Artigo

CITIZEN BERLUSCONI

SUA EMITTENZA

Por João de Almeida Santos

Berlusconi2

“S/Título”. JAS. 06-2023

ESTE TÍTULO é o de um livro muito interessante de Alexander Stille sobre Berlusconi. Uma glosa do Citizen Kane, de Orson Welles. O subtítulo é um apelido, com sabor a catedral, que ele tinha por ser proprietário de vários canais de televisão. Um empresário que se apresenta como alternativa ao  sistema que acabara de entrar em colapso, a seguir à queda do Muro de Berlim e sobretudo ao terramoto judicial e político de 1992, Tangentopoli ou Mani Pulite, que haveria de varrer os partidos políticos da I República italiana, a começar pela Democrazia Cristiana (DC) e pelo Partito Socialista (PSI), de Bettino Craxi. O Partido Comunista Italiano tinha-se transformado, em 1991, em Partito Democratico della Sinistra (PDS), com o Secretário-Geral Achille Occhetto.

1.

Berlusconi, cujo grupo económico, Fininvest (depois, Mediaset), estava a conhecer graves dificuldades, com uma dívida monumental, de cerca de 1750 milhões de euros, e contra a opinião de uma parte consistente do seu staff, decidiu avançar para a formação de um novo partido político, Forza Italia (FI), que viesse responder ao vazio criado pela crise da DC, que em Janeiro de 1994 haveria de desaparecer, deixando realmente a direita sem efectiva representação política, e pelo fim do PSI de Bettino Craxi. Procurou, assim, evitar – e disse-o quando, em Janeiro de 1994, anunciou a decisão de ir às eleições de Março com a nova formação política – que o poder caísse nas mãos do pós-comunista PDS, de Achille Occhetto, que acabara de vencer as eleições autárquicas de 1993. Em nove meses Berlusconi criou o partido Forza Italia e ganhou,  embora por uma pequena margem (só teve mais 0,65% do que o PDS, ou seja, 21,01% contra 20,36%), as eleições de 27 de Março de 1994, numa aliança com os pós-fascistas de Alleanza Nazionale, de Gianfranco Fini, e com a Lega Nord, de Umberto Bossi. Berlusconi voltaria a ganhar as eleições em 2001 e em 2008, para ter de se retirar em finais de 2011, pondo fim à sua centralidade na política italiana, embora mantendo-se na liderança de FI, que foi lentamente definhando até ao que hoje é, uma força política com 8% (na Câmara dos Deputados) nas eleições de 2022.

2.

O Berlusconi que marca a história italiana é este, mais pela novidade da sua chegada e do seu sucesso na conquista do consenso do que pelos resultados da sua acção governativa, que acabou por mostrar resultados reconhecidamente negativos. Um simples exemplo: entre 2001 e 2005 (anos em que governou) a Itália desceu do 14.º para o 53.º lugar em termos de competitividade, segundo os cálculos do Institute for Management Development, de Genebra (Stille, A., Citizen Berlusconi, Milano, Garzanti, 2006: 340). E é-lhe imputável também ter trazido para o arco governativo a mesma extrema-direita que hoje governa Itália, embora, depois da sua saída, esta só tenha voltado ao poder em 2018, pela mão do primeiro governo Conte, formado na sequência da vitória eleitoral do MoVimento5Stelle (com quase 33% dos sufrágios) e, mais recentemente, em 2022, pela mão de Giorgia Meloni, na sequência da vitória do partido Fratelli d’Italia nas eleições legislativas. Entretanto, o seu partido, Forza Italia, foi perdendo consistência eleitoral, exibindo hoje 8%, percentagem  inferior à dos dois partidos de extrema-direita que, com aquele, integram hoje o governo de Itália (26%, FdI, e 8,8%, Lega).

3.

A acção governativa de Berlusconi deixou medíocres resultados, mas deixou uma marca bem impressa ou mesmo impressiva: legislação em interesse próprio. Refiro algumas iniciativas legislativas mencionadas no livro de Alexander Stille para dar uma ideia mais precisa da sua dimensão: lei sobre as “cartas rogatórias internacionais”, dificultando-as; despenalização do “reato di falso in bilancio”, levando à anulação de processos que o envolviam directa ou indirectamente; lei sobre o “legittimo sospetto”, sobre a eventual parcialidade dos juízes; lei Gasparri a favor das suas empresas de comunicação; saída da RAI dos concursos para adjudicação dos direitos de transmissão de jogos de futebol, favorecendo as suas televisões; alteração da lei sobre património cultural, permitindo a construção na costa da Sardenha onde o próprio tinha grandes interesses; alteração da lei das sepulturas para que ele e a família pudessem ser sepultados na Villa de Arcore; lei do “condono fiscale” que permitiu a poupança de 120 milhões de euros à sua Mediaset; acordo de Mediolanum (Berlusconi tinha um terço  das acções) com os correios italianos para venda de seus produtos financeiros, etc., etc. (veja Santos, J. A., Media e Poder, Lisboa, Vega, 2019, pp. 219-220, nota 119; e Stille, 2006: 319-326).

4.

Na verdade, o que se deve realçar no personagem é a capacidade de, em pouco tempo, ter criado uma formação política de sucesso, tendo logo a seguir chegado ao poder. Mais ou menos em nove meses. É claro que na sequência do fim da primeira República existia, à direita, o vazio que já referi e que Berlusconi era proprietário de três canais de televisão com cerca de 45% das audiências (tanto como a RAI) e publicidade televisiva muito superior à da própria RAI, mas todo o processo de construção de Forza Italia foi desenvolvido com grande competência e originalidade:

  1. Uso minucioso, oportunamente programado e maciço das televisões para fins eleitorais na pré-campanha e na campanha.
  2. Criação dos “Clubes Forza Italia” (chegaram a ser 15.000), plataformas externas ao partido (ligadas a FI por protocolo) para reprodução alargada do discurso do partido.
  3. Vértice do partido não eleito e integrado pelos máximos dirigentes e técnicos da Fininvest (a sua Holding).
  4. Sondagens permanentes por uma empresa criada para o efeito (Diakron) e dirigida pelo antigo sondagista de Fininvest, Gianni Pilo.
  5. Construção do programa e do discurso políticos a partir do estudo rigoroso das tendências maioritárias da opinião pública – a procura passa a anteceder a oferta (dar ao público o que o público quer, como nas televisões), exactamente ao contrário da lógica seguida pelos partidos tradicionais.
  6. Escolha dos candidatos a deputados mediante “castings” desenvolvidos pelas suas duas empresas: Publitalia e Diakron. Berlusconi, através de outro importante sondagista, Luigi Crespi, chegou a controlar quatro institutos de pesquisa (Santos, 2012: 281, nota 156).
  7. Aplicação sistemática e rigorosa de duas importantes teorias dos efeitos dos media: “Espiral do Silêncio” e “Agenda-Setting” – uso instrumental das sondagens polarização intensa da atenção social sobre o personagem Berlusconi.
  8. Extrema personalização do processo político em torno da pessoa de Berlusconi (para uma análise exaustiva deste processo veja o meu Media e Poder, pp. 257-338).
5.

As eleições do dia 27 de Março de 1994 deram a vitória a Berlusconi e a FI sobre o directo competidor, Achille Occhetto e o PDS. A aliança de FI, ao sul, com Alleanza Nazionale, e ao Norte, com a Lega Nord, com a formação do Polo del Buon Governo e o Polo delle Libertà, dera bons resultados a estes blocos políticos e Berlusconi foi investido no cargo de Presidente do Conselho de Ministros, inaugurando, assim, a II República, ainda que por pouco tempo, devido à cisão provocada, no final do ano, por Umberto Bossi. Como disse, Berlusconi haveria de voltar a ganhar as eleições por mais duas vezes e por se tornar uma figura central da política italiana durante quase dezoito anos.

6.

Não se pode dizer que Berlusconi tenha criado doutrina política, embora se tenha definido “liberal” em política e “liberista” em economia, mas é possível dizer que mudou algo de muito significativo na política italiana:

  1. Rompeu com a tradicional separação entre economia/negócio/empresa e política partidária e institucional, projectando-se politicamente à chefia do governo como empresário de sucesso (embora em graves dificuldades financeiras: em 1994, com 2 biliões de dólares de dívida, segundo o Museum Broadcasting Communication – veja Santos, 2012: 279). O seu discurso de candidatura referia a necessidade de derrotar a velha classe política, constituída, segundo ele, por “politicanti senza mestiere”, politiqueiros sem profissão. Note-se que nunca os Agnelli, um potentado económico italiano, se candidataram à guia do país.
  2. Uso intensivo e, diria, científico, dos media, em particular da televisão, e em especial das suas televisões, que transmitiam por targetsItalia Uno (jovens); Retequattro (domésticas e reformados) e Canale 5 (classe média) -, em emissões que, para efeitos eleitorais, eram produzidas de acordo com as regras da publicidade em matéria de retorno financeiro do investimento (Santos, 2012: 307, nota 174).
  3. Inversão radical da lógica e da hierarquia da proposta política ao antepor a procura à oferta, usando todos os instrumentos do marketing (pesquisas de mercado e preparação de propostas de retorno ao “público” eleitoral) ao serviço da política.
  4. aplicação da teoria de Lazarsfeld e Katz do “two-step flow of communication” ao criar os “Clubes Forza Italia” como plataformas de difusão territorial e, sobretudo, de reprodução alargada, no terreno, do discurso de Forza Italia e do seu líder.

É evidente que houve aqui uma transposição para a política da lógica e dos instrumentos usados para a captação das audiências e que os resultados só foram possíveis pelo poder que lhe advinha de possuir ele próprio tão poderosos instrumentos de comunicação, sendo ainda certo que o desaparecimento da DC constituía o pano de fundo em que trabalhou a sua proposta política. Mas também é de sublinhar a geometria das alianças que estabeleceu com a Lega e com Alleanza Nazionale. Há um outro aspecto que me parece que também deve ser sublinhado, atendendo à sua estratégia discursiva – Berlusconi concebeu e motivou adesão às suas propostas, dando uma imagem da política como um grande campo de futebol (velada alusão ao Milan, de que era, e com sucesso, proprietário) onde os jogadores seriam os políticos e o público os espectadores, directos, mas sobretudo televisivos. De facto, quando anunciou a sua candidatura disse-o nos seguintes termos: “Ho scelto di scendere in campo”. O próprio nome do partido tem implícita uma alusão ao futebol. Mas, na verdade, na sua proposta política, a sua era verdadeiramente a “democracia do público”, sobretudo a dos espectadores, dos telespectadores, não a dos cidadãos, na qual navegava com grande profissionalismo.

7.

Berlusconi, que tinha 86 anos, terá funeral de Estado, luto nacional e, no momento em que escrevo, ainda não se sabe se, de facto, repousará no Mausoléu da sua Villa de Arcore. A Itália perdeu um seu famoso protagonista, alguém que um dia se considerou “unto dal Signore”. Poderá não se gostar do seu modo de abordar a vida e da “spregiudicatezza” com que o fez, mas que o personagem era muito vivaz e colorido, sendo difícil ficar-lhe indiferente, lá isso era.

Berlusconi2Rec

4 thoughts on “Artigo

  1. Tutto Verissimo, purtroppo non considerato nella decisione finale di” lutto nazionale ” del tutto fuori luogo e che appare più una “captazio benevolentiae” a verso i componenti del gruppo di Forza Italia che adesso dovranno decidere che cosa fare all’interno del governo

  2. Caro Joao, sei grande, conosci la storia italiana recente molto meglio di tanti italiani e soprattutto ne dai una lettura encomiabile. Sappi che molti italiani oggi non sono in lutto e criticano la decisione del lutto nazionale! Ti ricordo che, tanto per fare un esempio, per Falcone e Borsellino, morti servendo lo Stato, non é stato proclamato il lutto nazionale! Lo spettacolo continua…. purtroppo!!! Ti mando un forte abbraccio e ti ringrazio!

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