Artigo

NOVOS FRAGMENTOS (XXVI)

Para um Discurso sobre a Poesia

João de Almeida Santos

“Chakra” (Detalhe) – JAS 2026

SILÊNCIO

As palavras têm som, claro, respondia assim ao comentário de um Amigo, relativamente ao meu poema “O Poeta e o Silêncio”. Mas podem ter um som que não seja audível pelos  ouvidos. Aliás, no essencial, na poesia elas falam mais à alma do que aos ouvidos. Diálogo em surdina. A poesia é mais silêncio do que som físico. É a alma que ouve o eco do silêncio e é por isso que responde em surdina. Claro, há sempre projecção sonora e cromática que aumenta a performatividade do poema e a possibilidade de atingir mais intensamente a sensibilidade de quem o partilha. Mas no essencial o diálogo das almas é silencioso. Subliminar. A utopia poética é a de tudo poder dizer com o mínimo, quase nada, de ter o poder que o silêncio tem. Não consegue, mas deseja. Creio que era o Heidegger que dizia que o silêncio é a mais profunda das linguagens. Segue-se-lhe a poesia. Claro, como dizia o outro, a poesia também é medium entre a música e a prosa. Ela tem música dentro de si, mas, enquanto tal e no essencial, é música em surdina. Tem cor em si, mas ela está dentro das palavras e só é visível com a imaginação. É cenografia de palavras. O mesmo vale para a música. Um poema é uma pauta musical, não é um piano ou uma trompete. Podemos ouvir a melodia sem usarmos os ouvidos. O Beethoven, a um certo ponto, deixou de ouvir, mas continuou a compor peças extraordinárias. Depois, é oráculo. E pode ser ouvida no silêncio das catedrais, por entre o seu colunado e na penumbra da luz filtrada pelos vitrais. Ou numa mesquita, como a de Córdova, por exemplo. E que exemplo! A poesia é meditação silenciosa sobre a vida. A partilha pode funcionar como se se estivesse a ouvir uma voz interior. A da alma. As palavras ao serviço do sentido. Sim, a poesia é a linguagem mais próxima do silêncio. Eu considero que ela é o eco do silêncio. E fala em código, até para guardar a necessária reserva sobre o que não é possível (ou permitido) dizer. É também uma espécie de suave deslizar entre a música e a prosa. Entre um nocturno de Chopin e um fragmento de Novalis. E não é denotativa. O seu minimalismo discursivo deixa-a ficar nas margens do silêncio. Por ali, nas margens. É oracular e para iniciados. Há, na poesia, sempre mistério, algo que pode ser revelado, desvelado. Mas só em parte. Sobre o silêncio é possível construir castelos de sentido, belas sinfonias e bailados de palavras. O poeta é arquitecto, cenógrafo, coreógrafo, compositor e director de orquestra. Para dar voz poética ao eco do silêncio é preciso tudo isto.

GARCÍA LORCA

Tem razão o Lorca – “a poesia não quer adeptos, quer amantes”. Por dois motivos: o ambiente natural da poesia é o do amor e, por isso, não pode haver indiferença sentimental na poesia. Não se pode olhá-la como se olha uma montra. Só entende a poesia quem a sente por dentro. Não basta pertencer ao clube dos que gostam de livros. Dos que vêem a arte como uma montra, quando passam por ali. A poesia é território de cumplicidade. A comunidade partilha-se por dentro, não em reuniões quinzenais. Tem razão o Lorca. É verdade, a poesia lê-se com a sensibilidade. Sente-se. E liberta-nos do peso da rotina e das dores de alma. Quando comecei a escrever o poema “A Poesia”, lembrei-me dele logo no primeiro verso. A poesia é um espelho para a alma. Nela podemos ver as nossas rugas interiores, sim, mas estilizadas, a ponto de se tornarem belas. Como certos envelheceres. Disseram-me que no dia em que publiquei um certo poema era o dia das mulheres. Para os poetas, os dias são todos delas, das musas. Não há poetas sem musas. E elas são nove, incluída a Erato. É por isso que a poesia quer amantes, não adeptos.

LIBERDADE

Poesia é liberdade, mas também responsabilidade, existencial e estética. O poeta sente e deve dar ao sentimento uma expressão universal, através da estética. A performatividade individualiza porque atinge a sensibilidade individual, concretizando-se como algo vivido, mas estilizado. Há sempre quem olhe para a poesia como quem olha pelo buraco da fechadura. Mas poeta que seja poeta não se deixa condicionar por isso e segue livremente o seu caminho. Como quem se expõe numa galeria de arte. “Aqui estou a expor a minha sensibilidade”. É bela a expressão do Balzac: o amor como a poesia dos sentidos. Uma bela associação. E a poesia fala aos sentidos, a todos os sentidos, à sensibilidade. O amor sempre foi o terreno de culto da poesia porque é um sentimento radical. Ele é como a poesia porque se exprime como ela. É oracular, misterioso e tende a absorver em si a totalidade do ser, sobrepondo-se a tudo.

NOVENTA E NOVE CAMINHOS PARA A FANTASIA

Parece que terá sido o escritor mineiro Fernando Sabino que escreveu “O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um, e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove”. Sim, nostalgia do que não se viveu. Nalguns casos, até se poderia ter vivido. Mas não aconteceu. E aí, como diz também o Bernardo Soares, a nostalgia é intensa: saudades do que não aconteceu. Resta-nos a imaginação. E, a ser como diz o escritor brasileiro, então, o poeta tem muito que imaginar e que cantar – 99 caminhos para percorrer com a fantasia, como se cada um deles tivesse sido o caminho escolhido, mas que se revelou impossível de percorrer. Então percorre-os com a fantasia. Mas há uma condição: para ser autêntica poesia cada um dos 99 caminhos tem de representar uma outra versão daquele caminho original que ele quis percorrer, mas que, dolorosamente, não conseguiu. Variáveis de um só e autêntico (seu) caminho. Aquele que o fez estremecer e que o catapultou para o mundo da poesia. É isto, se não quisermos que a poesia se transforme em mera retórica poética, em mero virtuosismo linguístico, como o de alguns que andam por aí à caça de prémios com palavras, em cada esquina que dobram.

SIMPLICIDADE

A simplicidade é sempre muito difícil de conseguir, respeitando os cânones da estética. Mas quando se parte de uma experiência interior autêntica tudo se torna mais fácil. É só dar-lhe voz, desde que o estro não nos abandone. Eu creio, sim, que o exercício poético persistente e esteticamente empenhado tende a evoluir para a simplicidade, para uma estilização cada vez mais subtil. Na minha poesia esse é, cada vez mais, o meu objectivo: falar poeticamente com certeira simplicidade.

RENASCER

“Nascem, então, os poetas. / E nascemos todos nós”. “Quando há cor, há madrugada”. “Entra pelos seus ouvidos / O verde aroma dos prados”. Gosto destes versos: ouvir o aroma dos prados e ver madrugadas na cor é privilégio dos poetas (e dos pintores), afinal, de todos nós, que renascemos quando os poetas renascem. E eles renascem em cada poema que criam. A última estrofe do meu poema “A Poesia” também fala da poesia e da madrugada, da luz que acende suavemente, com o seu despontar, as cores do dia que volta a nascer. A poesia é como o renascer do dia com a luz que acende as suas cores, as cores da vida que recomeça. É luz que ilumina a vida.

BALLON

Tudo fica mais leve com a poesia. Leveza, sim. Que corresponde àquilo que na dança se chama “ballon”. A poesia responde sempre a algo que perdemos ou não alcançámos. E que provocou dor. O Cioran falava de uma poética do fracasso. Mas o canto alivia a alma. Quando somos felizes passamos alegremente ao lado da poesia. Isto já o dizia o Vinicius ao passarinho que vinha pousar na sua janela. A poesia é mais amiga da penumbra do que do sol que brilha. Depois, a partir da penumbra, e com a ajuda de Apolo, faz emergir um sol que nos ilumina a alma. E a leveza toma conta de nós. “Ballon”.

A POESIA E A DOR

Tem razão o poeta austríaco Ernst Herbeck: “Quanto maior a dor, maior o poeta. Mais duro o trabalho. Mais fundo o sentido”. Se não houver outra cura para uma dor profunda, o remédio é a poesia. Sendo profunda a dor, mais sofrida e exigente será a cura. Mais duro será o trabalho poético para obter uma eficaz performatividade da poesia, capaz de atingir a alma do poeta e de quem frui como terapia. Ir lá ao fundo da alma para trazer a dor à consciência, verbalizando-a e, pela beleza, dar às palavras poder sensitivo e curativo. Fazer coisas com palavras, diria o Austin. Sim, estas palavras de Ernst Herbeck são precisas, rigorosas e verdadeiras. Ele sabia bem do que falava vistas as condições e o tempo em que viveu.

VALSA LENTA DE PALAVRAS

Valsa lenta de palavras. Confesso que é isso mesmo que tento sempre, nos meus poemas, mesmo quando me sinto embalado pelo ritmo das palavras. Valsa lenta. Música, sempre música para um bailado. O poema é sempre pauta. E as palavras bailam ao som da partitura. O poeta é compositor e director de orquestra. E, às vezes, elas, como na “Prova d’Orchestra”, do Fellini, rebelam-se e recusam-se a seguir a batuta do maestro. Não sei porquê, mas são dias difíceis para o poeta. O que o salva é o poder da musa, a sua atracção, a sua beleza, o seu canto irresistível. A ele até as palavras se vergam e alinham na prova d’orquestra. O que não aprendo com o Fellini! O Nino Rota, o compositor de “Otto e Mezzo”, morava ali, na Piazza delle Coppelle, em frente da Osteria “Da Mario”, onde anos a fio fui jantar e conviver. Valsa lenta de palavras, sim, até porque o som é o do eco do silêncio da musa. Dançar o silêncio só em valsa lenta.

OLFACTO

Um interessante modo de descrever a presença do olfacto (num poema, associado à audição interior de uma voz familiar) como elemento sinestésico de uma relação de afecto. Não é só música nem cor, é também aroma, perfume que revela a presença do ser amado. A música tem cor, mas também perfuma. Na verdade, a poesia convoca todos os sentidos, podendo substituí-los porque usa a imaginação para reconstruir o mundo e a vida. Como dizia o Novalis: “a imaginação é esse sentido prodigioso que pode substituir todos os nossos sentidos”. Ele diz isto nos “Fragmentos”. Ou como poderia ser dito pelo Bernardo Soares, ainda mais intensamente: há mais perfume no dizê-lo do que no cheirá-lo.

UNIVERSALIDADE SUBJECTIVA

A força de um poema resulta de ele atingir dimensões tão profundas da sensibilidade que elas podem ser sentidas/partilhadas por outrem que não somente pelo poeta. É por isso que a poesia procura sempre transcender a experiência que a possa ter provocado. A fantasia inspira-se no real, mas transcende-o, devolvendo-o como “universalidade subjectiva” (a estética) para usar o conceito do Kant da “Crítica do Juízo”, depois de trabalhado pela “maquinaria” poética: da alma ao espírito para, depois, ser devolvido esteticamente à alma. Esta “maquinaria” possui dispositivos capazes de atingir a sensibilidade de quem frui. Um deles é o dispositivo musical interno da própria poesia (que eu sempre procuro).

A MUSA

É verdade, ela, a musa, é tudo isso em arte, porque inspira. Ela é poesia (sem musa a poesia não acontece) e, por isso, é canto; e, por isso, também é bailarina porque a poesia é bailado de palavras. O poeta e a musa são cúmplices na construção de um poema, que é canto e bailado. Arte.

O AMOR

O paradoxo do amor, forte, mas inexplicável. Ela, mesmo limitada a deixar a vida correr, não correndo com ela por ser sempre em subida (e é), representa a musa amada do poeta. Nada o explica, porque simplesmente acontece, mesmo que o ser amado nada faça, nada seja e nada queira conquistar porque não gosta de escalar a vida. Preguiça? Não, destino. A vida resolverá tudo por si, incluído o amor. Não sei se o poeta estava a pensar em alguém assim, marcado(a) pelo destino para somente ser amado(a). Alguém que tenha sido objecto de um inexplicável, mas absoluto, amor. No fim do poema está a resposta. Fortes e perigosas ondas em alto mar e naufrágio sempre à espreita. Ela não canta, não dança, não pinta e, ao perguntar-lhe o que sabe ela fazer, a resposta é: “Nada, foi meu destino ao nascer”. O destino. Não será por isso que o amor, poderoso e exclusivo, não a atingirá em pleno. É isto que está em causa no poema “Pergunta o Poeta à Musa”. O mistério do amor, o sentimento mais sujeito às tempestades existenciais e que não se sabe de onde vem, como e por que razão acontece… e para onde vai. Talvez para a poesia… JAS@03-2026

 

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