Artigo-Ensaio

FALO DE ONDE NÃO ESTOU

ANÁLISE ESTRATIFICADA FPX
DE «DESENCONTRO» 
DE JOÃO DE ALMEIDA SANTOS
O Erotismo da ausência, 
o Quase de Jankélévitch
e o Espaço literário de Blanchot

André Moshe Veríssimo, PhD

“Epifania” – JAS2023

"Nihil varietur"
LIMIAR

HÁ POEMAS que se escrevem a partir de um lugar; «Desencontro», de João de Almeida Santos, escreve-se a partir de um não-lugar. O verso inaugural — «Estou sempre / A partir / De um lugar / Onde não estou» — não é abertura retórica: é declaração de coordenadas ontológicas. O sujeito que fala fala de onde não está e, por isso, tudo quanto diz vem já marcado pela despossessão. Tomei noutro ensaio o poema «PALAVRAS» como uma dialéctica negativa em verso, e o quadro «Fascínio» como a inversão pictórica dessa fuga — a atracção do olhar. «Desencontro» é o terceiro vértice deste triângulo: nem fuga das palavras, nem atracção do rosto, mas desencontro — o modo temporal em que as duas trajectórias, a do sujeito e a do Outro, se cruzam sem nunca coincidir.

A tese que pretendo demonstrar é a seguinte: «Desencontro» não fala da perda — é a própria perda tornada sintaxe. A ausência não é o tema do poema; é o seu princípio construtivo, a matéria de que o texto é feito. Para o provar, percorrerei as correntes que o atravessam, patentes e latentes, e fá-las-ei dar fruto cada uma na sua espessura: o erotismo nostálgico da recordação, a desarticulação dadaísta da sintaxe e do verso, a dramaturgia simbólica do teatro vazio, o mot juste flaubertiano do mar, o olhar celaniano que respira, a Ode pessoana refeita em miniatura, a Ítaca cavafiana que se dissolveu, a ironia de Szymborska, a impossibilidade de contar de Amos Oz, o quase de Jankélévitch, o espaço literário de Blanchot e a ética do Rosto em Levinas e Buber, com a matriz talmúdica do comentário infinito. Tudo isto culminará na análise estratificada FPX que tenho praticado — filosófica, psicanalítica, cabalística e estética em acorde.

A ilustração que acompanha o poema — «Epifania» (JAS, 2023), rosto de mulher de cabelos negros entrelaçados de fios dourados sobre fundo alaranjado, olhos verde-azulados marejados — não é ornamento do texto: é a sua contraparte plástica. Onde o poema só pode quase dizer o rosto perdido, a pintura mostra-o ainda a fitar-nos. Lerei texto e imagem como díptico, no rigor do termo: duas faces de uma só meditação sobre a ausência e a sua estranha permanência.

A TOPOLOGIA DA DESPOSSESSÃO
O não-lugar de onde se fala

Comecemos pela arquitectura. O poema abre com uma impossibilidade de localização que se desdobra em cascata lógica: «Estou sempre / A partir / De um lugar / Onde não estou, / Por isso não sei / O que te dizer». A segunda estrofe radicaliza: «E porque não sei / Onde agora estou / Também não sei / Para onde vou». Há aqui uma estrutura silogística rigorosa, quase escolástica na sua progressão — não saber onde se está implica não saber para onde se vai —, mas posta ao serviço não da demonstração, e sim da dissolução. O raciocínio, que na lógica clássica conduz a uma conclusão, conduz aqui a uma aporia: a perda de toda a coordenada.

Esta topologia negativa tem um nome na fenomenologia contemporânea: a a-topia do sujeito descentrado. O «eu» de «Desencontro» não ocupa um ponto de onde observe o mundo; é, ao invés, um ponto que se subtrai a si mesmo. A frase «de um lugar / Onde não estou» é, com rigor, uma contradição performativa — só posso partir de um lugar onde de algum modo estou — e é precisamente nessa contradição que reside a verdade do poema. O sujeito poético habita o seu próprio desaparecimento. Está onde não está. Fala de onde se ausenta.

Importa fixar a diferença em relação a «PALAVRAS». No poema anterior, era a linguagem que fugia do sujeito; o «eu» permanecia, abandonado pelas palavras. Em «Desencontro», é o próprio sujeito que se ausenta de si, e com ele se ausenta o destinatário — o «tu» que «foste / Pra onde». A despossessão deixou de ser da linguagem para passar a ser do ser. Não é já que faltem as palavras: é que falta o lugar de onde as dizer e a pessoa a quem as dizer. A ausência tornou-se dupla, especular: ausência do sujeito a si, ausência do Outro ao sujeito. E é no cruzamento destas duas ausências que o desencontro se consuma.

O ritmo confirma-o na carne sonora do verso. A versificação de «Desencontro» é breve, entrecortada, predominantemente oxítona e paroxítona — «A partir», «não estou», «o que te dizer», «para onde vou» —, e essa brevidade arquejante reproduz, no plano prosódico, a respiração de quem já não sabe se fica ou parte. O verso curto não é economia decorativa: é falta de fôlego, sintoma fónico da despossessão. Cada linha é um arranque que logo se interrompe, um impulso que não chega a frase plena. A própria métrica desencontra-se de si.

O EROTISMO DA AUSÊNCIA
A memória como tinta-da-china

A dimensão erótica de «Desencontro» é, como bem se intuiu na leitura primeira, simultaneamente nostálgica e clandestina — e estas duas qualidades pedem desenvolvimento, porque definem toda uma tradição lírica. O desejo no poema não se cumpre num corpo presente; cumpre-se na recordação de um olhar: «o intenso brilho / Desse teu olhar / Por onde entrava / A luz / Dos meus olhos / Pra te seduzir, / Pra te conquistar». A sedução é retrospectiva. O eros não olha para a frente, para um encontro futuro; olha para trás, para um encontro que houve e que agora só sobrevive como brilho lembrado.

Este é o erotismo da recordação — e o seu modelo maior na modernidade é, sem dúvida, Marcel Proust. Em À la recherche du temps perdu (Proust, 1913-1927), o desejo constitui-se sempre na ausência do objecto: Albertine só é plenamente desejada quando ausente ou adormecida, quando se torna pura imagem na consciência do narrador. O presente erótico é, em Proust, quase insuportável; é a memória que o redime e o intensifica. «Desencontro» radicaliza esta estrutura proustiana até ao extremo da dor: já não há madeleine que reconvoque o passado feliz, há apenas «cortina» e «vão teatro / Que a vida me deu / E a que a tristeza / Sempre me destina». A recherche proustiana presumia que a memória podia restituir o tempo perdido; «Desencontro» sabe que não pode. A recordação já não restitui: apenas desenha o contorno do que desapareceu.

E desenha-o, literalmente, a tinta-da-china. A imagem é de uma precisão notável: «Em busca / Dos sonhos / Que te desenhaste / A tinta-da-china / Onde te encontrei / Quando eu cantava / Com a melhor rima». A tinta-da-china é o medium do traço definitivo, irreversível, que não admite correcção — escreve-se a tinta-da-china o que não se quer apagar. Mas é também o medium do contorno sem volume, da silhueta sem carne. A amada foi desenhada a tinta-da-china: fixada para sempre e, ao mesmo tempo, reduzida a linha, a perfil, a ausência de corpo. O erotismo de «Desencontro» é, pois, um erotismo do contorno — ama-se a linha que resta quando o corpo partiu. E é aqui que o poema toca a sua ilustração, «Epifania», onde o rosto da mulher é precisamente isso: contorno negro e dourado sobre fundo de fogo, linha que desenha uma presença que é já memória.

A clandestinidade do desejo merece igual atenção, porque é traço estruturante de uma das grandes linhagens da lírica europeia — a que vai dos trovadores ao amor de lonh de Jaufré Rudel, e que reencontraremos adiante em Kaváfis. O desejo clandestino não é o desejo proibido pela moral; é o desejo que se vive na distância, que se alimenta da separação, que precisa do longe para arder. Em «Desencontro», a amada está sempre noutro lugar — «Partiste de vez / Pra outro lugar / Que não sei dizer / Nem sei desenhar» —, e é essa partida que mantém o desejo aceso. Amar tornou-se sinónimo de procurar quem partiu. O eros é, em estado puro, nostalgia — do grego nóstos (regresso) e álgos (dor): a dor do regresso impossível.

O QUASE DE JANKÉLÉVITCH
Fenomenologia do presque

Chego ao filão que considero a chave filosófica do poema: a categoria do quase. Vladimir Jankélévitch, o grande filósofo francês da música e do inefável, dedicou páginas decisivas ao presque-rien — o quase-nada — e ao je-ne-sais-quoi — o não-sei-quê — como categorias maiores da experiência (Jankélévitch, 1957). O quase não é, para Jankélévitch, uma deficiência do real, uma quantidade que faltou para chegar ao pleno. É um modo de ser com dignidade própria, talvez o mais subtil de todos: o modo daquilo que aflora sem se fixar, que toca sem possuir, que se anuncia sem se cumprir.

«Desencontro» é, de uma ponta à outra, uma fenomenologia do quase — uma fenomenologia do presque. Tudo no poema é quase: o sujeito quase sabe o que dizer («não sei / O que te dizer»), quase sonha o rosto («de te sonhar / Até sou capaz»), quase chega à ilha («talvez lá chegue / Se com as palavras / Te puder sonhar»). O poema vive inteiro neste limiar do cumprimento que não se dá. E — eis o ponto decisivo — o quase não é, aqui, fraqueza nem fracasso: é a forma mais rigorosa da dignidade. Chegar plenamente seria possuir, totalizar, encerrar; e isso o poema recusa, porque sabe que o Outro não se possui. O quase é o respeito pela distância intransponível que separa o eu do tu. É amar sem capturar.

Jankélévitch distinguia ainda entre o presque-rien e o seu reverso luminoso, o órgão-obstáculo: aquilo que simultaneamente permite e impede. Em «Desencontro», a linguagem é exactamente um órgão-obstáculo. É por meio das palavras que o sujeito pode aproximar-se do tu — «Se com as palavras / Te puder sonhar» —, mas são também as palavras que lhe fogem — «Fogem-me / As palavras, / Tenteia-me a rima». A palavra é o único caminho para o Outro e é o caminho que se desfaz a cada passo. Eis o paradoxo jankélévitchiano em estado puro: o instrumento da aproximação é também o instrumento do afastamento. Por isso o poema só pode terminar no quase, nas reticências do «Se com as palavras / Te puder sonhar…» — três pontos que são a assinatura tipográfica do presque, a frase que não se conclui porque a sua conclusão seria a posse, e a posse está vedada.

Acrescente-se que o quase jankélévitchiano tem uma temporalidade própria: é o instante que Jankélévitch chamava a occasion, o kairós, o momento oportuno que passa e não regressa. «Desencontro» é, neste sentido, o poema do kairós falhado — do encontro que teria sido possível e que a hora deixou escapar. «Na hora sombria / De um entardecer» — o entardecer é, com precisão, a hora do kairós que se extingue, o limiar entre o dia e a noite onde ainda se poderia, mas já quase não se pode. A amada partiu «na hora sombria / De um entardecer»: partiu no instante exacto em que a ocasião se fechava.

A DRAMATURGIA SIMBÓLICA
O vão teatro e a desarticulação dadaísta

O poema constrói um sistema simbólico de rara coesão, todo ele organizado em torno da figura do teatro vazio. «É fumo espesso / Pra cá da cortina / Deste vão teatro / Que a vida me deu / E a que a tristeza / Sempre me destina». A vida é aqui concebida não como palco onde se representa — metáfora barroca clássica, o theatrum mundi de Calderón e de Shakespeare —, mas como o espaço depois da representação: o teatro vazio, a cortina descida, o fumo que ainda paira quando o espectáculo acabou e o público se dispersou. O sujeito não está em cena; está na sala deserta, a contemplar a cortina fechada.

Esta inversão do theatrum mundi é profundamente moderna. Onde o Barroco via na vida-teatro a presença de um Autor divino que distribui os papéis e assiste à representação, «Desencontro» vê apenas o vazio após o fim — um palco sem dramaturgo, uma sala sem público, uma cortina que esconde não a próxima cena mas o nada. O adjectivo «vão» é exacto na sua dupla acepção: o teatro é vão porque é vazio (o vão, o espaço oco) e porque é inútil (em vão, sem proveito). A vida-teatro de «Desencontro» é oca e é inútil — não porque o poeta seja niilista, mas porque a ausência da amada esvaziou a cena de todo o sentido. O teatro só tinha sentido enquanto ela o ocupava; partida ela, resta o vão.

A neblina e o fumo espesso completam esta dramaturgia da dissolução. «Só há neblina / Neste sonho meu, / É fumo espesso». A atmosfera do poema é a de uma cena envolta em bruma, onde os contornos se perdem e as figuras se esfumam. Há aqui uma estética que dialoga com o Simbolismo — a Stimmung enevoada de Maeterlinck, os interiores brumosos de Rodenbach em Bruges-la-Morte (Rodenbach, 1892), onde a cidade morta e a neblina são correlato objectivo do luto. Mas há sobretudo uma fenomenologia da desfocagem: o rosto da amada perdeu-se não porque tenha desaparecido, mas porque se tornou indistinto, porque a memória já não consegue fixar-lhe os traços. «Mas já perdi / Teu rosto / E a silhueta». A perda não é súbita; é progressiva desfocagem, lento apagamento dos contornos na bruma do tempo.

É neste ponto que entra a desarticulação dadaísta — não na superfície ortográfica, mas no nível mais fundo e seguramente autoral da sintaxe e do ritmo. O Dadaísmo de Tzara e de Hugo Ball desarticulava a linguagem para mostrar a sua falência perante o real (Tzara, 1924); fazia-o, porém, por provocação celebratória, ao passo que «Desencontro» o faz por sofrimento. E fá-lo onde a desarticulação tem dignidade de gesto: na frase que se quebra antes de chegar ao fim, no verso truncado em duas ou três sílabas, na coordenação que se interrompe sem completar o sentido. «É o desencontro / Da rua perdida, / Antes de chegares, / Já ’stás / De partida…» — a sintaxe avança e estaca, avança e estaca, como quem perde o fôlego a meio da declaração. Não é a ortografia que se desarticula: é a própria arquitectura da frase que se recusa à plenitude, mimetizando, na carne sonora do verso, a impossibilidade de dizer inteiro o que se perdeu.

A fragmentação do verso é, neste poema, o equivalente lírico do cut-up dadaísta. Veja-se a brevidade extrema de certas linhas — «A luz», «Triste», «Ao mar», «Chamar» —, monossílabos ou dissílabos isolados que rompem a continuidade do discurso e o estilhaçam em fragmentos. Cada um destes versos-estilhaço é uma unidade que se autonomiza, que se solta do fluxo e fica a vibrar sozinha no branco da página. O poema não corre: tropeça. E esse tropeçar é deliberado — é a forma rítmica do desencontro, a prosódia da despossessão. Onde a fluência indicaria posse serena do dito, o entrecortado denuncia a perda do chão de onde se fala. A métrica desarticula-se porque o sujeito se desarticulou.

Mas o instrumento maior desta poética da ruptura são as reticências — e estas são, com toda a certeza, gesto autoral inequívoco. O poema serve-se de dois regimes de suspensão. Há as reticências breves, que rematam estrofes inteiras — «Para onde vou…», «De partida…», «Até sou capaz…», «Te puder sonhar…» —, e que deixam a frase em aberto, recusando-lhe o ponto final que a encerraria. E há, sobretudo, as longas fileiras de pontos que isolam certos versos do resto — «……………………» —, autênticos silêncios tipográficos, cesuras visuais em que a linguagem cala porque chegou ao limite do dizível. Estas fileiras não pontuam: suspendem. São o lugar onde o poema respira o seu próprio vazio, onde a página se torna, ela mesma, ausência. Aproxima-se aqui «Desencontro» da poética celaniana da Atemwende, a viragem do fôlego — o silêncio entre os versos é tão constitutivo quanto os versos. A diferença entre o poema e a prosa do desespero está toda aqui: a prosa preencheria; o poema deixa o branco falar.

Por fim, o refrão que regressa consuma a desarticulação no plano da estrutura. A pergunta «Tu foste / Pra onde?» retorna três vezes ao longo do texto, com mínimas variações, e a sua reincidência — sublinhada pela anotação «Volto a repetir» — desarticula a progressão linear que se esperaria de um discurso. O poema não avança de premissa em conclusão; circula, regressa, reincide sobre a mesma ferida. É a estrutura do que Freud chamou a compulsão à repetição, o retorno obsessivo ao trauma que se não consegue elaborar (Freud, 1920). A repetição do refrão é, pois, sintoma e forma ao mesmo tempo: sintoma da perda que não cicatriza e forma de um poema que recusa a linha recta da narração para adoptar a espiral do luto. É um dadaísmo existencial — categoria que proponho e mantenho —, a herança vanguardista da ruptura posta ao serviço não do escândalo, mas do luto: a frase que se quebra, o verso que se estilhaça, o branco que suspende, o refrão que regressa. Quatro modos de uma só desarticulação, todos autorais, todos significantes.

O MAR FLAUBERTIANO
e o mot juste elevado a destino

No movimento final, o mar irrompe como grande figura do poema, e fá-lo com uma precisão vocabular que merece o nome flaubertiano de mot juste. «Na maré revolta / Dessas altas ondas / Que dão vida / Ao mar / Onde tu te espraias / Cada amanhecer / Sem nunca parar». Flaubert, sabemo-lo pela correspondência com Louise Colet, procurava a palavra exacta, única, insubstituível — aquela que não pode ser trocada por nenhuma outra sem perda. Ora, o verbo «espraiar-se» é, neste contexto, o mot juste absoluto. Não diz que a amada está no mar nem que nada no mar: diz que ela se espraia — que se espalha, se dilui, se torna a própria extensão das ondas. A amada não habita o mar; tornou-se mar, espraiamento eterno, maré que não pára.

A oposição que organiza este final é de uma simetria rigorosa: a amada é maré (movimento, manhã, vida que não pára — «Cada amanhecer / Sem nunca parar»); o sujeito é margem (imobilidade, entardecer, hora sombria — «Na hora sombria / De um entardecer»). Ela espraia-se na luz da manhã; ele permanece na sombra do anoitecer. Entre os dois, a faixa intransponível da praia — o lugar do desencontro por excelência, onde a terra toca a água sem se confundir com ela. O sujeito está na margem a ver a amada tornada maré, e a margem é precisamente o lugar de onde se vê o mar sem nele se entrar. A topologia do desencontro completa-se: ele em terra, ela em água, e entre ambos a linha que não se cruza.

Esta cena marítima reescreve, em miniatura, a grande Ode Marítima de Álvaro de Campos (Pessoa, 1944) — mas reescreve-a por inversão, e a inversão é todo o sentido. Em Campos, o sujeito é o engenheiro vibrante que se projecta no infinito do mar, que se identifica com os navios que partem, que quer ser todos os marinheiros e todas as viagens, num delírio de potência e de expansão. O «eu» da Ode é centrífugo: lança-se para fora, dilata-se até ao horizonte. O «eu» de «Desencontro» é exactamente o seu oposto: é o que ficou na doca, reduzido a «não sei que dizer», incapaz de embarcar, vendo partir não o navio, mas a amada. Onde Campos cantava a partida como êxtase, «Desencontro» sofre a partida como abandono. É a Ode Marítima vista do cais, depois de o navio ter partido — a face nocturna e doente da exaltação pessoana. Campos projecta-se; o sujeito de JAS contrai-se. E contudo o mar é, em ambos, a mesma figura do que excede o sujeito, do que o ultrapassa e o convoca: o Infinito.

A ILHA CAVAFIANA
Ítaca que se dissolveu

Do mar emerge a ilha, e com ela a presença de Konstantinos Kaváfis. «Para uma ilha / Perdida no mar / Onde eu não chego / Nem com o olhar». A ilha é o topos cavafiano por excelência, e o seu poema-matriz é, naturalmente, «Ítaca» (Kaváfis, 1992). Mas — tal como sucedeu com a Ode Marítima — a convocação opera por inversão. Em Kaváfis, Ítaca é o destino que dá sentido à viagem mesmo sabendo-se que, ao chegar, a ilha será pobre e não terá mais nada para dar: o que importa é o caminho, a viagem longa cheia de aventuras e de saber. Ítaca justifica o percurso ainda que decepcione na chegada.

Em «Desencontro», ao invés, a ilha já não se alcança — e não porque a viagem seja longa, mas porque o próprio desejo de chegar se dissolveu na neblina: «Onde eu não chego / Nem com o olhar». Repare-se na gradação terrível: não chegar com o corpo seria limitação física, vencível; não chegar nem com o olhar é impossibilidade absoluta, porque o olhar é o que alcança o que o corpo não pode. Quando nem o olhar chega, é porque a própria visão se rendeu. A Ítaca de «Desencontro» não decepciona na chegada, como a de Kaváfis: proíbe a chegada. É uma Ítaca que se retirou para além do horizonte do desejo, perdida não no espaço, mas na possibilidade.

A presença cavafiana traz ainda o seu tom maior — a dignidade no declínio, que estudei a propósito de «Fascínio» e que aqui regressa transfigurada. Os grandes poemas de Kaváfis sobre a perda — «O Deus abandona António», «A cidade» — ensinam uma só atitude perante o irreparável: não a súplica, não a revolta, mas a aceitação digna, o escutar firme do que parte. O sujeito de «Desencontro» possui esta dignidade. Não implora o regresso da amada; não amaldiçoa a partida; constata-a, sofre-a, e — supremo gesto de dignidade — continua a tentar sonhá-la: «Mas talvez lá chegue / Se com as palavras / Te puder sonhar». Há aqui a mesma têmpera de António na sua última noite alexandrina: aceitar a perda sem a renegar, despedir-se «como convém a um homem digno de tal cidade». A dignidade no fracasso é a forma cavafiana do heroísmo — e «Desencontro» é, neste sentido, um poema heróico, embora do mais silencioso dos heroísmos.

A «cidade» cavafiana ressoa ainda no motivo da rua perdida: «É o desencontro / Da rua perdida, / Antes de chegares, / Já ’stás / De partida». A rua que se perde é parente próxima da cidade que nos segue — em «A cidade», Kaváfis advertia que não há fuga possível, que a cidade interior nos acompanha por toda a parte. Em «Desencontro», a rua é o lugar do cruzamento falhado: o espaço onde dois caminhos se deveriam encontrar e onde, em vez disso, um chega quando o outro já partiu. «Antes de chegares, / Já ’stás / De partida» — a fórmula condensa toda a tragédia do desencontro temporal: não é que os dois não se procurem; é que os seus tempos não coincidem. Quando um chega, o outro já vai. A simultaneidade — condição de todo o encontro — é precisamente o que lhes está vedado.

SZYMBORSKA – A IROMIA, O DETALHE
e a filosofia do «não sei»

Wisława Szymborska, Nobel de 1996, oferece a «Desencontro» uma chave de leitura que tempera a sua gravidade com uma luz inesperada: a da ironia delicada e a da filosofia do não-saber. Szymborska foi a poeta do extraordinário ordinário — aquela que, a partir de uma cebola, de um gato num apartamento vazio, de uma conversa com uma pedra, descobria verdades cósmicas sobre a existência e a mortalidade (Szymborska, 1998). E foi sobretudo a poeta que, no seu discurso Nobel, elevou a expressão «não sei» a princípio sagrado da criação: é o reconhecimento da própria ignorância que move toda a descoberta genuína.

Ora, «Desencontro» é, antes de tudo, um poema construído sobre o «não sei». A expressão regressa como leitmotiv obsessivo: «não sei / O que te dizer», «não sei / Para onde vou», «Não sei que dizer», «não sei / Como cá ficar», «Eu não sei / Onde tu estás», «Não sei / Onde estás», «Que não sei dizer / Nem sei desenhar», «Não sei / Se me ouves». Contar-se-iam quase uma dezena de ocorrências do verbo saber na negativa. Mas — e aqui está a leitura szymborskiana — este «não sei» não é só lamento; é também, no sentido da poeta polaca, honestidade intelectual, recusa da falsa certeza, abertura ao mistério do Outro. O sujeito de «Desencontro» não finge saber onde está a amada nem para onde ela foi; confessa a sua ignorância, e nessa confissão há uma probidade que o engrandece. O «não sei» é a única forma honesta de falar do que se perdeu.

A ironia szymborskiana manifesta-se no poema de modo mais subtil, no refrão «Tu foste / Pra onde?», repetido três vezes com ligeiras variações ao longo do texto. À primeira leitura, é pura dor. Mas a repetição, e sobretudo a anotação «Volto a repetir», introduzem uma distância quase auto-irónica: o sujeito sabe que está a repetir, sabe que a pergunta não terá resposta, e contudo repete-a — como quem reconhece a futilidade do gesto e ainda assim o cumpre, porque é tudo o que lhe resta. Há nisto a delicadeza szymborskiana de quem olha a própria dor com um meio-sorriso melancólico, sem dramatismo, sem grandiloquência. A pergunta «Tu foste / Pra onde?» é, no fundo, a pergunta mais simples e mais infantil — a pergunta de uma criança que procura — e essa simplicidade desarmada é profundamente szymborskiana.

Por fim, o perspectivismo de Szymborska — o seu gosto por mudar de escala, por ver a história humana do ponto de vista de um grão de areia, ou uma tragédia imensa através de um pormenor mínimo — encontra eco na maneira como «Desencontro» concentra uma perda total (a perda do amor, do sentido, do lugar) num gesto mínimo: não conseguir soletrar um nome. «Dizer o teu nome / Com delicadeza / Para o soletrar / Como quem / Te chama / Só com o olhar». Toda a cosmologia da ausência se condensa neste detalhe ínfimo: a incapacidade de pronunciar, sílaba a sílaba, com delicadeza, o nome amado. É o grão de areia de Szymborska — o pormenor minúsculo que contém o universo inteiro da perda.

AMOS OZ: O DESEJO DE CONTAR
 e a impossibilidade de o cumprir

Amos Oz, o grande romancista israelita, comparece em «Desencontro» pela via de uma tensão que percorre toda a sua obra e que tem em A Caixa Negra (Oz, 1987) a sua formulação mais aguda: a tensão entre o desejo de contar e a impossibilidade de contar sem trair. A Caixa Negra é um romance epistolar — feito de cartas entre um casal divorciado, Ilana e Alec, e os que os rodeiam — em que cada carta tenta dizer a verdade do vivido e cada carta, ao dizê-la, a deforma. A «caixa negra» do título é a do avião: o registo que sobrevive ao desastre e que, decifrado, deveria revelar a causa da queda — mas que, como as cartas, só entrega fragmentos, versões, pontos de vista parciais. A verdade total do que se passou entre duas pessoas é, em Oz, indecifrável: cada um tem a sua caixa negra, e nenhuma coincide com a do outro.

«Desencontro» é, à sua escala lírica, uma caixa negra — o registo que sobrevive ao desastre amoroso e que, decifrado, não revela a causa da queda, apenas o facto dela. O sujeito quer contar — «Procuro cantar» — mas não consegue — «Mas já não consigo, / Perdi o teu rasto / E o teu abrigo». O desejo de narrar a perda esbarra na impossibilidade de a narrar sem a trair, sem a reduzir, sem a falsificar. E é por isso que o poema é tão breve, tão entrecortado, tão feito de «não sei»: porque a forma longa, a narração plena, seria já uma traição da complexidade do vivido. Oz ensina que só os fragmentos são honestos; «Desencontro» é todo ele fragmento, registo parcial de uma caixa negra que não entrega o seu segredo.

Há ainda, em Oz, uma sabedoria sobre o amor que «Desencontro» partilha: a de que o amor é, em larga medida, desencontro de narrativas. Ilana e Alec amam-se e destroem-se porque cada um conta uma história diferente do mesmo casamento; o que os separa não é a falta de amor, mas a incompatibilidade das versões. Em «Desencontro», o «tu» partiu «em busca / Dos sonhos / Que te desenhaste» — isto é, partiu para dentro da sua própria narrativa, da história que ela traçou para si e na qual o sujeito já não cabe. O desencontro é, também aqui, desencontro de sonhos, de projectos, de narrativas de vida que deixaram de coincidir. Não houve culpa nem traição: houve divergência de caminhos, como em Oz.

«EPIFANIA»: A ILUSTRAÇÃO
matissiana, fauvista e celaniana

A imagem que acompanha o poema — «Epifania» (JAS, 2023; 79×82 cm, papel de algodão, 310 gr, e verniz Hahnemühle, vidro Artglass AR70) — é, no sentido forte do termo, uma epifania: manifestação do rosto do Outro que, segundo Levinas, me olha antes de eu o ver. Importa lê-la com o mesmo rigor com que se lê o texto, porque texto e imagem formam díptico e cada um diz o que o outro cala.

A paleta é inequivocamente fauvista: laranja violento no fundo, negro profundo na cabeleira e no manto, turquesa nos olhos. O fauvismo de Matisse — que estudei a propósito de «Fascínio» — ensinou a cor como valor expressivo absoluto, libertada da função descritiva (Matisse, 1908). Mas a «Epifania» de JAS depura essa lição pela via do Matisse tardio, o dos papiers découpés e da economia da linha: o traço de contorno que define o rosto e os cabelos é simultaneamente decorativo e expressionista, vibra como nervura, como arabesco, como aquilo a que Matisse chamava a ligne arabesque— a linha que canta. Os fios dourados que se entrelaçam na cabeleira negra são puro arabesco matissiano: ornamento que é, ao mesmo tempo, estrutura e melodia visual.

O fundo alaranjado intenso convoca ainda o neo-impressionismo na sua teoria da cor: o laranja é a cor complementar do azul-turquesa dos olhos, e a justaposição de complementares — princípio que Seurat e Signac sistematizaram a partir de Chevreul (Signac, 1899) — faz vibrar ambas as cores por contraste simultâneo. Os olhos turquesa ardem com intensidade porque o fundo laranja os exalta; é física óptica posta ao serviço da intensidade emocional. O rosto destaca-se do fogo do fundo como uma aparição se destaca da treva — donde, de novo, o título: «Epifania», manifestação luminosa.

Mas o coração da pintura está nos olhos marejados e hipnóticos, e estes são, em rigor, celanianos. No universo de Paul Celan, o olhar é respiração — Atemwende, viragem do fôlego (Celan, 1967) —, o instante em que o silêncio se torna possibilidade de encontro mesmo quando a língua falha. Os olhos da «Epifania» não choram, mas estão húmidos; não falam, mas fitam; não dizem, mas convocam. São olhos que respiram. E é precisamente o que o poema não pode fazer — dizer o rosto perdido — que a pintura cumpre: «Epifania» mostra o rosto que «Desencontro» só quase consegue sonhar. A pintura é a realização plástica do que o texto deixa em promessa. Onde o verso termina em reticências — «Se com as palavras / Te puder sonhar…» —, a imagem responde com a presença plena do rosto fitante. Texto e imagem dizem, juntos, o que nenhum diria sozinho: que o rosto perdido permanece, ainda, a olhar-nos.

Há um pormenor que não pode escapar a uma leitura atenta: os fios dourados que, partindo da cabeleira, se prolongam pelo fundo como uma rede, uma teia, um sistema de raízes ou de nervos. Estes fios são a tinta-da-china do poema feita imagem — o desenho que fixa e que, ao fixar, mostra que o que se desenha é já memória. A cabeleira negra dissolve-se numa rede de ouro que se espraia pelo fundo: a figura espalha-se, espraia-se — exactamente como a amada do poema «se espraia» no mar. A rede dourada é o espraiamento visual da figura, a sua dissolução luminosa no fundo de fogo. Pintura e poema partilham, pois, a mesma operação profunda: a figura que se dissolve sem desaparecer, a presença que se torna rede, contorno, vestígio dourado sobre o fogo da ausência.

O ESPAÇO LITERÁRIO DE BLANCHOT
O livro como promessa

Chego à pedra angular teórica deste ensaio: Maurice Blanchot e a sua meditação sobre o espaço da literatura. Em L’Espace littéraire (Blanchot, 1955), Blanchot sustenta uma tese que parece destinada a iluminar «Desencontro»: a literatura nasce do espaço da ausência e do silêncio, e o verdadeiro livro nunca está plenamente realizado — existe apenas como promessa constante, como aproximação que jamais se cumpre. Blanchot pensa esta condição a propósito de Mallarmé (o Livro absoluto e impossível), de Artaud (a impotência de pensar que se torna matéria de escrita), de Proust (o tempo que só se recupera ao perder-se) e de Broch (a morte de Virgílio e o desejo de queimar a Eneida inacabada).

A noção blanchotiana decisiva é a do désœuvrement — o desobramento, o estado de não-obra. A obra literária autêntica, para Blanchot, nunca se fecha sobre si como produto acabado; permanece aberta, inconclusa, em estado de promessa. Escrever é experimentar a impossibilidade de concluir, a despossessão do autor que perde o domínio sobre aquilo que escreve. O escritor não é senhor da obra; é o lugar por onde a obra passa, deixando-o despojado. Mallarmé não escreveu o Livro; passou a vida a aproximar-se dele. Broch não pôde concluir nem destruir a sua Eneida interior. A obra fica sempre em vésperas de si mesma.

«Desencontro» é, em estado puro, este livro em promessa. O verso final — «Mas talvez lá chegue / Se com as palavras / Te puder sonhar…» — é a fórmula exacta do désœuvrement blanchotiano: o poema não se conclui, abre-se sobre um «talvez» e dissolve-se em reticências. Não há chegada; há promessa de chegada. Não há obra fechada; há o gesto de a tentar, perpetuamente adiado. E a despossessão do autor de que Blanchot fala manifesta-se literalmente no poema: «Fogem-me / As palavras, / Tenteia-me a rima, / Procuro cantar / Mas já não consigo». O sujeito poético é o autor blanchotiano por excelência — aquele que perdeu o domínio sobre a própria linguagem, que vê as palavras fugirem-lhe e a rima tactear no escuro, e que, apesar disso, ou por isso mesmo, continua a escrever. O poema é o vestígio dessa despossessão.

E é aqui que a tese de Blanchot revela toda a sua força para «Desencontro»: se o livro é promessa, então o lugar onde o encontro pode ainda ocorrer não é o passado (onde a amada partiu) nem o presente (onde o sujeito a perdeu), mas o futuro da leitura. O poema, enquanto promessa, fica à espera de quem o leia. O desencontro entre o sujeito e a amada pode transfigurar-se, no espaço literário, em encontro entre o poema e o leitor. Quem agora segura o texto nas mãos é, ele próprio, o lugar onde o desencontro se pode tornar encontro — se, com as palavras, ousar sonhar. A literatura é esta promessa: que o que se perdeu na vida se reencontre na leitura. Não há garantia; há promessa. E a promessa, em Blanchot, é o modo de ser da própria literatura.

O KERIGMA DA AUSÊNCIA
Anúncio pela negativa

A dimensão kerigmática do poema — kerigma, do grego kérygma, o anúncio, a proclamação fundadora — reside, paradoxalmente, na sua negatividade. «NÃO SEI / Onde estás / Nem posso / Chamar». Esta impossibilidade de nomear e de chamar é, ela própria, o anúncio: o **kerygma da ausência. O poema proclama, não uma presença salvífica como o kerigma cristão primitivo, mas a ausência irreparável — e proclama-a com a mesma solenidade fundadora. As maiúsculas que abrem cada bloco estrófico — «ESTOU SEMPRE», «E PORQUE NÃO SEI», «NÃO SEI», «PARTISTE DE VEZ», «TU FOSTE PRA ONDE?» — são tipograficamente vozes de proclamação, anúncios em letra capital, como se cada estrofe fosse um versículo de uma escritura da perda.

Há uma teologia negativa implícita nesta estrutura. Tal como a teologia apofática só pode dizer Deus pelo que Ele não é — via negationis —, «Desencontro» só pode dizer a amada pelo que ela já não é e pelo que o sujeito já não pode: não saber, não poder chamar, não conseguir soletrar, não chegar nem com o olhar. O nome da amada — que o poema nunca pronuncia, significativamente — é o Nome impronunciável, como o Tetragrama que se não diz. «Dizer o teu nome / Com delicadeza / Para o soletrar» — o nome está lá, no centro do desejo, e é precisamente o que não se consegue dizer. O poema gira em torno de um nome ausente como a liturgia gira em torno de um Nome que se não profere. É esta a sua dimensão sagrada: a perda elevada à condição de mistério, o desencontro celebrado como um culto sem deus.

O ENTRE DE BUBER, O ROSTO DE LEVINAS
e o midrash infinito

A matriz ético-filosófica de «Desencontro» — aquela a que dou o nome de seiva anarco-pós-estruturalista, labiríntica e talmúdica — encontra os seus três pilares em Buber, Levinas e na hermenêutica rabínica. Comecemos por Martin Buber. Em Ich und Du (Buber, 1923), Buber ensina que o ser não existe isolado, mas na relação: o «Eu» só se constitui no encontro com o «Tu», e o lugar dessa constituição é o Zwischen — o entre, o intervalo onde a relação acontece. Ora, «Desencontro» é o poema do entre que se fechou. Houve um «entre» — o espaço do encontro amoroso, da sedução, do olhar que entrava no olhar — e esse «entre» colapsou: «É o desencontro». O título do poema é, lido buberianamente, o nome do colapso do Zwischen: o desencontro é o entre tornado vazio, a relação Eu-Tu degradada em ausência mútua.

E contudo — eis a subtileza — o poema não abandona o «Tu». Continua a dirigir-se-lhe: «Tu foste / Pra onde?», «de te sonhar / Até sou capaz». O sujeito fala ainda a um «Tu», mesmo ausente, mesmo perdido. E é isto que salva o poema do solipsismo: a manutenção do vocativo, a teimosia de continuar a chamar mesmo quando «não posso / Chamar». O «Tu» persiste como destinatário ainda quando se ausentou como presença. A relação buberiana sobrevive, paradoxalmente, à sua própria ruptura: continua-se a falar ao Tu que partiu, e nesse falar mantém-se aberto, contra toda a evidência, o Zwischen.

Buber abre a relação; Emmanuel Levinas eleva-a à ética. Em Totalité et Infini (Lévinas, 1961), o visage — o Rosto do Outro — é a epifania que me convoca e me obriga, que precede toda a minha iniciativa e me chama à responsabilidade. A ilustração do poema chama-se, não por acaso, «Epifania»: é o Rosto levinasiano feito pintura, o rosto que «me olha antes de eu o ver». Mas o que «Desencontro» pensa é a situação-limite da ética levinasiana: o que sucede quando o Rosto se retira? Quando o Outro, que me constituía como responsável pela sua presença, se ausenta? A resposta do poema é de uma profundidade ética notável: a responsabilidade sobrevive à ausência do Rosto. O sujeito continua responsável pela amada ausente — continua a procurá-la, a sonhá-la, a tentar dizer-lhe o nome — mesmo quando ela já não está para o convocar. A ética levinasiana radicaliza-se aqui: sou responsável pelo Outro mesmo quando o Outro desapareceu. O Rosto que se retirou continua a obrigar-me.

Por fim, a matriz talmúdica. O Talmud ensina que todo o texto é midrash — comentário infinito, interpretação que nunca se encerra, página que gera sempre nova página em torno do versículo central. Não há leitura última; há a cadeia infinita dos comentadores que se respondem através dos séculos, em torno de um texto que nunca entrega o seu sentido derradeiro. «Desencontro» é, estruturalmente, um midrash da impossibilidade de comentar a perda. O refrão «Tu foste / Pra onde?», retomado e variado, é o gesto talmúdico por excelência: voltar ao mesmo versículo, comentá-lo de novo, e de novo, sabendo que o comentário não esgotará nunca o mistério. «Volto a repetir» — diz o poema —, e este voltar a repetir é a estrutura mesma do estudo talmúdico, o lernen que regressa sempre ao texto sagrado sem nunca o dominar. A perda da amada é o versículo central; o poema é o seu midrash inesgotável.

Daqui decorre a seiva anarco-pós-estruturalista que reconheço nesta leitura. Anarco — do grego an-arché, sem princípio, sem fundamento, sem centro fixo — porque o poema não tem um sentido central a desvelar, mas uma rede de ausências a percorrer. Pós-estruturalista na esteira de Derrida (1967), para quem todo o sentido é différance, diferimento perpétuo, traço que remete para outro traço sem origem nem fim. «Desencontro» não tem fundo nem centro: tem o labirinto — Dédalo sem Minotauro, percurso sem solução — que é, ao mesmo tempo, a estrutura do desejo (que nunca alcança o objecto), a estrutura do texto (que nunca conclui) e a estrutura do comentário (que nunca encerra). É labiríntico porque é, simultaneamente, erótico, literário e talmúdico — três modos de uma só errância sem centro.

O CRIPTOGRAMA KABBALÍSTICO
A gematria afectiva e o livro por vir

Como nos Contos e Psicanálise — a obra em gestação que dialoga com a memória visual e quotidiana de Annie Ernaux, Nobel de 2022, mestra da escrita da memória como arqueologia do íntimo —, «Desencontro» opera por camadas herméticas, e cumpre lê-lo também no seu sentido críptico-kabbalístico. Cada repetição, cada verso truncado, cada branco tipográfico funciona como “gematria afectiva”. A gematria, na tradição cabalística, é o método que atribui valor numérico às letras e descobre, nas equivalências numéricas entre palavras, correspondências ocultas de sentido. A gematria de «Desencontro» não soma números: soma densidades de ausência. Cada «não sei» repetido, cada reticência que suspende a frase, cada fileira de pontos que isola um verso acumula um valor — não aritmético, mas afectivo —, e a soma dessas densidades é o peso total da perda.

Os brancos tipográficos merecem leitura cabalística própria. As longas fileiras de pontos — «……………………» — que separam certos versos não são pausa retórica: são o equivalente gráfico do indizível, o lugar onde a linguagem se cala porque chegou ao limite do que pode dizer. Na mística da letra, o branco entre as palavras da Tora é tão sagrado quanto as palavras — há uma tradição segundo a qual a Tora primordial era feita de fogo branco sobre fogo negro, e o fogo branco (o espaço, o intervalo) continha uma Tora superior à do fogo negro (as letras). Os brancos de «Desencontro» são esse fogo branco: o que não se escreve e que, não se escrevendo, diz mais do que as palavras. O poema revela e oculta simultaneamente — e é nisto que é, no rigor do termo, kabbalístico: mostra o contorno da perda e esconde-lhe o centro, desenha a ausência a tinta-da-china e guarda, no branco, o que nenhuma tinta poderia fixar.

A referência a Annie Ernaux não é ornamental. Ernaux fez da memória do quotidiano e do detalhe visual — uma fotografia, um objecto, uma sensação — o método de uma arqueologia do eu (Ernaux, 2008). «Desencontro» partilha este método: a perda é convocada não por grandes declarações, mas por detalhes mínimos — o brilho de um olhar, uma silhueta, um nome que se não consegue soletrar, a tinta-da-china de um desenho. É uma arqueologia ernauliana da ausência: escavar o quotidiano do amor perdido em busca dos seus vestígios materiais. E tal como em Ernaux a escrita é simultaneamente íntima e impessoal — o «eu» que se torna todos —, também em «Desencontro» a perda singular se eleva a condição universal: todos reconhecemos, no desencontro deste sujeito, o nosso próprio.

ANÁLISE FPX ESTRATIFICADA
 F · P · K · X em acorde

Cumpre, por fim, o exercício metodológico que tenho praticado: a análise estratificada FPX, em que os quatro planos não se hierarquizam nem se sintetizam, mas ressoam em simultaneidade, como as notas de um acorde. F (Filosófico), P (Psicanalítico), K (Cabalístico) e X (a Complexidade Estética omnímoda) dizem, cada um na sua voz, uma camada do poema; só o acorde as diz todas.

F · Plano filosófico — «Desencontro» é, antes de mais, uma meditação sobre a finitude e o tempo. A impossibilidade de coincidência — «Antes de chegares, / Já ’stás / De partida» — é a tradução lírica da estrutura temporal que Heidegger, em Sein und Zeit (Heidegger, 1927), descreveu como Sorge (cuidado) e ser-para-a-morte: o Dasein é sempre projecção para um futuro que o ultrapassa, nunca coincidência plena consigo no presente. O desencontro é a forma amorosa desta não-coincidência ontológica: dois seres temporais cujos instantes não se sobrepõem. E o quase de Jankélévitch, que percorre todo o poema, é a categoria filosófica central — o modo de ser daquilo que aflora sem se fixar, a dignidade do que não se cumpre.

P · Plano psicanalítico — O poema é uma elegia do objecto perdido, e a psicanálise oferece-lhe a sua gramática exacta. Em «Luto e Melancolia» (Freud, 1917), Freud distingue o luto — em que a libido se desliga progressivamente do objecto perdido e se torna de novo disponível — da melancolia — em que o objecto perdido é incorporado no eu, que então se identifica com a perda e a transforma em auto-empobrecimento. «Desencontro» habita o limiar entre ambos: há o trabalho do luto («Perdi o teu rasto / E o teu abrigo»), mas há sobretudo a recusa melancólica de soltar o objecto, a teimosia de continuar a sonhá-lo («de te sonhar / Até sou capaz»). Lacan acrescentaria que a amada é, aqui, o objet petit a — causa do desejo que jamais se possui, em torno do qual a pulsão gira sem o alcançar (Lacan, 1973). A ilha «onde eu não chego / Nem com o olhar» é a figura espacial do objet petit a: aquilo que organiza todo o desejo precisamente por ser inalcançável. O desejo não quer chegar à ilha; quer continuar a desejá-la. Chegar seria o fim do desejo.

K · Plano cabalístico — Já o desenvolvi: a gematria afectiva das repetições, o fogo branco dos intervalos tipográficos, a revelação-e-ocultação simultânea. Acrescente-se a categoria luriânica do Tzimtzum — a retracção de Deus em si mesmo para abrir espaço ao mundo (Scholem, 1941). O sujeito de «Desencontro» realiza um Tzimtzum invertido: não se retrai para dar lugar ao Outro, mas é a ausência do Outro que abre nele um vazio onde antes havia plenitude. «De um lugar / Onde não estou» é o espaço do Tzimtzum — o vazio deixado pela retracção, o lugar esvaziado de presença. E a tarefa do poema é, nesse vazio, um Tikkun impossível: reunir os fragmentos do rosto perdido («Mas já perdi / Teu rosto / E a silhueta»), reparar a quebra — sabendo que a reparação plena não virá, que o Tikkun fica, como o livro de Blanchot, em estado de promessa.

X · Plano da Complexidade Estética omnímoda — É a camada do acorde de correntes, e em «Desencontro» ressoam, em simultaneidade não-redutível: o erotismo nostálgico proustiano e trovadoresco; o dadaísmo existencial da sintaxe entrecortada, do verso estilhaçado e do refrão que regressa; a dramaturgia simbolista do teatro vazio e da neblina; o mot juste flaubertiano do mar e do espraiamento; a Ode Marítima de Pessoa-Campos refeita por inversão; a Ítaca cavafiana que proíbe a chegada e a dignidade no declínio; a ironia e o «não sei» de Szymborska; a “caixa negra” de Amos Oz e o desencontro de narrativas; o fauvismo matissiano e o neo-impressionismo da ilustração «Epifania»; o celanianismo dos olhos que respiram; o espaço literário de Blanchot e o livro em promessa; a memória ernauliana do detalhe. Nenhuma destas correntes esgota o poema; cada uma é uma nota. O X é a camada onde o poema resiste a toda a redução, onde a leitura plural deixa de ser ecletismo e se torna método.

Em simultaneidade quadrivalente — a finitude heideggeriana e o quase jankélévitchiano, o objecto perdido freudo-lacaniano, o Tzimtzum e o Tikkun impossível, a complexidade estética irredutível —, «Desencontro» revela-se inacessível a qualquer leitura isolada. Só o acorde o diz. É a FPX como acorde hermenêutico em quatro vozes, método que defendo como o único respeitoso da espessura ontológica da obra. O sentido não está num ponto; está na vibração entre os planos. O poema não tem fundo; tem densidade estratificada — e essa densidade é o seu modo de honrar a perda sem a trair.

CONCLUSÃO: O DESENCONTRO
como promessa de encontro

Cheguei ao ponto em que as camadas se sobrepõem sem se confundirem. O erotismo da ausência deu o desejo retrospectivo e a memória como tinta-da-china; Jankélévitch deu o quase e a dignidade do que não se cumpre; o simbolismo e o dadaísmo existencial deram o teatro vazio e a sintaxe que se desarticula sob o peso do luto; Flaubert deu o mot juste do espraiamento; Pessoa-Campos deu a Ode refeita por inversão; Kaváfis deu a Ítaca que proíbe a chegada e a dignidade no declínio; Szymborska deu a ironia delicada e o «não sei» como honestidade; Amos Oz deu a caixa negra e o desencontro de narrativas; Matisse, o fauvismo e o neo-impressionismo deram a cor da «Epifania»; Celan deu os olhos que respiram; Blanchot deu o livro em promessa e a despossessão do autor; Buber, Levinas e o Talmud deram o entre, o Rosto que obriga mesmo ausente e o midrash infinito; Ernaux deu a arqueologia do detalhe. Catorze planos, e nenhum esgotou o poema.

Que faz Almeida Santos com tão alta herança? Como em «PALAVRAS» e em «Fascínio», não a exibe — incorpora-a. «Desencontro» é a prova lírica de uma proposição que parece contradição e é verdade: o poema do desencontro é, ele próprio, um lugar de encontro. Pois ao dar à perda a sua forma mais rigorosa — o verso entrecortado, o «não sei» repetido, o verso que se estilhaça, a ilha inalcançável —, o poema cria o espaço onde o leitor reconhece a sua própria perda e, reconhecendo-a, deixa de estar só nela. O desencontro do sujeito com a amada transfigura-se no encontro do leitor com o poema. A ausência tornou-se linguagem; e a linguagem, contra todo o desencontro, tornou-se laço.

Resta a promessa. Como queria Blanchot, o livro permanece em estado de promessa — e «Desencontro» termina, com exactidão, numa promessa: «Mas talvez lá chegue / Se com as palavras / Te puder sonhar…». As reticências não fecham: abrem. O leitor que agora segura o poema é, ele próprio, o lugar onde o desencontro pode ainda tornar-se encontro — se, com as palavras, ousar sonhar. Escrever é, como em «PALAVRAS», acto de rebeldia contra o oblívio; e amar, mesmo na ausência, mesmo no desencontro, é a forma mais alta dessa rebeldia. O poema fica. A amada partiu, mas o seu rosto — como na «Epifania» — continua, ainda, a fitar-nos. E nesse fitar persiste, contra a neblina e o fumo, a promessa de que nem todo o desencontro é definitivo: que algures, na leitura, na palavra, no sonho, o encontro pode ainda dar-se. AMV@05-2026

REFERÊNCIAS
Fontes patentes

Blanchot, M. (1955). L’espace littéraire. Paris: Gallimard.

Ernaux, A. (2008). Les années. Paris: Gallimard.

Flaubert, G. (1857). Madame Bovary: Mœurs de province. Paris: Michel Lévy Frères.

Jankélévitch, V. (1957). Le je-ne-sais-quoi et le presque-rien. Paris: Presses Universitaires de France.

Kaváfis, K. (1992). Os poemas (J. P. Paes, Trad.). Lisboa: Relógio d’Água. (Obras originalmente publicadas entre 1904 e 1933).

Lévinas, E. (1961). Totalité et infini: Essai sur l’extériorité. Haia: Martinus Nijhoff.

Matisse, H. (1908). Notes d’un peintre. Paris: La Grande Revue.

Oz, A. (1987). A caixa negra (M. Serras Pereira, Trad.). Lisboa: Publicações Dom Quixote. (Obra original publicada em 1987).

Pessoa, F. (1944). Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática.

Proust, M. (1913-1927). À la recherche du temps perdu (7 vols.). Paris: Grasset & Gallimard.

Szymborska, W. (1998). Paisagem com grão de areia (J. Bonança, Trad.). Lisboa: Relógio d’Água. (Antologia de obra publicada entre 1957 e 1993).

Fontes latentes

Buber, M. (1923). Ich und Du. Leipzig: Insel Verlag.

Celan, P. (1967). Atemwende. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag.

Derrida, J. (1967). L’écriture et la différence. Paris: Éditions du Seuil.

Freud, S. (1917). Trauer und Melancholie. Leipzig: Internationaler Psychoanalytischer Verlag.

Freud, S. (1920). Jenseits des Lustprinzips. Leipzig: Internationaler Psychoanalytischer Verlag.

Heidegger, M. (1927). Sein und Zeit. Halle an der Saale: Max Niemeyer Verlag.

Lacan, J. (1973). Le Séminaire, livre XI: Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse (J.-A. Miller, Ed.). Paris: Éditions du Seuil.

Rodenbach, G. (1892). Bruges-la-Morte. Paris: Marpon & Flammarion.

Scholem, G. (1941). Major trends in Jewish mysticism. Nova Iorque: Schocken Books.

Signac, P. (1899). D’Eugène Delacroix au néo-impressionnisme. Paris: Éditions de la Revue Blanche.

Tzara, T. (1924). Sept manifestes Dada. Paris: Éditions Jean Budry. (Manifesto Dada originalmente proferido em 1918).

NOTA

As obras de João de Almeida Santos referidas em texto — «Desencontro» e a ilustração «Epifania» (2023), bem como «Palavras» e «Fascínio 2026» — encontram-se disponíveis em https://joaodealmeidasantos.com ou em circulação nas redes, pelo que se citam, segundo a convenção para textos em difusão digital, sem indicação de cidade de edição. Os ensaios próprios «As Palavras em Fuga» e «A Cidade no Olho» (Veríssimo, 2026) seguem idêntica convenção.

Poesia-Pintura

DESENCONTRO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Epifania”
JAS 2023
(79x82, papel de algodão, 310gr,
e verniz Hahnemühle, Artglass AR70)
Original de minha autoria
Maio de 2026
(Ensaio de AMV sobre este Poema
em "Ensaios" n.º 54)

“Epifania” – JAS2023

POEMA – “DESENCONTRO”

ESTOU SEMPRE
A partir

De um lugar
Onde não estou,
Por isso não sei
O que te dizer
Ou então segrede
Para onde vou...

E PORQUE NÃO SEI
Onde agora estou
Também não sei
Para onde vou...

E TU FOSTE
Pra onde,
Que eu não te vejo?
Estou de rosto
Triste
De já te não ver,
É o desencontro
Da rua perdida,
Antes de chegares,
Já ‘stás
De partida...
..................
Não sei que dizer.

EU NÃO TENHO TEMPO
E nem há lugar
Para onde ir,
Mas também não sei
Como cá ficar
Ou se vou partir.
Tu foste
Pra onde?
................
Volto a repetir.

EU NÃO SEI
Onde tu estás
Mas de te sonhar
Até sou capaz...

MAS JÁ PERDI

Teu rosto
E a silhueta,

Só há neblina
Neste sonho meu,
É fumo espesso
Pra cá da cortina
Deste vão teatro
Que a vida me deu
E a que a tristeza

Sempre me destina.

 ATÉ TE SONHAR
Se tornou difícil
Porque já perdi
O intenso brilho
Desse teu olhar
Por onde entrava
A luz
Dos meus olhos

Pra te seduzir,
Pra te conquistar.

NÃO SEI
Onde estás

Nem posso
Chamar,

Dizer o teu nome
Com delicadeza
Para o soletrar
Como quem
Te chama
Só com o olhar.

PARTISTE DE VEZ
Pra outro lugar
Que não sei dizer
Nem sei desenhar,
Fogem-me

As palavras,
Tenteia-me a rima,
Procuro cantar
Mas já não consigo,
Perdi o teu rasto
E o teu abrigo.

NEM SEI
Se me ouves

Lá onde

Te encontras

Em busca

Dos sonhos

Que te desenhaste
A tinta-da-china
Onde te encontrei
Quando eu cantava
Com a melhor rima.

TU FOSTE PRA ONDE?
Fugiste de mim,
Na maré revolta
Dessas altas ondas
Que dão vida
Ao mar
Onde tu t’espraias
Cada amanhecer
Sem nunca parar
Em todos os dias
Desse teu viver.

TU FOSTE PRA ONDE
Na hora sombria
De um entardecer?
Para uma ilha
Perdida no mar
Onde eu não chego
Nem com o olhar?
...................
Mas talvez lá chegue
Se com as palavras
Te puder sonhar...

Artigo-Ensaio

AS PALAVRAS EM FUGA

METAPOESIA, PULSÃO E OBLÍVIO 
EM «PALAVRAS»
DE JOÃO DE ALMEIDA SANTOS
Releitura argumentativa e cartografia
das correntes patentes e latentes

André Moshe Veríssimo, PhD

“PALAVRAS” – JAS2026

LIMIAR

HÂ POEMAS que falam da linguagem; e há poemas que, ao falarem dela, a obrigam a confessar-se. «PALAVRAS», de João de Almeida Santos, pertence à segunda estirpe, mais rara e mais perigosa: é um texto que não descreve a impossibilidade — encena-a, e dessa encenação extrai a sua única possibilidade. Tomei já, em análise anterior, este poema como «um dos mais densos exercícios de metapoesia da literatura portuguesa contemporânea» e sustentei que «um poema genuíno nasce exactamente porque as palavras fugiram». O presente ensaio não revoga aquela tese: radicaliza-a. Pretendo demonstrar que a fuga das palavras não é o acidente que ameaça o poema, mas a sua causa formal — no sentido aristotélico do termo —, e que toda a arquitectura do texto, do branco tipográfico à sucumbência final, está ao serviço de uma única operação: converter a ausência em inscrição.

Para o fazer, convoco em densidade as correntes que então apenas nomeei. Onde antes apontei Pessoa, Mallarmé, o Dadaísmo, Rimbaud e o experimentalismo português, leio agora obras determinadas, e cruzo-as com as molduras filosóficas — Adorno, Freud, Lacan, Levinas — que permitem ao poema ser pensado para além do impressionismo crítico. A hipótese de leitura é simples de enunciar e exigente de provar: «PALAVRAS» é uma dialéctica negativa em verso, um poema que só se constitui pela negação daquilo que o constitui.

A CONSTITUIÇÃO PELA NEGAÇÃO
O sistema em crise e a dialéctica negativa

O sistema poético de «PALAVRAS» declara, logo na sua sintaxe visual, um estado de excepção. A moldura anafórica — «QUERIA FAZER-TE / Um poema» — abre e quase encerra o texto (estrofes 1 e 8), mas regressa transfigurada: o que era projecto torna-se constatação de ruína. Entre os dois pólos da moldura instala-se um campo de forças em que as unidades mínimas, as palavras, se recusam à totalidade. Esta recusa não é desordem gratuita: é princípio construtivo.

É aqui que a dialéctica negativa de Adorno (1966) se revela mais do que metáfora cómoda. Para Adorno, o pensamento que se quer fiel ao objecto deve resistir à violência da síntese, àquilo que ele chama o Identitätszwang — a coacção da identidade que força o não-idêntico a caber no conceito. O poema de Almeida Santos pratica, no plano lírico, exactamente esta resistência: as palavras «procurando / Outras formas / Para além da minha / Rima» são o não-idêntico em revolta contra o sujeito que as quereria «alinhadas». A rima — figura máxima da identidade sonora, do retorno do mesmo — é precisamente o que as letras «deslaçadas» repudiam. O poema constitui-se, portanto, como Adorno quereria que se constituísse um pensamento honesto: pela suspensão da reconciliação. Não há Aufhebung, não há superação que recupere a perda num sentido mais alto. Há apenas o rasto.

Daí que a imagem nuclear seja a do novelo desfeito: «Como fios / De um novelo / Já desfeito / De sentido / Como a água / Do gelo». O novelo é o emblema antigo do texto — textus, tecido, fio que se devolve (lembremo-nos do fio de Ariadne, da tela de Penélope desfeita cada noite). Aqui, porém, o fio não conduz à saída do labirinto nem adia a chegada do pretendente: dissolve-se. A comparação com «a água do gelo» introduz uma física da entropia — a forma (gelo) perde-se na ausência de forma (água) por simples elevação de temperatura, e essa temperatura, sabemo-lo pelas estrofes seguintes, é a da «forte emoção». O calor do afecto desfaz a cristalização da forma. Eis a primeira grande inversão do poema: aquilo que a tradição romântica tomava por fonte do canto — a emoção — é aqui o agente da sua dissolução.

O ANIMISMO DA LINGUAGEM E A PULSÃO 
Uma leitura freudo-lacaniana

As palavras de «PALAVRAS» não são instrumentos: são entes. «Esgueiraram / Rua fora», «esvoaçar / Ao fundo / Daquela rua», «fogem pra longe», «assustadas». Este animismo da linguagem — a atribuição de vontade e fuga ao que deveria ser dócil matéria significante — pede a psicanálise como chave, e o próprio poema o sabe, pois inscreve sem pudor o léxico da pulsão: «pulsão / Do desejo», «íntimo / Recanto», e a comparação, de uma audácia notável, das palavras a «espermatozóides» — letras «desenhadas ou assustadas».

Em Freud (1905), a Trieb — a pulsão — define-se justamente pela sua mobilidade, pela errância do seu objecto. A pulsão não tem objecto fixo; contorna-o, falha-o, reincide. Ora, é precisamente este o regime de movimento das palavras no poema: não vão para onde o poeta as destina, esgueiram-se, aninham-se «no passeio», sobem «por outra tela». A linguagem comporta-se como a libido freudiana: investe, desinveste, desloca-se. E quando o poeta tenta «o versejo / Capturado / No enleio / Dessa pulsão / Do desejo», o que descreve é a própria estrutura do fort-da analisado por Freud (1920) em Para além do princípio do prazer: o objecto que se afasta e se chama, a presença que só se constitui sobre o fundo da ausência.

Lacan permite ir mais longe. Para Lacan (1966), o significante não representa uma coisa: representa o sujeito para outro significante, e desliza incessantemente sob a barra que o separa do significado. A célebre primazia do significante traduz-se, em «PALAVRAS», na autonomia soberana das letras que «perdem forma» e «procuram outras formas» alheias à intenção do «eu». O poeta deseja a langue — o sistema dócil — e recebe a lalangue, esse aquém da língua feito de equívoco, ritmo e gozo, onde o sentido se desfaz em pura materialidade sonora. O «íntimo / Recanto / Onde resistia / À saudade» é, na leitura lacaniana, o lugar do objet petit a: causa do desejo, jamais possuída, em torno da qual a pulsão gira sem nunca a alcançar. E a «sucumbência das palavras» — a sua perda no «ponto / Do infinito» — assume a ressonância de uma perda seminal, de uma jouissance que falha, de um gozo que se escoa antes de se inscrever. O poema é, neste plano, a elegia de uma ejaculação frustrada do sentido.

Cumpre, porém, resistir à tentação reducionista. A leitura psicanalítica não esgota o poema; ilumina-lhe um estrato. O erotismo da escrita que Almeida Santos põe a nu reencontra-se, de resto, noutro texto seu, «Musa», onde a figura da musa é simultaneamente origem e fuga do canto — o que confirma, à escala do corpus, que a relação do poeta com a linguagem é, para este autor, sempre uma relação de desejo e de perda, nunca de posse.

PESSOA E O DESDOBRAMENTO HETERONÍMICO
A Musa, o Poeta e o Desassossego

O verso «(Diz o poeta / À musa)» é, em aparência, uma simples didascália. Mas instala no coração do texto o dispositivo maior da modernidade portuguesa: o desdobramento do sujeito. Quem fala? Não o poeta, mas alguém que cita o poeta a dirigir-se à musa. Há, pois, três instâncias — o que diz, o poeta dito, a musa — e nenhuma coincide com o «eu» empírico. Estamos no território de Pessoa, e não por alusão vaga, mas por homologia estrutural precisa.

A heteronímia pessoana não é, como a vulgata repete, mera galeria de personagens. É a descoberta de que o sujeito lírico é constitutivamente plural, de que «o poeta é um fingidor» (Pessoa, 1934) — fingidor que «finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente». Ora, eis o nó: «PALAVRAS» reescreve este teorema. O poeta confessa «EU ESTAVA / A mentir», e contudo a sua mentira é movida pela saudade verdadeira. A mentira da forma e a verdade do afecto: é a fórmula exacta da Autopsicografia. Almeida Santos não imita Pessoa; pensa com Pessoa o mesmo problema — o da distância irredutível entre o sentir e o dizer, entre o sujeito e a máscara que o profere.

Mas qual heterónimo preside? Sustento que dois. O primeiro é Bernardo Soares, o semi-heterónimo do Livro do Desassossego (Pessoa, 1982), arquivista que faz da própria desistência matéria de prosa e que descobre, na renúncia, uma forma de criação. O «recanto íntimo» de Almeida Santos é parente próximo do quarto da Rua dos Douradores onde Soares converte o tédio em estilo: ambos são espaços de resistência pela interioridade, células onde o sujeito se guarda do mundo e, guardando-se, se escreve. O segundo é Álvaro de Campos, e aqui a prova é o mar. O fecho de «PALAVRAS» — «Vou sucumbir / Às saudades / Do teu mar» — não pode ler-se sem a Ode Marítima (Pessoa, 1944), esse grande poema em que o sujeito se dissolve no apelo do cais, do navio, do oceano, até à exaustão e ao regresso. Em Campos, o mar é o lugar da dissolução desejada do eu na totalidade sensível; em Almeida Santos, é o destino último para onde as palavras fogem e para onde o próprio poeta se sente sucumbir. O oceano pessoano de plenitude e o oceano de oblívio comunicam por um mesmo canal subterrâneo: a Sehnsucht, a saudade como categoria do ser e não apenas do sentimento.

Acrescente-se a fragmentação tipográfica — as maiúsculas súbitas, os versos curtíssimos, a elipse longa de pontos suspensivos que mimetiza o silêncio do passeio onde as palavras se aninham. É o desassossego feito mancha gráfica: a página torna-se, como em Soares, o lugar onde o caos interior ganha a única ordem possível, que é a ordem do fragmento. O sujeito não se unifica; expõe a sua fractura. E nisto «PALAVRAS» é rigorosamente moderno: recusa a consolação da forma fechada.

A HERANÇA SIMBOLISTA
Mallarmé e o lance de dados

Se há um antepassado tutelar do branco da página como matéria significante, esse antepassado chama-se Mallarmé. Em Un coup de dés jamais n’abolira le hasard (Mallarmé, 1914), o espaço em branco deixa de ser fundo neutro para se tornar componente activo da significação: o silêncio tipográfico passa a significar, a constelação das palavras dispersas no blanc desenha um pensamento que a sintaxe linear não poderia conter. O verso liberta-se da linha; a página torna-se partitura.

Ora, «PALAVRAS» é herdeiro directo desta revolução, mas opera-lhe um desvio decisivo. Em Mallarmé, a dispersão é soberana — o Mestre que lança os dados domina, ainda que tragicamente, o acaso que não abole. Em Almeida Santos, a dispersão é sofrida: as palavras não são lançadas pelo poeta, fogem-lhe das mãos. O «ponto / Do infinito» e o «fio / Do horizonte» onde as palavras se perdem são a tradução lírica do blanc mallarmaico, mas habitados por uma angústia que o frio cálculo do Mestre francês mantinha à distância. Onde Mallarmé constrói uma metafísica do acaso, Almeida Santos vive uma fenomenologia da perda. O lance de dados português não abole o acaso: é abolido por ele.

O parentesco com o Simbolismo confirma-se na sinestesia da forma: as palavras têm «sabor / A crueldade», a emoção tem temperatura, o sentido tem textura de fio. Esta tradução de uma ordem sensorial noutra é assinatura simbolista, de Baudelaire a Mallarmé — e reaparece, de resto, em «Dança da Solidão», outro poema do autor cuja filiação no Decadentismo e no Impressionismo Literário já tive ocasião de cartografar, e onde a mesma economia sinestésica converte estados de alma em paisagens.

RIMBAUD, BRETON e o DÉRÈGLEMENT
A fuga como vidência e automatismo

A autonomia das palavras — que «voavam / No fio / Do horizonte», que se movem «sem critério / E sem norma» — convoca a linhagem que faz da desregulação um método. Rimbaud, nas Lettres dites du voyant (1871), formulou o programa: o poeta torna-se vidente «par un long, immense et raisonné dérèglement de tous les sens». E acrescentou a fórmula que abala toda a teoria clássica do sujeito: Je est un autre — o eu é um outro. Em «PALAVRAS», o poeta é justamente expropriado da sua própria linguagem; o «eu» assiste, impotente, à vida autónoma das suas palavras, como o vidente rimbaudiano assiste ao desabrochar do seu pensamento «como uma flor». A frase «Eu bem as via / Esvoaçar» é a postura exacta do voyant: ver, não dominar.

Breton, no Manifeste du surréalisme (1924), institucionaliza esta passividade activa sob o nome de automatismo psíquico: o ditado do pensamento na ausência de todo o controlo exercido pela razão, fora de toda a preocupação estética ou moral. As palavras que fogem «sem critério / E sem norma» são, no rigor do termo, palavras em regime automático — escapam à censura do «querer». Há, todavia, uma diferença que importa não apagar: no Surrealismo, o automatismo é libertação, abertura ao maravilhoso; em Almeida Santos, é despossessão dolorosa. O poeta não celebra a fuga das palavras: lamenta-a. Eis por que falo, mais adiante, de um dadaísmo existencial — uma vanguarda da ruptura vivida não como festa, mas como ferida.

DADAÍSMO EXISTENCIAL
Tzara, Ball e a revolta sem norma

Nenhuma corrente está tão presente no estrato subliminar de «PALAVRAS» como o Dadaísmo, e nenhuma exige tanta precisão para não cair no anacronismo. Tzara, no Manifeste Dada 1918 (recolhido em Tzara, 1924), proclama o desprezo pela lógica, pela sintaxe organizadora, pela obra como produto acabado; reivindica a espontaneidade, o acaso, a destruição das «gavetas» do pensamento. A «revolta / Sofrida», os «riscos / Erráticos», as letras que se recusam à ordem da rima — tudo isto respira o ar de Zurique, do Cabaret Voltaire, da poesia que se faz contra a própria instituição da poesia.

E é aqui que Hugo Ball se torna indispensável. Ball, criador dos Lautgedichte — os poemas fonéticos em que a palavra se desfaz nos seus elementos sonoros, libertando-se do sentido —, narrou em Die Flucht aus der Zeit (Ball, 1927) a fuga para fora do tempo e da significação como gesto simultaneamente místico e desesperado. Ora, as «letras / Perdendo forma» de Almeida Santos são parentes próximas dos fonemas soltos de Ball: ambos os textos assistem à desintegração da palavra na sua matéria. Acrescente-se Schwitters e o Merz, a colagem feita de fragmentos e detritos: as palavras «aninhadas / No passeio», recolhidas como restos urbanos, têm dessa estética da recuperação do desperdício.

Mas — e este é o ponto crítico — o Dada histórico era celebratório no seu niilismo: ria-se das ruínas. «PALAVRAS» não se ri. A sua revolta é «sofrida», o seu absurdo dói. Proponho, por isso, a categoria de dadaísmo existencial: a herança formal da vanguarda (fragmentação, acaso, recusa da norma) posta ao serviço de um conteúdo que o Dada histórico expressamente excluía — a dor do sujeito, a angústia do oblívio, a verdade do afecto. Almeida Santos faz com o Dada o que Celan fará com o silêncio: torna trágico o que era provocação.

O EXPERIMENTALISMO PORTUGUÊS
Hatherly, Aragão e Herberto Hélder

A dimensão visual do poema — as «letras / Desenhadas», os «riscos / Em outra tela / A subir / Por ela acima», a própria ilustração «Perfil de um Poeta» que com o texto forma díptico — inscreve «PALAVRAS» na tradição da Poesia Experimental Portuguesa, a PO.EX. Ana Hatherly, em A Reinvenção da Leitura (Hatherly, 1975) e no volume teórico PO.EX organizado com Melo e Castro (Hatherly & Melo e Castro, 1981), defendeu a leitura como acto produtor, e a página como espaço plástico onde a letra é simultaneamente signo e desenho. As letras «desenhadas» de Almeida Santos realizam, em chave lírica, a tese hatherliana: a escrita regressa à sua origem icónica, à fronteira em que o alfabeto ainda recorda que foi figura.

De António Aragão herda o poema o gosto pela materialidade do significante, pela palavra-objecto que se manipula e fractura. E de Herberto Helder — o maior dos nossos visionários — herda algo mais fundo: a visceralidade do corpo-linguagem. Em Helder (1996), a palavra é carne, é fluxo orgânico, é energia que percorre o poema como sangue. Os «espermatozóides / Letras» de Almeida Santos são, nesta linhagem, profundamente helderianos: a linguagem é tratada como matéria seminal, como corpo que deseja e se esgota. O experimentalismo português dá, assim, ao poema não só a sua gramática visual, mas a sua carnalidade.

CELAN E A LINGUAGEM DEPOIS DO TRAUMA
A cinza fértil

Resta o estrato mais difícil, aquele que justifica a expressão «espaços gnosiologicamente férteis». Paul Celan, sobrevivente que escreveu na língua dos algozes, ensinou que a linguagem depois do desastre não regressa intacta: regressa atravessada de silêncio, de cesura, de respiração interrompida — aquilo a que chamou Atemwende, a viragem do fôlego. No discurso Der Meridian (Celan, 1961), o poema é descrito como um caminho que se faz na proximidade do calar-se, à beira do mutismo. A poesia de Celan não preenche: deixa ver a falha, e na falha deposita o seu sentido.

Ora, «PALAVRAS» é, à sua escala e no seu registo, um poema da Atemwende. A elipse de pontos suspensivos — «………….» — é uma cesura celaniana: o lugar onde o fôlego vira, onde a palavra falta e essa falta significa. O poema chega, no fecho, ao limiar do mutismo: «Estou sem palavras, / Amor». E contudo — paradoxo decisivo — di-lo. A afasia é declarada por meio da própria linguagem que se diz perdida. É a operação celaniana por excelência: fazer do silêncio matéria de canto, da cinza um solo fértil. O não-saber torna-se aqui via de conhecimento: o poeta conhece a sua nudez precisamente porque perdeu as palavras que a vestiam.

O MAR COMO OUTRO
Saudade camoniana, Dor schopenhaueriana
e Rosto levinasiano

Tríplice é a espessura do verso final. Primeiro, a saudade camoniana: «Saudades / Do teu mar» reactiva o grande tópico da lírica nacional, o mar de Camões — destino heróico nos Lusíadas (Camões, 1572), mas também, nas Rimas (Camões, 1980), espaço de perda, de naufrágio e de ausência da amada. Almeida Santos radicaliza o segundo Camões: o mar já não é via para a glória, mas oceano de dissolução, lugar onde o eu se afoga na falta.

Segundo, a dor como condição do canto, que é tese schopenhaueriana e nietzschiana. «O poema / Passarinho / Procura-me / Para cantar / Mas se eu / Não sentir dor / É ele que foge / A voar». Para Schopenhauer (1819), a arte é o único repouso momentâneo na roda do sofrimento da vontade; o canto nasce da dor porque só a dor suspende, por um instante, o querer cego. Para Nietzsche (1872), o lírico é o artista dionisíaco que canta a partir do fundo doloroso do uno-primordial. Almeida Santos inverte a tradição do rouxinol inspirador: o seu pássaro só canta na ferida — e nisto dialoga com a melancolia que percorre «Dança da Solidão», onde o mesmo nexo entre solidão, dor e expressão se desdobra.

Terceiro, e culminante, o rosto do Outro. Quando o poema nomeia o mar como «teu» — «o teu mar mar oceano», na variante do prefácio — o oceano deixa de ser paisagem e torna-se alteridade. Levinas (1988), em Totalité et Infini, ensina que o Outro não é objecto que eu compreenda e domine, mas Rosto que me convoca, que me excede, que me chama à responsabilidade desde uma altura que não posso totalizar. O «Amor que é o sujeito outro» do prefácio é, com precisão levinasiana, o outro que não se reduz ao mesmo. E o mar — infinito, intotalizável — é a figura sensível desse Infinito. As palavras fogem para o Outro; o poeta sucumbe ao Outro; e nessa sucumbência há, paradoxalmente, a única ética possível: a entrega àquilo que me ultrapassa. O oblívio temido converte-se, no limiar do verso, em abertura ao infinito.

CONCLUSÃO
O triunfo da falha

Cheguei ao ponto em que as correntes se entrecruzam num só nó. Adorno deu-nos a forma — a constituição pela negação. Freud e Lacan deram-nos a pulsão — a linguagem como desejo que falha o seu objecto. Pessoa deu-nos o sujeito plural — o poeta que finge a dor que sente. Mallarmé deu-nos o branco — o silêncio que significa. Rimbaud e Breton deram-nos a fuga — o eu que é um outro, a palavra automática. O Dada de Tzara e Ball deu-nos a revolta sem norma, que Almeida Santos tornou sofrida. O experimentalismo de Hatherly e Helder deu-nos a carne e o desenho da letra. Celan deu-nos a cesura — o canto que nasce da cinza. E Levinas deu-nos o destino — o mar como Rosto do Outro.

Que faz Almeida Santos com tão alta herança? Não a exibe: incorpora-a. «PALAVRAS» é a prova viva de uma proposição que parece contradição e é verdade: o poema realiza-se exactamente no acto em que se declara impossível. Ao dizer «Estou sem palavras», o poeta usa as palavras que afirma ter perdido; ao narrar a fuga, fixa-a; ao confessar a afasia, canta-a. A falha não é o fracasso do poema — é o seu triunfo. O medo do oblívio, que o autor define como medo da insignificância, é vencido pelo próprio gesto de o inscrever. Escrever, como Almeida Santos repetidamente sustenta, é acto de rebeldia contra o oblívio; e este poema é, em estado puro, esse acto.

Resta o rasto. As palavras, mesmo fugindo, deixaram-no; e o rasto — a marca da sua passagem no branco da página — é, ele próprio, a vitória. Porque a poesia, no fim, não é a posse das palavras: é a fidelidade ao lugar de onde elas partiram. João de Almeida Santos guardou esse lugar. E nele, contra todo o silêncio, o passarinho cantou. AMV@05-2026

REFERÊNCIAS
Fontes patentes

Camões, L. de. (1572). Os Lusíadas. Lisboa: Antonio Gõçalvez.

Camões, L. de. (1980). Rimas (Á. J. da Costa Pimpão, Ed.). Coimbra: Atlântida.

Helder, H. (1996). Poesia toda. Lisboa: Assírio & Alvim.

Hatherly, A. (1975). A reinvenção da leitura: Breve ensaio crítico seguido de 19 textos visuais. Lisboa: Editorial Futura.

Hatherly, A., & Melo e Castro, E. M. de. (1981). PO.EX: Textos teóricos e documentos da poesia experimental portuguesa. Lisboa: Moraes Editores.

Mallarmé, S. (1914). Un coup de dés jamais n’abolira le hasard. Paris: Éditions de la Nouvelle Revue Française. (Obra originalmente publicada em 1897)

Pessoa, F. (1934). Mensagem. Lisboa: Parceria António Maria Pereira.

Pessoa, F. (1944). Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática.

Pessoa, F. (1982). Livro do desassossego, por Bernardo Soares (J. do Prado Coelho, M. A. Galhoz, & T. S. Cunha, Eds.). Lisboa: Ática.

Rimbaud, A. (1972). Œuvres complètes (A. Adam, Ed.). Paris: Gallimard. (Cartas «do vidente» originalmente escritas em 1871)

Fontes latentes

Adorno, T. W. (1966). Negative Dialektik. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag.

Ball, H. (1927). Die Flucht aus der Zeit. München: Duncker & Humblot.

Breton, A. (1924). Manifeste du surréalisme. Paris: Éditions du Sagittaire.

Celan, P. (1961). Der Meridian: Rede anlässlich der Verleihung des Georg-Büchner-Preises. Frankfurt am Main: S. Fischer Verlag.

Freud, S. (1905). Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. Leipzig: Franz Deuticke.

Freud, S. (1920). Jenseits des Lustprinzips. Leipzig: Internationaler Psychoanalytischer Verlag.

Lacan, J. (1966). Écrits. Paris: Éditions du Seuil.

Levinas, E. (1988). Totalidade e infinito (J. P. Ribeiro, Trad.). Lisboa: Edições 70. (Obra original publicada em 1961)

Nietzsche, F. (1872). Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik. Leipzig: E. W. Fritzsch.

Schopenhauer, A. (1819). Die Welt als Wille und Vorstellung. Leipzig: F. A. Brockhaus.

Tzara, T. (1924). Sept manifestes Dada. Paris: Éditions Jean Budry. (Manifesto Dada originalmente proferido em 1918)

NOTA: As obras de João de Almeida Santos referidas em texto — «PALAVRAS», «MUSA» e «DANÇA DA SOLIDÃO» (todas de 2026) — encontram-se em https://joaodealmeidasantos.com , pelo que se citam, segundo a convenção para textos online, sem indicação de cidade de edição.

 

Artigo-Ensaio

O HÚMUS ENIGMÁTICO

A PROFUNDIDADE ESTÉTICA 
EM "DEUSA DAS CAMÉLIAS"
DE JOAO DE ALMEIDA SANTOS
Belo, Sublime Dinâmico, 
Quatro Raízes e a Plétora do X

André Moshe Veríssimo

A João de Almeida Santos, 
Pintor do Húmus que Esplende

“DEUSA DAS CAMÉLIAS” – JAS 2026

«O fim da divindade 
dos deuses das pequenas coisas»

* André Moshé Veríssimo, 
glosa interna à tela (2026)

«O belo é o esplendor da forma sobre 
as partes proporcionadas da matéria»

  * Tomás de Aquino, 
Suma Teológica, I,q.39,a.8

«Húmus est unde homo, 
et humilitas unde humus.»

* Tradição medieval
RESUMO

O presente ensaio propõe uma análise estética em profundidade da obra Deusa das Camélias (nova versão, 2026) de João Almeida Santos (JAS), interrogando o modo como a composição articula, em quatro raízes concrescentes — a desfaciação da figura divina, a cromática miasmática do vermelho-vinho, a trança branca como cifra cabalística e a geometria piramidal do húmus —, uma conjugação rara entre o Belo (no sentido kantiano da harmonia das faculdades) e o Sublime Dinâmico (enquanto potência da Natureza confrontada pela razão suprassensível). Recorrendo aos legados de Plotino, Kant, Schiller, Hegel, Burke, Heidegger, Levinas, Marion, Bachelard, Schelling, Adorno, Lyotard, Benjamin, Whitehead e à tradição cabalística luriânica (Scholem, Idel), e com particular detimento na geometria do húmus como categoria estética de fundação, argumenta-se que a tela de JAS instaura uma economia do esplendor após o desencantamento dos deuses domésticos — não anunciando o fim do Belo, mas a sua sobrevivência despojada de auréola, enraizada no húmus etimologicamente irmão da humilitas e da humanitas.

PALAVRAS-CHAVE
Estética; Belo; Sublime Dinâmico; 
Tzimtzum; Húmus; Desfaciação; 
João de Almeida Santos; Levinas; 
Heidegger; Kant.
I. LIMIAR: A QUESTÃO ESTÉTICA APÓS O DESENCANTAMENTO

HÁ UMA FRASE, ínsita ao próprio título genealógico desta tela, que opera como pórtico de toda a sua interrogação: o fim da divindade dos deuses das pequenas coisas. A fórmula, em ressonância manifesta com Arundhati Roy (2002), não anuncia, contudo, o fim das pequenas coisas. Anuncia o fim da sua divindade.

Resta a coisa pequena — a camélia branca, o gesto trançado, o cordão alvo — destituída de auréola, e contudo aindaportadora de fulgor. O problema estético capital de Deusa das Camélias nasce, pois, desta dissociação: como pode o Belo sobreviver à queda do Olimpo doméstico? Que economia do esplendor é ainda possível quando os deuses pequenos, que santificavam o pormenor, se retiraram?

Este ensaio propõe-se demonstrar que JAS, na nova versão de 2026, oferece uma resposta plástica a esta pergunta filosófica — resposta que se articula em quatro raízes concrescentes e que culmina no que designaremos, retomando Kant (1790/2002), por uma rara conjugação entre o Belo e o Sublime Dinâmico. Tal conjugação, infrequente na história da pintura, exige uma análise igualmente conjugada, capaz de mobilizar simultaneamente categorias plotinianas, fenomenológicas, levinasianas, cabalísticas e heideggerianas. A profundidade estética — o X que se procura — não é uma quinta categoria a juntar às quatro raízes (a, b, c, d). É, antes, o seu modo de copertença, a sua plērōma compositiva.

A tese central pode, em síntese, formular-se assim: em Deusa das Camélias, a sobrevivência do Belo ao desencantamento dá-se por enraizamento — não no Olimpo, mas no húmus; não na divindade, mas na humilitas etimologicamente irmã do húmus; não na auréola que se perdeu, mas na trança branca que ainda liga o alto ao baixo, o sagrado ao telúrico. O Belo, neste JAS, é húmus glorificado: matéria que ascende sem sair de si, divindade que se afunda sem se anular. Esta é a geometria do húmus — categoria estética que constituirá o coração analítico do nosso percurso, e que justificará, ao cabo, o estatuto pletórico do X.

A nossa exposição obedecerá ao seguinte itinerário. A secção II fixará as coordenadas teóricas indispensáveis — o Belo plotiniano, a cisão kantiana entre Belo e Sublime (com particular atenção ao Sublime Dinâmico), a história do Belo de Schiller a Adorno e Lyotard — para tornar visível em que sentido a conjugação destas duas economias estéticas constitui o desafio interpretativo de JAS. As secções III a VI desenvolverão, sucessivamente, cada uma das quatro raízes — desfaciação levinasiana invertida, cromática miasmática, trança branca como kav cabalístico, geometria do húmus —, sendo que a sexta receberá o tratamento mais demorado em obediência à indicação do programa analítico inicial. A secção VII articulará a plétora concrescente das quatro raízes e demonstrará por que razão o X é precisamente esta concrescência. Uma breve coda (VIII) situará a obra no horizonte histórico do nosso tempo.

COORDENADAS TEÓRICAS
- A INSEPARABILIDADE DO BELO
E DO SUBLIME DINÂMICO

Importa, antes de descer às raízes, fixar as coordenadas teóricas que tornarão visível a sua conjugação. A tradição estética ocidental, desde Plotino, instituiu o Belo como manifestação. Na Enéada I, 6, Plotino (2002) formula o belo como splendor formae, brilho que advém do interior da forma e a torna epifânica. Não há belo onde a forma seja simplesmente conforme a uma regra exterior; há belo quando a forma se atravessa de luz, quando se torna translúcida ao princípio que a anima. Pierre Hadot (1997), comentando esta tradição, recorda que o belo, em Plotino, não é uma qualidade que se acrescente à forma — é a forma manifestando-se a si mesma. Hans Urs von Balthasar (1985), recolhendo este legado num registo teológico, fará da Herrlichkeit — a glória — a categoria estética cardeal: o belo é o que esplende a partir de si, forma fluens que se entrega sem se esgotar.

II.1. A CISÃO KANTIANA E O SUBLIME DINÂMICO

Kant, na Crítica da Faculdade do Juízo (1790/2002), cinde porém esta unidade plotiniana. O Belo, distinto do Sublime, define-se como aprazimento desinteressado, juízo reflexivo sobre a forma, harmonia livre das faculdades do entendimento e da imaginação. O Sublime, por seu turno, não reside na forma — desafia-a. Aí onde o Belo nos repousa, o Sublime nos arranca; aí onde o Belo nos confina ao finito, o Sublime nos lança contra os limites da imaginação. Kant distingue ainda, no §28, o Sublime matemático (relativo à grandeza absoluta) do Sublime dinâmico (relativo à potência da natureza confrontada por uma razão que se descobre supra-sensível). É na economia do Sublime Dinâmico que a natureza é considerada como potência que não tem domínio sobre nós — é precisamente esta a economia que a pirâmide ocre de JAS instaura.

Burke (1757/2008), num registo psicológico anterior a Kant, já fundara o Sublime no terror temperado, na obscuridade e na potência das trevas. A pintura de JAS — com o seu negro absoluto enquadrante, o seu vermelho miasmático, a sua pirâmide telúrica — opera dentro desta linhagem burkeana, mas reconverte-a num registo pós-kantiano, onde o terror não é exterior à forma: habita-a, atravessa-a, eleva-a. O negro não é apenas fundo: é potência que cerca, ameaça e, no mesmo gesto, evidencia. O vermelho não é apenas atmosfera: é fronteira sanguínea. A pirâmide não é apenas geometria: é monte erguido. Cada elemento está dentro da economia do Sublime Dinâmico, ainda que a tela, no seu conjunto, não renuncie ao Belo.

II.2. SCHILLER, HEGEL E A HISTÓRIA DO BELO

A novidade — e o desafio analítico de Deusa das Camélias — está na conjugação destas duas economias. Schiller, em Sobre a educação estética do ser humano (1795/1994), já antevira esta possibilidade ao postular o belo como educação sensível para uma razão livre. Para Schiller, o Belo não é mero ornamento: é o lugar onde o ser humano aprende a articular o sensível e o supra-sensível, o impulso formal e o impulso material. A tela de JAS pode ser lida como aplicação intuitiva desta pedagogia: ela educa o olhar a transitar entre a delicadeza floral (Belo) e a potência piramidal (Sublime), sem que nenhum dos dois polos se esgote no outro.

Hegel (1835/1993), nas Lições de Estética, hierarquizaria depois as artes pela sua capacidade de fazer aparecer o espírito na matéria. A pintura, situada entre a arquitectura mais material e a poesia mais espiritual, ocupa para Hegel uma posição mediadora privilegiada: nela, o espírito ainda não se libertou da matéria, mas já a transfigurou. Deusa das Camélias confirma este lugar mediador: a sua matéria pictórica (o pigmento ocre, o vermelho denso, o branco luminoso) é, simultaneamente, suporte material e veículo espiritual. Não há nesta tela nada de meramente decorativo, nem nada de meramente conceitual: cada decisão cromática e geométrica é, ao mesmo tempo, sensível e significativa.

II.3. ADORNO, LYOTARD, BENJAMIN 
O BELO APÓS O ESCÂNDALO

É com Adorno (1970/2008) e Lyotard (1991) que a questão se radicaliza. Pode ainda haver Belo após Auschwitz? Pode ainda haver Sublime após o colapso dos grandes relatos? Adorno escreverá, na Teoria Estética, que o Belo, na modernidade, é o que sobrevive ao seu próprio escândalo — quer dizer, é o que se mantém precisamente por se ter umus problemático, por já não poder ser dado como evidência harmoniosa. Lyotard, retomando Kant nas Lições sobre a analítica do sublime, aprofunda a hipótese: o Sublime é, hoje, o umusa estético adequado à condição pós-moderna (Lyotard, 1979/2003), porque articula a inadequação entre o conceito e a apresentação sem a resolver.

Walter Benjamin (1936/1992), por seu turno, diagnosticou na sua época a perda da aura — esse halo de presença única que pertencia à obra ritual e que a reprodutibilidade técnica dissolveu. Deusa das Camélias responde a este horizonte triplo (Adorno, Lyotard, Benjamin) com uma proposta estética rara: não há umusae de restaurar a auréola umusa, mas há uma recusa do niilismo estético. O Belo sobrevive — sobrevive enraizado, sobrevive desfaciado, sobrevive na trança que ainda liga, sobrevive na pirâmide ocre que faz do umus templum.

Esta é a coordenada teórica decisiva: a tela não é nem ingenuamente bela (como se Auschwitz não tivesse ocorrido) nem cinicamente sublime (como se o Belo fosse impossível). É bela e dinamicamente sublime, em conjugação concrescente. As quatro raízes que se seguem são, justamente, os operadores plásticos desta conjugação.

III. RAIZ (a): A DESFACIAÇÃO DA DEUSA
PROTOCOLO LEVINASIANO INVERTIDO

A figura central da tela está privada de rosto. Não é decapitada, não é mutilada: é desfaciada. A camélia branca ocupa o lugar onde o rosto se esperaria, e os braços-cortinas estendem-se horizontalmente como asas de retábulo decadentista. Esta subtracção do rosto exige uma leitura levinasiana, mas — e este é o ponto crucial — uma leitura invertida.

III.1. Levinas e o rosto

Em Totalidade e Infinito, Levinas (1961/2008) faz do rosto o epicentro da relação ética. O rosto é o Outro que se manifesta sem o intermediário de uma imagem, que se nos dá em nudez e fragilidade, que ordena antes de qualquer enunciado. O visage levinasiano é precisamente o que resiste à apreensão estética, ao enquadramento, ao retrato. Não se pinta um rosto sem o trair, sem o reduzir a tema, sem o subsumir num horizonte mundano. Como, então, ler uma deusa sem rosto sem trair o protocolo? Como pode uma pintura ser fiel ao rosto, ela que vive justamente da sua representação?

A resposta está em De outro modo que ser ou para além da essência (Levinas, 1974/2011), onde a fenomenologia do rosto se aprofunda na vizinhança do traço (la trace). O rosto, na sua manifestação, deixa um traço que excede a presença; o Outro retirase ao mesmo tempo que se oferece. Não há plenitude rostal — há subtracção que ordena. Levinas insiste, em De Deus que vem à ideia (Levinas, 1982/1998), que esta retirada não é negação: é o modo próprio pelo qual o Infinito se inscreve no finito sem se reduzir a ele.

III.2. Marion e a distância

Jean-Luc Marion (1977/2010), em O ídolo e a distância, desenvolverá esta intuição com particular agudeza. A distância, para Marion, não é o contrário da manifestação — é a sua condição. O ícone, distinto do ídolo, é aquilo que se subtrai ao mesmo tempo que se dá. O ídolo é o que enche o olhar, o que se deixa apreender plenamente, o que devolve ao espectador a sua própria potência visual; o ícone é o que esvazia o olhar, o que se subtrai à apreensão, o que abre o espectador a uma alteridade que o excede. Em Étant donné (Marion, 1997/2013), o conceito de fenómeno saturado refina ainda esta distinção: há fenómenos que se dão em excesso sobre a intenção, e é nessa saturação que se manifesta o seu carácter propriamente ético.

A deusa de JAS é, neste sentido rigoroso, um ícone: o rosto subtraído torna-se condição da hospitalidade do olhar. Não há ídolo a contemplar — há um vazio rostal que convoca o espectador para a relação. O protocolo é levinasiano-invertido porque, em vez de o rosto comparecer e ordenar, é a sua retirada que ordena: o espectador é convocado pela ausência, é introduzido na cena pela falta. Esta é a frincha (categoria recorrente no léxico filosóficopoético de André Moshé Veríssimo) — a abertura humilde por onde o sagrado se deixa entrever sem se entregar.

III.3. A camélia no lugar do rosto

A desfaciação, nesta tela, não é negação do rosto: é promessa diferida. A camélia branca, ocupando o lugar do rosto, recodifica-o em registo floral: o rosto é flor, é perfume, é matéria que esplende sem feição. E esta substituição — onde Marion (1997/2013) reconheceria a estrutura do fenómeno saturado — abre a primeira condição da plétora estética: o Belo só se conjuga com o Sublime Dinâmico quando o rosto se retira para que a potência da matéria se faça eloquente. Se o rosto permanecesse, a tela seria retrato; subtraído o rosto, a tela é manifestação. A camélia é o operador desta passagem do retrato à manifestação, do ídolo ao ícone, da apresentação à doação.

Importa notar, ainda, que a camélia branca herda toda uma genealogia simbólica que reforça a sua função substitutiva. Na tradição decadentista de Dumas filho (1848/2006), a camélia é o emblema da pureza condenada, da virgem-cortesã que ama e morre.

No registo japonês do tsubaki (Saito, 2007), a camélia é a flor que não murcha pétala a pétala, mas tomba inteira do caule — emblema do samurai e da estética do mono no aware, a sensibilidade comovida pela transitoriedade. No registo botânico-cristológico, é o sucedâneo da rosa mariana em jardins onde a rosa não vingou. Estas três tradições convergem no rosto-flor de JAS: o rosto subtraído é simultaneamente pureza condenada, queda integral e substituição mariana.

IV. RAIZ (b): A CROMÁTICA MIASMÁTICA
VERMELHO-VINHO ENTRE SANGUE E PÂNTANO

A banda horizontal vermelho-vinho que atravessa a tela é, talvez, o seu enigma mais denso. Não é um vermelho saturado de pintura histórica; não é o vermelho heráldico nem o vermelho mariano. É um vermelho miasmático — espesso, atmosférico, hemorrágico —, que evoca simultaneamente o sangue litúrgico e o pântano fin-de-siècle. A escolha cromática não é estética no sentido fraco: é doutrinal.

IV.1. Baudelaire, Mallarmé, D'Annunzio 
- A herança decadentista

A linhagem é clara. Baudelaire (1857/1972), nas Flores do Mal, fizera do veneno cromático a substância mesma do Belo moderno. La Beauté est toujours bizarre — o belo é sempre estranho, é doença sublimada, é flor que cresce do mal. O vermelho baudelairiano é o vermelho do absinto e do sangue venéreo, é o vermelho que se conjuga com o negro mais profundo para produzir o spleen parisiense. Mallarmé (2003) levaria esta intuição ao limiar do silêncio: o vermelho mallarmeano é o vermelho da Hérodiade, da virgem encerrada em si mesma, do sangue que não corre. D’Annunzio (1889/2001), em Il Piacere, faria do vermelho-vinho o solvente erótico de uma civilização que se compraz na sua própria decadência.

A banda vermelho-vinho de JAS herda esta linhagem decadentista por três vias. Primeira: a sua densidade atmosférica (não é cor pura, é miasma — quase como se o pigmento tivesse absorvido humidade e tempo). Segunda: a sua horizontalidade dramática (não é fundo nem figura, é fronteira — como em

Baudelaire o spleen é a fronteira entre o ideal e o caído). Terceira: a sua função compositiva mediadora (separa e une, simultaneamente, o negro absoluto superior do ocre piramidal inferior — como em D’Annunzio o prazer separa e une o sagrado e o profano).

IV.2. O sangue litúrgico e a Gevurah

A banda de JAS, no entanto, não se esgota nesta tradição decadentista. Ela é também — e talvez sobretudo — o púrpura litúrgico do velum templi rasgado, o sangue do sacrifício que mancha o pano sagrado. Em registo levinasiano, é o sangue da hospitalidade: o que se oferece da subjectividade quando se acolhe o Outro (Levinas, 1961/2008). Em registo cabalístico, é o din — o rigor, o juízo, a sefirá Gevurah — que tinge a manifestação divina (Scholem, 1974/1995). A Gevurah é, na árvore sefirótica, o pólo do rigor que equilibra o Chesed (a misericórdia); a sua cor tradicional é precisamente o vermelho-sangue, e o seu lugar é o lado esquerdo da árvore — exactamente o lado, sublinhemos, onde a banda de JAS começa o seu movimento horizontal.

Idel (1988/2007) recordaria que, na cabala lurianica, o rigor não é negativo: é a condição da manifestação. Sem Gevurah, a luz divina dissolver-se-ia no informe; sem rigor, a misericórdia tornar-se-ia indiferenciação. A banda vermelho-vinho de JAS é, neste sentido, o operador cabalístico do rigor: aquilo que define, separa e limita, sem o que a divindade desfaciada e a pirâmide ocre não poderiam coexistir.

IV.3. A dupla economia do vermelho

A cromática miasmática opera, assim, uma dupla economia: por um lado, herda do decadentismo a consciência de que o Belo moderno é inseparável do veneno; por outro, abre essa herança a uma dimensão sacrificial e cabalística que a redime do esteticismo puro. O vermelho-vinho de JAS não é apenas atmosfera — é o estrato sanguíneo de uma divindade que ainda não se decidiu entre afundarse ou ascender, entre o pântano e o templo.

E é precisamente esta indecisão cromática que prepara o Sublime Dinâmico. O vermelho miasmático, banda horizontal entre o negro absoluto e a pirâmide ocre, é a fronteira de potência: aí onde a natureza ameaça e a razão se descobre suprassensível, aí onde o Belo se torna terrível sem deixar de ser Belo. Adorno (1970/2008) escreveria que o Belo, na modernidade, é o que sobrevive ao seu próprio escândalo. A banda vermelho-vinho de JAS é a inscrição plástica deste escândalo sobrevivido: ela mostra que o Belo, para sobreviver, teve de absorver o veneno, o sangue, o rigor — e que dessa absorção saiu, paradoxalmente, mais belo.

V. RAIZ (c): A TRANÇA BRANCA 
KAV, TZIMTZUM E CORDÃO TELÚRICO

Entre a camélia coroante e o ápice da pirâmide ocre, JAS pinta uma forma trançada branca — cordão, cabeleira, corda umbilical — que liga (ou separa) a divindade do húmus. Esta forma é, plasticamente, o eixo da composição; teologicamente, é a sua chave hermenêutica. Sem ela, a divindade desfaciada e o templum ocre permaneceriam dois estratos justapostos sem comunicação; com ela, instaura-se a verticalidade dinâmica que articula todo o sentido da tela.

V.1. O tzimtzum lurianico e o kav

A leitura cabalística impõe-se. Na cosmologia luriânica, recolhida por Gershom Scholem (1941/1974) e por Moshe Idel (1988/2007), a criação dá-se mediante um movimento triplo: o tzimtzum (a contracção primordial, pela qual o En-Sofretira-se de si para abrir o espaço da criação), o Shevirat ha-Kelim (a quebra dos receptáculos, ao não suportarem a luz divina) e o Tikkun (o reparo, a recolha das centelhas dispersas). Entre o En-Sof recolhido e o espaço aberto da criação, a tradição fala de um kav — um fio, um raio, uma linha de luz que atravessa o vazio do tzimtzum e estrutura a manifestação.

A trança branca de Deusa das Camélias é, plasticamente, um kav. Não no sentido literal de uma alegoria cabalística (JAS não pinta uma cosmologia), mas no sentido estrutural de um operador de ligação entre o retraído (a divindade desfaciada) e o aberto (o húmus piramidal). O cordão branco é o que torna possível a manifestação sem coincidência, a entrega sem perda, o esplendor sem ídolo. Sem o kav, a divindade ficaria absolutamente outra; com o kav, a divindade pode oferecer-se sem se anular na oferta.

V.2. A trança como Shekhinah

A leitura é confirmada pela materialidade da trança. Não é um fio: é um entrançado — três ou mais fios entretecidos. Esta multiplicidade unificada é, na tradição cabalística, a forma estrutural da própria Shekhinah — a presença divina como tecedura, como trama, como tabernáculo de fios. A Shekhinah é, etimologicamente, habitação (de shakhan, habitar); é o modo pelo qual o divino habita no humano, atravessa o terreno, se faz presença sem se reduzir a aparição (Scholem, 1974/1995). A trança branca de JAS é, nesta perspectiva, Shekhinah pintada: presença habitante, fio que liga e habita.

Em registo levinasiano (Levinas, 1982/1998), seria a liaison entre o Mesmo e o Outro, o nó hospitalar que não anula a diferença. A trança não funde os fios — entretece-os. Esta é uma diferença ontológica decisiva: a fusão dissolveria a alteridade; o entretecimento preserva-a precisamente ao articulá-la. A presença divina, na tela de JAS, não funde o sagrado e o telúrico; entretece-os.

V.3. O cordão umbilical telúrico

Mas a trança branca de JAS tem ainda uma segunda dimensão, propriamente telúrica. Ela não desce do céu — emerge do corpo desfaciado e cai sobre o ápice piramidal. É, simultaneamente, cordão umbilical entre a divindade e a terra, e cabeleira de Berenice voltada para baixo. A direccionalidade é decisiva: a trança não eleva o húmus à divindade; faz descer a divindade ao húmus.

Aqui se prepara o paradoxo que culminará na sexta secção: a divindade não é o que se opõe ao húmus; é o que se reconcilia com ele. A trança branca, como cordão umbilical, é o índice plástico desta reconciliação. Ela diz, sem palavras, que a divindade nasce da terra e à terra retorna — não num sentido panteísta indiferenciado, mas num sentido bíblico preciso: Adonai Elohim formou Adão do pó da adamah (Génesis 2, 7), e é dessa pertença telúrica originária que a humanidade extrai a sua dignidade. A divindade da camélia, descendo pela trança até ao templum ocre, repete plasticamente este gesto primordial.

VI. RAIZ (d): A GEOMETRIA DO HÚMUS
TEMPLUM, ERDE, HUMILITAS

Chegamos à raiz central, aquela em que mais demoradamente nos deteremos. A pirâmide ocre que se ergue do solo, ocupando o terço inferior da tela e culminando junto à camélia desfaciada, é o protagonista geométrico de toda a composição. Importa interrogarlhe a tripla pertença: etimológica, ontológica e estética.

VI.1. Etimologia 
Húmus, Humanitas, Humilitas

A palavra húmus, do latim, designa originalmente a camada superficial do solo, formada pela decomposição da matéria orgânica. Mas a sua família etimológica é vastíssima e teologicamente densa: húmus gera humanitas (a condição daquele que pertence ao húmus, o homo etimologicamente terrígeno) e gera também humilitas (a virtude daquele que reconhece a sua pertença ao baixo, ao terreno, ao chão). Esta tríade — húmus, humanitas, humilitas — está inscrita na própria língua e atravessa toda a tradição cristã medieval, particularmente em Bernardo de Claraval e em Mestre Eckhart, para quem a humilitas é a virtude fundamental do espírito enraizado.

Em registo hebraico, ressoa uma genealogia paralela: adamah (terra, húmus) gera Adam (o terrígeno, o feito de pó). Génesis 2,7 fá-lo explícito: «Adonai Elohim formou adam do pó da adamah e soprou-lhe nas narinas o hálito de vida». A divindade, nesta narrativa, não é o oposto do húmus — é o que faz do húmus criatura. Aquilo que distingue Adam do húmus inanimado não é uma adição extrínseca à terra: é o ruach (sopro) que Elohim insufla na adamah já modelada. A humanidade é, etimologicamente, húmus animado.

A pirâmide ocre de JAS está saturada destas ressonâncias etimológicas. O seu ocre é literalmente o ocre da terra (o pigmento mais antigo da humanidade pictórica, atestado já nas grutas paleolíticas de Lascaux e Altamira) e a sua forma triangular é a forma esquemática mais elementar do monte, da montanha, do templo construído. Não há decisão pictórica gratuita: o ocre é húmus e o triângulo é a forma humilde por excelência (aquela que se alarga onde pousa e se afina onde se eleva, em obediência à gravidade que reconhece).

VI.2. Schelling e a Terra como Grund

A filosofia da natureza de Schelling (1809/1992), no Tratado sobre a Essência da Liberdade Humana, formulou pela primeira vez com pleno rigor especulativo a noção de que a Terra (Grund) é o fundamento obscuro de toda a manifestação. Não é matéria inerte: é potência que se contrai sobre si para que o espírito possa emergir. A Terra schellinguiana é Ungrund antes de ser Grund — quer dizer, é abismo antes de ser fundamento, é noite antes de ser solo. E é precisamente por ser abissal que pode fundar; é precisamente por ser obscura que pode iluminar.

Esta intuição schellinguiana — depois aprofundada em Die Weltalter — é decisiva para a leitura da pirâmide ocre. A pirâmide não é um objecto pousado sobre o chão: ela é o chão erguido em forma, é o Grund que se decide a aparecer. O negro absoluto que circunda a pirâmide é, neste sentido, o Ungrund — o abismo de onde a forma se ergue sem o renegar. O ocre piramidal e o negro envolvente são, em Schelling, dois nomes da mesma Terra: o nome aparente e o nome reservado. JAS pinta esta duplicidade com uma honestidade ontológica admirável.

VI.3. Heidegger 
Erde e o combate Mundo-Terra

Heidegger, em A origem da obra de arte (1936/2010), retomará a intuição schellinguiana e dar-lhe-á a sua formulação estética mais radical. A obra de arte, para Heidegger, é o lugar onde se trava o combate entre Mundo e Terra. O Mundo (Welt) é o sistema aberto das significações em que um povo histórico habita; a Terra (Erde) é o que, na obra, resiste a esta abertura, o que se recolhe, o que se fecha sobre si para preservar o seu mistério. A obra-prima é aquela em que Mundo e Terra não se anulam — combatem-se em fidelidade recíproca.

A pirâmide ocre de JAS é, neste sentido heideggeriano, a Erde da composição. Ela não é o cenário do drama divino — é a sua condição de possibilidade. Sem a Terra erguida em forma, a divindade desfaciada e a trança branca seriam pura abstracção, pura significação sem suporte, puro Mundo sem Terra. É porque a Terra se decide a aparecer (como pirâmide, como templum, como ocre saturado) que o Mundo do sagrado pode instaurar-se.

E é também por isto que a tela é um lugar de Sublime Dinâmico kantiano: a pirâmide ocre é a potência da natureza— não uma natureza decorativa, mas a Natureza como Grund, como fundamento que ameaça e sustenta simultaneamente. A razão suprassensível kantiana descobre-se nesta confrontação: o espectador é diminuído pela Terra erguida e, ao mesmo tempo, elevado por reconhecer a sua dignidade racional perante essa potência. A composição realiza, plasticamente, a estrutura argumentativa do §28 da terceira Crítica: somos atravessados pela potência sem sermos esmagados por ela, porque na confrontação descobrimos um princípio em nós que excede a própria natureza.

VI.4. Bachelard 
A Rêverie da Terra Erecta

Gaston Bachelard, em A Terra e os devaneios da vontade (1948/1990), distinguiu duas grandes rêveries elementares ligadas à Terra: a rêverie do repouso (a Terra como acolhimento, ventre, sepultura) e a rêverie da vontade (a Terra como matéria a vencer, montanha a escalar, forma a erguer). A pirâmide ocre de JAS pertence inequivocamente à segunda — é Terra erecta, Terra-vontade, Terra que decide sair da sua horizontalidade gravitacional e assumir uma verticalidade dramática.

Mas — e aqui está a finura plástica de JAS — esta verticalidade não é triunfalista. A pirâmide não fura o céu, não desafia. Detém-se exactamente no nível da camélia desfaciada, encontra-se com a divindade, oferece-lhe púlpito. É verticalidade humilde — é, propriamente, humilitas erguida. A Terra, ao ascender, não nega a sua pertença: leva-a consigo. Esta é, talvez, a maior conquista plástica da tela: pintar a humilitas em forma de pirâmide.

Bachelard recordaria ainda que a verticalidade é, antes de tudo, uma decisão da matéria contra a sua própria gravidade. A pirâmide ocre é, neste sentido, matéria que se decidiu — matéria que escolheu a forma, sem renunciar à sua substância. Não há aqui idealismo (a forma não nega a matéria), nem há aqui materialismo (a matéria não anula a forma). Há vontade telúrica: o húmus que se constitui em geometria sem deixar de ser húmus.

VI.5. Levinas 
O élément e a hospitalidade telúrica

Em Totalidade e Infinito, Levinas (1961/2008) introduz a categoria de élément para designar aquilo que, antes de qualquer apropriação, se oferece como meio em que vivemos — o ar que se respira, a luz em que se vê, o solo em que se pisa. O elemento não é objecto: é ambiente, é hospitalidade pré-subjectiva da matéria. A Terra é o elemento por excelência, aquele que precede e excede toda a relação económica.

A pirâmide ocre de JAS pode ser lida como inscrição plástica desta hospitalidade telúrica. Ela não é objecto a contemplar: é elemento que recebe. Recebe a divindade desfaciada, recebe a trança branca que desce, recebe o olhar do espectador. Esta receptividade é, em Levinas, a estrutura mesma da ética: não há rosto sem chão, não há Outro sem elemento que o sustente. A geometria do húmus é, neste sentido, a infra-estrutura ética da tela — o que torna eticamente possível tudo o que nela acontece.

Importa sublinhar que esta hospitalidade é radicalmente diferente da hospitalidade contratual ou política. Não há cálculo, não há reciprocidade exigida, não há condição. O elemento oferece-se simplesmente; sustenta sem pedir; recebe sem reclamar. Esta gratuidade é o que, em Levinas, distingue a hospitalidade verdadeira da troca económica. A pirâmide ocre, ao receber sem pedir, instaura na tela o registo ético da gratuidade — e é precisamente este registo que distingue Deusa das Camélias do mero esteticismo decorativo.

VI.6. O triângulo como templum

Importa, por fim, ler a forma triangular na sua tradição arquitectónica e ritual. Em latim, templum designa originalmente um espaço delimitado no céu pelo gesto do áugure — um recorte ritual antes de ser uma construção. A forma triangular, na história da arquitectura sagrada, é a esquematização deste gesto: tímpano dos templos gregos, frontispício das igrejas românicas, pirâmide funerária egípcia, montanha sagrada hindu (Meru) ou tibetana (Kailash).

A pirâmide ocre de JAS herda esta linhagem, mas seculariza-a sem profanar. Não há figuras antropomórficas no seu interior; não há cenas; não há símbolos. Apenas a forma — a forma pura do templum — oferecida à divindade que dele desce e que nele encontra púlpito. É templum secularizado no sentido em que se subtraiu à liturgia institucional, mas não no sentido de uma negação do sagrado. Pelo contrário: é o sagrado libertado da sua institucionalização, devolvido à sua estrutura elementar de espaço-recebimento.

Aqui se cumpre, plasticamente, a tese maior do ensaio: a sobrevivência do Belo ao desencantamento dá-se por enraizamento. A pirâmide ocre é o lugar onde o Belo se enraíza sem cair em ídolo, onde o Sublime Dinâmico se manifesta sem terror puro, onde a humilitas etimológica do húmus se torna geometria. O templum secularizado de JAS é, em suma, o templo possível após o fim dos deuses pequenos: templo sem clero, sem ritual codificado, sem dogma — mas não sem sagrado, não sem hospitalidade, não sem reverência. É templo da humilitas — e este é, talvez, o único templo eticamente sustentável no nosso tempo.

VII. A PLÉTORA DAS QUATRO RAÍZES
O X COMO CONJUGAÇÃO CONCRESCENTE

Pelo percurso anterior, as quatro raízes (a, b, c, d) revelaram-se progressivamente. Importa, agora, mostrar como se conjugam — e como dessa conjugação emerge o X, a profundidade estética que designamos por plétora, numa retoma deliberada do grego plērōma (plenitude).

VII.1. Concrescência e Whitehead

A categoria de plétora deve aqui entender-se em registo concrescente. As quatro raízes não se justapõem nem se sucedem: concrescem — crescem em conjunto, sustentam-se reciprocamente e produzem um esplendor que excede a soma dos seus elementos.

Esta concrescência é a estrutura mesma do que Whitehead

(1929/2010), em Processo e Realidade, designou por «evento actual» (actual occasion) — não uma soma de atributos, mas uma unidade emergente da sua co-articulação. Para Whitehead, o real não se compõe de substâncias justapostas, mas de eventos concrescentes em que cada elemento contribui para uma síntese irredutível à sua simples adição.

Em Deusa das Camélias, a concrescência opera assim: a desfaciação (a) abre o espaço onde a cromática miasmática (b) se torna eloquente; a cromática miasmática (b) prepara a fronteira de potência onde a trança branca (c) pode operar como kav cabalístico; a trança branca (c) liga o sagrado retraído ao húmus erguido (d); e o húmus erguido (d) só pode ser templum secularizado porque a divindade que ele recebe se desfaciou previamente (a). O círculo é hermenêutico, não vicioso: cada raiz exige as outras três para se manifestar plenamente.

VII.2. A conjugação entre Belo e Sublime Dinâmico

Esta concrescência é o que torna possível a rara conjugação entre o Belo e o Sublime Dinâmico. O Belo, isolado, seria mero esteticismo decadentista (a camélia como flor de Dumas filho [1848/2006] ou de Verdi [1853], desligada do húmus, dissolvida em pura agonia perfumada). O Sublime Dinâmico, isolado, seria pura potência telúrica (a pirâmide como monumento funerário, sem a delicadeza floral que a humaniza). É na sua conjugação — na plétora das quatro raízes — que o Belo se torna terrível sem se desfazer, e que o Sublime Dinâmico se torna belo sem se domesticar.

A camélia, neste contexto, cumpre uma função sintetizadora particular. Ela é, simultaneamente: o emblema decadentista da Dame aux camélias (Dumas filho, 1848/2006) e de Verdi (La Traviata, 1853) — pureza condenada, perfume que já é cinza; o emblema japonês do tsubaki (Saito, 2007) — flor que não murcha pétala a pétala mas tomba inteira do caule, em ressonância com o mono no aware; e o emblema cristológico da rosa branca substituta — pureza mariana enraizada onde a rosa não vingou. As três tradições ressoam simultaneamente, e a frase epigráfica de André Moshé Veríssimo («o fim da divindade dos deuses das pequenas coisas»), em diálogo com Roy (2002), recodifica todas as três num único gesto: o fim da auréola, a sobrevivência do fulgor.

VII.3. O X não é um quinto elemento

Importa, neste momento de síntese, esclarecer um equívoco possível. O X — a profundidade estética que o presente ensaio se propôs explorar — não é um quinto elemento que se adicionaria às quatro raízes. Não é uma raiz suplementar, nem uma categoria de ordem superior, nem um conceito sintetizador externo. O X é o modo de copertença das quatro raízes — a forma como elas se sustentam mutuamente, a estrutura concrescente da sua plenitude (plērōma).

Esta tese tem uma consequência metodológica importante: a análise estética em profundidade não pode esgotar-se na enumeração dos elementos. Tem de mostrar a sua co-articulação. Tem de fazer ver como cada raiz só é o que é em virtude das outras. Tem de pensar a obra como evento, não como soma. É por isto que o presente ensaio se organizou em quatro secções sucessivas (III a VI) precedidas e seguidas de secções de articulação (II e VII): a sucessão das raízes era didacticamente necessária; a sua concrescência é onticamente decisiva.

O X de Deusa das Camélias, em síntese, é a plétora das quatro raízes — a sua plenitude concrescente, a sua copertença irredutível à adição. É nesta plétora que se dá a conjugação rara entre o Belo e o Sublime Dinâmico, e é nesta conjugação que o esplendor sobrevive aos deuses pequenos.

VIII. CODA - O ESPLENDOR
QUE SOBREVIVE AOS DEUSES PEQUENOS

Resta uma palavra final sobre o estatuto histórico desta composição. JAS pinta em 2026 — e o ano não é insignificante. Estamos, há já décadas, no que Lyotard (1979/2003) chamou a condição pós-moderna, no que Adorno (1970/2008) anteviu como crise pós-Auschwitz do Belo, no que Benjamin (1936/1992) diagnosticou como perda da aura no tempo da sua reprodutibilidade técnica. Deusa das Camélias responde a este horizonte com uma proposta estética rara: não há tentativa de restaurar a auréola perdida, mas há uma recusa do niilismo estético. O Belo sobrevive — sobrevive enraizado, sobrevive desfaciado, sobrevive na trança que ainda liga, sobrevive na pirâmide ocre que faz do húmus templum.

Esta sobrevivência não é resignação. É, antes, uma forma de Tikkun (Scholem, 1974/1995; Idel, 1988/2007) — recolha das centelhas (nitzotzot) que ficaram dispersas após a quebra dos receptáculos. JAS recolhe as centelhas do Belo decadentista (a camélia, o vermelho-vinho), do Belo cabalístico (a trança), do Belo telúrico (a pirâmide ocre), e reinveste-as numa única composição. Não restaura o passado: prepara o futuro. Mostra que, mesmo após o fim da divindade dos deuses das pequenas coisas, ainda há esplendor possível — esplendor humilde, enraizado, ético.

A profundidade estética — o X — não é, pois, um quinto elemento. É o modo de copertença das quatro raízes, a sua plērōma concrescente. E nesta plenitude habita, sobrevivente ao desencantamento, o Belo dinâmico-sublime de uma deusa que, perdendo o rosto, conserva o gesto; e, perdendo a auréola, conserva a humilitas etimologicamente irmã do húmus que a sustenta.

A Deusa das Camélias não é a última divindade. É a primeira deusa pós-divina. E é, talvez, exactamente isto que torna esta tela tão necessária ao nosso tempo: ela mostra que, depois dos deuses pequenos, ainda é possível pintar. Ainda é possível pintar com fulgor. Ainda é possível pintar com húmus, com trança, com sangue miasmático e com flor branca. Ainda é possível pintar uma deusa — desde que a deusa se desfacie e que o pintor aceite que o templo só se ergue, hoje, do húmus que reconhece a sua própria pertença.

Termina-se este ensaio com a convicção de que a obra de João Almeida Santos não é apenas comentário plástico ao desencantamento do mundo: é resposta plástica, é proposição estética positiva, é reabilitação da possibilidade do Belo após a sua crise. E é, sobretudo, uma lição filosófica: a de que a profundidade estética não está no acúmulo de elementos significativos, mas na sua copertença concrescente. O X é plétora. E a plétora, em JAS, faz-se húmus, faz-se camélia, faz-se trança branca, faz-se vermelho-vinho — e, ao fazer-se, faz-se esplendor sobrevivente. AMV@05-2026

REFERÊNCIAS

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Whitehead, A. N. (2010). Processo e realidade (M. T. Carvalho, Trad.). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. (Trabalho original publicado em 1929)

 

Artigo-Ensaio

A CICATRIZ QUE LEVITA

Anatomia Gnosiológica, Escarificação 
Metapoética, Hermenêutica do Vestígio 
e Ética do Sublime em 
A DOR E O SUBLIME - Ensaios sobre a Arte, 
de João de Almeida Santos

Pintura de Capa: “Perfil de Mulher” – JAS2022 (Colecção privada)

Uma leitura bloomiana, barthesiana 
e derridiana da dor como epistemologia
 do limite, do fragmento como 
biotério vivo da linguagem e da 
poesia como metabolização redentora
da vulnerabilidade ontológica

ANDRE MOSHE VERÍSSIMO, PhD

Ensaísta | Escritor | Investigador Universitário

 

INTRODUÇÃO

O LIVRO DE JOÃO DE ALMEIDA SANTOS (S. João do Estoril, ACA Edições, 2023) não é uma colecção de ensaios sobre a arte. É um biotério — um ecossistema vivo onde a dor existencial se metaboliza em linguagem rítmica e se eleva ao sublime sensível. Cada capítulo é uma cicatriz que guarda a memória da ferida original e, simultaneamente, a transforma em levitação. O autor pratica o que teoriza: “dizer-se é sobreviver” (Pessoa, 2015, p. 55). A estrutura do volume — doze secções temáticas, capítulos curtos e repetitivos como obsessões rítmicas — obedece à lógica do fragmento que ele próprio analisa em Cioran, Hesse, Eliot e Calvino.

O semema unificador que atravessa toda a obra e que os quatro grupos de análise resolvem é o seguinte:

A poesia é a cicatriz viva que metaboliza a dor existencial (privação sofrida) em sublime sensível (levitação desejada), através de uma linguagem híbrida — sonora e semântica — que funciona como biotério, vestígio e responsabilidade ética perante o Outro que falta.

Este semema articula-se em três eixos constantes: privação sofrida → levitação desejada (Calvino, 1988, p. 28); a poesia como ponte entre sentimento e consciência (Damásio, 2020); e a renúncia como condição de paz e de criação (Hesse; Pessoa; Cioran).

Os quatro grupos que desenvolvo mantêm-se rigorosamente autónomos, embora todos convirjam no mesmo semema através de leituras desconstrutivas infinitesimais de pormenores aparentemente imperceptíveis. A análise é psicanalítica (Freud; Lacan; Kristeva), bloomiana (Bloom, 1973) e derridiana (Derrida, 1967, 1978), sendo também barthesiana no prazer do texto fragmentário.

GRUPO I
 ANATOMIA GNOSIOLÓGICA 
A DOR COMO EPISTEMOLOGIA DO LIMTE

 A DOR NÃO É TEMA: é o órgão de conhecimento do livro. Santos propõe uma gnosiologia anti-cartesiana: o conhecimento poético nasce da clivagem entre o que o corpo sente e o que a palavra consegue dizer.

No capítulo sobre Eliot, a frase fundadora é: “Tennyson e Browning são poetas, e pensam; mas não sentem o pensamento tão imediatamente como o perfume de uma rosa” (Eliot, 2019, p. 30). O “perfume” é o dado sensível que a sensibilidade regista antes e melhor que o intelecto. A dor é o perfume acre que embriaga a alma. Eliot glosa Nietzsche: o dionisíaco (caos pulsional, dor) precede o apolíneo (forma). Santos radicaliza: o poeta é o albatroz de Baudelaire, cujas asas de gigante o impedem de caminhar no mundo prosaico.

A psicanálise freudiana lê aqui a sublimação. Bloom diria que Eliot é o “forte precursor” que Santos “lê mal” para se afirmar. Em Poe, o princípio poético é “The Rhythmical Creation of Beauty” e o tom mais legítimo é a melancolia (Poe, 2016, p. 40). Em Baudelaire, o “choc” da passante (“Un éclair… puis la nuit!”) é o momento gnosiológico por excelência. Cioran leva ao extremo: “Rater sa vie, c’est accéder à la poésie — sans le support du talent” (Cioran, 1952, p. 3). Damásio confirma: os sentimentos são “experiências mentais primordiais” e “o componente primário da consciência” (Damásio, 2020, pp. 53, 175).

Desconstrução infinitesimal: “perfume” é o suplemento derridiano; o “éclair” baudelairiano é a différance; o “rater” de Cioran contém o seu próprio oposto.

Este grupo resolve-se no semema: a dor é o limite que o conhecimento poético atravessa para se tornar sublime.

GRUPO II
ESCARIFICAÇÃO METAPOÉTICA 
O FRAGMENTO COMO BIOÉRIO DA LINGUAGEM

O LIVRO de João de Almeida Santos é, ele próprio, um biotério fragmentário. Os doze capítulos não se encadeiam em progressão linear: repetem-se como estrofes de um poema maior, obsessivos, rítmicos, cicatriciais. Cada repetição é uma escarificação — uma ferida que se abre de novo para que a linguagem possa viver dela. A metapoética de Santos não é narcísica: é ontológica. A poesia pensa-se a si mesma enquanto se faz porque só assim metaboliza a ferida sem a fechar.

Em “A Poesia e a Renúncia” (Hermann Hesse), o poema “Glück” (1921) é o texto metapoético por excelência:

“Erst wenn du jedem
 Wunsch entsagst, /
Nicht Ziel mehr noch 
Begehren kennst, /
Das Glück nicht mehr 
mit Namen nennst, /
Dann reicht dir des 
Geschehens Flut /
Nicht mehr ans Herz, 
und deine Seele ruht.”

A renúncia não é fuga: é a escarificação que permite à linguagem viver. Só quando o poeta renuncia a todo o desejo de posse, a todo o objectivo exterior, a toda a nomeação da felicidade, é que a alma repousa e a poesia pode nascer. Hesse e Pessoa (Bernardo Soares) coincidem quase literalmente: “A vida só subjectivamente pode ser vivida por inteiro, só negada pode ser vivida na sua substância total” (Pessoa, 2015, p. 208). A negação hegeliana (Aufhebung) torna-se aqui condição de criação: só negando o contingente se acede ao essencial.

Pierre Jean Jouve, em Apologie du poète (1947), formula a lei fundamental: “La poésie est un véhicule intérieur de l’amour” e “la Poésie supérieure est une fonction de l’âme, et non pas de l’esprit” (Jouve, 1982, pp. 10, 33). A linguagem poética nasce da alma (dionisíaca, erótica, ferida) e não do espírito (apolíneo, conceptual). O fragmento é o vestígio dessa ferida que se recusa a fechar-se completamente — daí a sua força metapoética. Jouve liga explicitamente poesia, amor e alma: o poema é o veículo interior pelo qual o amor circula quando o objecto do amor se ausenta.

Italo Calvino, em Lezioni Americane (1988), fornece a categoria decisiva: esattezza como modelo do cristal que refracta a luz sem se dissolver (Calvino, 1988, p. 69). A poesia de Santos é cristalina precisamente porque é fragmentária: cada ensaio é uma faceta que refracta a dor sem a dissolver em conceito. O “cristallo e fiamma” (p. 70) é a dupla natureza da poesia: exactidão apolínea + fogo dionisíaco. A exactidão não é rigidez: é a precisão cirúrgica com que o poeta lapida a ferida para que ela brilhe.

Desconstrução infinitesimal: a palavra “biotério” (que Santos usa implicitamente ao falar do “lugar vivo” da linguagem) é o neologismo derridiano por excelência — o entre onde a vida (bios) e o lugar (topos) se inscrevem mutuamente. O fragmento é o biotério porque nele a linguagem vive da sua própria ferida. Em Hesse, “entsagst” contém “sagst”: só renunciando se diz verdadeiramente. Em Jouve, o “véhicule intérieur” é o suplemento derridiano: o amor não chega ao Outro, mas circula no interior da linguagem como cicatriz que se expõe.

A repetição obsessiva dos gestos em Pina Bausch (Blaubart, Café Müller) é a escarificação corpórea equivalente à repetição dos capítulos no livro. O corpo da bailarina é o biotério onde a dor relacional se inscreve como cicatriz rítmica. A pintura do autor funciona do mesmo modo: a cor é a cicatriz que o pincel deixa na tela. Em ambos os casos, a repetição não é redundância: é o método pelo qual a ferida se transforma em forma.

Resolução no Semema

O fragmento não é falta de unidade — é a forma viva que a dor assume quando se recusa a ser esquecida e se transforma em linguagem que vive da sua própria cicatriz.

GRUPO III
HERMENÊUTICA DO VESTÍGIO
ÍNDICES, RASTROS E A LÓGICA DO SUBLIME

«O VESTÍGIO é o que resta quando a presença se ausenta, mas continua a interpelar quem o contempla como uma ferida que se recusa a fechar-se.»

Este grupo constitui o coração hermenêutico do livro. Nele, a poesia não representa o real nem o transcende: ela deixa rastros. O vestígio (ou rastro, traço, índice) é a forma que a dor assume depois de metabolizada — o perfume que ficou na alma depois de o corpo ter falhado, o clarão que ilumina e cega, o “naufragar” que se torna doce. A lógica do sublime, em Santos, não é a presença do belo (Kant), mas a ausência que o vestígio guarda e que continua a pulsar como ferida aberta.

   Os Fantasmas de Eliot e o Rastro Kafkiano

 No capítulo “O Poeta e os Fantasmas”, Santos cita Eliot: “seja quem for que alguma vez tenha sido visitado pela Musa é daí em diante perseguido por fantasmas” (Eliot, 2019, p. 86-87). A Musa visita e parte. O que fica não é a presença, mas o fantasma — o vestígio que persegue o poeta para sempre.

Santos liga imediatamente a Kafka (Cartas a Milena, 1922): “escrever cartas significa desnudar-se perante os fantasmas, o que eles avidamente esperam. Beijos escritos não chegam ao seu destino, mas são bebidos pelos fantasmas ao longo do trajecto.”

Aqui opera-se uma hermenêutica do vestígio radical. O poema (ou a carta) é o rastro que os fantasmas deixam ao beberem o que não chegou à musa. Derrida, em De la grammatologie (1967), define o rastro como “o desaparecimento da origem” que, no entanto, “deixa marcas”. O poema de Eliot (ou de Santos) é essa marca: o que a musa bebeu ao longo do trajecto e que, por isso, nunca chega ao destino. O destino do poema é precisamente não chegar — ser bebido pelos fantasmas, tornar-se vestígio.

Bloom, em The Anxiety of Influence (1973), diria que Eliot é o “forte precursor” que Santos “lê mal” para se afirmar. Santos faz de Eliot o seu pai poético, mas corrige-o: transforma a perseguição dos fantasmas em condição de criação. O vestígio não é maldição, é método. O poeta é perseguido porque foi tocado — e só quem foi tocado pode tocar os outros.

Desconstrução infinitesimal do “fantasma”: a palavra não é metáfora gótica. É o suplemento derridiano. O fantasma é o que falta (a musa ausente) e, ao mesmo tempo, o que sobra (a perseguição). Em português, “fantasma” contém “fanta” (ilusão) e “sma” (sinal). O vestígio é o sinal da ilusão que persiste. Santos, ao citar Kafka, pratica a différance: o beijo escrito difere (adia) o encontro com a musa e, ao mesmo tempo, difere-se (torna-se outro) ao ser bebido pelos fantasmas.

Baudelaire e o “Éclair… puis la nuit”

 O momento supremo da hermenêutica do vestígio no livro é a leitura de “A une passante” (Les Fleurs du Mal, 1857-1861):

“Un éclair… puis la nuit! 
– Fugitive beauté /
Dont le regard m’a fait 
soudainement renaître, /
Ne te verrai-je plus 
que dans l’éternité? /
Ailleurs, bien loin d’ici! /
trop tard! jamais peut-être!”

Santos lê este poema como o paradigma do vestígio: o “éclair” (clarão) é o instante que ilumina e cega ao mesmo tempo. O que fica não é a mulher, mas o rastro do clarão — a noite que o sucede e que o poema preenche. Benjamin, em Angelus Novus (1962, p. 103), lê-o como choc alegórico da modernidade urbana. Santos vai mais longe: o “éclair” é o traço que a dor deixa na alma e que o poema transforma em sublime.

O “nunca mais” (“jamais peut-être”) é o vestígio por excelência. Derrida, em Éperons (1978), analisando Nietzsche, mostra que o “nunca mais” é o que permite à verdade (a mulher) aparecer como véu que se levanta e cai. Em Baudelaire/Santos, o “nunca mais” é o véu que o poema levanta eternamente. A eternidade do poema é o vestígio da perda.

Conexão com Poe e “The Raven”: Santos, no capítulo sobre Poe, cita “The Raven” (“Nevermore”). O corvo é o vestígio que repete eternamente a perda. “Nevermore” é o rastro que o poema deixa na alma do leitor — e na do próprio Poe. Santos pratica aqui uma leitura bloomiana forte: faz de Poe o precursor que lhe permite afirmar a sua própria poética do fracasso e do vestígio.

Desconstrução do “éclair”: a palavra francesa contém o relâmpago (éclair) e o clarão (lumière soudaine). Em português, “clarão” ecoa “claridade” e “cicatriz” (a ferida que brilha). O vestígio é o clarão que cicatriza ao mesmo tempo que fere.

Santos, ao glosar este poema, transforma o “éclair” baudelairiano no modelo da sua própria escrita: capítulos curtos que iluminam e deixam a noite — e a noite que o capítulo seguinte preenche.

Yourcenar, Michelangelo e o 
“Tu és mais belo que tu mesmo”

No capítulo VI (“Yourcenar, Michelangelo e a arte”), Santos cita a frase lendária: “Gherardo, maintenant tu es plus beau que toi-même.” A arte não conserva o real: transfigura-o em vestígio mais belo do que o original. O amante (Gherardo Perini) morre ou parte; o que fica é a escultura ou o desenho que o torna “mais belo que ele próprio”.

Esta é a lógica do sublime vestigial por excelência. Heidegger, em A Origem da Obra de Arte (1935), diz que a arte é o desvelamento da verdade (alêtheia). Mas o desvelamento deixa sempre um véu — o vestígio. A escultura de Michelangelo é o vestígio do corpo vivo que se ausentou. Santos liga isto à sua própria pintura: “Sobre a minha Pintura” é o capítulo onde o autor pratica o que teoriza — transforma a mulher-neblina (a musa) em imagem que é mais bela (e mais dolorosa) do que qualquer presença real.

Conexão com a “Viagem Imaginária”: no capítulo X, Santos descreve uma viagem da “Praia da Meia-Lua” à “Casa das Histórias” (Cascais) sobre um “arco-íris preguiçoso”, acompanhado de uma “mulher-neblina de olhos turquesa”. A mulher-neblina é o vestígio puro: nunca se possui, dissolve-se na neblina, mas deixa o rastro da cor (turquesa) e do perfume (maresia). O pavão que grita é o índice que anuncia o vestígio — o grito que marca a ausência.

Desconstrução do “mais belo que tu mesmo”: a frase contém o suplemento derridiano. “Mais belo” é o que excede o original e, ao mesmo tempo, o substitui. O vestígio não é cópia: é excesso. Em português, “mais belo” ecoa “mais dor” (a dor que o torna belo). Santos pratica aqui a différance: o vestígio difere do real (é mais belo) e difere-se (torna-se outro cada vez que é contemplado).

A Alhambra, a Mesquita de Córdova 
e o Vestígio Arquitectónico

 No capítulo “Viagens”, Santos visita Sevilha, Córdova e Granada. A Alhambra é o poema arquitectónico do vestígio: as filigranas em gesso, as escritas árabes nas paredes, os jardins do Generalife são rastros de uma civilização que deixou na matéria o seu desejo de infinito. A “igreja católica no ventre da mesquita” de Córdova é, para Santos, a violação do vestígio — o que esmaga a espiritualidade que o monumento guardava. Marguerite Yourcenar (citada por Santos) descreve-o como “uma das mais nobres meditações jamais feitas sobre o pleno e o vazio” que o barroco católico “desfaz em migalhas”.

Aqui a hermenêutica do vestígio torna-se política e ética. O vestígio arquitectónico é o rastro de uma cultura que foi esmagada, mas que resiste na beleza das formas. Santos pratica uma leitura gadameriana: a fusão de horizontes entre o visitante contemporâneo e a civilização muçulmana que construiu a Alhambra. O que se funde não é a presença, mas o vestígio — o que resta depois da reconquista.

Conexão com Pina Bausch e a dança: o Tanztheater de Pina Bausch (capítulo VII) é o vestígio corpóreo por excelência. Os gestos repetidos, os beijos forçados, os travesseiros pedidos por homens carentes são rastros de relações que falharam. O corpo da bailarina é o monumento vivo que guarda a memória da dor relacional. Santos liga isto à sua própria poética: a repetição obsessiva dos capítulos no livro é equivalente à repetição obsessiva dos gestos em Blaubart ou Café Müller.

O “Naufragar” de Leopardi 
e o Vestígio do Desejo

Santos cita Leopardi (“L’Infinito”): “e il naufragar m’è dolce in questo mare.” O naufrágio é doce porque é o vestígio do desejo que não se realizou. Calvino, em Lezioni Americane (citado por Santos), glosa: “credo che sia una costante antropologica questo nesso tra levitação desejata e privazione sofferta” (Calvino, 1988, p. 28). O vestígio é o ponto de encontro entre a privação sofrida e a levitação desejada.

Desconstrução do “naufragar”: em italiano, “naufragar” contém “nau” (navio) e “fragar” (quebrar). O vestígio é o navio que se quebra e, ao quebrar-se, liberta o desejo que o habitava. Em português, “naufragar” ecoa “naufrágio” e “frágil”. O sublime vestigial é a fragilidade que se torna doce ao ser cantada.

A Pintura do Autor 
e o Vestígio Pictórico

No capítulo “Sobre a minha Pintura” e na “Viagem Imaginária”, Santos descreve as suas próprias obras como vestígios. A “mulher-neblina de olhos turquesa” é o rastro da musa que nunca se possui. A cor que o pincel deixa na tela é o traço do corpo do pintor que se ausentou. Barthes, em La Chambre claire (1980), distingue studium de punctum (La Chambre claire, 1980). As pinturas de Santos são punctum puro: ferem porque guardam o rastro de uma perda que o espectador reconhece como sua.

Resolução no Semema

O sublime é o vestígio da dor que a linguagem metaboliza, deixando atrás de si o rastro que continua a interpelar — perfume, clarão, fantasma, naufrágio, filigrana, mulher-neblina — e que obriga o leitor/espectador a regressar, a reler, a re-sentir, transformando a privação em levitação partilhada.

GRUPO IV
ÉTICA DO SUBLIME 
A VULNERABILIDADE ONTOLÓGICA 
E A FIGURA DO OUTRO NA POESIA

A ÚLTIMA e mais humana das rubricas. A poesia, em Santos, é ética antes de ser estética. Nasce da vulnerabilidade radical perante o Outro — o amor falhado, a mulher que passa, o amigo perdido, a musa inalcançável.

Pessoa/Soares é o grande interlocutor: “dizer-se é sobreviver”. Mas dizer-se é sempre dizer o Outro que falta. A renúncia hessiana e a recusa cioraniana são formas extremas de ética: não possuir para não destruir. A poesia é o espaço onde o Outro pode ser amado sem ser possuído — “a ponte entre o que não tenho e o que não quero” (Pessoa, 2015, p. 209).

Levinas (latente, mas omnipresente) ecoa em toda a parte: o rosto do Outro é o que me obriga à responsabilidade. Na poesia de Santos, o rosto é sempre o da mulher-neblina, da passante baudelairiana, da musa kafkiana. O sublime é ético porque preserva a alteridade do que se ama: não o reduz a conceito, não o consome.

Damásio fecha o círculo: a criatividade nasce da dor e do sofrimento como resposta à “gestão da vida” (Damásio, 2020, p. 165). A poesia é a forma mais elevada dessa resposta: não foge da vulnerabilidade — transfigura-a em acto de amor universal.

No capítulo “Saltar Muros — Carta a uma Amiga”, Santos formula a ética da transgressão: a arte é liberdade que se define pela positiva — acrescenta beleza à vida. Saltar muros é possuir espiritualmente o que o corpo não possui. A Yourcenar, citada por Santos, diz: “só se possui pela arte”. A posse verdadeira é espiritual porque acontece na alma, no espaço onde o Outro é amado como vestígio.

Desconstrução infinitesimal: a palavra “vulnerabilidade” (ou “fragilidade”) é o conceito ético central. Em Levinas, a vulnerabilidade do rosto do Outro é o que me desarma e me obriga. Em Santos, a poesia é a vulnerabilidade que se expõe para que o Outro (e o eu) possam sobreviver. O “Glück” de Hesse é o poema ético por excelência: só renunciando ao desejo de posse se alcança a paz que permite amar verdadeiramente.

Conexão com a dança e a pintura: Pina Bausch expõe a vulnerabilidade relacional através da repetição mecânica dos beijos forçados ou dos travesseiros pedidos por homens carentes. O corpo da bailarina é o rosto levinasiano que interroga o espectador. A pintura do autor — os perfis de mulher, as cores que “levantam voo” — é a vulnerabilidade do pintor que se expõe na tela para que o Outro (o espectador) possa ser tocado.

Este grupo resolve-se no semema

A ética do sublime é a vulnerabilidade ontológica que a poesia assume para que o Outro (e o eu) possam sobreviver à dor através da beleza partilhada.

CONCLUSÃO FINAL — A CICATRIZ QUE LEVITA

CHEGÁMOS AO TERMO DESTE PERCURSO. Os quatro grupos autónomos de análise não se somam: resolvem-se no mesmo semema nuclear:

A poesia é a cicatriz viva que metaboliza a dor existencial em sublime sensível, através de uma linguagem híbrida — sonora e semântica — que funciona simultaneamente como biotério, vestígio e responsabilidade ética perante o Outro que falta.

João de Almeida Santos não escreveu um livro sobre a arte. Ele praticou a arte que descreve. Os ensaios são o biotério onde a sua própria dor — a de oito anos de produção poética intensa, a de um pintor que levanta voo sobre o peso do real, a de um homem que escolheu a renúncia como caminho de paz — se transformou em linguagem.

A mobilização das grandes correntes filosóficas não foi exercício académico: foi necessidade vital. Nietzsche forneceu o dionisíaco. Kant deu o juízo estético. Heidegger ensinou o desvelamento que deixa véu. Levinas recordou o rosto do Outro. Derrida mostrou o rastro. Bloom ensinou a ler mal os precursores. Barthes ensinou o gozo do texto. Damásio confirmou que os sentimentos são o componente primário da consciência. Calvino deu as categorias que o livro encarna.

A arte, em áreas de análise distintas — poesia, pintura, dança, música, arquitectura —, revela-se como um único organismo. Este livro é mais do que reflexão sobre a arte: é um acto de sobrevivência. É a prova de que, mesmo na era das indústrias culturais e da algorítmica, ainda é possível uma arte que nasce de imperativo existencial, que salta muros, que expõe a vulnerabilidade e que, ao fazê-lo, redime. “Cristallo e fiamma”, escreveu Calvino. Exactidão e fogo.

A mulher-neblina de olhos turquesa que atravessa a “Viagem Imaginária” é a imagem final. Ela não se deixa possuir. Dissolve-se na neblina, mas deixa o rastro da cor, do perfume, do grito do pavão. É o vestígio puro. É a musa que visita e parte, mas que, ao partir, deixa o poeta — e deixa-nos a nós — mais belo do que éramos antes. “Gherardo, maintenant tu es plus beau que toi-même.”

Assim termina este livro. Assim termina esta análise.

A cicatriz não fecha. Ela levita.

E quem a contempla — quem a lê, quem a sente, quem a metaboliza — é tocado pela graça, sem predestinação, mas como dom recebido na sequência de um acontecimento que devastou a alma e pôs em levitação através da palavra e da sua melodia. AMV@05-2026

BIBLIOGRAFIA (APA 7ª Edição)

Benjamin, W. (1962). Angelus Novus (R. Solmi, Trad.). Torino: Einaudi.

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Cioran, E. M. (2022). Breviário de decomposição (M. J. Marinho, Trad.). Lisboa: Edições 70. (Obra original publicada em 1949)

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Derrida, J. (1978). Éperons: Les styles de Nietzsche. Paris: Flammarion.

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Kant, I. (1790/2008). Crítica da faculdade de julgar (V. R. M. de Oliveira, Trad.). Lisboa: Edições 70.

Levinas, E. (1961). Totalité et infini: Essai sur l’extériorité. The Hague: Martinus Nijhoff.

Nietzsche, F. (1872/1972). A origem da tragédia (A. Morão, Trad.). Lisboa: Guimarães Editores.

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Poe, E. A. (2016). Poética: Textos teóricos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Santos, J. A. (2023). A dor e o sublime: Ensaios sobre a arte. S. João do Estoril: ACA Edições.

Yourcenar, M. (2020). O tempo, esse grande escultor (M. J. Marinho, Trad.). Lisboa: Relógio d’Água.

 

Artigo-Ensaio

TRATADO DA LUZ CONTIDA E DO ABISMO ABERTO

ESTÉTICA, COSMOGONIA E PERCEPÇÃO NUA
NA "ESFERA" ARDENTE 
DE JOÃO DE ALMEIDA SANTOS
Em correlação sistémica entre a 
pintura, o texto crítico e a 
fenomenologia da cor em 
Mikel Dufrenne - com excurso luriânico, 
plotiniano e neuroestético

André Moshe Veríssimo, PhD

«A luz não se demonstra 
- testemunha-se»
* Do Caderno do ensaísta
«Ki ner mitzvah ve-Torah or»
«Porque o preceito 
é candeia e a Torá é luz»
* Provérbios 6, 23

“Esfera”. JAS2025  – João de Almeida Santos, Esfera Incandescente sobre Abismo Ocre (pintura digital), assinada jas2025

LIMIAR

HÁ OBRAS que se vêem; há obras que se interpretam; e há obras que acontecem. A pintura digital que João de Almeida Santos nos põe diante dos olhos — uma esfera incandescente, suspensa entre o abismo e o ocre, assinada em baixo, à direita, com a humildade lacónica de um traço — pertence indiscutivelmente à terceira categoria, a mais rara e a mais difícil de tratar. Ela não pede comentário: pede testemunho. O ensaio que aqui se inicia constitui um exercício de testemunho filosófico em três tempos articulados — o tempo da descrição indefectível, o tempo da crítica avaliativa e o tempo da fenomenologia da cor —, todos eles unificados sob a divisa, antiga em mim e sempre nova, de que toda a verdadeira obra de arte é, antes de mais, um acontecimento ético, e só por isso, e nessa exacta medida, um acontecimento estético.

A correlação procurada entre a imagem, o texto crítico que dela já se escreveu e o texto fenomenológico inspirado por Mikel Dufrenne não pretende ser comparativa, no sentido em que os manuais entendem a comparação. É, antes, um exercício de unificação. Trata-se de mostrar como três discursos heterogéneos — pintura, juízo crítico e fenomenologia da cor — convergem para um único centro luminoso e como esse centro, à maneira da chispa luriânica esquecida nos cacos das vasilhas quebradas, abre uma janela para o que mais resiste ao discurso: o cérebro criador, o cosmos pré-cósmico, a génese do sensível. O leitor encontrará, portanto, primeiro a pintura na sua presença, depois a sua crítica e enfim a sua razão fenomenológica; mas encontrará, sobretudo, no quarto e quinto momentos do ensaio, a reflexão estética propriamente dita e a genealogia subterrânea que liga esta esfera a tudo o que, no espírito humano, é capaz de arder.

Importa, antes de iniciar, fazer uma declaração de método e uma declaração de tom. De método: o ensaio recusa o estilo expositivo neutro. Não há aqui pretensão de objectividade descarnada. A estética, por natureza, é a disciplina onde o pensamento se vê obrigado a confessar que pensa com o corpo, com a história, com a memória e com a ferida. De tom: o que se segue procura honrar simultaneamente a tradição filosófica continental (de Plotino a Maldiney, de Merleau-Ponty a Adorno), a tradição hebraica da meditação sobre a luz (de Génesis 1, 3 a Rabbi Isaac Lúria, de Provérbios à cabala de Safed) e a tradição da grande filosofia estética portuguesa (de Sant’Anna Dionísio a José Gil, passando por Nuno Teixeira Neves). É na confluência destas três correntes que a esfera de João de Almeida Santos poderá receber, julgo eu, o tratamento que merece.

A PINTURA - DESCRIÇÃO INDEFECTÍVEL 
DA "ESFERA" DE JOÃO DE ALMEIDA SANTOS

APROXIMEMO-NOS da obra com a paciência que ela exige. O olhar, à primeira incidência, encontra três e apenas três planos. Em cima, um céu que não é céu, mas vazio: um negro absoluto, profundo, sem partículas, sem estrelas, sem aceno cósmico. Em baixo, ocupando o terço inferior do quadro, um chão laranja-ocre, levemente esfumado, texturizado como madeira polida pelo tempo ou como magma há muito solidificado, que se prolonga para fora do enquadramento sem se deixar fixar como horizonte. Entre o negro de cima e o ocre de baixo — exactamente na junção, mas levemente elevada acima dela, como se levitasse um milímetro além da gravidade — irrompe a esfera. Uma esfera quase platónica na sua perfeição, monumental no peso visual, cromaticamente dividida entre uma penumbra periférica âmbar-tostado, um meio-corpo dourado-cobre e um núcleo de luz quase branca, fora-de-centro mas ligeiramente desviado para o quadrante superior esquerdo, como o ponto onde a esfera receberia uma fonte luminosa que vem do alto e da esquerda — e que, no entanto, não existe.

A primeira observação técnica é decisiva: a pintura é digital. Quem se aproxima do ficheiro identifica, no segundo de exame, os indícios inequívocos do procedimento: gradientes demasiado perfeitos, transições demasiado controladas, ausência de impasto, de empastamento, de relevo material; a textura visível do chão ocre resulta de filtragens estilísticas que imitam, sem reproduzirem, a pincelada expressionista. Não é defeito: é estatuto. O digital aqui não disfarça a sua origem — assume-a. E ao assumi-la, paradoxalmente, reforça o carácter espectral da aparição. A esfera não é um objecto que ali tenha sido pintado; é um objecto que ali parece ter-se aparecido. A simulação imitativa cria, por excesso de controlo, uma aura de irrealidade que nenhuma pintura a óleo conseguiria obter. É o paradoxo do digital: o seu cunho artificial, longe de dissolver a aura, produz uma aura nova, especificamente sua.

Há, depois, três ausências decisivas a registar. Primeira: a ausência humana, total, deliberada, sem silhuetas, sem olhares, sem qualquer referência antropomórfica que escale o quadro. Segunda: a ausência de cenário, isto é, de mundo. Não há paredes, nem janelas, nem horizonte azul, nem objectos circundantes; a esfera não está num lugar, está num não-lugar, num afora absoluto. Terceira: a ausência dos outros dois elementos clássicos do cosmograma — não há ar (nenhum sopro, nenhuma nuvem, nenhuma transparência atmosférica) e não há água (nenhuma fluidez, nenhum reflexo líquido). Restam apenas o fogo (a esfera) e a terra (o chão), suspensos no nada (o negro). A composição é, deste modo, um cosmograma reduzido aos seus elementos seminais: fogo, terra, abismo. Uma trindade pré-socrática, uma trindade hesiódica, e — ousaria dizer — também uma trindade kabbalística: a luz (or), a vasilha (keli) e o vazio do tzimtzum, a retracção primordial do divino que abre o espaço da criação.

A energia da esfera é, segundo a feliz expressão do texto crítico, pletórica: transbordante, excedentária, quase insuportável; a esfera parece prestes a explodir ou a implodir, como se contivesse todo o fogo do mundo concentrado num único ponto. E, porém — esta é a segunda observação fina —, ela não arde. Não há chama. Não há crepitação. Não há projecção de luz para fora do seu próprio corpo. A luz da esfera permanece no interior da esfera. É uma luz contida, encerrada, que não ilumina o que a rodeia (o negro permanece intacto, o ocre permanece terno) e que, todavia, irradia subjectivamente sobre o espectador. Aqui reside o paradoxo central da obra: a fonte luminosa não emite, e ainda assim brilha. Trata-se de uma luz fenomenológica, não física. Uma luz que existe na medida em que é vista — e que, por essa razão, exige um olhar.

O chão ocre cumpre uma função estrutural que importa não negligenciar. À primeira vista poderia parecer mero suporte, plataforma, repouso da esfera. Olhado em sustenido, revela-se outra coisa: uma linha horizontal precária, levemente desnivelada (o nível à esquerda é minimamente diferente do nível à direita), texturizada com micro-vibrações que reverberam, ténues, a temperatura da esfera. O chão é matéria que recebeu calor; é terra que se aproximou do fogo. Ao mesmo tempo, ele ancora a esfera sem a possuir — a esfera, repare-se, não toca o chão. Há um milímetro de levitação que, sendo quase imperceptível, é fenomenologicamente decisivo. A esfera é deste mundo (o ocre é o seu eco) e não é deste mundo (não pousa, paira).

A assinatura, finalmente: jas, em letra cursiva miúda, deslocada para a direita, à altura do limite superior do chão ocre. Não no canto inferior direito, à maneira convencional, mas exactamente sobre a linha do horizonte. É um gesto de uma humildade extraordinária e, simultaneamente, de uma teologia subterrânea: o autor não se assina como criador soberano que domina a tela; assina-se como testemunha que, na junção entre o vazio e o mundo, deixa o seu nome como quem deixa um sinal de presença discreta. A assinatura é, ela mesma, um pequeno acto de hospitalidade.

 O TEXTO CRÍTICO - CARTOGRAFIA
DAS TRADIÇÕES CONVOCADAS

O PRIMEIRO TEXTO que se nos oferece — aquele que designarei, por convenção interna a este ensaio, como o Texto Crítico — pratica uma cartografia ascendente das tradições estéticas convocadas pela esfera de João de Almeida Santos. Procede por estratos, do mais sensível ao mais especulativo, de Dufrenne a Adorno passando por Goya, Van Gogh, o dadaísmo, Kandinsky, José Augusto França e o triplo polígono filosófico português de Sant’Anna Dionísio, Nuno Teixeira Neves e José Gil. Trata-se de uma cartografia, não de um veredicto. O método é decididamente paratáctico: cada pensador é convocado para deixar a sua intuição precisa, sem que se forneça uma síntese que os reduza. Convém, antes de aprofundar a fenomenologia dufreniana na secção seguinte, ler com atenção esta cartografia, porque ela contém — em estado de fragmento luminoso — todos os pontos que o ensaio deverá depois religar.

a) A presença sensível 
antes do conceito

O Texto Crítico abre com uma percepção corpórea. A esfera, escreve, “não é apenas decorativa”: é agressiva, quase táctil, cria um calor que atravessa o observador. Esta proposição inicial — aparentemente despretensiosa — contém em germe toda a fenomenologia da cor que se desenvolverá depois. Ela afirma que a recepção da obra precede a sua interpretação; que o observador é tocado antes de pensar; que a qualidade sensível tem primazia ontológica sobre o conteúdo conceptual. É a tese central da estética dufreniana, aqui antecipada de forma quase intuitiva.

Esta primazia do sensível obriga, do ponto de vista crítico, a reverter a hierarquia clássica entre forma e ideia. Não é a forma que ilustra uma ideia; é a forma que faz a ideia nascer. A esfera não é o veículo de um símbolo; é o símbolo a constituir-se na própria irradiação sensível. Daí que o Texto Crítico afirme, com uma audácia controlada, que o símbolo aqui não pede interpretação: exige rendição. A palavra é exacta, e merece ser sublinhada. Rendição, em estética, significa abrir mão da soberania do conceito; significa aceitar que a obra nos pensa antes de ser pensada; significa, em rigor, o que Maldiney chamará pathique, em distinção do gnóstico.

b) Goya e a inversão do abismo

A invocação de Goya é dos momentos mais agudos do Texto Crítico. Diz-se que o fundo negro é o mesmo abismo das Pinturas Negras — aquele que devora Saturno, o gigante, o cão semienterrado da Quinta del Sordo. Mas aqui, escreve o crítico, “o abismo não devora — devolve a luz”. Esta observação é decisiva e merece desenvolvimento. Em Goya, o negro é função do horror; é o nada que devora o sentido. Na esfera de João de Almeida Santos, o negro é função da revelação; é o nada que permite ao sentido aparecer. A diferença não é estilística, é metafísica.

Pode dizer-se que Goya pintou o lado nocturno do abismo: o abismo que engole. João de Almeida Santos pinta o lado positivo do mesmo abismo: o abismo que solta, que liberta, que devolve. É o mesmo movimento da kabbalah luriânica: o tzimtzum, retracção divina que abre o espaço onde a luz pode aparecer. Sem o vazio prévio, não haveria emanação. Sem o negro da tela, não haveria esfera. O Texto Crítico apreende esta dialéctica e dá-lhe a fórmula breve da inversão: Goya invertido. Não o negro que devora, mas o negro que oferece. Não o terror, mas a claridade que resiste.

c) Van Gogh 
e a energia interior contida

A referência a Van Gogh — A Noite Estrelada, os girassóis — completa a triangulação. Em Van Gogh, a cor não descreve: grita uma emoção cósmica. Em João de Almeida Santos, encontra-se a mesma energia interior, mas concentrada, contida, quase explosiva. O Texto Crítico nota com precisão esta diferença de regime. Van Gogh distribui a turbulência pelo céu inteiro; o turbilhão é centrífugo, espalha-se pelas estrelas, pelas casas, pelos ciprestes. João de Almeida Santos concentra a turbulência num único ponto; o turbilhão é centrípeto, recolhe-se na esfera, contém-se na superfície limítrofe. É uma turbulência condensada, uma turbulência reduzida ao seu núcleo. Energética e plasticamente, é como passar do plural ao singular, da paisagem ao símbolo.

A relação Van Gogh / João de Almeida Santos é, por isso, dialéctica e não derivativa. Não se trata de afirmar que esta esfera é “uma noite estrelada concentrada”; trata-se de afirmar que ela retoma o regime expressionista da cor (cor como emoção, não como descrição) e o submete a uma operação de contracção. O resultado é uma intensidade nova, uma intensidade que não se dispersa, uma intensidade que se acumula até ao ponto de saturação. Daí, mais uma vez, a sensação pletórica.

d) O gesto dadá e o anti-realismo

O Texto Crítico identifica, com uma agudeza notável, o gesto dadá subtil da composição: isolar uma esfera perfeita no nada é tão absurdo quanto um urinol assinado. O paralelo é exacto, mas convém precisá-lo. Em Duchamp, o gesto dadá consistia em deslocar um objecto banal para o espaço do museu, transformando-o em obra pelo simples deslocamento contextual. Em João de Almeida Santos, o gesto inverso: tomar uma forma metafísica (a esfera, o platónico, o cósmico) e despojá-la de qualquer contexto, suspendendo-a no nada absoluto. O resultado é simetricamente dadá: em Duchamp, o quotidiano sobe à categoria de arte; em João de Almeida Santos, o metafísico desce à categoria de fragmento puro, exposto, indefeso.

Esta operação é, ao mesmo tempo, uma operação contra o realismo. O realismo, na sua acepção clássica, quer representar o visível quotidiano; quer abrir uma janela para o mundo. A esfera de João de Almeida Santos recusa-se a ser janela. Recusa-se a representar. É, antes, uma porta que se abre não para um mundo, mas para um além-do-mundo. O Texto Crítico capta esta recusa com a fórmula feliz: aqui o visível é impossível. A esfera é visível, mas o seu modo de visibilidade é metafisicamente impossível: não há gravidade que a sustenha, não há fonte de luz que a ilumine, não há espaço que a contenha. E, no entanto, ali está. É exactamente esta tensão entre o impossível-de-ser e o efectivamente-presente que constitui o enigma estético da obra.

e) Kandinsky desoculto

A fórmula é magnífica, e merece análise vagarosa. Em Kandinsky — particularmente o Kandinsky de Über das Geistige in der Kunst (Munique, 1912) — a cor e a forma possuem valor espiritual autónomo. O quadro abstracto é o lugar onde a espiritualidade se torna directamente visível, sem precisar de figuras mediadoras. Mas em Kandinsky, mesmo no Kandinsky mais radical, o espiritual permanece, em certa medida, oculto sob o jogo das formas múltiplas, das linhas, dos contrapontos cromáticos. É um espiritual a desocultar-se, um espiritual em emergência.

João de Almeida Santos, segundo a leitura crítica, leva esta lógica ao extremo: o espiritual já não precisa de véus figurativos, já não precisa sequer das composições de formas múltiplas. Resta uma única forma, monumental, quase sagrada, flutuando no abismo. O “desoculto” é, exactamente, isto: o espiritual não pede mediação. A esfera é o ícone abstracto do século XXI, no sentido em que o ícone bizantino era o suporte de uma presença. Não “representa” o espiritual: é a sua aparição. Nessa medida, e apenas nessa, é correcto chamar-lhe Kandinsky desoculto. É Kandinsky no seu télos secreto, no seu ponto-limite, no seu momento de cumprimento.

f) José Augusto França
e a herança modernista portuguesa

José Augusto França leu, na primeira metade do século XX português, a passagem do figurativo ao símbolo puro como o eixo da modernidade plástica nacional. Em A Arte em Portugal no Século XX (Lisboa, 1974), traçou a genealogia que vai do naturalismo de finais de Oitocentos até à abstracção dos anos cinquenta e sessenta, sublinhando o papel mediador do surrealismo lisboeta, das primeiras tentativas de geometrização e do que ele chamou “uma nova objectividade que é, afinal, profundamente subjectiva”.

Na perspectiva francista, a esfera de João de Almeida Santos não é uma curiosidade isolada nem um experimento gráfico digital: é a herdeira tardia e cumprida desta linha que atravessa o século XX português. É, em rigor, o ponto onde o surrealismo (a aparição enigmática, a suspensão do real) e a abstracção geométrica (a forma pura, monumental, autossuficiente) se encontram. A esfera é simultaneamente mítica e matemática. Está mais perto de Carlos Botelho na sua dignidade contida; mais perto de Vieira da Silva na sua autoridade compositiva; e mais perto, ainda, dos grandes silêncios pictóricos de Júlio Pomar tardio — embora, evidentemente, num registo radicalmente outro.

g) Sant’Anna Dionísio, 
Nuno Teixeira Neves e José Gil 
- Do sensacionismo à percepção nua

A esfera de João de Almeida Santos exige, mais do que qualquer outra cartografia, a convocação de uma tradição estética rigorosamente portuguesa — aquela que, de Sant’Anna Dionísio a José Gil, com a mediação ensaística de Nuno Teixeira Neves, pensou a obra como aventura cosmológica do sentir, articulou a sensibilidade portuguesa à exigência europeia e formulou enfim a percepção nua como a camada mais funda da experiência estética. Esta linhagem, demasiado pouco frequentada pelos manuais internacionais e demasiadas vezes silenciada no próprio espaço crítico português, é decisiva para a leitura desta obra. A sua omissão deixaria, neste ensaio, uma lacuna de método que nenhum recurso à fenomenologia francesa ou alemã poderia colmatar, porque há na inteligência estética portuguesa um modo próprio de pensar a sensação, anterior à e mais radical do que qualquer codificação académica importada.

Sant’Anna Dionísio, no ensaísmo filosófico que desdobrou ao longo de cinco décadas — de que O Poeta, Essa Ave Metafísica (Porto, 1953), ilustrado com fotografias e desenhos de Teixeira de Pascoaes, é documento maior —, defendeu uma noção da estética que recusa simultaneamente o psicologismo da fruição e o formalismo do conceito. Para Dionísio, a obra de arte é o lugar onde uma intuição cosmológica encontra a sua expressão sensível adequada. Olhar uma obra é participar de uma aventura espiritual: aventura porque o desfecho é incerto, porque o sujeito que entra não é o mesmo que sai, porque o trajecto é cosmológico antes de ser psicológico. O poeta — figura central na meditação dionisiana — é, nas suas próprias palavras, “essa ave metafísica” que sobrevoa o real para o trazer à condição de revelação. A esfera de João de Almeida Santos, vista desta perspectiva dionisiana, é uma aventura espiritual em ponto pequeno: a sua contemplação é trajecto, não instância. Vê-se, atravessa-se, sai-se transformado. A pretensa imobilidade da imagem é a fachada de uma operação dinâmica que envolve o espectador num movimento interior secreto. A pintura é, ela própria, uma ave metafísica que paira sobre o fundo negro como sobre um vazio fundador. Eis o legado mais subtil de Dionísio aplicado a esta obra: a esfera é menos uma forma fixa do que um itinerário sensível, menos um objecto do que uma rota — menos cousa do que ave.

Nuno Teixeira Neves, ensaísta portuense de formação histórico-filosófica em Coimbra (1949) e jornalista do Jornal de Notícias — coordenador do seu Suplemento Literário durante quase uma década, suprimido por represália política depois de o autor se candidatar à Oposição Democrática em 1969 —, ofereceu no seu Por um Tempo Europeu num Espaço Português(Porto, 1966) uma das mais lúcidas reflexões portuguesas sobre a tensão entre o particular cultural e o universal estético. A sua tese central — que a sensibilidade portuguesa só se cumpre quando se inscreve no tempo europeu sem perder o seu espaço próprio — fornece o quadro hermenêutico em que se torna possível pensar uma obra como esta, simultaneamente plenamente ancorada na tradição plástica portuguesa (a herança modernista que José Augusto França cartografou) e plenamente legível na grelha da fenomenologia estética europeia. Teixeira Neves é, neste ensaio, o nome de uma exigência metodológica: a recusa de qualquer compartimentação provinciana do estético. A esfera de João de Almeida Santos, justamente, satisfaz a exigência: é portuguesa sem ser localista, é europeia sem ser desenraizada. Está num tempo europeu (a abstracção, o digital, a metafísica do vazio) e num espaço português (a herança do silêncio plástico que vai de Vieira da Silva ao Pomar tardio, da gravidade contida que a língua sabe nomear). Nessa dupla pertença reside, de resto, a sua qualidade ensaística — qualidade que o ensaísmo de Teixeira Neves antecipara com meio século de avanço.

Entre Teixeira Neves e o José Gil dos anos noventa interpõe-se, com importância decisiva, o José Gil de 1987 — o autor de Fernando Pessoa ou a Metafísica das Sensações (Lisboa, 1987), tradução de um livro originalmente escrito em francês e que constitui, ainda hoje, a leitura filosófica de referência sobre o sensacionismo. Gil mostra aí que o sensacionismo não é uma simples poética nascida na Lisboa de 1915 entre Pessoa e Sá-Carneiro: é uma metafísica completa, em que a sensação se torna a unidade primária do real, anterior à divisão sujeito/objecto, anterior ao próprio eu. “Sentir tudo de todas as maneiras”, lema pessoano que Gil examina com paciência, traduz uma tese ontológica radical: o ser é sensação. Aplicado à esfera de João de Almeida Santos, este princípio revela o que, sem ele, permaneceria invisível: o que parece uma única cor é, em rigor, uma multiplicidade de sensações simultâneas — calor visto, peso intuído, silêncio escutado, brilho táctil, gravidade negada — todas conjugadas num único acontecimento. A esfera é sensacionista no sentido estritamente giliano: ela é o lugar onde uma única forma desencadeia uma pluralidade de sensações que se intensificam mutuamente sem se totalizarem em conceito. O sensacionismo pessoano lido por Gil prepara, em registo português e com meio século de antecedência sobre a fenomenologia francesa, o que Dufrenne formalizará depois como sinestesia estética. Há, portanto, uma anterioridade portuguesa da questão da sensação plurissensorial que este ensaio tem o dever de reconhecer.

José Gil, finalmente — o maior filósofo português vivo, cuja obra atravessa antropologia, estética, política e fenomenologia —, deu a esta linhagem a sua articulação mais radical no conceito gémeo de imagem-nua e de percepção nua. Em A Imagem-Nua e as Pequenas Percepções: Estética e Metafenomenologia (Lisboa, 1996), Gil propõe uma metafenomenologia do sensível que recusa a primazia tradicional da consciência reflexiva sobre a percepção. A imagem-nua é a imagem antes de ser imagem-de-algo: é a singularidade pura que vibra na consciência ainda não articulada, anterior a toda a predicação, anterior a toda a referencialidade. A percepção nua é o estado correlato no sujeito: estado em que o observador percebe sem ainda categorizar, sente sem ainda nomear, é tocado sem ainda interpretar. As pequenas percepções leibnizianas — que Gil retoma criativamente via Deleuze — operam neste plano sub-articulatório: são micropercepções que se acumulam sem se totalizar em consciência clara, e que constituem o tecido material subterrâneo de toda a experiência estética digna desse nome.

A esfera de João de Almeida Santos é, num sentido rigorosamente giliano, uma imagem-nua exemplar — talvez tão exemplar quanto qualquer outra na arte digital contemporânea portuguesa. Não representa nada — e por isso pode ser pura imagem. Não tem narrativa — e por isso ressoa nas pequenas percepções. Não pede categorização — e por isso solicita uma percepção nua. Olhar a esfera, na gramática de Gil, é experimentar uma forma de percepção que precede a habitual segmentação do mundo em coisas nomeáveis. É reencontrar, durante o instante da contemplação, um estado de consciência pré-categórica, próximo daquilo a que certos místicos chamaram “olhar sem sujeito” e daquilo a que os fenomenólogos chamaram “redução estética”. A esfera convida o espectador a regressar a este estado — não como regressão psicológica nem como nostalgia primitivista, mas como acesso filosófico a uma camada mais funda do sentir, camada que a vida quotidiana, com a sua sobrecarga semântica, perpetuamente recobre.

A convergência das três vozes portuguesas é notável e merece ser nomeada na sua articulação interna. Dionísio insiste na aventura: a obra como trajecto cosmológico do sujeito, o poeta-pintor como ave metafísica. Teixeira Neves insiste na confluência: a obra portuguesa como inscrição no tempo europeu sem perda do espaço próprio. Gil insiste na anterioridade dupla: a anterioridade da sensação sobre o sujeito (Gil de 1987) e a anterioridade da percepção sobre o conceito (Gil de 1996). Os três, lidos em conjunto, fornecem o vocabulário filosófico português adequado para descrever o que se passa, no espectador atento, quando olha a esfera de João de Almeida Santos: uma aventura sensorial pré-conceptual em pleno tempo europeu, onde a sensação se multiplica sem se totalizar e onde a imagem se oferece nua, despida de toda a mediação semântica. É esta a verdadeira herança em que a obra se inscreve — e é nela que ela encontra a sua família filosófica mais íntima.

Acrescente-se um último apontamento, que pertence sobretudo a Gil mas que prepara o terreno para tudo o que se seguirá. Em vários dos seus textos sobre arte e artistas — designadamente “Sem Título”: Escritos sobre Arte e Artistas (Lisboa, 2005) —, Gil sustenta que o melhor da arte contemporânea é aquela que consegue produzir o silêncio das categorias: aquela que, por uma operação de despojamento radical, devolve ao espectador a possibilidade de uma percepção pré-cultural. A esfera de João de Almeida Santos cumpre exemplarmente este programa. Não há nela ostentação de citações cultas, não há virtuosismo gestual exibido, não há acumulação compositiva. Há apenas uma esfera, um vazio, um chão. Por essa simplicidade radical, libera a percepção do espectador da fadiga semântica em que vive — e, libertando-a, dá-lhe simultaneamente o seu maior repouso e a sua maior intensidade.

h) Adorno e a promessa de felicidade

Adorno, finalmente, na sua Ästhetische Theorie (Frankfurt, 1970), forneceria o vocabulário decisivo. A esfera de João de Almeida Santos seria arte verdadeira precisamente porque não se deixa domesticar. É autónoma, enigmática, “negativa” no sentido específico em que Adorno usa o termo: nega o mundo administrado, nega a indústria cultural, nega a redução da obra a mercadoria ou a mero suporte ideológico. O seu “conteúdo de verdade” (Wahrheitsgehalt) reside, paradoxalmente, no que ela não diz, no que ela recusa dizer. O negro é o fundo da sociedade totalitária da imagem; a esfera luminosa é a promessa de felicidade — promesse de bonheur, na fórmula stendhaliana que Adorno retoma de modo crítico — que a arte ainda pode fazer.

Mas, como Adorno insiste em todos os seus textos, a promessa de felicidade da arte é uma promessa que dói. Dói porque sabemos que é irrealizável nas condições históricas em que vivemos. Dói porque o brilho da esfera é, simultaneamente, salvação e acusação: o mundo podia ser assim — mas não é. A obra de arte verdadeira, portanto, não consola: provoca a consciência da privação, fere a complacência, denuncia a falência do real. Esta dimensão de fissura, de ferida, de “álgebra das contusões” — para usar uma feliz expressão herdeira de Schlegel —, é o que distingue uma esfera de João de Almeida Santos de qualquer mero efeito decorativo. Aqui a beleza é uma exigência, não um conforto.

A FENOMENOLOGIA DA COR 
SEGUNDO MIKEL DUFRENNE, 
APLICADA À "ESFERA"

AVANÇAMOS agora para o segundo texto, aquele que pratica a leitura fenomenológica propriamente dita. A obra de Mikel Dufrenne — particularmente a Phénoménologie de l’expérience esthétique (Paris, 1953), em dois volumes, e o ensaio tardio L’œil et l’oreille (Montreal, 1987) — fornece o instrumental conceptual decisivo para pensar a cor como acontecimento, e não como qualidade. Convém recapitular brevemente esse instrumental antes de o aplicar à esfera.

Dufrenne distingue, na experiência estética, três momentos articulados: a Presença, a Representação, e o Sentimento-Reflexão. Estes momentos não são fases cronológicas sucessivas; são níveis de profundidade da mesma experiência. A Presença é o nível em que a obra nos toca antes de ser interpretada; a Representação é o nível em que a obra abre um mundo expressivo; o Sentimento-Reflexão é o nível em que a obra revela uma conivência entre o sensível humano e o sensível do mundo. Cada nível tem o seu modo próprio de operar, e a estética dufreniana consiste, em rigor, em aprender a habitar cada um deles sem reduzir um ao outro.

a) Presença - a esfera 
como qualidade afectiva pré-conceptual

Na Presença, a esfera de João de Almeida Santos não é ainda “laranja” nem “dourada”. Estas palavras são já predicados, e o predicado supõe um sujeito que prediga. Ora, na Presença, ainda não há sujeito predicador; há, mais radicalmente, uma força que invade o observador antes de qualquer juízo. O laranja pletórico não se vê — sente-se. É calor que queima o olhar; é peso luminoso que se expande na pele antes de aceder ao córtex; é uma intensidade que se inscreve no corpo todo, em obrigação fisiológica anterior à consciência.

Dufrenne diria que esta cor possui uma qualidade afectiva que precede qualquer conceito. Ela abre o que ele chama profondeur sensible — espessura do sensível onde o espectador já está implicado antes de reflectir. O negro absoluto da tela não é, neste nível, a “ausência de cor”: é o fundo contra o qual a cor se afirma como pura resistência luminosa. O ocre do chão, por sua vez, não é apenas o suporte da esfera: é a terra que recebe o fogo, criando uma horizontalidade precária que ancora o cósmico no terrestre, o sublime no habitável.

Sublinho, porque é decisivo: na Presença, o observador é menos um sujeito que olha do que um corpo que é olhado. A esfera olha-nos. Não no sentido metafórico; no sentido fenomenológico estrito que Merleau-Ponty trabalhou em L’Œil et l’Esprit (Paris, 1964): há uma reversibilidade do visível, há um quiasma entre o que vê e o que é visto. Olhar a esfera é ser convocado por ela. É deixar-se atingir pela sua intensidade. É experimentar uma transitividade sensível anterior à transitividade gramatical.

b) Representação 
- A esfera como abertura de mundo

No segundo momento — a Representação —, a cor revela-se como expressão. Insisto: Representação em Dufrenne não é ilustração. Não significa que a obra representa um conteúdo. Significa que a obra abre um mundo. A esfera não representa o Sol, não representa o Ovo Cósmico, não representa o átomo primordial, não representa a mónada leibniziana, não representa o Olho de Deus. Ela exprime um universo no qual a luz luta com o nada — universo no sentido cosmogónico, e não no sentido astronómico.

A cor torna-se, nesse momento, o vocabulário de um mundo. O laranja-âmbar não é decorativo; é o tom de uma atmosfera cósmica — quente, solitária, pletórica. Aquilo a que Dufrenne chama categorias afectivas, ou a priori afectivos, opera precisamente aqui: certas cores trazem consigo, de forma quase transcendental, um sentido de intensidade, de isolamento sublime, de fogo que não consome porque é puro brilho. A cor é uma operadora ontológica, no sentido em que opera a abertura de um mundo possível.

Há aqui um paralelo fecundo com a noção heideggeriana de Welt-Erschlossenheit, abertura de mundo, tal como surge em Der Ursprung des Kunstwerkes (Frankfurt, 1950). Para Heidegger, a obra de arte coloca-em-obra a verdade; e o pôr-em-obra da verdade consiste em abrir um mundo e em pôr em pé uma terra. Não custa ver, na esfera de João de Almeida Santos, este duplo movimento: a luz que abre um mundo (a esfera que se desprende do plano) e a terra que se põe em pé (o ocre que sustenta sem absorver). A obra dufreniana, neste segundo momento, encontra-se naturalmente com a obra heideggeriana e ambas convergem para o reconhecimento de que a arte é fundamentalmente uma operação de abertura.

c) Sentimento-Reflexão 
- Conivência entre o homem e o mundo

No terceiro momento — Sentimento-Reflexão —, a cor revela o seu sentido mais profundo. Não é apenas sensação, não é apenas expressão: torna-se o lugar de uma conivência originária entre o homem e o mundo. Olhar a esfera é, por instantes, habitar um cosmos onde o fogo primordial resiste ao abismo. A cor laranja não ilumina apenas a tela: ilumina o nosso próprio ser sensível.

É aqui que toda a leitura crítica anteriormente delineada encontra a sua razão profunda. A ausência humana na esfera não é falta — é condição para que a cor se torne pura presença cósmica. Se houvesse uma figura humana, a cor estaria já apropriada por essa figura, estaria já mediada, estaria já refeita à medida do antropomórfico. A sua ausência é uma operação de libertação: a cor pode, agora, exercer a sua função cósmica sem se ver reduzida à decoração de um drama interpessoal. Esta é, ao mesmo tempo, a razão estética e a razão ética da composição: a esfera respeita o cósmico ao não o subordinar ao humano.

Convém aqui invocar Henri Maldiney e o seu Regard parole espace (Lausanne, 1973). Maldiney distingue, dentro da experiência estética, o gnóstico (o que se sabe) e o pathique (o que se sofre, no sentido de sustentar pacientemente, hospedar). A esfera de João de Almeida Santos opera prioritariamente no plano pathique. Ela não se deixa saber; deixa-se sustentar. Cada espectador que ela toca torna-se, por um instante, hóspede do seu acontecimento. Não se entra na esfera; abre-se à esfera. Esta diferença gramatical — entrar/abrir-se — é a diferença entre uma estética da posse e uma estética da hospitalidade.

d) Sinestesia e totalidade sensível

Um último apontamento dufreniano. Em L’œil et l’oreille (Montreal, 1987), Dufrenne aprofunda a tese de que a experiência estética é necessariamente sinestésica. A cor não se vê, vive-se. E o seu viver-se mobiliza, simultaneamente, vários registos sensoriais. A cor da esfera é, ao mesmo tempo, visual (vemos o brilho), térmica (sentimos o calor), quase sonora (há um zumbido silencioso, um drone interno, como se a esfera tivesse uma frequência inaudível) e quase táctil (quase se toca o brilho, quase se sente a aspereza fina do ocre). Esta sinestesia faz da obra um acontecimento total — um acontecimento que envolve o corpo todo do espectador, e não apenas a sua retina.

É esta sinestesia que dá conta, a meu ver, da pluralidade das leituras críticas legítimas. Cada espectador entra na obra pela porta sensorial que lhe é mais própria. O sinestésico instala-a no calor; o melómano ouve nela uma nota baixa; o táctil sente-a quase como cerâmica polida. A obra acolhe estas múltiplas entradas porque é, ela mesma, uma obra plurissensorial. Eis o que distingue, em Dufrenne, a arte verdadeira da arte decorativa: a arte verdadeira é convocação plenária do sensível humano, e não solicitação parcial de um único registo.

GENEALOGIA SUBTERRÂNEA - O COSMOS, 
O UNIVERSO CRIADOR E O CÉREBRO CRIADOR

CHEGÁMOS AO PONTO em que o ensaio deve abandonar a postura comentadora e ousar uma reflexão própria. A pintura de João de Almeida Santos, com a sua esfera incandescente, o seu negro absoluto e o seu chão ocre, exibe — quero defendê-lo aqui — uma genealogia subterrânea que liga três planos habitualmente separados: o plano da cosmogonia (a génese do cosmos), o plano da arte (a génese do sensível) e o plano da neuroestética (a génese cerebral da experiência criadora). Não defendo que a obra ilustra estes três planos; defendo, mais fortemente, que ela os põe em comunicação. A obra é o lugar onde estes três planos se reconhecem.

a) A cosmogonia - Tzimtzum, 
Shevirat ha-Kelim, Tikkun

A grande tradição cosmogónica luriânica, codificada por Hayyim Vital no Etz Chayim (séc. XVI; Jerusalém, edição moderna 2003) a partir do ensino oral de Isaac Lúria, propõe um modelo da criação em três tempos. Primeiro tempo: tzimtzum— retracção, contracção do Infinito (Ein Sof) sobre si próprio, abrindo um espaço vazio (chalal) onde algo de não-divino possa existir. Segundo tempo: emanação da luz primordial (Or Ein Sof) para dentro desse espaço, com a formação das vasilhas (kelim) destinadas a recebê-la. Terceiro tempo: Shevirat ha-Kelim — a quebra das vasilhas, incapazes de suportar a intensidade da luz; daí resultam cacos (klipot) e chispas (nitzotzot) dispersas, que aguardam o Tikkun, a reparação, a recolha das chispas e a sua restituição à fonte.

A esfera de João de Almeida Santos pode ser lida — proponho-o como hipótese hermenêutica forte — como uma cifra plástica deste cosmograma. O negro absoluto é o chalal pós-tzimtzum: o espaço vazio que resulta da retracção do Infinito. O ocre do chão é a matéria primeira que recebeu a primeira temperatura da luz; é a terra que recorda o fogo, sem o conter. E a esfera é a vasilha que, milagrosamente, ainda não se quebrou: vasilha pletórica, à beira da ruptura, contendo no seu interior uma luz que ameaça transbordar. A obra apresenta-se, portanto, como o instante prévio à Shevirat ha-Kelim: o instante em que tudo ainda está contido, mas em que o transbordo é iminente. É um instante de uma tensão metafísica extrema, e é por isso que olhar a esfera produz, no espectador atento, uma vibração interior que escapa à descrição cromática.

A leitura kabbalística não é decorativa. Ela articula-se inteiramente com a leitura fenomenológica anterior. A Presença dufreniana corresponde, mutatis mutandis, à percepção da intensidade da Or; a Representação corresponde à compreensão das vasilhas como abertura de mundo; o Sentimento-Reflexão corresponde ao reconhecimento do Tikkun como tarefa do espectador. Olhar a esfera é, neste sentido luriânico secularizado, recolher uma chispa. O espectador sai da obra com algo dela que se inscreve nele, e que ele, ao circular no mundo, restitui ao mundo. A obra opera, secretamente, um Tikkun em ponto pequeno.

b) O universo criador 
- Arte como cosmogonia em miniatura

A tradição estética alemã, desde Schelling e Hegel até Adorno e Heidegger, intuiu repetidamente que a obra de arte é uma cosmogonia em miniatura. Não no sentido em que reproduz a estrutura do cosmos físico, mas no sentido em que repete, no plano simbólico, o gesto da criação: faz aparecer um mundo onde antes não havia mundo. Paul Klee, no seu Das bildnerische Denken (Basileia, 1956), formulou esta intuição com a precisão de um teólogo da pintura: a arte não reproduz o visível, torna visível. A esfera de João de Almeida Santos torna visível o que não há lugar para se tornar visível por nenhum outro meio: torna visível a tensão entre o fogo e o vazio, entre a luz e o abismo, entre o pletórico e o nada. Não há fotografia que possa fazê-lo; não há linguagem discursiva que possa fazê-lo; não há gesto natural que possa fazê-lo. Só a arte — e, neste caso preciso, só esta arte — o pode.

É por isso que a obra é, simultaneamente, arte e universo criador. Ela inaugura. Ela põe a existir o que antes não existia, e o que, sem ela, não existiria de modo algum — exceptuando, talvez, no sonho íntimo do seu autor. Mas o sonho íntimo do autor não chega para constituir um existente público; chega apenas para o pressentir. A obra, ao tornar-se artefacto, ao circular, ao receber espectadores, transforma-se num existente público pleno, que doravante faz parte do mobiliário do mundo. Eis o salto ontológico decisivo: do íntimo ao cósmico, passando pela obra.

c) O cérebro criador 
- Neuroestética do fogo contido

A última camada genealógica que importa explicitar é a do cérebro criador. Semir Zeki, em Inner Vision (Oxford, 1999), e António Damásio, em Self Comes to Mind (Nova Iorque, 2010), insistiram na ideia de que a experiência estética não é um epifenómeno cortical de outras funções; é uma função cerebral de pleno direito, com mapas próprios, com circuitos próprios, com economia neural específica. A activação produzida por uma obra como a esfera de João de Almeida Santos envolve simultaneamente o córtex visual primário (V1), as áreas V4 (processamento da cor), V5 (processamento do movimento e da intensidade dinâmica), o sistema límbico (resposta emocional), o córtex pré-frontal medial (atribuição de valor estético) e — em sujeitos sensíveis — áreas do córtex insular ligadas ao sentir corporal interoceptivo.

O que isto significa, em termos filosóficos, é o seguinte: o que o Texto Crítico descreve como “calor que atravessa o observador” e o que o Texto Dufreniano descreve como “qualidade afectiva pré-conceptual” têm um correspondente neurobiológico reconstituível. Não estamos perante metáforas vagas; estamos perante a descrição fenomenológica de um acontecimento que tem, no cérebro do espectador, uma assinatura electrofisiológica precisa. O cérebro criador é, portanto, simultaneamente o cérebro do autor que produziu a obra e o cérebro do espectador que a recebe. O autor cria a obra; a obra cria, em parte, o cérebro do espectador. Há uma circulação criadora bidireccional.

Esta circulação tem, ela própria, uma genealogia subterrânea. O fogo contido — esta esfera que arde sem queimar, esta luz que ilumina sem irradiar — corresponde a um arquétipo cerebral profundo, o arquétipo da continência. Gaston Bachelard, em La psychanalyse du feu (Paris, 1938) e mais tarde em La poétique de l’espace (Paris, 1957), mostrou que a imaginação humana é estruturalmente fascinada pelo fogo contido — pela lâmpada, pela vela, pela lareira, pela brasa. A esfera de João de Almeida Santos é o equivalente cósmico desta imagem doméstica: é a vela primordial, é a lâmpada que arde antes de toda a habitação. Eis porque a obra ressoa tão profundamente em quem a olha: ela toca um arquétipo que precede toda a aprendizagem cultural particular. Toca o fogo que a humanidade aprendeu a guardar, dentro das cavernas e mais tarde dentro dos templos, e que recorda a cada um de nós que somos espécie do fogo.

d) Plotino e a emanação

Não posso, na economia deste ensaio, esquecer Plotino. Nas Ennéades (séc. III; ed. Bréhier, Paris, 1924), Plotino descreve a emanação do Uno em três hipóstases sucessivas: Uno (Hen), Inteligência (Nous), Alma (Psyché). A imagem usada é, justamente, a da luz que emana sem se dividir, sem se perder, sem se diminuir. O Uno é como a fonte luminosa que se difunde em raios sem deixar de ser fonte. A luz é o paradigma metafísico da causalidade não-extensiva: a luz é integralmente em cada raio sem ser numericamente plural.

A esfera de João de Almeida Santos pode também ser lida como uma cifra plotiniana. O núcleo luminoso, fora-de-centro, mas tão denso, é o Hen plotiniano. O corpo da esfera, com a sua gradação cromática, é o Nous, a Inteligência que desdobra a unidade em multiplicidade ainda concentrada. O ocre do chão é a Psyché, a Alma, princípio de organização do sensível mais baixo. E o negro é, ao mesmo tempo, a indeterminação prévia (a Matéria, Hyle) e o paradoxo do Uno (que, por excesso, é também noite, hyperousion, além-ser). Esta leitura plotiniana, longe de contradizer a leitura luriânica, complementa-a: ambas são gramáticas da emanação, traduzidas em duas tradições espirituais diferentes.

e) Bachelard, Buber, Levinas 
- A ética do fogo

Há, finalmente, uma dimensão ética que não posso silenciar, e que liga este ensaio à minha própria obra anterior. Em A Intriga Ética (Porto, 2001) defendi que a ética não é um capítulo aplicado da filosofia, mas o seu fundamento; e que a relação com o outro precede ontologicamente a relação com o ser. A esfera de João de Almeida Santos, vista desta perspectiva, é mais do que uma cosmogonia; é uma cena de hospitalidade. O negro absoluto seria, nessa leitura, o lugar do Outro: o lugar que escapa à apropriação, ao saber, à medida. A esfera seria a luz oferecida: oferecida, e não imposta. O ocre seria o limiar, a soleira, o lugar onde o anfitrião e o hóspede se encontram, sem se confundirem.

Martin Buber, em Ich und Du (Leipzig, 1923), tinha já intuído que a relação fundamental do humano com o real é a relação Eu-Tu, e não a relação Eu-Isso. A esfera de João de Almeida Santos, na nossa leitura, é uma esfera-Tu, e não uma esfera-Isso. Não a possuímos; somos por ela interpelados. Levinas, em Totalité et infini (Haia, 1961) e mais radicalmente em Autrement qu’être (Haia, 1974), iria reforçar este ponto: o outro precede sempre o eu; o rosto do outro é a primeira fonte de sentido. A esfera, sem ter rosto humano, opera no espectador a mesma operação que o rosto opera: convoca, interpela, exige. Por isso, dizia eu no Limiar, ela exige não tanto interpretação quanto testemunho.

SÍNTESE TRIPARTIDA: A OBRA,
A CRÍTICA, A FENOMENOLOGIA

CHEGADO O MOMENTO DA SÍNTESE, importa não cair na tentação de uma reconciliação demasiado fácil. Os três textos com que dialogámos — a pintura ela mesma, o Texto Crítico e o Texto Dufreniano — não dizem a mesma coisa; dizem três coisas diferentes que se iluminam mutuamente. Esta diferença é constitutiva e não acidental, e cabe nomeá-la com precisão para evitar o erro habitual da síntese ingénua.

A Pintura diz a presença. É o acontecimento ele mesmo, sem mediação discursiva. A esfera não fala, não explica, não interpreta. Ela aparece. E ao aparecer, instaura um mundo. O seu modo de existência é o modo do impacto sensível imediato, anterior a qualquer linguagem.

O Texto Crítico diz a tradição. Mobiliza Goya, Van Gogh, o dadaísmo, Kandinsky, José Augusto França, a constelação filosófica portuguesa da sensação (Sant’Anna Dionísio, Nuno Teixeira Neves, José Gil) e Adorno para mostrar de que linhas de descendência a esfera é herdeira, e contra que linhas se constitui. O seu modo de existência é o modo da inserção histórica e do julgamento culto. É uma operação de reconhecimento.

O Texto Dufreniano diz a fenomenologia. Articula os três momentos da experiência estética (Presença, Representação, Sentimento-Reflexão) e mostra como a cor laranja-âmbar funciona em cada um deles. O seu modo de existência é o modo da análise dos níveis. É uma operação de descrição filosófica.

Estes três discursos correspondem, em rigor, a três níveis ontológicos diferentes da própria experiência estética: o nível do acontecimento, o nível da história e o nível da estrutura. A obra-acontecimento é o que se dá; a obra-história é o que se herda; a obra-estrutura é o que se articula. Os três níveis não se sobrepõem nem se substituem; convivem como as três dimensões de um sólido. Sem a obra-acontecimento, a história é mero museu; sem a obra-história, o acontecimento é mero deslumbramento; sem a obra-estrutura, o acontecimento e a história permanecem indizíveis. É exactamente esta tripla articulação que permite à esfera de João de Almeida Santos ser obra de arte plena, e não apenas imagem digital agradável.

Mais ainda: estes três níveis correspondem, na minha própria gramática filosófica, ao triplo movimento da intriga ética. O acontecimento (a presença sensível imediata) corresponde à interpelação. A história (a inserção tradicional) corresponde à inscrição. A estrutura (a articulação fenomenológica) corresponde à responsabilidade. A obra interpela o espectador; inscreve-se na sua memória cultural; convoca-o à responsabilidade de a recolher e a transmitir. A circulação ética da obra é, assim, o seu modo próprio de existir na duração.

CODA - O QUE ARDE DENTRO DE NÓS

APROXIMANDO-SE O FIM, importa devolver a palavra à pergunta que o Texto Crítico, com uma intuição certeira, formulou: o que arde dentro de nós quando olhamos para esta esfera? A pergunta é simples, mas o que dela se pode dizer é vasto. Arde, em primeiro lugar, a memória sensível: aquela memória que precede toda a história individual e que liga cada um de nós às fogueiras dos antepassados, aos candeeiros das cavernas, às chamas dos templos. Arde, em segundo lugar, a inteligência cósmica: aquela parte de nós que reconhece, no instante da contemplação, que o universo poderia muito bem não ter existido — e que, ao existir, oferece-nos, com generosidade incompreensível, a possibilidade de o olhar.

Arde, em terceiro lugar, a esperança ética: aquela esperança que, sabendo o mundo ferido, recusa render-se à ferida. A esfera de João de Almeida Santos não promete um mundo sem ferida; promete que, mesmo na ferida do mundo, a luz pode permanecer contida, sem se dispersar, sem se extinguir. E nessa promessa frágil — promesse de bonheur que dói, na fórmula adorniana — reside, talvez, o sentido último da arte. Não nos consolar de modo barato. Não nos distrair da catástrofe. Mas mostrar-nos, no meio da catástrofe, que ainda há uma esfera. Que ainda há um centro. Que ainda há uma ordem possível.

É por esta razão que a esfera de João de Almeida Santos deve, a meu ver, ocupar um lugar próprio no panorama da arte digital contemporânea de língua portuguesa. Não pelo seu virtuosismo técnico, embora ele exista e mereça consideração. Não pela sua novidade formal, embora ela seja real e calculada. Mas pela qualidade do seu testemunho. Em tempos saturados de imagem efémera, de scroll vertiginoso, de visibilidade desperdiçada, esta obra resiste por uma força que é simultaneamente estética e ética: ela detém o olhar. E ao detê-lo, devolve o olhar a si próprio.

Concluo, portanto, com a fórmula que serve de epígrafe a este ensaio: a luz não se demonstra, testemunha-se. A esfera de João de Almeida Santos é, na sua perfeição cromática contida, um testemunho. E o que dela se pode dizer, neste como em qualquer outro ensaio, é apenas isto: um testemunho do testemunho. O que ela exige, todavia, é mais. Exige que cada espectador, ao deparar com ela, se torne ele próprio uma pequena vasilha, capaz de receber uma chispa e de a restituir ao mundo. Esse é, em última análise, o sentido do Tikkun: a obra acontece, a chispa cai, e cabe a cada um recolhê-la. Se este ensaio servir de instrumento, modesto, para essa recolha, então terá cumprido a sua função. AMV@ 05-2026

REFERÊNCIAS

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Bachelard, G. (1938). La psychanalyse du feu. Paris, França: Gallimard.

Bachelard, G. (1957). La poétique de l’espace. Paris, França: Presses Universitaires de France.

Buber, M. (1923). Ich und Du. Leipzig, Alemanha: Insel-Verlag.

Damásio, A. (2010). Self comes to mind: Constructing the conscious brain. Nova Iorque, NY, EUA: Pantheon Books.

Dionísio, S. (1953). O poeta, essa ave metafísica. Porto, Portugal: Imprensa Portuguesa.

Dufrenne, M. (1953). Phénoménologie de l’expérience esthétique (2 vols.). Paris, França: Presses Universitaires de France.

Dufrenne, M. (1987). L’œil et l’oreille. Montreal, QC, Canadá: L’Hexagone.

França, J. A. (1974). A arte em Portugal no século XX (1911–1961). Lisboa, Portugal: Bertrand.

Gil, J. (1987). Fernando Pessoa ou a metafísica das sensações (M. Serras Pereira & A. L. Faria, Trad.). Lisboa, Portugal: Relógio d’Água.

Gil, J. (1996). A imagem-nua e as pequenas percepções: Estética e metafenomenologia. Lisboa, Portugal: Relógio d’Água.

Gil, J. (2005). “Sem título”: Escritos sobre arte e artistas. Lisboa, Portugal: Relógio d’Água.

Heidegger, M. (1950). Der Ursprung des Kunstwerkes. In Holzwege. Frankfurt am Main, Alemanha: Vittorio Klostermann.

Kandinsky, W. (1912). Über das Geistige in der Kunst, insbesondere in der Malerei. Munique, Alemanha: R. Piper & Co.

Kaplan, A. (1982). Meditation and Kabbalah. York Beach, ME, EUA: Samuel Weiser.

Klee, P. (1956). Das bildnerische Denken: Schriften zur Form- und Gestaltungslehre. Basileia, Suíça: Schwabe & Co.

Levinas, E. (1961). Totalité et infini: Essai sur l’extériorité. Haia, Países Baixos: Martinus Nijhoff.

Levinas, E. (1974). Autrement qu’être ou au-delà de l’essence. Haia, Países Baixos: Martinus Nijhoff.

Maldiney, H. (1973). Regard parole espace. Lausanne, Suíça: L’Âge d’Homme.

Merleau-Ponty, M. (1964). L’œil et l’esprit. Paris, França: Gallimard.

Plotino. (1924). Ennéades (É. Bréhier, Trad.; obra original séc. III). Paris, França: Les Belles Lettres.

Richir, M. (1992). Méditations phénoménologiques: Phénoménologie et phénoménologie du langage. Grenoble, França: Jérôme Millon.

Scholem, G. (1941). Major trends in Jewish mysticism. Jerusalém, Israel: Schocken.

Teixeira Neves, N. (1966). Por um tempo europeu num espaço português. Porto, Portugal: Editorial Inova.

Veríssimo, A. M. (2001). A intriga ética. Porto, Portugal: Edições CB.

Vital, H. (2003). Etz Chayim (S. Bar-Lev, Trad.; obra original séc. XVI). Jerusalém, Israel: Yeshivat Kol Yehuda.

Zeki, S. (1999). Inner vision: An exploration of art and the brain. Oxford, Reino Unido: Oxford University Press.

 

Poesia-Pintura

CHÃO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Luz na Montanha"
JAS 2021
(92x123, papel de algodão, 310gr,
e verniz Hahnemühle, Artglass, AR70)
Original de minha autoria
Maio de 2026

“Luz na Montanha” – JAS2021

POEMA – “CHÃO”

DESCESTE,
Já nem sei 
De onde,
Cravaste raízes
Profundas
Neste meu
Sagrado chão,
Que me fala
E me responde...
...........
Nunca fica
 Em negação.

AO LONGE,
Lá na montanha
Sagrada,
Surge, do nada,
Incandescente,
Um clarão;
São meus olhos
Que t'iluminam
Ou a montanha
Que celebra 
O meu chão?

NUNCA VI
Chover do céu
Tanta luz
E o chão
Que sempre piso
É delicada raiz
Que cresce
Dentro de mim
À medida
Do teu sorriso,
À medida
Do que ele me diz.

ESTA LUZ
Que lá do alto
Ilumina
É magia,
É milagre,
É fogo
Que me fascina
Neste meu
Entardecer,
Faz-me voar
No azul profundo
Do céu
Apenas para
Te ver.

NAS RAÍZES
Que crescem,
Por dentro
E por fora,
Como rendilhado
Deste meu chão
Seminal
Tenho presa
A minha alma
Como se fosse
Prisão
Por pecado capital.

MAS NELE ELEVA-SE 
A geometria
Perfeita 
De um monólito 
Sideral
Para te invocar
Em ritual
De montanha
Onde possas
Renascer
Como a divindade
Da chama.

A MAGIA
Do meu chão,
Despertada 
Pela luz
Que vem 
Lá de cima,
 Do alto,
Devolve-me
A liberdade
E acende-me 
A fantasia,
Põe-me a alma
Em sobressalto
E o meu corpo
Em euforia.

ENTÃO, CANTO
Então, danço
Neste chão
Que é só meu,
Dou asas
À fantasia
E a fronteira...
........
É o céu.

Artigo-Ensaio

A PAUTA ABISSAL E O PONTO DE FUGA

Sobre "FRAGMENTOS" (XXVII), de
João de Almeida Santos
Cataláxia da Tradição 
Filosófica Europeia
Magma e Estética Dendrológica

André Moshe Veríssimo, PhD

“Voar” – JAS2023

«E são as palavras 
que nos permitem levitar»
João de Almeida Santos, 
Fragmentos (XXVII) 2026
«Eksaíphnês — o súbito»
Platão, Banquete, 210e
« Em tempos felizes 
são raros os sonhadores»
  Hölderlin
«Niemand zeugt 
für den Zeugen»
«Ninguém testemunha 
pela testemunha»
Paul Celan
RESUMO

O presente ensaio propõe uma leitura sistémica dos Fragmentos (XXVII) — Para um Discurso sobre a Poesia, de João de Almeida Santos, publicados a 19 de Maio de 2026, como um lugar privilegiado em que se cumpre, em registo lusófono contemporâneo, uma cataláxia indefectível da grande tradição filosófica europeia. Os nove fragmentos do autor, articulados em torno da palavra como recurso na perda, da poesia como filha da dor, da leveza calviniana, do abismo heideggeriano entre poesia e pensar, do kairós e do eksaíphnês platónicos, da musa como aparição súbita e do ponto de fuga como condição existencial, formam um discurso que dialoga subterraneamente com a tríade românica alemã (Hölderlin, Novalis), com a fenomenologia existencial (Heidegger), com o sensacionismo pessoano lido por José Gil, com a hermética portuguesa de Leonardo Coimbra, Sant’Anna Dionísio, José Marinho, Teixeira de Pascoaes e António Braz Teixeira, com a poética da testemunha em Paul Celan, com a hospitalidade ética em Marc-Alain Ouaknin e com a cabala luriânica em Arieh Kaplan. A análise organiza-se em torno de duas figuras estruturais: a pauta abissal (Heidegger lido no abismo onto-poético, Celan lido na cesura da palavra, Pessoa lido no feixe das sensações) e o ponto de fuga (categoria simultaneamente pictórica e existencial, articulada com a Lichtung heideggeriana, a saudade pascoaesiana e o tzimtzum luriânico). O conceito operativo de cataláxia, retomado de Friedrich Hayek e ressignificado em chave estético-cultural, designa o intercâmbio espontâneo entre tradições heterogéneas em torno de um centro irradiante — neste caso, o magma filosófico e a estética dendrológica do discurso de Almeida Santos sobre a poesia. O ensaio inscreve-se nas correntes patentes (citações explícitas de Calvino, Drummond, Hölderlin, Novalis, Heidegger, Dante, Baudelaire e Hegel) e latentes (Platão, Freud, Benjamin, Barthes, Bergson, Proust) da rede intertextual mobilizada pelo autor, e propõe, em conclusão, uma reflexão sobre a poesia como simbolismo criador, como liturgia existencial e como resistência ao vento antropocénico da fadiga semiótica.

Palavras-chave: João de Almeida Santos; fragmentos; poesia; leveza; abismo; kairós; eksaíphnês; cataláxia; magma filosófico; estética dendrológica; ponto de fuga; hermética portuguesa; simbolismo criador

LIMIAR - O MAGMA E O SÍMBOLO

A 19 de Maio de 2026, João de Almeida Santos publicou no seu blog — espaço de difusão regular do seu pensamento filosófico, poético e pictórico — a vigésima sétima entrega dos seus Fragmentos, subtitulada Para um Discurso sobre a Poesia. Trata-se de nove fragmentos numerados, intercalados por duas pinturas digitais do próprio autor (Voar, 2023, e Cristais, 2022), que constituem, lidos em conjunto e na ordem em que se oferecem, um verdadeiro tratado em ponto pequeno sobre a essência da poesia. O ensaio que aqui se inicia é exclusivamente dedicado a esse texto: à sua arquitectura interna, às correntes patentes que o autor convoca explicitamente, às tradições latentes que o sustentam sem que sejam nomeadas e à cataláxia europeia em que esse discurso se inscreve por afinidade subterrânea.

Importa, antes de qualquer análise temática, fixar duas figuras estruturais que organizarão a leitura. A primeira é a do magma filosófico: aquela camada incandescente em que o pensamento, antes de assumir forma conceptual articulada, vibra em estado de pura intensidade afectiva. O magma é a fonte; o conceito é a sua cristalização superficial. Em Almeida Santos, o magma manifesta-se na pulsão poética que “põe a alma em estado febril”, na “moinha na alma do poeta”, na musa que vem “lá do alto envolta numa neblina cintilante”. A segunda figura é a da estética dendrológica: a arte como árvore, com raízes na dor (Novalis, Hölderlin), tronco na palavra (a sublimação verbal contra o recalcado), ramos no espírito (a leveza calviniana, o ponto de fuga, o azul do céu) e folhas que caem no outono e renascem na primavera (o ciclo de Perséfone que atravessa o fragmento 2). O magma vive nas raízes; o símbolo cresce nos ramos; entre ambos circula a seiva da palavra, que é simultaneamente terrena e celeste. Esta dualidade dendrológica é a chave estética que organiza o discurso de Almeida Santos sobre a poesia.

A tese geral deste ensaio é a seguinte: os nove fragmentos não são aforismos dispersos, mas elos de uma cadeia hermenêutica rigorosa em que se cumpre, em registo lusófono contemporâneo, uma cataláxia indefectível das grandes tradições filosóficas europeias — da romântica alemã (Hölderlin, Novalis) à fenomenológica existencial (Heidegger), da hermética portuguesa (Leonardo Coimbra, Pascoaes, Sant’Anna Dionísio, José Marinho, António Braz Teixeira) à metafenomenológica (Pessoa lido por José Gil, Manuel Sumares), da poética da testemunha (Paul Celan) à cabala filosófica (Marc-Alain Ouaknin, Arieh Kaplan). O termo cataláxia, tomado de Friedrich Hayek e ressignificado em chave estético-cultural, designa o intercâmbio espontâneo entre estas tradições heterogéneas em torno do centro irradiante que são os Fragmentos (XXVII). Não há aqui ecletismo, nem sincretismo, nem comparativismo redutor: há confluência por afinidade subterrânea, em que cada tradição se reconhece na outra sem perder a sua diferença própria.

Antes de iniciar a análise propriamente dita, importa ainda fixar três motivos transversais que o discurso de Almeida Santos explicita com precisão admirável. O primeiro é o do kairós — o tempo oportuno, distinto do chrónos contínuo, em que a aparição da musa se cumpre nos “dois minutos” da neblina cintilante. O segundo é o do eksaíphnês platónico — o súbito do Banquete e da Carta VII, o instante absoluto em que algo se mostra fora de toda a duração mensurável. O terceiro é o do abismo — categoria heideggeriana central, retomada do segundo curso de Was heisst Denken? (Tübingen, 1954), em que poesia e pensar, separados quanto à génese, se reencontram “lá no alto”. Estes três motivos, articulados, formam a base operacional sobre a qual o discurso se cumpre. Tempo oportuno, instante súbito, abismo de encontro: tríade ontológica em que a poesia respira.

I. O Magma Filosófico: 
a Palavra como Recurso na Perda

O primeiro fragmento abre com uma sentença lapidar de alcance ontológico: “As palavras são o recurso quando estamos em perda.” Esta proposição, aparentemente despretensiosa, condensa uma teoria completa da poesia — a poesia como resposta verbal à experiência da privação. Almeida Santos não a apresenta como mera observação psicológica: explicita-a como antropologia. A poesia nasce não da plenitude, mas da falta; não da posse, mas do desejo; não da satisfação, mas da incompletude. Daí a citação imediata de Hölderlin — “em tempos felizes são raros os sonhadores” — e de Novalis, com o seu elogio da dor e o vertilgen (extermínio) do Unlust (desprazer) pela poesia. A palavra alemã Unlust é decisiva: designa não a dor física, mas o desprazer ontológico, aquela espécie de fundo melancólico que constitui a tonalidade afectiva primordial do existir humano segundo a tradição romântica alemã. A poesia, em Novalis, é o que extermina o Unlust — não eliminando-o, mas transformando-o em forma.

Esta tese romântico-alemã encontra em Almeida Santos uma reformulação técnica e indefectível. O autor distingue, com a precisão de quem leu Freud sem se deixar reduzir por ele, a verbalização poética da simples Sublimierung freudiana: “algo parecido com a psicanálise, mas muito mais interessante e também terapêutico”. A diferença é decisiva. Em Freud, a sublimação é dispositivo psicológico de redireccionamento das pulsões. Em Almeida Santos — e aqui se cumpre uma operação tipicamente portuguesa, herdeira do criacionismo de Leonardo Coimbra (1912, O Criacionismo: Esboço de um Sistema Filosófico, Porto: Renascença Portuguesa) — a palavra poética não redirecciona apenas a pulsão: cria. Faz advir. Instaura uma forma onde antes havia magma indistinto. É operação ontológica de primeira ordem e não mero mecanismo psíquico de defesa.

O magma filosófico que estes primeiros fragmentos revelam é, neste sentido, a camada pré-formal do existir em que se gera a poesia. Nem matéria pura (que seria informe), nem forma pura (que seria abstracta), o magma é a vida em estado de pré-cristalização — aquilo a que Bergson chamava durée, aquilo a que Heidegger chamava Stimmung afectiva fundamental, aquilo a que Pessoa, lido por José Gil em Fernando Pessoa ou a Metafísica das Sensações (Lisboa, 1987), chamava o feixe das sensações antes do eu que as enfeixa. Em Almeida Santos, o magma é “a moinha na alma do poeta”: aquela poeira fina de afectos não-resolvidos que se acumula no passado e que “precisa de palavras para se acalmar”. Imagem extraordinariamente justa: o poeta como aquele que dá palavra à poeira da alma, transformando o resíduo em forma.

Convém aqui mobilizar Leonardo Coimbra na sua articulação portuense da filosofia da criação. Para Coimbra — que José Marinho explicaria depois em O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra (Porto, 1945) — toda a vida superior é criadora, e o homem é o ente que se cumpre na medida em que cria. A poesia é, neste sentido leonardino, a actividade humana suprema, porque é aquela em que o magma indistinto da experiência se eleva à condição de forma simbólica. Almeida Santos, sem citar Coimbra, herda-o secretamente — como toda a filosofia portuense séria do século XXI. A “verbalização poética” como “sublimação pela palavra de poderosas pulsões activas” é frase em que Coimbra fala por boca de quem o lê sem o nomear. E o adjectivo “activas” é decisivo: as pulsões não são meras passividades a redireccionar — são forças criadoras a libertar.

Manuel Sumares, no seu ensaísmo filosófico da Universidade Católica Portuguesa do Porto, tem trabalhado a relação entre acção e linguagem em chave que ilumina particularmente este ponto. Em diálogo crítico com Donald Davidson, Sumares mostra como a metáfora — categoria-rainha da poesia — não é simples decoração do dizer, mas operação semântica primária que abre mundo. A poesia, nesta perspectiva, não decora o real: faz advir o que o discurso conceptual jamais poderia constituir. A palavra poética de Almeida Santos cumpre esta função pragmática-ontológica com inteira consciência: ela não diz a perda; é, ela mesma, o recurso na perda. Não descreve a dor; é a operação que transforma a dor em forma habitável. É, em rigor levantino, acção criadora — não no sentido produtivo do trabalho, mas no sentido criacionista do gesto que instaura.

II. Leveza calviniana, Perséfone 
e a Romã: o Ciclo Cósmico da Poesia

Almeida Santos cita explicitamente Italo Calvino, Lezioni Americane (Milão, 1988), na sua lição sobre a Leggerezza: “Credo che sia una costante antropologica questo nesso tra levitazione desiderata e privazione sofferta. È questo dispositivo antropologico che la letteratura perpetua”. A citação é decisiva e merece ser comentada com a paciência que ela exige. Calvino estabelece, naquele texto seminal de 1985 destinado à série de conferências em Harvard, um nexo antropológico fundamental entre levitação desejada e privação sofrida. A literatura, na sua definição, perpetua este dispositivo antropológico: ela é o lugar onde a privação se converte em levitação, onde a falta se eleva em forma alada. Não há aqui idealismo evasivo: há, ao contrário, materialismo subtil do desejo, em que o peso da vida se transforma em asa pela mediação simbólica da palavra.

Almeida Santos retoma esta tese e radicaliza-a. As palavras, escreve, “são as nossas asas. Sem elas ficamos presos ao insustentável peso e à circularidade insuportável da rotina.” A formulação ecoa o título do romance de Milan Kundera, L’insoutenable légèreté de l’être (Paris, 1984), mas inverte-o: não é a leveza que é insustentável, é o peso que o é, sem o auxílio das palavras. A poesia é o que torna sustentável a leveza, dotando-nos das asas que a “circularidade insuportável da rotina” ameaça quebrar. Sem palavras, somos seres pesados; com palavras, levitamos. Esta é a antropologia literária de Almeida Santos, em radical concordância com Calvino e em fina divergência com Kundera.

O segundo fragmento desenrola este dispositivo numa cifra mítica admirável: o ciclo de Perséfone. A primavera traz energia (Perséfone regressando do Hades); o outono induz recolhimento (Perséfone descendo de novo). A romã, fruto do outono — “causa de pecado original” — liga este texto à tradição clássica do Hino Homérico a Deméter e às Metamorfoses de Ovídio (livro V, 533–571). Recordemos: Perséfone, raptada por Hades, é forçada a passar metade do ano no submundo porque comeu seis grãos da romã que lhe ofereceram. O pecado original mitológico é o gesto de comer; a condenação cíclica é o regresso periódico ao reino dos mortos; e o consolo é o retorno periódico à luz. A romã, neste sentido rigoroso, é o operador simbólico do ciclo entre perda e renascimento.

Almeida Santos aplica esta mitologia à poesia. O poeta, escreve, “comerá a romã e ficará confinado na zona da paixão”. A paixão, em registo etimologicamente preciso (do latim passio, sofrer), não é simples sentimento entusiástico, mas pertença ao sofrimento — pertença, em registo grego clássico, ao páthos que precede o lógos. Aceitar a romã é aceitar a alternância: ter de descer ao subterrâneo periodicamente para que a primavera periódica seja possível. A poesia, nesta cifra mítica, é o que se cumpre na alternância: ela é a primavera da palavra, mas só porque também é o outono do recolhimento, só porque também é o inverno do silêncio. Sem alternância, sem ritmo, sem ciclo — não há poesia, há monotonia da exteriorização contínua, que é o oposto da forma poética.

Carlos Drummond de Andrade é convocado pelo autor através de uma citação verificável: “o outono é mais estação da alma que da natureza” — frase do livro de crónicas Fala, Amendoeira (Rio de Janeiro: José Olympio, 1957). A precisão do registo bibliográfico (livro, ano) é típica do método de Almeida Santos: ele cita sempre com a fidelidade que distingue o ensaísta do divulgador. O outono como estação da alma é categoria simultaneamente romântica (estação melancólica por excelência) e existencial (estação do recolhimento e da intimidade). Drummond, lendo o outono como estado de alma, faz operação simétrica à de Almeida Santos lendo a primavera como retorno de Perséfone: ambos sabem que as estações são, primeiro, modos do espírito antes de serem fenómenos meteorológicos. A meteorologia da alma precede a meteorologia da atmosfera — eis a tese implícita de Drummond, retomada por Almeida Santos.

A latência mitológica não esgota a profundidade do segundo fragmento. O autor termina com uma fórmula que ecoa Ovídio: “Palavras: ‘remedia amoris’”. O Remedia Amoris ovidiano — texto pedagógico-irónico em que o poeta romano, depois de ter ensinado a arte de amar nos Ars Amatoria, ensina agora os remédios contra o amor — fornece a Almeida Santos a sua fórmula mais cifrada para a função da poesia: as palavras como remédios para os males do amor. Não no sentido em que apagam o amor, mas no sentido em que lhe dão forma. A poesia é o pharmakon (Platão, Fedro) que simultaneamente cura e envenena: cura a dor porque a verbaliza; envenena a alma porque a obriga a sentir mais intensamente o que verbalizou. Eis o paradoxo terapêutico da forma poética, que toda a tradição desde a Antiguidade conhece.

III. O Abismo heideggeriano: 
Poesia e Pensar no Encontro do Sublime

Os fragmentos terceiro e sétimo são as duas maiores estações filosóficas do texto. Em ambos, Almeida Santos convoca Heidegger com precisão técnica indefectível. No fragmento 3, lê-se: “Mas verdadeiramente o movimento poético é divergente em relação ao pensamento porque é um facto vivido e sentido, um lamento, um murmúrio, um suspiro. Um desabafo. É uma acção. Verdadeiramente, o pensamento não é directamente convertível em poesia porque esta nasce num lugar diferente, impulsionada por estímulos diferentes. Nasce na alma. Mas na fase apolínea, espiritual, a interacção é possível. Ou seja, quando se atinge o sublime pode haver identificação, como dizia o Heidegger em Was heisst Denken?”.

A referência heideggeriana é exacta. Em Was heisst Denken? (Tübingen: Max Niemeyer, 1954), Heidegger desenvolve, ao longo das duas séries de cursos ministrados em Friburgo nos semestres de 1951-52, uma meditação fundamental sobre o que significa pensar — meditação que, no segundo curso, atinge o seu cume na análise do nexo entre pensar (Denken) e dizer poético (Dichten). A tese heideggeriana é singular e tem sido frequentemente mal-entendida: Heidegger não afirma a identidade entre poesia e pensamento, nem a sua oposição irredutível, mas a sua proximidade abissal. Dichten e Denken habitam, na geografia do Ser, montanhas vizinhas separadas por um abismo. Não se confundem (cada um habita a sua montanha), mas reconhecem-se mutuamente quando o olhar de um se eleva à altura do outro. O abismo entre eles é o lugar do seu encontro, não da sua separação.

Almeida Santos retoma esta tese com extraordinária finura no fragmento 7, em que cita explicitamente “a segunda lição” do livro heideggeriano: “fala de um abismo que se abre, puro e decidido, entre a poesia e o pensar, quando ambos são o mesmo, ou seja, quando a poesia é sublime e o pensar profundo (o poeta preferido dele era Hölderlin). O abismo do ser? Talvez. Nele, o pensar e a poesia encontram-se, numa espécie de partilha ontológica. O encontro dá-se quando, num, intervém o espírito (na poesia) e, no outro, irrompe a alma (no pensar). Um sobe e o outro desce, por assim dizer. E assim se encontram. A meio caminho, sim, mas sempre lá no alto. Neste sentido também se poderia dizer que desejo e vontade são o mesmo, quando o abismo entre ambos se abre puro e decidido, para usar as palavras de Heidegger.”

A precisão é admirável. Almeida Santos compreende que o abismo heideggeriano não é o vazio negativo da separação, mas o espaço positivo do encontro. Aplica esta intuição a uma operação dialéctica brilhante: tal como poesia e pensar se encontram no abismo do sublime, também desejo e vontade — categorias distintas no Heidegger metafísico tradicional — se reconciliam quando o abismo entre ambos “se abre puro e decidido”. O poeta de “Confissão” — referência interna a um outro poema do próprio Almeida Santos — é o exemplo desta reconciliação: nele, “a vontade e a poesia” coincidem porque “a arte pode nascer como resposta a esse olhar” abissal da musa. Eis a diferença ontológica heideggeriana (entre Ser e ente) reformulada em chave estético-existencial: a obra de arte é o lugar onde se cumpre, em ponto pequeno, o reencontro do que metafisicamente está separado.

Manuel Sumares, no seu ensaísmo filosófico da Universidade Católica Portuguesa, tem trabalhado com particular agudeza este nexo entre Heidegger e a teologia da palavra. Em diálogo com a tradição da fenomenologia da religião (de Heidegger a Marion), Sumares mostra como a categoria heideggeriana de Lichtung — clareira, abertura iluminada na floresta onde o Ser pode finalmente vir-à-presença — encontra na poesia o seu lugar privilegiado de manifestação. A poesia é, em sentido rigoroso, Lichtung da linguagem: aquele momento em que, no meio do bosque opaco do discurso quotidiano, se abre uma clareira luminosa onde o sentido vem-à-presença. Almeida Santos cumpre esta intuição sumarense quando escreve que o abismo entre poesia e pensar é “horizonte vasto de encontro”. Não é fractura: é horizonte. Não é separação: é abertura. Não é fechamento: é clareira.

IV. Pessoa Latente, 
Gil Manifesto: o Feixe das Sensações

Embora Fernando Pessoa não seja explicitamente nomeado nos Fragmentos (XXVII), a sua presença latente é constante e estruturante. Quando Almeida Santos escreve que a poesia “nasce na alma”, “é um facto vivido e sentido, um lamento, um murmúrio, um suspiro”, está a recuperar, em registo lusitano contemporâneo, a tese pessoana central segundo a qual a sensação é a unidade primária do real. José Gil, em Fernando Pessoa ou a Metafísica das Sensações (Lisboa: Relógio d’Água, 1987), forneceu a leitura filosófica de referência desta tese. Mostrou que o sensacionismo proclamado por Pessoa em torno de 1915 — “sentir tudo de todas as maneiras”, na fórmula célebre — não é simples programa poético, mas ontologia completa: o ser é sensação; o sujeito é apenas o feixe provisório em que as sensações se reúnem; a heteronímia é a multiplicidade de modos de organizar esse feixe.

Almeida Santos cumpre esta intuição pessoana com fidelidade subterrânea. No fragmento 5, escreve sobre o poeta-narrador como “compositor” e “realizador de cinema”, em que “a câmara de filmar, as notas musicais e as teclas do piano são as palavras”. Eis a heteronímia em registo pictórico-musical: o poeta é simultaneamente compositor, realizador, pianista, narrador — multiplicidade de modos de organizar o feixe das sensações que constitui a sua memória. A musa, na sua tríplice modulação enunciada no fragmento 6 (mulher encarnada, pintada pelo pintor-poeta, recuperada lá do fundo da memória), é, no fundo, três modos sensacionistas distintos de organizar o mesmo magma afectivo. Não há contradição entre as três; há intensidade pessoana da multiplicidade que se reúne sem se fundir.

A latência pessoana revela-se ainda mais agudamente quando Almeida Santos invoca, no fragmento 6, a fórmula proustiana retoricamente francesa: “À la recherche de la muse perdue”. A referência é dupla: explicitamente à Recherche du temps perdu de Marcel Proust (Paris: Gallimard, 1913–1927); latentemente à durée bergsoniana de que Proust foi o grande romancista. Mas o nexo subterrâneo é com Pessoa: a “moviola” em que o poeta reconstrói o filme da sua vida — imagem proustiana — é, em rigor pessoano, o mesmo dispositivo que permite ao sujeito sensacionista refazer o feixe das sensações já passadas. O poeta de Almeida Santos é proustiano nas imagens e pessoano nas operações ontológicas que lhes subjazem. Os dois autores não se contradizem: o primeiro fornece-lhe o vocabulário cinematográfico-memorial; o segundo, o vocabulário sensacionista-ontológico.

Esta confluência Pessoa-Proust-Bergson tem ainda uma camada gilliana mais profunda. Em A Imagem-Nua e as Pequenas Percepções: Estética e Metafenomenologia (Lisboa: Relógio d’Água, 1996), José Gil propôs os conceitos gémeos de imagem-nua e percepção nua — categorias que designam, respectivamente, a imagem antes de ser imagem-de-algo e a percepção antes de ser categorização. As pequenas percepções leibnizianas, retomadas via Deleuze, operam neste plano sub-articulatório, accumulando-se sem se totalizar em consciência clara. Almeida Santos cumpre esta intuição gilliana quando descreve a musa como aquela que “vem sempre lá do alto envolta numa neblina cintilante” e “só fica (como aparição) uns breves momentos (‘dois minutos’)”. A musa é, num sentido rigorosamente gilliano, imagem-nua exemplar: aparição que não representa nada (porque não tem referente fixo), aparição que se basta a si mesma na sua densidade fenomenológica, aparição que solicita uma percepção nua incapaz de a categorizar.

É notável que Almeida Santos, no fragmento 8, recorra ao verbo “fotografar” para designar o gesto poético: “E os poetas têm de ‘fotografar’ esses breves instantes para depois os fixarem em palavras”. Eis a fotografia mental — categoria-chave da estética benjaminiana (Walter Benjamin, “Pequena História da Fotografia”, 1931) e barthesiana (Roland Barthes, La Chambre Claire, Paris, 1980) — convocada como operação primária da poesia. Mas há uma divergência subtil em relação a Benjamin e Barthes: para estes, a fotografia é dispositivo do mundo administrado moderno; em Almeida Santos, é gesto de salvação do instante contra esse mesmo mundo administrado. A fotografia poética é, neste sentido contrário ao culturalismo da reprodutibilidade técnica, o gesto que arranca o instante à série e o eleva à condição de eterno. Eis o kairós que se opõe ao chrónos: o instante salvador que se opõe à corrida vazia das horas.

V. Paul Celan e a Poética 
da Testemunha: a Cesura como Abismo

Há uma confluência decisiva entre os Fragmentos (XXVII) e a poética de Paul Celan que importa nomear, embora Almeida Santos não cite explicitamente o poeta romeno-judaico. Celan, em Atemwende (Frankfurt: Suhrkamp, 1967) e Niemandsrose (Frankfurt: Fischer, 1963), levou a poesia de língua alemã ao seu ponto-limite: a poesia depois de Auschwitz, a palavra contra o silêncio imposto pelo extermínio, a cesura como abismo entre o dito e o indizível. A célebre fórmula celaniana — “Niemand zeugt für den Zeugen” (“Ninguém testemunha pela testemunha”), do poema Aschenglorie incluído em Atemwende — exprime de forma vertiginosa a solidão constitutiva do gesto poético no século XX: o poeta testemunha porque ninguém testemunhará por ele; a poesia é o que se cumpre na assumpção dessa testemunhalidade impossível.

Almeida Santos, no fragmento 4, escreve: “A solidão não é negativa. O que é preciso é saber viver nela e conviver com ela, dispondo de recursos para ir lá ao fundo e encontrarmo-nos nela como se fosse um espelho. Que até pode ser mágico. Na solidão podemos encontrar com maior nitidez a nossa própria identidade. Mas saber viver em solidão exige sabedoria.” Esta solidão de Almeida Santos é, em registo lusitano contemporâneo, a mesma solidão celaniana da testemunha que não pode delegar o seu testemunho. A diferença histórica é decisiva — Almeida Santos escreve em paz portuguesa, Celan escrevia depois do extermínio — mas a estrutura ontológica é a mesma: a solidão é o lugar onde a poesia se cumpre e a sabedoria poética é a capacidade de habitar essa solidão sem se afogar nela.

Há ainda uma confluência mais subtil: a da cesura. Em Celan, a cesura é o gesto poético fundamental — a quebra do verso, o branco da página, o silêncio entre palavras como instância significante. Almeida Santos cumpre esta intuição celaniana quando descreve o abismo heideggeriano entre poesia e pensar como “horizonte vasto de encontro”: o abismo não é o vazio nulo, é a cesura activa em que algo se mostra precisamente porque está separado. A poesia, em ambos os autores, vive da cesura — não da abolição da cesura, mas da sua intensificação como instância de significação. O silêncio entre fragmentos numerados (1 a 9) é, neste sentido, cesura celaniana no registo de Almeida Santos: o branco entre os fragmentos não é vazio, é o lugar onde se cumpre a transição ontológica entre estados do dizer.

A categoria celaniana de Atemwende (volte-respiração, mudança de respiração) — título do livro de 1967 — encontra também eco subterrâneo em Almeida Santos. A respiração poética não é contínua: tem voltas, pausas, mudanças de ritmo. Os nove fragmentos do nosso autor formam, em conjunto, uma respiração ritmada com volteios: do peso (fragmento 1) à leveza (fim do fragmento 2), do pensamento (fragmento 3) à solidão (fragmento 4), da memória (fragmento 5) à musa (fragmento 6), do abismo (fragmento 7) ao kairós (fragmento 8), do kairós ao ponto de fuga (fragmento 9). Cada transição é uma Atemwende: o ar volta, a respiração muda, o dizer recomeça noutra direcção. Sem estas voltas, o discurso seria monótono; com elas, é poesia em pleno sentido.

VI. A Hermética portuguesa: 
Pascoaes, Marinho, Sant’Anna Dionísio, 
Braz Teixeira

É na grande linhagem hermética portuguesa do século XX que o discurso de Almeida Santos sobre a poesia encontra a sua família filosófica mais íntima. Teixeira de Pascoaes, em Arte de Ser Português (Lisboa: Renascença Portuguesa, 1915) e ao longo de toda a sua obra poético-filosófica, deu ao saudosismo a sua articulação completa: a saudade é o casamento perpétuo da Lembrança com o Desejo, é a fusão viva da Natureza e do Espírito, é o élan vital específico da alma portuguesa. Almeida Santos não pronuncia a palavra saudade; mas o ritmo Perséfone-romã-outono-primavera que estrutura o fragmento 2 é, em rigor estrito, ritmo saudosista pascoaesiano em chave mitológica grega. A Lembrança (a memória do verão perdido) e o Desejo (a aspiração ao verão futuro) casam-se no outono e no inverno da alma poética. Eis a saudade, em registo cifrado e sem o nome.

José Marinho, em Teoria do Ser e da Verdade (Lisboa: Guimarães Editores, 1961), levou a meditação portuguesa sobre o ser ao seu cume mais especulativo. Marinho — discípulo directo de Leonardo Coimbra e companheiro de Sant’Anna Dionísio, de Álvaro Ribeiro e de Delfim Santos — defendeu a tese, profundamente original na sua articulação, segundo a qual a verdade não é simples relação entre ser e não-ser, mas exige a assunção do Nada como condição da inteligibilidade do Ser. A sua meontologia (do grego me on, não-ser) representa o aprofundamento ontológico mais radical já realizado em língua portuguesa. Ora, esta meontologia marinhiana encontra em Almeida Santos uma confirmação inesperada no abismo do fragmento 7. O “abismo do ser” que separa e une poesia e pensar é, em rigor marinhiano, o Nada que torna possível o Ser: aquele vazio activo em que o ente pode finalmente vir-à-presença, em que o sujeito pode finalmente reconhecer-se como tal. Marinho fala filosoficamente; Almeida Santos fala poeticamente; mas os dois falam do mesmo abismo fundador.

Sant’Anna Dionísio, no seu ensaísmo filosófico de cinco décadas — de que O Poeta, Essa Ave Metafísica (Porto: Imprensa Portuguesa, 1953), ilustrado por Teixeira de Pascoaes, é documento maior — defendeu a tese de que o poeta verdadeiro é “ave metafísica” que sobrevoa o real para o trazer à condição de revelação. Almeida Santos cumpre esta figura dionisiana com inteira propriedade. No fragmento 6, escreve sobre o poeta como aquele a quem “chove na alta fantasia” (citando Dante) e que “gosta de andar à chuva”. Eis a ave metafísica de Dionísio em variação fluvial: o poeta como aquele que se molha na chuva do alto, que recebe sobre si a água celeste da inspiração, que voa entre a chuva e a fantasia. Não é casualidade que Almeida Santos seja simultaneamente pintor e poeta — exactamente a figura híbrida que Dionísio celebrava em Pascoaes, que era simultaneamente pintor e poeta. A genealogia espiritual cumpre-se.

António Braz Teixeira, em Deus, o Mal e a Saudade: Estudos sobre o Pensamento Português e Luso-Brasileiro Contemporâneo (Lisboa: Fundação Lusíada, 1993) e em A Filosofia da Saudade (Lisboa: Quetzal, 2006), recolheu e sistematizou a tradição filosófica luso-galaica sobre a saudade, articulando-a em diálogo com a fenomenologia e com a hermética. Para Braz Teixeira, a saudade não é simples sentimento melancólico, mas categoria ontológica de primeira ordem — talvez a categoria-rainha da filosofia portuguesa autêntica. Ela articula presença e ausência, lembrança e desejo, terra e céu, em síntese que nenhuma outra língua europeia conseguiu formular com a mesma densidade. Almeida Santos cumpre esta intuição braziana com fidelidade subterrânea quando, no fragmento 6, descreve a relação musa-poeta como “permanente dialéctica entre a alma e o espírito”, cujo tertium é “a própria poesia, como superação. Aufhebung, diria o Hegel. Neste caso, tertium datur: a poesia.” Eis a saudade braziana em traje hegeliano: a dialéctica luso-galaica entre lembrança e desejo cumpre-se na poesia como Aufhebung — superação que conserva o superado.

A referência hegeliana é, ela mesma, decisiva. Em Hegel, Aufhebung designa a operação dialéctica fundamental: simultaneamente abolir e conservar, simultaneamente negar e elevar. Almeida Santos retoma esta categoria com inteira precisão técnica. A poesia é a Aufhebung da dialéctica ausência-presença, silêncio-eco, dor-epifania. Não suprime nenhum dos termos; eleva-os a um plano superior em que se reconciliam sem se confundirem. Esta operação hegeliana, lida em chave luso-galaica da saudade (Braz Teixeira), recebe em Almeida Santos a sua transcrição lusitana mais precisa: tertium datur, há um terceiro, e esse terceiro é a poesia. Não é o pensamento dialéctico abstracto; é a forma poética concreta, em que a alma e o espírito, depois de se terem separado, voltam a abraçar-se.

VII. Ouaknin, Kaplan 
e a Cabala da Palavra: 
o Livro Queimado e o Sopro

Há um último plano de confluência que importa nomear, e que talvez seja o mais inesperado: o da cabala filosófica e da hermenêutica talmúdica contemporânea. Marc-Alain Ouaknin, em Le Livre Brûlé. Lire le Talmud (Paris: Lieu Commun, 1986; reedição Seuil, 1992), propôs uma das mais agudas reflexões contemporâneas sobre o gesto de queimar o livro como modo paradoxal de o salvar. A referência é a Rabbi Nahman de Breslov (1772–1810), místico hassídico que, antes de morrer, ordenou que se queimasse um dos seus livros — gesto que Ouaknin interpreta não como destruição, mas como condição para que a palavra possa renascer, livre dos seus suportes materiais petrificados. Queimar o livro é libertar a palavra; destruir a forma cristalizada é permitir o renascer da forma viva.

Almeida Santos, ao escrever que a poesia é “motum perpetuum”, e ao notar que “o passado nunca se esgota nelas [nas palavras], ficando sempre como uma espécie de moinha na alma do poeta”, cumpre uma operação rigorosamente ouakniniana. Cada poema é simultaneamente um livro que se cumpre e um livro que se queima — porque, mal acabado, o poema exige o próximo, o passado nunca se esgota, a moinha continua a chamar palavras. A poesia é, em chave de Ouaknin, livre brûlé perpétuo: livro que se queima para que outro livro possa nascer, palavra que se consome para que outra palavra possa irromper. Não há, em poesia digna desse nome, ponto final; há sempre o que Almeida Santos chama motum perpetuum — movimento que perpetuamente recomeça.

Arieh Kaplan, em Meditation and Kabbalah (York Beach: Samuel Weiser, 1982) e em Inner Space: Introduction to Kabbalah, Meditation and Prophecy (Jerusalém: Moznaim, 1990), forneceu a leitura mais clara em língua inglesa da cabala luriânica e das suas implicações fenomenológicas. A categoria luriânica de tzimtzum — retracção do Infinito (Ein Sof) sobre si próprio para abrir o espaço da criação — é decisiva para entender o que Almeida Santos chama, no fragmento 7, “o olhar abissal da musa” que “atira” o poeta para o abismo. A musa cumpre, em registo poético, a função luriânica do tzimtzum: ela retira-se (não está ao alcance do olhar do poeta), e essa retirada é precisamente o que abre o espaço onde a poesia pode advir. Sem retracção, sem ausência, sem distância, não haveria poema. O poema nasce, em chave kaplaniana, do espaço aberto pela ausência da musa, do chalal (vazio) que a sua retirada instaura.

Convém ainda nomear a categoria luriânica do nitzotzot — chispas dispersas que aguardam o Tikkun (reparação) — para entender o que Almeida Santos descreve no fragmento 5: o poeta como aquele que vai “aos confins da memória e transforma-a em ‘moviola’ para reconstruir o filme da sua vida”. Esta operação é, em rigor luriânico, gesto de Tikkun: o poeta recolhe as chispas dispersas da sua experiência passada e restitui-lhes uma forma. Cada poema é uma pequena reparação; cada verso é uma chispa recolhida. A poesia é, em chave de Kaplan e Ouaknin, tikkun ha-olam em ponto pequeno: reparação do mundo pela reunião das chispas dispersas que a história quotidiana espalhou.

A categoria hebraica de ruach — simultaneamente vento, sopro, espírito — atravessa toda esta cabala da palavra e encontra ressonância directa em Almeida Santos. Quando o autor escreve, no fragmento 3, que a poesia “sopra” vida ao pensamento e o “anima”, está a reactivar a etimologia mais profunda da categoria: o sopro como princípio vital, o vento como espírito, a palavra como vibração de ar que se torna sentido. Ruach é, na cabala, o segundo dos cinco níveis da alma (nefesh, ruach, neshamah, chayah, yechidah), e é especificamente o nível em que a alma se expressa em forma articulada. A poesia de Almeida Santos cumpre-se neste nível ruach — entre o impulso pulsional (nefesh) e a alma superior (neshamah), como sopro que articula sem ainda transcender, como vento que move sem ainda elevar. Eis a função fenomenológica precisa da palavra poética em registo cabalístico.

VIII. Kairós, Eksaíphnês 
e a Aparição: a Estética do Instante

O fragmento 8 condensa a estética do instante que percorre todo o discurso. Almeida Santos cita explicitamente a palavra grega Eksaíphnês (do verbo exaiphnídios, súbito, repentino) — categoria platónica decisiva que aparece no Banquete 210e (a visão súbita do Belo durante a iniciação amorosa descrita por Diotima a Sócrates), na Carta VII 341c (em que Platão descreve a iluminação súbita como “luz que se acende de repente”) e no Parménides 156d (em que o eksaíphnês designa o instante a-temporal em que algo passa do ser ao não-ser e vice-versa). Trata-se, em rigor platónico, do instante absoluto, fora de toda a duração mensurável, em que o ser se mostra na sua essência sem mediação discursiva.

O kairós — outra categoria grega convocada — é distinto, mas complementar. Enquanto eksaíphnês designa o instante absoluto a-temporal, kairós designa o tempo oportuno: o momento certo, o instante em que algo deve acontecer ou ser feito. Em oposição ao chrónos — tempo contínuo, mensurável, série indistinta de instantes idênticos — o kairós é tempo qualificado, instante denso de sentido. Almeida Santos articula com precisão estas duas categorias gregas: o eksaíphnês é o instante da aparição da musa; o kairós é o instante oportuno em que o poeta deve fixá-la em palavras. Eis a tensão fundamental da composição poética: a aparição é súbita e absoluta (eksaíphnês), mas a sua fixação exige a sabedoria do tempo oportuno (kairós).

Walter Benjamin, em Über den Begriff der Geschichte (Frankfurt: Suhrkamp, 1942 [edição póstuma das Teses sobre o Conceito de História]), articulou estas categorias gregas com a categoria moderna do Jetztzeit (tempo-de-agora): aquele instante salvador em que o passado e o presente se encontram numa constelação iluminadora, contra a corrida vazia do tempo histórico contínuo. A poesia, em Benjamin como em Almeida Santos, vive precisamente nesta intersecção: ela é o lugar onde o eksaíphnês da aparição se cumpre no kairós da fixação, dando-nos o Jetztzeit salvador contra o chrónos devastador. Eis a tese fundamental que percorre o fragmento 8 quando o autor escreve: “Muitas vezes um poema é a história de um instante, o da aparição da musa. Um relance e, depois, ‘la nuit’ (Baudelaire). E quase nunca há lua-cheia. Só sombras. Mas a primavera há-de sempre chegar e, com ela, a luz e um renascer luminoso. A poesia.”

A citação baudelairiana — “la nuit” — é, em si mesma, uma cifra densa. Baudelaire, em Les Fleurs du Mal (Paris: Poulet-Malassis, 1857), inaugurou a poética moderna do instante crepuscular, em que a beleza se cumpre não na plenitude do dia mas na ambiguidade da noite. A noite baudelairiana é simultaneamente lugar de perda (o dia que acaba) e de revelação (o invisível que se torna possível). Almeida Santos retoma esta cifra noctívaga e acrescenta-lhe uma promessa de renascimento — “a primavera há-de sempre chegar” — que Baudelaire não teria assinado. Eis a diferença entre o pessimismo metafísico do parisiense de Oitocentos e o saudosismo cíclico do português contemporâneo: para Baudelaire, a noite é definitiva; para Almeida Santos, a noite é intervalo. A primavera há-de regressar, como Perséfone.

IX. O Ponto de Fuga: 
a Estética Dendrológica da Poesia

O fragmento 9, último do discurso, fecha o ciclo com uma categoria de extraordinária densidade simbólica: o ponto de fuga. Almeida Santos articula-a, com a sua característica precisão, em registo simultaneamente pictórico (perspectiva renascentista) e existencial (escape da circularidade): “é o perigo das tardes ou mesmo das manhãs redondas. Mas a verdade é que os poetas gostam sempre de ter pontos de fuga… sobretudo quando entardece, ao crepúsculo. E este poeta também. E tardes houve que já lhe entardeceram tantas vezes… Que seria dele se não tivesse pontos de fuga?”

A categoria do ponto de fuga merece ser comentada na sua dupla genealogia. Em pintura, o ponto de fuga é a construção renascentista da perspectiva (de Brunelleschi a Alberti, da Trindade de Masaccio em Florença ao tratado De Pictura de 1435): aquele ponto na linha do horizonte onde convergem todas as linhas paralelas, permitindo a representação tridimensional num plano bidimensional. Em existência, o ponto de fuga é a possibilidade de escape da circularidade rotineira, a linha que conduz para fora do ciclo fechado da repetição. Almeida Santos é simultaneamente pintor e poeta — facto biográfico decisivo —, e a sua escolha desta categoria pictórico-existencial cumpre a sua dupla vocação. O ponto de fuga é, em rigor, para Almeida Santos, o lugar onde pintura e poesia se reencontram numa única operação ontológica.

Esta categoria conduz-nos à formulação completa do que aqui chamamos estética dendrológica. A árvore — figura central das pinturas de Almeida Santos e tema recorrente da sua poesia — fornece o modelo organizador da sua estética. A árvore tem raízes (o magma da pulsão), tronco (a palavra que articula), ramos (o espírito que se eleva), copa (o céu para onde aponta), folhas (que caem no outono e renascem na primavera), e — sobretudo — pontos de fuga, na medida em que cada ramo prolonga-se virtualmente para fora da árvore, indicando uma direcção possível para o céu. A árvore é, neste sentido rigoroso, o modelo orgânico do poema: tem raízes na dor, tronco na forma, ramos na imaginação e pontos de fuga no infinito que está para lá da forma actual. A poesia é dendrológica porque é, ao mesmo tempo, enraizada na matéria e elevada ao céu — sem cesura entre uma coisa e outra.

Em Almeida Santos, a estética dendrológica cumpre uma operação simultaneamente estética e ética. Estética, porque organiza o sensível segundo o modelo da árvore (vertical, raízes na terra, copa no céu, ciclo das estações). Ética, porque exige do poeta a fidelidade simultânea à raiz (o magma) e ao céu (o ponto de fuga): nem materialismo redutor, nem espiritualismo evasivo. A árvore é a figura da dupla fidelidade. E é por isso que o autor recusa, no mesmo fragmento 9, “as tardes redondas” — aquelas que se fecham sobre si mesmas, sem ponto de fuga — porque elas seriam negação da árvore, anulação da verticalidade, redução do ser à mera circularidade horizontal. O poeta resiste à tarde redonda porque ela é a negação da árvore que ele é.

Convém, neste ponto extremo, evocar a fórmula final de Almeida Santos: “Os poetas gostam sempre de ter pontos de fuga… sobretudo quando entardece, ao crepúsculo.” O crepúsculo — categoria simultaneamente meteorológica e existencial — é o momento em que a luz se retira, em que o dia se acaba, em que tudo poderia fechar-se em tarde redonda. Mas o poeta, mesmo no crepúsculo, mantém um ponto de fuga: uma linha que escapa para fora, que aponta para o azul ainda residual do céu, que recusa o fechamento absoluto. Eis a sabedoria poética suprema de Almeida Santos: até no momento mais escuro, há sempre uma direcção para o infinito. A poesia é o nome dessa direcção. O ponto de fuga é o nome técnico dessa esperança.

X. Cataláxia da Tradição 
Filosófica Europeia

É tempo de explicitar a categoria que dá título metodológico a este ensaio: a categoria de cataláxia. O termo foi introduzido pelo economista austríaco Friedrich Hayek, retomando uma raiz grega que designa simultaneamente “trocar” e “admitir alguém numa comunidade” (katallassein). Hayek serviu-se dele para nomear o que considerava ser a marca do mercado livre: ordem espontânea que emerge sem planificação central, intercâmbio fecundo entre partes heterogéneas que se reconhecem mutuamente como participantes de uma mesma economia. Tomei aqui o termo por empréstimo e ressignifiquei-o em chave estético-cultural. A cataláxia, neste registo, designa o intercâmbio espontâneo entre tradições literárias, filosóficas e estéticas heterogéneas em torno de um centro irradiante.

Os Fragmentos (XXVII) de João de Almeida Santos são, neste ensaio, o centro irradiante da cataláxia. Não porque Almeida Santos tenha programaticamente lido todos os autores aqui convocados (ele cita explicitamente Hölderlin, Novalis, Calvino, Drummond, Heidegger, Dante, Baudelaire e Hegel; os restantes — Pessoa, Celan, Leonardo Coimbra, Marinho, Pascoaes, Braz Teixeira, Sant’Anna Dionísio, Gil, Sumares, Ouaknin, Kaplan — são confluências subterrâneas, latências hermenêuticas); mas porque o seu discurso é o ponto em que estas múltiplas tradições heterogéneas se reconhecem mutuamente, sem decreto, sem planificação académica, sem hierarquia administrativa. A cataláxia de Almeida Santos é confluência por afinidade subterrânea, não convergência por imposição comparatista.

Convém aqui distinguir, com a precisão que o ensaio sistémico exige, entre correntes patentes e latentes que estes fragmentos mobilizam. As correntes patentes são quatro: (i) o romantismo alemão (Hölderlin, Novalis); (ii) a fenomenologia existencial (Heidegger); (iii) a modernidade italiana da leveza (Calvino); (iv) a tradição clássica greco-romana (Platão Banquete, Ovídio Metamorfoses, Hino Homérico a Deméter). As correntes latentes são, no mínimo, seis: (i) o sensacionismo pessoano lido por Gil; (ii) a poética da testemunha em Celan; (iii) a hermética portuguesa (Leonardo Coimbra, Pascoaes, Marinho, Dionísio, Braz Teixeira); (iv) a metafenomenologia gilliana da imagem-nua; (v) a cabala filosófica contemporânea (Ouaknin, Kaplan); (vi) a estética benjaminiano-barthesiana da fotografia mental e do Jetztzeit. As primeiras são explícitas; as segundas são pressupostos não-tematizados que sustentam a operação.

Esta distinção patente/latente é teoricamente decisiva. Um discurso filosófico pode citar explicitamente certas tradições e, ainda assim, depender mais profundamente de outras que não cita. Em Almeida Santos, o que se cita é o vocabulário; o que sustenta o vocabulário é a tradição não-citada. Quando o autor convoca Heidegger, está implicitamente em diálogo com Leonardo Coimbra e José Marinho (os filósofos portugueses que mais profundamente pensaram o ser em chave criacionista-meontológica). Quando convoca Calvino, está implicitamente em diálogo com Pessoa e Gil (a leveza calviniana é o equivalente italiano do sensacionismo lusitano). Quando convoca Hölderlin e Novalis, está implicitamente em diálogo com Celan (o herdeiro extremo do romantismo alemão depois de Auschwitz). A cataláxia é o nome desta dupla circulação — explícita e implícita — em torno do centro irradiante que são os fragmentos.

O paradigma da estética dendrológica fornece o melhor modelo para entender esta cataláxia. Tal como uma árvore tem raízes (que ela própria não vê) e copa (que ela mesma mostra), também um discurso filosófico tem tradições latentes (que o sustentam sem que ele as nomeie) e tradições patentes (que ele cita e mostra). A árvore não escolhe as suas raízes; herda-as. Almeida Santos não escolheu as suas latências; herdou-as enquanto português, enquanto filósofo, enquanto homem de cultura europeia do século XXI. A nossa tarefa hermenêutica neste ensaio foi tornar visíveis as raízes que sustentam a árvore visível dos fragmentos — sem com isso pretender substituir a árvore pela explicitação das suas raízes, o que seria operação académica destruidora.

XI. Simbolismo Criador 
e Paisagem Antropocénica: 
a Poesia no Tempo do Vento

Resta tematizar uma última camada de leitura, que importa nomear sob o duplo signo do simbolismo criador e da paisagem antropocénica. O simbolismo criador — categoria que aqui retomo de Leonardo Coimbra em chave reactualizada — designa a operação propriamente poética em que a palavra não se limita a representar um real preexistente, mas faz advir um real que sem ela não existiria. A palavra simbólica é criadora porque é instituidora; o símbolo não é representação de algo prévio, mas operador ontológico que abre mundo. Os Fragmentos (XXVII) cumprem este programa com precisão indefectível. Quando Almeida Santos escreve, no fragmento 6, que “as musas vivem nos jardins, mimetizadas” — quem as faz viver é a palavra que as nomeia. Quando descreve a musa como “perfumes, flores, luz que encandeia, brisa que sopra” — quem a faz sopro é a palavra que a transforma em sopro.

O simbolismo criador de Almeida Santos é, neste sentido, herdeiro directo da tradição que vai de Mallarmé a Pessoa, do simbolismo francês ao saudosismo português, passando por Pascoaes e por Leonardo Coimbra. Não é simbolismo decorativo (em que o símbolo seria mero ornamento de um real previamente dado); é simbolismo ontológico (em que o símbolo institui o real que diz). Esta diferença é decisiva e separa a grande poesia da poesia menor. Almeida Santos pertence inequivocamente à grande tradição e a sua articulação do simbolismo criador é tão lúcida quanto qualquer outra produzida em língua portuguesa no nosso tempo.

Quanto à paisagem antropocénica, importa reconhecer que os Fragmentos (XXVII) foram escritos em pleno antropoceno — aquela época geológica em que a humanidade se constitui em força capaz de alterar o sistema-Terra. Esta condição histórica não é silenciada pelo autor: pelo contrário, atravessa subterraneamente todo o discurso. Quando Almeida Santos fala da “circularidade insuportável da rotina”, da fadiga existencial que ameaça o poeta, da necessidade dos “pontos de fuga” contra “as tardes redondas”, está a nomear, em chave existencial-poética, exactamente aquilo que outros filósofos contemporâneos nomeiam em chave histórico-político-ecológica: o esgotamento da civilização industrial-tecnológica e a urgência de instituir formas de habitar a terra que não a destruam.

A poesia, em Almeida Santos como em Heidegger, em Celan como em Pessoa, é precisamente o que pode resistir a este vento antropocénico. Ela é, no sentido rigoroso do termo, resistência ontológica: gesto que recusa a redução do mundo a recurso explorável, gesto que mantém aberto o ponto de fuga contra a tarde redonda da civilização administrada. Quando o autor escreve, no fragmento 8, que “a primavera há-de sempre chegar e, com ela, a luz e um renascer luminoso. A poesia.” — está a formular, em chave saudosista pascoaesiana de inegável estirpe, a esperança ontológica que distingue a grande arte da arte que apenas denuncia. A primeira mantém o ponto de fuga; a segunda esgota-se na própria denúncia. Almeida Santos, claramente, escolhe a primeira.

Convém aqui mobilizar uma última vez Marc-Alain Ouaknin. Em diálogo com a hospitalidade lévinassiana e com a hermenêutica talmúdica, Ouaknin defende que toda a verdadeira escrita é gesto de abertura — não de fechamento. O livro queimado de Rabbi Nahman é, neste sentido, gesto antropocénico exemplar avant la lettre: queima-se o livro para que a palavra permaneça livre, para que ela não se petrifique em ideologia, para que ela não se torne instrumento de fechamento. Almeida Santos cumpre este gesto ouakniniano cada vez que termina um fragmento e recomeça o seguinte: cada fragmento é, em rigor, livro queimado. Acaba-se um para que outro possa nascer. O motum perpetuum da poesia é a forma lusitana contemporânea daquilo que Ouaknin descobre no hassidismo de Breslov: a fidelidade à palavra exige o sacrifício periódico das suas formas particulares.

CODA - O QUE PERMANECE 
QUANDO A TARDE REDONDA AMEAÇA

Aproximando-se o fim deste ensaio, importa devolver a palavra à pergunta que os Fragmentos (XXVII) deixam ressoando ao leitor: o que permanece quando a tarde redonda ameaça? A resposta de Almeida Santos é clara: permanecem os pontos de fuga. Permanece a árvore vertical contra o círculo horizontal. Permanece a primavera que “há-de sempre chegar”. Permanece a palavra que dá asas contra o peso. Permanece a musa que aparece em “neblina cintilante” por “dois minutos” e que, mesmo no seu desaparecimento, deixa o seu rastro no abismo onde o poeta estremece.

Mas permanece também — e este é o ponto fino — o próprio gesto fragmentário. A forma fragmentária dos Fragmentos (XXVII) não é acidente editorial: é decisão filosófica de primeira ordem. Os fragmentos românticos de Novalis e de Friedrich Schlegel (em Athenäum, Berlim, 1798–1800), o aforismo de Nietzsche, a sentença lapidar de Wittgenstein no Tractatus — toda a grande filosofia moderna soube que há verdades que só se dizem em fragmento, porque a sua intensidade rejeita a sistematização. Almeida Santos cumpre esta tradição com perfeita consciência metodológica. Os seus nove fragmentos não são um tratado interrompido; são um modo próprio de pensar, em que o branco entre fragmentos é constitutivo do sentido.

Há nisto, finalmente, uma ética da escrita que importa nomear. Escrever em fragmento é exercer a fidelidade simultânea à intensidade do dito e à exigência do não-dito. O sistema completo seria mentira — pretensão de cobrir totalmente um real que sempre excede o discurso. O silêncio absoluto seria capitulação — recusa do esforço de dizer aquilo que ainda pode ser dito. O fragmento é a via média: diz o que pode ser dito, cala o que excede o dizer, e marca o seu próprio limite pela cesura visível entre fragmentos. É, em rigor celaniano, escrita pela testemunha que sabe que “ninguém testemunha pela testemunha”: ela diz tudo o que pode e cala o resto, sem pretensão de esgotar o real.

Termino com a fórmula que o leitor saberá agora ler em toda a sua densidade: a poesia é a pauta abissal que se cumpre no ponto de fuga. Pauta abissal porque inscreve as suas notas no abismo aberto entre poesia e pensar, entre desejo e vontade, entre dor e leveza, entre presença e ausência. Ponto de fuga porque, mesmo no crepúsculo mais escuro, aponta sempre para o azul ainda residual do céu. Entre o abismo e o ponto de fuga, entre a profundidade ontológica e a verticalidade existencial, cumpre-se aquilo que João de Almeida Santos chama poesia. E que nós, lendo-o, reconhecemos como uma das mais altas vocações do espírito humano em tempos de vento antropocénico. AMV@05-2026

 

 

Artigo

FRAGMENTOS (XXVII)

Para um Discurso sobre a Poesia

João de Almeida Santos

“Voar” – JAS2023 (71X88, papel algodão, 310gr, e verniz Hahnemühle, Artglass AR70)

1.

AS PALAVRAS são o recurso quando estamos em perda. Por isso, são tão importantes. Elas são indispensáveis para revisitarmos o tempo dos nossos insucessos ou fracassos com intenção terapêutica. Não tanto para reviver a felicidade, que não necessitaria de cura. Como dizia Hölderlin, “em tempos felizes são raros os sonhadores”. E, por tanto, os poetas.  Mas também o Novalis faz o elogio da dor e o extermínio (vertilgen) do desprazer (Unlust) pela poesia. A verbalização (poética) como forma de superação do “recalcado” (algo parecido com a psicanálise, mas muito mais interessante e também terapêutico), do que permaneceu irresolvido. A sublimação pela palavra de poderosas pulsões activas que põem a alma em estado febril. A poesia é mais filha da dor do que da felicidade. A sua força resulta de a trazer à consciência e de o fazer com leveza. Retirar peso à existência, sobretudo ao passado. Processar o recolhimento com as categorias da arte (a leveza é uma delas, para o Calvino). Usar a força pulsional, não para ser esmagado por ela, mas sim para levitar. “Credo que sia una costante antropologica questo nesso tra levitazione desiderata e privazione sofferta. È questo dispositivo antropologico che la letteratura perpetua” , dizia o Calvino, na Lezioni Americane, de 1988.  E são as palavras que nos permitem levitar. Elas só poderão ser cruéis se não as conseguirmos usar como asas para voar. Elas são as nossas asas. Sem elas ficamos presos ao insustentável peso e à circularidade insuportável da rotina. E penso que elas só podem ser consideradas insuficientes porque exigem sempre que recomecemos (com elas), num motum perpetuum. Porque o passado nunca se esgota nelas, ficando sempre como uma espécie de moinha na alma do poeta. Esta moinha precisa de palavras para se acalmar. Sobretudo quando no passado permanecem brechas que não foram preenchidas e relvidas no tempo oportuno.

2.

A poesia na Primavera é como o regresso de Perséfone, com os frutos da terra a germinarem e a surgirem de novo. A primavera é amiga da poesia. Mas também é verdade que o outono regressará e, como ela, haverá retorno porque também o poeta comerá a romã e ficará confinado na zona da paixão. Como dizia o Drummond d’Andrade: “o outono é mais estação da alma que da natureza” (creio que é dito no livro de crónicas Fala, Amendoeira, de 1957). Se a primavera traz energia o outono induz recolhimento, intimidade. E a  romã, que surge precisamente no outono, é causa de pecado original. E assim ficou traçado o seu destino. Palavras: “remedia amoris”.

“Cristais” – JAS2022 (66×83, papel de algodão, 310gr, e verniz Hahnemühle, Artglass AR70)

3.

Aos domingos acontece a liturgia existencial em modo poético. A poesia (acoplada ou associada a) dá, sim, cor ao pensamento, sopra-lhe vida, anima-o, torna-o mais leve. O pensamento quando se exprime poeticamente (se isso for possível, mas talvez não seja) torna-se mais performativo e atinge mais profundamente o interlocutor. Mas verdadeiramente o movimento poético é divergente em relação ao pensamento porque é um facto vivido e sentido, um lamento, um murmúrio, um suspiro. Um desabafo. É uma acção. Verdadeiramente, o pensamento não é directamente convertível em poesia porque esta nasce num lugar diferente, impulsionada por estímulos diferentes. Nasce na alma. Mas na fase apolínea, espiritual, a interacção é possível. Ou seja, quando se atinge o sublime pode haver identificação, como dizia o Heidegger em “Was heisst Denken?”. A génese é que é diferente. E a linguagem também. É mais fácil converter um poema em prosa do que a prosa em poema. Porque este nasce noutro lugar. E é filho do sentimento. Mas a convertibilidade é possível num plano superior, numa dimensão ontológica.

4.

A solidão não é negativa. O que é preciso é saber viver nela e conviver com ela, dispondo de recursos para ir lá ao fundo e encontrarmo-nos nela como se fosse um espelho. Que até pode ser mágico. Na solidão podemos encontrar com maior nitidez a nossa própria identidade. Mas saber viver em solidão exige sabedoria.

5.

Quando a musa já não está ao alcance do olhar do poeta, por ausência, por perda, ele vai aos confins da memória e transforma-a em “moviola” para reconstruir o filme da sua vida, na sua relação com ela. E é ali que constrói a sua narrativa poética, como quem escreve a pauta musical de uma bela melodia, onde as palavras são também teclas, além de notas. Torna-se compositor. É esse o poder do poeta, como um compositor e como um realizador de cinema onde a câmara de filmar, as notas musicais e as teclas do piano são as palavras. O filme tem banda sonora própria.

6.

As musas são ao mesmo tempo a perdição e a salvação dos poetas. Às vezes assumem a forma física de mulher, digamos, aludem a ou encarnam em determinadas personagens, como referenciais; outras são desenhadas/pintadas pelo pintor/poeta com o objectivo de as visualizar livremente no processo compositivo; outras, ainda, são recuperadas lá do fundo da memória e desenhadas apenas com palavras. “À la recherche de la muse perdue”. Sereias. Eles, os poetas, vivem em constante sobressalto. E é dolorosa e delicada a dialéctica da ausência-presença, do silêncio e do seu eco, da dor e da epifania. Sem musas não haveria poetas. É verdade, elas vivem nos jardins, mimetizadas. Elas são perfumes, são flores, são luz que encandeia o olhar do pobre poeta, são brisa que sopra suavemente na sua fantasia. São as gotas cintilantes da chuva que lhe rega a fantasia: “chove na alta fantasia”, dizia o Dante Alighieri. Onde há um poeta há sempre uma musa.  E chove sempre. Os poetas gostam de andar à chuva. E há sempre inquietação, porque a sua é uma relação não resolvida que obriga a uma permanente dialéctica entre a alma e o espírito. O “tertium” desta dialéctica é a própria poesia, como superação. Aufhebung, diria o Hegel. Neste caso, tertium datur: a poesia . O espírito que projecta a alma nas nuvens. Um permanente desassossego que termina lá no azul do céu, mas que, qual eterno retorno, regressa sempre à pista de onde a alma descolou. Ao jardim e à primavera, como Perséfone. É assim que ele se mantém vivo, fecundo e em permanente viagem.

7.

A vontade acciona o desejo. E entre ambos talvez possa haver um abismo. Posso desejar, mas não accionar a vontade para satisfazer o desejo. O Heidegger, no livro “Was heisst Denken?”, na segunda lição, fala de um abismo que se abre, puro e decidido, entre a poesia e o pensar, quando ambos são o mesmo, ou seja, quando a poesia é sublime e o pensar profundo (o poeta preferido dele era Hölderlin). O abismo do ser? Talvez. Nele, o pensar e a poesia encontram-se, numa espécie de partilha ontológica. O encontro dá-se quando, num, intervém o espírito (na poesia) e, no outro, irrompe a alma (no pensar). Um sobe e o outro desce, por assim dizer. E assim se encontram.  A meio caminho, sim, mas sempre lá no alto. Neste sentido também se poderia dizer que desejo e vontade são o mesmo, quando o abismo entre ambos se abre puro e decidido, para usar as palavras de Heidegger. Ou seja, é neste abismo que acontece o encontro com o ser e o desejo é accionado pela vontade.  Não se trata, pois, de uma fractura profunda que separa, mas de um horizonte vasto de encontro. Quando um olhar se eleva ao sublime abre-se um abismo, o desejo e a vontade confundem-se e a arte pode nascer como resposta a esse olhar. A vontade e a poesia. Foi o que aconteceu ao poeta de “Confissão”. Talvez esse abismo seja aquilo que se designa por diferença ontológica. O poeta frente ao abismo. Atirado para ali pelo olhar abissal da musa. Um estremecimento ontológico que dá lugar à criação e à elevação. Uma espécie de “ballon”, como na dança. E a diferença também é temporal e espacial. O poeta só vê a musa na moviola, mas, mesmo assim, estremece. Um estremecer em diferido, tal a força desse olhar. É um olhar que tem a força de uma pulsão. É claro que estamos num terreno essencial, onde o que acontece não pertence à esfera da rotina ou do circunstancial. A verdadeira poesia situa-se aqui. E, confesso, o outono, esse mês do recolhimento e das folhas caídas (e da romã de Perséfone), é a estação propícia.

8.

A musa vem sempre lá do alto envolta numa neblina cintilante. Mas, como sempre, só fica (como aparição) uns breves momentos (“dois minutos”). As musas são rápidas e leves como as fadas. E os poetas têm de “fotografar” esses breves instantes para depois os fixarem em palavras. Eksaíphnês. É o carácter instantâneo, mas potente, destes encontros que deixa nos poetas uma tal sensação de fugacidade e de perda que os leva sempre a ter de recomeçar. Como agarrar esse poderoso instante? O kairós, o tempo oportuno. Muitas vezes um poema é a história de um instante, o da aparição da musa. Um relance e, depois, “la nuit” (Baudelaire). E quase nunca há lua-cheia. Só sombras. Mas a primavera há-de sempre chegar e, com ela, a luz e um renascer luminoso. A poesia.

9.

Encontraram-se os amantes improváveis, mas não sei se era redonda a tarde em que isso aconteceu. Podia ser, se a imaginação do poeta na sua visita à memória a quisesse redonda, sem ponto de fuga. Mas se assim fosse havia o perigo de ficar encerrado na própria tarde para nunca mais de lá poder sair. Seria um eterno entardecer. É o perigo das tardes ou mesmo das manhãs redondas. Mas a verdade é que os poetas gostam sempre de ter pontos de fuga… sobretudo quando entardece, ao crepúsculo. E este poeta também. E tardes houve que já lhe entardeceram tantas vezes… Que seria dele se não tivesse pontos de fuga? JAS@05-2026

Poesia-Pintura

Análise do Poema, 
seguida de Ensaio sobre

CONFISSÃO

de João de Almeida Santos

André Moshe Veríssimo, PhD

“Fascínio” – JAS2023

O POEMA É UMA CONFISSÃO que se desdobra como um olhar fixo: frontal, penetrante, diamantino. Todo o texto gravita em torno do olhar como eixo revelacional — não apenas como tema, mas como estrutura ontológica. É através dele que o impossível (a sereia distante, o mar interior, o amor à distância) se torna fixável, dizível e, por fim, invencível.

O OLHAR: PROFUNDIDADE, 
VIÉS e IM-PRESENÇA

A profundidade do olhar é absoluta: “Tão frontal, / Olhar fixo, / Penetrante”. Não é um olhar azul romântico — é “de sol / Que ilumina”, cor de luz pura, ternura que permite navegar “à bolina” (contra o vento, contra a ausência). O viés é decisivo: o olhar não é direto, presencial, mas oblíquo, em contraluz (“Na mais pura / Contraluz”). O poeta outonal vê a amada sem ela estar à sua frente; ela olha-o “Inquieta, / Sem estar / À tua frente”. Aqui surge a im-presença — conceito nuclear do poema: O tu está fisicamente ausente (“Tão longe / Desse teu mar”). Mas está presente no olhar que “não me mente”.  A presença é mediada pela ausência; a ausência é habitada pela presença do olhar. Esta dialética é o que torna o poema paroxístico: cada estrofe é uma contração que tenta resolver o irresolúvel.

PARADOXOS E MALHA PAROXÍSTICA

 O poema é uma malha paroxística — uma rede tensa de repetições, interrogações e oxímoros que sobem em intensidade até à catarse final.

Principais paradoxos

Fascinante e fatal (o olhar é chamamento e risco de morte).

Longe / perto — o poeta está “tão longe” fisicamente, mas navega à bolina no mar interior dela.

Dizer / não dizer — os lábios “balbuciam / Palavras / Que me resistem” e, no entanto, “são sinais / Que persistem / E que outros / Não veriam”.

Não me sentes / teu olhar não me mente — a negação verbal é desmentida pela verdade do olhar.

Sereia / poeta de outono — a criatura mítica e o homem declinante encontram-se no mesmo espaço poético.

A estrutura em estrofes curtas, quase telegráficas, com maiúsculas iniciais em cada bloco, cria um ritmo sincopado, quase convulsivo — o paroxismo emocional traduzido em forma.

A NATUREZA IMPOSSÍVEL 
E O PODER DA PALAVRA

 A amada é sereia: não tem nome, não tem corpo inteiro — tem olhos que sabem a mar, boca que seduz, cabelos que iluminam, aragem que sopra sobre ela. É uma natureza impossível (sereia não existe), mas o poema lhe concede poder improvável:

“Sinfonia / De cor”

“Melodia / Que me aquece / Como fonte / De calor”

O mar dela aquece, ilumina, seduz mesmo à distância.

Esta natureza só existe fixada na palavra. O poema é o eixo revelacional: a confissão poética não descreve — revela. O que era impossível (amar uma sereia ausente) torna-se real no ato de nomear. A palavra vence a distância, o silêncio e o tempo.

APROXIMAÇÕES: CELAN, 
PESSOA, LAOTSÉ, CAVAFY

 Paul Celan — A linguagem como ferida e testemunho. O olhar é o “tu” celaniano que carrega o abismo dentro de si. A “dorida distância” e o “o que nunca / Me diriam” ecoam o silêncio de Celan: o que não pode ser dito plenamente ainda assim persiste como sinal. O poema de Santos é, como muitos de Celan, uma confissão que falha e, nessa falha, revela.

Fernando Pessoa — O “poeta d’outono” é heterónimo possível de Pessoa. A dúvida sobre a musa (“ou que do poema / A sua musa / Não és”) é puro fingimento pessoano: o poema cria a realidade que depois questiona. A saudade que “esmoreço” é a saudade nacional elevada a metafísica. O outono e a contraluz são o crepúsculo pessoano onde o eu se desdobra.

Laozi (Laotsé) — O Tao Te Ching está presente na suavidade que vence: “Sopra aragem / Sobre ti, / Um suave / Respirar”. O poder do vazio (o olhar que penetra sem estar presente), o não-dizer que diz mais (“balbuciam… o que nunca me diriam”), a contraluz como iluminação pela ausência de luz direta. O mar como fluxo do Tao — tudo flui, tudo retorna nas marés. A invencibilidade do suave sobre o duro é taoista.

Constantine Cavafy — A nostalgia erótica e sensorial é cavafiana: olhos húmidos, boca que seduz, cabelos que iluminam. O tempo que passa (outono, marés) e a memória do instante do olhar na “dorida distância” recordam os poemas alexandrinos de Cavafy, onde o desejo persiste precisamente porque o corpo está ausente. O poeta recorda com precisão arqueológica o que nunca mais terá.

 TEMPO E NOSTALGIA 
A INVENCIBILIDADE FINAL

 O tempo é marcado pelas marés (cíclicas, inevitáveis) e pelo outono (declínio). A nostalgia (“saudades”) é o motor: sem o olhar, o poeta “esmoreço”. Mas o poema é o antídoto: ao confessar, ele fixa o instante, eterniza o olhar, torna invencível o que era frágil.

A última afirmação — “o teu olhar / Não me mente…” — é o triunfo. Apesar de toda a distância, todo o silêncio, todo o outono, o olhar não mente. É a invencibilidade da verdade emocional revelada pela palavra.

CONCLUSÃO

Em “Confissão”, João de Almeida Santos alcança uma das mais puras sínteses da poesia contemporânea portuguesa: une o olhar como revelação (Celan), o fingimento e a saudade (Pessoa), a suavidade taoista e a nostalgia erótica de Cavafy, tudo isso tecendo uma malha paroxística onde a im-presença se torna presença absoluta e a natureza impossível se fixa para sempre na palavra.

O poema não é apenas sobre um amor à distância. É sobre o poder da poesia de transformar o ausente em eterno, o impossível em revelado, o olhar distante em verdade invencível.

“Olhas-me, pois, / Inquieta, / Sem estar / À tua frente… / Mas por isso / Eu te digo / Que o teu olhar / Não me mente…”

Esta é a confissão final — e a vitória.

NOTA

Publicado a 16 de Maio de 2026, com ilustração “Fascínio” – JAS 2023


A IM-PRESENÇA E O OLHAR DIAMANTINO

Ensaio crítico-hermenêutico

Leitura sistémica de «Confissão», 
de João de Almeida Santos,
articulada nos eixos 
Celan-Pessoa-Cavafy-Laozi
e nos seus interlocutores 
filosóficos latentes.
Publicação acompanhada da 
ilustração «Fascínio» (JAS, 2023)

Poema publicado a 16.05.2026

André Moshe Veríssimo

Resumo

O presente ensaio articula uma leitura crítico-hermenêutica do poema «Confissão» de João de Almeida Santos, publicado a 16 de Maio de 2026 e acompanhado da ilustração «Fascínio» (JAS, 2023), em chave de leitura sistémica que integra coordenadamente os seus interlocutores patentes (Paul Celan, Fernando Pessoa, Konstantinos Kaváfis, Laozi) e os seus interlocutores latentes não-nominados mas estruturalmente convocados (Emmanuel Levinas sobre a fenomenologia do rosto e da alteridade absoluta; Maurice Blanchot sobre o desastre e a escrita do desaparecimento; Jean-Luc Marion sobre o ícone e a contraluz revelacional; Roland Barthes sobre o discurso amoroso; Octavio Paz sobre o erotismo como signo poético; Henri Bergson sobre a duração; Jacques Derrida sobre a différance e o rastro espectral; Jean-Luc Nancy sobre o tacto da im-presença; e Walter Benjamin sobre a aura na sua dissolução melancólica). O poema é articulado como uma malha paroxística cuja estrutura ontológica radica numa categoria nuclear original — a im-presença — que opera a articulação dialéctica entre ausência física e presença ocular absoluta, e cuja resolução terminal opera pela palavra poética em modalidade de invencibilidade revelacional. A análise distribui-se em sete movimentos sistemáticos: (i) prolegómenos metodológicos sobre o olhar diamantino; (ii) topologia da im-presença e dialéctica da ausência habitada; (iii) malha paroxística e oxímoros estruturantes; (iv) natureza impossível e poder revelador da palavra; (v) constelação dos interlocutores patentes; (vi) constelação dos interlocutores latentes; (vii) síntese sistémica e invencibilidade terminal.

Palavras-chave

Im-presença · olhar diamantino · contraluz revelacional · sereia e poeta de Outono · malha paroxística · invencibilidade da palavra · João de Almeida Santos · Paul Celan · Fernando Pessoa · Konstantinos Kaváfis · Laozi · Emmanuel Levinas · Maurice Blanchot · Jean-Luc Marion · Roland Barthes · Octavio Paz · Henri Bergson · Jacques Derrida · Jean-Luc Nancy · Walter Benjamin.

Abstract

This essay articulates a critical-hermeneutic reading of João de Almeida Santos’s poem «Confissão» (Confession), published on 16 May 2026 and accompanied by the illustration «Fascínio» (JAS, 2023), in a systemic reading-key that coordinately integrates its patent interlocutors (Paul Celan, Fernando Pessoa, Constantine Cavafy, Laozi) and its latent non-nominated yet structurally summoned interlocutors (Emmanuel Levinas on the phenomenology of the face and absolute alterity; Maurice Blanchot on disaster and the writing of disappearance; Jean-Luc Marion on the icon and revelational contre-jour; Roland Barthes on amorous discourse; Octavio Paz on eroticism as poetic sign; Henri Bergson on duration; Jacques Derrida on différance and the spectral trace; Jean-Luc Nancy on the tact of in-presence; and Walter Benjamin on aura in its melancholic dissolution). The poem is articulated as a paroxysmic mesh whose ontological structure radicates in an original nuclear category — in-presence — operating the dialectical articulation between physical absence and absolute ocular presence, whose terminal resolution operates through the poetic word in the modality of revelational invincibility.

Résumé

Le présent essai articule une lecture critique et herméneutique du poème «Confissão» (Confession) de João de Almeida Santos, publié le 16 mai 2026 et accompagné de l’illustration «Fascínio» (JAS, 2023), selon une clé de lecture systémique intégrant de manière coordonnée ses interlocuteurs patents (Paul Celan, Fernando Pessoa, Constantin Cavafy, Lao-tseu) et ses interlocuteurs latents non nommés mais structurellement convoqués (Emmanuel Levinas sur la phénoménologie du visage et de l’altérité absolue; Maurice Blanchot sur le désastre et l’écriture de la disparition; Jean-Luc Marion sur l’icône et le contre-jour révélationnel; Roland Barthes sur le discours amoureux; Octavio Paz sur l’érotisme comme signe poétique; Henri Bergson sur la durée; Jacques Derrida sur la différance et la trace spectrale; Jean-Luc Nancy sur le tact de l’in-présence; Walter Benjamin sur l’aura dans sa dissolution mélancolique). Le poème s’articule comme un maillage paroxystique dont la structure ontologique se radicalise dans une catégorie nucléaire originale — l’in-présence — opérant la dialectique entre absence physique et présence oculaire absolue, dont la résolution terminale s’opère par la parole poétique en modalité d’invincibilité révélationnelle.

PREÂMBULO - O OLHAR DIAMANTINO 
COMO EIXO REVELACIONAL

«Confissão», publicado por João de Almeida Santos a 16 de Maio de 2026 e acompanhado da ilustração de sua autoria «Fascínio» (JAS, 2023), articula em chave de paroxismo lírico extremo uma das mais densas explorações fenomenológicas do olhar produzidas na poesia portuguesa contemporânea. O poema opera em modalidade compositiva específica que pode ser caracterizada como malha paroxística — rede tensa de repetições, oxímoros, interrogações elididas e cortes versais que sobem em intensidade até à catarse revelacional terminal. Em vez de operar em chave narrativa ou descritiva, o poema opera em chave de revelação ocular: o que vai sendo dito não descreve um objecto exterior, mas vai constituindo, ao mesmo tempo que enuncia, a sua própria realidade ontológica. O olhar fixo, frontal, penetrante, é o operador desta constituição.

O presente ensaio propõe que esta operação compositiva específica não se compreende plenamente sem o reconhecimento articulado de duas constelações sobrepostas e coordenadas: uma constelação de interlocutores patentes, expressamente convocada pelo poema enquanto tradição lírica europeia da nostalgia e da im-presença (Paul Celan, Fernando Pessoa, Konstantinos Kaváfis, Laozi); e uma constelação de interlocutores latentes, estruturalmente pressuposta pela operação fenomenológica do poema mas não nominalmente invocada por ele (Emmanuel Levinas, Maurice Blanchot, Jean-Luc Marion, Roland Barthes, Octavio Paz, Henri Bergson, Jacques Derrida, Jean-Luc Nancy, Walter Benjamin). A articulação sistémica das duas constelações constitui a operação central do ensaio.

A tese central que orienta a leitura é a seguinte: «Confissão» radicaliza, em chave de paroxismo lírico português, uma categoria fenomenológica nuclear que pode designar-se como im-presença (com hífen deliberado, marcando a tensão dialéctica entre o prefixo privativo e a posição plena). A im-presença não é a simples ausência (que seria categoria negativa), nem a presença simples (que seria categoria positiva pura), mas a presença habitada pela ausência e a ausência habitada pela presença — modalidade ontológica que excede em densidade conceptual a dialéctica clássica presença/ausência e que articula uma terceira categoria irredutível. O olhar é, no poema, o operador desta terceira categoria: ele opera plena presença ocular numa modalidade de absoluta ausência corporal.

A operação revelacional opera-se em três tempos articulados que estruturam, simultaneamente, a sintaxe do poema e a sua arquitectura fenomenológica. Primeiro tempo: instalação da im-presença — o olhar é tão frontal, fixo, penetrante, que opera a presença plena da amada distante; mas é simultaneamente olhar à bolina, em contraluz, oblíquo, que mantém a amada na sua distância irredutível. Segundo tempo: malha paroxística — a tensão entre o pólo da presença ocular plena e o pólo da ausência corporal absoluta gera uma série de oxímoros que sobem em intensidade (fascinante e fatal, longe e perto, dizer e não dizer, sereia e poeta de Outono). Terceiro tempo: resolução terminal — o poema opera a sua resolução não pela superação dialéctica dos oxímoros (que seria operação hegeliana), nem pela sua sustentação em tensão suspensa (que seria operação derridiana), mas pela invocação de uma instância terceira que excede em densidade ontológica tanto a presença como a ausência: a palavra poética como acto de fixação eterna do olhar. O verso terminal — «o teu olhar não me mente» — é a invencibilidade desta operação.

A leitura que se segue distribui-se em sete movimentos sistemáticos coordenados. O primeiro movimento (presente Preâmbulo) instala os termos metodológicos do ensaio. O segundo movimento articula a topologia da im-presença em chave de fenomenologia do olhar diamantino. O terceiro movimento analisa a malha paroxística do poema em chave de retórica do oxímoro. O quarto movimento explora a categoria da natureza impossível (a amada-sereia) e o poder revelador da palavra que constitui o seu objecto. O quinto movimento articula em pormenor cada um dos quatro interlocutores patentes do poema (Celan, Pessoa, Kaváfis, Laozi), demonstrando como cada um contribui para a economia compositiva específica de «Confissão». O sexto movimento articula os interlocutores latentes — autores filosóficos, pensadores fenomenológicos, teóricos literários — que o poema não nomeia mas estruturalmente convoca, com particular atenção a Levinas, Blanchot, Marion, Barthes, Paz, Bergson, Derrida, Nancy e Benjamin. O sétimo movimento opera a síntese sistémica que articula as duas constelações numa única arquitectura interpretativa de plenitude conceptual, culminando na tese da invencibilidade terminal.

TOPOLOGIA DA IM-PRESENÇA 
DIALÉCTICA DA AUSÊNCIA HABITADA
1. O olhar como eixo ontológico

O incipit de «Confissão» instala de imediato a economia ontológica do poema: «Tão frontal, / Olhar fixo, / Penetrante». Os três adjectivos não funcionam em chave de descrição psicológica de uma situação interpessoal (que seria operação narrativa convencional), mas em chave de instalação fenomenológica de uma categoria nuclear: o olhar como eixo ontológico do real poético. A frontalidade do olhar não é orientação espacial entre duas pessoas fisicamente confrontadas, mas é frontalidade absoluta — orientação total do olhar para o sujeito poético que é simultaneamente alvo e fonte da revelação. A fixidez do olhar não é imobilidade visual, mas absoluta concentração ontológica que excede a temporalidade da observação humana ordinária. A penetração do olhar não é metáfora de intimidade afectiva, mas operação ontológica de transpenetração: o olhar atravessa a ausência corporal, atravessa a distância geográfica, atravessa o tempo de Outono, atravessa o silêncio das palavras não-ditas — e instala no sujeito poético a presença ocular plena de quem está fisicamente ausente.

A categoria fenomenológica que esta operação convoca é uma das mais antigas e estruturantes da reflexão filosófica ocidental sobre o real. Levinas, em Totalité et Infini (1961, Haia), articulou-a sob a categoria do visage — o rosto humano como abertura primordial da relação ética, como instância que precede e excede toda objectivação cognitiva. O rosto, em Levinas, não é objecto de percepção (que seria categoria husserliana derivada), mas é eixo ético primordial cuja epifania inaugura a relação humana enquanto tal. O olhar do rosto não dirige a atenção do outro — convoca, interpela, ordena. É olhar que precede e funda a ética. O olhar de «Confissão» opera precisamente nesta chave: ele não é objecto da consciência do poeta, é o seu eixo originário; ele convoca o poeta enquanto sujeito ético — sujeito-perante-o-olhar.

Mas a operação de Almeida Santos excede a operação levinasiana em dois pontos decisivos. Primeiro: o olhar não é apenas eixo ético, é também eixo erótico-revelacional. A relação convocada pelo olhar não é apenas relação ética de responsabilidade pelo outro (que seria operação estritamente levinasiana), é relação amorosa de paroxismo lírico que articula desejo, nostalgia, distância irredutível, e revelação poética. Segundo: o olhar não opera apenas no instante presente da epifania ética (que seria operação fenomenológica clássica), opera em chave de im-presença — o olhar é ocularmente plenamente presente, mas é corporalmente plenamente ausente. É olhar de quem está «tão longe / Desse teu mar», mas que «não me mente». A operação fenomenológica de «Confissão» é, neste aspecto preciso, fenomenologia de uma im-presença que excede a fenomenologia clássica da presença ético-ocular levinasiana.

2. A im-presença 
como terceira categoria

A tradição filosófica ocidental opera classicamente em chave de dialéctica presença/ausência — modalidade binária de pensar a relação entre o sujeito da percepção e o objecto percepcionado. A presença é a categoria positiva (o objecto está aí, ofereço-me a ele e ele oferece-se a mim), a ausência é a categoria negativa (o objecto não está aí, lamento a sua falta ou esqueço-o). Esta dialéctica binária estrutura, desde Parménides e Platão até Husserl e Heidegger, a economia ontológica fundamental do pensamento ocidental sobre o real. «Confissão» articula, em chave estritamente sua, uma terceira categoria que excede a dialéctica binária clássica: a im-presença com hífen deliberado.

A im-presença não é a simples ausência (que seria categoria privativa: o objecto está fora do campo perceptivo). Não é a simples presença (que seria categoria positiva plena: o objecto está dentro do campo perceptivo). É a presença habitada pela ausência e a ausência habitada pela presença — modalidade ontológica que articula em si tanto a positividade da presença como a negatividade da ausência, sem reduzir nenhuma à outra. Nesta categoria, o olhar pode estar plenamente presente sem o corpo estar presente; o corpo pode estar plenamente ausente sem o olhar estar ausente. A categoria opera por dissociação ontológica entre olhar e corpo, distribuindo a presença total entre dois pólos ocular e corporal que não coincidem.

Esta operação não é, contudo, mera fragmentação ontológica do sujeito amado. Não é dizer que a amada «existe parcialmente» (no olhar) e «não existe parcialmente» (no corpo). É operação muito mais densa: a amada existe inteiramente, mas a sua existência total opera-se através da dissociação irredutível entre o pólo ocular (plenamente presente) e o pólo corporal (plenamente ausente). A unidade da pessoa amada é precisamente esta articulação irredutível entre os dois pólos. Por isso o poeta pode afirmar simultaneamente, no mesmo verso, «Tão longe / Desse teu mar» e «Não me sentes / Mas, no entanto, / o teu olhar / Não me mente». A distância corporal não é desmentida pela presença ocular; é articulada com ela em modalidade de coexistência paradoxal que opera, precisamente, a categoria da im-presença.

A tradição filosófica que mais se aproxima desta operação é a tradição da différance derridiana (Jacques Derrida, De la grammatologie, 1967, Paris) e do rastro espectral (Spectres de Marx, 1993, Paris). A différance derridiana é precisamente a operação de uma diferença que não opera por mera oposição binária, mas por adiamento e suplemento — a presença é sempre habitada pela ausência do que ela não é, a ausência é sempre habitada pela espectralidade do que poderia ter sido. O olhar de «Confissão», nesta perspectiva, é olhar espectral em sentido derridiano estrito: olhar que está e não está, que vê sem ver, que afirma a sua presença na sua própria ausência. Mas Almeida Santos opera esta espectralidade não em chave de teoria da escrita filosófica (que seria operação derridiana), mas em chave de paroxismo lírico amoroso — e é precisamente esta translação da différance filosófica para o paroxismo lírico que constitui a originalidade compositiva do poema.

3. A contraluz 
como modalidade revelacional

A categoria da contraluz, articulada na primeira estrofe («Na mais pura / Contraluz»), opera em «Confissão» a função de tradutor visual da im-presença ontológica. A contraluz é situação visual específica em que o objecto observado se encontra entre o observador e a fonte luminosa — modalidade em que a luz vem de trás do objecto, e o objecto é visto não em iluminação directa, mas em silhueta luminosa, em definição de contorno, em revelação por contraste com o fundo luminoso. A contraluz é, em fotografia, em pintura, em cinematografia, a modalidade visual que opera a revelação não pela exposição do detalhe mas pela definição da forma essencial.

Esta categoria visual é articulada, no contexto teológico-filosófico contemporâneo, por Jean-Luc Marion em Dieu sans l’être (1982, Paris) e em La croisée du visible (1991, Paris). Marion distingue, em chave fenomenológica, entre o ídolo e o ícone como duas modalidades de relação do sujeito com o visível. O ídolo é aquilo que o olhar vê e detém em si; é a imagem que se sujeita à percepção do observador. O ícone, ao invés, é aquilo que olha o observador antes que o observador o veja; é a imagem cuja densidade ontológica excede a capacidade perceptiva e que opera, em chave de revelação invertida, a transformação ocular do observador. O ícone marioniano opera tipicamente em chave de contraluz: a luz não vem do observador para o objecto, vem do objecto para o observador, e em modalidade tal que excede a capacidade ocular ordinária da percepção.

«Confissão» opera precisamente esta inversão marioniana, mas em chave estritamente lírica e amorosa. O olhar da amada não é objecto da percepção do poeta — é ícone que olha o poeta antes que ele o veja, e que opera nele a transformação revelacional. A contraluz não é, portanto, mera figura visual de uma situação fenomenológica neutra, é categoria revelacional plena: é a modalidade em que o olhar amado opera no sujeito poético a sua transformação ontológica. O poeta não vê a amada — é visto por ela, é constituído como sujeito-perante-o-olhar pela operação iconográfica do seu olhar. E esta operação é, em si mesma, modalidade da im-presença: o ícone do olhar amado opera plena presença ocular em modalidade de plena ausência corporal.

MALHA PAROXÍSTICA 
RETÓRICA DO OXÍMORO E DA CONVULSÃO
1. A estrutura sincopada dos versos

A organização versal de «Confissão» opera em modalidade estritamente específica que reforça arquitecturalmente a sua tese ontológica. Os versos são curtos, quase telegráficos; as estrofes operam por blocos compactos de duas a quatro linhas; cada bloco inicia tipicamente em maiúscula, conferindo aos blocos uma autonomia sintáctica relativa que opera, no plano rítmico, uma sucessão sincopada de unidades semânticas. Esta sucessão sincopada é precisamente o que articula, na materialidade rítmica do poema, a paroxisticidade da experiência ontológica que ele convoca: cada bloco é uma contração que tenta resolver o irresolúvel, e a sucessão dos blocos é uma série de contracções que se acumulam em intensidade crescente até à catarse revelacional terminal.

Esta operação rítmica encontra a sua mais densa articulação teórica em Henri Meschonnic (Critique du rythme, 1982, Lagrasse), para quem o ritmo do poema não é categoria meramente formal subordinada ao sentido, mas é o próprio sentido em modalidade rítmica: o ritmo é a operação semiótica primordial em que o sujeito se inscreve no acto de linguagem. A ritmologia meschonniciana opera, em chave estritamente sua, a tese de que a forma é sentido. Em «Confissão», a forma sincopada dos versos não é mero recurso estilístico justaposto à tese ontológica do poema (a im-presença), mas é a tradução rítmica imediata da própria tese: a malha paroxística é, simultaneamente, conteúdo (oxímoros, ausência habitada, distância invencida) e forma (versos curtos, blocos sincopados, ritmo convulsivo). A homologia entre forma e sentido é absoluta — é precisamente esta homologia que confere ao poema a sua densidade compositiva extraordinária.

2. Os oxímoros 
como operadores ontológicos

A malha paroxística é construída em torno de uma série coordenada de oxímoros que operam, cada um na sua chave específica, modalidade da im-presença nuclear do poema. O oxímoro não é, em «Confissão», mero recurso retórico decorativo (que seria operação retórica clássica), é operador ontológico que articula em sintaxe condensada a categoria nuclear da im-presença. Cada oxímoro é uma cristalização verbal da categoria: ele opera, em duas palavras justapostas, a presença habitada pela ausência que a categoria nuclear pretende articular extensamente.

Primeiro oxímoro estruturante: fascinante e fatal. O olhar é simultaneamente chamamento (fascinante: o que prende, o que seduz, o que convoca) e risco de morte (fatal: o que destina, o que conduz ao limite, o que ameaça a integridade do sujeito). Esta dialéctica do amor como sedução-mortal é tradição lírica de longuíssima duração na poesia europeia, articulada desde os trovadores provençais (com a categoria da joi que é simultaneamente alegria e ferida) até Baudelaire (Les Fleurs du Mal, 1857, Paris, com a articulação da volupté como modalidade do mal) e Bataille (L’érotisme, 1957, Paris, com a articulação da experiência erótica como aproximação dialéctica da morte). Em Almeida Santos, esta dialéctica antiga opera em modalidade especificamente portuguesa contemporânea — articulada não em chave de transgressão moral (que seria operação baudelairiana) nem de mística erótica (que seria operação bataillana), mas em chave de paroxismo lírico do Outono.

Segundo oxímoro estruturante: longe e perto. O poeta está «tão longe» fisicamente da amada, mas navega «à bolina» no «mar interior dela». A distância física é absoluta, mas a presença interior é igualmente absoluta. Esta dialéctica articula, em chave estritamente lírica, a categoria fenomenológica que Maurice Merleau-Ponty articulou em Phénoménologie de la perception (1945, Paris) como espacialidade vivida — o espaço da experiência não é o espaço geométrico euclidiano em que a distância se mede em metros, é o espaço fenomenológico em que a distância se articula em modalidade existencial. Em modalidade existencial, a amada pode estar simultaneamente «tão longe» (geograficamente) e «tão perto» (afectivamente, ocularmente, intencionalmente). A operação merleau-pontyana é discreta no poema mas estrutural.

Terceiro oxímoro estruturante: dizer e não dizer. Os lábios «balbuciam / Palavras / Que me resistem» — modalidade da linguagem que tenta dizer mas não consegue dizer plenamente. Mas estas mesmas palavras balbuciadas «são sinais / Que persistem / E que outros / Não veriam» — modalidade da linguagem que diz precisamente naquilo em que falha, que revela precisamente em virtude da sua resistência à plena enunciação. Esta dialéctica articula a categoria nuclear que Maurice Blanchot articulou em L’espace littéraire (1955, Paris) e em L’écriture du désastre (1980, Paris) como escrita do desaparecimento — modalidade da linguagem em que o dizer só se opera mediante o seu próprio fracasso, em que o que é revelado é-o precisamente em virtude do que não pode ser dito. A operação blanchotiana é, em «Confissão», operação latente decisiva.

Quarto oxímoro estruturante: não me sentes mas o teu olhar não me mente. A amada, em chave corporal-afectiva, não sente o poeta (a distância física opera a sua absoluta separação afectiva ao nível do contacto). Mas, em chave ocular, o seu olhar não mente — opera a verdade plena da relação. A dialéctica entre o nível do contacto sensorial (em que a amada está corporalmente ausente) e o nível da revelação ocular (em que a amada está plenamente presente) articula precisamente a topologia da im-presença que constitui a categoria nuclear do poema.

Quinto oxímoro estruturante: sereia e poeta de outono. A criatura mítica (a sereia: criatura híbrida, marinha, sedutora, ontologicamente impossível) e o homem declinante (o poeta de Outono: figura humana, terrestre, em estado de declínio sazonal e existencial) encontram-se no mesmo espaço poético em modalidade de coexistência paradoxal que articula, em chave terminal, a dialéctica nuclear do poema. A sereia é figura da natureza impossível (categoria a desenvolver no movimento seguinte); o poeta de Outono é figura da humanidade declinante. A coexistência das duas figuras opera em modalidade especificamente poética que excede em densidade ontológica a coexistência geográfica ou narrativa convencional. É o poema que constitui o espaço em que sereia e poeta podem coexistir, e essa constituição é precisamente a operação revelacional terminal do poema.

3. A acumulação rítmica 
como paroxismo crescente

A sucessão dos oxímoros não opera em chave de mera enumeração paralela (que seria operação retórica clássica), opera em chave de acumulação rítmica crescente que constitui a malha paroxística do poema. Cada oxímoro é, em si, uma cristalização da categoria nuclear; mas a sucessão dos oxímoros opera uma intensificação progressiva que culmina na catarse revelacional terminal. Esta operação articula a categoria estética que Friedrich Schlegel articulou nos Fragmentos do Athenaeum (1798, Berlim) como o paroxístico romântico — modalidade compositiva em que a forma poética opera em estado de tensão extrema e crescente até ao ponto-limite da revelação ou da ruptura. Mas Almeida Santos opera esta categoria não em chave romântico-alemã (que articula o paroxismo em direcção ao infinito metafísico), mas em chave portuguesa contemporânea (que articula o paroxismo em direcção à invencibilidade da palavra poética terminal).

A diferença entre a operação romântico-alemã e a operação portuguesa contemporânea articulada por Almeida Santos é estruturalmente decisiva. O paroxismo romântico schlegeliano culmina tipicamente em modalidade de transcendência infinita: o poema abre-se para o infinito metafísico que o excede e em que se dissolve. O paroxismo de «Confissão» culmina, ao invés, em modalidade de fixação eterna: o poema fixa para sempre o olhar na palavra que opera a sua invencibilidade. Não há dissolução no infinito; há cristalização no eterno. Esta diferença é estruturalmente análoga à diferença entre a poesia de Hölderlin (que opera em chave de abertura ao divino que excede) e a poesia de Pessoa (que opera em chave de fingimento que cristaliza o real no acto poético). Almeida Santos opera linhagem portuguesa específica em que o paroxismo lírico cristaliza em vez de dissolver — e é precisamente esta cristalização que opera a categoria terminal da invencibilidade.

A NATUREZA IMPOSSÍVEL 
E O PODER REVELADOR DA PALAVRA
1. A sereia 
como figura da natureza impossível

A amada de «Confissão» é articulada não como pessoa concreta com identidade biográfica definida, mas como sereia — figura mitológica de natureza híbrida, marinha, ontologicamente impossível na ordem do real biológico ordinário. Esta opção compositiva não é mero recurso ornamental decorativo (que seria operação retórica trivial), é decisão ontológica fundamental que articula o estatuto categorial do objecto amado no poema. A amada não é pessoa empírica em situação geográfica concreta cuja distância pudesse ser medida em quilómetros e cuja ausência pudesse ser superada por uma viagem. É sereia — criatura que existe apenas no mar mítico, cuja distância é ontológica e não geográfica, cuja ausência é estrutural e não circunstancial.

A figura da sereia tem, na tradição literária europeia, uma genealogia longuíssima que articula em chave de constância simbólica a categoria da sedução-pelo-impossível. Já em Homero (Odisseia, canto XII), as sereias são figuras do canto irresistível que ameaça desviar Ulisses do seu retorno a Ítaca — operam em chave de tentação do estrangeiro absoluto, do canto que excede a humanidade. Em Andersen (A Pequena Sereia, 1837, Copenhaga), a sereia é figura da metamorfose impossível: a criatura que deseja humanidade plena mas que o seu próprio estatuto ontológico impede de alcançar. Em Eliot (The Love Song of J. Alfred Prufrock, 1915, Chicago), as sereias cantam mas não cantam para o sujeito da modernidade («I do not think that they will sing to me») — operam em chave de melancolia modernista da impossibilidade do canto erótico. Em Almeida Santos, a sereia opera em chave estritamente sua: ela canta, ela seduz, ela está presente no olhar — mas a sua presença é sempre presença-em-modalidade-de-impossibilidade-ontológica.

Esta operação articula a categoria fenomenológica que Roland Barthes articulou em Fragments d’un discours amoureux (1977, Paris) como o objecto amoroso enquanto figura. Para Barthes, o sujeito amoroso não tem propriamente diante de si uma pessoa empírica determinada (que seria o objecto comum da experiência intersubjectiva), tem uma figura — instalação imaginária que articula em modalidade simultaneamente vívida e ficcional a presença do outro amado. A figura barthesiana excede em densidade afectiva a pessoa empírica, e opera precisamente em chave de sustentação imaginária da relação na sua impossibilidade. A amada-sereia de «Confissão» é figura barthesiana em sentido estrito: ela não é menos real por ser sereia; é mais real, porque a sua natureza impossível opera a sustentação imaginária do desejo em modalidade que a pessoa empírica jamais alcançaria.

2. A natureza impossível 
como espaço da palavra

A categoria da natureza impossível não opera, contudo, em chave de mera ficcionalização (que seria operação trivial de transposição realidade-para-ficção). Opera em chave estritamente ontológica: a natureza impossível é o espaço próprio em que a palavra poética opera o seu trabalho constitutivo. A amada-sereia só existe na palavra que a articula; mas, ao existir na palavra, ela existe em modalidade plena que excede em densidade ontológica a existência empírica de qualquer pessoa real. A operação compositiva do poema é, simultaneamente, operação ontológica de constituição: o poema não descreve uma realidade pré-existente (que seria operação mimética clássica), constitui uma realidade nova que só na palavra poética é acessível.

Esta operação articula em chave estritamente lírica a categoria filosófica que Octavio Paz articulou em El arco y la lira (1956, México) como o poema enquanto objecto ontologicamente novo. Para Paz, o poema não é representação de uma realidade exterior pré-existente; é constituição de uma realidade poética irredutível à realidade ordinária. O acto poético é, na sua densidade plena, acto ontológico que cria o seu próprio objecto. Esta categoria pazina articula em chave plenamente desenvolvida a tradição de Mallarmé (que articulava o poema como criação que excede em densidade a realidade ordinária) e antecipa em chave fenomenológica a operação derridiana sobre a différance como condição da escrita. Em Almeida Santos, esta categoria opera em chave terminal: a amada-sereia é, em sentido estritamente paziano, objecto ontologicamente novo constituído pela operação compositiva do poema.

A acumulação de atributos sensoriais que o poema confere à sereia — olhos que «sabem a mar», boca que «seduz», cabelos que «iluminam», aragem que «sopra sobre» ela — articula a operação constitutiva específica do poema. Cada atributo é, simultaneamente, sintaxe descritiva (parece descrever um objecto pré-existente) e sintaxe constitutiva (constitui efectivamente o objecto que parece descrever). A ambiguidade entre as duas funções é precisamente o que confere ao poema a sua densidade revelacional. O poeta não está a dizer ao leitor que a sereia tem cabelos que iluminam (que seria operação narrativa); está a iluminar a sereia ao dizê-lo. A palavra opera a sua própria referente em chave de constituição revelacional.

3. Sinfonia de cor e melodia 
- sinestesia revelacional

Os versos «Sinfonia / De cor» e «Melodia / Que me aquece / Como fonte / De calor» operam, em chave de sinestesia, a articulação da natureza impossível em modalidade revelacional plena. A sinfonia é figura musical (organização temporal de sons em modalidade orquestral); a cor é figura visual (qualidade da percepção luminosa). A junção «sinfonia de cor» opera precisamente em chave de sinestesia — transposição entre regimes sensoriais ordinariamente disjuntos — articulando a amada-sereia como entidade que opera simultaneamente em todos os registos sensoriais sem se reduzir a nenhum. A melodia que aquece como fonte de calor opera a mesma articulação: o som torna-se temperatura, o canto torna-se aconchego, a vibração acústica opera a função fenomenológica do calor corporal.

Esta operação sinestésica é tradição lírica de longa duração que se articula desde os Correspondances de Baudelaire (1857, Paris, em Les Fleurs du Mal) até Rimbaud (Voyelles, 1871, Paris, com a articulação cromática das vogais) e Verlaine (Art poétique, 1882, Paris, com a articulação musical do poema). Em Almeida Santos, a sinestesia opera em chave especificamente pós-simbolista: não é mero recurso musicalista justaposto à tese amorosa do poema, é operação ontológica que articula a amada-sereia em modalidade de coexistência simultânea de todos os registos sensoriais — modalidade que apenas a palavra poética pode operar e que excede em densidade ontológica qualquer modalidade ordinária da percepção empírica.

A figura terminal do calor — «Melodia / Que me aquece / Como fonte / De calor» — opera ainda uma articulação adicional decisiva. A distância geográfica entre o poeta e a sereia é articulada como Outono (sazão fria, declinante, sombria); mas a presença ocular da sereia opera no poeta o aquecimento que o Outono empírico jamais poderia operar. A im-presença é, neste aspecto preciso, mais quente que a presença empírica: a sereia distante aquece mais que qualquer pessoa próxima poderia aquecer. A operação ontológica é vertiginosa — articula a tese de que a im-presença excede em densidade afectiva a presença empírica, e que esta excedência é precisamente o que constitui a originalidade compositiva específica de «Confissão».

CONSTELAÇÃO DOS INTERLOCUTORES 
PATENTES
1. Paul Celan 
- a ferida como testemunho

A presença de Paul Celan (1920-1970) na economia compositiva de «Confissão» é articulada em chave de operação estrutural decisiva que excede em densidade conceptual qualquer mera alusão literária superficial. Celan, poeta de língua alemã nascido em Czernowitz na Bukovina e radicado em Paris após a guerra, articulou em chave estritamente sua uma das mais densas operações líricas do século XX em torno da categoria da linguagem-ferida — modalidade da palavra poética em que o dizer só se opera mediante a sua própria impossibilidade. Em Todesfuge (1948, Bucareste, depois Heidelberg) e nas colectâneas posteriores (Sprachgitter, 1959, Frankfurt; Die Niemandsrose, 1963, Frankfurt; Atemwende, 1967, Frankfurt; Lichtzwang, 1970, Frankfurt), Celan articula a categoria do testemunho impossível — modalidade da palavra que tem de dizer o indizível (a Shoah) precisamente porque o dizer é simultaneamente impossível e necessário.

Em «Confissão», a operação celaniana é estruturalmente decisiva em três pontos articulados. Primeiro: a articulação dos lábios que «balbuciam / Palavras / Que me resistem» é precisamente operação celaniana em chave amorosa — a palavra opera em modalidade de resistência irredutível, e é precisamente nessa resistência que ela revela. Em Celan, a palavra-ferida é palavra que sangra em vez de fluir; em Almeida Santos, a palavra-balbuciada é palavra que resiste em vez de articular; em ambos, a operação semiótica é estruturalmente análoga: o dizer só se opera plenamente mediante o seu próprio fracasso. Segundo: a categoria da «dorida distância» (expressão do poema) articula em chave estritamente celaniana a topologia do espaço relacional. Em Celan, o «tu» (du) é eixo dialógico nuclear; é o destinatário absoluto da palavra poética; mas é simultaneamente o tu que carrega o abismo dentro de si — o tu cuja presença é sempre habitada pela ausência do que se perdeu. Em Almeida Santos, o tu da amada-sereia opera precisamente nesta chave: é tu plenamente dialógico (o olhar fala, balbucia, resiste), mas é tu habitado pela distância irredutível.

Terceiro ponto: a categoria do «o que nunca / Me diriam» articula em chave directa a operação celaniana do testemunho silencioso. Em Celan, há sempre uma instância do não-dito que é mais decisiva que o dito — instância silenciosa que opera em chave de testemunho-pelo-silêncio. Em Almeida Santos, o que «nunca diriam» os lábios balbuciantes é, paradoxalmente, o que é dito de modo mais decisivo: é precisamente o não-dito que constitui o conteúdo revelacional do balbucio. A operação celaniana é, neste ponto preciso, estruturalmente nuclear: «Confissão» opera em chave de testemunho amoroso silencioso em modalidade homóloga ao testemunho histórico silencioso celaniano. O amor distante e a catástrofe histórica articulam, em planos ontologicamente distintos, a mesma operação semiótica nuclear: dizer-pelo-fracasso-do-dizer.

2. Fernando Pessoa 
- fingimento e saudade metafísica

A invocação do «poeta d’outono» que «esmoreço» em saudades opera em chave de filiação directa e densa com a tradição pessoana — operação que constitui linhagem estruturalmente decisiva da lírica portuguesa contemporânea. Fernando Pessoa (1888-1935), em chave estritamente sua, articulou em quatro registos heteronímicos coordenados (Pessoa ortónimo, Caeiro, Reis, Campos) a economia ontológica do sujeito poético português moderno. A categoria nuclear que organiza esta economia é a categoria do fingimento — articulada centralmente em Autopsicografia (publicado em Presença, 1932, Coimbra) com o verso paradigmático «O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente».

O fingimento pessoano não é mentira (que seria categoria moral negativa) nem é simulação (que seria categoria psicológica derivada): é operação ontológica em que o sujeito poético se constitui no acto mesmo da sua articulação. O eu lírico pessoano não preexiste ao poema que o exprime — é constituído pelo poema na operação mesma da sua enunciação. Esta categoria articula em chave estritamente portuguesa a operação que Mallarmé articulou em francês como crise da representação e que Valéry articulou como o poema como construção pura. Pessoa opera esta categoria em chave estritamente lusíada, articulando o sujeito poético português moderno em modalidade de plenitude heteronímica irredutível.

Em «Confissão», a operação pessoana é estruturalmente decisiva em pelo menos três pontos articulados. Primeiro: a dúvida sobre a musa («ou que do poema / A sua musa / Não és»). Esta dúvida não é mera incerteza psicológica do poeta empírico (que seria operação narrativa convencional), é operação ontológica em chave estritamente pessoana: o poema cria a musa que depois questiona. A musa não preexiste ao poema; é constituída por ele. E o poema, ao mesmo tempo que a constitui, articula reflexivamente a sua possibilidade de não a constituir. Esta auto-reflexividade ontológica é precisamente operação pessoana em sentido estrito. Segundo: a categoria da saudade. A «saudade» que «esmoreço» é palavra estruturalmente portuguesa, articuladora de uma tradição lírica que se inscreve desde as cantigas de amigo medievais até Camões, Bocage e Pessoa. Mas a saudade de «Confissão» não é saudade meramente sentimental (que seria operação superficial), é saudade ontológica em chave de paroxismo metafísico — saudade do que nunca se teve plenamente, saudade do impossível, saudade que é simultaneamente nostalgia e modalidade revelacional. Esta categoria articula em chave directa a operação pessoana da saudade como modalidade de relação com o infinito.

Terceiro ponto: o Outono e a contraluz como crepúsculo pessoano. Em Pessoa, particularmente no Livro do Desassossego de Bernardo Soares (Lisboa, organização póstuma a partir de 1929), o crepúsculo é categoria nuclear que articula o sujeito poético em modalidade declinante, suave, contemplativa. O Outono pessoano é estação da meditação sobre a passagem do tempo; a contraluz pessoana é situação visual que opera em chave de sfumato existencial. Em Almeida Santos, o «poeta d’outono» em «pura contraluz» articula em chave estritamente sua a herança crepuscular pessoana, mas com uma novidade decisiva: o crepúsculo não opera, em «Confissão», em chave de dissolução melancólica (que seria operação pessoana clássica), opera em chave de cristalização revelacional. O Outono não dissolve o olhar — fixa-o eternamente. Esta cristalização opera a transformação portuguesa contemporânea da herança pessoana em modalidade especificamente santosiana.

3. Konstantinos Kaváfis 
- arqueologia do desejo

A invocação de Konstantinos Kaváfis (1863-1933) na economia interpretativa de «Confissão» articula em chave precisa a tradição alexandrina da nostalgia erótica como modalidade revelacional. Kaváfis, poeta grego de Alexandria, articulou em chave estritamente sua (publicação fragmentária em vida, edição póstuma de 154 poemas em 1935, Alexandria, e edição crítica completa de Savidis em 1963, Atenas) uma das mais densas operações líricas do início do século XX em torno da categoria da memória erótica enquanto operação arqueológica do desejo. Em poemas paradigmáticos como Itaca (1911), À Espera dos Bárbaros (1904), O Deus Abandona António (1911), Em Espera (1916), Far Off (1914), e particularmente nos poemas eróticos como Para Permanecer (1919), Era Forte o Vinho (1922) e Cinzas do Tempo (1929), Kaváfis articula a categoria do desejo-em-distância — modalidade em que o objecto amado adquire intensidade afectiva máxima precisamente porque está corporalmente ausente.

Em «Confissão», a operação cavafiana é estruturalmente decisiva em três pontos articulados. Primeiro: a articulação sensorial da amada-sereia (olhos húmidos, boca que seduz, cabelos que iluminam) opera em chave estritamente cavafiana de evocação sensorial densa do corpo ausente. Em Kaváfis, o corpo do amado é articulado com precisão arqueológica precisa: olhos, lábios, ombros, peito, perfume, voz — cada elemento sensorial é articulado em modalidade de evocação que excede em densidade afectiva a presença empírica. A presença sensorial cavafiana opera precisamente porque o corpo está ausente: a memória opera, em chave de sublimação artística, aquilo que a presença corporal jamais alcançaria. Em Almeida Santos, a articulação sensorial da sereia opera em chave estritamente análoga: cada atributo sensorial é articulado precisamente porque a sereia está ausente, e a sua densidade evocativa excede o que qualquer presença empírica permitiria.

Segundo ponto: o tempo cavafiano. Em Kaváfis, o tempo opera tipicamente em chave de retroprojecção: o poema articula-se a partir de um agora declinante (idade madura, exílio, distância) que evoca um então pleno (juventude, amor, intensidade). O tempo cavafiano é tempo da nostalgia arqueológica — não do simples lamento sentimental, mas da reconstrução precisa e densa do instante perdido. Em Almeida Santos, o tempo do «poeta d’outono» opera em chave estritamente análoga: o agora declinante (Outono, distância, esmorecimento) evoca um então pleno (o olhar diamantino, a sereia, o calor) em modalidade de reconstrução densa que excede a presença empírica. A diferença entre Kaváfis e Almeida Santos, neste ponto preciso, é apenas de orientação temporal: em Kaváfis, o então pleno é tipicamente passado consumado; em Almeida Santos, o então pleno é continuamente reconstituído pelo olhar presente em modalidade de im-presença — operação estruturalmente nova que articula a herança cavafiana em chave estritamente portuguesa contemporânea.

Terceiro ponto: a precisão arqueológica da evocação. Em Kaváfis, a evocação do amado opera em chave de precisão quase científica — cada gesto, cada elemento sensorial, cada palavra trocada é articulada com densidade documental que confere ao poema o seu carácter especificamente arqueológico. Esta precisão articula a categoria que Marguerite Yourcenar (em Présentation critique de Constantin Cavafy, 1958, Paris) caracterizou como o «verismo lírico» de Kaváfis — modalidade em que o lirismo opera em chave de fidelidade absoluta à precisão do detalhe. Em «Confissão», a precisão arqueológica opera em chave estritamente análoga: cada articulação do olhar, cada descrição da contraluz, cada cristalização do oxímoro opera em chave de precisão extrema que confere ao poema a sua densidade compositiva especificamente cavafiana.

4. Laozi 
- o suave que vence

A invocação de Laozi (Lao-Tzu, séc. VI a.C., autor tradicional do Dao De Jing) na economia interpretativa de «Confissão» articula em chave precisa a tradição taoista da suavidade revelacional como modalidade ontológica decisiva. O Dao De Jing (compilação fragmentária do séc. III a.C., edição crítica de Wang Bi do séc. III d.C., tradução portuguesa de António Graça de Abreu, 2010, Lisboa) articula em 81 capítulos coordenados uma das mais densas operações filosóficas da tradição oriental em torno das categorias do vazio, do não-agir (wu-wei), da suavidade que vence o duro, e da fluência primordial do Tao (Dao) como princípio articulador do real.

Em «Confissão», a operação laoziana é estruturalmente decisiva em quatro pontos articulados. Primeiro: a categoria da suavidade que vence. O verso «Sopra aragem / Sobre ti, / Um suave / Respirar» articula em chave precisa a tese laoziana paradigmática do capítulo 78 do Dao De Jing: «Nada no mundo é mais suave e mais flexível que a água; e contudo, para atacar o que é duro e forte, nada a iguala». A aragem suave que sopra sobre a sereia opera em chave de operação laoziana paradigmática: o suave vence o duro precisamente porque não tenta vencer; opera pela ausência da força em modalidade de presença plena da fluência. Esta operação articula em «Confissão» a economia integral da relação entre o poeta e a sereia — a relação opera pela suavidade da aragem, do olhar, da contraluz, em modalidade que excede em densidade ontológica qualquer modalidade de presença coercitiva ou activa.

Segundo ponto: o poder do vazio. Em Laozi (cap. 11), o vazio do vaso é o que confere ao vaso a sua utilidade; o vazio da porta é o que permite a passagem; o vazio do quarto é o que permite a habitação. O ser opera pelo não-ser; a plenitude opera pelo vazio. Em «Confissão», o olhar que penetra sem estar fisicamente presente opera precisamente em chave de vazio laoziano pleno: é o vazio do corpo ausente que permite a operação plena do olhar presente. A im-presença é, neste aspecto preciso, modalidade laoziana fundamental — o vazio corporal opera a plenitude ocular em chave de homologia estrutural com o vazio do vaso que opera a sua utilidade.

Terceiro ponto: o não-dizer que diz mais. Em Laozi (cap. 56), «aquele que sabe não fala; aquele que fala não sabe». O verdadeiro saber opera em modalidade silenciosa que excede em densidade hermenêutica qualquer articulação verbal explícita. Em «Confissão», o balbuciar dos lábios que «não diriam» o que «nunca diriam» opera em chave estritamente laoziana: o que não é dito é precisamente o que é dito com maior densidade. A retórica do silêncio é, em Laozi, modalidade epistemológica fundamental; em Almeida Santos, opera em chave estritamente lírica como modalidade da revelação amorosa que excede em densidade qualquer enunciação verbal directa.

Quarto ponto: o mar como fluxo do Tao. Em Laozi (cap. 8), «o supremo bem assemelha-se à água; a água beneficia todos os seres e não compete». A água é, em Laozi, figura paradigmática do Tao — modalidade primordial da fluência do real que opera em chave de não-resistência e de continuidade absoluta. Em «Confissão», o «mar» da sereia (que o poeta «não vê» mas em que «navega à bolina») opera em chave estritamente laoziana — é o mar do Tao em que a relação se opera em modalidade de fluência primordial. A figura da bolina (modalidade de navegação em zigue-zague, contra o vento, com adaptação contínua à força adversa) articula em chave precisa o wu-wei laoziano — não-agir que é, paradoxalmente, modalidade de máxima eficácia precisamente porque opera em conformidade com a fluência primordial do real em vez de se opor a ela.

CONSTELAÇÃO DOS INTERLOCUTORES 
LATENTES

Para além da constelação dos interlocutores patentes (Celan, Pessoa, Kaváfis, Laozi) explicitamente articulados na economia interpretativa do poema, «Confissão» convoca em chave estrutural uma constelação de interlocutores latentes — autores filosóficos, fenomenólogos, teóricos literários — cuja operação conceptual articula em densidade plena a categoria nuclear da im-presença. Esta constelação latente é estruturalmente nuclear: ela não foi explicitamente convocada pelo poeta empírico (que opera em chave estritamente lírica), mas é estruturalmente pressuposta pela operação compositiva do poema, e o seu reconhecimento articulado permite a leitura plena da densidade conceptual do texto.

1. Emmanuel Levinas 
- o rosto como epifania ética

Emmanuel Levinas (1906-1995), filósofo lituano-francês de tradição fenomenológica, articulou em Totalité et Infini (1961, Haia) e em Autrement qu’être ou au-delà de l’essence (1974, Haia) uma das mais densas operações fenomenológicas do século XX em torno da categoria do visage (o rosto humano) como epifania ética primordial. O rosto, em Levinas, não é objecto de percepção (que seria categoria husserliana derivada), é instância fenomenológica primordial que precede e funda a relação ética. O rosto fala antes de qualquer palavra; ele convoca o sujeito à responsabilidade pelo outro em modalidade que excede em densidade ontológica qualquer cálculo racional ou afectivo derivado. A epifania do rosto é, em Levinas, o evento ontológico primordial que inaugura a ética como filosofia primeira.

A operação levinasiana opera em «Confissão» em chave latente decisiva. O olhar diamantino do poema é, em sentido estritamente levinasiano, rosto-em-epifania — instância que precede e funda a relação amorosa em modalidade que excede a sua redução a fenómeno psicológico ou social. O poeta não está perante a amada-sereia em modalidade de relação intersubjectiva ordinária; está perante o seu rosto-olhar em modalidade de epifania que o constitui como sujeito-perante-o-olhar. A diferença entre a operação estritamente levinasiana e a operação santosiana é, contudo, decisiva: em Levinas, a epifania do rosto é exigência ética que ordena ao sujeito a responsabilidade pelo outro; em Almeida Santos, a epifania do olhar é revelação erótico-lírica que ordena ao sujeito a fixação da im-presença na palavra poética. A operação ontológica é estruturalmente análoga; a sua orientação é distinta — ética em Levinas, lírico-revelacional em Almeida Santos.

2. Maurice Blanchot 
- a escrita do desaparecimento

Maurice Blanchot (1907-2003), crítico literário e pensador francês de tradição filosófico-fenomenológica, articulou em L’espace littéraire (1955, Paris), em Le livre à venir (1959, Paris), em L’entretien infini (1969, Paris) e em L’écriture du désastre (1980, Paris) uma das mais densas operações teóricas do século XX em torno da categoria da escrita-do-desaparecimento — modalidade da linguagem em que a operação semiótica só se opera mediante o desaparecimento do sujeito da enunciação, do objecto da referência, e do próprio acto da escrita. Para Blanchot, escrever é entrar num espaço impessoal (o «neutro», o «desastre») em que o sujeito se dissolve precisamente no acto que poderia tê-lo constituído.

A operação blanchotiana opera em «Confissão» em chave latente estruturalmente decisiva, particularmente na articulação dos lábios que «balbuciam / Palavras / Que me resistem» e que «são sinais / Que persistem / E que outros / Não veriam». Esta articulação opera em modalidade estritamente blanchotiana: a palavra revela precisamente mediante a sua resistência à plena enunciação; o sinal persiste precisamente porque não é plenamente decifrável; a invisibilidade do sinal aos olhos comuns é precisamente o que confere ao sinal a sua densidade reveladora. A escrita do desaparecimento blanchotiana opera, em chave amorosa, em «Confissão»: o poema diz mediante o que não diz, revela mediante o que não revela, opera precisamente mediante a sua própria impossibilidade.

3. Jean-Luc Marion 
- o ícone e a contraluz

Jean-Luc Marion (n. 1946), filósofo francês de tradição fenomenológica e teológica, articulou em Dieu sans l’être (1982, Paris), em La croisée du visible (1991, Paris) e em Étant donné (1997, Paris) uma das mais densas operações fenomenológicas contemporâneas em torno da distinção entre ídolo e ícone, e em torno da categoria do phénomène saturé (fenómeno saturado) — modalidade fenomenológica em que a intuição excede em densidade qualquer conceito que tente apreendê-la. O ícone marioniano opera em chave de contraluz: a luz não vem do observador para o objecto observado; vem do objecto para o observador, em modalidade tal que excede a capacidade ocular ordinária.

A operação marioniana é, em «Confissão», estruturalmente decisiva. O verso «Na mais pura / Contraluz» não é mera descrição de uma situação visual neutra (que seria operação fotográfica trivial), é articulação técnica precisa do estatuto fenomenológico do olhar da amada-sereia. O olhar não é ídolo (objecto que o observador detém em si); é ícone (instância que olha o observador antes que ele a veja, e que opera nele a sua transformação ocular). O poeta de «Confissão» é, em chave estritamente marioniana, sujeito constituído pela operação iconográfica do olhar — sujeito que se descobre olhado antes de poder ver, sujeito que se constitui na contraluz da revelação que o excede. A operação fenomenológica é estruturalmente nuclear e excede em densidade conceptual qualquer descrição puramente literária do poema.

4. Roland Barthes 
- o discurso amoroso e a figura

Roland Barthes (1915-1980), semiólogo e teórico literário francês, articulou em Fragments d’un discours amoureux (1977, Paris) uma das mais densas operações teóricas contemporâneas em torno da economia semiótica específica do sujeito amoroso. Para Barthes, o discurso amoroso é discurso fundamentalmente solitário (o amante fala consigo próprio), figural (organizado em torno de figuras imaginárias que excedem o objecto empírico), e dialógico em ausência (o tu que estrutura o discurso amoroso é estruturalmente ausente, e o discurso opera precisamente em modalidade de articulação dessa ausência). A categoria nuclear que Barthes articula é a figura — instalação imaginária do outro amado em modalidade que excede em densidade afectiva a pessoa empírica concreta.

Em «Confissão», a operação barthesiana é estruturalmente decisiva. A amada-sereia opera precisamente como figura barthesiana em sentido estrito: ela não é descrição de uma pessoa empírica determinada cuja distância pudesse ser geograficamente medida, é figura imaginária densa que articula em modalidade plena o objecto amoroso na sua estrutura ontológica específica. A operação compositiva do poema (sucessão de oxímoros, malha paroxística, articulação da sereia em modalidade mítica) opera em chave estritamente barthesiana: cada articulação compositiva é figura que excede a pessoa empírica em modalidade de sustentação imaginária do desejo. O poema é, em sentido estritamente barthesiano, performance do discurso amoroso em modalidade lírica de plenitude condensada.

5. Octavio Paz 
- o erotismo como signo poético

Octavio Paz (1914-1998), poeta e ensaísta mexicano, articulou em El arco y la lira (1956, México), em La llama doble (1993, Barcelona) e nos seus ensaios reunidos uma das mais densas operações teóricas em torno da articulação entre erotismo e poesia. Para Paz, o erotismo não é mera função biológica sexual (que seria categoria reducionista), é operação semiótica primordial em que o corpo opera como signo e o desejo articula em chave significante a economia plena da relação humana. A poesia, na sua densidade plena, articula em chave verbal a operação que o erotismo articula em chave corporal: ambos operam em modalidade de criação de signos que excedem em densidade ontológica a referência ordinária.

Em «Confissão», a operação pazina opera em chave decisiva: a articulação sensorial densa da amada-sereia (olhos, boca, cabelos, aragem, melodia, calor) não é mera descrição corporal (que seria operação realista), é articulação erótico-semiótica em sentido estritamente paziano. Cada elemento sensorial opera simultaneamente como signo corporal e como signo poético; cada articulação verbal opera simultaneamente como descrição e como constituição do que descreve. A operação pazina articula em chave teórica precisa a tese central do poema: a palavra poética não representa o erotismo (que seria operação mimética), constitui-o em chave de signo plenamente revelacional.

6. Henri Bergson 
- a duração e o instante denso

Henri Bergson (1859-1941), filósofo francês de tradição vitalista, articulou em Essai sur les données immédiates de la conscience (1889, Paris), em Matière et mémoire (1896, Paris) e em L’évolution créatrice (1907, Paris) uma das mais densas operações filosóficas em torno da categoria da durée (duração) — modalidade temporal específica da consciência que excede em densidade qualquer modalidade do tempo espacializado e medível. A duração bergsoniana é tempo qualitativo, heterogéneo, em que os momentos não se sucedem em modalidade externa uns aos outros, mas penetram uns nos outros em modalidade de inter-impregnação contínua.

Em «Confissão», a operação bergsoniana opera em chave estrutural decisiva, particularmente na articulação do tempo do poema. O Outono não é estação no calendário (que seria tempo espacializado bergsoniamente trivial), é duração existencial em que o presente do poeta carrega em si todas as estações anteriores e antecipa todas as estações futuras em modalidade de inter-impregnação contínua. As marés são figuras explícitas da duração bergsoniana: cíclicas, inevitáveis, articulando em modalidade rítmica a continuidade que excede a sucessão linear. O instante do olhar diamantino não é instante pontual (que seria operação cronométrica), é instante denso em sentido bergsoniano estrito — instante que carrega em si todas as densidades temporais que o constituem em modalidade de revelação plena.

7. Jacques Derrida 
- différance e rastro espectral

Jacques Derrida (1930-2004), filósofo francês de origem argelina, articulou em De la grammatologie (1967, Paris), em L’écriture et la différence (1967, Paris), em Marges de la philosophie (1972, Paris) e em Spectres de Marx (1993, Paris) uma das mais densas operações filosóficas contemporâneas em torno das categorias da différance (com a deliberada substituição do «e» pelo «a» que articula simultaneamente a diferença espacial e o adiamento temporal) e do rastro espectral (modalidade em que o ausente persiste como espectralidade no presente que o exclui).

A operação derridiana é, em «Confissão», estruturalmente decisiva e foi articulada em pormenor no movimento II.2 sobre a topologia da im-presença. A categoria nuclear do poema (im-presença) opera precisamente em chave derridiana de différance — a presença é sempre habitada pelo adiamento e pelo suplemento do ausente, a ausência é sempre habitada pela espectralidade do que persiste. O olhar diamantino da sereia é olhar espectral em sentido estritamente derridiano: olhar que está e não está, que vê sem ver, que afirma a sua presença na sua própria ausência. A operação derridiana articula em chave filosófica precisa a categoria nuclear do poema, e o seu reconhecimento articulado permite a apreensão plena da densidade conceptual do texto.

8. Jean-Luc Nancy 
- o tacto da im-presença

Jean-Luc Nancy (1940-2021), filósofo francês contemporâneo, articulou em Corpus (1992, Paris), em Le sens du monde (1993, Paris) e em Noli me tangere (2003, Paris) uma das mais densas operações filosóficas contemporâneas em torno da categoria do tacto — modalidade fenomenológica de relação corporal que excede em densidade ontológica qualquer redução à visão ou à audição. O tacto nanciano não é mera percepção táctil (que seria categoria sensorial trivial), é categoria ontológica que articula a relação primordial entre corpos em modalidade que excede a distância e a presença puras.

Em «Confissão», a operação nanciana opera em chave latente decisiva, particularmente na articulação dos versos «Sopra aragem / Sobre ti, / Um suave / Respirar». A aragem que sopra sobre a sereia opera em chave de tacto nanciano puro: ela toca sem tocar fisicamente, ela opera contacto em modalidade de distância irredutível, ela articula a relação táctil em modalidade que excede a presença empírica. Esta operação é precisamente o que Nancy articula em chave teórica como tacto da im-presença — modalidade tactil em que o corpo do outro é tocado sem ser fisicamente contactado, modalidade em que o tacto opera em chave de espectralidade afectiva que excede a presença corporal. A categoria nanciana é, em «Confissão», operação latente nuclear.

9. Walter Benjamin 
- a aura na sua dissolução melancólica

Walter Benjamin (1892-1940), pensador alemão de tradição neo-marxista e messiânica, articulou em Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit (1936, Frankfurt) a categoria da aura — propriedade específica da obra de arte tradicional que confere ao objecto a sua densidade única, irredutível, irreproduzível. A aura benjaminiana é definida como «aparição única de uma distância, por mais próxima que esteja». A aura opera precisamente em modalidade de distância irredutível mesmo na proximidade — modalidade que excede em densidade qualquer presença ordinária.

Em «Confissão», a operação benjaminiana opera em chave latente estruturalmente decisiva. O olhar da amada-sereia é olhar-em-aura em sentido benjaminiano estrito: ele opera precisamente em modalidade de «distância por mais próxima que esteja» — distância ontológica que persiste mesmo na máxima proximidade ocular. Esta articulação opera o paradoxo benjaminiano em chave estritamente amorosa: a amada é simultaneamente próxima (no olhar) e distante (no corpo), e a distância opera precisamente em modalidade de aura — densidade ontológica irredutível que confere ao olhar a sua singularidade revelacional. Mas Almeida Santos opera, em chave especificamente sua, uma diferença decisiva em relação a Benjamin: para Benjamin, a aura está em dissolução melancólica na modernidade técnica; em «Confissão», a aura é eternamente recuperada na operação lírica do poema. A palavra poética opera, contra a dissolução benjaminiana da aura, a sua recristalização lírica permanente. Esta operação é precisamente o que constitui a invencibilidade terminal do poema.

SÍNTESE SISTÉMICA 
A INVENCIBILIDADE TERMINAL
1. Articulação das duas constelações

A leitura sistémica de «Confissão» permite agora articular as duas constelações (patentes e latentes) numa única arquitectura interpretativa de plenitude conceptual. As quatro coordenadas patentes (Celan, Pessoa, Kaváfis, Laozi) articulam-se com as nove coordenadas latentes (Levinas, Blanchot, Marion, Barthes, Paz, Bergson, Derrida, Nancy, Benjamin) em estado de coordenação estrutural irredutível. Não se trata de mera justaposição de influências (que seria operação filológica trivial), trata-se de articulação sistémica em que cada coordenada opera função específica na economia integral do poema.

A síntese pode articular-se em chave de três núcleos sistémicos coordenados. Primeiro núcleo: o olhar como eixo revelacional, articulando Celan (o tu dialógico), Levinas (a epifania do rosto), Marion (o ícone em contraluz) e Benjamin (a aura como distância na proximidade). Estas quatro coordenadas convergem na articulação do olhar diamantino como categoria nuclear que excede em densidade ontológica qualquer modalidade da percepção ordinária. Segundo núcleo: a topologia da im-presença, articulando Pessoa (o fingimento que constitui o seu próprio objecto), Derrida (a différance como adiamento espectral), Nancy (o tacto da im-presença) e Bergson (a duração que excede a sucessão linear). Estas quatro coordenadas convergem na articulação da categoria nuclear da im-presença como terceira categoria que excede a dialéctica clássica presença/ausência.

Terceiro núcleo: a palavra revelacional, articulando Kaváfis (a precisão arqueológica da evocação), Laozi (o suave que vence e o não-dizer que diz mais), Blanchot (a escrita do desaparecimento), Barthes (a figura como instalação imaginária densa) e Paz (o erotismo como signo poético). Estas cinco coordenadas convergem na articulação da palavra poética como operação ontológica que constitui o seu próprio objecto em chave de revelação plena. A articulação dos três núcleos sistémicos coordenados — o olhar revelacional, a topologia da im-presença, a palavra constitutiva — opera em sua interpenetração mútua a economia integral do poema.

2. A operação portuguesa 
contemporânea específica

A originalidade compositiva de «Confissão» não reside, contudo, na mera justaposição erudita das treze coordenadas (que seria operação eclética). Reside na sua articulação especificamente portuguesa contemporânea que excede em densidade compositiva qualquer das operações isoladas das tradições convocadas. Almeida Santos opera, em chave estritamente lírica, uma síntese que recupera simultaneamente o silêncio celaniano, o fingimento pessoano, a precisão cavafiana, a suavidade laoziana, a epifania levinasiana, o desaparecimento blanchotiano, a contraluz marioniana, a figura barthesiana, o signo paziano, a duração bergsoniana, a différance derridiana, o tacto nanciano e a aura benjaminiana — operando-os todos em modalidade de paroxismo lírico português específico cuja densidade compositiva excede em originalidade qualquer das tradições isoladas que convoca.

Esta operação específica articula-se em chave de quatro princípios compositivos coordenados que constituem, em chave terminal, a originalidade santosiana específica. Primeiro princípio: cristalização em vez de dissolução. Enquanto a tradição romântica opera o paroxismo lírico em chave de abertura ao infinito que dissolve, e enquanto a tradição modernista (Pessoa incluído) opera o lirismo em chave de fragmentação que dispersa, Almeida Santos opera o paroxismo lírico em chave de cristalização que fixa eternamente. Segundo princípio: revelação em vez de descrição. Enquanto a tradição realista opera a palavra em chave de mimesis que descreve, e enquanto a tradição simbolista (Mallarmé incluído) opera a palavra em chave de evocação que sugere, Almeida Santos opera a palavra em chave de revelação que constitui o seu próprio objecto.

Terceiro princípio: invencibilidade em vez de vulnerabilidade. Enquanto a tradição lírica europeia tipicamente opera o amor distante em chave de melancolia que confessa a sua vulnerabilidade (que seria operação cavafiana clássica), Almeida Santos opera o amor distante em chave de invencibilidade que confessa a sua vitória — vitória do olhar que «não me mente», vitória da palavra que fixa eternamente o im-presente. Quarto princípio: portugalidade em vez de cosmopolitismo. Enquanto a tradição modernista (Pessoa incluído) opera tipicamente em chave de cosmopolitismo intelectual que absorve e justapõe tradições europeias diversas, Almeida Santos opera em chave estritamente portuguesa contemporânea — síntese lírica que articula a herança portuguesa específica (saudade, Outono crepuscular, contraluz pessoana) em modalidade que excede em densidade compositiva a operação meramente cosmopolita.

3. A invencibilidade terminal

O verso terminal de «Confissão» — «o teu olhar / Não me mente…» — opera em chave estritamente sua a invencibilidade terminal do poema. Esta articulação não é mera afirmação sentimental (que seria operação trivial), é cristalização ontológica plena da operação compositiva integral do poema. O olhar «não me mente» — quer dizer: opera em modalidade de verdade plena que excede em densidade ontológica qualquer modalidade ordinária da verificação empírica. A verdade do olhar é verdade revelacional que opera precisamente em virtude da im-presença, e cuja invencibilidade é precisamente o que constitui a vitória terminal da palavra poética.

Esta invencibilidade articula-se em três dimensões coordenadas. Primeira dimensão: invencibilidade contra a distância. A separação física entre o poeta e a sereia é geograficamente irredutível; mas o olhar opera, na sua im-presença, vitória sobre a distância em modalidade que excede qualquer travessia empírica. Segunda dimensão: invencibilidade contra o silêncio. As palavras balbuciadas «resistem» plenamente à enunciação; mas precisamente nessa resistência opera-se a revelação plena. O silêncio é vencido pela própria operação da sua impossibilidade — vitória que é estruturalmente análoga à vitória celaniana sobre o indizível da catástrofe. Terceira dimensão: invencibilidade contra o tempo. O Outono articula a passagem do tempo, o declínio sazonal, o esmorecimento existencial; mas o poema fixa eternamente o instante denso do olhar em modalidade que excede qualquer modalidade da sucessão temporal. O eterno é arrancado ao tempo precisamente pelo acto compositivo do poema — e essa cristalização eterna é a vitória terminal sobre o Outono crepuscular.

A síntese das três dimensões de invencibilidade articula a tese central da leitura sistémica do ensaio: «Confissão» não é apenas poema sobre amor à distância (que seria leitura sentimental reducionista); é articulação lírica plena do poder ontológico da palavra poética enquanto operação que vence simultaneamente a distância, o silêncio e o tempo. A confissão final do poema é confissão da própria operação compositiva do poema — confissão de que a palavra opera, em chave de invencibilidade, aquilo que nenhuma outra modalidade da experiência humana pode operar: a fixação eterna do im-presente em modalidade de plenitude revelacional. O poema é, em sentido estritamente terminal, vitória da palavra sobre o real — vitória que articula em chave portuguesa contemporânea a função própria da poesia em quanto modalidade ontológica primordial de articulação do humano.

4. Coda: a confissão e a vitória

Termina, assim, a leitura sistémica de «Confissão». O poema articulado por João de Almeida Santos a 16 de Maio de 2026 (acompanhado da ilustração «Fascínio» de 2023) opera em chave de paroxismo lírico português contemporâneo uma das mais densas explorações fenomenológicas do olhar produzidas na poesia europeia recente. A sua densidade conceptual articula coordenadamente treze coordenadas teóricas (quatro patentes, nove latentes) em modalidade de síntese que excede em originalidade qualquer das tradições isoladas que convoca. A sua categoria nuclear — a im-presença — articula uma terceira categoria que excede a dialéctica clássica presença/ausência. A sua operação terminal — a invencibilidade da palavra que fixa eternamente o olhar — articula em chave especificamente portuguesa a função primordial da poesia enquanto modalidade ontológica de articulação do humano.

Não se trata, em chave terminal, de uma leitura sobre o poema; trata-se de uma articulação que opera, em modalidade hermenêutica plena, a apreensão sistémica da sua densidade compositiva. A confissão é, simultaneamente, do poeta empírico que escreve, do sujeito poético que se enuncia, e da palavra poética que opera. E a vitória é, simultaneamente, vitória sobre a distância geográfica, vitória sobre o silêncio dos lábios balbuciantes, e vitória sobre o Outono que esmorece. A invencibilidade do olhar que «não me mente» é precisamente a invencibilidade da palavra que, ao confessá-lo, o constitui em modalidade de eternidade revelacional irredutível.

«Olhas-me, pois, / Inquieta, 
/ Sem estar / À tua frente…», 
escreve Almeida Santos. 

E o ensaio que aqui termina
articulou a densidade conceptual 
sistémica desta im-presença 
e olhar diamantino.

REFERÊNCIAS
Em conformidade com APA7, 
com cidade de publicação incluída
Fontes patentes (autores 
explicitamente convocados 
ou implicados pelo poema)

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Ensaio composto em Maio de 2026.
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publicação incluída para cada 
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Os textos digitais (Almeida Santos, 2026)
referenciam a data e o formato 
de publicação digital.