Poesia

SONHO

POEMA TRISTE.
João de Almeida Santos.
Ilustração: “Sonho”. 
Original de João de Almeida Santos. 
Maio de 2018.
Milva canta IN SOGNO (Album: "Tra Due Sogni", 1986)
Letra de "IN SOGNO":

"Sì, / L’alba è la più forte./ Sì, / Vince i sogni, 
la realtà. / Eppure, / Solo in sogno / Viene a noi 
/ La verità. / Così si chiude un fiore / Se il sole 
non c’è più, / Ma tutto il suo colore / Raccoglie in sé".

Sonho0805060518

“SONHEI TER SONHADO / Que havia sonhado.
/ Em sonho lembrei-me / De um sonho passado: (…) 
/ Ter sonhado o quê? / Que havia sonhado / Estar com você. 
/ Estar? Ter estado, / Que é tempo passado. / Um sonho presente 
/ Um dia sonhei. / Chorei, de repente / Pois vi, despertado 
/ Que tinha sonhado”. 

Manuel Bandeira

POEMA – “SONHO”

Sonho0805060518_Corte

SONHEI 
QUE AS PALAVRAS
Se gastaram,
Desfiaram,
Desataram,
Sobrando fios
Para tecer 
O silêncio. 

SONHEI 
Que a tinta
Perdeu a cor.
Que já não havia 
Poemas
E que não era 
Pintor.

SONHEI 
Que não eras tu.
Que foi tudo ilusão.
Sonhei que te procurei
No mundo da fantasia
Onde as flores
Caminhavam,
Sabiam a maresia,
Tinham rostos
De mulher,
Mas surdos
Ao que eu dizia.

SONHEI
Que não sabia
Onde estás,
O que fazes
E o que sonhas
Nas noites 
Do teu luar,
O que vês
Nesses momentos 
Fugazes
Em que olhas 
Para ti. 

SONHEI
Que não me lês,
Que já não ouves 
Poemas,
Que estás tão longe
Daqui!

NO SONHO
Fui à memória,
Que também
Perdeu a cor.
Ficou tudo 
A preto e branco...
..............
E sonhei,
Sonhei, sim,
Que te perdi,
Meu amor...

SONHANDO,
Procurei cor
Num outro
Lugar qualquer.
Só encontrei 
O cinzento
E por falta
De vermelho
Meus versos
Tão desbotados
Nem os levava
O vento...

FOSTE P’RA ONDE
Que eu não te vejo?
Perguntei 
Quando do sonho
Acordei.
Saíste 
De onde estavas
E agora resta
O desejo
De te cantar
Sem palavras
P’ra que ouças
O silêncio
Com que antes
Me chamavas.

JÁ NÃO ME CHEGAM
SINAIS.
O meu 
É poço escuro,
É buraco
Tão profundo
Que nele
Eu vou caindo
Como triste
Vagabundo...

O SOL TAMBÉM
JÁ SE FOI.
As sombras
Tomaram conta 
De mim.
Meus dias
São sempre
Iguais.
Sinto um vazio
Sem fim...

MAS PINTO, 
Agora pinto,
Tenho cores
E tenho aromas,
Tenho luz
E sou feliz...
........
Ah!, sim,
Mas perdi 
A minha Musa,
A fonte 
D’inspiração!
Foi p’ra longe,
Com o vento
E em meu triste 
Pensamento
Só ficou
A ilusão!

GASTARAM-SE 
As palavras,
Meu amor!
Gastou-se tudo,
Afinal!
Só ficou o teu 
Cinzento,
A tinta com que 
Lavras
O meu peito
(Sem lamento)
E me afundas
Nesta dor,
A que canto
Em surdina
Para ouvires 
O silêncio
Com que te pinto
Sem cor... 

Sonho0805060518_Corte2

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4 thoughts on “Poesia

  1. Há versos que podem ser perenes ou efémeros. Há versos que rimam com ausência ou jactância de sentimentos. Há versos com sabor popular ou saber(es) intectualizante(s). Ora, na poética de João de Almeida Santos (JAS) – porque já se pode falar de uma poética singular marcada por um estilo e por uma estética – o que captura o olhar e o sentir do leitor é a perenidade da semântica dos versos, a jactância emocional e o sabor popular mesclado com a intelectualização da imagética da palavra. Atente-se, por exemplo, na 1ª estrofe que abre o poema:“ SONHEI/QUE AS PALAVRAS/Se gastaram,/Desfiaram,/Desataram,/Sobrando fios/Para tecer/O silêncio”. Ecoa aqui um tempo passado, rememorado pelo sujeito poético (sonhei), bem como a animização das palavras (à maneira de Eugénio de Andrade) – cuja assonância na vogal aberta (gastaram, desfiaram, desataram) e nas aliterações (consoante sibilina e o prefixo des) – amplificam o poder do “verbo”, do “logos”, incutindo à estrofe uma rara musicalidade. A par deste tempo passado, emerge aqui, significativamente, a escolha lexical do gerúndio (sobrando ) como que perpetuando, paradoxalmente, o poder da palavra num silêncio tecido, orquestrado. Dir-se-ia que JAS convoca o leitor para uma arqueologia do sentir, transfiguradora do real e da presentificação de estados de alma (“SONHEI/Que não me lês,/Que já não ouves/Poemas,/Que estás tão longe/Daqui!”). É essa arqueologia do sentir traduzida em propriedade vocabular, em rimas bem conseguidas e em ritmos sincopados que contrariam a semântica dos versos ( “meus versos/Tão desbotados/Nem os levava/O vento…”), abrindo veredas para o mistério da vida, para a perenidade do amor e para a sublimação e realização poéticas: “Tenho cores/E tenho aromas,/Tenho luz/E sou feliz”.

    • Obrigado, Prof.ra Maria Neves, por esta belíssima análise do meu poema. Gosto desta ideia da “arqueologia do sentir”. E não só porque ela permite aludir ao real, aos escombros de afectos perdidos no tempo, mas porque vai fundo, vai ao centro, ao princípio (archê), à origem dos afectos. Nos poemas procuro sempre isto: ir à origem, muitas vezes através de dicotomias ou até de oxímoros (“ouvires o silêncio com que te pinto sem cores”). É nesta arqueologia que podemos atingir a origem do sentir, a universalidade, o que está para além de nós próprios, mas sempre dentro de nós. Sim, gosto da primeira estrofe e já uma vez tinha posto as palavras a esgueirarem-se rua fora, aninhando-se nos passeios ou esvoaçando, levadas pelo vento. A minha amiga Ana de Sousa ilustrou admiravelmente esse poema. Aqui deslaçam-se e já só servem para tecer o silêncio. Quando as palavras se gastam, de tanto falar ou de nunca chegarem ao destino, então chega o silêncio. Que, sim, pode ser composto de escombros de palavras, de fios de letras que se desataram de palavras já sem sentido e gastas. Através desses fios o silêncio pode falar… como silêncio. Sim, a minha linguagem poética procura evitar as palavras “caras”, difíceis, obscuras. A complexidade, quando o assunto é complexo, deriva então da construção frásica, dos versos, da composição em geral. Fujo da intelectualização da poesia, o que até poderia ser uma minha “zona” de conforto. Uma amiga bem me espicaça, mas eu fujo dessa sereia (a intelectualização) como posso. Aprendo sempre consigo. E desta vez cá me fico com a “arqueologia do sentir” para memória futura. Um abraço e mais uma vez obrigado. JAS

  2. Professor, com tão lindas Flores, como pode um Poema ser triste?!

    Nostálgico, certamente, porque é um Sonho triste. Felizmente que fora dele abundam as Palavras, os Sons e as Cores… Porque são estas, afinal, as matérias primas do Poeta!

    Bem-haja, Professor, muito obrigada por mais esta magnífica partilha!

    Beijinho com estima, Fernanda

    • Nem sei que lhe responda. Estamos no domínio do Sonho. Até a canção da Milva é triste, de uma beleza triste. Desenhei um sonho, com tantas figuras estranhas, umas simpáticas, outras menos. Mas com muita cor. Um sonho com cor. Mas a verdade é que, como canta Milva, a verdade só nos chega com o sonho. É por isso que eu gosto de sonhar e sonho muito de olhos abertos. E confesso que é bom sonhar de olhos abertos. Obrigado pelas suas palavras, Fernanda.

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