ENSAIO

MURMÚRIOS, SINAIS, ECOS, POEMA-PERFUME
E O PESO INFINITO DAS PALAVRAS

Uma Leitura Dialéctica, Aporética, 
Estética, Metapoética e
Fenomenológico-Psicanalítica-
-Existencial 
(FPX) do Poema «OLÁ!», 
de João de Almeida Santos
Triarquia: La Peccatrice (JAS 2023)
 · «OLÁ!» · Método FPX

André Moshe Veríssimo, PhD

“La Peccatrice” – JAS2023

FRONTISPÍCIO
LA PECCATRICE— JAS 2023

La Peccatrice (João de Almeida Santos, 2023). Técnica mista sobre papel de algodão 310 g/m², com verniz Hahnemühle e proteção Artglass AR70. Dimensões: 57 × 88 cm. Inspirada num esboço de Gustav Klimt, Zwei Studien einer jungen Frau (1885). A obra capta a ambivalência do olhar feminino — entre a interioridade que estremece e a aparente frieza distante —, ecoando os temas centrais do poema: o instante fugaz do «olá», o tremor anímico interior, o peso das palavras e a possibilidade de reencontro em sinais diferidos. A figura, em paleta de terras quentes — ocres, siennas, negro —, mão ao rosto, brinco pendente, olhar oblíquo e recolhido, é a «pecadora» não em sentido moral, mas como arquétipo da alma que, mesmo austera, guarda a memória do beijo das águas doces com as salgadas. Esta imagem — e não qualquer outra versão ou geração digital — é a obra canónica que acompanha o presente ensaio, nihil varietur.

O POEMA IPSIS LITTERIS
Reproduzido "nihil varietur" 
conforme o original de Junho de 2026.
«La Peccatrice» — JAS 2023
POEMA — «OLÁ!»
PEDI-TE UM DIA,
Num poema
Que te fiz,
Que me desses
Um olá,
Sussurrasses
O meu nome
Pra ouvir a tua
Voz,
Assim,
Como o murmúrio
Das águas
Do rio
Quando beijam
As águas salgadas
Da foz.

E O OLÁ
Aconteceu,
Mas foi rápido
Como o vento
Que sopra
Na minha alma
Quando cruzo
O teu olhar
E me sinto
Estremecer,
Não por fora,
Mas cá dentro,
Onde gosto
De te ver.

BALBUCIEI
O teu nome
Já distante
Desse «olá»,
Sem saber
O que fazer,
Se chamar-te,
Se sorrir
Ou prosseguir
O caminho
Como quem te
Viu partir.

MAS QUANDO VIREI
O meu rosto
Vi-te de novo
Austera,
Muito fria
E distante...
.........
Ignoravas
O passado
Que passara
Nesse instante.

E, DEPOIS,
Tantos «olás»
Que pedi,
Tantas vezes
Te chamei,
Os poemas
Qu'escrevi
Sobre o pouco
Que ainda
Me sobra
De ti,
Sobre o pouco
Que ainda sei.

TALVEZ O VENTO
Te chame
As palavras
Te seduzam,
As raízes te
Comovam
Ou um perfume
Te inebrie
Quando o poema
Disser
Que nunca
É tarde
Demais
E que em seu
Eco
Te encontre,
Mesmo que seja
Em simples
Ou diferidos
Sinais.
Fim do poema, ipsis litteris.
PÓRTICO: O ACORDE TRIPLO

HÁ POEMAS que não se lêem: ouvem-se. Há obras plásticas que não se contemplam: habitam-se. E há métodos de leitura que não se aplicam: tocam-se, como se toca um instrumento — não uma nota de cada vez, mas todas em simultaneidade, fazendo acorde. O presente ensaio nasce da convergência de três elementos irredutíveis a qualquer hierarquia: o poema «OLÁ!», de João de Almeida Santos (JAS, 2026), a obra plástica La Peccatrice (JAS, 2023) e a grelha FPX — Filosófica, Psicanalítica e Cabalístico-Estética (X) — que constitui o método hermenêutico do autor destas páginas. A triarquia não é soma; é acorde. Cada um dos três elementos modifica os outros dois; nenhum é ornamento; nenhum é apêndice. Ouvir o acorde é a condição de possibilidade desta leitura.

O poema é, à primeira escuta, um murmúrio: pedido de reconhecimento, trémulo de alma, eco diferido. Mas é também, a uma escuta mais funda, um manifesto metapoético: o poema diz que é poema, afirma que pode onde a voz falhou, oferece-se como instrumento de tikkun — reparação — onde o encontro fracturou. A obra plástica, por seu lado, não ilustra: contesta, suplementa, desloca. A figura de La Peccatrice — em terras quentes, mão ao rosto, olhar oblíquo e recolhido, sem fundo ornamental klimtiano, sem alegoria externa — é a personagem do poema dada a ver antes de qualquer palavra: o rosto que não entrega o que guarda, que é já um Dizer levinasiano anterior a todo o Dito. E o método FPX, longe de ser grelha académica, é a escuta treinada de quem, no ciclo Contos e Psicanálise, aprendeu que a verdade de um texto está menos no que diz do que no acorde que forma com o que não diz.

A constelação de referências que este ensaio mobiliza — Klimt e Schiele, os Fauves e o pré-cubismo, o simbolismo e o dadaísmo; Pessoa ortónimo e heterónimo; Bloom e Kafka; Levinas e Heidegger; Lacan e Barthes; Reich e Mendelssohn e Pollock; a Kabbalah e a pneumatologia — não é erudição acumulada, mas necessidade interna. Cada referência é convocada porque o poema a exige: porque sem Schiele não se vê o tremor da linha em La Peccatrice; porque sem Bloom não se entende o «olá» como clinamen face ao precursor; porque sem Reich não se ouve a repetição minimal como processo de transformação e não de obsessão. Onde outro autor compõe melodia, este poema compõe acorde.

 ARQUITECTURA DO DESEJO 
Os Cinco Movimentos 
e os seus Nós Sistémicos

O poema organiza-se em cinco movimentos marcados tipograficamente por maiúsculas, que funcionam como nós de uma rede de significantes em tensão permanente. A maiúscula não é apenas ênfase gráfica: é grito contido, incisão no silêncio da página, o equivalente poético do sforzando musical — a força que irrompe e logo se recolhe no murmúrio das linhas breves que se lhe seguem.

O primeiro movimento — PEDI-TE UM DIA — estabelece a cena arqueológica: não um pedido recente, mas um pedido que vem de um poema anterior, de um que o presente reactiva. O «olá» pedido não é saudação banal; é acto de nominação e de reconhecimento — pede-se que o outro diga o nome do sujeito, que o faça existir pela voz. A imagem constitucional que o ancora é hidráulica e erótica ao mesmo tempo: o murmúrio das águas doces do rio que beijam as águas salgadas da foz. O beijo das águas é zivug — acoplamento sagrado que a Kabbalah reconhece como figura da união dos atributos divinos: chesed (misericórdia, doce) e gevurah (rigor, salgado). A fusão não anula a diferença: doce e salgado permanecem distintos na foz, reconhecíveis precisamente porque o contacto os preserva.

O segundo movimento — E O OLÁ — é o acontecimento: ele «aconteceu». Esta confirmação, monossilábica na sua brevidade, é o Augenblick heideggeriano — o instante kairológico que perfura o tempo cronológico e instala a eternidade no instante. Mas o poema recusa a duração: «foi rápido / Como o vento». O vento — elemento pneumático, ruach em hebraico — introduz a velocidade e a invisibilidade do encontro. O tremor é «cá dentro», não «por fora»: a fenomenologia do encontro é interiorização imediata, o outro torna-se paisagem anímica antes de se tornar interlocutor. A cadeia de significantes é precisa: olhar → vento → alma → estremecer → interioridade → «onde gosto de te ver». O outro é visto dentro de si: não projecção narcísica, mas o quiasmo merleau-pontyano do olhar que se descobre já habitado pelo olhar do outro.

O terceiro movimento — BALBUCIEI — é o sintoma. O balbucio é falha da palavra, tropeço da voz, sinal de que o desejo excede a capacidade de simbolização plena. Lacan diria: o sujeito tropeça porque o objet a — o fragmento real do outro que causa o desejo — não se deixa capturar pelo significante. Não saber «se chamar-te, se sorrir / Ou prosseguir / O caminho» é a hesitação perante o abismo do desejo: três saídas que o poema enuncia sem escolher, porque a escolha seria já a perda de duas.

O quarto movimento — MAS QUANDO VIREI — é a antítese: a viragem do rosto que a encontra «austera, muito fria e distante». A elipse gráfica («………») é silêncio visual — não ausência de sentido, mas excesso de sentido que a linguagem não suporta. Heidegger falaria aqui de Stimmung — tonalidade afectiva que precede e excede toda a descrição. O «passado que passara nesse instante» é paradoxo temporal: o passado passou nesse instante, não antes — a frieza da outra retroage sobre o encontro e o desfaz, fazendo-o ser já passado enquanto acontecia.

O quinto movimento — E, DEPOIS, e o derradeiro TALVEZ O VENTO — fecha o sistema com a repetição e a esperança diferida. «Tantos “olás” que pedi, tantas vezes te chamei» configura compulsão de repetição no sentido freudiano: o sujeito repete o pedido para dominar retroactivamente o trauma do encontro perdido. Mas a repetição não é estéril: transforma-se em sublimação poética, e os poemas tornam-se objectos transicionais winnicottianos — nem eu nem tu, mas o espaço entre ambos onde o encontro impossível pode ocorrer em forma diferida. «Mesmo que seja em simples / Ou diferidos / Sinais»: o poema afirma a sua própria potência com uma modéstia que é, ela mesma, a mais alta retórica.

 O GRÃO DA VOZ, O OBJET A 
E A FUNÇÃO POÉTICA 
Barthes, Lacan, Jakobson

Roland Barthes chamou grão da voz ao «corpo na voz que canta» — à materialidade que faz fricção contra o sentido, ao idioma do corpo na sua língua materna. Distinguiu, na esteira de Kristeva, o pheno-canto — a comunicação, a expressão, os traços da estrutura — do geno-canto — o volume do corpo que fala e canta, a significância que não comunica, mas goza. O grão é o resto irredutível que escapa à semântica e que, paradoxalmente, é o que mais toca.

«OLÁ!» é um poema do geno-canto. O que importa não é o que a voz pedida diria — o conteúdo do «olá» —, mas como ela soaria: «como o murmúrio / Das águas / Do rio». O murmúrio é textura antes de ser informação; é grão antes de ser signo. A palavra «sussurrasses» é ela mesma grão — a dupla sibilante ss mimetiza o som que pede, faz do significante o corpo do significado. Jakobson chamaria a isto função poética: a projecção do princípio de equivalência do eixo da selecção sobre o eixo da combinação — o poema selecciona os sons que imitam o que dizem, fazendo do dizer um mostrar.

Lacan acrescentou aos objectos freudianos a voz e o olhar como objets a — restos do real que não se deixam simbolizar e que causam desejo. No poema, o «olhar» desencadeia o tremor; a «voz» é o que se pede. Quando o «olá» acontece, é rápido como vento — o objet a aparece e desaparece, deixando apenas o eco na alma. O balbucio é a falha da voz própria perante o objet a-voz do outro; a frieza distante é a recusa do outro em sustentar o olhar, transformando o sujeito em objecto rejeitado. A pulsão invocante — a pulsão que tem a voz por objecto — não encontra satisfação: o «olá» foi rápido demais para satisfazer, longo o suficiente para produzir a falta que o poema, a partir daí, elabora.

A textura fónica do poema é arquitectada com precisão barthesiana. As aliterações em v e s — «voz», «vento», «via», «ver»; «sussurrasses», «sinto», «sei», «sinais» — tecem uma suavidade que imita o sopro; as linhas curtíssimas (muitas de duas a quatro sílabas) criam um ritmo de respiração entrecortada, de balbucio ou de vento que sopra e passa. O ritmo é o corpo do poema: não está no que diz, mas em como respira. Barthes diria que lemos aqui a voz-textura, aquela em que o sujeito não reconhece um conteúdo, mas saboreia uma presença — o gozo de um timbre que precede e excede tudo o que se diga.

KLIMT, SCHIELE E O SILÊNCIO DENSO
De La Peccatrice ao Tremor 
Simbolismo, Fauves, Pré-Cubismo

A estética do silêncio em Gustav Klimt não é a de um silêncio minimalista ou de vazio. É um silêncio denso, carregado, quase musical — um silêncio que emerge da tensão entre a exuberância decorativa e a quietude interior das figuras. Klimt cria espaços visuais onde o tempo parece suspenso, onde o olhar se torna o único som possível, e onde o não-dito ganha uma força quase física. Em retratos como Adele Bloch-Bauer I (1907) o olhar da mulher é directo, mas impenetrável — composto, aristocrático, ligeiramente fatigado. Os padrões de ouro que a envolvem funcionam como aura silenciosa: protegem-na e, ao mesmo tempo, isolam-na do mundo ruidoso.

Mas La Peccatrice de JAS opera uma subtracção deliberada face ao modelo klimtiano. Onde Klimt impõe o fundo dourado e o padrão ornamental como ruído visual que paradoxalmente protege o silêncio interior, JAS retira esse fundo e expõe a figura directamente ao negro e às terras quentes. A cortina de ouro cai e o que resta é o rosto — sem aura ornamental, sem alegoria externa, sem Cupido cego ou símbolo sobre-imposto. A figura olha de lado, a mão ao rosto, o brinco pendente e o anel como únicos ornamentos. Esta nudez compositiva é mais radical do que qualquer exuberância: é a figura confrontada consigo mesma, sem mediação decorativa.

A relação com Egon Schiele é aqui produtiva. Schiele, discípulo e ruptura de Klimt, eliminou o ouro e expôs o corpo em toda a sua angústia e vulnerabilidade — linhas crispadas, contornos nervosos, cores de carne doente. La Peccatrice de JAS não vai tão longe na angústia expressionista, mas partilha com Schiele a recusa do ornamento como defesa: a figura está exposta e essa exposição é ela mesma uma forma de linguagem. O olhar oblíquo e recolhido de La Peccatrice ecoa o olhar sideways de tantas figuras schieleanas — um olhar que não confronta, mas que sabe que é visto, que habita o ser-visto sem o solicitar.

Os Fauves — Matisse, Derain, Vlaminck — chegam aqui pela via da cor como emoção pura. A paleta de JAS em La Peccatrice — ocre, sienna, negro — não é naturalista nem decorativa: é afectiva. A cor não descreve a figura; é a figura, no sentido em que Matisse dizia que a cor devia ter o poder de uma sensação imediata antes de qualquer mediação intelectual. O ocre quente do fundo e da pele criam uma homogeneidade cromática que é também homogeneidade emocional: a figura e o espaço partilham a mesma temperatura — nem o frio da frieza exterior do poema, nem o calor do tremor interior, mas a temperatura ambígua do limiar, do quase.

O pré-cubismo — Cézanne acima de todos — contribui com a dissolução da perspectiva linear em favor de uma geometria das sensações. JAS simplifica o rosto de La Peccatrice com uma economia de linhas que recusa o ilusionismo: os olhos são levemente amendoados, o nariz é uma linha, a boca uma curva contida. Esta simplificação não é esquematismo — é a concentração da atenção no que importa: o olhar e o silêncio que lhe é tributário. Como em Cézanne, a figura pesa: tem massa, presença, resistência ao olhar. Não se deixa atravessar pela contemplação, devolve-a.

O simbolismo acrescenta a dimensão do além-visível: Gustave Moreau e Odilon Redon entendiam a figura feminina como limiar entre o sensível e o transcendente. A «pecadora» de JAS herda esta dimensão: o seu nome não é acusação moral, mas designação de uma posição limiar — a que pecou, a que sabe, a que guarda a memória do instante proibido. Como a Salomé de Moreau, ela é sujeito de uma interioridade inacessível; como as figuras redonanas, é presença que alude a um mundo que o olhar não alcança. O simbolismo fornece a profundidade vertical que o Fauvismo fornece horizontalmente como calor de cor.

O dadaísmo, aparentemente contrário a toda esta tradição de belo e de presença, intervém aqui de forma inesperada: a elipse gráfica do poema («………») é um gesto dadaísta — a irrupção do anti-signo no interior da estrutura poética, o ruído visual que desmonta o sentido no momento em que ele estava prestes a fixar-se. Tzara e Duchamp inseriram o acidente e o silêncio no coração da linguagem; JAS insere a elipse no coração do encontro, fazendo do hiato entre o «olá» e a frieza um espaço não preenchível por nenhuma palavra. O dadaísmo é, neste poema, o momento em que a língua confessa a sua insuficiência — e essa confissão é, paradoxalmente, o seu ponto mais alto de honestidade.

 PESSOA, A METAPOÉTICA 
E O "EU" DIFERIDO 
Ortónimo, Heterónimos 
e o Poema como Máscara

Fernando Pessoa escreveu: «O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.» O poema ortónimo confronta aqui o poema de JAS com uma questão que não pode ser evitada: quem fala em «OLÁ!»? O «eu» que pede, que balbucia, que vira o rosto, que persiste — é o poeta ou é uma máscara do poeta? A distinção pessoana entre ortónimo e heterónimo não é apenas biográfica; é ontológica. O ortónimo é o «eu» que sente a dor da ficção da dor — que sofre de verdade o sofrimento que finge. O heterónimo é o «eu» que se separa do autor até ter vida própria, biografia, astrologia, estilo inconfundível.

JAS opera, em «OLÁ!», com o ortónimo no seu estado mais exposto: não há máscara nominal, não há Ricardo Reis ou Álvaro de Campos a intermediar o tremor. O «eu» é nomeado pela ausência do seu nome — pede que o outro lhe diga o nome, o que significa que, no espaço do poema, o sujeito existe à espera de ser nomeado. Esta estrutura é profundamente pessoana: o «eu» pessoano do Livro do Desassossego existe na dissolução, na semi-ausência, no «sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que a vida fez de mim». O sujeito de «OLÁ!» é também este intervalo: existe no espaço entre o pedido e a resposta, entre o tremor e a frieza, entre o «olá» fugaz e os «diferidos sinais».

Mas a dimensão heteronómica está presente de outro modo: na capacidade metapoética do poema de falar de si mesmo. «OLÁ!» é um poema que tematiza o poema — os «poemas qu’escrevi», o poema que «disser / Que nunca / É tarde / Demais», o poema que «em seu eco / Te encontre». O poema auto-referencia-se, torna-se espelho de si mesmo, exerce aquilo que descreve. Esta recursividade metapoética é heteronómica no sentido em que o poema adquire uma autonomia face ao sujeito que o escreve: torna-se o agente do reencontro possível, o porta-voz de uma esperança que o sujeito já não ousaria formular directamente. Álvaro de Campos diria: «Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.» O sujeito de «OLÁ!» tem, pelo menos, este poema — e o poema tem todos os ecos do mundo.

A teoria do heterónimo como drama em pessoas — a expressão é do próprio Pessoa — ilumina a estrutura dramática de «OLÁ!»: o poema encena dois personagens (o «eu» que pede e o «tu» que recusa), mas o «tu» nunca fala. A frieza é narrada, não dialogada; a austera distância é descrita, não performada. O poema é, portanto, um monólogo dramático na tradição browningiana — dramatic monologue — em que o silêncio do outro é a presença mais eloquente. Pessoa seria sensível a esta estrutura: o heterónimo é também uma voz que fala sem que o outro responda, que dramatiza o diálogo sem ter interlocutor real.

A metapoética de «OLÁ!» pode ser formulada desta forma: o poema é a única forma de voz que dura o suficiente para ser ouvida. O «olá» foi rápido como vento; o balbucio falhou; a frieza silenciou. Mas o poema permanece — é a voz que não se apaga com o instante, que não se torna frieza ao virar o rosto, que não balbucia porque não está sujeita ao tremor do corpo no momento do encontro. O poema é o heterónimo do instante: a sua máscara que dura mais do que ele.

BLOOM, KAFKA 
E O CÂNONE PAROXÍSTICO
A Influência como Agon 
e a Estranheza como Medida

Harold Bloom propôs que toda a poesia forte nasce de uma relação agonística com os precursores — o que chamou ansiedade da influência. O poeta lê o precursor com um clinamen, um desvio intencional que lhe permite afirmar a sua originalidade sem a negar. Os seis ratios revisionários — clinamen, tessera, kenosis, daemonization, askesis, apophrades— descrevem as formas como o poeta subsequente se distancia do precursor para criar o seu próprio espaço canónico. «OLÁ!», lido à luz de Bloom, é um poema que exerce tessera face à tradição do poema de amor — completa o precursor dando ao «olá» a densidade que o género lírico clássico lhe negava ao resolvê-lo em declaração. JAS não declara: pede, balbucia, persiste, oferece sinais.

Kafka interessa aqui pela via da estranheza como medida da potência literária. Bloom inclui Kafka no seu cânone ocidental precisamente porque a sua estranheza não se deixa domesticar — porque lemos Kafka e não sabemos exactamente onde estamos, mas sabemos que estamos em algum lugar absolutamente preciso. «OLÁ!» tem algo desta qualidade kafkiana: a cena do poema é banal (um encontro fugaz na rua, um «olá» pedido e recebido), mas o que o poema faz com essa banalidade é radicalmente estranho — transforma o murmúrio em cosmologia, o balbucio em sintoma, os «diferidos sinais» em teologia poética. Como em Kafka, o ordinário torna-se o limiar do abismo.

A apophrades bloomiana — o retorno dos mortos, o momento em que o poema parece ter sido escrito pelo precursor — opera aqui de forma curiosa: «OLÁ!» faz Pessoa parecer inevitável, faz Klimt parecer necessário, faz Lacan parecer o único vocabulário possível para o tremor «cá dentro». Não é que JAS imite estes precursores; é que o poema os chama, como o próprio poema chama a outra — e eles aparecem, rápidos como o vento, e ficam no eco.

O cânone paroxístico que Bloom defende — a grandeza como estranheza irredutível, como força que resiste à paráfrase — aplica-se a «OLÁ!» num sentido preciso: o poema resiste à paráfrase porque o que importa nele não é o que diz, mas como diz. Parafrasear «OLÁ!» é perder «OLÁ!». Dizer que «um homem pediu um sinal a uma mulher que o ignorou e continua a esperar» é esvaziar o poema de tudo o que o faz ser poema: o ritmo de balbucio, o murmúrio das águas, a elipse gráfica, o «talvez» final que é ao mesmo tempo rendição e acto de fé. Esta irredutibilidade à paráfrase é, para Bloom, a marca do canónico.

PNEUMATOLOGIA E KABBALAH 
Ruach, Shem, Bat Qol, Tikkun

Na tradição kabbalística, o nome (shem) possui poder criador e revelador. Pedir que o outro «sussurrasse o meu nome» é pedir que o sujeito seja chamado à existência pela voz do outro — acto quase divino de nominação. O nome não designa: inaugura. No Sefer Yetzirah, as vinte e duas letras do alfabeto hebraico são os instrumentos da criação; cada nome é um arranjo de potências criadoras. Quando o «eu» do poema pede o seu nome à outra, está a pedir que ela exerça sobre ele a função criadora da linguagem — que o faça existir de um modo que ele próprio não pode, porque o sujeito não se pode nomear a si mesmo sem circularidade.

O vento — ruach em hebraico — é, na Kabbalah, o segundo nível da alma (acima do nefesh vital e abaixo do neshamah espiritual): o sopro moral e emocional, a sede do carácter e do desejo. «Talvez o vento te chame» é, nesta chave, transferência do chamamento para o nível ruach da existência — onde a voz humana falhou, o sopro do mundo pode ainda alcançar. O vento é o pneumático que excede a intenção — sopra onde quer, como o Evangelho de João diz do Espírito.

A Bat Qol — filha da voz, eco celeste — é o conceito kabbalístico que ilumina o «eco» do poema. Na tradição talmúdica, a Bat Qol é a voz divina que se faz ouvir nos mundos inferiores depois de cessada a profecia directa — voz que já não é a voz, mas o seu rastro, o seu rebate nos muros do mundo. O poema espera que «em seu eco te encontre»: o poema é Bat Qol da voz que pediu o «olá» — não a voz directa, mas a sua filha, o seu eco que pode alcançar onde a voz directa foi recusada. Os «diferidos sinais» são as otiyot — letras, sinais — que a tradição kabbalística reconhece como fragmentos de luz que aguardam ser recolhidos.

A doutrina do tikkun — reparação, recomposição — é o horizonte teleológico do poema. O mundo foi fracturado no shevirat ha-kelim — a quebra dos vasos — e a tarefa humana é recolher as centelhas (nitzotzot) de luz dispersas para restaurar a harmonia. «OLÁ!» é um poema de tikkun: tenta reparar, através da palavra poética, a fractura aberta pelo «olá» fugaz e pela frieza que se lhe seguiu. Cada poema escrito é uma centelha recolhida; cada «talvez» do verso final é a abertura de um vaso que pode ainda conter luz. A «pecadora» — peccatrice — pode ser lida como alma aprisionada nas kelipot (cascas) da frieza e da distância; o poema oferece uma via de tikkun através da palavra que carrega calor.

A imagem do beijo das águas doces e salgadas converge aqui com a visão kabbalística da foz como yesod — o canal que une os mundos superiores e inferiores, o atributo da fundação que medeia a aliança entre o masculino e o feminino do divino. A foz não é apenas metáfora erótica; é cosmologia: o lugar onde a diferença se toca sem se dissolver, onde chesed e gevurah se abraçam sem se confundir. O «olá» pedido como murmúrio das águas é, nesta leitura, não apenas pedido de reconhecimento interpessoal, mas desejo de yihud — de união mística que restaura o que a separação desfez.

REICH, MENDELSSOHN, POLLOCK 
Minimalismo, Romantismo 
e Expressionismo Abstracto 
no Campo do Poema

Steve Reich desenvolveu, a partir dos anos sessenta, uma estética da repetição transformadora: o mesmo padrão musical, repetido com micro-deslocamentos de fase (phase shifting), gera gradualmente uma paisagem sonora radicalmente diferente da que começou. A repetição não é estagnação; é processo. «OLÁ!» opera com a mesma lógica: «tantos “olás” que pedi, tantas vezes te chamei» — a repetição não desgasta o pedido, transforma-o. O décimo «olá» não é igual ao primeiro; carrega em si todos os anteriores, mais a carga da não-resposta, mais a carga da persistência. A fase desloca-se; a paisagem emocional muda; o mesmo pedido torna-se, por acumulação, outro pedido — mais fundo, mais carregado, mais próximo da resignação e mais distante da ingenuidade.

O Octet e as Music for 18 Musicians de Reich mostram que o minimalismo não é pobreza: é economia ao serviço da intensidade. As linhas curtíssimas de «OLÁ!» são minimalistas no mesmo sentido: não dizem pouco porque não têm o que dizer, mas porque escolheram a máxima concentração. «Não por fora, / Mas cá dentro» — quatro palavras que uma paráfrase expandiria em parágrafo sem ganhar em verdade. O minimalismo poético de JAS e o minimalismo musical de Reich partilham a mesma convicção: a intensidade não requer extensão.

Felix Mendelssohn interessa aqui pela via da Lieder ohne Worte — Canções sem Palavras — a sua invenção de uma forma musical que tem a estrutura emocional da canção mas prescinde da letra. As Lieder ohne Worte são um paradoxo produtivo: canções que cantam sem palavras, que têm grão da voz sem voz. «OLÁ!», inversamente, é uma palavra sem melodia que, ao longo do poema, se vai tornando melodia sem palavras — o «eco» final é pura ressonância, som depois do signo. O diálogo imaginário entre Mendelssohn e JAS é este: onde Mendelssohn mostrou que a emoção musical não precisa de palavras para dizer o que diz, JAS mostra que a palavra poética pode chegar, pela via da repetição e do eco, ao ponto em que já não é palavra, mas música — Lied que reencontrou a sua melodia.

Jackson Pollock chegou à pintura pelo caminho oposto ao de Klimt: onde Klimt controlava o ornamento com rigor decorativo, Pollock derramava a tinta em movimentos do corpo inteiro, fazendo do acidente o método e do caos a forma. O expressionismo abstracto de Pollock é a pintura do geno-canto: não representa nada exterior, mas exibe o movimento do corpo que pinta, o tremor da mão, a velocidade do gesto. A elipse gráfica de «OLÁ!» («………») tem algo de pollockeano: é o gesto que se deposita na página sem pretender representar, que diz aqui aconteceu algo que a linguagem não segura. Se Pollock fizesse um poema, poderia ser esta elipse. E se JAS fizesse uma tela pollockeana, poderia ser a pauta visual do balbucio — linhas que tropeçam, que se interrompem, que recomeçam sem continuidade garantida.

A pertinência destas referências musicais e plásticas num ensaio sobre poesia não é ornamental: é metodológica. O método FPX é, na sua dimensão X (Cabalístico-Estética), precisamente a recusa da separação das artes como estanques. A sinestesia do poema — «perfume / Te inebrie», «palavras / Te seduzam», «vento / Te chame», «raízes / Te comovam» — é ela mesma uma teoria estética implícita: os sentidos comunicam, as artes dialogam, a emoção não tem medium exclusivo. Reich, Mendelssohn e Pollock são convocados não como analogias decorativas, mas como provas de que o que o poema faz com a palavra — a repetição que transforma, a economia que intensifica, o gesto que excede o signo — também a música e a pintura o fazem, cada uma na sua matéria específica.

A MÚSICA INVISÍVEL 
Schönberg, Reich 
e a Dissonância Sustentada

Sugere o poema uma música invisível? A pergunta não é retórica, e a resposta — que é sim — exige ser fundamentada em três registos distintos, sob pena de a música se tornar mera metáfora decorativa. «OLÁ!» sugere música invisível, primeiro, de modo literal: pede-se uma voz («pra ouvir a tua / Voz»), um murmúrio, um sussurro do nome. Este som é desejado, mas nunca transcrito — é música que existe apenas como falta, como pauta em branco que o desejo preenche e que a frieza esvazia. Segundo, de modo estrutural: as cinco maiúsculas funcionam como attacchi — entradas, ataques —, e as linhas curtíssimas impõem um ritmo de respiração entrecortada que o leitor é obrigado a executar mentalmente. Há uma partitura implícita no corpo tipográfico do poema, e lê-lo é interpretá-la. Terceiro, de modo metapoético: o verso final entrega o poema ao «eco» — pura ressonância, som depois do signo, a música que sobra quando a palavra se cala. O poema termina não em palavra, mas em vibração: «em seu / Eco / Te encontre».

É neste ponto que a tensão entre Arnold Schönberg e Steve Reich se revela exacta, e não apenas analógica. Importa, antes de mais, uma correcção conceptual: Reich não é dodecafónico — o dodecafonismo é a invenção de Schönberg e da Segunda Escola de Viena (Berg, Webern), ao passo que Reich é minimalista. Mas é precisamente porque pertencem a paradigmas opostos que a sua justaposição ilumina a música invisível do poema. O poema não é schönberguiano ou reichiano: é o acorde impossível entre ambos.

SCHÖNBERG - A MÚSICA DO MURO

O dodecafonismo de Schönberg é a música da não-resolução obrigatória. A série de doze sons — em que nenhuma nota se repete até esgotada a totalidade cromática — proíbe estruturalmente o retorno à tónica, proíbe o repouso, proíbe a cadência que consola. A atonalidade não é desordem; é uma ordem que recusa o conforto da resolução tonal. Em Pierrot lunaire (1912), o Sprechgesang — o canto falado, nem fala nem melodia — habita exactamente o limiar entre phonê e logos que a tradição filosófica desde Aristóteles interroga: a voz que está prestes a significar e que se retém no limiar.

Esta é a lógica da frieza do poema. O «olá» acontece, mas não resolve; a austeridade «ignora o passado que passara nesse instante»; o encontro recusa a cadência do reencontro. Schönberg é a música do muro — daquela barreira de tempo e de espaço que o sujeito reconhece e que não cede. A frieza da «pecadora» é dodecafónica: mantém a tensão atonal, recusa a tónica do reconhecimento, suspende a dissonância sem nunca a resolver num acorde de chegada. Quando o sujeito vira o rosto e encontra a austeridade, é uma cadência interrompida — a resolução prometida pela aproximação dos sons é negada no último instante. Schönberg ensinou que essa negação pode ser, ela mesma, uma forma musical: a beleza da dissonância que se recusa a deixar de o ser.

REICH - A MÚSICA DA FOZ

O minimalismo de Reich é a música da repetição que transforma. No phase shifting — a técnica que Reich desenvolveu em obras como Piano Phase (1967) e Drumming (1971) — o mesmo padrão é repetido por dois executantes que se desfasam micrometricamente, gerando, por acumulação gradual, uma paisagem sonora radicalmente diferente da que começou. A repetição não é estagnação nem obsessão: é processo, devir audível, transformação que só a persistência torna possível.

Esta é a lógica dos «tantos “olás” que pedi, / tantas vezes te chamei». A repetição do pedido não o desgasta — acumula-o. O décimo «olá» carrega em si todos os anteriores, mais a carga da não-resposta, mais a carga da própria persistência. A fase desloca-se; a paisagem emocional muda; o mesmo pedido torna-se, por sedimentação, outro pedido. Reich é a música da foz — daquele lugar onde as águas doces, repetidamente, beijam as salgadas e onde cada beijo é o mesmo e nenhum é igual. O eco que regressa «sempre outro» é reichiano: a Bat Qol que reverbera com micro-deslocamentos até que o som final já não seja o som inicial, embora dele derive inteiramente.

A DISSONÂNCIA SUSTENTADA 
O acorde impossível

A música invisível de «OLÁ!» é, então, a sobreposição impossível dos dois paradigmas: uma série schönberguiana — a frieza que não resolve, a cadência negada — executada em fase reichiana — a repetição que espera, o pedido que se acumula. O poema vive na dissonância sustentada entre o que recusa a cadência e o que recusa parar de pedir. O «tu» do poema é Schönberg: atonal, sem tónica, sem repouso oferecido. O «eu» do poema é Reich: repete, desfasa-se, persiste, acredita que a acumulação gera transformação. E o poema é o espaço onde estas duas músicas incompatíveis soam ao mesmo tempo, sem síntese — exactamente como o método FPX faz soar o filosófico, o psicanalítico e o cabalístico-estético sem que nenhum reduza os outros.

Esta dissonância sustentada é o que, em rigor, distingue «OLÁ!» de um simples poema de amor não correspondido. Um poema menor resolveria: ou na esperança consoladora (cadência tonal, reencontro garantido) ou no desespero fechado (silêncio, ponto final). «OLÁ!» recusa ambas as resoluções. Mantém o «talvez» — que é a marca musical da suspensão, a sétima da dominante que não desce à tónica, o acorde que fica a vibrar no ar. O poema termina suspenso porque a verdade do encontro é a suspensão: nem o reencontro nem a perda definitiva, mas o eco que continua a propagar-se nos «diferidos sinais».

MENDELSSOHN, POLLOCK E O SUBLIME
Sentido num mundo de sensações?

Resta a pergunta mais difícil: Mendelssohn e Pollock fazem sentido num mundo de sensações, de beleza e de sublimidade? A pergunta é, no fundo, sobre a possibilidade do sublime na época da sensação dispersa. Kant distinguiu o belo — que repousa na forma, nos limites, na harmonia — do sublime — que nasce do que excede a forma, do que é demasiado grande (sublime matemático) ou demasiado poderoso (sublime dinâmico) para a apreensão sensível. O sublime não é prazer simples: é o prazer negativo de confrontar o que nos excede e, nesse confronto, descobrir em nós uma faculdade — a razão, a liberdade — que o excesso não consegue subjugar.

Felix Mendelssohn, com as Lieder ohne Worte — Canções sem Palavras —, situa-se aparentemente no lado do belo: forma clara, lirismo contido, harmonia romântica sem a vertigem do sublime. Mas o paradoxo das Lieder ohne Worte é mais profundo: são canções que cantam sem letra, que possuem grão da voz sem voz. Ao prescindir da palavra, Mendelssohn aponta para o que excede a palavra — e esse excesso é já uma forma de sublime: a emoção que não se deixa dizer, que só a melodia sem texto pode transportar. «OLÁ!» faz o percurso inverso e complementar: parte da palavra e caminha para a música sem palavra — o «eco» final é uma Lied ohne Worte poética, a emoção que sobrevive ao esgotamento do dizer.

Jackson Pollock é, sem ambiguidade, do lado do sublime — do sublime dinâmico, da força que excede a forma. O dripping, o gesto do corpo inteiro derramando tinta, o abandono da figura e do enquadramento, produzem telas que não se contemplam de um ponto fixo, mas que envolvem e excedem o olhar, como uma paisagem ou uma tempestade. Pollock pinta o que não tem contorno — e é por isso que faz sentido, e o mais alto sentido, num mundo de sensações: porque mostra que a sensação, levada ao seu extremo, toca o sublime, o ponto em que a beleza formal se rompe e dá lugar a algo que a excede. A elipse gráfica de «OLÁ!» («………») é o dripping do poema: o gesto que se deposita na página sem representar, o excesso que a forma poética não contém, o sublime irrompendo no interior do belo.

Sim, pois: Mendelssohn e Pollock fazem sentido num mundo de sensações, beleza e sublimidade — mas em pólos opostos do mesmo eixo. Mendelssohn mostra que o belo, levado ao limite, aponta para o que excede a palavra; Pollock mostra que o sublime, levado ao limite, rompe a forma e a refunda no gesto. «OLÁ!» percorre todo o eixo: começa no belo (o murmúrio das águas, a harmonia da imagem hidráulica), atravessa o sublime (a frieza que excede, a elipse que rompe) e termina na suspensão — nem belo resolvido nem sublime esmagador, mas o eco que vibra entre ambos. A música invisível do poema é esse eco: a dissonância sustentada entre Schönberg e Reich, entre o muro e a foz, entre a cadência negada e a repetição que espera.

FILOSOFIA - LEVINAS, HEIDEGGER, 
A APORIA TEMPORAL E A KHÔRA COMO FOZ

Emmanuel Levinas distinguiu o Dizer (le Dire) do Dito (le Dit): o Dizer é a exposição ao Outro antes de qualquer conteúdo — a proximidade, o calor, o sinal que se dá antes de qualquer sinal. O Dito é o conteúdo temático em que o Dizer se deposita e arrefece. «OLÁ!» encena esta distinção com exactidão: o «olá» pedido não é um Dito — não tem conteúdo proposicional —, é puro Dizer: «sussurrasses o meu nome», pra ouvir a tua voz. O que se pede não é informação, mas presença; não é mensagem, mas rosto. E a frieza da resposta — «austera, muito fria e distante» — é a conversão do Dizer em Dito: o «olá» aconteceu como Dito (foi dito, foi rápido), mas recusou o Dizer (não houve exposição, não houve rosto).

A ética levinasiana implica que a relação com o Outro é an-árquica e infinita — sem origem assignável, sem possibilidade de fechamento. A «derradeira despedida» que o sujeito teme equivale, nesta chave, ao fechamento do infinito — ao fim da responsabilidade que o rosto do Outro inaugura. Os «diferidos sinais» que o poema espera são a fórmula poética do excesso do Dizer sobre o Dito: mesmo depois da frieza, mesmo depois do silêncio, a relação não se fecha porque o Outro permanece como rosto irredutível. «Nunca é tarde demais» é, em Levinas, não esperança sentimental, mas imperativo ético: a responsabilidade pelo Outro não prescreve.

Heidegger contribui com o Augenblick — o instante kairológico, o piscar de olhos da decisão — e com a Stimmung — a tonalidade afectiva que afina o ser-no-mundo antes de qualquer julgamento. O encontro do «olá» é Augenblick: perfura o tempo cronológico e instala a eternidade no fugaz. Mas a frieza que se lhe segue é também Stimmung: a tonalidade de quem «ignorava o passado que passara nesse instante» — uma tonalidade que anula retroactivamente a densidade do instante, fazendo-o ser já passado enquanto ainda estava a ser. O paradoxo temporal do poema — «o passado que passara nesse instante» — é heideggeriano na sua estrutura: o instante é retroactivamente desfigurado pela tonalidade que lhe é posterior.

A khôra platónica — o receptáculo (hypodochê) que acolhe todas as formas sem ser nenhuma, nem inteligível nem sensível, ama de leite do devir — ressurge aqui como figura do espaço do encontro. A foz, onde as águas doces beijam as salgadas, é uma khôra: o espaço neutro onde dois elementos incompatíveis se tocam sem se dissolver. O «olá» acontece nessa foz — nem no espaço de um nem no espaço do outro, mas no intervalo entre ambos. Derrida fez da khôra o nome do espaçamento anterior a toda a oposição — o lugar sem lugar que dá lugar sem ser. O poema habita essa khôra: não é declaração (posição de um), não é resposta (posição do outro), é o murmúrio que acontece no intervalo, na foz, no espaço que nem um nem outro possui, mas que ambos habitam no instante do beijo das águas.

As aporias do poema são filosoficamente produtivas. É tarde ou nunca é tarde demais? O poema afirma a segunda, mas em modo de súplica, não de certeza — o «talvez» inicial do último movimento é a marca da aporia: o poema não resolve, abre. O poema chega ou ecoa no vazio? A estrutura da Bat Qol sugere que o eco é já uma forma de chegada — não a voz, mas a sua filha, que pode alcançar onde a voz directa foi recusada. Olhar para trás ou prosseguir? O sujeito vira o rosto e vê a frieza — depois decide prosseguir. Mas os poemas provam que não prosseguiu sem levar o resto do outro. A autarcia é uma construção permanentemente diferida: o sujeito constrói-a e o poema desfá-la. E essa tensão é a condição de possibilidade do poema.

ENCERRAMENTO: O POEMA COMO ACORDE
Onde Outro Autor Compõe Melodia

«OLÁ!» é, segundo a sua própria imagem final, um poema que espera encontrar a sua destinatária «mesmo que seja em simples ou diferidos sinais». Esta modéstia é a sua maior força: o poema não promete reencontro, não garante reconciliação, não resolve as aporias que construiu ao longo dos cinco movimentos. Apenas abre, como a foz abre ao mar, como a khôra abre às formas sem ser nenhuma delas, como a Bat Qol abre ao eco sem ser já a voz.

A triarquia que este ensaio propôs — La Peccatrice (JAS 2023), «OLÁ!» (JAS 2026), método FPX — revelou-se não como três elementos paralelos, mas como um acorde: cada um modifica os outros dois e o sentido está na ressonância entre todos. A figura de La Peccatrice não ilustra o poema, é o rosto do que o poema pede e não recebe — a interioridade que estremece por baixo da frieza aparente. O método FPX não analisa o poema de fora; é o modo de escuta que o poema exige — filosófico no seu rigor conceptual, psicanalítico na sua atenção ao sintoma e ao grão, cabalístico-estético na sua sensibilidade ao nome, ao eco e ao tikkun.

Klimt e Schiele mostraram que o silêncio pode ser denso — que o não-dito pode ter uma força quase física. Os Fauves mostraram que a cor é emoção antes de ser representação. O pré-cubismo mostrou que a forma pode pesar. O simbolismo mostrou que a figura feminina guarda um além-visível. O dadaísmo mostrou que o silêncio pode irromper no coração da linguagem como acto de honestidade. Pessoa mostrou que o «eu» que fala pode ser máscara que dura mais do que o instante. Bloom mostrou que a poesia forte resiste à paráfrase. Kafka mostrou que o ordinário é o limiar do abismo. Reich mostrou que a repetição transforma. Mendelssohn mostrou que a emoção não precisa de palavras. Pollock mostrou que o gesto do corpo é já forma. Levinas mostrou que o Dizer precede e excede o Dito. Heidegger mostrou que o instante pode perfurar a duração. A Kabbalah mostrou que o nome chama à existência, que o eco é filho da voz, que a reparação é sempre possível.

«OLÁ!» compõe acorde com tudo isto — não porque o mobilize deliberadamente, mas porque um poema verdadeiramente forte é, como Bloom disse dos canónicos, aquele que faz os precursores parecerem inevitáveis. Lido «OLÁ!», Pessoa parece ter escrito para este momento; Klimt parece ter pintado esta frieza; Reich parece ter composto esta repetição. O poema absorve os seus precursores e devolve-os transformados — esta é a apophrades bloomiana, o retorno dos mortos que o poema forte convoca.

Onde outro autor compõe melodia — linha que se segue, argumento que se resolve, encontro que se completa —, este poema compõe acorde: o pedido e a recusa, o tremor e a frieza, o «olá» e o silêncio, o balbucio e o eco soam juntos sem resolução, mantendo a tensão viva porque é ela, e não a resolução, que é a verdade do encontro. O acorde não fecha, ressoa. E enquanto ressoa, o instante que «passara» ainda não passou de todo — vive no eco, no sinal diferido, na foz onde as águas se tocam.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Fontes patentes

Santos, J. de A. (2023). La Peccatrice [Obra plástica; técnica mista sobre papel de algodão 310 g/m², verniz Hahnemühle, Artglass AR70; 57 × 88 cm; inspirada em esboço de G. Klimt, Zwei Studien einer jungen Frau, 1885]. Lisboa: edição do autor. Disponível em https://joaodealmeidasantos.com

Santos, J. de A. (2026). OLÁ! [Poema]. Junho de 2026. Lisboa: edição do autor. Disponível em https://joaodealmeidasantos.com

Veríssimo, A. M. (2026). Contos e psicanálise: O submundo das fábulas. Guimarães: edição MDE. (No Prelo)

Veríssimo, A. M. (2026). O grão da voz e o dizer: A voz como phonè, canto e vestígio no poema «A Tua Voz», de João de Almeida Santos. Ensaio inédito. Guimarães: edição do autor.

Fontes latentes

Bachelard, G. (1957). La poétique de l’espace. Paris: Presses Universitaires de France.

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Barthes, R. (1970). S/Z. Paris: Éditions du Seuil.

Bataille, G. (1957). L’érotisme. Paris: Éditions de Minuit.

Benjamin, W. (2012). A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica (M. Mourão, Trad.). Lisboa: Edições 70. (Trabalho original publicado em 1935)

Bloom, H. (1973). The Anxiety of Influence: A Theory of Poetry. New York: Oxford University Press.

Bloom, H. (1994). The Western Canon: The Books and School of the Ages. New York: Harcourt Brace.

Derrida, J. (1991). La dissémination. Paris: Éditions du Seuil.

Derrida, J. (1993). Khôra. Paris: Éditions Galilée.

Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer (C. A. M. de Araújo, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1920)

Heidegger, M. (2012). Ser e tempo (M. S. C. Schuback, Trad.). Petrópolis: Vozes. (Trabalho original publicado em 1927)

Jakobson, R. (1963). Essais de linguistique générale. Paris: Éditions de Minuit.

Kafka, F. (2005). O processo (G. Bermann Fischer, Trad.). Lisboa: Assírio & Alvim. (Trabalho original publicado em 1925)

Kant, I. (1998). Crítica da faculdade do juízo (A. Marques & V. Rohden, Trad.). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. (Trabalho original publicado em 1790)

Kierkegaard, S. (2013). O conceito de angústia (A. M. Feijó, Trad.). Lisboa: Edições 70. (Trabalho original publicado em 1844)

Klimt, G. (1885). Zwei Studien einer jungen Frau [Desenho a lápis]. Viena: coleção particular.

Klimt, G. (1907–1908). Der Kuss [Óleo e folha de ouro sobre tela, 180 × 180 cm]. Viena: Österreichische Galerie Belvedere.

Kristeva, J. (1974). La révolution du langage poétique. Paris: Éditions du Seuil.

Lacan, J. (1998). O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (M. D. Magno, Trad.). Rio de Janeiro: Zahar. (Seminário original de 1964)

Levinas, E. (1974). Autrement qu’être ou au-delà de l’essence. La Haye: Martinus Nijhoff.

Merleau-Ponty, M. (1999). O visível e o invisível (A. M. de Oliveira, Trad.). São Paulo: Perspectiva. (Trabalho original publicado em 1964)

Pessoa, F. (2013). Obra poética (M. A. Galhoz, Org.). Rio de Janeiro: Nova Aguilar.

Platão (2011). Timeu-Crítias (trad. R. Sousa). Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos.

Reich, S. (2002). Writings on Music: 1965–2000 (P. Hillier, Ed.). New York: Oxford University Press.

Scholem, G. (1995). A cabala e seu simbolismo (M. T. R. de Almeida, Trad.). São Paulo: Perspectiva. (Trabalho original publicado em 1960)

Schönberg, A. (1978). Theory of Harmony (R. E. Carter, Trad.). Berkeley: University of California Press. (Trabalho original publicado em 1911)

Schönberg, A. (1975). Style and Idea: Selected Writings (L. Stein, Ed.). London: Faber & Faber.

Schiele, E. (1910). Selbstbildnis [Óleo sobre tela]. Viena: Leopold Museum.

Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade (J. O. de A. Abreu, Trad.). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1971)

AMV@06-2026

Poesia-Pintura

OLÁ!

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “La Peccatrice”
JAS 2023
(57x88, papel de algodão, 310gr,
e verniz Hahnemühle, Artglass AR70,
inspirada num esboço de Klimt, apud
Zwei Studien einer jungen Frau, de 1885)
Junho de 2026

“La Peccatrice” – JAS2023

POEMA – “OLÁ!

PEDI-TE UM DIA,
Num poema
Que te fiz,
Que me desses
 Um olá,
Sussurrasses
O meu nome
Pra ouvir a tua
Voz,
Assim,
Como o murmúrio
Das águas
Do rio
Quando beijam
As águas salgadas
 Da foz.

E O OLÁ
Aconteceu,
Mas foi rápido
Como o vento
Que sopra
Na minha alma
Quando cruzo
O teu olhar
E me sinto
Estremecer,
Não por fora,
Mas cá dentro,
Onde gosto
De te ver.

BALBUCIEI
O teu nome
Já distante
Desse “olá”,
Sem saber
O que fazer,
Se chamar-te,
Se sorrir
Ou prosseguir
O caminho
Como quem te
Viu partir.

MAS QUANDO VIREI
O meu rosto
Vi-te de novo
Austera,
Muito fria
E distante...
.........
Ignoravas
O passado
Que passara
Nesse instante.

E, DEPOIS,
Tantos “olás”
Que pedi,
Tantas vezes
Te chamei,
Os poemas
Qu’escrevi
Sobre o pouco
Que ainda
Me sobra
De ti,
Sobre o pouco
Que ainda sei.

TALVEZ O VENTO
Te chame
As palavras
Te seduzam,
As raízes te
Comovam
Ou um perfume
Te inebrie
Quando o poema
Disser
Que nunca
É tarde
Demais
E que em seu
Eco
Te encontre,
Mesmo que seja
Em simples
Ou diferidos
Sinais.

Artigo-Ensaio-Poesia

A SAUDADE, O VESTÍGIO E A CIFRA

DESCONSTRUÇÃO, ESTRUTURA GEMATRÍSTICA 
E TEORIA ESTÉTICA DO POEMA «A SAUDADE», 
DE JOÃO DE ALMEIDA SANTOS
Com incursões na ilustração 
«Melancolia» Pictorialismo, 
bizantinismo, pós-impressionismo
*
Leitura à luz de Jakobson, Barthes, 
Harold Bloom, Kafka e do Talmude Bavli 
— FPX (Filosófico · Psicanalítico · 
X = Talmude e multivectorialidade 
da Teoria Estética)

Por André Moshe Veríssimo, PhD

“Melancolia” – JAS2023

A SAUDADE

Poema de João de Almeida Santos,
com a ilustração «Melancolia» 
(JAS, 2022)
NUM DIA
Cinzento
Da vida
Cruzei-me
Com a saudade,
Estava vestida
De negro
E não soube
Que fazer,
Perdido
Lá na cidade,
Nesse triste
Entardecer...

FINGI
Que não a via,
Mas olhei-a
De través,
Sem saber
Por que o fazia
Ou receio
De um revés.

MAS ELA
Entrou em mim
Porque de mim
Não saíra,
Memória
Incompleta
De algo
Que não partira.

É SAUDADE
Do que nunca
Aconteceu
E por isso
Atinge forte,
Como raio
E trovão,
Quem revive
O que viveu
Em sofrida
Solidão.

A SAUDADE
Aparece
Onde menos
Se espera,
Ela sempre
Acontece,
Redonda
Como esfera.

E É NOS DIAS
Cinzentos
Que ela
Sempre
Aparece
Disfarçada
De acaso...
.......
É assim
Que acontece,
É destino
A caminho
Do ocaso.

A SAUDADE,
Imprevisível
E forte,
Encandeia
Quem a sente,
Qual clarão
Em noite escura
Nos dias
Cinzentos
Da vida,
Sempre intensa,
Sempre impura,
Uma infinda
Despedida...
..................
Que já nem o tempo
Cura.

QUANTO MAIS
O tempo passa
Mais a saudade
Dura
E cresce
Pois se o passado
Não cura
Para sempre
Permanece.
Ipsis Litteris
PÓRTICO: CULTO DA CIFRA
Método, Constelação e FPX

HÁ TEXTOS que se explicam e há textos a que se presta culto. «A Saudade», de João de Almeida Santos, exige o segundo gesto: não a tradução do poema numa tese, mas a sua leitura como cifra — objecto que diz e, no mesmo movimento, retém o que diz. Por isso o presente ensaio recusa a hierarquia das disciplinas e procede por constelação, no sentido de Adorno e de Benjamin: a verdade não se deduz, configura-se na disposição simultânea dos elementos. Chamamos a essa configuração FPX— o acorde filosófico, psicanalítico e X, onde X é o cruzamento do Talmude Bavli com a multivectorialidade da Teoria Estética. Os vectores não se ordenam: soam juntos.

Esta simultaneidade tem genealogia talmúdica. Em ʿEruvin 13b lê-se que, na disputa das escolas, «umas e outras são palavras do Deus vivo» — elu va-elu divrei Elohim ḥayyim: a verdade comporta vozes plurais sem se anular. E a tradição do PaRDeS — os quatro níveis peshat, remez, derash e sod — autoriza a leitura estratificada que o poema reclama. Não sairemos nunca deste poema; e as anotações que o autor lhe apôs serão lidas como anotações — paratexto que acompanha, não lei que comanda. Convocaremos Jakobson, Barthes, Harold Bloom, Kafka e a desconstrução; mas é o poema que os convoca, e é a ele que tudo regressa.

A MORTE DO AUTOR E O TEXTO ESCREVÍVEL
A Lição de Barthes

Comecemos pelo estatuto do texto. Para Barthes, o nascimento do leitor paga-se com a morte do Autor: uma vez escrito, o poema desliga-se da intenção de quem o assinou e torna-se espaço onde o sentido se produz, não onde se recupera. A consequência metodológica é precisa — as indicações de João de Almeida Santos não governam a leitura; regressam ao texto como anotações, hóspedes e não soberanos. O autor volta, mas como convidado.

Aplicado a «A Saudade», o quíntuplo código de S/Z ilumina a sua trama. O código hermenêutico instala o enigma logo no encontro («Cruzei-me / Com a saudade») e adia-lhe a resolução até ao fim, que não resolve; o proairético alinha os actos mínimos — cruzar, fingir, olhar, entrar; o sémico acumula conotações no «Cinzento», no «negro», no «triste»; o simbólico arma as antíteses (dentro/fora, luz/treva, acaso/destino) que o poema, veremos, desfará; o cultural invoca o tópos lusitano da saudade só para o singularizar.

Mas o gesto barthesiano maior dá-se nas duas linhas de reticências — «…….» e «…………….». São o ponto em que o texto deixa de ser lisible e se faz scriptible: brancos que o leitor é convocado a escrever. Aí reside, em sentido rigoroso, a jouissance do texto — não o prazer da forma plena, mas o gozo da intermitência, do lugar «onde a veste se entreabre». A Saudade é dita na fenda tanto quanto no verso; e o poema, ao calar-se graficamente, entrega ao leitor a sua parte do trabalho.

A FUNÇÃO POÉTICA: 
Jakobson, o Estro 
e as Sinergias Linguísticas

Jakobson definiu a função poética como a projecção do princípio de equivalência do eixo da selecção sobre o eixo da combinação: na poesia, o que se poderia escolher passa a co-ocorrer, e a semelhança torna-se princípio de sequência. «A Saudade» é um laboratório desta lei.

Veja-se a anáfora dos incipits em maiúsculas — «NUM DIA», «FINGI», «MAS ELA», «É SAUDADE», «A SAUDADE», «E É NOS DIAS», «A SAUDADE», «QUANTO MAIS» —, que ritma o poema como batida e converte o nome num refrão. Veja-se o advérbio «sempre», semeado em crescendo — «Ela sempre / Acontece», «Sempre / Aparece», «Sempre intensa, / Sempre impura» — até desaguar no «Para sempre / Permanece» final: a recorrência lexical encena a permanência que o poema tematiza. E veja-se a rede de rimas: saudade / cidade, através / revés, saíra / partira, e sobretudo a cadeia em -ece (aparece / acontece / cresce / permanece) e a cadeia em -ura (escura / impura / cura / dura), em que o significante repete o sentido — o que recorre rima com o que recorre, o que não cura rima com o que dura.

O ponto mais alto é a paronomásia acaso → ocaso: uma só vogal (a → o) basta para que o fortuito se converta em poente e declínio. A pergunta que o autor regista nas suas anotações — «a Saudade e o acaso ou o imponderável da cifra?» — recebe aqui resposta fonética: acaso já contém ocaso; o destino estava na palavra. No plano dos pólos, o poema oscila entre a metáfora («Redonda / Como esfera») e a metonímia («vestida / De negro», «Perdido / Lá na cidade»), entre o eixo da similaridade e o da contiguidade. O estro — o fôlego curto do verso de duas a cinco sílabas — não é acessório: é a respiração entrecortada que faz da forma o corpo do sentido. A gramática, enfim, poetiza: o mais-que-perfeito de «não saíra» e «não partira» inscreve o tempo do sempre-já, a anterioridade sem origem que será o nervo de toda a leitura.

A CIFRA DO NÚMERO 
Estrutura Gematrística do Poema

Se há cifra, há número. A gematria não é aqui numerologia, mas a hermenêutica combinatória do darshan, que em Menaḥot 29b vê Rabi Akiva derivar montanhas de leis dos taggin, as coroas das letras: o signo é inesgotável, e cada traço conta. Lido com estes olhos, o poema oferece correspondências de rara densidade.

Conta oito estrofes. Ora oito é o valor de ḥet (ח), letra que abre ḥay (חי = 18, «vivo») e ḥalom («sonho»); e oito é o número que excede os sete da criação — o oitavo dia da aliança, a luz para-além-da-natureza das oito noites de Ḥanuká. Não por acaso a sétima estrofe guarda o «clarão» e a oitava o «Para sempre»: aos sete do tempo sucede o oitavo da eternidade. E os versos enunciados são exactamente oitenta e cinco — valor de פה (peh), «a boca», sede da palavra —, enquanto as duas linhas reticentes inscrevem, no interior dessa boca, a דממה (demamah = 89), o silêncio do «kol demamah daká», a voz ténue e delgada.

Os vocábulos-chave confirmam a trama. O «clarão» da sétima estrofe convoca a luz: אור (or) soma 207 — e 207 é também o valor de אין סוף (Ein Sof), o Infinito, e de רז (raz), o segredo. Luz, Infinito e Segredo coincidem no número: o clarão que «Encandeia» é, à letra da cifra, a luz infinita do mistério.

אור  =  אין סוף  =רז  =  207

A «alma nua» das anotações ecoa em נשמה (neshamah = 395); a «infinda / Despedida» em פרידה (peridah = 299) — que, faltando uma unidade para 300, valor de ש (shin, o dente de fogo), é a separação que não chega a consumar-se; a «Memória / Incompleta» em זכרון (zikaron = 283); e o «tempo» que «não cura» em עת (et = 470) e זמן (zeman = 97). Não se pede a estes números que provem: pede-se-lhes que ressoem — que façam do poema, como queria a tradição, um texto onde também as letras trazem coroas.

TALMUDE BAVLI
O Esquecimento do Nascituro 
e a Memória do que Não Partira

Nenhuma fonte ilumina melhor o coração do poema do que uma página do Talmude Bavli. Ensina Nidá 30b que no ventre materno arde uma luz à cabeça do nascituro e um anjo lhe ensina toda a Torá; mas, no instante de nascer, o anjo toca-lhe sobre o lábio — e ele esquece tudo o que aprendeu. A covinha do lábio superior, o philtrum, é a marca desse toque: cicatriz do esquecimento. Toda a aprendizagem é, pois, anamnesis, re-memória do que se soube e se perdeu no limiar.

Eis a chave da terceira estrofe:

MAS ELA
Entrou em mim
Porque de mim
Não saíra,
Memória
Incompleta
De algo
Que não partira.

A Saudade «Entrou» porque «de mim / Não saíra»: é a Torá esquecida que nunca verdadeiramente partiu, o saber pré-natal que não pode ter-se «experimentado» e que por isso é «Memória / Incompleta / De algo / Que não partira». E é assim que se entende a definição vertiginosa da quarta estrofe — «É SAUDADE / Do que nunca / Aconteceu» —: não paradoxo, mas teologia da memória. Lembramos aquilo que nunca nos aconteceu no tempo porque nos pertenceu antes do tempo.

Duas outras páginas adensam o estrato. Ḥagigá 14b narra os quatro que entraram no Pardes — o pomar do saber sagrado: Ben Azai morreu, Ben Zoma enlouqueceu, Aḥer (Elisha ben Avuya) «cortou as plantações» e apostatou, e só Akiva entrou e saiu em paz. Olhar de frente o sagrado fulmina; e o poema sabe-o — «FINGI / Que não a via, / Mas olhei-a / De través». O olhar oblíquo é a óptica do sobrevivente, de quem não quer o destino de Aḥer perante aquilo que «Encandeia / Quem a sente». E Pesaḥim 6b formula o princípio ein muqdam ume’uḥar baTorá — «não há antes nem depois na Torá»: a não-cronologia do texto sagrado é a mesma do poema, cujo passado «reverdesce» e «Para sempre / Permanece».

DESCONSTRUÇÃO - Différance, 
Vestígio e o Pharmakon da Luz

Levemos agora o poema ao seu limite, desconstruindo-o pelas oposições que ele mesmo arma e desarma. A Saudade «Do que nunca / Aconteceu» é a figura exacta da différance de Derrida: vestígio de uma origem que nunca foi presente, rasto sem coisa rastreada, adiamento que é também diferença. Não há um acontecimento perdido atrás da saudade; há a saudade como estrutura do adiar.

A terceira estrofe desconstrói o par dentro / fora: se o que «Entrou em mim» é precisamente o que «de mim / Não saíra», então o exterior era já interior, e o suplemento estava na origem. A sexta desconstrói acaso / necessidade: «Disfarçada / De acaso… / ……. / É destino» — e a reticência é a brisure, a charneira que ao mesmo tempo junta e quebra, dobradiça e fractura. E a sétima desconstrói remédio / veneno: o «clarão» é pharmakon — a «terapia da luz» que as anotações invocam é a mesma luz que «Encandeia», cura e cegueira indecidíveis no mesmo raio.

Há, enfim, uma hauntologia: a Saudade é revenant, espectro que «Entrou» sem nunca ter saído, e o poema é a cripta que o guarda. Dizer «A Saudade / Aparece / Onde menos / Se espera» é dizer a lógica da assombração — o que retorna não obedece à presença nem à ausência, mas habita o seu intervalo. O poema não descreve um sentimento: encena a impossibilidade de fixar a presença, e faz dessa impossibilidade a sua matéria.

A ANGÚSTIA DA INFLUÊNCIA 
Bloom, o Apophrades e a Askesis

Harold Bloom ensinou a ler todo o poema como misprision — leitura forte e desviante dos precursores — e cartografou seis ratios revisionários que «A Saudade» percorre quase pela ordem. O clinamen, desvio inaugural, está no «olhei-a / De través». A tessera — a antítese que completa — está em fazer da saudade não memória do vivido, mas «Do que nunca / Aconteceu». A kénosis, esvaziamento, habita as reticências. A daemonização, contra-sublime, irrompe no «raio / E trovão» e no «clarão». A askesis — purgação na solidão — está, literalmente, em «Em sofrida / Solidão».

E o sexto ratio, apophrades, o «regresso dos mortos», é a própria terceira estrofe: «Entrou em mim / Porque de mim / Não saíra» é o instante em que os precursores regressam de tal modo que parecem escritos pelo poeta — a influência invertida, o morto que fala pela boca do vivo. A Saudade é apophrades feito afecto.

Há mais: em Kabbalah and Criticism, Bloom fez corresponder os ratios ao processo luriânico — o tzimtzum (contracção), a shevirat ha-kelim (quebra dos vasos) e o tikún (restituição). O poema cumpre essa sequência sem nomear Lúria: contrai-se no verso mínimo, quebra-se nas reticências e repara-se no canto que recolhe os cacos sem os fingir inteiros. «O sentido de um poema só pode ser outro poema», dizia Bloom — e o sentido deste é o poema que «nunca / Aconteceu», aquele de que a Saudade é a sombra escrita.

KAFKA: A PORTA DA LEI 
e a Mensagem que Não Chega

A lógica do «do que nunca aconteceu» é, em rigor, kafkiana. Na parábola Vor dem Gesetz — «Diante da Lei» —, o homem do campo espera toda a vida à porta de uma Lei que, dir-lhe-á o guardião ao expirar, fora feita apenas para ele, e que ele nunca atravessou. Eis a Saudade: a porta que era nossa desde sempre e que nunca se transpôs; «Memória / De algo / Que não partira» é a Lei que sempre lá esteve, por entrar.

E em Uma mensagem imperial o imperador moribundo confia-te uma palavra que o mensageiro jamais te entregará, embora atravesse pátios e escadarias por milénios — e tu, à janela, sonha-la quando a noite cai. «Uma infinda / Despedida…» é essa mensagem para sempre a caminho; e a longa linha de reticências que se lhe segue é o corredor inesgotável que o mensageiro ainda terá de vencer. A esperança kafkiana — «há esperança, infinita esperança, mas não para nós» — é a gramática secreta do poema.

O bicho que aqui rasteja não é o de nenhuma epopeia: é o agrimensor que nunca alcança o Castelo, é o «fio do horizonte sem critério, sem forma, sem sentido» das anotações, o recuo que recua quando dele nos aproximamos. A Saudade é a burocracia infinita da alma: o encontro eternamente adiado por uma administração do tempo que não tem balcão nem fim.

A MELANCOLIA E O OBJECTO PERDIDO
Freud, Lacan e a Memória Reptilínea

Não é fortuito que a ilustração se intitule «Melancolia». Em Trauer und Melancholie, Freud distingue o luto, em que o objecto perdido é conhecido e o mundo empobrece, da melancolia, em que a perda é inconsciente e é o próprio eu que empobrece — porque a sombra do objecto caiu sobre o ego, que o incorporou. «Entrou em mim / Porque de mim / Não saíra» é a fórmula clínica da incorporação melancólica: o objecto não se chora porque não se largou; fez-se parte do eu. E a saudade «Do que nunca / Aconteceu» é a perda de um objecto nunca possuído — perda, por isso, inconsolável, porque não há luto possível do que não se teve.

Lacan dá-lhe o nome: objet petit a, o objecto-causa do desejo que nunca se teve e em torno do qual o desejo gira; ou das Ding, a Coisa, o Real perdido que organiza, ausente, toda a economia psíquica. A «MEMÓRIA QUE VEM E VAI COMO A MARÉ» das anotações é o automatismo de repetição, a Wiederholungszwang, maré pulsional que regressa à praia do mesmo objecto sem nunca o tocar. E a «memória reptilínea que subsiste como algo de mim, eu mesmo-outro» nomeia o sujeito barrado, o óbulo dividido, que se descobre Outro de si — não senhor em sua casa, hóspede do que nele insiste.

A «pulsão libidinal» e o «íntimo recanto» de resistência compõem o resto do quadro: não erotismo, mas força que impede a queda no inanimado; não fortaleza, mas a fresta onde o sujeito ainda se diz. O poema é, neste estrato, uma anatomia da melancolia que se recusa a tornar-se patologia: faz da incorporação um canto, e do sintoma, sublimação.

A ILUSTRAÇÃO "MELANCOLIA"
Pictorialismo, Bizantinismo, 
Pós-Impressionismo

O poema não vem só. Traz a imagem «Melancolia», e palavra e figura formam uma só intriga. Lê-la exige três entradas. Pela do pictorialismo — a estética que privilegiou a atmosfera, o foco suave, a gradação tonal e o Stimmung sobre o documento —, a imagem é o «Cinzento / Da vida» e o «triste / Entardecer» feitos matéria visual: bruma, penumbra, estado de alma anterior a qualquer contorno. A melancolia é, antes de tema, tonalidade.

Pela do bizantinismo — fundo de ouro, frontalidade hierática, intemporalidade do ícone —, a figura faz-se janela para a eternidade: a planura sem perspectiva recusa a profundidade como recusa o tempo linear, e o nimbo redondo rima com o verso «Redonda / Como esfera». O ouro do ícone é luz incriada; e já sabemos, pela cifra, que a luz é אור = Ein Sof = 207. O bizantino torna visível aquilo que nomeamos «eterno presente que reverdesce»: um agora que não passa, suspenso em auréola.

Pela do pós-impressionismo — a cor subjectiva que exterioriza o estado interior —, a imagem inscreve-se na linhagem que vai da Melencolia I de Dürer, com o seu anjo sentado entre instrumentos de um saber que não consola, à melancolia expressiva de Munch; e ressoa o credo de Cézanne, «tratar a natureza pelo cilindro, a esfera, o cone» — pelo que a «esfera» do poema é também uma profissão de fé plástica. Transposta de Barthes, a imagem opõe o studium (a leitura culta da iconografia melancólica) ao punctum (o pormenor que fere) — e o seu ça-a-été fotográfico inverte-se aqui num «isto-nunca-foi» que é, precisamente, a Saudade: a imagem dá a ver o que jamais teve presença.

TEORIA ESTÉTICA E MULTIVECTORIALIDADE 
O Enigma e a Constelação

Resta dar nome filosófico à cifra. Em Ästhetische Theorie, Adorno faz do Rätselcharakter — o carácter enigmático — o modo de ser da obra: ela diz algo e retém o que diz, e quanto mais se entrega mais se subtrai. A Saudade é o enigma por excelência, a «cifra» pela qual o autor, nas suas anotações, se interroga. E o estremecimento que «Encandeia / Quem a sente» é o Schauer adorniano, o arrepio estético em que sobrevive o vestígio mimético do sagrado.

A arte, para Adorno, é anamnesis da natureza recalcada e guarda um Wahrheitsgehalt, um teor de verdade que não se reduz a conceito — aquilo que as anotações chamam «ideias de mundo significante com dor ínsita». Por isso o poema «Não cura»: a sua negatividade recusa a falsa reconciliação, e a promesse de bonheur da arte cumpre-se como promessa quebrada, fiel justamente por não consolar. Cada estrofe é uma mónada sem janelas que, contudo, reflecte o todo.

E aqui se fecha o método: a verdade da obra não se deduz, dá-se em constelação — multivectorialidade em que filosofia, psicanálise, Talmude e estética brilham como estrelas de uma mesma figura, sem centro que as submeta. É o elu va-elu convertido em crítica. As sete estrofes do tempo e a oitava da permanência desenham essa constelação que não resolve; e o «eterno presente que reverdesce no para-lá do tempo da História» é o Jetztzeit messiânico de Benjamin, o palácio no tempo de Heschel, a relação com o Outro de Levinas — o tempo que não cura porque é feito da matéria do que não passa. A neguentropia da Saudade, que «Dura / E cresce», é a resistência mesma da arte à entropia do esquecimento.

ENCERRAMENTO 
O Poema como Cifra Indefectível

Lido fora de toda a hierarquia, na simultaneidade do seu acorde, «A Saudade» revela-se cifra inesgotável. É différance e vestígio do que nunca teve presença; é apophrades, regresso dos mortos que «de mim / Não saíra»; é incorporação melancólica do objecto que nunca se teve; é a Torá esquecida de Nidá 30b, lembrança do que se soube antes do tempo; é a porta kafkiana feita só para nós e nunca transposta; é o ouro bizantino de um «isto-nunca-foi»; é o Rätselcharakter adorniano que diz retendo.

Em todos estes vectores, uma só lei: o poema não resolve, e é essa não-resolução a sua verdade. A reticência não é falha, é método; o silêncio das duas linhas é a demamá no interior da peh, a boca que se cala para que o leitor fale. O «clarão» que «Encandeia» é a luz que é Infinito e Segredo — 207 — e que cega quem a fixa de frente, deixando ao olhar de través, ao desvio, à cifra, a única visão suportável. Onde outro autor compõe melodia, este poema compõe acorde; e o acorde — sabemo-lo agora — chama-se Saudade, e não se desfaz porque «Para sempre / Permanece».

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Fontes patentes

Epstein, I. (Ed.). (1948). The Babylonian Talmud (edição Soncino; tratados Berakhot, ʿEruvin, Pesaḥim, Ḥagigah, Nidá, Menaḥot). London: Soncino Press.

Santos, J. de A. (2024). A Saudade [Poema em https://joaodealmeidasantos.com/%5D, com a ilustração «Melancolia», JAS, 2022]. Lisboa: edição do autor.

Scholem, G. (1995). Major Trends in Jewish Mysticism. New York: Schocken Books.

Fontes latentes

Adorno, T. W. (1970). Ästhetische Theorie. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag.

Barthes, R. (1970). S/Z. Paris: Éditions du Seuil.

Barthes, R. (1980). La chambre claire: Note sur la photographie. Paris: Gallimard / Seuil / Cahiers du Cinéma.

Benjamin, W. (1974). Über den Begriff der Geschichte. In Gesammelte Schriften (Bd. I). Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag.

Bloom, H. (1973). The Anxiety of Influence: A Theory of Poetry. New York: Oxford University Press.

Bloom, H. (1975). Kabbalah and Criticism. New York: Seabury Press.

Derrida, J. (1967). De la grammatologie. Paris: Éditions de Minuit.

Derrida, J. (1972). La dissémination. Paris: Éditions du Seuil.

Freud, S. (1946). Trauer und Melancholie. In Gesammelte Werke (Bd. X). London: Imago Publishing. (Obra original publicada em 1917).

Heschel, A. J. (1951). The Sabbath: Its Meaning for Modern Man. New York: Farrar, Straus and Giroux.

Jakobson, R. (1963). Essais de linguistique générale. Paris: Éditions de Minuit.

Kafka, F. (1925). Der Process. Berlin: Verlag Die Schmiede.

Kafka, F. (1931). Beim Bau der Chinesischen Mauer. Berlin: Gustav Kiepenheuer Verlag.

Lacan, J. (1986). Le Séminaire, livre VII: L’éthique de la psychanalyse. Paris: Éditions du Seuil.

Levinas, E. (1979). Le Temps et l’Autre. Paris: Fata Morgana. (Obra original publicada em 1948).

AMV@06-2026

Artigo-Pintura

«G.», OU O ROSTO COMO CAMPO SIGNIFICANTE

SOBRE A TELA «G.» (2026) 
de João de Almeida Santos
A ausência do nariz, o olhar velado 
e a imortalização combinatória, em 
leitura FPX (fontal, pós-estrutural, 
complexa, steineriana), de Klimt 
e Schiele ao limiar do cubismo

André Moshe Veríssimo, PhD

“G.” – JAS2026

«Onde outro autor compõe a melodia, 
este autor compõe acorde»
AMV
«O rosto resiste à posse, 
resiste aos meus poderes»

Paráfrase de E. Levinas

«G.» — Título da tela (JAS, 2026)
LIMIAR — UMA TELA 
QUE RECUSA O ROSTO

HÁ OBRAS que se deixam ver e há obras que nos vêem. «G.» (2026), de João de Almeida Santos (JAS), pertence à segunda espécie, e fá-lo por um paradoxo: é um retrato que nos olha sem olhos e nos enfrenta sem rosto pleno. Sobre um fundo de laranja ferruginoso, recortado em cima e em baixo por duas faixas negras que o emolduram como um fotograma, ergue-se o busto de um homem muito jovem — Gramsci antes de Gramsci, o sardo de cabeleira insubmissa antes do cárcere. Dois discos negros e opacos ocultam-lhe os olhos; o casaco dissolve-se numa poeira pontilhista, mosaico de mil partículas; e, no centro exacto da face, onde a fisionomia esperaria o nariz, nada há — uma planície de carne, lisa, muda. O título reduz o nome a uma só letra: «G.». Tudo, nesta tela, recusa: recusa o olhar, recusa o nariz, recusa o nome inteiro.

A pergunta — princípio teratológico ou enigma de raiz grega? — não é retórica e a tese deste ensaio responde-lhe. A ausência do nariz e o velamento do olhar não são negação nem mutilação: são a transposição plástica daquilo a que o Gramsci dos Quaderni chamou o campo significante. O rosto recusado não é menos rosto; é o rosto convertido em campo — superfície onde a significação não se fixa numa fisionomia, mas se abre à «possibilidade infinita de combinatórias» de que fala o artista. Imortalizar Gramsci não é fixar-lhe a parecença: é subtrair-lhe o traço identificador para que o rosto se torne, ele mesmo, hegemonia da forma — lugar ético-político onde o olhar do espectador reconhece, e não apenas vê.

Lê-se a tela segundo a matriz FPX e quatro registos. O fontal agambeniano interroga a face como prósopon e como potência inoperante. O pós-estrutural derridiano lê o nariz ausente como rasto e o disco negro como segredo. O complexo moriniano pensa a imortalização combinatória e os reinos infinitamente pequenos do pontilhado. O da presença real steineriana aposta na transcendência velada do retrato. E, em surdina, opera uma chave que a obra de quem escreve há muito convoca: o tzimtzum luriânico, o recuo que cria. Onde cada autor compõe a sua melodia, lê-se aqui o acorde.

DESCRIÇÃO E O ACORDE DE LEITURA

Comecemos pela ekphrasis, pois nenhuma hermenêutica dispensa o ver atento. O suporte é tratado como cartão cru: a matéria parece absorver a tinta, e o casaco resolve-se numa textura fosca, granulosa, de pequeníssimos pontos brancos e cinzentos sobre o escuro — divisão pontilhista que recusa a pincelada lisa. O fundo, monocromático, é um laranja-óxido saturado, sem profundidade atmosférica: não há espaço, há campo. A figura, cortada à altura do peito e encostada ao limite inferior, ocupa o centro com frontalidade quase icónica. A cabeleira, vasta e revolta, é desenhada por um contorno nervoso, expressivo, que vibra contra o laranja. Os óculos redondos, de aro fino e lentes absolutamente negras, são o único acidente geométrico puro de uma face orgânica. E o nariz — repita-se, porque é o centro de gravidade do enigma — está ausente: não esbatido, não sugerido, ausente, como se a tela tivesse decidido que ali nada se representaria.

Quatro registos modularão a leitura, e nenhum é ornamental. O fontal regressa à raiz arcaica das formas — à face como máscara e como limiar. O pós-estrutural recusa que o retrato seja presença plena e plena identificação. O complexo religa o pormenor infinitesimal e a totalidade da figura, o pictórico e o doutrinário. O steineriano devolve ao retrato a densidade de uma presença que se subtrai. A estes soma-se a filiação estética — Klimt, Schiele, o fauvismo, Toulouse-Lautrec, o limiar do cubismo —, não como erudição acessória, mas como a gramática plástica de que a tela se serve para dizer o que diz.

O CORPUS DO OLHAR
A Ideologia, a Hegemonia, 
o Intelectual

À pergunta se o corpus doutrinário que acompanha a tela reflecte o olhar do artista sobre a sua própria criação, a resposta é afirmativa, e convém transcrevê-lo ipsis litteris, pois é a chave ideológica da leitura:

A ideologia. Contra a concepção de A Ideologia Alemã — falsa consciência, ilusão, inversão do real (Santos, 1977) —, Gramsci atribui à ideologia uma tripla dimensão: cognitiva (é por seu intermédio que se reconhece o real), ontológica (esfera real cuja expressão orgânica são as ideias, os valores, as crenças, a língua, os dialectos, inscritos na consciência colectiva) e normativa (poder de incutir acção) (Santos, 2026). A ideologia deixa de ser realidade simulacral para se tornar o campo significante positivo onde a hegemonia se processa. O ponto é nuclear: este «campo significante» é o equivalente político daquilo a que Husserl chamou mundo da vida e Buber chamou o entre.

A hegemonia. Distinta da supremacia leniniana, meramente política, é «realidade ético-política e cultural» (Santos, 1986: 111-152). Não se decreta, conquista-se pelo consenso, na sociedade civil — que Gramsci, contra Althusser, situa na esfera privada dos organismos onde a ideologia se produz e reproduz. Daí a distinção entre guerra de movimento, assalto frontal onde a sociedade civil é débil, e guerra de posição, longo trabalho molecular onde ela é robusta. Lo Piparo radicou mesmo o conceito no prestígio linguístico de Ascoli (Lo Piparo, 1979: 145): a hegemonia é, na raiz, fenómeno de reconhecimento, não de coação.

O intelectual. Mediador entre a sociedade civil e a superestrutura político-jurídica, o intelectual orgânico dá coesão ético-política ao bloco histórico; vai dos «simples administradores» aos grandes filósofos, como Croce, «papa laico» (Santos, 2026). O moderno Príncipe — o partido — é a expressão activa de uma vontade colectiva nacional-popular, que toma nas consciências «o lugar da divindade e do imperativo categórico» (Gramsci, 1975, Q. 8, § 21: 953). A sociedade regulada é a reabsorção da sociedade política na sociedade civil (Santos, 1986: 69-79); e a guerra de posição não inscreve a lógica schmittiana em que o adversário se torna inimigo — «a ideia de consenso nega isso mesmo» (Santos, 2026).

Ora a tela é, ponto por ponto, a tradução plástica deste corpus. Se a ideologia é campo significante e não espelho do real, então o retrato recusa ser espelho: substitui a fisionomia (a parecença empírica) por um campo — o laranja sem fundo, o pontilhado combinatório, a face depurada. Se a dimensão ontológica da ideologia é a esfera onde se inscrevem «as ideias, os valores, as crenças» na consciência colectiva, então o rosto de «G.» não é a cara de um indivíduo, mas a superfície de uma colectividade: por isso perde o nariz, marca máxima da singularidade fisionómica. E se o intelectual orgânico é mediador — aquele que dá coesão ao bloco histórico —, então o seu retrato não pode ser uma efígie de vaidade pessoal: tem de ser uma máscara funcional, um prósopon através do qual fala a vontade colectiva. A tela não ilustra a teoria; encarna-a.

A AUSÊNCIA DO NARIZ
Teratologia, prósopon 
e a interdição da imagem

Detenhamo-nos no centro do enigma. Hesitamos entre o teratológico e o enigma de raiz grega — e a hesitação é fecunda, porque ambos têm raiz grega e ambos confluem. Téras (τέρας) significa, ao mesmo tempo, monstro e prodígio, aberração e sinal divino: o que excede a norma é simultaneamente deformidade e portento (Aristóteles, De generatione animalium, IV). A face sem nariz é, neste sentido duplo, teratológica: desvia-se da norma fisionómica, mas é por esse desvio que se faz sinal. Não é menos do que um rosto; é mais — um rosto-portento.

Há, porém, uma segunda raiz grega, e é decisiva: prósopon (πρόσωπον), que designa de uma só vez o rosto e a máscara teatral. A tradição clássica fez do nariz o eixo da fisionomia — a linha grega, o perfil recto que unia testa e nariz, era para Winckelmann o cânone mesmo da beleza ideal (Winckelmann, 1764). Ora «G.» apaga precisamente esse eixo: nega o nariz grego para libertar o prósopon-máscara. A face deixa de ser fisionomia individual (o que distinguiria este homem) para se tornar persona — no sentido etimológico, aquilo através do qual (per-sona) soa uma voz que não é a do indivíduo, mas a da vontade colectiva nacional-popular.

E há ainda uma terceira raiz, hebraica desta vez, que a obra de quem escreve não pode calar. A interdição da imagem — o Lo ta’asse lekha pessel, «não farás para ti imagem esculpida» (Êxodo 20, 4) — não é iconoclastia bárbara, mas guarda do rosto contra a sua redução a ídolo. Levinas radicalizou-a: o visage não é uma forma plástica que eu possa apreender e possuir; é o que «resiste à posse», o que significa antes de toda a figura (Levinas, 1961). Em «La réalité et son ombre» (Levinas, 1948), a imagem é suspeita justamente porque imobiliza, porque faz do vivo uma estátua, um entretemps sem futuro. Ao recusar o nariz — ao recusar a fisionomia completa que faria do retrato um ídolo —, JAS obedece, plasticamente, à interdição: pinta o rosto que se não deixa converter em imagem possuível. O nariz ausente é a parte do rosto que se subtrai à idolatria. Teratológico e enigmático, sim; mas a raiz última do enigma é ética.

LEITURA FONTAL (AGAMBEN)
A face inoperante, máscara e potência

Agamben dedicou ao rosto uma meditação que ilumina a tela. Em «Il volto» (Agamben, 1996), o rosto é o lugar da pura comunicabilidade — não comunica algo, comunica-se a si mesmo, é a abertura na qual o homem se expõe e se arrisca. Mas o rosto é também o que pode ser captado, identificado, reduzido a fácies, a ficha, a dado biométrico. «G.» joga exactamente nesta tensão fontal: ao subtrair os olhos (sob os discos negros) e o nariz (de todo ausente), a tela desactiva o rosto como dispositivo de identificação e devolve-o à pura comunicabilidade. É um rosto tornado inoperante (inoperosità) — não destruído, mas suspenso na sua função identificadora, e por isso restituído à sua potência de significar.

Daqui o gesto de profanação no sentido agambeniano: restituir ao uso comum o que estava separado. A efígie do grande homem pertence, tradicionalmente, à esfera sagrada da glória — o busto do herói, a moeda do soberano, o retrato do líder. Ao reduzir o nome a «G.» e ao apagar a fisionomia, JAS profana a efígie: tira-a do panteão e devolve-a ao campo significante comum, onde já não é objecto de culto, mas matéria de leitura. A potência da face inoperante é precisamente esta: poder-não-ser-fisionomia para poder-ser-campo. O retrato de «G.» é, fontalmente, uma efígie desactivada — e, por isso, infinitamente activável.

LEITURA PÓS-ESTRUTURAL (DERRIDA) 
O rasto, o segredo 
e o efeito de viseira

Para Derrida, nenhuma presença é plena: há sempre rasto, adiamento, différance (Derrida, 1972). O nariz ausente é, neste registo, o exemplo plástico exacto do rasto — não uma presença e não um puro nada, mas a marca de uma ausência que significa. A face não está incompleta por defeito; está sob rasura (sous rature): o traço apaga-se mantendo-se legível como apagado. Vê-se que falta o nariz; e é esse ver-faltar que produz sentido.

Os discos negros, por seu turno, convocam dois motivos derridianos. O primeiro é o segredo: o outro que se subtrai ao meu olhar guarda um segredo irredutível, e é esse segredo — e não a sua transparência — que funda a relação ética e a resistência à totalização. O segundo é o efeito de viseira (effet de visière) de Spectres de Marx (Derrida, 1993): o espectro vê-nos sob a viseira do elmo sem que nós lhe vejamos os olhos, e essa assimetria do olhar — ser visto por quem não vemos — é a própria estrutura da herança e da injunção. «G.» olha-nos de trás das suas lentes negras como um espectro detrás da viseira: vê-nos, intima-nos, e nós não o vemos ver. O jovem Gramsci é aqui o revenant do pensamento, o que regressa para nos pedir contas. E, como em Mémoires d’aveugle (Derrida, 1990), o retrato que oculta os olhos lembra que todo o desenho nasce de uma cegueira — que ver é também não ver, que o traço se faz no ponto cego.

LEITURA COMPLEXA (MORIN) 
Imortalização combinatória 
e os reinos infinitamente pequenos

O artista fala de «imortalização pela possibilidade infinita de combinatórias» e a fórmula é, em rigor, moriniana. Imortalizar não é fixar (a fotografia fixa, e por isso mortifica, como Barthes mostrou), é abrir ao recombinável. O pontilhado do casaco — essa poeira de partículas que se assemelha tanto ao divisionismo de Seurat quanto ao mosaico de Klimt — é a figuração plástica de um sistema complexo: milhares de elementos mínimos cuja recombinação gera a forma, e cuja forma, por sua vez, organiza os elementos (recursão organizacional). Cada ponto contém, hologramaticamente, o princípio do todo; e o todo só existe pela tensão dialógica entre ordem (a silhueta reconhecível) e desordem (a granulação que ameaça dissolvê-la) (Morin, 1990).

Reencontramos aqui, transposta para a pintura, a categoria dos «reinos infinitamente pequenos» — a penetração no infinitesimal de que falava Kerckhove e que noutro lugar analisámos (Veríssimo, 2026). A tela imortaliza Gramsci não pela parecença macroscópica (que, aliás, recusa, apagando o nariz), mas pela densidade microscópica do campo: é nos reinos infinitamente pequenos do pontilhado que a figura se eterniza, porque aí se torna infinitamente recombinável. A imortalidade não é a da estátua que dura; é a da matriz que se reconfigura. Eis a imortalidade própria do campo significante: não a permanência de uma forma, mas a inesgotabilidade de um sistema.

LEITURA DA PRESENÇA REAL (STEINER) 
A transcendência velada

George Steiner apostou que toda a obra de arte séria pressupõe uma presença real — uma transcendência do sentido que o olhar positivista recusa, mas sem a qual a interpretação se esvaziaria (Steiner, 1989). «G.» encena essa aposta pelo avesso: afirma a presença real precisamente velando-a. Os olhos negros e o nariz ausente são véus; mas o véu, na tradição que vai do Templo a Steiner, não é o que esconde o nada — é o que protege o sagrado, o que assinala que há algo demasiado real para se dar a ver. A face velada de «G.» não diz «aqui não há ninguém»; diz «aqui há mais do que podeis fixar».

É por isso que a tela é o avesso do selfie e do simulacro mediático. Onde a imagem contemporânea multiplica rostos transparentes, identificáveis, capturáveis — rostos-dado, rostos-mercadoria —, JAS pinta um rosto que se retém, que exige do espectador a cortesia steineriana: a hospitalidade paciente diante do que não se entrega de imediato. O retrato não se consome; lê-se. E nessa leitura sem fim — porque o campo é inesgotável — reside a sua presença real. O intelectual orgânico, mediador entre a sociedade civil e a cultura, reaparece aqui como o que ele sempre foi para Gramsci: não uma cara para os cartazes, mas uma presença que testemunha um sentido maior do que ela.

As FILIAÇÕES ESTÉTICAS
Klimt, Schiele, o fauvismo, 
Lautrec e o limiar do cubismo

Resta situar a obra na sua linhagem, com o rigor que reclamamos — e a tela é, deliberadamente, um cruzamento.

De Klimt e Schiele, a Secessão vienense, retém o primado do contorno e do campo: a cabeleira desenhada por uma linha nervosa e ornamental, o fundo chapado que recusa a profundidade (como o ouro bizantino de Klimt, aqui secularizado em laranja-óxido), e algo da angústia existencial do traço de Schiele, em que a linha não descreve, expõe. Do fauvismo (Matisse, Derain, Vlaminck) vem a emancipação da cor: o laranja do fundo e o castanho da carne não são cores do mundo, são cores da decisão — a cor liberta da função descritiva, posta a significar por si (Elderfield, 1976).

De Toulouse-Lautrec, a herança é a mais técnica e a mais precisa, e vale segui-la nos termos exactos em que a formulamos. Primeiro, o predomínio da linha sobre a cor: ao contrário dos impressionistas, que dissolviam as formas na luz, Lautrec delimitava as silhuetas com uma linha gráfica, escura e fluida — e é essa linha que, em «G.», recorta a cabeleira e o perfil do ombro. Segundo, as cores ácidas e artificiais: as paletas de verdes eléctricos e amarelos estridentes que imitavam a iluminação a gás dos cabarés encontram aqui eco no laranja antinatural do fundo. Terceiro, os enquadramentos fotográficos: influenciado pela fotografia e pela estampa japonesa (ukiyo-e), Lautrec usava perspectivas oblíquas e cortes abruptos das figuras nas margens — e «G.» é, com efeito, uma figura cortada, encerrada entre faixas negras como num fotograma ou num cartaz. Quarto, a peinture à l’essence: Lautrec pintava sobre cartão cru, diluindo o óleo com aguarrás, obtendo um efeito opaco e fosco, de pincelada rápida e transparente, próximo do pastel — e é justamente essa matéria seca e absorvente que o pontilhado de «G.» evoca (Frey, 1994; Thomson, 1977).

Nas arribas do cubismo, enfim, está a ausência do nariz. Foi a dissolução analítica do rosto — a sua decomposição em facetas, a sua aproximação à máscara (lembre-se a máscara africana das Demoiselles d’Avignon) — que abriu, em 1907, o caminho do cubismo (Golding, 1959; Kahnweiler, 1920). «G.» chega ao bordo desse precipício e não se despenha: não fragmenta a face em planos, apenas lhe subtrai o órgão central. Fica nas arribas — naquele limiar em que o figurativo, sem ainda se quebrar, já se abre ao infinito. Não é cubismo; é a sua véspera. Não é pós-impressionismo nem art nouveau puros, embora de ambos participe; é, como pressentimos, «algo infinitesimamente indeterminado e subtil» — o presque-rien de Jankélévitch (1980), esse quase-nada que é, todavia, decisivo. A tela vive precisamente nesse intervalo indeciso entre as escolas, e é dele que extrai a sua força.

SÍNTESE: O ROSTO RECUSADO 
como campo significante

Podemos agora responder, em acorde, à pergunta do artista. A ausência do nariz não é teratologia no sentido pejorativo, nem mero capricho: é o operador plástico que converte o retrato em campo significante. Filosoficamente (Levinas), é o rosto guardado contra a idolatria, o visage que resiste à posse. Fontalmente (Agamben), é a face tornada inoperante e por isso restituída à pura comunicabilidade. Pós-estruturalmente (Derrida), é o rasto e o segredo, o espectro que nos vê sob a viseira. Complexamente (Morin), é a imortalização combinatória, a forma que se eterniza por inesgotável. Na presença real (Steiner), é o véu que afirma uma transcendência demasiado real para se fixar. E — chave última — é um tzimtzum pictórico: como o Ein-Sof luriânico se contrai para abrir o espaço da criação, também o pincel se retrai no centro da face para abrir, nesse vazio, o espaço onde o sentido advém. O recuo que cria.

É por tudo isto que a tela cumpre, plasticamente, a teoria que a acompanha. O retrato de «G.» é a forma visível da hegemonia como Gramsci a pensou: não imposição de uma efígie, mas construção de um consenso de leitura num campo significante; não a cara de um chefe, mas a máscara funcional de um intelectual orgânico através do qual fala a vontade colectiva; não o ídolo de um soberano, mas o rosto-portento de quem, recusando-se à posse, se oferece ao reconhecimento. JAS não pintou um homem: pintou uma hegemonia da forma. E ao apagar o nariz — ao recuar diante do traço que individualizaria —, fez do rosto de Gramsci o que o pensamento de Gramsci sempre quis ser: não um rosto entre rostos, mas o campo onde uma colectividade se reconhece.

FECHO — O ENIGMA DA RAIZ GREGA

Voltemos, para terminar, à raiz grega que entrevimos. Aínigma (αἴνιγμα) é a palavra que diz por velamento, a fala oblíqua que mostra escondendo. «G.» é, em rigor, um enigma no sentido grego: uma tela que diz Gramsci escondendo-lhe a fisionomia, que o imortaliza apagando-lhe o nariz, que o faz olhar-nos cegando-lhe os olhos. O teratológico e o enigmático eram, afinal, a mesma coisa: o téras como portento e o aínigma como verdade velada convergem no rosto recusado. Quanto ao «pensamento e meditação íntimos do Pintor», eles lêem-se na própria recusa: JAS meditou, parece, sobre o que significa retratar o teórico do campo significante — e concluiu, com justeza, que só se podia fazê-lo recusando a imagem, para que o rosto se tornasse campo. O rosto, a teoria e o enigma soando juntos, sem que nenhum se reduza ao outro. Preparemo-nos, pois, não para fixar a imagem, mas para a complexidade inesgotável da sua leitura.

ANOTAÇÕES

1. O corpus doutrinário transcrito no §II reproduz-se ipsis litteris a partir do ensaio do autor Fenomenologia da Socialidade e da Responsabilidade Social (A.M. Veríssimo, 2026), por sua vez ancorado em JAS (1977; 1986; 2006; 2026). Cita-se Gramsci pela edição crítica de Gerratana (Gramsci, 1975), indicando caderno (Q.), parágrafo (§) e página.

2. Téras (τέρας): em grego, simultaneamente «monstro/aberração» e «prodígio/sinal divino». A ambivalência é constitutiva: o que excede a norma é, no mesmo gesto, deformidade e portento (cf. Aristóteles, De generatione animalium, IV, sobre os terata).

3. Prósopon (πρόσωπον): rosto e, ao mesmo tempo, máscara teatral; o latim persona («per-sonare», soar através) herda-lhe a duplicidade. A leitura do retrato como máscara funcional do intelectual orgânico assenta nesta etimologia.

4. Sobre a interdição da imagem e a sua reinterpretação ética, veja-se Levinas, «La réalité et son ombre» (1948), onde a imagem plástica é suspeita por imobilizar o vivo num entretemps, e Totalité et Infini (1961), onde o visage significa para além de toda a forma plástica. O nexo com o Bilderverbot (Êxodo 20, 4) é, na obra de quem escreve, estrutural.

5. O «efeito de viseira» (effet de visière) é de Derrida (1993): o espectro vê-nos sob a viseira sem que lhe vejamos os olhos. Aplicado às lentes negras de «G.», traduz a assimetria do olhar herdada — ser visto por quem não vemos.

6. A leitura da ausência do nariz como tzimtzum pictórico — o recuo do pincel que, à imagem da contracção do Ein-Sof, abre o espaço onde a forma advém — prolonga a categoria do «recuo que cria» que o autor desenvolveu noutro lugar. É proposta original deste ensaio.

7. Distinguem-se, autores explícitos (citados na tela e no corpus: Gramsci, Santos, Lo Piparo) e implícitos (convocados pela forma: Levinas, Agamben, Derrida, Morin, Steiner, Jankélévitch, e as filiações pictóricas).

REFERÊNCIAS
Fontes patentes (correntes e autores explícitos)

AGAMBEN, G. (1996). «Il volto». In Mezzi senza fine. Note sulla politica. Torino: Bollati Boringhieri.

DERRIDA, J. (1990). Mémoires d’aveugle. L’autoportrait et autres ruines. Paris: Réunion des Musées Nationaux.

DERRIDA, J. (1993). Spectres de Marx. Paris: Galilée.

GRAMSCI, A. (1975). Quaderni del Carcere (ed. V. Gerratana). Torino: Einaudi (I-IV).

JANKÉLÉVITCH, V. (1980). Le Je-ne-sais-quoi et le presque-rien. Paris: Seuil.

LEVINAS, E. (1948). «La réalité et son ombre». In Les Temps Modernes, n.º 38. Paris (pp. 769-789).

LEVINAS, E. (1961). Totalité et Infini. Essai sur l’extériorité. La Haye: Martinus Nijhoff.

LO PIPARO, F. (1979). Lingua, intellettuali, egemonia in Gramsci. Roma-Bari: Laterza.

MORIN, E. (1990). Introduction à la pensée complexe. Paris: ESF.

SANTOS, J. A. (1977). «A Questão da Ideologia: de “A Ideologia Alemã” aos “Cadernos do Cárcere”». In Biblos, LIII. Coimbra: Faculdade de Letras (pp. 207-268).

SANTOS, J. A. (1986). O Princípio da Hegemonia em Gramsci. Lisboa: Vega.

SANTOS, J. A. (2006). «Hegemonia: o primado do consenso na teoria política de Gramsci». In Neves, J. (Org.), Da Gaveta para Fora. Porto: Afrontamento (pp. 79-107).

SANTOS, J. A. (2026). «Gramsci, Intelectuais e Hegemonia» [ensaio]. Guimarães/Lisboa (joaodealmeidasantos.com).

STEINER, G. (1989). Real Presences. Chicago: University of Chicago Press.

VERÍSSIMO, A. M. (2026). Fenomenologia da Socialidade e da Responsabilidade Social [ensaio]. Guimarães.

Fontes latentes (correntes e autores implícitos)

ARISTÓTELES (1965). De generatione animalium (ed. H. J. Drossaart Lulofs). Oxford: Clarendon Press.

BARTHES, R. (1980). La chambre claire. Note sur la photographie. Paris: Gallimard/Seuil.

DERRIDA, J. (1972). Marges — de la philosophie. Paris: Minuit.

DERRIDA, J. (1978). La vérité en peinture. Paris: Flammarion.

ELDERFIELD, J. (1976). The “Wild Beasts”: Fauvism and Its Affinities. New York: The Museum of Modern Art.

FREY, J. (1994). Toulouse-Lautrec: A Life. London: Weidenfeld & Nicolson.

GOLDING, J. (1959). Cubism: A History and an Analysis, 1907-1914. London: Faber & Faber.

KAHNWEILER, D.-H. (1920). Der Weg zum Kubismus. München: Delphin.

SCHORSKE, C. E. (1980). Fin-de-Siècle Vienna: Politics and Culture. New York: Alfred A. Knopf.

THOMSON, R. (1977). Toulouse-Lautrec. London: Oresko Books.

WINCKELMANN, J. J. (1764). Geschichte der Kunst des Altertums. Dresden: Walther.

WORRINGER, W. (1908). Abstraktion und Einfühlung. München: Piper.

NIHIL VARIETUR
AMV@06-2026

 

 

 

 

Artigo

FENOMENOLOGIA DA SOCIALIDADE E DA RESPONSABILIDADE SOCIAL

Hegemonia (Gramsci / J. d'A. Santos) 
e Pensamento Complexo (Morin) 
no Tempo da Excepção 
— Leitura Agambeniana, Derridiana, 
Moriniana e Steineriana

André Moshe Veríssimo, PhD

 

“G.” – JAS2026

«Onde outro autor 
compõe melodia, este 
autor compõe acorde»

«Tenho esperança em meio 
ao desespero» - E. Morin

«Tutti gli uomini sono 
intellettuali, 
ma non tutti 
hanno la funzione 
di intellettuali.»
A. Gramsci
LIMIAR — A MORTE QUE CONVOCA O PENSAMENTO

A 29 DE MAIO DE 2026, em Paris, morreu Edgar Morin, aos 104 anos — três meses escassos antes de completar 105. Com ele desaparece um dos últimos pensadores planetários do século, o homem que fez do pensamento complexo uma reforma do conhecer e da civilização. Mas, como adverte o ensaio que aqui se prolonga (Veríssimo, 2026), esta morte «não encerra o seu pensamento; convoca-o». É curioso, e revelador, que o mesmo gesto inaugure o ensaio de João de Almeida Santos (JAS) sobre Gramsci: «retomo, revejo e desenvolvo» (Santos, 2026). Dois ensaios, dois actos de herança — JAS herdando Gramsci, este autor herdando Morin —, e herdar, como ensinou Derrida em Spectres de Marx (Derrida, 1993), nunca é receber um dado: é responder a uma injunção e reafirmar uma promessa. É deste duplo legado que se faz o presente ensaio.

A tese que o atravessa pode enunciar-se desde já. Tanto a política da hegemonia em Gramsci — tal como JAS a reconstrói ao longo de quase meio século (Santos, 1977; 1986; 1999; 2006; 2026) — quanto o pensamento complexo de Morin pressupõem, sem o fundarem, um solo que só uma fenomenologia da socialidade e da responsabilidade pode iluminar: o facto de que ninguém é primeiro consigo para só depois ser com os outros, e de que a responsabilidade pelo outro precede toda a liberdade e todo o cálculo. Esse solo tem nomes: o entre de Buber, o rosto de Levinas, o princípio responsabilidade de Jonas, a Terra-Pátria de Morin. No tempo do estado de excepção normalizado (Agamben) e das media como pharmakon (Derrida), o «intelectual orgânico» gramsciano e o «pensador planetário» moriniano convergem numa só figura — o mediador responsável, testemunha do real num universo descentralizado. Refundar o humanismo é mostrar que o bloco histórico e a teia planetária assentam, na sua célula mínima, num rosto.

Quatro registos modulam a leitura, e nenhum é acessório. O fontal agambeniano regressa à arché do político e desmascara a excepção. O espectral e auto-imune derridiano recusa a presença plena e revela o pharmakon. O complexo moriniano religa o que a fragmentação separou — e é, ele próprio, um dos dois objectos do ensaio. O da presença real steineriana devolve densidade ao acto de mediar contra o meio decadente. Onde cada autor compõe a sua melodia, lê-se aqui o acorde.

O ACORDE E OS QUATRO REGISTOS

Importa justificar o método, sob pena de o tomarem por colagem. Ler Gramsci com Morin, e ambos com Buber, Levinas e Jonas, não é forçar uma síntese impossível entre uma política da totalidade e uma ética da singularidade. É reconhecer que partem do mesmo lugar — a anterioridade do social sobre o indivíduo — e divergem no ponto em que o esgotam. A socialidade (Levinas), o bloco histórico (Gramsci) e a reliance (Morin) são três descrições do mesmo facto. A diferença é de fundação, não de objecto.

O primeiro registo, fontal e agambeniano, lê os conceitos políticos regressando à sua nascente arcaica, ao limiar onde o poder ainda não se separou da vida. É o registo que permite ver, sob a «sociedade regulada» de Gramsci e a «Terra-Pátria» de Morin, a alternativa exacta ao stato di eccezione como paradigma normal de governo (Agamben, 2003).

O segundo registo, espectral e auto-imune, derridiano, recusa que o «campo significante» gramsciano ou a rede digital sejam plenitude sem rasto. A différance (Derrida, 1972a) inscreve o adiamento e o rasto no coração do sentido; o pharmakon (Derrida, 1972b) mostra que todo o remédio é também veneno; a auto-imunidade (Derrida, 2003) revela como uma ordem, para se proteger, se volta contra si.

O terceiro registo, complexo e moriniano, fornece o ligamento sistémico que o ensaio-base reclama. O princípio dialógico, a organização recursiva e o princípio hologramático (Morin, 1990; 1977-2004) pensam conjuntamente o rosto singular e o bloco colectivo sem que um dissolva o outro. A reliance é o nome moriniano da socialidade.

O quarto registo, da presença real e steineriano, devolve densidade ao acto de mediação que define o intelectual. A aposta sobre a transcendência do sentido (Steiner, 1989), a cortesia devida ao texto e ao outro, a crítica da televisão como «meio decadente» (Steiner, 1971) reescrevem o intelectual orgânico não como estratega da hegemonia nem como animador da rede, mas como testemunha de uma presença que o excede. Quatro melodias, um só acorde.

O SOLO FENOMENOLÓGICO 
Socialidade e Responsabilidade

Antes da política e antes do sistema há o entre. Em Je et Tu (Buber, 1969), o ponto de partida não é o sujeito que depois encontra objectos, mas o par de «palavras-princípio»: o Eu-Tu e o Eu-Isso. «No princípio é a relação.» A socialidade não se acrescenta a um indivíduo já feito: é o solo de que o indivíduo emerge. O das Zwischenmenschliche, o inter-humano, não está em mim nem em ti — abre-se no encontro. E Buber teme, com razão, que o mundo do Isso — a gestão, a instituição, a técnica, mais tarde os media — recubra e sufoque o Tu.

Levinas radicaliza Buber: a relação com autrui é assimétrica, e a minha responsabilidade pelo outro é anterior a toda a reciprocidade e a todo o contrato. Em Le Temps et l’Autre (Levinas, 1983), o tempo não é o horizonte solitário do mortal, mas a própria relação com a alteridade: «o outro é o futuro» (1983: 64). Em Hors Sujet (Levinas, 1987), a subjectividade verdadeira não é posição de si, mas exposição, l’un-pour-l’autre, refém antes de senhor. A distinção entre o Dizer (le Dire) e o Dito (le Dit) dá-nos um instrumento decisivo: toda a ideologia, todo o «campo significante», toda a mensagem mediática é da ordem do Dito; mas vive de um Dizer que a excede e que nenhuma hegemonia, nenhum algoritmo, consegue tematizar por inteiro. O humanismo levinasiano é um humanisme de l’autre homme (Levinas, 1972): não o Homem como medida, mas o homem responsável pelo outro homem antes de toda a medida.

Hans Jonas leva esta responsabilidade à escala da técnica e do planeta. O Prinzip Verantwortung (Jonas, 1979) — invocado tanto pelo ensaio sobre Morin (Veríssimo, 2026) quanto, implicitamente, pela utopia gramsciana — formula uma responsabilidade «quase trágica»: agir sabendo que as consequências podem ser irreversíveis para as gerações futuras e para a biosfera. A heurística do medo não é pessimismo, mas lucidez: o «vácuo ético» que a tecnociência abre só se preenche por uma ética da previsão e do cuidado. Ora é exactamente aqui que Morin e Levinas se encontram: a Terra-Pátria (Morin & Kern, 1992) é a responsabilidade levinasiana e jonasiana traduzida em destino comum da humanidade. O rosto do outro homem alarga-se ao rosto das gerações por nascer e à própria face ferida da Terra. Este é o solo fenomenológico sobre o qual os dois ensaios — o político e o complexo — repousam sem o saberem.

A HEGEMONIA COMO ONTOLOGIA DO SOCIAL
Gramsci segundo JAS

Restituamos, com fidelidade, a arquitectura que JAS expõe. Três proposições a estruturam, «numa profunda articulação» (Santos, 2026): a ideologia, a hegemonia e o intelectual.

A ideologia. Contra a concepção de A Ideologia Alemã — falsa consciência, ilusão, inversão do real (Santos, 1977) —, Gramsci atribui à ideologia uma tripla dimensão: cognitiva (é por seu intermédio que se reconhece o real), ontológica (esfera real cuja expressão orgânica são as ideias, os valores, as crenças, a língua, os dialectos, inscritos na consciência colectiva) e normativa (poder de incutir acção) (Santos, 2026). A ideologia deixa de ser realidade simulacral para se tornar o campo significante positivo onde a hegemonia se processa. O ponto é nuclear: este «campo significante» é o equivalente político daquilo a que Husserl chamou mundo da vida e Buber chamou o entre.

A hegemonia. Distinta da supremacia leniniana, meramente política, é «realidade ético-política e cultural» (Santos, 1986: 111-152). Não se decreta, conquista-se pelo consenso, na sociedade civil — que Gramsci, contra Althusser, situa na esfera privada dos organismos onde a ideologia se produz e reproduz. Daí a distinção entre guerra de movimento, assalto frontal onde a sociedade civil é débil, e guerra de posição, longo trabalho molecular onde ela é robusta. Lo Piparo radicou mesmo o conceito no prestígio linguístico de Ascoli (Lo Piparo, 1979: 145): a hegemonia é, na raiz, fenómeno de reconhecimento, não de coação.

O intelectual. Mediador entre a sociedade civil e a superestrutura político-jurídica, o intelectual orgânico dá coesão ético-política ao bloco histórico; vai dos «simples administradores» aos grandes filósofos, como Croce, «papa laico» (Santos, 2026). O «moderno Príncipe» — o partido — é a expressão activa de uma vontade colectiva nacional-popular, que toma nas consciências «o lugar da divindade e do imperativo categórico» (Gramsci, 1975, Q. 8, § 21: 953). Dois esclarecimentos do ensaio-base são, para nós, capitais. Primeiro: a sociedade regulada é a reabsorção da sociedade política na sociedade civil, a superação do fosso taylorista entre programação e execução (Santos, 1986: 69-79). Segundo, e decisivo: a «guerra de posição» não inscreve a lógica schmittiana em que o adversário se torna inimigo — «a ideia de consenso nega isso mesmo» (Santos, 2026), e o conceito funciona como um Idealtypus weberiano. É nesta frase — o adversário que não vira inimigo — que se abre a porta por onde a ética do rosto e a complexidade entrarão.

A COMPLEXIDADE CONTRA A FRAGMENTAÇÃO
Morin segundo Veríssimo

Se Gramsci é o pensador da hegemonia, Morin é o pensador da religação. No quinto volume de La Méthode escreve: «Quanto mais sabemos sobre a humanidade, menos a compreendemos» — porque as dissociações entre as disciplinas «a fragmentam, esvaziam-na de vida, de substância, de complexidade» (cit. em Veríssimo, 2026). O pensamento complexo (Morin, 1990) não é soma de saberes, mas reforma do pensar que assume a incerteza, a desordem, a auto-organização e a recursividade como condições do conhecer. Três princípios o regem: o dialógico, que mantém em tensão produtiva termos que a lógica clássica oporia (ordem/desordem, indivíduo/sociedade); a recursão organizacional, em que os produtos são produtores do que os produz; o hologramático, em que a parte está no todo e o todo na parte.

A convergência com Gramsci é profunda e até agora insuficientemente notada. A ideologia gramsciana — campo significante de densidade ontológica onde os indivíduos «reconhecem e identificam a realidade» — é, descrita em termos morinianos, um sistema complexo auto-organizado: produz os sujeitos que a produzem (recursão), liga o folclore e o dialecto à filosofia (religação dos níveis) e contém em cada intelectual orgânico o todo do bloco histórico (hologramia). O intelectual orgânico é, afinal, um religador: aquilo a que Morin chama o operador da reliance. E a «política de civilização» (Morin & Naïr, 1997) é a versão planetária da hegemonia ético-política — não conquista de um aparelho, mas reforma intelectual e moral à escala da Terra-Pátria.

Cumpre desfazer um equívoco que o próprio Morin combateu: o de que a complexidade seria optimismo ingénuo. O seu lema — «tenho esperança em meio ao desespero» — exprime o que se poderia chamar um optipessimismo activo: quanto maiores os riscos, maiores as exigências de soluções complexas (Veríssimo, 2026). Não é o sorriso fácil do progresso; é a lucidez trágica de quem, resistente ao nazismo e crítico do estalinismo (Morin, 1959), sabe que a história não tem garantias. Aqui Morin toca Jonas e Gramsci ao mesmo tempo: a esperança não é previsão optimista, é responsabilidade assumida sem ilusões — exactamente o für ewig de quem escreve do cárcere para um futuro que não verá.

O TEMPO DA EXCEPÇÃO
Agamben, biopolítica e a vida nua

A leitura fontal regressa à nascente. Agamben, em Stato di eccezione (2003), mostra como o estado de emergência se tornou o paradigma normal de governo nas democracias ocidentais: a suspensão do direito que se faz regra, a zona de indistinção entre o dentro e o fora da lei. Em Homo sacer (1995), a biopolítica moderna transforma a vida em objecto de gestão soberana, reduzindo o cidadão a vida nua (zoé separada do bíos). Como nota o ensaio sobre Morin, a fragmentação do saber que Morin combate é o «correlato epistemológico» desta fragmentação política: o sujeito reduzido a vida nua é também um sujeito de conhecimento parcelar, incapaz de religar os fios da crise (Veríssimo, 2026).

É aqui que Gramsci e Morin se revelam, juntos, na alternativa exacta à excepção. A sociedade regulada não é o triunfo de um Estado total, mas — lida fontalmente — a sua desactivação: o ponto em que o poder, tendo-se realizado, se torna inoperante (inoperosità) e devolve a vida a si mesma (Agamben, 2014). A Terra-Pátria é, na mesma chave, uma comunità che viene (Agamben, 1990): comunidade do por-vir, sem pertença substancial, sem inclusão por exclusão. E a célebre cisão do «povo» — entre o corpo político integral e a parte excluída (Agamben, 1996) — é exactamente a aporia que o conceito gramsciano de nacional-popular enfrenta e que JAS vê resolvida pela mediação dos intelectuais, «sem dissolver essa totalidade concreta que é o povo na universalidade mais formal e funcional da nação» (Santos, 1999: 107-108). Onde Agamben diagnostica uma fractura biopolítica, Gramsci/Santos e Morin propõem uma costura ético-política e complexa. Mas — e o rosto corrige aqui tanto a hegemonia quanto a complexidade — só o rosto do outro impede que a costura recaia na pura gestão da zoé.

OS MEDIA COMO PHARMACON 
E A AUTO-IMUNIDADE
Derrida, Eco 
e o universo descentralizado

Nenhum conceito ilumina melhor os media digitais do que o pharmakon derridiano (Derrida, 1972b): o que é simultaneamente remédio e veneno, sem que se possa separar um do outro. Remédio, porque o universo descentralizado permite novas formas de autoria, democratização do acesso, comunidades de sentido (Rheingold, 1993), o fim do «sentido de lugar» restritivo (Meyrowitz, 1985), a esfera pública «porosa e ubíqua» de inspiração habermasiana (Habermas, 1962/1990). Veneno, porque acelera a fragmentação da atenção, a lógica do efémero, a «comunicação sem resposta» de Debord e a captura biopolítica dos dados — os «reinos infinitamente pequenos» de Kerckhove (1995) que penetram o genético e o atómico. Eco ensinara já a recusar a falsa alternativa entre «apocalípticos e integrados» (Eco, 1964/1990); o pharmakon é a tradução derridiana dessa recusa.

A auto-imunidade (Derrida, 2003) nomeia o reverso mais agudo: uma ordem que, para se proteger contra a ameaça, suspende as liberdades que a constituem — a democracia que se volta contra si, a civilização que destrói as condições da própria vida. É a mesma lógica que Agamben diagnostica na normalização da excepção e que Morin, sem o termo, antecipa: a fragmentação e a simplificação mediática são formas de auto-imunidade civilizacional (Veríssimo, 2026). E é aqui que a política simulacral, que JAS denuncia com pesar — o «lamentável abaixamento de nível», o comentariado que «encharca de banalidades as televisões e as redes sociais» (Santos, 2026) —, encontra a sua raiz: o intelectual orgânico substituído pelo marketeer, o consenso ético-político substituído pela fórmula publicitária, a guerra de posição substituída pelo blitz eleitoral. A rede não é, por si, libertadora nem servil: é pharmakon. O que decide do seu sentido não é a técnica, mas a responsabilidade — e é por isso que ela convoca, mais do que nunca, o intelectual e a complexidade.

A PRESENÇA REAL 
CONTRA O MEIO DECADENTE 
Steiner e o intelectual-testemunha

George Steiner formula, em Real Presences (1989), uma «aposta sobre a transcendência»: toda a compreensão séria de um poema, de uma sonata ou de um quadro pressupõe uma presença real de sentido que o positivismo recusa, mas sem a qual o acto de interpretar se esvaziaria. Em Bluebeard’s Castle (1971), lamenta a substituição da «vida de reflexão» — a memória como pivô, a citação partilhada que tece o «tecido de ecos» da cultura — pela mass-mediatização, e diagnostica a televisão como «meio decadente num universo descentralizado». A perspectiva é o avesso exacto do simulacro: onde a publicidade vive da ausência de sentido, a aposta steineriana afirma-o.

A esta luz, as três figuras convergem. O intelectual orgânico de Gramsci, o pensador planetário de Morin e o mestre de Steiner (Lessons of the Masters, 2003) são um só: aquele cuja autoridade nasce do reconhecimento e da transmissão, e cuja relação com o discípulo é, ela própria, um entre buberiano. A cortesia que Steiner pede ao leitor — a hospitalidade do sentido — é a virtude do mediador: acolher o real através das suas formas culturais, das mais simples às mais altas, sem o reduzir nem o trair. E a teoria da tradução de After Babel (1975), em que compreender é traduzir e traduzir é hospedar o estrangeiro na própria língua, dá o modelo acabado da mediação gramsciana entre os níveis da cultura — do dialecto ao sistema filosófico, há tradução, hospitalidade, presença a testemunhar. Steiner, judeu marcado pela catástrofe, encontra-se assim com Levinas, com Rosenzweig e com o próprio Morin — Nahoum, sefardita de Salónica pela linha paterna, resistente: todos fazem do humano o guardião de presenças que o excedem, todos recusam o niilismo que reduz o sentido a jogo de forças.

A OPOSIÇÃO: A CONTESTAÇÃO 
INTELECTUAL E FILOSÓFICA A GRAMSCI

O rigor exige dar à oposição a sua forma mais forte. A contestação a Gramsci vem de dentro e de fora do círculo crítico, e é múltipla.

A oposição estruturalista (Althusser). Em Lire le Capital, sob o título «Le marxisme n’est pas un historicisme» (Althusser, 1973, I: 150-184; esp. 174-175), recusa o historicismo que JAS identifica como chave de Gramsci. Pior, do ponto de vista deste ensaio: Althusser é um anti-humanista teórico (Althusser, 1965), para quem o «Homem» é categoria ideológica e a história, «processo sem sujeito»; e desloca a ideologia da sociedade civil para os appareils idéologiques d’État (Althusser, 1970), negando autonomia àquela. Se Althusser tem razão, toda a fenomenologia da socialidade — e o humanismo que defendemos — é ilusão.

As antinomias e a tradição liberal (Anderson, Bobbio). Perry Anderson, em «The Antinomies of Antonio Gramsci» (1976: 5-78), expõe as oscilações conceptuais dos Quaderni: as antinomias entre Estado e sociedade civil, entre consenso e coação, entre Oriente e Ocidente, nas quais a hegemonia desliza de sentido. Bobbio (1990) lê a originalidade de Gramsci no facto de situar a sociedade civil na superestrutura, e não na base — deslocamento que abre uma tensão não resolvida com a teoria da representação democrática.

A apropriação pela direita. Ironia maior: a teoria da hegemonia foi captada pela Nouvelle Droite e pela direita radical — de Benoist, Sellner — sob o nome de metapolítica, conquistar a hegemonia cultural para depois conquistar o poder. JAS regista-o: «até a direita radical o tem vindo a tomar em consideração (instrumentalmente)» (Santos, 2026). Se a hegemonia é instrumento neutro, perde toda a dignidade ético-política.

A dissolução pós-marxista (Laclau e Mouffe). Em Hegemony and Socialist Strategy (1985), a hegemonia é radicalizada até perder a âncora de classe: já não há sujeito histórico, apenas articulações contingentes de significantes. Salva-se a hegemonia ao custo do bloco histórico e de toda a ontologia que lhe dava densidade.

A objecção da desintermediação mediática. Há ainda uma objecção própria do nosso tempo e que nasce do segundo ensaio: no universo descentralizado, sem «sentido de lugar» (Meyrowitz, 1985), em que cada um é emissor e a mediação parece abolida, não estarão o «intelectual orgânico» e o «moderno Príncipe» tornados obsoletos? A hegemonia não se terá dissolvido em fluxos reticulares sem centro nem mediador?

A objecção filosófica de fundo (a totalização). Por fim, a mais radical, que vem do próprio acorde: para uma ética da alteridade, toda a teoria que faça do consenso, da vontade colectiva e do nacional-popular o solo último corre o risco de totalizar — de subordinar o rosto singular ao Mesmo do colectivo. Agamben acrescentaria o perigo biopolítico de um «povo» que se faz corpo; Derrida lembraria que todo o «nós» pleno recalca a différance. É a objecção que tomámos por séria e a que, por séria, devemos responder.

A RESPONSABILIDADE 
QUE REFUNDA O HUMANISMO

A resposta não vence a oposição por decreto: desarma-a uma a uma, restituindo a Gramsci e a Morin o fundamento que lhes faltava e ao humanismo o solo que Althusser lhe negara. A Althusser responde-se com Levinas e com Morin: o humanisme de l’autre homme (Levinas, 1972) não é a categoria ideológica do «Homem» como sujeito constituinte e medida de todas as coisas — esse, Levinas também o critica —, mas o humano como responsabilidade pelo outro, anterior a toda a essência. O «processo sem sujeito» é verdadeiro de um certo sujeito — o soberano, o senhor —, mas cego ao único «sujeito» que conta eticamente: o refém, o un-pour-l’autre. O anti-humanismo teórico é um humanismo mal colocado. E o humanismo planetário de Morin, que recusa o etnocentrismo e o nacionalismo (Veríssimo, 2026), confirma-o: o sujeito não é o cogito soberano, é o membro responsável da Terra-Pátria.

A Anderson e a Bobbio responde-se com Agamben e com Morin: as antinomias de Gramsci não são defeitos de pensamento, são a assinatura do limiar — a zona de indistinção onde a ética tem de suplementar a política. E são, em linguagem moriniana, contradições dialógicas: ordem e desordem, consenso e coação não se deixam fixar porque a realidade complexa os mantém em tensão recursiva. Onde Anderson vê instabilidade, vê-se aqui a honestidade de um pensamento que não fecha à força o que a coisa mantém aberto.

À direita radical responde-se com a distinção que JAS opera: a hegemonia gramsciana não é técnica neutra, porque o adversário não é inimigo, porque o consenso não é manipulação e porque a guerra de posição não é blitz. A metapolítica da direita é, precisamente, guerra de movimento travestida — assalto cultural com fins de captura — e por isso atraiçoa o conceito que invoca. A diferença não é de grau, é de natureza: uma guarda o rosto do adversário, a outra apaga-o.

A Laclau e Mouffe, e à objecção da desintermediação, responde-se com Steiner e com Morin. A hegemonia esvaziada de conteúdo ontológico, pura articulação de significantes flutuantes, é a versão teórica do simulacro: falta-lhe a presença real (Steiner) e a reliance substantiva (Morin). Quanto à rede sem mediador: o universo descentralizado não abole o intelectual — torna-o mais necessário. Porque o pharmakon não se decide pela técnica, mas pela responsabilidade, alguém tem de testemunhar o sentido contra o ruído, religar o que a fragmentação dispersa, hospedar o outro contra a auto-imunidade. Esse alguém é o intelectual orgânico reconvertido em religador planetário — não o centro de uma pirâmide, mas o nó responsável de uma teia.

E à objecção de fundo — a de que a hegemonia totaliza — responde-se mostrando que, lida na sua melhor versão, ela é já uma figura da justiça levinasiana: instituição assombrada pelo rosto. A prova está no que JAS repetidamente sublinha: o consenso, não a coação; o adversário, não o inimigo; a guerra de posição, não a de movimento; o intelectual orgânico, não o marketeer; a vontade colectiva nacional-popular, não a massa manipulada. Cada par é uma escolha pelo rosto contra a totalidade. A sociedade regulada, lida fontalmente, é a comunidade inoperante de Agamben; lida espectralmente, a democracia-por-vir de Derrida; lida complexamente, a Terra-Pátria de Morin; lida na presença real, a cortesia de Steiner; e lida eticamente, o nome político do entre de Buber e da socialidade de Levinas.

É neste ponto que a fenomenologia da socialidade e da responsabilidade «agrega valor ao humanismo». Não acrescenta a Gramsci nem a Morin uma ética exterior e decorativa: mostra que a sua política e o seu pensamento, no que têm de melhor, já eram ética. A hegemonia do consenso pressupõe uma responsabilidade que não funda, mas de que vive; a complexidade que religa pressupõe um laço — o entre — que a precede; e o intelectual, despido da máscara do estratega e da do animador de audiências, é o homem que responde pelo outro no espaço público e perante a Terra. Refundar o humanismo é isto: reconhecer que o bloco histórico e a teia planetária assentam, na sua célula mínima, num rosto.

FECHO - A COMPLEXIDADE DO RECOMEÇO

Não se resolva, pois, o acorde em uníssono — seria recair na totalidade que Levinas nos ensinou a temer e na presença plena de que Derrida nos ensinou a desconfiar. O que a intersecção de Gramsci e de Morin, sob o solo da ética do inter-humano, oferece não é uma síntese que dissolva as diferenças, mas uma polifonia sustida: a melodia da hegemonia, a da complexidade e a da responsabilidade soando juntas sem se reduzirem. A hegemonia precisa do rosto para não totalizar; a complexidade precisa do rosto para não ser mero sistema; o rosto precisa de ambas para não ficar mudo na esfera pública e impotente diante da catástrofe planetária.

Num tempo em que a política se torna «cada vez mais simulacral» (Santos, 2026) e o estado de excepção se normaliza, em que os media digitais funcionam como pharmakon ambíguo e a fragmentação do saber acompanha a fragmentação política, o pensamento complexo e a hegemonia do consenso — ancorados ambos na responsabilidade pelo outro e pela Terra — são «decisivamente cada vez mais necessários». Talvez seja esta a lição do acorde: onde outros compõem a melodia única do poder pelo poder, cabe ao pensamento compor o acorde do poder pela responsabilidade. Edgar Morin não nos deixou respostas prontas; deixou-nos, como Gramsci, a urgência de pensar e de agir complexamente. Für ewig, escrevia Gramsci do cárcere: para sempre — isto é, para o por-vir. Preparemo-nos, pois, não para o fim, mas para a complexidade do recomeço.

NOTAS

(1) Cita-se os Quaderni del Carcere pela edição crítica de Valentino Gerratana (Gramsci, 1975), indicando caderno (Q.), parágrafo (§) e página. As traduções de passos não vertidos no corpo são da responsabilidade do autor.

(2) A data e o local da morte de Morin (29 de Maio de 2026, Paris) seguem o relato de Le Monde, do Público e da Agência Brasil; o anúncio de Nelson Vallejo Gomez situa o falecimento no Hospital Americano de Paris. Acolhe-se aqui esse relato, mais fidedigno do que a indicação de Montpellier que circulou em algumas fontes.

(3) A figura do terceiro (le tiers) é o operador que, em Levinas, conduz da ética à justiça e da relação dual à instituição, sem que a justiça deixe de ser assombrada pela bondade que a precede (Levinas, 1974). É o pivô que torna pensável o diálogo com uma teoria política como a de Gramsci e com uma ética planetária como a de Morin e Jonas.

(4) A leitura do «campo significante» gramsciano como sistema complexo auto-organizado — recursivo, religador, hologramático — é proposta original deste ensaio, sugerida pela intersecção dos dois textos-base (Santos, 2026; Veríssimo, 2026) e não tematizada, que se saiba, na literatura gramsciana ou moriniana existente.

(5) Sobre o pharmakon, veja-se «La pharmacie de Platon» (Derrida, 1972b), onde o mesmo termo grego significa remédio e veneno: indecidibilidade que estrutura toda a análise dos media aqui proposta.

(6) A convergência entre a presença real de Steiner, a responsabilidade levinasiana e o humanismo planetário de Morin tem raiz biográfica e estrutural: o humanismo após a catástrofe, partilhado por pensadores judeus da Europa do século XX, recusa o niilismo semiótico e faz do humano o guardião de uma transcendência que o ultrapassa.

REFERÊNCIAS
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NIHIL VARIETUR
AMV@06-2026

 

 

 

Ensaio

GRAMSCI, INTELECTUAIS E HEGEMONIA

Por João de Almeida Santos

“G.” – JAS2026

RETOMO, REVEJO E DESENVOLVO um Ensaio que aqui já publiquei, por ocasião da apresentação do livro de Gramsci Os Intelectuais e a Organização da Cultura (Lisboa, Relógio d’Água, 2024), em 2024. A razão reside na recente formação da secção portuguesa da International Gramsci Society (IGS) e na publicação de mais um volume dos Quaderni del Carcere de Antonio Gramsci (Lisboa, Edições 70, 2026). Com efeito, recentemente, foi publicado o segundo volume dos Quaderni, Maquiavel, Hegemonia, Intelectuais, com selecção, introdução e notas de Carlos Carujo, que se seguiu à publicação, em 2023, pela mesma Editora, de um primeiro volume, A Filosofia da Práxis, num total, os dois volumes, de 732 páginas (1). Os Quaderni têm na edição crítica de Valentino Gerratana/Istituto Gramsci (Torino, Einaudi, 1975), que serviu de base a esta edição, 2357 páginas de texto, a que acrescem ainda1012 páginas de um volume com o “apparato critico”, num total de 3369 páginas, em quatro volumes.  Em 2024 já fora publicado, pela Relógio d’Água, o volume acima citado, Os Intelectuais e a Organização da Cultura (Lisboa, 2024), com tradução de Rita Ciotta Neves.  Trata-se, neste volume, de uma parte dos Cadernos do Cárcere, da edição originária da Einaudi em seis volumes, que ocorreu entre 1948 e 1951 (as Cartas do Cárcere são de 1947), organizada por Felice Platone e Palmiro Togliatti. Foi assim que começou a enorme expansão dos escritos de António Gramsci, com uma reorganização temática dos aparentemente fragmentários Cadernos do Cárcere (escritos entre 1929 e 1935). Digo aparentemente porque sob essa forma existe uma unidade e uma coerência conceptuais verdadeiramente impressionantes, como veremos. Esta forma de organização temática permitiu um mais fácil acesso e uma melhor divulgação da obra (veja Bobbio, 1990: 116-124). A edição crítica dos Cadernos, publicados por ordem cronológica, só viria a acontecer em 1975, pelo Instituto Gramsci e sob a responsabilidade de Valentino Gerratana. Mas este livro de Gramsci sobre os intelectuais, de 2024, seguira-se a um outro, publicado em 2012, também traduzido por Rita Ciotta Neves (e com uma excelente introdução), que é uma selecção de escritos a que foi dado o título de Gramsci, a Cultura e os Subalternos (Gramsci, 2012). Outras edições das obras de Gramsci já tinham sido publicadas há muito: Obras Escolhidas (Lisboa, Estampa, 1974), em dois volumes, e Escritos Políticos (Lisboa, Seara Nova, 1976-1978), em quatro volumes). Estamos, pois, perante importantes iniciativas num país em que Gramsci pouco tem sido estudado, traduzido e divulgado, apesar da sua reconhecida importância no panorama mundial. Acresce que, como disse, acaba de ser fundada a secção portuguesa da IGS, esperando-se, pois, que possa contribuir para a divulgação do pensamento de Gramsci, designadamente na esfera académica, e para uma boa e sólida base documental sobre o autor sobretudo em língua portuguesa, dada a relevância do seu pensamento, designadamente para uma área, a política, na qual se tem assistido a um lamentável abaixamento de nível, desde a política propriamente dita e aos seus agentes orgânicos até ao comentariado que tem vindo a encharcar de banalidades as televisões e as redes sociais, ao mesmo tempo que não se vê grande interesse académico pelo pensamento deste enorme político e pensador italiano. A importância do seu pensamento político é de tal modo grande que até a direita radical o tem vindo a tomar em consideração (instrumentalmente) para a sua afirmação no plano político, em especial a sua teoria da hegemonia.

1.

Três dados, meramente quantitativos, bastariam para mostrar a importância do pensamento de Gramsci (as suas publicações equivalem a cerca de seis mil páginas) a nível mundial: 1) são mais de 20.000 (se contei bem, serão 21.556, de acordo com a bg.fondazionegramsci.org) os textos publicados sobre o pensamento de Gramsci; 2) são 1544 os livros publicados sobre o político e pensador sardo; 3) são cerca de 40 as línguas em que o pensamento de Gramsci é tratado, sendo as mais importantes o italiano (12.964 títulos), o inglês (2.969 títulos) e o espanhol (1.210 títulos), estando registados em português 581 títulos (sobretudo do Brasil), a sexta língua com mais títulos. Existe uma Bibliografia Gramsciana (BG), fundada por John Cammett, da responsabilidade da Fundação Instituto Gramsci, e ao cuidado, em particular, de Maria Luisa Righi. Mas uma visão mais completa da presença de Gramsci, até meados dos anos ’90, no mundo pode ser consultada no riquíssimo volume Gramsci nel Mondo, com textos de 27 importantes autores e sobre os países de língua inglesa e de língua alemã; sobre a África do Sul, a Argentina, o Brasil, a China, a Dinamarca, a Espanha, a França, a Grécia, o Japão, o México; sobre Gramsci no mundo árabe; sobre Gramsci na cultura soviética; e outros temas relacionados com a presença de Gramsci no mundo (Fondazione Istituto Gramsci, 1995). Das publicações sobre Gramsci o Brasil consta, através de um artigo de Carlos Nelson Coutinho, mas Portugal não consta deste livro da FIG, com organização de Maria Luisa Righi (Righi, 1995), constando, todavia, na edição da BG de 1995, seis títulos meus, constando também, na edição de 1989, três títulos diferentes, ou seja, “A Questão da Ideologia – de A Ideologia Alemã aos Cadernos do Cárcere” (Coimbra, Rev. Biblos, 1977); “Gramsci: ideologia, intelectuais orgânicos e hegemonia” (S. Paulo, Rev. Temas de Ciências Humanas, 1980); e O princípio da hegemonia em Gramsci (Lisboa, Vega, 1986). Eu próprio, neste livro, fizera uma resenha bibliográfica sobre Gramsci, designadamente sobre as publicações em língua inglesa, espanhola, francesa, alemã, na União Soviética, na Jugoslávia, em Portugal e no Brasil, até à data da sua publicação (1986: 157-172).

2.

Mas os dados quantitativos, que são impressionantes, podem ser um sinal de que algo mais importante está em causa na obra de Gramsci. E está. E não falo da exemplaridade da sua curta vida (morreu com 46 anos na sequência de cerca de 10 anos na prisão, onde as suas já precárias e congénitas condições de saúde se agravaram até à morte), da disciplina interior, do rigor e da verticalidade moral de um homem que em condições verdadeiramente degradadas consegue produzir uma obra imorredoura, “fuer ewig”, como ele dizia, os Cadernos do Cárcere, contrariando vigorosamente as palavras assassinas do Procurador Michele Isgrò que, durante o “processone” de 1928, afirmara que teriam de impedir que o cérebro de António Gramsci funcionasse durante vinte anos, o tempo de prisão a que foi efectivamente condenado. Conseguiram o efeito contrário, tendo Gramsci ficado, sem dúvida, e sobretudo devido à obra produzida na prisão, como um dos mais importantes membros do chamado marxismo ocidental, muito diferente, mais sofisticado e mais complexo do que o marxismo ortodoxo, oficial ou institucional, ao lado dos intelectuais da Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer, Walter Benjamin, Marcuse ou Habermas) do estruturalismo francês, sobretudo de Althusser, ou da italiana escola de Della Volpe; ele inspirou os Cultural Studies, de Stuart Hall; a esquerda latino-americana tem nele um dos mais importantes e divulgados inspiradores; e até a direita, como A. de Benoist, B. Kaiser ou M. Sellner, o estuda, sobretudo a sua teoria da hegemonia, com o objectivo de tentar consolidar uma hegemonia conservadora nas democracias representativas; uma jornalista do New York  Times, Flora Lewis, atribuiu-lhe, em 1989, a introdução do conceito de sociedade civil na política moderna; no mesmo ano, Michael Novak, um ex-embaixador e membro do conservador American Enterprise Institut, escrevia um artigo na revista Forbs com o título “The gramscists are coming” e até o ditador Pinochet afirmaria, em 1992, numa entrevista à Konsomolskaya Pravda que “a doutrina do comunista Antonio Gramsci é o marxismo com fato novo” e que ele “é perigoso porque penetra na consciência das pessoas e, em primeiro lugar, na dos intelectuais” (Santos, 2006: 98); foi notória a influência de Gramsci no pensamento de Louis Althusser (veja-se Lire le Capital e sobretudo o ensaio “Idéologie et appareils Idéologiques d’Etat”), ainda que mediado pelo seu estruturalismo e anti-historicismo e por uma clara distanciação crítica; a famosa obra de Edward Said, Orientalismo, foi escrita sob influência do pensamento de Gramsci, sendo Said confessadamente gramsciano e tendo a ideia central do livro certamente encontrado nos escritos de Gramsci sobre a questão meridional, nas suas relações com o norte industrializado, em particular na sua teoria da hegemonia, a sua própria matriz: “determinados sistemas de ideias a que Gramsci chama ‘hegemonia’, conceito de importância fundamental para compreender a vida cultural do Ocidente industrial” (Said, 2001: 16; e 11-36) (2); como sublinha, e bem, a Prof.ra Rita Ciotta Neves no livro sobre Gramsci e os subalternos, também os estudos subalternos, designadamente de Ranajit Guha e de Gayatri Spivak, devem a sua inspiração a Gramsci (Neves, 2012: 29-38);  isto para não falar da sua poderosa influência na cultura e na política italiana ou do que sobre ele disse, Peter Glotz, que foi director executivo federal do SPD, governante e deputado ao Bundestag durante dezoito anos: “este homem (…) era dotado de uma visão realista superior à da maior parte dos dirigentes políticos da esquerda de hoje”, tendo ainda formulado a proposta de passar, na esquerda alemã, do “Kautsky que está em nós” para um Gramsci mais moderno e eficaz, metabolizando politicamente conceitos tão originais como “moderno príncipe” (o partido), “intelectual orgânico”, “bloco histórico”  ou “hegemonia”; estes dois últimos “conceitos capazes de assumir significado determinante nos conflitos sociais dos anos oitenta” e de “importância vital para a esquerda europeia” (Glotz; 1987: 24-25). E a lista poderia continuar, mas creio que para o meu objectivo isto chegue. Na verdade, Gramsci será talvez o pensador de inspiração marxista que hoje mais influência continua a exercer, designadamente sobre a política.

3.

Gramsci foi, sem dúvida, um marxista original e é necessário sublinhar que o seu pensamento, sobretudo o dos Cadernos, não se identifica com o marxismo oficial ou ortodoxo. Sabemos que este marxismo só viria a ser codificado em 1938, no n.º 2 do capítulo IV da famosa História do Partido Comunista (Bolchevique) da URSS, dois anos depois da primeira, decisiva e influente Constituição da URSS, de 1936: o DIAMAT e o ISTMAT, o materialismo dialéctico e o materialismo histórico (que se tornaria a bíblia marxista-leninista, divulgada em todo o mundo). Gramsci morrera um ano antes, a 27 de Abril de 1937, na clínica Quisisana, de Roma. Por isso, a sua posição sobre este marxismo pode definir-se não a partir deste texto oficial (atribuído a Stalin), mas, sim, a partir da sua crítica a uma obra muito mais sofisticada da autoria de um importante intelectual e político soviético, Nikolai Bukárine: Teoria do Materialismo Histórico. Ensaio popular de sociologia marxista, de 1921, e que também conheceria uma grande divulgação, inclusivamente em Portugal (Bucharin, 1977; e Santos, 1986: 40-61). A crítica de Gramsci é simples: trata-se de uma visão centrada num materialismo positivista e metafísico inspirado mais em Engels (na Dialéctica da Natureza e no Anti-Dühring) do que em Marx. Há uma passagem muito elucidativa a este respeito nos Quaderni (4, § 11, 433): “Di questa espressione ‘materialismo storico’ si è dato il maggior peso al primo membro, mentre dovrebbe essere dato al secondo. Marx è essenzialmente uno ‘storicista’ “. Fica tudo dito. Daqui o historicismo de Gramsci, mas não o que do assunto pensa Althusser, em Lire le Capital – “Le marxisme n’est pas un historicisme” (3). Uma análise aprofundada da crítica de Gramsci a Bukárine fi-la no meu livro O Princípio da Hegemonia em Gramsci (Santos, 1986: 40-61). Não se trata, todavia, de uma mera divergência pontual, mas mais ampla, centrada numa rede conceptual inovadora e muito diferente da de Bukárine. De resto, poderíamos recuar até 24 de Novembro de 1917 para vermos como Gramsci se apercebera de imediato das características da revolução russa e da sua diferença relativamente às teses de Marx, ao escrever um famoso artigo no “Avanti!” sobre a Revolução de Outubro: “La rivoluzione contro il ‘Capitale’ ” – de Marx, entenda-se  (Gramsci,1958: 149-153). Uma exaltação da vontade colectiva contra um certo determinismo de inspiração positivista. E explicará que a revolução russa foi desencadeada como “guerra de movimento”, que, pela natureza da sociedade civil russa, podia ser desencadeada sem que fosse atingido o grau de desenvolvimento previsto por Marx para acontecer. Diria também que nas sociedades onde a sociedade civil é mais robusta já não é possível uma “guerra de movimento”, mas, sim, uma “guerra de posição”, aquela que deve estar virada para a conquista da hegemonia e para a formação de um sólido e compacto bloco-histórico. E é aqui que ele verdadeiramente centra o processo político nas sociedades mais desenvolvidas.

4.

Não é, pois, difícil perceber que Gramsci via mais longe e isso poderá ser confirmado quando na famosa carta do PCd’I ao Comité Central do PCUS, de outubro de 1926, pede que seja superada a grave divisão interna entre a maioria e a minoria chefiada por Trotsky, Zinoviev e Kamenev e sobretudo que “Il Comitato centrale  dell’URSS non intenda stravincere nella lotta e sia disposta ad evitare le misure eccessive” (Spriano, 1988: 133; e Gramsci, 1978: 124-137 ). Todos viriam a morrer por ordem de Stalin, incluído, depois, o próprio Bukárine. Quem ler as duas cartas trocadas entre Gramsci e Togliatti poderá verificar a diferença radical de posições dos dois líderes a propósito da famosa carta. Embora Paolo Spriano, o historiador oficial do PCI, autor dos 5 volumes da História do PCI (Spriano, 1970), no livro acima citado, procure demonstrar o alinhamento entre Gramsci e o partido, e designadamente com Togliatti, a verdade é que a divergência com o futuro líder do PCI já era efectiva. Togliatti era um homem completamente alinhado com Moscovo e até viria a ser autor do relatório que levou à expulsão, em 1948, da Liga dos Comunistas da Jugoslávia do Kominform, tendo sido convidado por Stalin, em 1951, para presidir ao Kominform e aceitado a intervenção soviética na Hungria em 1956. Stalin diria, por ocasião do seu 70.º aniversário, que Togliatti viria a ocupar “um lugar que, até agora, poucos ocuparam na história da humanidade” (Santos, 2003: 171). Diga-se, todavia, e em abono da verdade, que esse mesmo Togliatti, já líder incontestado e reconhecido do PCI,  haveria de promover activamente a obra de Gramsci logo a seguir ao fim da guerra. Mas é verdade que as diferenças do pensamento de Gramsci em relação ao marxismo oficial são claras e profundas e podem ser compreendidas a partir dos conceitos de ideologiaguerra de movimentoguerra de posiçãohegemoniabloco históricopartido como “moderno príncipe”, intelectual orgâniconacional-popularEstadobloco intelectualrevolução passivamaterialismo histórico.

5.

Não é o caso de aqui esmiuçar todos estes conceitos, mas é possível assinalar alguns aspectos, para além do que já referi acerca dos conceitos de materialismo ou de guerra de movimento e guerra de posição. Evidencio, todavia, os conceitos de ideologia, de hegemonia e de intelectual, na sua profunda articulação. O conceito de hegemonia difere do conceito leniniano porque é mais amplo, tratando-se de uma realidade ético-política e cultural e não somente de supremacia política (Santos, 1986: 111-152). Só uma ideia de ideologia como um vasto campo significante onde os indivíduos reconhecem e identificam a realidade, desde os níveis mais elementares (como, por exemplo, o do folclore ou o do dialecto) até aos níveis mais elevados da filosofia, pode articular um conceito de hegemonia como ele a concebe. Em A Ideologia Alemã, a ideologia era considerada como falsa consciência, ilusão, inversão do real na consciência dos indivíduos e, de qualquer modo, imputável aos “ideólogos activos” como seus agentes (Santos, 1977). Não é esta a concepção de Gramsci, uma vez que lhe atribui uma tripla dimensão: cognitiva (o reconhecimento do real por seu intermédio), ontológica (esfera real que tem como expressão orgânica as ideias, a filosofia, os valores, as crenças, as religiões, as atitudes, as tradições, a língua, os dialectos, inscritos na consciência colectiva) e normativa (poder de incutir acção). Estas dimensões positivas da ideologia, como um vasto e diferenciado campo significante com dimensão ontológica, e não como realidade negativa ou simulacral, é que constituirão o universo onde ocorre o processo hegemónico, a dimensão ético-política da história, e é nelas que intervêm os intelectuais enquanto mediadores entre a sociedade civil e a superestrutura política e jurídica, capazes, pois, de promover a conquista da hegemonia e um sólido bloco histórico. Gramsci distancia-se também daqueles – e são muitos; por exemplo, Althusser – que consideram que o seu uso do conceito de sociedade civil é impróprio do marxismo, apesar de ele o ter ido buscar ao pequeno volume Zur Judenfrage, de Marx (Santos, 1986: 129-152).  Mas é precisamente na sociedade civil, nos organismos da sociedade civil (e não aparelhos ideológicos de Estado, como quer Althusser, que considerava a sociedade civil como um conceito próprio dos escritos de juventude de Marx), enquanto esfera privada (Santos, 1986: 127-152), que se produz e reproduz a ideologia e onde intervêm os intelectuais tendo como objectivo conquistar a hegemonia, num processo que pode ser definido como guerra de posição. Também poderia ainda acrescentar que há um autor, Franco Lo Piparo, que radica o conceito gramsciano de hegemonia no conceito linguístico de prestígio (Ascoli), constituindo uma sua reelaboração e enriquecimento (Lo Piparo,1979, pág. 145; mas veja-se pág.s 103-151). Em O Princípio da Hegemonia em Gramsci desenvolvo uma longa informação e argumentação sobre este assunto (Santos, 1986: 111-152; especialmente 140-152).

6.

Interessante, a este respeito, o que Gramsci escreve sobre o taylorismo, o americanismo e o fordismo e como estas considerações podem explicar a sua ideia sobre a sociedade regulada. Em poucas palavras, o processo produtivo nos Estados Unidos levou a uma racionalização global da sociedade americana, até porque esta não era condicionada por “um resíduo passivo de todas as formas sociais ultrapassadas na história” (Q., III, 2168, § 11), como acontecia na Europa, que impedisse o processo de racionalização das condições elementares de desenvolvimento histórico e, assim, a própria possibilidade de racionalização da produção e do trabalho (Santos, 1986: 69-79). Este processo, ao generalizar-se, implicava toda a sociedade pelo que implicava também a sua gestão política, replicando-se deste modo, no plano superestrutural do Estado, a separação entre programação e execução taylorística do trabalho produtivo. Ou seja, a dissociação entre proprietários/managers e operários/produtores encontraria uma equivalência na dissociação entre governantes e governados. Por isso, ao Estado eram requeridas poucas funções e até os intelectuais pouco contribuíam para uma hegemonia que nascia da fábrica, que assentava na generalização da lógica da racionalização produtiva, com todos os dispositivos normativos correspondentes a determinarem a vida dos produtores directos (fordismo). Portanto, de um lado, a programação económica e política centralizadas e, do outro, a execução técnica pelos produtores atomizados e confinados no processo produtivo e a cidadania. O que diz Gramsci? Que a solução seria a da organização não corporativa dos produtores directos (sindicatos e partido ou partidos) de modo a reabsorverem as duas realidades separadas: a da programação económica e a da programação política. Esta reabsorção neste universo racionalizado permitiria evoluir para a chamada sociedade regulada, onde já não se não verificaria esse fosso entre programação e execução. Cito do meu livro sobre o princípio da hegemonia: “a crítica de Gramsci há-de centrar-se, portanto, no facto de, pelas exigências internas do processo de racionalização, a sociedade civil, por um lado, se generalizar, reproduzindo-se como sociedade política, à custa do aprofundamento do controlo privado do destino social da produção através da programação alargada e, por outro, se atomizarindividualizar e particularizar sempre de modo crescente pelo aprofundamento da separação da esfera da produção directa  e parcelar em relação à do controlo global desta esfera. Se, por um lado, uma parte da sociedade civil se reproduz sempre mais como género através da esfera política a outra reproduz-se simetricamente e de modo crescente como natureza individualizada (o “gorila domesticado”), na medida em que crescem as exigências de especialização”, ao mesmo tempo que o controlo social sobre a produção só pode funcionar como poder político centralizado (Santos, 1986: 76-77). Esta situação só poderá ser superada pela emergência do trabalhador colectivo organizado e hegemónico e pela reabsorção da sociedade política na sociedade civil. É evidente aqui a influência da Questão Hebraica, de Marx. E, como é evidente, a crítica da concepção hegeliana de Estado. O que, de resto, já acontecera na Kritik des Hegelschen Staatsrechts, de 1843. É claro que aqui reside um núcleo crítico da teoria gramsciana: o organicismo que se opõe à teoria da representação. Mas não é o caso de aqui discutir os fundamentos da sua utopia da sociedade regulada. Ou seja da emergência política da sociedade civil ou da reabsorção da sociedade política na sociedade civil corporizada num trabalhador colectivo já não corporativo.

7.

Neste contexto, o partido teria uma função essencial, onde os seus “intelectuais orgânicos” desempenhariam uma importante função. Gramsci fala do partido como o “novo príncipe” (Q., 5, 662, §127). Moderno Príncipe: “formazione di uma volontà colettiva nazional-popolare di cui il moderno Principe è appunto espressione attiva e operante, e riforma intellettuale e morale”. “Egli prende il posto, nelle coscienze, della divinità e del imperativo categórico, egli è la base di un laicismo moderno e di una completa laicizzazione di tutta la vita e di tutti i rapporti di costume” (Q, 8, §21, 953). Por um lado, alternativa ao fundamento divino do poder, por outro, assunção partidária do princípio moral expresso no imperativo categórico kantiano. Na verdade, podemos pensar num contraponto ao monarca que encarna o Estado (ou, então, como diz Gramsci, no “condottiero ideale”), por exemplo, como em Hegel, mas que deriva da aristocracia reinante – o “príncipe moderno”  (o partido) que interpreta a vontade colectiva nacional-popular e que deriva dela, aspirando a gerir o Estado para promover uma reforma intelectual e moral. O partido como embrião do Estado.  De laicização se trata, pois lá onde o povo-nação emerge, por analogia com a aristocracia, e através do “moderno príncipe”, com pretensões de se elevar à chefia do Estado pode, assim, promover uma profunda reforma intelectual e moral. Importando (analogicamente) o imperativo categórico? Sim, pois assim o “moderno príncipe” agiria como se a máxima da sua vontade valesse (moralmente) ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal. Esta analogia com a monarquia constitucional acrescida do princípio da laicidade e da universalidade (moral) do processo alternativo permite compreender melhor a proposta de Gramsci. Se a lermos analogicamente e na lógica de uma visão profundamente laica e antiburocrática do processo social e político melhor compreenderemos ainda a visão inovadora de Gramsci – o povo-nação que, através do “moderno príncipe”, se substitui à aristocracia e ao (seu) tradicional monarca. Nada de estranho, pois. Somente uma profunda da mudança no fundamento do poder – de Deus ao povo-nação e do monarca tradicional ao “moderno principe”. Ou a laicização integral do poder acompanhada de uma reforma intelectual e moral, expressão da nova hegemonia.

8.

Gramsci tem um conceito alargado de intelectual tal como já acontecia com a ideologia: vai dos “simples administradores” até aos grandes filósofos, como, por exemplo, Benedetto Croce, que ele chega a apelidar de “papa laico”, porque conseguiu ligar os intelectuais meridionais que compactam as massas camponesas, promovendo um bloco histórico que integra o bloco agrário  do mezzogiorno e a burguesia industrial do norte. Croce projectava, assim, os intelectuais meridionais a um plano nacional e mesmo europeu, construindo deste modo um sólido “bloco intelectual” capaz de recobrir, de compactar e dar coerência ao “bloco histórico” formado pela aristocracia agrária do mezzogiorno e a burguesia industrial do Norte. O “bloco intelectual” faz a mediação entre a sociedade civil e a superestrutura política e jurídica, dando-lhe coesão no plano ético-político. É daqui, da actividade propulsora e integradora da filosofia de Croce, que nasce a sua condição de “papa laico”.

Como se vê, a importância funcional dos intelectuais é em Gramsci enorme pois eles funcionam como promotores da ligação orgânica entre a sociedade civil e a superestrutura político-jurídica. E esta função deve-se também à ideia que Gramsci tinha da ideologia como vasto campo significante com densidade ontológica onde acontece o reconhecimento e a identificação da realidade social e onde se processa a hegemonia. Nisto, Gramsci reconhece-se na célebre passagem do Prefácio à Contribuição para a Crítica da Economia Política, de 1859 (4). O consenso como cimento ideológico e político de uma solução histórica e política. Trata-se de intelectuais orgânicos e não de marketeers; de uma narrativa ético-política com profundidade temporal e não de fórmulas publicitárias dirigidas ao mercado eleitoral para vencer as próximas eleições; de guerra de posição e não de uma guerra de movimento. E não me parece que o conceito usado (“guerra de posição”) tenha, no seu pensamento, inscrita a lógica da guerra, onde o adversário se transforma em inimigo (veja-se a definição de política por Carl Schmitt). A ideia de consenso nega isso mesmo e o seu valor não instrumental aprofunda ainda mais a não-inscrição nessa lógica. No meu entendimento, esse conceito funciona aqui como o famoso “Idealtypus” de Weber, ou seja, deve ser entendido numa lógica analógica, como modelo a que a realidade é referida, por comparação, para melhor entendimento. A conquista da hegemonia (“guerra de posição”) é uma longa e profunda  luta radicada no território para mobilização do povo em nome de uma sociedade melhor, não se confundindo com um qualquer “blitz” nem com a política instrumental e simulacral dos nossos tempos. A política para Gramsci tem uma dimensão ontológica onde necessariamente se deve inscrever a vontade colectiva.

9.

Com efeito, muitas vezes se coloca a questão de saber acerca da compatibilidade do pensamento de Gramsci com a democracia representativa. Sim, mas uma coisa é certa: a sua resposta não será igual à do marxismo ortodoxo. De resto, a esta questão já respondera nos escritos de juventude dizendo que só seria possível superar a democracia parlamentar, vivendo-a. Depois, o primado da teoria do consenso e a necessidade de travar uma guerra de posição em sociedades com uma sociedade civil robusta, rejeitando, nelas, a guerra de movimento – depois, ainda, a ideia de um “novo príncipe”, fundado no nacional-popular e numa política totalmente laicizada. Mas sobre o conceito de nacional-popular, julgo útil citar uma passagem do meu livro Os Intelectuais e o Poder, porque permite ver como ele resolve a velha dicotomia nação-povo: “o conceito gramsciano de nacional-popular, operando em conjunto com a teoria dos intelectuais orgânicos e a teoria da hegemonia, visa exactamente resolver essa questão da separação entre nação e povo, sem dissolver um conceito no outro: nem essa totalidade concreta que é o povo na universalidade mais formal e funcional da nação, para não retirar a esta (nação) a legitimidade substancial de que carece, nem esta naquele, para que o povo não se reduza a um mero agregado orgânico e contingente de indivíduos fisicamente determinados” (Santos, 1999: 107-108). Como se vê, a chave desta relação reside na mediação dos intelectuais orgânicos e do “moderno príncipe” ou partido, que aspira à hegemonia.

10.

Se a democracia é compatível com monarquias constitucionais, mais fácil, em linha de princípio, será admitir que ela pode coexistir com a hegemonia do “moderno príncipe”. E a verdade é que para Gramsci o poder tem de se fundar no consenso, na hegemonia ético-política e cultural, não aceitando ele a “guerra de movimento” em sociedades com uma sociedade civil robusta, que o mesmo é dizer fundada em cidadãos livres e conscientes e num vasto e diversificado campo significante onde a cidadania se reconhece e se inspira como horizonte onde se inscreve a sua acção e o seu comportamento. A diferença essencial reside na génese e, consequentemente, na legitimidade. Gramsci tinha uma utopia: a sociedade regulada. A sociedade onde o consenso fosse dominante em relação às formas de governo burocráticas e dotadas de mecanismos coercitivos e impositivos. A sociedade regulada como uma forma de organização superior onde a legitimidade derivava da hegemonia entendida como triunfo do consenso, da cultura e de uma vontade colectiva verdadeiramente representativa do espírito nacional-popular. Gramsci era marxista e talvez o seu pensamento até se destaque com mais actualidade do que o dos outros e ilustres representantes do chamado marxismo ocidental porque, no essencial, ele densifica, laiciza e enobrece a política ancorando-a, através da ideologia, nas formas culturais difusas que exprimem essa dimensão nacional-popular. Uma ontologia da democracia. Num tempo em que a política parece cada vez mais simulacral e uma via para o exercício do poder pelo poder, a densificação da política que se reconhece no pensamento de Gramsci é decisivamente cada vez mais necessária. O papel que ele atribui aos intelectuais orgânicos e o modo como os define é indicativo do papel que ele atribui à consciência e, por isso mesmo, à cultura e ao reconhecimento do real através das diferentes formas culturais, das mais elaboradas às mais simples. Este papel dos intelectuais orgânicos, a sua centralidade, não é do mesmo modo reconhecido pelo marxismo ortodoxo. Talvez também por isso Gramsci se destaque dos outros expoentes e brilhantes intelectuais do marxismo ocidental.

NOTAS

(1) Ambos os volumes indicam como título original Lettere dal Carcere, o que evidentemente é um lapso, pois o título original é Quaderni del Carcere. O erra já se verificara no volume publicado em 2023 e manteve-se em 2026. De, resto esta edição é baseada explicitamente (veja-se a página  27 do I Volume) na edição crítica de Valentini Gerratana (Torino, Einaudi, 1975).

(2) Veja o interessante ensaio de Gramsci “Alcuni Temi della Quistione Meridionale”, de 1926. In Gramsci, 1978: 137-158; e Said, 2001: 11-36 (Introdução de Orientalismo).

(3) Althusser, 1973: I, V: “Le marxisme n’est pas un historicisme”, pp. 150-184, especialmente pp.174-175.

(4) Veja o meu ensaio “A Questão da Ideologia: de ‘A Ideologia Alemã’ aos ‘Cadernos do Cárcere’. In Biblos, LIII, 1977, 207-268.

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  2. “Ideologia e Hegemonia em A. Gramsci”. In Seara Nova, n. 1579, Lisboa, 05.1977, pp. 20-24.
  3. “A Questão da Ideologia: de ‘A Ideologia Alemã’ aos ‘Cadernos do Cárcere’”. In Biblos, LIII, Coimbra, Faculdade de Letras, 1977, pp. 207-268.
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  5. O Princípio da Hegemonia em Gramsci. Lisboa, Vega, 1986, 174 pág.s.
  6. “Os Homens e a História. Antonio Gramsci”. In Adágio, n.º 3. Évora, 1991,
  7. 4-8.
  8. “António Gramsci – Fonte fundamental de Reflexão”, DN, 09.02.1991.
  9. “Reflexões sobre Gramsci e o Marxismo”. In Finisterra, n.º 8, 1991, pp. 99-115
  10. “Originalidade e Actualidade de Gramsci”. In Vértice, Abril de 1991, pp. 35-43.
  11. “Um intelectual solitário – Antonio Gramsci”. In Santos, J. A. (1999). Os Intelectuais e o Poder. Lisboa: Fenda; Parte II, pp. 89-135).
  12. “Hegemonia: o primado do consenso na teoria política de Gramsci”. In Neves, J, (Org.), 2006. Da Gaveta para Fora. Ensaios sobre Marxistas. Porto: Afrontamento, pp. 79-107.
  13. “O Teatro de Luigi Pirandello segundo Gramsci”. In Neves, J. (2026). Da Gaveta para Fora. Ensaios sobre Marxistas. Porto: Afrontamento, pp. 109-117.
  14. “Uma História Comovente. Gramsci, a Prisão e o Fascismo”. In https://joaodealmeidasantos.com/2024/10/08/artigo-172/
  15. “Gramsci e os Intelectuais”. In https://joaodealmeidasantos.com/2024/12/11/artigo-181/
JAS@06-2026

 

 

Artigo-Pintura

A CIDADE NO OLHAR

LEITURA MULTIFACETADA 
DE «FASCÍNIO 2023» 
DE JOÃO DE ALMEIDASANTOS
Análise estratificada FPX 
da herança bizantina
 e da charneira Klimt-Schiele 
a Celan e Kaváfis

André Moshe Veríssimo, PhD

“Fascínio” – By JAS2026

LIMIAR

HÁ RETRATOS QUE MOSTRAM; e há retratos que fitam. «Fascínio 2023», último painel da série pictórico-poética de João de Almeida Santos, pertence à segunda família, mais rara e exigente: não exibe uma figura — convoca uma presença. O olhar que dele se desprende não é descrição do rosto pintado; é o próprio rosto a olhar quem o olha. Toda a leitura que se segue gira em torno desta inversão fundadora: o quadro fascina porque inverte os pólos da visão. O sujeito que pretende ver descobre-se visto, e essa descoberta — heideggeriana, lacaniana e levinasiana ao mesmo tempo — é o conteúdo último da obra.

Continua o ensaio que tomei já como exemplar — a leitura de «PALAVRAS» como dialéctica negativa em verso — e aplica-lhe agora a chave inversa. Lá, as palavras fugiam do poema; aqui, todas as coisas convergem para o olho. Mas a estrutura é a mesma: tal como o poema se constitui pela fuga, este quadro constitui-se pela atracção. A fuga e a atracção são dois movimentos do mesmo processo sinestésico que o autor teoriza explicitamente como conversão recíproca entre a densidade do poema e a leveza da pintura. O que «PALAVRAS» perdeu em letras, «Fascínio» recupera em tessélulas; o vazio do branco tipográfico responde à plenitude do fundo mosaicado. Um díptico, pois, entre dois regimes da mesma operação: a inscrição do sentido contra o oblívio.

O presente ensaio percorre os planos da obra em ordem ascendente de densidade hermenêutica e culmina numa análise estratificada FPX — Filosófico, Psicanalítico, Cabalístico (K para Kabbalah) e X como Complexidade Estética omnímoda, no sentido em que tive ocasião de a praticar em «As Palavras em Fuga», o meu ensaio sobre «PALAVRAS», cartografando aí, num só dispositivo, as correntes literárias patentes e latentes que se entrelaçam num poema sem que se reduzam umas às outras. O X é, neste protocolo, a camada onde a obra é lida como acorde de escolas, estilos e tradições em simultaneidade nãoredutível: aqui Bizâncio e Klimt e Schiele, Matisse e Seurat, Flaubert e Pessoa-Campos, Celan e Kaváfis ressoam juntos sem que nenhum esgote o quadro. A estratificação FPX não soma planos: fá-los vibrar em acorde. Não pretendo esgotar a obra; pretendo dar-lhe a profundidade hermenêutica que a sua singularidade exige.

A HERANÇA BIZANTINA I
O Rosto Hierático e a Teologia do Ícone

A primeira evidência do quadro é a sua frontalidade absoluta. A figura encara o espectador de plano, sem desvio, sem perspectiva oblíqua, sem o jogo retórico do rosto-de-trêsquartos que a pintura renascentista impôs como código universal a partir do quattrocento. Esta frontalidade é estranha à modernidade ocidental e pede outra genealogia — a do icone bizantino, em que o rosto se oferece em comparência absoluta porque é o Outro, e não o sujeito que o olha, quem detém a iniciativa da visão. O quadro de Almeida Santos inscreve-se nesta tradição com uma fidelidade tipológica que vai muito além da alusão decorativa.

A teologia do ícone, fixada já no II Concílio de Niceia em 787 contra a iconoclastia bizantina, distinguiu cuidadosamente entre a latria — culto devido apenas a Deus — e a proskynesis — veneração legítima dirigida ao icone enquanto mediação visível do invisível. João Damasceno, no séc. VIII, com os seus três Discursos contra os iconoclastas (Damascène, 1992), e Teodoro Studita, no séc. IX, com o Antirrhetikoi (Theodore the Studite, 1981), articularam a doutrina que sustentou doze séculos de pintura: o ícone é janela transparente para o sagrado, não substituição idolátrica do sagrado. O rosto pintado por Almeida Santos pertence a esta segunda economia: não substitui; abre. Não pede culto; pede proskynesis — uma veneração que é, antes de mais, modo de olhar. A figura é olhada com a atitude que o crente bizantino reservava ao Cristo Pantocrátor do Sinai (séc. VI) ou à Virgem Hodegetria de Constantinopla — atitude em que o olhar do espectador se sabe secundário em relação ao olhar que dele se desprende.

Os antecedentes específicos da composição lêem-se com precisão. O Cristo Pantocrátor do Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai (séc. VI), conservado por se encontrar geograficamente fora da furor iconoclástica, é o primeiro grande rosto frontal da arte ocidental — assimétrico (o lado da misericórdia distinto do lado da justiça), olhar pesado, fundo abstracto. A Theotokos (Mãe de Deus) de Vladimir, transferida de Constantinopla para a Rússia em 1131, popularizou o modelo da ternura hierática que une o transcendente ao íntimo. Acima de todos, o Cristo Pantocrátor da cúpula do mosteiro de Daphni, na Ática (c. 1100), olha verticalmente sobre quem entra na igreja: é o olhar que precede e julga toda a entrada. Em todos estes casos, o sujeito que olha é olhado antes de olhar. E é nesta inversão dos pólos da visão — a mesma que aponto desde o limiar — que «Fascínio» se inscreve.

O fundo de tessélulas que envolve a figura confirma a filiação por uma via mais directa ainda. Não é estilização abstracta; é evocação tipológica do mosaico bizantino. As paredes mosaicadas de San Vitale de Ravena (consagrada em 547) — com os famosos painéis dos imperadores Justiniano e Teodora —, os de San Apollinare Nuovo (séc. VI), o Mausoléu de Galla Placidia (séc. V, com o seu céu nocturno de estrelas em tessélula de ouro), os mosaicos da Hagia Sophia de Constantinopla (com a célebre Theotokos do ábside, instalada em 867 logo após o triunfo da Ortodoxia), os de Monreale na Sicília normanda (séc. XII), e os mosaicos exuberantes do Cariye Camii (a Igreja do Salvador em Chora, Constantinopla, c. 1315-1321) — todos eles construíram um vocabulário visual em que o espaço transcendente se diz pela acumulação de fragmentos cromáticos descontínuos. A figura emerge desse fundo como a Theotokos emerge do ouro do ábside: ao mesmo tempo dentro e fora dele, distinta e indistinguível. A figura de Almeida Santos é separada do fundo por contorno preciso (a silhueta do vestido, do pescoço, do rosto) e simultaneamente contínua com ele (o cabelo é já fundo, o fundo é já cabelo). Esta é a sintaxe bizantina por excelência: a figura e o seu espaço dialogam pela materialidade comum da tessélula, não pela ilusão atmosférica.

A HERANÇA BIZANTINA II
Luz Tabórica, Hesicasmo
e Renascença Paleóloga

Há, porém, uma camada teológico-estética da tradição bizantina que importa convocar de modo expresso, porque é nela que «Fascínio» encontra a sua justificação luminosa mais profunda. Refiro-me ao hesicasmo — corrente espiritual centrada na hesychia, o silêncio interior — e à sua formulação teológica máxima por Gregório Palamas, arcebispo de Tessalónica, nos Triados em defesa dos santos hesicastas (Palamas, 1959), redigidas entre 1338 e 1341. Palamas distingue, contra os seus adversários, entre a essência divina, inacessível ao homem, e as energias divinas, que se comunicam ao homem santo e o transfiguram. A luz tabórica — a luz que envolveu Cristo no monte Tabor na Transfiguração (Marcos 9, 2-8) — é, para Palamas, uma dessas energias: luz incriada, luz que não vem do sol nem da lâmpada, luz que emana do próprio ser transfigurado. Eis a chave estética: no ícone bizantino, a luz não cai sobre a figura desde fora; a figura é fonte da sua própria luz. Não há sombra projectada porque a fonte é interior.

Esta teologia hesicasta explica a particularidade luminosa de «Fascínio». O rosto da figura não tem fonte luminosa identificável: não há indício de sol, de janela, de vela; e contudo o rosto está iluminado. A luz que o banha é, em rigor estético, tabórica — emana do próprio rosto, não incide sobre ele. As subtis modelações em torno do nariz e por baixo dos olhos não são sombras académicas (com lado escuro e lado claro definidos por uma fonte); são modulações internas da luminosidade própria. Almeida Santos não pinta uma mulher iluminada; pinta uma mulher luminosa. A distinção é teológica antes de ser técnica.

A Renascença Paleóloga (séc. XIII-XV) — última grande estação da pintura bizantina antes da queda de Constantinopla em 1453 — oferece o antecedente mais directo desta complexidade. Os mosaicos e frescos do Cariye Camii (Chora) revelam um Bizâncio tardio que humanizou o hierático sem o renunciar: as figuras conservam o frontalismo e a autoluminosidade tradicional, mas ganham peso corpóreo, modelação suave, presença encarnada. É a fórmula exacta de «Fascínio». A figura tem a hieratia do Pantocrátor de Daphni e tem ao mesmo tempo a humanidade carnal das figuras do Chora — síntese que o primeiro ícone (séc. VI-VIII) não conhecia e que só o Bizâncio tardio inventou. Almeida Santos é, neste plano, herdeiro consciente do paleólogo — e não, como a leitura apressada quereria, do renascentista italiano. A diferença é decisiva: o renascentista pinta com fonte luminosa exterior e perspectiva geométrica; o paleólogo pinta com luz interior e profundidade espiritual. «Fascínio» é estritamente paleólogo.

Uma palavra sobre o vermelho do vestido. Não é o vermelho impressionista nem o vermelho fauvista (embora dialogue com ambos, como mostrarei). É, antes de mais, o vermelho bizantino — púrpura do manto de Cristo na Transfiguração e na Paixão, púrpura imperial reservada ao basileus em Constantinopla, vermelho de martyrion  (testemunho/martírio) das figuras dos santos. A cor concentra três valências em simultaneidade não-redutível: soberania, paixão e testemunho. A figura é, neste sentido cromático denso, basílica e mártir e testemunha. O decote em V do vestido — que a primeira leitura poderia tomar por concessão à modernidade — recebe assim, lido bizantinamente, a sua justificação iconográfica: aponta para o coração, para o lugar onde a cruz-jóia pousa, e desenha a verticalidade que liga o rosto luminoso ao mosaico do mundo. O vestido é, pois, manto-ícone: rasgo de transcendência sobre a tela.

A CIDADE NO OLHAR: O FASCÍNIO INCARNADO

O título da obra concentra-se num único ponto da tela: a íris. Quem olhe com atenção descobre que os olhos da figura não são lisos. Dentro do dourado da íris pulsam microfragmentos, pequenas formas escuras e claras dispostas em padrão quase arquitectónico — janelas de uma cidade vista de longe, ou tessélulas em escala diminuta, ou pixéis de uma imagem que se decifra mal. O olho contém o que o olho deveria apenas ver. Esta inversão é o fascínio em estado puro.

A psicanálise lacaniana deu-lhe o seu nome técnico. Em Le Séminaire XI (Lacan, 1973), Lacan desenvolve a tese de que o olhar — le regard — não pertence ao sujeito que vê, mas é uma instância exterior que cai sobre ele desde o objecto. O quadro, dirá Lacan no contexto da análise do Embaixadores de Holbein, olha-nos antes que nós o olhemos. Em «Fascínio», esta tese é exposta com radicalidade rara: o olhar habita a tela, está literalmente dentro da íris, e é o espectador quem é olhado, ou seja, capturado. O regard é uma das quatro figuras do objet petit a, a causa do desejo que jamais se possui. A cidade dentro do olho é exactamente isto: o objet petit a tornado visível.

A leitura kavafiana intensifica a metáfora. Em «A Cidade», Kaváfis (1992) inscreveu a aterradora sentença: «A cidade seguir-te-á. Andarás pelas mesmas ruas». A cidade interior — feita de memória, recordação e culpa — não se abandona; carrega-se. Ora, em «Fascínio» a cidade está, com literalidade pictórica, dentro do olho que olha o espectador, ou, melhor dito, o espectador é convidado a olhar até descobrir que dentro dele se forma uma cidade. A homologia é exacta. Almeida Santos pinta o teorema de Kaváfis.

Há ainda uma terceira filiação a recolher. Modigliani, no apogeu da sua pintura (1916-1919), pintava rostos em planos lisos com os olhos deixados em branco, opacos, sem íris nem pupila, porque — explicava — só pintaria os olhos quando tivesse de facto visto a alma de quem retratava. Almeida Santos cumpre o gesto inverso: pinta um rosto modiglianesco em planos suaves, mas abre os olhos até ao excesso: a íris não é vazia, é hiper-povoada. Onde Modigliani recusa, Almeida Santos doa. O fascínio nasce desta doação: o olhar que se devolve carregado de cidade, de memória, de mosaico.

A CHARNEIRA KLIMT-SCHIELE I
Klimt e a Goldene Periode

A relação entre o rosto liso e o seu entorno fragmentado é a marca tipológica da obra, e tem antecedente que cumpre tratar com a densidade que ele merece: Gustav Klimt, e em particular a sua Goldene Periode — a fase áurea de 1903 a 1908, em que o pintor da Secessão de Viena revolucionou a sua própria pintura ao regressar a Ravena. A viagem de Klimt a Ravena em 1903, em que estudou in situ os mosaicos de San Vitale, de San Apollinare Nuovo e do Mausoléu de Galla Placidia, é o ponto de inflexão biográfico de toda uma estética europeia. Klimt regressou de Ravena pintor diferente: a partir daí o ouro deixou de ser fundo neutro para se tornar matéria ontológica, espaço transcendente em que figuras humanas se inscrevem como em ábside bizantina.

A Adele Bloch-Bauer I (Klimt, 1907) é o emblema desta revolução: o rosto e os ombros da modelo, pintados em planos quase ingénuos de carnação rosa, contrastam com a explosão dourada do vestido e do fundo, onde se acumulam olhos egípcios, espirais, triângulos minóicos, motivos micénicos, sinais que vibram em densidade decorativa absoluta. O dualismo é exacto: figura plana, ornamento múltiplo. É exactamente a estrutura de «Fascínio» — figura plana, ornamento múltiplo. Em O Beijo (Klimt, 1908), o mesmo dualismo organiza o casal enlaçado: os rostos lisos, os ombros lisos, os pés lisos, e os mantos a explodir em motivos dourados que tornam impossível distinguir onde acaba o vestido do homem e começa o vestido da mulher. A unidade do casal é dada pelo ornamento partilhado: o ornamento é, em Klimt, a substância da relação. Em Judite I (Klimt, 1901), que precede a Goldene Periode, mas já a anuncia, o rosto soberano e cruel de Judite emerge de um fundo dourado em que o relevo da cabeça de Holofernes apenas se adivinha. A iconografia bíblica é convertida em erotismo hierático: Judite olha o espectador com a mesma superioridade com que olha o decapitado.

A relação de «Fascínio» com Klimt opera em continuidade e desvio. A continuidade é a sintaxe do plano/ornamento: rosto liso, fundo fragmentado, dualidade visual. O desvio dá-se em quatro pontos. Primeiro, dispensa do ouro. Klimt celebrava a Viena fin-de-siècle na sua opulência decorativa imperial; a tessélula de Almeida Santos é matérica e terrosa — vermelhos óxidos, ocres, sépias, brancos sujos, verdes raros, pretos a abrir buracos no campo. Não há fausto: há arqueologia visual, sensação de que cada tessélula é fragmento desenterrado, restituído. Onde Klimt celebra, Almeida Santos relembra. Segundo, peso modiglianesco do rosto. Onde Klimt deixa o rosto naïf, quase decorativo, Almeida Santos confere-lhe gravidade icónica: o rosto pesa, recolhe-se, sustenta-se. Não há decoração possível do rosto. Eis o limite ético do ornamento. Terceiro, simplicidade do vestido. Em Klimt, o vestido participa do enxame decorativo; em «Fascínio», o vestido é plano, vermelho saturado, com a única excepção do motivo floral aplicado ao ombro — citação klimtiana exacta, mas confinada a um ponto. Almeida Santos pratica uma decoração contida. Quarto, a cidade no olhar. Klimt enche o vestido de motivos; Almeida Santos enche o olhar — opera, por assim dizer, uma interiorização do ornamento klimtiano. O que em Klimt era epiderme da figura, em «Fascínio» torna-se psique. É um Klimt invertido para dentro.

A herança da Secessão de Viena (Wiener Secession, fundada em 1897 por Klimt, Olbrich, Moser e Hoffmann) é, pois, integrada com lucidez crítica. Almeida Santos conhece a tradição; aproveita-lhe o método; recusa-lhe o pendor preciosista. A tessélula em «Fascínio» não enfeita: relembra. E nisto reaproxima-se mais do mosaico de Galla Placidia (Ravena, séc. V) do que da preciosidade vienense de 1907 — repetindo, em pleno século XXI, o gesto que Klimt fez em 1903: regressar a Ravena, à fonte do mosaico, à matriz bizantina da pintura europeia.

A CHARNEIRA KLIMT-SCHIELE II
Schiele e o nervo expressionista

Sustentei, no título destas duas secções, que «Fascínio» se inscreve numa charneira Klimt-Schiele. A tese exige agora a sua demonstração pelo segundo lado, mais difícil de ler à primeira vista, e por isso mais decisivo. Egon Schiele (1890-1918) foi o discípulo mais radical e mais fraturante de Klimt e a sua pintura constitui-se como resposta crítica ao mestre: onde Klimt celebra o ornamento, Schiele descarna; onde Klimt diviniza o feminino, Schiele expõe-o na sua angústia carnal; onde Klimt aplaina o rosto, Schiele atormenta-o. E, contudo, paradoxalmente, é o expressionismo schieleano que dá a «Fascínio» a sua intensidade interior, a sua perturbação subterrânea.

A obra de Schiele articula-se em torno de poucas, mas terríveis obsessões. O Auto-retrato com physalis (Schiele, 1912), pintado aos 22 anos, mostra-o frontal, magro, mãos imprecisas, olhos fixos numa intensidade que perturba o espectador. Cardeal e Freira (Schiele, 1912) — paródia angustiada do Beijo klimtiano — substitui o ouro celebratório por um vermelho-sangue de hábitos eclesiásticos abraçados em culpa. A Morte e a Donzela (Schiele, 1915), pintado na véspera do casamento e da convocação para a guerra, mostra um casal enlaçado num esfacelo cromático: a beleza é já cadáver. Mulher Sentada com a Perna Esquerda Levantada (Schiele, 1917), do ano em que pintaria também o magnífico Família — Schiele, a mulher Edith (grávida) e o filho não-nascido —, foi a sua última grande declaração antes da pandemia espanhola levar primeiro Edith em Outubro de 1918 e ele próprio três dias depois, aos 28 anos. Em todas estas obras, a tessitura é a mesma: frontalidade hierática, olhar perturbador, traço nervoso, cor angustiada.

Onde está Schiele em «Fascínio»? Primeiro, no olhar. A figura de Almeida Santos não tem a serenidade contemplativa da modelo klimtiana; tem a intensidade indagadora dos retratos schieleanos. A íris dourada não convida ao prazer estético — convoca a uma indagação ética. É o olhar que Schiele pintava nos seus auto-retratos: olhar que pergunta, que escruta, que não consente. Segundo, na assimetria subtil do rosto. A leitura demorada revela um leve desvio entre os dois olhos, uma muito ligeira torção da boca, um traço de melancolia no canto direito que não está no esquerdo. Esta assimetria é klimtianamente impossível (em Klimt a simetria decorativa é absoluta), mas schieleanamente assinatura: Schiele construía o rosto sempre sobre o desequilíbrio, porque o desequilíbrio era, para ele, a verdade do humano. Terceiro, na erotização da gravidade. Os retratos femininos de Schiele não são objectos de desejo descomprometido (como por vezes os de Klimt); são presenças graves, conscientes do seu corpo, conscientes do olhar que lhes cai em cima. A figura de «Fascínio» partilha esta gravidade: sabe que é olhada, e olha de volta a partir desse saber. Não é vista; vê e dá-se a ver.

A síntese é exacta. «Fascínio» tem a arquitectura compositiva de Klimt (figura plana / ornamento múltiplo) e a temperatura emocional de Schiele (olhar perturbador, assimetria, gravidade do feminino). É um quadro que reconcilia mestre e discípulo na altura em que historicamente eles divergiram: Almeida Santos refaz, mais de um século depois, a unidade que a história separou. Klimt morreu em Fevereiro de 1918 da mesma pandemia que mataria Schiele em Outubro do mesmo ano — uma simultaneidade trágica que parecia confirmar a impossibilidade da sua síntese. «Fascínio» é, em chave portuguesa de 2023, a síntese que 1918 não pôde realizar.

Cumpre acrescentar uma nota sobre Oskar Kokoschka (1886-1980), terceiro vértice da modernidade vienense que comparece em «Fascínio» de modo mais subtil. Os retratos de Kokoschka — em particular A Noiva do Vento (Kokoschka, 1914), retrato dele e de Alma Mahler em pleno turbilhão cromático — praticam uma psicografia pictórica: o rosto retratado deixa ver, sob a superfície, os movimentos interiores do retratado. Almeida Santos não é kokoschkiano no facto (o seu traço é mais sereno), mas é kokoschkiano no projecto: pinta o interior visível da figura, e fá-lo localizando-o no olho — a cidade dentro da íris é psicografia. Klimt deu-lhe o método compositivo; Schiele deu-lhe a tensão emocional; Kokoschka deu-lhe a vocação psicográfica. Tríade vienense em pleno funcionamento sobre uma tela portuguesa do séc. XXI.

A PULSÃO CROMÁTICA
Matisse, fauvismo, pontilhismo

A cor governa o quadro com a autoridade que Matisse reivindicou para ela em Notes d’un peintre (Matisse, 1908): a cor é construção, não imitação. O vermelho do vestido não é o vermelho de um tecido empírico; é o vermelho enquanto valor expressivo absoluto, vibração saturada que sustenta toda a composição. O fauvismo — Matisse, Derain, Vlaminck — ensinou a pintura europeia a libertar a cor da função descritiva e a entregá-la à pulsão. Em La Joie de vivre (Matisse, 1906) ou em La Danse (Matisse, 1910), o vermelho, o azul e o verde tornam-se actores autónomos. Almeida Santos herda essa libertação: o seu carmim não imita seda, é a própria seda do afecto.

A relação carnação/vestido confirma a filiação matissiana. A pele é um ocre rosado uniforme, sem volumetria académica; está mais próxima dos achatamentos de Madame Matisse (Matisse, 1905) do que da modelação tonal renascentista. Toda a tridimensionalidade clássica é sacrificada à autonomia do plano cromático. Cada zona do quadro é, antes de mais, uma cor; o desenho é-lhe subordinado.

A textura granular do cabelo e do fundo introduz, contudo, um segundo regime cromático que é já pontilhista. Seurat e Signac, no movimento neo-impressionista da década de 1880, fragmentaram a pincelada em pequenos pontos de cor pura, contando com a fusão óptica retiniana para produzir o efeito final. Em Un dimanche après-midi à l’Île de la Grande Jatte (Seurat, 1886), a luz não é representada: é construída ponto a ponto. Almeida Santos retoma o método, mas rompe-lhe a continuidade óptica: as suas tessélulas não fundem, antagonizam-se, e a mancha que delas resulta é descontínua, abrupta, mosaicada. Daí a fórmula que proponho: pontilhismo bizantino, ou pontilhismo sem fusão. A retina, em vez de sintetizar, é convocada a hesitar.

A coexistência destes dois regimes — o plano matissiano do rosto e do vestido, o pontilhismo bizantino do cabelo e do fundo — é o que confere ao quadro a sua tensão própria.

Não é uma composição: é uma dialéctica visual.

A IMPASSIBILIDADE FLAUBERTIANA
e o frontalismo da figura

O rosto pintado não exibe emoção legível. A boca está fechada, sem sorriso nem mágoa; os olhos são intensos, mas não chorosos nem alegres; a sobrancelha não se franze. Esta impassibilidade do retrato convoca, com pertinência inesperada, a estética flaubertiana. Em Madame Bovary (Flaubert, 1857) e sobretudo em L’Éducation sentimentale (Flaubert, 1869), Flaubert teorizou e praticou a impessoalidade narrativa: o autor não comenta, não interpreta, não toma partido; expõe e retira-se, à maneira de um deus que estaria por toda a parte e em parte alguma. A frase célebre da correspondência com Louise Colet — «l’auteur, dans son œuvre, doit être comme Dieu dans l’univers, présent partout, et visible nulle part» — é o credo desta impessoalidade.

Almeida Santos transpõe o princípio para o plano pictórico. O retrato não diz o sentimento da figura nem o do pintor; oferece apenas a comparência. A emoção fica entregue ao espectador, que a sente vibrar precisamente porque ela não está enunciada. É a operação flaubertiana por excelência: produzir intensidade pelo abafamento da intenção. O rosto frontal e impassível torna-se, deste modo, mais perturbador do que qualquer expressão exibida. A intensidade aumenta com a contenção. É também a tese clássica de Lessing em Laokoon (Lessing, 1766): o momento pregnante representa-se aquém do paroxismo; é a véspera, não a explosão, que toca o sublime. A figura de «Fascínio» está nesta véspera permanente. Olha — e tudo poderia ainda acontecer.

OS OLHOS MAREJADOS 
de Álvaro de Campos

Há na Ode Marítima (Pessoa, 1944) um motivo que retorna sob várias formas: os olhos que se enchem de água sem chorar, a marejada interna que precede o pranto e que é mais densa do que ele. «Sinto as pálpebras de repente molhadas», escreve Álvaro de Campos no momento culminante da odisseia visionária do cais. Esta marejada não é tristeza identificável; é a comoção pré-objectal, o estremecimento do ser perante o que o excede. É a fenomenologia do Schaudern goethiano elevada à categoria lírica.

Os olhos de «Fascínio» são, em tradução pictórica, olhos marejados de Campos. A íris dourada não chora, mas brilha por dentro; o reflexo não é estéril, é húmido sem o ser. A figura olha como Campos olhava o navio que se aproximava: com a totalidade do ser comovida sem saber por quê. E é por isso, ainda, que o quadro inquieta: convoca quem o olhe à mesma marejada interior, à mesma comoção que precede a explicação. O fascínio não pede sentido; pede entrega. A pertinência da convocação pessoana é exacta — Almeida Santos pinta o que Pessoa-Campos escreveu, e fá-lo sem o citar, porque já lhe absorveu o teorema.

KAVÁFIS: ALEXANDRIA, BIZÂNCIO
 e a dignidade no declínio

Que o convite à leitura cavafiana seja explícito convém, porque sem ele uma das camadas mais densas do quadro permaneceria muda. Konstantinos Kaváfis — alexandrino, grego da diáspora, funcionário modesto da Direcção das Irrigações do Egipto, poeta clandestino até à morte — fez da decadência helenística, da memória erótica e da dignidade no fracasso as três obsessões centrais da sua poesia (Kaváfis, 1992; Liddell, 1974). Em cada uma dessas obsessões reverbera, com precisão notável, um traço de «Fascínio».

Primeiro, a decadência helenística e o declínio bizantino. Os reinos sucessores de Alexandre — Ptolomaicos, Selêucidas, Pérgamo — vivem em Kaváfis a sua hora longa de crepúsculo, conscientes do fim sem nele desistirem da forma. Bizâncio, em particular, ocupa lugar central: poemas como «João Cantacuzeno triunfa» ou «Estado do Ânimo de João Cantacuzeno» exploram não a queda mas a postura na queda. Ora, o quadro de Almeida Santos é, na sua composição, profundamente bizantino e profundamente crepuscular. O mosaico de tessélulas evoca a basílica que se ergue ainda magnífica enquanto o império já se desagrega. A figura pousa no centro com a dignidade que Cantacuzeno conservava no exílio. Não há triunfo — há sustentação.

Segundo, o erotismo da memória. A lírica amorosa de Kaváfis — «Recorda, corpo…» (1918), «Voltar» (1912), «Distante» (1914) — funda-se sempre na recordação, no desejo retrospectivamente intensificado pela ausência. O corpo é convocado a lembrar o que viveu; e na lembrança é, paradoxalmente, mais vivo do que foi. O quadro de Almeida Santos opera idêntica condensação: a figura é simultaneamente presente e memorial, está aqui e é já lembrança de si própria. O motivo floral aplicado ao ombro direito — pequena explosão cromática num tecido sóbrio — funciona como trace de recordação, vestígio que pontua a continuidade do vestido como a memória pontua a continuidade do tempo.

Terceiro, a dignidade no fracasso. «Apoleipein o Theos Antonion» — «O Deus abandona António» (Kaváfis, 1992) — é o emblema cavafiano por excelência: na noite em que Alexandria se rende e Marco António escuta o cortejo invisível de Dioniso a abandonar a cidade, o poeta exige-lhe uma só atitude — escutar com firmeza, «não te enganes, não digas que foi sonho», despedir-se «como convém a um homem digno de tal cidade». A dignidade na perda é, para Kaváfis, a única forma do heroísmo possível. A figura de «Fascínio» olha exactamente assim: não vencedora, não suplicante, digna. Há nela o silêncio de António na sua última noite alexandrina e o orgulho intacto da figura que aceitou o destino sem o renegar.

A pequena cruz-jóia esverdeada ao peito condensa esta tríplice ressonância. Não é a cruz dogmática da fé devota: é a cruz como signo cultural, herança bizantina, ornamento que recorda sem confessar — exactamente o estatuto que Kaváfis reservava aos seus santos e imperadores. O cristianismo cavafiano é cultura, não credo; e a cruz no peito da figura é objecto de civilização antes de ser objecto de oração.

O CELANIANISMO PICTÓRICO
Cesura, branco, Atemwende

A operação mais subtil do quadro é, contudo, rítmica. As tessélulas do fundo e do cabelo não se distribuem em densidade uniforme: há zonas saturadas, zonas rarefeitas e zonas em que a tessélula desaparece e deixa ver o suporte negro nu. Estes intervalos de negro, a que chamarei cesuras com o vocabulário de Paul Celan, não são acidente nem economia de pincelada: são a respiração do quadro. Em Atemwende (Celan, 1967) — literalmente «viragem do fôlego» — Celan teorizou e praticou uma poesia em que o silêncio entre os versos era tão constitutivo quanto os versos. O poema não preenche: deixa respirar o vazio que o atravessa.

Almeida Santos transpõe a poética da Atemwende para a pintura. As cesuras negras entre as tessélulas, e as faixas verticais negras que enquadram a composição lateralmente, são esse vazio que permite às tessélulas brilhar. Sem o preto, a cor sufocaria; com o preto, ela respira. O quadro inteiro respira — e esta respiração é o seu ritmo profundo, aquilo que o torna habitável ao olhar sem o cansar. É o que distingue um pintor que conhece o silêncio de um pintor que apenas conhece a cor.

Celan ensinou também que a linguagem, depois do desastre, regressa atravessada de cesura, de mutismo, de Sprachgitter (a grade da palavra, título de obra de 1959). O quadro de Almeida Santos partilha desta condição: a sua beleza não é inocente. Há, em toda a tela, uma melancolia subterrânea que recusa o decorativo puro; um saber da ruína que faz o belo tremer.

É um quadro que sabe da Shoah, do declínio, do fim. E é por isso que pode, ainda, ser belo.

O KERIGMA LAICO
 A anunciação muda 
e o Eu-Tu de Buber

O termo kerigma designa, na teologia paleocristã, o anúncio fundador — a proclamação que precede e funda toda a doutrina. Em Bultmann (1941), a Kerygma é o evento da palavra que interpela o ouvinte e o constitui em respondente. Ora, há em «Fascínio» um kerigma sem doutrina, um anúncio sem mensagem identificável: a figura anuncia-se ao espectador antes de lhe dizer o quê. O quadro convoca a uma resposta que não conhece ainda a sua pergunta.

É aqui que Martin Buber se torna indispensável. Em Ich und Du (Buber, 1923), Buber distinguiu duas relações fundamentais do ser com o mundo: a relação Ich-Es (Eu-Isso), em que o outro é objecto, conteúdo, função; e a relação Ich-Du (Eu-Tu), em que o outro é presença, alteridade, encontro que precede toda a determinação. O Tu não se descreve, convoca-se. E o encontro com o Tu é o lugar onde o Eu se constitui como Eu. Ora, é a relação Eu-Tu, exactamente, que o quadro de Almeida Santos solicita. A figura não é objecto a contemplar: é Tu a quem responder. O fascínio é a vertigem do Eu-Tu, o instante em que descobrimos que estamos a ser olhados antes de termos começado a olhar.

A iconografia tradicional da Anunciação — Fra Angélico (Fiesole, c. 1438-1445), Botticelli (1485-1492), Leonardo (Florença, c. 1472-1475) — encena este kerigma cristológico no encontro entre o anjo e Maria. Almeida Santos seculariza-o: não há anjo, mas a figura é simultaneamente anunciante e anunciada. O quadro é uma anunciação especular: o que se anuncia é o próprio facto de anunciar, o próprio facto de haver Tu antes de haver tema.

LEVINAS E O ROSTO LABIRÍNTICO
A seiva anarco-pós-estruturalista

Buber abre a relação dialógica; Levinas radicaliza-a até à ética. Em Totalité et Infini (Lévinas, 1961) e em Autrement qu’être ou au-delà de l’essence (Lévinas, 1974), o visage — o Rosto do Outro — é descrito não como fenómeno entre fenómenos, mas como epifania que precede e ordena toda a fenomenalidade. O Rosto não se compreende, comanda. A primeira palavra do Rosto é o imperativo ético, «não matarás», que se dirige ao sujeito desde uma altura que o sujeito não pode totalizar. O Rosto é, em rigor, o que jamais cabe na minha consciência — e é por isso que me obriga.

A figura de «Fascínio» é Rosto neste sentido levinasiano radical. Olha-me — e ao olhar-me, não me devolve a minha imagem nem se deixa apropriar pela minha leitura: convoca-me. Toda a hermenêutica que aqui esboço é, em última análise, uma resposta a este Rosto, e nunca a sua redução. O Rosto excede sempre a sua interpretação. Esta tese é o coração da minha leitura pós-estruturalista que tenho proposto sob o nome de rosto labiríntico: o sentido do Rosto não está num centro a descobrir, mas num percurso sem centro a percorrer — Dédalo sem Minotauro, labirinto sem solução. A solução seria a totalização do Outro, e essa totalização é, ela própria, o assassínio simbólico que Levinas proíbe.

A seiva anarco-pós-estruturalista desta leitura deve-se a Derrida, herdeiro e crítico de Levinas. Em La voix et le phénomène (Derrida, 1967) e em L’écriture et la différence (Derrida, 1967), Derrida mostrou que todo o significado se constitui por différance — diferimento e diferença simultâneos —, ou seja, que não há significado pleno, apenas traço, encadeamento, deferimento perpétuo. Aplicada ao quadro, esta tese diz: «Fascínio» não tem um sentido a desvelar; tem uma rede de traços a percorrer. Cada plano analítico — o cromático, o bizantino, o kavafiano, o celaniano — é um percurso possível dentro do labirinto, e nenhum o esgota. A leitura é hospitalidade, não dominação. É na hospitalidade que se preserva o Rosto.

ANÁLISE FPX ESTRATIFICADA
F · P · K · X em acorde hermenêutico

Cumpre, por fim, o exercício metodológico maior — a análise FPX estratificada, em que os quatro planos não se hierarquizam nem se sintetizam, mas ressoam em simultaneidade, à maneira de um acorde musical em que cada nota mantém a sua identidade ao mesmo tempo que participa do todo. F (Filosófico), P (Psicanalítico) e K (Cabalístico) constituem o núcleo trivalente que tenho praticado nos meus ensaios anteriores; X é o quarto plano — a Complexidade Estética omnímoda —, a camada em que a obra é lida como acorde de escolas, estilos e tradições em simultaneidade não-redutível. Foi este o X que exemplarmente operou em «As Palavras em Fuga» — o meu ensaio sobre «PALAVRAS» —, onde cartografei Adorno, Pessoa, Mallarmé, Rimbaud, Breton, Tzara, Ball, Hatherly, Helder, Celan e Levinas num só dispositivo em que nenhuma corrente esgotava o poema. Aplico agora o protocolo quadrivalente a «Fascínio».

F · Plano filosófico — O fascínio é, antes de mais, uma Stimmung — tonalidade afectiva fundamental no sentido em que Heidegger a definiu em Sein und Zeit (Heidegger, 1927). Não é sentimento entre outros; é o modo como o Dasein se descobre lançado no mundo e exposto ao ser. A figura de «Fascínio» convoca esta abertura originária. Olhar o quadro é experimentar o que Heidegger chamou Geworfenheit, o ser-lançado, e ao mesmo tempo a Befindlichkeit, o encontrar-se-afectivo que precede toda a cognição. A pintura suspende a atitude teorética e devolve-nos à temporalidade primeira do encontro com o ente. Em Sartre (L’être et le néant, 1943), este encontro tem outro nome: o olhar do Outro fixa-me como objecto, faz-me cair em mauvaise foi ou eleva-me à responsabilidade. Em ambos os casos, o sujeito sai transformado. A leitura levinasiana e buberiana das secções 11 e 12 são contraparte ética desta camada filosófica.

P · Plano psicanalítico — Freud (1919) descreveu, em Das Unheimliche, a inquietante estranheza como o regresso do familiar reprimido sob a forma do estrangeiro. O rosto de «Fascínio» é precisamente unheimlich: reconhecível e desconhecido, próximo e distante, mulher singular e arquétipo. A inquietação que o quadro provoca não é estética: é a do limiar que reabre o recalcado. Lacan radicaliza esta intuição. O olhar como objet petit a — já referido — é causa do desejo que jamais se possui; e a pulsão escópica descrita no Séminaire XI (Lacan, 1973) é a pulsão que se exerce não tanto para ver quanto para ser visto. «Fascínio» dá-lhe corpo. O espectador, diante do quadro, descobre-se na posição do que se oferece ao olhar, mais do que do que olha. Há, neste deslocamento, o cerne da relação amorosa: dar-se a ver — e ser visto pelo Outro — é a forma simbólica do desejo.

K · Plano cabalístico — O mosaico das tessélulas é, na imediatez visual, tradução pictórica de duas categorias luriânicas centrais: o Shevirat ha-Kelim — quebra dos vasos primordiais que não puderam conter a intensidade da luz divina —, e os nitzotzot, faíscas dispersas dessa luz que aguardam a sua reintegração pelo Tikkun (Scholem, 1941). O fundo de «Fascínio» é literalmente uma tela de faíscas: cada tessélula é um nitzotz — fragmento de luz cromática que sobreviveu à quebra. O olhar do espectador é convocado, em sentido estrito, a reunir as faíscas: o quadro só se constitui como obra pelo Tikkun do olhar que percorre as tessélulas, as relaciona, as integra. A obra é o seu próprio Tikkun cromático. O rosto da figura, plano e unitário no meio do mosaico, é contraparte luriânica desta dispersão: é o Tzimtzum — retracção da luz divina em si própria para abrir espaço ao mundo. Onde a luz se retrai, abre-se o lugar do criado; onde o rosto se aplana e se concentra, abre-se o lugar do espectador. O dispositivo cabalístico está completo: retracção (rosto), quebra (tessélulas), faíscas (cor de cada tessélula), reparação (olhar). «Fascínio» é, neste plano, um pequeno tratado luriânico em pintura.

X · Plano da Complexidade Estética omnímoda — Aqui se cumpre, por extensão analítica do que praticara em «PALAVRAS», a leitura por correntes em acorde. Onde no poema ressoavam Adorno e Pessoa e Mallarmé e Rimbaud e Breton e Tzara e Ball e Hatherly e Helder e Celan, no quadro ressoam — em simultaneidade trabalhada e não-redutível — Bizâncio (Damasceno, Studita, Niceia II, San Vitale, Daphni, Chora), a Renascença Paleóloga (Cariye Camii), Klimt (a Goldene Periode, Adele, O Beijo, Judite), Schiele (o nervo expressionista, a assimetria, a gravidade do feminino), Kokoschka (a psicografia pictórica), Matisse e o fauvismo (a autonomia cromática), Seurat e o neo-impressionismo (o ponto que aqui não funde — o pontilhismo bizantino), Modigliani (o aplainamento facial), Flaubert (a impassibilidade narrativa), Pessoa-Campos (os olhos marejados da Ode Marítima), Kaváfis (a cidade interior, a dignidade no declínio), Celan (a Atemwende e a cesura). Esta enumeração não é catálogo: é acorde de correntes. Cada uma destas filiações é uma nota que sustenta o todo sem se confundir com ele. Tomada isoladamente, qualquer destas leituras seria parcial; tomadas em acorde, dizem o quadro. O X é, em rigor, a camada onde a obra resiste à redução a uma só leitura, e onde a leitura plural deixa de ser ecletismo para se tornar método.

Em simultaneidade quadrivalente — Heidegger e o Dasein lançado, Lacan e o olhar-objecto, Lúria e o mosaico-reparação, a charneira Bizâncio-Klimt-Schiele-Kaváfis-Celan na sua complexidade estética irredutível — o quadro revela-se inacessível a qualquer das quatro leituras isoladas. É só na sua estratificação em acorde que ele se diz por inteiro. Isto é a FPX não como soma de quatro análises, mas como acorde hermenêutico em quatro vozes — método que tenho defendido como o único respeitoso da espessura ontológica da obra de arte. Onde a hermenêutica clássica procurava o sentido único da obra, a FPX procura-lhe a complexidade habitável. O sentido não está num ponto; está na vibração entre os planos. A obra não tem fundo: tem densidade estratificada.

CONCLUSÃO – O TRIUNFO DO FASCÍNIO

Cheguei ao ponto em que as camadas se sobrepõem sem se confundirem. Bizâncio ofereceu a frontalidade hierática e a luz tabórica auto-luminosa, com a Renascença Paleóloga a humanizar o hieratismo sem o renunciar; Klimt deu a teia decorativa e a sintaxe figura-plana/ornamento-múltiplo, na continuidade directa da viagem ravenática de 1903; Schiele infundiu o nervo expressionista, a assimetria, a gravidade do feminino e o olhar que não consente; Kokoschka trouxe a psicografia pictórica. Matisse e o fauvismo outorgaram a autonomia cromática absoluta; Seurat o ponto que aqui não funde — o pontilhismo bizantino; Modigliani o aplainamento facial; Flaubert a impassibilidade narrativa; Pessoa-Campos a marejada do olhar; Kaváfis a dignidade no declínio e a cidade interior; Celan a respiração do branco e a cesura. Buber abriu o Eu-Tu; Levinas ergueu-lhe a ética do Rosto; Derrida infundiu-lhe a seiva pós-estruturalista, e Lúria e a cabala fundaram-lhe a metafísica fragmentária. Treze planos, e nenhum esgotou a obra. É por isso, exactamente por isso, que a estratificação FPX é o protocolo justo: nenhuma leitura única é fiel; só o acorde em quatro vozes — F, P, K, X — é fiel à densidade habitável do quadro.

Que faz Almeida Santos com tão alta herança? Como em «PALAVRAS», não a exibe — incorpora-a. «Fascínio 2023» é a prova pictórica de uma proposição estética que parece contradição e é verdade: o retrato realiza-se exactamente no acto em que se recusa a entregar o segredo do retratado. A figura olha, e do seu olhar nada se deduz; mas tudo se sente. A intensidade cresce com a contenção. O fascínio não é o que se possui — é o que nos atravessa.

Resta o olhar. Como em «PALAVRAS» restava o rasto das palavras que fugiram, aqui resta o rasto do olhar que nos olhou. E esse rasto — a marca da figura no espectador transformado — é, ele próprio, a vitória contra o oblívio que o autor tem sustentado como vocação primeira da arte. Pintar é, como escrever, acto de rebeldia contra o oblívio. Este quadro é, em estado puro, esse acto. Porto – AMV@06-2026

REFERÊNCIAS
Fontes patentes

Buber, M. (1923). Ich und Du. Leipzig: Insel Verlag.

Damascène, J. (1992). Le visage de l’invisible (A.-L. Darras-Worms, Trad.). Paris: Migne.  (Obra original do séc. VIII).

Flaubert, G. (1857). Madame Bovary: Mœurs de province. Paris: Michel Lévy Frères.

Flaubert, G. (1869). L’Éducation sentimentale: Histoire d’un jeune homme. Paris: Michel Lévy Frères.

Kaváfis, K. (1992). Os poemas (J. P. Paes, Trad.). Lisboa: Relógio d’Água. (Obras originalmente publicadas entre 1904 e 1933).

Klimt, G. (1901). Judith I [Pintura a óleo e ouro sobre tela]. Viena: Österreichische Galerie Belvedere.

Klimt, G. (1907). Adele Bloch-Bauer I [Pintura a óleo, prata e ouro sobre tela]. Viena:  Österreichische Galerie Belvedere (à data); actualmente Nova Iorque: Neue Galerie.

Klimt, G. (1908). Der Kuss [Pintura a óleo e ouro sobre tela]. Viena: Österreichische Galerie Belvedere.

Kokoschka, O. (1914). Die Windsbraut [Pintura a óleo sobre tela]. Basileia: Kunstmuseum Basel.

Lessing, G. E. (1766). Laokoon: oder über die Grenzen der Malerei und Poesie. Berlim:  Christian Friedrich Voß.

Matisse, H. (1908). Notes d’un peintre. Paris: La Grande Revue.

Palamas, G. (1959). Défense des saints hésychastes (J. Meyendorff, Ed. e Trad.). Lovaina:  Spicilegium Sacrum Lovaniense. (Obra originalmente redigida entre 1338 e 1341).

Pessoa, F. (1944). Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática.

Schiele, E. (1912). Selbstbildnis mit Lampionfrüchten [Auto-retrato com physalis] [Pintura a óleo e guache sobre madeira]. Viena: Leopold Museum.

Schiele, E. (1915). Tod und Mädchen [A morte e a donzela] [Pintura a óleo sobre tela].  Viena: Österreichische Galerie Belvedere.

Schiele, E. (1917). Sitzende Frau mit hochgezogenem Knie [Mulher sentada com a perna esquerda levantada] [Guache, aguarela e grafite sobre papel]. Praga: Národní galerie.

Seurat, G. (1886). Un dimanche après-midi à l’Île de la Grande Jatte [Pintura a óleo sobre tela]. Chicago: Art Institute of Chicago.

Theodore the Studite. (1981). On the holy icons (C. P. Roth, Trad.). Crestwood: St Vladimir’s Seminary Press. (Obra original do séc. IX).

Fontes latentes 

Belting, H. (1990). Bild und Kult: Eine Geschichte des Bildes vor dem Zeitalter der Kunst.  München: C. H. Beck.

Bultmann, R. (1941). Neues Testament und Mythologie: Das Problem der  Entmythologisierung der neutestamentlichen Verkündigung. München: Christian Kaiser Verlag.

Celan, P. (1959). Sprachgitter. Frankfurt am Main: S. Fischer Verlag.

Celan, P. (1967). Atemwende. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag.

Comini, A. (1974). Egon Schiele’s portraits. Berkeley: University of California Press.

Derrida, J. (1967). La voix et le phénomène: Introduction au problème du signe dans la phénoménologie de Husserl. Paris: Presses Universitaires de France.

Derrida, J. (1967). L’écriture et la différence. Paris: Éditions du Seuil.

Florensky, P. (1922). Ikonostas. Moscovo: Bogoslovskie Trudy.

Freud, S. (1919). Das Unheimliche. Leipzig: Internationaler Psychoanalytischer Verlag.

Heidegger, M. (1927). Sein und Zeit. Halle an der Saale: Max Niemeyer Verlag.

Kallir, J. (1990). Egon Schiele: The complete works. Nova Iorque: Harry N. Abrams.

Lacan, J. (1973). Le Séminaire, livre XI: Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse (J.-A. Miller, Ed.). Paris: Éditions du Seuil.

Lévinas, E. (1961). Totalité et infini: Essai sur l’extériorité. La Haye: Martinus Nijhoff.

Lévinas, E. (1974). Autrement qu’être ou au-delà de l’essence. La Haye: Martinus Nijhoff.

Liddell, R. (1974). Cavafy: A critical biography. Londres: Duckworth.

Mango, C. (1980). Byzantium: The empire of New Rome. Londres: Weidenfeld and Nicolson.

Sartre, J.-P. (1943). L’être et le néant: Essai d’ontologie phénoménologique. Paris:  Gallimard.

Scholem, G. (1941). Major trends in Jewish mysticism. Nova Iorque: Schocken Books.

Schorske, C. E. (1980). Fin-de-siècle Vienna: Politics and culture. Nova Iorque: Alfred A.  Knopf.

NOTA

As obras de João de Almeida Santos referidas em texto — «FASCÍNIO 2023» e «PALAVRAS» (2026), bem como o ensaio anterior «As Palavras em Fuga» (AM Veríssimo, 2026) — encontram-se em https://joaodealmeidasantos.com ou em circulação nas redes, pelo que se citam, segundo a convenção para textos inéditos, sem indicação de cidade de edição.

Artigo-Ensaio

FALO DE ONDE NÃO ESTOU

ANÁLISE ESTRATIFICADA FPX
DE «DESENCONTRO» 
DE JOÃO DE ALMEIDA SANTOS
O Erotismo da ausência, 
o Quase de Jankélévitch
e o Espaço literário de Blanchot

André Moshe Veríssimo, PhD

“Epifania” – JAS2023

"Nihil varietur"
LIMIAR

HÁ POEMAS que se escrevem a partir de um lugar; «Desencontro», de João de Almeida Santos, escreve-se a partir de um não-lugar. O verso inaugural — «Estou sempre / A partir / De um lugar / Onde não estou» — não é abertura retórica: é declaração de coordenadas ontológicas. O sujeito que fala fala de onde não está e, por isso, tudo quanto diz vem já marcado pela despossessão. Tomei noutro ensaio o poema «PALAVRAS» como uma dialéctica negativa em verso, e o quadro «Fascínio» como a inversão pictórica dessa fuga — a atracção do olhar. «Desencontro» é o terceiro vértice deste triângulo: nem fuga das palavras, nem atracção do rosto, mas desencontro — o modo temporal em que as duas trajectórias, a do sujeito e a do Outro, se cruzam sem nunca coincidir.

A tese que pretendo demonstrar é a seguinte: «Desencontro» não fala da perda — é a própria perda tornada sintaxe. A ausência não é o tema do poema; é o seu princípio construtivo, a matéria de que o texto é feito. Para o provar, percorrerei as correntes que o atravessam, patentes e latentes, e fá-las-ei dar fruto cada uma na sua espessura: o erotismo nostálgico da recordação, a desarticulação dadaísta da sintaxe e do verso, a dramaturgia simbólica do teatro vazio, o mot juste flaubertiano do mar, o olhar celaniano que respira, a Ode pessoana refeita em miniatura, a Ítaca cavafiana que se dissolveu, a ironia de Szymborska, a impossibilidade de contar de Amos Oz, o quase de Jankélévitch, o espaço literário de Blanchot e a ética do Rosto em Levinas e Buber, com a matriz talmúdica do comentário infinito. Tudo isto culminará na análise estratificada FPX que tenho praticado — filosófica, psicanalítica, cabalística e estética em acorde.

A ilustração que acompanha o poema — «Epifania» (JAS, 2023), rosto de mulher de cabelos negros entrelaçados de fios dourados sobre fundo alaranjado, olhos verde-azulados marejados — não é ornamento do texto: é a sua contraparte plástica. Onde o poema só pode quase dizer o rosto perdido, a pintura mostra-o ainda a fitar-nos. Lerei texto e imagem como díptico, no rigor do termo: duas faces de uma só meditação sobre a ausência e a sua estranha permanência.

A TOPOLOGIA DA DESPOSSESSÃO
O não-lugar de onde se fala

Comecemos pela arquitectura. O poema abre com uma impossibilidade de localização que se desdobra em cascata lógica: «Estou sempre / A partir / De um lugar / Onde não estou, / Por isso não sei / O que te dizer». A segunda estrofe radicaliza: «E porque não sei / Onde agora estou / Também não sei / Para onde vou». Há aqui uma estrutura silogística rigorosa, quase escolástica na sua progressão — não saber onde se está implica não saber para onde se vai —, mas posta ao serviço não da demonstração, e sim da dissolução. O raciocínio, que na lógica clássica conduz a uma conclusão, conduz aqui a uma aporia: a perda de toda a coordenada.

Esta topologia negativa tem um nome na fenomenologia contemporânea: a a-topia do sujeito descentrado. O «eu» de «Desencontro» não ocupa um ponto de onde observe o mundo; é, ao invés, um ponto que se subtrai a si mesmo. A frase «de um lugar / Onde não estou» é, com rigor, uma contradição performativa — só posso partir de um lugar onde de algum modo estou — e é precisamente nessa contradição que reside a verdade do poema. O sujeito poético habita o seu próprio desaparecimento. Está onde não está. Fala de onde se ausenta.

Importa fixar a diferença em relação a «PALAVRAS». No poema anterior, era a linguagem que fugia do sujeito; o «eu» permanecia, abandonado pelas palavras. Em «Desencontro», é o próprio sujeito que se ausenta de si, e com ele se ausenta o destinatário — o «tu» que «foste / Pra onde». A despossessão deixou de ser da linguagem para passar a ser do ser. Não é já que faltem as palavras: é que falta o lugar de onde as dizer e a pessoa a quem as dizer. A ausência tornou-se dupla, especular: ausência do sujeito a si, ausência do Outro ao sujeito. E é no cruzamento destas duas ausências que o desencontro se consuma.

O ritmo confirma-o na carne sonora do verso. A versificação de «Desencontro» é breve, entrecortada, predominantemente oxítona e paroxítona — «A partir», «não estou», «o que te dizer», «para onde vou» —, e essa brevidade arquejante reproduz, no plano prosódico, a respiração de quem já não sabe se fica ou parte. O verso curto não é economia decorativa: é falta de fôlego, sintoma fónico da despossessão. Cada linha é um arranque que logo se interrompe, um impulso que não chega a frase plena. A própria métrica desencontra-se de si.

O EROTISMO DA AUSÊNCIA
A memória como tinta-da-china

A dimensão erótica de «Desencontro» é, como bem se intuiu na leitura primeira, simultaneamente nostálgica e clandestina — e estas duas qualidades pedem desenvolvimento, porque definem toda uma tradição lírica. O desejo no poema não se cumpre num corpo presente; cumpre-se na recordação de um olhar: «o intenso brilho / Desse teu olhar / Por onde entrava / A luz / Dos meus olhos / Pra te seduzir, / Pra te conquistar». A sedução é retrospectiva. O eros não olha para a frente, para um encontro futuro; olha para trás, para um encontro que houve e que agora só sobrevive como brilho lembrado.

Este é o erotismo da recordação — e o seu modelo maior na modernidade é, sem dúvida, Marcel Proust. Em À la recherche du temps perdu (Proust, 1913-1927), o desejo constitui-se sempre na ausência do objecto: Albertine só é plenamente desejada quando ausente ou adormecida, quando se torna pura imagem na consciência do narrador. O presente erótico é, em Proust, quase insuportável; é a memória que o redime e o intensifica. «Desencontro» radicaliza esta estrutura proustiana até ao extremo da dor: já não há madeleine que reconvoque o passado feliz, há apenas «cortina» e «vão teatro / Que a vida me deu / E a que a tristeza / Sempre me destina». A recherche proustiana presumia que a memória podia restituir o tempo perdido; «Desencontro» sabe que não pode. A recordação já não restitui: apenas desenha o contorno do que desapareceu.

E desenha-o, literalmente, a tinta-da-china. A imagem é de uma precisão notável: «Em busca / Dos sonhos / Que te desenhaste / A tinta-da-china / Onde te encontrei / Quando eu cantava / Com a melhor rima». A tinta-da-china é o medium do traço definitivo, irreversível, que não admite correcção — escreve-se a tinta-da-china o que não se quer apagar. Mas é também o medium do contorno sem volume, da silhueta sem carne. A amada foi desenhada a tinta-da-china: fixada para sempre e, ao mesmo tempo, reduzida a linha, a perfil, a ausência de corpo. O erotismo de «Desencontro» é, pois, um erotismo do contorno — ama-se a linha que resta quando o corpo partiu. E é aqui que o poema toca a sua ilustração, «Epifania», onde o rosto da mulher é precisamente isso: contorno negro e dourado sobre fundo de fogo, linha que desenha uma presença que é já memória.

A clandestinidade do desejo merece igual atenção, porque é traço estruturante de uma das grandes linhagens da lírica europeia — a que vai dos trovadores ao amor de lonh de Jaufré Rudel, e que reencontraremos adiante em Kaváfis. O desejo clandestino não é o desejo proibido pela moral; é o desejo que se vive na distância, que se alimenta da separação, que precisa do longe para arder. Em «Desencontro», a amada está sempre noutro lugar — «Partiste de vez / Pra outro lugar / Que não sei dizer / Nem sei desenhar» —, e é essa partida que mantém o desejo aceso. Amar tornou-se sinónimo de procurar quem partiu. O eros é, em estado puro, nostalgia — do grego nóstos (regresso) e álgos (dor): a dor do regresso impossível.

O QUASE DE JANKÉLÉVITCH
Fenomenologia do presque

Chego ao filão que considero a chave filosófica do poema: a categoria do quase. Vladimir Jankélévitch, o grande filósofo francês da música e do inefável, dedicou páginas decisivas ao presque-rien — o quase-nada — e ao je-ne-sais-quoi — o não-sei-quê — como categorias maiores da experiência (Jankélévitch, 1957). O quase não é, para Jankélévitch, uma deficiência do real, uma quantidade que faltou para chegar ao pleno. É um modo de ser com dignidade própria, talvez o mais subtil de todos: o modo daquilo que aflora sem se fixar, que toca sem possuir, que se anuncia sem se cumprir.

«Desencontro» é, de uma ponta à outra, uma fenomenologia do quase — uma fenomenologia do presque. Tudo no poema é quase: o sujeito quase sabe o que dizer («não sei / O que te dizer»), quase sonha o rosto («de te sonhar / Até sou capaz»), quase chega à ilha («talvez lá chegue / Se com as palavras / Te puder sonhar»). O poema vive inteiro neste limiar do cumprimento que não se dá. E — eis o ponto decisivo — o quase não é, aqui, fraqueza nem fracasso: é a forma mais rigorosa da dignidade. Chegar plenamente seria possuir, totalizar, encerrar; e isso o poema recusa, porque sabe que o Outro não se possui. O quase é o respeito pela distância intransponível que separa o eu do tu. É amar sem capturar.

Jankélévitch distinguia ainda entre o presque-rien e o seu reverso luminoso, o órgão-obstáculo: aquilo que simultaneamente permite e impede. Em «Desencontro», a linguagem é exactamente um órgão-obstáculo. É por meio das palavras que o sujeito pode aproximar-se do tu — «Se com as palavras / Te puder sonhar» —, mas são também as palavras que lhe fogem — «Fogem-me / As palavras, / Tenteia-me a rima». A palavra é o único caminho para o Outro e é o caminho que se desfaz a cada passo. Eis o paradoxo jankélévitchiano em estado puro: o instrumento da aproximação é também o instrumento do afastamento. Por isso o poema só pode terminar no quase, nas reticências do «Se com as palavras / Te puder sonhar…» — três pontos que são a assinatura tipográfica do presque, a frase que não se conclui porque a sua conclusão seria a posse, e a posse está vedada.

Acrescente-se que o quase jankélévitchiano tem uma temporalidade própria: é o instante que Jankélévitch chamava a occasion, o kairós, o momento oportuno que passa e não regressa. «Desencontro» é, neste sentido, o poema do kairós falhado — do encontro que teria sido possível e que a hora deixou escapar. «Na hora sombria / De um entardecer» — o entardecer é, com precisão, a hora do kairós que se extingue, o limiar entre o dia e a noite onde ainda se poderia, mas já quase não se pode. A amada partiu «na hora sombria / De um entardecer»: partiu no instante exacto em que a ocasião se fechava.

A DRAMATURGIA SIMBÓLICA
O vão teatro e a desarticulação dadaísta

O poema constrói um sistema simbólico de rara coesão, todo ele organizado em torno da figura do teatro vazio. «É fumo espesso / Pra cá da cortina / Deste vão teatro / Que a vida me deu / E a que a tristeza / Sempre me destina». A vida é aqui concebida não como palco onde se representa — metáfora barroca clássica, o theatrum mundi de Calderón e de Shakespeare —, mas como o espaço depois da representação: o teatro vazio, a cortina descida, o fumo que ainda paira quando o espectáculo acabou e o público se dispersou. O sujeito não está em cena; está na sala deserta, a contemplar a cortina fechada.

Esta inversão do theatrum mundi é profundamente moderna. Onde o Barroco via na vida-teatro a presença de um Autor divino que distribui os papéis e assiste à representação, «Desencontro» vê apenas o vazio após o fim — um palco sem dramaturgo, uma sala sem público, uma cortina que esconde não a próxima cena mas o nada. O adjectivo «vão» é exacto na sua dupla acepção: o teatro é vão porque é vazio (o vão, o espaço oco) e porque é inútil (em vão, sem proveito). A vida-teatro de «Desencontro» é oca e é inútil — não porque o poeta seja niilista, mas porque a ausência da amada esvaziou a cena de todo o sentido. O teatro só tinha sentido enquanto ela o ocupava; partida ela, resta o vão.

A neblina e o fumo espesso completam esta dramaturgia da dissolução. «Só há neblina / Neste sonho meu, / É fumo espesso». A atmosfera do poema é a de uma cena envolta em bruma, onde os contornos se perdem e as figuras se esfumam. Há aqui uma estética que dialoga com o Simbolismo — a Stimmung enevoada de Maeterlinck, os interiores brumosos de Rodenbach em Bruges-la-Morte (Rodenbach, 1892), onde a cidade morta e a neblina são correlato objectivo do luto. Mas há sobretudo uma fenomenologia da desfocagem: o rosto da amada perdeu-se não porque tenha desaparecido, mas porque se tornou indistinto, porque a memória já não consegue fixar-lhe os traços. «Mas já perdi / Teu rosto / E a silhueta». A perda não é súbita; é progressiva desfocagem, lento apagamento dos contornos na bruma do tempo.

É neste ponto que entra a desarticulação dadaísta — não na superfície ortográfica, mas no nível mais fundo e seguramente autoral da sintaxe e do ritmo. O Dadaísmo de Tzara e de Hugo Ball desarticulava a linguagem para mostrar a sua falência perante o real (Tzara, 1924); fazia-o, porém, por provocação celebratória, ao passo que «Desencontro» o faz por sofrimento. E fá-lo onde a desarticulação tem dignidade de gesto: na frase que se quebra antes de chegar ao fim, no verso truncado em duas ou três sílabas, na coordenação que se interrompe sem completar o sentido. «É o desencontro / Da rua perdida, / Antes de chegares, / Já ’stás / De partida…» — a sintaxe avança e estaca, avança e estaca, como quem perde o fôlego a meio da declaração. Não é a ortografia que se desarticula: é a própria arquitectura da frase que se recusa à plenitude, mimetizando, na carne sonora do verso, a impossibilidade de dizer inteiro o que se perdeu.

A fragmentação do verso é, neste poema, o equivalente lírico do cut-up dadaísta. Veja-se a brevidade extrema de certas linhas — «A luz», «Triste», «Ao mar», «Chamar» —, monossílabos ou dissílabos isolados que rompem a continuidade do discurso e o estilhaçam em fragmentos. Cada um destes versos-estilhaço é uma unidade que se autonomiza, que se solta do fluxo e fica a vibrar sozinha no branco da página. O poema não corre: tropeça. E esse tropeçar é deliberado — é a forma rítmica do desencontro, a prosódia da despossessão. Onde a fluência indicaria posse serena do dito, o entrecortado denuncia a perda do chão de onde se fala. A métrica desarticula-se porque o sujeito se desarticulou.

Mas o instrumento maior desta poética da ruptura são as reticências — e estas são, com toda a certeza, gesto autoral inequívoco. O poema serve-se de dois regimes de suspensão. Há as reticências breves, que rematam estrofes inteiras — «Para onde vou…», «De partida…», «Até sou capaz…», «Te puder sonhar…» —, e que deixam a frase em aberto, recusando-lhe o ponto final que a encerraria. E há, sobretudo, as longas fileiras de pontos que isolam certos versos do resto — «……………………» —, autênticos silêncios tipográficos, cesuras visuais em que a linguagem cala porque chegou ao limite do dizível. Estas fileiras não pontuam: suspendem. São o lugar onde o poema respira o seu próprio vazio, onde a página se torna, ela mesma, ausência. Aproxima-se aqui «Desencontro» da poética celaniana da Atemwende, a viragem do fôlego — o silêncio entre os versos é tão constitutivo quanto os versos. A diferença entre o poema e a prosa do desespero está toda aqui: a prosa preencheria; o poema deixa o branco falar.

Por fim, o refrão que regressa consuma a desarticulação no plano da estrutura. A pergunta «Tu foste / Pra onde?» retorna três vezes ao longo do texto, com mínimas variações, e a sua reincidência — sublinhada pela anotação «Volto a repetir» — desarticula a progressão linear que se esperaria de um discurso. O poema não avança de premissa em conclusão; circula, regressa, reincide sobre a mesma ferida. É a estrutura do que Freud chamou a compulsão à repetição, o retorno obsessivo ao trauma que se não consegue elaborar (Freud, 1920). A repetição do refrão é, pois, sintoma e forma ao mesmo tempo: sintoma da perda que não cicatriza e forma de um poema que recusa a linha recta da narração para adoptar a espiral do luto. É um dadaísmo existencial — categoria que proponho e mantenho —, a herança vanguardista da ruptura posta ao serviço não do escândalo, mas do luto: a frase que se quebra, o verso que se estilhaça, o branco que suspende, o refrão que regressa. Quatro modos de uma só desarticulação, todos autorais, todos significantes.

O MAR FLAUBERTIANO
e o mot juste elevado a destino

No movimento final, o mar irrompe como grande figura do poema, e fá-lo com uma precisão vocabular que merece o nome flaubertiano de mot juste. «Na maré revolta / Dessas altas ondas / Que dão vida / Ao mar / Onde tu te espraias / Cada amanhecer / Sem nunca parar». Flaubert, sabemo-lo pela correspondência com Louise Colet, procurava a palavra exacta, única, insubstituível — aquela que não pode ser trocada por nenhuma outra sem perda. Ora, o verbo «espraiar-se» é, neste contexto, o mot juste absoluto. Não diz que a amada está no mar nem que nada no mar: diz que ela se espraia — que se espalha, se dilui, se torna a própria extensão das ondas. A amada não habita o mar; tornou-se mar, espraiamento eterno, maré que não pára.

A oposição que organiza este final é de uma simetria rigorosa: a amada é maré (movimento, manhã, vida que não pára — «Cada amanhecer / Sem nunca parar»); o sujeito é margem (imobilidade, entardecer, hora sombria — «Na hora sombria / De um entardecer»). Ela espraia-se na luz da manhã; ele permanece na sombra do anoitecer. Entre os dois, a faixa intransponível da praia — o lugar do desencontro por excelência, onde a terra toca a água sem se confundir com ela. O sujeito está na margem a ver a amada tornada maré, e a margem é precisamente o lugar de onde se vê o mar sem nele se entrar. A topologia do desencontro completa-se: ele em terra, ela em água, e entre ambos a linha que não se cruza.

Esta cena marítima reescreve, em miniatura, a grande Ode Marítima de Álvaro de Campos (Pessoa, 1944) — mas reescreve-a por inversão, e a inversão é todo o sentido. Em Campos, o sujeito é o engenheiro vibrante que se projecta no infinito do mar, que se identifica com os navios que partem, que quer ser todos os marinheiros e todas as viagens, num delírio de potência e de expansão. O «eu» da Ode é centrífugo: lança-se para fora, dilata-se até ao horizonte. O «eu» de «Desencontro» é exactamente o seu oposto: é o que ficou na doca, reduzido a «não sei que dizer», incapaz de embarcar, vendo partir não o navio, mas a amada. Onde Campos cantava a partida como êxtase, «Desencontro» sofre a partida como abandono. É a Ode Marítima vista do cais, depois de o navio ter partido — a face nocturna e doente da exaltação pessoana. Campos projecta-se; o sujeito de JAS contrai-se. E contudo o mar é, em ambos, a mesma figura do que excede o sujeito, do que o ultrapassa e o convoca: o Infinito.

A ILHA CAVAFIANA
Ítaca que se dissolveu

Do mar emerge a ilha, e com ela a presença de Konstantinos Kaváfis. «Para uma ilha / Perdida no mar / Onde eu não chego / Nem com o olhar». A ilha é o topos cavafiano por excelência, e o seu poema-matriz é, naturalmente, «Ítaca» (Kaváfis, 1992). Mas — tal como sucedeu com a Ode Marítima — a convocação opera por inversão. Em Kaváfis, Ítaca é o destino que dá sentido à viagem mesmo sabendo-se que, ao chegar, a ilha será pobre e não terá mais nada para dar: o que importa é o caminho, a viagem longa cheia de aventuras e de saber. Ítaca justifica o percurso ainda que decepcione na chegada.

Em «Desencontro», ao invés, a ilha já não se alcança — e não porque a viagem seja longa, mas porque o próprio desejo de chegar se dissolveu na neblina: «Onde eu não chego / Nem com o olhar». Repare-se na gradação terrível: não chegar com o corpo seria limitação física, vencível; não chegar nem com o olhar é impossibilidade absoluta, porque o olhar é o que alcança o que o corpo não pode. Quando nem o olhar chega, é porque a própria visão se rendeu. A Ítaca de «Desencontro» não decepciona na chegada, como a de Kaváfis: proíbe a chegada. É uma Ítaca que se retirou para além do horizonte do desejo, perdida não no espaço, mas na possibilidade.

A presença cavafiana traz ainda o seu tom maior — a dignidade no declínio, que estudei a propósito de «Fascínio» e que aqui regressa transfigurada. Os grandes poemas de Kaváfis sobre a perda — «O Deus abandona António», «A cidade» — ensinam uma só atitude perante o irreparável: não a súplica, não a revolta, mas a aceitação digna, o escutar firme do que parte. O sujeito de «Desencontro» possui esta dignidade. Não implora o regresso da amada; não amaldiçoa a partida; constata-a, sofre-a, e — supremo gesto de dignidade — continua a tentar sonhá-la: «Mas talvez lá chegue / Se com as palavras / Te puder sonhar». Há aqui a mesma têmpera de António na sua última noite alexandrina: aceitar a perda sem a renegar, despedir-se «como convém a um homem digno de tal cidade». A dignidade no fracasso é a forma cavafiana do heroísmo — e «Desencontro» é, neste sentido, um poema heróico, embora do mais silencioso dos heroísmos.

A «cidade» cavafiana ressoa ainda no motivo da rua perdida: «É o desencontro / Da rua perdida, / Antes de chegares, / Já ’stás / De partida». A rua que se perde é parente próxima da cidade que nos segue — em «A cidade», Kaváfis advertia que não há fuga possível, que a cidade interior nos acompanha por toda a parte. Em «Desencontro», a rua é o lugar do cruzamento falhado: o espaço onde dois caminhos se deveriam encontrar e onde, em vez disso, um chega quando o outro já partiu. «Antes de chegares, / Já ’stás / De partida» — a fórmula condensa toda a tragédia do desencontro temporal: não é que os dois não se procurem; é que os seus tempos não coincidem. Quando um chega, o outro já vai. A simultaneidade — condição de todo o encontro — é precisamente o que lhes está vedado.

SZYMBORSKA – A IROMIA, O DETALHE
e a filosofia do «não sei»

Wisława Szymborska, Nobel de 1996, oferece a «Desencontro» uma chave de leitura que tempera a sua gravidade com uma luz inesperada: a da ironia delicada e a da filosofia do não-saber. Szymborska foi a poeta do extraordinário ordinário — aquela que, a partir de uma cebola, de um gato num apartamento vazio, de uma conversa com uma pedra, descobria verdades cósmicas sobre a existência e a mortalidade (Szymborska, 1998). E foi sobretudo a poeta que, no seu discurso Nobel, elevou a expressão «não sei» a princípio sagrado da criação: é o reconhecimento da própria ignorância que move toda a descoberta genuína.

Ora, «Desencontro» é, antes de tudo, um poema construído sobre o «não sei». A expressão regressa como leitmotiv obsessivo: «não sei / O que te dizer», «não sei / Para onde vou», «Não sei que dizer», «não sei / Como cá ficar», «Eu não sei / Onde tu estás», «Não sei / Onde estás», «Que não sei dizer / Nem sei desenhar», «Não sei / Se me ouves». Contar-se-iam quase uma dezena de ocorrências do verbo saber na negativa. Mas — e aqui está a leitura szymborskiana — este «não sei» não é só lamento; é também, no sentido da poeta polaca, honestidade intelectual, recusa da falsa certeza, abertura ao mistério do Outro. O sujeito de «Desencontro» não finge saber onde está a amada nem para onde ela foi; confessa a sua ignorância, e nessa confissão há uma probidade que o engrandece. O «não sei» é a única forma honesta de falar do que se perdeu.

A ironia szymborskiana manifesta-se no poema de modo mais subtil, no refrão «Tu foste / Pra onde?», repetido três vezes com ligeiras variações ao longo do texto. À primeira leitura, é pura dor. Mas a repetição, e sobretudo a anotação «Volto a repetir», introduzem uma distância quase auto-irónica: o sujeito sabe que está a repetir, sabe que a pergunta não terá resposta, e contudo repete-a — como quem reconhece a futilidade do gesto e ainda assim o cumpre, porque é tudo o que lhe resta. Há nisto a delicadeza szymborskiana de quem olha a própria dor com um meio-sorriso melancólico, sem dramatismo, sem grandiloquência. A pergunta «Tu foste / Pra onde?» é, no fundo, a pergunta mais simples e mais infantil — a pergunta de uma criança que procura — e essa simplicidade desarmada é profundamente szymborskiana.

Por fim, o perspectivismo de Szymborska — o seu gosto por mudar de escala, por ver a história humana do ponto de vista de um grão de areia, ou uma tragédia imensa através de um pormenor mínimo — encontra eco na maneira como «Desencontro» concentra uma perda total (a perda do amor, do sentido, do lugar) num gesto mínimo: não conseguir soletrar um nome. «Dizer o teu nome / Com delicadeza / Para o soletrar / Como quem / Te chama / Só com o olhar». Toda a cosmologia da ausência se condensa neste detalhe ínfimo: a incapacidade de pronunciar, sílaba a sílaba, com delicadeza, o nome amado. É o grão de areia de Szymborska — o pormenor minúsculo que contém o universo inteiro da perda.

AMOS OZ: O DESEJO DE CONTAR
 e a impossibilidade de o cumprir

Amos Oz, o grande romancista israelita, comparece em «Desencontro» pela via de uma tensão que percorre toda a sua obra e que tem em A Caixa Negra (Oz, 1987) a sua formulação mais aguda: a tensão entre o desejo de contar e a impossibilidade de contar sem trair. A Caixa Negra é um romance epistolar — feito de cartas entre um casal divorciado, Ilana e Alec, e os que os rodeiam — em que cada carta tenta dizer a verdade do vivido e cada carta, ao dizê-la, a deforma. A «caixa negra» do título é a do avião: o registo que sobrevive ao desastre e que, decifrado, deveria revelar a causa da queda — mas que, como as cartas, só entrega fragmentos, versões, pontos de vista parciais. A verdade total do que se passou entre duas pessoas é, em Oz, indecifrável: cada um tem a sua caixa negra, e nenhuma coincide com a do outro.

«Desencontro» é, à sua escala lírica, uma caixa negra — o registo que sobrevive ao desastre amoroso e que, decifrado, não revela a causa da queda, apenas o facto dela. O sujeito quer contar — «Procuro cantar» — mas não consegue — «Mas já não consigo, / Perdi o teu rasto / E o teu abrigo». O desejo de narrar a perda esbarra na impossibilidade de a narrar sem a trair, sem a reduzir, sem a falsificar. E é por isso que o poema é tão breve, tão entrecortado, tão feito de «não sei»: porque a forma longa, a narração plena, seria já uma traição da complexidade do vivido. Oz ensina que só os fragmentos são honestos; «Desencontro» é todo ele fragmento, registo parcial de uma caixa negra que não entrega o seu segredo.

Há ainda, em Oz, uma sabedoria sobre o amor que «Desencontro» partilha: a de que o amor é, em larga medida, desencontro de narrativas. Ilana e Alec amam-se e destroem-se porque cada um conta uma história diferente do mesmo casamento; o que os separa não é a falta de amor, mas a incompatibilidade das versões. Em «Desencontro», o «tu» partiu «em busca / Dos sonhos / Que te desenhaste» — isto é, partiu para dentro da sua própria narrativa, da história que ela traçou para si e na qual o sujeito já não cabe. O desencontro é, também aqui, desencontro de sonhos, de projectos, de narrativas de vida que deixaram de coincidir. Não houve culpa nem traição: houve divergência de caminhos, como em Oz.

«EPIFANIA»: A ILUSTRAÇÃO
matissiana, fauvista e celaniana

A imagem que acompanha o poema — «Epifania» (JAS, 2023; 79×82 cm, papel de algodão, 310 gr, e verniz Hahnemühle, vidro Artglass AR70) — é, no sentido forte do termo, uma epifania: manifestação do rosto do Outro que, segundo Levinas, me olha antes de eu o ver. Importa lê-la com o mesmo rigor com que se lê o texto, porque texto e imagem formam díptico e cada um diz o que o outro cala.

A paleta é inequivocamente fauvista: laranja violento no fundo, negro profundo na cabeleira e no manto, turquesa nos olhos. O fauvismo de Matisse — que estudei a propósito de «Fascínio» — ensinou a cor como valor expressivo absoluto, libertada da função descritiva (Matisse, 1908). Mas a «Epifania» de JAS depura essa lição pela via do Matisse tardio, o dos papiers découpés e da economia da linha: o traço de contorno que define o rosto e os cabelos é simultaneamente decorativo e expressionista, vibra como nervura, como arabesco, como aquilo a que Matisse chamava a ligne arabesque— a linha que canta. Os fios dourados que se entrelaçam na cabeleira negra são puro arabesco matissiano: ornamento que é, ao mesmo tempo, estrutura e melodia visual.

O fundo alaranjado intenso convoca ainda o neo-impressionismo na sua teoria da cor: o laranja é a cor complementar do azul-turquesa dos olhos, e a justaposição de complementares — princípio que Seurat e Signac sistematizaram a partir de Chevreul (Signac, 1899) — faz vibrar ambas as cores por contraste simultâneo. Os olhos turquesa ardem com intensidade porque o fundo laranja os exalta; é física óptica posta ao serviço da intensidade emocional. O rosto destaca-se do fogo do fundo como uma aparição se destaca da treva — donde, de novo, o título: «Epifania», manifestação luminosa.

Mas o coração da pintura está nos olhos marejados e hipnóticos, e estes são, em rigor, celanianos. No universo de Paul Celan, o olhar é respiração — Atemwende, viragem do fôlego (Celan, 1967) —, o instante em que o silêncio se torna possibilidade de encontro mesmo quando a língua falha. Os olhos da «Epifania» não choram, mas estão húmidos; não falam, mas fitam; não dizem, mas convocam. São olhos que respiram. E é precisamente o que o poema não pode fazer — dizer o rosto perdido — que a pintura cumpre: «Epifania» mostra o rosto que «Desencontro» só quase consegue sonhar. A pintura é a realização plástica do que o texto deixa em promessa. Onde o verso termina em reticências — «Se com as palavras / Te puder sonhar…» —, a imagem responde com a presença plena do rosto fitante. Texto e imagem dizem, juntos, o que nenhum diria sozinho: que o rosto perdido permanece, ainda, a olhar-nos.

Há um pormenor que não pode escapar a uma leitura atenta: os fios dourados que, partindo da cabeleira, se prolongam pelo fundo como uma rede, uma teia, um sistema de raízes ou de nervos. Estes fios são a tinta-da-china do poema feita imagem — o desenho que fixa e que, ao fixar, mostra que o que se desenha é já memória. A cabeleira negra dissolve-se numa rede de ouro que se espraia pelo fundo: a figura espalha-se, espraia-se — exactamente como a amada do poema «se espraia» no mar. A rede dourada é o espraiamento visual da figura, a sua dissolução luminosa no fundo de fogo. Pintura e poema partilham, pois, a mesma operação profunda: a figura que se dissolve sem desaparecer, a presença que se torna rede, contorno, vestígio dourado sobre o fogo da ausência.

O ESPAÇO LITERÁRIO DE BLANCHOT
O livro como promessa

Chego à pedra angular teórica deste ensaio: Maurice Blanchot e a sua meditação sobre o espaço da literatura. Em L’Espace littéraire (Blanchot, 1955), Blanchot sustenta uma tese que parece destinada a iluminar «Desencontro»: a literatura nasce do espaço da ausência e do silêncio, e o verdadeiro livro nunca está plenamente realizado — existe apenas como promessa constante, como aproximação que jamais se cumpre. Blanchot pensa esta condição a propósito de Mallarmé (o Livro absoluto e impossível), de Artaud (a impotência de pensar que se torna matéria de escrita), de Proust (o tempo que só se recupera ao perder-se) e de Broch (a morte de Virgílio e o desejo de queimar a Eneida inacabada).

A noção blanchotiana decisiva é a do désœuvrement — o desobramento, o estado de não-obra. A obra literária autêntica, para Blanchot, nunca se fecha sobre si como produto acabado; permanece aberta, inconclusa, em estado de promessa. Escrever é experimentar a impossibilidade de concluir, a despossessão do autor que perde o domínio sobre aquilo que escreve. O escritor não é senhor da obra; é o lugar por onde a obra passa, deixando-o despojado. Mallarmé não escreveu o Livro; passou a vida a aproximar-se dele. Broch não pôde concluir nem destruir a sua Eneida interior. A obra fica sempre em vésperas de si mesma.

«Desencontro» é, em estado puro, este livro em promessa. O verso final — «Mas talvez lá chegue / Se com as palavras / Te puder sonhar…» — é a fórmula exacta do désœuvrement blanchotiano: o poema não se conclui, abre-se sobre um «talvez» e dissolve-se em reticências. Não há chegada; há promessa de chegada. Não há obra fechada; há o gesto de a tentar, perpetuamente adiado. E a despossessão do autor de que Blanchot fala manifesta-se literalmente no poema: «Fogem-me / As palavras, / Tenteia-me a rima, / Procuro cantar / Mas já não consigo». O sujeito poético é o autor blanchotiano por excelência — aquele que perdeu o domínio sobre a própria linguagem, que vê as palavras fugirem-lhe e a rima tactear no escuro, e que, apesar disso, ou por isso mesmo, continua a escrever. O poema é o vestígio dessa despossessão.

E é aqui que a tese de Blanchot revela toda a sua força para «Desencontro»: se o livro é promessa, então o lugar onde o encontro pode ainda ocorrer não é o passado (onde a amada partiu) nem o presente (onde o sujeito a perdeu), mas o futuro da leitura. O poema, enquanto promessa, fica à espera de quem o leia. O desencontro entre o sujeito e a amada pode transfigurar-se, no espaço literário, em encontro entre o poema e o leitor. Quem agora segura o texto nas mãos é, ele próprio, o lugar onde o desencontro se pode tornar encontro — se, com as palavras, ousar sonhar. A literatura é esta promessa: que o que se perdeu na vida se reencontre na leitura. Não há garantia; há promessa. E a promessa, em Blanchot, é o modo de ser da própria literatura.

O KERIGMA DA AUSÊNCIA
Anúncio pela negativa

A dimensão kerigmática do poema — kerigma, do grego kérygma, o anúncio, a proclamação fundadora — reside, paradoxalmente, na sua negatividade. «NÃO SEI / Onde estás / Nem posso / Chamar». Esta impossibilidade de nomear e de chamar é, ela própria, o anúncio: o **kerygma da ausência. O poema proclama, não uma presença salvífica como o kerigma cristão primitivo, mas a ausência irreparável — e proclama-a com a mesma solenidade fundadora. As maiúsculas que abrem cada bloco estrófico — «ESTOU SEMPRE», «E PORQUE NÃO SEI», «NÃO SEI», «PARTISTE DE VEZ», «TU FOSTE PRA ONDE?» — são tipograficamente vozes de proclamação, anúncios em letra capital, como se cada estrofe fosse um versículo de uma escritura da perda.

Há uma teologia negativa implícita nesta estrutura. Tal como a teologia apofática só pode dizer Deus pelo que Ele não é — via negationis —, «Desencontro» só pode dizer a amada pelo que ela já não é e pelo que o sujeito já não pode: não saber, não poder chamar, não conseguir soletrar, não chegar nem com o olhar. O nome da amada — que o poema nunca pronuncia, significativamente — é o Nome impronunciável, como o Tetragrama que se não diz. «Dizer o teu nome / Com delicadeza / Para o soletrar» — o nome está lá, no centro do desejo, e é precisamente o que não se consegue dizer. O poema gira em torno de um nome ausente como a liturgia gira em torno de um Nome que se não profere. É esta a sua dimensão sagrada: a perda elevada à condição de mistério, o desencontro celebrado como um culto sem deus.

O ENTRE DE BUBER, O ROSTO DE LEVINAS
e o midrash infinito

A matriz ético-filosófica de «Desencontro» — aquela a que dou o nome de seiva anarco-pós-estruturalista, labiríntica e talmúdica — encontra os seus três pilares em Buber, Levinas e na hermenêutica rabínica. Comecemos por Martin Buber. Em Ich und Du (Buber, 1923), Buber ensina que o ser não existe isolado, mas na relação: o «Eu» só se constitui no encontro com o «Tu», e o lugar dessa constituição é o Zwischen — o entre, o intervalo onde a relação acontece. Ora, «Desencontro» é o poema do entre que se fechou. Houve um «entre» — o espaço do encontro amoroso, da sedução, do olhar que entrava no olhar — e esse «entre» colapsou: «É o desencontro». O título do poema é, lido buberianamente, o nome do colapso do Zwischen: o desencontro é o entre tornado vazio, a relação Eu-Tu degradada em ausência mútua.

E contudo — eis a subtileza — o poema não abandona o «Tu». Continua a dirigir-se-lhe: «Tu foste / Pra onde?», «de te sonhar / Até sou capaz». O sujeito fala ainda a um «Tu», mesmo ausente, mesmo perdido. E é isto que salva o poema do solipsismo: a manutenção do vocativo, a teimosia de continuar a chamar mesmo quando «não posso / Chamar». O «Tu» persiste como destinatário ainda quando se ausentou como presença. A relação buberiana sobrevive, paradoxalmente, à sua própria ruptura: continua-se a falar ao Tu que partiu, e nesse falar mantém-se aberto, contra toda a evidência, o Zwischen.

Buber abre a relação; Emmanuel Levinas eleva-a à ética. Em Totalité et Infini (Lévinas, 1961), o visage — o Rosto do Outro — é a epifania que me convoca e me obriga, que precede toda a minha iniciativa e me chama à responsabilidade. A ilustração do poema chama-se, não por acaso, «Epifania»: é o Rosto levinasiano feito pintura, o rosto que «me olha antes de eu o ver». Mas o que «Desencontro» pensa é a situação-limite da ética levinasiana: o que sucede quando o Rosto se retira? Quando o Outro, que me constituía como responsável pela sua presença, se ausenta? A resposta do poema é de uma profundidade ética notável: a responsabilidade sobrevive à ausência do Rosto. O sujeito continua responsável pela amada ausente — continua a procurá-la, a sonhá-la, a tentar dizer-lhe o nome — mesmo quando ela já não está para o convocar. A ética levinasiana radicaliza-se aqui: sou responsável pelo Outro mesmo quando o Outro desapareceu. O Rosto que se retirou continua a obrigar-me.

Por fim, a matriz talmúdica. O Talmud ensina que todo o texto é midrash — comentário infinito, interpretação que nunca se encerra, página que gera sempre nova página em torno do versículo central. Não há leitura última; há a cadeia infinita dos comentadores que se respondem através dos séculos, em torno de um texto que nunca entrega o seu sentido derradeiro. «Desencontro» é, estruturalmente, um midrash da impossibilidade de comentar a perda. O refrão «Tu foste / Pra onde?», retomado e variado, é o gesto talmúdico por excelência: voltar ao mesmo versículo, comentá-lo de novo, e de novo, sabendo que o comentário não esgotará nunca o mistério. «Volto a repetir» — diz o poema —, e este voltar a repetir é a estrutura mesma do estudo talmúdico, o lernen que regressa sempre ao texto sagrado sem nunca o dominar. A perda da amada é o versículo central; o poema é o seu midrash inesgotável.

Daqui decorre a seiva anarco-pós-estruturalista que reconheço nesta leitura. Anarco — do grego an-arché, sem princípio, sem fundamento, sem centro fixo — porque o poema não tem um sentido central a desvelar, mas uma rede de ausências a percorrer. Pós-estruturalista na esteira de Derrida (1967), para quem todo o sentido é différance, diferimento perpétuo, traço que remete para outro traço sem origem nem fim. «Desencontro» não tem fundo nem centro: tem o labirinto — Dédalo sem Minotauro, percurso sem solução — que é, ao mesmo tempo, a estrutura do desejo (que nunca alcança o objecto), a estrutura do texto (que nunca conclui) e a estrutura do comentário (que nunca encerra). É labiríntico porque é, simultaneamente, erótico, literário e talmúdico — três modos de uma só errância sem centro.

O CRIPTOGRAMA KABBALÍSTICO
A gematria afectiva e o livro por vir

Como nos Contos e Psicanálise — a obra em gestação que dialoga com a memória visual e quotidiana de Annie Ernaux, Nobel de 2022, mestra da escrita da memória como arqueologia do íntimo —, «Desencontro» opera por camadas herméticas, e cumpre lê-lo também no seu sentido críptico-kabbalístico. Cada repetição, cada verso truncado, cada branco tipográfico funciona como “gematria afectiva”. A gematria, na tradição cabalística, é o método que atribui valor numérico às letras e descobre, nas equivalências numéricas entre palavras, correspondências ocultas de sentido. A gematria de «Desencontro» não soma números: soma densidades de ausência. Cada «não sei» repetido, cada reticência que suspende a frase, cada fileira de pontos que isola um verso acumula um valor — não aritmético, mas afectivo —, e a soma dessas densidades é o peso total da perda.

Os brancos tipográficos merecem leitura cabalística própria. As longas fileiras de pontos — «……………………» — que separam certos versos não são pausa retórica: são o equivalente gráfico do indizível, o lugar onde a linguagem se cala porque chegou ao limite do que pode dizer. Na mística da letra, o branco entre as palavras da Tora é tão sagrado quanto as palavras — há uma tradição segundo a qual a Tora primordial era feita de fogo branco sobre fogo negro, e o fogo branco (o espaço, o intervalo) continha uma Tora superior à do fogo negro (as letras). Os brancos de «Desencontro» são esse fogo branco: o que não se escreve e que, não se escrevendo, diz mais do que as palavras. O poema revela e oculta simultaneamente — e é nisto que é, no rigor do termo, kabbalístico: mostra o contorno da perda e esconde-lhe o centro, desenha a ausência a tinta-da-china e guarda, no branco, o que nenhuma tinta poderia fixar.

A referência a Annie Ernaux não é ornamental. Ernaux fez da memória do quotidiano e do detalhe visual — uma fotografia, um objecto, uma sensação — o método de uma arqueologia do eu (Ernaux, 2008). «Desencontro» partilha este método: a perda é convocada não por grandes declarações, mas por detalhes mínimos — o brilho de um olhar, uma silhueta, um nome que se não consegue soletrar, a tinta-da-china de um desenho. É uma arqueologia ernauliana da ausência: escavar o quotidiano do amor perdido em busca dos seus vestígios materiais. E tal como em Ernaux a escrita é simultaneamente íntima e impessoal — o «eu» que se torna todos —, também em «Desencontro» a perda singular se eleva a condição universal: todos reconhecemos, no desencontro deste sujeito, o nosso próprio.

ANÁLISE FPX ESTRATIFICADA
 F · P · K · X em acorde

Cumpre, por fim, o exercício metodológico que tenho praticado: a análise estratificada FPX, em que os quatro planos não se hierarquizam nem se sintetizam, mas ressoam em simultaneidade, como as notas de um acorde. F (Filosófico), P (Psicanalítico), K (Cabalístico) e X (a Complexidade Estética omnímoda) dizem, cada um na sua voz, uma camada do poema; só o acorde as diz todas.

F · Plano filosófico — «Desencontro» é, antes de mais, uma meditação sobre a finitude e o tempo. A impossibilidade de coincidência — «Antes de chegares, / Já ’stás / De partida» — é a tradução lírica da estrutura temporal que Heidegger, em Sein und Zeit (Heidegger, 1927), descreveu como Sorge (cuidado) e ser-para-a-morte: o Dasein é sempre projecção para um futuro que o ultrapassa, nunca coincidência plena consigo no presente. O desencontro é a forma amorosa desta não-coincidência ontológica: dois seres temporais cujos instantes não se sobrepõem. E o quase de Jankélévitch, que percorre todo o poema, é a categoria filosófica central — o modo de ser daquilo que aflora sem se fixar, a dignidade do que não se cumpre.

P · Plano psicanalítico — O poema é uma elegia do objecto perdido, e a psicanálise oferece-lhe a sua gramática exacta. Em «Luto e Melancolia» (Freud, 1917), Freud distingue o luto — em que a libido se desliga progressivamente do objecto perdido e se torna de novo disponível — da melancolia — em que o objecto perdido é incorporado no eu, que então se identifica com a perda e a transforma em auto-empobrecimento. «Desencontro» habita o limiar entre ambos: há o trabalho do luto («Perdi o teu rasto / E o teu abrigo»), mas há sobretudo a recusa melancólica de soltar o objecto, a teimosia de continuar a sonhá-lo («de te sonhar / Até sou capaz»). Lacan acrescentaria que a amada é, aqui, o objet petit a — causa do desejo que jamais se possui, em torno do qual a pulsão gira sem o alcançar (Lacan, 1973). A ilha «onde eu não chego / Nem com o olhar» é a figura espacial do objet petit a: aquilo que organiza todo o desejo precisamente por ser inalcançável. O desejo não quer chegar à ilha; quer continuar a desejá-la. Chegar seria o fim do desejo.

K · Plano cabalístico — Já o desenvolvi: a gematria afectiva das repetições, o fogo branco dos intervalos tipográficos, a revelação-e-ocultação simultânea. Acrescente-se a categoria luriânica do Tzimtzum — a retracção de Deus em si mesmo para abrir espaço ao mundo (Scholem, 1941). O sujeito de «Desencontro» realiza um Tzimtzum invertido: não se retrai para dar lugar ao Outro, mas é a ausência do Outro que abre nele um vazio onde antes havia plenitude. «De um lugar / Onde não estou» é o espaço do Tzimtzum — o vazio deixado pela retracção, o lugar esvaziado de presença. E a tarefa do poema é, nesse vazio, um Tikkun impossível: reunir os fragmentos do rosto perdido («Mas já perdi / Teu rosto / E a silhueta»), reparar a quebra — sabendo que a reparação plena não virá, que o Tikkun fica, como o livro de Blanchot, em estado de promessa.

X · Plano da Complexidade Estética omnímoda — É a camada do acorde de correntes, e em «Desencontro» ressoam, em simultaneidade não-redutível: o erotismo nostálgico proustiano e trovadoresco; o dadaísmo existencial da sintaxe entrecortada, do verso estilhaçado e do refrão que regressa; a dramaturgia simbolista do teatro vazio e da neblina; o mot juste flaubertiano do mar e do espraiamento; a Ode Marítima de Pessoa-Campos refeita por inversão; a Ítaca cavafiana que proíbe a chegada e a dignidade no declínio; a ironia e o «não sei» de Szymborska; a “caixa negra” de Amos Oz e o desencontro de narrativas; o fauvismo matissiano e o neo-impressionismo da ilustração «Epifania»; o celanianismo dos olhos que respiram; o espaço literário de Blanchot e o livro em promessa; a memória ernauliana do detalhe. Nenhuma destas correntes esgota o poema; cada uma é uma nota. O X é a camada onde o poema resiste a toda a redução, onde a leitura plural deixa de ser ecletismo e se torna método.

Em simultaneidade quadrivalente — a finitude heideggeriana e o quase jankélévitchiano, o objecto perdido freudo-lacaniano, o Tzimtzum e o Tikkun impossível, a complexidade estética irredutível —, «Desencontro» revela-se inacessível a qualquer leitura isolada. Só o acorde o diz. É a FPX como acorde hermenêutico em quatro vozes, método que defendo como o único respeitoso da espessura ontológica da obra. O sentido não está num ponto; está na vibração entre os planos. O poema não tem fundo; tem densidade estratificada — e essa densidade é o seu modo de honrar a perda sem a trair.

CONCLUSÃO: O DESENCONTRO
como promessa de encontro

Cheguei ao ponto em que as camadas se sobrepõem sem se confundirem. O erotismo da ausência deu o desejo retrospectivo e a memória como tinta-da-china; Jankélévitch deu o quase e a dignidade do que não se cumpre; o simbolismo e o dadaísmo existencial deram o teatro vazio e a sintaxe que se desarticula sob o peso do luto; Flaubert deu o mot juste do espraiamento; Pessoa-Campos deu a Ode refeita por inversão; Kaváfis deu a Ítaca que proíbe a chegada e a dignidade no declínio; Szymborska deu a ironia delicada e o «não sei» como honestidade; Amos Oz deu a caixa negra e o desencontro de narrativas; Matisse, o fauvismo e o neo-impressionismo deram a cor da «Epifania»; Celan deu os olhos que respiram; Blanchot deu o livro em promessa e a despossessão do autor; Buber, Levinas e o Talmud deram o entre, o Rosto que obriga mesmo ausente e o midrash infinito; Ernaux deu a arqueologia do detalhe. Catorze planos, e nenhum esgotou o poema.

Que faz Almeida Santos com tão alta herança? Como em «PALAVRAS» e em «Fascínio», não a exibe — incorpora-a. «Desencontro» é a prova lírica de uma proposição que parece contradição e é verdade: o poema do desencontro é, ele próprio, um lugar de encontro. Pois ao dar à perda a sua forma mais rigorosa — o verso entrecortado, o «não sei» repetido, o verso que se estilhaça, a ilha inalcançável —, o poema cria o espaço onde o leitor reconhece a sua própria perda e, reconhecendo-a, deixa de estar só nela. O desencontro do sujeito com a amada transfigura-se no encontro do leitor com o poema. A ausência tornou-se linguagem; e a linguagem, contra todo o desencontro, tornou-se laço.

Resta a promessa. Como queria Blanchot, o livro permanece em estado de promessa — e «Desencontro» termina, com exactidão, numa promessa: «Mas talvez lá chegue / Se com as palavras / Te puder sonhar…». As reticências não fecham: abrem. O leitor que agora segura o poema é, ele próprio, o lugar onde o desencontro pode ainda tornar-se encontro — se, com as palavras, ousar sonhar. Escrever é, como em «PALAVRAS», acto de rebeldia contra o oblívio; e amar, mesmo na ausência, mesmo no desencontro, é a forma mais alta dessa rebeldia. O poema fica. A amada partiu, mas o seu rosto — como na «Epifania» — continua, ainda, a fitar-nos. E nesse fitar persiste, contra a neblina e o fumo, a promessa de que nem todo o desencontro é definitivo: que algures, na leitura, na palavra, no sonho, o encontro pode ainda dar-se. AMV@05-2026

REFERÊNCIAS
Fontes patentes

Blanchot, M. (1955). L’espace littéraire. Paris: Gallimard.

Ernaux, A. (2008). Les années. Paris: Gallimard.

Flaubert, G. (1857). Madame Bovary: Mœurs de province. Paris: Michel Lévy Frères.

Jankélévitch, V. (1957). Le je-ne-sais-quoi et le presque-rien. Paris: Presses Universitaires de France.

Kaváfis, K. (1992). Os poemas (J. P. Paes, Trad.). Lisboa: Relógio d’Água. (Obras originalmente publicadas entre 1904 e 1933).

Lévinas, E. (1961). Totalité et infini: Essai sur l’extériorité. Haia: Martinus Nijhoff.

Matisse, H. (1908). Notes d’un peintre. Paris: La Grande Revue.

Oz, A. (1987). A caixa negra (M. Serras Pereira, Trad.). Lisboa: Publicações Dom Quixote. (Obra original publicada em 1987).

Pessoa, F. (1944). Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática.

Proust, M. (1913-1927). À la recherche du temps perdu (7 vols.). Paris: Grasset & Gallimard.

Szymborska, W. (1998). Paisagem com grão de areia (J. Bonança, Trad.). Lisboa: Relógio d’Água. (Antologia de obra publicada entre 1957 e 1993).

Fontes latentes

Buber, M. (1923). Ich und Du. Leipzig: Insel Verlag.

Celan, P. (1967). Atemwende. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag.

Derrida, J. (1967). L’écriture et la différence. Paris: Éditions du Seuil.

Freud, S. (1917). Trauer und Melancholie. Leipzig: Internationaler Psychoanalytischer Verlag.

Freud, S. (1920). Jenseits des Lustprinzips. Leipzig: Internationaler Psychoanalytischer Verlag.

Heidegger, M. (1927). Sein und Zeit. Halle an der Saale: Max Niemeyer Verlag.

Lacan, J. (1973). Le Séminaire, livre XI: Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse (J.-A. Miller, Ed.). Paris: Éditions du Seuil.

Rodenbach, G. (1892). Bruges-la-Morte. Paris: Marpon & Flammarion.

Scholem, G. (1941). Major trends in Jewish mysticism. Nova Iorque: Schocken Books.

Signac, P. (1899). D’Eugène Delacroix au néo-impressionnisme. Paris: Éditions de la Revue Blanche.

Tzara, T. (1924). Sept manifestes Dada. Paris: Éditions Jean Budry. (Manifesto Dada originalmente proferido em 1918).

NOTA

As obras de João de Almeida Santos referidas em texto — «Desencontro» e a ilustração «Epifania» (2023), bem como «Palavras» e «Fascínio 2026» — encontram-se disponíveis em https://joaodealmeidasantos.com ou em circulação nas redes, pelo que se citam, segundo a convenção para textos em difusão digital, sem indicação de cidade de edição. Os ensaios próprios «As Palavras em Fuga» e «A Cidade no Olho» (Veríssimo, 2026) seguem idêntica convenção.

Poesia-Pintura

DESENCONTRO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Epifania”
JAS 2023
(79x82, papel de algodão, 310gr,
e verniz Hahnemühle, Artglass AR70)
Original de minha autoria
Maio de 2026
(Ensaio de AMV sobre este Poema
em "Ensaios" n.º 54)

“Epifania” – JAS2023

POEMA – “DESENCONTRO”

ESTOU SEMPRE
A partir

De um lugar
Onde não estou,
Por isso não sei
O que te dizer
Ou então segrede
Para onde vou...

E PORQUE NÃO SEI
Onde agora estou
Também não sei
Para onde vou...

E TU FOSTE
Pra onde,
Que eu não te vejo?
Estou de rosto
Triste
De já te não ver,
É o desencontro
Da rua perdida,
Antes de chegares,
Já ‘stás
De partida...
..................
Não sei que dizer.

EU NÃO TENHO TEMPO
E nem há lugar
Para onde ir,
Mas também não sei
Como cá ficar
Ou se vou partir.
Tu foste
Pra onde?
................
Volto a repetir.

EU NÃO SEI
Onde tu estás
Mas de te sonhar
Até sou capaz...

MAS JÁ PERDI

Teu rosto
E a silhueta,

Só há neblina
Neste sonho meu,
É fumo espesso
Pra cá da cortina
Deste vão teatro
Que a vida me deu
E a que a tristeza

Sempre me destina.

 ATÉ TE SONHAR
Se tornou difícil
Porque já perdi
O intenso brilho
Desse teu olhar
Por onde entrava
A luz
Dos meus olhos

Pra te seduzir,
Pra te conquistar.

NÃO SEI
Onde estás

Nem posso
Chamar,

Dizer o teu nome
Com delicadeza
Para o soletrar
Como quem
Te chama
Só com o olhar.

PARTISTE DE VEZ
Pra outro lugar
Que não sei dizer
Nem sei desenhar,
Fogem-me

As palavras,
Tenteia-me a rima,
Procuro cantar
Mas já não consigo,
Perdi o teu rasto
E o teu abrigo.

NEM SEI
Se me ouves

Lá onde

Te encontras

Em busca

Dos sonhos

Que te desenhaste
A tinta-da-china
Onde te encontrei
Quando eu cantava
Com a melhor rima.

TU FOSTE PRA ONDE?
Fugiste de mim,
Na maré revolta
Dessas altas ondas
Que dão vida
Ao mar
Onde tu t’espraias
Cada amanhecer
Sem nunca parar
Em todos os dias
Desse teu viver.

TU FOSTE PRA ONDE
Na hora sombria
De um entardecer?
Para uma ilha
Perdida no mar
Onde eu não chego
Nem com o olhar?
...................
Mas talvez lá chegue
Se com as palavras
Te puder sonhar...

Artigo-Ensaio

AS PALAVRAS EM FUGA

METAPOESIA, PULSÃO E OBLÍVIO 
EM «PALAVRAS»
DE JOÃO DE ALMEIDA SANTOS
Releitura argumentativa e cartografia
das correntes patentes e latentes

André Moshe Veríssimo, PhD

“PALAVRAS” – JAS2026

LIMIAR

HÂ POEMAS que falam da linguagem; e há poemas que, ao falarem dela, a obrigam a confessar-se. «PALAVRAS», de João de Almeida Santos, pertence à segunda estirpe, mais rara e mais perigosa: é um texto que não descreve a impossibilidade — encena-a, e dessa encenação extrai a sua única possibilidade. Tomei já, em análise anterior, este poema como «um dos mais densos exercícios de metapoesia da literatura portuguesa contemporânea» e sustentei que «um poema genuíno nasce exactamente porque as palavras fugiram». O presente ensaio não revoga aquela tese: radicaliza-a. Pretendo demonstrar que a fuga das palavras não é o acidente que ameaça o poema, mas a sua causa formal — no sentido aristotélico do termo —, e que toda a arquitectura do texto, do branco tipográfico à sucumbência final, está ao serviço de uma única operação: converter a ausência em inscrição.

Para o fazer, convoco em densidade as correntes que então apenas nomeei. Onde antes apontei Pessoa, Mallarmé, o Dadaísmo, Rimbaud e o experimentalismo português, leio agora obras determinadas, e cruzo-as com as molduras filosóficas — Adorno, Freud, Lacan, Levinas — que permitem ao poema ser pensado para além do impressionismo crítico. A hipótese de leitura é simples de enunciar e exigente de provar: «PALAVRAS» é uma dialéctica negativa em verso, um poema que só se constitui pela negação daquilo que o constitui.

A CONSTITUIÇÃO PELA NEGAÇÃO
O sistema em crise e a dialéctica negativa

O sistema poético de «PALAVRAS» declara, logo na sua sintaxe visual, um estado de excepção. A moldura anafórica — «QUERIA FAZER-TE / Um poema» — abre e quase encerra o texto (estrofes 1 e 8), mas regressa transfigurada: o que era projecto torna-se constatação de ruína. Entre os dois pólos da moldura instala-se um campo de forças em que as unidades mínimas, as palavras, se recusam à totalidade. Esta recusa não é desordem gratuita: é princípio construtivo.

É aqui que a dialéctica negativa de Adorno (1966) se revela mais do que metáfora cómoda. Para Adorno, o pensamento que se quer fiel ao objecto deve resistir à violência da síntese, àquilo que ele chama o Identitätszwang — a coacção da identidade que força o não-idêntico a caber no conceito. O poema de Almeida Santos pratica, no plano lírico, exactamente esta resistência: as palavras «procurando / Outras formas / Para além da minha / Rima» são o não-idêntico em revolta contra o sujeito que as quereria «alinhadas». A rima — figura máxima da identidade sonora, do retorno do mesmo — é precisamente o que as letras «deslaçadas» repudiam. O poema constitui-se, portanto, como Adorno quereria que se constituísse um pensamento honesto: pela suspensão da reconciliação. Não há Aufhebung, não há superação que recupere a perda num sentido mais alto. Há apenas o rasto.

Daí que a imagem nuclear seja a do novelo desfeito: «Como fios / De um novelo / Já desfeito / De sentido / Como a água / Do gelo». O novelo é o emblema antigo do texto — textus, tecido, fio que se devolve (lembremo-nos do fio de Ariadne, da tela de Penélope desfeita cada noite). Aqui, porém, o fio não conduz à saída do labirinto nem adia a chegada do pretendente: dissolve-se. A comparação com «a água do gelo» introduz uma física da entropia — a forma (gelo) perde-se na ausência de forma (água) por simples elevação de temperatura, e essa temperatura, sabemo-lo pelas estrofes seguintes, é a da «forte emoção». O calor do afecto desfaz a cristalização da forma. Eis a primeira grande inversão do poema: aquilo que a tradição romântica tomava por fonte do canto — a emoção — é aqui o agente da sua dissolução.

O ANIMISMO DA LINGUAGEM E A PULSÃO 
Uma leitura freudo-lacaniana

As palavras de «PALAVRAS» não são instrumentos: são entes. «Esgueiraram / Rua fora», «esvoaçar / Ao fundo / Daquela rua», «fogem pra longe», «assustadas». Este animismo da linguagem — a atribuição de vontade e fuga ao que deveria ser dócil matéria significante — pede a psicanálise como chave, e o próprio poema o sabe, pois inscreve sem pudor o léxico da pulsão: «pulsão / Do desejo», «íntimo / Recanto», e a comparação, de uma audácia notável, das palavras a «espermatozóides» — letras «desenhadas ou assustadas».

Em Freud (1905), a Trieb — a pulsão — define-se justamente pela sua mobilidade, pela errância do seu objecto. A pulsão não tem objecto fixo; contorna-o, falha-o, reincide. Ora, é precisamente este o regime de movimento das palavras no poema: não vão para onde o poeta as destina, esgueiram-se, aninham-se «no passeio», sobem «por outra tela». A linguagem comporta-se como a libido freudiana: investe, desinveste, desloca-se. E quando o poeta tenta «o versejo / Capturado / No enleio / Dessa pulsão / Do desejo», o que descreve é a própria estrutura do fort-da analisado por Freud (1920) em Para além do princípio do prazer: o objecto que se afasta e se chama, a presença que só se constitui sobre o fundo da ausência.

Lacan permite ir mais longe. Para Lacan (1966), o significante não representa uma coisa: representa o sujeito para outro significante, e desliza incessantemente sob a barra que o separa do significado. A célebre primazia do significante traduz-se, em «PALAVRAS», na autonomia soberana das letras que «perdem forma» e «procuram outras formas» alheias à intenção do «eu». O poeta deseja a langue — o sistema dócil — e recebe a lalangue, esse aquém da língua feito de equívoco, ritmo e gozo, onde o sentido se desfaz em pura materialidade sonora. O «íntimo / Recanto / Onde resistia / À saudade» é, na leitura lacaniana, o lugar do objet petit a: causa do desejo, jamais possuída, em torno da qual a pulsão gira sem nunca a alcançar. E a «sucumbência das palavras» — a sua perda no «ponto / Do infinito» — assume a ressonância de uma perda seminal, de uma jouissance que falha, de um gozo que se escoa antes de se inscrever. O poema é, neste plano, a elegia de uma ejaculação frustrada do sentido.

Cumpre, porém, resistir à tentação reducionista. A leitura psicanalítica não esgota o poema; ilumina-lhe um estrato. O erotismo da escrita que Almeida Santos põe a nu reencontra-se, de resto, noutro texto seu, «Musa», onde a figura da musa é simultaneamente origem e fuga do canto — o que confirma, à escala do corpus, que a relação do poeta com a linguagem é, para este autor, sempre uma relação de desejo e de perda, nunca de posse.

PESSOA E O DESDOBRAMENTO HETERONÍMICO
A Musa, o Poeta e o Desassossego

O verso «(Diz o poeta / À musa)» é, em aparência, uma simples didascália. Mas instala no coração do texto o dispositivo maior da modernidade portuguesa: o desdobramento do sujeito. Quem fala? Não o poeta, mas alguém que cita o poeta a dirigir-se à musa. Há, pois, três instâncias — o que diz, o poeta dito, a musa — e nenhuma coincide com o «eu» empírico. Estamos no território de Pessoa, e não por alusão vaga, mas por homologia estrutural precisa.

A heteronímia pessoana não é, como a vulgata repete, mera galeria de personagens. É a descoberta de que o sujeito lírico é constitutivamente plural, de que «o poeta é um fingidor» (Pessoa, 1934) — fingidor que «finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente». Ora, eis o nó: «PALAVRAS» reescreve este teorema. O poeta confessa «EU ESTAVA / A mentir», e contudo a sua mentira é movida pela saudade verdadeira. A mentira da forma e a verdade do afecto: é a fórmula exacta da Autopsicografia. Almeida Santos não imita Pessoa; pensa com Pessoa o mesmo problema — o da distância irredutível entre o sentir e o dizer, entre o sujeito e a máscara que o profere.

Mas qual heterónimo preside? Sustento que dois. O primeiro é Bernardo Soares, o semi-heterónimo do Livro do Desassossego (Pessoa, 1982), arquivista que faz da própria desistência matéria de prosa e que descobre, na renúncia, uma forma de criação. O «recanto íntimo» de Almeida Santos é parente próximo do quarto da Rua dos Douradores onde Soares converte o tédio em estilo: ambos são espaços de resistência pela interioridade, células onde o sujeito se guarda do mundo e, guardando-se, se escreve. O segundo é Álvaro de Campos, e aqui a prova é o mar. O fecho de «PALAVRAS» — «Vou sucumbir / Às saudades / Do teu mar» — não pode ler-se sem a Ode Marítima (Pessoa, 1944), esse grande poema em que o sujeito se dissolve no apelo do cais, do navio, do oceano, até à exaustão e ao regresso. Em Campos, o mar é o lugar da dissolução desejada do eu na totalidade sensível; em Almeida Santos, é o destino último para onde as palavras fogem e para onde o próprio poeta se sente sucumbir. O oceano pessoano de plenitude e o oceano de oblívio comunicam por um mesmo canal subterrâneo: a Sehnsucht, a saudade como categoria do ser e não apenas do sentimento.

Acrescente-se a fragmentação tipográfica — as maiúsculas súbitas, os versos curtíssimos, a elipse longa de pontos suspensivos que mimetiza o silêncio do passeio onde as palavras se aninham. É o desassossego feito mancha gráfica: a página torna-se, como em Soares, o lugar onde o caos interior ganha a única ordem possível, que é a ordem do fragmento. O sujeito não se unifica; expõe a sua fractura. E nisto «PALAVRAS» é rigorosamente moderno: recusa a consolação da forma fechada.

A HERANÇA SIMBOLISTA
Mallarmé e o lance de dados

Se há um antepassado tutelar do branco da página como matéria significante, esse antepassado chama-se Mallarmé. Em Un coup de dés jamais n’abolira le hasard (Mallarmé, 1914), o espaço em branco deixa de ser fundo neutro para se tornar componente activo da significação: o silêncio tipográfico passa a significar, a constelação das palavras dispersas no blanc desenha um pensamento que a sintaxe linear não poderia conter. O verso liberta-se da linha; a página torna-se partitura.

Ora, «PALAVRAS» é herdeiro directo desta revolução, mas opera-lhe um desvio decisivo. Em Mallarmé, a dispersão é soberana — o Mestre que lança os dados domina, ainda que tragicamente, o acaso que não abole. Em Almeida Santos, a dispersão é sofrida: as palavras não são lançadas pelo poeta, fogem-lhe das mãos. O «ponto / Do infinito» e o «fio / Do horizonte» onde as palavras se perdem são a tradução lírica do blanc mallarmaico, mas habitados por uma angústia que o frio cálculo do Mestre francês mantinha à distância. Onde Mallarmé constrói uma metafísica do acaso, Almeida Santos vive uma fenomenologia da perda. O lance de dados português não abole o acaso: é abolido por ele.

O parentesco com o Simbolismo confirma-se na sinestesia da forma: as palavras têm «sabor / A crueldade», a emoção tem temperatura, o sentido tem textura de fio. Esta tradução de uma ordem sensorial noutra é assinatura simbolista, de Baudelaire a Mallarmé — e reaparece, de resto, em «Dança da Solidão», outro poema do autor cuja filiação no Decadentismo e no Impressionismo Literário já tive ocasião de cartografar, e onde a mesma economia sinestésica converte estados de alma em paisagens.

RIMBAUD, BRETON e o DÉRÈGLEMENT
A fuga como vidência e automatismo

A autonomia das palavras — que «voavam / No fio / Do horizonte», que se movem «sem critério / E sem norma» — convoca a linhagem que faz da desregulação um método. Rimbaud, nas Lettres dites du voyant (1871), formulou o programa: o poeta torna-se vidente «par un long, immense et raisonné dérèglement de tous les sens». E acrescentou a fórmula que abala toda a teoria clássica do sujeito: Je est un autre — o eu é um outro. Em «PALAVRAS», o poeta é justamente expropriado da sua própria linguagem; o «eu» assiste, impotente, à vida autónoma das suas palavras, como o vidente rimbaudiano assiste ao desabrochar do seu pensamento «como uma flor». A frase «Eu bem as via / Esvoaçar» é a postura exacta do voyant: ver, não dominar.

Breton, no Manifeste du surréalisme (1924), institucionaliza esta passividade activa sob o nome de automatismo psíquico: o ditado do pensamento na ausência de todo o controlo exercido pela razão, fora de toda a preocupação estética ou moral. As palavras que fogem «sem critério / E sem norma» são, no rigor do termo, palavras em regime automático — escapam à censura do «querer». Há, todavia, uma diferença que importa não apagar: no Surrealismo, o automatismo é libertação, abertura ao maravilhoso; em Almeida Santos, é despossessão dolorosa. O poeta não celebra a fuga das palavras: lamenta-a. Eis por que falo, mais adiante, de um dadaísmo existencial — uma vanguarda da ruptura vivida não como festa, mas como ferida.

DADAÍSMO EXISTENCIAL
Tzara, Ball e a revolta sem norma

Nenhuma corrente está tão presente no estrato subliminar de «PALAVRAS» como o Dadaísmo, e nenhuma exige tanta precisão para não cair no anacronismo. Tzara, no Manifeste Dada 1918 (recolhido em Tzara, 1924), proclama o desprezo pela lógica, pela sintaxe organizadora, pela obra como produto acabado; reivindica a espontaneidade, o acaso, a destruição das «gavetas» do pensamento. A «revolta / Sofrida», os «riscos / Erráticos», as letras que se recusam à ordem da rima — tudo isto respira o ar de Zurique, do Cabaret Voltaire, da poesia que se faz contra a própria instituição da poesia.

E é aqui que Hugo Ball se torna indispensável. Ball, criador dos Lautgedichte — os poemas fonéticos em que a palavra se desfaz nos seus elementos sonoros, libertando-se do sentido —, narrou em Die Flucht aus der Zeit (Ball, 1927) a fuga para fora do tempo e da significação como gesto simultaneamente místico e desesperado. Ora, as «letras / Perdendo forma» de Almeida Santos são parentes próximas dos fonemas soltos de Ball: ambos os textos assistem à desintegração da palavra na sua matéria. Acrescente-se Schwitters e o Merz, a colagem feita de fragmentos e detritos: as palavras «aninhadas / No passeio», recolhidas como restos urbanos, têm dessa estética da recuperação do desperdício.

Mas — e este é o ponto crítico — o Dada histórico era celebratório no seu niilismo: ria-se das ruínas. «PALAVRAS» não se ri. A sua revolta é «sofrida», o seu absurdo dói. Proponho, por isso, a categoria de dadaísmo existencial: a herança formal da vanguarda (fragmentação, acaso, recusa da norma) posta ao serviço de um conteúdo que o Dada histórico expressamente excluía — a dor do sujeito, a angústia do oblívio, a verdade do afecto. Almeida Santos faz com o Dada o que Celan fará com o silêncio: torna trágico o que era provocação.

O EXPERIMENTALISMO PORTUGUÊS
Hatherly, Aragão e Herberto Hélder

A dimensão visual do poema — as «letras / Desenhadas», os «riscos / Em outra tela / A subir / Por ela acima», a própria ilustração «Perfil de um Poeta» que com o texto forma díptico — inscreve «PALAVRAS» na tradição da Poesia Experimental Portuguesa, a PO.EX. Ana Hatherly, em A Reinvenção da Leitura (Hatherly, 1975) e no volume teórico PO.EX organizado com Melo e Castro (Hatherly & Melo e Castro, 1981), defendeu a leitura como acto produtor, e a página como espaço plástico onde a letra é simultaneamente signo e desenho. As letras «desenhadas» de Almeida Santos realizam, em chave lírica, a tese hatherliana: a escrita regressa à sua origem icónica, à fronteira em que o alfabeto ainda recorda que foi figura.

De António Aragão herda o poema o gosto pela materialidade do significante, pela palavra-objecto que se manipula e fractura. E de Herberto Helder — o maior dos nossos visionários — herda algo mais fundo: a visceralidade do corpo-linguagem. Em Helder (1996), a palavra é carne, é fluxo orgânico, é energia que percorre o poema como sangue. Os «espermatozóides / Letras» de Almeida Santos são, nesta linhagem, profundamente helderianos: a linguagem é tratada como matéria seminal, como corpo que deseja e se esgota. O experimentalismo português dá, assim, ao poema não só a sua gramática visual, mas a sua carnalidade.

CELAN E A LINGUAGEM DEPOIS DO TRAUMA
A cinza fértil

Resta o estrato mais difícil, aquele que justifica a expressão «espaços gnosiologicamente férteis». Paul Celan, sobrevivente que escreveu na língua dos algozes, ensinou que a linguagem depois do desastre não regressa intacta: regressa atravessada de silêncio, de cesura, de respiração interrompida — aquilo a que chamou Atemwende, a viragem do fôlego. No discurso Der Meridian (Celan, 1961), o poema é descrito como um caminho que se faz na proximidade do calar-se, à beira do mutismo. A poesia de Celan não preenche: deixa ver a falha, e na falha deposita o seu sentido.

Ora, «PALAVRAS» é, à sua escala e no seu registo, um poema da Atemwende. A elipse de pontos suspensivos — «………….» — é uma cesura celaniana: o lugar onde o fôlego vira, onde a palavra falta e essa falta significa. O poema chega, no fecho, ao limiar do mutismo: «Estou sem palavras, / Amor». E contudo — paradoxo decisivo — di-lo. A afasia é declarada por meio da própria linguagem que se diz perdida. É a operação celaniana por excelência: fazer do silêncio matéria de canto, da cinza um solo fértil. O não-saber torna-se aqui via de conhecimento: o poeta conhece a sua nudez precisamente porque perdeu as palavras que a vestiam.

O MAR COMO OUTRO
Saudade camoniana, Dor schopenhaueriana
e Rosto levinasiano

Tríplice é a espessura do verso final. Primeiro, a saudade camoniana: «Saudades / Do teu mar» reactiva o grande tópico da lírica nacional, o mar de Camões — destino heróico nos Lusíadas (Camões, 1572), mas também, nas Rimas (Camões, 1980), espaço de perda, de naufrágio e de ausência da amada. Almeida Santos radicaliza o segundo Camões: o mar já não é via para a glória, mas oceano de dissolução, lugar onde o eu se afoga na falta.

Segundo, a dor como condição do canto, que é tese schopenhaueriana e nietzschiana. «O poema / Passarinho / Procura-me / Para cantar / Mas se eu / Não sentir dor / É ele que foge / A voar». Para Schopenhauer (1819), a arte é o único repouso momentâneo na roda do sofrimento da vontade; o canto nasce da dor porque só a dor suspende, por um instante, o querer cego. Para Nietzsche (1872), o lírico é o artista dionisíaco que canta a partir do fundo doloroso do uno-primordial. Almeida Santos inverte a tradição do rouxinol inspirador: o seu pássaro só canta na ferida — e nisto dialoga com a melancolia que percorre «Dança da Solidão», onde o mesmo nexo entre solidão, dor e expressão se desdobra.

Terceiro, e culminante, o rosto do Outro. Quando o poema nomeia o mar como «teu» — «o teu mar mar oceano», na variante do prefácio — o oceano deixa de ser paisagem e torna-se alteridade. Levinas (1988), em Totalité et Infini, ensina que o Outro não é objecto que eu compreenda e domine, mas Rosto que me convoca, que me excede, que me chama à responsabilidade desde uma altura que não posso totalizar. O «Amor que é o sujeito outro» do prefácio é, com precisão levinasiana, o outro que não se reduz ao mesmo. E o mar — infinito, intotalizável — é a figura sensível desse Infinito. As palavras fogem para o Outro; o poeta sucumbe ao Outro; e nessa sucumbência há, paradoxalmente, a única ética possível: a entrega àquilo que me ultrapassa. O oblívio temido converte-se, no limiar do verso, em abertura ao infinito.

CONCLUSÃO
O triunfo da falha

Cheguei ao ponto em que as correntes se entrecruzam num só nó. Adorno deu-nos a forma — a constituição pela negação. Freud e Lacan deram-nos a pulsão — a linguagem como desejo que falha o seu objecto. Pessoa deu-nos o sujeito plural — o poeta que finge a dor que sente. Mallarmé deu-nos o branco — o silêncio que significa. Rimbaud e Breton deram-nos a fuga — o eu que é um outro, a palavra automática. O Dada de Tzara e Ball deu-nos a revolta sem norma, que Almeida Santos tornou sofrida. O experimentalismo de Hatherly e Helder deu-nos a carne e o desenho da letra. Celan deu-nos a cesura — o canto que nasce da cinza. E Levinas deu-nos o destino — o mar como Rosto do Outro.

Que faz Almeida Santos com tão alta herança? Não a exibe: incorpora-a. «PALAVRAS» é a prova viva de uma proposição que parece contradição e é verdade: o poema realiza-se exactamente no acto em que se declara impossível. Ao dizer «Estou sem palavras», o poeta usa as palavras que afirma ter perdido; ao narrar a fuga, fixa-a; ao confessar a afasia, canta-a. A falha não é o fracasso do poema — é o seu triunfo. O medo do oblívio, que o autor define como medo da insignificância, é vencido pelo próprio gesto de o inscrever. Escrever, como Almeida Santos repetidamente sustenta, é acto de rebeldia contra o oblívio; e este poema é, em estado puro, esse acto.

Resta o rasto. As palavras, mesmo fugindo, deixaram-no; e o rasto — a marca da sua passagem no branco da página — é, ele próprio, a vitória. Porque a poesia, no fim, não é a posse das palavras: é a fidelidade ao lugar de onde elas partiram. João de Almeida Santos guardou esse lugar. E nele, contra todo o silêncio, o passarinho cantou. AMV@05-2026

REFERÊNCIAS
Fontes patentes

Camões, L. de. (1572). Os Lusíadas. Lisboa: Antonio Gõçalvez.

Camões, L. de. (1980). Rimas (Á. J. da Costa Pimpão, Ed.). Coimbra: Atlântida.

Helder, H. (1996). Poesia toda. Lisboa: Assírio & Alvim.

Hatherly, A. (1975). A reinvenção da leitura: Breve ensaio crítico seguido de 19 textos visuais. Lisboa: Editorial Futura.

Hatherly, A., & Melo e Castro, E. M. de. (1981). PO.EX: Textos teóricos e documentos da poesia experimental portuguesa. Lisboa: Moraes Editores.

Mallarmé, S. (1914). Un coup de dés jamais n’abolira le hasard. Paris: Éditions de la Nouvelle Revue Française. (Obra originalmente publicada em 1897)

Pessoa, F. (1934). Mensagem. Lisboa: Parceria António Maria Pereira.

Pessoa, F. (1944). Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática.

Pessoa, F. (1982). Livro do desassossego, por Bernardo Soares (J. do Prado Coelho, M. A. Galhoz, & T. S. Cunha, Eds.). Lisboa: Ática.

Rimbaud, A. (1972). Œuvres complètes (A. Adam, Ed.). Paris: Gallimard. (Cartas «do vidente» originalmente escritas em 1871)

Fontes latentes

Adorno, T. W. (1966). Negative Dialektik. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag.

Ball, H. (1927). Die Flucht aus der Zeit. München: Duncker & Humblot.

Breton, A. (1924). Manifeste du surréalisme. Paris: Éditions du Sagittaire.

Celan, P. (1961). Der Meridian: Rede anlässlich der Verleihung des Georg-Büchner-Preises. Frankfurt am Main: S. Fischer Verlag.

Freud, S. (1905). Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. Leipzig: Franz Deuticke.

Freud, S. (1920). Jenseits des Lustprinzips. Leipzig: Internationaler Psychoanalytischer Verlag.

Lacan, J. (1966). Écrits. Paris: Éditions du Seuil.

Levinas, E. (1988). Totalidade e infinito (J. P. Ribeiro, Trad.). Lisboa: Edições 70. (Obra original publicada em 1961)

Nietzsche, F. (1872). Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik. Leipzig: E. W. Fritzsch.

Schopenhauer, A. (1819). Die Welt als Wille und Vorstellung. Leipzig: F. A. Brockhaus.

Tzara, T. (1924). Sept manifestes Dada. Paris: Éditions Jean Budry. (Manifesto Dada originalmente proferido em 1918)

NOTA: As obras de João de Almeida Santos referidas em texto — «PALAVRAS», «MUSA» e «DANÇA DA SOLIDÃO» (todas de 2026) — encontram-se em https://joaodealmeidasantos.com , pelo que se citam, segundo a convenção para textos online, sem indicação de cidade de edição.