Artigo

 

A NORMALIZAÇÃO DA DIREITA RADICAL

A propósito de um Ensaio 
de Luca Manucci

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2026

A PROPÓSITO DA DIREITA RADICAL em Portugal e em Espanha, li com muita atenção e interesse (o tema merece), no Expresso “Ideias”, de 24.04.2026, um ensaio de Luca Manucci, investigador do ICS, sobre “O passado como promessa: quando os media normalizam a direita radical”. O estudo analisa seis jornais (Público, Diário de Notícias Correio da Manhã e El País, El Mundo e ABC). E conclui dizendo que “parte do efeito dos media não se exerce de forma directa sobre as preferências eleitorais, mas através da forma como contribuem para moldar a percepção do passado – e, com ela, a disposição para apoiar estes partidos” (itálico meu) da direita radical (em Portugal, o CHEGA e, em Espanha, o VOX). Registo: “moldar a percepção do passado”. E ainda: “a nostalgia autoritária está fortemente associada ao apoio à direita radical”, funcionando como um “recurso político eficaz, reforçando o seu apoio eleitoral e ampliando a sua base social”.

1.

Poderia começar esta minha reflexão perguntando se foram os media que, moldando “a percepção do passado” e dando expressão à chamada “nostalgia autoritária”, contribuíram para reforçar o apoio eleitoral e para normalizar a direita radical ou se foram os eleitores, cansados de promessas não cumpridas, seduzidos pelo discurso de André Ventura e desejosos de dar um abanão ao sistema, quem a projectou eleitoralmente, através do voto. Mas também é legítima a pergunta: o que vem primeiro, a galinha ou o ovo? A galinha põe o ovo, mas ela nasce de um ovo. Neste caso, há uma relação deste tipo? Não, porque o fenómeno é mais complexo. Por isso não respondo já, mas tomo nota da ideia de que os media (os analisados foram três jornais, em cada país) moldam a percepção do passado e reforçam com isso o apoio eleitoral aos partidos da direita radical. Sendo certo que os media, mas sobretudo a televisão, produzem fortes efeitos eleitorais (disso não tenho dúvidas), a questão é, todavia, complexa, pelo menos a de saber como está configurada e se processa essa influência. O debate sobre isto é muito antigo e eu próprio me debrucei detalhada e longamente sobre ele no meu livro Media e Poder – O poder mediático e a erosão da democracia representativa (Lisboa, Vega, 2012), ficando logo clara no título a conclusão a que chego.

2.

Tratando-se de matéria já muito estudada, achei um pouco estranho que neste ensaio não houvesse qualquer referência precisamente às teorias sobre os efeitos dos media, que existem pelo menos desde os anos ’40 do século passado, com Lazarsfeld e Elihu Katz e a teoria do two-step flow of communication ou até mesmo desde a obra seminal de Gabriel Tarde, nos finais do século XIX, com “As Leis da Imitação” e, um pouco mais tarde, com “L’Opinion et la Foule” (1901); aos estereótipos de que falava Walter Lippmann nos anos vinte do século passado;  ou à teoria da tematização, de Niklas Luhmann, convergente com a teoria do agenda-setting. E por aí em diante (veja Santos, 2012: 241-256). Também estranhei que não tenha sido tomada em consideração (é feita uma referência ocasional) a influência que verdadeiramente conta, ou seja, a da televisão e a das redes sociais, mesmo que o alinhamento das televisões retome, em parte, o agendamento da imprensa escrita (e daqui resulte alguma infuência). Mas, sobretudo, o que me parece de difícil compreensão é que não tenha sido considerado aquele que eu considero ser o factor verdadeiramente relevante: o efeito (perverso) de propulsão da  polarização da atenção sobre os partidos da direita radical – em Portugal, o CHEGA – provocado pela obsessão da esquerda de pôr, negativa e permanentemente, na agenda pública este partido como se se tratasse de uma ameaça fatal à democracia; partido este, sim, promotor de uma revisitação positiva do passado e noticiada, depois, pelos media, tendo sido até objecto de debate televisivo entre Pacheco Pereira e André Ventura, que, ele sim, conhece muito bem a vantagem que, em qualquer caso, resulta da sua exposição televisiva. O trajecto percorrido por Ventura, que começou com o seu discurso sobre os ciganos, e centrado num discurso permanentemente disruptivo tem resultado como aglutinador quer do discurso crítico de toda a esquerda (mas em parte também do centro-direita – o célebre “não, é não” de Montenegro), colocando-o no centro da atenção social, quer do tabloidismo exacerbado dos media (em particular da televisão), sempre atraídos pelo negativo e pelos comportamentos disruptivos (veja o artigo sobre “Por que razão André Ventura é tão disruptivo” – https://joaodealmeidasantos.com/2023/05/02/artigo-100/; e o meu “El Discurso Populista” – https://revistas.ucm.es/index.php/HICS/article/view/92237).  Só mais tarde, e com o CHEGA já com uma consistente dimensão parlamentar, o antigo regime viria a ser mais directamente objecto de particular atenção, mas, na minha opinião, sim, como recurso discursivo disruptivo polarizador de atenção por parte de André Ventura e não como idiossincrasia mediática moldadora de uma determinada visão do passado autoritário. Não me parece que seja possível imputar ao jornalismo português uma qualquer simpatia militante pelo antigo regime. Bem pelo contrário. Direi mesmo que ele não “molda”, mas que, isso sim, agenda em virtude dessa atração fatal pelo negativo e pelos discursos disruptivos. Sobretudo a televisão e, no plano da imprensa, o “Correio da Manhã” (que, todavia, nunca vi particularmente activo nesta matéria). Não cabe aqui entrar no mundo das redes sociais, que existe e cada vez mais com uma forte influência.

3.

Lembro o que diz a teoria dos efeitos “agenda-setting” (de McCombs e Shaw): o que importa não é o tanto conteúdo, mas a polarização da atenção social sobre o tema e o seu efeito de arrastamento para o topo da agenda pública. Vejamos o que disse, em 1963, o precursor desta teoria, Bernard Cohen: a imprensa “pode na maior parte dos casos não ser capaz de sugerir às pessoas o que pensar, mas ela tem um poder surpreendente de sugerir aos leitores sobre o que pensar”. “Sobre o que pensar”: ou seja, o poder de agendar, de pôr na agenda um tema, concentrando a atenção nele (Santos, 2012: 246-248). Mesmo assim, parece-me legítimo perguntar: quem lê hoje o “Diário de Notícias”, um dos três jornais estudados para Portugal? Segundo a APCT, a circulação média paga e impressa deste jornal, em 2025, foi de cerca de 913 jornais e a circulação digital foi, no mesmo ano, de cerca de 761. Que conclusões se pode tirar de uma irrelevância como esta? Não creio, por isso, que a causa causans que se procurava tenha sido claramente detectada neste estudo. Na minha opinião não foi mesmo. E não só pela relativa irrelevância sociológica do objecto de estudo – os três jornais (mas refiro-me sobretudo a Portugal). Mas vejamos melhor o assunto.

4.

Diz-se que os media não foram apenas o espaço onde a direita radical ganhou visibilidade, mas que foram também um dos mecanismos através dos quais essa visibilidade se traduziu em normalização política, moldando a percepção do passado. Claro, não é inócua a narrativa mediática, mas ela própria tem uma génese, uma causa, uma motivação. O que leva os media a agendar um determinado assunto? O que os leva a publicar isto e não aquilo? Nem vale a pena invocar o código ético para explicar a mecânica informativa porque eles não o cumprem (demonstrei isto no meu livro Media e Poder, Lisboa, Vega, 2012).

Também se diz que a chamada “nostalgia autoritária” está fortemente associada ao apoio à direita radical, sendo significativamente mais elevada entre eleitores do VOX e do CHEGA do que entre quaisquer outros grupos políticos do arco parlamentar. Claro, compreende-se e é natural. Mais ainda: longe de penalizar eleitoralmente estes partidos — como durante muito tempo foi assumido —, a ligação ao passado autoritário pode, pelo contrário, funcionar como um recurso político eficaz, reforçando o seu apoio eleitoral e ampliando a sua base social. Mas o que me parece é que a dimensão eleitoral deste recurso fica por provar em três planos: a) que os media (escritos) moldem a percepção; b) que esta percepção se traduza em voto; c) e que esta tradução tenha um valor eleitoral significativo. Pode-se perguntar, mas eu não tenho dúvidas sobre isso, se os cerca de 33% de votos em André Ventura nas presidenciais se deve mais à sua figura e à sua performance discursiva ou à “nostalgia autoritária” de que ele seja o representante. Depois, é minha convicção de que os media portugueses não alinham generalizadamente nesta valorização ou normalização do passado. Este passado não será, bem pelo contrário, valorizado por associação a um discurso sedutor, eficaz e performativo de André Ventura ou a direita radical vale sobretudo porque ela é intérprete da “nostalgia autoritária”? Entre uma coisa e a outra não haverá outros e poderosos factores? A figura carismática do líder e o seu discurso mobilizador (que não se centra na “nostalgia autoritária”), a saturação relativa ao sistema, a crise do custo de vida? Os media, afinal, favorecem a “nostalgia autoritária”? Tendencialmente e do ponto de vista do conteúdo é uma certeza que não. A favorecerem será por a colocarem na agenda, mais ou menos frequentemente, pelas mais variadas razões, mas sobretudo pela atracção fatal do negativo tablóide e pelo dever de pôr na agenda o combate frontal e radical da esquerda contra esta ameaça fatal à democracia. Também porque ela sabe a sangue quente.

A  integração de um líder carismático como André Ventura no ecossistema mediático ilustra bem esta normalização. A sua presença em programas de grande audiência, debates políticos e espaços de comentário tornou-se, bem cedo, regular, quase previsível. Mas mais importante do que a presença em si é o enquadramento dessa presença? Não, não é. A lógica mediática contemporânea privilegia frequentemente a espetacularização, a polarização e a frase impactante, o seu poder de polarização da atenção – é o seu discurso disruptivo que interessa. Neste contexto, discursos que antes seriam marginalizados, agora, precisamente por serem controversos e por serem de sujeitos com dimensão significativa política, geram interação. Eles são agendados porque atraem audiência, na lógica do negativismo tablóide, mas também porque atingiram uma representatividade de relevo, com todas as consequências que isso tem para efeitos de comunicação.

E diz-se ainda que os media, não sendo os únicos agentes deste processo, eles são dos mais influentes, precisamente porque operam ao nível da construção de significado. Que a ideia de que os media são apenas espelhos da realidade política é intuitiva, mas incompleta. Que os media não se limitam a reflectir — também moldam. Selecionam temas, definem enquadramentos, estabelecem prioridades. E que o que está em causa não é apenas o sucesso eleitoral de determinados partidos – é a transformação do espaço democrático. E acrescenta-se ainda que quando o passado autoritário deixa de funcionar como limite, passa a estar disponível como argumento. E que quando isso acontece, o campo do possível expande-se: num contexto em que o passado é cada vez mais mobilizado como instrumento político, a forma como esse passado é representado torna-se decisiva porque quando o passado deixa de ser um limite, passa a ser um argumento — e isso transforma profundamente o que uma democracia está disposta a aceitar.

Diz-se tudo isto. Mas não creio que seja exactamente assim – a mobilização do passado como recurso político não é o essencial na acção da direita radical. Por exemplo, central é, sim, e em toda a Europa, a agenda anti-imigração, como recurso político. É só ver o que aconteceu em Itália quando Salvini foi ministro do interior – esra era o discurso que o mobilizava e nas europeias de 2019 duplicou os votos atingindo cerca de 34%. Os media condicionam certamente a agenda pública, isto é, põem no espaço público democrático determinados temas, incluído o tema do passado autoritário, mas quando esse temas são suscitados por algum factor relevante. Mas duvido mesmo que ele seja assumido como “recurso político” e argumento pela direita radical. Não creio mesmo. Lembro os termos em que ocorreu a famosa “Historikerstreit” que aconteceu na Alemanha a propósito do nazismo, do “passado que não quer passar” (a direita procurava explicar, por analogia ou mesmo por causa-efeito relativamente `revolução russa, mas não a propunha como recurso político), mas lembro sobretudo que em Itália o passado fascista já nem sequer é utilizado como argumento ou “recurso político” pelos Fratelli d’Italia, de origem neofascista. Bem pelo contrário, como muito bem saberá Luca Manucci (sobre isto veja o meu “Política e Ideologia na Era do Algoritmo”, onde analiso a evolução dos FdI e a sua distanciação em relação a esse passado – Santos 2024: pp. 101-118).

5.

Os media noticiam, de facto, o que acontece, e, claro, dão visibilidade, seleccionam e comentam. Mas não é a sua narrativa propriamente dita que conta, e sim o poder de agendamento e de polarização da atenção sobre determinados temas e determinados personagens. Que a presença dos actores aumente no espaço mediático à medida que ganham representação política é natural. Mas a sua presença aumenta também quando o seu discurso é altamente disruptivo, crítico do status (e não precisa de ser em nome do passado) e dominado pelo negativo. E um negativo que, neste caso, é, quando estão na oposição, sobre a chamada “podridão” do regime ou do sistema, tal como está configurado. É aí que os media os levam à agenda vista a tendência dominante para a adopção do negativo, o tabloidismo, como orientação que capta audiências. Mas também quando o discurso da direita radical é considerado uma ameaça para a democracia levando as forças de esquerda a tocar a rebate em defesa do território democrático ameaçado. Então, a visibilidade aumenta e, naturalmente, os media dão-lhe um grande espaço noticioso e de comentário. Agora já não é só o discurso disruptivo, é também a polarização provocada por ter sido transformada em inimiga mortal do regime, quase como se fosse força invasora do território democrático nacional. Uma lógica de guerra, de amigo-inimigo, de schmittiana memória. Por outro lado, e como disse, a teoria do “agenda-setting” não valoriza tanto, como o autor parece fazer, os efeitos dos conteúdos cognitivos sobre a cidadania, porque o que mais conta é a polarização da atenção social sobre um determinado tema, ou pessoa, e a sua regular presença no topo da agenda.  Veja-se o caso de André Ventura, não do “CHEGA”, mas sobretudo dele, enquanto líder carismático sobre o qual se centram todas as atenções.

6.

“Nostalgia autoritária”? O que é isso? É um recurso político? Que categoria política é esta?Saudades da ditadura? Os muito jovens que votam CHEGA (e são muitos, apesar da última sondagem da Aximage) têm “nostalgia autoritária” da velha ordem, por indução, visto que não a experienciaram directamente? Basta seguir o percurso de André Ventura para compreender como acontece a normalização. Mas nem ele a terá porque não a viveu. A nostalgia é um sentimento e esta resulta da experiência vivida. Talvez um discurso poético tenha poder perfomativo para a tornar activa como experiência. Mas até agora ainda não surgiram, que eu saiba, Gabriele d’Annunzio ou Marinetti portugueses disponíveis para esta nossa direita radical.

7.

Depois de ter ido o ensaio fiquei com uma legítima dúvida: os media, para não induzirem “nostalgia autoritária”, fazendo dele um recurso eficaz, não deviam noticiar, ouvir, entrevistar, falar do antigo regime ou sequer da direita radical? O que o ensaio parece indiciar é um dever de comportamento censório dos media em relação ao passado autoritário e às forças que o representam, de modo a não as normalizar. O que estas forças representam nada significa, a não ser ameaça? Um milhão e setecentos mil votos não devem ser tomados em consideração e noticiados pelo que eles representam e significam? Os media devem ser militantes, fazer “jornalismo advocacy”? Onde fica o seu “código ético”? Devem comportar-se como “contrapoderes”, contrariando a lúcida Recomendação 1003, aprovada por unanimidade, do Conselho da Europa sobre Ética do Jornalismo (de 1993)? O que a democracia deve conter é somente o discurso do centro-esquerda e do centro-direita, cancelando informativamente os extremos, seja à esquerda seja à direita, para que não haja normalização e a democracia não passe a estar mortalmente ameaçada? Na verdade, (e a usarmos este conceito) não há somente “nostalgia autoritária” à direita (radical), também há à esquerda, onde houve e há regimes fortemente autoritários. Mas, a ser assim, estaríamos ainda em democracia representativa? Ou a política acabaria por ficar confinada simplesmente a uma lógica de resistência, onde o adversário se tornaria inimigo? A resposta democrática nunca se poderá traduzir em cancelamento, mas em promoção de boas políticas e de bons argumentos que levem a cidadania a escolher com a razão e não com a emoção, o consenso e não a força, o compromisso e não o conflito, a liberdade e não o cancelamento do adversário. A melhor defesa é o ataque com boas políticas e melhores valores. Isto, sim, ainda que não me pareça que os media escritos, na era do triunfo do audiovisual, da televisão e das redes sociais, tenham o poder de moldar consciências em relação a um passado que tinha mais afinidades com a Idade Média (e veja-se a influência da Action Française e de Maurras sobre Salazar) do que com a modernidade que foi inaugurada com o liberalismo e com o iluminismo. E não creio que a direita radical mobilize, no essencial, a “nostalgia autoritária” na sua acção política. Mobiliza, sim, outros recursos, como por exemplo, a imigração ou o decisionismo e, quando em oposição, a crítica radical ao sistema, considerado corrupto. A evolução do Fratelli d’Italia é, a este respeito, muito elucidativa.

NOTA.

Será que ao fazer e publicar, como ilustração, o Perfil de André Ventura também eu estou a normalizar a direita radical? Ou até que o próprio ensaio de Luca Manucci, ao pô-la na agenda mediática, num importante semanário português, se transforme, inadvertidamente, em normalizador desta direita? JAS@05-2026

 

 

 

 

 

Poesia-Pintura

“DANÇA DA SOLIDÃO” – ENTRE O OCASO E O ECO

Decadentismo, Impressionismo Literário
e Ressonâncias Filosóficas
no Poema “Dança da Solidão”,
de João de Almeida Santos

André Moshe Veríssimo

“O ECO” – JAS 2026

ABSTRACT

O PRESENTE ENSAIO propõe uma leitura erudita e ensaística do poema “Dança da Solidão”, de João de Almeida Santos, situando-o nas correntes estéticas do Fim-de- Século – Decadentismo e Impressionismo Literário como eixos dominantes – e rastreando, em plano subtextual, a inflexão filosófica schopenhaueriana e nietzschiana que perpassa a figuração do artista, da musa e do engano poético. A análise mobiliza, ainda, a título de ressonâncias estilísticas marginais, referências ao Dadaísmo, ao Neoconcretismo e a certas tonalidades psicadélicas, concluindo que estas não constituem filiações formais reconhecíveis, mas antes afinidades de superfície. O método adoptado é o da close reading de tradição anglo-saxónica, articulada com a hermenêutica literária continental, privilegiando a imanência do texto como horizonte primário de inteligibilidade.

Palavras-chave – Decadentismo, Impressionismo Literário, Schopenhauer, Nietzsche, Poesia Portuguesa Contemporânea, Estética do Inútil, Solidão Criadora.

“DANÇA DA SOLIDÃO”- ENTRE O OCASO E O ECO

  1. INTRODUÇÃO - A POESIA 
    COMO PROBLEMA E COMO CONFISSÃO

O poema “Dança da Solidão”, de João de Almeida Santos, abre com uma interrogação que é, ao mesmo tempo, retórica, existencial e metapoética: “Para que serve / A poesia / Se não a sentes / Por dentro?”. Este questionamento inaugural não é inocente. Inscrevendo-se numa longa tradição que vai de Verlaine ao Pessoa de Mensagem, passando pelo Sá-Carneiro de Dispersão, o poema institui imediatamente o sujeito lírico como um artista em crise — não a crise da inspiração, mas a crise da adequação entre sensibilidade e forma, entre a musa interior e a sua manifestação pública.

A figura do poeta-pintor do ocaso — expressão que funde artes, temporalidade e melancolia — convoca, desde logo, o universo semântico do Fim-de-Século, com a sua estetização da decadência, a sua celebração do inútil e a sua dilaceração entre idealismo e niilismo. Mas o poema não se esgota nessa filiação epocal. Há nele uma fenomenologia do estado de alma que remete para o Impressionismo Literário e para a tradição filosófica que elege a arte como o único espaço de suspensão da vontade — de Schopenhauer — ou de afirmação criadora da ilusão — de Nietzsche. É este triplo horizonte — estético, formal e filosófico — que o presente ensaio se propõe explorar.

  1. O CLIMA FIN-DE-SIÈCLE:
    ESTÉTICA DO DESPERDÍCIO E
    CELEBRAÇÃO DO INÚTIL

O decadentismo finissecular constitui uma das correntes mais identificáveis no texto de Santos. O conceito de decadência, tal como foi elaborado por Max Nordau (1892; 2004) e depois ressemantizado pelos próprios artistas que o reivindicavam — de Huysmans a Wilde —, implica uma espécie de inversão axiológica deliberada: aquilo que a moral burguesa condena como desperdício, esterilidade ou futilidade torna-se, no imaginário decadentista, o valor supremo. A beleza inútil é a única beleza autêntica; a arte que não serve é a única arte que verdadeiramente é.

Esta lógica opera com plena evidência na estrutura anafórica do poema. A secção intitulada “Para Nada” constitui o pivô semântico do texto: “Para nada / a não ser / para celebrar / o futuro / de um passado / que não aconteceu”. A formulação é, ela própria, decadentista no seu preciosismo paradoxal: celebrar um futuro de um passado que não existiu é uma operação temporal absolutamente antiutilitária, um investimento afectivo e estético num objecto inexistente. Huysmans, no seu À Rebours (1884; 2011), havia já descrito protagonistas que alimentavam as suas paixões com objectos imaginários, flores artificiais mais perfeitas do que as naturais e prazeres construídos na ausência de qualquer referência empírica. O sujeito de “Dança da Solidão” opera na mesma lógica: “enganar-me / docemente / em encontros / inventados”.

A linguagem do tédio — o spleen baudelairiano transposto para o presente poético — está igualmente presente na imagem do sujeito que vai “por aí / sem saber / pra onde vou, desaparecendo / na montra” dos seus “inúteis passeios pela arte”. A deambulação sem destino é, desde Baudelaire (1857/2006), uma das figuras canonicamente associadas ao artista moderno que não encontra lugar na cidade utilitária: o flâneur aqui interiorizou-se, passando a deambular pelos espaços da própria arte e da própria memória, não pelas ruas. Este processo de interiorização é precisamente o que distingue o decadentismo do romantismo — a demanda não é exterior, mas endoscópica.

O motivo da despedida — “ritual inútil / de uma eterna / despedida / em poético / engano” — sela o poema com a tonalidade característica do world-weariness finissecular. Segundo Calinescu (1987), o decadentismo partilha com o romantismo tardio a consciência da exaustão histórica, mas radicaliza-a: enquanto o romântico ainda espera uma redenção ou uma reconciliação, o decadente sabe que a despedida é eterna e que o engano é o único horizonte disponível. Santos captura esta consciência com notável precisão.

  1. IMPRESSIONISMO LITERÁRIO:
    O ESTADO DE ALMA COMO FORMA

Se o Decadentismo fornece o clima axiológico do poema, o Impressionismo Literário determina a sua estratégia formal e perceptiva. O Impressionismo, no domínio da literatura, designa uma orientação estética que privilegia a impressão subjectiva sobre a representação objectiva, o estado de alma sobre o evento externo, a fragmentação sensorial sobre a narrativa causal. Esta orientação, que em Portugal encontrou expressão paradigmática em Cesário Verde e, de forma mais radicalizada, em Mário de Sá-Carneiro, está profundamente inscrita na textura do poema de Santos.

O verso mais exemplar desta orientação é, sem dúvida, “perdendo-me / na acústica / dos ecos / silenciosos / da alma”. A formulação é paradoxal na sua lógica sensorial — ecos silenciosos são, por definição, uma contradição em termos —, mas é precisamente este oxímoro que define a percepção impressionista: a experiência interior tem uma acústica própria, audível apenas pelo sujeito que a vive, e essa acústica não é nunca redutível à linguagem denotativa. Bergson (1896; 2006), cuja filosofia da duração (durée) constitui o substrato teórico mais pertinente para compreender a temporalidade impressionista, argumentaria que a consciência é um fluxo contínuo e heterogéneo que o discurso intelectualizado inevitavelmente distorce. O poeta impressionista tenta capturar esse fluxo antes da distorção conceptual.

Esta preferência pelo estado de alma sobre a acção situa o poema de Santos na linhagem do que Levin Schücking (1944) designou como “lirismo introspectivo ” e que a teoria do Impressionismo literário — tal como sistematizada por Stowell (1980) — identifica como a subordinação do mundo exterior às modulações da consciência percipiente. O sujeito do poema não relata acontecimentos; regista antes as ondulações de uma subjectividade que se sente sem se ver, que intui a musa “cá dentro” mesmo quando já não a vê “lá fora”. A distinção topológica entre interior e exterior é, ela própria, uma das marcas formais mais reconhecíveis do Impressionismo literário.

A imagem do poeta “que levita / sobre os escombros / de uma casa / que nunca / construiu / sobre os alicerces / da dor” é um exemplo magistral desta fenomenologia da percepção interior. A levitação não é um fenómeno físico, mas um estado de suspensão perceptiva: o sujeito encontra-se entre o que existiu (os escombros) e o que não chegou a existir (a casa), numa posição de indeterminação que é, afinal, a posição constitutiva do artista impressionista — sempre entre a impressão fugaz e a forma que a cristaliza e inevitavelmente a trai.

  1. A INFLEXÃO FILOSÓFICA:
    SCHOPENHAUER, NIETZSCHE
    E O ENGANO POÉTICO

Subjacente ao poema de Santos opera uma tensão filosófica de natureza schopenhaueriana e nietzschiana que não se manifesta em citação directa, mas em estrutura temática profunda. Schopenhauer (1819; 2005) sustentou que o sofrimento é a condição ontológica fundamental da existência consciente, dado que a Vontade — princípio cego e irracional que anima o mundo — se manifesta nos seres individuais como desejo perpétuo e insaciável. A arte, e em particular a música, constituiria o único domínio em que a Vontade se suspende momentaneamente, proporcionando ao sujeito uma libertação transitória do sofrimento.

No poema de Santos, esta lógica schopenhaueriana está presente, mas com uma inflexão irónica significativa. A dança — “pas de deux / com meus poemas / desenhados / a preto e branco” — é apresentada como o único “ao menos” disponível: não uma redenção, mas uma gestão do irredimível. O sujeito não acede à suspensão da Vontade pela via da arte; acede, tão-só, a uma dança que acompanha a sua própria exaustão. A arte não liberta — emaranha: “enredado / nos mil fios / da fértil / imaginação”. O vocabulário da teia e do enredamento é precisamente o inverso da libertação schopenhaueriana.

É aqui que a inflexão nietzschiana se torna relevante. Em O Nascimento da Tragédia (1872; 1997), Nietzsche propôs que a arte não fosse suspensão da Vontade, mas afirmação dionisíaca através da ilusão. O artista não se liberta do sofrimento pela contemplação; antes o transforma em criação, assumindo o engano como fundamento produtivo. O poético Engano com que fecha o poema de Santos é, nesta leitura, uma formulação nietzschiana: a consciência do engano não invalida a dança; a dança é exactamente o engano consciente e aceite, o Schein (aparência, brilho, ilusão) que a estética nietzschiana reabilita como condição de toda a criação.

O sintagma poeta-pintor do ocaso é, neste contexto, extraordinariamente denso. O ocaso é, em Nietzsche, não apenas o crepúsculo, mas o lugar do Untergang — a descida que é também a condição do reerguimento, como Zaratustra desce da montanha não para regressar ao que era, mas para se ultrapassar. O poeta de Santos não desce em direcção ao super-homem — é mais pessimista do que isso —, mas o seu ocaso é vivido esteticamente, como paisagem e como performance, o que o aproxima do gesto nietzschiano de estetização da decadência em vez da sua pura negação.

  1. RESSONÂNCIAS MARGINAIS:
    DADAÍSMO, NEOCONCRETISMO
    E PSICADELISMO

Uma leitura rigorosa do poema deve igualmente cartografar aquilo que nele não está — ou está apenas como eco distante. O Dadaísmo, tal como Bürger (1974; 2012) o teorizou no quadro mais amplo da teoria da vanguarda, define-se pelo gesto performativo de negação da instituição-arte: o nonsense, a colagem, a descontinuidade radical, a recusa da organicidade da obra. Nada disto está presente em “Dança da Solidão”. O poema é formalmente coerente, sintaticamente controlado e semanticamente orgânico. A sua ironia é reflexiva, não performativa; a sua auto-ironia é melancólica, não destrutiva. O sujeito não nega a arte — lamenta a sua impossibilidade, mantendo intacto o desejo de a fazer. Esta posição é, nos seus fundamentos, anti-dadaísta.

Quanto ao Neoconcretismo, a referência a poemas desenhados a preto e branco e a fios poderia sugerir, superficialmente, uma aproximação ao universo das artes visuais experimentais e à tradição neoconcreto-construtivista do poema-objecto. Contudo, estas imagens funcionam no poema como metáforas da existência interior do artista — da sua auto-inscrição no mundo — e não como propostas de interacção participativa ou de dissolução da fronteira obra/espectador, que são as marcas centrais do movimento neoconcreto brasileiro tal como definido no Manifesto Neoconcreto de 1959 (Gullar et al., 1959).

O Psicadelismo, finalmente, apresenta-se como uma leitura contemporânea plausível à luz de certas imagens — levita sobre os escombros, a teia em que a vida vai sendo enredada, a dissolução do eu na montra dos passeios inúteis. Estas imagens têm, com efeito, uma qualidade onírica e associativa que ecoa certas estéticas psicadélicas. Mas a afinidade é apenas tonal: o poema não contém nenhuma referência histórica à contracultura dos anos sessenta, nenhuma alusão à experiência psicotrópica, e o seu modo de dissolução do eu é essencialmente schopenhaueriano (a superação da individuação pela dor e pela arte) e não expandido por alteração artificial de consciência. Como alertou Roszak (1969/2004), a contracultura psicadélica partilhou com o misticismo oriental uma recusa da razão instrumental que não encontra paralelo na racionalidade melancólica do sujeito de Santos.

  1. CONCLUSÃO: A POÉTICA DO OCASO
    COMO FORMA DE PERMANÊNCIA

“Dança da Solidão” é um poema de rara densidade intertextual e filosófica, que articula, com mestria formal notável, os principais vectores do Fin-de-Siècle decadentista e do Impressionismo Literário, enquanto incorpora, em plano subtextual, a tensão filosófica entre a estética da suspensão schopenhaueriana e a poética do engano nietzschiana. A sua força reside precisamente na consciência de que a dança não salva — mas dança-se ainda assim, e é nessa persistência que o sujeito lírico acede, paradoxalmente, a uma forma de permanência.

A expressão “ritual inútil / de uma eterna / despedida” é, afinal, a formulação mais precisa desta poética: a despedida que se repete eternamente não é uma despedida — é uma presença sob a forma da ausência, um estar que se diz como partir. Esta contradição constitutiva é aquilo que Blanchot (1955/2011) designou como o espaço literário por excelência: o lugar onde a linguagem atinge o seu limite e, nesse limite, se mantém.

Dança-se com ecos silenciosos, levita-se sobre escombros de casas não construídas e celebra-se o futuro de um passado que não aconteceu. Mas dança-se. E essa dança — esta poesia — é a única casa que o poeta de facto construiu: a de linguagem que nomeia a sua própria impossibilidade e, ao nomeá-la, a supera. A solidão torna-se, assim, não a ausência de companhia, mas a condição de uma companhia mais essencial: a do próprio poema que se faz ao dançar.

REFERÊNCIAS

BAUDELAIRE, C. (2006). As flores do mal (P. Tamen, Trad.). Assírio & Alvim. (Obra original publicada em 1857).

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BLANCHOT, M. (2011). O espaço literário (A. C. Loureiro, Trad.). Rocco. (Obra original publicada em 1955).

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NOTAS

NOTA 1.
SOBRE O AUTOR

André Moshe P. Veríssimo (AMV), PhD, professor universitário, investigador, ensaísta e compositor, é Presidente do Conselho Fiscal do IRMEX. A sua obra, cerca de 30 livros e centenas de artigos, situa-se na intersecção rigorosa entre a fenomenologia continental (Levinas, Ricoeur, Merleau-Ponty), a tradição literária portuguesa (Camões, Pessoa, Guerra Junqueiro, Cesário Verde) e o pensamento judaico (Rosenzweig, Buber, fontes talmúdicas e cabalísticas), configurando aquilo que se pode designar como uma hermenêutica da hospitalidade: uma leitura do mundo em que o texto filosófico, o poema e a partitura musical são três modalidades de um mesmo gesto — o acolhimento do Outro na sua irredutibilidade. A análise deste poema demonstra, mais uma vez, que AMV lê a poesia como quem lê uma partitura: atento não apenas ao que se diz, mas ao que se cala entre os versos, ao silêncio que pesa tanto como a palavra, à respiração entrecortada dos versos curtos que é, em si mesma, o corpo-próprio do poema.

NOTA 2.
SOBRE A PUBLICAÇÃO

Hoje volto a publicar outro ensaio de André Moshe Veríssimo sobre a minha poesia, a partir do poema “DANÇA DA SOLIDÃO”, numa análise comparativa com as grandes correntes estéticas. Podendo-se ler este este artigo como se fosse o eco reflexivo, em diferido, do poema de domingo passado, justifica-se assim esta inovação editorial num processo que já tem cerca de dez anos, mas sem deixar de se repropor, no fim do artigo, o próprio poema em análise. O texto foi-me enviado no próprio domingo em que publiquei o poema (26.04.2026) e tomei a decisão de voltar a propor ao autor a sua publicação hoje, aqui. O que voltou a ser aceite. Muito obrigado, André. JAS@05-2026

NOTA 3.
O POEMA

“DANÇA DA SOLIDÃO”

PARA QUE SERVE
A poesia
Se não a sentes
Por dentro?
Para que serve
A pintura
Se não a contemplas
Com a alma?
Mas para que sirvo eu,
Poeta-pintor
Do ocaso,
Se já não vejo
A musa
(Lá fora),
Mesmo que a sinta
Cá dentro
(Como agora)?

PARA NADA,
A não ser
Para celebrar
O futuro
De um passado
Que não aconteceu,
Perdendo-me
Na acústica
Dos ecos
Silenciosos
Da alma,
Enganar-me
Docemente
Em encontros
Inventados,
Ir por aí
Sem saber
Pra onde vou,
Desaparecendo
Na montra
Dos meus inúteis
Passeios
Pela arte
Onde procuro
Teimosamente
Tudo aquilo
Que já não sou.

AO MENOS DANÇO
Em “pas de deux”
Com meus poemas
Desenhados
A preto e branco,
Enredado
Nos mil fios
Da fértil
Imaginação
Do poeta-pintor
Que levita
Sobre os escombros
De uma casa
Que nunca
Construiu
Sobre os alicerces
Da dor.

É A DANÇA
Da solidão,
Com a musa
Suspensa
Nos fios
Da teia
Em que vou
Enredando
Poeticamente
A minha vida,
Até tombar exausto,
Ao cair do pano,
Ritual inútil
De uma eterna
Despedida
Em poético
Engano.