TESES SOBRE A POESIA
A propósito do livro “FRAGMENTOS - Para um Discurso sobre a Poesia” (S. João do Estoril, ACA Edições, 2025, 228 páginas)Apresentação: * 12.09, 18:00, no Auditório do Museu da Guarda; ** 19.09, 18:00, no Auditório do Centro Cultural de Cascais
João de Almeida Santos
SONORIDADE, POLISSEMIA E SINESTESIA
A POESIA É UMA ARTE MUITO ESPECIAL. Ela procura integrar, nas palavras de que é composto o discurso poético, uma sonoridade cativante capaz de tocar a sensibilidade de quem a frui. Ritmo e melodia – rima interna e externa. Mas não só. Sempre com palavras, também procura desenhar ambientes cromáticos vivos e sugestivos onde decorra o discurso do sujeito poético, dando cor e expressividade à sua fala, e desenhar perfis que identifiquem os protagonistas do discurso. A sinestesia entre a poesia e a pintura é um ulterior complemento que ajuda a alargar o campo semântico e a “visualizar” uma determinada interpretação do poema.
A POESIA COMO IMPERATIVO EXISTENCIAL
HOELDERLIN DIZIA que “em tempos felizes, são raros os sonhadores”. E o poeta é um sonhador. Dir-se-ia que a felicidade é pouco propícia ao acontecimento poético. Não sendo, ou não tendo sido, feliz, sonha sê-lo. Mais amigos da poesia são a penumbra, a dor e o “fracasso” existencial, no sentido em que o Cioran falava dele. É uma pulsão negativa – é um facto negativo que a estimula – que provoca o impulso poético. Mas, por isso mesmo, a poesia é resgate, reconstrução do que foi perdido ou não conseguido. A poesia, no meu entendimento, resulta, de facto, de um imperativo existencial, procurando, pois, dar-lhe resposta num plano superior, espiritual, através de recursos linguísticos. Os exemplos históricos de grandes poetas às voltas com os desencontros da vida ou as disrupções existenciais são conhecidos e numerosos. A poesia não se identifica com exercícios meramente retóricos, com o virtuosismo linguístico ou a pura intertextualidade, a construção de nexos de sentido assentes exclusivamente no património poético… como inspiração.
A POESIA É PERFORMATIVA
A POESIA É ACÇÃO. E é resposta interior a imperativos existenciais, usando determinados meios técnicos para se materializar – as palavras. É um recurso de sobrevivência interior quando ela está ameaçada por intensa melancolia ou mesmo por desolação existencial. Digo muitas vezes que a poesia é altamente performativa. O que é que eu quero dizer com isto? Que ela é acção, corresponde a um acto, a uma declaração de facto, com efeitos, mas que não está sujeita a uma prova de veracidade ou de falsidade. São conhecidos os exemplos: “Declaro aberta a sessão de hoje”, diz o presidente de uma assembleia – através desta declaração a sessão fica aberta; “Aceito x como minha mulher”, em acto formal e válido de matrimónio – através desta declaração fica instituído o vínculo matrimonial; “Amo-te”, diz o poeta, dirigindo-se à musa – através desta declaração poética fica instituído o vínculo amoroso entre o poeta e a musa, e não sujeito a verificação de veracidade ou de falsidade. O amor poeticamente declarado equivale a um facto, a uma acção. A fala poética é performativa. E vale pelo que afirma e institui através do uso da linguagem poética. Não deve ser procurado um referente externo porque o poeta e a musa são exclusivamente sujeitos internos do discurso poético.
A POESIA NÃO É DENOTATIVA
A DECLARAÇÃO POÉTICA tem efeitos poeticamente vinculativos e, porque é poética, não está sujeita a prova de veracidade ou de falsidade. A poesia não é denotativa. Este é um aspecto muito importante da poesia como arte e é isto que a distingue das outras formas de linguagem ou da prosa. Digamos que é uma dimensão da existência de tipo espiritual, mas que tem certas exigências: a) código próprio da poesia como linguagem não denotativa; b) harmonia acústica e expressiva; c) não verificabilidade do discurso para além das suas próprias regras internas; c) partilha, como fase final do processo absolutamente necessária para que o poema se complete. Este último aspecto parece estar em contradição com os outros, mas não está, porque quem frui poesia se coloca no mesmo plano em que o seu código funciona, nada mais esperando do que sintonia estritamente poética. Nada mais existe para além de uma relação estético-expressiva, plano em que acontece a partilha e a sintonia.
A POESIA ACONTECE
DAQUI DECORRE uma característica, a que se refere Fernando Pessoa – a poesia acontece. Também a Amália dizia que o fado lhe acontecia. Ela não resulta, pois, de uma intenção programada, mas acontece por circunstâncias da vida e de personalidade. E não acontece como expressão final, de natureza intuitiva, de um processo de digestão poética intertextual. O instante criativo não resulta, pois, de um processo de acumulação e saturação de património poético, mas sim de um imperativo existencial. Acontece, independentemente da vontade. Mas também é claro que o processo só acontece e se desenvolve quando se verificam determinadas condições. Por exemplo, um bom domínio da língua em que o poema deva ser executado. Só que nunca o bom domínio da língua ou até de cultura poética serão condições suficientes para que a poesia aconteça. Não. O que tem de acontecer, para o resgate do poeta, por sublimação, é a conjunção virtuosa de um imperativo existencial (normalmente motivado por dor, infelicidade ou fracasso) com o domínio técnico da língua em que se exprime o discurso poético
A MINHA POÉTICA
ESTAS SÃO, no meu entendimento, mas sobretudo na minha prática como poeta, as invariantes do processo poético. Todas elas fazem parte da minha poética, ou seja, todas elas integram os meus poemas, fazendo parte, em maior ou menor grau, do seu núcleo central, qualquer que seja a temática ou o conteúdo do poema. Assim, este livro é, em 206 fragmentos, a explicitação de minha própria poética através de fragmentos escritos em linguagem híbrida, mas com dominante estilística de tipo poético. Uma viagem expressiva pelo fascinante mundo em que a poesia acontece. JAS@09-2025


