Poesia

“OLÁ!”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Raízes”.
Original de minha autoria
para este poema. Fevereiro de 2019
Mag100219

“Raízes”. Jas. 02-2019

POESIA – “OLÁ!”

PEDI-TE UM DIA
Que me desses
Um “Olá!”,
Com súplica
Em magnólia
Pra romper
O teu silêncio
E sarar
Esta ferida
Que me causa
Tanta dor...

E “OLÁ!” TU ME
Disseste,
Tão rápido
Como o vento
Que me sopra
Sobre a alma
Quando cruzo
O teu olhar!

BALBUCIEI 
O teu nome
Já distante
Do “Olá!”
Sem saber
O que fazer,
Se chamar-te
Para mim
Ou para longe 
Partir...
...........
Não sabia
Que dizer!

MAS QUANDO VIREI
O rosto
Vi-te de novo
Austera,
Muito fria
E distante...
...............
Ignoravas
O passado
Que passara
Nesse instante!

JÁ MUITO LONGE
De ti
Voltei a pedir
Um “Olá!”,
Mas já não
Me respondeste...
.....................
Caíra um raio
Do céu
Que rasgou
Esse teu véu
Donde ainda
Me olharas...

E DEPOIS...
Tantos “Olás!”
Te pedi,
Tantas vezes
Te chamei,
Os poemas
Qu’escrevi
Palavras
Que derramei...
....................
Sabendo nada
De ti!

TALVEZ O VENTO
Te chame,
Talvez a flor
Te seduza,
As raízes te
Comovam
Ou o poema
Te diga
Que nunca
É tarde
Demais
Pra que no eco
Te encontre...
.................
Meu amor!
Mag100219R

“Raízes”. Detalhe.

2 thoughts on “Poesia

  1. Foi com redobrado prazer que li o poema que João de Almeida Santos (JAS) publicou hoje. Trata-se de uma meta-narrativa que coloca o leitor em presença de um jogo poético e pictórico, tal a miríade do léxico que dialoga com a ilustração (“Em magnólia/pra romper”, “Talvez a flor/Te seduza,/As raízes te/Comovam”). A par deste duplo jogo, o poema oferece ao leitor a alternância de registos lexicais sentimentais e sons suplicantes em que prevalece um amor sofrido e uma melancolia subtil. Há estrofes magistrais tal a sonoridade dos versos, com recurso a aliterações, a rimas interiores, agudas, toantes e consoantes, a versos brancos… Anotemos a riqueza sonora destes versos: “E DEPOIS…/Tantos “Olás!”/Te pedi,/Tantas vezes/Te chamei,/Os poemas/Qu’escrevi/Palavras/Que derramei…” e registemos as aliterações do t e da sibilante s, as rimas toantes na vogal i e a rima consoante e aguda “chamei/ derramei”. Estamos face a uma orquestração musical e sonora: “A sonoridade” – como escreve Tolentino Mendonça (2019, p.92) (1) citando o filósofo Jean-Luc Nancy – “tem afinal um papel decisivo não apenas na comunicação, mas também na semântica das palavras. É uma verdade: antes de serem sentido, e para chegaram a ser sentido, todas as palavras ditas tiveram de ser som”.
    Transparece na discursividade do poema um grito de alma sofrido pelo silêncio e ausência de um “tu”, interpelado continuamente… A destinatária (“PEDI-TE UM DIA/Que me desses/Um «Olá!») é como um íman que atrai sucessivamente o poeta e o encaminha para as veredas poéticas e pictóricas. Assim, ambos os registos (poético e icónico) emergem no poema com uma notável proficiência e mestria numa interpelação coloquial, familiar, enfática … (“E “OLÁ!” TU ME/Disseste,/Tão rápido/Como o vento/Que me sopra/Sobre a alma/Quando cruzo/O teu olhar!”).
    Referência.
    (1) Mendonça, T. (2019). “O que é escutar? Que coisa são as nuvens”. A Revista do “Expresso”, nº 2415, 9 de Fevereiro.

    • Que saudades já tinha dos seus comentários! Mas eu bem sei que não pode estar permanentemente de serviço, porque tem coisas mais importantes para fazer. Mas lá que me faz falta faz, Professora Maria Neves. E ainda sinto mais a falta depois de ter lido esta sua belíssima análise. Até me faz sentir mais poeta do que sou. Por isso, obrigado e obrigado. Sim, a melodia e a rítmica são essenciais nos meus poemas, chegando muitas vezes a sacrificar a semântica à musicalidade quando na parte final da composição a melodia me interpela. E, sim, também é claro que a sinestesia – que a Professora tantas vezes me tem assinalado – se tornou para mim um jogo mágico de que já não consigo abdicar, porque me sentirei mais pobre sem ele. Melancolia subtil, sim, outra vez, porque está lá um talvez (“a flor te seduza, as raízes te comovam…”) que atenua o “amor sofrido”. Perguntei ao poeta sobre a questão do poderoso íman que o atrai e ele confessou-me que sim, que é uma força quase telúrica que o atrai e o leva a escrever e a pintar, um magma incandescente nas placas tectónicas do seu ser mais profundo. E também me disse que parece ser como lava de vulcão que o ameaça de petrificação se não escrever poesia e não pintar. Corre, pois, sempre em versos coloridos em frente da lava que o atrai poderosamente e o ameaça de petrificação. Como se estivesse condenado a prisão perpétua no Monte Parnasós. E eu acredito que isso seja quase verdade. E este seu comentário ainda vai ajudar mais o poeta a manter o ritmo (e a melodia) para não petrificar. Este seu comentário é um belíssimo “Olá!” a que eu respondo com outro “Olá!”, Professora Maria Neves.

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