Poesia-Pintura

ETERNO RETORNO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Encontrei-te no Jardim”.
Original de minha autoria
para este poema. Maio de 2020.
JASFin0606PnJ_psd

“Encontrei-te no Jardim”. Jas. 05-2020.

POEMA – “ETERNO RETORNO”

SE TE VEJO
Estremeço,
Se não te vejo
Caio em
Melancolia,
Assalta-me
O desejo
De voar
Contigo...
...........
Nesse dia.

EU NÃO SEI
Como se muda
O mundo
Para te ter,
Então voo
Sobre ele
Ao sabor do vento
Pra que tu
Me possas ver.

É ESTRANHO, NÃO É?
Esta moinha
Que me consome
Porque não te vejo,
Não te ouço
E nem sequer
Te procuro
Porque sei
Que a via
Da minha arte
Me levará
A esse teu lado
Mais puro. 

É POR ISSO QUE
Só te espero
Na rua
Do desencontro,
No jardim
Da despedida
Que nunca parei
De regar
Com arte
E nostalgia,
Essa forma
De te amar
Cada noite
E cada dia.

É ACASO
Ou destino
Esperar-te numa
Esquina
Das tantas
Que a vida tem?
Foi dela
Que t'esgueiraste
Na densa
 Neblina
Desse teu
Quotidiano
De que ficaste
Refém.

SIM, É VERDADE,
Mas se te encontro
Nessa esquina
Que me leva
Ao jardim
Eu de novo
Estremeço,
Caio em mim,
Sinto um profundo
Torpor
E adormeço,
Pondo fim
A essa dor...

AH, MAS DEPOIS
É o céu,
Sim, o céu,
A sonhar-te
Em azul profundo
E o desejo
A cumprir-se
Nas ondas
Do nosso mar
Até que a aurora
Desponte
Para ser acometido
Por nova melancolia
E desejo
De voar...

JASFinPnJ_psdR

“Encontrei-te no Jardim”. Detalhe.

2 thoughts on “Poesia-Pintura

  1. Transcrevo aqui a análise comparativa entre este poema, “Eterno Retorno”, e o poema “Quase”, publicado aqui na semana passada, da Prof.ra Maria Neves, com o meu sentido agradecimento pela atenção e generosidade que vem dispensando à minha poesia:
    “Tentemos hoje ensaiar uma análise comparativa de dois textos poéticos de João de Almeida Santos (JAS). Ambos publicados neste e lindo e florido Maio de 2020: um, a 24 e, outro, a 31, intitulados respetivamente “Quase” e “Eterno Retorno”.
    A anteceder o poema “Quase”, o sujeito poético faz uma meta análise de um segmento textual do poeta Mário de Sá-Carneiro, amigo de Fernando Pessoa, pela similitude dos títulos. No poema hoje publicado, JAS opta por revisitar o conceito nietzschiano de Eterno Retorno, não fosse o autor doutorado em Filosofia. Mas a expressão “eterno retorno” afigura-se-me ser, por antonomásia, a metáfora da poética de JAS pelo movimento cíclico e iterativo de certas temáticas (solidão, desencontro, superação do sofrimento pela arte, a arte como recreação e recriação. …). É num território fortemente intelectualizado, com inúmeros intertextos, que JAS inscreve a sua poética. E digo poética, pois já estamos em presença de um estilo, de uma estilística que o poeta JAS soube criar e (re)criar. Um estilo que recupera marcas do imaginário e da discursividade do primeiro romantismo português oitocentista (exaltação sentimental, expressões coloquiais…) e marcas da imagética e de aspectos formais do modernismo – a liberdade rimática, rítmica e estrófica. Extractemos alguns versos que encantam o leitor seja pelo dualismo antitético (“SE TE VEJO/Estremeço,/Se não te vejo/Caio em Melancolia” – poema “Eterno Retorno”), seja pela antítese paradoxal (“ DISSE-TE UMA VEZ/Que o desejo/É quase tudo/E o que sobra/Quase nada” – Poesia “Quase”).
    Em ambos os poemas emergem as isotopias da ausência da musa inspiradora, da solidão e do desencontro amoroso. Curiosamente, há mesmo lexemas (por exemplo, “esquina”) que estão presentes em ambos os textos com a mesma simbologia e idêntica carga semântica (“ – AH, MAS ESPERO-TE/ Sempre/ À esquina/ Da rua/ Do desencontro/, No jardim/ Da despedida/ Que nunca parei/ De regar/ Com arte/ E nostalgia/ Essa forma/ De te amar / Cada noite / E cada dia” – poesia “Eterno Retorno”; “Quando dobraste/A esquina/Deste nosso/Desencontro,/Tão curto,/Mas impressivo…” – poesia “Quase”).
    É também a musa inspiradora que provoca no sujeito poético uma aura nostálgica e melancólica e, simultaneamente, o impulsiona para o ato criativo seja na vertente pictórica seja na vertente poética. Aliás, é o próprio JAS que, no ensaio “A arte, o artista e os outros”, onde convoca Marguerite Yourcenar – “et l’art étant la seule possession véritable, il s’agit moins de s’emparer d’un être que de le recréer” –, nos espelha, na perfeição, a descodificação do seu processo criativo: “procuro, pois, contar sempre uma história, mais do que desenhar fragmentos impressivos do que sinto no momento em que escrevo”, confundindo-os com palavras com poder performativo (*).
    (*) Santos, J. A. (2019). A arte, o artista e os outros. Diálogo com Fernando Pessoa e Marguerite Yourcenar, disponível em https://joaodealmeidasantos.com/2019/11/30/ensaio-7/, consultado em 27 de Maio de 2020″.

    • Obrigado, Professora Maria Neves. Gostei desta sua análise comparativa. E que tenha também convocado este meu ensaio sobre a Yourcenar e o Pessoa. Com eles tenho aprendido muito e alguma coisa do que aprendi ficou bem plasmada neste ensaio. São dois génios. E é claro que há pontos de contacto entre os dois poemas. Há recorrências constantes na minha poesia porque tem mesmo de ser. O título do poema alude a isso: eterno retorno. De mim para mim passando pelo mundo com o filtro do meu Jardim Encantado e tudo aquilo a que ele alude, flores, aromas, cor, deusas, arbustos… Este Jardim funciona como o meu intervalo, o lugar onde me coloco na relação entre mim e o mundo. Vejo o mundo e vejo-me a mim, a partir daqui. Vê como o Pessoa me ensina coisas muito interessantes! No fundo, esta minha caminhada artística tem-me ajudado a colocar-me no lugar certo, no ponto exacto de observação, o que não se tem revelado fácil. Às vezes tenho de me suspender para chegar a esse lugar geométrico e, a partir de lá, olhar para fora, que, às vezes, é muito mais um olhar para dentro de mim quando me relacionei intensamente com o mundo, procurando reter dele o que nele houve de belo. Um abraço e, uma vez mais, o meu obrigado 😔.

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