Artigo

FRAGMENTOS PARA UM DISCURSO SOBRE A POESIA (III)

Confissões de um Poeta

Por João de Almeida Santos

RUBOR2023

“Rubor”. JAS. 09-2023

OLHOS DE ÁGUIA

ELAS, AS MUSAS, fazem parte da identidade dos poetas? Talvez nem haja poetas sem musas, digo eu. Uma ligação indissolúvel. Estro, inspiração. Condenados a viver no mesmo lar. Que é imenso, tão vasto como o universo da fantasia. Estas musas, as que também a mim inspiram e com as quais vou convivendo no ondear da minha vida de poeta já têm fundas raízes no meu Jardim Encantado, lá na Montanha, no meu Parnaso. No meu lar. Aí o poeta tem olhos de águia, porque voa alto sobre o vale da vida. E quando atravessa um arco-íris, apoiado nos flancos montanhosos do vale, bem precisa deles, desses olhos, porque a sua sensibilidade se fragmenta em mil gotículas de água luminosas e em coloridas refracções, vendo o vale da vida a sete cores, lá do alto. São olhos de águia e de água. Da montanha e do mar. Ah, sim, quando atravessa os arcos-íris ele nunca resiste a sentar-se num deles para observar o que se passa lá em baixo, nesse vale. Vê tudo a cores em mil refracções. E ao pormenor, com esse olhos. Os olhos de águia.

REFRACÇÃO

Não há perigo de, um dia, as musas partirem de vez, cortando as raízes, porque elas regressam sempre com a chuva. No céu da fantasia há nuvens e chove lá, dizia o Dante Alighieri. Há azul, mas há também chuva. Na fantasia também há sempre muitos arcos-íris. Se não chove, pelo menos há milhões de gotículas no ar. E o poeta gosta de andar à chuva, de se molhar e de refrescar a alma, de a pôr em refracção com raios de sol, iluminando as palavras. Aquele lugar lá no alto, no topo de um arco-íris, é o melhor ponto de observação do vale da vida – a visão é caleidoscópica. E melhora a vida cá em baixo.

A POESIA É EXCESSO

Salvo-me porque me excedo, respondi um dia a quem me dizia que a poesia é excesso. O que me falta no real abunda-me na fantasia. Levito para me conceder o que me faltou. “Privação sofrida”. A fantasia puxa pela forma e obriga-me a formatar essas pulsões profundas que ameaçam fundir, liquefazer, a minha identidade. Porque ficaram lá nas profundezas da alma, não resolvidas, em ebulição. Mas eu preservo-a, a identidade e as suas deambulações pela vida vivida, criando. E a criação é excesso. Duas horas em poesia podem parecer uma eternidade ou um instante absoluto na dialéctica dos excessos de presença/ausência. Os fragmentos de memória afectiva são para mim como um rio que flui, com rápidos perigosos e aluviões que transbordam para as margens, e onde me atrevo a mergulhar para chegar à foz. Que é perigosa, por causa do choque ondulatório e do encontro de águas diferentes (doce e salgada). Felizmente, acabo por nunca lá chegar e por me ficar pelas margens do rio, levado pelos aluviões. É nas margens que eu crio. Aliás, o problema reside precisamente em nunca lá chegar… a essa desejada foz. Criar é transbordar para as margens da vida vivida.

MUSAS

Quando há perfumes no ar e há música, eu gosto de coreografar, não com o corpo, mas com a alma. Convoco o poeta e o pintor, vou com eles até ao jardim (tenho lá o tal imenso jasmim que me embriaga com aquele aroma acre e intenso) e dali partimos para uma coreografia de palavras e cores. Olhando para a montanha e invocando as musas. E elas vêm até mim, desafiando o estro. Às vezes, o pintor retrata-as, mas o poeta não se cansa de as cantar. São três (ou talvez quatro, não sei), como as Graças do Botticelli. E pousam na vasta ramagem do loureiro e do jasmim. Talvez por causa dos aromas e do significado destas plantas. Uma vez o loureiro “deu” uvas, imensas uvas, e tive de o cantar. Onde é que já se viu um loureiro dar uvas? Só mesmo o meu. Mas eu acho que foi obra de uma das musas. Talvez da Erato. Mas não tenho a certeza. O que sei é que por ali anda feitiço. Com essas uvas fiz vinho. E com ele oficio nos rituais de Domingo. Às vezes, quando pinto o jardim, parece-me ver umas misteriosas sombras, mas cativantes, que se assemelham às musas, mas, quando tento fixá-las, elas desaparecem. Sobra-me a poesia para as evocar e invocar. E, depois, inspirado num poema, dou-lhes forma. Reinvento-as. As musas são rápidas como o vento (são como as fadas) e é por isso que o poeta se queixa de tantas saudades sentir. Já estão a partir quase antes de chegarem.  Neste caso, a rapidez delas cega-o a ele. E não as vê… mas pressente-as. E são silenciosas até doer, o que o leva a provar o “gosto amargo… de acerbo espinho” e a dar-lhes forma poética para resolver a sua saudade de “vago amante” (Almeida Garrett). Vinga-se delas, pintando-as, e não só com palavras.

BAILADO

Eu procuro sempre um bailado de palavras com ritmo próprio. Faz parte da minha poética esta coreografia musical. Com palavras. É sempre a última parte do meu processo criativo. E até sacrifico a semântica, se tiver de escolher. A sonoridade é intensamente sensorial e decisiva para a performatividade da poesia. Para a sua vitalidade. E para a sedução, a que o poeta sempre aspira. Mas é difícil. É um bailado a solo numa coreografia interior que se inspira em fragmentos da memória afectiva. Inatingível, a musa? Sim, como todas as musas. Só a ausência permite a recriação artística. “Maintenant tu es plus beau que toi-même, Gherardo” – dizia a Yourcenar/Michelangelo a um Gherardo ausente, em “O Tempo, Esse Grande Escultor”. E será mais intensa e bela se for sofrida. Levitação desejada, privação sofrida, dizia o Calvino, nas fabulosas “Lições Americanas”. Nas musas ganha intensidade a dialéctica entre a ausência e a presença. É neste intervalo que o poeta se situa.

A POESIA, A PERFEIÇÃO E O IMPOSSÍVEL

A resposta ao “até quando” te encontrarás, poeta, neste estado de privação é: sempre! Na temporalidade poética, digo, uma temporalidade superior não compatível com a circularidade efémera da rotina e do fungível quotidiano. Renúncia, dizia o Bernardo Soares. Mas é uma renúncia sofisticada, criativa, alimentada por fragmentos de memória, acarinhada por uma delicadeza extrema, como se fosse para seduzir a musa e trazê-la de volta. O que, sendo impossível, obriga o poeta a superar-se para transpor essa barreira da impossibilidade, procurando a perfeição. O poder arrebatador da perfeição. Só a perfeição pode resolver a impossibilidade. Porque nada é exterior à perfeição. Nela o impossível torna-se possível. A verdade é que em cada poema o poeta atinge a musa com a delicadeza e a subtileza das palavras que compõem a sua pauta poética. O Kant chamou a isto o “transcendental”: agir poeticamente como se a musa estivesse em frente e o poeta fosse um “diseur” em carne e osso para a seduzir fisicamente. Com o poder da palavra e a força da sonoridade poética, da música, da melodia, da toada. Até às lágrimas. Atinge-a assim. Só assim. O real pouco importa se ele já existir sob forma de registo em fragmentos de intensa memória afectiva. Os sentidos, depois, estão “representados” pela pintura que prolonga o poema e que é uma linguagem complementar do processo de sedução pela arte. A pintura como prótese da poesia, o que não acontece com a música, que lhe pertence, faz parte de si, lhe é interior. Verdadeiramente, não há impossíveis para o poeta que ouse atingir a perfeição. Tudo o que é poético é real, mas nem tudo o que é real é poético.

VIDA DE POETA CANSA

Eu creio que as paixões dos poetas são sempre labirínticas e jogadas entre a luz mais intensa e a sombra mais sombria. As musas são leves e rápidas como o vento, mas o poeta traz consigo o insustentável peso do viver agarrado às suas palavras e à sua melodia. Tem  leveza e tem “gravitas”. O seu discurso tem densidade e não é isento de consequências, apesar de valer por si. E por isso talvez ele sofra de fadiga. E, também por isso, procure vitaminas poéticas para repor energia. Não é fácil descer constantemente às profundezas da memória e do tempo perdido para depois se elevar até ao azul celeste, voando sobre a linha do horizonte e espreitando o mundo da vida lá de cima com as lentes riscadas de uma vida vivida (nem sempre há arcos-íris de onde observar a vida em refracção de cores). É um esforço tremendo, este. E cansa, sim, mas também anima e liberta. Cansado, sim, mas ele tem sempre de levitar. E, sempre que pode, descansa sentado num arco-íris.

O POETA E O PECADO

Para o poeta nunca as suas aventuras são inúteis. E nunca padece de pudor. Ele explora-as, com fins poéticos, claro. Isto era o que o Nietzsche dizia, no aforismo 161 da obra “Para Além do Bem e do Mal”. E eu concordo. Talvez ele seja mesmo de paixão fácil, sim, mas nunca é leviano no sentir. Procura estar sempre no limbo, na fronteira, quase a cair nesse poço fundo da paixão… Sim, mas quando está a cair agarra-se às palavras e levita sobre o perigo, sobre o abismo. Nunca cai no poço. O poeta é um aventureiro interior, deixa-se logo ir ao primeiro jogo de sedução… Mas, depois, recua, resiste e renuncia. Não por pudor, mas para permanecer livre da circularidade efémera e redundante da circunstância. Como se o seu destino fosse viver em celibato num mundo de tentações e pleno de pecado. Sempre atraído pelo pecado. O poeta vive, sim, permanentemente em pecado… para depois se poder confessar (poeticamente) e se sentir absolvido. Paga o preço em poemas e redime-se. Sem pecado não há poesia. É preciso alguma coragem para viver assim. Em permanente pecado. Mas se não viver assim perde-se e cai na rotina, no supérfluo, no circunstancial. Nega-se. É assim, em geral, na arte, que não se entrega aos burocratas da vida, aos rotineiros, aos ritualistas da vida, que se perdem nas celebrações sociais. Aos que se deslumbram perante os espelhos que lhes põem diante. O poeta e o seu reverso, diz-me um amigo. Pois é. E isso vê-se nas contradições do seu próprio discurso. Estas contradições só podem subsistir porque acontecem no interior do discurso poético, mas espelhando as que, lá fora, devoram a alma dos amantes incondicionais.

ESCULPIR

Esse tempo, o da poesia, o dos seus fragmentos de memória, é, sim, o maior escultor. O tempo só conserva os fragmentos com densidade e intensidade existencial. Tinha razão a Yourcenar. Esculpir esses fragmentos é o destino do poeta, sempre em linha com o tempo, o seu tempo interior. O poeta é um aliado do tempo, esse escultor. Lamenta-se, esculpindo. É a sua fala. Cada golpe é dado em delicado sofrimento, palavra a palavra, como se estivesse a caminho de um êxtase redentor. Há mais fases? Não sei. Vai chovendo na fantasia e bem sei que não tenho o poder de produzir nuvens. Umas são mais carregadas do que as outras. Outras vezes desaparecem e nasce o azul inspirador. O poeta é súbdito da fantasia e esta move-se com o vento… como as nuvens.

O TEMPO DA POESIA

Fechar um processo com arte é como não o fechar. Cantar a despedida é como não se despedir. A arte abre, não fecha. Cada poema talvez seja apenas um lamento. Pronto a repetir-se. Lamenta-se, mas fica sempre por ali, à espera de nova oportunidade interior para se lamentar de novo. Um profissional do lamento. O revolucionário utópico lamenta-se do mundo que não consegue transformar e desenha utopias. O poeta lamenta-se da privação sofrida, levita e reconstrói o sentimento com palavras e sonoridade melódica e rítmica. A musa está ali para lhe lembrar que ele está em permanente dívida para com a vida, a quem deve um tributo. Não tivesse ele fracassado! Como poderia, pois, o poeta abandonar a musa que o inspira e o ajuda a pagar essa dívida? Seria como despedir-se de si próprio. O poeta bem sabe que o lamento não romperá o silêncio, mas também sabe que esse silêncio é o seu próprio alimento. No silêncio cresce o estro, no silêncio cresce o sentir, no silêncio cresce a vontade de comunicar poeticamente. O tempo resolve, dir-se-á. Mas a resolução poética é de outra índole. É outro tempo. Resolver poeticamente é sublimar, elevar. E a sublimação só acontece em estado de ausência, de perda, de silêncio. De despedida. Sim, por isso há sempre um recomeçar em cada despedida. Haverá sempre um novo sonho, mas não sabemos como será composto. Até porque as musas são imprevisíveis.

RUBOR

A figura branca (do quadro “Rubor”, aqui reproduzido) alude à neve que ainda subsiste quando Março já se anuncia sob a forma de flor, por exemplo, através das magnólias. Este rosto de flor/mulher, “a querer saltar da tela para se oferecer”, cromaticamente intenso e luminoso alude a uma musa que convoca o poeta-pintor a sair da gruta das sombras para a luz do céu, onde ficará encandeado e fascinado pelo seu olhar cintilante até que ela, rápida como o vento, regresse, num instante, ao Parnaso. Lembra a alegoria da caverna de Platão (há, no quadro, a entrada de uma gruta). É fugaz, como todos, este encontro e no regresso à gruta “sombria” da vida, carregando o peso da nostalgia e o insustentável peso do efémero, o poeta refugia-se na poesia para poder resolver esta perda, por levitação poética. A poesia, pela levitação, liberta-o dos grilhões que o prendem ao mundo sombrio da caverna e condu-lo de novo ao lugar do encontro, evocando e invocando a musa inspiradora. Um reencontro reparador, em ausência. O quadro representa o chamamento sedutor e a poesia, a que alude, o reencontro criativo, em ausência. Assim se completam, a pintura e o poema. No fim, quem fica feliz sou eu próprio, fiel guardião da casa onde habitam o poeta e o pintor.

ENCANTAMENTO

É encantamento, o que anima o poeta. Tem três musas (talvez quatro, sim). Mas elas são rápidas como o vento e o poeta vive o encantamento como raio que o fulmina e logo desaparece no ar. É a moira, o destino, o fado, o seu lado trágico. Vive em permanente contingência  sujeito ao encantamento arrebatador, seu alimento. O que acontece presencialmente ou em diferido.  É verdade que ele o experimentou directamente, o encantamento, que ficou aninhado lá no fundo da sua alma. Mas agora falta-lhe aquele olhar castigador, misterioso e físico que o submetia, o fazia estremecer. O estremecimento originário, que fez nascer o poeta. Um acontecimento que agora se manifesta através do silêncio e de uma ausência expressiva e sublinhada por um concreto gesto de vontade. Por isso, ele está sempre em perda (ou em dor), mesmo quando em maré-cheia, mais perto das musas. Das outras. É por isso que só lhe resta cantar. A sua vida é, sim, como as marés: maré-cheia, baixa-mar. Altas vagas a alternarem com mar calmo. Vive ao sabor das musas e dos ventos. Sem rotinas, mesmo quando o mar está calmo, porque as musas são exigentes, implacáveis e imprevisíveis. Quando o mar está calmo o poeta sente-se inquieto e fica em alerta. Ele sabe que está condenado a cantar… para ser feliz. Relativamente feliz, até porque sabe que tem de estar continuamente a conquistar a felicidade. A felicidade dá-lhe trabalho. Mas está condenado a ser (assim) feliz. A esperança convive nele paredes-meias com a desilusão e a dor. Entre uma e as outras só há o canto. E o canto repara a dor e anuncia uma nova esperança… Eterno retorno.

TRANSFIGURAÇÃO

Um dia escrevi um poema onde procurei aludir às interpretações demasiado literais da poesia levando o sujeito poético a reagir, voando sempre lá mais para cima, para o azul do céu. Há sempre quem esteja pronto a identificar o referente dos poemas, a identificar o sujeito poético (o actante) com o próprio poeta, a musa com alguém concreto e o estímulo real com o próprio poema. Já aconteceu e com consequências para o poeta ou, se quisermos, para o autor. É claro que o poeta engravida para dar à luz um poema, mas a gestação é solitária e segue o seu próprio percurso com os recursos de que dispõe. É o parteiro de si próprio. É por isso que estou sempre a citar o Pessoa e o poeta fingidor. Porque diz tudo acerca da poesia. Ainda por cima, como acontece neste caso, muitas vezes a musa é retratada também em pintura pelo poeta-pintor. Mas mesmo que nela haja traços de uma pessoa concreta o referente é a obra de arte e não essa pessoa. Ou seja, a arte descola do real e a ele regressa somente como transfiguração. Entre um momento e o outro há séculos de história da arte, de poesia ou de pintura. Séculos mediados pela sensibilidade e pela técnica do artista. A sua é uma leitura empenhada por dentro do sujeito poético e pelas suas motivações, tal como há muito se vem expondo nas suas narrativas poéticas. Sim, é verdade, a arte é devolução do real transfigurado. O virtuosismo é dança a solo, sem partner. No mínimo, requer-se um pas de deux e música para o executar. Mesmo quando convocado para um solo, a partner (a musa) também dança. Só que não se vê.

FANTASMAS NA CATEDRAL

Também creio que andam por aí fantasmas à solta, não tivesse o poeta sido visitado por uma musa (Eliot). Aliás, foi assim que ele nasceu. Fantasmas nas catedrais de palavras, onde o murmúrio é a linguagem. Sim, a poesia é murmúrio. Há fantasmas na catedral, pois há. Os poetas vão para lá suspirar de tão melancólica vida viverem. Protegem-se assim do ruído do mundo e inventam um tempo que é só seu. E criam cânticos com ecos de catedral. Os poetas vivem em catedrais porque nelas tudo se conjuga para a perfeita levitação, o som, a luz filtrada, a penumbra, o pleno e o vazio, o silêncio, a grandiosidade das colunas e das abóbadas. Poética religiosidade onde a invocação é à musa. Musa e fantasmas são por isso os habitantes da poética catedral. E ali está o poeta a cantar o seu trágico destino como oficiante do ritual em que se transformou a sua vida. É lá que ele constrói as suas pontes entre o desejo e o impossível.

A CASA DA INQUIETUDE

Apetece-me dizer que o poeta habita a Casa da Inquietude. Também lá vive o gémeo pintor. E ambos pintam a mesma inquietação, um, com palavras, o outro, com riscos e cores. Normalmente quem dá o primeiro passo é o poeta, o que tem a sensibilidade sempre à flor da pele porque a vida o castigou. Nasceu assim como poeta. Sísifo alado que carrega consigo um imenso fardo de palavras. Fardo? Talvez não porque elas são leves como as nuvens do céu. O que talvez não seja o caso do pintor – ser como Sísifo. Mas não sei, não quero ser injusto com ele, libertando-o do tormento criativo. O que sei é que, depois, o pintor alivia-o da dor com a pintura. Se com as palavras o poeta levita sobre o vale da vida, com riscos e cores o pintor ainda se eleva mais, criando um ambiente de luz e cor que aquece as palavras com que o poeta se “confessa”, se liberta, se redime. É um autêntico bailado. No fim, creio que a sinestesia dá origem à feliz melancolia ou à alegre nostalgia. O poeta fica pronto a recomeçar. Uma espécie de eterno retorno, já que vive irremediavelmente na Casa da Inquietude e de lá não pode sair, não pode mandar o passarinho embora porque seja feliz (e não é). Seria eutanásia poética. Quase um oxímoro. Porque sem dor não há poesia. A felicidade não consta dos anais da poesia. Bom, se constar será como que uma felicidade dorida. JAS@09-2023

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