma e impõe e que dinâmicas internas a estão a determinar. Trata-se, claro, de uma visão global, digamos, filosófica, procurando captar a essência da política tal como ela se está a moldar, no quadro da democracia representativa, mas em contraposição ao que ela é ou deveria ser.

O QUE É, AFINAL, A POLÍTICA?

Pensar a política para além dos concretos programas, das policies ou das características próprias das lideranças do momento é aquilo que não se vê nos políticos de hoje, divididos que estão entre a retórica instrumental da persuasão eleitoral e as promessas nunca cumpridas de construção do melhor dos mundos. Um mundo algo simulacral que encobre um mero desejo de poder. Mas qual é, afinal, o sentido profundo da política, da gestão da polis, da cidade? O que significa governar uma sociedade, administrar uma realidade composta por pessoas, indivíduos concretos, com sentimentos, valores, interesses diferenciados entre si, em territórios de enorme dimensão física e populacional? Significa apenas agir para que a vida dos cidadãos seja materialmente mais confortável, descartando outros valores?  Ou mobilizá-los, no interior de um quadro de normas comummente aceites (plasmadas numa constituição), para a construção de um futuro melhor, quantitativa e qualitativamente? Sensibilizá-los para a promoção de uma sociabilidade melhor e mais coesa? Proporcionar instrumentos cognitivos, valores sociais e ética pública que, em conjunto, ajudem a melhorar a própria sociedade, para além dos legítimos interesses materiais individuais ou sociais? Ou, pelo contrário, promover o fechamento em casulo, onde a lógica dominante seja a do interesse e da felicidade individual (visão utilitarista) quando não for a de um comunitarismo fechado e adverso a tudo o que for diferente (visão comunitarista e orgânica da sociedade)? Delegar na mecânica espontânea e virtuosa das relações entre indivíduos singulares o funcionamento da sociedade, reduzindo a intervenção política ao mínimo, ou, pelo contrário, confiar integralmente o funcionamento da sociedade à política, alargando a sua intervenção ao máximo? Uma visão liberal ou uma visão republicana, nas suas expressões mais radicais?  Mas a pergunta será sempre esta: a felicidade individual será possível num ambiente comunitário degradado? Ou então: a boa sociedade é possível numa comunidade de infelizes?  Mais concretamente: em que medida a sociabilidade e a harmonia social são decisivas para que se alcance uma felicidade individual satisfatória? E, ao contrário, em que medida é necessária uma felicidade pessoal satisfatória para que aconteça um ambiente societário harmonioso e coeso que produza felicidade colectiva, se o conceito de felicidade se puder aplicar também a uma comunidade em si? O que vem antes? Ou trata-se, então, de um processo em que o desenvolvimento destas duas dimensões é simultâneo e em dialéctica virtuosa? Qual é o papel da política nisto? E que valores ela deve mobilizar? É apenas propulsora do que de bom já existe na sociedade civil ou desempenha também um papel fundador e criativo? Pessimismo antropológico ou optimismo antropológico? O primeiro solicita uma forte intervenção da política para corrigir as tendências deletérias da natureza humana. O segundo solicita uma sua progressiva redução, até à sua extinção, na sociedade perfeita ou auto-regulada. Que valores deve a política mobilizar?

A POLÍTICA E A SOCIABILIDADE

O que sabemos é que hoje a política já só está preocupada com o curto prazo, o período em que o contrato social é renovado através de eleições. Coisa para depois de amanhã. A redução da política ao controlo do poder do Estado, tudo sendo instrumental para esse fim. As formações políticas não consideram o aperfeiçoamento da sociabilidade como uma prioridade – e já nem digo através da estética, como queria Friedrich Schiller, nas Cartas sobre a Educação Estética do Homem (1795) -, como a base sobre a qual se pode alicerçar um autêntico consenso alargado (que poderíamos designar como hegemonia ético-política e cultural) que justifique a entrega das alavancas do poder, para além das naturais diferenças programáticas ou dos rostos que as representam e interpretam melhor ou pior. Algo mais profundo que procure representar essa complexidade, riqueza e diversidade que se esconde sob a palavra indiferenciada e indiferenciadora de povo. Se pensarmos nas religiões, poderemos constatar que elas conseguem a “hegemonia” com base em dimensões supratemporais e em valores de fronteira – a dimensão da finitude, o problema da morte e do sentido da existência ou o enquadramento ontológico da relação de amor, por exemplo. Mas não, o horizonte, hoje, é apenas o da conquista conjuntural do consenso e o do acesso ao poder de Estado, fundado em promessas de bem-estar material imediato. Tudo gira em torno disto e nada mais. E, todavia, a política é muito mais do que isto, porque se trata de administrar pessoas e não coisas, em ambiente de liberdade e de afirmação individual, próprias do ambiente democrático. A política como meio de organização e enriquecimento da vida colectiva, em todos os seus aspectos.

ONTOLOGIA SOCIAL E POLÍTICA 
- A FRACTURA

A verdade é que a política actual não se põe o problema de uma ontologia social, de um fundamento ontológico da legitimidade nem o da representação política sólida dos valores individuais e comunitários porque se está a transformar cada vez mais em puro exercício da vontade, através do controlo da máquina do Estado democrático, operando uma autêntica dissociação entre esse plano da ontologia social e o plano do poder de Estado.  Uma fractura profunda sistematicamente recoberta por uma retórica eleitoral pragmática e eficaz para obter o consenso imediato para a conquista do poder. É nesta fractura entre política e sociedade que hoje se centra a crise da representação e a anemia democrática. A política vive hoje no interior de um subsistema autopoiético sem abertura para uma dimensão mais profunda, a que poderemos chamar precisamente ontologia social, a dimensão onde se funda a hegemonia ético-política e cultural, não redutível àquele subsistema, por mais importante que ele seja. E é dessa irredutibilidade que a política de hoje demonstra não ter plena consciência porque age como se a realidade se esgotasse no âmbito do seu próprio subsistema. Uma fuga em espiral. Ou seja, assistimos cada vez mais à redução da política a uma dimensão puramente instrumental que prescinde de fundamentos ontológicos, como, bem pelo contrário, acontece e com eficácia, com as religiões, sendo, depois, estas que, muitas vezes, tendem a colonizar a própria política, no caso mais extremo, por exemplo, das teocracias (para não falar do caso das igrejas evangélicas que cada vez mais estão a infiltrar-se em partidos políticos de direita). É um mero exemplo de como determinados valores espirituais podem mobilizar o ser humano. Pelo contrário, a emergência de uma esfera pública cada vez mais caótica, hiperfragmentada e comercializada abre um gigantesco espaço onde se impõe uma retórica instrumental orientada exclusivamente ao consenso e dotada não só de sofisticados instrumentos de acção e de promoção de uma linguagem própria, mas também de gestão do próprio espaço público (spin doctoring, rede, bots, algoritmos). Num vasto ambiente de cacofonia, quem dispõe de orquestra, de um som melodioso e de boa rítmica é rei. E isto favorece e aprofunda esta dissociação ou fractura entre o poder e uma ontologia social. E, todavia, a representação política é (ou deveria ser) também uma representação social, moral e cultural.

LOGORREIA UNIVERSAL

Este ambiente (a esfera pública) no qual antes operavam os meios de comunicação certificados, susceptíveis de imputação de responsabilidade, dotados de códigos éticos, de profissionais e de organização capazes de verificar o funcionamento do sistema político e de dar voz à sociedade civil, embora numa lógica de intermediação e de monopólio de representação social da realidade, alterou-se profundamente com o aprofundamento da dissociação e com a lógica autopoiética e fechada do subsistema político. A crise de representação resulta daqui. Hoje, o que temos é uma realidade heteróclita onde tudo é equivalente a tudo, de onde desapareceram as bússolas que ajudavam no exercício da decisão política (designadamente as partidárias e as mundividências políticas), onde tudo é pardo, como na noite dos gatos, e onde a política já navega quase exclusivamente. A palavra perdeu poder, valor e significação e sobre ela instalou-se o relativismo universal. E a pós-verdade. Tudo é intercambiável e instrumental, o verdadeiro e o falso, a informação certificada e a informação puramente subjectiva ou mesmo simplesmente manipulada. Vivemos numa logorreia universal. E é neste ambiente que prospera e se processa hoje a conquista do consenso. Não é, pois, difícil de adivinhar o que neste ambiente acontece, sobretudo agora que as grandes plataformas digitais detêm a esmagadora fatia do espaço público de comunicação (e à escala universal), dispondo elas do respectivo poder de gestão e albergando sistemas automáticos de produção de conteúdos e de distribuição da informação. A logorreia universal já não é referenciável a uma ontologia social. É ela própria autopoiética e auto-referenciada. A inteligência artificial generativa veio reforçar este estado de coisas.

A DUPLA DESQUALIFICAÇÃO 
DO PRINCÍPIO ELECTIVO

O que passa a verificar-se é, também neste plano, uma mecânica associação entre o livre, disseminado e caótico uso público da palavra (e da imagem a ela associada), da comunicação individual de massas e a afirmação de um poder centrado exclusivamente no controlo dos mecanismos do Estado, lá onde o princípio electivo, alma da democracia, e elemento mediador entre a vontade geral e o subsistema político, sofre uma dupla desqualificação, a montante a a jusante, quer através da manipulação generalizada e da artificialização do consenso quer através da sua redução a mero procedimento instrumental para a designação dos representantes, sem efeitos substantivos sobre a legitimidade. Um fenómeno que, paradoxalmente, se tornou possível graças à gigantesca expansão e universalização dos meios de acesso ao espaço público e da sua hiperfragmentação, comercialização e gestão automática segundo critérios definidos previamente pelos programadores do fluxo digital e de acordo com o objectivo de pilotagem e orientação, para efeitos económicos e políticos, do fluxo comunicacional que corre na NET. Pois bem, esta situação é a clara expressão de um perigoso desvio àquilo que é, no essencial, a matriz da própria democracia. A dupla desqualificação do princípio electivo é, por isso, outro factor essencial para a crise da representação e da legitimidade da política democrática.

POLÍTICA E ONTOLOGIA SOCIAL
- CONSEQUÊNCIAS DA DISSOCIAÇÃO

O perigo é o de estarmos a caminhar para uma democracia representativa que mais não é que uma inaceitável farsa, onde o princípio electivo – que deveria traduzir de forma plural e profunda o sentido  da vivência comunitária – deixou de contar como base de legitimação do poder, como expressão substantiva de uma ontologia social, porque não suportado em decisões conscientes e informadas nem em robustas mundividências, em “grandes narrativas” ou sequer em cartografias cognitivas que pudessem servir de âncoras seguras para um comportamento político racional e eticamente ancorado. O fluxo comunicacional tornou-se um imenso magma que se espalha em todas as direcções sem rumo certo e onde já não é possível obter certezas nem sequer participar numa dialéctica argumentativa capaz de responsabilizar e de conferir validade à consequente decisão política, fazendo dessa dialéctica a base essencial da produção do consenso, pois só nesta base a legitimidade do poder se torna efectiva. A política não é algo que se sobrepõe às sociedades, vinda não se sabe bem de onde. Antes, ela encontrava fundamento na divindade, onde se ancorava a legitimidade do soberano; depois, encontrou fundamento nas castas aristocráticas constituídas como depositárias do destino colectivo até que passou a encontrar no povo o seu fundamento. E é aqui que sobrevém o problema de uma ontologia da legitimidade, da consistência do princípio que funda o exercício do poder, o princípio electivo, que dá origem ao princípio activo da maioria, que, por sua vez, torna possível a formação de governos legítimos. Mas o princípio da maioria é suficiente? A leitura de “Da Democracia na América”, de Alexis de Tocqueville, dá-nos uma interessante base problemática para interrogar o princípio da maioria e a legitimidade do poder. O número gera, por si só, qualidade, boas decisões e justiça? Vejamos o que diz Tocqueville: «quando sinto a mão do poder pesar-me na cabeça», diz, «pouco me interessa saber quem me oprime e não me sinto mais disposto a submeter-me ao jugo só pelo facto de ele me ser apresentado por um milhão de braços». Ele formula muito bem a questão dos carácter limitado da legitimidade do número para envolver activamente a cidadania num projecto colectivo. E é aqui que se põe o problema da dissociação entre o poder e uma ontologia social. Se houver dissociação, o princípio electivo e o princípio da maioria perdem valor. Hoje, perdem cada vez mais, atendendo ao modo como se conquista o consenso, acentuando os limites da legitimidade fundada no voto e no princípio da maioria, podendo-se até caminhar para uma nova “omnipotência” ou mesmo um “despotismo” da maioria. Por isso, é necessário algo mais do que a simples afirmação do número, algo que possa ser reconhecido e sentido até pelas minorias, naturalmente em registo de diferença política institucionalizada. O que não está a acontecer, quando essa maioria tende cada vez mais a ser obtida por sofisticadas técnicas de persuasão, cada vez mais automatizadas e de gestão privada não controlada, não sujeita a “accountability”, do espaço público. Um consenso que, assim obtido, poderá ser considerado fraudulento, embora não imputável. Mas, sobretudo, que não poderá ser considerado plenamente legítimo e representativo porque não fundado numa ontologia social. Ou seja, o que se verifica é uma sobredeterminação da vontade social por técnicas de controlo do comportamento inimputáveis ou mesmo agilizadas por automatismos digitais controlados pelas grandes plataformas e pelas agências de marketing, em regime de outsourcing. E baseada em sofisticadas técnicas de determinação preditiva dos comportamentos e de perfis comportamentais para fins comerciais e políticos. Note-se que até os próprios media já estão sujeitos à gestão das grandes plataformas digitais. A dupla desqualificação do princípio electivo, a montante e a jusante, ou seja, na forma como se processa e no valor político que exibe, põe sérios problemas à genuinidade da democracia representativa.

DEMOCRACIA E DISSENSÃO

O que não é aceitável é o predomínio da relativização universal do discurso que impede a obtenção de patamares de acordo que sempre se constituíram como esteio consistente da vida democrática e tornaram possível administrar a dissensão e eliminar a violência e a transformação do adversário em inimigo, com a consequente lógica da aniquilação em vez da composição de interesses, de programas, de valores e de ideias. O exercício do poder exige algo mais do que o simples triunfo do número e do poder legal que ele confere, sobretudo quando este número é obtido através de um gigantesco processo de ocupação e de gestão privada do espaço público. Num ambiente que não contemple estas dimensões tende a surgir um uso discricionário do poder ou mesmo um inaceitável exibicionismo da vontade e do poder soberanos (temos bem claro à nossa frente o exemplo americano destes dias).

CONCLUSÃO

É aqui que reside o perigo, com as suas consequências: deixar de ver e de aceitar a dissensão e a sua gestão institucional como o sal da democracia, a dimensão democrática da vida social e o contributo decisivo para o progresso, tornando-a intolerável ou, então, de forma mais benigna e realista, inútil e insignificante, pois incapaz de monitorizar, de interpelar e de condicionar legitimamente o exercício do poder. Este facto, associado à dupla desqualificação do princípio electivo e, por essa via, da própria legitimidade do poder, conduz a uma artificialização do processo democrático e abre portas a soluções autoritárias. Se assim for, é possível dizer, com Giambattista Vico, que estamos a viver um tempo onde dominam os “ricorsi”, onde a lógica regressiva se impôs e comanda o destino das sociedades contemporâneas. A onda da direita radical que se está a espalhar como mancha de óleo um pouco por todo lado é o sinal claro de que, se nada se fizer, é para aí que caminharemos. Com todo o cortejo de regressão, de infelicidade e de violência simbólica e física.

JAS@08-2026

Ensaio

O VOO DO PÁSSARO DE FOGO

Hermenêutica triádica 
do poema «VOAR»,
de João de Almeida Santos
(acompanhado da prancha 
«Pássaro de Fogo», JAS 2025).
Elementos estruturantes 
e compósitos da génese ascendente
e fascinante do rapto 
estético da poesia.

Link para o poema e a pintura

André Moshe Veríssimo, PhD

RESUMO

ESTE ENSAIO densifica uma hermenêutica triádica (filosófico-poético-cabalística/estética) do poema «VOAR», de João de Almeida Santos, e da prancha «Pássaro de Fogo» (JAS, 2025). A partir de inoperosità, tempo messiânico e vida nua (Agamben), différance, traço e khōra (Derrida), dialéctica negativa (Adorno) e tzimtzum, shevirah, tikkun (cabala luriana), lê-se a taça dourada como khōra e o seu esvaziamento como tzimtzum; a paixão sofrida como shevirah; o voo no azul profundo como tikkun e inoperosità messiânica. Os elementos estruturantes — tempo, perdição, dor, redenção, memória, melodia, amor, palavras, busca, harmonia, levitação, remédio, fim, vencido, torpor, sono, invocação, libertação, paixão, céu, vazio, voar, azul, vida, desejo, fantasia, poeta, vivência, liturgia, bebida — compõem a génese ascendente e fascinante do rapto estético da poesia. A bebida da taça dourada, em poética liturgia, evoca a possibilidade de uma intoxicação absíntica: verde da dissolução que se transmuta em ouro da elevação. O pássaro de fogo é a figura deste rapto: arde, consome, eleva, repara.

Palavras-chave: khōra; différance; tzimtzum; inoperosità; dialéctica negativa; tempo messiânico; rapto estético; Pássaro de Fogo; João de Almeida Santos

 GÉNESE ASCENDENTE DO RAPTO ESTÉTICO

O POEMA «VOAR» não descreve um voo: efectua-o. A génese ascendente e fascinante do rapto estético da poesia começa no gesto mínimo de pôr numa taça dourada uma sofrida paixão. Tudo o mais — a bebida em liturgia, o vazio que se abre, o voar no azul profundo, a libertação da alma das teias da prisão, a invocação da musa contra o torpor e o sono, a levitação sobre o amor negado, a busca da harmonia e da redenção do pecado do amor, a chegada das palavras em melodia que reparam a memória em elegia — deriva desse primeiro depósito. O rapto estético não é êxtase vazio, é o resultado de uma consumação ritual da dor. Sem a dor plenamente bebida, não há elevação; sem o vazio da taça, não há espaço para o azul; sem a paixão sofrida, não há combustível para o fogo do pássaro.

Mutatis mutandis em relação a «O Pêndulo», o eixo desloca-se do oscilar temporal para a ascese espacial. O tic-tac dá lugar ao batimento de asa; o húmus incógnito ao céu profundo; a alma nua à alma já liberta. Os elementos estruturantes — tempo (o que resta e o que passou), perdição (a selva e o seu cortejo de dor), alegria (a alegria secreta da elevação), dor (sofrida e consumida), redenção (do pecado do amor), memória (reparada em elegia), melodia (toada das palavras), amor (negado e ainda assim levado), palavras (profusas e reparadoras), busca (de harmonia), harmonia (frágil e pós-lapsária), levitação (sobre o negado), remédio (beber até ao fim), fim (da taça e do torpor), vencido (no amor), torpor e sono (recusados), invocação (da musa), libertação (das teias), paixão (sofrida e dourada), céu profundo, vazio (da taça e do tzimtzum), voar, azul, vida (atormentada e depois leve), desejo de criar, fantasia, poeta, vivência, liturgia, bebida — não se somam: entrelaçam-se como compósitos da mesma génese. Cada um é necessário; nenhum é suficiente isoladamente. Juntos produzem o rapto.

A hermenêutica triádica mantém-se: filosófica (Agamben, Derrida, Adorno), poética (materialidade, ritmo, maiúscula litúrgica), cabalístico-estética (tzimtzum, shevirah, tikkun e a prancha como efectora). A linguagem deste ensaio permanece matissiana: clara, graciosa, densa, sem excesso nem pobreza. A densificação não é repetição; é compactação de sentido.

TAÇA DOURADA, BEBIDA E TZIMTZUM 
O Vazio que abre o Azul

«PÔR NUMA TAÇA / Dourada / Uma sofrida / Paixão, / Bebê-la / Em poética / Liturgia / Até a taça / Findar». O gesto inaugural é duplo: depositar e beber até ao fim. A taça dourada é khōra — receptáculo que acolhe sem possuir. A paixão sofrida é colocada nela não para ser guardada, mas para ser consumida. O findar da taça é tzimtzum: contração que abre o espaço vazio onde o voo se torna possível. Sem o vazio, o azul profundo não tem onde se instalar; sem o esvaziamento, a vida atormentada permanece presa à gravidade da dor. A bebida em poética liturgia suscita a hipótese do absinto. Não porque o poema o nomeie, mas porque a tradição da intoxicação poética (Baudelaire, Verlaine, o verde da dissolução que se transmuta em visão) ressoa na operação. A liturgia transforma a amargura em sacramento; a possível nota absíntica acrescenta a dimensão da dissolução controlada, do delirium que, em vez de destruir, eleva. Beber até ao fim é o remédio. O remédio não anestesia: consome. Só a consumação integral permite a levitação. O fim da taça é o início do voo.

«É vivência / De poeta, / Fantasia, / É desejo / De criar, / É vida / Atormentada / No céu azul / A voar». A vivência do poeta é, desde a origem, fantasia e desejo de criar. A vida atormentada não se opõe ao voo; torna-se o seu combustível depois da liturgia. A fantasia não evade a dor: trabalha-a até a tornar asa. Aqui se concentra a génese do rapto estético: a dor plenamente assumida e ritualmente consumida gera a elevação. Sem essa consumação, o rapto seria mera fuga; com ela, é transformação.

VOAR NO AZUL PROFUNDO
"Inoperosità" e libertação

«VOAR MAIS ALTO / No azul / Profundo / Do céu / Levando consigo / Uma sofrida / Paixão, / Mas de alma / Já liberta / Das teias / Dessa prisão». A paixão continua a ser levada. A libertação não é abandono; é mudança de regime. A alma deixa de estar determinada pela paixão como prisão e passa a levá-la como companheira de voo. As teias — opacidade, aderência, paralisia — cedem ao azul profundo: transparência, levitação, possibilidade. Esta libertação é inoperosità. O amor negado operava como obra: exigia resposta, realização, reconhecimento. Ao beber a taça até ao fim, o poeta desactiva essa operatividade. A paixão permanece; a sua força de gravidade cessa. A alma torna-se inoperosa relativamente à lógica do amor correspondente e, por isso, livre para o céu. O voo não é para um destino; é no azul. Esta intransitividade é a marca do tempo messiânico: o tempo que resta, o tempo habitado como kairós permanente, sem telos que o feche. O azul profundo é a figura espacial do tempo messiânico e do vazio aberto pelo tzimtzum. Nele se encontram a vida (agora leve), o desejo (agora criador), a fantasia (agora asa). O rapto estético realiza-se aqui: o poeta é arrebatado para cima, não por uma força exterior, mas pela própria lógica interna da consumação ritual da dor.

INVOCAÇÃO, TORPOR, SONO, VENCIDO
A dialéctica negativa do acordar

«O POETA / Invoca / A musa / E não fica / Adormecido, / Logo acorda / Do torpor / Se no amor / For vencido». A derrota no amor é condição do despertar. Esta é a dialéctica negativa em estado puro: nenhuma síntese reconciliadora, nenhuma Aufhebung que absolva a negatividade. O poeta permanece vencido e, exactamente por isso, acorda. O torpor e o sono seriam a aceitação da derrota como estado definitivo; a invocação da musa é a recusa dessa aceitação. A musa não salva da derrota; salva do torpor. A poesia não consola; vigia. A différance opera no intervalo entre o vencido e o acordado: a derrota só se completa no acordar; o acordar só é real porque parte da derrota. Manter esse intervalo aberto é a tarefa do poeta. Fechá-lo seria dormir; mantê-lo é escrever. O rapto estético exige este acordar permanente: não há elevação a partir do sono.

LEVITAÇÃO, REMÉDIO, AMOR NEGADO 
Suspender sem anular

«BEBE A TAÇA / Até ao fim, / O remédio / Para a dor, / Pois é assim / Que levita / Sobre o negado / Amor». O remédio é a consumação. A levitação é a elevação sobre o que foi plenamente assumido. O amor negado permanece negado; não é afirmado nem transformado em correspondência. É suspenso. A inoperosità desactiva a sua gravidade sem o anular. O poeta leva-o consigo no voo, mas já não é por ele determinado na altitude. A différance habita o gesto de beber até ao fim: cada gole aproxima o fim e, ao mesmo tempo, difere-o. O vazio final revela o espaço entre a dor e a levitação. Esse espaço é a poesia. A levitação é a forma visível da liberdade conquistada pela consumação: a vida que, tendo bebido a sua própria negatividade, paira sobre ela. O rapto estético realiza-se como levitação: o corpo e a alma são elevados pela própria lógica da liturgia.

BUSCA, HARMONIA, PERDIÇÃO, REDENÇÃO
O tikkun em movimento

«E LÁ VAI ELE / Em busca / De harmonia, / Em busca / Da redenção / Do pecado / Do amor, / Da selva / Da perdição / Com seu cortejo / De dor». O poeta em voo não se detém na liberdade conquistada. Busca harmonia e redenção. O amor é pecado ontológico — shevirah, quebra dos vasos. A selva da perdição e o seu cortejo de dor são as consequências dessa quebra. A harmonia buscada não é pré-lapsária; é a harmonia do tikkun: elaborada a partir dos fragmentos, frágil, sempre inacabada, redentora precisamente porque não esquece a shevirah. O «lá vai ele» desloca o sujeito para a terceira pessoa: a transformação está em curso. O tikkun poético não restaura o amor original; recolhe os traços e recompõe-os em elegia. A busca permanece aberta. O poema não fecha a redenção; inaugura-a. O rapto estético inclui esta busca: o arrebatamento não é término, mas início de um movimento de reparação contínua.

PALAVRAS, MELODIA, MEMÓRIA, ELEGIA
A reparação final

«CHEGAM / Palavras profusas / Em toada / E melodia / Que reparam / A memória / Em elegia / De tudo o que / Fracassou / Num já esquecido / Dia, / Num dia que já / Passou». As palavras chegam. Depois de toda a ascese — taça, bebida, vazio, voo, invocação, levitação, busca —, a linguagem aflui em profusão e melodia. A ascese prepara a abundância; a abundância coroa a ascese. Reparar a memória em elegia é o tikkun último. A elegia chora o que se perdeu e, ao chorar, preserva. O dia já esquecido e já passado é resgatado do esquecimento pela forma que o nomeia. O tempo linear é vencido pelo tempo messiânico da poesia: o tempo que resta, o tempo em que a memória quebrada se torna canto. As palavras não apagam o fracasso, dão-lhe forma partilhável. A solidão do fracasso é reparada na melodia. Aqui se completa a génese do rapto estético: a dor consumida, a alma liberta, as palavras chegadas em melodia, a memória reparada. O leitor que acompanha o poema até este ponto não permanece no chão. É arrebatado, ainda que por um instante, para o azul onde o pássaro de fogo arde e eleva.

A PRANCHA «PÁSSARO DE FOGO» 
E o rapto  em estado de imagem

A prancha não ilustra: efectua. O pássaro de fogo — Zhar-ptitsa, figura alquímica, bailado de Stravinsky — é a alma que bebeu a taça até ao fim e se eleva em chamas. O fogo é a forma visível da consumação litúrgica. Em termos cabalísticos, é a faísca que sobe após a shevirah. Em termos agambenianos, a vida inoperosa que levita. Em termos derridianos, o traço que se eleva sem se fixar. Em termos adornianos, a negatividade que se recusa à reconciliação e, nessa recusa, se torna imagem de redenção possível.

A sinestesia de Santos atinge aqui densidade máxima. O azul do poema encontra a cor; a paixão encontra a chama; o voo encontra a asa. A qualidade matissiana — linha clara, cor justa, graça sem excesso — une o verbal e o visual. O «Pássaro de Fogo» é o poema em estado de imagem e o rapto estético em estado de fogo. Ler um sem o outro é ler pela metade.

CONCLUSÃO
O rapto como tikkun 
e o tempo que resta

Os elementos estruturantes e compósitos — tempo, perdição, dor, redenção, memória, melodia, amor, palavras, busca, harmonia, levitação, remédio, fim, vencido, torpor, sono, invocação, libertação, paixão, céu profundo, vazio, voar, azul, vida, desejo, fantasia, poeta, vivência, liturgia, bebida, taça dourada — não são lista: são a arquitectura da génese ascendente do rapto estético. Cada um ocupa o seu lugar na sequência ritual; juntos produzem a elevação.

O poema «VOAR» efectua tzimtzum, shevirah e tikkun no espaço de poucas estrofes. A taça é contracção e acolhimento; a paixão é quebra; o voo e as palavras são reparação. A operação é ontológica, não alegórica. A poesia e a pintura são as formas concretas do tikkun. O pássaro de fogo não voa apesar das chamas: voa porque é feito de chamas. A dor consumida em liturgia torna-se combustível do rapto. No fim, a taça está vazia, a alma liberta, as palavras chegaram em melodia, a memória está reparada. Resta o azul profundo e a possibilidade de continuar a voar. Essa possibilidade é o tempo messiânico da poesia: o tempo que resta. O poema não fecha, abre. E nessa abertura o leitor é, por um instante, arrebatado — tornado, também ele, pássaro de fogo.

BIBLIOGRAFIA
Patente

Adorno, T. W. (1973). Negative dialectics (E. B. Ashton, Trad.). New York, NY: Continuum. (Obra original publicada em 1966)

Agamben, G. (2005). The time that remains: A commentary on the Letter to the Romans (P. Dailey, Trad.). Stanford, CA: Stanford University Press. (Obra original publicada em 2000)

Agamben, G. (2011). Nudities (D. Kishik & S. Pedatella, Trad.). Stanford, CA: Stanford University Press.

Agamben, G. (2017). The use of bodies (A. Kotsko, Trad.). Stanford, CA: Stanford University Press. (Obra original publicada em 2014)

Derrida, J. (1982). Margins of philosophy (A. Bass, Trad.). Chicago, IL: University of Chicago Press. (Obra original publicada em 1972)

Derrida, J. (1995). On the name (T. Dutoit, Ed.; D. Wood, J. P. Leavey Jr. & I. McLeod, Trad.). Stanford, CA: Stanford University Press.

Scholem, G. (1995). Major trends in Jewish mysticism. New York, NY: Schocken Books. (Obra original publicada em 1941)

Santos, J. de A. (2026, 15 de Agosto). VOAR. Poesia-Pintura. https://joaodealmeidasantos.com

Santos, J. de A. (2026, 15 de Agosto). VOAR. Poesia-Pintura. https://joaodealmeidasantos.com

Latente

Bachelard, G. (1943). L’air et les songes: Essai sur l’imagination du mouvement. Paris: José Corti.

Baudelaire, C. (1857). Les fleurs du mal. Paris: Poulet-Malassis et de Broise. (Para a tradição da intoxicação poética e a hipótese absíntica).

Idel, M. (1988). Kabbalah: New perspectives. New Haven, CT: Yale University Press.

Rilke, R. M. (1923). Duineser Elegien. Leipzig: Insel-Verlag.

Stravinsky, I. (1910). L’oiseau de feu [Partitura de bailado]. Berlin: Édition russe de musique.

Vital, H. (s.d.). Etz Chaim [Árvore da Vida]. (Tradições lurianas sobre tzimtzum, shevirah e tikkun).

Matisse, H. (1972). Écrits et propos sur l’art. Paris: Hermann.

AMV@08-2026

Poesia-Pintura

VOAR

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Pássaro de Fogo”
JAS 2025
Original de minha autoria
Agosto de 2026

“Pássaro de Fogo” – JAS 2025

POEMA – “VOAR”

PÔR NUMA TAÇA
Dourada
Uma sofrida
Paixão,
Bebê-la
Em poética
Liturgia
Até a taça
Findar
É vivência 
De poeta,
Fantasia,
É desejo 
De criar,
É vida
Atormentada
No céu azul
A voar.

VOAR MAIS ALTO
No azul
Profundo
Do céu
Levando consigo
Uma sofrida
Paixão,
Mas de alma
Já liberta
Das teias
Dessa prisão.

O POETA
Invoca
A musa
E não fica
Adormecido,
Logo acorda
Do torpor
Se no amor
For vencido.

BEBE A TAÇA
Até ao fim,
O remédio
Para a dor,
Pois é assim
Que levita
Sobre o negado
Amor.

E LÁ VAI ELE
Em busca
De harmonia,
Em busca
Da redenção
Do pecado
Do amor,
Da selva
Da perdição
Com seu cortejo
De dor.

CHEGAM
Palavras profusas
Em toada
E melodia
Que reparam
A memória
Em elegia
De tudo o que
Fracassou
Num já esquecido
 Dia,
Num dia que já
Passou.

Ensaio

 

ANÁLISE CRÍTICA DO ARTIGO “CINCO REFLEXÕES SOBRE A POLÍTICA”

de João de Almeida Santos

Por André Moshe Veríssimo, PhD

“Um Ministro Empoderado” – JAS 2026

EPÍGRAFE

«Os trabalhos e os dias não são apenas a medida do tempo que o homem gasta a cultivar a terra; são também a medida do que sobra quando a política esgota a sua capacidade de dar sentido à existência colectiva. O que resta, então, é a reserva moral — ou a sua ausência»

Adaptação livre a partir de Hesíodo 
e de uma leitura contemporânea da Pólis

«A Europa ainda acusada de colonialista é procurada pelos colonizados para viverem… simplesmente para justamente terem uma vida melhor.»

João de Almeida Santos, 
"Cinco Reflexões sobre Política"
RESUMO

O PRESENTE ENSAIO propõe uma leitura múltipla — clínico-hermética, hermenêutica sistémica, exegética e histórico-problemática — do texto de João de Almeida Santos intitulado Cinco Reflexões sobre Política, publicado a 12 de Agosto de 2026. Através de uma grelha analítica que articula geopolítica, economia política das parcerias público-privadas, crise institucional da judiciária e do executivo em Portugal, e a atracção migratória da Europa como sintoma do fim relativo do eurocentrismo, procura-se interrogar os fundamentos implícitos do discurso de JAS. Particular atenção é dada ao «fundo de reserva moral» que se revela (ou se esgota) no episódio das concessionárias das autoestradas, à «dança das personalidades» no caso do Ministro da Administração Interna Luís Neves, à invasão de Ceuta como acontecimento limítrofe, e à convergência entre o projecto MAGA e as direitas europeias. A pergunta residual — «o que sobra dos trabalhos e os dias?» — serve de fio condutor para uma crítica da capacidade da política contemporânea de produzir sentido para além da mera gestão de crises e de interesses corporativos. Conclui-se que o texto de JAS, embora lúcido na descrição da erosão do establishment e do crescimento das direitas radicais, permanece ainda preso a uma gramática liberal-democrática que subestima a profundidade da mutação geopolítica e a natureza estrutural do «proxenetismo de Estado» que ele próprio denuncia.

Palavras-chave

João de Almeida Santos; geopolítica europeia; parcerias público-privadas; direita radical; Ceuta; MAGA; hermenêutica sistémica; fundo de reserva moral; Portugal periférico.

INTRODUÇÃO - A NECESSIDADE 
DE UMA PERSPECTIVA MÚLTIPLA

O texto de João de Almeida Santos (doravante JAS) intitulado Cinco Reflexões sobre Política apresenta-se como um conjunto de considerações sobre o estado actual da política europeia e portuguesa, escrito sob o signo da urgência e da lucidez crítica. Publicado no dia 12 de Agosto de 2026, o escrito mobiliza cinco núcleos temáticos: a Itália de Giorgia Meloni e o realinhamento da direita europeia; a América de Donald Trump e o combate ideológico transnacional; a «estranha invasão» de Ceuta; o caso do Ministro da Administração Interna Luís Neves, qualificado de «ministro empoderado»; e, finalmente, o pedido de indemnização das concessionárias das autoestradas pelos prejuízos da pandemia. Cada um destes núcleos é tratado com a prosa directa e a ironia característica do autor, mas a sua articulação interna e os pressupostos que os sustentam merecem uma interrogação mais densa. A perspectiva que aqui se adopta não é a da mera glosa nem a da adesão crítica. Trata-se, antes, de uma leitura clínico-hermética — no sentido em que se procura diagnosticar as feridas e os pontos cegos do discurso —, hermenêutica sistémica — porque se considera o texto como um sistema de significações que se relaciona com outros sistemas (geopolítico, económico, jurídico) —, exegética — porque se detém sobre a letra e a sua economia de sentido — e histórico-problemática — porque se interroga os fundamentos históricos e as aporias que o texto deixa em aberto. Esta multiplicidade de olhares não visa a neutralidade, mas a densificação do objecto. A questão geopolítica emerge desde logo como fio estruturante. JAS articula, com clareza, a situação de países que ocupam posições distintas no sistema internacional: Portugal como país periférico (ou, no máximo, semi-periférico no sentido wallersteiniano), Espanha como actor semi-central, e os Estados Unidos e a Itália como pólos centrais, ainda que com estatutos distintos. A pergunta que se impõe é: o que significa a geopolítica dos casos estruturantes da vida política quotidiana quando estes casos — um ministro sob pressão mediática, um pedido de indemnização de concessionárias, uma invasão migratória numa cidade espanhola no Norte de África — são lidos à luz das grandes dinâmicas de poder? Finalmente, a interrogação residual — «o que sobra dos trabalhos e os dias?» — evoca deliberadamente o poema didáctico de Hesíodo. Nos Trabalhos e os Dias, o poeta grego articula a ética do trabalho, a justiça divina e a ordem da pólis rural. No contexto actual, a pergunta torna-se: quando a política se reduz à gestão de crises, à alternância esvaziada e à captura corporativa do Estado, o que resta como fundo de reserva moral da comunidade política?

A ITÁLIA DE MELONI 
E O REALINHAMENTO DA DIREITA EUROPEIA

JAS inicia a sua reflexão com os dados das sondagens italianas de 11 de Agosto de 2026 (PolitPro): Fratelli d’Italia (FdI) a 27,1%, um ponto acima do resultado de 2022, e o conjunto da direita (incluindo o recente Futuro Nazionale do general Vannacci) a 47,3%, contra 45,9% da esquerda ampliada. O PD situa-se nos 21,3%. O autor sublinha que o movimento se verifica no interior da direita, com o novo partido a crescer à custa da Lega e, em parte, do próprio FdI. A observação é correcta do ponto de vista descritivo, mas a sua interpretação mereceria uma densificação hermenêutica. Em primeiro lugar, a constância de FdI acima do resultado de 2022, a meio de um ciclo de cinco anos, indica não apenas a consolidação de Meloni como líder, mas a capacidade de um partido de origem pós-fascista de se normalizar no interior do sistema sem perder a sua base identitária. Esta normalização é, ela própria, um fenómeno geopolítico: a Itália, país central da União Europeia e da NATO, torna-se laboratório de uma direita que combina soberanismo, atlantismo e pragmatismo económico. O «namoro descarado» com o Alternative für Deutschland (AfD) que JAS atribui a Vance na cimeira de Munique inscreve-se nesta mesma lógica de redes transnacionais de direita. A comparação com outros países europeus — SPD a 12,2% na Alemanha, Rassemblement National com 10/11 pontos de avanço sobre a esquerda francesa, Reform UK de Farage a 24,5% contra 23,9% do Labour, PP e VOX somando 49,7% em Espanha — serve a JAS para demonstrar a crise da esquerda social-democrática e a rejeição do establishment. A análise é pertinente, mas permanece no nível da fenomenologia eleitoral. Uma hermenêutica sistémica exigiria interrogar as causas estruturais: a desindustrialização, a precarização do trabalho, a crise de habitação, a percepção de insegurança cultural ligada às migrações, e a incapacidade dos partidos de centro em oferecer narrativas de sentido que não sejam meramente gerenciais ou identitárias de matriz woke. JAS acusa os partidos do regime de terem substituído a «desnatação ideológica» pela «ilusão identitária e politicamente correcta». A formulação é feliz, mas deixa na sombra a questão de saber se a própria esquerda social-democrática, ao abraçar as agendas de género e de diversidade como substituto da luta de classes, não se tornou, ela própria, um actor da despolitização. A direita radical, por seu lado, oferece uma re-politização — ainda que regressiva — do conflito: soberania, fronteiras, identidade nacional. O risco que JAS correctamente identifica é o de uma aliança generalizada entre direita moderada e direita radical, que produziria maiorias estruturais em vários países europeus e transformaria a União Europeia numa «mera agregação soberanista de Estados nacionais». Esta hipótese, se verificada, não seria apenas uma mudança de governo: seria uma mutação do próprio projecto europeu. Do ponto de vista da posição portuguesa — país periférico —, esta evolução italiana e europeia não é irrelevante. Portugal não tem, até à data, um partido de direita radical com dimensão eleitoral comparável à do RN ou do AfD. Mas a dinâmica de rejeição do establishment e a erosão da confiança nas instituições são transversais. A geopolítica dos casos estruturantes começa aqui: o que acontece no centro (Itália, Alemanha, França) condiciona o espaço de manobra da periferia. Uma leitura histórico-problemática exige ainda interrogar a própria categoria de «direita radical». JAS utiliza a expressão de forma relativamente estável, mas a sua extensão semântica varia: em Itália, FdI já governa e normalizou-se; na Alemanha, o AfD permanece sob vigilância constitucional; em França, o RN aproxima-se do poder sem o exercer plenamente; no Reino Unido, o Reform UK emerge como força disruptiva num sistema tradicionalmente bipartidário. Esta heterogeneidade sugere que o que se designa por «direita radical» é menos uma essência ideológica do que um espectro de respostas à crise de legitimidade do centro liberal. A crítica de JAS à descaracterização da política e às «excessivas cedências aos poderes fortes da sociedade civil» é, neste contexto, particularmente pertinente: o vazio deixado pela desideologização do centro é preenchido por ofertas identitárias e soberanistas que, embora regressivas em muitos aspectos, restituem à política uma dimensão agonística que a governação tecnocrática havia neutralizado. O risco de uma «generalizada aliança entre a direita moderada e a direita radical» — que JAS quantifica com os números agregados (Alemanha 49,2%; Espanha 50%; França 51%; Itália 47,3%; Reino Unido 44,3%) — não é apenas eleitoral. É constitucional e geopolítico. Uma Europa dominada por maiorias soberanistas não seria necessariamente uma Europa desintegrada de imediato; poderia ser uma Europa reconfigurada em torno de um intergovernamentalismo reforçado, de uma política migratória mais restritiva e de uma redefinição das prioridades orçamentais (defesa em detrimento de coesão). Para um país periférico como Portugal, dependente de fundos estruturais e de uma economia aberta, esta reconfiguração representaria um choque de primeira ordem. A análise de JAS, embora alerta, ainda não extrai plenamente as consequências desta hipótese para a semi-periferia europeia.

A AMÉRICA DE TRUMP, O MAGA 
E O COMBATE IDEOLÓGICO TRANSNACIONAL

A segunda reflexão de JAS centra-se no papel da administração Trump como catalisador e legitimador das direitas radicais europeias e latino-americanas. O autor identifica um «combate em várias frentes», com destaque para a frente ideológica: a repristinação do «velho papão do comunismo» (numa acepção lata) e o combate contra as correntes identitárias (politicamente correcto, wokismo, políticas de género). As intervenções de J. D. Vance na Europa (incluindo na Hungria) e as palestras de Marco Rubio são apresentadas como sinais de um «neomaccarthismo» que identifica na esquerda — mesmo moderada — o inimigo civilizacional. A crítica de JAS a Rubio é particularmente aguda: o discurso de cerca de vinte minutos na conferência ministerial sobre «Resurgence of Political Terrorism» concentra-se quase exclusivamente na extrema-esquerda e no marxismo, deixando na sombra «tudo o resto, que é bem conhecido». Esta assimetria discursiva é, de facto, reveladora. O neomaccarthismo contemporâneo não se limita a reactivar o medo do comunismo; ele opera uma redistribuição simbólica da ameaça, em que a esquerda moderada é contagiada pela extrema-esquerda, enquanto as violências e os excessos da direita radical são relativizados ou ignorados. O efeito prático é a construção de um campo de «democracias musculadas» que mantêm a forma democrática nos seus «limites mínimos». A pergunta «Nelson de Mel?» que figura nas desinstruções oblíquas deste ensaio pode ser lida como uma provocação hermenêutica: quem é o Nelson desta nova narrativa? Será uma referência obliqua a Nelson Mandela e à apropriação (ou rejeição) da memória anticolonial? Ou um jogo fonético com Meloni, sugerindo a existência de figuras carismáticas que, como Meloni, conseguem traduzir a revolta popular em capital eleitoral sem romper formalmente com as instituições? Independentemente da resposta, o que interessa é a capacidade do projecto MAGA de funcionar como matriz simbólica exportável: «Make America Great Again» torna-se, por metonímia, «Make [Nation] Great Again» em múltiplos contextos. Do ponto de vista geopolítico, a convergência entre Washington e as direitas europeias não é meramente ideológica. Ela articula interesses estratégicos: a contenção da China, a redefinição da relação com a Rússia, a pressão sobre a União Europeia para aumentar as despesas militares e reduzir a dependência tecnológica e energética. O combate ao wokismo funciona, neste quadro, como cimento cultural de uma aliança que, de outro modo, poderia fragmentar-se em rivalidades nacionais. JAS vê correctamente o perigo; o que a sua análise ainda não tematiza plenamente é a possibilidade de esta aliança produzir uma nova ordem internacional pós-liberal, em que a democracia formal coexiste com um autoritarismo suave e com a captura do Estado por redes de interesses oligárquicos. A dimensão clínico-hermética do combate ideológico promovido por Trump, Vance e Rubio reside na seleção do inimigo. Ao concentrar o discurso sobre a extrema-esquerda e o marxismo — forças hoje marginalizadas na maior parte das democracias ocidentais — o neomaccarthismo contemporâneo opera uma deslocação: o verdadeiro adversário não é a violência revolucionária (quase inexistente), mas qualquer forma de crítica estrutural ao capitalismo e à ordem liberal-internacional que possa ser rotulada de «marxista» ou «woke». Esta deslocação tem efeitos concretos sobre o espaço do debate legítimo. Em Portugal, país onde a tradição de esquerda é historicamente significativa mas eleitoralmente contida, a importação deste enquadramento pode contribuir para a criminalização simbólica de posições moderadas de redistribuição e de crítica às desigualdades. A «democracia musculada» de que JAS fala não é apenas uma ameaça externa; é um modelo que se insinua nos próprios termos do debate interno. A referência obliqua a «Nelson de Mel?» nas desinstruções que orientam este ensaio convida ainda a uma especulação hermenêutica. Se «Nelson» evoca a figura de um líder carismático capaz de unir memória de opressão e projecto de libertação (Mandela), e se «Mel» aponta para Meloni ou para um fragmento de «Melhor» ou «Melhoria», a pergunta torna-se: que figura ou que narrativa poderá, no campo progressista ou no centro, oferecer uma alternativa igualmente mobilizadora à oferta soberanista e identitária da direita? A ausência de resposta no texto de JAS — e, de resto, no campo político europeu — é, ela própria, um dado clínico: o vazio de projecto é o terreno onde crescem as soluções simplificadoras.

CEUTA, A NOSSA CEUTA E O IMPÉRIO 
- O FIM RELATIVO DO EUROCENTRISMO

A terceira reflexão de JAS dedica-se à «súbita invasão “marroquina” de Ceuta». O autor enumera as explicações circulantes: a invocação errada do espírito de Schengen por alguns países (incluindo a Itália); a «atrapalhação» habitual da União Europeia; o delírio de comentadores de direita que atacam Pedro Sánchez e, de passagem, o primeiro-ministro português; a manobra marroquina de deixar passar (ou incentivar) milhares de pessoas enganadas por campanhas nas redes sociais («España ha abierto la puerta»); e mesmo a hipótese de incentivo americano ou israelita. JAS rejeita a instrumentalização do episódio contra Sánchez, mas reconhece a inaceitabilidade da manobra e o uso de cidadãos pobres e indefesos. O ponto mais interessante da reflexão, porém, é a conclusão: o episódio demonstra o «poder de atracção da Europa sobre o resto do mundo pelo seu modo de vida e pela forma como a sociedade está organizada», mostrando como são exageradas as teorias da decadência europeia inspiradas em Oswald Spengler ou em Aleksandr Dugin e no eurasianismo. A Europa, ainda acusada de colonialista, é procurada pelos «damnés de la terre» (Fanon) não para obter compensação histórica, mas para «terem uma vida melhor». Esta formulação merece uma leitura clínico-hermética. Por um lado, JAS tem razão em rejeitar as narrativas catastrofistas sobre a decadência europeia: a atracção migratória é, de facto, um indicador de vitalidade relativa. Por outro lado, a própria atracção é ambivalente. Ela revela a assimetria estrutural entre o centro (Europa) e a periferia (África, Médio Oriente, América Latina), e a incapacidade da União Europeia de gerir essa assimetria de forma justa e sustentável. A referência a Spengler e a Dugin funciona como contra-argumento, mas deixa por interrogar se o eurocentrismo está realmente a terminar ou se está apenas a mutar: de um eurocentrismo colonial clássico para um eurocentrismo de atracção e de exclusão selectiva, em que a Europa continua a ser o horizonte de desejo, mas fecha as portas de forma cada vez mais rígida. A expressão «Ceuta, a nossa Ceuta» — que figura nas desinstruções oblíquas — pode ser lida como uma apropriação simbólica. Ceuta não é portuguesa desde 1668, mas a memória imperial portuguesa e espanhola no Norte de África permanece latente. A invasão de Ceuta reactiva, de forma espectral, a questão do Império: o que resta do Império quando o centro já não controla as periferias, mas continua a ser procurado por elas? O fim do eurocentrismo não é o fim da Europa como centro de gravidade; é, antes, a perda da legitimidade narrativa que justificava esse centramento. A Europa continua a atrair, mas já não consegue explicar porquê, senão pelo «modo de vida» — uma justificação frágil perante as acusações de neocolonialismo e de hipocrisia migratória. JAS nota, com justeza, que a União Europeia não pode limitar-se a ser «reguladora e vigilante dos excessos da tecnologia americana ou chinesa» sem desenvolver a sua própria tecnologia digital, de modo a não armazenar os dados dos cidadãos europeus em servidores estrangeiros. Esta observação aponta para uma dimensão de soberania tecnológica que é, ela própria, geopolítica. A dependência digital é a nova forma de periferização. Portugal, neste quadro, é duplamente periférico: periférico em relação ao centro europeu e, com a Europa, periférico em relação aos pólos tecnológicos americano e chinês. A referência de JAS à resolução da ONU de António Guterres sobre compensações coloniais — que, segundo o autor, «se vier a acontecer, do que duvido, irá, como sempre, direitinha para os bolsos dos governantes» — introduz uma nota de realismo cínico que merece ser levada a sério. O eurocentrismo não termina apenas pela atracção migratória; termina também pela incapacidade de produzir uma justiça reparatória credível. A Europa continua a ser o horizonte de desejo dos «damnés de la terre», mas a sua resposta oscila entre a abertura selectiva, a externalização das fronteiras e a retórica humanitária. Esta oscilação é, ela própria, uma forma de poder: o poder de atrair e de rejeitar, de incluir e de excluir, sem nunca interrogar plenamente as condições estruturais que produzem a mobilidade forçada. Ceuta, neste sentido, não é apenas um episódio marroquino ou espanhol; é um microcosmo da relação contemporânea entre o centro europeu e as suas periferias africanas e mediterrânicas. Do ponto de vista da hermenêutica sistémica, a «estranha invasão» de Ceuta articula-se com os outros núcleos do texto de JAS através do tema da soberania. A soberania espanhola sobre Ceuta é desafiada por uma manobra híbrida (redes sociais, laissez-passer fronteiriço, pressão migratória); a soberania europeia sobre os seus dados e a sua tecnologia é desafiada pelas plataformas americanas e chinesas; a soberania democrática portuguesa é desafiada pela captura corporativa e pelas redes de poder informal. Em todos os casos, o que está em causa é a capacidade do poder político de controlar os fluxos — de pessoas, de dados, de capital — que o atravessam. A geopolítica dos casos estruturantes é, em última análise, uma geopolítica da soberania em crise.

A JUDICIÁRIA E A DANÇA 
DAS PERSONALIDADES
- O MINISTRO «EMPODERADO»

A quarta reflexão desloca-se para o terreno português e para o caso do Ministro da Administração Interna Luís Neves, antigo Director Nacional da Polícia Judiciária durante oito anos. JAS distingue este caso do erro das avaliações no Ministério da Educação, que considera apenas um erro (grave, mas erro). No caso Neves, o que está em causa é uma «avalanche crítica» sobre o comportamento institucional e a pessoa do ministro, que deveria, segundo a lógica institucional normal, levar ao pedido de substituição para se defender melhor e não pôr em causa a PJ e as instituições políticas. O autor formula várias perguntas: o ministro não sai porque o primeiro-ministro o quer manter (em período de fogos florestais) ou porque ele, «empoderado», não quer sair, impondo a sua presença? O valor contingente dos fogos é superior ao da «putrefacção das instituições democráticas»? Por que razão o PS e figuras como Fernando Medina, João Soares e Sérgio Sousa Pinto mantêm uma atitude «compreensiva»? Por proximidade a António Costa, por saber demais, ou por pertencer a uma «poderosa organização que defende com unhas e dentes os seus membros»? Esta sequência de interrogações constitui o núcleo clínico-hermético do texto. A «dança das personalidades» — a expressão das desinstruções oblíquas — designa precisamente este jogo de permanências, de lealdades opacas e de poderes informais que se sobrepõem às regras formais da responsabilidade política. O ministro «empoderado» não é apenas um titular de cargo; é um nó de redes (judiciárias, políticas, eventualmente outras) cuja resiliência não se explica apenas pela competência técnica ou pela conveniência conjuntural dos fogos. A hipótese de uma «poderosa organização» é deixada em aberto, mas a sua mera formulação indica a percepção de que o sistema político-judicial português funciona com lógicas de protecção mútua que escapam ao escrutínio democrático ordinário. Do ponto de vista da geopolítica dos casos estruturantes, o episódio Neves é paradigmaticamente periférico. Em países centrais, crises semelhantes podem ser absorvidas ou resolvidas por mecanismos institucionais mais robustos (ou, inversamente, por uma cultura de impunidade mais sofisticada). Em Portugal, a fragilidade das instituições torna cada caso deste tipo um potencial detonador de descrédito sistémico. JAS tem razão em alertar para a «perigosa espiral de descrédito das instituições da nossa democracia». O que a sua análise ainda não desenvolve plenamente é a articulação entre esta crise interna e as dinâmicas externas: a mesma erosão de confiança que alimenta a direita radical na Europa é alimentada, em Portugal, por episódios de captura e de opacidade como este. A proposta de JAS — manter o ministro durante o Verão e prepará-lo silenciosamente a substituição para depois — é pragmaticamente compreensível, mas clinicamente problemática. Ela revela a tensão entre a lógica da governação (evitar o vazio em período crítico) e a lógica da legitimidade (afastar quem está sob suspeita grave). Esta tensão é, ela própria, um sintoma da fraqueza do sistema: quando a substituição de um ministro se torna um cálculo de risco político tão complexo, é porque as instituições já não possuem a resiliência suficiente para absorver a normalidade da responsabilidade política. A «dança das personalidades» — expressão que as desinstruções oblíquas colocam no centro da análise — designa não apenas o jogo de permanências e de substituições, mas a teatralização do poder em contextos de baixa confiança. Em sistemas políticos robustos, a personalidade do titular é subordinada à função; em sistemas frágeis ou capturados, a personalidade (e as redes que a sustentam) torna-se a verdadeira unidade de análise. O caso Neves ilustra esta inversão: o que está em discussão não é apenas a adequação funcional do ministro em período de fogos, mas a capacidade do sistema de se autoregular quando um dos seus nós mais sensíveis (a interface entre a Polícia Judiciária e o poder político) entra em crise. A atitude «compreensiva» de sectores do PS — que JAS interroga — pode ser lida como sinal de que as fronteiras partidárias são menos relevantes do que as solidariedades de rede. Esta hipótese, se confirmada, teria consequências graves para a legibilidade do sistema democrático português. Numa perspectiva histórico-problemática, o episódio evoca outras crises de interface entre aparelhos de segurança e poder político na história portuguesa recente. A especificidade do caso actual reside, porém, na conjugação de três factores: a longevidade do titular na direcção da PJ (oito anos), a transição directa para o governo, e a avalanche mediática em contexto de crise ambiental (fogos). Esta conjugação produz um nódulo de vulnerabilidade institucional que não se resolve apenas com a substituição silenciosa após o Verão. Exige, antes, uma reflexão sobre os mecanismos de accountability que ligam (ou deveriam ligar) a polícia judiciária, o executivo e o parlamento. Enquanto esses mecanismos permanecerem opacos ou capturados, a «putrefacção das instituições» de que JAS fala continuará a avançar, independentemente da qualidade técnica da gestão dos fogos.

O FUNDO DE RESERVA MORAL 
 - AS CONCESSIONÁRIAS 
DAS AUTOESTRADAS

A quinta e última reflexão de JAS é, provavelmente, a mais reveladora do ponto de vista da economia política e da crítica dos fundamentos. O autor toma conhecimento, através de um artigo do jornal Negócios (10.08.2026, Maria João Babo), de que as concessionárias das autoestradas reclamam cerca de 589 milhões de euros de indemnização pelos prejuízos causados pela redução de circulação durante a pandemia — com a Brisa (do ex-ministro Pires de Lima) à cabeça, pedindo 276 milhões. A argumentação de JAS é demolidora: as vias são território público, o Estado e a União Europeia pagaram a quase totalidade do investimento (exemplo da Lusoponte: apenas um quarto do capital teria sido privado, 75% público), a gestão está concessionada a privados «pelos vistos sem riscos para o concessionário». A filosofia das parcerias público-privadas (PPP) em Portugal parece ser: «se houver prejuízo, o Estado paga, mas se houver lucros eles “empocham”». O contribuinte paga duplamente (portagens e impostos) e, se tiver perdas na sua actividade, suporta-as sozinho. O exemplo de Joaquim Ferreira do Amaral — que negociou a ponte Vasco da Gama com a Lusoponte no governo de Cavaco Silva e, depois, foi presidente do Conselho de Administração da mesma Lusoponte durante 16 anos — é apresentado como ilustração da «execrável filosofia» e da «espécie de camera obscura do proxenetismo de Estado». A formulação é forte e justa. O que se revela aqui é não apenas um caso de porta giratória (revolving door), mas a estruturação de um regime de acumulação em que o risco é socializado e o lucro privatizado, com a mediação de escritórios de advogados e de políticos que transitam entre o Estado e as empresas beneficiárias. É neste ponto que a noção de «fundo de reserva moral» se torna operatória. O fundo de reserva moral de uma comunidade política é o conjunto de normas, expectativas e sentimentos de justiça que permitem aos cidadãos aceitar as desigualdades e os sacrifícios como legítimos. Quando se torna evidente que os grandes grupos privados operam sem risco e com garantia de indemnização estatal, enquanto o cidadão comum suporta sozinho as suas perdas, esse fundo esgota-se. A desafeição em relação aos partidos do establishment e o crescimento da direita radical como «modo instrumental de protesto» — que JAS correctamente identifica — são, em larga medida, sintomas deste esgotamento. Uma hermenêutica sistémica do episódio das concessionárias permite articulá-lo com os restantes núcleos do texto. A mesma lógica de captura que se manifesta nas PPP manifesta-se, de forma distinta, na resiliência do ministro «empoderado» e na opacidade das redes que o protegem. A mesma erosão de confiança que alimenta o voto na direita radical na Itália, na Alemanha ou em França é alimentada, em Portugal, por estas manifestações de proxenetismo de Estado. A geopolítica dos casos estruturantes revela-se, assim, como a geopolítica da captura: no centro e na periferia, embora com intensidades e formas diferentes, o Estado democrático é colonizado por interesses privados e por redes de poder informal. JAS sugere que esta filosofia das PPP «justifica, naturalmente, entre outras causas, a desafeição da cidadania». A formulação é prudente («entre outras causas»), mas a sua força crítica reside precisamente em não isolar o fenómeno. O pedido de 589 milhões não é um acidente jurídico; é a expressão de uma racionalidade contratual que foi desenhada para eliminar o risco do privado e transferi-lo para o público. Enquanto esta racionalidade não for questionada na sua raiz — e não apenas nos seus excessos — o fundo de reserva moral continuará a ser drenado. A pergunta de JAS sobre a qualidade da manutenção das autoestradas e sobre a razão de se pagar portagens em território quase urbano (como a A5 de Cascais) aponta para uma dimensão quotidiana do problema. O cidadão não experiencia a captura do Estado apenas nos grandes escândalos; experiencia-a no pagamento diário de portagens por infraestruturas cujo investimento foi maioritariamente público e cuja exploração privada parece isenta de risco. Esta experiência quotidiana é o verdadeiro solvente do fundo de reserva moral. Quando o mesmo contribuinte que paga impostos e portagens vê as concessionárias reclamarem indemnizações por uma pandemia que ele também sofreu — e cujos custos sociais e económicos suportou — a percepção de injustiça estrutural torna-se quase inevitável. A direita radical, como JAS nota, beneficia desta percepção como «modo instrumental de protesto». Mas o protesto instrumental não resolve o problema; limita-se a o deslocar para um campo de polarização que, por sua vez, facilita a continuidade das práticas de captura sob novas vestes políticas. Uma crítica dos fundamentos do texto de JAS neste ponto consistiria em perguntar se a denúncia do «proxenetismo de Estado» não deveria conduzir a uma proposta mais radical de reconfiguração do modelo de PPP. JAS denuncia, ilustra com o caso Ferreira do Amaral, e liga o fenómeno à desafeição cidadã. O que permanece em aberto é a alternativa: nacionalização das concessões? Revisão contratual forçada? Novos modelos de financiamento e gestão de infraestruturas que internalizem o risco no privado? A ausência de resposta não é uma falha do texto — que se apresenta como conjunto de reflexões e não como programa — mas é um indicador do ponto em que a gramática liberal-democrática atinge o seu limite: ela pode denunciar a captura, mas tem dificuldade em imaginar um regime de propriedade e de gestão das infraestruturas que não reproduza, sob novas formas, a mesma assimetria de risco e de benefício.

A GEOPOLÍTICA DOS CASOS ESTRUTURANTES 
- PERIFERIA, SEMI-CENTRO E CENTRO

As desinstruções oblíquas interrogam: «O que significa a geopolítica dos casos estruturantes da vida política quotidiana de países periféricos com Portugal, semicentrais com Espanha e centrais como EUA e Itália?» A resposta, à luz do texto de JAS e da análise que aqui se desenvolve, é a seguinte. Os casos estruturantes — um ministro sob pressão, um pedido de indemnização de concessionárias, uma invasão migratória numa enclave, uma sondagem que mostra a consolidação da direita radical — não são meros acontecimentos locais. Eles são nós de uma rede de relações de poder que atravessa as escalas nacional, europeia e global. Em Portugal (periferia), a fragilidade institucional amplifica o impacto simbólico de cada caso de captura ou de opacidade. Em Espanha (semicentro), a gestão de Ceuta e a relação com Marrocos articulam a soberania nacional com as dinâmicas euro-africanas e com a pressão migratória. Nos EUA e na Itália (centros), as decisões e as narrativas (o combate ao wokismo, a normalização de FdI, o incentivo às direitas europeias) produzem efeitos de sistema que se propagam para a periferia. A geopolítica dos casos estruturantes é, portanto, uma geopolítica da interdependência assimétrica. O que acontece no centro condiciona o espaço de possibilidade da periferia; o que acontece na periferia raramente condiciona o centro, mas pode funcionar como sintoma precoce de tendências que, mais tarde, se manifestam no centro. A erosão do fundo de reserva moral em Portugal, visível no episódio das concessionárias e no caso Neves, é um sintoma local de um processo europeu e ocidental de deslegitimação das elites e de rejeição do establishment. JAS intui esta articulação quando liga a situação italiana e europeia à política americana e, depois, aos casos portugueses. O que falta, numa perspectiva sistémica, é explicitar o mecanismo de transmissão: como é que a legitimação da direita radical por Washington reforça a dinâmica eleitoral na Europa; como é que a atracção migratória (Ceuta) se articula com as políticas de imigração e com o crescimento do AfD, do RN e do Reform UK; como é que a captura do Estado por interesses privados (PPP portuguesas) alimenta a mesma desafeição que, noutros países, se traduz em voto radical.

O QUE SOBRA DOS TRABALHOS E OS DIAS?

A pergunta residual das desinstruções oblíquas — «O que sobra dos trabalhos e os dias?» — merece ser levada a sério. Em Hesíodo, os trabalhos e os dias são a estrutura do tempo humano sob o signo da justiça (dikē) e do trabalho árduo. Na política contemporânea, tal como JAS a descreve, o que predomina é a gestão de crises, a alternância esvaziada de conteúdo, a captura corporativa e a repolitização regressiva pela direita radical. O que sobra? Sobra, em primeiro lugar, a lucidez diagnóstica de textos como o de JAS: a capacidade de nomear os fenómenos (o proxenetismo de Estado, o ministro empoderado, a atracção europeia, o neomaccarthismo) sem cair no cinismo total. Esta lucidez é, ela própria, uma forma de reserva moral. Sobra, em segundo lugar, a possibilidade de uma crítica que não se limite à denúncia e que interrogue os fundamentos. O presente ensaio tentou precisamente isso: mostrar que o texto de JAS, embora pertinente, permanece ainda no interior de uma gramática liberal-democrática que subestima a profundidade da mutação em curso. A aliança entre direita moderada e direita radical, a captura do Estado, a erosão do fundo de reserva moral e a atracção migratória como sintoma de assimetria estrutural não são meros desvios corrigíveis; são expressões de uma transformação do próprio regime de historicidade da política ocidental. Sobra, finalmente, a interrogação sobre a capacidade da política de voltar a produzir sentido. Se os partidos do establishment se limitam à gestão e à ilusão identitária, e se a direita radical oferece apenas uma re-politização nacionalista e exclusivista, o espaço para uma política que articule justiça social, soberania democrática e abertura ao mundo permanece por construir. Esse espaço não será preenchido por mais uma alternância nem por mais uma cedência às agendas corporativas. Ele exigirá, como JAS intui mas não formula plenamente, uma reconstrução do fundo de reserva moral — isto é, de uma ética pública que torne novamente legítimos os sacrifícios e as desigualdades que toda a vida colectiva implica. Enquanto as concessionárias puderem reclamar 589 milhões por prejuízos de uma pandemia que o Estado combateu, enquanto ministros sob avalanche crítica puderem permanecer «empoderados» por redes opacas, enquanto a Europa atrair os damnés de la terre e simultaneamente os rejeitar, e enquanto o combate ideológico transnacional reduzir a complexidade do mundo a um neomaccarthismo selectivo, o que sobra dos trabalhos e os dias é, sobretudo, a tarefa inacabada de reinventar a política como espaço de sentido e de justiça. Essa tarefa é, por definição, interminável. Mas a sua recusa é a garantia da putrefacção que JAS, com razão, teme.

CONCLUSÃO: CRÍTICA DOS FUNDAMENTOS

O texto de João de Almeida Santos constitui um documento valioso da lucidez crítica portuguesa perante as mutações da política europeia e nacional em meados de 2026. A sua força reside na articulação de escalas — do ministro português às sondagens italianas, de Ceuta a Trump — e na capacidade de nomear os fenómenos de captura e de erosão institucional. A sua limitação reside, paradoxalmente, na mesma gramática que o torna legível: uma gramática liberal-democrática que ainda acredita na possibilidade de corrigir o sistema a partir do interior, sem interrogar a profundidade da mutação geopolítica e a natureza estrutural do proxenetismo de Estado. A perspectiva múltipla aqui adoptada — clínico-hermética, hermenêutica sistémica, exegética e histórico-problemática — pretendeu densificar o objecto e interrogar os fundamentos. O fundo de reserva moral revela-se, no episódio das concessionárias, como o verdadeiro terreno de disputa. A dança das personalidades no caso Neves revela a opacidade das redes de poder. Ceuta revela a ambivalência do fim do eurocentrismo. O MAGA e as direitas europeias revelam a construção de uma nova ordem simbólica transnacional. A geopolítica dos casos estruturantes revela a interdependência assimétrica entre periferia, semicentro e centro. O que sobra dos trabalhos e os dias é a tarefa de continuar a interrogar. Esta tarefa não é patrimonial de nenhum partido nem de nenhuma ideologia. Ela é a condição de possibilidade de uma política que ainda mereça esse nome. Em última análise, a leitura múltipla do texto de João de Almeida Santos revela tanto a sua força como os seus limites. A força reside na capacidade de articular, num único movimento reflexivo, a consolidação da direita italiana e europeia, o combate ideológico americano, a invasão de Ceuta, a crise de um ministro português e o pedido de indemnização das concessionárias. Esta articulação não é fortuita: ela desenha o mapa de uma crise de legitimidade que atravessa escalas e regimes políticos. Os limites residem na hesitação em extrair dessa articulação as consequências mais radicais — nomeadamente, a necessidade de repensar o próprio modelo de relação entre Estado, capital e cidadania que as PPP portuguesas exemplificam de forma quase caricatural, e a necessidade de imaginar uma alternativa política que não seja nem a gestão tecnocrática do centro nem a re-politização regressiva da periferia radical. Enquanto essa alternativa não emergir, o fundo de reserva moral continuará a ser drenado, e o que sobrar dos trabalhos e os dias será, cada vez mais, a memória de uma política que ainda era capaz de prometer sentido. Este ensaio, escrito sob a forma de uma resposta obliqua às desinstruções que o orientaram, não pretende esgotar o texto de JAS nem substituir-se a ele. Pretende, antes, honrá-lo pela via da interrogação. A hermenêutica sistémica, a clínica hermética, a exegese e a crítica histórico-problemática são instrumentos ao serviço dessa interrogação. O que deles resulta é a convicção de que os cinco núcleos reflexivos de JAS — Itália, América, Ceuta, o ministro empoderado e as concessionárias — constituem, quando lidos em conjunto, um diagnóstico parcial mas poderoso da condição política contemporânea. Completar esse diagnóstico, extrair as suas consequências e, sobretudo, inventar as formas de acção que ele reclama: essa é a tarefa que sobra, depois dos trabalhos e dos dias.

BIBLIOGRAFIA PATENTE E LATENTE

A bibliografia que se segue inclui tanto as fontes explicitamente mobilizadas ou evocadas no texto de João de Almeida Santos (bibliografia patente) como as obras e tradições que, embora não citadas directamente, constituem o horizonte latente de uma leitura hermenêutica e crítico-problemática (bibliografia latente). As referências seguem o estilo APA 7.ª edição, com indicação da cidade de publicação. Os títulos de obras encontram-se em itálico. A distinção entre patente e latente não é meramente formal: ela corresponde à própria lógica da hermenêutica sistémica, que reconhece que todo o texto se articula com um intertexto que o excede e que condiciona a sua legibilidade. No caso do escrito de JAS, o intertexto latente inclui tanto a tradição crítica da economia política das infraestruturas e das PPP quanto as teorizações contemporâneas da pós-democracia, do Estado estratégico-relacional e da geopolítica do sistema-mundo. Mobilizar esse intertexto não é trair o texto; é densificá-lo.

BILBLIOGRAFIA PATENTE 
Mobilizada ou evocável 
a partir do texto de JAS

Babo, M. J. (2026, 10 de agosto). Concessionárias reclamam 589 milhões por prejuízos da pandemia. Jornal de Negócios. Lisboa, Portugal.

Fanon, F. (1961). Les damnés de la terre. Paris, França: François Maspero.

PolitPro. (2026, 11 de agosto). Sondagens eleitorais — Itália, Alemanha, França, Reino Unido, Espanha. Recuperado de https://politpro.eu

Santos, J. de A. (2026, 12 de agosto). Cinco reflexões sobre política. João de Almeida Santos [blog]. Recuperado de https://joaodealmeidasantos.com

Spengler, O. (1918–1922). Der Untergang des Abendlandes [A decadência do Ocidente]. Munique, Alemanha: C. H. Beck.

Dugin, A. (1997). Osnovy geopolitiki [Fundamentos de geopolítica]. Moscovo, Rússia: Arktogeia.

Bibliografia latente (horizonte hermenêutico e crítico)

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Anderson, P. (2009). The new old world. Londres, Reino Unido: Verso.

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Crouch, C. (2004). Post-democracy. Cambridge, Reino Unido: Polity Press.

Harvey, D. (2005). A brief history of neoliberalism. Oxford, Reino Unido: Oxford University Press.

Hesíodo. (s.d./2005). Os trabalhos e os dias (A. M. Ribeiro Ferreira, Trad.). Lisboa, Portugal: Cotovia. (Obra original do século VIII a.C.)

Jessop, B. (2008). State power: A strategic-relational approach. Cambridge, Reino Unido: Polity Press.

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Piketty, T. (2013). Le capital au XXIe siècle. Paris, França: Éditions du Seuil.

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Wallerstein, I. (1974–1989). The modern world-system (Vols. 1–3). Nova Iorque, NY, EUA: Academic Press.

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Žižek, S. (2008). In defense of lost causes. Londres, Reino Unido: Verso.

AMV@08-2026

 

 

 

Artigo

CINCO REFLEXÕES

Sobre Política

João de Almeida Santos

“Um Ministro Empoderado” – JAS 2026

A ITÁLIA DE MELONI

EM 2027, votar-se-á para as legislativas, em Itália. E o que dizem as sondagens? Que Fratelli d’Italia (FdI) se mantém constante acima do resultado obtido em 2022 (as legislativas são de cinco em cinco anos), agora com 27,1%, um ponto acima, e que a direita, incluindo o recentíssimo partido Futuro Nazionale, do general Vannacci, apresenta um score eleitoral superior ao da esquerda, mesmo incluindo Italia Viva e Azione, de Renzi e Calenda (47,3% contra 45,9%). Curiosamente, o que se está a mover acontece à direita, com o novíssimo partido Futuro Nazionale a crescer, em parte sobre a LEGA e, em parte, sobre FdI. Os 6,5% de FN correspondem à quebra, em média, de cerca de três pontos de FdI e de outros tantos da LEGA. Lá, como cá, a direita no seu conjunto é maioritária. E esta situação deveria levar a esquerda social-democrática a pensar muito bem no seu futuro, sobretudo pelo que está a acontecer na Itália, com o PD a 21,3%; na Alemanha, com o SPD a 12,2%; na França, com o Rassemblement National a cerca de 10/11 pontos sobre a esquerda, NFP; no Reino Unido, com o Reform UK, de Farage, a 24,5% contra 23,9% do Labour, e com os conservadores a 19,9%, os Verdes a 11,9% e os Ldem, a 11,1%; e em Espanha, com o PP a 32,3% e o VOX com 17,4% contra 26,8% do PSOE e 12,1% do Sumar – Sondagens PolitPro, de 11.08. O panorama não é risonho para a esquerda, mas é sobretudo preocupante pelos valores atingidos pela direita radical (maioritária em Itália, na Alemanha, em França e no Reino Unido), significando isso rejeição do establishment (centro-esquerda e centro-direita), da lógica da alternância e da descaracterização da política, assente, depois, em compromissos corporativos entre os partidos do regime e excessivas cedências aos poderes fortes da sociedade civil, ao mesmo tempo que a desnatação ideológica destes partidos ia sendo substituída pela ilusão identitária e politicamente correcta, para afago de uma consciência em crise ideológica, já sem alma nem doutrina. Mas, certamente, analisando os resultados das políticas de imigração, também uma errada política migratória, sempre empurrada com a barriga e envolta num halo de vago humanismo, que tem vindo a engordar a direita radical. Bastaria citar três casos para evidenciar isso mesmo: o crescimento do AfD, na Alemanha, do Reform UK, no Reino Unido, e da direita radical, em Itália.  Se se viesse a verificar uma generalizada aliança entre a direita moderada e a direita radical, teríamos em todos estes países uma direita fortemente maioritária, consolidando-se, assim, a tendência estrutural que se está a verificar um pouco por todo o lado:  Alemanha: 49,2%; Espanha:  50%; França: 51%; Itália: 47,3%; Reino Unido: 44,3% (números da PolitPro, de 11.08). Na Europa, a União sofreria graves danos como projecto, regredindo até uma mera agregação soberanista de Estados nacionais só unidos pelos recíprocos interesses nacionais, exclusivamente económicos.

A AMÉRICA DE TRUMP

À situação atrás descrita não é estranha a actual política americana, sobretudo com o exemplo que vem de lá e com o combate ideológico promovido pela actual administração, incentivando, em primeira pessoa (Trump, Vance e Rubio), as direitas radicais de todo o mundo, sobretudo na América Latina e na Europa. Um combate em várias frentes, mas que não descura a frente ideológica, quer repristinando o velho papão do comunismo (numa acepção bastante lata), numa espécie de neomaccarthismo, quer centrando o combate contra todas as famosas correntes identitárias (politicamente correcto, wokismo e políticas de género, que se espalharam por todo o mundo). Um empenho directo e pessoal, como se viu nas intervenções de Vance na Europa, última das quais na Hungria, depois do que ocorreu na cimeira de Munique, com o namoro descarado do Alternative für  Deutschland, até às últimas palestras de combate ideológico do senhor Marco Rubbio, designadamente na conferência ministerial sobre “Resurgence of Political Terrorism”, dedicada quase toda ela à quase defunta esquerda-radical, como se se tratasse do verdadeiro perigo civilizacional actual, identificando, depois de uma breve referência à jihad islâmica, ao longo de todo o seu discurso, de cerca de 20 minutos, na esquerda, no comunismo, no marxismo, na extrema-esquerda o perigoso terrorismo mundial que é preciso denodadamente combater, fazendo uma longa digressão pelo que aconteceu (quase exclusivamente com a violência de extrema-esquerda) ao longo dos últimos cinquenta/sessenta anos. Uma espécie de prelúdio mal-amanhado de um “neomaccarthismo” que atribui todos os males deste mundo à esquerda inimiga do Ocidente, ao marxismo, ao comunismo, à extrema-esquerda, deixando na sombra tudo o resto, que é bem conhecido. Um discurso concentrado sobre um inimigo hoje praticamente inexistente, mas que parece ser um sinal a todas as forças regressivas do mundo, agora confortadas com a imagem acolhedora do mais poderoso país do mundo e inimigo figadal de tudo que cheire a esquerda, mesmo a esquerda moderada. Todos iguais, parece quer dizer. Portanto, o que é preciso é ter democracias musculadas, mantendo-as formalmente como tais, mas nos seus limites mínimos.  Pelo menos, até ver.

CEUTA, A ESTRANHA INVASÃO

Muito tem sido dito acerca da súbita invasão “marroquina” de Ceuta: a) a inopinada e errada invocação do espírito e da letra de Schengen por alguns países da União, designadamente por Itália; b) a já habitual atrapalhação da União Europeia, que parece estar sempre a correr atrás do prejuízo, perante o insólito (ma non troppo) fenómeno (já acontecera algo em 2021, mas também em Lampedusa, em 2023, ou na Polónia, em 2021); c) o delírio de uns exaltados comentadores de direita que nas televisões não perderam a oportunidade para atacar despudoramente Pedro Sánchez (incluído o PM português) por um imaginário efeito de chamada da regularização extraordinária promovida pelo governo espanhol (como se entre nós nunca tivesse acontecido, precisamente para evitar esse efeito), ou até por ser culpado daquelas mortes por afogamento, por incredulidade relativa à incompetência dos serviços secretos espanhóis ao não terem detectado em tempo o que estava para a acontecer ou, então, pela passividade do governo espanhol perante os avisos que eventualmente tenha tido; d) ou sobre a manhosa manobra de Marrocos ao deixar passar, ou mesmo a incentivar, nas suas fronteiras milhares de pessoas enganadas por uma gigantesca campanha promovida nas redes sociais que anunciava facilidades oferecidas de entrada na União Europeia (“España ha abierto la puerta” – Facebook e Instagram); e) ou ainda sobre algum incentivo que tenha vindo dos Estados Unidos ou mesmo de Israel, influenciando a manobra.  Uma longa lista de argumentos acerca de um insólito acontecimento numa cidade fora do espaço Schengen e que alimentou, mais uma vez, uma campanha inacreditável contra o PM espanhol, Pedro Sánchez. Mas, lamentavelmente, isso aconteceu também porque foram usados e enganados cidadãos pobres e indefesos, que apenas queriam melhorar as suas vidas, para um assalto à soberania de um país, numa manobra inaceitável, e a vários títulos. Mas uma coisa é certa: este é mais um episódio que representa o poder de atracção da Europa sobre o resto do mundo pelo seu modo de vida e pela forma como a sociedade está organizada, mostrando como são exageradas as excessivas teorias sobre a sua decadência, inspiradas no velho livro do senhor Oswald Spengler, tão admirado por Mussolini, ou até, imaginem, pelas teorias do senhor Dugin e pelos fanáticos do eurasianismo russo. É certo que a União Europeia não pode continuar a arvorar-se exclusivamente em reguladora e vigilante dos excessos da tecnologia americana ou chinesa sem cuidar de desenvolver a sua própria tecnologia (sobretudo digital), que, pelo menos, e já é muito, dispense o armazenamento dos dados pessoais da generalidade dos cidadãos europeus nos servidores americanos ou chineses, com todas as suas gravosas consequências. Sem dúvida, até porque o poder das grandes plataformas digitais pode ele próprio vir a condicionar o nosso modo de vida (através da política e da manipulação generalizada das consciências). Certamente. Mas, mesmo assim, e até apesar do perigo de ela vir a ser dominada politicamente pelas forças soberanistas, a Europa continua a ser admirada e procurada como o Eldorado onde os “damnés de la terre” (o título do famoso livro de Franz Fanon)  –  mas não só – aspiram a viver, tantas, demasiadas, vezes, a custo da própria vida na tentativa de aqui chegarem para darem sentido às suas vidas. A Europa ainda acusada de colonialista é procurada pelos colonizados para viverem, mas, creio, não como forma de serem ressarcidos pela exploração das matérias-primas dos seus países. Não, simplesmente para justamente terem uma vida melhor. A compensação de que fala uma recente e incompreensível resolução da ONU de Guterres, essa, se vier a acontecer, do que duvido, irá, como sempre, direitinha para os bolsos dos governantes.

UM MINISTRO “EMPODERADO”

Por cá, estamos a viver uma situação gravosa do ponto de vista institucional que pode levar a uma perigosa espiral de descrédito das instituições da nossa democracia. E não me refiro ao Ministro da Educação, porque o caso das avaliações foi simplesmente um erro, grave, mas apenas um erro, não sendo legítimo tirar outras ilações que não seja esta. Os erros também se pagam, mesmo quando acontecem num processo que tenha sido accionado por uma boa intenção (ainda que possa ser discutível). Mas não passa de um erro, ao qual ninguém tem o direito de associar manobras obscuras com interesses inconfessáveis. Não, eu refiro-me ao caso do Ministro da Administração Interna, antigo, durante oito anos, Director-Nacional da PJ, Luís Neves. Estando o seu caso a determinar uma avalanche crítica sobre o seu comportamento institucional e a sua pessoa, o natural seria que ele pedisse para ser substituído de modo a poder defender-se melhor, a diminuir a intensidade da opinião pública sobre si e, sobretudo, a não pôr em causa a própria PJ e até as próprias instituições políticas. É certo que estamos num período crítico devido aos incêndios florestais, sendo também certo que o Ministro se empenhará redobradamente no combate a este flagelo de modo a mostrar que é um Ministro eficaz e competente, resistindo, assim, à pressão. E que, por esta razão, o PM o mantenha no lugar, até melhor oportunidade ou, quem sabe?, esperando que a onda crítica passe e tudo possa manter-se como está. Por agora, o que sabemos é que o Ministro está “empoderado” e que se esse poder for usado para nos ajudar a passar este período crítico sem sobressaltos de maior talvez venhamos a considerar que a sua manutenção serviu para alguma coisa. Posto isto, algumas perguntas deverão ser formuladas. A primeira: o Ministro não sai, pelo que atrás se disse, e porque o PM acha mesmo que ele se deve manter ou não sai porque ele, “empoderado”, não quer mesmo sair, impondo, com o seu poder (fundado em que razões, não sabemos), a sua presença? Independentemente das razões conjunturais (período de fogos florestais), o que já se sabe seria suficiente, sem qualquer margem para dúvidas, para ser efectivamente afastado? Ou não? O valor contingente, e até pelo papel relativo que a intervenção do ministro representa, dos fogos florestais é superior ao da putrefacção das instituições democráticas? Que razões explicam que o PS, partido da oposição, e tantos seus conhecidos membros (cito três, a título de exemplo, Fernando Medina, João Soares e Sérgio Sousa Pinto), tenha sempre mantido uma atitude compreensiva (para dizer pouco) em relação ao que parece ser um caso desastroso? Por ter sido um homem muito próximo de António Costa, por saber demais ou por pertencer a alguma poderosa organização que defende com unhas e dentes os seus membros?  Não sei, mas que o caso é muito bicudo, lá isso é. Se fosse eu a decidir, mantinha-o em funções e, silenciosamente, preparava já a sua substituição para logo a seguir ao Verão, ainda que a sua prestação como ministro da tutela tivesse sido boa, nomeando o quarto ministro da Administração Interna do mandato (não contando o curto período em que LM assumiu a pasta).

AS CONCESSIONÁRIAS E O RISCO

Tomei agora conhecimento, através de um artigo do jornal “Negócios” (de 10.08.26, de Maria João Babo), de que as concessionárias das Auto-Estradas querem ser ressarcidas pelos prejuízos causados pela redução da circulação automóvel durante o período da pandemia, devido às restrições de circulação impostas pelo Estado. Estamos a falar, no conjunto, de cerca de 589 milhões de euros, com a Brisa (do ex-ministro da economia Pires de Lima) à cabeça, com um pedido em tribunal de cerca de 276 milhões. Houve pandemia, as concessionárias perderam dinheiro pelas consequências do combate a essa mesma pandemia, designadamente sobre a exploração de vias que são território público e que o Estado e a União Europeia pagaram na sua quase totalidade (mas gostaria de conhecer o valor global e relativo do financiamento privado – a título de mero exemplo, o valor da participação financeira da Lusoponte, que explora a Ponte Vasco da Gama, creio ter sido de apenas um quarto do investimento total, sendo os restantes 75% da responsabilidade do Estado e da União Europeia, ou seja, 668 milhões de euros), mas cuja gestão está agora concessionada a privados, pelos vistos sem riscos para o concessionário. Não conheço os termos contratuais nem conheço o valor exacto da participação financeira dos privados na construção destas Auto-Estradas, mas o que estes pedidos me sugerem é essa ideia bem portuguesa que determina o tipo de relação habitual entre os grandes grupos privados e o Estado (parcerias público-privadas): se houver prejuízo, o Estado paga, mas se houver lucros eles “empocham” (a qualidade duvidosa da manutenção é devidamente monitorizada? E por que razão se paga Auto-Estradas praticamente em território urbano, como é, por exemplo, a de Cascais, a A5?). Riscos? São perigosos demais e os privados só entram no negócio (tendo feito tudo para entrarem nele) se não correrem riscos e obtiverem lucros chorudos. Mas, afinal, quem paga duplamente (portagens e impostos) é o mesmo contribuinte que, se tiver perdas na sua actividade económica, tem de as suportar sozinho.

Eu creio que é esta filosofia – que tem presidido à elaboração dos contratos relativos às parcerias público-privadas, que são elaborados por grandes escritórios de advogados e assinados por políticos que, depois de deixarem os cargos, vão ocupar lugares na administração dessas mesmas empresas com as quais contratualizaram, em nome do Estado – que justifica, naturalmente, entre outras causas, a desafeição da cidadania em relação aos partidos do establishment e que engorda a direita radical, simplesmente como modo instrumental de protesto. Querem um exemplo? Um tal ministro Joaquim Ferreira do Amaral, que negociou a construção da ponte Vasco da Gama com a Lusoponte (no governo de Cavaco Silva), viria a ser, depois, presidente do Conselho de Administração da mesma Lusoponte, e durante 16 anos (cf. IA Gemini). Das obras públicas para a Lusoponte. Assim é que é. Este exemplo vale como ilustração desta execrável filosofia, desta espécie de camera obscura do proxenetismo de Estado.

JAS@08-2026

Ensaio

CONSTELAÇÃO SIMBÓLICA E ANALÍTICA

«LIBAÇÕES» - Poema de 
João de Almeida Santos
com a ilustração: «A Lua 
Desceu Sobre Mim» - Link:
https://joaodealmeidasantos.com/
2026/08/08/poesia-pintura-322/

André Moshe Veríssimo, PhD

“A Lua Desceu Sobre Mim” – JAS 2026

«Quem 
Deste poema 
Beber, 
Porque se sente 
Sozinho, 
Que saiba 
Que toda a casta 
Embriaga, 
E não só 
Se dela fizer 
Bom vinho»

 João de Almeida Santos,
«Libações»
 INTRODUÇÃO: A LIBAÇÃO 
COMO ACTO ONTOLÓGICO

O POEMA “LIBAÇÕES”, de João de Almeida Santos, publicado a 8 de Agosto de 2026, não se apresenta como mero artefacto lírico. É, antes, um acto ritual. A palavra libação — do latim libatio, o derramar de líquido em honra dos deuses — recupera aqui a sua força arcaica: o poema é, ele próprio, o líquido sagrado oferecido e, simultaneamente, consumido. Quem dele beber, bebe solidão e encontra embriaguez; bebe dor e encontra redenção. Esta dupla natureza — oferenda e intoxicação — constitui o eixo em torno do qual se organiza toda a constelação simbólica que o presente ensaio se propõe densificar. A ilustração que o acompanha, «A Lua Desceu Sobre Mim», da autoria do próprio poeta , não é ornamento externo. É o gesto visual da mesma descida: a Lua, força primordial e feminina, abandona a sua órbita distante e desce sobre o humano, tornando-se presença íntima, corpo, musa e prisão doce. O poema e a imagem formam, assim, um díptico de invocação. A descida da Lua é o acontecimento central: não o olhar do homem para o céu, mas a iniciativa do céu que se faz próximo. Este movimento de descida inverte a tradicional hierarquia contemplativa e estabelece, desde o primeiro instante, uma relação de intimidade sagrada entre o astro e o poeta. O presente ensaio propõe-se densificar as anotações hermenêuticas iniciais, estabelecendo não uma mera lista de influências e marcas, mas uma verdadeira constelação: um sistema de relações simbólicas em que cada estrela (marca poética) ilumina as demais e, no seu conjunto, revela a cartografia da alma que o poema desenha. Como ensina a antiga sabedoria hermética, «o que está em baixo é como o que está em cima»; aqui, o que está no verso é como o que está na alma do leitor que se deixa embriagar. A densificação não consiste em acrescentar ornamento, mas em revelar as camadas de sentido que a economia poética já contém, como quem, perante um vinho generoso, não o dilui, mas deixa que o tempo e a atenção o façam revelar a sua complexidade. Escrever sobre «Libações» é, pois, participar da própria libação. Que o leitor saiba: toda a casta embriaga — e a casta deste texto é a da análise que se faz prece e da crítica que se faz canto. A hermenêutica, quando é fiel ao objecto, não se coloca acima dele; bebe dele e, ao beber, deixa-se transformar. Este ensaio aspira a essa fidelidade.

DECIFRAÇÃO DAS INFLUÊNCIAS 
MÍTICAS E LITERÁRIAS

Nenhuma obra nasce do nada. «Libações» dialoga com uma linhagem que vai de Hesíodo a David Mourão-Ferreira, passando por Camões e Pessoa. Estas influências não são citações exteriores; são veias subterrâneas que alimentam a seiva do poema. Densificá-las é revelar como a tradição se faz presente sem se tornar peso, como a herança se transforma em invenção.

1. HESÍODO - A ancestralidade 
ritualística e a cosmogonia lunar

Em Hesíodo, particularmente na Teogonia e em Os Trabalhos e os Dias, a vinha e a terra não são meros elementos produtivos; são nós de ligação entre o humano e o divino. A fascinação perante o mistério astral — a Lua que regula as sementeiras, as marés e os ciclos menstruais — nasce dessa mesma ancestralidade. No poema de Almeida Santos, a Lua não é metáfora decorativa: é força primordial que «desceu sobre mim». Esta descida ecoa o movimento teogónico: as divindades não permanecem no Olimpo; interagem, descem, geram, transformam. Selene, na tradição grega, é a deusa que percorre a noite em carro de prata; aqui, ela abandona o carro e faz-se presença imediata sobre o poeta. A libação hesiódica era acto de reciprocidade: o humano oferece, o divino retribui com fertilidade ou protecção. Aqui, o poeta oferece o poema; a Lua-Diva retribui com inspiração e, paradoxalmente, com a doce prisão do amor. Como diz o verso inicial: «Quem deste poema beber, porque se sente sozinho…». A solidão é o solo onde a semente da libação germina. Hesíodo ensina que o trabalho e o ritual são respostas à condição humana de carência; Almeida Santos transforma essa carência em embriaguez criativa. A diferença é significativa: no poeta grego arcaico, a resposta à carência é a disciplina e a justiça; no poeta contemporâneo, a resposta é a celebração ritualizada da própria carência, transformada em oferta. A constelação começa, pois, com esta estrela arcaica: a Lua como potência cosmológica que desce e se faz íntima. Sem ela, as demais marcas perderiam o seu fundo mítico. A ancestralidade não é nostalgia de um tempo perdido; é reconhecimento de que certos gestos — a oferenda, a invocação, a embriaguez sagrada — permanecem estruturalmente necessários à alma humana, independentemente da época.

2. LUÍS DE CAMÕES 
A prisão doce e a medida do amor

A lírica camoniana habita o poema de modo profundo. A dicotomia entre desejo terrestre e amor platónico/sublime, a vivência simultânea da «medida velha» e da «medida nova», ecoa na tensão entre a embriaguez da casta (o vinho, o corpo) e a elevação da Diva (o céu, a alma). O verso camoniano célebre — «Amor é fogo que arde sem se ver; / é ferida que dói e não se sente; / é um contentamento descontente; / é dor que desatina sem doer» — encontra eco directo na «doce teia», na «doce prisão» e no «enlevo interior» de «Libações». Camões legou à poesia portuguesa a capacidade de dizer o indizível do amor através do oxímoro e do paradoxo. Almeida Santos herda-a e densifica-a no contexto de uma libação moderna: o amor como ritual de redenção. Em Camões, o aprisionamento pelo amor é paradoxalmente libertação e cura da alma. O mesmo se verifica aqui: «Não há nela / Provação, / Liturgia / Do amor / Que enobrece / A alma / E cura / Da sua dor». A prisão é voluntária; a teia é tecida por uma fada; o encanto é de sereia. A diferença reside no tom: em Camões, o paradoxo do amor é muitas vezes trágico ou melancólico; em Almeida Santos, o paradoxo é celebrado como caminho de redenção. A prisão doce não é condenação; é liturgia. Esta inflexão celebratória constitui uma das originalidades do poema face à tradição camoniana que, no entanto, o alimenta.

Proverbialmente: quem ama, 
bebe da própria prisão 
e nela encontra a liberdade 
que a solidão não conhecia. 
A teia que prende é a mesma 
que sustenta; o fogo que arde 
sem se ver é o mesmo 
que ilumina a noite da alma.
3. FERNANDO PESSOA - O jogo conceptual 
e a inacessibilidade da perfeição

A presença de Fernando Pessoa manifesta-se no jogo linguístico e conceptual com a palavra «Casta». Esta flutua entre a casta da uva (a variedade que dá o vinho) e a virtude da pureza (castidade). «Diva», por sua vez, evoca simultaneamente a elevação espiritual e a cavatina de Bellini em Norma — «Casta Diva», a ária em que a sacerdotisa Druida invoca a Lua. Pessoa, mestre da sobreposição de sentidos, da ilusão e da representação intelectual da emoção, ensinou a poesia portuguesa a não temer a ambiguidade como espaço de verdade. Em «Libações», a ambiguidade não é falha de clareza; é a própria forma da verdade poética, que se recusa a ser reduzida a um único sentido. A busca pela perfeição inacessível — a amada que «sempre me fuja / Com medo / De ser seduzida» — é profundamente pessoana. Em Pessoa, o amor é quase sempre impossível ou diferido; a musa é heterónimo ou sombra. Em «Libações», a amada-Lua-Musa é capturada na palavra, mas permanece em fuga no real. Esta tensão entre imortalização poética e evasão existencial constitui uma das estrelas mais brilhantes da constelação: o poema captura o que o amor não consegue reter. Como o próprio Pessoa escreveu noutro contexto, a literatura é a maneira de se sentir a vida sem a viver. Aqui, a libação é a maneira de se embriagar do amor sem que a amada se deixe plenamente seduzir. A captura poética é, paradoxalmente, a única forma de posse possível; e é precisamente porque é apenas poética que se torna eterna. O jogo concetual pessoano permite ainda compreender a fluidez entre os planos: a mulher, a Lua e a Musa não são três entidades distintas que se sucedem; são três nomes da mesma presença. Esta sobreposição é a marca da inteligência poética que recusa a separação estanque entre o erótico, o cósmico e o artístico.

4. DAVID MOURÃO-FERREIRA 
- a sensualidade ritual 
e a liturgia do corpo

David Mourão-Ferreira legou à poesia portuguesa uma sensualidade elegante, uma musicalidade fluida e, sobretudo, a fusão do elemento erótico com o espiritual. O seu erotismo nunca é meramente carnal; pressupõe sempre um ritual, uma liturgia entre o corpo e o invisível. Em «Libações», esta herança é evidente na «doce teia», no «enleio», na «captura» e no medo da amada de ser seduzida. O poema funciona como um ensaio sobre a sedução, mas uma sedução que se faz ofício sagrado. A linguagem das sensações — o enlevo, a teia, a prisão doce — não descreve corpos; descreve a coreografia do desejo quando este se eleva à ordem do ritual. A musicalidade dos versos curtos, as rimas envolventes que simulam o efeito do vinho no corpo, o ritmo hipnótico — tudo isto ecoa a arte de Mourão-Ferreira de fazer da palavra um corpo que dança. A libação é, também, dança: o líquido derramado descreve um movimento, o poema descreve outro. Ambos conduzem ao êxtase. Em Mourão-Ferreira, o erotismo é frequentemente crepuscular, habitado pela consciência da fugacidade; em Almeida Santos, o erotismo é nocturno e lunar, habitado pela consciência da eternidade possível através do canto. A diferença de tom não anula a filiação; densifica-a.

O AMBIENTE POÉTICO, 
MELÓDICO E MARAVILHOSO

A atmosfera de «Libações» constrói-se através de uma musicalidade hipnótica. Os versos curtos, quase respiratórios, as rimas internas e finais que se entrelaçam como a «doce teia» de que o poema fala, criam um efeito de embriaguez no próprio acto de leitura. O leitor não observa a embriaguez: participa dela. É um espaço de transição — o crepúsculo ou a noite iluminada pela Lua argentada — onde o plano físico se funde com o onírico. A métrica irregular, a alternância de versos muito curtos com outros um pouco mais longos, produz um ritmo de ondulação, como o de um líquido que se derrama e se recolhe. A Lua ganha corpo, desce sobre o poeta e transforma o acto da escrita numa comunhão sagrada. Não há separação nítida entre o sujeito lírico, a amada, a musa e o astro. Tudo se confunde numa mesma substância fluida: a libação. Esta fusão é o segredo do ambiente maravilhoso: o maravilhoso não é o sobrenatural que irrompe; é o natural que se revela sagrado. O poema não inventa um mundo paralelo; revela a dimensão sagrada do mundo que já habitamos, quando o habitamos com a intensidade da atenção poética e amorosa. O ambiente é, ainda, um ambiente de transição e de limiar. A solidão inicial é o limiar; a embriaguez é a passagem; a redenção é o outro lado. Mas o outro lado não é um lugar definitivo onde se chega e se permanece; é um estado que se renova a cada leitura, a cada libação. O poema não fecha o círculo; mantém-no aberto, como a teia da fada que continua a ser tecida enquanto houver quem a deseje e quem a tema.

Proverbialmente: a noite 
que a Lua ilumina 
não é escuridão vencida, 
mas escuridão que se deixa amar. 
E o poema que a canta 
não é explicação do mistério, 
mas participação nele.
LEITURA ANALÍTICA 
DAS MARCAS POÉTICAS

As marcas que se seguem não são categorias isoladas. São estrelas de uma mesma constelação. Cada uma brilha com luz própria, mas o seu verdadeiro sentido só se revela na relação com as demais. Densificamo-las uma a uma, para depois as contemplarmos no conjunto. A ordem de apresentação não é hierárquica; é processual: partimos da embriaguez dionisíaca para chegar ao enigma que a todas envolve e nenhuma esgota.

1. A Marca Dionisíaca

Manifesta-se no acto de beber, na embriaguez, no vinho e na libertação do racionalismo. O vinho é o veículo para transcender a solidão e alcançar o transe criativo. Dioniso, deus do êxtase e da dissolução dos limites, habita cada menção à casta e à embriaguez. Mas não se trata de uma embriaguez meramente orgiástica: é embriaguez que conduz à «Casta Diva» e à redenção. O dionisíaco, aqui, purifica-se no contacto com o apolíneo da Lua argentada. Como ensina a tradição órfica, o êxtase não é fuga do real, mas intensificação do real até ao sagrado. A casta que embriaga não dissolve a consciência; eleva-a. O transe não é perda de si; é encontro com uma dimensão de si que a sobriedade quotidiana mantém adormecida. Neste sentido, a marca dionisíaca de «Libações» é uma marca de lucidez embriagada, não de embriaguez que obscurece.

2. A Marca do Ensaio e do Erotismo

O poema funciona como um ensaio sobre a sedução. O erotismo é insinuado pela linguagem das sensações: o «enleio», a «captura», o «medo de ser seduzida» e o contágio dos sentidos. Não há descrição explícita do corpo; há, antes, a coreografia do desejo. A amada teme ser capturada pelo amor que a imortaliza — paradoxo profundo: a sedução poética é mais poderosa e mais ameaçadora do que a sedução carnal, porque eterniza. O erotismo de «Libações» é, assim, um erotismo da palavra que se faz corpo e do corpo que se faz palavra. O ensaio, aqui, não é o género discursivo da argumentação; é o ensaio no sentido de tentativa, de prova, de experiência. O poema experimenta a sedução e, ao experimentá-la, revela as suas leis secretas: que o desejo se alimenta da distância; que a captura só é plena quando permanece incompleta; que o medo de ser seduzida é, também ele, uma forma de participação no jogo erótico.

3. A Marca da Luz e dos Minerais Nobres

Traduzida na «Lua Argentada». A prata simboliza a pureza reflexiva, o brilho frio mas acolhedor que ilumina a escuridão da alma sem a queimar, ao contrário do Sol. A prata é o metal da Lua na tradição alquímica e hermética; é o espelho, a reflexão, a receptividade. O poeta não invoca um astro ardente; invoca um astro que recebe e devolve a luz. A amada-Lua é, pois, espelho onde o poeta se contempla e se perde. A nobreza do mineral transmite-se à experiência amorosa: não é ouro de posse, mas prata de contemplação. Na alquimia, a prata (Luna) é o estágio intermediário entre o chumbo da matéria bruta e o ouro da perfeição. A Lua argentada de «Libações» ocupa precisamente este lugar intermédio: não é ainda a plenitude da redenção consumada, mas já não é a solidão opaca do início. É a luz que torna possível o caminho.

4. A Marca da Nostalgia (Saudade)

O desejo da amada que «sempre me fuja» instala o sentimento de distância intransponível. A beleza nasce da imperfeição do alcance: deseja-se o que se escapa. Esta é a saudade portuguesa na sua forma mais límpida — não a saudade do que se perdeu, mas a saudade do que nunca se possuiu plenamente. A fuga da amada não é rejeição; é condição de possibilidade do canto. Se a amada se deixasse capturar de vez, o poema cessaria. A saudade é, assim, o motor da libação contínua. A tradição lírica portuguesa fez da saudade não apenas um sentimento, mas uma estrutura ontológica: a consciência de que o que mais se ama é, por natureza, o que se ausenta. Em «Libações», esta estrutura é assumida sem melancolia destrutiva. A fuga é aceite como parte do ritual; o medo da amada é respeitado e, paradoxalmente, celebrado porque permite que o canto continue.

5. A Marca da Celebração

Exaltação da vida, da arte, do vinho e da capacidade de sentir plenamente através da poesia. Apesar da solidão inicial e da dor, o tom dominante não é elegíaco, mas celebratório. A libação é festa. Mesmo a prisão é doce; mesmo a teia é tecida por fada. Esta capacidade de celebrar no seio da carência é uma das heranças mais preciosas da tradição lírica ocidental e, em particular, da portuguesa. O poema não lamenta; oferece. E ao oferecer, transforma a falta em plenitude ritual. A celebração não anula a dor; integra-a. Não há na poesia de Almeida Santos a pretensão de um otimismo ingénuo. Há, antes, a coragem de celebrar apesar de, ou melhor, a partir de. A libação é o gesto que diz: mesmo na solidão, mesmo na fuga da amada, há algo digno de ser oferecido e bebido.

6. A Marca da Invocação

Estrutura-se como uma prece clássica dirigida à muse/divindade: «Casta Diva, Doce Lua Argentada, Dá-me sempre Inspiração». A forma invocatória recupera a tradição da musa épica e lírica, mas também a da oração. O poeta não descreve; pede. Não afirma posse; suplica continuidade. A inspiração é graça, não conquista. Esta humildade perante a fonte do canto é o que distingue a verdadeira invocação da mera retórica. E a graça pedida não é apenas para si: «Pra que seja / Também tua / E por todos / Adorada». A inspiração deseja-se partilhável. A invocação final do poema é, assim, um acto de generosidade: o poeta não quer a musa apenas para si; quer que ela seja de todos. Esta abertura do privado ao comum é uma das notas mais elevadas da peça.

7. A Marca do Amor

O amor surge sob a forma de dádiva e arrebatamento, simultaneamente força transformadora e prisão voluntária. Não é amor possessivo; é amor que se faz teia e que, nela, enobrece a alma. A amada é «a amada, / Que é a Lua / Argentada». A identificação é total: amar a mulher é amar a Lua; amar a Lua é amar a musa; amar a musa é amar o próprio acto de cantar. O amor, em «Libações», é o nome que se dá à unidade de todas as coisas que o poema celebra. Este amor não exige reciprocidade plena no plano existencial; contenta-se — e eleva-se — com a reciprocidade ritual da libação. A amada pode fugir; a Lua desceu. A mulher pode temer a sedução; a Diva já enleia. O amor poético encontra, assim, a sua plenitude precisamente onde o amor existencial encontra o seu limite.

8. A Marca da Redenção

A elevação espiritual alcançada através da aceitação da dor e da sua transformação em beleza ritualizada. A dor não é eliminada; é transfigurada. O «ritual de redenção» e o «remédio do sonhador» apontam para uma soteriologia poética: a salvação não vem de fora, mas do próprio acto de transformar a solidão em libação e a dor em canto. Esta é a grande promessa do poema: quem beber dele, mesmo sentindo-se sozinho, encontrará caminho para a redenção. A redenção, aqui, não é escatológica no sentido religioso tradicional; é imanente e contínua. Cada leitura, cada libação, é um acto de redenção renovado. O sonhador não é curado de uma vez por todas; é curado cada vez que bebe e cada vez que canta. A terapêutica da poesia é, assim, uma terapêutica da repetição ritual, não da cura definitiva.

9. A Marca da Dor

A dor existencial e a solidão são o ponto de partida («Porque se sente / Sozinho»). A poesia e a arte surgem como a única terapêutica eficaz. Sem a dor inicial, não haveria necessidade de libação. A dor é o solo; a embriaguez é a flor. Mas a dor não permanece no registo da queixa: é imediatamente integrada no ritual. Como na tradição da via negativa, a ausência e a carência tornam-se condições da presença do sagrado. A solidão do verso inicial não é acidental; é estrutural. O poema dirige-se explicitamente a quem se sente sozinho. A libação é, antes de mais, um remédio para a solidão. Mas não um remédio que a elimina por magia; um remédio que a transforma em comunhão possível — comunhão com a Lua, com a musa, com o próprio acto de beber e de cantar.

10. A Marca Litúrgica

Presente na terminologia sacra: «Libações», «Céu», «Alma», «Liturgia do amor», «Ritual de redenção». O profano transforma-se em sacro. O vinho deixa de ser apenas bebida; a amada deixa de ser apenas mulher; a escrita deixa de ser apenas técnica. Tudo é elevado à ordem do ritual. Esta sacralização não é escapismo; é o reconhecimento de que a experiência humana mais intensa — o amor, a solidão, a criação — participa já da ordem do sagrado, mesmo quando se desenrola no quotidiano. A liturgia do amor não necessita de templo exterior; o poema é o templo. A libação não necessita de altar de pedra; a página é o altar. Esta interiorização do sagrado é uma das marcas da modernidade poética e, ao mesmo tempo, uma das suas heranças mais antigas.

11. A Marca do Epicurismo

A procura do prazer elevado através do espírito, a apreciação do «bom vinho», a ataraxia obtida pela cura da dor através do enlevo poético. Não se trata do epicurismo vulgar da satisfação imediata, mas do epicurismo filosófico: o prazer estável que nasce da eliminação da dor desnecessária e da contemplação serena. A libação conduz a uma forma de ataraxia: a alma, curada da sua dor, repousa no enlevo. O prazer, aqui, é profundo e duradouro porque é ritualizado. Epicuro ensinava que o prazer verdadeiro é o da ausência de perturbação. Em «Libações», a perturbação (a solidão, a dor, a fuga da amada) é reconhecida e, através do ritual, transformada em enlevo. A ataraxia não é indiferença; é a paz que se alcança depois de se ter bebido profundamente da própria condição.

12. A Marca da Libação

O acto ancestral de derramar ou beber um líquido em honra dos deuses. Aqui, o próprio poema torna-se o líquido oferecido e consumido. Esta é a marca nuclear, aquela que dá nome ao texto e que organiza todas as demais. A libação é o gesto que une o dionisíaco (embriaguez), o litúrgico (ritual), o erótico (doce teia), o redentor (cura) e o invocatório (prece). Quem bebe do poema participa do mesmo acto que o poeta realiza ao escrevê-lo. A leitura é, também ela, libação. Na antiguidade, a libação podia ser de vinho, de leite, de mel, de azeite. Aqui, a libação é de palavras. Mas as palavras, quando verdadeiramente poéticas, têm a densidade e a fluidez do líquido sagrado. Derramam-se, embriagam, elevam, curam. O poema não descreve a libação; realiza-a.

13. A Marca Enigmática

Reside no duplo sentido constante da linguagem: a ambiguidade da palavra «Casta», a fluidez entre a mulher, a Lua e a Musa, e o receio da amada em ser capturada pela própria força do amor que a imortaliza. O enigma não é obstáculo à compreensão; é o espaço onde a compreensão se aprofunda. Como no oráculo, a verdade é dita de forma que obriga o ouvinte a trabalhar. O leitor de «Libações» é chamado a habitar a ambiguidade, não a resolvê-la. Só assim a constelação se revela em toda a sua densidade. O enigma final — o medo da amada de ser seduzida pelo amor que a captura — permanece aberto. É possível ler nele a resistência da liberdade feminina à possessão; é possível ler a consciência de que a imortalização poética é uma forma de captura; é possível ler o reconhecimento de que o desejo só se mantém vivo enquanto a plenitude se furta. Todas estas leituras são legítimas; nenhuma as esgota. A marca enigmática é a garantia de que o poema continua a viver para além de qualquer interpretação.

A CONSTELAÇÃO SIMBÓLICA 
Rede de Significados

Chegados a este ponto, as marcas individuais devem ser contempladas como estrelas de uma mesma figura celeste. No centro da constelação brilha a Casta Diva / Lua Argentada: ponto de convergência de todas as forças. Em torno dela orbitam, em relações de tensão e complementaridade, as demais potências. A constelação não é um inventário; é um organismo vivo de sentidos que se iluminam mutuamente. A Marca Dionisíaca e a Marca da Luz e dos Minerais Nobres formam um eixo de polaridade criativa: o vinho (quente, embriagante, terrestre) e a prata lunar (fria, reflexiva, celeste). A síntese desta polaridade é a própria libação: líquido que embriaga e, ao mesmo tempo, eleva. Sem o dionisíaco, a Lua seria apenas contemplação distante; sem a prata lunar, o vinho seria apenas embriaguez sem transcendência. A tensão entre ambos gera a energia do poema. A Marca do Amor e a Marca da Nostalgia formam outro eixo: a presença desejada e a ausência que a torna desejável. Sem a fuga da amada, o amor perderia a sua intensidade elegíaca; sem o amor, a fuga seria apenas indiferença. A tensão entre captura e evasão é o motor do canto. A saudade não é o contrário do amor; é a sua forma mais elevada e mais dolorosa — e, por isso, a mais fecunda para a poesia. A Marca da Dor e a Marca da Redenção constituem o eixo soteriológico. A dor é o ponto de partida; a redenção, o horizonte. Entre elas, a Marca Litúrgica e a Marca da Libação operam a transformação: o ritual é o cadinho onde a dor se transmuda em beleza e a solidão em comunhão. Este eixo vertical — da carência à elevação — dá ao poema a sua dimensão de caminho espiritual, sem que ele se torne jamais didáctico ou moralizante. A Marca da Invocação e a Marca da Celebração abrem o poema para além do sujeito lírico: a inspiração pede-se para ser partilhada; a celebração exalta o que é comum. O poema não é monólogo; é oferenda colectiva. A prece final — «Pra que seja / Também tua / E por todos / Adorada» — rompe o círculo da intimidade e convida o leitor a participar da mesma adoração. Por fim, a Marca Enigmática e a Marca do Ensaio e do Erotismo garantem que a constelação nunca se fecha numa interpretação única. O erotismo insinua sem revelar; o enigma sugere sem esgotar. A constelação permanece viva porque permanece parcial e aberta. Como as estrelas do céu, que mudam de posição segundo o ponto de observação e a hora da noite, as marcas de «Libações» revelam configurações diferentes segundo o leitor e o momento da leitura. Esta abertura não é fraqueza; é a condição da sua perenidade.

Proverbialmente: a constelação 
não se possui; contempla-se. 
E quem a contempla 
por tempo suficiente, 
descobre que as estrelas 
estão também dentro de si. 
O mapa do céu é, 
também, mapa da alma
NOTAS SOBRE A ESTRUTURA 
E A PROSÓDIA

O poema organiza-se em cinco movimentos, que correspondem aproximadamente às estrofes tipográficas do texto original. O primeiro movimento estabelece a condição de partida: a solidão e a promessa de que a casta embriaga. O segundo eleva a casta à Diva e introduz a redenção. O terceiro identifica a Diva com a amada e com a Lua, e introduz a teia e o encanto de sereia. O quarto aprofunda a natureza da teia como liturgia e ritual de redenção. O quinto e último é a invocação directa e a aceitação da fuga da amada. Esta progressão não é linear no sentido narrativo; é espiralada. Cada movimento retoma e densifica o anterior, como o líquido da libação que se derrama em círculos concêntricos cada vez mais amplos. A prosódia privilegia o verso curto, muitas vezes de duas a quatro sílabas, criando um ritmo de respiração acelerada e de batimento cardíaco. As rimas são frequentes, mas não sistemáticas no sentido de esquemas fixos; aparecem como eco e ressonância, reforçando o efeito de embriaguez. A repetição de palavras-chave — casta, diva, lua, teia, libação, redenção — funciona como leitmotiv musical, ancorando a memória do leitor e densificando o campo semântico. O ouvido é conduzido por estas recorrências como o corpo é conduzido pelo vinho: gradualmente, sem violência, mas de forma irreversível. Esta economia formal é essencial à eficácia simbólica. Um poema mais longo ou mais discursivo diluiria a intensidade da libação. A concisão obriga cada palavra a carregar o máximo de sentido; a musicalidade obriga o corpo do leitor a participar do ritmo. Forma e conteúdo são, aqui, indissociáveis: a forma é já a embriaguez de que o conteúdo fala. Quem lê em voz alta descobre que o poema pede para ser murmurado ou cantado em voz baixa, como uma prece ou como um encantamento. A oralidade residual é forte: o texto parece lembrar-se de ter sido dito antes de ser escrito.

A Ilustração e o Díptico Visual

A ilustração «A Lua Desceu Sobre Mim», da autoria do próprio João de Almeida Santos (JAS 2026), não é apêndice ornamental. Constitui a metade visual do mesmo acto de invocação. O díptico poema-imagem realiza plenamente o que a tradição clássica designava por ut pictura poesis: a poesia que se faz imagem e a imagem que se faz poesia. A descida da Lua, acontecimento central do título da pintura, é o mesmo acontecimento que o poema canta. A primeira pessoa — «sobre mim» — estabelece a intimidade radical: a Lua deixa de ser objecto distante e torna-se presença que invade e transforma o espaço do sujeito. Quem contempla a ilustração vê o gesto já realizado; quem lê o poema participa da sua realização verbal. Juntos, realizam a libação completa: o derramar das palavras e o ver da Lua que desce. No seio da constelação simbólica, a ilustração ocupa o lugar da estrela visível. Enquanto o texto trabalha com a ambiguidade e a sobreposição de sentidos, a imagem oferece a evidência imediata do acontecimento. Esta complementaridade reforça todas as marcas: a dionisíaca (a embriaguez do olhar), a lunar (a prata que desce), a invocatória (o gesto de acolhimento) e a enigmática (o mistério de uma Lua que escolhe descer sobre um humano particular).

ECO DE BELLINI
A Casta Diva de "Norma"

A expressão «Casta Diva» não é invenção isolada. É citação e reinvenção da célebre cavatina de Vincenzo Bellini na ópera Norma (1831). Nessa ária, a sacerdotisa drúida Norma invoca a Lua — Casta Diva — para que espalhe a sua luz de prata sobre o bosque sagrado e acalme os corações. A invocação é, ao mesmo tempo, prece colectiva e prece íntima: Norma pede paz para o seu povo e, em segredo, para o seu próprio coração dilacerado pelo amor proibido a um romano. Almeida Santos recupera esta invocação e desloca-a com mestria. Em Norma, a Casta Diva é a Lua invocada por uma mulher; em «Libações», a Casta Diva é a Lua que se identifica com a amada e é invocada por um homem. A inversão de género e de perspectiva densifica o símbolo: a Lua continua a ser pureza e luz, mas torna-se também objecto de desejo erótico e de captura poética. O eco de Bellini acrescenta à constelação uma dimensão musical e operática de grande densidade: a libação não é apenas lírica; é também ária, canto elevado, voz que se eleva na noite para pedir à Lua que desça. Quem conhece a melodia de Bellini ouve, por baixo dos versos, a prece que há quase dois séculos pede à mesma Lua a mesma graça. Esta intertextualidade opera em vários níveis. No nível formal, reforça a marca da invocação e da musicalidade. No nível simbólico, liga o poema à tradição do bel canto e à figura da sacerdotisa que, como o poeta, habita o limiar entre o sagrado e o erótico, entre a pureza ritual e a paixão proibida. Norma e o sujeito de «Libações» partilham a mesma condição: ambos cantam um amor que a ordem do mundo considera impossível ou perigoso, e ambos encontram na Lua a única testemunha capaz de compreender.

O Leitor como Participante da Libação

O poema dirige-se explicitamente a um leitor: «Quem deste poema / Beber, / Porque se sente / Sozinho…». A estrutura de endereçamento transforma a leitura em participação ritual. O leitor não é espectador; é convidado a beber. Beber o poema é aceitar a embriaguez que ele oferece; é reconhecer a própria solidão como ponto de partida e a libação como caminho possível de redenção. A tradição hermenêutica contemporânea insiste na participação activa do leitor na construção do sentido. Em «Libações», esta participação é levada mais longe: não se trata apenas de interpretar, mas de consumir, de se deixar embriagar, de entrar no ritual. O sentido não é algo que se extrai do texto; é algo que se bebe com ele. E, como em toda a libação verdadeira, o bebedor é transformado pelo que bebe. A hermenêutica torna-se, assim, uma forma de ascese e de celebração simultâneas. O ensaio que o leitor agora lê participa da mesma lógica: é também ele uma libação, oferecida a quem se sente sozinho perante a densidade do poema e deseja encontrar caminho de compreensão e de partilha.

Proverbialmente: o poema 
que se lê sem se deixar 
beber permanece fechado; 
o poema que se bebe 
sem se deixar ler dilui-se. 
Só a atenção que é, 
ao mesmo tempo, interpretação 
e entrega revela 
a constelação em toda 
a sua luz. Que o leitor, 
ao terminar, não feche 
apenas a página, mas derrame, 
a seu modo, a sua própria 
oferenda — de silêncio, 
de gratidão, ou de um novo canto
CONCLUSÃO - A SABEDORIA DA LIBAÇÃO

«Libações» ensina, na sua densíssima economia de meios, uma sabedoria antiga e sempre nova: que a solidão pode ser o início de uma comunhão; que a dor pode ser o solo de uma redenção; que o amor, mesmo quando se furta, pode ser cantado e, no canto, imortalizado; que a palavra, quando se faz ritual, recupera o seu poder de transformar o bebedor. Esta sabedoria não se enuncia sob a forma de doutrina; derrama-se sob a forma de libação. Quem a bebe, compreende-a no corpo e na alma, não apenas no intelecto. A constelação que desenhámos não esgota o poema. Nenhum mapa esgota o território. Mas permite que o leitor se oriente no espaço simbólico que Almeida Santos abriu com a precisão de quem sabe que a verdadeira poesia não explica o mistério: habita-o e convida a habitá-lo. A densificação hermenêutica não pretende substituir a experiência directa do poema; pretende, antes, preparar o terreno para que essa experiência seja mais plena, mais atenta, mais grata. Como o enólogo que descreve o terroir sem pretender substituir o vinho, o hermeneuta descreve a constelação sem pretender substituir a contemplação. No fim, permanece o gesto essencial: a libação. Derramar. Oferecer. Beber. O poeta derramou as palavras; o leitor bebe-as. Entre o derramar e o beber, acontece o milagre discreto da comunhão. A Lua desceu. A casta embriaga. A Diva enleia. A teia prende e liberta. A dor cura-se no ritual. A inspiração pede-se e partilha-se. E a amada, mesmo fugindo, permanece no centro da constelação, argentada e eterna. Esta eternidade não é a da posse; é a da presença ritual. Enquanto houver quem beba o poema, a Lua continuará a descer. Que quem deste ensaio beber — e do poema que o inspirou — saiba: toda a casta embriaga. E se a casta for Diva, e a Diva for Lua, e a Lua descer sobre a alma, então a embriaguez será redenção e a prisão será a mais doce das liberdades. E que, ao terminar a leitura, o leitor não feche apenas o livro, mas derrame, a seu modo, a sua própria libação — de gratidão, de silêncio, ou de um novo canto.

«Casta Diva, 
Doce Lua 
Argentada, 
Dá-me sempre 
Inspiração 
Pra cantar 
A musa amada 
Pra que seja 
Também tua 
E por todos 
Adorada»
REFERÊNCIAS

Almeida Santos, J. de. (2026). Libações [Poema]. (Ilustração: A Lua Desceu Sobre Mim). Publicação original do autor. (Agosto de 2026).

Bellini, V. (1831). Norma [Ópera]. La Scala. Milão, Itália.

Camões, L. de. (1994). Rimas (A. J. Saraiva, Ed.). Imprensa Nacional-Casa da Moeda. (Obra original do séc. XVI). Lisboa, Portugal.

Epicuro. (1997). Carta a Meneceu e máximas principais (A. L. A. de Sousa, Trad.). Edições 70. (Obra original ca. 300 a.C.). Lisboa, Portugal.

Hesíodo. (2008). Teogonia (A. M. L. de Seabra, Trad.). Edições 70. (Obra original séc. VIII-VII a.C.). Lisboa, Portugal.

Hesíodo. (2010). Os trabalhos e os dias (A. M. L. de Seabra, Trad.). Edições 70. (Obra original séc. VIII-VII a.C.). Lisboa, Portugal.

Horácio. (2008). Arte poética (A. M. L. de Seabra, Trad.). Edições 70. (Obra original ca. 19 a.C.). Lisboa, Portugal. [Contém o princípio ut pictura poesis]

Mourão-Ferreira, D. (2000). Obra poética (Vols. 1-2). Dom Quixote. Lisboa, Portugal.

Pessoa, F. (2006). Poesia completa de Álvaro de Campos (T. R. de Assis, Ed.). Assírio & Alvim. Lisboa, Portugal.

Pessoa, F. (2011). Livro do desassossego (R. Zenith, Ed.). Assírio & Alvim. Lisboa, Portugal.

NOTA

As referências a tradições hermética, órfica, alquímica e da saudade portuguesa são de natureza cultural-histórica e não remetem a uma edição única específica. A menção à via negativa reporta-se à tradição da teologia mística cristã e neoplatónica. A libação enquanto prática ritual reporta-se às fontes clássicas gregas e romanas (Hesíodo, entre outras).

AMV@08-2026