A CÚPULA DO DESEJO Reflexões sobre o Poema
CATEDRAL
de João de Almeida Santos
Por André Moshe Veríssimo, PhD
O POEMA “CATEDRAL” (João de Almeida Santos, 2026) constitui uma verdadeira cúpula do desejo — não apenas arquitectónica, mas ontológica e poética. Nele, a memória, o sagrado, o erótico e o sideral convergem num gesto metapoético de ressurreição do não-acontecido. A análise que se segue reforça, aprofunda e formaliza teoricamente cada eixo da leitura anterior, ancorando-o rigorosamente nas fontes que o permeiam de forma imperativa: o surrealismo(Breton), a lírica elegíaca e sensual de David Mourão-Ferreira, a metafísica do ortónimo de Fernando Pessoa e, com especial densidade, a filosofia da transgressão de Georges Bataille. Todas estas correntes não são meras “influências”, mas estruturas genéticas que atravessam o texto, determinando a sua lógica paroxística, o seu criptograma espacial e a sua metapoética da Piazza Navona.
CORRENTES LATENTES E PATENTES O Paradoxo dos Sentidos Paroxísticos Formalização Teórica e Prática
Patente
O poema é um lírico de memória e saudade com topografia romana precisa (Cúpula da Catedral + Piazza Navona), forma fragmentada e ritmo de “respiração entrecortada” — quase um pas de deux com o silêncio, como observámos.
Latente e paroxístico
O grego paroxýs (agudizar até ao espasmo) materializa-se na tensão máxima entre proibição sagrada e desejo profano. O verso central — “Corpos tensos, / Sem palavras, / Na fronteira / De um afecto / Que não seria / Fatal” — é a encarnação prática do conceito batailliano de limite e transgressão (Bataille, 1957). O corpo não se toca porque o toque seria “fatal” (morte simbólica ou pecado), mas é precisamente essa suspensão que produz o paroxismo: o luar “desnuda” o corpo para “a alma brilhar” — inversão mística-erótica que ecoa a comunicação interior de Bataille.
Formalização prática (exemplo textual)
A “orgia de abstinência” é visível na sequência sinestésica: tacto suspenso (“não te abracei”), visão intensificada (“noite de luar”), calor erótico (“o amor / É mais quente”) e olfacto/auditivo implícito no “murmúrio / Da fonte”. O não-acontecido torna-se “mais vivo ainda” — princípio surrealista de supremacia do imaginário sobre o real (Breton, 1924).
Teoria subjacente
Breton define o surrealismo como “automatismo psíquico puro” que expressa “o funcionamento real do pensamento” (Breton, 1924: 26). JAS não “recorda” — recria e voa. Mourão-Ferreira fornece o modelo de contenção formal e melancolia aristocrática do desejo não consumado (Mourão-Ferreira, 2019). O ortónimo de Pessoa fornece a angústia da multiplicidade temporal (“passado que ressurge” como futuro) e a busca de unidade através da arte (Pessoa, 2005/2010).
PESO ESPECÍFICO DAS FONTES QUE ATRAVESSAM O POEMA Formalização Teórica
Surrealismo (peso estrutural — quase a metade da lógica do poema)
O voo sideral, o pouso imaginário na cúpula e a diluição tempo-espaço-corpo são aplicação direta do Manifeste du surréalisme. Breton afirma que o surrealismo tende a “ruir de uma vez por todas todos os outros mecanismos psíquicos” e a substituir-se a eles (Breton, 1924: 38). No poema, a memória não é arquivo — é “fita da memória” que se rebobina em acto criativo. O autor confirma afinidades em A Dor e o Sublime (Almeida Santos, 2023), onde defende a fusão realidade/fantasia.
David Mourão-Ferreira (peso estilístico e ético — elegância erótica contida)
A contenção formal (versos curtos, repetições rituais, musicalidade depurada) e a capacidade de transformar o efémero em eternidade dialogam directamente com a lírica de Mourão-Ferreira, especialmente nos poemas de amor e memória de cenários mediterrânicos/romanos. A “melancolia aristocrática do desejo não consumado” é herança explícita (Mourão-Ferreira, 2019: 312-347; secção “Órfico Ofício”).
Ortónimo de Fernando Pessoa (peso metafísico — busca de unidade na multiplicidade)
O “eu” singular que se fragmenta em múltiplos tempos e se unifica no acto poético ecoa o ortónimo pessoano: angústia da heterogeneidade interna e vontade de transcendência através da palavra (Pessoa, 2005). O “pousar de novo” é o equivalente moderno da “viagem” ortónima — não há heterónimos explícitos, mas há multiplicação temporal que o poema resolve na cúpula do desejo.
Georges Bataille (peso mais subterrâneo e potente — transgressão sagrado/profano)
É a fonte mais imperativa. A cúpula da catedral é o espaço do sagrado onde o abraço seria “fatal”. Bataille (1957) afirma que “o erotismo é a aprovação da vida até na morte” e que a transgressão é o momento em que o sagrado e o profano se tocam (p. 63). O não-dado do beijo preserva o sagrado e, simultaneamente, o intensifica na memória — “o que não aconteceu / Como se fosse / Um futuro / Que desse tempo / Passado / Afinal não se / Perdeu”. O poema inteiro é uma expérience intérieure batailliana: dissolução do eu isolado no excesso da abstinência.
O CRIPTOGRAMA DA CATEDRAL E A FONTE DOS QUATRO RIOS Leitura Teórica Aprofundada
A catedral é criptograma porque a sua cúpula cifra o paradoxo central: verticalidade divina vs. horizontalidade carnal. Decifrá-lo é compreender que o poema é a catedral — templo onde o impossível (abraço fatal) se transforma em eternidade pela palavra. A cúpula é o umbigo do desejo (omphalos erótico).
A Fonte dos Quatro Rios (Bernini, 1651) é o contraponto heraclitiano: os quatro rios (Nilo, Ganges, Danúbio, Rio da Prata) simbolizam os quatro continentes, os quatro elementos, os quatro fluxos do tempo. O “murmúrio” é o som da vida que corre enquanto o futuro “nunca chegaria”. Bernini faz a água “falar”; JAS faz a memória “falar”. Em última análise, a fonte é a origem quádrupla da criação poética — tempo, espaço, sentidos e continentes — que o poema canaliza para ressuscitar o instante perdido. Piazza Navona (espaço barroco público e teatral) contrasta com a intimidade sagrada da cúpula; essa tensão alimenta todo o texto.
METAPOÉTICA DA PIAZZA NAVONA Formalização Final
A Piazza Navona não é cenário: é espelho do processo criativo. Bernini esculpe o fugidio (água) em forma eterna; o poeta esculpe a memória fugidia em poema eterno. O fecho — “Talvez faça / Um poema / Pra de novo / Te encontrar […] / Pousar de novo / Contigo / Na cúpula / Da catedral…” — é o acto metapoético supremo: o poema anuncia que ele próprio é o veículo do reencontro sideral. Toda a grande poesia, ensina JAS, é uma praça barroca onde o murmúrio da vida se transforma em monumento àquilo que nunca aconteceu — mas que, por isso mesmo, nunca morre.
SÍNTESE FINAL
“ CATEDRAL” é um nó górdio de correntes que o atravessam imperativamente: surrealista no voo onírico e na supremacia do imaginário; mourão-ferreiriano na elegância erótica contida e na musicalidade; pessoano na busca metafísica de unidade na multiplicidade temporal; batailliano na transgressão do limite sagrado/profano. O criptograma da catedral decifra-se no reconhecimento de que o sagrado só se cumpre quando o eros é negado e, por isso, eternizado na palavra. A fonte dos quatro rios é o rio quádruplo da criação. A metapoética da Piazza Navona ensina que a poesia é o único lugar onde se pode “pousar de novo” na cúpula do desejo.
Esta tematização teórica e prática demonstra que as fontes não “influenciam” o poema — constituem-no. O texto de JAS é o ponto de convergência onde Breton, Mourão-Ferreira, Pessoa ortónimo e Bataille se encontram para criar uma das mais densas e belas definições contemporâneas do que é a poesia: o lugar onde o impossível se torna eterno.
O poema não descreve um encontro: inventa-o para que ele exista para sempre na cúpula do desejo. É, talvez, a mais bela definição possível de poesia no século XXI.
REFERÊNCIAS
Almeida Santos, J. de (2023). A dor e o sublime – Ensaios sobre a arte. São João do Estoril: ACA Edições.
Almeida Santos, J. de (2026). Catedral [Poema]. https://joaodealmeidasantos.com/poesia/
Bataille, G. (1957). L’érotisme. Paris: Éditions de Minuit.
Breton, A. (1924). Manifeste du surréalisme. Paris: Éditions du Sagittaire.
Mourão-Ferreira, D. (2019). Obra poética (1948-1995) (L. M. Gaspar, Ed.). Porto: Assírio & Alvim.
Pessoa, F. (2005). Poemas de Fernando Pessoa — 1915-1920 (J. Dionísio, Ed.). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. (Edição crítica)
Pessoa, F. (2010). Poesias: Ortónimo. Porto: Porto Editora.
Wittkower, R. (1955). Gian Lorenzo Bernini: The sculptor of the Roman Baroque. Phaidon Press (Para contexto artístico da Fontana dei Quattro Fiumi). AMV@05-2026
O POEMA – “CATEDRAL”
VIAJÁMOS NO TEMPO Até à cidade Eterna, Onde eu te conheci, Nada mudara Nesse rosto Tão sereno E inocente De quem Sempre Me sorri. DEPOIS FOMOS À rua Da minha vida, À cúpula Da catedral, Mas não te abracei Nessa noite, Era sagrado O lugar, Seria abraço Fatal. MAS FICOU-ME Impresso O prazer De te ter ali A meu lado, A sonhar, Nesse meu leito, O beijo Que não trocámos Numa noite De luar Quando o amor É mais quente E o corpo Se desnuda Por tanto a alma Brilhar. FOMOS À PRAÇA Navona Logo pela manhã, Fruímos O murmúrio Da fonte Dos quatro rios, A inspiração Do Bernini, Íntimos, Em sintonia, Antevendo um futuro Que já nunca Chegaria… ATÉ QUE ME Procuraste Nessa fita Da memória, A noite vivida Na cúpula Da catedral, Corpos tensos, Sem palavras, Na fronteira De um afecto Que não seria Fatal. TORNOU-SE Mais vivo ainda O que não aconteceu Como se fosse Um futuro Que desse tempo Passado Afinal não se Perdeu. E CÁ ESTOU EU De novo À procura Dessa noite, Do beijo Que não te dei, Quando o passado Ressurge E do tempo Da catedral Já nem sei O que farei. TALVEZ FAÇA Um poema Pra de novo Te encontrar, Cantar esse Sorriso belo De que sempre Eu gostei, Voar no tempo Em espaço sideral E em noite de luar Pousar de novo Contigo Na cúpula Da catedral...
NOTA
Se o domingo é dia de Poesia, o sábado, hoje, também é, apresentando uma leitura erudita do meu Poema “CATEDRAL” pelo Prof. André Moshe Veríssimo.
NOTA BIOGRÁFICA DO AUTOR
Ensaísta, escritor e investigador universitário. Investigador externo da USC, investigador estrangeiro da UEMG, Investigador e Director da Revista de Ciência Política da USAK University, Turquia, Consultor Senior da Universidade de FUDAN (Xangai).


