DESPEDIDA
Poema de João de Almeida Santos Ilustração: “Musa” JAS 2025 Original de minha autoria Setembro de 2026
POEMA – “DESPEDIDA”
“Tu prima m’inviasti verso Parnaso a ber ne le sue grotte, e prima appresso Dio m’alluminasti” Dante Alighieri, Purgatorio. Canto XXII.
PERDI-TE Porque, afinal, Nunca te encontrei, Numa rua, Numa praça, Num café, Em lado nenhum... ........... Já nem sei. MAS ENCONTREI-TE No Parnaso, Lá em cima, Intangível, Sem poder Tocar-te A não ser com Palavras, Em forma de poema, Sensível às cores Da tua alma, O meu puro Diadema. SIM, ENCONTREI-TE No Parnaso, Lá no alto, No Monte, E através de ti Eu vi a costa E vi o mar E o meu mundo Interior A sonhar, Em azul, A tua cor. A NEBLINA Cobria-te Pra te revestir E refrescar A alma Como chuva De palavras Húmidas Caídas Das nuvens Do meu céu. MAS EU NÃO ERA MAIS Do que espelho Embaciado Que te devolvia Fantasia Contra a Petrificação E o pecado Que se anuncia Sempre Num olhar Indiscreto... .............. E dissimulado. E DE TANTO Nele te veres Decidiste Declinar O espelho que Começava A embaciar-te A alma E a cativar-te. E NÃO ERA Da neblina Que te envolvia, Mas dos desenhos Que tuas mãos Esboçavam, Timidamente Ali, Nesse espelho Já tão húmido De ti. MAS LOGO Te despediste Do Monte Descendo Vertiginosamente, Em desconforto, A expiar Não sei o quê, Sob os olhares Das mil górgones Que sempre ameaçam Petrificar tudo Aquilo que se vê. NO MONTE, O ESPELHO Disse para si: - De tanto te veres Em mim, Ficou-me, de ti, O repetido reflexo; E sabes o que Brotava Quando te olhavas Com palavras Na minha superfície? Beleza. Toda a que me sobrou Quando, triste, Desceste o Monte. MAS ESTA NÃO PETRIFICARÁ Porque ficou Guardada No meu corpo Vítreo Onde todos Se revêem Sem saber Que no reflexo Levam A tua imagem Gravada... .......... Mas já um pouco Embaciada. E EU POR CÁ FIQUEI, Espelho do mundo, A olhar para O escuro espaço Sideral À espera que um cometa Me alumie o caminho Para te devolver O teu reflexo Original...

