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O GRILO CANTA SEMPRE AO PÔR-DO-SOL?

Reflexões sobre a política em Itália

Por João de Almeida Santos

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“La Fontana”. Jas. 07-2021

É O TÍTULO (mas sem ponto de interrogação) de um interessante livro-diálogo de Beppe Grillo, Gianroberto Casaleggio e Dario Fo (Milano, Chiarelettere, 2013). Muito aconteceu entre 2013 e 2021. Dario Fo e Gianroberto Casaleggio já não estão entre nós. Casaleggio e o irrequieto Nobel da Literatura partiram ambos em 2016. Beppe Grillo mantém-se activo e, com Giuseppe Conte, acabam de dar início a uma nova era na vida do Movimento5Stelle (M5S) com a convocação de uma Assembleia de inscritos para os dias 2 e 3 de Agosto para a aprovação de um novo Estatuto do M5S. Uma mudança, como veremos, de fundo.

ANTECEDENTES

O M5S é ainda a força política maioritária em Itália, com os seus 32,7% de votos nas eleições de 2018. Governou Itália, primeiro, com a Lega, de Matteo Salvini, e, depois, com o Partito Democratico (PD), até à recente chegada de Mario Draghi e um governo apoiado por todos os partidos, excepto por Fratelli d’Italia (FdI), de Giorgia Meloni. Mas a verdade é que, a crer nas sondagens, o M5S há muito que caiu para menos de metade do seu score eleitoral, perante o crescimento da Lega e de FdI, os dois partidos que estão à frente nas sondagens, com cerca de 20% cada um deles. Dois partidos de extrema-direita. O PD mantém-se em cerca de 19%, enquanto Forza Italia (FI) se situa em cerca de 7%.

As próximas eleições realizar-se-ão, se não forem antecipadas, em 2023 (a legislatura é de cinco anos). E, a manter-se o actual panorama, a extrema-direita poderá vir a governar com maioria absoluta. Entretanto, a mudança de liderança do PD parece não ter produzido uma significativa alteração e o M5S tem vindo a cair drasticamente nas sondagens. A última sondagem vem confirmar a tendência, verificando-se que FdI tem vindo a beneficiar do estatuto de única oposição ao governo de Draghi, chegando à posição de força política dominante (A Euromedia, 15.07.2021, dá os seguintes resultados: FdI, 20,5%; Lega, 20,3%; PD, 19,3%; M5S, 14,3%; FI, 7,5).

No início do próximo ano, terá lugar a eleição do Presidente da República sendo provável que Mario Draghi seja o candidato mais forte, dando lugar, a sua eleição, à queda do governo e provavelmente a eleições antecipadas.

O M5S

É neste contexto que se dá a mudança no Movimento5Stelle. É certo que já por ocasião da formação do governo Draghi se verificou uma grave divisão interna entre os que apoiavam Draghi e os que o não apoiavam. É também certo que a linha afecta a Davide Casaleggio e à Plataforma Rousseau se vinha distanciando da linha oficial. Até por problemas relativos à própria gestão da Plataforma. Por outro lado, a consistência política revelada por Giuseppe Conte enquanto Presidente do Conselho de Ministros posicionava-o cada vez mais como uma boa solução para uma liderança de sucesso do M5S e para a necessária recuperação eleitoral. E foi isso que aconteceu, depois de alguma turbulência e de desentendimentos entre Grillo e Conte. Beppe Grillo, “Il Garante”, a figura tutelar do M5S, e Giuseppe Conte, coadjuvados por uma equipa de notáveis do Movimento, entenderam-se e acabam de propor uma consistente alteração nos Estatutos do Movimento.

Além de enunciarem os cinco princípios nucleares do Movimento, correspondentes às cinco estrelas – Inovação Tecnológica, Bens Comuns, Ecologia Integral, Economia Eco-social de Mercado, Justiça Social -, os Estatutos consagram um modelo claramente presidencialista, centrado na figura e nos poderes do Presidente, e retiram a Plataforma Rousseau dos Estatutos (ela, antes, aparecia referida nos art.s 1 e 4), dando forma ao que já aconteceu de facto.  E, na verdade, a nova Plataforma onde se processará a votação dos novos Estatutos já não será a Plataforma Rousseau, mas sim a Plataforma Skyvote. Estes são quanto a mim os aspectos mais relevantes a evidenciar nos novos estatutos – a consagração de um modelo presidencialista (reforçado pela figura tutelar do Garante), a anulação estatutária da Plataforma Rousseau, símbolo da democracia directa on line -, mas também a introdução dos chamados “Grupos Territoriais”, que darão uma dimensão orgânica ao Movimento, não prevista pelos anteriores estatutos, e que de algum modo pode complementar organicamente a dimensão puramente digital. Uma evolução, esta, que se aproxima da estrutura partidária: uma liderança forte e um corpo orgânico, ficando a organização digital reduzida a mero instrumento de voto,  de consulta e de comunicação, ou seja, perdendo aquela sua característica de democracia directa digital que lhe era conferida pela Plataforma Rousseau (logo no próprio nome), mesmo se o Presidente do Comité de Garantia Vito Crimi continua a falar de democracia directa digital. Na verdade, a nova plataforma Skyvote é um mero instrumento técnico dos órgãos sociais do M5S que terá o seu baptismo hoje, 21 de Julho, na eleição do candidato a Presidente da Câmara de Turim.

Não são previsíveis os efeitos destas mudanças, mas é provável que a liderança de Conte possa melhorar a performance do M5S e o consenso em torno desta força política. Por outro lado, o PD não tem vindo a subir nem a descer, mantendo-se há muito na casa média dos 19%. De certo modo, M5S e PD poderão representar um bloco de centro-esquerda consistente, mas ainda insuficiente para governar, perante uma direita radical aguerrida que parece recolher um consenso superior, e à qual ainda se junta Forza Italia, com os seus cerca de 7%.

E AGORA?

O M5S em menos de dez anos tornou-se a maior força política de Itália, tendo assumido a liderança de dois governos de Itália, entre 2018 e 2021. Mas a verdade é que em pouco tempo teve uma queda vertiginosa nos consensos, sendo agora difícil recuperar uma parte consistente do que perdeu, mesmo com uma alteração profunda, já em curso. O apoio ao governo Draghi é uma amarra que dificultará uma sua afirmação politica, o mesmo valendo para o PD. O exercício de oposição tem dado a Giorgia Meloni boas oportunidades de crescimento, sendo neste momento, segundo a última sondagem conhecida, a maior força política de Itália. Nunca os herdeiros legítimos de Mussolini tinham logrado alcançar uma tal consistência eleitoral. Se considerarmos a Lega, FdI e Forza Italia, estaremos perante um bloco político de direita com cerca de 48%.

Ao que parece, a direita encontrou o seu caminho de afirmação política, com novas formas de populismo e com a assunção frontal de questões que a política de centro e de esquerda não conseguem assumir ou enfrentar com coragem, diluindo a acção política em tacticismos, em puro marketing e numa linguagem politicamente correcta que, no fundo, traduzem uma profunda crise de identidade política e ideal. A tentação poderia ser a recuperação das grandes narrativas ideológicas e a recuperação da organicidade das formações políticas, mas o que está a acontecer é algo mais profundo. No meu entendimento, o que se está a verificar é um desajuste profundo entre a política convencional e uma cidadania de novo tipo, dotada de instrumentos de informação e de intervenção e de uma mobilidade que antes nunca existiu, não bastando, pois, às forças políticas convencionais os velhos instrumentos de persuasão, sejam eles de natureza orgânica sejam de natureza comunicacional (as plataformas de comunicação tradicionais). As políticas concretas contam muito, mas também aí não se vê ruptura que convença os eleitores. Bem pelo contrário, o que se vê cada vez mais é um mau uso do poder e um relacionamento promiscuo e sem critérios com os poderes económicos. Nem narrativa nem policies consistentes.

CONCLUINDO...

Não creio que esta mudança do M5S venha resolver o problema e impedir que a extrema-direita chegue confortavelmente ao poder. Os consensos perdidos por Salvini desde que deixou o governo não foram capitalizados pelo centro-esquerda, mas sim pela extrema-direita mais radical, levando FdI a passar, em três anos, dos 4/5% para quase 21%. Ou seja, a extrema-direita parece estar a interpretar a política melhor do que o centro-esquerda. Na verdade, o essencial reside em saber interpretar as expectativas da cidadania, focá-las e dar-lhes repostas. As respostas da extrema-direita são diferentes, naturalmente, mas o que deve ser interpretado é o que a generalidade dos cidadãos sente. Olhando para o que se passa nos países europeus o que se constata é que a retórica dos valores se tem revelado insuficiente perante a crueza e a dureza dos fenómenos sociais que ameaçam ou atropelam as sociedades europeias. O que o cidadão pressente é que, por detrás dessa retórica, na verdade o que há é não só um real vazio de valores, mas também um exercício do poder sem balizas morais e casuístico, um tacticismo que gasta o efectivo exercício do poder com o único objectivo de o conservar. Na verdade, o centro-esquerda o que deve é trazer alma à política. Trazer a política de volta. É naturalmente um exercício mais difícil, delicado e trabalhoso do que o de identificar os problemas e propor a sua resolução pela via autoritária, como faz a extrema-direita, mas é essa a missão do centro-esquerda. O que exige também protagonistas à altura do desafio, que seguramente não estão aí ao virar de uma esquina partidária. Sim, mas este é o desafio.

Seria bom que Itália não tivesse de passar por um tempo de governação de extrema-direita para se aperceber que não é essa a solução. E, todavia, a esquerda não tem sabido antecipar os tempos para recolher consensos que lhe permitam evitar a catástrofe política. Sim, é verdade. Querem um exemplo? Matteo Renzi, o desastrado percurso de uma infeliz existência política. O seu caso diz tudo sobre um certo centro-esquerda que tem governado Itália. E mais não digo, na esperança de que se forme um sólido bloco de centro-esquerda capaz de travar a resistível ascensão da extrema-direita ao poder em Itália. #Jas@07-2021.

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