Ensaio

A ARTE, O ARTISTA E OS OUTROS

Diálogo com Fernando Pessoa e Marguerite Yourcenar 

João de Almeida Santos
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“Ballerina”. Jas. 08-2018

O TEXTO DA MARGUERITE YOURCENAR

Cruzei-me com um pequeno subcapítulo de «Le temps, ce grand sculpteur », de Marguerite Yourcenar, «II – Sixtine – Gherardo Perini» (Paris, Gallimard, 2015 – obra de 1983), e parti para uma nova reflexão acerca da minha experiência com a arte, na óptica do autor, e em profunda e sentida convergência com estas duas grandes figuras da literatura mundial, Pessoa e Yourcenar. 

Um excerto do texto:

«L'amour d'un être est un présent si inattendu, et si peu mérité, 
que nous devons toujours nous étonner qu'on ne nous le reprenne pas 
plus tôt. Je ne suis pas inquiet de ceux que tu ne connais pas 
encore, mais vers lesquels tu vas et qui t'attendent peut-être: 
celui qu'ils connaitront sera différent de celui que je crus 
connaître, et que je m'imagine aimer. On ne possède personne (ceux 
qui pèchent même n'y parviennent pas) et l'art étant la seule 
possession véritable, il s'agit moins de s'emparer d'un être que 
de le recréer. 
Gherardo, ne te méprends pas sur mes larmes: il vaut mieux que ceux 
que nous aimons s'en aillent, lorsqu'il nous est encore loisible de 
les pleurer. Si tu restais, peut-être ta présence, en s'y 
superposant, eut affaibli l'image que je tiens à conserver d'elle. 
De même que tes vêtements ne sont que l'enveloppe de ton corps, 
tu n'es plus pour moi que l'enveloppe de l'autre, que j'ai dégagé 
de toi, et qui te survivra. Gherardo, tu es maintenant plus beau 
que toi-même. 
On ne possède eternellement que les amis qu’on a laissés»*.

CRIAR A PARTIR DE UM INTERVALO…

O meu interesse súbito por este texto, «Sixtine – Gherardo Perini», evidente para quem tem seguido o meu percurso poético, deve-se também à posição ideal em que me coloco no processo de construção da narrativa poética, na dialéctica entre o texto e o real. Sim, narrativa, porque se trata, sempre, de uma narrativa, nem que seja de um instante vivido ou de uma impressão fugaz. O que me acontece com frequência. No meu processo criativo procuro, pois, contar sempre uma história, mais do que desenhar fragmentos impressivos do que sinto no momento em que escrevo. Tenho sempre bem presente a frase da Isak Dinesen, que pratico: «all sorrows can be borne if you put them into a story or tell a story about them». Li esta frase pela primera vez num livro da Hannah Arendt, «The Human Condition». Precisamente. E adoptei-a, até pelo seu efeito terapêutico. E a poesia, pelo seu poder altamente performativo, age, de facto, sobre o autor ainda mais profundamente do que a narrativa romanesca, através dos seus personagens. Também já tive essa experiência, ao passar de uma para a outra, do romance para a poesia, quando o terminei e fiquei órfão das personagens, nostálgico e melancólico. Ou seja, concretizando mais, o meu interesse por este texto da Yourcenar deve-se ao valor que atribuo a esse intervalo de onde me ponho a observar a minha própria relação com o mundo e com os outros, um autêntico espaço intermédio de onde se vê quer os bastidores quer o palco… da vida. (No texto, a relação é entre Michelangelo e Gherardo Perini, mas do que se trata é de um discurso sobre a arte, a beleza e o amor). Olho, pois, para esta relação, metodologicamente, como se estivesse já a olhar para uma obra de arte «in nuce», um quadro, uma fotografia, um passo de bailado, a partir da qual posso esculpir um texto ou um desenho, sempre indiscretos, pelo que me é dado observar, em especial se o observado for eu próprio. O «eu» como meio de arte para o poeta ou o pintor, desnudado como modelo às mãos do artista: «Je te vois nu. J’ai le don de voir, a travers le vêtement, le rayonnement du corps, et c’est de cette façon, je pense, que les saints voient les âmes». Isto diz a Yourcenar. Pintar-me com palavras, riscos ou cores, olhando o espelho onde se projecta a minha alma em acção, de algum modo comprometida  com o mundo, com os outros. Um pouco mais do que o que Pessoa queria, pois, a ele, na arte, a sua relação efectiva com o mundo não interessava mais do que o seu «quadro», a sua representação; de resto, ele até amava somente «com o olhar, e nem (sequer) com a fantasia» (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Porto, Assírio e Alvim, 2015, p. 424). Uma função que era desempenhada por uma espécie de espelho virtual onde ele se reconhecia e onde projectava a imagem do real que idealizava. Falo do Bernardo Soares, claro. Visão, pois, instrumental do sentimento ao serviço da arte. «Saber interpor-se constantemente entre si próprio e as coisas é o mais alto grau de sabedoria e prudência» – eis como Pessoa interpreta a posição de sageza e de prudência no relacionamento com o mundo, sobretudo quando a relação é do foro da arte.  Ninguém ama alguém – ama tão-só a ideia que se faz de alguém.  

AMAR POR PALAVRAS…

Medito, pois, a este propósito, nas divagações do Bernardo Soares no «Livro do Desassossego», onde sobressai a ideia que aqui vamos encontrar. Em palavras simples: a criação artística é suscitada pelo real, como não podia deixar de ser, como pulsão (meramente mecânica), estímulo e impressão sensorial (simples registo descomprometido), conhecendo, depois, um desenvolvimento autónomo, autopoiético, que segue as suas próprias leis, a sua dinâmica e a sua linguagem. Isto na óptica do radical Bernardo Soares, que não é exactamente a minha, mais comprometida com a dor e arredores.

Os filósofos dizem: uma coisa é a génese, outra é a validade. São esferas que pertencem a planos diferentes. Até o título de uma importante obra de Juergen Habermas, de 1992, alude a isto: «Faktizitaet und Geltung» – facticidade e validade, o concreto e a forma, o singular e o universal, o empírico e a lógica, a variável e o sistema. E quando o texto ganha forma, então, a impressão genética original torna-se remota, perde pregnância, passa a ser um simples elemento (residual) do sistema, por este «sobredeterminado», para usar o interessante conceito do Althusser do “Pour Marx”. Deste modo, o poeta ama, pois, mais com a palavra e na palavra do que com a pulsão e na pulsão. A performatividade da poesia é isto: toca e troca o real por palavras, por uma polissemia colorida e auto-suficiente, às vezes em tons escuros. E o pintor ama com o olhar, na cor e nos traços.

Há como que uma distância originária ou matricial entre o artista e o real, a que Pessoa chama renúncia e a que a Yourcenar responde com a ideia de que a verdadeira posse (a referência é sempre o real, claro) só é possível através da recriação artística. «Nunca amamos alguém », diz Pessoa. «Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém» (2015: 125) e «possuir é perder », mas «sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência», mantendo, pois, a distância necessária, ou seja, colocando-se num intervalo entre si e o ser amado ou esteticamente desejado.  Mas possuir é ser também possuído, logo, é perder a liberdade para recriar, porque se ficou cativo (2015: 238). Isto até faz lembrar o passarinho do Vinicius de Moraes, que teve de ir embora (“some-te daqui”) porque já não havia poeta, mas um homem feliz, talvez possuído pelo amor. Pois a Pessoa – para poder continuar a poetar – só interessava o real em forma de retrato ou representação para a recriação e, como bom dissidente da vida (2015: 120), não gostava de tocar na realidade sequer com a ponta dos dedos (2015: 246). 

Mas a Yourcenar também diz, aqui, na interlocução com Gherardo: «On ne possède personne (ceux qui pèchent même n’y parviennent pas) et l’art étant la seule possession véritable, il s’agit moins de s’emparer d’un être que de le recréer ». Só se possui com a arte, recriando, ao ponto de o ser amado, em arte, ser mais belo do que o modelo real: «Gherardo tu es maintenant plus beau que toi même». Aqui está: a transfiguração pela arte, a elevação, a imobilização da alma, como diria Yourcenar, ou a cristallisation, como gostava de dizer Stendhal, em particular no «De l’Amour» (1822), escrito para se resgatar dessa intensa paixão pela Matilde Viscontini Dembowski, que não o quis. Ou, então, Pessoa: «os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor » (2015: 55). É a distância de que nos fala: saber interpor-se entre si e as coisas é a verdadeira sabedoria. Segredo da arte. Colocar-se num intervalo criativo, algo especular, sem se deixar sucumbir à força dessa “doença da alma” de que fala o Stendhal de “De l’Amour”. Diria eu, glosando o poeta: se não te tenho (possuo), ninguém pode roubar-te (2015: 209), porque tu já vives dentro de mim, confundida comigo próprio e com a ideia que tenho de ti. E provavelmente essa já nem és tu, mas sim o que me sobrou de ti quando partiste e te chorei, antes que te gastasses numa qualquer rotina.

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A ARTE É A SOBRA DO QUE SE TEVE?

Yourcenar é dura no seu juízo acerca da imortalidade pela arte: se houver de imortalizar pela arte um amor não podemos deixar que esse ser se esgote na quotidianeidade, que se gaste, se consuma. É melhor que os que amamos partam enquanto for possível chorar a sua perda ou partida, pois a sua continuação acabaria por enfraquecer a imagem que temos deles, gastando-se e tornando-se imprópria para a arte. A partida e a perda que provocam dor, esse alimento inesgotável da poesia! E essa, sim, é a autêntica  realidade que interessa ao artista-amante: o outro, o que está para além da aparência, da roupagem com que se cobre, do quotidiano sofrido, da presença que desgasta e que é preciso “imobilizar” a tempo, a partir da sua nudez, o ponto de partida necessário para a recriação, tal como «os santos vêem as almas», diria Yourcenar. Este sobreviverá ao outro que já partiu, o que deixou um rasto de si, como se tivesse partido sem ter esgotado a relação com o (re)criador. E por aqui entra a ideia de renúncia, ligada à ideia de ausência, de privação, quer em Yourcenar quer em Pessoa: «sou a ponte de passagem entre o que não tenho e o que não quero »; «a renúncia é a libertação”; “não querer é poder » (2015: 209, 140). E creio que se, para Yourcenar, a arte exprime realmente «o que sobrou do que (o artista) teve», porque não deixou que se esgotasse na sua presença, para Pessoa ela «exprime o que (o artista) não tem» (2015: 207), porque, no seu caso, não quer tocar a realidade sequer com a ponta dos dedos. Para Yourcenar a renúncia é a não-posse, a ausência e a partida, necessárias como condições para a (re)criação artística.

Gosto desta sugestão do Pessoa: fazer arte com o que sobrou do que se teve, sem, afinal, se ter tido. Fazer arte com o que resta do que, tão-somente, se pôde olhar. Processo que para Yourcenar exigiria um pouco mais: o que sobrou de alguém que se teve, mas que partiu. E o que sobrou foi o que o artista viu nesse alguém quando presente, bem diferente do que outros nele verão e que não será certamente o mesmo. «Tu m’as lié, et tu me délies», porque «tu ne m’aimes plus». Mas eu fiquei com o que de melhor vi em ti, diz. Era este que amava, não o outro que partiu, esse que já não será o mesmo que foi para si e que será outro para outros. Não o perdeu, apesar de não o possuir, porque, afinal, o recriou. É esse, o que sobrou dele, que será objecto de poemas, de narrativas, de pintura, de arte. É esse que será imortalizado pela arte: «Et c’est de la même façon que j’immobiliserai ton âme», que te sobreviverá. É esse, sim, que será «imobilizado» ou «cristalizado». E eu sinto que isso pode ser verdade, num plano onde a pragmática terá pouco a dizer e a fazer, sujeita que está ao declínio dos corpos. «Um dia, eu senti isso e nasci para a arte», diria o poeta. 

O que julgou conhecer e crê amar – assim definia Yourcenar a relação amorosa e artística, um pouco menos radical do que Pessoa, que achava mesmo impossível conhecer o outro, sabendo que nem a si próprio conhecia. Por isso, o artista Pessoa é mais o que cria o que não teve, porque nele a renúncia é rainha, do que o que criou com o que lhe sobrou do que teve. E este é o artista da Marguerite Yourcenar. E eu, nisso, sinto-me duplamente mais perto dela do que de Pessoa.

A ARTE É SOLIDÃO

A solidão é outra das dimensões que os acomuna: «les choses purement belles sont solitaires come la douleur de l’homme», dizia Yourcenar. Lá onde parece que a comunhão de destinos funda o amor e a beleza, verifica-se que não é assim, que a arte é amiga da solidão, pois os que amamos e nos amam nos vão deixando «insensivelmente a cada instante que passa». O que fica, o que persiste é o que é extraído («dégagé») em presença e recriado em ausência. E só isso é eterno, o que sobrou: «on ne possède eternellement que les amis qu’on a laissés». Ou seja, a autêntica posse dá-se em ausência, logo, em solidão, ficando, pois, confinada numa recriação que outra coisa não é senão transfiguração pela arte. Este processo, na poesia, talvez seja mais real do que no romance porque a transfiguração nela é mais viva, intensa e indeterminada (sem limites), precisamente como na linguagem viva do sentimento, da emoção ou da pulsão. A performatividade da poesia talvez seja, de facto, muito superior à do romance.

EM SUMA,

É esta mesma dinâmica que eu julgo que move a minha poesia, talvez no registo de ambos, Pessoa e Marguerite, e das referências ausentes (que, para mim, são decisivas), pois parto da ideia de que tive sem ter e de que crio para preservar e elevar o que sobrou do que tive, sem ter tido. Na verdade, tive com o olhar e com a alma e porque me apoderei do que isso para mim representava e significava, da essência que extraí («que j’ai degagé de toi», para usar as palavras da Yourcenar) de quem estava à minha frente, do que não possuí a não ser como energia para me elevar pela arte, soprando-o para a eternidade, por mais efémera que realmente essa possa vir a ser. Eternidade efémera – um oxímoro de que gosto -, porque ela não existe se não houver um rosto, sempre efémero porque sujeito à lei do tempo, mesmo em arte. Lembro-me bem da famosa carta do Pessoa a um retrato de mulher casada. Até a reinventei num romance que escrevi. Nela é possível juntar, em pensamento sobre a posse, Yourcenar e Pessoa, aos quais me associo por humilde afinidade de pensamento e de intuição e por confessada admiração, sem me esquecer das sábias palavras da Isak Dinesen, oportunamente relembradas por Hannah Arendt, que sabia bem do que se tratava. 

______________

* “O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco 
merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais 
cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, 
ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que 
eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer
e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o 
conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o 
que importa é recriar um ser e não prendê-lo. Gherardo, não te 
enganes sobre as minha lágrimas: vale mais que os que amamos 
partam quando ainda conseguimos chorá-los. Se ficasses, talvez 
atua presença, ao sobrepor-se-lhe, enfraquecesse a imagem que me 
importa conservar dela. Tal como as tuas vestes não são mais que 
o invólucro do teu corpo, assim tu também não és mais para mim 
do que o invólucro de um outro que extraí de ti e que te vai 
sobreviver. Gherardo, tu és agora mais belo que tu mesmo. 
Só se possui eternamente os amigos de quem nos separamos”.

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