Artigo

UMA PECADORA

Reflexões sobre a Arte
a propósito de um Romance
de Giovanni Verga

Por João de Almeida Santos

Narcisa

“S/Título”. JAS apud Klimt. 06-2023

“UNA PECCATRICE” é um romance do grande escritor italiano Giovanni Verga (1840-1922), natural de Catania (Sicilia), publicado em 1866, quando ele tinha apenas 26 anos. Um romance reconhecidamente com características autobiográficas. Trata-se de uma história de amor-paixão entre Pietro Brusio e Narcisa Valderi. Num primeiro momento, em Catania, Pietro, jovem estudante de direito, apaixona-se perdidamente por essa elegante e fascinante senhora de sociedade, aristocrata, mulher do Conde de Prato, Narcisa Valderi, de quem ele nunca pôde ou ousou aproximar-se, chegar à fala, mas de quem passou a seguir os passos dia e noite. Uma paixão que o atormentava ao limite da loucura e do abandono físico. A sedutora senhora, admirada e cortejada por muitos, apercebia-se vagamente da presença constante, e pouco dissimulada, do jovem estudante de direito. O romance dá, depois, um salto e já o vamos encontrar em Nápoles, escritor famoso e de sucesso com uma sua peça teatral, “Gilberto”, em exibição e repetidamente ovacionada pela aristocracia napoletana. Também Narcisa, que aí se encontra, vai ver o espectáculo teatral e acaba por reconhecer no autor, neste escritor de sucesso, o jovem de cuja paixão se dera conta, vagamente, ainda em Catania. A celebrada peça de teatro era, afinal, inspirada  na vida desse jovem em Catania durante o sofrimento amoroso que a elegante senhora lhe provocara, sendo, pois, ela também personagem da peça (presume-se). Acabam por encontrar-se e, agora, é também ela a apaixonar-se perdidamente por Pietro Brusio, deixando o marido e indo viver com ele seis meses de intensa e ardente paixão. É então que, fruto dessa paixão doentia, de vida e morte, ela começa, obcecadamente e insistentemente, a interpelá-lo acerca do amor que ele ainda lhe tenha ou que já não lhe tenha. Uma dor lancinante que não a deixa em paz. Um massacre permanente e doentio. Então, ele acaba por reagir com dolorosa distanciação, o que acabará por levá-la, já destruída pelo ópio, à morte, nos seus braços. É esta, no essencial, a trama.

1.

O que me interessou particularmente neste romance foram duas coisas: 1. ser um romance, de um grande escritor, claramente autobiográfico, o que significa que haverá nele a transposição de concretas e profundas experiências de vida do autor (*); 2. terminar, já no fim da última página, com o autor a dizer o seguinte de Pietro Brusio:

Le splendide promesse del suo ingegno, che l’amore di un giorno aveva elevato sino al genio nella sua anima fervente, erano cadute con quest’amore istesso. Pietro Brusio è meno di una mediocrità, che trascina la vita nel suo paese natale rimando qualche sterile verso per gli onomastici dei suoi parenti, e dissipando il più allegramente possibile lo scarso suo patrimonio. Misteri del cuore” (Verga, G., Una Peccatrice, Milano: Bompiani, 1988, pág. 106).

É claro que Verga reflecte a fundo, e em linguagem exuberante, sobre o curso temporalmente assimétrico do amor nos protagonistas, um, no princípio, e, o outro, no fim da narrativa. E sublinha a impossibilidade de viver exclusivamente no interior do círculo fechado do amor-paixão, o que, aqui, num caso, leva mesmo à morte, e, no outro, à distanciação fria e realista, embora ainda permeada de amor. Uma assimetria temporal no amor, com uma breve e intensa convergência (seis meses) no encontro arrebatado das duas personagens. Mas também a lei implacável do amor-paixão: a intensidade que queima e extingue, como a vela que arde e que sacrifica “o corpo para que a luz brilhe”(Thomas Mann/Goethe).  É uma reflexão sobre o exacerbamento amoroso no homem e na mulher, cada um deles enquadrado pelo ambiente, pelo tempo e pela condição, e que resultará, por um lado, na espiral destrutiva desse progressivo fechamento, neste caso, na mulher; e, por outro, na saturação e na consequente distanciação afectiva até à inevitabilidade da ruptura, ou seja, na consumação do afecto.

2.

Mas o que para mim é mais interessante ainda é esta ligação entre o sucesso literário e a impossibilidade: a paixão impossível que o leva à sua transcrição/inscrição literária (neste caso, dramatúrgica), ao resgate, pela arte, dessa impossibilidade e desse sofrimento doloroso e radical que quase levou à loucura o agora autor da sua própria história. A cristalização (do amor) e a sublimação (pela arte)  hão-de levá-lo ao sucesso, à fama, ao triunfo e até à concretização fatal do impossível sonho amoroso que vivera na sua cidade.  E assim chegamos ao topo da narrativa, tendo como sequência a lenta distanciação afectiva de Piero Brusio, por saturação dessa tormentosa e constante espiral de paixão de Narcisa, que acabará como “borboleta ébria que sucumbe à chama”, para usar a imagem de Thomas Mann/Goethe em Lotte em Weimar, a obra de Mann que continua o Werther de Goethe. A conclusão, com Brusio já esgotado, por morte e ausência (afectiva) da pessoa (antes) amada, dessa paixão que o movera para o sucesso literário e a fama, é a de que, com o fim da pulsão amorosa, também o estro se esgotou, caindo ele na mais estéril mediocridade literária e numa rotina de fracasso e sem sentido. A pulsão amorosa insatisfeita que leva à obra de arte; a consumação, por posse total, que leva ao esgotamento do estro.

3.

O que aqui parece estar assinalado é esta ligação entre o poder estimulante do sentimento irrealizado e a escrita como resgate, como superior solução do fracasso ou da impossibilidade amorosa pela arte. O Cioran, por exemplo, revia-se plenamente numa poética do fracasso. E até mesmo, neste caso, a conversão do sucesso na arte em efémero e trágico sucesso na vida real, num eficaz, mas mortal, efeito de retorno sobre a génese infeliz e dolorosa do seu trajecto de vida.  Um círculo que se completa e que tem como consequência o fim trágico dessa experiência de vida, com a dupla morte (física e afectiva) de um dos protagonistas, vítima de sentimento falhado. Mas fim pelo qual o próprio Brusio irá pagar um alto preço. Quando esta pulsão emocional que esteve duplamente na origem da obra de arte (como vivência real e como sua inscrição estética) se esgota, ela leva consigo o seu poder propulsor como estímulo criativo, anulando o estro, o impulso criativo e provocando também o próprio esgotamento estético.

4.

A última frase do romance é muito significativa, a este respeito: “Misteri del cuore”.  Ou até poderia ser: “Miracoli del cuore”. Quando o coração não submerge totalmente a razão e esta aproveita o impulso da emoção para a projectar, elevando-a, sublimando-a, estamos perante a arte como sublime e superior solução de vida. Mas a lição de Verga (e creio que esta teria sido também a de Nietzsche, se aqui fosse chamado a pronunciar-se) é a de que, quando se esgota a dimensão dionisíaca, a emoção, o amor e o estremecimento já não acontece, então também se esgota a pulsão da criatividade. É preciso, pois, que não aconteça uma solução de continuidade radical para que o estro não esmoreça, que se fuja ao círculo mortal da rotina e ao fechamento obsessivo, mantendo viva essa distância ou esse intervalo (de que falava o Pessoa) que permitem um olhar sempre diferente sobre nós e sobre o que está perante nós, fisicamente ou na nossa própria memória viva. Que quem parte, como dizia Michelangelo a Gherardo Perini, seu amante, pela pena da Yourcenar, deixe sempre no artista uma inquietação, uma réstea de nostalgia viva, um sentimento sofrido de inacabado, de algo que ainda não se completou, não se consumou como fatal posse total… por habituação, por consumação, por rotina, mas não pela arte, a única possível, a única eterna.

5.

Esta relação está presente em muitos criadores, ao assumirem o fracasso ou a impossibilidade como forças propulsoras de uma solução, não como fuga, mas como integração superior da dor e da insuficiência experimentadas no real. Em todos eles a vida teve a sua conclusão na conversão estética do sempre inacabado, por fracasso, por impossibilidade ou por destino que os deuses ou os fantasmas lhes tenham traçado. A diferença, aqui, é a de que se verificou a consumação total da relação até à morte, nada deixando para trás de inacabado. Sucumbe a borboleta e consuma-se a vela e a luz. Fecha-se o círculo da paixão, encerra-se o círculo da criação e sobrevém a mediocridade por falta de estímulo e de pulsão criativa, de estremecimento ou de arrebatamento propulsor da criatividade (**).

NOTA 1

(*) “Si tratta di una storia in cui non è difficile ritrovare molti elementi autobiografici, tanto che Pietro Brusio, un giovane mediocre ma con grandi ambizioni, divorato da una passione accecante alimentata dai miti letterari, è stato visto come un vero e proprio alter ego dell’autore. La ‘peccatrice’, Narcisa Valderi, è invece tutto il contrario di Pietro-Verga: la descrizione della donna silfide e ammaliatrice nasce proprio dalle mitologie di cui da giovane si nutriva l’autore. Anche per quest’aspetto Una peccatrice è un romanzo fortemente radicato nell’evoluzione biografica e narrativa di Verga, nonostante egli stesso lo abbia rinnegato, considerandolo solo una prova fallimentare”.

(Motta, Daria, 2020, “Cantiere filologico e apprendistato linguistico verghiano. Note sulle varianti di Una peccatrice(1866)”, pág. 63. Em: https://doi.org/10.13130/2499-6637/14732; ou em: https://riviste.unimi.it/index.php/PEML/article/view/14732/616)

NOTA 2

(**) A tese aqui desenvolvida a propósito deste romance de Verga pode ser confirmada em inúmeros e grandes poetas no livro que acabo de publicar como e-book, A Dor e o Sublime – Ensaios sobre a Arte” (S. João do Estoril, ACA Edições, 2023, 232 páginas), já acessível para aquisição (o valor é de 2,99 euros) no site http://www.aculturalazarujinha.com (ver no separador LOJA, e-books) e de que aqui publico um amplo extracto (as primeiras 26 páginas) através do link (clique aqui): 0-26

NarcisaRec

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