Artigo

A AUTOBIOGRAFIA DE UM JORNALISTA

Giovanni Valentini
“Il Romanzo del Giornalismo Italiano.
Cinquant’anni di informazione 
e disinformazione
(Milano, La Nave di Teseo, 2023)

Por João de Almeida Santos

ARCHIVIO STORICO PERSONAGGI

“Perfil de um Jornalista”. JAS. 01-2024

CONHECI-O pessoalmente há uns largos anos, quando fui convidado a fazer o Elogio de um poeta italiano, Corrado Calabrò (*), na cerimónia de entrega do Prémio Damião de Góis, pela Universidade Lusófona, em Junho de 2016. Giovanni Valentini estava presente e no fim da cerimónia tivemos uma breve conversa, onde tive oportunidade de o informar de que, na realidade, já o conhecia desde 1978, quando fui para Roma preparar, no Instituto Gramsci, uma tese de doutoramento sobre Antonio Gramsci. Um ano especial, aquele, pois foi o ano em que Aldo Moro foi raptado pelas Brigate Rosse, mas também o ano da eleição de Karol Wojtyla, como Papa Giovanni Paolo II. Foi também o ano em que la Repubblica deu um grande salto em frente em notoriedade e difusão devido, em parte, ao tratamento do caso Moro e até à célebre fotografia em que o prisioneiro das BR tinha este jornal nas suas mãos.   Ficámos amigos e dialogamos regularmente sobre a situação italiana. E não só.

1.

O jornal la Repubblica tinha sido fundado por Eugenio Scalfari há dois anos, em 1976, e Valentini fora também um dos seus fundadores. E, por isso, quando nos encontrámos, contei-lhe o que de facto, acontecera: lia regularmente os seus artigos de primeira página no la Repubblica, jornal que adoptei não só como meio de informação, mas também como “estrutura de opinião”, a forma como os fundadores o conceberam, que integrava grandes nomes do jornalismo, da política e da cultura italiana. Aprendi muito com este jornal, que lia diariamente. Era um jornal que se situava na área do centro-esquerda, mas que cultivava uma rigorosa e brilhante independência em relação não só ao poder político, mas também aos outros poderes da sociedade italiana. Independência que era garantida sobretudo por duas personalidades de grande peso: Eugenio Scalfari, o Director, e Carlo Caracciolo, “il Principe Rosso”, presidente da “Società Editoriale la Repubblica”. Um grande jornal que deveria servir de modelo, ainda hoje, a toda a imprensa. Um jornal de massas, mas rigoroso, culto, intelectualmente competente e independente. Disputava a hegemonia com o Corriere della Sera, mais conservador, batendo-se taco-a-taco. Giovanni Valentini foi sempre, e é, um jornalista formado na “escola” do la Repubblica. E assume com orgulho essa sua identidade profissional, que tem em Eugenio Scalfari o seu mais ilustre representante.

2.

Valentini foi jornalista e colaborador do la Repubblica durante quarenta anos, tendo sido também seu vice-director, entre 1994 e 1998. Mas esta não foi uma mera relação profissional. Iniciara a carreira de jornalista por influência do pai, também ele jornalista e futuro director da “Gazzetta del Mezzogiorno”, onde também trabalhou, mas construiu-se como jornalista na “escola” do la Repubblica, esse grande jornal que exibia uma solidez intelectual, cultural e política pouco comum no próprio panorama editorial mundial. Uma solidez que tinha no grande Scalfari o seu selo de garantia (veja-se o texto infra sobre Scalfari). Valentini reconhece-se, neste livro, como discípulo do “Maestro” Scalfari, também conhecido no círculo jornalista como “Barbapapà” (do francês “barbe à papa”: “algodão doce”), talvez pelas suas abundantes barbas brancas (ou “a sale e pepe) e pela sua doce auctoritas, por todos reconhecida (veja as pág.s 294-296). Mas ao ler este livro, de 334 páginas e 20 capítulos, verifiquei uma curiosa coincidência. Com a saída de Scalfari, em 1996, Valentini iniciara (passiva e silenciosamente) o seu processo de afastamento interior do la Repubblica quando Ezio Mauro foi, em 1996, nomeado seu director, chegando a pôr o seu lugar à disposição, mas mantendo-se até 1998. A operação indiciava uma mudança no jornal, pois este fora durante vários anos director de La Stampa, o jornal do grupo Agnelli. Mudança que viria, de facto, a consolidar-se,  com a entrega, em 2016, do jornal a outro director proveniente de La Stampa, Mario Calabrese, quebrando-se, definitivamente, do ponto de vista editorial, a lógica de independência do jornal, o seu estatuto de jornal de “editoria pura”, apesar de a sua estrutura proprietária já ter mudado há muito, com Carlo de Benedetti. A ruptura definitiva de Valentini viria a acontecer em 2015, por ocasião de um “golpe baixo” desferido por duas jornalistas do la Repubblica contra o presidente do Antitrust Pitruzzella, de quem Valentini era porta-voz, já no fim da direcção de Mauro. Em 2016, viria a tomar posse como director do jornal Mario Calabrese, a que se seguiria (depois de um ano de Carlo Verdelli como director) Maurizio Molinari, outro homem do La Stampa, consumando-se, assim, definitivamente, a operação de mudança de orientação do velho la Repubblica (veja-se os capítulos 10 e 11, pág.s 165-198). Também Scalfari viria a distanciar-se do jornal, mantendo apenas a relação através da publicação de artigos de cultura. Pois bem, também eu por essa altura, no fim do mandato de Ezio Mauro, tinha deixado de ler, com a regularidade com que até então o fazia, o la Repubblica, por já não reconhecer nele o que me atraíra, quando em 1978 cheguei a Itália, e que vira confirmado não só durante os dez anos em que lá vivi, mas ainda por muitos mais anos, já em Portugal, tendo continuado a segui-lo diariamente, primeiro, em papel, e, depois, na internet. Até que chegou a desilusão e passei a ler com maior regularidade o jornal Il Fatto Quotidiano, fundado em 2009 pelo excelente jornalista Antonio Padellaro (lia-o no Corriere della Sera), que foi seu director até 2015, sendo a partir de então dirigido pelo imparável e turbulento Marco Travaglio. Trata-se de um jornal independente que não recebe financiamentos estatais nem é, creio, de propriedade de um grupo financeiro ou económico. Um bom jornal, na minha opinião. Valentini é seu colaborador regular, com a sua já clássica rubrica “Il Sabato del Villlagio”, título que homenageia o grande poeta italiano Giacomo Leopardi (“Questo di sette è il più gradito giorno, / Pien di speme e di gioa: / Diman tristezza e noia…” – estrofe de “Il Sabato del Villaggio”). A minha reacção ao que estava acontecendo ao “meu” jornal, a esta mudança profunda no seu perfil, foi quase de indignação pelo que estavam fazendo a uma jóia do jornalismo mundial. Pelo vistos, havia uma minha real sintonia com dois dos seus fundadores, Scalfari e Valentini: a identidade do la Repubblica fora radicalmente alterada… para pior. Tornara-se um “holograma” do que fora (pág. 302). Fiquei a conhecer melhor as razões da mudança ao ler este livro de Giovanni Valentini.

3.

O livro conta a história de cinquenta anos de imprensa em Itália, vistos por um dos seus principais protagonistas. Com efeito, ele não só foi um dos fundadores do la Repubblica, como foi também durante sete anos director da revista L’Espresso (1984-1991) e, durante dois, director do L’Europeo (1977-1979), entre outras funções e cargos de significativa relevância. O jornalismo italiano visto por dentro, em particular nas suas relações com a estrutura proprietária, mas também nas suas complexas e difíceis dinâmicas internas. Mas sobretudo visto a partir de uma visão bem precisa, assumida e argumentada do que é e deve ser o jornalismo. A posição de Valentini é clara, como resulta de todo o livro: a boa imprensa é aquela que é gerida por editores puros, não aquela que fica sujeita à estratégia de financeiros ou de grupos económicos que a vêem exclusivamente com a lógica do lucro e do poder, totalmente independente da sua função social e política, ao serviço da cidadania. Esta sua posição está claramente formulada no livro: “Um vaudeville de directores, entre Torino e Roma, que marcou o jornal fundado por Scalfari” (…), e ancorado num editor puro,  “com o selo de fábrica da maior indústria privada italiana: o editor mais ‘impuro’, que mais não é possível” (pág. 181). E chega a propor um “Statuto dell’Editoria” “para limitar as quotas das participações financeiras nas empresas editoriais. E, ao mesmo tempo, reservar os financiamentos públicos para as cooperativas de jornalistas”, evitando que “editores impuros” possam aceder aos financiamentos estatais (pág. 315), pela óbvia razão de que eles não cumprem o código ético a que funcionalmente  estariam obrigados – o de garantirem um rigoroso serviço público em que a informação deve instruir o cidadão nas matérias em que ele deve tomar as suas decisões, seja na política, na economia ou na cultura. E este é um ponto crítico do jornalismo actual até porque “salvo raras excepções, doravante o chamado ‘editor puro’ é uma espécie em vias de extinção, que deveria ser protegida como o panda do Wwf” (pág. 313).

4.

A última parte do livro, depois de uma descrição da referência proprietária dos principais jornais italianos, à excepção do CdS (la Repubblica, La Stampa, Il Secolo XIX – Gruppo Gedi; Il Messaggero, Il Mattino, Il Gazzettino, Il Corriere Adriatico, Nuovo Quotidiano di Puglia, di Lecce e Bari – propriedade do construtor civil Francesco Gaetano Caltagirone; Il Giorno, Il Resto del Carlino, La Nazione – do Gruppo Monti-Riffeser; Il Giornale – da família Berlusconi; Libero, Il Tempo – do empresário da saúde e parlamentar de centro-direita Antonio Angelucci), é dedicada a uma reflexão, totalmente partilhável, sobre a nova condição do jornalismo na era da Internet e sobre as tendências que determinam uma nova dinâmica da informação, em função da emergência das redes sociais, do algoritmo e, em geral, da inteligência artificial. Porque, hoje, tudo isto interfere na função jornalística. E a verdade é que, como diz Valentini, “hoje, no essencial, não se faz informação para informar o cidadão, mas sim para defender interesses estranhos aos que deveriam ser estritamente editoriais. Para fazer negócios, obter favores, concessões ou licenças. E quanto mais se reforçarem as concentrações, neste campo,  menos se salvaguardam o conhecimento, o debate, a liberdade de opinião e, portanto, a democracia” (pág. 316). Na verdade, enquanto a procura de informação cresce, tem vindo a diminuir a oferta, ou seja, está a diminuir o número dos que estão em condições de a produzir de forma profissional, de conjugar informação e conhecimento, daqueles que, em suma, Valentini designa por pós-jornalistas. Ofício absolutamente necessário, sem dúvida, mas que deve adaptar-se às exigências de tempos que estão cada vez mais em forte aceleração histórica e tecnológica: “uma nova figura profissional mais evoluída e complexa do que a tradicional”, é o que os tempos estão a exigir (pág. 307).

5.

Trata-se de um livro muito rico de informações sobre a imprensa nos últimos 50 anos em Itália. Mas, no meio de uma enorme massa de informações, é uma narrativa com um claro fio condutor: a vida profissional de Giovanni Valentini contada através do desempenho, do complexo ambiente em que teve de se mover e das decisões que teve de tomar, tudo filtrado por uma ideia clara a que a sua vida profissional deveria obedecer – a que construiu ao longo da sua experiência, em primeiro lugar, e sobretudo,  como membro da “escola” do La Repubblica, dirigida com sabedoria pelo “Maestro” Scalfari, e, em segundo lugar, como director de dois importantes semanários  italianos, L’Europeo, mas sobretudo, L’Espresso, palco especial de onde pôde acompanhar, por dentro, como activo interveniente, no plano das suas funções profissionais, a vida política, económica e social de Itália. Uma ideia que entroncava numa ética editorial que sempre defendeu e que quis cumprir rigorosamente, em nome da cidadania. “Editoria pura” e rigoroso cumprimento do código ético do jornalismo. Um desempenho independente de interesses que pudessem pôr em causa o exercício de informar e de descodificar o que de importante ia acontecendo nesse grande e belo país que é a Itália. Giovanni Valentini é autor de vários livros sobre a política e a informação em Itália, tendo-lhe também sido atribuído o Prémio Saint-Vincent do Jornalismo, em 2000. É também autor de três belos romances. Um dia escreverei sobre eles. JAS@01-2024.

NOTA
  • Em português, deste autor: Corrado Calabrò, A Penúria de ti enche-me a alma. Poesia 1960-2012. Edição bilingue (Lisboa, 2014). Edição bilingue, tradução e pós-fácio de Giulia Lanciani. Prefácio de Vasco Graça Moura.
A propósito, e como útil complemento, 
reproduzo o que aqui escrevi, em Julho 
de 2022, sobre Eugenio Scalfari, 
por ocasião da sua partida.

“Partiu Eugénio Scalfari. Com 98 anos, o grande, enorme jornalista deixou-nos, ontem. E, nesta ocasião, senti o dever de escrever algumas linhas sobre ele e o seu jornal, o la Repubblica, que leio praticamente desde que foi, em 1976, fundado. Comecei em 1978, altura em que me mudei para Roma, e ainda o leio regularmente. Ainda por cima, fiquei e sou amigo de um dos jornalistas que o fundaram e que me habituei a ler logo nos primeiros tempos, Giovanni Valentini, que foi seu vice-director e, mais tarde, director de L’Espresso. Dizem-me que o nome do jornal foi um tributo ao jornal português República. E foi, mas já não é tanto, um grande jornal, que chegou a ultrapassar o Corriere della Sera. No início dos anos ’90, obtive, e concretizei, autorização do la Repubblica para reproduzir, a título gratuito, artigos e até vinhetas de autores famosos em publicações dirigidas por mim. E aprendi muito na leitura deste jornal. Lá escreviam os melhores jornalistas e intelectuais italianos. Havia como que uma identificação ontológica do jornal com Scalfari, sendo impossível dissociá-los. E o mesmo se verificava com o seu editor, Carlo Caracciolo, ‘il principe rosso’ e ‘editor puro’, nas relações que sempre manteve com Scalfari. Como diz Giovanni Valentini, sem esta profunda cumplicidade de vida e de projecto entre ambos la Repubblica não teria acontecido.  Essa marca manteve-se sempre, mesmo quando Scalfari já não era o director e se distanciara um pouco do jornal. Era um intelectual prestigiado, respeitado e muito influente. A sua ‘travagliata’ vida deu-lhe uma densidade que se notava em tudo o que fazia.

Um Ensaio de Scalfari sobre a Burguesia

Num livro que publiquei em 1998, Paradoxos da Democracia (Lisboa, Fenda, 1998, 175-179), retomei, no subcapítulo ‘Middle class, uma democracia sem futuro?’, um estimulante ensaio de Scalfari, ‘Meditações sobre o declínio da burguesia’, publicado na Revista MicroMega, 4/1994. Em poucas palavras, a sua ideia era a de que a burguesia estava a perder (ou já tinha mesmo perdido) o seu papel originário de classe geral, regressando a uma visão corporativa da sociedade e pretendendo ela própria interpretar directamente o poder, o que antes não acontecia. É claro que Scalfari tinha em mente o recente caso de Berlusconi e a comparação com os Agnelli – que nunca pretenderam gerir, eles, directamente o Estado – era inevitável. A ideia era a de que a universalidade do Estado não podia ser interpretada por uma concreta classe (ainda que obtivesse  mandato por via electiva) e, por isso, havia que favorecer a representação por parte de instâncias e de protagonistas não ligados directamente ao interesse e ao poder corporativo. De resto, foi assim que nasceu e se consolidou (dos contratualistas a Hegel) o Estado e o direito modernos. A emergência política da middle class  viria a favorecer um movimento social e politicamente fragmentário favorável à reconstrução de uma ‘burguesia de classe’ já não identificada com o chamado ‘interesse geral’ que a burguesia tradicional representou e a seu modo promoveu. Assistiu-se, assim, ao regresso do classismo burguês e à tentativa de acesso directo do grande capital ao poder de Estado. É o caso concreto do acesso ao poder de Berlusconi. Uma bela reflexão, a de Scalfari, a que um dia voltarei.

Uma “Estrutura de Opinião”

O seu la Repubblica era um jornal culto e sofisticado que conseguia ao mesmo tempo ter uma enorme difusão nacional, uma difusão média diária de cerca de 730 mil exemplares, no início dos anos ’90, tendo atingido picos superiores a um milhão. E tudo isto era obra sua, enquanto líder deste excelente projecto jornalístico. Um projecto que Scalfari definia como uma “estrutura de opinião”, um autêntico “jornal de opinião de massas” (Valentini). Em suma, um projecto de centro-esquerda, que não era um quase-partido, como muitos diziam, mas, sim, quase uma ‘universidade popular’ tal era a sua sofisticação, a diversidade de áreas em que intervinha com competência reconhecida e a enorme dimensão de massas que atingiu.

Obrigado, Eugenio Scalfari

Hoje vivemos tempos em que o modelo deste jornal de Scalfari está em declínio, não só pelo triunfo incontestado do audiovisual, contra a cultura de natureza mais analítica, e pelo dilúvio tablóide que inunda a maior parte dos meios de comunicação, mas também pelo desenvolvimento do digital, da rede e, em particular, pelo aparecimento das redes sociais e da revolução que elas estão a introduzir na opinião pública. Scalfari pertencia a outro tempo e julgo poder caracterizá-lo analogicamente como tempo das Luzes. Um tempo que o seu projecto tão bem soube interpretar. E digo-o com conhecimento de causa e com alguma nostalgia, pois o que agora estamos a viver continua a ser, sim, um tempo de luzes, mas mais o das fugazes luzes da ribalta.”

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