Artigo

SEIS NOTAS DE POLÍTICA

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2026

ÍNDICE
1. PENSAMENTO - PROCURA-SE, 
NO CENTRO-ESQUERDA
2. CORBYN CRIOU UM NOVO PARTIDO
3. A ESQUERDA FRANCESA 
E AS PRESIDENCIAIS
4. MELONELLUM
5. A NOVA ESQUERDA AMERICANA
6. O ESPERADO ANÚNCIO 
DE PASSOS COELHO
1. PENSAMENTO - PROCURA-SE, 
NO CENTRO-ESQUERDA

Interessando-me sempre pelo acontece na área da esquerda moderada, em particular no plano doutrinário e programático, procurei informações e ideias sobre a social-democracia ou o socialismo democrático no site do recentemente criado Instituto Progresso. O que encontrei foram os nomes dos aderentes, o curto manifesto (sobre o qual já aqui escrevi), uma curta notícia sobre a conferência inaugural na Fundação Calouste Gulbenkian e, sobretudo, fotografias, fotografias, fotografias. Se contei bem são mais de 100 fotos para as cerca de 2 páginas do manifesto e pouco mais de uma página da notícia sobre a conferência. Nada mais. Por que razão não publicou o IP os textos das intervenções na Gulbenkian? Estamos no mundo digital e tudo é muito fácil e rápido, sendo, neste campo, muito importante a comunicação. Ou teremos de aguardar meses pela publicação de um livro? Se livro houver. Mas a verdade é que se procurar documentos estratégicos (programáticos ou doutrinários) do PS no impropriamente chamado Jornal “Acção Socialista” também não os encontro. Ou seja, há uma inquietante penúria documental na área da comunicação do centro-esquerda. Mas mais inquietante do que isso será se esta falta corresponder, não a falha ou escassez de comunicação, mas à não existência de pensamento que valha mesmo a pena partilhar. Não sei. 

2. CORBYN CRIOU UM NOVO PARTIDO

O senhor Jeremy Corbyn, antigo líder do Labour, fundou, em Julho de 2025, com outros amigos (mas sobretudo com Zarah Sultana) um novo partido, o “Your Party”. O que diz o site do “Your Party”? “Só conseguiremos resolver as crises da nossa sociedade”, lê-se, “com uma redistribuição massiva da riqueza e do poder. Isto significa taxar os mais ricos da nossa sociedade. Significa um Serviço Nacional de Saúde (NHS) sem privatizações e trazer a energia, a água, os caminhos-de-ferro e os correios para a propriedade pública. Significa investir num programa massivo de construção de casas económicas. Significa enfrentar os gigantes dos combustíveis fósseis que colocam os seus lucros acima do nosso planeta”. Acresce ainda um desafio a Burnham para lançar uma investigação pública sobre Gaza e uma petição contra a despesa militar. Temas habituais na agenda da esquerda radical. Situa-se, pois, este novo partido, à esquerda do Labour, mas até agora nas sondagens não tem conseguido averbar mais do que 0/1%, enquanto o Labour tem vindo a recuperar relativamente ao Reform UK. Em três sondagens de outubro (PolitPro, Politico e YouGov) o Labour obtém, em média, 26.5% contra 22,4% do Reform UK. Esta viragem deve-se essencialmente a dois factores: à nova liderança do Labour de Andy Burnham e ao escândalo financeiro que atingiu Nigel Farage, o líder de Reform UK. Mas uma coisa é certa: Burnham terá de ser muito eficaz na sua proposta programática para se consolidar como primeiro partido – no “Plan for Britain”. Entre outras propostas, destaco um maior controlo público sobre água, habitação e energia, “more control of the basics and more power in the hands of people and places” ou uma forte descentralização do poder no sentido dos poderes locais e regionais, “National Care Service”, reindustrialização. Mas especial atenção deve ser dada à sua ideia de partilhar o poder mais intensamente com os poderes locais e regionais, subtraindo-o progressivamente a Westminster. Talvez seja a influência da sua experiência como Mayor of Greater Manchester a ditar esta sua orientação.  Para já, parece ter iniciado com sucesso o caminho da recuperação da hegemonia política do Labour.

3. A ESQUERDA FRANCESA 
E AS PRESIDENCIAIS

E o senhor Mélenchon parece muito feliz com os distúrbios em França que envolvem a rapaziada dos liceus, insatisfeitos com a educação. E os seus por lá andam a acicatar ânimos sem se aperceberem que este clima de desordem dá asas à direita radical da senhora Le Pen e do senhor Bardella. Entretanto, a esquerda moderada (sobretudo PSF e Place Publique) foi a votos em primárias com cinco candidatos que aspiravam ser candidatos à Presidência em nome da esquerda moderada. Raphael Glucksmann venceu com uma margem indiscutível (mais de 66%, contra o segundo mais votado, Olivier Faure, primeiro secretário do PSF, com cerca de 14%), num universo de votantes de cerca de 120 mil. Sempre considerei que a área da social-democracia deveria escolher Glucksmann porque o eurodeputado já tinha dado provas mais do que suficientes, ao ultrapassar, representando o universo do centro-esquerda, em quatro pontos percentuais, La France Insoumise nas últimas eleições europeias (13,83% contra 9,89%), numa altura em que o PSF se encontrava muito fragilizado. Um resultado excepcional que há-de querer dizer alguma coisa. Portanto, uma boa notícia, mas um desafio muito exigente para Glucksmann (hoje. 14.10, o jornal “Le Monde” dedica-lhe um Editorial um pouco céptico, considerando insuficientes as propostas que já são conhecidas, designadamente sobre a crise financeira, e o risco de ver os movimentos sociais caírem definitivamente nas mãos de LFI). Entretanto, a frente de esquerda encontra-se lamentavelmente fragmentada, abrindo caminho a uma possível vitória da candidata de RN. François Hollande ter-se-á conformado, com a vitória esmagadora de Glucksmann nas primárias da esquerda moderada (sobretudo do PSF), e não apresentará, em Dezembro, uma sua candidatura? A luta pelo segundo lugar na primeira volta das presidenciais acontecerá provavelmente entre Mélenchon (19%), Glucksmann (12%) e Édouard Philippe (19%) (dados de “Politico”). Faltam seis meses e é a partir de agora que a pré-campanha vai acelerar.

4, MELONELLUM

Em Itália, a lei eleitoral foi alterada, tendo sido uma vitória da senhora Giorgia Meloni, tendo a lei sido baptizada, pelo governo, como Stabilicum, mas pela oposição  como Melonellum (é tradição em Itália baptizar as leis eleitorais com nomes em latim).  Prémio de maioria para o partido ou a coligação que obtiver 42% dos votos (70 deputados e 35 senadores), obtenção de, pelo menos, três por cento por partido e de 10% por coligação para entrar no parlamento, adopção do sistema de preferências, mas com um chefe de lista bloqueado (não sujeito às preferências) e obrigatoriedade de indicar quem é o candidato a presidente do conselho de ministros (que, todavia, não aparece no boletim de voto). Se as eleições fossem hoje, em função das sondagens e do acordo entre partidos, o resultado seria favorável à direita se houvesse acordo com Vannacci (embora a soma de votos não constitua uma operação linear), mas poderá ser favorável à esquerda se não houver acordo. Mesmo assim, as sondagens dão os dois blocos muito próximos, em torno dos 40%. Mas, provavelmente, as eleições só ocorrerão em meados do segundo semestre de 2027. De qualquer modo, a lei eleitoral está a ser contestada pela esquerda, acusando Meloni de ter conseguido uma espécie de lei do “premierato” mitigada. Giorgia Meloni certamente irá transformar este próximo ano de governo numa longa campanha eleitoral para garantir um novo mandato de cinco anos.

5. A NOVA ESQUERDA AMERICANA

Entre nós não se vê qualquer tentativa de repensar a identidade doutrinária, programática e organizacional da social-democracia representada pelo PS, sendo o novo Instituto Progresso, além de incipiente (ao que parece), mais do mesmo, ou seja, uma iniciativa inscrita numa lógica de bloco central (pelo que se vê e pelos aderentes) precisamente quando quer o centro-esquerda quer o centro-direita estão em evidentes e simétricas dificuldades. Nesta área, parece ser cada vez mais evidente que algo de novo tem de ser promovido e proposto, procurando corresponder às profundas mudanças que estão a ocorrer nas sociedades contemporâneas. A estabilidade desejada pelos actuais protagonistas políticos poderia, então, ser aproveitada para fazer o que deve ser feito, mas, sinceramente, não vejo sinais realmente consistentes de um tal projecto.

Nos Estados Unidos, há uma tentativa da ala esquerda do partido democrático, “Nova Esquerda” (Bernie Sanders, Ocasio-Cortez, Zohran Mamdani, os nomes mais conhecidos, e tantos outros candidatos a várias funções de natureza electiva, em Novembro), com posições claramente de esquerda como, por exemplo, entre outras, o “Medicare for All”, crítica ao custo da vida e ao custo da habitação, taxação das grandes fortunas, o fim do ICE, o fim da ajuda militar a Israel, a qualificação da situação em Gaza como genocídio (veja Le Monde, 10.10.2026, pág. 2: “L’Essor d’une ‘nouvelle gauche’ américaine”). Nada de novo. E, todavia, a grande movimentação terá de acontecer na ala moderada dos democratas, pois não será aquela a resolver a crise profunda instalada com a presidência Trump. O futuro será determinado pelo que acontecer em Novembro, nas eleições intercalares. Se os eleitores não penalizarem fortemente Trump, o descalabro e a regressão civilizacional continuarão a aprofundar-se. E não só nos USA.

6. O ESPERADO ANÚNCIO 
DE PASSOS COELHO

 Finalmente, Pedro Passos Coelho assumiu-se claramente e com uma estratégia: unir toda a direita, que tem 160 deputados (PSD, CDS, CHEGA, Iniciativa Liberal) em 230, quase 70%, ou seja, maioria mais que qualificada. E, ao que diz, esta maioria substancial serviria para fazer reformas a sério, em vez da gestão rotineira e ineficiente do governo de Montenegro. Que reformas, não disse. Apenas acenou à questão da imigração descontrolada dos tempos de António Costa e ao SNS, considerando-o irrecuperável, tal como está. E indicou uma geometria política para a crise. Foi uma posição mais estratégica do táctica, inscrevendo-se de forma clara nessa tendência de direita que se está impor um pouco por todo o lado. Fica assim claro que o PSD tem duas visões em confronto: uma, mais conservadora e, outra, de tendência mais social-democrata, embora mitigada. O PSD, portanto, como alternativa a si próprio quando o panorama actual do centro (-esquerda e -direita) mais parece viver uma versão política e bem portuguesa da dupla Dupont e Dupond. Está assim definida, assumida e publicizada uma estratégia clara que há muito se adivinhava. E foi bem preparada pois a SIC andou uma semana inteira a publicizá-la. Agora se percebe exactamente por que razão substantiva o fez. Montenegro está a prazo? Faltam três anos para o fim da legislatura e muita água correrá sob as pontes. Sobretudo atendendo aos perfis do PR e do Líder do PS, avessos a eleições antecipadas. Mas também é certo que a política está hoje em ritmo acelerado. Montenegro sabe agora que tem uma alternativa clara pela frente: a união de toda a direita contra o seu “não, é não”, praticado, muito moderadamente, até aqui. Só que Passos Coelho pode vir a enfrentar um sério problema se o “CHEGA” for o maior partido (que as sondagens já prenunciam) e Ventura reivindicar a liderança de um governo da direita unida. Neste caso, qual será o papel de Passos Coelho? Quem liderará a frente unida da direita? Pedro Passos Coelho assumiu-se como um executivo, logo, é mesmo o cargo de PM que estará em causa. Mas dizia-me um amigo: talvez tenha sido ousado falar de Ventura como ele falou, dando Passos Coelho um passo enorme no sentido da sua credibilização/normalização. Passos Coelho apontou um caminho, mas corre o risco de já não ser ele a interpretá-lo em primeira pessoa. A não ser que pense que, candidatando-se, a seguir a uma derrota eleitoral do PSD, consiga inverter a relação interna de forças e, então, sim, poder liderar esta frente. A ver vamos. Até porque na equação estará sempre presente o PS, um partido que mantém ainda um forte score eleitoral, ainda que a sua chegada ao governo tenha pela frente uma consistente maioria de direita.

JAS@10-2026

 

 

1 thought on “Artigo”

  1. Um a análise muito bem feita sobre as politicas e os politicos de alguns paises deste nosso velho continente. Totalmente de acordo com esta análise.

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