Artigo

O caso do livro de Ricardo Marchi

"A NOVA DIREITA ANTI-SISTEMA
O caso do Chega"

(Lisboa, Edições 70, 2020, 206 pág.s)

Por João de Almeida Santos

Chega_Ilust

SIM, SÓ AGORA tive oportunidade de ler o livro em referência, mas acompanhei as  polémicas levantadas acerca dele, incluindo um abaixo-assinado de colegas de Riccardo Marchi (RM) e até uma insultuosa recensão de outra sua colega universitária. Como se escrever um livro sobre a direita radical fosse crime de lesa-intelectualidade universitária. Muito de esquerda e muito científica. A obra foi solicitada ao autor pela Almedina, na sua qualidade de investigador universitário e de especialista em movimentos de direita radical, tendo a editora pedido ao autor que evitasse um tom apologético, fosse ele a favor ou contra. Isto lê-se na Introdução. Algo que, na minha modesta e desinteressada opinião (não conheço o RM e a minha posição política é conhecida), me parece que o autor conseguiu, prestando um bom contributo para o conhecimento do novo partido.

E, NO ENTANTO, RM viu-se publicamente execrado pelos colegas por ter aceite o desafio de uma conceituada editora de escrever um quase “instant book” sobre uma matéria bem viva e bem polémica nas agendas política e pública portuguesas.

POR NATURAL INTERESSE político e académico, mas também para avaliar da justiça ou da injustiça do tratamento que os seus ilustres pares lhe haviam reservado, fui ler as 206 páginas do livro. E que constatei, terminada a leitura? Que o autor fez um trabalho sério, muito analítico, indo directamente ao assunto, ou seja, analisando por dentro o partido para melhor entender a sua dinâmica interna e a evolução no seu curto tempo de vida.

E CONFESSO, sem sombra de dúvida, que não encontrei algo que possa justificar a qualificação do livro como “um exercício panegírico ao Chega”, não resistente ao famoso e tão científico “teste do pato”, pela Prof.ra Marina Costa Lobo, e a acusação de não cumprir “critérios de distanciamento do objecto de estudo, nem da ciência política nem da história”. Bom, talvez devesse ter feito como a senhora Professora, indo doutorar-se em Oxford, não sobre os poderes do inquilino do n. 10 de Downing Street, mas sim sobre os poderes do inquilino do n. 4 da Rua da Imprensa à Estrela. Isso, sim, é que é distanciamento científico. Talvez observando o CHEGA a partir de Oxford conseguisse mais e melhor distanciamento científico. Só que, na verdade, o que foi pedido pela Editora ao autor foi um retrato analítico do CHEGA, um partido ainda em fase de construção e de afirmação. O que ele fez com grande profissionalismo, saber e rigor. Não uma tese de doutoramento (essa já a tinha feito), mas um bom livro, mesmo sem “teste de pato” a validá-lo. A teoria política precisa de trabalhos como este, trabalhos de campo que procurem o que está a emergir, e não de invenções de água quente ainda que com chancela anglo-saxónica e muitos referees de serviço a atestarem a sua cientificidade. E até acrescentaria que, perante a evidente qualidade do trabalho, me parece credível a hipótese de a implacável analista não ter lido mais do que a introdução, a conclusão e uma ou outra página do livro. Não sei, mas que me fica a dúvida, lá isso fica. Não sei também se o pato grasna (não é essa, nem nunca foi, a minha especialidade científica) ou não, mas sei que está a nadar com algum vigor vistos os números alcançados nas sondagens.

A VERDADE é que, com este livro, fiquei a conhecer razoavelmente o que se passa no CHEGA, de resto, também ele carreando para o seu interior tendências de fundo que se compreendem melhor se olharmos com mais atenção para as novas fracturas que estão a emergir nas sociedades contemporâneas do que para os modelos clássicos da velha extrema-direita. No livro fala-se destas tendências, mas não creio que a Prof.ra Costa Lobo tenha reparado nisso. #Jas@09-2021.

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