Artigo

FALEMOS DE POLÍTICA

A propósito de um Artigo de Pedro Nuno Santos

Por João de Almeida Santos

PS_Artigo2021Final

“S/Título”. Jas. 02-2021.

LI COM ATENÇÃO O ARTIGO DE PEDRO NUNO SANTOS (PNS) sobre o PS e as presidenciais. E apreciei a frontalidade e o desprendimento com que, Ministro deste Governo do PS, foi directamente ao assunto: o PS errou ao não apresentar ou apoiar claramente um candidato da sua área política, demitindo-se destas eleições. E, sejamos claros, não foi, por isso, uma vitória do PS, como foi sugerido por Carlos César. Ao demitir-se, o PS permitiu que a extrema-direita engordasse eleitoralmente, mobilizando uma direita que se sentiu livre de votar de acordo com as suas idiossincrasias, sabendo que Marcelo Rebelo de Sousa não precisaria do seu voto para ser eleito. Pelo contrário, se as presidenciais tivessem decorrido em ambiente de polarização esquerda-direita esta direita sentir-se-ia obrigada a votar no seu candidato para derrotar o candidato da esquerda. E nisto PNS tem plena razão. Não teria, pois, a extrema-direita o score eleitoral que conseguiu e ter-se-ia evitado uma perigosa dinâmica política induzida pelos resultados eleitorais. Creio que a substância do artigo de PNS está centrada neste raciocínio.

PS – Esquerda ou Centro?

NÃO CREIO, todavia, que ressuscitar algo que teve uma enorme repercussão aquando da competição Guterres-Sampaio pela liderança do PS tenha algum sentido, ou seja, saber se o PS se deve dirigir à esquerda ou ao centro. Por uma simples razão: o PS é um partido de centro-esquerda. Ponto. Lembro-me bem daquela disputa, de resto, vencida por António Guterres, com Sampaio a propor uma identidade reforçada de esquerda que falasse ao centro, sim, mas com esse rosto de esquerda bem vincado. Como se a esquerda democrática tivesse um problema de identidade e de reconhecimento. Ainda por cima, hoje, com a inauguração, por António Costa, da famosa “geringonça”, que lhe permitiu, sendo minoritário, estar no governo quatro anos, rompendo uma espécie de “conventio ad excludendum” que excluía a esquerda mais radical de soluções de governo. Ou seja, um partido que, sem deixar de falar ao centro, conseguiu atrair a esquerda radical para uma solução socialista de governo, ou seja, para uma solução precisamente de centro-esquerda.  Não creio, pois, que a questão seja esta, já que foi superada pelo pragmatismo corajoso (ou de pura sobrevivência) de António Costa.

A questão é mais funda do que o geometrismo político, embora a distinção esquerda-direita continue a ser politicamente pregnante, ainda que estejamos hoje perante um cidadão de múltiplas e diferenciadas pertenças, não tão enfeudado ao clássico e partidário “sentimento de pertença” e mais aberto à dinâmica da informação. A identidade do cidadão sendo hoje mais complexa, flexível e móvel do que era torna menos pregnante esta distinção. Na verdade, há quem politicamente seja de direita e civilizacionalmente de esquerda, sendo certo que o contrário também se verifica.

A questão, antes de mais, tem a ver com a própria ideia de política: assumi-la em todas as suas verdadeiras dimensões ou procurar expulsá-la o mais possível do discurso e da acção, em nome do pragmatismo, do valor impolítico da independência, da gestão tecnocrática ou científica do poder ou mesmo do valor poder, como imperativo absoluto e exclusivo. Ou seja, a verdadeira questão é mesmo a que reside na concepção de política: devolver a política à cidadania, devolver a voz ao povo em vez de a subtrair à esfera da deliberação e de a concentrar na esfera da decisão própria dos titulares do poder formal, seja ele qual for. Eu creio que a posição de PNS no fundo reside nisto mesmo – ir a jogo, devolvendo a política à cidadania e à deliberação, mesmo que seja para perder, porque o jogo é a alma da democracia. Não ir a jogo por questões de oportunidade, seja por razões de (boa) vizinhança futura seja por se prever uma eventual derrota significa expulsar a política do interior do partido, significa não dar vazão (política) aos que se reconhecem nos valores do socialismo democrático, significa promover a apatia política e, sobretudo, significa deixar a política a outros que não aos que se reconhecem na esfera político-ideal em que se move o PS. E foi isto mesmo que aconteceu: o que estava em jogo já não era a presidência, mas o valor eleitoral e de agenda de outras propostas que não as do PS. O centro do debate e o topo da agenda foi o de saber quem ocuparia o segundo lugar: se uma militante do PS não apoiada pelo próprio Partido se um líder de extrema-direita com o objectivo de crescer partidariamente. Em boa verdade, o valor destas eleições foi desvirtuado por razões meramente instrumentais. E a política regressou, mas para um espaço onde o PS não estava. Os votos úteis concentraram-se nestes dois candidatos em função do verdadeiro objectivo a atingir: o segundo lugar nas eleições presidenciais.

Por isso, o que eu valorizo no artigo de PNS é precisamente o ter chamado a atenção para esta falta de comparência do PS por razões de oportunidade, que, afinal, acabariam por libertar a direita mais radical para um voto fundado exclusivamente na ética da convicção, sabendo que o seu candidato presidencial não necessitaria do seu voto.

A Esquerda e a Política

A ESQUERDA sempre se caracterizou por valorizar a política mais do que a direita. Por subtrair a exclusividade da política às elites liberais, promovendo o acesso a quem sempre tinha estado fora da dialéctica política. E, nesse sentido, por ver a política como algo mais do que um meio para o exercício do poder puro e duro. Ou a política como um valor em si. Tal como a democracia. E sempre que a desvalorizou – o que tem acontecido muito nestes últimos tempos – pagou um preço muito caro, tornando-se ou igual à direita ou vendo desertar o seu eleitorado para outras zonas de influência política. Desvalorizá-la, de resto, significa afastar-se do seu referente social, perder identidade, não identificar uma função estrutural que justifique a sua própria existência e, pior do que tudo isto, significa deixar o campo a outros, se é verdade que a política tem horror ao vazio, como se diz na gíria. E foi o que nestas eleições aconteceu. O PS deixou que a agenda política fosse ocupada por outras forças políticas, designadamente à extrema-direita.

O que se está a passar por essa Europa fora em matéria de socialismo democrático ou de social-democracia deveria pôr de alerta os responsáveis do PS. Sobretudo porque é na desmobilização dos seus militantes, simpatizantes e eleitores que se cava o fosso que leva à crise de representação. Neste caso, à crise do seu campo de representação. É por isso que eu valorizo a posição de PNS – porque ela evidencia a necessidade de ir a combate sempre que estão em causa assuntos importantes da nossa vida colectiva. Não só pelos assuntos, que são importantes, mas também porque é na mobilização da cidadania que se cria oportunidades de progresso e de avanço político e civilizacional.

PS_Artigo2021FinalRec

“S/Título”. Detalhe.

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