Artigo

OS REVISIONISTAS E OS SEUS INIMIGOS

João de Almeida Santos

PadrãoDosDescobr

“Corte Epistemológico Pós-Colonial”. Jas. 02.2021.

ANDAM ESTRANHAS as agendas pública e política. Em tempo de pandemia, e apesar das enchentes diárias de notícias alarmistas e de desperdício informativo nos telejornais, no prime time, que não há algeroz que as escoe definitivamente, o que se vê, além disso, são temas sem interesse público digno de registo e folclore ideológico a ocuparem o topo da agenda. O imenso lamaçal do revisionismo histórico, levado às costas sobretudo pelos talibãs do politicamente correcto e pelos profissionais de causas fracturantes, num tempo em que a gravidade do presente dificulta o olhar sobre o futuro, mas no qual a política e a ideologia tablóide dão o melhor de si, propondo uma limpeza ético-política da nossa história que nem em D. Afonso Henriques acabará, não dará bons resultados se não fizermos, nós, a cidadania, uma inversão de marcha.

O QUE SE VÊ

VÊ-SE O DEBATE INFLAMADO sobre heróis da guerra colonial, falando de uns (fracturantes) e esquecendo outros (não fracturantes), trazendo ao topo da agenda o tema do ódio racial – mate-se o homem branco colonialista, assassino e racista que existe em cada um de nós, desde tempos imemoriais -, num país que convivia tranquilo com o bom e o mau da sua história passada e que já estava a confiar os juízos sobre o passado aos historiadores, em espelho mais ou menos fiel e desapaixonado, onde cada um de nós serenamente poderá sempre rever o nosso passado colectivo. Vê-se pretensos académicos a catarem academicamente o racismo nas obras-primas da literatura portuguesa de há dois séculos (onde se vislumbra “uma descomunal admiração pela brancura” ou crises “de melancolia negra”) e outros que, inadvertidamente (por enquanto), mas por imperativo de coerência lógica, acabarão mandar derrubar esse pecaminoso (mas não por causa do Canto IX) cântico aos descobrimentos que tem por nome “Os Lusíadas”, esses colonialistas. Vê-se gente a considerar o colonialismo mais mortífero do que o antissemitismo germânico, numa lúgubre contagem de milhões de mortos com a lente da doutrina pós-colonial, quando a querer fazer contagens bem podia mais facilmente somar as vítimas das duas grandes guerras e constatar que só aí houve (na Europa, do Atlântico aos Urais) mais de 60 milhões de mortos, pondo, assim, o holocausto no devido lugar, em vez de desta forma o branquear, ainda por cima invocando vizinhança académica com a Vice-Presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris. Vê-se gente que quanto mais fala de colonialismo menos informação nos dá sobre a actual cartografia política descolonizada de África ou da América Latina de hoje. Vê-se gente a questionar se os portugueses foram vítimas ou cúmplices da polícia política do regime do Estado Novo, sem cuidar de não generalizar, logo no título, que indicia uma imensa ignorância e simplismo -, desrespeitando os tantos que activamente ou em silêncio sofrido execraram este regime e, em geral, a generalidade dos portugueses. Vê-se gente – que ainda por cima representa a Nação – a clamar por um corte epistemológico que não teria acontecido, com sangue e mortos, mas que, na verdade, aconteceu, e da melhor maneira possível, ao passarmos de uma ditadura para um regime livre e democrático e para o fim da guerra colonial. Vê-se gente a clamar pela destruição de monumentos históricos em nome da sua visão clínica da história e da sua epistemologia caseira, até que numa progressão lógica acabe por abjurar “Os Lusiadas”, qual cântico ao pecado original que estaria na origem do colonialismo. Vê-se gente a usar o ofício de jornalista para promover e publicar aterradoras agendas doutrinárias inquisitoriais mais próprias de um procurador-geral ao estilo de Vichinsky e de uma visão policial da linguagem publicamente expressa do que de um jornalismo são, imparcial, objectivo e neutral, que deixa que seja o cidadão a avaliar a informação e não a encharcá-lo com idiossincrasias e agendas militantes pouco jornalísticas, fazendo da profissão um autêntico púlpito militante de causas idiossincráticas.

POLÍTICA

MAS VÊ-SE MAIS. Vê-se a repetição da saga das freguesias com teimosos protagonistas a quererem repor o que, com enorme esforço e respeitando as regras da democracia, foi alterado há anos, esquecendo que o verdadeiro problema são os concelhos a mais (há-os com menos de 3 mil eleitores), as competências das freguesias a menos e, sobretudo, a desorganização político-administrativa do país com distritos que na prática já não existem (sobrepostos ainda às CIMs) ou com CCDRs a substituírem as regiões com legitimidade mitigada por um esquisito processo eleitoral ou, ainda, com um ordenamento jurídico do sistema de governo local hoje totalmente inadequado e até nocivo. Vê-se a tentativa, um pouco às escondidas, de liquidar por via legislativa os movimentos autárquicos não partidários depois da sua forte afirmação política nas últimas eleições. Vê-se isto e também se vê telejornais e jornais a promoveram agendamentos absurdos ao mesmo tempo que gritam impropérios contra as redes sociais, acusando-as de fazerem o mesmo que eles há muito andam a fazer… e agora cada vez mais. Vê-se um ministro a fazer de Thomas Morus da Locomoção, desenhando futuros mais do fruto da sua imaginação do que da realidade em vez de anunciar medidas para resolver os problemas ambientais do momento.

Vê-se tudo isto e apetece dar combate, não perdendo tempo a refutar a estupidez e a alarvidade intelectual, mas sim, a fazer propostas que sirvam ao País. O que pode, à escala individual, ser feito de muitas maneiras, mas não para impor temas e soluções que realmente só servem para pôr na agenda pública os seus autores – servindo meros interesses pessoais -, ainda que pelas piores razões.

QUE FAZER?

ESTA SITUAÇÃO É PREOCUPANTE pelas reacções que suscita no plano político, porque traz para a boca de cena temas onde a extrema-direita se sente mais à vontade para se afirmar politicamente, para expor e defender a sua narrativa, explorando o sentimento de cansaço e de irritação das pessoas perante tanta falta de bom senso ou até de perigosa deriva pelo domínio público e até já institucional das agendas fracturantes e do radicalismo ideológico e linguístico sobre a sociedade. Como se sabe, os extremos atraem-se e a lógica de confronto destes extremos é a lógica amigo-inimigo, a lógica da guerra e da aniquilação do adversário, seja física ou seja mental ou psicológica. Poder-se-ia dizer que o melhor é deixá-los a falar sozinhos, porque assim não se corre o risco de amplificar as suas lamentáveis vozes. Infelizmente não é assim. E não é assim, porque os meios de comunicação, na sua ânsia de alargar as audiências, albergam tudo o que possa ser, de um modo ou do outro, fracturante e negativo. Não é, pois, possível, não ir à luta para impedir que o radicalismo alastre e se torne mesmo perigoso, acabando por animar soluções que não são amigas da democracia. E um dos modos de agir consiste em interpelar, por exemplo, através das redes sociais, os media, convidando-os a que desempenhem a sua função com dignidade, respeitando os códigos éticos que eles próprios adoptaram ou os que foram adoptados por instituições supranacionais, como por exemplo o Conselho da Europa, na sua resolução 1003, de 1993, sobre a Ética do Jornalismo. Os media ainda continuam a ter, de facto, capacidade de influenciar, directa ou indirectamente, quer a agenda pública quer a agenda política. Pois bem, que informem e publiquem no quadro de pelo menos três dos princípios fundamentais dos principais códigos éticos, existentes desde o fim do século XVII: a imparcialidade, a objectividade e a relevância. Combinados, estes três princípios promovem uma boa informação, uma boa agenda pública e uma boa agenda política.  É por isso que, queiram ou não queiram os autores do artigo de autodefesa “Em defesa da democracia”, subscrevo e me associo aos promotores da “Carta aberta às televisões generalistas nacionais” que foi publicada pelo jornal “Público” na passada terça-feira, solicitando precisamente respeito pelos princípios éticos, de resto, constantes da quase totalidade dos inúmeros códigos éticos adoptados pelos media ou pelas instituições e organismos internacionais. Ao ler aquele artigo fiquei com a sensação de que nenhum dos seus subscritores, dirigentes da RTP, deve ter visto um telejornal do princípio até ao fim ou, se viu, fica claro, ao não reconhecer a evidência, que é inadequado para a função e para a missão de serviço público que lhe está confiada.

Mas eu, subscrevendo na íntegra o documento, iria mais longe criticamente: o tabloidismo galopante dos media – em particular o das televisões generalistas – é gravemente nocivo para a cidadania, não só porque não dá relevo ao que é verdadeiramente relevante, porque promove sobretudo o negativo e o disruptivo, ou seja, tudo aquilo que tem mais força de atracção do público. É por isso que, regularmente, leva ao topo da agenda temas que não respondem ao interesse dos cidadãos nem, em geral, ao do próprio país, provocando graves distorções na polarização da atenção social e inquinando a opinião pública. O que se vê com frequência é que os mesmos que atacam as redes sociais por albergarem desinformação e fake news promovem, eles próprios, agendas inaceitáveis que vão do catastrofismo, do alarmismo social e do culto do negativo até protagonistas e temáticas que na verdade não só não colam com a realidade como produzem efeitos de polarização da atenção social desviantes e prejudiciais para o que realmente interessa à cidadania. Os telejornais de prime time de todas (incluindo a pública) televisões generalistas têm feito mais pela promoção de depressão nacional do que pela boa informação e pela boa deliberação pública. E, não, essa história de que “good news, no news” não me convence, até porque não há razão plausível para que a informação só seja boa se for negativa. Por mais que isso custe aos “defensores da democracia” do confortável ambiente da RTP, televisão pública.

CONCLUSÃO

Não nos bastava a COVID19 e a tremenda crise económica que lhe está e estará associada. Não nos bastam os desafios que temos pela frente para responder com eficácia e inteligência a esta mudança epocal que está a acontecer nas nossas vidas e que toca todas as dimensões da existência individual e societária. Não nos bastava ter que responder aos desafios que vêem o establishment político entrar em grave crise perante o avanço de soluções, clássicas e novas, não democráticas um pouco por todo o mundo. Não, não nos bastava tudo isto. Isto, que requer muitos, intensos e inovadores recursos para responder aos desafios do presente e para construir o futuro à medida das nossas necessidades e das nossas ambições. Não, não bastava e, por isso, temos de dar palco às mais abstrusas intervenções de personagens de opereta que querem os seus cinco minutos de fama, exibindo-se vaidosamente no espaço público como se estivessem a prestar um enorme serviço às melhores causas da Humanidade. Até apetece dizer, como diz a voz popular: “Valha-me Deus!”. O que temo é que a invocação seja em vão. # Jas@2_2021

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s