Artigo

 L’AMMUCCHIATA*

PARA ONDE VAI A POLÍTICA ITALIANA?

Por João de Almeida Santos

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“Itália”, apud Bernini. Jas. 02-2021.

QUANDO VI A COMPOSIÇÃO POLÍTICA do novo governo italiano, chefiado por Mario Draghi, que tomou posse no passado Sábado, veio-me uma palavra italiana à mente: “Ammucchiata”. Ou seja, “caldeirão”, um imenso caldeirão onde cabe tudo… e fé em Deus. “Ciao”, centro-esquerda. “Arrivederci”. Agora, todos dentro e todos fora. Excepto Fratelli d’Italia (FdI), da senhora Giorgia Meloni (e alguns senadores e deputados das forças políticas que apoiam o governo Draghi). Que capitalizará, seguramente, consensos, a partir da oposição. Draghi está em alta na opinião pública italiana. E não é caso para menos, visto o seu desempenho no BCE. Por isso, conseguiu um suporte político muito amplo. E a Lega, de Salvini, e o Forza Italia, de Berlusconi, até conseguiram três Ministros cada, menos um que o Movimento5Stelle (M5S) que nas eleições legislativas de 2018 teve quase o dobro da Lega (32,7% contra 17,4”) e mais do dobro de Forza Italia (FI, 14%). Isto diz tudo. Qual Manual Cencelli,qual quê? O velho manual, que de acordo com as percentagens eleitorais atribuía cargos, calculados ao milímetro, não foi aplicado nem aos resultados eleitorais de 2018 nem à média das actuais sondagens, que invertem por completo a situação. Bem sei que é um governo que nasceu, por indicação do Presidente, fora das tradicionais fórmulas políticas (ou para usar a expressão de Draghi no seu Discurso ao Senado: um “apoio que não resulta de alquimias políticas”) , mas a verdade é que sistema de partidos saiu menorizado deste processo, na medida em que a legitimidade eleitoral não foi tomada na devida conta. A política entrou, sim, mas ficou em segunda fila. E, além disso, com a legitimidade eleitoral de certo modo suspensa. A figura cintilante de Draghi funcionou como um repentino clarão que encandeou, levando-os aparentemente fora de pista. Mas já começam a recuperar… E a criação (ontem) do “Intergruppo” M5S/PD/LeU, com o alto patrocínio de Giuseppe Conte, no Senado é já sinal claro disso, um reagrupamento político e programático do centro esquerda, para não falar de Salvini que já veio dizer que o euro não é irreversível, o que viria a merecer uma clara posição de Draghi no discurso ao Senado: “Sostenere questo governo significa condividere l’irreversibilità della scelta dell’euro”. 

A COMPOSIÇÃO POLÍTICA DO GOVERNO

O QUE SE VIU foi, todavia, uma distribuição de “poltrone” por partidos  (15, as que sobraram das 23, sendo oito, as mais importantes, ocupadas por técnicos, escolhidos por Draghi sem qualquer preocupação de representação política), mas que não respeitou minimamente a expressão eleitoral. Mesmo tratando-se de uma segunda fila. Apesar disso, todos (menos um, FdI) os partidos aceitaram aprovar a equipa ministerial em sede parlamentar. Uns, com receio de ir a votos; outros, com a lógica do entrismo: colocar-se em pole position para a próxima corrida eleitoral. Todos dentro, todos fora, sim. A política italiana no seu melhor. Uma verdadeira união nacional chefiada por um não político, um banqueiro de dimensão europeia. Uma velha tradição que começou com Carlo Azeglio Ciampi, em 1993, ainda Berlusconi estava a preparar a entrada em cena de Forza Italia. Mas como alguém dizia: agora não é para promover austeridade, mas sim para distribuir um valor financeiro (cerca de 209 mil milhões de euros:  82 mil milhões em subsídios e 127 mil milhões em empréstimos) muito superior ao que Alcide de Gasperi teve por ocasião do Plano Marshall, no imediato pós-guerra. Só para ficarmos com uma ideia mais clara: nesta operação, Itália encaixa um valor superior (aos preços de hoje) ao valor global do Plano Marshall para toda a Europa, que na altura foi de cerca de 13/14 mil milhões de dólares. Receberá 28% do total do Recovery Fund (RF), a maior soma atribuída a um país da União. Mas nem mesmo isto pacificou o M5S. E as consequências foram imediatas: a votação na Plataforma Rousseau foi de cerca de 60% a favor e de cerca de 40% contra; e, depois da formação do governo, uma fronda de militantes, deputados e senadores que não aceitaram a menorização da força que ainda é maioritária no Parlamento, o perfil do Ministério da transição ecológica, a entrada da Liga no governo e a presença de ministros berlusconianos politicamente comprometidos. E, por isso, reivindicaram, sem sucesso, uma nova votação na Plataforma Rousseau (a plataforma digital onde os militantes do M5S deliberam) sobre a confiança ao governo. A fronda envolveu uma parte consistente do M5S e pode indiciar uma eventual ruptura no Movimento, onde Beppe Grillo já deixou de ter o poder que antes tinha. De resto, nas últimas sondagens, o M5S já viu descer o seu score eleitoral para cerca de 14.8% ( a média é de oito sondagens realizadas em Janeiro e Fevereiro). Uma queda brutal desde as eleições legislativas de 4 de março de 2018.

RENZI, "IL ROTTAMATORE"

Belo, muito belo o trabalho de Matteo Renzi, o ex-líder do Partido Democrático e ex-Primeiro-Ministro. A este jovem irrequieto, conhecido como o “Il Rottamatore”, que fez cair Conte, se deve o fim do governo de centro-esquerda. Bravíssimo a dar tiros nos pés da esquerda: primeiro, com a política da “rottamazione” da velha classe dirigente do PD proveniente do PCI e da DC (mandá-la para a sucata); depois, com a fracassada tentativa de rever a constituição, que lhe custou a liderança do governo; outra vez, com a saída do PD; e, finalmente, com a formação de um pequeno partido pessoal, Italia Viva, que vale hoje cerca de três por cento.  Agora, com a queda do governo Conte II, de centro-esquerda.

Estamos, pois, perante um governo de transição que poderá ser breve. As eleições serão em 2023 (são de 5 em cinco anos), mas o novo cenário poderá vir a ser a eleição de Mario Draghi como Presidente da República logo no início de 2022, quando termina o mandato de Sergio Mattarella. Teríamos, depois, eleições e talvez um governo de extrema-direita, que neste momento (segundo as sondagens) já tem os números suficientes para isso (Lega+FdI+FI = 47%) e a legitimidade reforçada pela entrada no governo Draghi (de unidade nacional). A eventual perda de votos dos descontentes poderia ser compensada por uma subida de Fratelli d’Italia, único partido na oposição e com as mãos livres. Um partido que, em pouco tempo, passou do seu habitual score eleitoral de 4/5% (4,3%, nas legislativas de 2018)  para 16,27% nas últimas sondagens (média de 8 sondagens realizadas entre Janeiro e Fevereiro).

Ao ver o que se está a passar, e não obstante a crise sanitária, a crise económica e a chegada do Recovery Fund (RF), factores a ter realmente em conta, fica-se com a sensação de que o sistema de partidos está em grave perda. Draghi fica à prova num desafio difícil, sobretudo na frente sanitária e na frente económica e do emprego . E se, no arco de um ano, se impuser, com a sua equipa especial de oito ministros, aos partidos políticos está criado o ambiente para uma fase de ulterior irrelevância da política tradicional e sobretudo do sistema de partidos. Estamos, pois, perante um momento politicamente muito delicado, mas de onde emergem algumas certezas.

UM SEMICESARISMO DEMOCRÁTICO

Assim, também em Itália se completa uma crise que indicia a clara degenerescência dos sistemas de partidos e de uma certa forma de fazer política. A extrema fragmentação do sistema de partidos, sua consequência, ainda piora as coisas. Mas esta fragmentação é o que tem vindo a acontecer por essa Europa fora, em razão da crise da representação e da crescente divergência entre a eficácia e a legitimidade da governação e a natureza da nova cidadania. Uma divergência que tem vindo a acentuar-se devido, por um lado, à endogamia partidária e, por outro, a uma mudança profunda na identidade da cidadania, hoje com instrumentos de informação e de auto-organização muito poderosos e eficazes. E a solução encontrada em Itália parece confirmar a incapacidade de os partidos políticos assumirem as responsabilidades precisamente num momento de crise tão grave como este. Bom, mas sabemos que é precisamente nestes momentos de crise que tradicionalmente surgem as soluções cesarísticas, tal como foi  também em período de crise ou de anomia que os romanos inventaram a ditadura boa, um período curto e de poderes excepcionais a um ditador para resolução da anomia, sem alteração da ordem constitucional.  “Il dittatore benevolo” de que, glosando o título do livro de Jean-Paul Fitoussi, de 2003, falava Gad Lerner no artigo do passado Domingo em “Il Fatto Quotidiano”? É precisamente nisso que penso quando vejo tanta unanimidade em torno do Super Mario, a quem foi confiada a autonomia para nomear livremente (isto é, sem preocupações de pertença política) oito dos vinte e três ministros. Mas não, não creio que a verdadeira novidade a ser evidenciada seja Draghi e as suas qualidades (que as tem). A novidade está neste semicesarismo “benevolo” que parece ter sido adoptado, uma hiperpersonalização do sistema político: de um lado, um Hiperpresidente (do Conselho), do outro lado, um hiperconsenso. E, no centro, duas gravíssimas crises, sanitária e económico-finaceira, que serão combatidas pelo Hiperpresidente e seus comissários com a potentíssima arma do Recovery Fund. Entre o Hiperpresidente e o hiperconsenso fica, pois, um imenso terreno de culto onde irromperá, por um lado, uma aguerrida corrida aos fundos e, por ouro lado, a perfídia palaciana e a propaganda pública com vista às próximas eleições legislativas, onde, de resto, uma das variáveis poderá ser precisamente a da chegada de Draghi, em 2022, ao Quirinal.

CONCLUSÃO

Em boa verdade, este governo, apesar das pastas da transição ecológica (a que, por exigência da UE, serão destinados pelo menos 37% do RF)  e da inovação tecnológica e transição digital (que terá, pelo menos, 20% do RF), tem três missões fundamentais: a de resolver a crise sanitária e a crise económico-financeira e a de aplicar os fundos do Recovery Fund. Um governo, pois, de missão difícil e delicada, mas limitada, pese embora a declaração de Draghi sobre as três reformas prioritárias, declaradas no seu discurso: administração pública, justiça e política fiscal. De resto, os anos decisivos serão precisamente os de 2021 e 2022, a que deverá corresponder, creio, a aplicação de cerca de 70% dos fundos. E por isso o que neste momento se passa em Itália deverá ser visto com olhar posto em 2022 e em futuras eleições legislativas. Ninguém (excepto Giorgia Meloni) quis ficar de fora num período que vai ter um financiamento muito superior ao que foi o Plano Marshall para Itália e até superior ao que foi destinado a toda a Europa. É muito dinheiro em jogo. E estar no governo significa participar nas decisões e ter acesso directo a quem vai gerir mais directamente todo este dinheiro. Mas ao mesmo tempo significa estar fora para afirmar publicamente a sua própria visão política. Ética da responsabilidade no governo, ética da convicção cá fora. Todos dentro para gerir o Recovery Fund; todos fora para preparar a próxima competição eleitoral. De resto, se Draghi se comportar bem até já existe uma compensação, a Presidência da República, em eleição por colégio eleitoral, composto maioritariamente pelo Senado e pela Câmara dos Deputados. E se as tendências eleitorais se mantiverem será Presidente num mandato governativo de extrema-direita. A súbita conversão europeia, embora já com o ziguezague do euro (prontamente recusado por Draghi), de Salvini é isso mesmo que já indicia. Dove vai, Italia mia?

* 19.02.2021 - NOTA DE ACTUALIZAÇÃO DEPOIS DO VOTO NO 
SENADO E NA CÂMARA DOS DEPUTADOS

“L’AMMUCCHIATA” 

COMO SE PREVIA, o governo Draghi passou no Senado. Aqui, e como previsto, “Fratelli d’Italia” votou contra em bloco e houve 15 Senadores do “Movimento5Stelle” (M5S) que votaram contra e mais alguns (8) que não responderam à chamada, tendo sido contabilizados como ausentes. Draghi não conseguiu assim atingir a votação de Monti em 2011, porque se ficou pelos 262 Senadores, tendo registado 40 votos contra e 2 abstenções. Monti tivera 281 (o CdS diz 285) votos (e só 25 votos contra). O total dos Senadores é 315, tendo votado 304. Começa, assim, a esboroar-se a unanimidade inicial. Note-se que, ao princípio, estava previsto que Fratelli d’Italia se iria abster. 

Na votação da Câmara dos Deputados o Governo passou com 535 votos (em 630), 56 contra e 5 abstenções, tendo também aqui ficado aquém do resultado obtido por Monti (556 votos). Em relação ao M5S: 16 votos contra, 4 abstenções e 12 ausências – num total de 32 deputados que não deram o seu apoio ao governo. Repete-se o cenário do Senado. Entretanto, foram já expulsos do Movimento os 15 Senadores do M5S que votaram contra; e expulsos do Grupo parlamentar na Câmara dos Deputados 21 Deputados. O assunto deveras ser apreciado pelo órgão próprio para tal: “Collegio dei Probiviri”.

Ou seja, haverá dois grupos parlamentares (na Câmara dos Deputados e no Senado) na oposição: os dois grupos saídos do M5S e os dois grupos do Fratelli d’Italia. De algum modo, é possível dizer que a quase unanimidade inicial, quando o nome de Mario Draghi foi anunciado, se tem vindo progressivamente a esboroar. O que virá, pois, a seguir? O próprio “Intergruppo”, constituído há três dias, já está a ser posto em causa. Três deputados da Lega passaram-se para FdI.

Mesmo assim, a situação de emergência que Itália vive garante a Mario Draghi cerca de 90% de apoio parlamentar (ambas as Câmaras).

Eu creio que Draghi fará uma gestão prudente da sua governação até à eleição do Presidente da República no início de 2022 de modo a manter compacta a unidade das forças que apoiam o seu governo. Não parece ser muito difícil imaginar que uma sua candidatura poderá vir a conseguir concretizar os mesmos apoios de que ontem passou a dispor. À direita, convirá a sua candidatura, na esperança de ter eleições a curto prazo. O centro-esquerda dificilmente poderá negar-lhe o apoio.

O que será conveniente é que a sua gestão não seja tão prudente que acabe por fazer o que ele próprio condenou no seu Discurso ao Senado: “Il tempo del potere può essere sprecato anche nella sola preoccupazione di conservarlo”. 

O certo é que o seu programa é mais do que um programa para a legislatura. Os desafios enunciados são muitos – e no centro dos desafios estratégicos está a questão do clima -, para além do delicado problema da pandemia e dos efeitos que teve e está a ter sobre a economia, sobre o emprego (os despedimentos estão por enquanto bloqueados) e sobre todos os processos que estavam em velocidade de cruzeiro antes da pandemia, que estão a sofrer atrasos consideráveis e para os quais é preciso proceder a um urgente “smaltimento dell’arretrato accumulato”, como disse. Quanto ao Recovery Fund, o PNRR, manterá o desenho estratégico formulado pelo governo Conte: 

“l’innovazione, la digitalizzazione, la competitività e la cultura; la transizione ecologica; le infrastrutture per la mobilità sostenibile; la formazione e la ricerca; l’equità sociale, di genere, generazionale e territoriale; la salute e la relativa filiera produtiva”.

A dimensão estratégica do programa será, entretanto, reforçada,

“in particolare con riguardo agli obiettivi riguardanti la produzione di energia da fonti rinnovabili, l’inquinamento dell’aria e delle acque, la rete ferroviaria veloce, le reti di distribuzione dell’energia per i veicoli a propulsione elettrica, la produzione e distribuzione di idrogeno, la digitalizzazione, la banda larga e le reti di comunicazione 5G”.

No essencial, a questão do ambiente. Aspecto também importante do programa será o impulso a dar à promoção do emprego, além da reforma fiscal, da justiça e da administração pública. Fundamentais, como já disse, é a transição ecológica, com o olhar posto em 2050 e na meta da União de chegar à emissão zero de CO2 e de gases que alteram o clima, a inovação tecnológica e a transição digital. Como ele próprio disse: “Vogliamo lasciare un buon pianeta, non solo una buona moneta”.

Testo in italiano

L’AMMUCCHIATA

Dove va la politica italiana?

Di João de Almeida Santos

QUANDO HO VISTO LA COMPOSIZIONE POLITICA del nuovo governo italiano, guidato da Mario Draghi, insediato sabato scorso, mi è venuta in mente una parola italiana: “Ammucchiata”. In altre parole: “calderone”, un enorme calderone dove c’è di tutto … e fede in Dio. “Ciao”, centro-sinistra. “Arrivederci”. Ora, tutti dentro e tutti fuori. Tranne Fratelli d’Italia (FdI), della signora Giorgia Meloni (e di alcuni senatori e deputati delle forze politiche che sostengono il governo Draghi). Che, all’opposizione, potrà capitalizzare sicuramente i consensi. Draghi è in ascesa nell’opinione pubblica italiana. E non è cosa da poco, vista la sua performance alla BCE. Quindi ha ottenuto un ampio sostegno politico. E la Lega, di Salvini, e Forza Italia, di Berlusconi, hanno ottenuto addirittura tre Ministri ciascuna, meno uno del Movimento5Stelle (M5S), che alle elezioni politiche del 2018 aveva quasi il doppio della Lega (32,7% contro 17,4%) e più del doppio di Forza Italia (FI, 14%). Tutto qui. Buttato via il Manuale Cencelli. Il vecchio manuale, che secondo le percentuali elettorali venivano assegnate le poltrone, calcolate al millimetro, non è stato applicato né ai risultati elettorali del 2018 né alla media dei sondaggi attuali, che ribaltano completamente la situazione. So bene che si tratta di un governo che non nasce, su indicazione del Presidente, da formule politiche tradizionali (o, per usare l’espressione di Draghi nel Discorso al Senato: “un sostegno che non poggia su alchimie politiche”), ma è pur vero che il sistema dei partiti ne è uscito indebolito, perché non è stata rispettata la legittimità elettorale nelle dovute proporzioni. La politica è comparsa, ma in seconda fila. E, inoltre, con la legittimità elettorale in qualche modo sospesa. La figura scintillante di Draghi agì come un lampo improvviso che abbagliò tutti, portandoli apparentemente fuori strada. Ma stanno già cominciando a riprendersi.  La creazione (ieri) dell ‘“Intergruppo” M5S / PD / LeU, con l’alto patrocinio di Giuseppe Conte, in Senato ne è già un segno evidente, un raggruppamento politico e programmatico del centro-sinistra. Per non riferire le parole di Salvini dicendo che l’euro non è irreversibile, ciò che ha meritato una posizione di netto rifiuto da Draghi nel suo discorso di oggi al Senato: “Sostenere questo Governo significa condividere l’irreversibilità della scelta dell’euro “.

LA COMPOSIZIONE POLITICA DEL GOVERNO

QUELLO CHE ABBIAMO VISTO, invece, è stata una distribuzione di poltrone ai partiti (15, quelle rimaste su 23, otto delle quali, le più importanti, occupate da tecnici, scelti da Draghi senza alcuna preoccupazione di rappresentanza politica), ma che non ha preso in considerazione l’espressione elettorale, “l’alchimia politica”, si direbbe. Anche se riguarda una seconda fila. Nonostante ciò, tutti i partiti (tranne uno, FdI) hanno deciso di approvare la squadra ministeriale in sede parlamentare. Alcuni perché hanno avuto paura di andare a elezioni; altri, con la logica dell’entrismo: mettersi in pole position per la prossima competizione elettorale. Tutto dentro, tutto fuori, sì. La politica italiana al suo meglio. Una vera unione nazionale guidata da un non-politico, un banchiere di dimensione europea. Una vecchia tradizione iniziata con Carlo Azeglio Ciampi, nel 1993, ancora Berlusconi preparava la scesa in campo di Forza Italia. Ma come qualcuno ha detto: ora non si tratta di promuovere l’austerità, ma di distribuire un valore finanziario (circa 209 miliardi di euro: 82 miliardi di sussidi e 127 miliardi di prestiti) molto superiore a quello che Alcide de Gasperi aveva in occasione del Piano Marshall, nell’immediato dopoguerra. Tanto per avere un’idea più chiara: in questa operazione l’Italia riceve un valore superiore (ai prezzi odierni) al valore globale del Piano Marshall per l’intera Europa, che all’epoca era di circa 13/14 miliardi di dollari. Riceverà il 28% del totale del Recovery Fund (RF), la somma più alta attribuita ad un paese dell’Unione. Ma neanche questo ha pacificato il M5S. E le conseguenze sono state immediate: il voto sulla piattaforma Rousseau è stato di circa il 60% per il sostegno al governo e circa il 40% contro; e, dopo la formazione del governo, una fronda di militanti, deputati e senatori che non hanno accettato la subalternità di uma forza che è ancora maggioritaria in Parlamento, il profilo del ministero della transizione ecologica, l’ingresso della Lega nel governo e la presenza di ministri berlusconiani politicamente impegnati. E così hanno chiesto, senza successo, un nuovo voto sulla piattaforma Rousseau (la piattaforma digitale su cui deliberano gli attivisti del M5S) sulla fiducia al governo. La fronda ha coinvolto una parte consistente del M5S e potrebbe indicare una possibile rottura del Movimento, dove Beppe Grillo non ha più il potere che aveva una volta. Inoltre, negli ultimi sondaggi, il M5S ha visto il suo score elettorale scendere al 14,8% (la media di otto sondaggi condotti a gennaio e febbraio). Un calo brutale dalle elezioni legislative del 4 marzo 2018.

RENZI, "IL ROTTAMATORE"

Bella, bellissima l’opera di Matteo Renzi, l’ex leader del Pd e ex-Presidente del Consiglio. A questo quarantenne (ne ha 46), detto “Il Rottamatore”, si deve la fine del governo di centro-sinistra. Bravissimo a dare la zappa sui piedi della sinistra: primo, con la politica di “rottamazione” della vecchia classe dirigente del PD originaria dal PCI e dalla DC; poi, con il fallito tentativo di revisione della costituzione, che gli è costato la leadership del governo; ancora, con l’uscita dal PD; e, infine, con la formazione di un piccolo partito personale, Italia Viva, che oggi vale circa il tre per cento. E, adesso, come detto, con la caduta del governo Conte II, di centro-sinistra. Siamo quindi di fronte ad un governo di transizione che potrebbe essere breve. Le elezioni si terranno nel 2023 (sono ogni cinque anni), ma il nuovo scenario potrebbe essere l’elezione di Mario Draghi a Presidente della Repubblica all’inizio del 2022, quando scadrà il mandato di Sergio Mattarella. Avremmo, in questo caso, quindi le elezioni e forse un governo di estrema-destra, che al momento (secondo i sondaggi) ha già numeri sufficienti (Lega + FdI + FI = 47%) e la legittimità rinforzata dall’ingresso nel governo Draghi (di unità nazionale). L’eventuale perdita di voti degli scontenti potrebbe essere compensata da una crescita di Fratelli d’Italia, unico partito all’opposizione e libero da vincoli. Un partito che è passato dal consueto score elettorale del 4/5% (4,3%, nelle legislature del 2018) al 16,27% negli ultimi sondaggi  (media di 8 sondaggi svoltosi tra gennaio e febbraio).

Guardando cosa sta succedendo, e nonostante la crisi sanitaria, la crisi economica e l’arrivo del Recovery Fund (RF), fattori da tenere davvero in considerazione, si ha la sensazione che il sistema partitico sia in grave perdita. Draghi è messo alla prova in una sfida difficile, soprattutto sul fronte sanitario e sul fronte economico e occupazionale. E se, entro un anno, si impone, con la sua squadra speciale di otto ministri, ai partiti, si crea l’ambiente per una fase di ulteriore irrilevanza della politica tradizionale e soprattutto del sistema partitico. Siamo, dunque, di fronte a un momento politicamente molto delicato, ma dal quale emergono certe certezze.

UN SEMICESARISMO DEMOCRATICO

Così, anche in Italia avviene una crisi dei sistemi partitici e rispettiva prassi politica. L’estrema frammentazione del sistema partitico, conseguenza di suddetta crisi, peggiora le cose. Ma questa frammentazione sta accadendo in tutta Europa, a causa della crisi della rappresentanza e della crescente divergenza tra l’efficacia e la legittimità della governance e la natura della nuova cittadinanza. Una divergenza che si è accentuata a causa, da un lato, dell’endogamia partitica e, dall’altro, di una profonda mutazione dell’identità della cittadinanza, oggi con strumenti di informazione e auto-organizzazione molto potenti ed efficaci. E la soluzione trovata in Italia sembra confermare l’incapacità dei partiti politici di assumersi le proprie responsabilità proprio in un momento di crisi così grave. Ebbene, ma sappiamo che è proprio in questi momenti di crisi che tradizionalmente emergono soluzioni cesaristiche, così come fu anche in un periodo di crisi o anomia che i romani inventarono la dittatura buona, un periodo breve e un dittatore con poteri eccezionali per risolvere l’anomia, senza modificare l’ordine costituzionale. “Il dittatore benevolo” di cui, glossando il titolo del libro di Jean-Paul Fitoussi, del 2003, Gad Lerner ha parlato nell’articolo di domenica scorsa su “Il Fatto Quotidiano”? Proprio a questo penso quando vedo tanta unanimità attorno a Super Mario, a cui è stato affidato il compito di nominare liberamente (cioè senza preoccupazioni di appartenenza politica) otto dei ventitré ministri. E invece no, non credo che la vera novità da sottolineare sia Draghi e le sue qualità (che ne possiede). La novità risiede in questo semicesarismo “benevolo” che sembra essere stato adottato, un’iperpersonalizzazione del sistema politico: da un lato, un Iperpresidente (del Consiglio), dall’altro, un iperconsenso. E, al centro, due crisi gravissime, sanitaria ed economico-finanziaria, che saranno combattute dall’Iperpresidente e dai suoi commissari con la potentissima arma del Recovery Fund. Tra l’Iperpresidente e l’iperconsenso c’è dunque un immenso territorio dove, da un lato, partirà una dura corsa ai fondi e, dall’altro, la perfidia del palazzo e la propaganda pubblica in vista delle prossime elezioni politiche, dove, peraltro, una delle variabili potrebbe essere proprio l’arrivo di Draghi, nel 2022, al Quirinale.

CONCLUSIONE

Infatti, questo governo, nonostante i portafogli della transizione ecologica (a cui, su richiesta dell’UE, verrà assegnato almeno il 37% del RF) e dell’innovazione tecnologica e della transizione digitale (che avrà almeno il 20% del RF) , ha tre missioni fondamentali: quella di risolvere la crisi sanitaria e la crisi economico-finanziaria e quella di applicare i fondi del Recovery Fund. Un governo, quindi, con una missione difficile e delicata, ma limitata, nonostante la dichiarazione di Draghi sulle tre riforme prioritarie, dichiarate nel suo intervento: pubblica amministrazione, giustizia e politica fiscale. Inoltre, gli anni decisivi saranno proprio quelli del 2021 e del 2022, nei quali dovrebbe, credo, occorrere l’applicazione di circa il 70% dei fondi. Ecco perché quello che sta accadendo in Italia in questo momento dovrebbe essere visto guardando al 2022 e alle future elezioni politiche. Nessuno (tranne Giorgia Meloni) ha voluto essere escluso in un periodo che avrà un finanziamento molto più alto di quello del Piano Marshall per l’Italia e addirittura superiore a quanto fu globalmente destinato a tutta l’Europa. Sono in gioco molti soldi. Ed essere al governo significa partecipare alle decisioni e avere accesso diretto a coloro che gestiranno direttamente tutti questi soldi. Ma allo stesso tempo significa voler affermare pubblicamente la propria visione politica. Etica della responsabilità nel governo, etica della convinzione davanti agli elettori. Tutti all’interno per gestire il Recovery Fund; tutti fuori per prepararsi per la prossima gara elettorale. Inoltre, se Draghi si comporterà bene, c’è già un premio: la Presidenza della Repubblica (eletta da un collegio elettorale, composto soprattutto dal Senato e dalla Camera dei Deputati). E, se le tendenze elettorali si manterranno, sarà Presidente in un mandato governativo di estrema-destra. L’improvvisa conversione europea di Salvini, seppur con lo zig zag dell’euro (prontamente rifiutato da Draghi), indica proprio che è a questo che già sta pensando, a breve termine. Dove vai, Italia mia?

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“Itália”. Detalhe.

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