Artigo

A DESFORRA DE “LELÉ DA CUCA”

Por João de Almeida Santos

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HOJE É DIA DE FESTA, Dia de S. Balsemão. A democracia parece que deseja rever-se no rosto de um PM que, afinal, foi o sétimo constitucional, mas não eleito. Estranho, não é? E ainda por cima não se sabe ao certo se a celebração é por ter sido PM há 40 anos, substituindo Sá Carneiro, depois do trágico acidente, se é por lançar a sua Autobiografia ou se é por ser dono do maior grupo de comunicação português, a Impresa

OH, NÃO SEI MESMO! O que sei é que há imensas coincidências em tudo isto. Umas mais evidentes, outras nem tanto. A festa – será por mero acaso? – acontece em tempo de pré-campanha, quase de campanha eleitoral. Depois, celebra-se, em democracia e em registo republicano, um homem a quem o também republicano Henrique Monteiro, diligente funcionário do Grupo Impresa, chamou, num artigo de 4 páginas e uma coluna, 9 vezes “Príncipe”, equiparando-o também a membro da família real britânica e identificando a esposa do “Príncipe” como “Queen Mother”. E, mais, ouço dizer por aí que também o I Governo Constitucional, de Mário Soares, foi homenageado por ocasião dos seus 40 anos. Não me lembro, mas, se foi, aplaudo, por Soares e por ser o primeiro.  De facto, o seu foi o primeiro governo constitucional e Mário Soares o primeiro PM que resultou directamente de eleições legislativas. O que não aconteceu com o VII. Por isso, se quisermos ser justos, nem o VII governo constitucional pode ser comparado ao primeiro, nem Balsemão pode ser comparado a Soares. Ou estou enganado?

NADA TENHO contra celebrações, mesmo que elas sejam autoglorificações das elites. Se celebram alguma razão haverá para isso. Que se celebrem, pois, e se federem à vontade nos actos celebrativos. Amen. Mas… há sempre um mas… Este caso, estas coincidências de datas, esta justificação para a homenagem, este unanimismo institucional em torno daquele que, um dia, o actual PR baptizou de “Lélé da Cuca”, suscitam-me uma profunda estranheza: o “Príncipe” Balsemão a surgir como principal protagonista e o republicano PM, António Costa, como Oficiante formal num ritual institucional para o qual foram convocados todos os protagonistas institucionais.

NÃO PARECERÁ tudo isto uma entronização oficial da “Impresa”,  no mesmo momento em que Balsemão lança a sua Autobiografia de mil páginas, em tempo de pré-campanha eleitoral autárquica, a escassos 24 dias das eleições, e num momento em que o líder da oposição se encontra num calamitoso estado de prostração, mais parecendo um golpe de misericórdia, com o condenado a caminhar pelo próprio pé para o cadafalso?

O QUE NÃO ME PARECE despropositado é a suspeita de que, com António Costa, passámos a ter um grupo de comunicação social do regime, a “Impresa”. Já lá estava o irmão, o inefável áugure do regime, agora também ele lá fica como Oficiante.

NADA DISTO me parece muito edificante. Tudo sabe a montagem, a aliança tácita de poder, a manobrismo encapotado nas barbas da cidadania. Só falta mesmo incorporar o PSD no PS e criar uma União Nacional, com imprensa do regime, a que se pagará para vigiar e perseguir a pós-verdade, as fake news, a desinformação, através de uma norma regulamentar. Para controlar a incontrolável rede, já que para os outros grupos de comunicação sempre haverá, como houve, alguns milhões de financiamento. 

DIR-ME-ÃO: que mal tem isto? É só uma homenagem, como tantas outras. Até poderá ser, mas não parece e nem sequer parece poder estar inscrita num qualquer genuíno código protocolar da democracia. São excessivas as coincidências, é excessiva a aproximação de dois poderes que se deveriam manter respeitosamente distantes, são falaciosas as justificações para o facto, o tempo do acontecimento é errado, e mesmo inaceitável, as cumplicidades começam a ser por demais evidentes e o que parece ser mais preocupante é a redução da política a mero exercício de poder, tudo sendo legítimo para este fim. Esta, de facto, parece-me ser uma pura operação de poder, um puro ritual de oráculo, uma manobra de bastidores coberta pelo manto diáfano da celebração oficial, a caminho de uma anémica democracia. Não, não me parece que esta celebração tenha sido uma boa ideia e que augure um futuro radioso para a nossa democracia. #Jas@09-2021

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1 thought on “Artigo

  1. Querido Professor, Espero-o bem! Saudades das n/ conversas… Embora calada, nunca ausente… gostaria que soubesse. Permita-me uma modesta palavra sobre este Artigo: magnífica reflexão, excecional de verdade. Concordo em absoluto com cada frase nele contida. Não poderia ser mais preciso e real. E põe a nu a hipocrisia em que vive a política portuguesa. Genial, Professor, parabéns!!! Bj e abraço forte, Fernanda

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