Artigo

A QUESTÃO DA HEGEMONIA

Por João de Almeida Santos

Jas.S:TítuloHegemonia

“S/Título”. Jas. 12-2020.

ESTA É UMA QUESTÃO que parece estar actualmente arredada da política activa. Parece, mas não está. Quando mais parecia que a ideologia tinha perdido direito de cidadania,  que tinha hibernado, quando muitos proclamavam o fim da dicotomia direita-esquerda e a política parecia estar a ficar cada vez mais reduzida à ideia de governança, de gestão asséptica do poder com vista à resolução dos problemas concretos das pessoas, eis que a ideologia e a questão da hegemonia entram em força na política, não já através dos clássicos veículos políticos, os partidos, mas sim através de movimentos políticos de novo tipo que, por um lado, procuram resgatar a política subtraindo-a ao espartilho do establishmente das partidocracias de diverso tipo, os populismos, e, por outro, reintroduzem mundividências identitárias com ambições hegemónicas, quer no plano cultural quer no plano especificamente linguístico, lugar onde se dá preferencialmente o combate ideológico e onde a apostasia pode ser mais visível e severamente castigada, para além mesmo das regras do Estado de Direito.

 UM DEBATE ANTIGO

AMBAS AS TENDÊNCIAS se opõem, de facto, à visão liberal que está na matriz da nossa civilização e que deu origem, num primeiro momento, ao sistema representativo e, depois, à democracia representativa, ou seja, à representação política, fundada no mandato não imperativo, e ao princípio “um homem, um voto”, com o sufrágio universal. Uma, porque é crítica da representação política tal como foi concebida pelos contratualistas liberais; outra, porque recusa o universalismo  em que se inspirava a visão liberal. Falo, evidentemente, do liberalismo original, daquele que do regime censitário evoluiria para a democracia representativa e que tem como sua expressão mais avançada e progressista o liberal-socialismo ou o chamado socialismo liberal (de Stuart Mil a Hobson, Hobhouse, Dewey,  Capitini, Rosselli, Gobetti, Calogero, Bobbio). Os populistas, por um lado, e os identitários, por outro, combatem em igual medida o universalismo de inspiração iluminista e naturalmente todos os institutos que nele se inspiraram a partir da revolução francesa. A crítica nem sequer é muito original. Basta revisitar a crítica marxista ao sistema representativo, mesmo naquelas extraordinárias argumentações do Marx da “Crítica da Filosofia Hegeliana do Direito Público” (Kritik des Hegelschen Staatsrechts) e da “Questão Hebraica “ (“Zur Judenfrage”). Ou então a polémica entre o comunista Paul Nizan (“Les Chiens de Garde”) e o liberal Julien Benda (“La Trahison des Clercs”). Ou, ainda, revisitar a crítica romântica ao iluminismo. São argumentações muito sérias e sofisticadas sobre as debilidades e os limites do sistema representativo, da democracia representativa e da visão iluminista do mundo.  Visões que tendem a repor um organicismo diferente daquele que foi definitivamente superado pela visão liberal da sociedade (nacionalismo orgânico ou visões corporativas e identitárias da recomposição societária), mas que não deixa de ser, de facto, organicismo. Das profissões ao ethnos, ao género. E a verdade é que foi esta visão universalista que triunfou e se constituiu como matriz da nossa civilização, tão magistralmente formulada nos dezassete princípios da “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, de 1789.

UMA NOVA HEGEMONIA

 O QUE ESTÁ A IMPOR-SE com grande força na sociedade actual é, de facto, uma tendência que ameaça tornar-se hegemónica, pondo em causa alguns dos mais importantes pilares da nossa civilização em nome da erradicação das diferenças sociais e dos valores da utopia igualitária, chegando até a considerar toda a evolução humana à luz de utopias que acabam por deitar sombrias nuvens sobre um passado que há muito já passou e até mesmo sobre passados que na sua época foram revolucionários, como, por exemplo, o primeiro liberalismo, em relação ao Ancien Régime, ainda que censitário. Esta tendência que se tem vindo a infiltrar com grande sucesso no uso institucional da linguagem e na agressividade manifesta de todas as visões fracturantes e identitárias representa uma séria tentativa de afirmação política por via da hegemonia, por canais diferentes dos canais tradicionais e em nome da utopia igualitária. Ela representa o domínio e o controlo público da linguagem socialmente tipificada, particularmente no que se refere às idiossincrasias identitárias e à afirmação de um asseptismo linguístico com sabor totalitário.

A INDIFERENÇA DO ESTABLISHMENT

MAS O QUE É MAIS CURIOSO é que os partidos do establishment parece não se darem conta deste processo, alinhando muitas vezes com os movimentos que o promovem. E porquê? Na minha opinião porque estão a ser vítimas de um crescente défice de cultura política, da redução da política à governança e do desconhecimento de que não pode haver política sólida e duradoura se não se preocuparem com a hegemonia (no sentido gramsciano), ou seja, com a afirmação pública de uma sólida visão do mundo capaz de mobilizar estrategicamente a cidadania, funcionando como sua cartografia cognitiva e axiológica. Um défice de gravitas no pensamento e na acção política, diria. É no cinzentismo político do establishment  ou mesmo na cumplicidade com eles que crescem os movimentos políticos populistas e os movimentos identitários iliberais que tudo reduzem a fracturas identitárias em nome de uma simulacral utopia igualitária, a construir já e in progress. O que nem sequer é muito original, porque esta visão apenas mudou na forma de enunciação, no tempo de execução e no contexto da sua afirmação, relativamente às velhas utopias. No meu modesto entendimento, este seu crescimento desmesurado e esta hegemonia deslizante que coloniza a linguagem que circula no espaço público estão a dar lugar à resposta populista de direita, sem que se veja um sobressalto político e intelectual das forças moderadas que nos vêm governando. Um exemplo? Olhemos para quem nos governa a partir dos ambientes alcatifados de Bruxelas e compreender-se-á imediatamente o que pretendo dizer. No meio de tudo disto encontramos, diariamente, um protagonista perturbador que também deveria ser objecto de uma séria reflexão, vista a sua importância e o seu poder sobre a cidadania. Falo, naturalmente, da outra face do establishment político, ou seja, do establishment mediático,seu gémeo, que em achas para a fogueira se tem revelado altamente pródigo. É isto mesmo. E é sobre isto que os partidos moderados amigos do progresso e da harmonia civilizacional se deverão debruçar, antes que seja tarde.

CONCLUSÃO

AS SOCIEDADES estão a mudar em profundidade, a ideologia está a regressar sob novas formas, a política tradicional vive uma crise de anemia, movimentos políticos de novo tipo surgem e ocupam o espaço público recorrendo a um novo tipo de populismo ou a mundividências fracturantes e identitárias com vocação hegemónica. Neste contexto, é incompreensível que partidos que se reivindicam do reformismo e da mudança continuem acomodados com práticas que há muito deixaram de corresponder à realidade emergente, descurando o imenso campo simbólico onde a competição política está a ocorrer com maior intensidade. Só assim se compreende que a luta pela hegemonia lhes esteja a passar ao lado. E o mais grave é que isto está a acontecer não só porque não fazem uma correcta leitura dos tempos que estamos a viver, mas também porque continuam embalados na velha política e no feitiço que tanto seduz os aprendizes de feiticeiro. Uma mistura mortal porque alia a ignorância ao deslumbramento.

Jas.S:TítuloHegemonia-cópia

“S/Título”. Detalhe.

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