Poesia

TARDO A ENCONTRAR-TE

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração. “Noite”. Original de minha
autoria para este Poema. Março de 2019.
Para ouvir o Poema, pela voz do Autor:


NoiteFinal170319Pub

“Noite”. Jas. 03-2019

POEMA – “TARDO A ENCONTRAR-TE”

TARDO A ENCONTRAR-TE
Porque não sei
Como procurar-te
Levado
Por um poema...

NÃO É A VONTADE,
Mas o destino a marcar
Os passos que
Eu darei
Ou que nunca
Ousarei
Nesta estreita
Vereda
Da minha vida.

E TU SABES
Que não sei
Mas sabes por onde
Andei
E me perdi,
À procura do que
Não podia ter
Pra preservar
O que não quis
Apenas
Dentro de mim.

ATÉ QUE TE REENCONTREI
No fim de um caminho
Que já nem sei se
Trilhei
Ou se abandonei
Antes de um qualquer
Início.

ÀS VEZES ENCONTRAVA-TE.
Encontros fugazes,
Onde o teu brilho
Cegava
Por fora
E iluminava
Por dentro...
....................
E cantava-te!

MAS NÃO SEI
Se te quero
Para nunca
Te ter,
Sentir saudades
Logo ao amanhecer
Do perfume da aurora
Quando te reencontre
Na memória fresca
Dos afectos
Indefinidos...
....................
Os mais perfeitos!

SIM, DEIXO-ME IR
Nas mãos do destino,
Bem sabes,
Mas há sempre
Um súbito
Sobressalto
Quando o real
Nos atropela
Por dentro
E tudo se torna
Inóspito...
.................
Então eu tenho
Saudades de ti!

SE NÃO ME DEIXO IR
Viajo para outros
Lugares,
Tenho sempre
De viajar
À procura de mim,
Dum espelho onde
Me veja por dentro
A olhar-te
Por fora,
À espera do próximo
Sobressalto...
...................
Que nunca demora!

AH, COMO ME ESCASSEIA
Esse véu que te cobre
O rosto
Quando te quero
Pintar com palavras
E te vejo 
Nua,
Com a alma a tiritar,
À mercê dos sobressaltos
Que te marcam
Como sulcos,
Cicatrizes ásperas
Da vida.

MAS EU PROCURO-TE
Com disfarçado
E tímido
Olhar,
Perscrutando-te
A alma
Que se aninha
Em ti
Para te proteger
Do risco da beleza
Exposta
Como fractura,
Aquela que os poetas
Cantam
Quando sentem a
Liberdade
Por perto.

TALVEZ A NOITE
Te sirva de véu
E te cubra as cicatrizes
Da vida,
Luz coada pela
Penumbra
Que te amacia
A pele
Encrespada,
Te devolva como
Sonho
Acetinado
Onde te reinventarei
Como mulher
Desejada...
....................
Para além do bem
E do mal.

MAS EU NÃO SEI,
Tenho medo
Dos sobressaltos,
De ser atropelado
Na esquina de um
Inocente
Jogo sedutor
Que te cative a
Alma
Já em fuga
Para o infinito
Que se cruza
Nos nossos olhares...
....................
Intermitentes.

TARDO A ENCONTRAR-TE
No bulício dos nossos
Dias...
...................
Até que no amanhecer
De um poema
Te encontre
E te diga
Com olhar
Submisso:
Meu amor!
Mas talvez já seja
Tarde demais...

NoiteFinal1403R

 

 

 

 

2 thoughts on “Poesia

  1. Comentário da Professora Maria Neves:
    “Neste belo poema, João de Almeida Santos (JAS ) embrenha-se num dualismo algo místico e sensorial à procura de um objecto amado que o sujeito poético tarda a encontrar. A primazia do olhar que é iterativo nesta poesia marcada por encontros/reencontros ( “ATÉ QUE TE REENCONTREI/No fim de um caminho”; “ÀS VEZES ENCONTRAVA-TE/Encontros fugazes”). O tom reflexivo e melancólico emerge em todo o enunciado discursivo. Assim, a fugacidade dos encontros parece estar em sintonia com a efemeridade da vida e em linha com “afectos/Indefinidos…” e com a crença num destino (“NÃO É A VONTADE,/Mas o destino a marcar/Os passos que/Eu darei”; “SIM, DEIXO-ME IR/Nas mãos do destino”).
    É um território de dor e de ausência que habita o sujeito poético que, parodoxalmente, confidencia: “MAS NÃO SEI/Se te quero/Para nunca/Te ter.”
    A coloquialidade – à maneira garrettiana – e as marcas de oralidade criam uma empatia com o objeto amado, contaminando, emocionalmente, o leitor ao mesmo tempo que incutem à poética de JAS um timbre próprio e um confessionalismo subtil e enigmático.
    A ilustração – que acompanha o poema – com cores vivas e quentes dá o mote à leitura deste texto poético intitulado “TARDO A ENCONTRAR-TE”. A musicalidade do título, conseguida pela aliteração e pela rima interna, condiz com o labor do poeta (“ Nesta estreita/Vereda/Da minha vida”) sempre à procura do verso certo, da rima certa e da palavra certa para convocar o objecto amado, apenas através de vislumbres e de fulgurações (“ MAS EU PROCURO-TE/Com disfarçado/E tímido/Olhar,/Perscrutando-te/A alma/Que se aninha/Em ti”). O leitor, esse, já está convocado para usufruir e se deleitar – como os gregos da Antiguidade – com o encanto da poesia”.

    • João De Almeida Santos. Obrigado, Professora Maria Neves, pelas suas generosas palavras e pela atenta e empenhada leitura deste poema. “Confessionalismo subtil e enigmático” – sim, falo sempre para alguém sobre mim procurando registar as minhas ondulações anímicas sempre inscritas numa genealogia do afecto ou do amor. A subtileza e o carácter enigmático da narrativa deriva das características globais da minha poesia e da própria natureza e contexto da interlocução. Digamos que é uma escrita duplamente cifrada, na forma e na semântica. Mas também é verdade que há sempre um referente real, mesmo que reinventado. Sim, talvez seja uma escrita genealógica inscrita numa arqueologia seminal do amor. O carácter dialógico da poesia dá-lhe mais força, leveza e clareza, ao mesmo tempo que também interpela com maior acutilância o leitor. Navego por aqui. Sempre em alto mar, guiado pelos astros, numa embarcação de um só lugar e com uma ondulação que talvez não me faça naufragar. Na verdade, a arte é um extraordinário estabilizador da navegação quando a costa não está à vista. Um abraço amigo, Professora.

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