Poesia

ROSTO DE PEDRA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – Jovem mulher com bâton.
“Estudo de uma jovem mulher” (1885), de
Gustav Klimt, (atrevidamente) retocado
por João de Almeida Santos

 

JASKlimtFinal250318

ENCONTREI-TE

POR ACASO
E caíste
Sobre mim
Naquelas escadas
Sem fim
Por onde descias,
Altiva,
Como senhora
Do silêncio
Austero
Que me devora.

É SEMPRE ASSIM
Quando te vejo.
Crispada,
Sobrolho
Franzido
E pesado,
Sofrido,
Em eterna
Revolta,
Anunciando 
Penitência
Neste incerto
Destino
Já sem regresso.

DOEU?

Muito.
Mas que importa?
É sempre sal
Sobre ferida
Que não cura,
Mal que dura
E que perdura
Uma vida…

A TEIA
QUE NOS TECE
E cobre
Este espaço
Que entretece
E nos domina
É como o tempo
Que marca,
Implacável,
O acaso
Que tudo determina.
 
VI-TE, SIM,
Nesse dia,
Recolhida
Sobre ti,
Estranha na cidade
Invisível
Onde te conheci.

E ASSIM ME NEGAS. 
E foges
Para lugar
Nenhum.
Corres, corres
Para onde
Nunca irás.
Escondes-te
Atrás do que
Desconheces
E de ti própria
Onde blasfemas
Contra o mundo
Onde não te
Reconheces!

A REVOLTA

Não sai
De ti
E petrifica
A tua alma.
 
É ÁSPERO, SIM,
ESSE TEU ROSTO.
Julgava-te
Já perdida
No silêncio
Da raiva
Surda
Contra mim,
Sem redenção,
Condenado
A grilhões
Que pesam
Como cativeiro.
 
CHAVES?
Ah!, sim,
Tantas são
As chaves que tens
E que não usas
Para me libertar!
 
TALVEZ NEM QUEIRAS
Porque também tu
Já és prisioneira
Da síndroma
Que te aprisiona
E te queima
Como fogueira.

CAÍSTE SOBRE MIM.
De repente,
Levantaste-te
Dessa sombra
Onde te encerras,
Te encobres
E vigias.
E atropelaste-me…
 
MAS NÃO ERA PRECISO,
Meu amor!
Todos os dias
O fazes.
Mesmo ausente…

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2 thoughts on “Poesia

  1. Magnífico Poema, Professor!

    Um Rosto de Pedra, cujo retoque o torna tão misterioso e único quanto a dor do Poeta…. Excelente escolha!!

    Muito Obrigada.

    1 grande beijinho, Fernanda

  2. Poema muito rico em musicalidade conseguida pelas aliterações e pelas rimas toantes (descias/altiva) e consoantes (franzido/sofrido). Os versos brancos, que contrastam com o esquema rimático, conotam uma variedade rítmica muito expressiva e acentuam a sonoridade das estrofes.
    A diversidade métrica mostra a bipolaridade do ritmo ora mais pausado ora mais breve sublinhando ou o tom reflexivo de pesar e do pathos (grego) ou a leveza resultante da sublimação do sofrer na criação poética.
    Em termos semânticos, o poema revela uma abstracção do objecto amado pese embora anotações lexicais que permitem adivinhar um rosto e um estado de espírito (“Altiva/Crispada,/Sobrolho/Franzido/Epesado,/Sofrido”). O poema espelha as isotopias da poética de João de Almeida Santos – o pesar, o sofrer, a ausência e o silêncio. Contudo, há neste poema um elemento lexical com uma carga semântica que contamina o poema – é o acaso. É à volta deste lexema estruturante que se descortinam campos semânticos que marcam e singularizam esta poesia: “O acaso/Que tudo determina; “Neste incerto /Destino/Já sem regresso”). Esta anotação sobre o acaso está imbuída de algo incompreensível, inexplicável e fatal ( na acepção de “fatum”), que enleia o sujeito poético nas suas reflexões filosóficas e contaminam o leitor nessa reflexão.

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