DESAFIOS À ESQUERDA
João de Almeida Santos
TIVEMOS NOTÍCIA da criação de um novo think tank, mais tank do que think, ao que diz o seu líder, chamado Instituto Progresso (IP – curiosa convergência com a sigla do Internet Protocol), com o seguinte mote: “Não queremos apenas pensar o futuro. Queremos ajudar a construí-lo”. De que modo, é o que estamos para ver. Para já, constata-se a generosidade. A iniciativa começou com a publicação de um “Manifesto”, que pouco diz, ou melhor, com umas ideias que podem ser partilhadas pela generalidade das pessoas (para não dizer com umas generalidades) e, como se lê no documento, que estão para além dos “espartilhos ideológicos”, sendo assumidas a partir da evidência e da experiência acumulada da razão, numa perspectiva reformista. De concreto, do ponto de vista temático, nada, por enquanto. Apenas a reivindicação do património iluminista do grande Condorcet e uma sintética descrição dos momentos de desenvolvimento da nossa sociedade e das diversas variáveis que hoje estão em jogo para um desenvolvimento seguro, eficaz e justo. O Instituto como “tubo de ensaio” de uma visão global reformista e progressista para Portugal. Nada mais. Mas já é alguma coisa.
1.
Assim sendo, e ficando a aguardar novos e mais esclarecedores elementos para uma ulterior avaliação, permito-me, a este propósito, retomar o que em outubro de 2023 escrevi a propósito da criação de um outro think tank de esquerda, “Causa Pública” (CP, sigla, esta, menos prometedora), que, entretanto, parece ter-se dissolvido na bruma inelutável do tempo histórico, apesar de ainda existir em forma de site. O que acontecerá com este Instituto não se sabe, sendo, todavia, certo que cada vez mais necessitamos de pensamento político e de acção perante esta fase de degradação da política nacional e mundial. Mas não deixa de ser curioso que se crie, de novo, um movimento quase justaposto politicamente ao PS, quando este partido tem no seu interior um recente Conselho Estratégico (para pensar o futuro tendo como horizonte 2050), um Instituto Jorge Sampaio (antigo Gabinete de Estudos), uma Fundação Res Publica (que não se sabe bem para que serve) e três Revistas, que se sobrepõem em conteúdo: Finisterra, Res Publica e Portugal Socialista. Talvez o líder deste IP, deputado do PS, pudesse liderar um destes organismos e promover pensamento e acção no interior do seu partido. Mas, não tendo acontecido, pôs mãos à obra e lançou este Instituto Progresso. Não deixa, entretanto, de ser curiosa a forma adoptada, Instituto, e o patrono escolhido, o iluminista e liberal Condorcet.
2.
O aparecimento deste novo Instituto parece-me, assim, suscitar duas questões: ou a sociedade civil (à esquerda) está a ganhar vitalidade política e a gerar formas organizacionais de revitalização, e este IP seria resultado disso, ou o PS não está a fazer bem o seu trabalho, sendo, portanto, necessário criar uma alavanca paralela que o possa reanimar. Sim, porque o IP é no essencial uma iniciativa da área PS. Mas não creio que estejam a acontecer duas coisas positivas ao mesmo tempo e em sinergia: a área do PS revitalizada quer partidariamente quer no plano da sociedade civil. Revitalizada ou, então, fracturada, pois muitos reconhecem neste movimento uma mão escondida e o desejo de promover uma alteração interna na classe dirigente do PS. Não sei. O que sei é que esta forma de reorganização não parece ser a melhor, porque, de certo modo, se sobrepõe ao PS e às suas próprias estruturas (com mais uns tantos desalinhados do PSD ou de outras formações mais pequenas), ainda que todas elas preocupantemente adormecidas. Mas não parece ser a melhor também porque não tem a forma de uma enxuta e eficaz plataforma mobilizadora da cidadania, certamente com uma orientação ideal definida, mas minimalista, quer do ponto de vista do conteúdo doutrinário quer organizacional. Criar uma organização para pensar, e com a forma de Instituto, é que me parece ser uma ideia de quem não sabe bem o que é pensar. Quem pense, há muito, neste país. O que falta é uma grande plataforma que possa difundir, organizar e promover as ideias de quem, com muito estudo e trabalho, pensa bem e na direcção certa (já que o PS não o faz). Ora, não parece ser essa a vocação deste Instituto, logo a começar no nome e na forma organizativa. As grandes plataformas que influenciam e promovem soluções são de outro tipo e limitam-se a ser máquinas simples, mas eficazes, de reprodução social de valores, de ideias, de iniciativas, sem estarem reféns nem de uma forma organizativa excessivamente orgânica e complexa nem do simbolismo de nomes-referência que acabam por funcionar, logo à partida, como filtros e como marcas que, mais do que alargar, restringem. Eu, ao ver ali certos nomes (sobretudo os que andam por todo o lado em busca da publicidade e da oportunidade perdidas) o que me apetece é, logo, distanciar-me do projecto. Estas marcas acabam por produzir sempre uma ressonância limitadora do alcance potencial das organizações. Pelo que já vi e pelos nomes que já circulam (aos quais não me refiro, mas que já são conhecidos pelo que fizeram, mas também pelo que não fizeram) é mesmo disso que se trata. Mas aguardemos até ao dia 17 de Setembro para saber mais.
3.
Entretanto, tendo em consideração o pouco ou nada que se sabe deste novo IP, aparentemente próximo do PS (é dirigido por um deputado do PS, Miguel Costa Matos), julgo ser útil retomar, com oportunos ajustamentos e melhorias, o que escrevi, em 2023, a propósito da criação de um outro think tank, a associação “Causa Pública”, sobre o que, então, no seu “Manifesto”, era dito, mas sobretudo omitido. Por que razão o faço? Porque me parece estarmos perante iniciativas parecidas, embora esta até me pareça estar mais condicionada e marcada logo à partida, além de, como a outra, não aproveitar experiências de sucesso que já aconteceram noutros países – moveon.org., meetup, momentum, Club Forza Italia (este de direita), por exemplo.
4.
Em 2023 foi criada uma associação de reflexão política, de esquerda, designada “Causa Pública”, presidida por Paulo Pedroso e que integrava muitos protagonistas da política nacional, designadamente deputados, ex-deputados e ex-governantes. Em Julho de 2023 fora aprovado o seu Manifesto, onde se identificava: “A Causa Pública é uma associação de cidadãs e cidadãos empenhados na construção de novos caminhos para Portugal”, sendo os seus valores fundamentais “a defesa do bem-comum, a democracia, a igualdade e a sustentabilidade”. Mas notei, de imediato, um significativo esquecimento: o do valor liberdade. E mais: em duas páginas, também notei que não se esqueceram de se referir diferenciadamente, seis vezes, aos dois géneros, o que no actual Manifesto não se verifica, parecendo a atitude ser expressiva, se tomarmos em consideração duas curtas frases que nele surgem: “rejeição de populismos iliberais e de guerras culturais importadas”; e sem “espartilhos ideológicos”.Pelo contrário, no Manifesta da CP, lia-se: “As e os associados da Causa Pública”. O que constituiu boa matéria de reflexão, logo para começar. Mas, na verdade, na altura considerei interessante e útil que se constituísse uma associação de pensamento político estratégico e de esquerda, visto que o pensamento político de esquerda andava, e ainda anda, hoje, muito a reboque (quase exclusivamente) do politicamente correcto e seus derivados. O que se esperava, pois, era que esta associação não fosse mais do mesmo: não enchesse o vazio de ideias com uma enxurrada woke que acalmasse a boa consciência dos paladinos da esquerda utópica e da causa identitária. Disso já tínhamos que chegasse. Até demais. Entretanto, estavam lá alguns deputados do PS, como Pedro Delgado Alves e Isabel Moreira, e até seus ex-governantes, como Alexandra Leitão, o próprio Paulo Pedroso e o meu amigo José Reis, ou mesmo ex-deputados como Miguel Vale de Almeida ou Ana Drago, ex-deputada do BE. Uma amostra significativa que deixava no ar a suspeita de ser mais do mesmo. O Manifesto, todavia, pouco ou nada dizia, mas também não seria possível dizer muito em duas páginas. De qualquer modo, fiz então alguns comentários ao pouco que era dito, ou melhor, sobretudo acerca do que não era dito, até porque, lido criticamente nessa óptica, era possível avaliar de forma mais certeira esta iniciativa. E hoje, “col senno di poi”, como dizem os italianos, o resultado da “Causa Pública” resulta ser literalmente nulo. O que aconteceu depois de 2023 não é, de certeza culpa dela, longe disso, mas a verdade é que a situação se deteriorou substancialmente, politicamente e idealmente.
5.
Antes de mais, pareceu-me que entre os seus valores fundamentais deveria ter constado a liberdade. Mas não constava. Terá sido lapso? Esquerda sem liberdade é o quê? Esquerda com liberdade é liberal? A verdade é que a liberdade e a igualdade são, em igual medida, os dois valores essenciais da esquerda, e não só, pois já Cícero dizia que “si aequa non est, ne libertas quidem est”, frase de resto retomada por Hans Kelsen em 1929, em Essência e Valor da Democracia. Mas foi o equilíbrio e harmonia entre eles o que sempre diferenciou a esquerda democrática, por um lado, do neoliberalismo e, por outro, da ortodoxia marxista, da liberdade selvagem e do igualitarismo. Esta falha pareceu-me, pois, grave. Por isso, acreditei que fosse simplesmente um lapso (mas não um lapsus calami, no sentido psicanalítico, verschreiben). Depois, essa insistência em contrariar a vetusta e sexista gramática, diferenciando repetidamente, ou mesmo obsessivamente, os dois géneros, pareceu-me ser um sinal pouco animador. No mínimo, pareceu-me ridícula, e até inestética, a frase já referida: “As e os associados da Causa Pública” (“os associados” já inclui o masculino e o feminino, porque está lá por todos). E todos é todos, todos, todos, como se diz agora, depois da visita do Papa Francisco. Não é todas, todas, todas e todos, todos, todos. Seis vezes… Mas, afinal, ainda lá faltava o neutro.
6.
Depois, a ideia de que “o foco excessivo dos partidos nas suas dinâmicas internas” limita a produção de pensamento também não me pareceu muito certeira, pela seguinte razão: tendo os partidos o monopólio de propositura da representação política nacional e, por consequência, sendo eles que fornecem os principais quadros para a gestão política do país, o foco sobre a sua vida interna deveria ser, não reduzido, mas intensificado, sobretudo em relação aos seus processos internos de selecção da classe dirigente, que são absolutamente decisivos para a boa gestão política de um país, precisamente da Causa (e da Coisa) Pública. Não é difícil perceber isto. O que, na altura, não compreendi foi que Paulo Pedroso tivesse, entretanto, chegado a anunciar que a associação não queria “interferir no xadrez político”. Mas, então, para que servia a associação se o que determina a Causa (e a Coisa) Pública é precisamente o “xadrez político”? E esta é uma questão que parece não estar também muito bem identificada no actual “Manifesto”, parecendo até, em certas formulações, que o obreiro da mudança será o IP, embora noutras pareça ser simplesmente o agente do debate. Veja-se a seguinte formulação: “Propomos-nos a (!) agregar uma comunidade de diferentes agentes de progresso em todo o território – cidadãos, instituições políticas e públicas, empresas do setor privado, academia, e sociedade civil – assegurando uma representação plural da realidade portuguesa. Mais do que um think-tank, queremos ser um do-tank. Integrando análise e implementação, trabalharemos com empresas, municípios, escolas, academia e sociedade civil para experimentar, calibrar e validar soluções antes da sua adoção em maior escala”. Adopção por quem? Perante isto, mais parece que querem é ser um partido, em vez de um think tank ou, melhor, de um tank to do. A ver vamos.
7.
Também constatei, no Manifesto da associação “Causa Pública”, que, ao contrário do que acontece com este, não havia uma palavra sobre o mundo digital, que hoje se tornou decisivo em todas as frentes da vida na sociedade actual. E certamente que os subscritores do Manifesto tinham lido o livro da Shoshana Zuboff sobre o chamado “Capitalismo da Vigilância”, de resto, já então publicado em português pela Relógio d’Água. Este tema deveria, pois, ter merecido uma atenção muito especial devido aos efeitos que o digital e a rede vieram produzir sobre a identidade do cidadão na “digital and network society” ou na “algorithmic society”, por exemplo, na sua relação com os processos eleitorais, atendendo às capacidades tecnológicas de determinação preditiva do comportamento eleitoral e ao novo Marketing 4.0, do senhor Philip Kotler. A relevância desta questão é enorme, pois trata-se do processo de acesso democrático ao poder e da sua própria legitimidade. De algo decisivo sobretudo numa democracia eleitoral, no sentido em que a define o V-Dem2026. Basta pensar no Brexit e na eleição do Senhor Trump. E no eficaz uso das TIC pela extrema-direita. O que nos dirá sobre este complexo assunto o IP, fazendo jus à própria sigla, como responderá a este desafio das grandes plataformas perante a sua capacidade de condicionar decisivamente o comportamento político e, consequentemente, os resultados eleitorais e a própria democracia? Em Portugal e na União Europeia?
8.
E pareceu-me até um pouco perturbadora essa vontade da CP “ir além dos caminhos já conhecidos”. Felizmente que neste Manifesto do IP se faz uma inversão de marcha em relação ao que a CP pretendia: “Não esperamos um salto em frente rumo ao desconhecido”. Maior realismo parece, portanto, existir no novo IP. Não seria, pois, necessário tanto, disse eu, na altura, pois a humanidade há séculos ou milénios que procura as melhores formas de autogoverno. Bastaria, mais prosaicamente, centrar-se num bem conhecido caminho, o da democracia representativa, e melhorá-lo, dando resposta à famosa crise da representação no quadro da democracia, fazendo-a evoluir para uma nova qualificação deliberativa. Na verdade, e ao contrário do que vulgarmente se diz, a democracia representativa ainda é muito jovem, por duas razões: a) só depois da segunda guerra mundial ela ficou garantida na sua plenitude (com a expansão do sufrágio universal, embora ainda com a limitação do bipolarismo ideológico, político e económico que se instalou com a formação dos dois blocos; por exemplo, o bloqueamento da democracia italiana durante mais de quarenta anos a isso se deve – a famosa conventio ad excludendum); b) a democracia representativa é um sistema muito exigente e difícil de alcançar porque pressupõe a plena consciência dos cidadãos em todos os planos da vida social como condição para a assunção de uma plena responsabilidade logo no acto do voto – o princípio equivale ao do imperativo categórico kantiano, que se pode ler na Fundamentação da metafísica dos Costumes: age como se a máxima da tua vontade pudesse valer sempre e ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal.
Neste aspecto, não é, pois, preciso inventar, caminhar em direcção ao desconhecido, mas somente desenvolver e aprofundar o princípio no sentido de uma autêntica democracia deliberativa, investindo na qualificação e na intervenção de uma cidadania activa no processo político.
9.
Também não vi naquele Manifesto – como não vejo neste – uma menção relativa a uma questão absolutamente decisiva, mas hoje muito esquecida pela esquerda: quais as fronteiras da acção do Estado perante uma cidadania de múltiplas pertenças e com poderosos e quase ilimitados instrumentos de informação e de intervenção no espaço público? Isto sem necessidade de reescrever, à luz do modelo social europeu, o famoso livro de Wilhelm von Humboldt sobre os limites da acção do Estado (de 1792;1851), considerado uma espécie de bíblia do liberalismo clássico (que tantos da esquerda moderada erradamente execram). Um exemplo: é inaceitável a ideia, que se tem vindo a impor sobretudo em períodos de crise, de um Estado-Caritasque se substitui ao verdadeiro Estado Social. A eficácia do Estado Social é hoje um problema a resolver politicamente, mas não através da prática esmoler, como repetidamente vem sendo praticada no nosso país (as tristemente e reiteradas famosas esmolas conjunturais aos reformados, sempre que sobram uns trocos). Depois, ligada precisamente à definição das fronteiras do Estado, está a política fiscal: quanto maiores forem as competências e a responsabilidade do Estado (tendo chegado ao absurdo de se tornar fiador de todos os que até aos 35 anos comprarem casas, provocando um aumento do seu preço em cerca de 10% num só ano) maior será a carga fiscal. A clarificação desta questão, em todos os sectores nevrálgicos da sociedade (saúde, habitação, educação), mas também no seu próprio alcance, tem, pois, implicações directas e fortes na política fiscal, como se compreende. Uma dialéctica que deveria ser de grande exigência, mas que mais parece em falência. E ainda: quem deverá pagar impostos directos? Todos (ainda que alguns só simbolicamente) ou somente uma parte (em Portugal em cerca de 5 milhões e 400 mil agregados só cerca de 3 milhões pagam IRS)? A valorização do velho princípio no representation without taxation (ou a sua inversa)? Trata-se de questões centrais da política nacional que merecem uma reflexão analítica muito clara, e à esquerda, em vez dos habituais fumos ideológicos e da retórica caritativa e esmoler. Mas a este respeito fico muito tranquilo, pois o IP não se moverá determinado por “espartilhos ideológicos”, seja lá o que for a ideologia para os responsáveis deste think tank, mas sim a partir “da evidência” e da “experiência acumulada da razão”, seja lá o que isso for para o inspirador “philosophe” e autor de Esquisse d’un tableau historique des progrès de l’esprit humain (1795), um tal Jean-Antoine-Nicolas de Caritat, marquês de Condorcet, iluminista e amigo de Turgot, de d’Alembert e de Voltaire. Um pequeno, mas muito elucidativo e visionário, extracto do “Esquisse”: “Le perfectionnement des lois, des institutions publiques, suite des progrès de ces sciences, n’a-t-il point pour effet de rapprocher, d’identifier l’intérêt commun de chaque homme avec l’intérêt commun de tous?” (Paris, 1879: II, 86: https://dn790006.ca.archive.org/0/items/esquisseduntable00cond/esquisseduntable00cond.pdf). Talvez o mais difícil desafio da esquerda seja, afinal, este: o de conseguir identificar o interesse de cada um com o interesse comum de todos, sem que um se sobreponha ao outro. Depois, o progresso baseado na razão é, para os iluministas, como o grande Condorcet, a libertação do domínio do preconceito. Mas isto, sendo muito, também é demasiadamente pouco. Mas já não é mau ver que este think tank valoriza (ao contrário de uma espécie de ideologia espontânea que campeia no PS) a tradição iluminista, que era a filosofia do liberalismo clássico, através de um seu ilustre e visionário representante. Precisamente Condorcet.
10.
Depois, e a propósito de ambos os Manifestos, também se torna necessário acabar definitivamente com os discursos nebulosos da esquerda acerca da função do mercado e da regulação? E, a ser feita, esta clarificação, ela deve ter consequências. Não se reduzir a um faz-de-conta, para boa consciência do progressismo regulador que nada regula, e que só serve para desresponsabilizar a classe política, como se vê em Portugal, com os inúteis reguladores que só servem para dar emprego aos amigos políticos. Por exemplo, no preço dos combustíveis, nos juros do capital ou nos preços das telecomunicações, onde se verificam descarados cartéis que todos fingem ignorar. De resto, o problema do mercado cruza-se directamente com a determinação das fronteiras do Estado, sendo certo que o comando administrativo da sociedade ou o Estado mínimo sempre foram combatidos pela esquerda democrática e progressista. Pois bem, compete-lhe então esclarecer onde ficam as fronteiras da intervenção do Estado e as da intervenção do mercado, acabando de vez com a política-catavento, com o Estado-Caritas e a política esmoler. Em palavras simples, cumpre definir com rigor onde começa a responsabilidade individual e onde termina a responsabilidade da comunidade, mas seguramente pondo fim a esse organicismo social desresponsabilizador do indivíduo. E eu, a este propósito, perguntei aos associados da “Causa Pública”, e pergunto agora aos associados do IP, sobre o que pensavam e pensam da frase de John Kennedy, no “Inaugural Address”, em 20.01.1961: “Ask not what your country can do for you – ask what you can do for your country”. De Condorcet a John Kennedy: como se harmoniza o interesse comum de cada ser humano com o interesse comum de todos?
11.
Na mesma linha está a questão da gestão da dívida pública. É aceitável que o Estado se ponha alegremente nas mãos dos credores internacionais (e da banca nacional), a que se junta o domínio total das três famosas agências americanas de rating (que detêm a quase totalidade do mercado mundial de rating, cerca de 95%, e que são controladas pelos especuladores), “borrifando-se”, literalmente, para os recursos financeiros derivados da poupança nacional, dos aforradores nacionais, como aconteceu recentemente com os Certificados de Aforro, ainda por cima por um governo do Partido Socialista? Que justificação se pode encontrar para a decisão do ex-ministro Fernando Medina, em 2023, proibir o aforrador singular de adquirir, através dos CA, mais de 50 mil euros de dívida pública, quando antes (e agora, também, de novo) podia adquirir 250 mil euros? Nenhuma. Ainda menos se pensarmos que 28% dos juros da poupança nacional revertem a favor do Estado (imposto sobre capitais) e que os juros acabam por ser reintroduzidos na economia nacional, ao contrário do que acontece no caso dos credores internacionais (nem uma coisa nem a outra, estando designadamente isentos de imposto). E este é, a meu ver, um ponto muito elucidativo sobre a orientação política global de um governo e de um partido. Sobretudo à esquerda. Um delicado sensor político. Um assunto muito delicado, se considerarmos a gigantesca dimensão dos juros da dívida pública, do serviço da dívida. Ser amigo do contribuinte que é, ao mesmo tempo, aforrador é coisa que, paradoxalmente, parece não estar nas cabecinhas de certos socialistas encartados. O que pensam disto os associados do IP?
12.
Outra, ainda, é a da eficácia da máquina do Estado (que não seja só para cobrar impostos e taxas) sobre a qual os governos se têm mostrado completamente ausentes, desde que não seja para punir o cidadão. Bastaria perguntar ao MAI quanto recebe por mês do seu Banco “privado”, a ANSR (no mês de Setembro de 2023, esta encaixou cerca de 7 milhões de euros de multas, não tanto para garantir a segurança rodoviária, mas sobretudo para garantir a segurança dos cofres do MAI). A eficiência do Estado, sobretudo quando estamos perante um robusto Estado Social, é um pilar essencial da democracia representativa e dos direitos dos cidadãos. Só ela pode justificar a enorme carga fiscal que pende sobre os ombros da cidadania. Não pode é ser uma espécie de Estado sniper financeiro, que se junta a um Estado cobrador, mau prestador de serviços e amigo de mãos largas dos oligopólios.
13.
Depois, a questão da mobilização da cidadania para além do quadro partidário, à semelhança do que acontece com as grandes plataformas digitais, como a MoveOn.Org. ou a Meetup, por exemplo. Nos Estados Unidos, aquela primeira plataforma foi muito importante para a eleição de Barack Obama, para a defesa do Obamacare ou para os resultados apreciáveis de Bernie Sanders nas primárias democratas. Em Itália, a plataforma Meetup (que julgo apareceu em 2003-2004 nos Estados Unidos, com Howard Dean, líder e candidato democrata) deu origem ao MoVimento5Stelle, que chegou a ser o partido maioritário em Itália, sendo hoje o terceiro partido. As insuficiências da democracia representativa e dos sistemas de partido não só se resolvem, certamente, “por dentro” como também se resolvem “por fora”, ou seja, promovendo canais de intervenção da cidadania fora do quadro tradicional da intermediação política e comunicacional. E a associação “Causa Pública” bem poderia ter tido a pretensão de se constituir como uma plataforma de pensamento e acção política complementar ao sistema de partidos. Mas para isso não deveria inibir-se de “interferir no xadrez político”, tornando-se politicamente inconsequente. Pelo contrário, uma intervenção competente poderia ter ajudado o PS a ultrapassar essas formas morbosas de endogamia e de fractura em relação à sociedade civil. Poucos meses depois de ter sido constituída dá-se a queda do governo do PS e o início do processo que haveria de levar o PSD ao poder. Não sei até que ponto essa situação contribui para a desactivação da CP, mas o que é certo é que o resultado está à vista: desapareceu sem qualquer resultado visível, precisamente quando seria mais necessária. E esta? Vai-lhe acontecer o mesmo fim? Talvez, visto o tipo de perfil (Instituto) que assume, como já tive ocasião de dizer, ou se for uma tentativa de uma ala do PS, telecomandada, pretender substituir-se ao actual grupo que dirige o partido. A ser assim, quase se poderia aplicar o velho ditado popular: “fazer (antes) o mal e (agora) a caramunha”. Em ambos os casos, tenho sérias dúvidas sobre o seu futuro. E até me parece que pode causar um forte desconforto no PS, ao evidenciar, com estrondo, a falta de iniciativa ou a insuficiência desse mesmo PS que criou um estranho Conselho Estratégico para se pensar com os olhos postos em 2050. Tentativas vai havendo, é certo, mas resultados nenhuns.
14.
E, já agora, também não teria sido descabido que, há três anos, a CP tivesse deixado registada uma palavra sobre a União Europeia e o seu futuro – por exemplo, acerca da manutenção da linha intergovernamental ou a sua constitucionalização -, hoje componente decisiva das próprias políticas nacionais dos Estados-Membros e tão importante como desejável reguladora da política internacional, cada vez mais influenciada por potências autoritárias e belicosas, onde cada vez mais o autoritarismo de Donald Trump, amigo confesso de Putin e de Kim Jong-Un, faz estragos de grandes dimensões. Mas também uma protagonista política que tem muito a fazer para se dotar de instrumentos que a autonomizem como sujeito político, e não só no plano da defesa, mas também no plano das tecnologias digitais e do rating financeiro, ambas dimensões de uma importância crucial para o futuro da União e até para salvaguarda do seu próprio sistema democrático. Preocupar-se-á, agora, o IP com estas questões e tentará influenciar, se for essa a sua vocação, o PS a ser mais interveniente e criativo nesta área da política europeia? Lembro-me bem das passeatas turísticas que algumas eurodeputadas do PS faziam, em vez de se preocuparem em promover, com o seu contributo, a qualificação política da União. Uma delas parece agora ir presidir à mesa da assembleia do novo IP.
15.
Poderia continuar, mas não é o caso, para me ater a uma dimensão equivalente à dos dois Manifestos. Outras oportunidades haverá, já com mais informação. Na verdade, a CP pouco ou nada acrescentou, a não ser a confirmação de genéricos e estereotípicos temas e da habitual linguagem politicamente correcta. E este IP? Na verdade, o que eu vi ali, na CP, foram sinais de uma orientação que mais parecia estar subordinada excessivamente a esse ambiente tóxico do politicamente correcto e seus derivados. A presença de certos personagens não dava lugar a dúvidas. Como, de resto, também neste IP. Oxalá me engane. Mas – pergunta obrigatória – o que disse o PS, há três anos, quando nasceu a CP? Nada. Manteve um prudente silêncio como se essa fosse a melhor política para fazer política? Não teria sido tarefa inútil, e nem sequer difícil, ter visto com muita atenção o perfil dos personagens que subscreveram o Manifesto e que integravam essa associação. Essa verificação fi-la, mas não quis pronunciar-me sobre eles. Fiquei-me pelas ideias, que aqui revisitei, e pelo não dito do Manifesto. O resultado é hoje conhecido. Será preciso ver de perto o que também irá acontecer com mais esta lufada de ar progressista sobre esse ambiente doutrinariamente um pouco incerto que se vive no interior do PS. O líder, José Luís Carneiro, já disse umas tímidas palavras de circunstância. Mas, como disse, há nesta iniciativa do ponto de vista da sua relação com o PS algo que me parece estranho. Pelo menos, a sobreposição do IP ao Conselho Estratégico do PS. Muito gostaria eu de ouvir algumas palavras (que não fossem de circunstância ou de pura hipocrisia política) sobre este assunto a Augusto Santos Silva, o Coordenador desse Conselho, sempre tão pronto a malhar em alguém (e não só na direita).
16.
Hoje, em 2026, perante o aparecimento deste novo think tank, o meu desafio é equivalente ao de 2023: venham daí boas propostas, estabeleçam uma relação produtiva com o PS, ajudando-o a crescer, designadamente com o Conselho Estratégico, de Santos Silva, com a Res Publica, de Silva Pereira e Vieira da Silva, e com o Instituto Jorge Sampaio, não sei de quem, para fazer o que, ao que parece, estas estruturas do PS não estão mesmo a fazer. O que se espera é que este Instituto Progresso não seja uma mera rampa de lançamento, para voos mais altos, dos seus protagonistas no partido de que são ilustres militantes, confirmando, assim, infelizmente e mais uma vez, uma tendência de que o PS se deve urgentemente livrar: ser uma enorme federação de interesses pessoais e de grupo. O partido merece melhor e o país também.
JAS@O9-2026
