Poesia-Pintura

ELAS FOGEM, AS PALAVRAS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Letras”.
Original de minha autoria.
Junho de 2021.
Jas_Novo_Palavras0308

“Letras”. Jas. 06-2021.

POEMA – “ELAS FOGEM, AS PALAVRAS”

QUERIA FAZER-TE
Um poema,
Ser feliz,
Sentir nele
A liberdade
E as palavras
Endoidaram
Quando te queria
Cantar
Invocando
A saudade.

FUGIRAM
Numa revolta
Sentida
Sem conhecer
A verdade,
Deixando-me
Só
Nesta vida,
À deriva,
Sem dó
Nem piedade.

EU ESTAVA
A MENTIR
Sem pensar
Na crueldade
De as usar
Como queria
Só porque
Tinha saudade...

ESGUEIRARAM
Rua fora,
Cada uma
Por seu lado,
Espavoridas,
Em fuga
Deste poema
Tentado.

UMAS ESVOAÇAVAM
No fio
Do horizonte,
Outras
Aninhadas
No passeio
Desta rua
E eu a tentar
O versejo
Enredado
Num enleio
Para dar vida
Ao desejo.

PALAVRAS
em correria,
Letras
Perdendo forma
Como fios
De novelo
Já desfeito
De sentido
Como a água
Do gelo.

SÃO FIOS
Emaranhados,
Letras
Que se deslaçam
E procuram
Outras formas
Para lá da minha
Rima,
Como riscos
Numa tela
A subir
Por ela acima.

QUERIA FAZER-TE
UM POEMA
Com palavras
Desenhadas,
Mas as palavras
Fugiam
E corriam
Assustadas,
Não se viam
Alinhadas
Nesse recanto
Feliz
Onde resisto
À saudade.

ELAS GOSTAM
De cantar
Quando me sentem
Em dor,
Elas gostam
De vibrar
Se me assalta
A emoção,
Mas se me vêem
Feliz
Fogem de mim,
Dizem “Não”.

O POEMA
PASSARINHO
Procura-te
Pra cantar
Mas quando
A dor esvaece
É ele que foge
A voar.

E HOJE
É mesmo assim,
Fogem todas
As palavras
Sem procurar
Um destino,
Já não consigo
Agarrá-las
Num poema
Genuíno.

NÃO SABEM
Da minha dor
E por isso
Vão embora.
Estou sem palavras,
Amor,
Estou muito triste,
Agora.
Jas_Novo_Palavras0308Recort

“Letras”. Detalhe.

2 thoughts on “Poesia-Pintura

  1. Transcrevo, sensibilizado, o comentário do meu Amigo e copnterrâneo Tó Zó Dias de Almeida: “Ai palavras, ai palavras, que estranha potência a vossa! Sois de vento, ides no vento, etc., etc., etc. Assim o escreveu Eugénio de Andrade…
    Como queres tu, meu caro, que elas, as marotas, não te fujam e se esgueirem na primeira oportunidade?
    E fogem quando mais delas precisas… Mas é nessas ocasiões que, a crueldade de as usares a teu belo prazer, vão rua fora, espavoridas, em autónoma correria, e só as apanhas, se verdadeiramente as apanhares, quando o poema se insinua, se desenha… E então, por Amor, elas de ti ficam cativas, mas não sabem da tua dor e, por isso, só por isso, vão embora… Sem palavras sobra a tristeza, a saudade, a nostalgia… Anima – te, poeta, vão regressar, meigas, sedutoras e com elas, com palavras, muitos outros bonitos poemas trarás à luz do tempo que por ti espera.
    Acredita em mim. Um abraço.”

  2. Obrigado, Tó Zé. Essa é que é essa: esgueiraram-se, as marotas. Elas gostam de tocar na orquestra por solidariedade e solidariamente, deixando-se guiar pelo poeta/director de orquestra. Não gostam de estar por estar, em rotina. Não, não gostam. Estão lá quando há uma dor para cantar e uma melodia para afinar. Por mais que gostem do Director de Orquestra não estão lá pelos seus lindos olhos. Estão lá para a sinfonia. E só há sinfonia quando há emoção. Aí dão-se totalmente ao poeta/director e são música para os seus ouvidos. Não estão lá para brincar às palavras. E sabes qual é o risco? A revolta das palavras, como no filme do Fellini, “Prova d’Orchestra”, com o pobre Nino Rota (que vivia ali na Piazza delle Coppelle, a minha adorada praça) a musicar uma orquestral revolta. Mas já regressaram porque viram que a coisa estava a pôr-se feia para o poeta. Só assim consegui escrever o poema (em retrospectiva). Mas que apanhei um grande susto, lá isso apanhei. Foi o passarinho do Vinicius, que estava de visita (conhecemo-nos há muitos anos), que as convenceu a voltar. Foram não sei quantos voos a convencer cada uma. E, agora, por lá andam no meu Jardim Encantado, perfumadas e coloridas, confundindo-se com rosas, rododendros, brincos de princesa, camélias, magnólias, hortênsias e já nem sei quantas outras flores. É verdade, “sem palavras, sobre a tristeza, a saudade, a nostalgia”. É por isso que gosto delas, das palavras. São as minhas companheiras e podes calcular como fiquei quando as vir correr rua abaixo ou esvoaçar como se tivessem visto um fantasma. Sabes, convoquei de imediato todas as flores do jardim e aprovámos uma colorida e perfumada moção que pedia o seu regresso a casa. Foi aí que interveio o passarinho do Vinícius, que assistiu ao plenário. Foi ele que levou a moção. Ficou feliz, quando viu o sucesso da iniciativa, mas exausto. Bom, está tudo resolvido e já me preparo para outro poema, com elas. Um abraço amigo.

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