Poesia-Pintura

“PRESSENTIMENTO”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Travessia”.
Original de minha autoria
para este poema.
Dezembro, 2019.
Jas_Silhueta3

“Travessia”. Jas. 12-2019.

POEMA – “PRESSENTIMENTO”

MAIS UMA VEZ,
Ao entardecer,
Te pressenti,
Numa rua de Lisboa.
E não te vi.

AH, ESTA LISBOA 
Que amas!
Uma fria silhueta,
A travessia.
Um homem
Perdido em memórias
Que esfumam
No tempo
E deixam
A alma vazia.

DEUS EX MACHINA
Que desce sobre mim
No caos
Em que a vida
Se tornou,
Nos afectos
E na dor...
............
A invocar
As origens 
Do amor.

CAÍSTE-ME
NUMA ENCRUZILHADA
Improvável
Quando vinha
Da imensa planície
Onde os deuses
Se anunciam
No horizonte...

UM SÚBITO CLARÃO,
Um sobressalto...
 Estremeci.
Irrompeste,
Intempestiva,
Das brumas
Da memória...
...........
Mas apenas 
Te pressenti!

APROXIMEI-ME
Do teu mundo,
Sem saber?
Foi o destino,
Adormecido
Que estava
De nunca, 
Mas nunca 
Te ver.

ESTRANHOS
DESENCONTROS
Que desabam
Sobre nós
Com o destino
A comandar
No labirinto
Insondável
Das nossas vidas...

SILHUETA FUGIDIA,
É o que és,
Afinal,
Porque tudo é plano,
Demasiadamente
Plano, em ti.

VI UM NÚMERO,
A única certeza
Que tenho,
A janela
De onde te vislumbrei,
Mas incerto
Como todos
Os números
Deste mundo.
Incerto, sim,
Porque tu
Não és número
Que me dê
Certezas,
Para além da dor.
És mais quatro
Do que sete,
Meu amor!

OU TALVEZ TENHA SIDO
A minha fértil
Imaginação
Já um pouco doentia
A cruzar-se contigo
Num lance de
Pura magia.

MAS NEM SEI
Se é por ali
Que tu andas,
Porque de ti 
Nada sei,
Só o que me sobrou
Daquele tempo
E do tempo que criei
Para nunca te perder
Naquela história
Onde te conto
Longamente
Para em ti renascer.

QUE ESTRANHOS
Lugares de
Desencontro,
No meio da multidão!
Um instante,
Ambiente ruidoso
E improvável,
O regresso a ti,
Cada vez mais
Imaterial
Na película subtil
E transparente
Da memória...
Simulacro irreal.

AH, COMO NO FIM
Deste poema
Sofro a falta
De uns olhos verdes
A cobrirem-me a alma
De ternura,
Mas nem o sol
Se descobre
Para os acender
E me inundarem
De beleza
Da mais pura!
Jas_Silhueta3Recort

“Travessia”. Detalhe.

2 thoughts on “Poesia-Pintura

  1. Reproduzo aqui o comentário da Prof.ra Maria Neves ao Poema, que agradeço:
    (1). O leitor depara-se, neste poema, com um título particularmente feliz, “Pressentimento”, título esse que nos guia a imergir na alma do poeta e nos arquétipos do sofrimento, da tristeza e da solidão (“Ao entardecer,/Te pressenti”; “Sofro a falta/De uns olhos verdes”; “alma vazia” e “No labirinto/Insondável/Das nossas vidas…”.
    (2). É um poema com uma estrutura rítmica, rimática e estrófica semelhante a outros poemas de João de Almeida Santos (JAS), contudo, cada poema é uma (re)criação e (re)invenção da mitologia do amor. O sujeito poético recorre, no poema em análise, a dois planos dípticos, utilizando um contraponto entre o ver, o não ver, o pressentir, o rememorar, o encontro, o desencontro e a(s)memória(s)… O argumentário frásico-discursivo veicula, magistralmente, essa oscilação….
    (3). A mulher amada, descrita – na poética de JAS – sempre de forma petrarquista, como inacessível e distante (“Uma fria silhueta”; “intempestiva”, “SILHUETA FUGIDIA”), joga neste poema como leitmotiv da construção poética. A opção estilística, a selecção lexical e a carga semântica induzem uma interacção entre geografias físicas e espaços psicológicos numa contínua penetração (“Numa rua de Lisboa”; “A janela/De onde te vislumbrei”; “ Que desce sobre mim/No caos/Em que a vida/Se tornou”).
    (4). O casamento entre a pintura e a poesia é, mais uma vez, conseguido através do diálogo entre estas duas linguagens, na semiótica pictórica e poética que JAS vem trabalhando, assumindo, na tela e na poesia, um discurso amoroso, sofrido e penoso… mas que anima (no sentido etimológico da palavra, dar ânimo) o sujeito poético na senda da sublimação pela arte…

    • João De Almeida Santos. Obrigado, Prof.ra Maria Neves, pelo seu comentário. Sim, tinha de ser pressentimento, porque foi isso que o poeta teve, um pressentimento… incerto. Algo entre o real, a imaginação e o desejo, com evocações contraditórias, entre o prazer e a dor, a felicidade e a desilusão, tudo temperado com a certeza do amor. Não se trata de ficção. Aconteceu algures, em Lisboa. Um instante e um poeta sempre atento ao imprevisto, sensores poéticos activados e vontade de decantar a dor, a moinha persistente, num poema. Gostei de fazer este quadro. Evocação de Klimt e, sem querer, também de Mestre Camarinha. Quis acrescentar sensualidade ao pressentimento, o que se vê na ondulações, nas linhas curvas, mas também ancestralidade na figura da esquerda, uma velha videira (do meu jardim). Dupla silhueta também. De resto, este foi o primeiro título que me surgiu para o quadro. Uma delas a evocar Klimt. Acabei por optar por “travessia”, porque foi disso que se tratou e, de algum modo, a dinâmica do quadro julgo que também alude a isso. Desejo-lhe um feliz Natal na companhia dos seus, com um grande abraço. ☺️

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