Poesia-Pintura

MANDEI PODAR O LOUREIRO…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Loureiro em Flor
 no meu Jardim Encantado”.
Original de minha autoria
para este poema. Março de 2020.
Exp.Lou

“Loureiro em Flor no meu Jardim Encantado”. Jas.  03-2020

POEMA – “MANDEI PODAR O LOUREIRO…”

MANDEI PODAR O LOUREIRO
Num dia de Carnaval,
Cada ramo que caía
Doía, 
Fazia mal.

ESPALHAVA-SE O AROMA
Intenso pelo Jardim,
O podador a cortar
E, ele, triste  
E tão dorido, 
Sempre a olhar 
Para mim...

“QUE FIZ EU PARA SOFRER,
Estou sempre
À tua frente,
Porque mandaste
Podar-me,
Assim,
Tão de repente?”

“FOI PARA ME RENOVAR,
Pra ganhar
Um novo alento?
Porque não paras 
De olhar,
Acalmas o sofrimento?”

“JÁ NÃO APONTO PRÒ CÉU,
Fiquei mesmo redondinho
E, tu, quando me olhas,
Ficas sempre mais sozinho,
Mais longe do meu perfume
Que deitaste a perder
Com aparente azedume
Porque não podaste
A tempo
O que havia de crescer.”

“PERDI MUITAS
Das minhas bagas,
Estavam em mim 
Às centenas,
Agora ficaram chagas
E não são muito pequenas.”

“LEVOU-MAS O PODADOR
As bagas que tu perdeste,
Já não sinto o teu calor
Por tudo o que não fizeste
Mas que podias fazer
Se tivesses mais coragem...
......................
Deitaste tudo a perder
Só porque era selvagem!”

“NÃO SÃO LOUROS 
De glória,
Não são...
................
Por que razão 
Me deixaste,
Ferido de 
Tanta paixão?
Para teres 
Uma vitória
Que não merece
Perdão?”

“AGARRA-TE A MIM 
Agora,
Sou teu loureiro 
Em Jardim,
Se não quiseres,
Vai-te embora,
Que eu fico-me assim,
Mais pequeno, 
Mas robusto,
Mais redondo 
E mais belo...
...................
Serei sempre 
Mais que arbusto,
Não é preciso 
Dizê-lo.”

O LOUREIRO DO JARDIM
É planta seminal,
Viajo com ele
No tempo 
Como se fosse imortal.

É ÁRVORE DE POESIA,
É fonte d’inspiração,
Ajuda-me a renascer
Se vacila o coração. 

É UM POSTO DE VIGIA,
Cresce, cresce
Para cima,
É com ele que 
Eu resisto,
Declinando-me
Em rima...

POR ISSO MANDEI
Podá-lo
Para se fortalecer.
Se o não tivesse feito
Ia mesmo esmorecer
E com ele também eu
Caía em negação...
................
Não são fáceis
Estes tempos,
Mas loureiro é canção!
Exp.LouRec

“Loureiro em Flor no meu Jardim Encantado”. Detalhe.

1 thought on “Poesia-Pintura

  1. A Prof.ra Maria Neve escreveu: “1. O poeta, Alberto Pimenta (AP), à pergunta do jornalista Bernardo Mendonça – “A Poesia serve para quê?” -, respondia no último PODCASTS do Expresso [1], que “a poesia serve sobretudo para quem a faz. (…) A poesia faz-se por compulsão. (…) Quem consegue fazer poesia deve ficar feliz”. Parece que estas afirmações se aplicam, na perfeição, à construção poética de João de Almeida Santos (JAS). Neste poema em análise, contruído à base de uma animização do loureiro do jardim do sujeito poético, há versos que atestam a afirmação de AP: “É ÁRVORE [Loureiro] DE POESIA,/É fonte d’inspiração,/Ajuda-me a renascer/Se vacila o coração”. Aliás, é o mesmo loureiro que interpela o próprio poeta: “FOI PARA ME RENOVAR,/Pra ganhar/Um novo alento?/Porque não páras/De olhar,/Acalmas o sofrimento?”. Esta sintonia entre o loureiro e o sujeito poético parece funcionar como eco e reciprocidade sentimental.
    2. “Mas para que serve a poesia para quem a lê?” – pergunta o mesmo jornalista do Expresso. Ao que Alberto Pimenta respondia, com proficiência e sensibilidade: “Algumas obras servem a iluminação da consciência (…) Nem a filosofia, que é muito abstrata, nem a teologia – que também tem outro tipo de abstração – conseguem dar o que a poesia dá, um modo de ver a Humanidade que não se encontra noutro lugar”. É esta a iluminada mensagem deste poeta, que os leitores, amantes de poesia, partilham e interiorizam. Assim, esperemos que o JAS continue a brindar os seus leitores com a beleza de versos como estes: “O LOUREIRO DO JARDIM/É planta seminal,/Viajo com ele/No tempo/Como se fosse imortal.” E não serão as criações artísticas – sejam quais forem as linguagens (poética, literária, pictórica, dramática,…) – imortais e os seus criadores – como versejava Camões – “Se vão da lei da morte libertando”[2]?
    (1) PODCASTS, “Expresso”, nº 2470, dia 29 de Fevereiro, p. 36.
    (2) Os Lusíadas, canto I, est.2 (1ª ed 1572).”

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