Poesia

DISSERAM-ME, UM DIA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Inscrições na Pedra”.
Original de minha autoria para este poema.
Junho de 2019.
GranitoTrab3Exp

“Inscrições na Pedra”. Jas. 06-2019

POEMA – “DISSERAM-ME, UM DIA…”

DISSERAM-ME,
Um dia, 
Que te viram
Sozinha
E melancólica, 
Sentada
Numa pedra
De granito...
...Amarelo,
Luminosa de  
Cristais,
À sombra
Duma figueira
E já nem sei,
Nem sei que mais...

DISSERAM-ME
Que foi
Lá em cima
No Monte
Sagrado,
Como se tivesses
Perdido
Uma parte de ti
E a chorasses
Em solidão,
Invocando a bela
Athena,
Essa deusa 
Que t'inspira
E te leva 
Pela mão...
 
DISSERAM, SIM,
E cantaram-te
A beleza triste,
A nostálgica
Melancolia
Espelhada
Em teu rosto,
Na turbação 
Desse dia...

E EU, ENTRISTECIDO,
Voltei
A imaginar-te
Projectada
Em mil rostos
Desenhados
A carvão,
Em flores
De cor intensa,
Bem pintadas  
A pastel,
Em planos de
Infinito
Desenhados 
No papel...

E VI-TE
A vaguear
No tempo,
Nos confins
Da memória
Com olhos
De fantasia
À procura
Da beleza
Que tens inscrita
Na alma,
De tua arte
A magia.

MAS EU VI
O mundo
Desabar
Sobre ti,
Rasgar a folha
Branca e macia
Onde desenhavas
O futuro
Com mestria,
Estilhaçando
A ténue luz
Que te alumiava
De perto,
Como por encanto,
O destino...
...................
E até a tua 
Serena alegria!

NÃO DESTE CONTA,
Bem sei,
Mas agora
Sentes-te um pouco
Às escuras,
O sol do Monte
Esgueirou-se
Para outras paisagens,
A poente,
E à noite
A lua-cheia
Da praia
Da meia-lua
Já só brilha
Intermitente...

NEM SEI COMO
Dizer-te,
Num poema
Ou num quadro,
Que a arte
Só vive
De liberdade,
Desnuda-nos
A alma toda
Como luz que nos 
Invade!

AGARRA, ENTÃO,
O vento
Que te sopra
Dentro,
Desnuda-te
E voa nele
De novo
Em direcção ao
Infinito,
Reinventa-te
Em azul
E grita ao mundo,
Lá de cima,
A arte que levas
Dentro de ti,
Grávida
Dessa beleza
Onde, nos meus poemas,
 Eu sempre, feliz, 
Renasci.

AH, COMO GOSTARIA
De voar de novo
Contigo
Agarrado a palavras
Deslaçadas
Em mil fios
Coloridos,
Cansado que estou
De voar sempre
Sozinho
Para não te perder
De vez
Nesta inóspita
Esquina
Do meu caminho...
................
Mas talvez seja
Tarde demais
Para apagar
Esta melancolia
Que me corrompe
O entardecer
De cada poema
E a sua melodia...
GranitoTrab3ExpR

“Inscrições na Pedra”. Detalhe.

1 thought on “Poesia

  1. O poema de João de Almeida Santos (JAS), intitulado “Disseram-me, um dia…”, convoca o leitor para a junção da poesia com a música. Aguiar e Silva (2002, p. 173), num dos seus textos sobre “Teoria e Metodologia Literárias”, ressalta: “Orpheu, o músico e o poeta que, com o seu canto, amansava as feras, animava as pedras, fazia mover as árvores e pacificava os homens, é o símbolo mítico desta profunda união entre as duas artes”. A música acompanhava a poesia lírica, designação esta que provém, comummente, da lira, instrumento então muito utilizado, a par da cítara e do aulos.
    Mas a poesia de JAS é igualmente – e sobretudo – uma alusão concreta à semiótica da pintura e à função da imagem. Veja-se, a título exemplificativo, a sonoridade, a musicalidade e a imagética destes versos:

    “E EU, ENTRISTECIDO,
    Voltei
    A imaginar-te
    Projectada
    Em mil rostos
    Desenhados
    A carvão,
    Em flores
    De cor intensa,
    Bem pintadas
    A pastel,
    Em planos de
    Infinito
    Desenhados
    No papel…”

    Assim, ligar a poesia de JAS à música e à pintura releva de uma opção, marcadamente estética, que, na fraseologia de Manso (2006, p.17), estimula a ”sensibilidade de cada um no sentido de se abrir ao mundo e interagir com os sons, os cheiros, as cores, as formas que o rodeiam”.

    É neste enquadramento que me apraz (re)ler os poemas de JAS. Uma poesia cheia de sons, de cores e de luz. Mas não será, como, poeticamente, expressou Eugénio de Andrade, toda a verdadeira poesia um rasgo de luz? “Toda a poesia é luminosa, até /a mais obscura. /O leitor é que tem às vezes, /em lugar do sol, nevoeiro dentro de si. /E o nevoeiro nunca deixa ver claro” (Andrade, 2007, p. 17).

    E veja-se como JAS alia, antiteticamente, a luminosidade à melancolia e à solidão da mulher amada, à sombra, nostálgica, de uma figueira:

    “DISSERAM-ME,
    Um dia,
    Que te viram
    Sozinha
    E melancólica,
    Sentada
    Numa pedra
    De granito…
    …Amarelo,
    Luminosa de
    Cristais,
    À sombra
    Duma figueira”.

    Referências
    Andrade, E. (2007). Ver Claro, Os Sulcos da Sede, Quasi. Porto: Edições e Fundação Eugénio de Andrade.
    Manso, A. (2006). Da necessidade de uma educação estética: contributo para uma nova abordagem existencial, Itinerários de Filosofia da Educação, 3, 15-23.
    Silva, V. M. de A. (2002). Teoria e Metodologia Literárias. Lisboa: Universidade Aberta.

Deixe uma Resposta para Maria Neves Gonçalves Cancelar resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s