“NOVOS FRAGMENTOS”
de João de Almeida Santos
Texto da Apresentação do livro no Café-Concerto do Teatro Municipal da Guarda, 24.09.2026
Por António José Dias de Almeida
Estes NOVOS FRAGMENTOS – Para um discurso sobre a Poesia, conforme o título indica, seguem-se a FRAGMENTOS – Para um Discurso sobre Poesia, vindos a público em 2025 e, como adequadamente o Autor, João de Almeida Santos (JAS), refere, esta linha editorial radica numa rica tradição que remonta, entre outros ao Pascal de Pensées, a Novalis de Fragmentos, a Bernardo Soares (quase Fernando Pessoa lui-même) e ao seu Livro do Desassossego.
Na sua objectividade concreta, este novo livro de JAS é um volume muito bem elaborado (o Autor, de há muito tempo a esta parte, habituou os seus leitores ao rigor editorial), com excelente paginação e uma capa que acrescenta valor e o torna mais atractivo, com uma pintura do nosso poeta-pintor JAS, Melancolia (assim se intitula), que já existe desde 2023 e que já fez parte de exposições de pintura do Autor.
Prosseguindo na objectividade desta apresentação, devo acrescentar que a obra tem 214 curtas reflexões, com um Prefácio, uma Introdução, que presta boa ajuda aos potenciais leitores, um Epílogo e 24 capítulos, onde se integram as citadas reflexões/fragmentos, como “proposta para um discurso sobre poesia a partir da própria experiência como poeta” (palavras do Autor).
Uma curta biobibliografia de João de Almeida Santos pode ser consultada na badana do livro. Destaco dois ou três aspectos bem significativos do seu brilhante percurso académico, de algumas obras publicadas, bem como das exposições já realizadas.
A obra que hoje aqui nos reúne é NOVOS FRAGMENTOS Para um Discurso sobre a Poesia (S. João do Estoril, ACA Edições, 2026), de João de Almeida Santos
Pois bem. À laia de epígrafe, convoco Camões, o Príncipe dos Poetas Portugueses que, para escrever a sua mais conhecida obra, pede ajuda e chama em seu auxílio as ninfas do Tejo: “E vós, Tágides Minhas, pois criado tendes em mim um novo engenho ardente…” etc., etc., etc. E na estrofe primeira do Canto III: “Agora tu, Calíope me ensina…”. As musas – filhas de Zeus e de Mnemósine – são nove. A citada Calíope era a da poesia épica (género que, para aqui, hoje, não é chamado), Érato, musa da poesia, do canto e da poesia amorosa e também Euterpe, musa da Música e da poesia lírica. Passemos destas musas clássicas para a musa inspiradora do poeta aqui presente, musa essa que se passeia pelo Jardim do “Vale Encantado” ou vagueia lá pelas alturas das montanhas que circundam esse mesmo vale. Uma musa que se pode, aliás, metamorfosear, segundo diz o poeta, e de cuja identidade a musa faz parte integrante. O poeta, que é incapaz de viver sem a sua ajuda, pretende sempre mimá-la, enviando-lhe beijos que os fantasmas apanham pelo caminho. Todavia, o poeta, qual Sísifo, nunca desiste e desafia a ira dos deuses e da própria musa.
Respeitando as devidas distâncias do nosso génio seiscentista, JAS, na reflexão/fragmento 43 escreve “Sina de poeta, de poeta disse alguém. Concordo. Até considero que poeta sem sina não é poeta. Ele é escolhido pelo destino e pelos deuses.” Ah! Há deuses que traçam e desenham o destino do poeta. Só? Bastará a sina e o favor dos deuses? Leia-se o fragmento/reflexão 45 e logo, logo na primeira linha, a elucidativa interrogativa directa – “Que seria dos poetas sem as musas? Elas inspiram, provocam”; e essa provocação (diz o poeta) “converte-se em imperativo existencial a exigir resposta”. Sem alternativa – “O pobre poeta tem mesmo de obedecer”. De forma muito explícita espreitemos o fragmento 66: A MUSA (pág. 106). Vale a pena ler algumas passagens e convido-vos, caríssimos ouvintes, a escutar com atenção:
“Põe-a com dono. Só te faz sofrer”, poeta. Ah, mas os poetas não controlam as musas. São elas que os encantam, os põem a cantar. (…) Os deuses são seus cúmplices e os poetas, mortais, são seus súbditos. Nada a fazer. (…) Aliás, quando esvoaçam para outros lugares, o poeta sofre e fica com dolorosos ciúmes. (…) São elas que põem o poeta com dono”.
Muito prosaicamente (poder-se-á?) e “à vol d’oiseau, vejamos quantas vezes a palavra musa/musas aparece a titular alguns destes NOVOS FRAGMENTOS. Pelo menos 10 e não resisto a indicá-los:
Em A DIALÉCTICA DO SONHO POÉTICO surge A Musa e o Desejo. Em ABALOS TELÚRICOS, simplesmente, A Musa. No Capítulo VIII, O VAGO, A EXACTIDÃO E A MELODIA, aparecem, em título: A Fonte, o Poeta e as Musas. Em SONHO E POESIA, dois títulos: As Musas e a Neve e A Musa na Aldeia. O Capítulo XV tem o sugestivo título: NO PRINCÍPIO ERAM AS MUSAS. No Capítulo XII, TEMPO, O Rapto da Musa. Em TEMPO E RESSONÂNCIA, A Musa do Leitor.
Obrigado, Autor! Também nós, leitores, temos direito? Sim, diz o Autor, no fragmento 161: “Eu tenho a certeza de que o leitor também tem a sua musa e que, no poema, de algum modo a reconhece”. Voilá!
EM ILUSÃO (Capítulo XXI), fragmento 128: A Musa e O Estremecimento. Porque não há “Estremecimento sem musa”; e ainda “Um poeta precisa de musas como do ar que respira.”
Para terminar, faço minha a pergunta do Autor “Mas (afinal)
a musa existe?”, em QUEM ÉS TU? (Cap. XX); e aceito a sua resposta: “sei uma coisa:
sem musa não há poeta que sobreviva” (ver pág. 221).
Como vêem, não é só no tal Jardim do Vale Encantado, escondidas num loureiro, que as musas existem. Elas invadiram este Café-Concerto e rodeiam-nos por todos os lados. Se precisarem, peçam-lhes ajuda e inspirem-se. E eu também, que de inspiração bem preciso!
Musas, Poeta, Poemas – ligação indissociável que prefigura uma acção poética concretizada, evidentemente, nos poemas vindos a público (os célebres e comentados poemas dominicais aos quais o Autor chama a sua “liturgia”), posteriormente reunidos em livro ou em livros.
Poemas e poetas, muitos são os que figuram neste NOVOS FRAGMENTOS. Seria exaustivo chamá-los todos aqui a terreiro, portugueses e de outras nacionalidades…
Apenas recordo que o capítulo XXIV é dedicado à grande poetisa polaca Wislawa Szymborska, laureada com o Prémio Nobel de Literatura em 1996.
Obrigo-me, porém, a citar e a ler, pelo menos as referências explícitas a três (?) poetas portugueses: Cesário Verde, Ricardo Reis e o seu genial criador, que com ele conviveu até 1935, ano da morte de Fernando Pessoa. Sim, porque, como sabemos, Ricardo Reis sobreviveu-lhe – Saramago dixit, e escreveu O Ano da Morte de Ricardo Reis, onde nos fornece todas as indicações. Mistérios insondáveis da poesia e da ficção.
CESÁRIO VERDE
No fragmento 151, JAS escreve: “Bem sei que é mais difícil escrever poemas com riscos e cores do que pintar quadros com letras, com sinais”. O fragmento 152 intitula-se Cesário Verde, que tinha sido citado no fragmento anterior, e que o poeta/pintor transcreve e eu leio só para realçar esta magnífica sinestesia. É verdade, o grande Cesário Verde pintava quadros por letras, por sinais:
“Pinto quadros por letras, Por sinais / Tão luminosos como os do Levante, Nas horas em que a calma É mais queimante, / Na quadra em que o verão Aperta mais”
RICARDO REIS
Também Ricardo Reis, o clássico heterónimo de Fernando Pessoa, tem direito ao título do Capítulo XVI (pág. 177). E bem merece, ou não tivesse ele escrito das mais belas ODES da Literatura Portuguesa. JAS transcreve três estrofes (a terceira incompletamente) de uma ode muito curiosa que termina com dois versos bem apropriados a musas e a deuses:
“Os deuses são deuses Porque não se pensam.”
FERNANDO PESSOA
Fernando Pessoa é, como sabemos, um mundo de vivências que, não cabendo todas nele próprio, dividiu-as por ele e pelos seus múltiplos heterónimos.
E, quase para terminar, e em jeito de homenagem à sua personalidade poética, também faço minhas as palavras de João de Almeida Santos e leio o ponto 2 do fragmento 135 (pág. 180):
“É esse o seu destino. Pessoa transcendeu-se a si próprio.”
Muitos outros poetas, ensaístas, críticos literários são citados. Aliás, nesta obra, as citações são frequentes, justificáveis, adequadas e pertinentes.
Comecei com Camões, muito de fugida, termino com Fernando Pessoa e, já “desassossegado”, relembro o seu semi-heterónimo Bernardo Soares, tão frequentemente citado por JAS no livro que hoje aqui nos convocou: NOVOS FRAGMENTOS – Para um Discurso sobre a Poesia.
Publicação de JAS@09-2026



