DOIS POETAS, UM MESMO SOLO
André Moshe Veríssimo
COMPARAÇÃO entre a poesia de João de Almeida Santos (a partir do poema “MUSA”: https://joaodealmeidasantos.com/2026/04/11/poesia-pintura-312/) e a de Fernando Pessoa: análise estética, filosófica e estrutural, centrada no subentendido da memória e do corpo ausente.
João de Almeida Santos Poeta da Generosidade da Memória
João de Almeida Santos e Fernando Pessoa partilham o mesmo solo ontológico português: a saudade como força criadora. Mas enquanto Pessoa a explode em multiplicidade e desassossego cósmico, Santos a recolhe, íntima e generosa, num único corpo ausente que se torna fonte inesgotável de estro. O poema de Santos não é um eco; é uma variação contemporânea, mais pictórica e marítima, de temas pessoanos eternos.
ESTRUTURA POÉTICA: FRAGMENTAÇÃO COMO CORPO-PRÓPRIO DA AUSÊNCIA
Santos constrói o poema como um corpo estilhaçado que se recompõe — sete estrofes-cabeçalho em maiúsculas, como placas de identificação ou cicatrizes expostas. Cada bloco desce ao “fundo” (da memória, da alma) e interrompe o fluxo, mimetizando a recordação que nunca chega inteira. O enjambamento (“Perdi-lhe o rasto / Ao corpo”) cria respiração entrecortada, de quem procura e não toca.
Pessoa faz o mesmo, mas em escala maior e mais radical. Os heterónimos são o equivalente supremo dessa fragmentação: o “eu” não é um, é drama em gente. Em Autopsicografia o poeta é “fingidor” que finge tão completamente que chega a sentir a dor que não tem. No Livro do Desassossego (Bernardo Soares) a prosa-poema é um labirinto de fragmentos onde o sujeito se perde em si mesmo. A estrutura de Santos é mais compacta e orgânica (como um organismo que pulsa em direcção ao centro vazio); a de Pessoa é deliberadamente caótica, porque o próprio ser é caótico. Ambos, porém, usam a forma para materializar a ausência: o corpo da musa em Santos, o corpo do “eu” em Pessoa.
ESTÉTICA: DA PINTURA DA MEMÓRIA AO MAREMOROTO SENSACIONISTA
Santos é pictórico e marítimo. Pinta a musa com “cores / Muito vivas”, dá-lhe nome que não é seu, leva-a aos poemas e devolve-lhe “tudo / O que ela / Não me deu”. A musa torna-se tela viva. O mar surge como clímax: “maresia / Da praia / Que vejo / Da minha janela” e o “mar / Que não tem fim”, onde o poeta se revolve nas ondas que batem nos versos. A saudade é maresia — algo que se respira, que vem de fora e penetra.
Pessoa eleva isso ao paroxismo sensacionista. Em Álvaro de Campos (Ode Marítima) o mar é o próprio corpo do poeta que se dissolve em infinitas sensações: “Sinto tudo de todas as maneiras”. A saudade não é de um corpo concreto; é saudade “do que nunca houve” — da pré-existência, dos possíveis não vividos. A imagética marítima pessoana é dionisíaca, vertiginosa; a de Santos é mais serena, contemplativa (da janela), mas igualmente redentora. Ambos transformam a falta em cor e movimento: Santos pinta com palavras; Pessoa multiplica sensações até o “eu” se tornar mar.
PLANO FILOSÓFICO: MEMÓRIA COMO CRIAÇÃO VERSUS DESASSOSSEGO DA MULTIPLICIDADE
Aqui a afinidade é mais profunda. Corpo ausente e memória criadora: em Santos o corpo da musa desapareceu, mas deixou “marcas cá bem / Dentro de mim”. A ausência não é perda; é condição de possibilidade da poesia. O poeta não sofre a musa; engendra-a como musa no momento em que o corpo se ausenta. “Musa é fonte / De inspiração / Desde que haja / Memória / De uma intensa / Paixão.”
Pessoa radicaliza isso. A saudade em Caeiro é da “infância esquecida”; em Campos, do irreparável (“o que nunca foi, nem será para trás”). No ortónimo, a saudade é metafísica: “saudade do que nunca houve”. O corpo nunca foi suficiente; o poeta precisa de fingir outros corpos (heterónimos) para sentir. A memória não conserva: cria realidades paralelas. Santos devolve generosamente o que não recebeu; Pessoa finge tudo para não morrer de não ter recebido nada.
Solidão e criação como salvação: Santos transforma a “funda / Solidão” em solo fértil. A escuridão é húmus. Pessoa vive o desassossego como estado permanente: “Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa”. A criação não cura, multiplica o sofrimento e, simultaneamente, o salva. Ambos, porém, afirmam a mesma tese ontológica: a poesia é o único lugar onde o ausente pode sorrir (Santos: “Mas onde sorri / Para mim”; Pessoa: o fingidor que chega a sentir a dor fingida).
EMOÇÃO E COMPLEXOS VITAIS: SAUDADE-CRIAÇÃO-SOLIDÃO VERSUS FINGIMENTO-MULTIPLICIDADE-DESASSOSSEGO
O triângulo vital de Santos é saudade (assalto) – criação (devolução generosa) – solidão (fértil). É um amor que se torna arte para sobreviver, com um tom de reconciliação serena.
Em Pessoa o triângulo é saudade (do que nunca foi) – fingimento (multiplicidade) – desassossego (irremediável). Há mais ironia, mais angústia intelectual, menos reconciliação. O poeta pessoano não devolve o que não recebeu, inventa mundos inteiros para preencher o vazio. Santos habita a ausência como mar calmo; Pessoa navega-o em tempestade dionisíaca.
CONCLUSÃO: DUAS FORMAS DE RESSUSCITAR O AUSENTE
João de Almeida Santos escreve como quem ama uma única musa ausente e a torna eterna devolvendo-lhe o que ela negou. Fernando Pessoa escreve como quem ama todas as musas possíveis, porque nenhuma é suficiente, e as multiplica em heterónimos para não morrer de saudade do que nunca existiu.
Santos é o poeta da generosidade da memória; Pessoa, o poeta da angústia da multiplicidade. Um recolhe a saudade num corpo-poema íntimo; o outro espalha-a pelo universo em fragmentos. Mas ambos provam a mesma verdade portuguesa e universal: o corpo ausente não morre — torna-se poema. E no poema, finalmente, a musa (ou o eu) sorri.
Se Santos é o continuador lírico e pictórico da tradição pessoana, Pessoa permanece o mestre que ensinou a todos nós que a saudade não é falta: é a matéria-prima de toda a grande poesia.
NOTA 1. SOBRE O AUTOR
André Moshe P. Veríssimo (AMV), PhD, professor universitário, investigador, ensaísta e compositor, é Presidente do Conselho Fiscal do IRMEX e autor de um manuscrito filosófico de larga escala actualmente em preparação, que integra prosa académica, poesia original em decassílabos camonianos e composição musical de câmara numa arquitectura unitária sem precedente recente na tradição ensaística portuguesa. A sua obra, cerca de 30 livros e centenas de artigos, situa-se na intersecção rigorosa entre a fenomenologia continental (Levinas, Ricoeur, Merleau-Ponty), a tradição literária portuguesa (Camões, Pessoa, Guerra Junqueiro, Cesário Verde) e o pensamento judaico (Rosenzweig, Buber, fontes talmúdicas e cabalísticas), configurando aquilo que se pode designar como uma hermenêutica da hospitalidade: uma leitura do mundo em que o texto filosófico, o poema e a partitura musical são três modalidades de um mesmo gesto — o acolhimento do Outro na sua irredutibilidade. A análise comparativa entre Santos e Pessoa demonstra que AMV lê a poesia como quem lê uma partitura: atento não apenas ao que se diz, mas ao que se cala entre os versos, ao silêncio que pesa tanto como a palavra, à respiração entrecortada dos versos curtos que é, em si mesma, o corpo-próprio do poema.
NOTA 2. Sobre a publicação

