Poesia-Pintura

INVOCAÇÃO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Casas no meu Jardim 
Encantado”. Original de minha 
autoria para este poema. 
Março de 2020. Veja a nota
no final do poema.
Casasnojardim2903Final

“Casas no meu Jardim Encantado”. Jas. 03-2020

POEMA – “INVOCAÇÃO”

QUE SINTAS
 O pulsar
Do poema
No teu peito
Para te ter
No silêncio
De uma casa
Iluminada 
Pelo brilho
Das magnólias
E da luz
Da primavera
Ao lusco-fusco
De um entardecer
...................
É o que mais
Eu desejo de ti.

SE CAÍRES EM SILÊNCIO
Profundo
Para melhor
Ouvir
O meu canto
E sentir o aroma
Das cores
Com que pinto
Para te encher
A alma
De Primavera...
...................
Ah, que feliz
Eu me sinto.

SE SENTIRES
Dentro de ti
O chamamento
Ao poema
E o ritmo do meu
Pulsar
Continuarei
A visitar
O oráculo
E a subir
À montanha
Onde a deusa
Espera
Notícias de ti.

SE O TEU SILÊNCIO
For o eco da
Minha voz,
A dança da melodia
Cantada 
Em surdina
Saberei que
Abraçaste o tempo
À medida de um
Sonho
Revelado
Onde constróis
O futuro...
...............
Reinventando o
Passado.

E SE EU SENTIR
Uma suave
Tristeza
De tanta ausência
Sofrida
E uma doce 
Nostalgia
Da luz 
Desses teus olhos 
Que m'incendeia 
O olhar
Então isso
Quer dizer
Que te amo...
...........
Com a alma
A transbordar...

MAS NÃO SEI...
................
Não sei se
Tudo será
Uma cálida
Fabulação
Pr’alimentar
A sede
Insaciável
De teu corpo
Imaginado
Num poema
Em que sonhei
Ter-te, assim, 
Tão intensamente
Amado...
Casasnojardim2903FinalRec

“Casas no meu Jardim Encantado”. Detalhe.

TALVEZ MOVIDO POR ESTE POEMA, 
tenho, nestes dias, 
frequentado, mais do que o 
habitual, as obras de Nietzsche. 
Transcrevo, pois, aqui dois 
aforismos (161 e 175) 
tirados de “Para além 
do bem e do mal", de 1886:  
1. “os poetas não têm pudor 
das suas aventuras; exploram-nas” 
– os poetas vivem as suas 
experiências íntimas como 
alimento da sua fantasia; 
2. “cada um ama o seu desejo 
e não o objecto desse desejo” – 
o que subsiste é o desejo, 
tudo reside nele e é ele 
que move montanhas.

Este poema remeteu-me para a 
necessidade de ter 
estes aforismos sempre presentes, 
tal como o aforismo 153: 
“o que se faz por amor está 
sempre para além do bem e do mal”. 

E não fosse a conversão interior 
e o desenho estético das suas 
pulsões naturais, 
para além do bem e do mal, 
a dor do poeta 
seria irremediável 
e talvez insuportável.
 
Assim, escreve, pinta 
e segue em frente, 
alheio ao (silencioso) ruído
exterior que ameaça 
perturbá-lo. 

O Nietzsche está mais perto 
da arte do que 
da filosofia. Sinto isso 
na minha própria pele. 
Eu, que não sou Zarathustra: 
“Die Liebe ist die 
Gefahr des Einsamsten” – 
“O amor é o perigo 
do mais solitário” 
(“Assim falou Zarathustra”, 
1883-85, III, Der Wanderer).
JAS#03-2020

 

2 thoughts on “Poesia-Pintura

  1. Transcrevo o comentário da Doutora Virgínia Pacheco Graça, que, muito sensibilizado, agradeço: “Já não preciso de dizer que é um poema que revela a sensibilidade extrema do sujeito poético: são todos.
    O título chama logo a atenção: uma invocação é um chamamento, invocam-se os deuses, invoca-se Deus, invoca-se aquilo de que temos urgência.
    Começo, então, por dizer que as referências a Nietzsche não são por acaso: “Para além do bem e do mal” remete-nos logo para um lugar que não é ocupado pela moral convencional, por assim dizer. É nessa base que devemos ler este poema.
    Assim, se não fosse a citação do aforismo “cada um ama o seu desejo e não o objecto do seu desejo”, tudo seria mais banal. Mas não é. Não sei se é subliminar ou, antes, transcendente, mas considero que é uma declaração de amor elevado e inefável (“MAS NÃO SEI……..Não sei se/tudo será/uma cálida/fabulação), onde os símbolos da “casa” (que vai “corporizar” o poema) e das “magnólias” (a pureza, a nobreza, a dignidade…) contribuem para a dimensão quase divina que é dada ao que é transmitido.
    Haveria muito mais a dizer… Mas, sim, o que não é dito é mais do que o que está escrito. Talvez seja isso o sublime”.

  2. Obrigado, Professora Virgínia, por este belíssimo comentário. Inspira-me Nietzsche, sim. Não tanto na filosofia quanto na arte. Invocação ou chamamento ao poema é o que o poeta quer para se realizar performativamente. E age como se o chamamento funcionasse, tivesse resposta, silenciosa, mas resposta. E urgente, sim, porque a poesia é uma urgência da alma. E se houver amor na urgência, então, também há perigo, porque o poeta é um ser solitário: “O amor é o perigo do mais solitário”. Solidão, silêncio, amor, perigo. Tudo isto está tão longe do “banáusico”, de que falava a Hannah Arendt, e tão perto do philokalein, do amor pelo belo. O que sobra, nem sequer é o poeta ou o pintor (os executores, ou a techné), mas a poesia e a pintura. Como se quem executa e quem frui se abandonassem na contemplação do belo, como partilha, cada um realizando-se, no fim, à sua maneira, esgotando-se o encontro na própria obra de arte. E tem razão: na minha poesia há mais não dito do que dito, porque só assim é possível aludir, sem ficar prisioneiro do dito. É esta a beleza e a força da poesia. As minhas melhores saudações e o meu obrigado, cara Professora.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s