Poesia

PALAVRAS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Geometria de um Poema”.
 Original de minha autoria.
Setembro de 2019.
Azálea31

“Geometria de um Poema”. Jas. 09-2019

POEMA  – “PALAVRAS”

PRA QUE SERVE
Este poema,
Meu amor?
“- Para nada!”,
Dizes tu,
“- São palavras
Que usas
Pra te sentires
Menos nu”.

PALAVRAS
São como vento,
Vão,
Voltam
E mudam
D’intensidade,
Sopram forte
Ou de mansinho,
São volúveis,
Ilusão,
Vão pra sul
Ou vão pra norte
Mas cruzam 
O teu destino
Mesmo que digas
Que não.

SÃO INTANGÍVEIS,
São sinais,
Podem ferir
Como espada,
Às vezes
Como silêncio,
Outras,
Pior, 
Como nada...

DIZEM SEMPRE
O que sinto,
Parecendo
Não o dizer,
Às vezes
É proibido
E outras
É por não
Querer.
E se escrevo
E te minto
É por ser forte
O desejo
De um dia
Eu te ter.

ESTE POEMA
Que te envio
Escrevi-o
Com o vento,
Mas nele
Eu também minto...
..............
E o vermelho
É cinzento!

MAS É CONFISSÃO
Inocente
Que chega
Ao seu destino
Como o Sol
Vai a poente
Num poema
Cristalino.

SÃO PALAVRAS,
Meu amor,
Murmúrios
De quem te quer,
São o sonho
Do poeta
Quando a vida
Adormece
No rosto
De uma mulher.

Azálea31Rec

“Geometria de um Poema”. Detalhe.

1 thought on “Poesia

  1. Ao ler esta poesia de João de Almeida Santos (JAS) ocorre, de imediato, ao leitor – seja pelo título seja pela tessitura semântica do texto – o belo poema de Eugénio de Andrade (1) intitulado “As Palavras” com o qual a poesia de JAS estabelece, indubitavelmente, um diálogo intertextual. Pese embora a dissimilitude de estilo e de semântica entre ambos os poetas, há, inequivocamente, similitudes em ambos os poemas intitulados de igual forma (Eugénio de Andrade optou por colocar o definido “As Palavas”, JAS optou por não colocar nenhum artigo definido, o que confere desde logo ao poema uma conotação mais abstrata e genérica). É sempre um desafio intelectual para o leitor esta descodificação. Ambos os poetas optam, discursivamente, por atribuir ao lexema palavras uma amplitude polissémica, multifacetada e intemporal, pois as palavras, no devir histórico e diacrónico, carregam, através dos tempos, histórias e segredos dos homens. No poema de JAS, que agora nos ocupa, as palavras recebem epítetos curiosos e metafóricos (“PALAVRAS / São como vento”; “SÃO INTANGÍVEIS, / São sinais, / Podem ferir / Como espada”; DIZEM/SEMPRE/O que sinto,/Parecendo/Não o dizer,” “SÃO PALAVRAS ,/ Meu amor, / Murmúrios / De quem te quer,”).
    Há um tom de inquietude e de nostalgia – se entendermos nostalgia na feliz aceção de Pedro Mexia (2), “como bondade do irrecuperável” – que atravessa esta poesia (“ESTE POEMA/Que te envio/Escrevi-o/Com o vento”).
    Parafraseando Eduardo Lourenço (3) sobre a poesia das “Odes Modernas”, de Antero, direi que JAS vaza de igual modo na sua poesia “todas as flores da ilusão, todas as esperanças que o nascer do dia oferece à alma humana”. É disto que se trata, como os versos seguintes o espelham: “São o sonho / Do poeta / Quando a vida / Adormece / No rosto / De uma mulher”).
    Direi, para concluir, que o acto criativo de JAS – em sintonia com o texto e a imagem – é uma celebração da cor, uma celebração dos sentidos e uma forma de aprofundamento do mistério de existir (para o criador e para o leitor).

    (1). Andrade, E. (2014). Poesia. Lisboa: Assírio & Alvim.
    (2) Mexia, P. (2019). Ensaio. Segunda Juventude, Revista Expresso, nº 24444, 31 de Agosto, p. 62.
    (3) Lourenço, E. (2019). Antero, Portugal como Tragédia, Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s