CRUZAMENTO SIMBÓLICO, ESTÉTICO E FPK
O POEMA A PRANCHA E A MUSA Um único campo significante Leitura cruzada de «Sonho no Lago», de João de Almeida Santos, e da prancha «Perfil de Musa no Lago» (JAS2025), sob o signo de Eratô, Musa da poesia lírica e amorosa
André Moshe Veríssimo. PhD
ÍNDICE
Texto-fonte — «Sonho no Lago» (J. de Almeida Santos) Argumento Limiar: dois suportes, um só acorde A prancha como tradução plástica do verso O rosto na água e a face na sombra A brisa e a textura craquelada A pauta de melodia e o colar geométrico O lago e o abismo negro Cruzamento F — o erotismo do quase e o excesso sagrado Cruzamento P — o espelho que se fende e a sublimação Cruzamento K — Sophia, tzimtzum e o tikkun da matéria Érato: genealogia, nome e domínio filha de Zeus e de Mnemósine O nome desejado: Eratō e érōs Os atributos: a lira, o mirto, a rosa, a flecha, a pomba Érato na pintura célebre — seis leituras iconográficas Le Sueur e o cabinet des Muses do Hôtel Lambert Meynier, Érato e Cupido: a flecha de ouro Kauffmann, Érato e o putto: o neoclássico sensível Vouet e Dorigny: as rolas e o panejamento Leighton: a lira encostada ao silêncio Da pintura à prancha: o que jas2025 herda e subverte Interoperacionalização sistémica: a rede fechada Coda — Onde a brisa não apaga Apêndice — A grelha trivalente O·E·M aplicada Fontes patentes Fontes latentes
TEXTO-FONTE — «SONHO NO LAGO» Poema de João de Almeida Santos
VI O SEU ROSTO Brilhante Espelhado Nas águas Desse lago Do jardim E com olhar Comovido O gravei Na minha alma... ......... Só mesmo Para mim. SORRI-LHE E disse olá! Com estudada Malícia, O rosto Me respondeu: «Também tu Andas por cá?» «SIM, PASSEI Por aqui À procura De mim, Esperava Encontrar-me Espelhado Nas águas puras Deste lago Do jardim.» IMAGINEI-ME, Então, A seu lado, Olhar seu rosto De frente, Ler-lhe a alma, Encantado, Mostrar-lhe O que um poeta Sente Quando fica Fascinado E com a alma Fremente. DEPOIS LI-LHE Um poema De amor Em palavras Sincopadas Que caíam Com fervor Como gotas De cristal Na pele fresca De veludo Desse rosto Virtual. DE SÚBITO, Expôs A beleza Do seu perfil Por uns escassos Momentos Para que eu A pintasse Com palavras Como se fosse Aguarela Dos mais puros Sentimentos. FIQUEI FELIZ De a ver, Luminosa E brilhante, Como a água Do lago, Pura, fresca E cintilante. E UMA BRISA Soprou Sobre a água Do meu lago E logo apagou O seu rosto Como no despertar De um sonho, Mas eu Desenhei-lhe O perfil Em pauta De melodia Para poder Conservá-lo Na mais íntima Galeria. NUNCA MAIS Voltei Ao lago, Mas um dia Voltarei Em modo De poesia Onde a brisa Nunca apaga O seu rosto Nas águas Quentes Desta minha Fantasia. ⁂
ARGUMENTO
«Vem, ó clara Musa, Eratô, começa o teu canto, afinando à tua lira amável a melodia...» Estesícoro, frag. apud Estrabão, Geografia
Existem, deste encontro com a musa no lago, dois testemunhos. Um é verbal — o poema «Sonho no Lago», que João de Almeida Santos escreveu em Junho de 2026 e onde o rosto da amada se espelha nas águas puras de um jardim, sorri, fala, expõe o perfil e desaparece quando uma brisa toca a água. O outro é plástico — a prancha assinada JAS2025: um perfil esquerdo que irrompe de um abismo negro, com o rosto submerso na sombra e a cabeleira em textura craquelada, luminosa, como matéria prestes a libertar a luz que a habita.
Cada um destes testemunhos já recebeu a sua leitura própria. Resta o gesto que aqui se cumpre: não os ler em paralelo, mas cruzá-los — mostrar que poema e prancha não são duas obras sobre o mesmo tema, mas um único campo significante desdobrado em dois suportes. Onde outro autor compõe melodia, este autor compõe acorde: e o acorde, aqui, é a sobreposição irredutível do dito poético e do dito plástico, lidos segundo o regime trivalente FPK — filosófico (F), psicanalítico (P), cabalístico/estético (K).
À leitura original acrescenta-se agora um terceiro estrato, longamente desenvolvido: a figura de Eratô, musa do canto amoroso, que dá nome ao desejo que percorre ambos os suportes. Não como ornamento erudito, mas como chave: a sua genealogia, o seu nome, os seus atributos e — sobretudo — a longa série das suas representações na pintura célebre permitem ler o que a prancha de JAS herda da tradição iconográfica da musa e o que nela subverte. O lago do poema é o seu altar; o perfil da prancha é o seu rosto velado; e a tradição que vai de Le Sueur a Leighton é a moldura contra a qual a obra de 2026 se recorta.
LIMIAR Dois suportes, um só acorde
A tese deste cruzamento é simples de enunciar e densa de demonstrar: a prancha é o poema visto do lado da água, e o poema é a prancha dita do lado da voz. O que no texto se chama «rosto espelhado nas águas desse lago do jardim» é, na prancha, o perfil que emerge do negro; o que no texto se chama «e logo apagou o seu rosto / como no despertar de um sonho» é, na prancha, a textura craquelada da cabeleira, esse limiar de matéria onde a forma ameaça dissolver-se de novo no abismo de que veio.
Há, entre os dois, uma diferença de tempo que é decisiva. O poema narra uma sucessão: vi, sorri, disse olá, imaginei-me, li-lhe, fiquei feliz, soprou a brisa, desenhei-lhe o perfil. A prancha congela um único instante dessa sucessão — e congela precisamente o instante crítico, aquele em que o rosto já começou a apagar-se mas ainda não desapareceu de todo. A face está na sombra (já recua); a cabeleira está em luz (ainda resiste). A prancha é, portanto, o fotograma do desvanecimento: fixa o que o poema só pode dizer no gerúndio do «apagar».
É por isto que os dois suportes não se repetem: completam-se. O poema dá o movimento — o antes e o depois da brisa; a prancha dá o ponto — o exacto limiar entre presença e ausência. Lidos juntos, recompõem a estrutura inteira do acontecimento: o verso oferece a duração, a imagem oferece o instante, e o sentido nasce da tensão entre ambos.
Esta arquitectura tem um nome no idioma do método. Chamamos-lhe trivalência isodinâmica: nenhum dos três registos (F. P. K) é fundamento dos outros, e nenhum dos dois suportes (verbal, plástico) é original do outro. São traduções recíprocas de uma só operação — o encontro com o rosto no espelho fluido. Demonstrá-lo exige percorrer, primeiro, a prancha como tradução do verso; depois, os três cruzamentos F. P. K; a seguir, a figura de Eratô na sua mitologia e na sua iconografia; e, por fim, a rede sistémica que ata tudo.
Convém reter, desde já, um princípio de método. A trivalência não acrescenta sentido exterior ao poema ou à prancha: explicita o que ambos já operam em pré-compreensão integrada. Quando se diz que a craquelura «é» a shevirat ha-kelim, não se aplica uma grelha de fora — descreve-se o que a textura já faz: aprisionar luz na fenda. O cruzamento é, neste sentido rigoroso, uma restituição: devolve ao objecto a densidade que a leitura fracturada da Modernidade lhe retira, separando o erótico do místico e o místico do onírico. Aqui, os três voltam a coincidir no mesmo traço.
A PRANCHA COMO TRADUÇÃO PLÁSTICA DO VERSO *
Antes de cruzar os registos, convém estabelecer, verso a elemento, a correspondência exacta entre o que o poema diz e o que a prancha mostra. Não se trata de ilustração — a prancha não «desenha» o poema —, mas de tradução intersemiótica: cada operação verbal tem o seu equivalente plástico, e é na fidelidade dessa equivalência que o acorde se demonstra.
O rosto na água e a face na sombra
O poema abre com a visão: «Vi o seu rosto / brilhante / espelhado / nas águas». A prancha responde com um paradoxo cromático: a face — o lugar onde esperaríamos o brilho — está mergulhada em sombra quase total, apenas sugerida pela linha do nariz, do lábio, do queixo. O brilho transferiu-se para fora do rosto: para a cabeleira e para o colar. Esta deslocação é, ela própria, uma leitura: o rosto da musa não brilha por luz própria, mas por reflexo — é «espelhado», e um reflexo não tem face, tem contorno. A prancha mostra exactamente isto: um rosto que é todo perfil e nenhuma frontalidade, porque o que se vê na água nunca é o rosto, é a sua imagem.
Note-se a precisão da escolha do perfil. O retrato de perfil é, na história da arte, a forma do medalhão e da moeda — a efígie, o rosto destinado a durar, cunhado para a memória. Ao dar à musa um perfil de medalha, a prancha inscreve-a já sob o signo da conservação que o poema só alcançará no último verso. O perfil é a face que se oferece à posteridade, não ao encontro: olha para o lado, para o que passou, nunca para quem a contempla.
A brisa e a textura craquelada
«E uma brisa / soprou / sobre a água do meu lago / e logo apagou o seu rosto.» Este é o verso central, o ponto de viragem do poema — e é também o centro plástico da prancha. A cabeleira não é cabelo: é matéria em estado de devir, superfície craquelada, «pele do sonho». As fissuras dessa textura são o rasto da brisa — o vento que já passou a mão sobre a imagem e começou a desfazê-la. O que no poema é acontecimento (a brisa que sopra) é, na prancha, estado (a superfície fendida). A craquelura é a brisa solidificada.
A pauta de melodia e o colar geométrico
«Mas eu / desenhei-lhe o perfil / em pauta de melodia / para poder conservá-lo.» Ao apagamento, o poeta opõe a inscrição: converte o rosto que se desfaz em partitura, em forma que dura. Na prancha, este gesto tem a sua cifra exacta — o colar branco, geométrico, facetado como cristal ou origami, que funciona como «a margem, a linha onde o mar encontra a terra firme da consciência e da forma». O colar é a pauta: a ordem sintética que o poeta interpõe entre a cabeleira caótica (a matéria onírica que transborda) e o abismo negro (o nada que tudo ameaça). Onde a textura é a brisa, o colar é a melodia. A oposição plástica entre o craquelado orgânico e a faceta geométrica é, traço por traço, a oposição poética entre o «apagar» e o «conservar».
O lago e o abismo negro
Resta o fundo. No poema, o lago é água — superfície reflectora, «águas puras», «águas quentes desta minha fantasia». Na prancha, o fundo é negro absoluto, «oceano nocturno», o Real lacaniano que ameaça engolir a forma. Não há contradição: a água do poema é o negro da prancha, porque ambos são o mesmo elemento lido em dois momentos. A água que reflecte (poema) e a água que afoga (prancha) são a mesma água — o espelho fluido, que tanto devolve a imagem como a engole. O lago é luminoso enquanto contém o rosto; torna-se abismo no instante em que a brisa o apaga. A prancha pintou o lago no segundo momento.
CRUZAMENTO F O erotismo do quase e o excesso sagrado
No registo filosófico-estético, o eixo é o erotismo francês — de Sade a Bataille — lido como excesso e transgressão do limite. O cruzamento revela que poema e prancha encenam o mesmo erotismo, mas por meios opostos: o poema pelo dito, a prancha pelo velado.
No poema, o erótico está na palavra que toca: a musa responde com «estudada malícia», expõe o perfil «para que eu a pintasse com palavras», e as palavras do poeta caem «como gotas de cristal / na pele fresca de veludo / desse rosto virtual». Há contacto — táctil, ainda que virtual. É o excesso batailliano na sua forma comunicante: a palavra atravessa o tabu do sonho e toca o Outro.
Na prancha, o erótico está precisamente no que não se mostra. Não há nudez, não há contacto: há a tensão entre a face velada na sombra e a cabeleira que transborda de luz. É um «erotismo do quase»: quase visível, quase tocável, quase sagrado. A petite mort batailliana, que no poema é a brisa que apaga o rosto (o instante de comunicação que se dissolve no regresso à descontinuidade), é, na prancha, a sombra que já tomou a face e avança sobre o resto. O rosto da prancha está a morrer a pequena morte que o verso anuncia.
O cruzamento produz, assim, uma definição mais fina do erótico de ambos: não é o erotismo da posse, mas o erotismo da iminência — do rosto que está prestes a entregar-se e prestes a desaparecer, na mesma fracção de instante. O poema diz essa iminência no futuro («um dia voltarei»); a prancha mostra-a no presente suspenso. E em ambos, o que se deseja não é o corpo — é a imagem do corpo no espelho, o «rosto virtual», esse objecto que só existe enquanto se apaga.
Importa não confundir este erotismo com o do libertino. Em Sade, o desejo procura a posse e a destruição do objecto; aqui, o desejo procura conservar o objecto que foge — é um erotismo da fidelidade, não da devassidão. Este desvio é decisivo para o que se dirá de Érato: porque a musa de João de Almeida Santos não inspira a luxúria, inspira o canto — e o canto, ao contrário da posse, não consome o seu objecto, exalta-o. É o sentido que Diodoro Sículo já dava a Érato: aquela que faz dos homens, não possuidores, mas «dignos de serem amados».
CRUZAMENTO P O espelho que se fende e a sublimação
No registo psicanalítico, o lago é o espelho — e o cruzamento mostra que o estádio do espelho lacaniano opera, nos dois suportes, em modo invertido. No espelho clássico, o eu reconhece-se a si próprio. Aqui, o eu procura-se («passei por aqui / à procura de mim») e encontra, no lugar da sua imagem, o Outro — a musa. O reconhecimento falha-se a si mesmo: o sujeito, ao debruçar-se sobre a água para se ver, vê outro rosto.
O poema explicita esta inversão num dos seus momentos mais subtis. A musa diz: «também tu / andas por cá?», e logo: «sim, passei / por aqui / à procura de mim, / esperava encontrar-me / espelhado nas águas». Quem fala — o eu ou a musa? A ambiguidade é deliberada: a musa é o eu procurando-se, é a anima junguiana, a figura feminina interior que emerge do inconsciente portadora de saber e de perigo. O poeta encontra-se ao encontrá-la; perde-se ao perdê-la.
A prancha dá a este espelho a sua imagem mais exacta: um perfil cuja face está na sombra. O espelho lacaniano devolve normalmente uma imagem coesa — o eu ideal. Aqui devolve uma imagem fendida: a silhueta é reconhecível (o eu ideal persiste no contorno), mas a textura craquelada da cabeleira é a falha no espelho, o retorno do reprimido, a fissura por onde o eu coeso se esboroa. O observador da prancha, como o eu do poema, fica entre identificação e estranhamento: reconhece um rosto e não consegue retê-lo.
E há a sublimação. Em ambos os suportes, o que poderia ficar como puro impulso — desejo erótico, angústia da perda — é elevado à forma. No poema, pela «pauta de melodia» onde o perfil se conserva; na prancha, pela própria pincelada, que é o trabalho de sublimação visível: o sonho transformado em traço. A melodia do verso e o traço da prancha são o mesmo gesto sublimatório: converter a perda em obra, o luto do rosto apagado numa galeria — íntima no poema, exposta na prancha — onde a imagem perdura para além do instante que a destruiu.
Acrescente-se uma nota sobre a melancolia. Freud distinguia o luto, que elabora a perda e a deixa partir, da melancolia, que se recusa a perder e incorpora o objecto perdido no próprio eu. O poema parece, à primeira vista, melancólico — «nunca mais voltei ao lago» —, mas o seu gesto final é, a rigor, trabalho de luto bem-sucedido: não retém o rosto como ferida, inscreve-o como obra e, ao inscrevê-lo, liberta-se para «voltar um dia em modo de poesia». A prancha faz o mesmo: não é um monumento fúnebre, é uma efígie viva, um rosto guardado para poder ser revisto. Em ambos, a sublimação vence a melancolia.
CRUZAMENTO K Sophia, tzimtzum e o tikkun da matéria
No registo cabalístico-estético, o cruzamento alcança a sua maior densidade, porque é aqui que a estrutura plástica da prancha realiza, quase didacticamente, o mito lurânico que o poema apenas insinua. A sequência inteira — tzimtzum → shevirat ha-kelim → tiqqun — encontra na obra dupla a sua encenação completa.
Tzimtzum - O negro como retracção
O abismo negro da prancha não é, primeiramente, ameaça — é condição. Antes de a luz aparecer, a luz infinita (Or Ein Sof) retraiu-se para abrir um espaço onde algo pudesse ser: é o tzimtzum, a auto-contracção do Infinito. O negro absoluto da prancha é esse vazio primordial (o tehiru), o lugar esvaziado onde o rosto pode emergir. No poema, o equivalente é o silêncio antes da visão — o lago liso, ainda sem rosto, à espera. Sem o negro não há perfil; sem a água vazia não há reflexo. A retracção é o que torna possível a aparição.
Shevirat ha-kelim - A craquelura como vaso partido
A textura fendida da cabeleira é, na sua cifra mais directa, a shevirat ha-kelim — a quebra dos vasos que não puderam conter a luz da criação. As nitzotzot, as centelhas divinas, ficaram presas na matéria, e a craquelura é o registo dessa prisão: luz aprisionada na fissura, matéria prestes a libertar luz. No poema, o vaso que se quebra é a própria fantasia: «logo apagou o seu rosto / como no despertar de um sonho». O sonho é o keli, o vaso onírico, e a brisa é o sopro que o estilhaça. Em ambos, a luz não se perde — dispersa-se, fica à espera de quem a recolha.
Tiqqun - A melodia e o traço que recolhem as centelha
E quem a recolhe é o poeta — o pintor. «Desenhei-lhe o perfil / em pauta de melodia / para poder conservá-lo»: cada nota dessa pauta é uma centelha recolhida, cada verso um fragmento de luz arrancado à dispersão. É o tiqqun, a reparação, operada pela palavra. Na prancha, o tiqqun é a própria pincelada: cada traço que insiste na cabeleira luminosa, contra o negro que avança, é um caco recolhido, uma centelha devolvida à forma. O colar geométrico — o keli reconstruído, o vaso agora ordenado — é o tiqqun consumado em geometria: a luz que transbordava encontra, enfim, um continente que a segura.
Sobre tudo isto paira Sophia. A musa do lago é, na leitura sofiânica de Bulgakov, a Sabedoria divina feminina (Hokhmah) que medeia entre o Criador e a criação — e a prancha mostra-a no seu momento mais verdadeiro: não a Sophia serena dos ícones, mas Sophia em processo de encarnação, ainda presa nos cacos da matéria, ainda lutando para se manifestar. O rosto que emerge do negro é a Sabedoria a fazer-se imagem; a brisa que a apaga é a resistência da matéria à encarnação; e o regresso futuro «em modo de poesia / onde a brisa nunca apaga o seu rosto» é a escatologia sofiânica — a criação redimida, o divino-feminino enfim permanente na obra.
Esta leitura prepara já o estrato seguinte. Pois aquilo a que a teologia chama Sophia, e a psicanálise chama anima, a mitologia grega chamou Musa — e, no caso preciso do canto amoroso, Eratô. As três figuras nomeiam, em três línguas, a mesma potência feminina mediadora: a que faz o homem criar ao fazê-lo desejar. É a ela que se dedica a parte que se segue.
ERATÔ Genealogia, nome e domínio
«Vem agora, Eratô, e diz-me quem eram os reis…» Virgílio, Eneida, VII, 37
Para que Eratô funcione como chave — e não como mera alusão decorativa — é preciso conhecê-la com exactidão: a sua origem, o seu nome, o seu lugar entre as nove irmãs, e o conjunto de atributos que a tradição lhe foi fixando. Só então as suas representações pictóricas (secção VII) poderão ser lidas como variações sobre um tema que a prancha de JAS, à sua maneira, prolonga.
A filha de Zeus e de Mnemósine
Érato é uma das nove Musas, filhas de Zeus e da titânide Mnemósine — a Memória. A genealogia é fixada por Hesíodo na Teogonia (v. 75 e seguintes), onde as nove são nomeadas em conjunto: Clio, Euterpe, Talia, Melpómene, Terpsícore, Érato, Polímnia, Urânia e Calíope. Nasceram na Piéria, ao pé do Olimpo, do encontro de Zeus com Mnemósine repetido por nove noites; e habitam o monte Hélicon, centro da inspiração poética. Apolodoro (Biblioteca, 1.3) e Diodoro Sículo confirmam a mesma ascendência.
Esta filiação não é indiferente ao nosso tema. Ser filha da Memória é, para uma musa do amor, a definição mais exacta possível do que o poema de JAS faz: o «Sonho no Lago» é, do princípio ao fim, um trabalho de memória — o rosto que se apaga é guardado «na mais íntima galeria», e a galeria é precisamente Mnemósine. Érato, filha da Memória, preside a esse gesto de conservar o amado contra o esquecimento. A prancha, ao dar à musa um perfil de medalhão — forma cunhada para durar —, inscreve-a sob o mesmo signo materno: a Memória que vence a brisa.
Há ainda uma singularidade de Érato entre as irmãs. Ao contrário da maioria das Musas, representadas como virgens, Érato tem descendência documentada: dada por Zeus em casamento a Malo, foi mãe de Cleofema, e a sua linhagem prolonga-se — através de Corónis e Flégias — até Asclépio, deus da medicina. A musa do amor é, portanto, também a origem distante da cura. Esta nota genealógica ressoa com um motivo caro ao autor: o canto que cura, a poesia como tiqqun, a beleza que repara. Érato liga, na sua própria descendência, o érōs à terapêutica.
O nome desejado - Eratô e Eros
O nome Eratô (Ἐρατώ) significa «amável», «desejada», se derivado, como quer a tradição, da mesma raiz de érōs. Foi Apolónio de Rodes quem fixou o jogo, ao abrir o Livro III da Argonáutica — o livro do amor de Medeia — com uma invocação a Érato, justificando a escolha pela consonância entre o nome da musa e o desejo que ela inspira. Virgílio retoma o gesto na Eneida (VII, 37), invocando-a no limiar da segunda metade do poema, a das guerras e das paixões. E Platão, no Fedro, liga-a expressamente aos amantes.
Esta etimologia é a charneira de todo o cruzamento. Pois o que o poema de JAS encena é, ponto por ponto, a operação que o nome de Érato condensa: o desejável que se dá a ver e o desejo que o canta. A musa do lago não tem outro nome senão «o seu rosto»; mas o seu nome próprio — aquele que a tradição lhe daria — é precisamente «a desejada». E o Hino Órfico às Musas atribui a Érato uma função que a prancha realiza à letra: Érato é aquela que encanta a vista. Ora a prancha é, antes de tudo, um objecto para a vista encantada — um rosto que fascina o olhar e se subtrai a ele.
Os atributos - a lira, o mirto, a rosa, a flecha, a pomba
Desde o Renascimento, Érato é representada com um conjunto estável de atributos, cada um dos quais encontra eco no par poema-prancha:
A lira (ou a pequena cítara). É o seu emblema principal, instrumento de Apolo e de Orfeu, que converte o desejo em canto e em ordem. No poema, a lira é a «pauta de melodia» onde o perfil se conserva; na prancha, é o colar geométrico, partitura facetada que ordena o caos da cabeleira. A lira é, em ambos, o instrumento da conservação: o que transforma o que foge em forma que fica.
A coroa de mirto e de rosas. Plantas de Afrodite. A rosa é a beleza que se abre e murcha — a flor do instante, como o rosto «por uns escassos momentos» exposto. O mirto, sempre verde, é a beleza que sobrevive ao Inverno — como o rosto que «um dia voltarei» a ver. Os dois atributos de Érato dizem, juntos, exactamente a tensão do poema: a rosa é a brisa que apaga, o mirto é a melodia que conserva.
A flecha de ouro. Por vezes Érato segura uma seta dourada, símbolo do érōs que ela desperta — assim a mostra, por exemplo, a tela de Meynier no Museu de Cleveland. A flecha é o desejo que fere à distância, sem contacto: precisamente o «erotismo do quase» que identificámos na prancha, onde o desejo nunca toca o seu objecto, apenas o visa.
As rolas (pombas). Nas representações de Simon Vouet, duas rolas debicam sementes aos pés da musa — aves de Afrodite, emblema da fidelidade amorosa e do par. A sua presença lembra que o canto de Érato não é o da conquista volúvel, mas o do vínculo: e o poema de JAS é, no fundo, um poema de fidelidade — a um rosto único, prometido e reencontrado.
Eros com a tocha. Por vezes a musa é acompanhada pelo próprio Eros, que segura uma tocha acesa. A tocha é a luz do desejo — e é difícil não a reconhecer na prancha, onde a única luz que rompe o negro é a da cabeleira incandescente, esse facho que arde contra a noite. Na prancha, Eros não está representado como figura: está como luz.
ERATÔ NA PINTURA CºELEBRE Seis leituras iconográficas
A figura de Eratô atravessa toda a pintura europeia, do maneirismo ao academismo vitoriano. Percorrer algumas das suas representações mais célebres não é digressão erudita: é construir a moldura contra a qual a prancha de JAS se recorta. Cada tela fixou um aspecto da musa; e a prancha de 2026, lida contra elas, revela com nitidez o que herda da tradição e o que nela rompe.
Le Sueur e o cabinet des Muses do Hôtel Lambert
Entre 1652 e 1655, Eustache Le Sueur pintou, para o cabinet des Muses do Hôtel Lambert, na Île Saint-Louis, um conjunto de painéis hoje no Louvre, entre os quais a célebre tela que reúne três musas: Melpómene, Érato e Polímnia (óleo sobre tela, 130×130 cm). Érato aparece aí com a sua lira, em harmonia serena com as irmãs, num classicismo de gesto medido e luz uniforme. É a Eratô apolínea: equilibrada, plena, sem sombra — a musa como ideal de ordem.
É exactamente contra esta serenidade que a prancha de JAS se define por contraste. Onde Le Sueur banha a musa numa luz igual e a integra num coro, a prancha isola-a sobre o negro absoluto e parte a sua superfície em craquelura. A musa de Le Sueur possui-se; a de JAS apaga-se. A distância entre as duas é a distância entre o classicismo da plenitude e uma estética do limiar e da perda — entre o keli intacto e o keli partido.
Meynier, Eratô e Cupido - A flecha de ouro
Charles Meynier, no início do século XIX, pinta Érato e Cupido (versões no Museu de Cleveland e no Bonnat-Helleu), onde a musa surge com a flecha de ouro recebida de Eros — sinal expresso da emoção que a inspira. Aqui o érōs é tematizado de frente: a musa e o deus do desejo partilham o mesmo espaço, e a seta dourada é o atributo que os liga.
A prancha de JAS herda de Meynier a presença do desejo, mas suprime a sua figuração. Não há Cupido, não há seta visível: o desejo passou inteiramente para a luz da cabeleira e para a sombra da face. É a mesma matéria erótica, mas interiorizada — o que em Meynier é alegoria de personagens torna-se, na prancha, drama puramente cromático entre o que arde e o que se apaga. A flecha de ouro de Meynier é, na prancha, o próprio facho luminoso que fere o negro.
Kauffmann, Érato e o putto - O neoclássico sensível
Angelica Kauffmann, das poucas mulheres admitidas na Royal Academy, pinta no final do século XVIII Érato, a Musa da Poesia Lírica, com um Putto: uma musa neoclássica de doçura pensativa, acompanhada por um pequeno génio alado. Kauffmann é célebre por unir o ideal clássico a uma profundidade emotiva — e a sua Eratô é menos a deusa do desejo ardente do que a da ternura contemplativa.
Esta inflexão — de Érato como sensibilidade, não como ardor — é a que mais se aproxima da prancha de JAS. A musa de JAS, com a face na sombra e o olhar voltado para o que passou, tem o mesmo recolhimento melancólico da musa de Kauffmann. Mas onde Kauffmann mantém a figura inteira, legível, iluminada, a prancha leva o recolhimento ao limite: a face já quase se apagou, e o que resta é o gesto de a guardar. Kauffmann pinta a musa a pensar; JAS pinta-a a desaparecer.
Vouet e Dorigny - As rolas e o panejamento
Nas composições de Simon Vouet e do seu genro e colaborador Michel Dorigny — autor de um painel de Eratô pertencente a uma série de nove musas, hoje dispersa —, a musa surge envolta em panejamentos amplos e acompanhada, aos pés, por duas rolas que debicam sementes. As aves de Afrodite introduzem na cena o tema do par e da fidelidade: a musa do amor não é a do desejo errante, é a do vínculo.
A prancha de JAS retém este núcleo — a fidelidade — mas despoja-a de todo o aparato. Não há panejamento, não há aves, não há cenário: há um perfil e um abismo. O que em Vouet é dito por acumulação de símbolos é, na prancha, dito por subtracção: o vínculo amoroso reduzido ao essencial — um rosto que se quer conservar contra o nada. A economia plástica da prancha é o oposto exacto da abundância barroca de Vouet; e, no entanto, ambas dizem o mesmo: o amor é fidelidade a uma face.
Leighton - A lira encostada ao silêncio
Frederic Leighton, presidente da Royal Academy e mestre do academismo vitoriano, pinta uma Eratô de grande sumptuosidade plástica, em que a musa, drapeada, surge com a lira num registo de melancolia contida e beleza solene. Leighton é o pintor da forma perfeita à beira da dissolução estética — a beleza que sabe da sua própria transitoriedade.
É talvez Leighton o antepassado mais próximo do tom da prancha. A sua Eratô carrega já a consciência da efemeridadeque o «Sonho no Lago» tematiza. Mas Leighton mantém a beleza intacta, apenas pensativa; a prancha de JAS dá o passo seguinte e mostra a beleza já em vias de se apagar — a craquelura é o que aconteceria à pele perfeita de Leighton se o tempo, finalmente, lhe tocasse. A prancha é uma Eratô leightoniana depois da brisa.
Da pintura à prancha - O que JAS2025 herda e subverte
Reunindo as seis leituras, desenha-se com nitidez a posição da prancha na linhagem de Eratô. Dela herda: a lira (tornada colar-pauta), o desejo (tornado luz), o mirto e a rosa (tornados tensão entre apagar e conservar), a fidelidade a uma face (tornada economia de subtracção), a consciência da efemeridade (tornada craquelura).
Mas subverte três traços maiores da tradição. Primeiro, o fundo: onde a tradição põe paisagem, arquitectura ou coro de irmãs, a prancha põe o abismo negro — o tehiru cabalístico, o Real lacaniano. Segundo, a integridade da figura: onde a tradição dá a musa inteira e legível, a prancha dá um perfil meio submerso na sombra e uma matéria fendida — a figura em vias de dissolução. Terceiro, e mais decisivo, a temporalidade: as Érato da tradição estão no presente do seu esplendor; a Eratô de JAS está no limiar do desaparecimento, captada no exacto instante em que a brisa do verso central começa a apagá-la.
É nesta tripla subversão que a prancha se revela inseparável do poema. Pois aquilo que distingue a Érato de JAS de todas as anteriores — o fundo de abismo, a figura em dissolução, o instante do limiar — é, ponto por ponto, o que o «Sonho no Lago» narra. A prancha não é uma Eratô a mais na galeria: é a Érato deste poema, a musa do rosto que se apaga no lago e se conserva na pauta. Tradição e ruptura coincidem: jas2025 pinta a musa de sempre, no instante que nenhum pintor antes dele se atrevera a fixar — o da sua própria desaparição amorosa.
INTEROPERACIONALIZAÇÃO SISTÉMICA A rede fechada
Os cruzamentos não são justaposições: formam um sistema fechado, onde cada elemento exige os outros e nenhum pode ser removido sem colapso da estrutura. Convém expor a rede no seu funcionamento.
O erotismo do registo F — o desejo do rosto iminente — só não cai em mera transgressão profana porque é atravessado pelo numinoso: o tremor sagrado diante do rosto que aparece (o tremendum) e o fascínio que leva a pintá-lo com palavras (o fascinans). Mas o numinoso, por sua vez, cairia em misticismo evasivo se não fosse ancorado pela profundidade psicanalítica do registo P: o espelho fendido, a anima, a sublimação dão ao sagrado a sua gramática terrena — o desejo, o inconsciente, o luto.
A psicanálise, por seu turno, esgotar-se-ia na imanência do sujeito se o registo K não a abrisse ao cosmos: o espelho lacaniano torna-se o keli, a anima torna-se Sophia, a sublimação torna-se tiqqun. E o tiqqun — a recolha das centelhas — precisaria de um agente que o operasse: esse agente é o poeta-pintor, cujo desejo (F), cuja elaboração (P) e cuja reparação (K) se unificam sob Eratô, musa do canto que faz da perda uma obra.
Eratô é, assim, o nó da rede inteira. Nela coincidem a anima do registo P e a Sophia do registo K; nela o érōs do registo F encontra o seu nome próprio; nela a Memória (sua mãe, Mnemósine) garante a conservação que é o telos do poema. E a sua descendência até Asclépio inscreve na própria genealogia a equação central do autor: o canto que cura, a beleza que repara. Retirar Eratô — ou qualquer dos registos, ou qualquer dos dois suportes — e a estrutura desaba.
Os dois suportes são, eles próprios, parte da rede: o poema dá a duração que a prancha não pode dar; a prancha dá o instante que o poema não pode fixar; e a tradição iconográfica de Eratô dá a ambos a moldura histórica contra a qual se recortam. É esta interdependência tripla — registos, suportes, tradição — que faz da obra um organismo, e não uma colecção.
CODA Onde a brisa não apaga
O poema termina numa promessa: «nunca mais voltei ao lago, / mas um dia voltarei / em modo de poesia / onde a brisa nunca apaga / o seu rosto». A prancha é o cumprimento dessa promessa. É o regresso ao lago «em modo de poesia» — só que em modo de pintura —, o lugar onde a brisa, finalmente, não apaga. Porque na prancha o rosto está fixado: a craquelura registou o apagamento e, ao registá-lo, deteve-o. O que no poema era ameaça («apagou o seu rosto») é, na prancha, memória vencida («mas eu desenhei-lhe o perfil»).
Eis o sentido último do cruzamento. Tomados isoladamente, poema e prancha dizem ambos a mesma melancolia — a beleza apaga-se, o sonho dissolve-se, o rosto recua para o negro de onde veio. Tomados em conjunto, e sob o olhar de Érato, dizem outra coisa: que a beleza apaga-se no tempo (poema) mas permanece na forma (prancha); que a brisa vence o instante, mas a melodia — e o traço — vencem a brisa. O poema é o lamento; a prancha é a vitória. E o acorde dos dois é a verdade inteira: amamos o que se apaga, e por isso o inscrevemos onde a brisa não chega.
Eratô, filha da Memória, preside a este acorde. Foi ela quem, de Hesíodo a Leighton, ensinou os poetas e os pintores a cantar o desejável e a guardá-lo do esquecimento. E é ela quem, na prancha de João de Almeida Santos, recebe enfim o rosto que nenhum pintor antes ousara mostrar no seu limiar — não a musa no esplendor, mas a musa no instante exacto em que se entrega e se subtrai. Na mais íntima galeria da fantasia — que é também, agora, uma galeria exposta, pendurada na parede do negro —, o perfil da musa permanece eternamente espelhado nas águas quentes do desejo.
O poeta nunca mais voltou ao lago. Mas voltou. E nós voltamos com ele, cada vez que lemos o verso e contemplamos o perfil, no mesmo acorde indivisível de palavra e cor — sob o signo da musa amável, da desejada, daquela cujo nome é o próprio nome do desejo que faz cantar.
REFERÊNCIAS
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AMV@06-2026 André Moshe Veríssimo, PhD, é Professor universitário, investigador, filósofo, poeta, ensaísta e crítico de arte
