Berlusconi ou o «eterno retorno»

1. A Itália foi a votos em 2008 e trouxe de novo Berlusconi: «Unto del Signore», como ele, uma vez, disse de si próprio. Pela terceira vez (1994, 2001 e 2008). 1994 foi o início de um longo percurso de sucessos eleitorais. Em boa verdade, quase poderíamos dizer que, em catorze anos e cinco eleições legislativas, Silvio Berlusconi ganhou quatro, tendo perdido as de 1996 porque falhou a aliança com Umberto Bossi (que obteve 10,1% dos votos). Em 2006, ganhou-as em território nacional (mais 400.000 votos do que a esquerda), mas perdeu-as com os votos dos italianos residentes no estrangeiro (menos 425.000 votos do que a esquerda). O que se compreende, se considerarmos que o seu poder de fogo mediático não atinge tanto os italianos residentes no estrangeiro, mais influenciados por uma informação que lhe é genericamente desfavorável. Ou seja, as vitórias de Berlusconi parece terem-se tornado norma. Ou não fosse ele «Unto del Signore». Por isso, talvez 1994 não tenha sido, afinal, um «golpe de Estado mediático», como dizia Paul Virilio, no seu livro «L’art du moteur», no Posfácio à edição italiana («Lo schermo e l’oblio», Anabasi, Milano, 1994). Talvez tenha sido mais o início do processo de instalação de um sistema inovador na construção do consenso político. Sistema que, numa palavra, se pode definir pela prioridade da procura em relação à oferta, no mercado eleitoral. «Forza Italia» – e agora «Il Popolo della Libertà» (PdL) – rapidamente passou a ser o maior partido italiano.

2. No centro-esquerda, o «Partito Democratico», de Walter Veltroni, e hoje de Dario Franceschini, garantiu a segunda posição, com cerca de 4 pontos abaixo do «Popolo della Libertà»: em média (Câmara e Senado), 33,6% contra 37,4%. Parece, pois, ter-se iniciado o processo de bipolarização do sistema partidário italiano, acabando de vez com o minipartidarismo. A Câmara e o Senado passaram, a partir de então, a ter um reduzido número de formações políticas: PdL, PD, Liga, UDC, «Italia dei Valori». Estamos, portanto, perante uma racionalização do sistema, induzida pela bipolarização e complementada pelo «sbarramento» dos 4% (Camera dei Deputati) e dos 8% (Senato). E, todavia, as recentes eleições para o Parlamento Europeu vieram reforçar de forma consistente a «Italia dei Valori», de Antonio di Pietro, como segunda força política à esquerda.

3. Acontece, todavia, que se o PD estava formado em todas as suas estruturas e liderança, depois de um longo processo que terminou com as primárias para a eleição do líder, em que participaram mais de três milhões de cidadãos, o PdL acabou por se formar somente como partido eleitoral, não se tendo verificado, então, um efectivo processo de fusão interna e de eleição do respectivo líder. Nem vejo bem como seria isto possível, sendo um dos partidos – «Forza Italia» – um «partido pessoal», feito à medida do Berlusconi-empresário, com características muito diferentes dos partidos tradicionais e muito dependente das estruturas e das elites empresariais do grupo de Berlusconi. Não antevejo, por isso, facilidades na fusão de «Forza Italia» com «Alleanza Nazionale». Sobretudo, agora, que ganharam as eleições. Mas a verdade é que acabariam por se fundir organicamente. E, todavia, continuo a não ver facilidades neste processo, sobretudo depois dos recentes escândalos que abalaram Berlusconi e de um efectivo mal-estar no novo partido. Vamos ver o que acontecerá no futuro.

4. Posto isto, há que reflectir sobre a permanente dinâmica de vitória de Berlusconi. Tanto mais que ele deixou, após 5 anos de governo (2001-2006), um país com graves problemas económicos e de finanças públicas. Um só índice: segundo o «Institut for Management Development», de Genebra, neste período, o índice de competitividade de Itália caiu da 14.ª para a 53.ª posição. Por outro lado, Berlusconi legislou e agiu com muita intensidade em proveito próprio! Vejamos, com Alexander Stille («Citizen Berlusconi», Milano, Garzanti, 2006): com o «perdão fiscal» ele poupou cerca de 120 milhões de euros à sua Mediaset; fez sair a RAI da competição pelos direitos de transmissão dos desafios de futebol, deixando livre Mediaset; aprovou uma lei sobre o património cultural italiano de modo a permitir a construção na costa sarda, sendo ele um dos principais beneficiários; despenalizou o crime de «falso in bilancio», que tinha forte incidência nos processos legais que corriam contra ele e seus colaboradores; introduziu fortes restrições nas cartas rogatórias internacionais, ajudando, assim, os seus colaboradores nos processos judiciais; legislou de modo a resolver os problemas das suas televisões. E mais, muito mais. Por exemplo, o acordo leonino de Mediolanum com os correios italianos para a venda de produtos financeiros, a lei do «legittimo sospetto» ou a alteração da legislação napoleónica sobre a lei das sepulturas para que ele próprio e a sua família pudessem ser sepultados no mausoléu que mandou construir na sua Villa de Arcore (pp. 319-331). Autênticos «interessi privati in atti di ufficio», como se diz em Italia!

5. Ora, com um governo assim, como se explica a vitória de 2008? Claro, o governo de Prodi teve pouco tempo, tinha inúmeros problemas de gestão política interna e teve a gravíssima questão do lixo em Nápoles. Estava refém dos humores e dos dissabores pessoais de pequenos líderes, como Clemente Mastella. Que acabaram por fazê-lo cair. Mesmo assim, os grandes índices macroeconómicos de Prodi, em menos de dois anos de governo, são globalmente melhores do que os do quinquénio de Berlusconi: no desemprego (6,4% de Prodi contra 8,3% de Berlusconi), na dívida pública (104,5% contra 105,7%), no défice (3% contra 3,4%) e no crescimento do PIB (cerca de 1.4% contra 1%). Estes são valores que resultam da média dos valores conseguidos nos anos de governo de Berlusconi (2001-2006) e de Prodi (2006-2008). Mas a verdade é que a questão é mais profunda e tem já raízes históricas.

6. Na verdade, em 1994, Berlusconi conseguira, na sequência da desagregação integral do sistema de partidos italiano, e no fim de um processo que durou nove meses, ocupar estavelmente o terreno político deixado livre pela extinta DC, federando (territorialmente) a direita em torno do seu partido (Forza Italia) e da sua pessoa e garantindo a base política orgânica necessária para a construção de uma vitória eleitoral. Para isto, fundou um «partido de novo tipo», um autêntico «partido pessoal», meio electivo (no plano sub-regional) e meio profissional (no plano supra-regional), dotado de uma forte e estável liderança, carismática e omnipotente, de grandes recursos financeiros e técnico-profissionais (provenientes do seu grupo económico – Fininvest) e de poderosos meios de conquista do mercado eleitoral (sobretudo as suas televisões: Italia 1, Retequattro e Canale 5), concebendo a política como continuação do audiovisual por outros meios e o cidadão como simples público. E moldando, consequentemente, a política mais à lógica da procura do que à lógica da oferta (Amadori), inverteu, assim, aquela que era a lógica da política convencional, sobretudo a da esquerda. Ou seja, concebeu valores e programas políticos como projecção directa das expectativas do público, detectadas em estudos de opinião, inquéritos e sondagens, reduzindo o «interesse público» ao «interesse do público». Com isto, pôde construir um discurso adequado à «audiência» eleitoral, ganhando este mercado dos produtos políticos. Tratou-se de um processo muito complexo, mas igual ao processo de conquista do mercado das audiências televisivas.

Com este património político fez uma caminhada de sucesso que já dura há 15 anos.

7. Acresce que a esquerda, nestas eleições, acabava de sair de uma ruptura política abrupta, de um complexo processo de criação de um novo partido – o «Partito Democratico» – e de iniciar o processo de afirmação nacional do novo líder. O mesmo aconteceu, de resto, com a «Sinistra Arcobaleno», desta vez não coligada com a esquerda moderada e clamorosamente afastada do Parlamento.

8. Por outro lado, é bem provável que – vista a natureza do novo espaço público – o italiano médio acabe por se rever espontaneamente mais na imagem do «Sílvio nacional» – com todas as suas características construídas, encenadas, mas também reais – do que nos líderes da esquerda, sempre mais racionais, programáticos e ideológicos do que televisivos. Uma imagem, a de Berlusconi, que, de facto, não é só construída, mas também real. Nem de outro modo ele teria conseguido construir e defender um império económico colossal, sobre o qual também viria a criar um sistema de construção do consenso político inovador, na óptica de uma direita que se move na democracia com uma lógica exclusivamente instrumental.

(João de Almeida Santos, Lisboa, «Le Monde Diplomatique»/Institut Franco-Portugais, 17.04.2008)

(A conquista de Roma)

 

9. Depois das eleições legislativas foi a vez das autárquicas. Desta vez, o ocre de Roma tingiu-se de azul. O azul de «Il Popolo della Libertà», certamente, mas, aqui, um azul de tons mais carregados. Era a prenda que Berlusconi e Fini esperavam. A cereja em cima do bolo eleitoral das legislativas. Gianni Alemanno, de «Aliança Nacional», passou a ser o novo Presidente da Câmara de Roma. Derrotou Francesco Rutelli, do «Partido Democrático», que já o fora. A Capital embarcou, assim, na nova viagem nacional de Berlusconi. Falta agora saber se o virulento Bossi ainda vai continuar a usar o «slogan» «Roma ladrona, la Lega non perdona». Talvez não. Em primeiro lugar, porque ele próprio dirige o País a partir de uma cadeira ministerial, em Roma; em segundo lugar, porque a própria Capital está ser governada pelo partido a que está aliado; em terceiro lugar, porque o novo poder romano está a pôr em prática a política de intransigência migratória que a Liga há muito preconiza («rimandiamoli a casa»).

A conquista de Roma por «Il Popolo della Libertà» vem selar o processo de afirmação política da nova direita italiana, que parece finalmente ter conseguido um afinamento estratégico definitivo.

À esquerda, o «Partido Democrático» sofre uma derrota com um alto valor simbólico. O seu líder, Walter Veltroni, ocupara a cadeira romana durante sete anos. E o seu número dois, Francesco Rutelli, durante dois mandatos. O que não é pouco. De resto, são eles os rostos das duas grandes forças políticas que formaram o novo «Partido Democrático».

E a esquerda radical? São já muitos os analistas que lhe atribuem uma grande responsabilidade na derrota de Rutelli, incorformada que ficou com o seu afastamento parlamentar, por obra, dizem, de Veltroni e de Rutelli. A culpa do desastre da «Sinistra Arcobaleno» estaria, pois, na constituição do PD e na sua decisão de ir sozinho à competição eleitoral, havendo mesmo quem, erradamente, atribua a culpa das eleições legislativas antecipadas a Walter Veltroni. Como se a ruptura não tivesse sido provocada pelos problemas judiciais da família Mastella, do ex-ministro de Prodi! O que parece ser verdade é que esta esquerda militou pela derrota de Rutelli, num incompreensível ajuste de contas que acabaria por entregar Roma nas mãos da direita, rompendo uma longa tradição de governo de esquerda na Cidade Eterna.

De qualquer modo, o processo político italiano estava a exigir uma clarificação definitiva, tendo Veltroni feito a sua parte ao criar um grande partido reformista de centro-esquerda com vocação governativa. Agora, já não será ele a consolidá-lo: no plano organizativo, estabilizando um comando central capaz de determinar unidade na acção política quotidiana e estratégica e acabando com a fragmentação intrapartidária; no plano ideológico, definindo um espaço ético-político e cultural de afirmação do novo partido; no plano programático, definindo com rigor o sentido das políticas sectoriais; no plano nacional, definindo uma estratégia para o país, um modelo de desenvolvimento e uma estratégia de afirmação internacional. E não será ele porque foi substituído pelo moderado Franceschini, um líder que acabou de sofrer uma grave derrota nas europeias (cerca de menos 9 pontos do que o PdL), apesar dos gravíssimos problemas que afectam a liderança de Berlusconi.

Por outro lado, a direita parece ter consolidado a sua própria composição orgânica. Ezio Mauro identifica-a assim: «o Norte para a Liga, o Sul para Lombardo, Roma para “Aliança Nacional” e Itália para Berlusconi». Na sua simplicidade, esta fórmula colhe o sentido essencial da composição orgânica da direita italiana. Mas também é verdade que esta direita parece ter encontrado, com Berlusconi, uma fórmula política eficaz, sobretudo enquanto estiver apoiada em consistentes recursos técnicos, humanos e materiais: a política como a expressão mais simples da procura no mercado eleitoral. Se é verdade que na política tradicional a direita conservadora se alimentava dos valores da tradição e dos interesses instalados e consolidados, limitando-se a geri-los, agora ela adopta um discurso flexível e dinâmico adaptado às mutações que se vão produzindo nas sociedades, especialmente na faixa intermédia da nova «middle class», numa assunção plena do mercado eleitoral como espaço de procura de bens políticos intangíveis. A sua posição conservadora consiste em antepor a procura à oferta, adequando esta àquela. Usando a linguagem dos «media», diria que a direita, no plano eleitoral, antepõe o «interesse do público» ao «interesse público», sabendo, todavia, que, mercê dos recursos de que dispõe, pode moldar «o interesse do público» de acordo com a sua mundividência e com os seus próprios interesses.

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