Media e Poder. O poder mediático e a erosão da democracia representativa (Lisboa, Vega, 2012, pp.372)*


* Excerto da Introdução                                         

Já nas livrarias!

 

«O que sabemos da nossa sociedade e,

em geral, do mundo em que vivemos,

 sabemo-lo pelos mass media (…).

Por outro lado, sabemos

o suficiente dos mass media

para não podermos confiar nesta fonte»

Niklas Luhmann, Die Realität

der Massenmedien1996

1. Os pressupostos

1.1. Esta citação de Niklas Luhmann, com que inicio a apresentação dos principais pressupostos que estão na base desta investigação sobre as relações entre os media e a democracia representativa, poderia sintetizar muito bem a sua razão de ser: sendo os media decisivos para o conhecimento da sociedade em que vivemos, todavia, eles não garantem uma informação segura e capaz de orientar o cidadão nas suas decisões. No plano da democracia, os media, apesar de ocuparem ainda uma centralidade indiscutível, não garantem uma equivalente função de cidadania capaz de dotar  o cidadão de informação válida para que possa decidir livremente e de forma sustentada e fundamentada. É esta a questão central da democracia moderna. O poder dos media é enorme, mas o exercício deste poder não garante os resultados que seriam expectáveis, desejáveis e até exigíveis. É enorme, também, porque eles, como diz Jesús Timoteo, conseguiram «romper e reorganizar a estrutura mais íntima do poder social nos últimos anos», porque concentraram neles a força da opinião, organizando-a e tornando-se instrumento consciente dos agentes sociais, mas também porque se tornaram uma indústria com peso específico nos PIBs nacionais, com objectivos económicos e de mercado próprios e com capacidade de influenciar as regras no jogo do poder. Além disso, reorganizaram os processos, os métodos e os comportamentos humanos, alterando as noções de tempo e de espaço e remetendo os níveis de decisão para um «espaço intermédio de esfera social», nem meramente pessoal nem de massas (Timoteo, 2005: 244)[1]. Ora, o que se verifica é que quanto maior é o seu poder tanto mais frágeis se revelam os seus resultados no plano das funções de cidadania.

É esta assimetria entre poder mediático e resultados políticos que está em causa nesta investigação. Em primeiro lugar, procurando ver que mutações este poder induz nos principais mecanismos da democracia representativa. Em segundo lugar, analisando o seu sistema operativo integral. E, em terceiro lugar, verificando os efeitos do poder mediático quer sobre a construção do consenso e a formação da decisão político-eleitoral quer sobre a desconstrução do consenso.

O tema desta investigação reside, pois, na relação entre media e democracia representativa. O seu objectivo profundo consistirá em evidenciar  a inversão que se está a verificar  na relação entre ambos: de pilar decisivo para a instauração, a consolidação, a expansão e o aprofundamento da democracia representativa os media estão a transformar-se – mercê das profundas transformações que conheceram – em principal factor de erosão da representação política democrática e de condicionamento do processo de construção do consenso e da decisão político-eleitoral. O aumento exponencial do poder dos media[2] tem vindo a determinar uma profunda mutação na democracia representativa tradicional, dando lugar ao que já vem sendo designado como «democracia de opinião» ou como «democracia do público» (veja-se Wolton, 1999: 193; Minc, 1995; Manin, 1995). É neste sentido que também deve ser entendida a afirmação de Manuel Castells de que «os media se tornaram o espaço social onde o poder é deliberado» (Castells, 2007)[3]. Ou a afirmação, de Jesús Timoteo, de que «los medios no son ya medios, son enteros: hacen mucho más que intermediar entre otros agentes (políticos y de mercado) y incluso mucho más que definir la agenda y convertir la política en un espectáculo, los medios son el poder» (2005: 227-228). Eles «decidem sobre o poder, decidem sobre o mercado e decidem sobre a organização e a estrutura das sociedades do Ocidente. E fazem-no de modo determinado e inevitável» (2005: 149).

Ora esta centralidade dos media no sistema social está a provocar a transformação da democracia representativa numa democracia de tipo pós-representativo (Zolo, 1989; 1992), uma vez que se verificam profundas mutações estruturais nos seus mecanismos nucleares que põem em causa o próprio modelo representativo.

Vejamos. Os media detêm, hoje, um efectivo poder de mediação imperativa da relação do cidadão com o poder e com o próprio real. Imperativa, no sentido etimológico originário: comando, ordem, poder. E, de facto, no início da sua afirmação como importante subsistema social, os media surgem como condição de possibilidade de um exercício de cidadania pleno, só possível através da liberdade de imprensa e da constituição de uma esfera pública de novo tipo. Uma esfera onde a opinião pública convergisse como genuína expressão da cidadania. Uma cidadania onde, como queria Kant, cada cidadão agisse de tal modo que a máxima da sua vontade pudesse ao mesmo tempo valer como princípio de uma legislação universal, pudesse valer como princípio inexpugnável da democracia. Do que se tratava era da liberdade de informação e das condições de possibilidade de formação de uma decisão informada, fundamentada, racional. A opinião emergia, assim, como importante variável do sistema político e os media surgiam como o corpo orgânico da opinião. Neste sentido, os media passam, assim, a integrar instrumentalmente o dispositivo cognitivo que permite ao cidadão agir de forma racional, informada e fundamentada (Santos, 2000). Com efeito, a emergência dos media dá-se no contexto da afirmação histórica do racionalismo moderno, constituindo um suporte imprescindível para o exercício livre da razão. O tempo viria a reforçar esta dimensão essencial dos media, a um ponto tal que se justificam as palavras de Niklas Luhmann: «O que sabemos da nossa sociedade e, em geral, do mundo em que vivemos, sabemo-lo pelos mass media».

O carácter crescentemente imperativo dos media levou já, de resto, a uma profunda reconfiguração do próprio poder político nas suas formas organizativas: redução drástica do poder dos partidos, confinando-os cada vez mais à função de designação dos candidatos a representantes no mercado eleitoral – capacidade de propositura, que já nem sequer detêm em exclusividade –, e redução drástica do seu valor orgânico, vista a queda tendencial do valor da componente orgânica da política em face da sua componente inorgânica; no seu discurso: homologação substancial do seu discurso ao discurso mediático, ou seja, homologação do conteúdo político à forma e à eficácia comunicativa; nos seus programas: redução dos programas à satisfação discursiva das expectativas do público, dominantemente expressas pelos media e pelas sondagens, mediante fórmulas de seguro efeito retórico; na personalização da comunicação política: confluência do sistema de partidos na figura dos líderes, em especial devido à forte influência dos meios electrónicos[4]. Por isso, induziu também mutações significativas nos mecanismos centrais da democracia representativa clássica. Por um lado, a formação da vontade político-eleitoral conhece hoje uma maior dependência, de curto e de longo prazo, do sistema dos media, tal como a maioria das teorias dos efeitos tem vindo a sublinhar; por outro lado, a legitimidade do poder político electivo surge cada vez mais como uma legitimidade partilhada com o próprio sistema dos meios de comunicação, podendo-se hoje falar de soberania partilhada ou de representação partilhada, no sentido da emergência de um segundo grau da cultura da representação a crédito dos media (Santos, 1998: 215). Isto é, a exclusividade da representação política institucional está hoje posta em causa, já que a representação política é partilhada com os media, no desempenho da sua função social, no plano político, verificando-se, pois, uma forte interacção entre as duas representações. De onde resulta aquilo que designarei por legitimidade flutuante.

A questão que se põe, de imediato, resulta da diferença de estatuto de ambas as representações: um é um estatuto electivo; o outro resulta de uma função social. A questão reside, então, nos termos da interacção entre estas representações: os termos deveriam funcionar diferenciadamente e em justo equilíbrio, em nome das respectivas autonomias e dos respectivos estatutos e tendo, em última instância, em consideração o princípio de que a democracia é o governo do povo e para o povo, que tem máxima expressão no princípio electivo. Ou seja, enquanto a representação política possui uma legitimidade de primeiro grau, porque directamente conferida pelos cidadãos, a representação mediática possui uma legitimidade de segundo grau, porque resulta da função e só indirectamente dos cidadãos. Melhor: só a legitimidade electiva pode conferir ao subsistema político uma autonomia integral, funcional e hierarquicamente superior, fazendo dele um subsistema não intercambiável com qualquer outro subsistema, designadamente o mediático, e capaz de assegurar, por isso, a regulação máxima do sistema[5]Por outro lado, para que a legitimidade electiva não se transforme em poder discricionário, também emerge, além do controlo interno entre os vários poderes istitucionais (checks and balances), próprio do Estado de Direito, um controlo externo que é exercido pela opinião pública, essencialmente através dos meios de comunicação social. Os media funcionam, assim, como uma (entre outras) instância de controlo remoto e indirecto (uma vez que o verdadeiro titular do direito de controlo é o cidadão-destinatário da informação veiculada pelos media) do poder institucional, exercendo, indirectamente, uma soberania partilhada com o próprio poder político, na medida em que têm como função reconduzir (permanentemente) o exercício do poder delegado ao povo sob a forma de informação e de saber. Como diz Wolfgang Achtner, «a liberdade de imprensa é um direito da sociedade e não um privilégio individual»; «é precisamente este direito dos cidadãos de saber que legitima o papel quase institucional da imprensa livre» (1996: 32).

O que defendo é que, nesta interacção, os media, pela sua capacidade de criarem permanentemente uma forte «pressão ambiental» sobre o poder político, têm vindo progressivamente, por um lado, a determinar, de forma significativa, as condições de acesso ao poder pelo consenso, isto é, o «ambiente»  próximo e remoto (o «clima de opinião») em que decorre o processo electivo, e, por outro, a condicionar fortemente a autonomia do próprio exercício do poder político institucional. É esta tendência que explica a evolução da democracia representativa para a chamada «democracia de opinião». Isto é, os media tendem cada vez mais a emergir como sujeitos políticos activos que interferem nos mecanismos centrais da democracia representativa. A montante e a jusante. As elites políticas vivem hoje em tensão permanente com as elites mediáticas e com o funcionamento organizacional, categorial e estratégico do sistema mediático. A um ponto tal que a lógica do discurso político se tem vindo cada vez mais a adaptar às exigências de funcionamento do sistema mediático. Os próprios conceitos de «democracia de opinião» ou de «democracia do público» exprimem, por si, esta evolução: a opinião circula dominantemente no espaço público mediático e o conceito de público sobrepõe-se a um conceito de cidadão que, por sua vez, ganha cada vez mais o sentido de espectador, no espectáculo democrático representado no palco mediático.

Mas se a questão democrática reside, originariamente, na forma como a representação política é exercida, ela passou também a residir, e cada vez mais, nas condições em que é desempenhada a função social dos media. Só que a representação política é sancionada pelo princípio electivo, enquanto a função social dos media não é sancionável, ou é-o tão-só remota e indirectamente pelo mercado das audiências (Wolton, 1999: 162).

Por outro lado, se é verdade que as condições em que os media desempenham a sua função tendem cada vez mais a depender do modelo tablóide, enquanto é ele que, comprovadamente, melhor garante a sustentação de audiências vastas, determinando uma maior autonomia financeira dos grupos económicos que detêm os principais media e, consequentemente, um efectivo crescimento e consolidação do seu próprio poder, então é a própria função social dos media que está em causa, já que com este modelo eles não conseguem atingir o seu objectivo originário: a promoção da autodeterminação individual na esfera da decisão político-eleitoral, ou seja, o desempenho pleno das funções de cidadania. Ou, como diria Habermas, a devida promoção das capacidades de cada cidadão fundar as suas razões em argumentos com pretensão de validade universal (Habermas, 1982). Ou, ainda, a promoção das condições de aplicação prática do imperativo categórico de Kant.

A tese que defendo tem a ver, por um lado, com a discrasia (do grego: duskrasía,as – má mistura) da representação política e a emergência daquilo a que chamo legitimidade flutuante e, por outro lado, com a forte emergência do poder mediático como sujeito político activo que partilha a representação com o poder político, já que é portador de uma legitimidade (de segundo grau) que decorre da sua reconhecida função social. Ao mesmo tempo que se verifica uma precarização do poder político electivo verifica-se um reforço do poder mediático, enquanto função do sistema social. Isto é, verifica-se cada vez mais uma tendência para a subalternização da componente representativa tradicional do sistema ao mesmo tempo que se verifica a implantação de novas formas de democracia «directa», centradas no funcionamento dos modernos sistemas de comunicação. Esta discrasia da representação vem provocar, como não poderia deixar de ser, uma queda tendencial do valor de uso do voto e do princípio electivo, uma vez que a representação perde quota electiva ao mesmo tempo que ganha quota mediática, não tão directamente controlável como a quota electiva.

O que pretendo analisar neste estudo são precisamente as condições em que se verifica a evolução da democracia representativa para a chamada «democracia de opinião» ou «democracia do público». Evolução que, todavia, parece estar cada vez mais assente em modelos e mecanismos que não garantem cabalmente os próprios princípios estruturantes da democracia representativa, como o princípio da autodeterminação individual, que se exprime no voto, e o princípio do mandato não imperativo. Situação tanto mais complexa quando, afinal, as novas formas de democracia «directa» que se insinuam não podem deixar de se inscrever no quadro mais amplo de uma democracia representativa, já que a experiência das democracias directas se revelou historicamente falida. E, todavia, estas novas formas tendem, cada vez mais, a subalternizar o princípio electivo – com todas as consequências no plano da representação e da legitimidade[6] – e, consequentemente, o próprio cidadão

Numa palavra, a democracia representativa não resiste à irrupção de um forte desequilíbrio entre uma afirmação precária do princípio electivo e a afirmação imperativa da importante, mas relativa, função social dos media. Sobretudo, tal como esta tende cada vez mais a configurar-se.

Manuel Castells, em «La era de la información», explica a crise da democracia também com o desequilíbrio entre política e media, sobretudo porque aquela continua a fundar-se no modelo próprio das sociedades industriais. Diz Castells: «devido aos efeitos convergentes da crise dos sistemas políticos tradicionais e do espectacular aumento da penetração dos novos media, a comunicação e a informação políticas ficaram capturadas no espaço dos media. Fora da sua esfera só há marginalidade política». A captura da política «no espaço dos media (uma tendência característica da era da informação) repercute-se não só nas eleições, mas também na organização política, na tomada de decisões e no governo, modificando definitivamente a natureza da relação existente entre o Estado e a sociedade. E como os sistemas políticos continuam a basear-se em formas organizativas e estratégias políticas da era industrial, tornaram-se obsoletos no que diz respeito à política e vêem negada a sua autonomia pelos fluxos de informação dos quais dependem» (Castells, 2000: II, 344). Mas o que se torna necessário explicar também é precisamente a influência dos media na superação do modelo industrial que subjaz à democracia representativa tradicional.

Ora, nesta investigação, o que procuro analisar, de um ponto de vista teórico, com suporte em concreta investigação empírica, é precisamente os efeitos dos media sobre os mecanismos, os processos e as funções centrais da democracia representativaradicalizando a crítica para melhor poder evidenciar problemas e riscos. Isto, naturalmente, no quadro de uma concepção que considera esta função social dos media como pressuposto inalienável da democracia representativa.

Trata-se, pois, de uma fenomenologia descritiva e crítica da democracia actual num contexto de forte emergência dos media como poder (político, económico e social).

Poderia associar-me a Jesús Timoteo, no seu livro «Gestión del poder diluido. La construcción de la sociedad mediática (1989-2004)», dizendo que «o problema dominante das democracias ocidentais, que gostam de se definir como “pós-parlamentares”, mediáticas ou “pós-liberais”, é a clarificação sobre onde estão os organismos de decisão e poder na actual democracia. O que há que resolver é o direito dos indivíduos saberem quem manda e onde estão os novos centros de poder, o direito a conhecer se elegem ou não os poderes reais, o direito a estarem informados individualmente com precisão e sem enganos antes de elegerem os que os representam, o direito individual a não serem confundidos nem manipulados por agentes de opinião, por meios de comunicação com técnicas e capacidades assombrosas para criar e organizar as decisões, o consumo, os votos, a vida pública, a vida política» (2005: 80-81)[7].

1.2.1. A minha «pré-compreensão» do fenómeno em análise funda-se, em parte (e por via das funções políticas desempenhadas durante cerca de 15 anos), na análise permanente dos media portugueses e da política em Portugal, com particular – e particularizada – incidência no seu comportamento perante as eleições legislativas de 1999, uma vez que se tratou, como veremos exaustivamente, de um caso verdadeiramente exemplar. Trata-se de um período da história política portuguesa recente, em que se verificou uma queda política abrupta do Primeiro-Ministro português António Guterres e do seu segundo Governo (1999-2002). O que fiz, ao iniciar as investigações, foi verificar detalhadamente – mediante análise quantitativa e de conteúdo – uma pré-compreensão sobre o comportamento generalizado dos media em relação aos resultados eleitorais do PS nas eleições legislativas de 1999 e em relação à formação do XIV Governo Constitucional.

Reservando a exibição dos estudos quantitativos e da sua análise aprofundada para a Parte III, é útil, todavia, assinalar, desde já, com múltiplas referências, a importância da influência concentrada dos media quer no processo de distorção hermenêutica destes resultados eleitorais, a que chamarei «efeito de interpolação», e de precarização imediata e de revogação simbólica da «legitimidade de mandato» do segundo Governo Guterres (logo a partir do momento em que estava a ser constituído) quer através da construção de estereótipos e de um clima de opinião fortemente desfavoráveis à imagem deste Governo, que haveriam de levar à sua queda abrupta e à saída de cena precoce do Primeiro-Ministro.

De resto, a actual «voracidade» dos media está também a impor – sobretudo quando eles mantêm capacidade de resistência à sua instrumentalização pelo poder político – ciclos políticos cada vez mais curtos, sendo certo que os governos estão cada vez mais sujeitos – a partir do próprio momento da sua constituição – ao que designo por legitimidade flutuante (imagem), decorrente de uma constante «pressão ambiental» por parte dos media.

Na verdade, com este caso, procurarei ilustrar de forma exaustiva a grave fractura que se verificou entre o sistema mediático português e aquilo que designo por «esquema normativo de referência»  dos media, ou seja, o «código ético» a que está vinculada a legitimidade implícita de que eles são portadores no desempenho da sua função social. Esta fractura resultou de um enorme «efeito sistémico de interpolação» que dominou a hermenêutica mediática dos resultados eleitorais e da composição do governo que resultou dessas eleições. Este «efeito sistémico de interpolação» haveria de determinar uma outra fractura ainda mais grave: a fractura entre a função social dos media e o princípio electivo, ou seja, a fractura entre o voto e a sua representação mediática. Aqui foi possível verificar que já se estava a insinuar a presença de um novo tipo de legitimidade diferente da legitimidade de mandato. Isto é, uma legitimidade de tipo flutuante, resultante dos efeitos dos media, das sondagens, dos estudos ou dos inquéritos de opinião. Com efeito, a legitimidade de mandato tende a desaparecer quando o voto fica confinado à mera função de designação formal dos representantes, perdendo capacidade de delegação efectiva de legitimidade estável. Esta passa, neste caso, à condição de flutuante, sem durabilidade e dependente das flutuações dos índices de agrado público das instituições políticas de origem electiva. Dá-se, assim, o colapso virtual de um dos mais importantes princípios da democracia representativa, precisamente daquele princípio que distingue os sistemas representativos das democracias directas: o do mandato não imperativo, ou seja, a não revogabilidade do mandato.  Numa palavra, o caso português ilustra muito bem as tendências que se estão a verificar no sistema democrático, a jusante do voto. A montante do voto, estas tendências serão muito claramente visíveis na análise a que submeterei, na Parte VI, o caso Berlusconi, a sua subida ao poder em 1994.

1.2.2. Há, de facto, uma experiência internacional que assumo como referência importante para o enquadramento desta reflexão, porque condensa grande parte das questões que estarão em análise: a experiência italiana, a subida ao poder de Silvio Berlusconi, em 1994. Fenómeno que Paul Virilio viria a designar como «o primeiro golpe de Estado mediático da história europeia» (Virilio, 1994: 167).

Pela sua importância, é útil, desde já, fazer algumas considerações sobre as componentes essenciais do processo.

A subida ao poder de Berlusconi, por três vezes[8], marca, com efeito, uma ruptura com o modo de funcionamento do sistema de partidos convencional e condensa, radicalizando-as, de forma bem nítida, as novas tendências que se vêm cada vez mais afirmando:

a) forte personalização da política, com irrupção de poderes carismáticos induzidos fundamentalmente pelos media;

b) predomínio da procura sobre a oferta política, isto é, quando a política deixa de ser programaticamente propositiva, proposta e executada segundo a lógica do «interesse público», para passar a construir os seus programas de acordo com as expectativas do público – com o «interesse do público», a que corresponderia uma espécie de novo «partido do público» -, captadas através de inquéritos, estudos de opinião ou sondagens, em prejuízo do necessário reconhecimento analítico das principais clivagens sociais (veja-se Amadori, 2002: 96) e dos interesses estratégicos do país;

c) reconversão da ideia de cidadão na ideia de público consumidor e espectador;

d) redução do discurso político à retórica do marketing;

e) fragilização dos tradicionais órgãos de intermediação política, como os partidos, que passaram a assumir a forma de «partidos leves» (Sartori, 2000: 79).

O caso de Berlusconi é particularmente relevante porque ele detém o maior grupo italiano privado de comunicação social (mas não só), e um dos maiores da Europa (veja-se Jakubowicz, 1999: 193), partilhando, em condições de paridade, as audiências televisivas (mas não o volume de publicidade, que é muito maior) com o sector público. Grupo que, naturalmente, se envolveu no seu projecto político: «nas eleições italianas de 1994», diz Giovanni Sartori, «Luca Ricolfi calculou (entrevistando uma sua amostra cada 15 dias) que a televisão tinha desviado para a direita mais de seis milhões de votos. E mesmo se este é um desvio máximo, são muitos os que consideram que três-quatro milhões dos nossos eleitores sejam teleguiados». Citando o próprio Ricolfi: «considerando só os saldos, o impacto global do sistema televisivo pode ser avaliado em cerca de 10% do eleitorado, o que corresponde a cerca de 4 milhões de eleitores» (Ricolfi, 1994: 1039). Ou, ainda, Sartori, sublinhando o forte impacto da televisão sobre a decisão político-eleitoral: «quatro americanos em cinco declaram que votam em função daquilo que recebem do ecrã» (2000: 76-77). Diz Mario Morcellini, referindo-se à «dependência – seja estrutural ou conjuntural – das orientações políticas dos media, sobretudo numa fase de grandes transformações»: «no início de 1994, segundo uma sondagem CIRM para “Panorama” (14.01.94), 85% dos interpelados indicava a televisão como a principal fonte de informação sobre a política e, praticamente, a mesma percentagem de entrevistados afirmava que a televisão teria influído sobre o resultado das eleições políticas» (1995: 10, n. 5). Estudos feitos sobre as eleições legislativas italianas de 2001 demonstraram que, durante a campanha eleitoral, a maioria dos espectadores dos seus canais televisivos assumiam eleitoralmente uma clara preferência por Berlusconi, sendo certo que a sua exposição televisiva nos seus canais, em particular em Italia 1, foi de longe superior à do seu principal concorrente, Francesco Rutelli. Com efeito, entre 10 de Março e 11 de Maio de 2001, se nos canais da RAI Berlusconi teve de exposição 465 minutos contra 441 do directo concorrente, já nos canais de MEDIASET ele teve 1.427 minutos contra 887 de Rutelli (Sani e Legnante, 2002: 127; 2002a: 58). Quase dez horas a mais, na MEDIASET, em dois meses de campanha eleitoral, em todos os programas e em três canais. Mas, se considerarmos todos os canais da RAI e da MEDIASET, a diferença quase se mantém: + 9 horas e 25 minutos (1890 minutos para Berlusconi e 1328 minutos para Rutelli). A diferença no prime time, nos telejornais, em todos os canais, também é significativa: 170 minutos para Berlusconi e 105 para Rutelli. Menos uma hora e cinco minutos para o candidato do centro-esquerda, que obteve cerca de 62% da «presença» de Berlusconi[9].

Mas a questão da campanha eleitoral não é certamente tão importante como, por um lado, os efeitos prolongados no tempo que os seus meios de comunicação foram produzindo explicitamente a seu favor e, por outro, os efeitos da ideologia televisiva que os seus canais foram propondo ao longo do tempo, funcionando como uma imensa fábrica de desejos (Amadori, 2002: 85-93) que Berlusconi interpretou e reconverteu em retórica eleitoral para uso e consumo das massas (veja-se Statera, 1995: 12; 15). Como diz Amadori: «Até Uma história italiana [o livro autobiográfico que Berlusconi distribuiu em milhões de exemplares pelas casas dos italianos, durante as eleições de 2001] reconhece o poder da televisão como factor de sucesso do berlusconismo»  (2002: 87).

Mas mais evidente é a experiência de 1994, já que, em poucos meses, não tendo um partido consolidado de suporte (excluídos, naturalmente, os partidos com que se aliou), Berlusconi consegue ganhar as eleições legislativas, numa experiência que já conhecera o antecedente de Ross Perot, nas eleições presidenciais americanas. Perot conseguira obter, sem nenhuma formação política organizada, e baseado simplesmente em talk-shows televisivos pagos, cerca de um quinto dos votos dos americanos (Sartori, 2000: 79).

É certo que Berlusconi ganhou as duas eleições em coligação com outras forças políticas organizadas e que veio a ocupar um espaço político, à direita, deixado em aberto pela ruptura do sistema de partidos tradicional. Mas a verdade é que, num sistema que tende a promover cada vez mais a personalização da política, a sua personalidade foi determinante em ambos os processos, como demonstra Alessandro Amadori, em Mi consenta (Amadori, 2002).

Assim, o que se revela importante, neste caso, é a conjugação perfeita e explícita do domínio de um imenso poder mediático (e económico) com uma estratégia política de conquista e de manutenção do poder electivo. Isto é, o poder económico privado pôde, através desta conjugação, assumir directamente, sem intermediários funcionais (uma classe política de tipo tradicional), o controlo do poder político. Por um lado, rompe-se a tradição da separação funcional entre o poder económico e o poder político e, por outro, o poder político tende a configurar-se, através das sondagens e dos media, como expressão directa da opinião pública, fragilizando duplamente as formas tradicionais de intermediação política: o poder económico acede directamente ao poder, interpretando e interpelando directamente a opinião pública. Isto é, faz-se uma revisão da velha ideia de burguesia como classe geral, transformando-a em intérprete político directo da opinião pública, prescindindo dos tradicionais mediadores e propondo uma purificação ética da «classe política» (Santos 1998: 175-179; mas veja-se o livro demolidor, para Berlusconi, de Elio Veltri e Marco Travaglio, L’odore dei soldi – Veltri e Travaglio, 2001). Todo o discurso de Berlusconi tem este sentido e esta orientação.

democracia de opinião, evoluindo neste sentido pode, então, assumir a forma de populismo electrónico, sem necessidade de intermediação política, uma vez que os novos sistemas de comunicação e as sondagens podem, no essencial, determinar ou mesmo substituir o próprio princípio electivo, sobrepondo-se-lhe de vários modos. Daqui resulta uma fragilização da instância política a favor da ideia de uma gestão empresarial da sociedade (os principais homens políticos de Berlusconi são os mesmos que constituem a sua elite empresarial) que se propõe como  modelo de gestão das expectativas dos cidadãos, entendidos como consumidores e espectadores.

Também aqui o princípio representativo fica confinado à simples função de designação formal dos representantes, remetendo-se a ideia de legitimidade para a esfera móvel da opinião (pública). A desvitalização da instância política, no sentido da representação tradicional, corresponderia assim a uma forte revitalização das máquinas do consenso directo ao serviço de uma gestão empresarial da sociedade.

O caso de Berlusconi é paradigmático, já que:

a) elimina qualquer dúvida sob o uso intrumental dos media[10] e dos estudos de mercado (de opinião) para fins estritamente políticos;

b) a classe política se identifica com a classe empresarial;

c) se verifica uma personalização extrema do poder;

d) o cidadão se identifica com o consumidor-espectador;

e) na ideia de representação ganha particular pregnância a dimensão da identificação simbólica com o líder carismático;

f) neste contexto, irrompe com particular força a manipulação semântica da realidade, através do potenciamento das técnicas de comunicação retórica e de indução de comportamentos miríficos. Ou  seja, os media ao serviço da persuasão.

Estas linhas de força instruem a minha «pré-compreensão» do tema em análise e servem de guião para a análise mais aprofundada que desenvolverei na Parte VI sobre todo o processo político-mediático que levou Berlusconi ao poder, em 1994.

1.3. A «pré-compreensão» deste tema funda-se também na constatação de que o sistema mediático português (em particular o sistema televisivo) tem vindo a evoluir progressivamente para a tabloidização – seguindo nisto a tendência geral que se está a verificar[11] – com todas as consequências que, no plano do seu sistema operativo e das suas categorias estruturantes, daí advêm para o fenómeno político em Portugal, designadamente para os efeitos de distorção, a curto e a longo prazo, sobre o ambiente cultural geral, sobre a sua função social e sobre as funções de cidadania a que o sistema mediático está obrigado. Estes efeitos têm graves consequências sobre a capacidade de autodeterminação política do cidadão eleitor e, consequentemente, sobre a decisão político-eleitoral. Nuno Goulart Brandão fez dois estudos exaustivos sobre os telejornais portugueses (Brandão, 2002 e 2005), nos três canais generalistas: RTP, SIC e TVI. O primeiro, sobre 546 aberturas dos telejornais; o segundo, na sua tese de doutoramento, sobre 180 telejornais, nos mesmos canais. O segundo estudo confirmou o primeiro. A conclusão essencial destes estudos aponta inequivocamente para a tabloidização crescente da informação televisiva portuguesa, com o consequente predomínio da comunicação de natureza emocional, dramática e negativa, num prime time informativo extenso (em tempo útil, uma hora, doze minutos e quarenta e quatro segundos, em média). Como diz Nuno Brandão: «o desporto e os acidentes e catástrofes são o exemplo claro da espectacularidade da informação, da emoção e dramatização crescente nos telejornais portugueses» (Brandão, 2005: 163); e «como deixo expresso nesta investigação, os telejornais portugueses estão cheios de notícias geradoras de emoção, dramatização e espectacularidade como principais critérios para  [a] hierarquização da importância noticiosa. (…) A própria política é cada vez mais tratada pela televisão à luz dos impactes espectaculares e cada vez menos» à luz de uma «informação reflectida, contextualizada e geradora de conhecimento para os cidadãos» (2005: 221-222). Se não fosse clara esta tendência, poderíamos tirar as dúvidas analisando o tratamento noticioso dado ao recente caso  de Madeleine McCann, a criança desaparecida na Praia da Luz, no Algarve. Fá-lo-ei de forma sucinta e limitada, mas significativa, na Parte IV.

Esta tendência deve-se às exigências de captação de público e de publicidade, mas tem como consequência uma depauperação das funções de cidadania, a que está ligada a legitimidade do exercício da sua função social, estando previstas na própria Lei da Televisão.

1.4. Parto também da assunção de que os media ganharam forte protagonismo político, por cinco razões fundamentais:

a) pela generalização mundial da rádio e da televisão: por um lado, pela expansão universal das suas audiências e, por outro lado, pela presença de um «ponto de venda» em cada lar, fazendo com que se verifique a incorporação da comunicação e do marketing na estratégia empresarial e no processo básico do mercado, tornando-se ambas económica e financeiramente muito relevantes (Timoteo, 2005: 229);

b) pelo fim da tradicional arrumação político-ideológica subsequente à revolução de 1989: o bipolarismo estratégico, político e ideológico que dominou o panorama político mundial a seguir ao segundo pós-guerra. Ou seja, uma arrumação que consistia no permanente confronto político e ideológico entre o universo capitalista e o universo comunista, motivando uma solução do tipo «terceira via», representada pela mundividência política da social-democracia. Estas clivagens polarizavam a atenção dos media, «sobredeterminando» política e ideologicamente o seu discurso. O fim desta realidade, a sua fragmentação, abriu um maior espaço de afirmação aos media, como centros activos de interpretação já não espartilhados pelo bipolarismo dominante. Com efeito, alguns autores – por exemplo, Hugo Aznar (2005: 39) ou Jesús Timoteo (2005: 229) –  consideram este ano de 1989, a queda do Muro de Berlim, como o momento de viragem fundamental na discussão sobre os códigos éticos do jornalismo;

c) o enorme desenvolvimento das tecnologias da informação,  a integração de media, informática e telecomunicações (Timoteo, 2005: 230), a sua expansão universal e a sua capacidade de expansão sincrónica tornaram os media elementos determinantes na reorganização de um novo espaço público universal;

d) o fenómeno da globalização, que está na origem desse novo espaço público universal;

e) o domínio privado dos grandes grupos económicos que detêm os principais meios de comunicação de massas – o fim do protagonismo proprietário do Estado, a partir dos anos ’80, em relação aos media (Timoteo, 2005: 78) -, com o consequente cruzamento entre estratégias de carácter económico-financeiro e mercantil e estratégias de produção, distribuição e expansão da informação (como um verdadeiro sistema industrial), produzindo fortes efeitos sobre o exercício da função social dos meios de comunicação de massas (Timoteo, 2005: 8)[12].

1.5.1. Assumo a obra de Niklas Luhmann, Die Realität der Massenmedien, de 1996, como referência para a compreensão da natureza e do funcionamento estrutural do subsistema mediático. Com efeito, para Luhmann, os mass media são um dos «sistemas de função da sociedade moderna que – como todos os outros – deve as suas acrescidas capacidades à diferenciação, ao fechamento operativo e à autonomia autopoiética do correspondente sistema» (Luhmann, 2000: 22, sublinhado meu). Diferenciação, fechamento operativo e autonomia autopoiética é o que veremos presente no sistema mediático ao longo de toda a investigação – tudo projectado com uma radicalidade tal que suscitará graves problemas ao funcionamento do sistema democrático representativo, uma vez que o subsistema mediático (com a cumplicidade daquele) tenderá cada vez mais a colonizar, com as suas categorias e o seu sistema operativo, o espaço político, reduzindo drasticamente a sua própria autonomia.

1.5.2. A obra de Joshua Meyrowitz, No sense of place (1985; Meyrowitz, 1995) constitui um marco na análise da função social dos media electrónicos[13], enquanto põe em evidência os seus efeitos sobre a profunda transformação da «geografia situacional» dos vários grupos sociais, a reconfiguração cognitiva de funções e de papéis sociais, anteriormente separados e distintos, pela emergência de um novo espaço público informativo de «área intermédia» (a televisão, sobretudo) no qual interagem e se fundem informações de «bastidores» (privadas-íntimas-informais) com informações de «palco» (públicas-formais): «a passagem dos media escritos aos media electrónicos», diz Meyrowitz, «corresponde à passagem das informações de ribalta, ou de primeiro plano, às informações de bastidores, ou de profundos bastidores, à passagem das mensagens abstractas e impessoais a mensagens concretas e pessoais» (Meyrowitz, 1995: 153). A televisão produz uma significativa confusão de géneros que retro-age sobre funções e papéis antes socialmente distintos, promovendo uma compreensão já não compartimentada do real social e suscitando, assim, um reposicionamento dos actores sociais em relação a si próprios e aos outros. As mutações verificam-se, portanto, não só no plano dos conteúdos, mas também no plano de uma diferente reconfiguração de papéis e de funções sociais. Meyrowitz analisa a alteração das relações cognitivas e comportamentais criança-adulto, homem-mulher e político-público induzida pela emergência dos media electrónicos, em particular da televisão: «a televisão desestrutura estas distinções comportamentais porque engloba crianças e adultos, homens e mulheres e todos os outros grupos sociais num único âmbito ou ambiente informativo. (…) A natureza omnicompreensiva e pública da televisão tende a unificar situações precedentemente separadas. Numa sociedade modelada pelas situações separadas da imprensa escrita, as pessoas podem falar de temas-tabu em segredo, mas com a televisão perdeu-se a própria noção de “tabu”» (Meyrowitz: 150-151; itálico meu).

Por isso, assumo esta obra – e não obstante Habermas, na Introdução de 1990 a Strukturwandel der Öffentlichkeit, considere esta perspectiva «demasiado linear» (2002: XLI-XLII) – como pano de fundo válido para a evolução de um discurso sobre os efeitos políticos fortes dos media, já que demonstra, em muitas centenas de páginas, os efeitos de desconstrução e de nova reconfiguração dos media electrónicos não só sobre os conteúdos, mas também, e sobretudo, sobre as próprias relações sociais, ou, mais concretamente, sobre a «geografia situacional» de indivíduos e grupos sociais. A análise sobre a personalização do fenómeno político, designadamente através das categorias de expressividade e de representação, é disso um exemplo claro. Mas, apesar de me distanciar, neste aspecto, de Habermas, também assumo, como veremos, integrando o meu próprio sistema conceptual e a minha rede crítica, o legado de Habermas, em particular as distinções conceptuais que nos propõe a partir da «Theorie des kommunikativen Handelns», de 1981.

1.5.3. Esta investigação parte de um pressuposto fundamental, que se inscreve na própria origem dos media e na sua específica função social: o de que a informação é um bem público. Deste modo, os media só podem cumprir a sua função social se a assumirem como serviço público não redutível à pura lógica do cálculo mercantil e da racionalidade económica nem à estratégia política do poder institucional, ainda que electivo. Neste sentido, incorporo na minha reflexão a obra de Enrique Bustamante como referência essencial na crítica do uso instrumental do serviço público e na fundamentação da exigência pública deste pressuposto essencial do sistema informativo.

1.5.4. Pela evidente simetria e complementaridade da obra de Jesús Timoteo Álvarez, de 2005, «Gestión del poder diluido. La construcción de la sociedad mediática (1989-2004)», em relação às posições centrais desta minha investigação, assumo-a como decisiva para uma melhor sustentação da sua estrutura geral. Com efeito, esta obra representa uma investigação exaustiva em torno das variáveis que constituem o substracto ou o terreno de que parte e em que se move esta investigação, orientada, com efeito, para um objectivo mais restrito, ou seja, para a confluência entre a teoria da comunicação e a teoria política numa teoria da democracia.

1.5.5. Pressuponho, também, no decurso da minha análise, uma reflexão que desenvolvi no livro Homo Zappiens, o feitiço da televisão (Santos, 2000) acerca dos efeitos da televisão sobre o espectador, enquanto o seu funcionamento decorre no interior de um módulo cognitivo semelhante aos mecanismos da ideologia, movendo-se num quadro espácio-temporal que supera as categorias que estruturavam a «geometria territorial» da cidade moderna e propondo uma sincronia universal (contracção do espaço, dissolução das fronteiras, representação da representação) onde se inscrevem essa «multidão solitária» ou essa «solidão múltipla» (Virilio) que exprimem um universo de indivíduos territorialmente descontextualizados.

1.6. Finalmente, porquê estas bases de partida, antes da introdução metodológica e conceptual ao tema? Na verdade, as ciências sociais desenvolvem-se elas próprias no interior do campo  que é objecto das suas análises. Isto é, habitam o próprio campo que analisam e, por isso, estão sujeitas ao mecanismo cognitivo da pré-compreensão, que pode vir a ser confirmada ou infirmada pela análise. Ou, então, para usar uma imagem conhecida: elas funcionam como um barco em navegação que tem de continuar a navegar enquanto é reparada a avaria que ameaça o seu afundamento.  Martin Heidegger colocou no património conceptual da filosofia o conceito de pré-compreensão, de que seria dotado o homem. E formulou, em «Sein und Zeit», o conceito de «círculo hermenêutico». Na verdade, a pré-compreensão acontece porque ao intérprete nunca é totalmente estranha a coisa a interpretar. Como diz Gianni Vattimo: «cada compreensão, diz Heidegger, articula uma pré-compreensão da qual o intérprete já, sempre, dispõe». Ou, melhor ainda: «o intérprete tem uma pré-compreensão fundada da coisa porque pertence existencialmente a uma história constituída e codeterminada pela própria coisa que lhe se dá a interpretar» (Vattimo, 1983: XVII-XVIII). Ou, então, citando o próprio Hans George Gadamer: «Para Heidegger, pelo contrário, o círculo é caracterizado pelo facto de que a compreensão do texto é permanentemente determinada pelo movimento antecipante da pré-compreensão» (Gadamer, 1983: 343)[14]. Ora os media investem permanentemente o nosso quotidiano e somos confrontados recorrentemente com narrativas e interpretações que interagem com a nossa própria pré-compreensão do real mediatizado. Nesta pré-compreensão jogam-se, como é natural, não só informações como também referências culturais e teóricas e, naturalmente, experiências de vida.

A minha aproximação conceptual ao tema supõe, pois, uma pré-compreensão que resulta dos factores que acima expus e que, tal como na hermenêutica, submeti a verificação mediante uma análise articulada, metodologicamente definida e empiricamente sustentada do fenómeno em questão.


[1] Veja-se também, para o conceito de espaço intermédio, Meyrowitz, 1995. E, para uma leitura mais actual do conceito, Tagliagambe, Silvano, El espacio intermedio. Red, individuo y comunidad, Madrid, Fragua/IPE, 2009. E, ainda, Santos, J. A., O espaço intermédio, in joaodealmeidasantos.blogspot.com.

[2] Devo, desde já, dizer que não acompanho a tendência a considerar que os media convencionais estão em declínio, devido à força da comunicação de proximidade, designadamente à Internet. Reconhecendo e valorizando a crescente importância da Net e constatando que ela não só já está a produzir efeitos significativos sobre a opinião pública como representa uma mudaça de paradigma na comunicação, ainda não podemos dizer que ela se esteja a sobrepor aos media tradicionais, designadamente à televisão (veja-se, sobre o asunto, Santos, 2011 e 2011b). Até porque os media tradicionais já estão a integrar a própria Internet no seu seio, não só estando presentes nela sob a forma de edições electrónicas, como também dando espaço nas suas próprias páginas, fagocitando-o, ao que de relevante acontece na Net. Por outro lado, o que se verifica é uma autêntica colonização da Net pelos mesmos protagonistas que ocupam os interfaces tradicionais da comunicação. De qualquer modo, uma das mais importantes fontes de informação da Net são os próprios meios de comunicação tradicionais. Mesmo assim, a força da Internet está a tornar-se enorme, vistos o números já disponíveis. No 4.º trimestre de 2006, em Portugal já havia 1,617 milhões de clientes do serviço de acesso à Internet (fixo), um crescimento de + 10,9% relativamente ao trimestre homólogo do ano anterior. Na banda larga, havia já em Portugal 13,8 clientes por cada 100 habitantes. No total, incluindo o acesso móvel, a penetração do acesso da BL em Portugal seria já superior a 15,5 por cada 100 habitantes. E, todavia, o número ainda era inferior ao da UE (25): 15,6 por 100 habitantes (Fonte: ICP-Anacom/Net – 08.03.2007). Por outro lado, Portugal tem vindo a evoluir de forma progressiva para a sociedade da informação no plano institucional. Com efeito, de acordo com um recente Relatório da Universidade americana Brown, «E-government Country Rankings 2007»,  da autoria do Prof. Darrell M. West, Portugal passou do 48.º lugar para o 7.º lugar do Ranking mundial (http://www.insidepolitics.org/egovt07int.pdf) (17.02.2009).

No sentido do reconhecimento de uma crescente evolução da relação entre os media convencionais e a Net para uma lógica de networking está Manuel Castells em Communication, Power and Counter-Power in the Network Society (International Journal of Communication, Vol. 1, 2007). Veja-se também Santos, 2007c; e Alberto Pérez sobre a superação da tradicional função de «gatekeeping» pela Net (Pérez, 2001: 606; e 580-615).

[3] Veja-se também Castells (2000: II, 343): «El punto clave es que los medios electrónicos (incluidas no sólo la television y la radio, sino todas las formas de comunicación, como los periódicos y Internet) se han convertido en el espacio privilegiado de la política. No es que toda la política pueda reducirse a imágenes, sonidos o manipulación simbólica, pero, sin ellos, no hay posibilidad de obtener o ejercer el poder».

[4] Características similares às que acabo de descrever, fruto da intervenção dos media no processo político democrático, são evidenciadas por Jesús Timoteo, ao procurar caracterizar a «democracia de emoção» e as transformações radicais do sistema político democrático induzidas pela televisão: 1) os partidos políticos deixaram de ser os mediadores exclusivos no processo político face à velocidade, à riqueza e à imediatidade da televisão; 2) a televisão gerou um «star system» em torno da actividade política, com consequente personalização da política; 3) o cidadão passa a identificar-se com o espectador; 4) a agenda mediática passa a determinar a agenda pública, o espaço público e a agenda dos públicos, e de modo especial a agenda política, embora a influência não seja linear; 5) a informação televisiva privilegia o «impacto» emocional, o espectáculo, as sensações. Citando Alain Minc: a emoção é a chave do populismo tal como a razão o era para a política representativa clássica (Timoteo, 2005: 224-226).

[5] Veja-se a fundamentação deste estatuto do subsistema político em Santos, 1998: 38-44.

[6] Quando falo, ao longo do texto, em legitimidade, em sentido amplomas, sobretudo, referida ao governo, pressuponho, naturalmente, que ela decorre do princípio da maioria e que a legitimidade do poder executivo resulta da aplicação deste princípio, sem esquecer que, hoje, os líderes dos executivos tendem cada vez mais a exprimir uma legitimidade directa, já que se colocam, no processo electivo, como candidatos a esta mesma função. Defendi publicamente este posição em 2004, quando se verificou a saída de José Manuel Durão Barroso de Primeiro-Ministro para a Comissão Europeia e se tratava de saber se deviam ser convocadas eleições gerais ou se devia ser indigitado novo Primeiro Ministro (Santos, 2004 – in DE,  05. 07. 2004)

[7] Poderemos ver, em contraluz, o que é expectável na democracia representativa tradicional, citando uma excelente síntese de Jesús Timoteo: «la democracia representativa a que estamos acostumbrados y que soporta nuestros sistemas parlamentarios cuenta com más de doscientos años de antigüedad al instaurarse in uno y outro lado del Atlántico antes del 1800. Fue la fórmula elaborada por ilustrados y liberales para, como alternativa e superación del poder teocrático de los monarcas modernos, establecer una nueva fuente de poder, el público electoral, una justificación del mismo y un control de la sociedad a partir de la representación de esse poder emanado desde abajo por medio de los partidos políticos. El poder se estructuró sobre un “contrato” social a través de tres actores: el legislativo, el judicial y el ejecutivo. El ciudadano participa de modo directo sólo periódicamente y mediante elecciones al ceder a los partidos su representatividad, mientras que los representantes (políticos) devuelven al votante su gracia a través de la información regular de sus actividades y a través de las campañas electorales. En este juego de relación externa nació ya en el siglo XIX el concepto de “quarto poder” aplicable entonces a los periodistas y a la prensa encuanto fórmula de controlar al controlador, de que los representados vigilasen la actitud y el comportamiento de los representantes» (2005: 2009-210).

[8] Mas ele esteve também, nas eleições legislativas de 2006, à beira de vencer, como veremos.

[9] Dados do Observatório de Pavia e do «Centro ascolto di Roma», em 18.06.2001: Sani e Legnanti, 2002: 58-60.

[10] Independentemente da análise estrutural que desenvolverei sobre este caso, antecipo desde já a informação de que Berlusconi instrumentalizou também os media escritos a um nível inimaginável. Veja-se, a propósito, toda a campanha que desenvolveu, em várias fases, para liquidar a imagem de Di Pietro. Mas, por todos, veja-se o caso da substituição das fotografias (menos favoráveis) de Berlusconi no arquivo fotográfico do maior jornal italiano «Corriere della Sera» (que nem sequer era de sua propriedade) por exigência da sua «consulente per l’immagine», Mity Simonetto, sem que tenha havido reacções com algum significado. Bem pelo contrário, em nome da condição de assalariados, que «tengono famiglia», ou da necessidade de obedecer às ordens do editor, «o Franza o Spagna, purché se magna», os jornalistas italianos foram em geral pactuando com o assalto aos media por parte de Berlusconi (para uma visão bastante detalhada de todo o processo veja-se a obra de Alexander Stille, Citizen Berlusconi, vita e imprese – Stille, 2006: 347-380 e passim).

[11] Veja-se Mancini: «perquanto questa divaricazione [tra quotidiani d’élite e quotidiani popolari] tenda progressivamente a diminuire in tutto il mondo con il progressivo processo di tabloidizzazione per cui anche i quotidiani d’élite tendano sempre più frequentemente ad avvicinarsi ai contenuti e al taglio dei tabloid» (2002:51); e Calabrese e Volli (2001: 87): «in televisione anche le notizie esistono solo se fanno spettacolo». Veja-se também Timoteo, 2005: 61.

[12] Como diz Jesús Timoteo: «el proceso de desregulación de los sistemas informativos que nacieran a raíz de Segunda Guerra Mundial se inició (…) en los años 80 y se integraba en un proceso general de adelgazamiento de los Estados y pérdida por parte de los mismos del protagonismo directo en aquellos sectores estratégicos que, de no ser liberalizados y privatizados, hubiesen supuesto la ruina del próprio Estado. Sucedió con la siderurgia, con las telecomunicaciones, con la electricidad y con tantos otros. En este proceso los Estados dejaran de ser los primeros propietarios de medios dando paso a grupos privados de televisión que competieran por el creciente mercado publicitario y de audiencias» (2005: 78). Sobre as grandes transformações que se verificaram no século XX, veja-se também Alberto Pérez (2001: 587-615).

[13] Veja-se o que a este respeito diz Andrea Miconi em Abruzzese e Miconi, 1999: 252; e 264: «o de Meyrowitz é o melhor modelo de análise da relação entre media e comportamento social».

[14] «Demgegenüber beschreibt Heidegger den Zirkel so, dass das Verständnis des Textes von der vorgreifenden Bewegung des Vorverständnisses dauerhaft bestimmt bleibt» (Gadamer, 1975: 277).

 

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